Ray Dias
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Esta história não possui capas prévias (:

Sem curiosidades para essa história no momento!

Resposta

Bem mais que o tempo que nós perdemos, ficou pra trás também o que nos juntou…

  1993.

  Samuel estava parado ao semáforo aguardando para arrancar com o carro até a próxima esquina, onde seus amigos já aguardavam no portão da casa de Lelo.
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  Os jovens de vinte anos, formavam uma banda no início de carreira, e estavam a caminho de mais um ensaio na garagem da casa de Samuca. Henrique Portugal era o guitarrista, Haroldo Ferreti, o batera, Lelo Zaneti no baixo, e Samuel Rosa, guitarra e vocal. Juntos, os quatro formavam a banda Skank mineira, há dois anos. E tinham futuro! O rock balada romântica dos meninos, faziam-nos serem populares nós barzinhos de BH, assim também como por sua simpatia. Tinham um quê de Beatles na sua formação, aquela aura de banda inteligente e alternativa, dentro do rótulo rock’n roll.
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  Na esquina da casa de Lelo, havia um cruzamento e uma faixa de pedestre onde Samuca estava estacionado a aguardar. Eles chamaram o amigo que riu e apontou ao sinal, mostrando que não ia furar. Os três ficaram de papo na calçada aguardando, e Samuel observou a faixa. Uma moça tímida apareceu à beira da faixa, aguardando o sinal dos pedestres também, segurava seus cadernos colados ao corpo como se fossem muito preciosos. Olhava para baixo, e fugia encarar ao rapaz que surgiu do outro lado da rua. Mas, Samuel estava reconhecendo aquelas pessoas. Já havia visto o rapaz num barzinho que tocou, trabalhando de barman, e a garota… não sabia de onde, mas ela não era estranha…
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  Enquanto tentava se recordar a origem do rosto angelical da mulher, Samuca observou que ela encarava furtiva e tímida, de um jeito fofo, o rapaz que esperava o sinal abrir, do outro lado da rua. Boa pinta ele, Samuel notou. Logo atrás do homem, duas mulheres bem bonitas e desenvoltas surgiram e trocaram olhares entre si, sobre o rapaz, Samuca olhou para moça tímida notando ela ficar sem graça. Parecia se comparar as outras, então o sinal abriu. As moças que observavam o rapaz em sua frente o alcançaram na faixa e puxaram assunto, mas foi naquele momento, que olhando os próprios pés, nervosamente, a tímida garota de rosto angelical, esbarrou no rapaz derrubando os próprios cadernos. Ela se abaixou nervosa para pegar as folhas e rascunhos, ele acompanhou e notou-a. Samuel sorriu, havia testemunhado o momento em que o cara se deu conta da beleza sutil da garota, e nem percebeu as outras duas indo embora.
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  Lelo, Haroldo e Henrique chegaram de repente, tirando Samuel de seu transe como telespectador daquela cena, quando Lelo notou o que ele observava.
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  — O que aconteceu ali!? – perguntou o amigo ao ver Samuel atento às duas pessoas atravessando a rua, um para cada lado.
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  — Nada. Ele teve a chance de pegar o telefone dela, mas não fez… – Samuel disse, quase tão triste quanto a garota que saía apressada.
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  Deu partida enquanto os três rapazes falavam ao mesmo tempo num diálogo que estavam tendo antes.
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ו•••••×

  Os quatro amigos entraram no bar com seus instrumentos, em altas risadas. Já fazia um mês e meio que não tocavam no bar do Véio, e era um dos lugares que mais ficavam à vontade para tocar. Samuel entrou indo em direção ao palco, enquanto Henrique cumprimentava seu contratante e dono do bar. O movimento era baixo, mas não demoraria a encher, então queriam estar prontos para começar logo. Na mesa lateral ao palco, escondidinha, a garota escrevia em seus papéis soltos e amarelados, o garçom trouxe a bebida que ela pediu e a água para os músicos. Foi então que Samuca a viu. Estava vestida com uma saia de courim, uma blusa florida ombro a ombro, de mangas compridas, botas até metade da canela, e o cabelo solto, jogado de lado. Nas orelhas brincos coloridos em formato de gota, pequenos, o rosto com nenhuma ou pouca maquiagem, e um vinco na testa que mostrava o quão concentrada ela estava. Samuel olhou para as mãos dela que não paravam de escrever e já ia se aproximar, de impetuosa curiosidade, quando Lelo o chamou para iniciarem.
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  Naquela noite, Lis percebeu como poucas vezes a banda cover do bar, e se perdeu nas músicas cantadas por eles que mal viu que havia largado seu texto. Ninguém entendia como Lis conseguia escrever no meio de tanto tumulto, mas era ali, na mesinha de uma pessoa só, que ela conseguia – seja à noite, bebendo cerveja, ou pela tarde, bebendo café – escrever seus poemas e romances. Já fazia aquilo há dois anos no mesmo lugar, começou a escrever com dezoito, e agora aos vinte sentia que não poderia mais parar com aquilo. O vocalista tinha uma voz doce e gostosa de ouvir, Lis queria ficar até o final, mas não podia, no dia seguinte teria estágio na escola, e precisaria levantar cedo. Juntou suas coisas sobre a mesa, pendurou a bolsa carteiro atravessada ao corpo e acenou para Douglas, o garçom amigo.
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  Samuel estava cantando e nem viu quando a mocinha saiu pela tangente, mas percebeu quando ela cruzou a porta do estabelecimento, deixando só a visão de seus cabelos brilhantes, e seu olhar fixo em papéis, na memória do jovem cantor.
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  — E aí, Doug! – Samuel cumprimentou o garçom quando fizeram uma pausa do show.
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  — Fala Samuca! Bom ouvir vocês tocando aqui de novo!
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  — Poxa, obrigado! A gente fica muito feliz que vocês curtam nosso som! – sorriu sem graça.
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  — Quem não curte! Tinha gente perguntando de vocês já, os clientes sempre consomem mais quando vocês tocam! O Véio adora! Mas fala aí, vai querer algo? – o rapaz falou se apressando pro balcão, com Samuca seguindo ele.
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  — Aquela moça sentada na mesa ao lado do palco. Quem era, você sabe!?
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  Douglas olhou para a direção que Samuca apontou e pensou, ao constatar de quem ele falava, sorriu.
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  — Ah! A Lis! Ela está sempre por aqui escrevendo! Mas, o que tem ela?
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  — Sempre, em que dias? – Samuel perguntou sorrindo largo e curioso.
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  — Pô Samuca, não acho que você seja de bagunçar, mas… A Lis é tópico sensível pra mim… – Doug falou envergonhado.
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  — Pô cara, foi mal… Vocês tem algo?
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  — Não, não! Não é isso… – ele riu — Mas ela é como uma irmã mais nova para mim, então eu não conto nada dela para os caras que ficam atrás de mim por isso…
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  Samuel olhou nos olhos de Douglas de forma confusa, e foi sincero:
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  — Eu só quero conhecer ela. Outro dia ela estava na frente do sinal da casa do Lelo, e eu a vi, não achei que fosse esbarrar nela enquanto preparava o som… – Samuel soou sincero.
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  — Volta aí, amanhã. Ela deve aparecer pra curtir a sexta sem pressa de voltar.
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  Douglas entregou e Samuca sorriu grato.
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  Samuel voltou no dia seguinte,  não como cantor e nem acompanhado. Voltou como um cliente do bar ávido para encontrar com Lis. E ela surgiu, novamente como um ritual sentou em sua mesa de cantinho escondida, pediu sua bebida, aperitivos e se pôs a escrever. Samuel se aproximou dela, um pouco deslocado ao que diria, mas inventou uma desculpa em um “Oi, você também curte escrever?” que no final deu certo.
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  Ele voltou em dias variados, alternados e sempre ao encontro dela. Mas quando ia tocar, não se falavam. Até que um dia, ele foi apresentar os amigos à Lis, e o Lelo de cara a reconheceu.
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  — Cara, a Lis passa todo dia na frente lá de casa!
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  — E eu não acredito que vocês são amigos! – ela respondeu incrédula.
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  Samuca, Henrique e Haroldo estavam sem entender bem.
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  — A Lis é aquela garota! – Lelo fomentou para os amigos se lembrarem — A garota do curso de piano!
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  E então um estalo lhes tomou. Os amigos lembraram. Há muito tempo, quando Lelo estava metido num curso de piano da escola de música perto da casa dele, havia conhecido uma adolescente tímida e segundo ele “uma gracinha”, que logo se tornou a namoradinha de curso dele. Descobriu que eram vizinhos e ficavam de namorico na aula, mas nunca passaram muito dos flertes na escola, e tampouco tinham uma relação de muita amizade, depois que Lis falou para ele que não iria namorar de verdade. No fim, foi um caso de verão adolescente.  Samuca estava um pouco frustrado, e não deu muita ideia para conversas aquela noite, mas Lis notou que houvera uma mudança nas reações dele. Mudanças que duraram pouco, porque os dias se passaram e os dois continuaram se vendo e conversando normalmente no bar vez ou outra.
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Ainda lembro que eu estava lendo, só para saber o que você achou dos versos que eu fiz, e ainda espero resposta…

  Dez meses de amizade entre Samuca e Lis e ele havia se apaixonado. Mas Lis ainda estava focada em seu trabalho de escritora, revisora, musicista e era apaixonada por um bobalhão da faculdade.  Inegável que Samuel frequentava a garagem de Lelo mais vezes do que aquelas direcionadas aos ensaios da banda, ensaios que eram alternados entre a casa de Samuca e de Lelo, mas passaram a ser mais frequentes na garagem do último. Haroldo já não aguentava mais o enrolar do amigo, e juntou-se com Henrique e  Lelo para impulsionar aquilo, sem que Samuel soubesse que eles haviam pego os versos que ele escrevera para Lis. E sem saber também, que ela era  envolvida por outro.
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  Samuel caiu numa armadilha do bem, quando foi levado pela ideia de que Lis estava o esperando na faculdade dela, para sair. Tinha em mãos um livro de Millôr Fernandes,pois desde que descobriu ser aquela recente leitura de Lis, ele se debruçou no texto também. Para saber o que falar, mas também para ajudar ele a compor algo a ela. Algo esse, que estava nas mãos de uma Lis trêmula e assustada.
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  Ela havia recebido o bilhete de Lelo um pouco antes de Samuca chegar e nenhum dos dois sabia daquilo. No corredor que caminhava, sentou-se numa muretinha e começou a ler os versos. Samuel que estava de pé naquele corredor, lendo o livro, notou a garota e foi até ela. E logo que viu o homem se aproximando, Lis se levantou e o estendeu o papel perguntando:
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  — Isso é algum tipo de confissão?
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  Samuca não entendeu mas reconheceu rapidamente seus versos e letra. Como aquilo havia ido parar nas mãos dela? Não sabia, mas suspirou e em silêncio assentiu, e Lis disse prontamente juntando suas coisas:
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  — Desculpe Samuel, talvez a gente devesse se ver outro dia… Eu realmente não posso corresponder ou responder isso agora.
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  O pavor nos olhos tímidos de Lis eram nítidos. Ela estava com medo sim, Samuel não sabia, mas era medo de magoar e ferir o amigo que ela mais vinha pensando a respeito. Quase como se estivesse superando a outra paixão. Naquele dia, Lis foi embora para sua casa, mas Samuel não apareceu mais. Não foi no bar tocar. Não apareceu mais na garagem do Lelo. Ele e os amigos deram um jeito de mudar um pouco a trajetória. E na verdade, começaram a viajar amadoramente pra fazer shows em outras cidadezinhas. E foi assim que ele e a Lis não mais se viram, encerraram uma amizade, sem respostas de versos que diziam muito.
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  2012

  Aquele sinal de trânsito onde Samuca havia estacionado o seu carro ainda era o mesmo. Dez anos atrás, sua banda Skank estourou de uma forma, que ele, Haroldo, Henrique e Lelo se mudaram para São Paulo. Gravaram outros discos de sucesso e nunca mais tinham voltado naquela esquina. Lelo já descia do carro, atravessando esbaforido o cruzamento, ao lado dos amigos para ver depois de tantos anos, a casa dos pais e a antiga garagem que ensaiavam. Samuel desceu um pouco depois do automóvel, se recordando que foi ali naquele cruzamento que ele encontrou Lis pela primeira vez. E como se o destino estivesse ouvindo-o, a brisa forte que bateu levantando algumas folhas do pé de Jatobá do chão, também fizera-o olhar para o céu. Não iria chover, mas algo estava prestes a cair sob sua cabeça. E caiu.
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  Lis, a mulher por quem se apaixonou e ainda era apaixonado, estava atravessando a rua, de frente à casa de Lelo e caminhando até os seus amigos. A mulher surpreendeu-se por sair da escola de piano onde dava aulas de composição musical, e ver os três antigos amigos ali. Como se estivesse o procurando, ela virou seu rosto na direção oposta, e percebeu, ali, naquele lugar que nenhum deles mais pisou, estava Samuel. Todos os dias, Lis passava naquela rua para voltar a sua casa e pensava no que faria se tivesse aceitado os versos de Samuel anos atrás. Só depois que ele partiu ela descobriu que o amava. Só depois que percebeu que não era outro quem fazia seu coração palpitar e suas melhores inspirações surgirem.
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  Trocaram algumas palavras, colocaram as novidades em dia, e antes de se despedirem ela lhe disse:
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  — Samuel… Vocês vão ficar por quanto tempo aqui? – apontou a casa antiga, onde os pais de Lelo ainda moravam.
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  — Lelo ficou muito tempo sem visitar a casa dos pais por longos dias,então, como vamos todos tirar férias aqui em Belo Horizonte, é capaz de ficarmos por um mês ou dois… – respondeu buscando nos olhos dela alguma esperança de uma resposta antiga.
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  — Então… – ela falou tímida, pegando um caderninho velho em sua bolsa, e que sempre a acompanhava e o entregou: — Fique com ele. Leia, e me devolva. Mas… Não me devolva sem ao menos alguns versos.
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  — Eu ainda espero resposta dos versos que te deixei. Os mesmos que eu sei que devem estar aqui. – ele falou diretivo olhando o caderninho dela sem abrir.
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  — Você… Realmente ainda espera?
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  — Eu fiz uma música… Que diz mais ou menos assim… – pigarreou e cantou à capela: — Desfaz o vento, o que há por dentro desse lugar que ninguém mais pisou. Você está vendo o que está acontecendo? Nesse caderno sei que ainda estão, os versos seus, tão meus que peço, nos versos meus tão seus que esperem que os aceite em paz…
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  Lis escutou atentamente sem tirar os olhos do olhar emocionado de Samuel. Ela andou alguns passos na direção dele, aproximando-se e ele abaixou a mão que segurava o caderninho.
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  — Samuel… Eu tenho uma resposta. Eu a tenho há dez anos, mas era tarde demais para dizer… Vocês se mudaram, estouraram e eu achei que… Você jamais ia me reencontrar ou…
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  Lis não conseguiu terminar. Samuel segurou de forma calma o rosto dela, mas rapidamente selou os lábios aos dela. Lis não conseguia acreditar que ele estava ali tão próximo, beijando-a como ela havia desejado tantas vezes, por tanto tempo! Samuel sentindo-a a permissão dela para prosseguir, abraçou-a pela cintura aprofundando o beijo. Os dois consumaram naquele ósculo, o início de um romance que daria ainda, muitos outros versos. A professora de composição musical e escritora, e o músico compositor, uma dupla que ainda renderia muito amor e sucesso.
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Fim

  Nota de autora: Ei pessoal, espero que tenham gostado dessa short! Obrigada por lerem e se você chegou até aqui, por favor, deixa um comentário! =)

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Lelen
Admin
6 meses atrás

Achei diferente, achei bonitinho HAHAHAH
E pensar que várias coisas das nossas vidas podem ter tomado caminhos diferentes simplesmente por causa do “timing” :O
Mas teve final feliz e deixou o coração quentinho, é o que importa <3


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