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Capa por Julia N.

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Moonlight

1. Bela, Recatada e do Lar

  Você sempre pensa que tem a vida perfeita quando teoricamente seus sonhos se realizam, um sentimento de conquista se mantém em seu coração. Mas quando esta vida perfeita se mostra uma rotina diária, será que nossos pensamentos continuam os mesmos? Era assim que eu estava me sentindo. Eu tinha a vida que sonhei na adolescência, claro que tudo aconteceu meio rápido e precoce naquela época. Se tivesse ouvido minha mãe, não teria engravidado aos 17 anos, não teria me casado com meu primeiro e único namorado. Ao contrário disso, teria entrado para a universidade de Princeton e cursado jornalismo, então aos 21 anos já seria estagiária de uma grande revista ou jornal. Apesar dos meus gostos para a culinária me voltarem para a gastronomia, ela sonhava muito com meu futuro.
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  Jovens inconsequentes. Foi assim que ela nos chamou, ao receber a notícia. Mas eu era sim uma inconsequente romântica que vivia lendo livros do século XIX e sonhando me casar com a versão moderna no Mr. Darcy. Apesar de Carl estar bem longe disso, quando o conheci era o típico popular que jogava basquete e precisava de ajuda nas aulas de literatura e redação. Poderia dizer que fui a garota nerd que conquistou o menino mais cobiçado da escola? Acho que sim. Sophie sempre dizia que eu nasci para viver uma… Como é mesmo que ela fala? Fanfic! Acho que é isso mesmo. Ela aprendeu a ler essas histórias com uma de suas alunas das aulas de ballet clássico.
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  No início não foi fácil, ter que amadurecer e criar um filho ao mesmo tempo. Carl se dividiu em dois para dar conta do seu curso de direito e sustentar a casa. Aos poucos com a ajuda dos amigos, principalmente Sophie e Will, nos erguemos e construímos uma família sólida. Agora, após dezesseis anos de casados, passei parte deles pensando que tinha o casamento perfeito e a família feliz. Eu, ele, nosso filho mais velho Joseph e nossa princesinha Molly. Até que Carl mudou de empresa e começou a ficar um pouco distante, o novo escritório de advocacia lhe exigia mais horas de trabalho e menos tempo com a família. O que me preocupava pelas crianças.
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  Ding dong… O soar a campainha me despertou de mais um devaneio. Parei de mexer a tigela com a massa das panquecas e limpei minha mão no pano de prato. Lembrei-me que Sophie passaria aqui para tomar café da manhã comigo, por isso dobrei a receita da panqueca. Ri de leve ao imaginar que minha amiga esfomeada já estivesse impaciente com minha demora, ao passar pela sala recolhi alguns brinquedos que Molly espalhou mais cedo. Joguei tudo no armário embaixo da escada e segui para a porta. Assim que abri, o olhar de alívio de minha amiga apareceu, assim como sua entrada em rompante.
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  — Me desculpe, mas só te dou bom dia após usar seu banheiro. — disse ela entrando casa adentro em direção ao lavabo.
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  — Não disse nada. — segurei o riso dela a acompanhando com meu olhar.
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  Fechei a porta e voltei para a cozinha. Minha amiga já estava familiarizada com minha casa, era da família e particularmente seu bom gosto por decoração tinha me ajudado a escolher toda a mobília. Parei em frente a bancada da pia e olhei para a janela. Dava vista para a cozinha da casa ao lado, ainda era estranho pensar que em anos ninguém tinha se mudado para lá. Nenhum parente do senhor Omar tinha reclamado a propriedade para si, nem mesmo o governo ou os bancos.
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  — Tendo mais um dos seus devaneios? — disse Sophie ao entrar na cozinha.
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  — Não, só estou pensando sobre a casa ao lado. — me voltei para ela e a olhei.
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  — Se eu fosse algum parente já tinha vendido isso. — ela riu colocando sua bolsa em cima da cadeira — Mas também, quem moraria nessa casa caindo aos pedaços?
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  — Com uma boa reforma… Tudo é possível.
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  — Só se rolar uma reforma like a Irmãos a Obra. — retrucou ela ao dar um suspiro longo — Já até me imagino vindo aqui todos os dias pra admirar a bela vista que teremos.
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  — Que vista? — perguntei me virando novamente e pegando a tigela de massa.
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  — Dos irmãos Scott, gente é cada pensamento que aquele Jonathan me causa, que eu sinto vontade de reformar a minha casa toda. — ela riu.
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  Ouvi o barulho da cadeira se arrastando, certamente ela se sentaria. Eu ri junto, minha amiga realmente não tinha jeito, e seus comentários eram os melhores sempre.
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  — Sophie, você é casada?! — tentei repreendê-la.
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  — Mas não sou cega. — ela soltou uma gargalhada — Eu amo o Will, ele é maravilhoso, mas isso não me deixou cega, ainda existem homens mais bonitos que ele no mundo.
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  — Acho que você agiria assim até se tivesse casada com o Tony Stark. — argumentei mencionando seu personagem favorito.
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  — Com um Tony Stark do lado querida, eu faria estrago.
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  Não me contive em soltar uma gargalhada sendo seguida por outra dela. Ficamos rindo por um tempo até que a entrada de Joseph na cozinha nos interrompeu.
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  — Tia Sophie. — disse ele surpreso ao vê-la.
  — Oi querido, bom dia. — ela sorriu para ele e acompanhou seus movimentos com os olhos.
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  — Bom dia mãe. — ele veio até mim e me abraçou por trás me dando um beijo na bochecha.
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  — Bom dia querido. — sorri de leve.
  — Ai que fofo, não sabia que filhos adolescentes eram carinhosos com a mãe, que inveja agora. — comentou Sophie ao observar as demonstrações de carinho dele.
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  — Se quiser um, tenha com o seu marido. — devolvi o comentário segurando o riso — Você e o Will já completaram quantos anos juntos? Cinco? Onde estão as crianças?
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  — Não sou boa parideira como você. — brincou ela.
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  — Tia Sophie não gosta de crianças. — brincou Joseph — Se lembra do último aniversário da Molly?
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  Nós soltamos algumas risadas. Aquele evento tinha sido o caos na visão dela.
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  — Ah por favor, me deem um desconto, aquela crianças não tinham noção de empatia, eu não queria molhar meu cabelo e saí toda encharcada.
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  — Tia Sophie, o aniversário foi em um clube, o que mais tinha lá era piscina. — Joe riu mais um pouco.
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  — A verdade é que Sophie tem medo de ser mãe. — afirmei indo até o fogão e acendendo a chama principal.
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  — Não tenho medo, só não sinto que nasci para essa vida, não ainda. — ela riu — Ser dona de casa já é tão chato, imagina com filhos, você é que tem esse perfil.
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  Mantive minha atenção na frigideira esquentando, rindo baixo de seus argumentos. Joguei uma concha da massa da tigela. Estava na hora das minhas famosas e irresistíveis panquecas. Joseph arrastou uma cadeira e se sentou ao lado dela, então pegou uma maçã na bandeja de frutas e mordeu.
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  — Tia Sophie, o que faz aqui tão cedo? — perguntou ele.
  — Que pergunta menino, sabe que todo sábado eu tomo café da manhã com sua mãe, é nossa tradição. — respondeu ela.
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  — E o tio Will?
  — Está no futebol com os amigos. — ela começou a bater as unhas na mesa, era uma de suas manias mais recorrentes — Sábado é nosso vale day, cada um fazendo o que quer com os amigos sem cobrança, sem hora pra voltar pra casa.
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  — Que estranho, mamãe e papai não fazem isso. — retrucou Joe.
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  — E o trabalho do seu pai deixa?! — se eu bem conhecia minha amiga, ele estava fazendo alguma careta estranha.
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  As risadas de Joe foram ouvidas com sucesso por mim. Tentei manter ao máximo minha atenção no preparo do café, enquanto ouvia a conversa dos dois.
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  — E você menino, já arrumou uma namorada?
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  — Ainda não, mas sou o popular da escola. — se gabou ele.
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  Não por que era meu filho, mas essa mistura de Carl comigo havia sido muito bem feita. Meu filho me lembrava seu pai mais jovem, bonito e cheio de charme com as garotas. Mas seu sorriso era totalmente igual o meu, singelo e meigo na medida certa. Olhar para ele e Molly era o que me deixava ainda satisfeita por ter seguido com a gravidez quando jovem e me casado com Carl. Admito que tinha me privado de alguns outros desejos, mas como sempre tive o sonho de ter uma linda família e ser a “mãe do ano”, já estava satisfeita.
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  — Só por favor, se lembre da camisinha quando for visitar o quarto da sua namorada. — o conselho de Sophie me trouxe a realidade — Não me vá engravidar uma pobre jovem com sonhos antes do tempo.
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  — Nossa Sophie. — olhei para ela meio desconfortável por seu comentário — Soou como se minha gravidez tivesse sido o fim do mundo para mim. Olha que filho bonito eu fiz.
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  — Poderia ter esperado e feito depois. — retrucou ela.
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  — Você também mamãe?! — meu olhar ficou mais suave.
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  — Só digo isso porque sofri muito naquela universidade sem você. — ela voltou seu olhar para Joseph — Sabe, namoradas tem amigas, que quer aproveitar uma festa de calouros acompanhada da amiga.
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  — Eu já entendi tia. — meu filho se levantou rapidamente — Não engravide a namorada, papai já teve essa conversa comigo.
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  — Já?! — eu o olhei surpresa.
  — Pelo menos pra isso ele presta. — comentou Sophie.
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  — Sophie?! — a repreendi.
  — O que? — ela me olhou com inocência.
  Tinha que admitir que minha amiga não gostava muito do meu marido, nem ela e nem a minha mãe. Mas eu amava Carl. Tive alguns anos de amor platônico por ele no ensino fundamental e pude me declarar no ensino médio. Joseph segui para a sala, certamente iria esperar pelo café em seu quarto, onde passava a maior parte do tempo jogando League of Legends. Meu filho tinha uma obsessão por games e um sonho maluco de ser jogador profissional no futuro. Algo que Carl jamais permitiria, com certeza.
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  — E onde está minha pequena joaninha? — perguntou Sophie me olhando atentamente colocar as panquecas prontas no prato.
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  — Molly está na casa de uma amiguinha, teve uma festa do pijama de aniversário. — expliquei indo abrir o armário para pegar o pote de geléia de morango — Vai voltar amanhã de manhã.
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  — Noite das garotas hoje? — perguntei.
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  — Não, noite do casal. — a olhei com uma pitada de malícia — Nosso aniversário de casamento é hoje e planejei um jantar romântico.
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  — O que? Já? — ela fez outra careta.
  — Como assim já, não é todo dia que se comemora 16 anos de casados amiga. — pisquei de leve — Comprei aquela lingerie de renda que você me indicou, vou usá-la.
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  — Não diga. — a insatisfação era transparente no rosto dela, mas não a culpava por isso — Bem, boa sorte.
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  — Não me olhei assim, Carl me prometeu que não iria trabalhar muito hoje.
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  — Já é um absurdo ele trabalhar no sábado. — ela cruzou os braços.
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  — Você sabe que a InH Associados é uma empresa muito famosa por ter os melhores advogados, meu marido tem que mostrar serviço. Não é fácil nos sustentar. — argumentei.
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  — Ok. Não está mais aqui quem criticou.
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  Terminei de colocar as coisas na mesa e após lavar as mãos novamente, me sentei na cadeira de frente para ela.
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  — Itadakimassu. — disse ela empolgada.
  — O que é isso? — fiz uma cara estranha.
  — Obrigado pela comida em japonês, estou aprendendo com uma aluna novata. — respondeu ela dando a primeira garfada.
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  — Olha, daqui a pouco você vira poliglota. — brinquei rindo dos seus gestos engraçados — Já que não passaremos esta noite juntas, o que pretende fazer?
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  — Não sei, acho que vou dar uma voltinha no shopping e pegar um cinema, estou pensando em chamar a mais nova solteira da turma. — ela colocou outro pedaço e mastigou, saboreando a seu modo — Você sempre se supera com essa panquecas, amiga não sei o que coloca nessa receita, mas fica divino, aliás tudo que você cozinha fica uma delícia, deveria ser dona de restaurante.
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  — Agradeço a preferência. — ri das caras e bocas que faziam enquanto mastigava — Mas… Acha mesmo que a Annia vai animar sair com você? Ela acabou de ficar viúva.
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  — Por isso mesmo, ela precisa de um pouco de diversão e distração. — argumentou ela — Annia sofreu muito com a doença do George.
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  — Bom, pelo menos na sua companhia ela vai rir muito.
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  — Eu sou a alegria do divertida mente. — brincou ela.
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  Eu me levantei e coloquei três panquecas em outro prato, joguei um pouco de mel por cima e a geleia de morango, então me levantei da cadeira. Deixei minha amiga por um momento e levei o prato até o quarto de Joseph. Como esperado ele já estava com os olhos vidrados naquele computador, fones no ouvido e muita concentração. Me aproximei com cautela e coloquei o prato ao lado onde ele pudesse ver, então acariciando de leve seus cabelos, me afastei dele. Assim que voltei para a cozinha, Sophie já estava embarcando em mais uma rodada de panquecas, me juntei a ela naquela delícia doce de café da manhã.
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  — Já que esta é a noite do casal, nos vemos na segunda então? — perguntou ela ao pararmos em frente à porta.
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  — O que está planejando para segunda? — perguntei curiosa.
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  — Não estou planejando, mas a gente não tinha combinado que você iria naquela entrevista? — explicou ela com um olhar indignado pela minha falta de memória.
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  Sophie havia mesmo mencionado sobre a mãe de uma de suas alunas do estúdio de dança, que era editora chefe do NT Post. Minha amiga se sentia um pouco incomodada com minha pacata vida de dona de casa, ela desejava mais para mim. Desejava me ver em uma redação escrevendo meus textos impactantes, como a época do ensino médio.
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  — Ah, a entrevista. — realmente tinha me esquecido.
  — Não acredito nisso, é uma oportunidade única, Genevieve ficou encantada com suas redações do ensino médio, imagina você redatora de um jornal famoso. — seu olho brilhou de leve.
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  — Olhe para mim Sophie, eu não fiz faculdade de jornalismo como minha mãe queria. — deixei minha voz soar séria, mas com sutileza, a chamando para a realidade — Minha vida fanfic não é tão generosa assim.
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  — Quem disse que um diploma supera um talento nato, eu já te disse que ela ficou apaixonada com suas redações, quando você escrever algo para a coluna feminina do jornal, tenho certeza que fará sucesso, a velha professora Donson sempre te elogiava e dizia que você tinha o dom da escrita. — seus argumentos não paravam.
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  — Além do mais, eu ainda não conversei sobre isso com Carl. — retruquei.
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  — E quem disse que aquele macho não alpha manda na sua vida? — ela colocou a mão na cintura, elevando seus olhar empoderado — Apenas comunique a ele que você vai começar a trabalhar fora, você não deve pedir permissão, passou todos esses anos cuidando dessa casa e da sua família, está mais do que na hora de pensar em você, na sua carreia profissional.
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  — Eu não vou pedir permissão, vou pedir a opinião dele sobre o assunto. — ponderei — Carl é meu marido, preciso saber o que ele acha sobre isso.
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  — Nós duas sabemos que toda vez que cogitou a falar sobre isso com ele, aquele babaca disse que você já tinha sua rotina cheia. Cheia do que? Das roupas sujas dele?
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  Não me contive em soltar um riso rápido por suas palavras.
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  — Eu vou ser sincera com você amiga, oportunidades assim é uma em um milhão, não é todo dia que eu tenho uma aluna filha de uma editora chefe. — seu olhar repreensivo de mãe apareceu.
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  — Tudo bem mamãe, vou pensar com carinho nessa entrevista. — abri um sorriso singelo para ele e logo recebi um abraço encorajador.
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  — Segunda às quatro da tarde ok? Passo aqui para te buscar! — ela piscou de leve e pegou na maçaneta da porta — E por favor, nada de se vestir como uma dona de casa desajustada, coloque algo mais formal e estiloso.
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  — Pode deixar missa simpatia. — brinquei rindo — Vou colocar um preto básico para não errar a mão.
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  — Te amo amiga. — ela lançou um beijo no ar e abriu a porta — E boa sorte no seu jantar.
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  — Também te amo, obrigada. — eu ri de leve esperando que ela saísse.
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  Acompanhei com o olhar seus passos em direção ao seu carro. Dei um passo para frente, saindo na varanda e olhei de relance para a velha e abandonada casa da esquerda, logo o outono chegaria e novamente as folhas entupiram a calha da varanda. Ainda me lembrava do transtorno que nos causou no ano passado. Soltei um suspiro fraco e voltei para dentro. Assim que fechei a porta, me espreguicei de leve pedindo a Deus ajuda para faxinar aquele lugar. A pior parte de ser dona de casa era aquilo, o dia da faxina. Eu amava cozinhar com todas as minhas forças, mas quando o assunto era lavar a privada do banheiro, lágrimas escorriam com facilidade.
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  Ao final da tarde, reservei um tempo para me aprontar. Mas antes tinha que me livrar do adolescente do quarto ao lado. Bati de leve na porta do seu quarto e entrei, como sempre sua atenção estava no computador, seus dedos se movendo com rapidez no teclado e sua perna direita se mexendo involuntariamente. Parecia ansioso para terminar a partida ou nervoso por estar perdendo. Mas pelo menos desta vez estava sem os fones de ouvido.
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  — Joseph?! — o chamei da porta.
  — Oi mãe. — ele manteve seu olhar na tela.
  — Já terminou seu jogo? — perguntei dando alguns passos até ele.
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  — Não estou jogando.
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  — E porque essa bateção de perna aí?
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  — Entrei em um concurso para fazer parte de uma equipe muito forte, estou esperando sair o resultado.
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  — Hum…
  — Você quer alguma coisa? — ele afastou um pouco a cadeira e se voltou para mim.
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  — Sim… Quero saber como posso subornar meu filho a passar a noite fora?
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  Apesar de ser um adolescente popular e cheio de amigos, Joseph tinha vários traços de minha personalidade quieta e caseira. Surreal que ele não gostasse de sair muito e pouco aparecia nas festas clandestinas dos alunos da sua escola. Mas certamente era por este ar misterioso que ele passava para todos que o tornava ainda mais cobiçado pelas meninas da sua idade.
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  — O que a senhora está planejando para hoje? — ele fez uma careta de curiosidade.
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  — Você sabe muito bem que hoje é o aniversário de casamento dos seus pais, deveria ajudar né?! — coloquei a mão na cintura o olhando com seriedade.
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  — Então é por isso que se livrou da Molly? — ele segurou o riso, suavizando a face fingindo certa indignação — Que vergonha mãe.
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  — Seu abusado, eu não me livrei da sua irmã. Que ao contrário de você tem uma vida social muito intensa e movimentada. — retruquei caminhando até ele.
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  — O meu charme está em ser reservado e misterioso. — ele piscou para mim e sorriu.
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  — Estou pedindo com sinceridade filho, por favor! — fiz uma cara de cachorro abandonado para ele.
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  — Ok mãe, eu saio se você convencer o papai que eu não vou cursar o que ele quer. — meu filho era bom em negociações — Não me vejo de terno o dia todo trabalhando em um escritório de advogados, menos ainda sendo sugado pelo meu chefe.
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  — Eu te entendo querido, quando minha mãe me disse que eu faria jornalismo, fiquei na defensiva também. — concordei em partes com ela.
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  — Aí depois ficou grávida de mim.
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  — Sim, mas isso não vem ao caso agora. — respirei fundo — O máximo que posso fazer por você é convencer seu pai a te deixar ir naquele campeonato que falou, é o máximo.
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  — Jura? — ele esticou o dedo mindinho.
  — Juradinho! — cruzei meu dedo com o dele selando o acordo.
  — Eu te amo mãe. — Joseph se levantou da cadeira e me abraçou.
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  Devolvi o abraço com carinho e amor. Meu ficou era uma fofura, meu coração sempre se aquecia um pouco com seu jeito carinhoso comigo.
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  — Também te amo querido, e te quero fora daqui em 30 minutos, deixa telefone e endereço da casa que você vai ficar.
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  — Vou pra casa da vovó. — disse ele indo até a cama e pegando sua mochila.
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  — Ai Joseph, por favor, eu te libero uma noite para poder se divertir como um adolescente comum e você me caça a casa dos seus avós? — o olhei indignado.
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  — Lá tem computador e internet.
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  — É por isso que não tem uma namorada seu gamer. — retruquei.
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  — Não estou interessado em namorar agora mãe. — ele veio até mim e beijou minha bochecha — E quando eu tiver uma, será a primeira a saber, só ficarei com uma garota que conquistar a senhora primeiro.
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  — Muito fofo da sua parte, mas ela tem que conquistar você primeiro, não serei eu a beijar a garota no seu lugar. — brinquei.
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  — É que, eu vejo como a vovó trata o papai, sei que ela não gosta dele. — explicou ele.
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  — Querido, não baseie sua vida amorosa na minha com seu pai. — sorri de leve para ele — Agora vai… E só me volte aqui domingo de tarde.
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  — Sim senhora. — ele jogou a mochila nas costas e saiu rindo de mim.
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  Eu segui para meu quarto, iniciaria meu momento spa in house. Enchi a banheira de água bem quente e joguei alguns óleos essenciais de rosas, logo todo o banheiro ficou perfumado. Respirei fundo e me perdi por uns segundos naquele aroma maravilhoso. Entrei dentro da banheira, me encolhendo um pouco pela temperatura da água, então me sentei e relaxei meu corpo. A quanto tempo não fazia isso?! Aproveitar da banheira, tirar algumas horas do meu dia para cuidar de mim. Sophie tem razão quando me critica. Eu deveria cuidar mais de mim e esquecer um pouco os afazeres domésticos, os deveres escolares das crianças, os ternos de marca do Carl.
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  — Não acredito que estou tendo esses pensamentos. — sussurrei após um longo suspiro.
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  Terminei o banho e cheguei no quarto novamente. Parei diante do espelho, olhando meu reflexo. Até que não estava nada mal, para uma dona de casa que não frequentava salão de beleza ou academia, como Freya ou a Sophie. Ri de leve e peguei a escova, começando a pentear meus cabelos, assim que terminei deixei novamente em cima da penteadeira e caminhei até o guarda-roupas. Vesti a lingerie de renda vermelha que comprei e por cima o vestido tubinho listrado que ganhei de Carl no último aniversário. Bem, ele não havia comprado diretamente, mas tinha deixado um vale compras da Zara juntamente com uma rosa e um bilhete pedindo desculpas. Não podia cobrar muito, já que Carl tinha uma viagem importante marcada justo para aquele dia.
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  — Agora sim. — disse ao terminar de me arrumar.
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  Desci para a cozinha após espirrar perfume em mim, então coloquei a travessa de vidro de lasanha no forno. Encostei na bancada da pia e fiquei esperando até que ficasse pronto, meu olhar se voltou para a janela da casa ao lado. Novamente vendo tudo escuro e vazio. As horas foram passando…
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  Passando…
  Até que adormeci sentada na cadeira, com a lasanha na minha frente à espera do Carl.
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  — Você é muito boazinha . — questionou Sophie ao telefone — Se fosse o Will fazendo isso comigo, teria dormido de calça jeans uma semana só pra ele aprender.
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  — O Carl teve uma emergência Sophie, ele me explicou quando chegou em casa. — mantive minha voz suave — E não acho que calça jeans sirva para mim, eu e Carl estamos sem… Já tem um tempo que não temos nada.
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  — Isso me deixa ainda mais em choque, vocês estão mesmo casados? — questionou ela incrédula.
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  — Um relacionamento é muito mais que sexo, além do mais, não vou falar sobre minha intimidade de casal com você, amiga. — suspirei fraco — Preciso desligar, tenho que deixar o almoço pronto para as crianças antes de sair.
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  — Mas a entrevista é às quatro?
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  — Eu vou fazer uma surpresa para o Carl hoje, vou até o escritório para almoçar com ele.
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  — Olha só, a dona de casa quebrando a rotina de almoçar com as crianças. — brincou ela soltando uma gargalhada ao telefone.
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  — Foi você mesmo que me aconselhou a quebrar a rotina e fazer coisas novas para avivar meus dias. — retruquei.
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  — Estou orgulhosa por isso.
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  — Sua boba.
  — Então te encontro no central Park para irmos juntas a entrevista.
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  — Sim mamãe. — brinquei.
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  Desliguei o celular e deixei em cima da mesa de canto da sala, então voltei para a cozinha. Não era como Sophie tinha dito, eu ainda estava chateada com Carl, e tivemos uma briga estranha na madrugada de sábado. O que acarretou um grande silêncio entre nós dois no domingo, me levando a almoçar na casa dos meus pais com as crianças. Não queria continuar ignorando meu marido, fingindo não me importar com a presença dele, eu precisava resolver as coisas com ele e assim fazermos as pazes. E nada como um almoço no nosso restaurante favorito para isso, já que ele viajaria na quarta pela manhã, não iria prolongar nosso afastamento.
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  Terminando minha obra prima em forma de refeição, troquei de roupa colocando um terninho básico preto, já que depois eu iria na tal entrevista, peguei minha bolsa bege que cabia o mundo dentro e saí de casa. Chamei um uber que sairia mais barato e segui para a empresa de Carl. O motorista até que foi bem simpático e comunicativo, ao introduzir o assunto sobre o jogo do Chicago Bulls na semana passada, ele parecia ser um grande fã daquele time de basquete. Ao descer do carro, avistei um rosto conhecido, era Mike o “rival” do meu marido na empresa. Um excelente advogado cuja ambição na carreira era se especializar em acordos de nível extraconjugal.
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  — Mike, bom dia. — disse ao me aproximar dele e o abraçar de leve em cumprimento.
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  — que surpresa você aqui. — ele retribuiu o abraço e sorriu de volta — A quanto tempo não te vejo.
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  — Verdade, eu sou meio caseira sabe. — dei a minha desculpa de sempre.
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  — Entendo, então é por isso que não apareceu na festa do sábado. — comentou ele de forma natural.
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  — Festa do sábado, como assim? — eu não estava entendendo.
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  — Ai, que constrangedor agora. — sussurrou ele — Eu achei que soubesse, quando vimos o Carl sozinho lá, achamos que você não tinha ido por causa das crianças.
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  — Hum… — me senti meio envergonhada e realmente constrangida.
  — Me desculpe. — ele também estava sem graça com aquilo.
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  — A culpa não é sua. — respirei fundo tentando me manter firme — Mas como está a nova promoção? Carl me disse que você agora é diretor do departamento de família, depois que o senhor Hilt se aposentou.
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  — Ah sim, eu gosto de trabalhar mais com assuntos conjugais e matrimoniais. — explicou ele — Se um dia você quiser se divorciar, me chame. — terminou brincando
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  Porém num tom de seriedade.
  — Agradeço a oferta, vou me lembrar disso. — ri um pouco.
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  — Você vai entrar?
  — Claro, vim fazer uma surpresa para o Carl e almoçar com ele.
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  Agora mais do que nunca ele teria que me dar muitas explicações, sobre ter mentido para mim e não contado sobre a tal festa. Entrei no edifício na companhia de Mike e no elevador apertei para o 5º andar, onde a sala de Carl ficava. Ao sair me despedi de Mike e caminhei pelo corredor até chegar no hall de espera, sua secretária Rose se mantinha concentrada em alguns papéis.
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  — Rose, o Carl está na sala? — perguntei já me movendo até a porta dele.
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  — Sim senhora, mas ele está em reunião. — ela se levantou apressadamente para me impedir de entrar — Me deite te anunciar antes.
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  — Não precisa, eu sou a esposa dele, não preciso ser anunciada.
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  Talvez eu tivesse deixado ela me anunciar, certo de que eu não iria vivenciar o pior momento da minha vida. Mas como Sophie sempre dizia, mulheres fortes encaram a verdade de frente, mesmo sendo dolorosa na maioria das vezes. Foi o girar da maçaneta e abrir a porta que meu corpo paralisou. Por alguns segundos senti que não tinha nem mesmo mais um coração em meu corpo, pois o mesmo já tinha sido despedaçado. Ver Carl se fundindo a uma mulher em sua mesa de trabalho, fez meu estômago embrulhar e ao mesmo tempo minha mente parar de funcionar. Meu marido tinha uma amante e ela era sua colega de trabalho.
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  O pior, foi olhar nos olhos dele e não ver nenhum traço de arrependimento ou remorso, mas sim um olhar de alívio. Um olhar de: agora me livrei da minha esposa chata. E foi esse olhar que fez a primeira lágrima cair dos meus olhos.
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Eu não posso morder minha língua para sempre
Enquanto você tenta fazer isso parecer legal
Você pode se esconder atrás da suas histórias
Mas não me faça de idiota
Seu amor é só uma mentira.

– Your Love Is a Lie / Simple Plan

2. Resetar

  Mesmo com a mente paralisada pelo cenário em que eu me encontrava, meu corpo se moveu involuntariamente saindo daquele lugar. Corri até as escadas, não queria esperar o elevador, ao passar pelo saguão do edifício, fui trombando nas pessoas que estavam por lá. As lágrimas continuaram rolando pelo meu rosto, eu não sabia onde ir, o que fazer, somente queria sair dali. Minhas pernas continuaram movendo meu corpo sem direção certa, parei de correr e comecei a caminhar, meu coração acelerado, meu rosto molhado. Aos poucos fui despertando do transe em que me encontrava, e logo minha audição se abriu para o toque do celular. Olhei para a tela, várias chamadas perdidas e uma de Sophie em execução.
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  — Sim. — disse ao atender.
  — Amiga, onde você está? Estou te ligando às tempos, vai se atrasar para a entrevista, já estou aqui no Central Park te esperando. — sua voz estava afobada do outro lado da linha.
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  — Eu não vou.
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  — Mas por quê?
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  — Ele me trai. — respondi direta, com as lágrimas rolando em minha face.
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  — Quem te trai?
  — Carl.
  — Onde você está?
  — Não sei. — disse olhando em minha volta.
  — Ok, trate de se mover até o estúdio de dança. — sua voz tinha traços de ordem — Estou indo para lá.
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  Encerrei a ligação e fiquei olhando para tela. Pensei se realmente deveria ir. Talvez desabafar e chorar em seu ombro. Respirei fundo e dei meia volta, não sabia mesmo onde estava, mas sabia como chegar no estúdio onde ela dava aulas. Ficava em uma área nobre de Upper East Side, em Manhattan. Segui o longo trajeto a pé até chegar, Sophie já me aguardava na recepção. Assim que vi minha amiga, desabei a chorar de novo. Ela me abraçou com carinho tentando me consolar, mas continuou em silêncio. Assim que nos afastamos uma da outra, ela segurou em minha mão e guiou até a sua sala de dança. Caminhamos até a janela e nos sentamos nas cadeiras que ela deixava de apoio, então Sophie me fez contar tudo que eu vi. Foi difícil dizer, era como se eu visse a cena novamente na minha frente. Fez meu estômago embrulhar mais uma vez.
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  — Que babaca. — xingou ela ainda mais revoltada.
  — É isso, me desculpa amiga, mas não tenho condições mentais para nada hoje. — me encolhi na cadeira, limpando mais uma lágrima.
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  — Não, não, isso é um fato, não vou te obrigar a ir na entrevista. — assegurou ela.
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  — Eu não quero voltar para casa, não hoje. — sussurrei.
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  Poderia estar agindo como uma adolescente novamente, fugindo dos problemas, mas eu não tinha forças para enfrentá-los, não naquele momento. Sophie sorriu para mim e me olhou com compaixão.
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  — Vamos fazer o seguinte, eu ligo para a Genevieve e remarco a entrevista, então ligo para o Joe e peço a ele que durma na casa dos seus pais com a Molly, e você fica lá em casa essa noite. Tenho certeza que o Will não vai se opor. — seu olhar sereno passava-me muita segurança.
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  Eu tinha uma boa amiga, isso não podia negar.
  — Agradeço pelo amparo Sophie. — sussurrei com os olhos lacrimejando novamente.
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  — Amigos são para isso. — ela piscou de leve e se levantou da cadeira — Vou fazer as ligações, enquanto isso, tente recuperar as forças um pouco.
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  Sophie se afastou já digitando no celular. Eu voltei meu olhar para a janela, olhando os carros passando na rua, me desliguei por um momento lembrando do passado. Do dia em que por sorteio tive que fazer um trabalho de literatura com Carl dando início a nossa história. Naquela época Sophie vivia dizendo que minha vida parecia filme teen do Disney Channel, o que rendia muitas risadas nossas. Mas depois do The End daqueles filmes, a vida real continuava, e toda a sua carga de pressão e sobrevivência também.
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  — Pronto amiga. — disse Sophie ao voltar — Quer ir agora?
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  — Não. — sussurrei.
  — Tudo bem. Quer ficar sozinha?
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  — Não.
  Ela assentiu e se sentou na cadeira em minha frente. Permaneceu em silêncio me observando. Deve ter sido entediante para ela. Minha amiga é do tipo de pessoa cheia de energia e totalmente hiperativa e agora estava ali, quietinha comigo. E ficamos por um longo tempo assim, até que ela me puxou pela mão e me levou para sua casa. Quando chegamos no seu apartamento no Brooklyn, Will estava na cozinha fazendo alguma coisa.
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  — Boa noite, girls. — disse ele ao entrar na sala, deu um leve sorriso e caminhou até Sophie, lhe dando um selinho rápido — Pedi pizza caso estejam com fome.
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  — Pizza? — Sophie o olhou.
  — Quatro queijos, como você gosta. — ele piscou de leve para ela.
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  — Esse é meu marido. — ela abriu um largo sorriso de satisfação.
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  — Eu não estou com fome. — disse em tom baixíssimo.
  — Vem amiga, vou preparar o quarto de hóspedes para você. — disse ela.
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  Assenti com a face e a segui até o segundo quarto do apartamento. Os pais do Will não eram ricos, mas tinham presenteados eles com aquele apartamento. Se localizava na parte um pouco mais nobre e segura do Brooklyn, bem próximo a Manhattan. Sophie abriu a porta do quarto e me deixou entrar, me deixou alguns minutos sozinha e logo retornou com uma roupa de cama nas mãos. Trocando os lençóis que estavam na cama pelos limpos que trouxe, e deixando uma toalha nos pés da cama.
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  — Caso queira tomar um banho. — disse ela.
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  — Obrigada Sophie.
  Eu recebi outro abraço apertado dela, que me fez segurar as lágrimas. Me afastei e me sentei na cama, encostando na cabeceira e mantendo meu olhar na janela. Senti a movimentação dela para sair do quarto, assim como a aproximação de Will.
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  — Como ela está? — perguntou ele.
  — Ela me parece um pouco apática, mas sei que por dentro ela está em pedaços. — respondeu minha amiga.
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  — Eu conheço o Carl desde o jardim de infância, nunca imaginei que ele seria tão babaca assim. — comentou ele — Como pode fazer isso com a , depois de todos esses anos que ela se dedicou a ele.
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  — Nem me fale, babaca só é pouco, aquele filho da… — ela prendeu sua indignação.
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  Mas sabia que Sophie estava mais do que furiosa com isso. E ela nem tinha sido a vítima.
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  — Vamos deixá-la descansar. — a voz dela soou mais calma e pacífica — Amanhã será um novo dia em que ela terá que enfrentar.
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  Sim. Eu teria que enfrentar o amanhã. Mas não queria que ele chegasse ainda. Eu me considerava uma mulher forte por ter passado por tantas coisas ao longo desses 16 anos e nunca ter surtado ou pensado em largar minha família. Então é assim que o amor termina para um casal? Com uma traição? Fiquei uma boa parte da noite olhando a janela pensando sobre isso. Será que o Carl me amou de verdade algum dia? Ou eu fui a única a ter esse sentimento? Na manhã seguinte, acordei com o cheiro do café invadindo o quarto. Me levantei e percebi que ainda estava com a roupa de ontem, nem mesmo um banho eu consegui tomar. Quando cheguei na cozinha, Sophie estava terminando de colocar as coisas na mesa.
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  — Bom dia flor do dia. — ela sorriu graciosamente para mim — Conseguiu dormir?
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  — Acho que sim. — mantive meu tom baixo e encostei na parede — O Will já foi para o trabalho?
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  — Sim, ele tinha que chegar cedo no hospital hoje. — respondeu ela, ao passar o dedo indicador na pasta de amendoim e por na boca.
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  — Ele está fazendo plantão ainda?
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  — Não, o diretor está cortando as horas extras e agora que ele está a um passo que conseguir ser o cardiocirurgião chefe. — explicou — Só falta o dr. Stevens se aposentar.
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  — Vai demorar. — brinquei.
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  — Espero que não, mas enquanto isso, ele tem que se mostrar um aprendiz aplicado, não dá pra ficar só contando com o QI alto dele. — ela riu — E então?
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  — Então, o que?
  — Carl me ligou agora de manhã, perguntando se você passou a noite aqui.
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  — E o que disse?
  — Disse que sim.
  — Poderia ter mentido dessa vez. — deu alguns passos até a cadeira e me sentei.
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  — Sua mãe também ligou, as crianças dormiram lá e já foram para a escola. — ela mordeu o lábio inferior.
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  — Você contou a ela. — presumi.
  — Por alto, disse que você teve uma briga com ele. — ela se sentou na cadeira de frente para mim — Mas ela vai querer saber de tudo.
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  — Não posso fugir para sempre.
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  — Quer companhia?
  — Não, eu vou sozinha, preciso encarar isso sozinha amiga.
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  — Se precisar de um advogado, tenho uma lista.
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  — Se eu precisar, já sei quem recorrer.
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  — Tudo bem.
  Mike. Era o único nome que vinha em minha mente. Talvez suas palavras na tarde de ontem fossem uma premonição de que eu descobriria mais cedo ou mais tarde a traição de Carl. Após o café da manhã na casa de Sophie, peguei um uber e fui para casa dos meus pais. Papai se encontrava na garagem mexendo no seu velho carro, ele dizia que era um clássico, mas vivia dando defeitos. Já minha mãe, estava no quintal dos fundos regando sua horta de temperos. Me mantive em silêncio até que ele percebeu minha presença e parou o que estava fazendo. Eu e minha mãe não tínhamos um bom relacionamento desde o dia em que anunciei minha gravidez, e as coisas só foram ladeira abaixo após meu casamento. Estava com medo da reação dela.
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  — Aquele patife. — disse meu pai em fúria assim que terminei de contar a mesma história a eles — Você deve exigir o divórcio, e expulsá-lo daquela casa.
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  — Expulsar? A casa é dele querido, nossa filha que será jogada na rua. — a voz ríspida da minha mãe estava ativada — Tanto que eu falei sobre aquele playboyzinho de merda, tanto que eu avisei que ele não prestava, que você merecia algo melhor. Está aí o castigo por não ouvir sua mãe, deixou a faculdade para ficar com ele e agora foi trocada por uma mulher graduada.
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  — Nossa filha já está sofrendo Agnes. — meu pai tentou intervir.
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  — Está satisfeita agora por ter levado adiante a gravidez? — perguntou ela com mais agressividade.
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  — Agnes já chega. — a voz do meu pai ainda se mantinha baixa.
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  — Está satisfeita por ter interrompido todo um projeto de vida para ser uma esposa traída agora?
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  — JÁ CHEGA AGNES! — meu pai gritou se levantando do sofá — Nossa filha já está o suficiente abalada com tudo isso, não piore as coisas.
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  — Eu estou bem pai. — me levantei do sofá e forcei um sorriso — Eu só vim para explicar o que está acontecendo.
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  — Você vai mesmo ficar bem? — meu pai me abraçou novamente — Sabe que pode voltar para nossa casa com os meninos, quartos aqui é que não falta.
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  — Eu tenho minha casa, e não vou sair dela. — voltei meu olhar para minha mãe — Já estou indo.
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  Se minha mãe tinha algum desgosto com minha escolhas, ela se orgulhava com a vida perfeita que Margareth construiu. Minha irmã mais velha cursou economia e em pouco tempo já tinha sido promovida a diretora financeira na transportadora em que trabalhava. Se casou ao completar 27 anos com o Mark, sobrinho do dono da empresa, três anos depois ficou grávida do Jacob. Essa era a vida que minha mãe sonhava para mim, uma grande realização profissional, antes do casamento. De certa forma ela não estava errada, só queria o meu bem. Não podia culpá-la.
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  Voltei para casa no final da tarde, após dar algumas voltas no Central Park com Molly. Tinha pegado ela mais cedo na escola, com a desculpa de termos dentista. A diretora Joyce é legal e nos liberou. Molly não entendeu nada, mas se divertiu horrores depois que nos empanturramos de algodão doce.
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  — Mamãe, está tudo bem? — perguntou ela ao entrarmos em casa — Você está doente?
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  — Por que pergunta isso?
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  — Nos filmes, quando as mães estão doentes, elas fazem isso. — explicou ela — Passam o dia com os filhos, de forma aleatória.
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  — Se eu estivesse doente, deveria ter levado Joseph conosco não acha? — retruquei.
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  — Verdade. — ela fez uma cara pensativa.
  — . — a voz de Carl veio da direção da cozinha.
  Virei meu rosto e ele estava na porta nos olhando. Senti nojo ao ver aquele olhar de: nada aconteceu.
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  — Molly, vai tomar um banho e fazer sua lição de casa, preciso conversar com o papai. — pedi a ela dando um sorriso no final.
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  — Tudo bem. — ela sorriu de volta e saiu saltitando até a escada.
  Mantive o sorriso no rosto até ela desaparecer no meu campo de visão. Então voltei a ficar séria e olhei para o cinismo em pessoa.
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  — Vamos para a cozinha. — disse caminhando em sua direção.
  Passei por ele segurando minha raiva e frustração, e me coloquei ao lado da geladeira, o olhando fixamente.
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  — Eu não vou encobrir o que você viu. — ele iniciou.
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  — Agradeço por não se dar o trabalho de mentir novamente. — tentei ao máximo manter minha voz firme.
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  — Então serei mais direto ainda…
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  — Se está falando do divórcio, não vou me opor, eu também quero. — disse o interrompendo — E tudo relacionado a isso você poderá tratar diretamente com meu advogado.
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  — Que advogado.
  — O Mike, soube que ele é o melhor do país quando se trata desses assuntos. — eu vi uma forte explosão de raiva nos olhos dele.
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  Será que aquilo poderia ser considerado uma pequena vingança?
  — O Mike?! — ele deu uma risada rápida — Veremos então.
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  — Se não tem mais nada para falar…
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  — Não quer saber o motivo?
  — E um homem tem que ter motivo para ser um babaca e trair a esposa? — retruquei voltando meu olhar para a janela, deixando minha visão na casa ao lado — Lhe falta caráter, essa é a explicação.
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  — Não, o que me falta é uma mulher de verdade. — ele jogou essas palavras em mim com certo prazer no olhar — E isso você nunca foi para mim.
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  — O que?! — voltei meu olhar para ele.
  Suas palavras caíram como uma tipo de açoite em mim, algo que me feriu com profundidade. Segurei as lágrimas que ao longo do dia se mantiveram presentes querendo sair dos meus olhos.
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  — Eu só me casei com você por causa da gravidez, por meus pais terem me pressionado, mas agora me sinto aliviado por me livrar disso. — a sinceridade era nítida em sua voz — Me arrependo do dia em que te convidei para ir ao cinema.
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  — Se arrepende dos nossos filhos também?! — prendi o quanto pude meus sentimentos feridos, para não desmoronar diante dele.
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  — Se não fosse com você teria sido com qualquer outra mulher. — as palavras soavam com tanta serenidade dele.
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  — Eu não o forcei a ficar tanto tempo casado comigo, se não gostava de mim. — retruquei.
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  — Conveniência talvez. — ele colocou as mãos no bolso da calça, parecia escolher as próximas palavras — Mas parando para pensar, depois de um tempo convivendo com você, até mesmo ao te ver cozinhando eu me sentia entediado.
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  — Vai embora daqui.
  — O que?! Agora quer agir como uma mulher durona?
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  — Sai daqui Carl.
  — E porque eu deveria, esta casa é minha.
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  — Vai descobrir que não será mais. — eu apontei para a porta — Agora vai embora daqui.
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  De magoada, eu estava me sentindo raivosa. Assim que ouvi o som da porta batendo, desabei no chão da cozinha junto com as lágrimas. Meu coração se apertou ainda mais assim que suas palavras voltaram em minha mente: “o que me falta é uma mulher de verdade”. Então ele nunca me viu assim? Por isso ele sempre me evitava? Orgulho, autoestima, eu já não sabia mais o que em mim estava ferido. Mas eu tinha dentro de mim que iria ferir Carl onde ele mais se assegurava, no trabalho e Mike me ajudaria.
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  — Mãe?! — Joseph se aproximou de mim e agachando, me abraçou de maneira confortável e com segurança — Ele nunca te mereceu mãe.
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  — Você ouviu?
  — Tudo. — sussurrou ele — Eu estou com você.
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  — Obrigada querido. — eu me aninhei nos braços do meu filho.
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  Aquele gesto dele me mostrava que eu sou uma boa mãe e o tinha criado muito bem. Meu filho é atencioso, carinhoso e respeitador. Estava certa que no futuro, ele jamais agiria assim com sua esposa.
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  — Mamãe?! — Molly apareceu na porta toda encolhida — O que faz no chão com o Joe?
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  — Querida. — eu me afastei um pouco dele limpando a lágrima — Não fazemos nada.
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  — Vem aqui Molly, a mamãe precisa de um abraço coletivo. — disse Joe.
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  — Tudo bem. — ela correu até nós e pulou em meu colo, então me deu um beijo na bochecha e me abraçou — Te amo mamãe.
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  — Também te amo minha princesa. — sorri de leve.
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  — Onde está o papai para o abraço coletivo?
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  — O papai não vai mais morar aqui. — respondeu Joseph.
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  — Por que mamãe? O papai fez algo errado?
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  — Sim. — respondi.
  Molly já tinha 10 anos. Idade suficiente para entender o que estava acontecendo.
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  — Seu pai me traiu com outra mulher. — expliquei sem rodeios — Por isso vamos nos divorciar.
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  — Assim como os pais da Kim?!
  — Sim. — assenti — Mas quero que se lembre que ele continua sendo pai de vocês, ele errou foi comigo.
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  — Para mim ele errou com todos nós. — Joseph se levantou.
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  — Não diga isso filho. — eu me levantei junto — Ex marido não significa ex pai.
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  Joseph ficou me olhando ainda revoltado, mas ele sabia que eu estava certa. Assegurei a ele que independente de tudo, ficaria com a guarda deles, eu sabia que Carl não seria tão responsável assim para ficar com nossos filhos e nem deixaria mesmo se fosse o caso. Respirei fundo e sorri para eles, não queria que meus filhos me vissem mais triste, principalmente Joseph.
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  — Quem quer pizza para o jantar? — sugeri.
  — Mamãe sugerindo pizza? — Molly se assustou.
  — Acho que estamos entrando em um novo tempo. — brincou Joseph.
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  — Ei. — eu cutuquei ele de leve — Só não irei cozinhar hoje, porque estou cansada e com vontade de comer pizza.
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  Minha explicação não era nada convincente, mas eles entendiam o motivo. Nossa noite foi divertida em meio a uma maratona de desenhos da Pixar, a começar por Ratatouille, o meu favorito. Pouco antes da meia noite, pausei Divertida Mente e peguei Molly no colo, ela estava mais pesada do que o normal. Ou era eu que estava ficando sem coluna?
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  — Deixa que eu levo ela. — disse Joseph ao despertar.
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  — Está tudo bem. — assegurei.
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  — Não está. — ele se levantou e pegou Molly — Vai descansar mãe.
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  — O que eu fiz para merecer você como filho?! — senti meus olhos brilharem.
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  — Você é a melhor mãe do mundo. — ele beijou minha bochecha e subiu primeiro com a irmã.
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  Suspirei fraco e voltei meus olhos para a televisão. Não estava com sono e se fosse para o quarto, minha mente seria tomada pelos maus pensamentos. Me sentei novamente no sofá, enrolei na manta que tinha levado e apertei o play. Nem sei dizer se meu sonho chegou no final de Toy Story 4 ou no início de Valente, mas acabei adormecendo ali mesmo na sala. Logo pela manhã me levantei com o sol brilhando na cara e Joseph na cozinha preparando o café da manhã. Meu filho cozinha?
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  — Desde quando sabe mexer no fogão sem colocar fogo na casa? — brinquei ao entrar na cozinha e ver Molly sentada saboreando uma panqueca improvisada pelo irmão.
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  — Não é tão gostosa quanto a sua mamãe, mas o Joe sabe cozinhar. — Molly riu ao tentar elogiar ele.
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  — Agradeço a sinceridade Joaninha. — ele sorriu e piscou para ela — E esta é a sua mãe. — ele esticou o prato para mim mostrando e o colocou sobre a mesa.
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  — Obrigada. — me sentei e ao sentir o aroma convidativo, deu a primeira garfada sendo surpreendida pelos dotes culinários do meu filho — Onde aprendeu a cozinha seu gamer misterioso?
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  — Com você. — respondeu tranquilamente ao se sentar também.
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  — Comigo? — por essa não esperava.
  — Sim, te observando. — explicou — Mas como nunca sai da cozinha, eu não consegui realizar nada ainda, queria fazer uma surpresa.
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  — Hum… Que orgulho. — sorri para ele.
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  Foi bom tomar café da manhã com meus filhos. O ônibus da escola veio pegá-los pontualmente. Aproveitei a deixa para tomar um banho, trocar de roupa e fazer uma visita ao meu advogado. Ao chegar em frente ao edifício da InH senti um mal estar, o que me levou a pegar o cartão do Mike de dentro da bolsa e ligar para ele pedindo para me encontrar na rua.
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  — . — disse ele ao se aproximar de mim.
  — Tem algum lugar aqui perto que podemos conversar? — perguntei — Não quero entrar ali.
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  — Eu te entendo. — ele virou a face para rua — Tem um café ali na esquina, podemos ir lá.
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  — Tudo bem então, se não se importa, eu quero que uma amiga participe da nossa conversa, posso ligar para ela?
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  — Claro, fique à vontade.
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  Me afastei um pouco dele e fiz minha ligação para a Sophie, ainda não tinha dado notícias para ela. Assim que disse onde estava, ela soltou um grito de dizendo que chegava em minutos, me deixando meio assustada com sua reação. Segui com Mike até a cafeteria e nos sentamos perto da vidraça, assim seria fácil para Sophie nos encontrar.
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  — Então… — ele me olhou tranquilamente.
  — Você sabia sobre o caso do Carl com a Solar?
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  — Infelizmente sim, todos no escritório suspeitavam. — ele pigarreou um pouco — Eu lamento.
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  — Não lamente, só seja meu advogado e me diga quanto vai cobrar. — disse diretamente.
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  — Serei sim seu advogado, mas não irei cobrar nada, tenha isso como um apoio meu e do senhor Dominos, nós temos muito respeito por você.
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  — Obrigada.
  — Ah, finalmente cheguei. — disse Sophie ao se aproximar e sentar na cadeira ao meu lado — Eu disse que estava aqui perto.
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  — Sophie, este é Mike do escritório da InH.
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  — Ah Mike, eu me lembro de você no aniversário da empresa que eu fui. — comentou ela.
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  — Também me lembro de você.
  — Então, o que perdi da conversa?!
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  — Meu divórcio não terá custos para mim.
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  — Sem honorário?! — ela olhou para Mike impressionada.
  — Um presente de amigo.
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  — Hum.. — ela voltou seu olhar sugestivo para mim.
  — Então Mike, como será, o que devo fazer?
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  — Bem, se ambos estiverem de acordo já é o começo, posso forçar alguns argumentos e conseguir que fique com a guarda total e a casa. — adiantou ele — Se quiser posso fazer mais.
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  — Não, a casa está bem para mim, de qualquer forma nos casamos com comunhão de bens. — assegurei.
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  — Isso é bom, vou trabalhar em cima disso e garantir que consiga a casa, ele terá que pagar a pensão para seus filhos e para você, já que está desempregada.
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  — Não, para mim não, não quero mais nada que venha dele, posso me sustentar sozinha. — garanti.
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  — Que orgulho amiga. — Sophie sorriu.
  Eu ainda não sabia como conseguiria isso, mas iria sobreviver a essa tempestade de cabeça erguida.
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  — Quero apenas que ele deposite a pensão das crianças na conta que fizemos para a universidade. — pedi — E que essa conta fique em meu nome, eu não confio no Carl.
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  — Por mim, você arrancava até as calças dele. — comentou Sophie.
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  — Fique tranquila Sophie, se tem algo que a gente leva da vida é colher o que se planta. — disse a ela.
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  — Disso você tem razão. — concordou Mike.
  Ficamos mais algum tempo conversando e Mike me disse que daria entrada no pedido de divórcio ainda essa semana, levaria alguns dias para chegarmos diante do promotor. Como era em comum acordo, não chegaria no juiz. Assinei os papéis do pedido e deixei o resto em suas mãos.
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  — Uau. — disse Sophie ao nos afastarmos dele — Que advogado, sabe se ele é solteiro?
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  — Porque a pergunta Sophie, você é casada.
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  — Não para mim, mas para você amiga. — ela me olhou com malícia — Imagina a reação do Carl.
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  — Ah Sophie, por favor, não começa. — revirei os olhos e segui na frente.
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  — Não começa o que? Aquele babaca disse que você não é uma mulher, isso é porque ele não é um homem de verdade. — comentou ela — Você precisa de alguém másculo que nem o Mike.
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  — Aff… O que eu menos quero agora é me envolver com um homem, consigo muito bem viver sozinha, já estava vivendo e não sabia. — continuei a caminhar na frente.
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  — Espera amiga. — ela apertou o passo para me alcançar — O que eu disse é sério.
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  — Eu também.
  Nós rimos um pouco.
  Nos dias seguintes mantive uma rotina em casa, teria que esperar Genevieve voltar de sua viagem de férias para Toscana, para finalmente ter minha entrevista e quem sabe conseguir um emprego. Enquanto isso, fiz um acordo com Finn, dono da Liberdad Café, a cafeteria mais procurada do bairro, ele tinha se apaixonado por minhas panquecas e mesmo não dando a receita para ele, consegui uma vaga de meio período em sua cozinha no turno da manhã. Receberia 50 dólares por hora trabalhada que ajudariam a pagar as contas por enquanto.
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  — Que estranho… — sussurrei ao acordar ouvindo um constante barulho — Essa rua já foi mais silenciosa pela manhã.
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  Bem, aquela rua só não era silenciosa na época das férias com as crianças de todos em casa, fora isso era tranquilidade total. Porém, naquela manhã algo estava totalmente diferente, o que me levou a levantar da cama e perceber que já se passava das 9 e as crianças já tinham ido para aula.
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  — Oh não, dormi demais. — sussurrei.
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  Minha vida noturna tinha ficado diferente ao passar as madrugadas vendo filmes da Netflix, estava tão vidrada nisso que daqui a pouco eu zero o catálogo. Mas desta vez, passei a noite anterior vendo Joseph jogar, ele parecia estar participando de um campeonato regional e vibrei muito quando ele disse que seu time tinha vencido. Mesmo não entendendo nada daquele jogo maluco, mas era o sonho do meu filho e eu apoiaria. Que se dane a opinião do Carl. Me espreguicei de leve e troquei de roupa, peguei o celular e vi duas mensagens de Sophie dizendo que passaria na minha casa antes de ir para o estúdio de dança. Então desci as escadas para entender o que acontecia, já que o som vinha da casa ao lado.
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  Dei alguns passos até a janela, estava curiosa para descobrir o que acontecia na casa ao lado com todo aquele barulho, afinal nossa vizinhança era sempre silenciosa e pacata naquela época do ano, sem grandes novidades além da minha vida privada que havia se tornado o assunto de interesse do momento. Ainda me perguntava se aquelas senhoras realmente tinham o que fazer em suas casas para me ligarem todos os dias. Logo vi um caminhão de mudanças, parado na casa ao lado, já havia me esquecido que aquele lugar esteve tanto tempo vazio e abandonado. Era de se admirar que as paredes ainda se sustentam de pé. O senhor Omar faleceu há mais de dez anos e desde então a casa esteve vazia sem propósito e sem vida. Até agora pelo que está parecendo.
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  Voltei meu olhar para as mesmas senhoras casadas que não tinham nada para fazer em suas casas, estavam todas espalhadas pela varanda da senhora Philips. Aquele era o ponto de encontro da fofoca em nossa rua. Todos com seus olhares fixos em algo ou alguém. Observei o olhar atento de Freya, ela havia se casado pela sexta vez recentemente e também estava ali, por um breve momento percebi que estava salivando de forma discreta. O que elevou ainda mais minha curiosidade para saber o foco da atenção dela. Me movi para a porta, destranquei e girei a maçaneta devagar, não queria que achassem que eu estava com a mesma intenção que elas. Não me importava com a pessoa que tinha se mudado, mas queria entender tamanha fascinação nos olhares daquelas mulheres, fascinação essa que não tinham pelos seus maridos.
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  Saí para a varanda da entrada e peguei o regador que sempre deixava no canto ao lado da porta. Era a minha deixa para mostrar que estava somente fazendo meus afazeres domésticos. Dei alguns passos até a lateral esquerda, olhando discretamente para os homens de descarregava o caminhão de mudanças. Então era certo de que tinham comprado a velha casa do senhor Omar. Derrubei um pouco da água do regador no primeiro vaso do beiral, toquei de leve em uma das pétalas do girassol, me causando certa distração repentina.
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  — Cuidado com essas caixas, por favor. — uma voz masculina e levemente grossa soou ao lado.
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  O que me fez olhar de forma involuntária e imediata. Então aquele era o foco de atenção das senhoras do outro lado da rua. Um jovem rapaz que aparentava seus 25 anos, comandando todos os outros homens que transitavam ali. Ele mantinha uns papéis em suas mãos, como também sua atenção longe das fãs que o secavam. O all star branco e surrado nos pés se combinava com o jeans rasgando na região da coxa, que pareciam ser grossas. Subi um pouco mais o olhar e me atentei para seu rosto jovem e levemente charmoso. Ou melhor, atraente, certamente nas palavras de minha amiga Sophie, se ela estivesse aqui agora. Era mesmo um jovem bastante bonito e que atraía com facilidade a atenção de qualquer mulher. Me pergunto, se ele foi quem comprou aquela casa. O que faria ele em uma rua tão parada como aquela?
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  Era curioso aquilo. O observei mais um pouco pegando algumas caixas também e levando para dentro da casa. Repetindo aquilo por mais algumas vezes até que ele parou repentinamente e me olhou. A princípio senti a necessidade de desviar o olhar e continuar o que estava fazendo, mas meus olhos se mantiveram totalmente fixados nele, por um breve momento meu olhar desceu até sua t-shirt branca visivelmente molhada de suor. Um nó se formou em minha mente assim que meu entendimento me fez perceber as linhas definidas do seu abdômen. Selo Chris Marvel qualidade? Acho que é assim que Sophie sempre se referia a homens com o corpo bem definido. E realmente acho que era esse o motivo das senhoras estarem tão atentas aos movimentos daquele novo vizinho.
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  — Oi. — disse ele ao se aproximar da minha varanda.
  — Ah… — eu desviei meu olhar para o girassol, tentando entender como pude encará-lo daquela forma — Bom dia, senhor.
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  — Por favor, não cheguei nem aos trinta. — ele riu de leve, me fazendo olhá-lo novamente — Me desculpe pelo barulho, acho que estou incomodando a todos hoje.
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  — Não, mudanças são assim sempre. — disse ponderadamente.
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  Já tinha me mudado duas vezes e sabia a dor de cabeça que causava.
  — Nos próximos dias será assim também, se eu te incomodar, por favor me avise.
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  — Claro. Agradeço por se preocupar. — eu me afastei do beiral voltando para a porta.
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  Já sentia a intensidade dos olhares do outro lado da rua.
  — Ah propósito, posso saber o nome da minha nova vizinha?
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  Nova? Se ele soubesse minha idade não diria isso.
  — . — respondi.
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  — Prazer , meu nome é . — ele abriu um singelo sorriso que me cativou um pouco.
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  E agora eu sabia o nome do novo dono da casa ao lado. Eu sorri de volta e entrei novamente para dentro. Me aproximei de leve da janela e observei, ele havia permanecido parado, continuava olhando para minha casa com um sorriso no rosto. .
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Não ligo se é veneno, tomo tranquilamente
Nenhuma tentação pode ser mais doce ou forte que você.
– Last Romeo / Infinite

3. O jovem vizinho

  — Amiga… O que é aquilo?! — disse Sophie ao entrar, assim que abri a porta — Por um minuto eu até esqueci que viria na sua casa e quase me alistei para o clube da varanda.
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  Eu soltei uma risada rápida e fechei a porta.
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  — Deixa de ser boba amiga.
  — De onde saiu aquele pedaço de mal caminho? Que tentação. — perguntou ela.
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  — Bem, parece que ele é o novo dono da velha casa do senhor Omar. — respondi tranquilamente indo para a cozinha — A barulheira começou logo pela manhã.
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  — Nossa, esses dez anos com a casa abandonada compensaram agora. — brincou ela vindo atrás de mim — Só faltou os irmãos Scott pra completar a obra, aí sim eu montaria minha barraca.
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  — Já tomou café? — perguntei me virando para ela, ignorando seus comentários.
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  — Sim. — ela se colocou em minha frente e olhou para janela.
  Era a primeira vez que minha amiga fazia isso. Era a primeira vez que eu olharia e a casa não estaria mais vazia. Segui seu olhar e vi dois homens colocando algumas caixas na cozinha da casa. Logo entrou no lugar e trocou algumas palavras com os homens. De forma involuntária seu olhar se voltou para a janela também, e mais uma vez trocamos olhares fixos e imóveis.
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  — Ele tá olhando. — comentou Sophie, ao me cutucar na cintura — E que olhar.
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  — Disfarça Sophie. — olhei para minha amiga — E pare de encarar ele. 
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  Me afastei do lugar de onde estava para sair do campo de visão dele, arrastando a Sophie junto.
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  — Você está maluca?! — a olhei.
  — Não, só queria ver mais de perto. — ela fez bico — Quando eu digo que você vive uma fanfic… Agora vai ter uma paisagem bem ao lado, que inveja.
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  — Deixa o Will ouvir isso. — balancei a cabeça negativamente.
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  — Eu amo o meu marido ok, sou fiel, mas não cega, quando vejo um homem bonito eu tenho que admitir, e ele sempre concorda comigo. — se defendeu — Ainda diz que tenho bom gosto.
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  — Sei. — cruzei os braços.
  — É sério, e esse seu vizinho novo… O selo Chris Marvel de qualidade é pouco para ele, aquilo é o Universo Marvel inteiro.
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  — Que exagero Sophie. — tentei segurar o riso.
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  — Eu não exagero quando o assunto é homem bonito. — garantiu ela — Ou vai me dizer que o babaca do Carl é mais bonito que ele.
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  — Não, com toda a certeza o é mais bonito e mais atraente que meu ex marido. — assegurei, ponderando um pouco minha sinceridade — E nem falo isso por ter sido traída.
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  Essa palavra sempre me causava sensações ruins. Traição. Eu ainda me sentia abalada, mesmo mantendo a cabeça erguida e o sorriso forçado nos lábios para não preocupar as crianças.
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  — Então a bela recatada já descobriu o nome do pecado que mora ao lado. — ela colocou a mão na cintura fingindo indignação.
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  — Não começa Sophie. — segurei o riso — Eu estava regando o girassol da varanda quando ele se apresentou.
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  — E você não fez nada pra isso acontecer?!
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  — Claro que não, você sabe como sou tímida, no colegial foi o Carl que se aproximou de mim. — expliquei.
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  — Isso é verdade, maldita hora. — ela suspirou — Mas olha… Você é mesmo uma sortuda.
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  — Não sou nada, sou apenas a vizinha do lado.
  — Ai vizinha do lado. — soou um tom de brincadeira e sarcasmo.
  Nós rimos daquilo. 
  Infelizmente, ela não pode ficar mais tempo de conversa comigo, pois tinha aberto mais uma turma de iniciantes do ballet moderno. Levei minha amiga até a porta que passou mais alguns minutos observando o vizinho, antes de entrar no seu carro. Fiquei rindo dela por um tempo até me lembrar que já deveria estar na cafeteria. Ah não, olhei o relógio na parede e vi que já tinha passado a hora do café. Peguei o celular e liguei para o Finn, que parecia nervoso ao atender.
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  — Você me fez perder alguns clientes hoje senhora Godric. — disse ele num tom irônico.
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  — É Miller, Finn, agora sou apenas Miller. — o corrigi — Continuo sendo a mesma de sempre, só que agora sem o casamento.
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  — Ok, , e o que faço agora? Sem a mestre cuca da panqueca?
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  — Me espere amanhã de manhã, e dê mais valor ao meu dom de fazer boas panquecas. — joguei a indireta.
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  Eu não tinha planejado aquilo, mas estava me rendendo muito bem. 
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  — Eu serei mais grato a você, e para mostrar isso posso aumentar mais 10 dólares por hora, o que acha? — perguntou ele.
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  — Acho que por enquanto está bom. — disse abrindo um largo sorriso.
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  Precisava de dinheiro. 
  — Então te espero amanhã. 
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  — Até amanhã Finn. — encerrei a ligação e coloquei o celular no bolso da calça.
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  Sophie tinha me dito que eu deveria montar um portfólio para mim juntamente com meu currículo. Eu não tinha muitas qualificações com certificados, mas ao longo dos anos participei de muitos eventos e concursos e ganhei alguns prêmios, acho que isso poderia contar. Na geladeira tinha sobras do almoço do dia anterior, então assim que as crianças chegarem da escola, eu esquentaria sem problemas. Então, fui até o quarto de Joseph e liguei seu computador, ele tinha me dado a senha e mostrado como montar um bom portfólio infográfico pelo site canva. Eu era meio aérea com essas coisas de tecnologia, e design gráfico, mas tinha alguns programas relacionado a jornalismo e publicidade que me interessavam e eu tinha meu filho para me dar uma mãozinha.
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  Fiquei concentrada por um tempo no que estava fazendo, pesquisando e vendo tutoriais no youtube, até notar que o barulho da mudança tinha parado. Será que tinham terminado a mudança? Ou foi uma pausa para o almoço? Bem, por mais que a curiosidade vibrasse dentro de mim, eu não tinha nada a ver com a vida do vizinho e tinha outros assuntos para preocupar. Como por exemplo, as contas que estavam chegando e eu não tinha tanto dinheiro para pagar. Não iria pegar da pensão das crianças, era para o futuro deles e não pediria mais nada ao Carl, menos ainda aos meus pais. Joseph tinha se oferecido para vender o computador de gamer dele, porém eu jamais deixaria meu filho se sacrificar assim. Eu tinha algumas coisas que não usava mais, roupas guardadas no fundo do armário, e objetos escondidos no porão de casa. Poderia vendê-los por um bom preço. 
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  — Mãe. — disse Joseph ao aparecer na porta do seu quarto.
  — Já chegou. — eu me virei para ele e sorri — Como foi na escola hoje?
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  — Normal como todos os dias. — ele deixou a mochila no chão perto da cabeceira da cama e se aproximou — Está montando seu portfólio?
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  — Sim, vi alguns tutoriais para me ajudar a diagramar as páginas, estou me sentindo na pré-história de tão perdida. — voltei meu olhar para a tela do computador — A quanto tempo eu não mexo nessa máquina, preciso me atualizar mais.
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  — Mãe, você dominou os aplicativos do celular tão rápido, logo vai se apaixonar pelo canvas. — garantiu ele — E o que está colocando aí?
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  — Hum… — movi a barra lateral mexendo as páginas para mostrar — Eu montei essa capa aqui, e depois coloquei meu currículo para assim ir adicionando as minhas redações, só preciso que me ajude a encontrar imagens bonitas e de qualidade para colocar de ilustração. — fui explicando a ele meu progresso — Sophie disse que é bom ter imagens.
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  — Pinterest. — disse ele
  — E o que seria?
  — É uma rede social de compartilhar imagens e fotos, as pessoas postam de tudo um pouco. — explicou ele pegando o mouse e indo na aba de favoritos — Acho que dá pra encontrar imagens boas lá, mas você pode fazer as suas, das receitas que já fez. O que acha?
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  — Tenho que decidir quais redações colocar primeiro, preciso terminar até terça que vem que é quando a Genevieve volta. — soltei um suspiro fraco.
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  Não me lembrava onde tinha colocado minhas redações da escola, talvez estivessem na casa dos meus pais. 
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  — Hoje é sexta ainda, vai dar tempo. — disse ele se afastando — Eu tenho treino agora a tarde, acho que vou chegar á noite.
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  — Treino de que? — perguntei confusa.
  — Eu entrei para o time de basquete lembra? Pra evitar o sedentarismo, tenho que praticar esportes. — explicou.
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  — Ah, verdade. E a Molly? Ainda não apareceu aqui. — estranhei sua ausência.
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  — O papai apareceu e levou ela para almoçar. — respondeu ele num tom amargurado — Ele me convidou também, mas não quis.
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  — Carl deveria ter me ligado perguntando se podia, só porque não nos divorciamos oficialmente ele não pode agir assim, Molly é minha responsabilidade agora, a guarda de vocês vai ser minha. — eu me levantei da cadeira — Vou ligar para ele.
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  Ele assentiu e se sentou na cadeira em meu lugar. Saí do seu quarto já tirando o meu celular do bolso e entrei no meu quarto, fechando a porta. Digitei seu número e esperei que atendesse.
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  — ?! — disse ao me atender.
  — Joseph me disse que pegou a Molly na escola, deveria ter me ligado. — disse direta e precisa.
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  — Molly também é minha filha, um pai não pode almoçar com seus filhos? — havia um ar de cinismo em sua voz.
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  — Você nunca foi de almoçar com seus filhos. — retruquei dando alguns passos até a janela lateral do meu quarto, que dava vista para casa ao lado.
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  — Mas agora sou, vai se acostumando. — continuou ele.
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  — Não vou me acostumar, em breve assinaremos oficialmente e você terá que agir conforme a lei. — retruquei com segurança.
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  Ele disse mais algumas coisas que não me atentei. Minha atenção estava mesmo do lado de fora, assim que toquei a cortina e observei o que acontecia. Aparentemente o caminhão de mudanças já tinha ido embora, assim como os homens de descarregaram a mudança. Então, somente estava naquela casa, o que explicava o silêncio todo, me perdi um pouco pensando se ele moraria ali sozinho. Pelo que me lembrava da única vez que entrei naquela casa, ela era grande e espaçosa, mesmo parecendo pequena por fora. E o quintal era pouco maior que o meu. Por um breve momento, vi um vulto passar pelo quarto que dava vista para o meu, então me escondi no canto, sentindo meu coração pulsar mais forte. Eu não queria passar uma impressão errada de estar vigiando ele, mas tinha minha parcela de curiosidade.
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  — ?! Você está me ouvindo? — a voz de Carl me despertou.
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  — Sim Carl, te vejo na segunda-feira para assinarmos os papéis. — disse sem dar espaço para conversas e encerrei a ligação.
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  Soltei um suspiro fraco e voltei meu olhar para a porta. Joseph estava encostado me olhando como se desconfiasse de algo.
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  — O que foi? — perguntei.
  — O que fazia espiando a janela? — perguntou ele.
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  — Estava me espionando? — coloquei a mão na cintura — Joseph?!
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  — Não, eu vim dizer que ia esquentar o almoço. — explicou ele — Mas estou curioso, você já conheceu o novo vizinho?
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  — Pare de interrogar sua mãe e vá para a cozinha. — disse me movendo até ele — Vamos almoçar.
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  — Foi só uma pergunta, quando saí para a escola tinha um caminhão parado aí na frente, agora não tem mais. — explicou ele indo em direção as escadas — Não viu nada?
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  — É, compraram a casa ao lado e já digo que vamos ouvir barulhos de reforma, então vai se acostumando com a nova realidade. — o segui, agindo naturalmente como se não soubesse de muita coisa.
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  Bem, eu não sabia mesmo, mas…
  — O que falou com o papai? — perguntou ele.
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  — Não é você o espião? Pensei que tivesse ouvido. — brinquei.
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  — Não tudo. — ele riu junto — Ele disse onde estava com a Molly?
  — Não, mas a partir de segunda, ele terá que me dar toda satisfação que eu quiser. — garanti.
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  — Vocês vão assinar os papéis definitivos na segunda? — ele terminou de descer as escadas e me olhou.
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  — Sim, a partir de segunda você terá pais divorciados. — confirmei — E se Deus quiser, na terça você terá uma mãe quase jornalista.
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  Sorri de leve e ele sorriu de volta.
  — Estou torcendo por isso. — ele seguiu na frente e entrou na cozinha.
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  Eu caminhei até o sofá e ajeitei a manta de crochê que jogava por cima, afofei as almofadas e juntei os livros que tinha deixado em cima da mesa de centro, colocando-os na estante. Era sempre assim, toda vez que arrumava a casa, deixava algo para trás e só percebia duas horas depois. Passei meus dedos pelos livros e me lembrei que tinha tempos que não colocava minha leitura em dia, ler ajudava a refinar minhas habilidades de escrita, e tinha visto alguns livros usados em uma livraria/sebo perto do estúdio da Sophie. Segui para a cozinha e Joseph já se encontrava usando meu avental de poá rosa, improvisando algumas coisas no fogão.
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  — Hum… Estou começando a acreditar que você está tramando algo. — comentei me aproximando dele e olhando para a panela — Primeiro aparece fazendo o café e agora improvisa o almoço. Tem alguma garota na jogada?
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  — Mãe?! — ele me olhou estranhando minha insinuação.
  — Pelo que conheço dos homens, que não é muito, quando aprendem algo novo é para impressionar alguém. — cruzei os braços e o olhei — Então, quem é?
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  — Quero impressionar a minha própria mãe. — respondeu — Mostrar que posso ajudar e que não está sozinha. Satisfeita?
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  — Joseph. — sussurrei.
  — Sou o homem da casa agora, não posso te deixar carregar o peso sozinha. — seus olhos marejaram um pouco.
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  — Querido. — eu o abracei de leve — Estou feliz por se preocupar comigo, mas eu sou a mãe aqui, então se quer me ajudar, continue sendo o bom filho que é e levando a Molly para a escola.
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  — Quero fazer mais que isso mãe. — ele me olhou sério.
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  — Joseph, você ainda é uma criança, de 16 anos, mas uma criança, deve crescer a seu tempo. — pisquei de leve para ele — E quanto a cozinhar, estou feliz por se interessar.
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  — Bem… Tem outro motivo.  —ele desviou o olhar para a panela.
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  — Qual? 
  — Quando eu fizer 18, estou pensando em morar sozinho e me mudar para Seoul, lá é o ponto central das melhores equipes de LoL. — explicou ele.
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  — Você quer morar do outro lado do mundo? — agora estava surpresa.
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  — Você me disse para seguir meus sonhos. — vi um brilho incomum em meus olhos.
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  — Se é assim, posso te ensinar a fazer mais que panquecas e risoto de frango. — sorri para ele.
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  — Te amo mãe. — ele me dei um beijo da testa e voltou sua atenção para o fogão.
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  Mantive meu sorriso na face. Eu tinha um filho incrível. Me afastei dele e me sentei na cadeira, fiquei observando ele se movimentar enquanto terminava de preparar seu almoço improvisado. Tirei o celular do bolso e desbloqueei a tela, tinha algumas notificações de postagens da Sophie no instagram. Minha amiga era uma professora de dança muito famosa nas redes sociais, e estava se especializando em coreografia para enfim realizar seu sonhos de trabalhar como coreógrafa grandes artistas. Eu tinha o exemplo dela que provava que um casamento não parava sua vida, mas é claro que o fato dela não ter filhos ajudava muito. Ainda que juntos, tanto ela como o Will tinham sua liberdade de ir e vir sem preocupar. 
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  — Bom apetite. — disse Joseph me despertando de meus pensamentos, ao colocar a panela em cima da mesa e acomodar os pratos também — Me diga se eu passei no teste.
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  — Hum… — me servi do risoto dele.
  Como no caso da panqueca, o cheiro estava convidativo. Deu a primeira garfada e saboreei a comida. Meu filho tinha talento também.
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  — Super aprovado. — sorri para ele — Ficou muito gostoso.
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  — Também achei. — concordou ele ao provar — Eu já ia me esquecendo, meu amigo Simon me convidou para passar as férias de verão no chalé da família dele. Posso ir?
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  — Onde é esse chalé?
  — Acho que em uma cidade do estado de Oregon. — respondeu ele.
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  — E você vai sobreviver sem internet? Jogos?
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  — Lá tem sinal. 
  — Se você quiser ir, tem minha autorização. — assegurei — E não se preocupe com seu pai, com ele me entendo eu.
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  — Você é a melhor mãe do mundo. — ele sorriu.
  Depois do almoço Joseph retornou para a escola, para suas aulas extras. Eu fiquei encarregada de lavar as vasilhas sujas, me coloquei diante da pia munida do meu avental de poá e iniciei. Fiquei um tempo em silêncio até começar a cantarolar a trilha sonora do desenho Tarzan, algo que começou aleatoriamente. Elevei meu olhar para a janela por um momento e senti meu corpo congelar. Lá estava o vizinho no centro da cozinha com uma xícara em sua mão, me olhando. Será que ele estava me observando a muito tempo? Eu voltei meu olhar para as vasilhas e terminei rapidamente, então me afastei, com o coração acelerado.
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  Ao final da tarde, Carl levou Molly para casa. Não trocamos nenhuma palavra, ele ficou na porta, assim que nossa filha despediu, eu fechei em sua cara. Molly parecia feliz por ter passado o dia com ele, algo que me deixou ainda mais intrigada. Pedi para que ela fosse para o quarto tomar banho, enquanto isso eu ligaria para algum serviço delivery, nada de ir para o fogão cozinhar. Joseph também não demorou para chegar, fizemos nossa refeição meio em silêncio. Eu não queria perguntar o que tinha acontecido no almoço de Molly, por mais que estivesse muito curiosa.
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  — Mamãe. — disse Molly assim que a coloquei na cama.
  Mesmo já crescida e com 10 anos, ela ainda tinha um leve costume de me pedir o beijo de boa noite.
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  — Sim?! — a olhei.
  — Não vai me perguntar sobre hoje? — indagou ela.
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  — Você quer contar?
  — Acho que sim, papai disse para te contar.
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  — Porque o papai falou isso? — perguntou Joe aparecendo na porta do quarto.
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  — Pra mamãe saber que ele não fez nada de errado. — explicou ela.
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  — Hoje de tarde foi um momento seu com seu pai, não precisa me contar. — disse com um tom gentil e carinhoso — Você gostou de ter passado a tarde com ele?
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  — Sim, eu acho.
  — Isso é o que importa. — sorri para ela e beijei sua testa.
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  Então me afastei de sua cama.
  — Boa noite querida. — desliguei a luz do quarto.
  — Boa noite mamãe. — ela sorriu de leve.
  — O que papai quer? — perguntou Joseph.
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  — Eu não sei meu filho, mas vamos viver nossa vida.
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  Eu beijei de leve seu rosto e segui para meu quarto, antes de entrar pedi para que não ficasse a noite toda jogando. Assim que entrei e fechei a porta, coloquei o pijama e me deitei. Foi estranho inicialmente dormir sozinha, mas depois de semanas já estava me acostumando. Carl nunca foi um marido presente desde o nascimento da Molly, então já estava mais do que acostumada a ficar sozinha. Na manhã seguinte, acordei um pouco mais cedo do que gostaria, ouvindo o barulho vindo da casa ao lado. Será que as reformas começariam em pleno sábado? Ele podia ter deixado para mais tarde. Cobri a cabeça e virei para o canto, apertei os olhos tentando voltar a dormi. Rolei mais um pouco na cama até me levantar, já que não conseguiria pegar no sono, então iria iniciar meu dia indo mais cedo a cafeteria. Até ter um emprego fixo, eu tinha o acordo de fazer as panquecas todos os dias. Mais horas trabalhadas, mais dinheiro no bolso, e consequentemente mais contas pagas.
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  Assim que cheguei, cumprimentei Finn e fui direto para a cozinha. Carmen já estava com seu avental a minha espera, ela era a outra cozinheira que trabalhava lá fazendo os outros pratos do cardápio. Afinal, minha função era única e exclusiva de fazer as famosas panquecas especiais. Coloquei meu avental caseiro que sempre levava comigo e lavei as mãos, os ingredientes já previamente separados por Carmen me aguardavam. Minha mania de cantarolar enquanto cozinhava já tinha caído nas graças de Carmen, que geralmente me acompanhava quando sabia a música. A Liberdad Café abria pontualmente às 8 da manhã, e meu expediente ali se estendia até as 11.
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  — . — disse Finn ao entrar na cozinha.
  — Sim?! — eu voltei meu olhar para ele, já estava terminando mais uma remessa de pedido — Algum problema?
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  — Tem um cliente que insiste em te agradecer pela panqueca. — disse ele.
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  — Sério? Mas… Acho que não é necessário.
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  Ele me olhou meio na dúvida também. Eu limpei a mão no pano de prato e me aproximei dele. Finn apontou para o jovem rapaz sentado próximo a caixa registradora. E mais uma vez fui pega pela surpresa assim que meu cérebro se deu conta que o jovem era o novo vizinho. O que ele fazia ali? Bem, é um pouco óbvio pois sua casa estava caindo aos pedaços então nem mesmo uma cozinha ele tinha. E será que sabia cozinhar? Meu coração palpitou de leve, e estranhei sentir um frio na barriga. Engoli seco e caminhando em lentidão, me aproximei dele.
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  — Bom dia. — disse em cumprimento.
  — . — ele me olhou normalmente, sem nenhuma surpresa em me ver.
  Espera… Ele lembrava o meu nome. Uau.
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  — Me disseram que gostou da minha panqueca. — comentei, mantendo minha face suave, sem muitas reações.
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  — Sim, ela é mesmo muito especial. — ele sorriu de forma fofa e gentil — A melhor que já provei até hoje.
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  — Fico feliz por isso.
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  — Muito obrigado pelo café da manhã. — sua voz soou como se eu tivesse preparado somente para ele.
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  — Disponha, eu preciso ir. — me afastei um pouco para voltar.
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  — Espera. — disse ele.
  — Sim? — eu o olhei.
  — É que, antes de vir tomar o café eu subi no telhado e… Observei que a sua calha está cheia de folhas. — ele parecia escolher as palavras como se precisasse encontrar um motivo forte para falar.
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  — Ah… Eu imagino que sim. — soltei um suspiro — Eu ando com os meus dias tão ocupados que não contratei ninguém para…
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  Ocupados, significa sem dinheiro.  Aquele era um dos poucos deveres do Carl, e como já não existia mais ele naquela casa.
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  — Posso limpar para você. — se ofereceu sem cerimônias.
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  — Eu não tenho como retribuir. — disse abertamente.
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  — Das próximas vezes, basta colocar mais geléia para mim. — disse se referindo às panquecas.
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  Próximas vezes? Será que ele frequentaria regularmente a cafeteria?
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  — Serão ainda mais especiais. — não me contive em sorrir, por gratidão.
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  O olhar dele me constrangia um pouco. Ao mesmo tempo que era intenso, passava um ar de mistério e segurança. Eu voltei para a cozinha e continuei meus afazeres. Às 11 em ponto, encerrei tudo e recebi o valor das minhas horas trabalhadas. Ao chegar em casa guardei o dinheiro na caixa de sapatos no fundo do guarda-roupas. Ali era meu cofre escondido, onde deixava até minhas contas para lembrar da responsabilidade de ser um adulto com filhos. Após o almoço, me dispus a brincar com Molly no quintal dos fundos, montamos um mini estúdio de desenho, onde eu era a modelo e ela a artista. A cada desenho que ela me mostrava, gerava ainda mais gargalhadas, as quais atiçaram a atenção do vizinho que estava em nosso telhado limpando a calha.
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  Era estranho ver outro homem fazendo isso, mas um estranho bom. Por mais que eu tentava não olhar, me pegava o observando discretamente de tempos em tempos. Assim que ele desceu, olhei para o relógio em meu pulso, já batia cinco da tarde, tínhamos passado muito tempo em nossa brincadeira.
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  — Terminei. — disse ele ao se aproximar de mim.
  — Muito obrigada, de novo. — sorri de leve e desviei o olhar para minha filha — Molly querida, vamos juntar tudo e guardar, já está ficando tarde.
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  — Sim mamãe. — ela começou a juntar os papéis.
  — Eu queria… 
  — Sim?!
  — Como eu te disse antes, comecei a minha reforma hoje, e a cerca…
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  — Você quer trocar?
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  — Sim, está mofada do outro lado. — explicou ele.
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  — Bem, sem problema, me diga quanto vai ficar que eu ajudo com a metade do dinheiro. — me disponibilizei por cordialidade.
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  E claro que eu não teria esse dinheiro. Talvez se pedisse um empréstimo, que certamente sairia o dobro no final pelos juros, mas.
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  — Não precisa me ajudar com dinheiro. — disse ele.
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  — Não?
  — Tenha como uma bonificação pelo barulho que farei todos os dias. — ele sorriu meio sem graça.
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  — Tudo bem então.
  Eu poderia respirar aliviada? Sim e tentei ser discreta nisso. Desviei meu olhar dele para Molly que carregava quase tudo para dentro.
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  — Eu preciso entrar. — disse me afastando dele.
  — Claro. — ele deu alguns passos até a abertura que tinha feito da cerca — Boa noite.
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  — Boa noite.
  Segurei meu coração o quanto pude. Como podia um homem ser tão charmoso com tão pouca idade? Confesso que sempre tive uma queda por homens mais velhos. Carl era alguns meses, mas era mais velho que eu. Mas tinha algo especial. Bem, olhando assim, meu filho Joseph também conseguia aquela façanha. Ele passou pela abertura e eu entrei em minha casa. Quando cheguei lá dentro, tanto Molly quanto Joe estava de braços cruzados me olhando desconfiados.
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  — Seja lá o que estiverem pensando, parem agora. — os repreendi antes de qualquer comentário.
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  — Não estamos pensando nada. — Molly tombou a cabeça dando um sorriso sapeca.
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  — Molly! — a olhei.
  — Então pediu ao nosso vizinho para limpar a calha? Você tem um filho sabia? — Joseph parecia chateado.
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  — O meu filho tem medo de altura sabia? — retruquei meio sarcástica.
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  — Todo medo pode ser perdido. — disse emburrado.
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  — Da próxima vez, você limpa então. — ri de leve — Que tal pizza de novo? 
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  — Eu pensei na sessão pipoca e maratona Harry Potter. — sugeriu Molly.
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  — Fechado. — disse indo até eles — Vou tomar um banho primeiro e você também mocinha.
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  — Eu faço a pipoca. — se ofereceu Joe.
  No domingo, a cafeteria não abria, afinal todos merecem um dia de descanso. Acordei pela manhã esperando ouvir o barulho da reforma ao lado, mas para minha surpresa estava silencioso demais. Troquei de roupa e desci para a cozinha, preparar o café. Aos poucos comecei a ouvir vozes vindo do quintal. Molly ainda estava dormindo, pois tinha passado por seu quarto e a vi esparramada na cama. Será que Joseph tinha chamado algum amigo para o café? Caminhei até a porta e vi ele conversando com . Senti um aperto no coração, seguido de curiosidade. Sobre o que estariam conversando? Me perdi no tempo ao observá-los. Em um piscar de olhos, ele se distanciaram e Joe seguindo em direção a porta, eu me afastei e fui abrir a geladeira. Assim que ele entrou, mantive minha atenção na geladeira, fingindo pensar no que fazer.
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  — Mãe, bom dia. — disse ele.
  — Bom dia querido.
  Me mantive em silêncio retirando os ingredientes de dentro da geladeira. O olhei discretamente, ele parecia segurar o riso. 
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  — Sem panquecas hoje?!
  — Hoje teremos ovos mexidos com bacon, para variar. — anunciei.
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  — Que bom que eu não convidei o vizinho para o café então. — comentou ele.
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  No susto causado por suas palavras, quase deixei a caixa de leite cair.
  — Por que você o convidaria? — o olhei.
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  — Em agradecimento pela calha. — explicou ele com um olhar analisador.
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  — Ah… — tentei me fazer a indiferente e voltei minha atenção para o fogão.
  Eu não podia demorar muito no preparo do café. Naquele domingo nossa parada para o almoço seria na casa de Sophie. E sempre que eu almoçava lá, tinha que chegar antes e ajudar minha amiga no preparo. Ela era um desastre no fogão. 
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  — Bom dia mamãe, bom dia Joe. — disse Molly ao entrar na cozinha.
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  — Bom dia pequena. — respondeu Joseph.
  — Bom dia querida. 
  — Mamãe, decidi participar do concurso de talentos da escola. — disse ela num tom mais do que empolgado.
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  — Vivaaaa. — sorri de leve para ela — E qual talento vai mostrar?
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  — Estou pensando em mostrar meu estilo arrasador de dança. — respondeu.
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  — Mas faz tempo que você não faz ballet com a tia Sophie. — comentou Joe.
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  — Tia Sophie disse que iria me ajudar com a coreografia, vou misturar ballet e hip-hop.
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  — Olha só, ela dança, eu danço. — brinquei.
  — Isso mesmo mamãe, eu vi o filme e fiquei fascinada pra fazer igual.
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  — Vai ter que começar a ensaiar logo então. — aconselhei ela.
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  — Vou a partir de amanhã, com mais duas amigas. — ela se sentou na cadeira — Posso ensaiar na casa delas após a aula?
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  — Isso vai interferir nas lições de casa? — perguntei.
  — Vou fazer todas eu prometo. — ela levantou a mão direito em juramento.
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  — Ok, está liberada então, mas na volta seu irmão te busca. — olhei para ele — Você faria isso?
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  — Para ajudar a miss joaninha? Claro que sim. — ele sorriu e brincou — Eu já falei que deveriam mandar essa menina para o Disney Channel e ganhar dinheiro com ela. Ninguém me ouve.
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  — Quem sabe. — eu ri.
  — Te garanto que eu serei a próxima Hannah Montana. — disse ela animada.
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  — Uau, nossa estrelinha tem potencial. — a incentivei.
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  Mesmo com seu amor por desenhar, Molly insistia no sonho de ser uma dançarina atriz. Eu não sabia o que fazer para ajudar e se esse sonho era mesmo real ou passageiro. Mas se precisasse, eu realmente iria apoiá-la até o final, e ajudar a não se perder nesse mundo obscuro que é das celebridades. Após o café, seguimos para a casa da Sophie. Molly e Joseph continuaram a trocar figurinhas no carro sobre eu ter filhos talentosos. 
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  — Ai amiga já estava ficando maluca sem saber o que fazer para o almoço. — disse Sophie assim que eu apareci na cozinha.
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  Will tinha aberto a porta para nós.
  — Estou vendo seu nível de desespero, tirou tudo da geladeira. — comentei. 
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  Apontei para a bancada de preparo e parecia que o supermercado tinha descarregado toda aquela comida.
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  — Não fala assim. — ela fez bico — Eu não sou boa com isso.
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  — Isso que dá ter um marido rico e médico, se acostuma a comer em restaurantes. — brinquei com ela.
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  — Ele se casou comigo, sabendo que eu não sei cozinhar, casou porque quis. — retrucou ela.
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  — Casei porque te amo sua ingrata. — disse Will da porta com cara fechada — Não me importa se sabe cozinhar ou não, eu sempre cozinho para você.
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  — Will. — seus olhos encheram de brilho e ela seguiu até ele — Eu te amo.
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  — Agora você me ama. — ele sorriu de canto e a beijou.
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  — Vocês dois. — ri deles.
  Para mim, formavam o melhor casal do nosso círculo de amigos, ambos eram um misto de amor e ódio desde os tempos do colégio. Fanfic que fala?! Ri um pouco mais ao pensar isso.
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  — Que tal algo simples de rápido? — sugeri.
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  — Como o que? — perguntou ela.
  — Tabule, rosbife e purê de batata. — disse — E como sei que não tem trigo aqui, eu trouxe de casa.
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  — Por isso que eu amo quando vem almoçar aqui. — ela sorriu.
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  — Cretina. — disse a ela, eu olhei para Will — Considere hoje seu dia de folga e vai para sala, Joseph com certeza está com a mão coçando para jogar FIFA com você.
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  — Estou mesmo. — gritou meu filho da sala.
  — Viu. — reforcei.
  Will bateu em continência e saiu da cozinha.
  — Sempre me divirto com vocês dois quando venho aqui. — continuei rindo e retirei o pacote de trigo da bolsa.
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  — Que bom que te proporcionamos isso. — ela riu junto.
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  — Vamos então senhora Tenebrae, coloque seu avental lave as mãos e vamos fazer este almoço.
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  — Sim chefe Miller. — assentiu ela — Hum… Me tira uma curiosidade.
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  — Diga. — me coloquei em frente a bancada escolhendo o que deixaria lá e o que ela guardaria na geladeira.
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  — Freya por um acaso quando a vi no supermercado hoje de manhã, comentou sobre ter visto o vizinho limpando sua calha. — iniciou ela — Você esqueceu de me contar algo?
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  Suspirei alto.
  — Então Sophie, não que eu tenha esquecido, só não consegui te ligar. — expliquei — E como viria aqui hoje… Mas que fofoqueira a Freya.
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  — Querida, pelo que reparei ela tem secado esse vizinho e tanto.
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  — Nem parece que acabou de se casar. — fui passando os sacos de verduras para que guardasse.
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  — Querida, Freya está no sexto casamento, já estou esperando pela festa do divórcio que ela sempre dá. — comentou ao abrir a geladeira.
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  — Credo, não acredito que está falando assim, não tem graça em ver um casamento terminado. — a repreendi.
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  — Eu sei que não, mas no caso dela, todos foram por conveniência né.
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  — Errada você não está.
  — Tá, mas voltamos ao assunto importante, por que motivo ele fez isso?
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  — Então, ontem de manhã ele foi na Liberdad Café, e comeu a panqueca especial.
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  — Sério?
  — Sim… E para te deixar mais surpresa, ele pediu para que me chamasse pois queria agradecer pessoalmente pelo café da manhã. 
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  — Chocada.
  — Foi aí que ele falou que tinha visto a minha calha suja, quando subiu no telhado dele, e se ofereceu pra limpar.
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  — E você aceitou de imediato. — supôs ela.
  — Não, eu disse que não tinha como pagar ele.
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  — E ele disse que poderia te beijar em troca? — ela deu um sorriso malicioso.
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  — Para de ler fanfics Sophie.
  — Não custa sonhar… Já quero shippar vocês dois, me deixa. — ela fez bico.
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  — Para de delírios amiga, eu ainda sou casada pela lei.
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  — Daremos um jeito nisso amanhã.
  — E mesmo se não fosse, eu não quero nada de relacionamentos agora, percebi que preciso cuidar de mim mesma, da minha sanidade mental, em meio essa reviravolta que sofri.
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  — Ok. — ela fez um olhar de tristeza — Mas não vai nem rolar um agradecimento a ele?
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  — Ele disse que em troca eu poderia colocar mais geléia na panqueca dele.
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  — O que significa que ele vai continuar indo a cafeteria.
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  — O que deduzi também.
  — Estou chocada, a mão da fanfic até treme. — brincou ela — Será que posso escrever uma com essa história?
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  — Nem começa com suas invenções. — ri dela ao abrir o pacote de trigo — Vamos nos concentrar nesse almoço.
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  — A gente trabalha com as mãos e com a boca também, tenho fofocas para contar.
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  Minha amiga não tinha jeito mesmo. Como eu havia dito, não foi algo demorado e no final, Sophie aprendeu mais uma receita que ela não faria sozinha, com certeza. Chegando em casa já de noite, disse as crianças para irem dormir e me tranquei em meu quarto, senti meu corpo tão cansado que só deu tempo de tomar uma ducha e cair na cama. Na manhã seguinte, já acordei com o barulho do vizinho e sua reforma. Saí cedo de casa e cumpri meu horário na cafeteria. Marquei um almoço com Sophie, ela iria me acompanhar na assinatura oficial do divórcio.
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  Aquele dia seria lembrado como divisor de águas em minha vida.
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“Vivendo somente pela razão,
Está ideia amadureceu você?”

– The Boys / Girl’s Generation

4. NT Post

  Acordei na terça feira ansiosa, empolgada e ao mesmo tempo estranha.
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  Em breve eu completaria as primeiras 24 horas divorciada. Uma nova realidade nascia para mim e eu teria que me adaptar ainda mais a isso, não só por meus filhos, mas por mim mesma. Eu tentava me mostrar durona e firme diante deles, mas meu travesseiro sabia as lágrimas que eram derramadas nele à noite. Eu superaria? Sim, aos poucos, sim. Mas não seria fácil. Amar uma pessoa por tanto tempo e terminar como terminou, curar meu coração seria o passo mais importante a ser dado por mim. E me esforçar para isso, para quando eu me lembrar disso, não sentir mais dor, não sentir nada, apenas agradecer a Deus por ter superado e seguido em frente.
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  Após sair da cafeteria, passei em casa rápido para tomar uma ducha e me aprontar para a entrevista. Joseph tinha finalizado meu portfólio na noite anterior e salvo em PDF. Já que agora é tudo digital, eu salvei o arquivo no celular para enviar a Genevieve durante a entrevista. Coloquei um terninho azul marinho desta vez, prendi o cabelo com uma gominha de Molly que encontrei rodando por meu quarto e peguei a bolsa preta, joguei o celular e a carteira dentro.
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  — Hum — parei em frente ao espelho e fiquei me olhando, mesmo que a maquiagem escondendo minhas olheiras causadas pelas lágrimas, meu olhar abatido era visível —, preciso melhorar isso, ando tão desanimada.
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  Sorri para meu reflexo tentando melhorar a situação e ajeitando a bolsa no ombro, saí do quarto em direção a porta da sala. Sophie me esperava na rua, dentro do carro. Claro que a atenção da minha amiga não estava em mim, tanto que nem reparou na minha roupa. Antes de entrar no carro, olhei involuntariamente para a casa do vizinho, ainda não me acostumei a chamá-lo pelo nome: . Ele estava em cima do telhado, dando algumas marteladas, só então que observei que era reforma de um homem só. Todos os dias ele era o único a trabalhar ali, o que me levou a imaginar que o barulho seguiria por um longo tempo.
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  Entrei no carro e seguimos para um restaurante recomendado por Sophie, a entrevista tinha sido marcada em plena hora do almoço. Genevieve já nos aguardava e nos recebeu com muita educação.
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  — Que bom que veio também, Sophie. — disse ela com um sorriso singelo no rosto. — Quero agradecer pela indicação, e dizer que recebi seu portfólio e já dei uma olhada, estou ainda mais impressionada com sua habilidade de escrita.
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  — Se eu fosse comparar com The Sims, diria que a já chegou no nível 10 de escrita — elogiou minha amiga sem medo.
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  — E eu tenho que concordar. — Genevieve me olhou. — Passei o olho no seu artigo sobre as combinações na culinária e fiquei impressionada.
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  — Agradeço o reconhecimento, apesar de ainda me manter preocupada com a falta de certificação — disse meio tímida.
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  — Ah, nem sempre um diploma diz alguma coisa, tenho vários funcionários autodidata em meu jornal. — garantiu Genevieve. — E já vejo que você fará sucesso no caderno da mulher.
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  — Eu não iria falar somente sobre culinária? — perguntei.
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  — Inicialmente sim, mas você tem potencial para mais. — explicou ela. — Mas aos poucos vou te orientando melhor, o caderno da mulher compõe artigos e colunas sobre vários assuntos, podemos fazer um teste inicial com você à frente da coluna culinária, e quando se sentir mais segura, poderá escrever sobre outras coisas.
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  Em suas palavras parecia fácil. Mas céus, era muita responsabilidade. Eu daria conta? Assenti com um sorriso.
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  — Estou ansiosa para ler o jornal agora — disse Sophie.
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  — E você pode escolher trabalhar home office, se não quiser ir para a redação — completou Genevieve.
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  — Eu prefiro, sim, ir para a redação, gosto de separar as coisas, acho que se ficasse em casa, não me concentraria — expliquei.
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  Um dos motivos: o vizinho.
  — Começo quando? — essa era a pergunta.
  — Deveria perguntar quanto vai ganhar — reclamou Sophie.
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  Genevieve riu.
  — Bem, respondendo sua pergunta, você começa amanhã, pode escolher trabalhar na parte da manhã ou da tarde, Sophie me disse que queria um trabalho de meio período, e como o caderno da mulher sai toda quarta e sábado, terá tempo para deixar tudo preparado. — ela olhou para minha amiga. — E respondendo a sua pergunta, apesar de meio período, o trabalho é dobrado, os dois primeiros meses vai receber o mesmo que um estagiário, por estar em período de experiência, depois, receberá como um profissional.
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  Ela retirou o papel da bolsa e escreveu nele os valores. O que deixou Sophie impressionada.
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  — O NT Post é o terceiro jornal mais vendido do país, por isso, costuma ser muito generoso com seus funcionários, principalmente os que se destacam — disse ele como uma motivação.
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  — Eu já estou grata pelo emprego, asseguro que vou me dedicar bastante.
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  — É o que nós esperamos. — ela sorriu para mim. — Não se preocupe, terá uma equipe muito qualificada e competente trabalhando com você.
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  — Agradeço.
  Continuamos a entrevista em meio ao almoço, bem foi mais um bate papo com ela contando alguns casos que aconteceu na redação.
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  Chegando ao dia seguinte, meu coração acelerou de ansiedade ao entrar no prédio da redação. Senti minhas pernas mais bambas que no primeiro dia do ensino médio. Uma jovem ruiva com cara de colegial estava parada na recepção com uma plaquinha escrita meu nome. Me aproximei dela ainda receosa.
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  — Oi — disse num tom baixo.
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  — Você é a ?
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  — Sim.
  — Prazer, eu sou a Beth, assistente da sua equipe — ela esticou a mão em cumprimento.
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  — Minha equipe tem uma assistente — apertei sua mão e sorri de leve.
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  — Este é seu crachá, nós ficamos no sétimo andar, vem comigo, vou te mostrar tudo — ela parecia mais empolgada do que eu.
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  — Vamos lá — disse pegando meu crachá.
  Ela me foi uma boa guia turística naquele primeiro dia. Ao chegarmos ao sétimo andar, uau, me deparei com o fluxo intenso de um escritório de redação. Pessoas de um lado para outro, estações de trabalho cheia de papéis e copos de café do Starbucks, post its pregados nos vidros de divisória e monitores de computador, quadros de avisos cheios de recados. E eu entraria naquele universo a partir de hoje.
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  — Vem, , nossa estação de trabalho fica ao lado da janela, temos uma vista privilegiada — disse ela indo na frente.
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  — Isso é bom — a segui observando tudo ao meu redor.
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  Estava um pouco nervosa pela nova rotina? Sim. Intimidada por ter pessoas mais experientes que eu ali? Com certeza. Mas não deixaria isso me travar nenhum pouco, daria o meu melhor e trabalharia muito para mostrar minha capacidade. Ainda mais, seria uma boa profissional para orgulhar meus filhos.
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  — Essas são as colunistas da nossa equipe, Sunny de moda, Lizzy de saúde e Hill assuntos do cotidiano. — apresentou Beth apontando para cada uma delas. — Girls, essa é , nossa colunista de culinária.
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  — Boa tarde — disse.
  — Olá — Sunny desviou seu olhar rapidamente para mim e sorriu de forma meiga.
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  A garota parecia tímida, com seus traços asiáticos e óculos de nerd. Notei que seu cabelo estava preso por uma caneta, ela usava uma blusa de moletom escrito EXO. Acho que já tinha ouvido Sophie falar de um grupo de mesmo nome, minha amiga e suas histórias de aprendizado com suas alunas.
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  — Uau, você não é tão velha quanto eu imaginei. — Lizzy jogou seus cabelos loiros para trás e me olhou de cima em baixo. — Mas precisa ser menos formal se quer trabalhar aqui, mais casual, eu diria.
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  Sim. Informal. Só agora que eu tinha reparado que ninguém ali estava vestindo roupas formais. Todos pareciam confortáveis com seus jeans rasgados, calças largas, regatas, t-shirts, e vestidos florais. Lizzy mesmo vestia uma jardineira de jeans na cor preta, com uma blusa amarela por baixo e um All Star nos pés.
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  — Não liga para ela, . — Hill sorriu também e pegou uma caixa que estava sobre a mesa dela. — Lizzy adora implicar com os novatos.
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  Hill tinha traços latinos interessantes e um sotaque de quem tem o espanhol como língua materna. Admirei brevemente seu vestido floral azul claro com um cintinho preto e a sapatilha bege.
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  — A redação tem muitas pessoas jovens, não é? — comentei.
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  — Fala como se fosse uma senhora de 45 anos. — Beth me olhou curiosa. — Você tem essa idade? Se tiver, usa produtos Ivone, né?
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  As meninas soltaram uma risada com isso, e eu fiz o mesmo.
  — Não, não tenho 45 anos, tenho 33 — respondi.
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  — Pode ficar feliz, mana, você não é a mais velha. — Lizzy piscou de leve. — Nós temos o Osvald, do caderno de esportes, ele tem quanto mesmo? 54?
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  — 42 — corrigiu Sunny.
  — Legal, não vou me sentir a tia do andar — brinquei.
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  — Nós não somos tão novas assim também. — declarou Hill. — Eu tenho 29.
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  — Eu tenho 25 — disse Sunny.
  — Eu tenho 27. — comentou Lizzy. — Entrei atrasada na faculdade de nutrição e aqui estou trabalhando só de meio período por isso.
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  — Estuda de manhã?
  — Sim, na NY University, é pública e barata.
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  — Uau — estava impressionada.
  De certa forma, me senti meio motivada.
  — Eu é que sou a mais nova, tenho 21 — disse Beth.
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  — Por isso é a assistente — brincou Lizzy.
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  — Não é por isso — Beth bufou.
  — Será um prazer trabalhar com vocês — sorri de leve.
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  Me sentei na mesa ao lado de Hill, de frente para Lizzy. Beth não tinha uma mesa própria, pois estava sempre se movendo de um lado para o outro entre as mesas da nossa estação. Foi divertido e acelerado aquela tarde, pegar o ritmo do trabalho, decorar as senhas do servidor, preencher a papelada do RH, ler as últimas edições do caderno da mulher. Muita coisa para o primeiro dia. Ao final do expediente, encontrei Sophie na recepção me esperando. Segundo ela, só valeria esse recomeço se eu saísse para comemorar meu primeiro dia de emprego. Não tive como recusar, já que ela chamou as meninas da minha equipe também. Nossa parada seria no pub de um amigo colorido de Sunny, que parecia mais um friendzone.
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  — Uau, que mulher em sã consciência se casa antes dos 30 hoje em dia? — perguntou Lizzy fazendo uma careta.
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  — A já contou a história dela? — perguntou Sophie.
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  — Não — as meninas me olharam.
  — Casada aos 17.
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  — O quê? — disseram em coral.
  — Eu estava grávida gente. — expliquei. — Se não fosse isso, teria ido para a faculdade.
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  — Uau, corajosa. — Hill me olhou. — Eu interrompi uma por ter medo de não dar conta, meu ex fugiu na hora dizendo que não era dele.
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  — Babaca. — xingou Beth. — Caras assim são todos idiotas.
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  — Concordo — disse Sophie.
  — Mas depois fiquei grávida de outro namorado. — continuou Hill e riu de leve. — Estou enrolando ele a sete anos para aceitar o pedido de casamento.
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  — E você? Qual a história? — perguntou Sophie.
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  — Eu estou repetindo a mesma matéria pela segunda vez por culpa do professor. — disse Lizzy. — Não aguento mais frequentar as aulas dele.
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  Ela já não estava muito sóbria, tinha pedido o drink mais forte. Eu continuei em minha zona de conforto, pedi um coquetel de morango, alguém tinha que ficar sóbria ali.
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  — Está falando do Baker? — perguntou Sunny.
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  — Ele mesmo.
  — Aquele seu professor é um gato — confessou Beth.
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  — Que destroça o coração das alunas. — declarou Lizzy. — Quero me livrar dele.
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  — Agora tá explicado, ela não presta atenção na aula porque fica secando o professor — comentou Sophie entendendo tudo.
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  — É a matéria mais complexa e difícil, ele deveria ser feio, assim eu passaria — Lizzy se debruçou sobre a mesa.
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  — Você deveria se focar mais — alertei ela.
  — Falou a dona de casa que se paralisa quando vê o vizinho da janela — brincou minha amiga.
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  — Sophie, não é assim.
  — Uuuullllll, que vizinho? Compartilha com a gente! — disse Beth.
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  — Você que tem cara de tímida — Hill me olhou desconfiada.
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  — Não aconteceu nada, é só um vizinho novo, deve ter o quê, a idade da Sunny? — expliquei meio atrapalhada.
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  — Você gosta de homens mais jovens? — Sunny me olhou curiosa.
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  — Talvez, não… Eu não sei, acabei de me divorciar do meu primeiro namorado, não tenho resposta para isso — voltei meu olhar para a taça com o coquetel.
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  — Complexo — comentou Lizzy.
  — Meu primeiro namorado já se casou com outra pessoa a muito tempo. — Sunny riu ao mexer no celular. — Às vezes imagino como seria se eu tivesse me casado com ele depois que voltou do exército.
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  — Você ficou com medo? — perguntei.
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  — Não exatamente, só não estava pronta pra abrir mão do meu sonho de vir para NY, e ficar em Seoul como uma mulher casada. — respondeu ela. — Me sinto realizada por trabalhar na Post, graças ao jornal, já viajei para tantos lugares cobrindo tantos eventos de moda.
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  — Por falar em viagem, você bem que podia ter me levado no último NY Fashion Week. — Lizzy fez bico. — Sabe que amo um evento de moda.
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  — Por que não fez moda então? — perguntou Sophie.
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  — Eu também amo nutrição e não sei desenhar tão bem quanto a Sunny — explicou ela.
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  Nós rimos.
  — Bem, ninguém me perguntou, mas eu sou a caloura de publicidade. — disse Beth. — Eu fazia fisioterapia em Princeton por pressão dos meus pais. Tranquei o curso, fugi de casa, comecei o curso de design gráfico em uma escola técnica até que mudei para o Brooklyn e consegui uma vaga na NY University.
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  — Também mora no Brooklyn? — Sophie a olhou animada.
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  — Sim.
  — Você também foi bem corajosa — a elogiei.
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  — Todas nós somos — Beth sorriu.
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– x –

  Os dois meses de experiência passou tão rápido, que quase não consegui acompanhar o andamento da reforma do vizinho. Mas pelo que notei ao avaliar da janela do meu quarto, não tinha evoluído muito. Sábado pela manhã, levantei cedo e ao som das batidas da casa ao lado, no meio do preparo do café das crianças, recebi uma mensagem de Sophie”
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  Menina, não vai acreditar no que descobri.

Hum…

  Me indicaram uma fanfic restrita para ler,
  fui toda inocente, sem saber o que restrita significava,
  menina, quando chegou na parte mais quente
  do relacionamento dos protagonistas, a autora detalhou tudo,
  mais tudo mesmo, eu fiquei assim,
  estou lendo 50 tons de cinza e não sei.

#chocada

  Vai ficar mais ainda quando te contar
  que descobri que a autora tem 13 anos.
  13 anos.

Onde estão os pais dessa garota?

  Vai saber, isso se eles sabem o que é fanfic.
  Mas menina escreve bem demais,
  fiquei impactada.
  quer o link para ler?

Não.
obrigada.
Sophie, estou indo ao Liberdad agora
pare de ler fanfics e vai trabalhar

  hoje é sábado, eu não trabalho.

então vai dormir.

  Bloqueei a tela do celular e guardei na bolsa rindo dela. Corri para a cafeteria. Ao chegar, me deparei com uma fila na porta, certamente esperando por minhas panquecas especiais. Voltei quase na hora do almoço, extremamente atrasada. Por sorte, Joseph já tinha preparado um espaguete vegetariano de dar água na boca. Em suas palavras, uma receita aprendida do Youtube, isso, sim, me impressionou.
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  — Cante uma canção, quando estiver com um problemão, basta começar, cante uma canção… — comecei a cantarolar enquanto eu lavava as vasilhas do almoço.
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  Joseph tinha saído para jogar na casa de um amigo. Molly estava no seu quarto treinando a coreografia para o concurso. Eu tinha achado meio complexa para uma garota de 10 anos, mas Sophie assegurou que nossa miss joaninha precisava de um desafio para se destacar. Em um segundo de distração com pensamentos aleatórios sobre como seria meu primeiro dia de promoção, sendo agora responsável geral pelo caderno mulher, me assustei ao ouvir o barulho de algo se quebrando vindo do quintal. O que será que tinha caído dessa vez? Lavei as mãos e corri para ver o que é. Quando abri a porta, estava no chão trocando socos com outro homem.
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  — Nossa! — disse assustada com a cena.
  Minha presença atraiu a atenção deles, que pararam no mesmo momento. Dei alguns passos para frente e voltei o olhar para a cerca que estava parcialmente destruída. Então o barulho veio daí.
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  — Me desculpe, — disse ele se levantando e olhando para o homem ao lado.
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  — Ah… — o homem pareceu entender o recado e se levantou. — Me desculpe.
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  — Tudo bem, eu tenho uma caixa de primeiros socorros. — falei quase pausadamente, absorvendo a situação. — Me esperem aqui.
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  Eu não deveria ter tido exatamente essa reação, mas foi no impulso. Entrei em casa e fui até o banheiro do meu quarto, peguei a caixa no armário embaixo da pia. Olhei meu reflexo no espelho, no automático minha mão foi até o cabelo, ajeitando-o um pouco e só depois eu percebi o que estava fazendo. Respirei fundo e voltei para o quintal.
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  — Aqui está — disse me aproximando deles.
   estava encostado na mesa que tinha no canto, perto do projeto do que seria a nossa churrasqueira, já o outro homem sentou na cadeira ao lado e ficou me observando.
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  — Não precisava se preocupar, estamos bem — disse , com um corte visível em sua boca.
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  — Estou vendo, você e seu… Amigo?
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  — Este é meu primo, Cedric — apresentou ele.
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  — Prazer — disse ao olhar para ele com o olho roxo e dois cortes pequenos na testa.
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  — Prazer — o homem evitou me encarar muito e desviou o olhar.
  Eu abri a caixa e comecei a limpar os machucados deles. Primeiro de Cedric, que parecia bem pior, e depois do , que mantinha fixamente sua atenção em mim. E isso me deixou meio tímida e um pouco retraída, aquele olhar intenso em mim.
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  — Prontinho — disse ao fechar a caixa.
  — Cedric, poderia nos deixar… — ele olhou para o primo.
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  — Ah, eu vou olhar o ponto hidráulico do lavabo — Cedric se levantou mais que depressa e seguiu até a cerca quebrada.
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   o observou até que ele desaparecesse do nosso campo de visão, então voltou seu olhar para mim. Senti um arrepio estranho no corpo.
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  — Então… Obrigado e me desculpe novamente — disse ele com sua voz firme e grossa.
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  — Eu poderia dizer que estou acostumada com isso, mas… Foi a primeira vez — eu ri de leve, sendo acompanhada por ele.
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  — Eu prometo consertar a cerca até o final da próxima semana. — garantiu ele. — Ainda estou tendo problemas com o encanamento.
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  — Fique tranquilo, você já ia trocar ela mesmo — sorri de leve.
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  — Ainda assim, te causei um leve transtorno — ele coçou a cabeça dando um sorriso fofo de criança que fez coisa errada.
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  — Eu preciso entrar agora — dei um passo para trás.
  — Ah, sim… Eu também tenho que terminar o encanamento da minha cozinha — concordou ele.
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  — Você está mesmo fazendo essa reforma sozinho? — perguntei curiosa.
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  — Sim.
  Era impressionante como ele se mantinha com o olhar fixo em mim, em minhas expressões e movimentos. Seu olhar profundo e intenso. Um olhar que quase hipnotizava e me fazia esquecer o que tinha ao redor.
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  — Se você quer algo bem feito, faça você mesmo — brincou ele.
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  — É um pensamento válido. O seu primo veio te ajudar?
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  — Só por alguns dias, para terminar de vez o telhado e a hidráulica — respondeu ele.
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  — Desejo uma boa jornada em sua reforma — desviei meu olhar dele, já estava me sentindo meio constrangida com seu olhar.
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  — Obrigado.
  — Até — me afastei dele e entrei na cozinha.
  Assim que fechei a porta, não me contive em olhar pela cortina na frente do vidro, se ele também tinha saído. Mas não, continuou por um tempo ali olhando para a porta. Meu coração acelerou novamente. Já tinha quanto tempo com a sua chegada? Três meses e alguns dias? Não estava contando direito. Voltei minha atenção para a cozinha que não tinha terminado de arrumar. Peguei o pano de prato e fui guardando as vasilhas. As horas foram passando comigo ouvindo o andamento da reforma, enquanto folheava algumas revistas de moda que Sunny, a colunista de moda, me emprestou para meus estudos da atualidade.
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  — Alô? — disse ao atender a ligação de Joseph.
  — Mãe.
  — Aconteceu algo?
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  — Não, eu só liguei pra dizer que vou dormir aqui hoje, tem problema? — informou, perguntando.
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  — Algum campeonato surpresa? — deduzi.
  — Vamos traçar nossa estratégia para a competição estadual. — explicou ele. — E treinar um pouco.
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  — Levou seu notebook?
  — Sim, você ia usá-lo?
  — Eu uso o seu computador, sem problema. — voltei meu olhar para as revistas em cima da mesa de centro. — Se alimente bem, ok, nada de ficar jogando e esquecer que seu corpo não é uma máquina.
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  — Tudo bem, mãe — ele riu do outro lado.
  — Até amanhã.
  — Boa noite!
  Desliguei o celular e corri até o quarto, peguei minha agenda nova de anotações e voltei para sala. Eu já tinha grifado muitas coisas com o marcador, sob a autorização de Sunny. Realmente, não conseguia estudar sem aquele marcador de texto, o que me lembrava que meus cadernos do colégio eram cheios de anotações, frases grifadas e post it de cores variadas.
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  — Mamãe — Molly desceu as escadas correndo.
  — Ei mocinha, devagar — disse mantendo a atenção na revista que via, pregando um post it com uma anotação.
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  — Não desci tão rápido. — ela se aproximou e sentou ao me lado. — O que está fazendo?
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  — Estudando. — respondi, ao anotar o nome de uma marca relevante na minha agenda. — E você?
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  — Eu terminei meu ensaio por hoje, desci para comer algo. — respondeu me observando. — Está mesmo muito aplicada no emprego novo.
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  — Quando for adulta, vai ver que boletos pagos é a motivação para ser aplicada no emprego — ri de leve.
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  — Acho que não quero ser adulta.
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  — Não tem como parar a idade joaninha, até em Nárnia as pessoas envelhecem.
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  — Na Terra Do Nunca, não.
  — A Sininho está de folga. — brinquei a fazendo rir. — Já fez o dever de casa? Soube que tem uma redação para fazer. — indaguei. — Qual o assunto?
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  — Redação sobre uma princesa Disney indicada pela professora.
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  — E quem pegou?
  — No sorteio eu peguei a Jane, do Tarzan. — ela fez um bico. — Eu queria a Mulan ou a Tiana, mas quem pegou não quis trocar comigo.
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  — Hum…. Mas a Jane é legal, ela deixou sua vida na Inglaterra para viver na selva com o Tarzan, não é uma história de amor legal?
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  — Não quero uma história de amor legal. Prefiro uma princesa que finge ser homem e entra para o exército para proteger sua família e seu país, de quebra ela ainda ganhou um dragão de estimação e um grilo que dá sorte. — argumentou ela. — Ou uma princesa que se aventura no lado mais escuro do rio ao lado de um príncipe sapo mané e um jacaré que toca instrumento, e termina tendo seu próprio negócio sem depender do príncipe para ser rica e famosa.
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  — Minha joaninha empoderada, tenho certeza que você vai encontrar algo legal na Jane. — olhei para ela e sorri de leve. — Tem biscoitos no armário, suco de laranja na geladeira e cereais em cima da mesa. Não coma muito, pois ainda tem o jantar.
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  — O que vai ser hoje? Sanduíche?
  — Talvez role um miojo.
  — Também é legal — ela sorriu e se levantou.
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  — E depois de comer, lição de casa.
  — Ok.
  — E vou querer ver sua redação antes de mostrar a professora.
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  — Me esqueci que tenho uma mãe ninja em redação — ela fez um joia para mim e saiu saltitando para a cozinha.
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  Ri um pouco e voltei minha atenção para a revista.
  Minutos depois observei Molly passar pela sala com um pacote de salgadinho na mão. Balancei a cabeça negativamente e voltei a me concentrar no trabalho. Não receberia pelas horas extras feitas em casa, mas sentia que aquilo era um investimento em mim mesma que me me renderia algo bom no futuro. Investia no meu conhecimento, sobre diversos assuntos que poderia compor o caderno da Mulher, estava até com a ideia de abrir uma coluna de indicações de fanfics, pois, segundo Sophie, era a sensação literária do momento. E o pior é que estava certa, já tinha pesquisado o assunto e encontrado muitos sites dedicados a esse tipo de escrita. Vivendo e aprendendo, pesquisando e descobrindo.
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  No meio de uma silenciosa leitura, ouvi algo como batidas na porta. Foi difícil identificar de onde vinha, mas percebi que as batidas eram do vizinho na porta de saída da cozinha. Abri para ele e me deparei com um embrulho razoavelmente grande nas suas mãos.
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  — . — me mantive natural e serena. — O que faz aqui?
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  — Eu…
  — Você?
  — Ainda me sinto mal pela cena que presenciou mais cedo — explicou ele.
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  — E o que é isso que está segurando?
  — Um pedido mais formal de desculpas — respondeu.
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  — Um pedido de desculpas? Você já se desculpou.
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  — Por favor, aceite — aquele seu olhar de garoto abandonado me despertava e me lembrava que ele era mais jovem do que eu.
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  — Tudo bem. — peguei o embrulho e abri mais a porta para que ele entrasse. — Vem, me ajude a descobrir o que é.
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  — Claro — ele sorriu e entrou.
  Fechei a porta da cozinha e comecei a rasgar o jornal que embrulhava seu pedido de desculpas. Ao terminar, descobri que era um quadro muito bonito e diferente.
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  — Arte de rua. — explicou ele. — Foi feito por um amigo.
  — Sério? Achei incrível o quadro. — não tinha palavras, complicado descrever uma peça de arte. — Obrigada.
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  — Eu que agradeço por ter aceitado — ele sorriu se aproximando um pouco de mim, com o olhar de sempre, fixo e intenso.
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  Fiquei meio estática sem saber como reagir, até que o barulho da porta da sala se abrindo me chamou a atenção.
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  — Hum? — me virei estranhando.
  — Parece que alguém entrou — comentou ele.
  — É o Joseph, meu filho, deve ter acontecido alguma coisa. — eu o olhei. — Você pode esperar aqui?
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  — É melhor eu ir pra casa, seu filho pode estranhar minha presença aqui.
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  — Verdade — concordei.
  Ele se afastou indo para a porta. Enquanto isso, deixei o quadro em cima da mesa da cozinha e segui para sala. Minha surpresa veio quando vi Carl perto da estante de livros remexendo as gavetas do móvel ao lado. Minha mente fundiu por alguns segundo, até que reagi a cena.
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  — O que faz aqui? — disse em um tom mais alto e firme.
  Já tinha dois meses que nos divorciamos e não tinha o visto desde do dia em que assinamos os documentos definitivos do divórcio.
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  — Ah, . — ele parou e me olhou. — Eu só vim pegar umas pastas que esqueci aqui.
  — E você fala assim com tanta naturalidade?
  — E como quer que eu fale? — seu olhar cínico estava ali.
  — Você não mora mais aqui, nem deveria usar essa chave, deveria ter entregado ao Joseph. — retruquei não dando importância a sua arrogância. — Não somos mais casados, Carl, e essa casa não é mais sua, é minha, se precisa de algo, ligue primeiro, não saia invadindo.
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  — Ah, por favor, , não tenho tempo para suas reclamações — ele voltou a remexer na gaveta.
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  — Minha reclamações? Só estou dizendo que se eu quiser, posso ligar para a polícia e dar queixa de invasão de propriedade — o confrontei sem medo.
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  — Vai mesmo ter coragem que fazer isso com o pai do seus filhos?
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  — Agora você se lembra disso. — bufei de leve. — Sim, eu teria coragem.
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  — Você é ridícula. — ele debochou de mim. — Quer provar o que fazendo isso? Foi porque eu disse que não é uma mulher suficiente para mim? Quer se vingar?
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  Aquela sua frase ainda estava entalada na minha garganta e eu queria fazê-lo engolir isso.
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  — Querida — uma voz soou da porta da cozinha —, por que está demorando?
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  Querida? Eu me virei para trás e paralisei ao ver descalço e sem camisa, encostado na porta e dando um sorriso malicioso que não se encontraria nem nas fanfics de Sophie.
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“Someone call the doctor.”
– Overdose / EXO

5. Fake Love

  — Quem é ele? — perguntou Carl ficando sério, com um olhar inexpressivo e estático.
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  Minha mente ainda estava tão fundida que não sabia o que responder. Paralisada estava.
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  — Prazer Carl. — entrou na sala e caminhou até meu ex, esticando a mão em cumprimento — Sou o , namorado da .
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  Namorado?! Olhei para o vizinho mais ainda sem reação. Namorado?! Carl me olhou com se estivesse se corroendo de raiva por dentro. Ele olhou para a mão de e ignorou seu gesto.
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  — Eu preciso ir, quando achar minhas pastas, me avise, mandarei alguém buscar. — disse num tom ordenando.
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  — Faltou as duas palavras mágicas Carl. — mantive séria, porém com suavidade no rosto, como se aquela situação fosse natural — Por favor.
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  Eu permaneci parada. se moveu até a porta e abriu para que ele saísse, então fechou e olhou para mim. Em seu olhar, tinha um misto de satisfação pelo que tinha feito e culpa também.
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  — Me desculpe, não sei o que deu em mim. — disse ele abaixando seu tom — Fiquei um pouco agitado com a situação.
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  Visivelmente envergonhado.
  — Eu nem sei o que dizer. — sussurrei perplexa, ainda com o foco do meu olhar em seu abdômen de forma discreta.
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  Namorado.
  — Não me contive em ouvir o que ele te falou. — ele deu alguns passos até mim — Não deveria ter me intrometido, mas…
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  — Está tudo bem, as palavras de Carl não importam para mim. — assegurei o interrompendo.
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  — Para mim ele está errado.
  — Hum?! — subi meu olhar para seu rosto.
  — Você me parece ser uma mulher incrível. — aquele olhar intenso retorou.
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  Isso sim, acelerou ainda mais meu coração. Recuei um pouco receosa, do que poderia acontecer a seguir. 
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  — Eu acho que você deveria ir para casa. — sugeri, desviando o olhar para o chão, levei a mão em meu pescoço meio nervosa pela aproximação dele.
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  — Tem razão, acho que já causei muita confusão por hoje. — ele deu um sorriso bobo e envergonhado, quem me fez sorrir no automático.
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  — Sim. 
  Ele se virou e voltou pela cozinha. Em segundos ouvi o barulho da porta se fechando. Corri até lá e tranquei a porta de imediato. Coloquei a mão no peito e tentei acalmar-me, respirando mais suave. Aquilo foi estranho e muito perigoso para minha saúde mental. Subi as escadas e abri a porta do quarto de Molly, ela estava debruçada em cima dos cadernos dormindo. Acho que nossa maratona H²O Meninas Sereias ficaria para depois. A peguei no colo e coloquei na cama, cobri com a manta e dei um beijo de boa noite em sua testa. Chegando no meu quarto, fui para o banheiro e me afundei naquela banheira, precisava relaxar e limpar meus pensamentos. Quanto mais eu desviava minha mente dele, mais pensava em e no que tinha feito. Será que Carl acreditou? Bem, ver um homem totalmente à vontade na casa de sua ex esposa a chamando que querida.
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  — Querida… — sussurrei e mergulhei novamente na banheira — O que ele fez?
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  Bem no meio do meu relaxamento, ouvi o barulho do lado de fora, estava começando a chover naquela noite. Terminei meu banho e voltei para o quarto enrolada na toalha, parei em frente o armário e fiquei olhando minhas calcinhas, qual usaria aquela noite. Algo fútil para se dar atenção devido a minha condição atual. Mas queria encontrar qualquer coisa para desviar minha atenção de . Assim que coloquei o pijama de bolinha que Molly me deu de presente no ano passado, me aproximei da janela lentamente para ver como estava o tempo, a chuva do lado de fora parecia forte. 
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  Voltei meu olhar no automático para a janela da casa ao lado. Meu coração acelerou quando vi saindo do banheiro somente com a toalha enrolada na cintura e com outra nas mãos secando o cabelo. Ele voltou o olhar para a janela dele, que estava aberta, me fazendo dar um pulo para trás me afastando. Meu coração acelerou na hora. Saí do quarto, temendo que ele tivesse me visto, segui para sala e liguei a televisão. Vai que alguns episódios de Grey’s Anatomy me distraiam, apesar dos médicos bonitos não ajudarem muito.
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  Adormeci no sofá em pleno décimo episódio da sexta temporada. Acordei de madrugada sentindo minhas costas doloridas, a tela da tv estava congelada com a mensagem da Netflix. Me levantei e arrumei o sofá, desliguei a televisão e logo senti um fundo na minha barriga. Caminhei até a cozinha e preparei um sanduíche para mim. Sentei na cadeira e comecei a mastigar, a cada mordida um pensamento diferente, mas todos relacionados ao que possivelmente aconteceria no dia de hoje. Quando terminei, fiquei um tempo olhando pro nada, quando dei por mim, já marcava cinco da manhã no meu celular. Voltei para meu quarto e aproveitei o resto de horas de sono que ainda tinha. Não demorou muito para voltar a dormir, porém fui acordada pela pequena joaninha, que se esparramou ao meu lado e se aninhou a mim.
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  — Bom dia joaninha. — sussurrei mantendo meus olhos fechados — Caiu da cama?
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  — Bom dia mamãe. — ela riu e se aninhou ainda mãe.
  — Vamos dormir mais um pouquinho? — perguntei.
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  — Vamos. — assentiu ela.
  Sim. Nós dormimos um pouco mais. E quando acordei, me senti renovada fisicamente. No relógio já batia dez da manhã e curiosamente Joseph estava na porta do meu quarto observando nós duas. 
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  — O que aconteceu aqui? — perguntou ele.
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  — Sua irmã caiu da cama. — brinquei um pouco me espreguiçando — Já tomou café?
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  — Sim, na casa do meu amigo.
  — E como foi com seu time? Fez muitas estratégias? — perguntei erguendo meu corpo e me sentando na cama.
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  — Traçamos uma estratégia só, espero funcionar. — disse ele se aproximando da cama.
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  Joseph estava com um olhar diferente. Mais analítico do que de costume, e isso me preocupava.
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  — Aconteceu alguma coisa filho?! — perguntei preocupada.
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  — Meu pai me ligou ontem à noite. — respondeu ele — Disse que esteve aqui.
  Meu corpo gelou na mesma hora. Será que Carl disse o que não deveria.
  — Ele veio aqui pegar umas pastas que tinha esquecido, sem ligar e ainda entrou usando a chave dele. — expliquei — O que mais ele disse?
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  — Mais nada, só me pediu para achar as pastas dele. — respondeu.
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  Soltei um suspiro aliviado.
  — Mãe.
  — Sim?!
  — Posso te pedir uma coisa?
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  — Claro, o quê?
  — Troque todas as fechaduras da casa. — pediu.
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  Sorri de leve e assenti. 
  Joseph tinha razão, eu deveria trocar as fechaduras, assim Carl não teria mais acesso livre a esta casa. Faria isso na segunda pela manhã, antes de ir para o Liberdad Café. Deixei Molly ainda adormecida na minha cama e me levantei, troquei o pijama e coloquei uma vestido de tecido leve e fresco, para aproveitar a manhã de sol da primavera. Passei pelo quarto de Joe, e o mesmo já estava com os fones no ouvido e iniciando alguma partida. Seu amor pelos games me deixava um pouco preocupada, aquilo poderia virar um vício na vida dele. E não era tão bom assim para ele passar horas na frente do computador jogando. Ele precisava sair com os amigos, se divertir de outra forma que fosse mais atlética e menos tecnológica.
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  — Ahhhh. — bocejei um pouco enquanto descia as escadas — Não acredito que ainda estou com sono.
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  Chegando na sala, avistei meu celular no sofá em meio às almofadas. Nele, algumas mensagens de Sophie, me convidando para um sorvete após o almoço. Só tinha dois momentos que ela me convidava para tomar um sorvete no domingo a tarde: ou Will tinha lhe feito alguma surpresa e ela precisava compartilhar, ou alguma fofoca tinha explodido no nosso grupo de amizades e ela precisava me contar. Neste caso, eu temia que o assunto pudesse ser a noite anterior aqui na minha casa. Deixei o celular no sofá e fui para a cozinha, já estava tarde para o café, porém não era hora do almoço, faria um brunch caprichado, assim Molly comeria também ao acordar, e Joseph caso sentisse fome.
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  Abri a geladeira e pensei por um tempo no que faria. Era mesmo uma mania minha cantarolar enquanto cozinhava, e já tinha se tornado um indicativo para as crianças que eu estava aprontando algo na cozinha. Continuei concentrada no que estava fazendo até que meu olhar se levantou e parou na janela como um ímã. Lá estava do outro lado na sua cozinha, encostado na bancada em construção com uma xícara nas mão olhando para mim. A quanto tempo será que ele estava ali me observando me locomover em minha cozinha? Tentei desviar meu olhar, mas somente fiquei ali encarando aquele seu olhar intenso para mim.
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  — Mãe?! O que está fazendo?— perguntou Joseph atraindo minha atenção.
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  — Oi?! — olhei para meu filho e respirei fundo — Não estava jogando?
  — Era só um treino, estou com fome e senti o cheiro vindo daqui. — ele deu um sorriso fofo — O que fez?
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  — Preparei um brunch digno dos livros de Jane Austen. — disse apontando para mesa — Viu se a Molly já acordou?
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  — Não. — a atenção de Joseph estava na janela.
  Algo que me deixava apreensiva.
  — Tem suco na geladeira?! — perguntou ele vindo em minha direção.
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  — Está em cima da mesa Joseph. — o parei e dei um passo para a porta — Sente aí e vá comer, vou chamar sua irmã.
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  Olhei de relance para a janela e vi que ele não estava mais lá na sua cozinha. Era maluco em pensar que há meses atrás, quando eu olhava para a janela, via somente uma casa vazia e escura. Agora, sempre que olho, ele está lá do outro lado me observando. Subi as escada e cheguei no meu quarto, acordei Molly com dificuldade.
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  — Vamos joaninha, vamos comer. — disse puxando as cobertas.
  — Mamãe, não posso tomar café aqui?
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  — Na minha cama? Você está muito manhosa hoje, para uma mocinha de 10 anos. — coloquei a mão na cintura a olhando.
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  — Não estou animada hoje.
  — Por quê?
  — Tive um pesadelo.
  — E como foi esse pesadelo? — me sentei na cama e a olhei com carinho.
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  — Eu sonhei que caía na hora da minha apresentação e a Judy ria de mim. — respondeu ela, seu olhar estava triste.
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  Ela já tinha me contado sobre essa Judy que sempre tirada tempo para implicar com ela. Considerada a garota mais popular da sua escola, se sentia a dona de tudo. Acho que era um dos motivos do porque Molly tinha tanta vontade de ser famosa.
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  — Pois saiba que você fará uma apresentação maravilhosa e vai ganhar esse concurso. — pisquei de leve para ela — Por que você tem muito talento, além da melhor coreógrafa da cidade.
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  — Tem razão. — ela sorriu — Não posso decepcionar a tia Sophie. — ela me abraçou forte — Te amo mamãe.
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  — Também te amo joaninha. — retribui o abraço.
  Descemos para a cozinha e nos fartamos do brunch junto de Joseph. Deixei a cozinha para ele arrumar depois e fiquei na sala acompanhando os ensaio de Molly. Quanto mais eu observava ela, mas ideias surgiam na minha cabeça de temas que poderia escrever para o caderno da mulher. Peguei minha agenda na estante de livros e fui anotando tudo para não esquecer. Horas depois, recebi uma ligação de Sophie, brigando comigo por estar atrasada para nosso sorvete no parque. Disse que estava indo e perguntei aos meus filhos se gostariam de dar uma volta. Joseph recusou dizendo que ficaria em casa dormindo, por tinham passado a noite em claro. Já Molly foi correndo para o quarto trocar de roupa. 
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  Não demorou muito até que chegamos no ponto de encontro. Sophie abraçou Molly assim que nos aproximamos dela.
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  — Joaninha! — foi um abraço apertado e carinhoso — Como está indo os ensaios?
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  — Estou treinando todos os dias. — assegurou minha filha — Já decorei todos os passos.
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  — Que bom, se quiser ir no estúdio ensaiar, posso te arranjar um cantinho bem tranquilo. — disse ela.
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  — Eu posso mãe? — ela me olhou.
  — Se você almoçar na escola e o Joseph te levar.
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  — Tenho certeza que ele vai. — ela sorriu.
  — Podemos tomar nosso sorvete? — Sophie me lançou um olhar atravessado.
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  — Vamos Sophie. — encolhi seco, parecia ser mesmo sério o que ela queria conversar.
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  Nos aproximamos de um vendedor com seu carrinho de sorvete e compramos para nós. Enquanto Molly caminhava na nossa frente observando a paisagem do Central Park, Sophie me olhava séria e pensativa.
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  — O que está acontecendo Sophie? — perguntei a ela.
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  — Carl ligou para o Will ontem há noite, pedindo para se encontrar com ele. — iniciou ela.
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  — E?
  — Ele perguntou ao meu marido desde quando você está namorando. — o tom sério em sua voz, me deu medo — Tem algo que você esqueceu de me contar? 
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  — Não me olhe assim amiga.
  — Como quer que eu te olhe? Imagina o Will me perguntando se eu sei de alguma coisa. — seu olhar indignado para mim, foi de cortar o coração.
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  Mas eu era inocente naquela história.
  — Então, vou te contar por partes. — garanti a ela.
  — Isso me alivia, estou me contorcendo de curiosidade. — ela me olhou — Desde quando você tem intimidades com o vizinho novo? 
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  — Não tenho intimidades. — a repreendi.
  — Ele já limpou a sua calha. — ela sorriu com malícia, e senti o duplo sentido nas suas palavras.
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  — Vou ignorar o que disse. — voltei o olhar para frente, observando minha filha — Sábado de manhã eu peguei o vizinho brigando com o primo dele…
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  — E esse primo também é bonito? Tem selo Chris Marvel? — ela me interrompeu.
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  — Sophie?
  — O quê? Eu só queria saber se a beleza é de família.
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  — Posso continuar? — a olhei.
  — Claro. — ela me lançou um olhar de desculpas.
  — Então, nessa briga eles destruíram a cerca, e à noite o foi na minha casa me dar um quadro em forma de um pedido de desculpas. — continuei.
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  — Ele te deu um quadro. — Sophie segurou em meu braço me parando — Não brinca.
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  — Antes fosse, mas ele me deu, coloquei no meu quarto, depois te mostro. — disse a ela — Não deixei as crianças verem ainda, preciso mostrar a elas.
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  — E o que rolou depois? Ele te beijou?
  — Não Sophie, você é louca?
  — Não, você que não nota a tensão no ar, vai que o vizinho está atraído por você. — supôs ela empolgada.
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  — Sophie, isso aqui é vida real e não sua fanfics. — a chamei a realidade — É tão vida real que naquele mesmo momento o Carl entrou na minha casa sem permissão, depois de dois meses sem vê-lo.
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  — Eu disse pra você trocar a fechadura.
  — Joseph também me pediu isso, e farei amanhã. — assegurei a ela — Mas continuando, nós discutimos de novo, e de repente o vizinho apareceu descalço e sem camisa, como se fizesse parte da casa, me chamando de querida.
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  — Querida?! — Sophie levou a mão no coração e respirou fundo, parecia imaginar a cena — Querida…
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  — Sim, querida, e se apresentou ao Carl como meu…
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  — Namorado. — completou ela — O nome disso é fanfic amiga.
  — O nome disso é confusão Sophie. — a corrigi — Você não é uma adolescente e tem passado muito tempo com suas alunas, nós vivemos a realidade amiga.
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  — Sua estraga prazeres, me deixa sonhar tá, sabia que eu entrei em um grupo de leitoras que uma aluna minha me indicou, e achei uma leitora de 37 anos. — ela mostrou a língua para mim e jogou o cabelo para trás.
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  Seu gesto me fez rir um pouco.
  — Ok, não está mais aqui quem recriminou. — respirei fundo — Mas a questão é que aconteceu isso e não sei como reagir.
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  — Como assim não sabe?
  — Não sei. O que acha que eu deveria fazer?
  — Não é óbvio? — ela me olhou desacreditada.
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  — E o que é óbvio?
  — Amiga você está com a caixa de bombons na mão, come o chocolate. — disse ela.
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  — Que ditado é esse?
  — O certo seria a faca e o queijo, mas eu não gosto de queijo. — ela terminou de tomar seu sorvete — Mas o fato é que, se eu fosse você aproveitava a deixa e mantinha o boato rolando.
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  — Continuar sustentando o namoro falso? — finalmente entendi o que ela queria dizer — Não posso fazer isso, o que meus filhos diriam?
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  — Eles não precisam saber que é falso, e eu sei guardar segredo. — insistiu.
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  Olhei para o resto do meu sorvete quase derretido e o revirei na boca, limpando com guardanapo depois. 
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  — Não é um bom exemplo para se dar aos filhos, e você sabe que Joseph é esperto demais para cair nessa. — retruquei — Ele já me pegou olhando a janela da cozinha.
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  — A janela do pecado? — Sophie me olhou admirada.
  — Não é a janela do pecado, pare com essas insinuações Sophie. — voltei meu olhar para Molly.
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  Minha filha tinha encontrado uma amiguinha conhecida e já estava brincando com ela.
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  — Olha só quem está por aqui. — disse Lauren ao se aproximar de nós — E pelo visto estamos no domingo do sorvete.
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  O olhar dela para nossas mãos, me deu um frio na barriga. Lauren pertencia ao nosso círculo de amigos. Eu não tinha muita intimidade com ela, quanto tinha com Sophie e com a Annia, mas a considerava uma boa amiga. 
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  — Tem a ver com o boato de que você está namorando? — perguntou ela.
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  — Boato? Como você sabe? — perguntei.
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  — Então é verdade? — ela ficou boquiaberta.
  Senti um frio na barriga e meu corpo gelou. Eu contava a verdade ou sustentava a mentira?
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  — Sim, é verdade, ela está namorando. — disse Sophie com convicção — Algum problema nisso? é uma mulher livre, e pelo que sei o traidor foi o Carl.
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  — Ah não, eu não tenho nada contra, só estou surpresa. — Lauren se defendeu — Imaginei que você não fosse se envolver por agora. E você é tão tímida e reservada.
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  — Pois é, eu também não. — olhei discretamente para Sophie e voltei o olhar para ela — Como soube disso?
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  — O Will perguntou para o James se era verdade, e o James me perguntou se eu sabia de algo. — explicou ela.
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  — Will? Meu Will? — perguntou Sophie.
  — É o único que eu conheço. — respondeu Lauren.
  — Eu mato ele. — sussurrou minha amiga.
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  — A culpa não é do Will. — disse a ela — Mas sim do Carl.
  — Ah, por falar no Carl, apesar da palhaçada que ele fez, conseguiram terminar de forma amigável? — perguntou Lauren  —Tem um tempo que quero te ligar pra conversar e saber como está, mas tenho me estressado tanto com o trabalho do meu marido.
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  — Foi tudo bem na medida do possível, graças ao Mike. — respondi.
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  — James me contou que o Carl ficou a ponto de explodir por isso. — comentou Lauren rindo.
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  — Essa era a intenção. — admiti rindo com ela.
  — E você o que faz aqui no parque a essa hora? — perguntou Sophie.
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  — James viajou com o partido, eu contei na semana passada que ele vai se candidatar a vereador, influência do avô e do pai dele. — respondeu ela — E me senti meio abandonada, então arrastei a Nina para vir ao parque, assim sairíamos daquela cobertura sufocante.
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  — Ser mulher de político não é fácil né. — comentou Sophie.
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  — Pelo menos a minha enteada gosta de mim, já é o começo. — Lauren riu de leve — Pensei que não conseguiria essa façanha.
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  — E como é ser madrasta? — perguntei curiosa.
  — Ai amiga, às vezes é complicado, porque quando a Nina não quer obedecer, ela joga na minha cara que não sou a mãe dela, e faz isso sem dó. — respondeu dando um suspiro fraco — Dá vontade de jogar no colégio interno.
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  — Não faça isso, quando tiver os seus, vai adquirir mais paciência. — defendi a criança indiretamente.
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  — James disse que não quer ter filhos agora. — ela olhou para Sophie — Você tem sorte por não querer ter filhos e seu marido também não, ambos de acordo é bem melhor.
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  — Pois é. — Sophie deu um sorriso que parecia ser forçado, me deixando intrigada.
  Sempre que algumas de nós tocava no assunto dela e Will não querer ter filhos, ela sempre se faz de desentendida e mudava rapidamente de assunto.
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  — Vocês sabem de alguma notícia sobre a nossa reunião anual? — perguntou Lauren — Nós adiamos pelo que aconteceu com o George.
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  — É, a Annia não tinha estrutura para festa naquela época. — concordei.
  — Mas depois ninguém falou mais nada, aí teve seu divórcio. — continuou Lauren.
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  — Acho que esse ano é a vez da Freya organizar a festa. — observou Sophie — Sortuda, bem agora que ela se casou com o dono daquela concessionária.
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  — Verdade, sabia que está rolando uma aposta pra ver quanto tempo de casado ela fica? — comentou Lauren.
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  — E ninguém me chama? — Sophie a olhou indignada.
  — Vocês duas me envergonham. — as repreendi — Como podem torcer para um casamento terminar.
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  — Desculpa amiga, mas nós sabemos bem o currículo dela. — Lauren se defendeu.
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  — Vocês são duas fofoqueiras malvadas isso sim. — balancei a cabeça negativamente — Vou ligar para Freya depois, ou melhor, nem preciso, ela não sai da minha rua. 
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   — Ah sim, a fofoca do vizinho novo chegou lá em Manhattan amiga. — comentou Lauren — É verdade que no dia da mudança dele formou uma comitiva de mulheres na varanda da senhora Philips?
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  — Você anda bem informada. — a olhei admirada.
  — Freya me mandou umas fotos. — explicou. 
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  — Não me admiro com isso. — confessei.
  — Gente, que homem, selo de qualidade Chris Marvel. — disse Lauren.
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  — Aquilo é o Universo Marvel inteiro miga. — corrigiu Sophie.
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  Nós rimos.
  — É ele. — disse Sophie.
  — O quê? — Lauren a olhou.
  — O namorado da , é o vizinho novo. — revelou Sophie — Eu acho que o Carl não deve saber que ele é seu vizinho né?
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  — Não sabe. — disse com o coração gelado por causa dela.
  — Sério? Você e aquele Marvel? — Lauren ficou ainda mais boquiaberta — Quando a Freya souber.
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  — Eu poderia até dizer pra não contar a ela, mas… Sei como você é. — a olhei.
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  — Se você quiser eu mantenho segredo, mas miga, não vejo problemas nisso, se é porque ele é alguns anos mais novo. — Lauren reagiu muito tranquila a esse fato — Tem vários casais por aí super felizes.
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  — Eu também concordo.  —Sophie sorriu para mim.
  — Sua conta está zerada comigo Sophie, fica quieta. — a olhei sério.
  — Mas, se está mesmo namorando, devia levar ele na reunião nossa, assim poderemos conhecer ele. — sugeriu Lauren.
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  — Boa ideia, eu não tinha pensado nisso. 
  — Sophie?! — suspirei aflita, ela não tinha noção do que estava fazendo.
  — Bem, está escurecendo. — disse Lauren ao olhar no relógio caro em seu pulso — Tenho que voltar para casa, mas vamos confirmar com a Freya sobre a nossa reunião de amigos.
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  — Vamos sim. — concordou Sophie — Joga lá no nosso grupo, ele anda meio parado.
  Lauren nos abraçou se despedindo e pegou Nina para irem embora. Eu fiquei olhando Sophie, séria e a ponto de esganar ela.
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  — O que foi amiga? — ela me olhou com tranquilidade.
  — Eu quero te matar Sophie, você é louca?
  — Por quê? — seu olhar inocente me dava mais revolta.
  — Como pode confirmar que estou namorando e ainda dizer que é com o ? — a chamei a razão — Você não tinha esse direito. É minha vida Sophie.
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  — Desculpa amiga, eu só fui no embalo. — ela parou para refletir — Te deixei em uma situação ruim né.
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  — Ah, entendeu. — soou com ironia.
  — E agora, o que faremos?
  — Ela não vai guardar segredo, conhecemos a Lauren. — desabei no chão sentindo minha mente cansada de tanto problema e confusão na minha vida.
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  — Você vai contar a verdade?
  — Não sei.
  — Que verdade mamãe? — perguntou Molly ao se aproximar de nós.
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  — Nenhuma querida. — a puxei para perto de mim e a abracei — Vamos para casa?
  — Vamos, estou cansada. — concordou.
  — Percebi, correu muito. — eu me levantei — Te vejo depois Sophie.
  — Me liga assim que decidir o que vai fazer? Sabe que terá meu apoio independente de tudo. — assegurou ela.
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  — Eu sei, agradeço. — segurei na mão de Molly e segui para o portão de saída.
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  Voltamos para casa de táxi. Quando chegamos sentimos um cheiro gostoso vindo da cozinha. Será que Joseph tinha cozinhado ou pedido algo delivery? Seguimos até lá e tinha duas caixas de pizza em cima da mesa, Joseph perto da pia batendo uma mistura.
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  — Uau, o que é isso? — perguntei.
  — Suco de morango com leite condensado. — respondeu ele — Aprendi na casa do meu amigo.
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  — Hum… Interessante. — disse ao observar a cor bonita que tinha se formado no copo do liquidificador.
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  — O vizinho veio aqui enquanto estava fora. — comentou ele.
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  — O que ele queria? — perguntei.
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  — Falar com a senhora. — respondeu.
  Meu cérebro parou por um momento, me lembrando da loucura dele ter dito ser meu namorado.
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  — Sobre? — indaguei.
  — A cerca. — Joseph voltou seu olhar para mim — Ele também me perguntou se eu tinha gostado do quadro que ele te deu.
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  Que vizinho linguarudo. Será que ele achou que eu tinha jogado o presente dele fora?
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  — É estranho uma pessoa dar um quadro como presente de desculpas, não acha? — meu filho continuou me analisando com o olhar.
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  — Também achei, mas não quis fazer desfeita. — concordei — Ele pareceu envergonhado por ter derrubado a cerca.
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  — Ela já estava caindo aos pedaços. — Joseph deu de ombros.
  — Foi o que falei, mas né, deve ser da criação dele.
  — Família estranha. — meu filho riu.
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  — Mamãe, vou tomar banho antes. — disse Molly.
  — Vai querida. — me sentei na cadeira e fiquei observando Joseph.
  Comemos a pizza e ficamos um pouco na sala vendo tv, nós três. Eu estava gostando dessa nova realidade com meus filhos. Quando era casada com Carl, eles sempre ficavam em seus quartos e eu sentada na cadeira da cozinha esperando meu ex chegar. Agora todas as noites temos maratona de alguma coisa para ver na Netflix e desta vez seria de Jogos Vorazes, o preferido de Molly. Eu sentia que era muito violento para ela, mas minha filha já tinha lido o livro pego emprestado na biblioteca da escola dela, então entrei na onda de ser voluntária e me encantei pela história. Mas não chegava aos pés de Orgulho e Preconceito, ou Razão e Sensibilidade. Ok, eu sempre fui uma mulher muito romântica por causa desses meus romances vitorianos, mas poxa, eu gostava de O Senhor dos Anéis também. Posso ter me tornado uma dona de casa bem jovem, mas não deixei de acompanhar os lançamentos de livros e filmes, e a mudança no gosto cultural do país.
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  Pouco mais de uma semana se passou e não acreditava que ainda não tinha tomado providências quanto as fechaduras. 
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  Na quarta pela manhã, liguei para Finn avisando que me atrasaria. Liguei para o chaveiro, que de forma rápida trocou todas as fechaduras, antes de sair entreguei uma cópia para Joseph e fiquei com a outra. Chegando na cafeteria, a fila já estava grande, a maioria das pessoas queriam comprar a panqueca para levar, já que eu tinha demorado um pouco. Iniciei a minha rotina diária de dois empregos de meio período, mas com salários suficiente para pagar minhas contas. Quase no final da tarde, uma mensagem no grupo de amigos do whatsapp apareceu na tela. Era um banner enviado por Freya com as informações da nossa reunião de amigos. Todos mandaram emojis concordando com a data e o horário. Assim que eu mandei meu emoji, uma mensagem no privado de Sophie chegou.
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  Miga já se decidiu?
  Vai levar o vizinho?

Ainda não.
  Você viu a data? Mês que vem.

Sim. 
  curiosa pra saber o motivo
  Parece que o marido dela está viajando e 
  todo mundo tem compromisso até o final do mês

Pelo menos não saiu na data 
  do concurso da Molly
  é mês que vem também?

Sim.

  Bloqueei a tela do celular e voltei minha atenção para a redação que estava escrevendo. Eu não conseguia digitar direto, meus pensamentos sempre fluem mais com uma caneta em minhas mãos, por isso sempre andava com um bloco de notas na bolsa além da agenda. Quando olhei para o relógio do computador e me dei conta que todos já tinham ido, até as meninas da minha equipe, me liguei que era hora de ir para casa. Me levantei da cadeira sentindo a coluna reclamar por ter ficado horas sentada direto, até minha bunda doía. Acho que minha vida estava bastante sedentária. 
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  Quando cheguei em casa, Molly estava na sala assistindo Barbie Dreamhouse Adventures, na Netflix. Dei um beijo em sua testa ao passar por ela e deixei a bolsa na poltrona do lado do sofá. Cruzei com Joseph saindo da cozinha com um pacote de salgadinho na mão, ele estava se preparando para uma madrugada de jogos, mas levou o meu alerta que tinha prova no dia seguinte. Abri a geladeira e peguei a garrafa de água, despejei um pouco no copo e tomei. Meu olhar foi no automático para a janela, para minha surpresa a cozinha da casa ao lado estava vazia e com as luzes apagadas. Será que ele tinha saído ou estava dormindo? 
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  Permaneci com minha atenção lá por um tempo. Em um piscar de olhos as luzes se acenderam e ele apareceu bastante despojado sem camisa. Bem, estava em sua casa então, eu é que era a vizinha espiã no momento. Ele abriu a geladeira e tirou uma lata de Coca, abriu e tomou de uma vez. Será que seu organismo estava acostumado com isso? Como ele conseguia ter um corpo tão bem definido tomando refrigerante daquela forma? Ele fechou a geladeira e virou seu olhar para a janela, também no automático. Seu olhar assustado em me ver, agora na posição contrária, durou pouco, dando espaço para o intenso e curioso olhar de sempre.
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  Uma breve reflexão começou a surgir em minha mente. Eu tinha um problema para resolver. Tinha boatos circulando a uma semana, sobre eu estar namorando o vizinho novo. E todas as vizinhas agora me olhavam feio. Eu tinha duas saídas: a primeira desmentir tudo e contar a verdade, a segunda, continuar sustentando as palavras que ele mesmo proferiu. Engoli seco, juntei minha coragem e saí da minha casa. Passei pelo quintal, atravessei a cerca quebrada e caminhei lentamente até sua porta. Nem mesmo precisei bater, a porta se abriu para mim assim que me coloquei diante dela.
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  — Boa noite. — disse ele com suavidade, mantendo sua firmeza.
  — Boa noite. — sussurrei.
  — Algum problema?
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  — Muitos. — confessei. 
  Ele abriu um pouco mais a porta para que eu entrasse. Assim que não intencionalmente nos colocamos de frente um para o outro no centro da sua cozinha, me pronunciei.
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  — O que você disse ao meu ex marido tem me causado alguns problemas. — disse a ele, observando seu olhar tranquilo, e o sorriso discreto no canto do rosto.
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  — Percebi que meu fã clube tem ignorado você. — disse ele se mostrado atento ao que acontecia, manteve seu olhar fixo em mim — Sinto muito.
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  — Pois é, mas eu não.
  — O que posso fazer para ajudar? Se quiser, eu digo a todos pessoalmente que menti. — se ofereceu — Que foi um impulso louco meu.
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  — Este seria o certo a se fazer. — concordei.
  — Seria? — ele sorriu de canto, como se lê-se minha mente naquela hora.
  — Eu sei que não deveria fazer isso, tenho que dar bom exemplo aos meus filhos e mentir não é legal, mas…
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  — Mas?
  — Se for desconfortável para você eu vou entender, sou uma mulher mais velha, tenho dois filhos e…
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  — Você quer continuar fingindo que somos namorados. — concluiu ele sem muito esforço.
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  E eu rodeando com as palavras.
  — Sim. — admiti — Mas eu não tenho dinheiro e nem sei o que posso fazer para te compensar por isso.
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  —Tudo bem, eu aceito.
  — O quê? — aquilo me paralisou — Você aceita?
  — Sim.
  — Tem certeza?
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  Ele deu dois passos para mais perto de mim, o que me intimidou um pouco.
  — Você cozinha muito bem não é? — perguntou ele.
  — Modéstia a parte sim. Por quê?
  — Eu não tenho me alimentado muito bem, nesses últimos meses, então tem algo que possa fazer por mim em troca. — ele deu outro passo se aproximando mais.
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  — E o que seria? — o olhei inocente.
  — Quero que cozinhe para mim, todas as noites. — disse ele — Temos um acordo?
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  — Sim. — eu me afastei dele e estendi a mão — Temos um acordo.
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  Ele apertou a minha mão e sorriu de forma fofa e meiga. Seu olhar ficou mais suave e brilhava um pouco, o que me intrigou. Eu estava perdida agora, como contaria sobre isso aos meus filhos?
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Você me fez arriscar meu coração numa oportunidade única.
Agora, todos estão olhando para nós com pipoca na boca.

– Lotto / EXO

6. Boatos Confirmados

  Queria poder dizer que fechar aquele acordo com resolveria parte da equação, mas claro que não seria assim tão fácil. O boatos do nosso namoro deveriam ser finalmente confirmados, principalmente para minha família, e nem queria imaginar os pensamentos que minha mãe tinha sobre o assunto. A filha mal divorciada namorando um cara mais jovem que ela. Pelo menos eu tinha uma parte boa nos acontecimentos pós divórcio, trabalhava em uma redação de jornal, como ela sempre sonhou.
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  Quinta pela manhã pouco antes de sair, recebi uma mensagem de Finn, dizendo que um vazamento de gás estranho causou um incêndio inesperado na cafeteria. Era só o que faltava, estava indo tudo tão bem? E bem que eu avisei que tinha um barulho estranho toda vez que mexia naquele fogão dele. Me vesti rapidamente e segui até o local, precisava ver com meus olhos o estrago causado. Finn estava parado na calçada desolado, seu planos de comprar o imóvel ao lado para ampliar a cafeteria ficariam para depois agora. Me aproximei dele e toquei em seu ombro.
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  — Finn. — disse num tom baixo o despertando dos seus pensamentos.
  — Ah, , não precisava ter vindo. — disse ele voltando seu olhar para mim.
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  — Fiquei preocupada, alguém se machucou? — perguntei.
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  — Não, felizmente não, mas foi um susto muito grande.
  — Vai dar muito prejuízo? — voltei meu olhar para a fita de isolamento em volta da fachada principal e lateral.
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  A Liberdad Café ficava na esquina da rua, na melhor localização comercial do Brooklyn.
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  — Vamos ficar muito tempo fechados né, mas você não vai acreditar, um cliente se ofereceu para me ajudar na reforma. — disse ele com o olhar esperançoso — Ele é arquiteto, me deu até o cartão dele.
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  Finn retirou o cartão do bolso e me mostrou. Senti as pupilas dos meus olhos dilatarem na hora que li o nome: Lewis. Será que era o ? Meu vizinho?
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  — Quem é? Eu o conheço? — perguntei me fazendo a inocente.
  — Aquele cliente que te agradeceu pelo café. — respondeu com tranquilidade — Que loucura né, ele veio cedo para o café e pegou o incêndio no início, foi ele que ligou para os bombeiros.
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  — Ah…
  Por essa eu não esperava. Mas bem que percebi que não tinha barulhos quando acordei. O que me fez desligar o alarme e virar para o canto, me esquecendo da minha responsabilidade com o café.
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  — Que bom que conseguiu alguém para te orientar nessa hora tão caótica. — disse em incentivo — Ele deu alguma previsão assim da reforma?
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  — Ainda não, vamos nos encontrar amanhã para falar sobre isso, avaliar os estragos e ver se tem algo a ser recuperado. — explicou ele.
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  — Bem que eu te falei que tinha algo errado. — o lembrei.
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  — Verdade, mas eu estava tão concentrado na compra do imóvel do lado, que não queria gastar dinheiro. — ele cruzou os braços e olhou para a cafeteria — Como minha mãe sempre diz, a males que vem para o bem, o arquiteto cliente disse que com um bom projeto, posso expandir minha Liberdad sem precisar comprar o imóvel ao lado.
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  — Bom, ele é o profissional, deve saber o que está dizendo. — disse olhando a loja também — E quanto aos clientes?
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  — Já postei no instagram e no site da cafeteria sobre o ocorrido e prometi uma grande inauguração depois da reforma. — assegurou ele com empolgação na voz, fazendo gestos grandiosos com as mãos — Já estou imaginando essa fachada sensacional atraindo pessoas de todos os lugares de NY.
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  — E a grana que estava juntando vai cobrir todos os gastos? — perguntei preocupada com seu devaneio.
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  Finn era um grande sonhador quando o assunto era sua cafeteria. Um solteirão que trabalhava duro para criar sozinho sua filha Jenie, agora com 16 anos. Quando o conheci por acaso em um supermercado, ele estava parado na sessão de fraldas com cara de perdido, e sua filha chorando no carrinho de bebê. Eu também estava passando pela mesma situação que ele, mas já tinha alguma noção naquela época. Foi assim que nos tornamos amigos. Eu sempre dava algumas dicas de culinária para sua cafeteria e o ajudava com conselhos sobre tentar criar filhos.
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  — Provavelmente terei que fazer um empréstimo, torcendo para aprovarem. — disse ele com certa preocupação.
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  — Ainda tem alguma hipoteca ativa?
  — Do apartamento, ainda não terminei de pagar. — respondeu, sua voz ficou baixa de repente e ele tossiu — Não vou tocar na poupança, é para a faculdade da Jenie, se eu não conseguir pegar o empréstimo, não saberei o que fazer.
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  Seu olhar ficou triste. Era difícil sonhar com a realidade batendo à nossa porta. Se colocar na ponta do lápis, a situação financeira de Finn poderia ser pior que a minha. Mas ele continuava acordando todas as manhã e sorrindo, com a esperança do Liberdad se tornar uma Starbucks.
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  — Mas, se não rolar, posso pedir pra alguém da minha família. — ele voltou a sorrir como sempre.
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  — Saiba que sempre terá meu apoio. — sorri junto.
  — Você é uma grande amiga que Deus colocou em meu caminho para que eu não desmoronasse. — ele me olhou com gratidão.
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  — Assim me deixa envergonhada. — brinquei e o abracei — Se precisar de algo, estarei aqui.
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  — Pode deixar.
  — Até se quiser que eu tenha uma conversa feminina de novo com a Jenie. — disse segurando o riso — Puberdade é algo sério.
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  — Nem me fale, perdi o nome daquele remédio para cólica que me deu, mês passado eu quase surtei ao vê-la chorando de dor. — confessou ele — Me envia pelo whatsapp, por favor.
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  — Claro, envio sim, por que não me ligou Finn? — o olhei com compaixão.
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  Cólica era a pior parte de ser mulher. Só perdia para meus momentos de histeria quando tinha TPM.
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  — Na hora nem lembrei, corri na farmácia e comprei a primeira coisa que achei. — respondeu ele.
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  Eu ri dele. Era mesmo um pai muito atencioso e dedicado. Finn nunca tinha me contado a fundo sobre a mãe de Jenie. Mas já tinha desabafado em seus momentos de solidão, que ela havia engravidado dele no primeiro ano da faculdade e desaparecido, então reaparecido dois anos depois e deixado a filha com ele e nunca mais voltado. É triste pensar que Jenie não via a mãe há quatorze anos. Mais ainda ver que meu amigo mantinha seu amor pela mulher que o deixou, mesmo depois de tudo.
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  — Vai ficar aqui mais algum tempo? — perguntei ao olhar as horas no relógio.
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  — Sim, preciso pegar uns documentos com os bombeiros e levar na delegacia. — explicou ele — Tenho que dar esclarecimento que o incêndio não foi criminoso, mas acidental.
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  — Ahhh.
  — Pelo menos nesse tempo, você vai poder se concentrar nos seus textos. — comentou ele e confessou — Estou acompanhando o caderno mulher, pela primeira vez na vida passei a comprar o NT Post.
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  — Você comprava o concorrente?
  — Pra ser sincero eu tenho preguiça de ler jornal. — ele riu — Mas as colunas que escreve são muito interessante, me lembrei de quando me ensinou a fazer aquele bolo de cenoura com calda de chocolate, saiu a receita dele no jornal da semana passada.
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  — Sim, é a minha receita mais simples e básica. — concordei.
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  — É uma das que mais vende no Liberdad, só perde para suas panquecas. — ele me olhou desconfiado — Você vai postar essa receita?
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  — Minhas panquecas é segredo de família, só o Joseph sabe como se faz. — disse orgulhosa — E você precisa ver ele cozinhando.
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  — Imagino, com uma mãe como você. — elogiou ele indiretamente.
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  — Vou indo então, aproveitar e passar no estúdio de uma amiga antes de ir para a redação. — disse.
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  — Bom trabalho então, vou te mantendo informada.
  — Por favor.
  Me despedi dele e segui de táxi até o estúdio de Sophie. Fiquei surpresa ao me deparar com alguns trabalhadores de construção civil entrando e saindo do prédio. Não me lembrava de minha amiga ter comentado sobre alguma reforma no lugar. Retirei o celular do bolso e mandei uma mensagem para Sophie. Não demorou muito para que ela aparecesse descendo as escadarias ao meu encontro.
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  — Amiga, acabei de ver no noticiário da cafeteria, está tudo bem? — perguntou ela com olhar preocupado.
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  — Sim, está tudo bem. — a tranquilizei — Aconteceu antes de eu sair de casa, Finn me ligou avisando, felizmente ninguém saiu ferido.
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  — Isso é bom, vamos aproveitar então e comer um brunch, eu não tomei café hoje. — pediu ela — Estamos uma correria por causa da reforma.
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  — E que reforma é essa que estão fazendo? — perguntei a seguindo em direção a cafeteria que tinha perto de lá.
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  — Nas salas vazias do último andar, era depósitos, mas como o estúdio está ficando mais famoso, mais alunos, mais salas, mais dinheiro. — explicou ela.
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  Nós sentamos em uma mesa do lado de fora, estava um dia fresco e ensolarado.
  — Mas me tira a curiosidade, como vai ficar o Liberdad agora?
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  — Bom, o Finn tem umas economias guardadas, mas não sei se será suficiente para a reforma. — respondi.
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  — Justo agora que ele queria ampliar a Liberdad.
  — Sim, mas o arquiteto disse que tem como ampliar sem precisar comprar o imóvel do lado. — expliquei.
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  — E como ele conseguiu um profissional tão rápido? — ela se impressionou.
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  — É um cliente do café.
  — Tá explicado.
  — Isso é o de menos, vai cair pra trás se eu te contar quem é o tal cliente.
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  — Me surpreende. — seu olhar curioso não tinha limites.
  — , o vizinho.
  — Não.
  — Sim, e com direito a cartão de visitas.
  Nós fomos atendidas por uma funcionária, que anotou o pedido rapidamente e se retirou.
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  — Estou chocada com essa novidade. — ela ficou boquiaberta — Pelo menos descobrimos que ele tem uma profissão normal.
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  — Sim. — espera, demorou dois segundos para eu assimilar suas palavras — Como assim normal?
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  — Ué, um homem misterioso e intenso, que reforma a casa sozinho, ou ele é um psicopata ou um assassino de aluguel. — explicou ela.
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  — Sophie, você realmente precisa parar de ler essas histórias escritas por adolescentes de 13 anos. — a aconselhei.
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  — Ei, olha o preconceito, não é só adolescente que escreve fanfic. — ela me olhou atravessado — E eu vi um filme que o cara era assim e era assassino de aluguel.
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  — Vamos mudar de assunto. — voltei meu olhar para os carros passando.
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  — Não vamos não, Freya me ligou hoje cedo querendo a confirmação dos boatos. — disse ela — Nossa amiga é presidente do clube da varanda amiga, ela estava ignorando totalmente os fatos.
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  — Talvez porque é a verdade.
  — Você não fez o acordo com ele?
  — Fiz, mas não significa que…
  — Significa sim, vocês estão no início de uma relação.
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  — Sophie.
  Ela se calou esperando a funcionário colocar o nosso pedido na mesa se se retirar, então me olhou de forma instigante.
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  — Vai por mim amiga, quando você aparecer naquela reunião ao lado dele, não vai ter ninguém que duvide. — garantiu ela.
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  — Já estou planejando terminar antes, assim é melhor. — eu a olhei — Não acha?
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  — Por favor , não me dá pra trás.
  — Me sinto insegura com relação a isso. — e estava mesmo.
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  — Eu sei que você não precisa de um macho pra mostrar que está linda e maravilhosa depois do divórcio, e está mesmo. — reforçou ela em suas palavras motivadoras — Mas se você desmentir esse leve e acidental namoro agora ou dizer que terminaram, Carl vai ter mais um motivo para dizer que você fez isso para provocar ciúmes nele. Porque ainda o ama.
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  — Eu jamais faria isso, nem em sonhos eu quero o Carl de volta, depois de tudo que ele me disse.
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  Era só o que faltava mesmo.
  — Nós duas sabemos o quão egocêntrico seu ex marido é, o homem tóxico. — ela cruzou os braços — Nunca gostei dele, e você sabe.
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  — Sim, eu sei. — suspirei forte — Ok, o acordo está feito, vou deixar passar umas semanas, as pessoas esquecerem e converso com o sobre o rompimento amigável.
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  — Hum.
  — E se me perguntarem, eu digo que preciso de tempo, que eu saí de um divórcio e me precipitei ao aventurar em uma nova relação.
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  — Você não acha que está criando uma explicação detalhada de mais?
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  — E como deveria ser?
  — Eu terminei porque quis. — respondeu — Seu problema é que dá muita explicação para quem não precisa.
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  — Tudo bem. — aceitei o conselho.
  Nós terminamos de comer e Sophie insistiu em pagar a conta.
  — Meu problema nem é a reunião, mas enfrentar a minha mãe. — comentei ao levantarmos para ir embora.
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  — Ela já sabe?
  — Nessa altura do campeonato sim, todo mundo já sabe. — disse — Mas até agora não recebi nenhuma ligação dela.
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  — Sua mãe silenciosa é pior do que gritando. — confessou ela.
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  — Sim, e por falar nisso, tenho que ligar para a Marg e lembrá-la que sábado é aniversário do papai e teremos jantar em família. — comentei.
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  — E você vai levar o ?
  — Não sei, não sei qual vai ser pior, levá-lo ou não levá-lo. — era uma incógnita.
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  Me despedi de Sophie e segui para a redação.
  Era a algumas quadras do estúdio, então caminhei até lá, pois fazia tempos que não andava pela cidade. Confesso que minha vida de casada eu ficava mais em casa e raramente saía, depois que divorciei minha rotina corrida me exigia pegar mais táxi, ao invés de transporte público. Mas olhando os prédios a cada passo que dava pelas ruas de Manhattan, me toquei que nas oportunidades, era legal ir de um trabalho para o outro caminhando. Apesar da cafeteria no Brooklyn ser aparentemente longe da redação em Manhattan. Eu poderia começar a usar a Estação Central e gastar menos com transporte. Era uma estratégia a se pensar.
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  — Bom dia Hill. — disse assim que saí do elevador e a vi passando.
  — ?! — ela me olhou de forma estranha e conferiu a hora no relógio de pulso dela — O que faz aqui a essa hora?
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  — Houve um incêndio da cafeteria e estou de férias por tempo indeterminado. — respondi com tranquilidade.
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  — Mas tá tudo bem lá?
  — Sim ninguém saiu ferido. — assegurei.
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  — Onde teve incêndio? — perguntou Sunny ao se aproximar.
  — Na cafeteria que ela trabalha de manhã.
  — Sério? Ahhh… Acho que vi, o Doug estava comentando no grupo. — disse ela — Perda total né?
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  — Mais ou menos. — confirmei.
  — Vou aproveitar a deixa para terminar meu artigo sobre primeiro emprego. — disse a ela indo em direção a minha mesa — Estou muito travada com isso.
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  — Ah, antes que eu me esqueça. — Hill me chamou a atenção — A Genevieve quer uma reunião com a nossa equipe no final da tarde.
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  — Ela disse o motivo? — perguntei curiosa.
  — Não, mas espero que seja algo bom. — respondeu ela.
  — Eu espero que seja um aumento. — comentou Sunny — Ouvi dizer que o NT Post estava vendendo o dobro nos dias que sai o caderno da mulher.
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  — Parece que o matriarcado está chegando por aqui. — brincou Hill.
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  — Quem disse que as mulheres não gostam de se manter informadas? — completou Sunny.
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  — Será que mais mulheres estão se interessando pelo Jornal? Por causa do nosso trabalho? — perguntei admirada.
  — Se for, Genevieve pode voltar com a proposta do jornal inteiramente voltado para o público feminino.
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  — Seria demais, e nós as pioneiras da redação. — Sunny se empolgou.
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  — Ela tem uma proposta assim? — fiquei impressionada.
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  — Sim, ouvi dizer que ela apresentou e foi negada pela diretoria três vezes. — Hill bufou.
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  — Queria o que, é cem por cento composta por homens. — Sunny riu de leve — Patriarcado elitista.
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  — O mundo está bem mudado e querendo ou não, o mercado consumidor é dominado pelas mulheres. — comentei — Vamos fazê-las olhar para o nosso jornal e dominar isso também.
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  — Falou bonito. — Hill se animou.
  — Deixa eu voltar para o meu artigo e contribuir para isso. — me afastei dela com um sorriso animado no rosto.
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  Sentei na cadeira e liguei o computador. Digitei a senha e abri o arquivo salvo, já nem mesmo me lembrava o que tinha escrito no dia anterior. Li as cinco páginas e meia escritas, meu planejamento de escrever um artigo que seria publicado em três partes tinha que dar certo. E só tinha um jeito para me concentrar, uma playlist estimulante de boyband dos anos 90 no spotify. Sim, eu amava trabalhar com música e tinha playlist para tudo, até lavar o banheiro, que era o que mais detestava. De fone no ouvida e cheia de motivação, voltei as minhas pesquisas e continuei a digitar meu artigo.
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  No final da tarde, antes de sair da redação, liguei para Margareth. Ela tinha me mandado uma mensagem pedindo que eu ligasse para ela quando tivesse livre. Já esperava por essa mensagem.
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  — Margareth? — disse.
  — , que bom que ligou. — disse ela ao atender, a voz estava normal.
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  — Aconteceu alguma coisa?
  — Alguma coisa tem que acontecer para sua irmã te mandar uma mensagem?
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  — Não sei, me diz você. — eu ri.
  Margareth morava em Upper East Side, o bairro da elite. Era de se esperar pelo seu cargo na transportadora e pelo marido que tinha. Sua vida era corrida também e era raro quando me ligava. Eu parecia ser mais irmã de Sophie do que dela, chato ter que admitir, mas não tinha tanta intimidade com minha irmã mais velha. Talvez pelos acontecimentos em minha vida, ela estava na metade do seu curso da faculdade quando eu engravidei. Nossos momentos de irmãs na infância foram esquecidos quando conheci Sophie no primeiro dia do ensino médio e viramos amigas.
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  — Tem planos para hoje à noite? — perguntou.
  — Mais ou menos. — sibilei um pouco—Por que?
  Não podia abrir o jogo e dizer: “Ah tenho sim, vou cozinhar para meu vizinho.”
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  — Queria tomar um drink com minha irmã naquele bar que fomos com a Sophie da última vez. — respondeu ela.
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  Sophie era a líder de torcida popular que fazia amizade com todo mundo. Nem acreditava que ela tinha feito amizade com a nerd da sala, com tanta simplicidade. Bem, claro que inicialmente ela queria sentar do meu lado porque eu conseguia resolver os cálculos de matemática. E era de se esperar que depois de conhecer minha família, ela se desse bem com a Mag também.
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  — Acho que posso ir, mas não posso demorar. — aceitei o convite disfarçado.
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  — Ah, eu me contento em ter sua atenção por alguns minutos. — brincou ela — Sei que minha irmã caçula anda bem ocupada.
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  Senti uma ironia misturada a “eu sei o que anda fazendo”, em sua voz.
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  — Te encontro lá em quinze minutos. — disse desligando a tela do computador.
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  — Ok. — concordou.
  Estranha a ligação e mais estranha o convite. Joguei o celular dentro da bolsa e me levantei para ir embora. Me despedi das meninas e sai da redação. Fui de metrô até a estação próxima ao Coyote Ugly, nosso bar favorito, pelo menos o de Sophie e Margareth. Quando cheguei, ela já me esperava no lado de dentro sentada em uma banqueta.
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  — Marg. — disse ao me aproximar a abraçá-la — Boa noite.
  — Boa noite mana. — ela retribuiu o abraço — A quanto tempo não te vejo? E moramos na mesma cidade.
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  Visivelmente ela já tinha tomado algumas doses de alguma coisa.
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  — Está tudo bem? — analisei sua face — Seu olhar está caído.
  — Problemas no trabalho, que está sendo difícil não levar para casa. — explicou ela — Se eu soubesse que seria tão complicado trabalhar com o marido, não teria aceitado aquele encontro com o Mark quando ele me chamou para sair.
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  — O que aconteceu?! — perguntei preocupada com seu estado.
  — Ah, ele que sempre critica meu trabalho, acha que pode me ensinar o que estudei na faculdade, eu fui a melhor de economia em Princeton, a melhor. — ela pegou o copo com mais uma dose e jogou na boca — E quando chegamos em casa age como se nada tivesse acontecido querendo fazer sexo comigo.
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  Ele estava mesmo brava com ele. Meio sem noção da minha parte, mas respirei aliviada por isso, afinal, mostrava que minha ida ali não era por causa do meu namoro falso. Isso me fez me sentir culpada, mas ainda assim aliviada.
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  — Vida de casal é assim, pelo menos o seu marido ainda quer fazer sexo com você. — deixei meu pensamento escapar, com um tom de frustração — Poderia ser pior.
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  — Ai , me desculpa, não devia te encher com isso. — disse ela — Te fiz lembrar do babaca egocêntrico.
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  — Fica tranquila Marg, está tudo bem agora. — sorri de leve — A quanto tempo está aqui?
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  — Umas duas horas. — respondeu se debruçando no balcão.
  — Você está bebendo há duas horas? — perguntei chocada.
  — Não. — ela ergueu a cabeça e me olhou — Eu fiquei tomando refrigerante, mas comecei a pensar na reunião de hoje e parti pro álcool.
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  — Sei que é complicado não misturar casa e trabalho, deve estar sendo difícil pra você. — acariciei seus cabelos — Mas força mana, vocês tem um filho de cinco anos, precisam encontrar uma solução para isso.
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  — A solução é eu pedir demissão e trabalhar na concorrente. — disse ela convicta.
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  — Causar mais brigas? Ou pretende virar espiã industrial? — lancei meu olhar sério para ela.
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  — A ideia é boa.
  — Margareth?!
  — Ai , eu só sei que estou cansada disso tudo. — ela suspirou — E não consigo achar uma saída.
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  Como eu disse no início, uma vida perfeita não é assim tão perfeita. Margareth estava me mostrando isso com seu dilema profissional x pessoal.
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  — O pai do Mark te considera muito. — falei para sua reflexão.
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  — Se o filho dele me deixasse trabalhar em paz, ajudaria. — ela olhou para a bolsa e abriu, olhou a tela do celular que tocava e virou para mim.
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  Era uma chamada do Mark.
  — E além disso, vive querendo saber onde estou. — reclamou jogando o celular na bolsa novamente— Não vou atender.
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  — Se você não atender ele vai ligar para a mamãe, e depois para mim. — retruquei.
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  — Não ligo, ela não sabe onde estou, e você nada de atender ele. — ela me olhou com ar de ameaça — Ele merece ficar surtado por um tempo pra ver o que está me fazendo.
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  — Você que sabe.
  O casamento é seu. Pensei comigo.
  — Já que estou aqui, tenho que te lembrar no jantar de família no sábado, é aniversário de casamento deles. — avisei a ela.
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  — Ah, tem isso também. — ela levou a mão na testa como se tivesse esquecido — Justo agora.
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  — Não se faz 37 anos de casado todos os dias. — argumentei.
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  — Temos que ir, se não seremos deserdadas. — disse ela.
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  — Concordo plenamente.
  — Vai levar seu namorado? — perguntou com a voz já estranha.
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  Tava demorando para esse assunto surgir.
  — Não sei. — mordi o lábio inferior.
  Estava mesmo ainda na dúvida.
  — Nossa mãe já te ligou perguntando sobre isso? — ela me olhou.
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  — Não.
  — Ai. — Marg fez uma careta de “você está ferrada”.
  — É.
  — Acho melhor não levá-lo, não agora. — aconselhou ela.
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  — Vou levar sua opinião em consideração. — sorri de leve.
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  — Ele é bonito?
  — Quem?
  — Como assim quem? Seu namorado é claro. — soou com rispidez desta vez.
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  — Calma, sim, ele é.
  — Mais que o Carl?
  — Segundo a Sophie, ele é o Universo Marvel inteiro.
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  — Uau, pra ela desconsiderar o selo de qualidade Chris Marvel. — Marg começou a me aplaudir — Mana, eu ainda não vi mas tá de parabéns.
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  — Para com isso. — eu abaixei as mãos dela — Que vergonha.
  — É verdade que ele é mais novo que você?
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  — Quem disse isso? — agora estava estreito os boatos.
  — Freya. — respondeu — Eu estava no shopping na terça e trombei com ela, ela me contou que rolou esse boato do namoro a partir do Carl e você conformou pra Lauren no domingo. — seu olhar ficou confuso — Domingo do sorvete com a Sophie? Foi por causa disso?
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  — Ela falou que foi domingo do sorvete? — me segurei para não entrar em pânico.
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  — A Lauren disse a ela.
  — E ela saiu falando pra todo mundo?
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  Marg assentiu com a cabeça. Meu corpo gelou.
  — E você contou a mamãe?! — perguntei.
  — Ela me ligou perguntando se é verdade. — respondeu indo pedir mais uma dose, porém eu a interrompi.
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  — Não vai beber mais nada hoje. — disse.
  — Hum… — ela suspirou — Eu não sabia se era mesmo verdade, só o que Freya me contou, então eu confirmei.
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  — Sabe quem contou a ela?
  — Sua vizinha, a senhora Philips. — ela riu — Velha fofoqueira.
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  — Concordo, pelo menos não sou do clube da varanda, se não estava mais ferrada ainda.
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  — Ah sim, ela contou do clube da varanda, seu namorado é famoso ein. — brincou.
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  — Não tem graça. — eu abri minha bolsa e peguei o celular para ver as horas e guardei novamente — Eu te amo Marg, mas agora preciso ir.
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  — Vai encontrar o namorado?! — ela deu um sorriso malicioso — Como ele é na cama?
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  — Ai Margareth eu não vou te falar essas coisas.
  Porque elas nem existem. Pensei. E mesmo que existissem, não falaria sobre isso nem com a pervertida da Sophie.
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  — Agora vamos, vou te colocar em um táxi rumo a sua casa. — disse a segurando pelo braço — Fox, pendura na conta que ela paga amanhã.
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  — Anotado Miller. — disse o nosso Barman favorito.
  — Eu vim de carro. — disse ela.
  — Acha mesmo que vou bancar a doida de te deixar dirigir?
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  — Se você tivesse carteira, poderia me levar. — reclamou ela.
  — Amanhã você volta para pagar e leva seu carro. — resolvi o problema.
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  Ela fechou a cara inconformada, mas assentiu. Assim que a coloquei dentro do táxi e instrui a motorista a levá-la em segurança, peguei outro táxi e fui para casa. Quando cheguei, Joseph estava na sala vendo televisão e Molly ao seu lado desmaiada. Passei por ele só passando a mão na sua cabeça de leve e segui para a cozinha. Tinha um pacote de sanduíche em cima da mesa me esperando. O serviço delivery estava lucrando comigo. Voltei meu olhar para a janela e vi a cozinha do vizinho, quer dizer, , apagada. No meu primeiro dia de acordo eu falho.
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  Não, não faria isso.
  Deixei minha bolsa em cima da mesa e saí para o quintal. Passei pela abertura na cerca e fui até a porta. Antes de bater percebi que a mesma estava somente encostada, girei a maçaneta e abri, veio um frio na barriga. Dei um passo para dentro e liguei a luz, eu não tinha observado sua reforma na noite anterior e certamente ele tinha feito mais alguma coisa hoje. Mas sua cozinha estava linda e muito convidativa para cozinhar, em estilo industrial e muito bem decorada, me fez ficar curiosa para ver o restante da casa. Observei que ao lado da janela tinha uma parede toda preta com escritas em lettering, parecia a parede dos recados e tinha um para mim.
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  — Obrigado pelo jantar. — sussurrei ao ler, fiquei envergonhada na hora — Além de bonito é irônico, eu nem fiz o jantar.
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  Suspirei fraco.
  — E agora o que faço? — me segurei para não surtar.
  Meu coração se apertou, eu não podia deixar assim. Abri sua geladeira para ver se tinha algo que pudesse preparar bem rápido. Me deparei com a mesma totalmente abastecida.
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  — Alguém visitou o supermercado. — brinquei.
  Analisei o que poderia fazer e coloquei a mão na massa. Fiquei intrigada por ele não ter aparecido durante todo o tempo que eu estava fazendo barulho em sua cozinha. Será que tinha saído para comer fora? Ou tinha um sono tão pesado que não acordou? Ao final, peguei um giz que estava no saquinho dependurado em um prego e conhecei a escrever embaixo do seu recado.
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“Me desculpe pelo jantar…
Mas garanti seu café da manhã, basta levar ao forno.”

  Deixei as instruções de forno e tempo. Torcia para que minha torta de maçã tradicional pudesse amolecer seu coração. Antes de voltar para casa, limpei tudo e deixei sua cozinha exatamente como estava, sem rastros da minha passagem. Chegando em casa, peguei minha bolsa, o pacote e uma caixinha de suco e fui direto para o quarto. Joseph já tinha levado Molly para cama e já estava dormindo também. Fiz meu lanche, tomei uma ducha rápida e caí na cama. o dia tinha sido puxado e cheio de emoções.
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  Com os dias passando depressa, logo a temida noite de sábado chegou. Deixei meus filhos se arrumando por um tempo e corri na casa do vizinho. . Tinha que me acostumar a chamá-lo pelo nome. Assim que entrei na sua cozinha, ele estava vindo da sala também, desta vez estava em casa.
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  — Boa noite. — o cumprimentei.
  — Boa noite. — ele sorriu de canto.
  — Eu vou ter que furar com você hoje. — o olhei apreensiva.
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  — Por que?
  — Tenho um jantar na casa dos meus pais e…
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  — Quer que eu vá?!
  — NÃO! — minha voz saiu alterada — Não… É que ainda não falei sobre você com meus filhos, ficaria estranho ser assim tão de repente.
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  — Tudo bem. — ele parecia tranquilo com isso.
  Claro, era só uma farsa.
  — Prometo te compensar com um café da manhã. — garanti.
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  — Gosto da sua panqueca. — disse ele.
  — Panquecas para o café com muita geléia. — assegurei.
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  — Bom jantar para você.
  — Obrigada.
  Sorri de leve e saí rapidamente.
  Assim que entrei em casa, ouvi as vozes dos meus filhos na sala. Segui para lá e me deparei com Joseph fazendo cócegas em Molly em cima do sofá.
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  — Mamãe, me salve. — disse ela entre risos, toda vermelha e quase sem fôlego.
  — Joseph, cuidado para não matar sua irmã. — chamei sua atenção de leve e o mesmo parou.
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  — Era essa a intenção, matá-la de tanto rir. — ele sorriu com maldade e piscou para mim.
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  — Seu malvado. — Molly o empurrou de leve e arrumou seu cabelo bagunçado.
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  — Vocês estão prontos? — perguntei.
  — O táxi já chegou. — disse Joseph ao olhar pela janela.
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  — Você chamou? — eu o olhei admirada.
  — Sim. — disse ele colocando seu psp portátil no bolso da calça.
  — Você sabe que sua avó odeia seus games. — disse ao me aproximar dele — Seja discreto.
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  — Vou ser. — ele sorriu novamente.
  Por mais que eu tivesse preocupações com a vida de Joseph e seu amor por games, eu confiava em meu filho. Contando que não atrapalhasse seus estudos e não lhe causasse nenhuma doença, física o mental, ele tinha minha aprovação e apoio. Ao chegarmos na casa dos meus pais, fomos recebidos por Margareth na porta. Ela já tinha chegado com sua família e estava ajudando nossa mãe na cozinha. Pai conversava com Mark na sala, e assim que me viu veio ao meu encontro me abraçar.
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  — Ah filha. — um abraço acolhedor e carinhoso que só ele sabia me dar — Que saudade.
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  — Nos vimos a pouco tempo pai. — disse retribuindo o abraço — Mas também fiquei com saudades.
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  — E vocês?! — ele voltou seu olhar de ternura para meus filhos e deu um abraço em Joseph e depois em Molly — Vocês eu vejo mais do que sua mãe.
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  — Já temos um quarto aqui vovô. — brincou Molly — Jacob.
  Ela correu em direção ao primo que brincava sentado no tapete da escada.
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  — Boa noite Mark. — cumprimentei meu cunhado.
  — Boa noite . — ele me olhou de relance e voltou sua atenção para o celular em sua mão.
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  Eu não tinha muita afinidade com ele. Talvez pelo seu olhar meio superior para mim. Seus assuntos sobre a empresa e quanto sua família era próspera nos negócios sempre me davam sono
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  — Mamãe está terminando o jantar? — perguntei a Marg.
  — Sim, venha, me ajude a colocar os pratos na mesa.
  Assenti um pouco insegura. Agora eu estava no território da minha mãe e não sabia quando ela jogaria tudo que estava guardando na minha cara. Chegando na cozinha, ela me viu e permaneceu em silêncio. Já estava acostumada com a forma que me tratava, então não levava em consideração. Ajudei Margareth a colocar os pratos e copos na mesa, e quando nossa mãe terminou, acomodamos as panelas em cima da mesa de jantar.
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  — O jantar está servido. — disse aos demais que estavam na sala.
  Nos sentamos a mesa. Meu pai na cabeceira e minha mãe na outra, de um lado Marg e sua família, do outro eu e minha família. Fiz questão de me sentar ao lado do meu pai e bem longe dos olhares de repreensão da minha mãe. Começamos a nos servir e depois da oração de agradecimento a Deus pela comida, saboreamos do assado com batatas e salada de vinagrete que ela tinha preparado.
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  — Está tudo bem mãe? — perguntei quebrando o silêncio.
  — E porque não estaria? — ela me olhou.
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  — Não falou comigo desde a hora que eu cheguei. — retruquei.
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  — Não acho que tenha necessidade de falar com você, se eu quiser saber algo da sua vida, tenho vizinhos que me contam. — a rispidez em sua voz era nítida.
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  Já vai começar. Pensei comigo mesmo.
  — Mãe, não diga assim, tem seus motivos para não ter falado antes. — Marg tentou me defender.
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  — Agnes, não é o momento e nem o lugar certo para falarmos nesse assunto. — disse meu pai — As crianças estão à mesa.
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  — Por isso mesmo, a família está toda reunida, é o melhor momento para falar sobre o namoro repentino da sua filha. Porque todos souberam antes de nós, os pais dela.
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  — Mãe, por favor. — pedi.
  Meus filhos não eram obrigados a participar daquilo.
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  — Eu ia contar a todos vocês. — ponderei a minha voz.
  — E quando você ia nos contar? Quando se casasse de novo? Ou quando engravidasse dele, como da última vez?
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  — Para mãe. — eu me levantei bruscamente da cadeira — Eu não vou ficar aqui te ouvindo insinuar coisas na frente dos meus filhos.
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  — Ah, e você teve a coragem de contar para seus filhos primeiro pelo menos? Ou eles ficaram sabendo através dos colegas na escola? — continuou ela.
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  — A nossa mãe já nos contou, fomos os primeiros a sabe vovó. — disse Joseph num tom sério e firme, e olhou para Molly.
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  Eu contei? Quando? Pensei comigo.
  — Sim, mamãe nos contou e pediu nossa opinião. — confirmou minha joaninha — E nós apoiamos ela.
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  Meu coração se aqueceu. Meus filhos me defendendo. Envolvidos em uma mentira, que mãe horrível eu sou.
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  — Vamos acalmar os ânimos. — disse meu pai em seu tom pacífico de ser, tocando em minha mão para que eu me sentasse novamente — É uma noite especial, estamos completando 37 anos de casamento, nossa família é linda e nossas filhas estão aqui felizes com suas famílias.
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  — Bem, acho que está faltando alguém do lado da . — a ironia na voz da minha mãe era o que mais me matava.
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  — Agnes, vamos comer em paz. — meu pai subiu um pouco seu tom de voz.
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  Ele era mesmo um homem pacífico e só o tinha visto nervoso uma vez, para nunca mais. Como dizia meu avô: “os calmos são os piores quando chegam ao extremo da raiva.” Me mantive em silêncio o resto do jantar, ouvindo Margareth e Mark contando as novidades da nova filial da empresa em Chicago. O que me confortava eram os olhares de compreensão e carinho do meu pai para mim. Mas minha preocupação não era com minha mãe e o que pensava sobre minhas escolhas na vida. Eu estava preocupada com meus filhos, que continuaram se comportando com naturalidade até voltarmos para casa.
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  — Eu acho que precisamos conversar antes de irem para seus quartos. — disse a eles assim que chegamos em casa.
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  — Tem certeza que quer falar sobre isso hoje? — perguntou Joseph, ele já sabia do que se tratava.
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  — Sim, é algo sério, e vocês são minha família, devo uma explicação a vocês. — reforcei.
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  Eles se sentaram no sofá e eu na mesa de centro, ficando de frente para eles. Não sabia como começar nem exatamente o que falar, mas deveria dizer algo.
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  — O que a vovó disse hoje no jantar… — iniciei, procurando as palavras mais suaves.
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  — É com o novo vizinho? — perguntou Molly.
  — Como? — a olhei assustada por sua desenvoltura.
  — Está namorando com o vizinho da reforma ao lado? — disse ela novamente — Ele parece ser legal.
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  — Sim, é o . — voltei meu olhar para Joseph que me analisava em silêncio — Eu planejava contar para vocês antes de irmos para casa da vovó, mas… Me desculpe por fazê-los mentir.
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  — Tudo bem mamãe. — Molly se levantou e me abraçou — Você tem nosso apoio.
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  — Obrigada joaninha. — sorri para ela e beijei sua bochecha.
  — Boa noite.
  — Boa noite.
  — Boa noite Joe bobão. — ela riu do irmão e correu para a escada.
  — Feche bem a porta do quarto, você pode acordar com as minhas cócegas. — alertou ele rindo dela.
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  Assim que Molly desapareceu no nosso campo de visão, olhei sério para ele.
  — Não sei o que está pensando, mas sei que é sério. — disse diretamente — Está bravo comigo?
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  — Não. — disse ele, mantendo a suavidade em sua face.
  — Você já sabia? — perguntei.
  — Quando o papai me ligou pelas pastas, ele falou sobre isso também. — confessou — Não é real.
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  — O que?
  — Seu namoro com o vizinho, não é real. — o olhar fixo do meu filho para mim, era o sinal de que ele queria a verdade.
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  — Não, não é real. — admiti para ele — Mas você tem que guardar segredo, só a Sophie que sabe sobre isso.
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  — Mãe… — seu olhar ficou preocupado — Não está fazendo isso para fazer ciúmes no papai, não é?
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  — Claro que não. — suavizei meu olhar para ele — Joseph, eu jamais faria isso.
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  — Então, por que?
  — O dia que seu pai esteve aqui, nós brigamos e aconteceu um mal entendido entre ele e , que tinha vindo aqui para me dar o quadro de pedido de desculpas, então seu pai saiu espalhando para todos sobre eu estar namorando. — contei não tão fiel a história, mas sem mentir ou omitir a verdade — Eu poderia ter negado tudo, mas…
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  — Meu pai poderia levar vantagem sobre isso. — concluiu ele.
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  Meu filho era tão maduro e compreensivo. Nem parecia que só tinha 16 anos e pensamentos sobre como vencer a próxima partida de LoL.
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  — Mas não se preocupe, não vai durar por muito tempo, estamos esperando todo esse boato passar. — assegurei.
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  — Não me importo que namore outra pessoa, só não quero que se machuque mãe. — ele me olhou com ternura.
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  — Filho! — eu o abracei apertado — É o melhor filho do mundo. Não se preocupe, sua mãe não vai se machucar.
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  Ele se levantou.
  — Você fez algum acordo com ele? — perguntou curioso.
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  — Por que a pergunta? — me assustei com a pergunta.
  — Você fez. — afirmou ele, sorrindo de canto — Isso explica estar cozinhando para ele toda noite.
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  — Como sabe sobre isso? — perguntei.
  — Tem duas janelas no meu quarto. — brincou ele — Eu vi.
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  Era louco e ao mesmo tempo incrível, mas tinha que admitir que meu filho era muito esperto.
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Eu vou me levantar para enfrentar
Todas as grandezas, fatalmente
Quando estou com você
Eu fico mais forte.

– Divine / Girls’ Generation

7. Kiss

  Era estranho acordar cedo na segunda-feira e não ter o Liberdad para ir. Já estava mais do que acostumada com a rotina de dois empregos e muita diversão ao longo do dia, apesar da correria. Viver aquela nova realidade de vida pós divórcio estava a cada dia se tornando mais empolgante. Principalmente quando a noite chegava e eu tinha vários assuntos para compartilhar com meus filhos em meio nossas maratonas de filmes da Netflix ou Amazon. 
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  Naquela manhã, acordei com o doce som da reforma ao lado. O barulho dos instrumentos que usava, não me incomodava mais, pelo contrário, me ajudavam a acordar pontualmente às seis da manhã. E isso me lembrou que eu tinha um café da manhã pendente. Troquei de roupa correndo e desci as escadas quase tropeçando, quando entrei na cozinha, meu corpo gelou ao deparar com sentado na mesa tomando café da manhã com meus filhos.
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  Oi? Pensei comigo. O que aconteceu aqui?
  — Bom dia mamãe. — disse Molly ao me ver paralisada da porta.
  — Bom dia querida. — sussurrei não acreditando na cena.
  — Vamos joaninha, não podemos atrasar, tenho prova hoje. — disse Joseph ao se levantar da cadeira.
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  — Até mais vizinho. — disse Molly segurando o riso.
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  — Boa aula joaninha.
  — Bom dia mãe. — disse Joseph ao se aproximar de mim e me dar um beijo na bochecha — Ele já sabe que eu sei.
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  Assenti com o olhar e dei um abraço em Molly antes dela seguir o irmão.
  — Bom dia. — disse a que continuou comendo tranquilamente.
  — Bom dia. — ele deu mais uma garfada — Ainda me deve panquecas.
  — Você está comendo. — disse ao me aproximar da mesa — E com muita geléia.
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  — Foi o seu filho que fez, não você. — retrucou ele sorrindo de canto.
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  — Posso compensar depois? — perguntei.
  — Não vou estar em casa amanhã, considere o jantar cancelado. — disse ele tranquilamente — Nem hoje há noite.
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  Eu tive uma leve vontade de perguntar onde ele iria, mas não era da minha conta.
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  — Você está aqui e tem barulhos do outro lado da cerca, seu primo ainda está aqui? — perguntei me sentando na cadeira em sua frente.
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  — Sim, mas fique tranquila, ele já tomou café.
  — Não é por isso. — eu ri — Como veio parar sentado na minha cozinha?
  — Seu filho me convidou para o café. — respondeu parando e me olhando.
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  — Joseph te convidou?!
  — Sim, ele disse que sabia de tudo e me convidou para o café. — contou com um sorriso espontâneo — Ele queria fazer algumas perguntas sobre aquela noite.
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  — E o que você disse?
  — Contei minha versão e assumi a culpa, afinal foi minha mesmo. — ele manteve seu olhar fixo em mim — Fiz errado?
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  — Não, não fez, eu não gosto de mentir para meus filhos. — assegurei.
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  — Joseph é um bom filho, gostei dele. — ele deu um sorriso disfarçado — Obrigado pelo café, mas tenho uma obra para terminar.
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  — Você conseguiu chegar na metade? — perguntei — A casa é grande.
  — Mais ou menos. — ele se levantou da cadeira — Mas acho que consigo terminar a tempo.
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  — Tempo de que? — fiquei curiosa.
  — De você terminar comigo. — seu olhar ficou um pouco caído — Bom dia.
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  Ele se afastou da mesa e saiu para o quintal. Permaneci por um tempo pensativa em suas palavras finais. Será que ele só ficaria na casa ao lado até o final da obra? Terminei de tomar o café da manhã e arrumei a cozinha, a cada vez que eu passava na frente da janela, não me continha em olhar para fora. Foram raros os momentos que vi ele dando instruções ao seu primo. Eu tinha que chegar antes do almoço na redação, então deixei a comida congelada no congelador e um recado para Joseph na geladeira. Corri para o quarto e me aprontei para o trabalho, peguei minha bolsa jogando tudo que precisava dentro e saí em direção a mais um dia de luta.
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  — Bom dia meninas. — disse ao chegar na minha mesa na redação e ir sentando.
  — Olha só quem chegou pontualmente. — comentou Lizzy.
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  — Genevieve disse que nos queria aqui antes do almoço. — retruquei — Onde está a Beth, não a vi no caminho para cá.
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  — Ela ligou falando que foi hospitalizada. — respondeu Sunny.
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  — O que aconteceu com ela? — olhei preocupada.
  Beth não era de se machucar, e mesmo gripada ia para o trabalho.
  — Ela disse que era alguma coisa envolvendo a apêndice dela. — explicou Sunny — A Hill foi até lá ver como ela está e pegar seu atestado para entregar no Rh.
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  — Espero que ela se recupere rápido. — disse voltando minha atenção para o computador e o ligando — Genevieve já chegou?
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  — Ainda não.
  — Não sei porque ela pede pra gente chegar cedo, se ela mesma não chega. — reclamou Lizzy se debruçando na sua mesa — Que dor, que ressaca.
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  — Eu disse que não era uma boa você ir naquela festa dos calouros. — Sunny riu.
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  — O que aconteceu com ela? — perguntei segurando o riso.
  A situação de Lizzy me fazia querer rir, mas com respeito.
  — A última festa dos calouros que fui, foi a minha há dois anos atrás, eu sempre estou aqui nessa redação me matando para ter dinheiro. — reclamou novamente Lizzy.
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  — Deveria gastar com sabedoria. — Sunny riu sem dó da amiga.
  — Sei o que é ter o orçamento apertado, tenho dois filhos e não é fácil. — assegurei a ela.
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  — Você deveria ser estudada pela NASA então. — Lizzi me olhou.
  — Eu tenho dois empregos, ou melhor, tinha. — argumentei.
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  — E como está a cafeteria? Alguma novidade? — perguntou Sunny.
  — Bom, pelo que meu amigo disse, ele está tentando encontrar recursos financeiros para começar a obra, já que o projeto já está pronto. — respondi.
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  O que me levava a pensar. Em que hora do dia trabalhava? Já que ele sempre estava envolvido com a reforma da casa. Olhei para o lado e vi Genevieve saindo do elevador acompanhada de Hill. Ela se aproximou de nós e nos convidou para ir a sua sala. Parecia importante.
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  — Para as mais antigas na redação, vocês sabem que aqui temos que lutar contra o sistema patriarcal que acha que mulher não lê um jornal. — disse ela ao se sentar na sua cadeira de executiva — Mais uma vez meu projeto foi negado, porém vamos continuar mostrando para eles que os números só aumentam nos dias em que nosso caderno vai às bancas.
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  — Babacas. — sussurrou Lizzy.
  — Tem mais algo que possamos fazer? — perguntou Hill, seu olhar decepcionado igualava o da nossa chefe.
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  — Não Hill, só continuar trabalhando como sempre. — ela respirou fundo — Vocês poderiam me deixa a sós com a ?
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  — Sim. — concordaram elas.
  — Ah, Hill, como está a Beth? — perguntou Genevieve antes delas saírem.
  — Ocorreu tudo bem, e ela vai se recuperar rápido, deve ganhar alta em poucos dias, já levei os papéis do hospital no Rh. — respondeu ela prontamente.
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  — Agradeço, podem ir.
  Assim que as garotas saíram. De frustração, o olhar de Genevieve se transformou em preocupação.
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  — Sente-se , o assunto é sério. — disse ela estendendo a mão para a cadeira em sua frente.
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  — Ok. — assenti me sentando — Qual o problema?
  — Desde que entrei para a redação, algumas pessoas da diretoria não foram comigo, por causa do meu temperamento ou da minha personalidade, talvez. — começou ela num tom baixo, com um toque de recordação na voz — Quando finalmente me tornei editora chefe, as coisas pareceram ficar mais fáceis para mim, até que lançamos uma pequena coluna na última página falando sobre assunto femininos, era somente aos domingos… Aos poucos foi se tornando o caderno mulher do qual nos orgulhamos muito, mas nem tudo dura para sempre.
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  — Do que está falando? — perguntei apreensiva por suas palavras.
  — Tenho protelado essa conversa com você e as meninas, mas a diretoria decidiu me afastar do jornal por um tempo. — ela foi direta — Segundo eles, uma mente mais jovem e cheia de energia é o que nosso jornal precisa.
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  — E como vai ficar? Você? A gente? — eu não sabia o que pensar, era tudo o que faltava acontecer comigo, ficar sem o meu segundo emprego.
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  — Vocês vão continuar sem problema algum, o caderno mulher é um sucesso e eles não podem negar os números das vendas. — assegurou ela — Por isso estamos tendo essa conversa, quero te pedir um favor.
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  — Sim, claro, se estiver ao meu alcance. — a olhei.
  — Por favor, faça de tudo para manter a qualidade do trabalho de vocês, comigo longe, tenho certeza que eles farão de tudo para sabotar nossa equipe. — não era somente um favor, mas conseguia sentir a preocupação dela quanto ao seu projeto de anos.
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  — Farei sim, tudo o que puder para isso. — disse com firmeza e segurança — Mas e você?
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  — Vou apresentar minha carta de demissão, não vou conseguir continuar aqui sem poder fazer nada. — ela suspirou fraco — É difícil imaginar que depois de anos me dedicando a este jornal, termine assim, mas tudo bem já estou acostumada, tudo tem seu início e seu fim. Sairei em grande estilo, com o NT Post sendo um sucesso.
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  — Desejo sucesso para você no futuro. — disse a ela dando um sorriso singelo.
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  — Pois eu que desejo a você, sua redações e textos são maravilhosos e tenho certeza que já está chamando muita atenção por aí. — ela piscou de leve e sorriu também.
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  Assim que saí da sua sala, os olhares curiosos das minhas colegas de trabalho vieram em minha direção. Com a permissão de Genevieve, contei a elas o que estava acontecendo e o que poderia vir a seguir. Não seria fácil para nós com a saída da nossa chefe, e certamente a diretoria iria fazer de tudo para nos aniquilar ali. Porém, tínhamos uma a outra para nos apoiar e seguir em frente fazendo um bom trabalho. Depois de duas horas olhando a tela do computador, comecei a sentir uma dor de cabeça horrível, tomei um comprimido, mas não resolveu muito. Me despedi das meninas e fui para casa, sabia que não conseguiria trabalhar lá daquela forma.
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  Voltei de táxi, por não me senti segura ao andar de ônibus ou metrô. Assim que paguei o taxista e desci do carro, dei dois passos até a escada de três degraus da minha varanda. Senti um mal estar repentino que fez meu corpo bambear, logo fui amparada por alguém que me segurou firme, me apoiando a ele.
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  — Você está bem? — a voz de estava baixa, mas preocupada.
  — Estou. — levantei meu olhar para ele.
  Só então notei que seu rosto estava bem próximo ao meu. Conseguia sentir sua respiração. Voltei rapidamente meu olhar para a rua abaixando minha face, vi as vizinhas do clube da varanda nos observando. Claro que toda a rua sabia sobre nós, Freya não tinha economizado na língua para confirmar os boatos. 
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  — Acho melhor eu entrar. — sussurrei ficando incomodada com aqueles olhares atravessados para mim.
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  — Eu te ajudo. — disse me mantendo apoiada nele.
  Assenti sem recusa, pois estava mesmo me sentindo estranha. 
  — Mãe? — disse Joseph ao terminar de descer as escadas e me ver entrando — O que aconteceu?
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  — Ela não está bem. — disse me conduzindo até o sofá.
  — Um mal estar querido. — disse com a voz mais baixa. 
  — Obrigado. — disse Joseph para nosso vizinho.
  — Se precisarem, minha casa é ao lado. — sorriu gentilmente e se voltou para porta.
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  — Obrigada. — disse a ele, antes de sair.
  Seu olhar intenso veio em minha direção, seguido de um sorriso disfarçado. Mas notei que ele tinha ficado preocupado comigo. 
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  — Mãe, o que aconteceu? — perguntou Joseph ao se sentar ao meu lado — Quer que te leve ao hospital?
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  — Não, eu só preciso descansar, acho que minha mente ainda não processou tudo que está acontecendo comigo. — brinquei — Mas vou melhorar.
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  — Tem certeza? — seu olhar preocupado estava ali.
  — Tenho. — me levantei do sofá — Só preciso dormir.
  Dei um beijo de leve em sua testa e segui para meu quarto. Foi somente um banho quente e o pijama no corpo, meu corpo se rendeu ao aconchego da cama, de fazendo dormir durante todo o dia. O dia, a noite e só me dei conta de quem era eu, quando meu celular me acordou com uma ligação de Sophie às oito da manhã do dia seguinte. E ela parecia insistir bastante em falar comigo.
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  — Sophie? O que houve?
  — Ah, , finalmente. — disse ela num tom afobado — Estou te ligando desde ontem.
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  — E?
  — E o que aconteceu? Eu liguei para a redação me disseram que tinha saído mais cedo, liguei para sua casa e Joseph disse que tinha se fechado no quarto, liguei para o celular e nada de me atender. 
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  Não atender Sophie era pior que não atender a minha mãe. E em momentos raros, Sophie parecia mais ser minha mãe.
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  — O que você quer Sophie? — perguntei.
  Senti que meu corpo e minha mente ainda processavam que eu tinha acordado.
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  — Está tudo bem com você? — perguntou ela.
  — Sim, estou bem, minha cabeça começou a doer ontem de repente, senti mal estar quando cheguei em casa, acho que foi somente um cansaço repentino, tenho andado muito preocupada e com muito trabalho a fazer. — me espreguicei da cama, erguendo meu corpo — Mas estou bem, fique tranquila.
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  — Que bom. — ela pausou por um tempo — Você ainda está na cama?
  — Sim.
  — Hum.
  — Por que?
  — Nada, café da manhã no sábado? — sugeriu ela — Para colocar as fofocas em dia.
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  — Sim senhora. — eu ri — Acho que hoje vou trabalhar de casa, ainda estou sentindo minha cabeça pesada.
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  — Não vai se forçar muito. — aconselhou ela.
  — Não vou, agora vai trabalhar amiga. — ri dela e encerrei a ligação.
  Me espreguicei novamente, bocejando um pouco, então me levantei. Troquei de roupa, colocando um jeans rasgado e uma regata, que encontrei no fundo da gaveta, retirei um sobretudo de crochê bege do cabide e o vesti também. Desci as escadas e encontrei Molly ensaiando no meio da sala. Com a correria da minha vida, cheia de notícias ruins e preocupações em como pagar todas as contas, tinha me esquecido que o concurso de talentos se aproximava. 
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  — Bom dia joaninha. — disse ao sorrir para ela.
  — Bom dia mamãe. — ela sorriu mantendo a concentração na sua coreografia. 
  — Por que a mocinha não está na aula? — perguntei, colocando a mão na cintura.
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  — Um cano estourou e a escola inteira ficou encharcada. — explicou ela — Tivemos que voltar para casa.
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  — Uau, que loucura. 
  — Mas a diretora garantiu que não vai atrapalhar o concurso. — garantiu ela.
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  — Que será?
  — Mãe, você se esqueceu? — ela parou e me olhou chateada.
  — Não querida, eu anotei na minha agenda, só quero confirmar. — tentei contornar a situação.
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  — É na sexta agora. — seu olhar encheu de água.
  — Ah querida. — eu a abracei forte — Eu não me esqueci joaninha, estarei lá na sexta. 
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  — O papai também vai? — ela me olhou esperançosa.
  — Eu não posso confirmar por ele, mas vou ligar o lembrando. Ok?
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  — Ok! — ela sorriu com alegria.
  Eu me afastei dela e a deixei ensaiando, então me voltei para a cozinha. Tinha um bilhete de Joseph na geladeira, me dizendo que eu ainda devia um café ao vizinho. Eu ri automaticamente e abri a geladeira, retirei a jarra de suco e despejei um pouco no copo, então voltei para a sala. Tomei um gole pequeno e cheguei perto da janela. Notei que estava trabalhando na fachada da casa, trocando o assoalho de madeira da varanda. Abri a porta e saí para fora, olhei de relance para o clube da varanda do outro lado, tinha poucas integrantes naquele dia.
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  Os olhares delas vieram para mim por um momento, e depois voltaram para ele. Eu dei alguns passos até ficar na ponta da minha varanda, e olhei para trabalhando. Ele permanecia bastante concentrado no que fazia, até seu primo Cedric me ver e comentar minha presença. parou no mesmo momento e olhou em minha direção. Um sorriso espontâneo, com traços de alívio em me ver se formou em seu rosto. Ele deixou a ferramenta que estava em sua mão no chão e seguiu em minha direção. Senti meu coração acelerar um pouco, talvez por não saber o que ele estava planejando fazer com seus movimentos inesperados.
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  — Está melhor hoje? — ele subiu até o terceiro degrau se colocando em minha frente, era visível sua altura mais elevada em relação a minha.
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  — Sim, acordei bem melhor. — assegurei — Só estava cansada.
  — Hum… — ele lançou um sorriso malicioso e pegou o copo de suco da minha mão — Obrigado.
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  Antes que eu pudesse reivindicar, ele tomou todo o líquido em poucos goles, me deixando embasbacada. Tombei a cabeça sem notar olhando ele agir com a maior naturalidade.
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  — Foi você que fez? — perguntou ele me devolvendo o copo. 
  — Foi meu filho. — respondi ainda sem saber como reagir.
  — Ele herdou seu talento para gastronomia. — ele sorriu novamente e voltou seu olhar para o outro lado da rua.
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  Me controlei para não fazer o mesmo, e as senhoras acharem que eu estava provocando elas. 
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  — Acho melhor eu voltar ao trabalho. — disse ele se afastando de mim.
  Assenti observando ele voltar a sua varanda. Tombei mais a cabeça e fiquei um tempo observando ele trabalhar novamente. Para um arquiteto, ele tinha muita habilidade com trabalho braçal, a considerar pela cozinha que foi o primeiro cômodo da casa a ficar pronto. Imagino o motivo: nosso acordo! Será que em algum momento de sua jovem vida ele foi algum tipo de empreiteiro? Isso me faz lembrar os comentário da Sophie sobre os Irmãos a Obra. Soltei uma risada baixa e voltei para dentro de casa, Molly não estava mais na sala, certamente em seu quarto fazendo as atividades extras da escola. 
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  Soltei um suspiro forte e segui em direção a cozinha. Retirei o celular do bolso e mandei uma mensagem para dizendo que faria o almoço dele e se seu primo. Ainda me perguntava como ele tinha conseguido meu número. Será que tinha sido com o Finn? Voltei minha atenção para a geladeira e cocei a cabeça me perguntando o que faria. Saiu um rápido macarrão a carbonara. Separei um pouco em uma vasilha e levei para eles, deixando no microondas. Ao voltar para casa segui para meu quarto novamente, não estava com fome e tinha que correr atrás do prejuízo, se trabalharia em casa aquele dia, tinha que produzir algo. 
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  — Hum!!! — me espreguicei de leve após terminar de escrever mais uma página do meu artigo de três partes e olhei para a porta.
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  Joseph estava parado me olhando, com um sorriso no rosto.
  — Olá querido, que sorriso é esse?
  — Seu filho é o melhor aluno da escola. — ele sorriu com orgulho e piscou, entrando no quarto.
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  — Olha só, e como consegue essa proeza se vive jogando de madrugada? — perguntei, colocando o notebook na mesa de canto e o olhando se aproximar — Tem alguma namorada nerd que faz os trabalhos para você?
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  — Eu não preciso explorar uma garota para ser o melhor. — ele riu e se jogou na cama me olhando — Estava trabalhando?
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  — Sim, tinha que terminar a primeira parte daquele artigo que te falei. — disse a ele.
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  — E como ficou?
  — Não exatamente como eu queria, por que tenho algumas restrições, tem coisas que não devo falar. — respondi ponderadamente — Viva o patriarcado.
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  Não impedi que saísse com ironia e deboche aquela última frase.
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  — Como a tia Sophie sempre diz, fique famosa que logo poderá falar o que realmente quer. — comentou ele.
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  — Verdade, e por falar em Sophie, o que não tem nada a ver com o que vou dizer agora. — e não tinha mesmo — Este final de semana vocês ficarão com seu pai. 
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  — Sério? De novo? — ele fez uma careta estranha.
  — Sim. — o olhei de forma compreensiva — Foi o acordo que fizemos, finais de semana com ele.
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  Eu já tinha me ausentado de saber sobre o que acontecia com eles enquanto ficavam com o pai. Carl os pegava no sábado pela manhã e os entregava domingo á tarde. Para quem olha é pouco tempo, mas sei que é significativo pois não podia deixar meus filhos se afastarem do pai. Por mais escroto que Carl tenha sido comigo, ele ainda era o pais de Molly e Joseph. E para minha surpresa tinha demonstrando muito interesse em passar os finais de semana com os filhos. 
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  — Tudo bem. — seu olhar era de frustração, mas entendia e aceitava.
  — Cuide bem da sua irmã, ok?
  — Sempre. — ele sorriu e se aninhou em mim — Dela e de você. 
  — Olha aqui garoto, o filho aqui é você. — ri dele — Mas fico feliz que queira cuidar da sua mãe, isso me motiva bastante.
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  Dei um beijo em sua testa e acariciei seus cabelos. Ficamos alguns minutos ali até que Molly olhou da porta e fez bico.
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  — Vem joaninha, cabe você aqui também. — disse Joseph rindo dela.
  — Achei que iria me excluir. — ela correu e deu um pulo em cima da cama.
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  Consequentemente fez um barulho.
  — Só deixem minha cama inteira. — brinquei, os fazendo rir.
  — Mamãe, podemos almoçar aqui? — perguntou Molly.
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  — Por que quer almoçar no meu quarto? — perguntei.
  — Quero ficar perto de você.
  — Hum…
  Molly também não se sentia à vontade com o fato de ficar com Carl aos finais de semana. Apesar dela amar muito ele. Uma realidade nova para ela, e precisava de espaço para absorver tudo e se acostumar a ter duas casas, dois quartos e pais divorciados. Logo à noite, minha mente me fez deixar meus filhos, com nossa maratona da série Perdidos no Espaço em meu quarto. Eu só conseguia pensar no acordo, até que parei em frente sua porta e me lembrei que ele não estaria em casa e não iria precisar. Soltei um suspiro de: como fui esquecer disso? Até que a porta se abriu e ele apareceu.
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  — . — sussurrei.
  — Oi. — seu olhar não estava surpreso ao me ver.
  — O que faz em casa? — perguntei.
  — O que faz na minha casa? — devolveu a pergunta.
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  — Eu me esqueci por um momento que não precisava fazer seu jantar hoje. — expliquei — Mas você disse que não estaria em casa.
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  — Sim. Já estou de saída.
  — Hum… Bom passeio. — eu dei alguns passos para trás e voltei a passar pela cerca, ainda quebrada voltando para minha casa.
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  Que vergonha. Tudo que eu sentia naquele momento. 
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  Peguei a garrafa de água na geladeira e despejei um pouco no copo e tomei. Por que eu fui esquecer, ele tinha mencionado ontem sobre isso. Logo o barulho da campainha soou e eu fiquei intrigada. Quem seria àquela hora da noite? Sophie não poderia ser, pois ele jantaria com seus sogros hoje. Carl já estava avisado que só poderia ir após aviso prévio. Meus pais era pouco provável. Poderia ser Marg com mais um de seus problemas conjugais. Fui para sala e gritei da escada que atenderia. Por certo naquela altura, Molly já tinha desmaiado na minha cama e Joseph estaria com fone no ouvido jogando mais um pouco. Meu filho gamer tinha tempo para ser o aluno popular e nerd da sala, isso me chocava. 
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  — Boa noite, de novo. — disse assim que abri a porta.
  Me peguei paralisada pela surpresa, que nem minha voz saiu no momento.
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  — Me desculpe, se te assustei.
  — Não… É que, só não esperava ser você.
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