Esta história pertence ao Projeto Leitor Criativo

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Doada por Julio

// A Ideia

Você está no meio do terceiro ano da sua faculdade de Direito, em Harvard. Só que suas condições para pagar estão meio que precárias, até que você se vê em um estúdio de dança para ver se consegue fazer bicos ou um trabalho para pagar os estudos. Você consegue uma enorme oportunidade de ser dançarina profissional, já que isso se tornou um dote incomum. E a situação começa a ficar mais intensa quando você se apaixona pelo seu líder, mas você tem um namorado. Após algum tempo, se vê diante de uma decisão que irá mudar a sua vida: Ser uma advogada da lei ou dançarina profissional?


// Sugestões

– Seria bom inserir uma trama do tipo concorrência, entre a principal e uma dançarina do estúdio de dança para ver quem “é a melhor” para o líder do estúdio, já que as duas estão apaixonadas. Se passa nos Estados Unidos, lógico. Só que a principal é brasileira.
– Não precisa ter coisas a mais como gravidez, porque eu sei da dificuldade de escrever já com um drama inserido.
– A mãe dela incentiva até demais para ela ser dançarina, quase como uma obrigação, mas seu namorado insiste que ela fique em Harvard, o que gera uma disputa familiar.
– Os personagens tem de ter vinte anos para cima, para que a história fique com o ar de “maduro”.
– A principal não é nem um pouco sentimental, e é bem séria, curta e fria.
– O líder de dança (com quem ela vai ficar no final) é sarcástico e toda hora que ela manda uma “daquelas”, ele a ameaça a expulsá-la do estúdio de dança.
– A principal quase não tem contato com a mãe, ela tem mais com o namorado, mas é via Skype, pois ele está no Brasil trabalhando.

// Notas


Natashia Kitamura
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Nome: Julio

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Garota S

Há características sobre Harvard que são verdadeiras e outras que são fictícias para melhor adaptação da história.
História inteiramente escrita por Natashia Kitamura.

Introdução

  - Hey, fique com a cama da janela, não consigo dormir com a claridade batendo em meu rosto.
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  Foi assim minha primeira relação dentro da universidade, há dois anos. Kendra, minha colega de quarto até hoje é tão sociável quanto eu. Com seus olhos escuros e a pele muito branca, às vezes sinto que ela sente mais frio do que eu apenas por facilmente poder confundir seu tom de pele com a neve. Temos uma relação limitada e obrigatória porque dividimos um quarto. Geralmente dizem que os alunos de direito são mais tagarelas que o normal, mas a verdade é que todos só querem mostrar que são melhores. Principalmente em Harvard. Desde que entrei aqui, não encontrei muitas pessoas senão egocêntricos inteligentíssimos, podres de rico ou os dois. Não posso dizer que sou feliz estudando na melhor universidade do mundo. Harvard é boa quando se põe em questão os estudos e conhecimento, contudo, em relação às pessoas, não sou a melhor a dizer que tenho bons amigos.
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  Me mudei para os Estados Unidos logo que recebi minha carta de aceitação de Harvard. A verdade é que queria sair da casa de meus pais para o mais longe que pudesse.
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  Os dois são advogados. Sempre quiseram que eu seguisse suas carreiras e assim penso até hoje: se pais estão tão centrados em suas profissões e demonstram ser bons profissionais, qual a razão de você fazer algo diferente deles? Grande parte da dificuldade será anulada, como a falta de conhecimento básico ou experiência fundamental. Desde quando fiz quinze anos, tenho comparecido às reuniões com clientes ou jantares beneficentes. Tudo em prol da profissão e do meu futuro que eles achavam já estar decidido. Entretanto, foi com dezessete anos, no último ano do colegial que senti que estava prestes a explodir.
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  Qualquer um que esteja no colegial ou tenha uma noção do que é o vestibular sabe o tamanho da pressão que os estudantes brasileiros têm para entrar em uma boa universidade. Meus pais sempre deram duas opções para mim: São Francisco ou trabalhe para pagar qualquer outra faculdade. É bastante óbvio que a SanFran é a melhor e mais privilegiada faculdade de direito do país. O número de inscrições anuais e a concorrência por uma vaga podem dizer o suficiente para aqueles que duvidarem. Sempre soube que conseguiria passar no vestibular, porque tenho um adorável dom de memória fotográfica, que me permite decorar e lembrar com rapidez todas as questões e matérias estudadas para o vestibular. Além disso, para um advogado, este é um dom que facilita na hora dos processos e das legislações; sem nem mesmo terminar a escola, eu já havia decorado metade das leis brasileiras conforme orientado por meus pais.
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  Meus amigos diziam que minha vida era nada mais do que “perfeita”. Com o boletim repleto de notas azuis, dinheiro para pagar qualquer universidade do país, inteligência para estar segura de que não precisaria de uma segunda opção, pais preocupados com meu desempenho escolar e um namorado tão talentoso quanto eu, ninguém imaginaria que eu pudesse sair dos trilhos e ousar prestar uma prova a mais para a melhor universidade do mundo.
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  A ideia surgiu quando eu completava o meu formulário de inscrição para o vestibular da São Francisco. Eu tinha quase duas semanas para preenchê-la, mas era óbvio que eu não deixaria para última hora, já que todas as noites, durante o jantar, meus pais surgiam com a questão de quando teriam de pagar o valor da inscrição. Com os olhos no papel ainda em branco, ouvi Lucas, um garoto da minha turma, perguntar como faria para realizar a inscrição da prova de Harvard. Atentamente, ouvi todas as orientações dadas pela psicóloga que cuidava dos testes vocacionais da escola e guardei em minha memória o procedimento que deveria ser feito pela internet. Assim que cheguei em casa, antes mesmo de almoçar, preenchi todo o formulário em inglês e o enviei sem pensar na reação que meus pais teriam.
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  No dia da prova, dei a desculpa de que passaria o final de semana com minhas amigas para aproveitar as últimas semanas de aula antes de nos separarmos de vez pelas nossas carreiras. Peguei um táxi por não saber andar de transporte público e fui até o local da prova. Em minha cabeça, tudo o que eu queria era fugir de São Paulo e das ordens de meus pais em ter uma carreira perfeita. Assim que saí da prova, liguei para Gabriel, meu namorado de dois anos que cursava engenharia na Poli. Gabriel sempre foi, além de inteligente, bonito. Com seus cabelos de fios lisos e naturalmente loiros, os olhos caramelos e os lábios carnudos sempre chamaram a atenção das garotas da escola, inclusive eu. Infelizmente, porque sou tímida ou centrada o suficiente para não me distrair com problemas amorosos, nunca pensei na possibilidade de flertar ou trocar flertes com ele. Dessa maneira, no meio do primeiro ano, logo depois das férias de inverno, Gabriel veio em minha sala e me chamou para sair. Lembro-me de seus ombros largos tamparem o sol que batia na minha carteira, aquecendo sem grande sucesso, minhas mãos que estavam congeladas. O uniforme azul marinho e branco do colégio fazia-o parecer ainda maior; além disso, usava a roupa da Educação Física, fazendo dezenas de garotas enlouquecerem com a masculinidade exalando em minha frente. Ele foi direto quando disse que queria sair comigo e também não fez rodeios em me beijar durante o filme do cinema. Mesmo que os relacionamentos sejam feitos de troca de carinhos e palavras de afeto, eu e Gabriel sempre tivemos nossa própria maneira de nos amarmos sem exagerar em nossos toques. Encontrei com ele depois que fiz a prova de Harvard. Pedi para ele me buscar no shopping Pátio Higienópolis, que era perto do local onde fiz a prova. Demorou cerca de uma hora até avistá-lo subir as escadas rolantes com calma.
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  Lembro-me muito bem o quanto havia me preparado para falar sobre a prova com Gabriel. Achei, por meio de matérias de revistas, filmes e conversas com minhas amigas que a reação natural dele seria de nervosismo. Por eu não ter confiado nele meu segredo, por não ter pedido sua opinião e, principalmente, por ter decidido sozinha ir para o outro lado do continente e deixa-lo aqui sozinho num relacionamento à distância. Elas inclusive comentaram do fato de Gabriel poder me trair sem que eu soubesse, mas é claro que ele não faria isso. Gabriel abomina a infidelidade tanto quanto meus pais abominam que eu siga outra carreira senão a de um advogado. Seus pais o tiveram muito cedo, uma gravidez não planejada; isso, de alguma maneira, afetou diretamente Gabriel, tornando-o uma pessoa que se prende em um relacionamento apenas para sentir que não seguirá o mesmo caminho de seus pais. Além dele preservar nossa relação sem cobiçar outras mulheres, ainda se preocupa com questões importantes em um relacionamento sério, como o dia que terá de me pedir em casamento depois de se sentir seguro economicamente. Quando o vi se sentar em minha frente depois de me dar um beijo estalado de cumprimento, desencostei minhas costas da cadeira, ficando em uma posição ereta, atitude que não passou despercebido por seus olhos. Ele me conhecia melhor que eu mesma. Manteve-se calado durante todos os minutos que falei sobre a prova, meus planos de ir embora para os Estados Unidos e a possibilidade de vivermos cinco anos separados. Quando terminei, Gabriel apenas olhava para mim sério e não disse nada até suspirar e balançar a cabeça:
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  - Você está certa em procurar por algo melhor.
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  Gabriel nunca gostou dos meus pais. Mesmo os respeitando e tendo uma visão clara de que queria possuir tanto poder quanto os dois na vida e na sociedade, ele nunca foi a favor da maneira que os dois me criavam. Felizmente, meus pais nunca tiveram a mesma opinião por Gabriel, caso contrário, eu estaria solteira ou noiva de algum indicado de seus amigos. Mesmo que meus pais sejam constantemente presentes fisicamente em minha vida, eles nunca fizeram questão de estarem presentes em meus momentos de glória ou alegria. Meus aniversários eram comemorados com um simples jantar em um bom restaurante e meus presentes eram nada mais do que cartões de parabéns ou um novo livro relacionado à advocacia. Mesmo que eu e Gabriel não fossemos um exemplo de casal de afeto, ele sempre teve sua própria maneira em se preocupar comigo, sendo uma delas, o fato de estar presente em minha vida. Gabriel foi a favor da minha ida à Harvard; disse que tinha certeza que eu conseguiria e que ele iria também se não fosse tão pobre a ponto de ter de trabalhar nos finais de semana para pagar sua moradia e condução. O dinheiro que recebe dos pais utiliza somente para pagar os gastos da faculdade e guardar o resto em sua poupança, porque não quer ter em mente que tudo em sua vida é dependido deles. Em seu aniversário, dou-lhe algo que possa lhe ajudar a viver melhor, como dinheiro, carro ou um novo colchão.
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  Um mês depois me encontrei na lista de aprovados da São Francisco. A única pessoa que comemorou foi Gabriel. Me levou para jantar e então passamos o final de semana juntos; ter 48 horas inteiras para mim era uma dádiva, já que ele geralmente trabalhava 15 ou 16 horas por dia. Quando meus pais resolveram realizar minha matrícula na universidade, fingi estar doente para atrasarem dois dias até o resultado de Harvard.
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  A resposta veio em forma de carta. Em casa, todas as cartas são recebidas por meu pai através de uma bandeja de prata trazida por Ilda, a empregada. Nós estávamos no café da manhã quando ela veio com o envelope branco enorme com a inicial de Harvard cravada na frente. Meu pai olhou para os dois lados, perguntando-se silenciosamente o que o levaria a receber uma carta daquelas. Minha mãe desviou sua atenção do chá e observou com atenção a reação de meu pai quando leu as primeiras palavras da minha carta de aceitação. Eu e ela nos mantivemos caladas enquanto os olhos do meu pai percorriam de um lado para o outro as letras que formavam as boas vindas ao curso de direito. Quando ele terminou a leitura, achei que fosse meu fim; provavelmente a doença que havia fingido nos dois últimos dias finalmente chegou em meu corpo e eu não estava preparada para ela. Engoli seco ao vê-lo passar o papel para minha mãe, que leu o conteúdo, séria.
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  - Harvard? – meu pai disse, sem tocar em nada mais depois de entregue a carta às mãos de minha mãe. – Você quer estudar em Harvard?
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  - Quero. – minha voz transpassava segurança, mas eu estava prestes a desabar. Meus pais sempre me ensinaram que passar uma imagem de firmeza e certeza fazia com que os juízes e opositores se sentissem intimidados e recuassem perante tamanha segurança. Contudo, meus pais eram melhores do que eu em analisar comportamento e sabiam que mesmo eu tendo feito uma prova às escondidas, quem ainda daria a última palavra eram eles.
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  Ouvi a risada enorme de minha mãe; uma que nunca havia visto até então. Quando ela abaixou a carta para olhar para mim, pude entender que já estava decidido. Pelo pequeno sorriso que meu pai colocou em seus lábios, soube que consegui acrescentar nas duas opções que eles haviam me dado para escolher sobre meu futuro, uma nova: ir para Harvard.
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  É claro que eu sabia que minha vida aqui não seria fácil. As pessoas do estrangeiro não são calorosas como os brasileiros e dividir o quarto com Kendra não foi a melhor coisa que me aconteceu desde quando cheguei no país. Meus pais, obviamente, tiraram uma semana de folga de seus clientes para me acompanharem até meu novo lar. Um quarto que era menor que o tamanho do meu banheiro na cobertura que morava em São Paulo e uma colega de quarto que passava muita maquiagem durante o dia inteiro. Meus pais não pareceram se preocupar com a companhia, apenas me disseram que era melhor que eu fizesse logo o cartão da biblioteca para passar minhas tardes livres estudando.
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  Depois que nos despedimos no final do sétimo dia no país, não esperava que nunca mais fosse ver meus pais… Ou pelo menos pelos próximos dois anos e meio.
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  Muita coisa aconteceu nos dois anos e meio que se passaram desde minha vinda para os Estados Unidos. A única coisa que posso seguramente garantir que não mudou, foi meu relacionamento com Gabriel e o fato de Kendra continuar sendo uma péssima colega de quarto. O Brasil sofreu um grande baque na economia, de modo que muitos milionários perderam grande parte de suas fortunas e estão entrando em problemas de processos. Meus pais deveriam estar ganhando mais dinheiro por serem advogados, mas parece que os processos estão voltados contra eles, que a cada vez mais perdem clientes por não conseguirem vencer no tribunal. O caso chegou a mim na última sexta-feira, quando eles, pela primeira vez, me ligaram para dizerem que era possível que eu tivesse de trancar Harvard até que eles conseguissem se estabilizar economicamente e voltar a pagar a faculdade.
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  - Garanto os meses até Janeiro, contudo, depois disso, será difícil agregar o preço e os gastos em dólar com nossa situação financeira. – meu pai dizia. Ele era muito menos orgulhoso que minha mãe, que obviamente não diria nunca que estava passando por uma dificuldade com dinheiro. Em seu tom de voz, senti o cansaço e a derrota em ter de se remeter à vergonha de dizer à própria filha que não conseguirá cumprir com seu dever de pai e pagar os meus estudos.
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  Não respondi nada. Não sabia o que dizer. Queria confortá-lo, mas nunca soube como fazer. Nunca precisei e nunca me ensinaram. As coisas são diferentes quando são com nossos pais. Apenas fiquei o ouvindo falar e então dizer que precisava sair para uma reunião com um de seus clientes. Achei que fosse desligar, algo que estava loucamente querendo fazer, entretanto, minha mãe me surpreendeu ao tomar conta do fone, dizendo:
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  - Arranje um trabalho durante seu tempo livre.
  - O quê? – ela estava louca? Estudo em Harvard, uma universidade que não oferece programas de estágio, porque estamos loucos demais estudando para as provas finais. É claro que minha memória facilita minha vida em 50% durante as provas, mas isso não quer dizer que posso me dar ao luxo de diminuir minhas horas diárias de estudo. – Não posso fazer isso.
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  - Não é questão de poder, . É questão de ter. Seu pai… Ele não está raciocinando direito. Está se sentindo derrotado e isso está fazendo com que ele tome atitudes erradas. – pausou por alguns instantes e então voltou a falar: – Você não pode trancar a faculdade, sabe o quanto isso irá refletir em seu currículo? Arranje um trabalho enquanto é cedo e comece a juntar dinheiro. É para seu próprio bem. – e sem dizer para me cuidar ou que me ama, desligou o telefone.
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  Não pude evitar ficar com raiva. Meus pais deveriam ter sido mais cautelosos com o dinheiro. São advogados, lidam com problemas assim todos os dias! Fizeram da minha vida, um mundo preto e branco somente para conseguir que eu realizasse suas vontades e agora que estou no caminho certo, agora que me acostumei, estragam tudo! Andei de um lado para o outro, chutei minha cama e senti uma dor imensa ao me lembrar que estava descalça. Realmente não queria ter essas reações, mas meu corpo não estava reagindo à minha razão e sim às minhas emoções. Não falei de meu problema para Gabriel; conhecendo-o bem, ele diria que eu fizesse o que minha mãe disse para eu fazer. Quer tanto quanto meus pais que eu me forme para trabalhar e conseguir meu próprio dinheiro.
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  Agora, estou deitada em minha cama uma semana depois de ter recebido a ligação. Minha vontade de estudar está relativamente menor do que antes de saber da situação de minha família. Olho para o teto descascado, algo que só vi aqui já que em casa meus pais nunca deixaram aparecer qualquer defeito. Ouvi o barulho da chave destrancando a porta do quarto e então Kendra entrar:
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  - Você parece uma ameba, jogada nessa cama. Não sabia que S passava mais que cinco minutos deitada na cama durante a tarde. – como sempre, anuncia sua chegada com um elogio. Em Harvard, as salas são nomeadas com letras do alfabeto. Meu ano tem salas de A a J. Os melhores alunos estão nas salas A e B. Cada vez que a letra do alfabeto muda, o nível dos alunos também muda, fazendo com que os alunos da sala J sejam considerados os piores do ano, pegando dependências em matérias e reprovando por falta. Entretanto, acima de todas as salas, há a sala S. S de Special. A sala dos prodígios. Constam nessa sala os 10 melhores alunos da turma inteira. As 10 melhores mentes, 10 melhores cabeças e, futuramente, os 10 melhores advogados do mundo. Alunos S têm recompensas que os alunos das salas A a J não têm, como bolsas de estudos e participações em Congressos importantes e caros. Como as salas, os alunos da sala S também são presenteados pela universidade de acordo com seus desempenhos, ou seja, o aluno número 1 ganha muito mais privilégios que o número 2, e assim por diante. Estou em quarto lugar; entrei na sala S ainda no primeiro semestre, logo no segundo mês e nunca mais saí. Minha colocação varia de quarto a sétimo, mas nunca chegue nos três primeiros colocados. A avaliação de todos os alunos é feita a cada quinze dias com provas de análise em que os professores criam. As provas são todas de um mesmo nível, difícil o suficiente até para os S. Assim, é bastante raro um aluno da sala C para baixo chegar na S depois do primeiro semestre de curso. Nestes dois anos e meio que estudei, apenas houve a troca de dois alunos S para uma sala A; um A e um B entraram em seus lugares. Com toda a dificuldade em manter nossas colocações e não perder nossos privilégios de S, como os dormitórios gratuitos para todos nós, é normal encontrarmos um alto nível de rivalidade entre dezenas de alunos na universidade.
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  Viro meu rosto para Kendra, que olhou novamente para mim ao sentir meu olhar lhe seguir por onde ia dentro do quarto.
  - O que foi?
  - Como você consegue viver sem saber quanto dinheiro terá no mês seguinte? – as palavras saem sem serem filtradas antes. Geralmente tenho cautela em direcionar a palavra às pessoas, mas algo dentro de mim simplesmente decidiu desligar este filtro.
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  Vi Kendra levantar sua sobrancelha tatuada. Disse-me em uma das noites que estava bêbada que ela havia depilado suas sobrancelhas com laser para em seguida tatuá-las e não ter de lidar com depilação escultural nunca mais. Um dinheiro que seria gasto em grande quantidade, mas uma vez só na vida. Na época, achei uma loucura, mas vendo agora, não me parece uma má ideia ter uma sobrancelha perfeita sem ter de mexer nela toda semana.
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  - Você precisa pensar melhor antes de falar. As pessoas costumam se ofender ao serem indiretamente chamas de pobres.
  Ela tem razão. Indiretamente a chamei de pobre, um status social que ambas sabemos ser real. Mas como poderia julgá-la, se em breve estarei praticamente em condições até piores que as dela? Kendra costuma dizer verdades sobre sua vida quando está bêbada, fator que ocorre todos os finais de semana, a partir de sexta-feira de tarde e às vezes durante alguns dias da semana. Mesmo sendo uma aluna de direito, ela é muito mais relaxada que a maioria dos alunos; posso dizer que somos polos opostos. Enquanto ralho de estudar para manter minhas notas altas, ela apenas conta com sua qualidade de ser naturalmente inteligente. Nas aulas de jurisdição, é uma das melhores da sala sem nem mesmo abrir um livro. Poucas foram as vezes que a vi de cara nos estudos e mesmo assim, sua colocação nas notas nunca está inferior à média, por isso consegue se manter na E, uma sala mediana.
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  - Desculpe. – foi o que decidi falar para demonstrar meu arrependimento em ter dito palavras da boca para fora.
  Nos mantivemos caladas por um longo tempo. Se não fosse tão normal, seria até constrangedor, mas eu e Kendra nunca nos falamos senão para necessidades pessoais de extrema urgência, como um absorvente interno ou o livro de direito penal para a prova de quinta-feira. Durante o tempo que ficamos caladas, a vi fazer o que viera até o quarto fazer; retirou sua camisa social que trajava para as aulas práticas de julgamento e a saia que ia da altura do umbigo até os joelhos, ficando somente com suas roupas de baixo pretas em minha frente. De vez em quando conseguia ver seu olhar em minha direção, como se quisesse se certificar que eu não estava mais a encarando.
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  - O que foi? Até parece que você nunca viu meu corpo. Descobriu que sou gostosa?
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  - Não. Não estou dando atenção à sua forma, apenas estou olhando sem intenção nenhuma. – explico, vendo-a soltar um riso nasal e colocar uma leggin preta com uma camiseta branca estampada com o logo de uma banda qualquer. – Não sabia que você se preocupava tanto com o corpo a ponto de utilizar a academia da universidade.
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  - Eu não frequento estes tipos de lugares, é óbvio. – foi até a frente do espelho e passou a mexer no cabelo, finalmente decidindo prendê-lo em um coque frouxo. Desistiu de me ignorar e se voltou para mim, colocando a mão esquerda na cintura. – O que foi, afinal?
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  - O quê?
  - Você nunca foi uma pessoa que fica à toa. Podemos não nos falar, mas continuamos dividindo um quarto. – bateu a mão livre na perna. – O que aconteceu? Tirou uma nota baixa?
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  Talvez tenha sido seu tom irônico ou a tentativa de fazer pouco caso do interesse em minha vida. Pode ser que eu esteja muito desesperada em conversar sobre meus problemas com alguém que não fosse Gabriel ou meu diário. Tudo o que sei, é que surpreendentemente, minha boca falou novamente algo que minha mente disse para não falar:
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  - Minha família está falida, minha mãe disse para eu arranjar um emprego aqui e não sei nem no que sou boa para tentar fazer o que me mandou.
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  Kendra parece tão surpresa com minha confissão quanto eu. Não o fato de eu estar falida, mas sim por eu ter me aberto para ela, quando nestes dois anos e meio que passamos juntas dentro deste quarto, tudo o que fizemos foi ignorar a presença uma da outra.
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  - Que droga. – foi o que ela falou. Mesmo sua sentença sendo limitada e sem intenção de se preocupar em me ajudar, seu tom de voz foi claro o suficiente para me fazer entender que ela estava, no mínimo, sentida com minha situação. – Quer dizer que terá que trancar?
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  - Meu pai disse que consegue pagar até o final do semestre. Faltam quatro meses, mas mesmo assim, como poderei juntar grana para pagar os próximos dois anos?
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  Kendra não me respondeu. É claro, o que ela tinha a ver com minha vida, afinal? Não sei nem por que estou me dando ao trabalho de desabafar com ela, quando é óbvio que ela não tem o menor interesse na minha vida pessoal, assim como não tenho na dela. Sempre fui indiferente com sua situação e nunca mostrei interesse em me esforçar em me aproximar dela durante o tempo desde quando nos conhecemos até agora. Foi exatamente por isso que me senti surpresa ao vê-la continuar nossa conversa:
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  - Seja o que for, você não deve ficar aí parada se lamentando. Se fosse eu, estaria procurando algo para fazer.
  - Para você é fácil. – resmungo. – Tem tanta facilidade em se comunicar com as pessoas. Ser simpática e tudo mais não é o meu forte, sabe?
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  - Claro que sei, moro com você faz dois anos e meio, lembra? – se sentou em sua cama para colocar os tênis de ginástica. Olhou em seu relógio de pulso e então procurou por sua mochila com os olhos, encontrando-o pendurado no cabideiro ao lado da porta do quarto. Se levantou, caminhando até à porta e então parou, hesitando alguns segundos e voltando até meu lado. – Se você quiser vir comigo, não garanto que será legal, mas pelo menos irá te distrair.
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Capítulo 1

  Não sei o que tem de divertido nessa área da cidade; dizem que é mais pobre e durante a noite, um perigo sair sozinha. Quando Kendra disse que não seria divertido, pelo menos achei que a parte do “distrair” fosse verdade, mas até agora tudo o que pensei foi que teria de enfrentar mais destes cenários, já que estou decaindo em minha situação financeira. Olhei para os lados duas vezes mais antes de atravessar a rua até o outro lado, onde havia um beco formado por dois prédios de cerca de sete andares. Kendra seguiu reto em direção ao prédio da direita do beco, tocando a campainha e ouvindo o som do interfone ser ligado.
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  - Quem é?
  - Kendra. E conhecida.
  Conhecida. Nosso status de relacionamento é “conhecidas”. Não posso reclamar, tenho certeza que eu sei mais da vida dela do que ela da minha, já que eu não passo grande parte do meu tempo bêbada. O máximo de relacionamento que mantemos até hoje são a troca de diálogo durante a hora da emergência ou o fato de eu ter de cuidar dela quando chega alterada em nosso quarto, me impedindo de dormir com o som de seu vômito.
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  A porta se abriu depois que Kendra se identificou. Parecia leve, mas mostrou-se muito pesada. Ao passar por ela, deixei que se fechasse sozinha atrás de mim. Olhei para os lados e vi um hall mediano e sujo, como se fizesse muito tempo que alguém não limpasse aquele lugar. Achei que Kendra fosse pegar o elevador, mas a placa de “interditado” fez com que minhas pernas doessem ao subir quatro andares. Tentei acompanhar o ritmo de Kendra, mas ao chegar no quarto andar, estava sem ar e arrependida de ter concordado em sair do campus.
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  Vi que no corredor onde estávamos havia diversas pessoas encostadas nas paredes conversando entre si. Ao passarmos por elas, algumas cumprimentavam Kendra e outras soltavam alguma gíria que prefiro não entender o significado. A maioria das pessoas usavam roupas de ginásticas e tênis que pareciam ser maiores que os próprios pés. Havia pessoas de todos os tipos, negras, brancas, asiáticas e ruivas. Foi como se estivesse em um dos comerciais culturais que dizia não haver preconceitos étnicos.
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  Fui somente ouvir o som de música agitada quando estava no meio do caminho até a porta por onde Kendra entrou sem bater. Abri a boca ao ver que era uma sala de dança, com parte das paredes da sala encapadas por espelhos e barras de segurança onde homens e mulheres se aqueciam. O lugar não era nada organizado, tampouco limpo, seguindo o mesmo esquema de poeira que havia no hall. Contudo, ninguém ali parecia se preocupar com a falta de higiene. Todos pareciam mais dispostos a… Dançar.
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  - O que é aqui? – pergunto para Kendra boquiaberta.
  - Aqui é um estúdio de dança. – ouço uma voz atrás de mim e pulo com o susto. Ao virar para trás para ver o perfil da pessoa que me assustou, vejo um garoto muito mais alto do que eu, com uma camiseta regata preta grudada ao corpo e uma calça cargo preta. Seus tênis eram enormes, provavelmente o dobro do tamanho de meus mocassins. Com seus olhos enormes e , olhou para mim dos pés à cabeça, os lábios nem finos, nem grossos apertaram-se e então desviou sua atenção para Kendra atrás de mim. – Quem é a garota?
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  “A garota está na sua frente.” Penso, ofendida por estar sendo ignorada. Por outro lado, usei do tempo que não estava olhando para mim para ver que ele era forte; possui ombros largos com uma tatuagem no ombro direito. A tatuagem segue para as costas, me deixando curiosa sobre como seria seu conteúdo completo, mas sabendo sobre minhas condições e o fato óbvio de que ele não foi com a minha cara, preferi me manter calada.
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  - Minha colega de quarto. – Kendra disse.
  - A mesquinha? – uma garota gritou do outro lado da sala, tirando risadas de algumas pessoas. – Achei que ela fosse rica demais para vir até aqui.
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  - Bem, a situação dela mudou.
  De alguma maneira, as palavras de Kendra não estavam me ajudando a me sentir melhor. Aposto que a maioria das pessoas interpretou sua expressão da maneira que ela é, informando que estou pobre agora. Olhei para Kendra, que já não me dava mais atenção.
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  - Bem, mesquinha – o cara em minha frente começou a falar. -, Kendra te trouxe para um estúdio de dança, você dança?
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  - Não.
  - É o que imaginei. – ele disse, completando seu diálogo com um olhar analista sobre meu perfil que não gostei nem um pouco. Seu tom deboche exalando não somente na voz, mas através de seu corpo também são fatores que não são do meu agrado. – Já que você não irá participar da dança, você pode se sentar ali no canto ou aguardar no corredor. – apontou para trás, em direção à porta onde mais pessoas entravam, como se não soubessem que a sala tem um limite de número de pessoas que comporta.
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  Não falei nada ao cara. Não gostei da maneira que me chamou, muito menos como dirigiu sua palavra a mim. Infelizmente, não posso retrucá-lo, pois ele e os amigos dele podem me expulsar daqui e se for jogada na rua sem saber como voltar, provavelmente serei raptada por alguém. Caminhei, sem escolha, até o canto onde ele indicou. Olhei ao redor e não havia cadeiras para sentar, somente mesas empoeiradas. Uma mulher com sua pele escura e brilhante se aproximou de mim e disse:
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  - Não tenha medo, guria, você é muito leve para fazer essa mesa quebrar. – seu sotaque era diferente dos que já ouvi falar. Agradeci tão baixo quanto minha altura perto dela e olhei para os lados à procura de algum pano para limpar o local que gostaria de sentar. Não encontrei nenhum, então tateei meus bolsos, encontrando um lenço de papel que costumo deixar nos bolsos porque minhas mãos soam muito durante os estudos. Com o lenço, limpei a mesa encostada na parede que não havia espelho e ouvi risadas atrás de mim.
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  - Ela anda com lenços de papel no bolso para limpar os locais que irá sentar? Sério? – olhei para trás vendo os dançarinos unidos do outro lado da sala me encarando com expressões de riso. Desviei meu olhar para tentar ignorar minha sensação de humilhação por ser higiênica e fiquei o mais encolhida possível, achando que assim não chamarei tanta atenção.
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  A música mudou para uma batida mais forte quando o cara que me chamou de mesquinha gritou para todos se posicionarem. Kendra estava na segunda fileira; pela primeira vez a vi dedicada a algo por vontade própria. Abri a boca ao vê-la dançar sem se importar em estar sendo observada por dezenas de pessoas, então era verdade o fato dela não fazer parte das pessoas que frequentam a academia; ela mantém seu físico saudável e formado através da dança. De algum modo, parecia mais divertido, mas menos saudável que as máquinas de exercício. Aqueles que estavam no corredor agora se encontravam espalhados pela sala ou próximos à porta, acompanhando o ritmo da música com batida de palmas, balanço com a cabeça ou batuques nas mesas espalhadas pela sala.
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  Mesmo que não pertença a esse lugar, não consigo deixar de sentir no quão divertido é somente observá-los dançar. Ter toda a elasticidade com o corpo para fazer esses movimentos rápidos e complicados… É muito mais do que decorar passos, é preciso de concentração e… Pelo que vi nos olhos de cada dançarino, tem que amar a dança.
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  Amar o que faz. Abro um pequeno sorriso sem tomar consciência de minha ação. Por incrível que pareça, é confortável assistir pessoas que gostam do que fazem. Não parecem ser obrigados a estarem aqui e se moverem de acordo com a batida agitada. O sorriso em seus rostos, a expressão de determinação… Olho meu reflexo no espelho sujo que havia à frente do grupo de dança; mesmo estando longe, pude ver que perto de todos ali dentro, eu era pálida e sem vida demais.
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  A música dura menos de cinco minutos, mas pareceu bem mais longa devido aos longos passos que todos fazem sincronizados. As mulheres abusam de seus quadris para conseguirem um gingado que pareceu belo em meus olhos e os homens utilizam as forças de seus braços, troncos e pernas para realizarem manobras bruscas no chão e no ar, como rodopios ou pulos absurdamente altos. Ouço os assobios, palmas e elogios quando a música acaba e o grupo se inclina para agradecer. Em seguida, um novo grupo se posiciona no lugar dos que acabaram de dançar e uma nova música, mais lenta, é iniciada.
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  Durante toda a minha vida fui privada de ouvir muita música. Meus pais nunca me proibiram ir a festas ou baladas em São Paulo, principalmente porque os filhos de seus clientes ou amigos importantes eram meus companheiros usuais; contudo, nunca tive aparelhos eletrônicos para música e meus fones de ouvido foram comprados somente para ouvir os audiobooks dos livros de direito. De alguma maneira, assistir a este enorme grupo dançar livremente me fez sentir que finalmente saí do Brasil. Não sei mais o que esperava fugindo de meus pais ao vir para cá, quando mantive exatamente a vida que tinha em São Paulo.
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  Aos poucos, me peguei balançando a cabeça conforme a música e somente quando fui pega no flagra por Kendra e suas amigas que senti as maçãs de meu rosto corarem por estarem rindo de mim, de novo. Mesmo gostando da sensação de liberdade que os passos das danças faziam e do som que nunca havia ouvido na vida, não consigo me sentir confortável tendo todas essas pessoas me julgando sem nem me conhecerem. Na universidade, aprendemos que se quisermos julgar uma pessoa, devemos primeiro saber mais sobre elas, principalmente seus pontos fracos. Não me importo de ser motivo de piada, se há algo para se rir sobre mim. Mas estou passando por uma crise e nunca fiz mal para Kendra, para ela me trazer em seu clubinho de dança e fazer com que todos riam de mim.
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  Assim, sem pensar, desisto de me manter submissa aos comentários e às risadas. Coloco meus pés no chão, descendo da mesa e sigo em direção à saída da sala, sendo ignorada pela maioria das pessoas. Com dificuldade, cheguei ao corredor que agora se encontrava vazio. Olho para meu relógio e vejo que ainda faltam duas horas para anoitecer. Retiro meu celular do bolso do meu blusão de Harvard e vejo que estou sem sinal. Grande. Não consigo sequer pensar em chamar um táxi ou abrir o mapa da cidade para saber como faço para voltar ao campus. Olho para os lados, mas ninguém me dá atenção ou demonstrar um pouco de boa vontade em ajudar a garota “mesquinha” a voltar para seu lugar de origem.
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  Suspiro e sigo em direção às escadas, vendo que a altura até o térreo é bem maior do que imaginava. Desço os primeiros degraus de mármore, mas estou sem reação. Como poderei voltar se não prestei direito atenção no caminho até aqui? Por que diabos fiquei pensando no lugar que Kendra me levaria para me distrair ou me ajudar a encontrar um trabalho? Por que sequer pensei que ela poderia me ajudar?
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  - Você não gosta tanto assim da música? – ouço ao meu lado e se não fosse por uma forte mão segurar minha cintura, teria rolado diversos lances de escada até o terceiro andar. Olhei para o dono da voz e do meu susto e vi mais uma vez o cara que me chamou de “mesquinha”, agora usando um moletom cinza de zíper. – Você se assusta muito fácil.
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  - Apenas tenho facilidade em me concentrar. – respondo, vendo-o soltar uma risada. – Vocês gostam de rir. Das pessoas. – observei, vendo-o desfazer o riso em seus lábios. – Nunca julguei nenhum de vocês e não sei por que Kendra me chamou de “mesquinha” se sou a única pessoa que se dá ao trabalho de cuidar dela ou copiar a matéria da aula nos dias que ela falta.
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  - Hey, hey, você está descontando na pessoa errada. – ele levanta as mãos voltando a rir. – Não estou rindo de você particularmente, mas sim de suas reações. Você tem expressão de uma advogada, mas age como uma garota indefesa.
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  - Bem, não estou em meu habitat natural, então é normal que eu esteja parecendo indefesa. – mais uma vez deixo meu tom irônico transparecer em minha voz. Ele deve estar acostumado em ter as pessoas falando nesta tonalidade com ele, pois não demonstrou aborrecimento ou surpresa quando lhe retruquei. – Como faço para ir embora daqui?
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  - Desça as escadas. – apontou para baixo com um sorriso. Revirei os olhos, impaciente com tamanha infantilidade. – Você precisa seriamente melhorar o seu humor.
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  - Disse isso a pessoa que me mandou me sentar no canto e ser apontada pelos amigos. Olha, eu sei que não faço o tipo de pessoa que vem a esses lugares; é verdade, eu nunca vim para esses lados, mas estou aqui e quero voltar, então você não poderia, por gentileza, me informar qual o caminho de volta para Harvard?
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  - Qualquer pessoa que me peça um favor com a palavra “gentileza” não deve saber que não sou tão gentil a ponto de ajuda-las. – ele coloca as mãos no bolso do moletom e começa a descer as escadas. – Você, aluna de Harvard “mesquinha”, deve interpretar melhor o caráter das pessoas antes de se expor dessa maneira.
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  Sinto minhas bochechas corarem. Ele estava brincando comigo? Está se aproveitando da situação apenas porque sabe que está em condições melhores do que a minha? Observo-o se afastar de mim enquanto desce as escadas e procuro desesperadamente por uma alternativa de sair dali.
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  - Você é mesmo um idiota. – falei, descendo as escadas atrás dele e ignorando seus passos cessarem e seus olhos me observarem passar por ele. – Um verdadeiro imbecil. – murmuro, chegando rapidamente ao terceiro andar.
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  Antes mesmo de começar a segunda leva de degraus para chegar ao segundo andar, sinto uma mão apertar meu braço e me virar bruscamente. Seus olhos estavam com as pupilas dilatadas e vi que sua pele era muito mais lisa do que imaginava.
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  - Do que você me chamou? Repita.
  - Você quer que eu fale qual adjetivo primeiro? Idiota? Ou imbecil? – falei, me sentindo melhor por saber que consegui atingi-lo de alguma maneira. – Você é um idiota e um imbecil.
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  - Garota, você…
  - . – o corto, fazendo-o olhar confuso para mim. – Meu nome é , não “mesquinha” ou “garota”. – soltei meu braço de sua mão e lhe dei as costas, voltando a fazer o caminho para fora do prédio. Dessa vez, demorei menos, parte de mim esperando que ele me impedisse novamente apenas para ver seus olhos mais uma vez. Mas era claro que ele não veio atrás. Era claro que eu nunca mais o veria novamente.
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  Demorei três horas para chegar em meu dormitório. Logo que pus meus pés no campus, fui até o escritório das relações públicas afim de pedir que me trocassem de dormitório. Entretanto, encontrei com o escritório fechado por ter passado das seis da tarde. Suspirei, triste por saber que somente poderei fazer a solicitação na segunda-feira, já que amanhã teremos feriado e no dia seguinte, ponte, fazendo com que os alunos sejam dispensado das aulas nos dois dias.
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  Peguei um jornal gratuito na banca. Poderia procurar algum lugar para trabalhar durante a tarde, quando não tenho aula ou reposições. Os finais de semana também seriam livres; ouvi dizer que bares e restaurantes contratam mais pessoas jovens para trabalhar porque temos mais disposição, tempo e necessidade de dinheiro.
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  Kendra entrou no quarto somente na manhã do dia seguinte, usando uma roupa diferente da que foi para a aula ontem. Eu estava em minha cama anotando todos os lugares que iria para procurar um lugar para trabalhar.
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  - Você poderia ter me avisado que foi embora. Fiquei como uma retardada procurando você no meio de todo mundo.
  - Achei que fosse óbvio para todo mundo que eu não ficaria mais um segundo ali, já que ninguém sã gosta de permanecer em um lugar onde claramente não é bem-vindo. – retruquei, desviando os olhos para ela, que não soube o que dizer. – Você se esforçou em me humilhar. Não sei por que fez isso, mas se foi para se vingar de algo que eu te fiz, seria ao menos justo saber por que estou sendo punida, já que não me lembro de alguma vez ter feito algo de ruim a você.
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  Não recebi nenhuma resposta. Kendra não pensava bem durante a manhã, mas parecia estar sóbria suficiente para entender minhas palavras e pensar nelas como meio de punição por ter me feito de boba.
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  - Eu não te levei lá para te humilhar. – ela começou a falar e não ousei cortá-la. O problema de algumas pessoas que fazem direito, como eu, é que temos o dom de ouvir as pessoas para então retruca-las, mesmo se não queremos ouvi-las. – Eu te chamei de mesquinha uma vez, quando pedi para me emprestar dinheiro para pagar uma conta e você disse que não podia. Estava com raiva e acabei falando mal de você para a turma. Aparentemente, foi a única vez que mencionei você para eles, mas parece que a imagem fixou e eles decidiram se vingar por me fazer passar por aquela dificuldade.
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  Isso foi há mais de um ano. Kendra realmente me pediu dinheiro emprestado, mas havia me dito que precisava “resolver uns negócios”, por isso, devido ao perfil dela, achei que estivesse ligado às drogas e resolvi tirar minha imagem da reta, dizendo que não poderia emprestar porque estava com o dinheiro contado para pagar minhas contas do mês. Me senti bastante mal depois disso e tentei recompensar com outras atitudes, mas pelo visto, ela já havia se vingado de mim de uma outra maneira.
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  - Desculpe pela reação deles ontem. Quando estou com eles, sinto que finalmente pertenço a uma turma e acabo não retrucando em suas ações, mesmo que elas sejam erradas. Agi errado com você e admito. Minha intenção de te levar lá, é que , o líder de nós, precisa de ajuda para arrumar o prédio e deixa-lo apresentável para os novos alunos. Ele disse algo sobre pagar a pessoa que o ajuda-lo, mas como você deve imaginar, ninguém está muito afim de limpar 7 andares de pura poeira parada.
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  - ? – perguntei, confusa. Quem era ?
  - O cara que falou com você. Fiquei sabendo que vocês se falaram depois. – ela se jogou em sua cama e virou o rosto para mim assim que sua cabeça tocou o travesseiro.
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  - O idiota? – perguntei. – É, nos falamos. Ele foi um completo imbecil e acabei sendo honesta demais com ele.
  - To ligada. – ela falou. Levantei uma sobrancelha e vi um sorriso em seus lábios. – é uma pessoa muito centrada. Ele dificilmente perde a paciência com algo, mas ontem parecia querer matar o primeiro que lhe perguntassem o que você falou para ele para deixa-lo naquele estado.
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  - Bom saber que o que eu disse causou tal efeito. – abri um sorriso de vitória, feliz em saber que quebrei a barreira daqueles olhos . – De qualquer maneira, não acredito que ele queira que eu vá ajudar. Estou separando alguns lugares para visitar amanhã e ver se consigo alguma coisa. – apontei para o jornal.
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  - Você está errada. – Kendra disse, me fazendo parar de rabiscar o jornal com minha caneta esferográfica vermelha e dar-lhe minha inteira atenção. – Está enganada sobre . – levantei uma sobrancelha sem entender nada. – Ele pediu para eu levá-la para o prédio hoje.
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  - Não acho que gostaria de voltar para lá. – falei, voltando minha atenção para o jornal.
  - Foi o que eu disse, mas ele insistiu. Teremos uma festa depois do ensaio na casa de um dos integrantes. Na verdade, ele é um dos sócios, mas não quer ter o peso da responsabilidade, então deixa que seja o dono integral do negócio.
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  - Negócio? Vocês ganham dinheiro?
  - Com as aulas? Sim. Todo mundo que está lá paga para estar lá. Nada é de graça, eles apenas cobram um valor que varia de acordo com a situação econômica da pessoa. Além disso, participamos de competições e já vencemos dezenas, ganhando os prêmios em dinheiro para o estúdio.
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  Abro a boca, surpresa por saber que toda a organização não é somente um encontro casual de amantes da dança. Saber que é um negócio levado a sério e que há pessoas dispostas a pagar o preço torna o lugar muito mais respeitado.
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  - Sairemos às cinco. Veja se coloca uma roupa melhor hoje. Você sabe, sem estampas demais. – disse olhando para meu mocassin com estampas de onça que sempre adorei usar com minha skinny jeans. Suspiro e levanto meus ombros. Não sei o que me levou a aceitar o convite insistido por ; talvez seja minha vontade de encarar novamente aqueles olhos .
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Capítulo 2

  São cinco e meia e Kendra ainda está se arrumando. Disse que dormiu mais que o necessário, de modo que seu corpo parecia ser feito de chumbo, impedindo-a de levantar no horário que seu despertador tocou. Tive de desligar o som para ela voltar a dormir; quando despertou, às cinco, brigou comigo por ter desligado o alarme a pedido dela, mas em seguida se desculpou, porque sabia que era sempre assim.
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  A pedido dela estou vestindo algo “melhor”. Uma skinny preta com meu snicker vindo da mesma cor, de modo que Kendra disse que parece que estou usando um macacão, já que as cores são praticamente da mesma tonalidade. Coloquei uma camiseta cuja barra é mais curta, indo somente até a altura do umbigo, deixando parte de minha barriga à mostra quando levanto os braços. Optei por deixar meus cabelos soltos, porque estão limpos e não gosto de deixa-los marcados com o elástico; contudo, coloco um em meu pulso para caso necessitar mais tarde. Quando fiquei de frente para meu armário me perguntando qual casaco deveria usar, Kendra disse que eu não precisaria de um, já que haveria gente demais para dividir o calor humano. Com essa afirmação, me pergunto mais uma vez se deveria ir ao lugar; penso no meu diploma e nos dois anos de curso que deveria tentar pagar e quanto mais cedo conseguir dinheiro, melhor para mim.
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  No início, achei que iríamos pegar o ônibus, como fizemos ontem para ir até o bairro do estúdio de dança; entretanto, assim que saímos das pendências de Harvard, uma enorme picape preta com algumas pessoas que reconheci do estúdio aguardavam Kendra.
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  - Eles são… Daqui?
  - Daqui, você diz, Harvard? – Kendra diz depois de ter acenado para o grupo, confirmando ser ela a pessoa vindo com a acompanhante. – Sim, há bastantes pessoas daqui que vão para lá; a maioria eu quem apresento, mas agora já há tantas pessoas que só pode ter sido uma propaganda boca-a-boca.
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  Olhei para o grupo que cumprimentou Kendra com um movimento que envolvia as mãos e o resto do corpo; algo que eu não saberia fazer nem com treino. Olharam para mim desconfiados até Kendra dizer que estava com ela.
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  - Ah, é a “mesquinha”. – um garoto com o cabelo loiro escondido pelo boné virado para trás disse entre risos.
  - . – olhei séria para ele, que desfez o sorriso e levantou as sobrancelhas. – Meu nome é , “mané”. – retruquei o elogio, vendo Kendra rir antes de entrarmos na picape. Atrás de nós, todos aqueles que ouviram nossa troca de cumprimentos começou a tirar com a cara do loiro, chamando-o de “mané”. Abri um pequeno sorriso, entendendo um pouco como as coisas funcionavam ali.
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  Devido à algazarra intensa dentro do carro, não consegui prestar atenção no caminho que fizemos. Sei que entramos na rodovia e quando perguntei à Kendra onde era o lugar, ela apenas disse que era em um condomínio afastado da cidade. Mesmo todos sabendo sobre mim, depois de minha resposta ao loiro, ninguém mais mexeu comigo. Não reconheci nenhum dos rostos dos estudantes que dividiam a mesma universidade que eu, Harvard é imensa e eu nunca prestaria atenção nessas pessoas; não se elas se vestirem como Kendra, ao invés de usarem as roupas sociais que devemos vestir.
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  A picape logo se uniu a um grupo de outros carros. Percebi que havíamos nos unido ao grupo de automóveis quando eles começaram a aumentar a velocidade e trocar buzinadas. Mesmo ainda não ter anoitecido foi possível ver a troca de luzes em meio à intenção de cegar quem está dirigindo. As pessoas que estavam em nossa picape abriram as janelas para começar a gritar com as pessoas dos outros carros, que respondiam em mesmo tom e até tacavam objetos como rolos de papel higiênico ou latas de bebidas vazias. Me mantive encolhida no meio do banco, a única pessoa que não estava interessada em colocar metade o corpo ou a cabeça para fora do automóvel afim de brincar com os outros carros. Demorou meia hora para os carros formarem uma fila indiana em frente à uma recepção que indicava a entrada do tal condomínio. “Sunville” era o nome do lugar. De início, me pareceu normal, as casas eram como as dos condomínios da região de São Paulo: cerca de dez a quinze casas por quarteirão; contudo, de acordo com que fomos andando e passando por mais cancelas de segurança, as casas foram se tornando maiores, até serem chamadas de mansões. Demorou mais vinte minutos até chegarmos em uma rua onde haviam somente três ou quatro casas por quarteirão. Antes mesmo da picape parar em algum lugar, as pessoas da frente abriram as portas e começaram a saltar para fora do carro. Olhei para Kendra, que riu quando viu meu olhar de desespero. Não vou pular de um carro em movimento.
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  A rua estava lotada de carros de todos os tipos. O que antes achei serem pessoas humildes, acabo de perceber que aquele era um grupo muito mais poderoso que os alunos prodígios da sala S de Harvard. Desci da picape quando ela estacionou e vi que eu, Kendra e mais duas garotas que usavam um salto enorme fomos as últimas a sobrar no carro. Arrumei minha jeans e tentei arrumar meu cabelo, mas ele já estava naturalmente bagunçado; bagunçar mais poderia piorar a situação.
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  Kendra me levou para a mansão que ficava logo no meio do quarteirão. Por não ocupar todo o espaço do lote, pude ver que ao fundo havia um imenso lago. Me perguntei desde quando haviam condomínios deste tipo nos Estados Unidos, mas considerando os americanos, não deveria estar tão surpresa assim. Caminhei pelos pedaços de pedra cortados perfeitamente quadrados, formando um caminho até a entrada da mansão. A porta estava fechada, mas destrancada; assim, as duas garotas que saíram do carro comigo e com Kendra foram as primeiras a empurrar a porta vermelha imensa pelo corrimão na vertical que ficava no lugar de uma maçaneta.
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  O som estava absurdamente alto e havia pessoas dançando com copos nas mãos para todos os lados. Cumprimentaram Kendra e olharam para mim da cabeça aos pés, provavelmente estranhando uma nova pessoa estar no pedaço deles. Engoli seco, me arrependendo imediatamente de ter aceitado. Deveria estar procurando empregos temporários para estrangeiros, não em festas de grupos de dança. Olhei para a escada de mármore que levava até o segundo andar. Havia mais um lance para um terceiro andar, mas este ninguém estava encostado, sentado ou deitado. Olhei para meu relógio de pulso e me perguntei se não estava muito cedo para as pessoas começarem a entrar em coma alcoólico.
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  - A festa está rolando desde ontem, mas me pediu para voltar para te chamar e também para me encontrar com a turma que estava com a gente na van. – Kendra gritou à minha frente, me fazendo concordar com a cabeça para mostrar que havia ouvido. Agora fazia mais sentido todas aquelas pessoas caídas. Então isso é uma verdadeira ‘rave’ americana, uma festa que dura mais de vinte e quatro horas. Passamos por um corredor ligeiramente estreito onde duas pessoas andariam lado a lado confortavelmente, mas devido o excesso de pessoas sentadas e encostadas na parede conversando ou se beijando, tornou a passagem um pouco mais desconfortável. O corredor nos levou até uma cozinha imensa tomada por pessoas, garrafas de álcool de todos os tipos, pilhas de copos de plástico e engradados com latas de energéticos. As cinco geladeiras enfileiradas em uma parede eram abertas a cada 3 segundos por pessoas diferentes, que retiravam bebidas de dentro ou reabasteciam o estoque. Agradeci mentalmente à Kendra por não ficarmos ali por muito tempo; atravessamos o ambiente e saímos da mansão por uma porta de vidro de correr que estava inteiramente aberta com as cortinas penduradas em algum lugar que não consegui enxergar. O lado externo primeiramente parecia somente uma sacada; ao atravessar o pátio até as pedras que formavam a sacada, vi um jardim imenso com uma piscina enorme. Ali estavam torres de luzes coloridas, máquinas de bolhas de sabão e fumaça, dando um verdadeiro ar de balada. As pessoas se espalhavam entre a área concretada da piscina e a grama do jardim, não se importando em pisar em algo mais fixo ou maleável. Achei interessante o modo como elas dançavam, soando tão profissionais com músicas tão alternativas; talvez as aulas realmente tivessem conteúdo; talvez elas realmente fossem dançarinos profissionais. Segui Kendra pelas escadas, descendo até o local da “balada”. Minha visão se tornou mais turva com o cheiro forte de droga rolando junto com o cigarro e a bebida. As pessoas riem muito alto e algumas chegam a se jogar na piscina. O DJ dançava detrás da mesa de som repleta de máquinas profissionais, rodeado por garotas com biquínis.
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  Kendra deu a volta na piscina, indo em direção a um grupo que estava deitado em camas de piscina com os narguiles apoiados em mesas ao lado. Vi sentado em uma das camas, , com várias garotas ao seu redor. Parecia estar se divertindo e assim que seu olhar avistou Kendra e eu, o sorriso se desfez.
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  Com a reação de , me pergunto se Kendra havia falado a verdade sobre ele ter insistido em fazê-la me trazer até essa festa. Talvez ela apenas tenha feito isso para me humilhar mais uma vez, mas de uma maneira épica. Olhei para os lados e as pessoas pareciam estar pouco se importando com a nossa chegada. Kendra mal se sentou em uma das camas e um cara a colocou em seu colo para iniciar um amasso. Arregalei meus olhos, espantada por ela ter deixado facilmente ser agarrada assim e parei, sem saber como reagir.
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  - Hey, “mesquinha”. – ouvi a voz de . Ele poderia estar em vantagem, na casa de seu tal sócio, mas eu não iria atender ao seu chamado, principalmente por estar me chamando por um adjetivo tão ofensivo. Além do mais, havia dito meu nome ontem para ele; poderia ser mais educado em pelo menos iniciar o plano da humilhação me iludindo achando que irá me tratar melhor e me chamar pelo meu nome. Olhei para os lados e tentei não dar atenção à Kendra e seu companheiro de amasso. Os dois pareciam estar bem entrosados e ninguém parecia se importar. Se estivesse no Brasil, alguém gritaria “vá para o quarto!”, somente para fazer as outras pessoas rirem, mas aqui, olhando ao redor, acho que é normal se agarrarem em público.
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  Olhei o lado que havia visto do lado de fora da mansão. Parecia mais calmo vendo de lá, assim como a mansão parecia menor também. Quem iria desconfiar que este lugar teria tanto espaço para caber todas essas centenas de pessoas? Logo depois do jardim havia uma praia; acho que é artificial, já que a grama do jardim da mansão se torna, de repente, areia branca. Havia pessoas nadando no lago e um tipo de um píer onde mais pessoas se jogavam para dentro da água; olhei para as mansões vizinhas, mas as luzes estavam todas apagadas. Será que todo esse barulho não atrapalhava o condomínio?
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  - Estou te chamando há cinco minutos. – senti uma mão segurar forte meu antebraço e ao olhar para o lado, me perdi nos olhos cuja muralha derrubei ontem. – Você deveria cumprimentar o dono da festa.
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  - E onde ele está? – olhei para os lados. – Porque Kendra me disse que não é você.
  - E você acha que Kendra, só porque faz direito sempre dirá a verdade?
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  Fiquei calada, vendo-o tão próximo a mim. É claro que a proximidade se deve ao fato do barulho estar alto demais e não queríamos gritar como todo mundo em nossa volta.
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  - Por que pediu para ela me trazer? – perguntei, finalmente, vendo um pequeno sorriso se formar em seus lábios, indicando que eu havia perdido a nossa primeira discussão.
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  - Você é muito direta. Por que não aproveita a festa? – sorri, mostrando dentes retos e brancos. Não queria desviar meu olhar do seu e não foi tão difícil, já que facilmente me perco nos seus olhos.
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  - Porque não quero ficar aqui. – respondi, séria. Minha direta pareceu lhe deixar sem reação. – Vim aqui porque Kendra disse que você está procurando alguém para arrumar aquele prédio onde fica o seu estúdio de dança.
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  - Você está aqui pelo dinheiro?
  - Estou. Por que mais viria? Para me divertir trocando facadas com você?
  Não sei se ele queria rir ou estava nervoso por não demonstrar nenhum interesse em seu corpo que admito ser uma beldade, ou na mansão que definitivamente é fabulosa. Meu orgulho não me permite querer aproveitar que estou em uma festa desse tamanho, além do mais, não me sinto bem-vinda aqui.
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  - O que te leva a achar que irei te contratar?
  - Você é realmente um grande idiota por fazer Kendra me trazer até aqui para simplesmente dizer que não irá me contratar. – cruzo meus braços, sentindo o sangue subir até meu rosto. Eu não posso acreditar que ele está realmente disposto em se vingar. Vi um riso sair por seus lábios e para mim, foi o fim. Balancei a cabeça e lhe dei as costas, dando um chute de leve no pé de Kendra que interrompeu o amasso com seu companheiro. – Estou indo.
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  - Acabamos de chegar.
  - Eu disse que eu estou indo. Você pode ficar. – dei-lhe as costas e comecei a fazer o caminho de volta para a saída da mansão. Pelo menos esse caminho sei fazer.
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  Não pude dar muitos passos sem antes ter a mão de novamente pegando meu braço e me virando.
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  - Você é bem nervosinha para uma “mesquinha”, Mesquinha. – com o impacto de ter me virado, nossos corpos estavam absurdamente colados. Olhei para os lados e vi o grupo de garotas que antes estavam ao seu redor não me olharem com sorrisos. – Eu te convidei para a minha festa, você deveria estar agradecida por considerar sua presença mesmo depois de ter me chamado daquilo que me chamou.
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  - Idiota? É, porque você é um idiota. – tentei me soltar dele, mas é claro que não consegui. Não com os braços dele me prendendo. – Escuta, não sei se você já percebeu, mas você é só o dono da festa. Você não significa nada para mim, então não tenho a obrigação de te tratar como um rei como as outras garotas fazem com você. Eu já falei que vim aqui só para saber do trabalho e se você não quer me dar, então procura outra pessoa para atormentar com esse seu ego inflado.
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  Pisei em seu pé e ouvi seu urro de dor. Provavelmente me xingou, mas não me mantive por perto muito tempo para ouvir o que era. Tento andar o mais rápido que posso em direção às escadas, mas novamente, ele tentou me parar. Cansada de ser segurada de maneira brusca por ele, virei com a intenção de lhe dar um soco, mas ele é muito mais ágil que eu e facilmente desviou. Contudo, nossos movimentos foram tão rápidos que só fomos perceber que estávamos à beira da piscina, quando já estávamos dentro dela.
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  - Tome. – vi uma toalha felpuda branca em minha frente e nem meu orgulho me deixou recusar. Enxuguei meu rosto e meus braços e tentei secar os cabelos, mas eles estão úmidos demais para conseguir.
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  Olhei ao redor para o quarto que me trouxe depois que saí da piscina. Por sorte, não uso tanta maquiagem e o pouco que tenho em meu rosto é a prova d’água. O quarto fica dentro da mansão logo no segundo andar. Utilizando um elevador que havia dentro de um salão cuja porta ficava entre as duas escadas que davam para a piscina, subimos até o segundo andar que estava repleto de pessoas. achou um dos quartos vazios e não me importei de entrar com ele lá, porque sei que não acontecerá nada, já que nossa atual condição não exala nem um pouco de tesão. Ajoelhei no tapete para não tentar molhar muito mais do quarto. Torci a barra da minha camiseta e vi que ela havia encolhido devido à umidade, deixando exposta uma parte muito maior de minha barriga. Suspirei, descrente por estar nesta situação.
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   se enxugou em minha frente e não se importou em tirar a camiseta preta para colocar uma regata branca seca. Este deveria ser seu quarto, já que os armários que abriu mostravam roupas masculinas que ele escolheu vestir depois de seco.
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  - Pegue uma camiseta. – disse entrando no banheiro e não se importando em fechar a porta.
  - Não, obrigada. Já vou embora. – disse, enquanto tento secar o máximo que posso qualquer parte que ainda esteja encharcada, ou seja, tudo.
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  - Não seja tola e pegue logo.
  - Eu disse que não quero.
  Levantei para poder enxugar a parte de trás de minhas pernas. A skinny estava grudada em meu corpo como se fosse minha pele e, por sorte, a cor preta não muda mesmo molhada. Tirei meus sneakers para enxugar a área interna do tênis e assim que terminei, saiu do banheiro e pegou uma camiseta qualquer, jogando em minha direção.
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  - Que parte do “eu não quero” você não entendeu? – deixei a camiseta na poltrona que havia perto de mim.
  - Sua camiseta está praticamente transparente.
  - As pessoas não irão se importar, já que há mulheres bem menos vestidas que eu aqui. – voltei a enxugar meus cabelos. – Obrigada pela toalha. – falei, pendurando-a na mesma poltrona que deixei a camiseta que ele jogou em mim.
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  - O que você tem, garota? – ouvi sua voz enquanto me virava para ir em direção à porta. – Por que você não aceita a ajuda das pessoas?
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  - Não é que eu não aceite ajuda. Eu só não aceito ajuda de pessoas que brincam comigo e acham graça em me ver nervosa. Além disso, eu odeio a palavra “mesquinha”. – tento sair, mas ele coloca um de seus braços na maçaneta, impedindo a porta de se abrir. – Por que está tão interessado em me atormentar?
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  - Não gosto de ser chamado de idiota por pessoas desconhecidas.
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  - Digo o mesmo sobre ser chamada de mesquinha.
  - Bem, se você se desculpar, eu me desculpo.
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  - Não fui eu quem comecei essa brincadeira idiota.
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  Seus olhos fixaram-se nos meus. Essa batalha eu não iria perder, sei muito bem ganhar jogos de olhares.
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  Não nos conhecemos. Não sei nada sobre ele. Não sei qual a intenção dele comigo, mas sei que não é boa. Ele não deve ser chamado de idiota por muitas pessoas, para ter se ofendido tão intensamente quando o chamei. Se não tivesse me tratado com tanta grosseria ontem, eu poderia ser da maneira que eu sou com as pessoas; educada e formal. Poderia até fingir que estou confortável próxima dele. Mas ele foi grosseiro comigo sem nem me conhecer. Perguntei a mim mesma se ele trata as outras pessoas assim, pois se sim, devem ser um bando de masoquistas que se preocupam mais com dinheiro do que eu. Se este for o caso, ele não deve ficar surpreso ou ofendido por eu ter vindo até aqui só por causa dos valores. Além do mais, eu sequer sei quanto ele está disposto a pagar pela tal ajuda.
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  - Eu não gosto de mulheres que se impõem demais para os homens.
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  - Bem, então você deveria me dar licença para que eu possa me retirar.
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  Trocamos olhares mais alguns segundos até ele mover-se para o lado, deixando que eu saia sem olhar para trás. Estou nervosa. Como diz Kendra, puta. Estou puta. Poderia estar estudando para os exames que estão se aproximando ou procurando mais opções de trabalhos. Ao invés disso, estou aqui, saindo de dentro do quarto do dono da festa e sem saber como voltarei para a cidade, já que é óbvio que a pé não irei conseguir.
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  Ignorei todas as cantadas e mãos na bunda que recebi durante o trajeto até a entrada da mansão. Mesmo a festa ter começado no dia anterior, ainda há pessoas chegando. Olhei para os lados afim de encontrar algum cara bêbado que possa dar em cima e fazê-lo me levar para a cidade, mas aparentemente, todos os bêbados estão dentro da mansão, um lugar que não quero voltar a entrar. Penso então em alguma maneira de voltar. Não posso ligar para Kendra, porque ela não me atenderia de qualquer jeito. Não conheço mais ninguém e o motorista da picape que nos trouxe entrou na festa também. Talvez se eu for a pé até a portaria, algum funcionário poderia ligar para uma agência de táxis, já que não tenho nenhum gravado em meu celular e o sinal da internet não funciona nesta área.
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  Cruzo meus braços ao sentir o vento gelado da noite. Olho em meu relógio e vejo que ainda são oito horas. Não faz nem uma hora inteira desde quando entrei na mansão e já estou enrascada. Me arrependo levemente por não ter aceitado a camiseta seca de ; o arrependimento não fica muito tempo em mim, já que não iria querer dever uma para ele depois do modo como me tratou. Começo a andar na direção contrária que a picape que vim fez. Olho para o céu e a lua está muito maior do que o normal. Me pergunto se irei me meter em enrascadas tipo essa novamente, agora que terei de procurar emprego para arranjar dinheiro. Meus músculos doem só de pensar no esforço que terei de fazer; sempre gostei só de estudar. Não deveria trabalhar até realizar a prova da OAB no Brasil. Esse não é meu plano, eu não deveria estar me sujeitando a essas situações.
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  Por um segundo, sinto a raiva pelos meus pais retornar. É culpa deles. Por que não mantiveram minha poupança intacta? Por que a criaram se estava claro que não usariam o dinheiro que estava lá dentro comigo? Onde está a responsabilidade e segurança que passaram para mim quando me permitiram vir para cá? Como conseguiram falir em tão pouco tempo? Por que eu tenho de pagar pelos erros deles?
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  Senti uma lágrima percorrer meu rosto e esquentar por onde passou. Limpei meu rosto e continuei andando, encolhendo meu corpo cada vez que sinto uma nova brisa bater contra mim. Se Gabriel estivesse aqui, daria um jeito de nos tirar daqui rapidamente. Mesmo que ele tenha as mesmas atitudes que as minhas, sua linha de raciocínio é muito mais rápida, fazendo com que ele tenha soluções muito mais rápido do que eu. Conseguiria pensar, mesmo com as emoções abaladas, como sair deste lugar e voltar para meu dormitório. Um dos fatores que mais gosto no nosso relacionamento, é que não preciso fingir que sou forte perto dele, porque ele sempre quis me proteger. Gabriel cresceu com a decisão de que faria a pessoa com quem iria se casar feliz durante toda a vida, ao contrário de seus pais. Mesmo que não seja bom em demonstrar afeição ou carinho, sempre consegui enxergar em suas ações, a intenção em me deixar confortável ao seu lado. Agora que estou sozinha e abalada, queria que ele estivesse aqui para que eu não precisasse ser forte.
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  Assim que cheguei à primeira portaria de muitas, vi o guarda me olhar com surpresa. Abriu a porta da cabine ao me ver.
  - Está perdida? – perguntou.
  - Não, estou saindo da festa da mansão de , mas não tenho carona para voltar. Você sabe se há alguma empresa de táxi que venha até aqui e me leve de volta para a cidade?
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  O interfone tocou no momento que ele deveria me responder.
  - Só um momento, por favor. – disse, levantando seu dedo indicador informando que retornaria. Espero que possa me ajudar, não quero andar mais vinte minutos ou meia hora até a próxima portaria. Além do mais, não sei se me lembro do caminho daqui para frente. Vi o guarda voltar em meu campo de visão e se dirigir a mim: – Seu nome, por gentileza?
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  - É . – falei. Dessa vez, ele não se preocupou em pedir para aguardar, voltando a falar no interfone. Será que era de outra portaria? Será que ele já estava se adiantando para me ajudar? Esperei ansiosa por seu retorno e assim que o vi novamente, um fio de esperança surgiu dentro de mim. – Senhorita, estou proibido de permitir a sua saída. Você deve voltar para a mansão.
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  - O quê? Você está brincando, não é?
  - Não estou. Acabei de receber o recado de que você está devendo uma quantia para o senhor Elgort e deverá retornar para quitar a dívida.
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  Não. Posso. Acreditar.
  Soltei uma risada e passei a mão no cabelo.
  - Foi ele quem falou isso? – apontei para dentro, onde provavelmente estava o interfone. O guarda não me respondeu. – Quem quer que seja, está mentindo. Não estou devendo nada para ninguém. O dono da festa me jogou na piscina! – abri os braços para mostrar meu estado, mas ele não pareceu se importar com minha situação. – Você só pode estar brincando.
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  - Já disse que não estou, senhorita. Você deve retornar para a mansão.
  - Você sabe que posso processar você por me manter em cativeiro, não é? – olhei para o guarda, que arregalou os olhos. – Sei de cor todas as leis de denúncia, estudo direito na Harvard. Proibir minha saída sem provas significa que você está me sequestrando indiretamente.
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  Sei que consegui assustá-lo, pois finalmente considerou me deixar sair. Entrou na cabine e retornou depois de alguns minutos.
  - Senhor pediu que esperasse aqui.
  - Mas que… – fechei meus olhos. Assim que os abri, li o nome do guarda na placa de identificação grudada em seu uniforme. – Álvares Perez. Tudo bem. Não tem problema, já gravei seu nome. Turno noturno. Vou aguardar o , sim. Ali atrás. Enquanto isso, penso nos argumentos que usarei contra você. É bom que tenha um advogado que tenha decorado todas as leis direcionadas a sequestro, porque irei fazer questão de usar todas elas.
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  Dei-lhe as costas sem esperar resposta e fui até a parte de trás da cabine, onde ele não conseguiria ver que fui para o lado oposto do caminho em direção à mansão do sócio de . Não quero ter de vê-lo novamente.
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  Andei até encontrar um parque infantil vazio devido ao horário e me sentei em uma das balanças que ficava escondida entre algumas árvores. O lugar seria muito mais sombrio se eu não estivesse tão nervosa. Nervosa comigo. Nervosa com meus pais. Nervosa com Kendra e com . Nervosa com a vida, por me testar dessa maneira, quando fiz tudo certo até agora. Olhei para o chão pensando como poderia sair daqui; minha razão, a parte que me ajuda durante as aulas práticas da faculdade me deu um tapa na cara ao me fazer entender que eu não conseguiria sair sem a ajuda de . O guarda que ameacei não iria me ajudar, principalmente depois de tudo o que disse. Sabe-se lá quando Kendra sairia com seus amigos da festa e meu celular estava sem sinal. Como sempre, minha razão está certa e eu, errada. Não posso deixar meu orgulho me domar assim; eu não sou assim. Sou uma garota centrada, com um foco. Costumo chegar onde eu quero com ética, assim fui educada.
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  Deixei meus ombros caírem, me lembrando do frio assim que um vento mais forte bateu contra minha roupa ainda úmida. Só um milagre irá me fazer acordar saudável amanhã, mesmo assim, não vejo a hora do amanhã chegar. Olhei para trás e quase caí do balanço ao ver parado atrás de mim calado e com seus braços cruzados.
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  - Eu pedi que você ficasse na portaria.
  - Por isso mesmo que saí de lá.
  É isso. Seu jeito rude desperta meu lado grosseiro. Eu não preciso tanto assim da ajuda dele. Consegui sair de problemas piores, como da vista e do controle de meus pais. Posso lidar com ele, um cara desconhecido que não fui com a cara, mesmo achando seus olhos hipnotizantes. O problema deles, não era como todas as garotas sempre disseram que enxergam coisas bonitas ou uma parte dele que ele não quer mostrar. Os olhos de não me lembram nada dele, apenas me faz perder dentro de mim. Um lugar dentro de mim que não tenho preocupações, responsabilidades ou medos. Um breu bom.
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  Infelizmente, a escuridão não colaborou com seus olhos, mas o formato de suas pálpebras me mostrou que ele estava bastante nervoso. Não se moveu um centímetro depois que joguei minha resposta; ficou me encarando, sério, como se não acreditasse que o respondi dessa maneira.
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  - Eu não vou voltar para sua mansãozinha. – falei, voltando a dar-lhe as costas, olhando para as árvores que formavam uma sombra escura no meio da noite. Se estivesse em uma situação normal, estaria morrendo de medo, imaginando que tipo de monstro poderia sair de lá; contudo, um monstro pior estava atrás de mim.
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  - Imaginei que não voltasse. – falou. – Por sorte, entendo sua linha de raciocínio o suficiente para saber que você faria o caminho oposto da mansão e viria até um parque infantil para se esconder.
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  Seu tom de voz era irônico, como se estivesse rindo de mim por estar sentada em um balanço que somente crianças até 12 anos sentariam. De alguma maneira, esse comentário não me atingiu do modo que esperava e não lhe dirigi uma resposta. Lembrei do que meu pai disse durante uma reunião com uma cliente que havia entrado com um pedido de divórcio e não queria falar a verdadeira razão do pedido: deixe-o falar até perceber que está errado.
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  - Uma pessoa na sua posição não deveria tratar assim a única pessoa que pode ajudar a sair daqui e voltar para sua universidade de ricos.
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  - Eu poderia tratar melhor, se a pessoa não fosse você. – ouvi sua risada.
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  - Você é mesmo bem esquisita.
  - Tanto quanto sou “mesquinha”.
  Ficamos calados por um tempo. Infelizmente, tenho um problema de que quando estou impaciente, meu corpo fica irrequieto, atrapalhando minha vontade em me manter séria. Me levantei e me virei para ele, cruzando meus braços mais por vontade de me proteger do frio do que para parecer forte.
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  - Você vai me deixar chamar um táxi e parar de mandar seus porteiros me trancarem dentro desse condomínio ou o quê?
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  - Perez está com medo de que você vá processá-lo de verdade. – ele parecia se divertir com a situação do porteiro, algo que me deixou ainda mais aborrecida, já que o porteiro não estava nada calmo, pensando como faria para sair da situação que um morador o colocou. – Entre no carro, preciso ir até a cidade para retocar os energéticos e as cervejas. – deu-me as costas e caminhou em direção a uma Range Rover. Pensei em recusar, mas estou cansada demais e pode ser minha única oportunidade de chegar à cidade.
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  O carro, ao contrário do que imaginei, não cheirava a cigarro, droga, suor ou qualquer odor que não fosse bem-vindo às narinas de uma garota. O cheiro de lavanda de um material grudado em uma das grelhas do ar condicionado impregnava e dava a sensação de que o carro nunca esteve sujo; os bancos de couro claro pareciam novos e não estavam grudentos por alguma bebida que poderia ter caído ali por alguma das garotas que estava o rodeando na piscina. Além disso, não havia roupas ou pedaços de papel ou plásticos espalhados, algo que vemos com frequência em carros de homens, tampouco um penduricalho que as pessoas costumam colocar no retrovisor central. O som tocava músicas pop e eletrônicas da atualidade e o ar quente amoleceu meu corpo gélido assim que fechei a porta. Coloquei meu cinto calada e não ousei olhar para seu lado, onde somente acelerou o carro que deixou ligado enquanto foi me convencer a aceitar sua carona.
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  Deu a volta no condomínio dentro da velocidade permitida; não parecendo ter pressa de se livrar de mim ou de voltar logo para sua algazarra. Me pergunto o que ele faz para ter tanto dinheiro ou o que seu sócio fazia para permitir que ele organizasse eventos tão exagerados assim. Álvares Perez abriu o portão automático assim que reconheceu o carro de e olhou para mim com receio.
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  - Ela disse que não irá te processar, Perez. Está na TPM.
  - O quê? – desencostei do meu banco, vendo o porteiro agradecer e acelerar em direção ao próximo portão que levaria a condomínios menos luxuosos. – Eu não estou na TPM!
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  - Não desconte sua raiva nele, “mesquinha”. – riu, dirigindo somente com sua mão direita enquanto a esquerda ficava apoiada na janela que não fechou depois de saído do condomínio onde estava sua mansão. – Além disso, ele estava desesperado com a ideia de ser processado. Acabou de conseguir seu visto para permanecer nos Estados Unidos.
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  - Deveria pensar no visto dele antes de me negar uma saída. – resmunguei, ouvindo mais uma vez sua risada. Meus olhos doíam cada vez que um carro passava por nós; por terem acostumado com a escuridão, receber a luz noturna da lanterna do carro era como acordar de manhã e as cortinas estarem abertas. – E agora você é o herói dele. – resmunguei mais uma vez, mas mais baixo, como se não tivesse a intenção de fazê-lo ouvir, mesmo querendo que ele ouvisse. Dessa vez não houve risada nenhuma de reação, me deixando na dúvida se ele ouviu ou não o que disse.
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  , ao contrário do motorista da picape que nos trouxe para a festa, não dirigia loucamente, como se estivesse louco para chegar logo ao destino final. Respeitava as placas de velocidade e quando passava por uma lombada, só faltava parar e colocar o carro no ponto morto. Contudo, sua velocidade era compreensível, já que pude perceber dezenas de crianças brincando nas ruas que devem ser seguras para elas, uma vez que seus pais devem pagar uma fortuna com os aluguéis dos lotes. Bolas quicam em frente ao carro de repente, fazendo crianças gritarem para parar, ação que ele faz sem reclamar. Ele obedece crianças, mas me trata com ironia, grande.
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  O tempo que ele levou para sair do condomínio completo foi o dobro que levei para entrar com o motorista da picape. Com a velocidade de até 40km/h e o fato de agora estar sentada na janela, pude prestar mais atenção no condomínio que mais parecia uma cidade. Carros de autoescola andavam dentro da velocidade permitida com alunos na direção e instrutores no banco passageiro; madames indo com seus carros de luxos até uma galeria que mostrava ter lojas de todos os tipos para os moradores e restaurantes lotados. Antes de sairmos da terceira portaria, pude ver posto de gasolina e posto de saúde privada; pistas de kart e paintball. Mal posso imaginar quanto é por mês para viver ali confortavelmente.
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  Uma vez na rodovia, não pensou duas vezes em pisar no acelerador. A velocidade que antes estava dentro dos conformes e não passava dos 40km/h, agora podia ver no velocímetro o ponteiro chegar a 160, 170km/h. Nunca fui fã de velocidade, por isso, aproveitando o ar quente vindo em minha direção e secando minha roupa, fechei meus olhos e sem perceber, acabei adormecendo.
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  Meus olhos se abriram o que parecia ter sido 10 minutos depois; contudo, ao olhar para o lado, vi o prédio dos dormitórios de Harvard. Limpei meus olhos, ignorando parte da maquiagem ficando nos meus dedos e olhei para o lado, onde lia algo em seu celular.
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  - Por que não me acordou? – perguntei, retirando o cinto e começando a arrumar o cabelo.
  - Porque não quis. – respondeu, virando seu rosto para mim, encontrando seus olhos nos meus. Desviei antes que pudesse me perder novamente e saí e tirei do bolso traseiro da minha jeans, meus documentos embrulhados em um envelope de plástico transparente que costumo levar comigo. De dentro, retirei uma nota de cinquenta dólares e depositei no painel do carro. – Obrigada pela carona.
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  - Não precisa pagar. – empurrou a nota em minha direção, mas não aceitei. Abri a porta do carro e, antes de sair, disse de costas para ele.
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  - Eu não gosto de dever nada para ninguém.
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  Sem olhar para trás, fechei a porta e me afastei do carro confortável de . Cruzei meus braços ao sentir o vento gelado da noite bater no meu corpo quente; apressei meus passos e tentei não pensar nos olhos me encarando afastar. Por um milésimo de segundo, desejei que ele me parasse, então descartei essa hipótese, me achando uma completa idiota.
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  O dia seguinte, um sábado, estava ensolarado. Mesmo eu chegando à meia-noite no dormitório e só dormindo à uma da madrugada, meus olhos automaticamente abriram quando o relógio bateu às 7 da manhã. Olhei para a cama de Kendra ao lado da minha e ela estava vazia. Claro. Deve estar na mansão se divertindo entre as drogas, a orgia e o álcool. Balancei minha cabeça, me surpreendendo ao não sentir febre, indisposição ou cansaço. Sentei na cama e mexi em meus cabelos, deveria aproveitar o dia livre para sair à procura de um emprego, mas não estou com vontade de ir. Na verdade, não quero seguir as regras de minha mãe, mas como Gabriel concordou que era uma boa alternativa, automaticamente considerei fazer o que ela mandou. Fui até a mesa de minha escrivaninha e abri o Skype, esperando ver Gabriel online, mas era óbvio que ele não estava. Aos sábados, ele trabalhava em uma fábrica, como se fosse um estágio de sua profissão. Só ficava disponível para conversar comigo de madrugada, quando voltava para dormir.
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  Olhei para nossa foto em meu mural e senti a saudade tomar conta do meu corpo. Sinto falta de ter um par de braços me rodeando em proteção; lábios para tocar os meus e a sensação de tranquilidade com relação ao meu futuro. Desde quando decidi prestar Harvard, soube que se Gabriel estivesse de acordo com meus planos, eu iria me formar aqui, retornaria para o Brasil para prestar a OAB, passaria sem ser reprovada e então começaria a atuar na área, finalmente ganhando meu próprio dinheiro para me mudar para um lugar meu e de Gabriel. Ele já estava juntando o dinheiro e dividia um quarto em uma república para não precisar ter gastos abusivos. Agora que meus pais gastaram todo o dinheiro que havia em minha conta, parece que meus planos estão mais longe de se concluírem. Não sei se conseguirei me formar, não sei como farei se tiver de voltar para o Brasil sem um diploma e não poderei casar antes dos 27 como esperava.
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  Meus pais arruinaram minha vida.
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  Olhei para o jornal jogado ao lado de meu notebook e meu corpo se levantou, pronto para receber roupas decentes para procurar um trabalho de meio período. Vesti uma jeans escura com uma camisa pólo branca. Vesti um sapatênis branco confortável, pois sei que terei de andar muito. Em seguida, prendi meu cabelo em um rabo alto e passei o protetor solar ao ver o sol quente do lado de fora.
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  O campus estava vazio, as aulas começaram há apenas pouco mais de um mês, por isso, é normal que muitos alunos faltem no início ou aproveite a pouca quantidade de trabalhos para sair para festas. Encontrei com Kendra e um grupo de amigos assim que coloquei os pés para fora do campus e eles pareciam totalmente acabados. Kendra deu um berro ao me ver e apontou seu dedo longo para mim, fazendo as pessoas rirem.
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  - Você me deixou lá sozinha, sua “mesquinha”. – seu tom estava embargado e as pessoas riam exageradamente ao seu lado. – Você deveria ter se divertido. – suas mãos apoiaram em meus ombros e ao tentar andar, seus passos cruzados a fizeram quase cair em cima de mim. – Ops. – voltou a rir.
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  Olhei para as pessoas ao seu redor e nenhuma parecia disposta em ajuda-la a chegar até o nosso dormitório, por isso, resolvi voltar apenas para garantir que ela não faria algo que pudesse chamar a atenção dos inspetores e trazê-los até nosso quarto, principalmente com o número de garrafas de álcool que havia no armário de Kendra; não estou afim de ser acusada de cúmplice. Ignorei as pessoas amigas de Kendra ao redor rindo e passei um braço seu por meus ombros, auxiliando-a subir as escadas, algo que demorou três vezes mais que o normal. Me senti sortuda do campus estar vazio.
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  Ajudei Kendra a se despir e a levei até o banheiro feminino, que tinha somente duas garotas escovando os dentes com olheiras no rosto, provavelmente resultado de uma festa que foi até mais tarde ontem. Talvez elas sequer tenham dormido. Kendra começou a tagarelar com elas, mas as duas ignoraram e pedi desculpas quando me mandaram um olhar para controlar minha colega de quarto. Coloquei meu roupão de banho para proteger minha roupa dos respingos de águas. Mesmo bêbada, não foi muito difícil dar banho em Kendra, que depois de receber a ducha gelada no rosto, manteve-se parada, deixando que eu ensaboasse seu corpo e massageasse sua cabeça ao lavar seus cabelos que fediam álcool e cigarro.
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  Voltamos para o quarto, onde a coloquei em sua cama e fechei a veneziana e cortinas para deixa-la dormir melhor. Enquanto tirava o meu roupão para pendurá-lo em frente à porta, para receber o vento e secar mais rápido, ouvi Kendra me chamar:
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  - Yoooo… – sua voz estava tão difícil de entender do que antes. – , o líder, lembra? Você tem que lembrar, ele é um exemplo do que nos aguarda lá no paraíso – deu uma risada que mais parecia um resmungo e continuou a falar: -, ele te mandou uma mensagem. – tocou em sua bunda, mas não conseguiu encontrar nada. – Está no bolso da minha calça… hic. – em seguida, deixou sua cabeça cair no travesseiro, derrotada pela embriagues.
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  Olhei em direção à pilha de roupas que havia em um canto do quarto; passei longos minutos em uma batalha entre ignorar e sair do quarto para procurar um trabalho e acabar com minha curiosidade em saber por que ele insistia em manter contato. Achei que depois de ontem, nunca mais o veria. Mordi o canto de meu lábio inferior, sentindo o local arder ao perceber que puxei pele demais e acabei me machucando. Suspirei, desistindo de resistir e indo até a calça de Kendra, tateando o bolso traseiro da jeans até achar um pedaço de papel dobrado e amassado.
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  ”Venha até o estúdio antes do almoço.”
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  Era isso. Isso? Não era um pedido de desculpas ou arrependimento por ter me tratado ridiculamente ontem? Amassei o papel e taquei-o no lixo com raiva. Peguei minha bolsa e saí do quarto depois de me rearrumar. Enquanto saía do campus, milhares de dúvidas surgiam em minha cabeça. O que ele poderia querer comigo para me chamar até o estúdio? Será que ele queria me cobrar algo que devo ter estragado? Eu paguei a gasolina de ontem, mesmo ele tendo de vir para a cidade de qualquer maneira. E desde quando ele sabia que Kendra chegaria no dormitório antes do meio dia? Olho em meu relógio, que marcavam 10:00. Se eu me recordo bem, até chegar no estúdio, demoraria cerca de uma hora pegando o metrô e então o ônibus até o ponto perto da rua, mais alguns dez minutos de caminhada. Por que eu deveria gastar uma hora para ir e uma hora para voltar somente para satisfazer um pedido dele? Porque estou curiosa, óbvio.
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  Desço as escadas do metrô tentando me decidir se vou ou não até o estúdio. Se eu não for, ele fará algo ou irá fingir que nada aconteceu e não me procurará mais? Será que ele mandará Kendra me convencer de ir a algum lugar como ontem? Ou ainda tem planos de se vingar de mim por chama-lo de idiota? Olho para as placas que apontavam onde cada lado da bifurcação à minha frente levava. Centro, procurar emprego ou leste, no estúdio?
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  Deixei meus ombros caírem ao sentir a curiosidade, mais uma vez, tomar conta de toda a situação, e de minha vida. Apertei a alça de minha bolsa no ombro e virei em direção à placa que indicava o lado que me levaria até o estúdio.
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Capítulo 3

  Conforme calculado, cheguei à frente do estúdio às 11:13 da manhã. Claro que estava adiantada. Desde que ele almoce como uma pessoa normal ao meio-dia, eu estava praticamente 45 minutos adiantada, o que me dá tempo para me perguntar mais uma vez se quero realmente fazer isso. Quero encontrar ?
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  Olho para os lados e a rua estava bem mais cheia do que da última vez que vim, na sexta. Talvez fosse o fato de ser sábado e as pessoas saírem cedo para fazerem as compras necessárias para o mês ou semana; reconheci que o bairro é bastante comercial, com lojas e mercados diversos, além de restaurantes e lanchonetes. Morar nos andares acima das lojas, para estudantes era um privilégio, com tanta coisa ao redor.
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  Balanço a cabeça a fim de parar de me distrair com minhas próprias observações e aproximo minha bolsa mais perto de meu corpo, como se aquilo fosse a razão de me segurar ali na calçada. Imitei a ação que Kendra fez na quinta-feira quando vim aqui pela primeira vez e toquei a campainha. Ouvi a mesma voz perguntar “quem é?” e eu responder somente um “”. A porta demorou a ser aberta, mas ouvi o ‘clank’ indicando que ela havia sido destravada. Empurrei a porta pesada de metal e vidro, fechando-a atrás de mim. De costume, olhei para o elevador, mas ele continuava com uma faixa amarela escrito “interditado” em toda sua extensão. Vi um homem negro e alto, forte o bastante para me quebrar em quatro sair por uma das portas que havia em conexão com o hall.
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  - pediu para você ir até o primeiro andar. Última porta à direita. – apontou para as escadas. Agradeci em voz baixa, ainda intimidada por seu tamanho e a expressão pouco amigável que dirigia a mim. Em passos apressados, fiz o caminho indicado por ele, tentando ao máximo não olhar para trás para verificar se ele me seguia.
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  Ao chegar no primeiro andar, ousei dar uma bisbilhotada e vi que ele já não estava mais no hall, provavelmente voltando a seu posto de porteiro e segurança. Suspirei, mais aliviada e olhei para o corredor que era idêntico ao corredor do quarto andar, onde ocorriam os treinos de dança. Andei em passos lentos e olhei em meu relógio mais uma vez, vendo que marcavam 11:24. Quanto tempo fiquei no lado de fora tentando me decidir se entrava ou não? A última porta à direita do corredor estava aberta porque não havia porta para fechá-la. Uma música da Jennifer Lopes tocava ao fundo; coloquei uma cabeça para espiar e vi sentado em uma cadeira de couro de rodas imensa atrás de uma imensa mesa de carvalho escuro polido, provavelmente fino demais para o prédio abandonado. Ao lado, uma TV de plasma estava instalada na parede, onde um clipe de Jennifer Lopes tocava alto. Hoje ele não estava com regata ou camiseta; estava vestido normal, com uma pólo azul marinho. Vi seus olhos me encararem quando dei duas batidas no batente da porta. Perdemos cinco segundos nos encarando até pegar o controle da TV e apontar em direção a ela, colocando o som no mundo.
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  - Sente. – apontou para a cadeira de couro à sua frente.
  - Antes – disse, entrando na sala, mas não o obedecendo. Minha ação o fez voltar a olhar para mim antes de dar atenção por completo em seu trabalho. -, quero saber se você irá demorar, pois tenho compromisso.
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  - Que tipo de compromisso?
  - Do tipo que você não precisa saber.
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  Vi um sorriso se formar em seus lábios e ele encostar na cadeira, que deve ser nova, pois não soltou ruído algum quando ele se mexeu em cima dela.
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  - Você não deveria falar assim com seu futuro chefe, “mesquinha”.
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  Não pude evitar demonstrar surpresa com sua afirmação, vendo-o soltar uma risada nasalada, provavelmente se divertindo ao me ver, pela primeira vez, sem saber o que responder. Minha cabeça processava a mensagem: Chefe?
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  - Eu disse para se sentar. – sua voz não soou grosseira, mesmo a sentença parecer prepotente. Sem dizer mais nada, me sentei na cadeira indicada e continuei calada esperando ele se explicar: – Kendra disse que você está em uma situação ruim e que precisa de dinheiro urgente para pagar sua faculdade de ricos. – o vi esperar alguma reação, mas não o retruquei por dizer uma verdade. – Imagino que o valor da universidade inclui o quarto que você dorme?
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  - Não. Tenho desconto no valor do dormitório por estar entre as 10 melhores do meu ano. – aquilo pareceu pegá-lo de surpresa, mas para mim não era novidade. Me esforcei todos os anos até agora para manter minha colocação entre os cinco primeiros e garantir o dormitório. Se tudo der certo, consigo subir ao menos três colocações para estar entre os três primeiros e começar a receber algum tipo de bolsa na mensalidade.
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   ficou me encarando como se eu fosse uma débil mental. Não me importei em parecer uma nerd. Tenho apenas uma boa memória fotográfica e leio muito para mantê-las frescas em minha mente.
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  - Eu preciso de alguém que me ajude a organizar este prédio. Vou transformá-lo em uma escola de dança, mas não posso fazer tudo sozinho, mesmo que eu queira. Isso significa que há determinadas coisas que alguém terá de fazer para mim.
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  - Achei que você tivesse dinheiro ou as pessoas que dançam aqui estivessem dispostas a ajudar.
  - Eu não tenho dinheiro. Meu sócio tem, mas gastou uma boa grana neste prédio e quero dar meu próprio jeito aqui dentro. Não gosto de envolver os alunos que pagam mensalmente para entrarem aqui, por isso, estou disposto a pagar um bom valor para uma única pessoa me ajudar com tudo. Kendra disse que você é boa com organização e é meticulosa com negócios. – seus braços se apoiaram na mesa e os olhos encontraram os meus. – Minha proposta é que você trabalhe para mim; pago um valor de trabalho integral mesmo você realizando cinco ou seis horas por dia, mas irei exigir alguns finais de semana.
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  - Quanto é o seu valor integral?
  - Cinco mil está bom para você?
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  - Transporte está incluso?
  - Transporte à parte. Nos finais de semana que vier antes do meio-dia…
  - Terá de me avisar com antecedência; gosto de usar as manhãs para estudar e preciso manter minha colocação para não perder a minha moradia. – expliquei diretamente. Aquilo não pareceu agradá-lo, mas se Kendra falou bem o suficiente de mim, ele saberia que sou bem mais responsável que ele. Provavelmente.
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  - Há finais de semana que você terá de vir mais cedo. E isso inclui a parte da manhã, mas avisarei com antecedência conforme você pediu. Há mais alguma coisa que eu devo saber? – sua voz foi irônica, mas não pude perder a oportunidade.
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  - Quero que você me chame pelo meu nome. Meus pais não me nomearam para no final, ser chamada de mesquinha.
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  Ouvi sua risada e vi sua cabeça balançar.
  - Tudo bem, posso fazer isso. Mas serei mais exigente com seu trabalho.
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  Levantei meus ombros, mostrando que não me importo. Ele retirou de dentro de uma pasta, um tipo de contrato onde completou os dados de nosso acordo e o valor que combinamos de eu receber. Em seguida, me passou o papel para receber minha aprovação; não reclamei. Nunca encontraria um emprego de meio período que me pagaria cinco mil. Com isso, conseguirei pagar todo mês os gastos totais da faculdade e relacionados a ele, e poderei ainda ter um lucro de cerca de mil dólares que poderei guardar para emergências. colocou nosso contrato assinado em sua impressora, onde scaneou e então olhou para mim.
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  - Estamos concordados então. – finalizou a conversa e levantou uma sobrancelha ao ver que não me movi. – O que foi?
  - Não devo começar de imediato? – perguntei, como se ele fosse idiota por não começar a me passar um trabalho. Desta vez, eu o peguei de surpresa, vendo sua boca abrir levemente. A fim de evitar maiores constrangimentos, retirei de dentro de minha bolsa, meu tablet, abrindo a pasta de documentos e então o arquivo com o horário de minhas aulas. – Aqui marca o calendário de todas as minhas aulas até o final do semestre, incluindo as aulas extras que tenho em alguns finais de semana do mês. Me diga seu e-mail para eu encaminhar uma cópia a você para que saiba os dias que definitivamente não poderei vir nos finais de semana ou durante a parte da tarde. Os dias que não puder vir durante a semana, pago as horas durante o final de semana. Em época de prova, costumo estudar de segunda a segunda, por isso, você pode diminuir meu salário durante a época ou passar os trabalhos que poderei fazer em remoto. – vi seus olhos percorrerem o calendário.
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  - Tudo bem. – pegou um post it e escreveu seu e-mail e número de telefone celular. – Preciso que o prédio esteja pronto para ser inaugurado no dia 22 de Dezembro, quando teremos nossa apresentação anual de dança com todas as salas veteranas. Será uma boa oportunidade para divulgar as aulas e convencer as pessoas que não dançam de começar as aulas.
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  Concordei com a cabeça, pegando o post it amarelo e grudando-o na tela de meu tablet. Devolvi o aparelho à minha bolsa, criando um alarme em meu celular para me lembrar de enviar meu calendário para ele.
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  - Envie junto do seu calendário, os dados de sua conta bancária para que possa realizar as transferências de seu salário. Você possui o cartão do transporte? Ótimo, irei depositar o valor todo final do mês. Me envie seu itinerário com valores para eu calcular a soma total. Você pode começar na segunda-feira. Vi que sua aula acaba às 11. Venha às 13:30.
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  Concordei com a cabeça, finalmente me levantando. Vi que se levantou comigo e desligou a TV com o controle que havia depositado em sua mesa há pouco. Pegou as chaves do carro que estavam ao lado do controle e desligou o computador onde estava trabalhando.
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  - Já almoçou? – olhou para seu relógio de pulso.
  - Não, mas não estou com fome. – olhei para o horário, que marcavam 13:15. – Vou voltar para o campus e estudar. Há alguns trabalhos também que devo finalizar.
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  Descemos juntos as escadas até o primeiro andar e ao sair na rua, percebi que seu carro estava estacionado um pouco à frente da entrada. Percebi então que deveria me despedir dele de modo decente, diferente das outras vezes que achei que não o veria nunca mais. Vi que não sei como reagir. Esperei que ele dissesse algo, mas não aconteceu nada, então somente levantei a mão:
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  - Então tchau. – e o vi mexer a cabeça retribuindo meu cumprimento. Dei as costas, andando no lado oposto em direção ao ponto de ônibus. Entretanto, não me senti bem em ir embora assim. – ? – o chamei, vendo-o parar e olhar para trás durante o trajeto até seu carro. – Obrigada. – e sem mesmo esperar uma resposta, voltei a andar com a consciência mais limpa.
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  Durante a tarde, encontrei com Gabriel que por estar horas à frente por causa do fuso horário, estava online. Não tive coragem de dizer que estava trabalhando em um estúdio de dança, por isso, disse que arranjei um trabalho numa cozinha de uma lanchonete e que passaria menos tempo disponível para conversar com ele. De alguma maneira, ele não pareceu triste, apenas surpreso por eu ter conseguido um trabalho tão rápido.
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  - Teremos que controlar melhor nossas agendas e horários. – ele disse, mastigando seu jantar, já que sempre comia durante o tempo que conversávamos, já que era o único momento que ele tinha para falar comigo. – Acho que passaremos alguns dias sem nos falar.
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  - Também acho. – concordei. – Mas é por uma boa causa, não é? Estou mais aliviada em saber que até lá conseguirei juntar dinheiro para mais alguns meses. Não é possível que meus pais não possam pagar mais nada até o final do meu curso. – também não tive coragem de dizer que estava ganhando cinco mil mensalmente, então apenas disse que a cada dois meses conseguiria um valor pouco mais acima de uma mensalidade da faculdade.
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  - Eles devem se esforçar o triplo que você está se esforçando. – disse, rancoroso. – Você já os avisou?
  - Ainda não. Estou evitando falar com eles, porque estou nervosa demais. Meu pai me ligou mais cedo, mas ignorei seu telefonema, mas irei atendê-lo antes da minha mãe.
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  Vi sua cabeça concordar comigo. Desde quando estávamos no colégio ele manteve o mesmo corte de cabelo porque eu dizia gostar. Quando entrou na faculdade e rasparam-lhe o cabelo, brigamos porque eu disse para ele não ir no trote; mas sabia que estava sendo puramente egoísta. Suspirei e o vi olhar para mim assim que ouviu meu cansaço:
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  - O que foi?
  - Queria que você estivesse aqui. – resmunguei, apoiando a cabeça na mão. Vi um sorriso se formar nos seus lábios. – De alguma maneira, você sempre soube dizer as coisas certas no momento certo.
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  - Você quem acha que tudo o que digo está sempre certo. – ele se explicou e soltei uma pequena risada, murmurando um “é verdade”. De fato, é uma verdade. Gabriel tem um tom tão sereno de me consolar que mesmo que ele esteja errado e eu certa, sou capaz de admitir meu erro somente porque seu tom de voz me fez sentir que ele estava certo e eu não. – Já estudou?
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  - Estou estudando agora. – levantei meu livro para ele. – Pesquisei quais matérias devo melhorar para conseguir subir de colocação. Meus colegas da sala S ficarão bravos, mas preciso de mais desconto para garantir minha estadia.
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  - Faça isso. – Gabriel disse. – Roube o primeiro lugar do prodígio. – riu comigo. – Fui chamado para ir a uma festa hoje. Da poli.
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  - Festa da Poli? – levantei as sobrancelhas, lembrando bem como são as festas organizadas pela turma da faculdade dele. O problema não é ele ir, mas sim o ambiente. Mesmo que Gabriel seja fiel, não posso evitar sentir insegurança ao vê-lo a milhares de quilômetros de distância, livre para qualquer garota agarrá-lo. Em sua expressão, ele não parecia estar me pedindo uma permissão, mas sim me informando. – Achei que não gostasse dessas festas.
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  - Eles vão dar prêmios bons nesse, como aparelhos eletrônicos. – levantou os ombros.
  - Bem, então você deve ir. – disse contra minha vontade. Não gosto de demonstrar ciúmes para Gabriel, mesmo de vez em quando não tendo sucesso no disfarce.
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  - Irei desligar então. – ele olhou para o lado. – Gabriel me disse que iremos sair em alguns minutos e ainda não tomei um banho.
  - Tudo bem. – disse, abrindo um pequeno sorriso. – Então divirta-se. Se puder, me envie uma mensagem no Whatsapp dizendo que chegou em casa.
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  - Não demorarei tanto lá, você ainda estará acordada.
  - Mesmo assim. – insisti. Conhecendo Gabriel e Caio, seus colegas de quarto na república, eles não deixariam Gabriel voltar para casa sozinho e sóbrio.
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  - Ok. Eu te amo.
  - Eu também te amo. – disse, vendo-o acenar para mim e então sair do Skype. Suspirei, batendo minha cabeça na mesa. Por que eu posso ir a festas e ele não? Não é como se eu gostasse de ir às festas e sexta o caso foi diferente; eu não queria estar lá. Era pura questão do dinheiro. Mas Gabriel não tinha tanto tempo para se divertir e até hoje me sinto mal por abandoná-lo no Brasil apenas para fugir de meus pais; ele merece um momento de diversão com seus amigos, mesmo que o compromisso envolva álcool e amigos má influência.
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  Ouvi a porta do quarto se abrir e Kendra entrar enxugando os cabelos. Acordou há algumas horas, mas decidiu tomar um novo banho, já que a aspirina ainda não surtiu efeito e ela se sentia nauseada com o odor do cigarro impregnado em seus cabelos.
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  - Você já comeu? – olhou para nosso relógio de parede, que marcavam sete horas da noite. Neguei com a cabeça. – Então vamos comprar algo. – abriu o armário que dividíamos devido ao quarto ser pequeno demais para comportar mais de um; de dentro, retirou uma jaqueta de couro.
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  - Estou bem. – falei, voltando minha atenção para a matéria de quarta-feira. – Preciso estudar.
  - E de uma vida social, anda. – senti respingos gelados dos cabelos que ela propositalmente jogou em mim, manchando um pouco minhas anotações em meu caderno. Olho feio para ela, que deu uma risada, achando divertido me importunar. – Não demoraremos mais de duas horas.
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  - Não acredito em você. – digo, sincera, voltando a olhar meu caderno e rapidamente lembrando em qual parágrafo havia pausado minha leitura para dispensar o pedido de Kendra.
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  - Você tem toda razão em não acreditar. – ela disse, se sentando ao meu lado, em sua parte da escrivaninha, onde as coisas eram jogadas sem qualquer noção de organização. Maquiagem e anotações se misturavam, os post its estavam colados nas paredes ao lado e atrás da escrivaninha, não seguindo nenhuma regra de cor. Além disso, pacotes de doces e salgadinhos abertos e fechados jaziam em cima e entre os livros e o único caderno que ela levava para as aulas desde o nosso primeiro ano. – Sabe o que eu acho? – estando dentro do meu campo de visão, pude perceber que virou seu corpo em minha direção, fazendo com que automaticamente desse atenção à ela. – Nós somos colegas de quarto e agora que eu ajudei você a arranjar um emprego e você parece mais humana, poderíamos criar um tipo de laço.
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  Não entendi se o que ela disse é para soar ofensivo, mas decidi considerar somente a intenção dela se tornar minha amiga. Nunca tive amigas como ela, digo, irresponsáveis, despreocupadas e sem responsabilidades. Mesmo estando em salas diferentes – eu estou na sala S, onde apenas se encontram os 10 melhores alunos do nosso ano e Kendra está na sala E, considerada mediana, já que está no meio da colocação das salas A-J -, nossas matérias são quase que as mesmas, mas a sala S e A ganham mais créditos por termos melhores notas. Minhas anotações para Kendra nos dias que saio do quarto e ela ainda está na cama servem muito mais do que os ensinos que ela mesmo retiraria de suas aulas, sozinha. Me mantenho calada, pensando no que ela havia dito. Ter uma aliada no meio de todas aquelas pessoas que claramente me odeiam não é uma má ideia, principalmente considerando o fato de que minhas visitas e meus encontros com eles serão frequentes e não possuem prazo de validade menor que dois anos e meio.
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  - Você quer ser minha amiga?
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  - Quero que nós sejamos amigas. – especificou. Entendi que não queria jogar na cara que ela gostaria de ser minha amiga, mas sim que o sentimento e a vontade deveria ser mútua. Suspirei, girando a caneta marca texto entre meus dedos, mania que tenho quando quero pensar.
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  - Tudo bem. Podemos tentar. – aquilo, de alguma maneira, pareceu satisfazê-la. Se levantou depois de contornar seus olhos com lápis preto e rímel e retirou um casaco qualquer meu que combinasse com a roupa que usava. Desde que cheguei da rua no início da tarde não troquei de roupa. Aceitei o casaco e fechei meu caderno de anotações da matéria de quarta no centro do meu lado da escrivaninha. Peguei minha bolsa e troquei os chinelos Havaiana por um tênis snicker.
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  Acompanhando Kendra pelo corredor, percebi que ela conhecia muito mais pessoas do que imaginava. Sempre ouvi dizer que os alunos das salas C para baixo eram mais amigáveis entre si do que com os alunos das salas A e B, e, principalmente, da sala S. Olhavam para nós duas como se eu estivesse no lugar errado. Por sorte, nunca dei atenção às opiniões alheias, por isso, me mantive atrás de Kendra com as mãos no bolso de meu casaco. Com o final do verão batendo à porta, a primavera transforma as noites abafadas em mais refrescantes, nos deixando mais confortáveis ao colocarmos um casaco para nos proteger dos ventos que passam por nós.
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  Ao sairmos do campus, viramos à esquerda e caminhamos alguns quarteirões até chegarmos a uma praça onde vários carros estavam estacionados com dezenas de pessoas ao redor.
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  Como se fosse um ponto de encontro.
  - Kendra. Não há lojas de conveniência para esse lado. – falei, vendo-a olhar para mim com um sorriso enquanto caminhava. Assim que vi seu olhar cruzar com o meu, pude entender que sua intenção nunca foi conversar comigo em uma forma de criar um laço de amizade; talvez a intenção da amizade seja verdade, mas não seria essa noite que trocaríamos intimidades e segredos como as amigas de verdade fazem.
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  De acordo com que nos aproximávamos dos carros, pude perceber que alguns deles possuíam imensas caixas de som em seus porta-malas, tocando uma música alta de modo a atrapalhar os residentes locais. Por ali ainda haviam algumas repúblicas para os estudantes que não podiam pagar o valor dos dormitórios ou que não encontravam vagas a tempo. Mesmo assim, o número de pessoas era tão densa que não havia ninguém que ousasse se aproximar para manda-los diminuir o volume; além disso, hoje é sábado. Pouco mais à frente, vi o grupo de rodeado por pessoas do estúdio de dança. Olhei para as costas de Kendra, esperando que ela dissesse algo, mas tudo o que fez foi rapidamente se atracar com seu ‘peguete’ assim que chegou ao grupo. , para variar, estava rodeado de garotas e álcool. Sua roupa voltou a ser aquela que o conheci, uma regata preta com uma jeans escura. Estava encostado em uma SUV imensa, diferente do carro que usou para me dar carona ontem. Seus olhos se encontraram com os meus no momento que eu parei de andar, me mantendo um pouco afastada do grupo.
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  Senti o peso de um braço pousar em meus ombros. Olhei para o lado e um homem negro com um sorriso enorme que mostrava perfeitamente seus dentes brancos e retos ria.
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  - Então você é a nossa nova mascote?
  - Não sou um animal, não biologicamente falando, já que…
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  - Wow! Wow! Calma aí, nerd! – se afastou de mim entre risos. – Bem que disseram que você não consegue ter uma conversa normal com um aluno da S. – seu comentário trouxe muitas risadas das pessoas ao nosso redor. Me pergunto se devo me sentir ofendida ou não. – Meu nome é Ace. Nome mesmo, não apelido. – explicou. – Você acha que consegue responder perguntas ou conversar sem citar nomes difíceis ou palavras científicas? Pode não parecer, mas não gosto de me sentir burro em frente às pessoas.
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  - Posso tentar. – falei, vendo-o levantar uma sobrancelha, como se dissesse que esperava mais de mim. – Hum… Tudo bem? – disse, incerta se minha resposta o satisfaria. Pelos dentes brancos aparecendo em seu sorriso, parece que acertei. – Eu sou…
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  - , to ligado. – Ace disse. – A guria que estressou . – se abaixou bastante por ser muito alto e espichado. – Qual o segredo? – olhei para ele e vi seus olhos castanhos serem muito mais escuros que os que normalmente vejo. Ace tem uma pele bastante lisa, como a maioria dos negros que conheci. Sua expressão é inocente, como uma pessoa que não tivesse pudores e sim valores. Imagino que tenha achado que não entendi sua pergunta, já que veio explicar: – não costuma se estressar com facilidade, principalmente com brancas bonitas como você.
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  - Acredito que…
  - Acho que. – ele me corrigiu com um olhar de alerta, como se fosse meu professor e estivesse me ensinando a falar da maneira correta, neste caso, desensinando minha educação.
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  - Acho que… – me corrigi, vendo seu olhar de aprovação. – Não devo dizer.
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  - Isso é egoísmo! – apontou para mim em meio a uma risada alta. – Todo mundo está curioso para saber o que você fez para deixa-lo tão estressado. As garotas querem descobrir o segredo do sucesso. – enviou uma piscadela. Não sabia o que responder, mas ele não pareceu se aborrecer por isso. Levantou os ombros e voltou a apoiar seu braço comprido em meus ombros, me levando para mais perto do grupo de . – Vou lhe apresentar nosso grupo. Ele é, na maioria, composto por professores do estúdio. Eu dou aulas na parte da tarde. Você sabia que estudo aqui também? – apontou para trás, onde o campus de Harvard se localizava. Levantei minhas sobrancelhas, surpresa. – Você poderia fingir saber; alunos do S geralmente não tem sensibilidade com os sentimentos mesmo. – balançou a cabeça fingindo um pesar e logo que murmurei um ‘desculpe’, o sorriso voltou a seus lábios. – Estou na mesma sala de Kendra, na E. Na verdade, eu quem a apresentei ao grupo. – informou com um tom de orgulho em sua voz. – Aquele ali que você acha ser o namorado de Kendra é Hans. Ele veio da Alemanha e dança melhor do que aparenta. Dá aulas só aos finais de semana. – apontou para o homem que não desgrudou os lábios da extensão do corpo de Kendra desde quando chegamos. – Aquele outro ali, o Bob, é da J. – se referiu à sala. Bob não me parecia ser um aluno aplicado. Com seus cabelos compridos, usava o mesmo tipo de roupa de , só que o número de tatuagens nos braços fazia parecer que estava com uma blusa. Imagino qual a opinião dos nossos professores e juízes ao vê-lo parte da pele do braço durante nossas aulas práticas. – O pai dele é advogado e exigiu um diploma de Harvard, então para receber uma grana boa todo mês da família, ele se mantém na universidade. Desde que esteja dentro, está tudo bem. – seu dedo pulou ao lado de Bob e todas as garotas que os rodeavam. – Tan e Cori são os professores da parte da manhã. – apontou para um casal de asiáticos que estavam sentados no capô de um dos carros. Mesmo estando em um momento íntimo, acenaram para mim quando Ace nos apresentou. – Ali é Pietro, o italiano sabe como rebolar. Cuidado com a baba quando vê-lo se movimentar. – Ace brincou, apontando para um homem com o nariz comprido e o rosto quadriculado. A barba estava por fazer e havia uma franja caída no rosto, fazendo-o parecer um italiano legítimo. Seu corpo era enorme, de modo que poderia ser facilmente confundido com um gangster. Seu olho direito piscou, acompanhado de um sorriso malicioso. Preferi não me pronunciar. – Ele trabalha aos finais de semana com Hans. Finalmente, a Violet. De início ela pode parecer bastante brava, mas sabe como conduzir um grupo grande. – apontou para uma garota que se aproximava de nós. Usava uma calça preta larga e uma regata bege, como se aquele estilo fosse um uniforme dos dançarinos. Contudo, o salto alto dava um tom mais feminino à roupa, além das pulseiras e colar de prata que brilhava com a luz do luar. Seus cabelos estavam ondulados e eram loiros, quase brancos. Estavam ondulados e mesmo os fios estarem descoloridos, não pareciam nem um pouco ressecados ou prejudicados pela falta de pigmentação. Por um segundo, invejei as curvas densas de seu corpo. Quando sorriu ao se unir ao grupo, mostrou um objeto de conquista muito eficaz: era um sorriso bonito e misterioso.
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  - Podemos ir, Alec disse que está tudo pronto. – a ouvi dizer para o grupo, que aguardou uma decisão de .
  - Guardem tudo, vamos partir. – ele disse, desencostando do carro. As garotas ao seu redor rapidamente entraram no carro que provavelmente pertencia a ele. Olhei para Kendra, que entrou no carro sem teto de Hans e o viu, junto com os outros professores, se espalhar para anunciar a partida de todos para algum lugar. Suspirei e me virei, pronta para fazer o caminho de volta ao campus.
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  - Hey, aonde você vai? – Ace me segurou pelo ombro.
  - Voltar para o campus. Achei que ia jantar, por isso vim com Kendra. Preciso terminar de estudar.
  - Estudar? Você está brincando? – ele pareceu achar que estava fazendo uma piada. – Não, semana que vem não haverá aula, por isso, você pode esquecendo essa história de estudar.
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  Sem aula? Não fiquei sabendo de tal informação. Meu olhar pareceu expressar bem minha desconfiança e confusão com o que ele havia dito. Ace riu e balançou a cabeça, como se fosse um erro eu não estar a par.
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  - Você é uma aluna S e não recebeu o aviso?
  - Talvez os alunos da S tenham aula. – falei, de certo modo, insegura.
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  - Essa é a semana da feira social, lembra?
  Oh. É mesmo.
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  A semana da feira social se resume em várias barracas com estudantes de todo o mundo vindo nos visitar para saber mais e se certificarem de que querem mesmo estudar em Harvard. Além disso, é uma das únicas épocas do ano que a administração permite a entrada de visitantes. A semana é chamada de “saco cheio” pelos alunos, já que vem depois da onda de testes iniciais que temos de iniciação das aulas. Mesmo depois de um mês iniciado as aulas, alguns alunos já se encontram entediados ou cansados dos estudos. Agora me lembro de todos estarem animados com viagens de volta para seus lares; eu ficaria estudando em meu quarto, se meus pais não tivessem estragado todos os meus planos acabando com o dinheiro reservado para meus estudos.
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  - Você vem conosco. – Ace disse, apontando para seu carro parado ao lado do carro de . Era uma SUV enorme também, a diferença é que a cor chamava bastante atenção e havia barras de luz neon que mudava de cor a cada 3 segundos em baixo do carro.
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  - Não posso. Preciso aproveitar o tempo livre para começar a…
  - O que nós combinamos sobre você se enturmar? – ele colocou as mãos na cintura e somente com meus olhos, olhei ao redor, tentando me lembrar.
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  - Nós não…
  - Eu lhe apresentei o grupo, então quer dizer que estava inserindo você nele. Agora, você precisa passar pela prova de iniciação. – girou seu corpo no mesmo lugar; talvez seja um passo de sua dança. Levantei uma sobrancelha. – Iremos para uma festa na praia. É a alguns quilômetros daqui, mas será divertido à beça. Estamos reunindo os alunos que quiserem ir conosco; onde está sua mala?
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  - Mala? Não, eu não vou. – dei um passo para trás e o vi rir.
  - É claro que vai! Deixar de estudar por alguns dias não fará você sair da sala S, . – aquilo não me convenceu. Eu preciso, sim, estudar. Quero subir de colocação para pelo menos o terceiro lugar se quisesse ganhar uma bolsa que não pagasse somente minha moradia, mas também me desse desconto na mensalidade. Ir a festas não está dentro dos planos no momento. – Tudo bem. havia me avisado que você é barra pesada. – barra pesada? falou de mim para Ace? O que mais ele falou? Procurei por ele com os olhos, mas não o encontrei, claro. Seria impossível, vendo tantas pessoas se dirigirem para as dezenas de carros espalhados pelo local. – Escuta, isso faz parte do contrato; pode não estar explícito, mas é um senso comum que você deve interagir com as pessoas que irá trabalhar. Além disso, sua imagem no grupo não é tão legal. Se quiser que elas colaborem com você, precisa deixa-las conhece-la.
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  Olhei para Ace, que agora não parecia estar se divertindo. Enxerguei sua boa vontade em me ajudar, mas não devo me dar o luxo de me divertir quando minha vida está sendo puxada para um abismo. Contudo, ele tem razão em tudo o que diz: as pessoas ali não gostam de mim e se eu não me esforçar em fazê-las me aceitarem, talvez seja mais difícil durante o tempo que estiver trabalhando com todos. Olho para o lado, pensativa. Decido então, analisar o caso melhor, pensando em minha prioridade. Ganhar dinheiro para pagar os estudos. Conseguindo minha terceira colocação ou não, manter-me em Harvard dependia, principalmente, do dinheiro que eu conseguiria neste emprego. Além disso, eu nunca conseguirei encontrar algo que me ofereça cinco mil, mais benefícios. Talvez não chegue nem a encontrar algo que me ofereça metade desse valor. Deixo meus ombros caírem, me desanimando com a ideia de ter de me socializar com pessoas que não gostam de mim.
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  - Tudo bem. – respondo, sentindo o braço de Ace novamente em meus ombros e começando a dizer o quão divertido será e como geralmente são essas festas nas praias que eles organizam.
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  - Você pode ir na frente, vou chamar alguns novatos para irem no meu carro, já que nós precisamos lotá-los para mostrar a Alec que haverão bastante iniciantes preenchendo o prédio em Dezembro.
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  - Alec? – perguntei tarde demais, pois Ace rapidamente se virou e correu em direção às pessoas que ainda estavam fora dos carros. Suspirei e olhei para Kendra, que conversava com um grupo de garotas dentro do carro de Hans. Ele já estava sentado no banco motorista e arrumava os retrovisores, pronto para partir. Olho ao redor e grande parte das pessoas já estavam dentro dos carros, que se encontravam ligados e com as janelas abertas para que todos pudessem manter a conversa, mesmo tendo fosse entre berros. Vi o carro de Ace ser o único vazio e fui em direção a ele. Conforme havia me dito, dei a volta ao carro para entrar no banco passageiro, ao lado do motorista. Para isso, fiquei ao lado da porta do motorista do carro de . Ele estava com o vidro aberto e conversava com todas as garotas que estavam dentro de seu carro. Havia muito mais garotas do que o número permitido de passageiros, mas ninguém pareceu se importar; os outros carros também estavam superlotados e o número de reclamações era nulo.
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  Tentei evitar olhar para , mas não obtive sucesso, já que sua cabeça virou para mim assim que me coloquei entre a porta dele e a do carro de Ace.
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  - Estudou bastante, ? – sua voz parecia desgostosa em dizer meu nome. Aposto que preferia me chamar de “mesquinha”, mas de acordo com nosso contrato, ele já não poderia mais ter esse luxo.
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  - Você compra Kendra para ela me convencer a me trazer nos lugares? – perguntei, vendo-o soltar uma risada, mostrando seus dentes brancos. Com o escuro, não pude enxergar seus olhos , mas o braço nu parecia bem mais forte apoiado na janela do carro.
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  - Kendra é uma boa aluna. – ele concorda, sorrindo. – Mas você não deve culpá-la; tenho certeza de que veio por vontade própria.
  - Fui enganada. – expliquei, não vendo onde estava a graça para ouvir sua risada. – Se você quiser que confie mais nas pessoas, deve parar de pedir para elas mentirem para mim.
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  - Você é uma aluna de Harvard, deve ter uma noção mínima de sinceridade das pessoas.
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  - Tem razão. – falo, vendo-o levantar uma sobrancelha. – Minha noção mínima não confia em você, um enganador idiota. – minha voz não estava de brincadeira e fiz questão de demonstrar, vendo-o diminuir o sorriso. Ace chegou com mais alguns garotos e garotas, que não pareceram se importar em terem de se espremer no banco de trás, contanto que tivessem carona de graça para a festa. Vi retirar o cinto para sair do carro, mas Ace não percebeu nossa “conversa” como as garotas do carro que se calaram para prestar atenção ao verem a ação de e falou para eu entrar no carro. Coloquei um pequeno sorriso de vitória no rosto e entrei no banco passageiro do carro de Ace, ainda sentindo o olhar de em mim. – Posso fechar a janela? – pergunto para Ace, que diz não se importar. Satisfeita, quebro o contato com , aliviada por não estar mais em seu campo de visão.
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  - Então, deixe-me apresentar vocês. – Ace disse depois de colocado o cinto. Virou seu corpo em nossa direção e apontou para mim. – Esta é , ela está responsável por cuidar de toda a burocracia do prédio. Está na sala S, então não mexam com ela. – olhei para ele, surpresa com a intimidade que ele já havia adquirido. – Estes são Emily, Elton, Garrett, Kurt e Blanda. Eles ainda não fizeram a matrícula no estúdio, então temos quarenta minutos até a primeira parada para convencê-los, . Dê o seu melhor.
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  - Acredito que minhas palavras não serão muito incentivadoras. – olhei para Ace, que deu risada.
  - Tem razão. Mantenha-se calada. – abri um pequeno sorriso ao vê-lo ser tão simpático comigo. Ouvi a primeira buzina vinda do carro de e então todos os outros carros se uniram, formando uma sinfonia que ouvindo de dentro do carro, não parecia tão irritante quanto se estivesse no dormitório tentando estudar. Ace, junto com a buzina ritmada que tentava fazer, berrava e balançava a mão para fora da janela. Seguiu o carro de assim que ele se moveu, nos levando para longe da praça e passando por Harvard, onde vários estudantes observavam a algazarra. Pelo retrovisor do carro, pude ver alguns correndo e pulando para dentro das caminhonetes que possuíam a caixa traseira aberta.
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  - Ace, quem é Alec? – me lembrei de minha dúvida antes de ser deixada por ele há pouco.
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  - Alec? É o sócio de . – ele disse enquanto dirigia. Os novatos, talvez por estarem animados demais com toda a animação e agitação vinda dos outros carros não prestaram atenção na conversa que iniciei com Ace. – Ele passa grande parte do tempo fora do país com seus negócios.
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  - Que negócios? – pergunto.
  - Você não vai querer saber, aluna S. – ouvi sua risada e, pelo tom de voz, preferi não insistir. – Alec e são melhores amigos desde pequenos, junto com Violet, sabe? – aponta para trás para um dos carros que nos seguia na fila indiana. – Os três eram da mesma escola; e Violet entraram para a dança e Alec iniciou seu negócio. Mas ele parece querer algo novo, por isso, falou para que estaria disposto a investir no estúdio de dança, já que estava reconhecido o suficiente na cidade e redondezas para exigir um espaço maior para as aulas. Comprou o prédio, mas tivemos umas complicações há um ano e não pudemos reforma-lo de imediato.
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  - Vocês estão há um ano lá? – me surpreendi, pois o prédio parecia ter acabado de ser aberto e não ouvi movimentações nos outros andares.
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  - É. – ele concordou, com sua careca brilhando pela luz da lua. – não quis dar um passo maior do que podia. Alec é muito seletivo com seus investimentos e mesmo sendo melhores amigos de infância, não deu muita grana para a reforma. Assim, ele só conseguiu reformar o quarto andar e criar uma planta com uma agência de arquitetura. Estivemos nos unindo no último ano para juntar uma grana para a reforma. Agora que conseguimos, ele estava em falta com a mão de obra, e é aí que você entrou.
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  - Ele disse que não precisaria colocar a mão na massa. – falei, me lembrando da conversa que tivemos mais cedo.
  - Sim, mas você quem irá organizar parte desses afazeres. Mesmo que seja responsável e tudo mais, ele ainda é péssimo com organização. Quando Kendra mostrou seu armário e sua mesa de estudos, todos concordamos que você seria perfeita para ajuda-lo.
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  - Kendra mostrou o quê? – meus olhos se arregalaram ao ouvir que minha vida estava sendo exposta para eles antes mesmo de os conhecerem. Ace riu, como se fosse normal acontecer esse tipo de coisa. – Ela está passando dos limites.
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  - Ela apenas estava tentando te ajudar. – Ace explicou. Olhei para ele, como se ele estivesse querendo brincar comigo. – É verdade! – riu. – Como você sabe, ninguém foi muito com a sua cara, como você acha que seria contratada com 100% das pessoas não querendo sua presença aqui? Kendra disse que você precisava da grana, então arranjou provas de que você daria conta do recado quando pediu. Admito ter gostado de você a partir do momento que vi sua gaveta de calcinhas organizadas por cor e suas tonalidades. Sempre quis fazer isso com meus sambas-canções.
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  Senti minhas bochechas corarem. Até a gaveta de roupas íntimas. Foi o que consegui pensar. Kendra estava encrencada. Mesmo me ajudando, ela estava encrencada. Não irei mais criar caderno de estudos para ela no final do semestre. Irei criar um lembrete para mim.
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  Olhei para fora do carro e vi que já estávamos na estrada. A algazarra parecia estar mais baixa, mesmo com os carros brincando entre si, ultrapassando e fechando os outros. Alguns, como Ace, fechavam o retrovisor dos carros e acelerava para fugir de uma vingança. Assim foi até os carros entrarem no estacionamento de uma rede de supermercados.
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  - Muito bem, cada carro está responsável por comprar uma determinada quantia de bebidas. Nós demos sorte, ficamos com os energéticos. Cada um deve dar 150 dólares.
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  - Só nosso carro irá gastar 1050 dólares de energético? – arregalei meus olhos, vendo os cinco no banco de trás abrirem suas carteiras sem questionar Ace, que riu.
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  - Gata, veja quantos carros estão nos acompanhando. E somos somente uma parcela da festa. Há milhares de pessoas comprando muito mais que mil dólares em energético e outras bebidas, mas estou com os novatos menores de idade, por isso, vocês consumirão menos do que os outros, porque não quero passar a noite em hospitais acompanhando criança com coma alcoólico. – olhou para os cinco, recebendo suas notas que somavam a quantia solicitada. Os cinco murmuraram respostas, mas não ouvi nada. Eles provavelmente iriam ignorar as regras de Ace assim que saíssem do carro na praia. – Vamos , me dê sua parte. – estendeu a mão em minha direção.
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  Ter meu apelido pronunciado pela primeira vez desde quando cheguei nos Estados Unidos há dois anos e meio me fez sentir obrigada a colaborar. De alguma maneira, me senti um pouco melhor em ter alguém que estivesse confortável ao meu lado a ponto de me chamar pelo meu apelido. De dentro da minha bolsa, retirei minha carteira e dei três notas de cinquenta para Ace. Minhas únicas três notas de cinquenta.
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  - Tudo bem, vamos sair. É bom estarem de olho em mim, novatos. Não vou esperar ninguém depois que der partida no carro. – Ace disse, desligando o motor e saindo do carro. O acompanhei, pois preciso encontrar um caixa eletrônico para tirar mais dinheiro. Mal comecei a trabalhar e minhas dívidas estão começando a surgir. Mesmo minha conta nos Estados Unidos possuir uma boa quantia de dinheiro que economizo todos os meses quando meus pais depositam para mim, pretendia usá-lo para pagar as primeiras parcelas da mensalidade no ano que vem, quando meu pai não poderá mais pagar. Contudo, parece que terei mesmo que depender do dinheiro do trabalho, já que fazer parte dele significa gastar tanto dinheiro quanto receber.
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  Vi as cabines do caixa eletrônico no final do corredor quando entramos no supermercado. Com outras pessoas, fui até o local depois de avisar Ace, que concordou em encontrar comigo no corredor das bebidas. Parece que muitas pessoas não vieram com dinheiro em mãos, pois assim que me coloquei atrás de um garoto com o moletom cinza de Harvard, uma fila extensa se formou atrás de mim.
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  - Sou Jonathan. – o garoto do moletom disse para mim. Abri um pequeno sorriso. – Vi você saindo do carro de Ace, está com ele?
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  - Ele está responsável por mim, na verdade. – expliquei.
  - Que bom.
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  Não entendi seu comentário, mas não procurei questioná-lo, principalmente porque sua vez de se dirigir ao caixa chegou. Fiquei olhando ao redor dezenas de pessoas caminharem em grupos pegando alimentos e bebidas para a festa. Não sei se deveria colaborar somente com o valor pedido por Ace, por isso, quando a garota ao lado de Jonathan saiu e minha vez de sacar dinheiro chegou, retirei pela primeira vez, quinhentos dólares da minha conta.
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  - Você faz que curso? – Jonathan perguntou depois que saí do caixa. Ele parecia estar esperando alguém, que descobri ser eu assim que se pôs ao meu lado, não se importando de fazer o mesmo caminho que eu.
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  - Direito.
  - Uau. Sou de administração, mas penso em mudar para Economia. Mais fácil. – se ele tinha a intenção de flertar comigo, dizer que queria mudar de curso por sua facilidade não era a maneira correta. Resolvi não responder nada e me limitei a apenas sorrir. Olhei para os lados a procura de Ace; Jonathan continuou falando e não se importou de eu não procurar estender nossa conversa. Ele era bem mais alto que eu, talvez mais baixo que e Ace; sua magreza o fazia parecer um pouco desengonçado, mas o fato dele falar demais era o que mais me perturbava. Me senti aliviada ao vê-lo ser chamado por seu grupo de amigos. Rezo que durante todo o momento que a festa estiver acontecendo, eu não precise me deparar com ele. Não aguentaria tê-lo falando sobre si mesmo o tempo inteiro.
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  - Achei que estaria cheio o caixa. – Ace disse com um carrinho com cerca de seis a oito engradados de energético. – Você poderia pagar esses e levar para o carro? – empurrou o carrinho e colocou em minhas mãos toda a quantia de dinheiro que juntou das pessoas de nosso carro, mais sua chave. – Vou ajudar Violet com as vodcas. Ela deu azar de pegar um grupo de folgados. – apontou para algum lugar qualquer e sem nem esperar eu responder, saiu correndo.
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  Sem escolha, empurrei o carrinho até o caixa mais vazio, mesmo assim, demorei cerca de quinze minutos esperando até ser atendida. O valor deu pouco menos que juntado e resolvi acrescentar alguns tabletes de chicletes para dar para cada um. Ouvi dizer que todo mundo que vai à festas gosta de ter um chiclete ou bala na bolsa para que mantenha seu hálito refrescante. Com os engradados ensacados e colocados de volta no carrinho, saí do supermercado e fui em direção ao carro de Ace. O estacionamento estava cheio, mas não tanto, já que grande parte das pessoas do grupo entraram para colaborar com as compras. Achei interessante o modo como eles ajudavam, mesmo tendo uma educação diferente. Talvez exista uma regra de convivência. Seja o que for, está dando certo.
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  O carro de Ace estava, para variar, ao lado do de . As garotas que vieram no carro dele estavam do lado de fora do carro fumando e senti seus olhares me analisarem da cabeça aos pés. Eu não vestia minissaias, tops ou sandálias de salto como elas, tampouco usava maquiagem ou tinha arrumado meu cabelo. Perto delas eu não era nada atraente, por isso, não vi razão delas estarem me olhando tão feio. Abri o porta-malas da SUV de Ace e comecei a colocar as sacolas de engradados com dificuldade, já que são pesados demais para uma fracote como eu. Assim que terminei, enxuguei o suor que se formou em minha testa e empurrei o carrinho para longe do carro, junto a outros. Vi então a oportunidade de ficar em paz dentro do carro, aguardando todos saírem e voltarmos à estrada. Contudo, assim que minha mão tocou a maçaneta do carro para entrar em meu lugar, ouvi um som que não ouço há tempos. Olhei em direção ao carro de e arregalei os olhos ao ver o carro se mover, mesmo estando parado e desligado.
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  Uma sensação de nojo surgiu dentro de mim ao imaginar transando com uma das garotas dentro do carro, enquanto as outras apenas fingiam não se importar e aguardavam pacientemente sua vez na fila. Olhei para elas, que conversavam, falavam com a outra ou tiravam fotos pelo celular sem se importar de ter duas pessoas transando dentro do carro em que estavam apoiadas.
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  - Que grande idiota. – falei, com raiva por estar sendo obrigada a me inserir neste tipo de ambiente. Abri a porta do carro de Ace e entrei, trancando-a em seguida. Agradeci mentalmente pelos vidros possuírem insulfilme escuro, impossibilitando das pessoas do lado de fora de me verem, a não ser que estejam na frente do carro. Afim de evitar pensar no que estou ainda presenciando, liguei o carro para o ar correr e retirei meu celular de minha bolsa, vendo que Gabriel tinha razão quando disse que não demoraria muito para voltar. Me mandou uma mensagem pelo Whatsapp dizendo que havia chego em casa. Não percebi quanto tempo havia passado desde quando desligamos nossa ligação. Não tive tempo de me preocupar como uma boa namorada. Respondi sua mensagem perguntando se ele havia se divertido, mas é claro que ele não me respondeu de imediato. Deveria estar dormindo, já que no dia seguinte passaria a parte da tarde trabalhando na fábrica. Suspirei, fechando o aplicativo e pensando qual o verdadeiro status de nosso relacionamento. Somos namorados, claro. A única vez que meus pais não se opuseram a alguma decisão minha, foi quando Gabriel pediu permissão de me namorar. Desde então, fazemos algumas programações de namorados, como sair de mãos dadas, nos preocupar com o outro e pensar em nosso futuro juntos. Contudo, vendo minhas amigas de colégio falar sobre seus relacionamentos, senti que havia algo que estava faltando. Gabriel e eu nunca transamos.
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  Talvez fosse meu medo. Não sou uma pessoa boa com emoções e sempre ouvi falar que para transar, você precisar estar no “clima”. Acho que nunca estarei no clima exigido; estremeço ao pensar na possibilidade de ser virgem para sempre. Sei que sou uma pessoa muito conservada, mas nunca fiz força para me manter pura. Apenas nunca imaginei fazer “por acaso”. Gabriel nunca me forçou a nada e quando anunciei meu voo para ele, achei que fosse tomar alguma iniciativa, já que passaríamos os próximos cinco anos longes um do outro. Entretanto, não falamos sobre o assunto e na última noite que passamos juntos ele estava tão cansado por ter vindo de uma jornada de quase quatorze horas de trabalho que não tive coragem de exigir qualquer coisa.
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  Quando conversei com a Helena há alguns meses, ela falou sobre a possibilidade uma traição, seja por parte dele ou por parte minha. A verdade é que, como qualquer garota ou pessoa normal, também já pensei sobre o assunto. Sempre tive certeza de que Gabriel nunca me trairia. Com a experiência traumatizante que seus pais lhe fizeram passar, ele sempre foi bastante determinado a ser o oposto de seus progenitores. Mas eu… Eu não tive essa mesma educação. Meus pais, por serem pessoas que sempre fizeram parte da alta sociedade em São Paulo sempre souberam de vários casos de affair. Posso dizer que os dois não têm um relacionamento que se trata de confiança e lealdade. Por causa deles, nunca achei que fosse errado uma pessoa, quando em um relacionamento, se envolver com outra, desde que o casal esteja ciente. Meus pais possuem uma grande proximidade de idade entre eles; os dois sabem que querem pessoas mais jovens ou mais experientes ainda para satisfazer seus desejos. Assim, era comum desde quando eu fiz doze anos, vê-los saírem separadamente para viagens ou encontros noturnos. Mesmo com o múltiplo affair, nenhum dos dois nunca trouxeram estranhos para dentro de casa. Tenho esperança de que seja uma consideração por mim.
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  Olhei para o carro ao lado, afim de pensar mais sobre o assunto de traição, contudo, tomei um susto ao ver parado do lado de fora do carro.
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  - Abra a porta. – ordenou. Honestamente, seu tom de voz não estava agradável e o que eu havia acabado de presenciar não me fazia sentir mais vontade de colaborar com ele. – , abra a porta.
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  - Não. – respondi, vendo atrás de si, uma garota sair do carro arrumando a saia que usava colada ao corpo. – Volte a transar com suas garotas e me deixe em paz. – falei, séria. Vi seu olhar se voltar para a garota que saiu e então me encarar.
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  - Você está me observando?
  - Não, você apenas é descarado demais por transar em um local público.
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  - Meu carro não é público.
  - Qualquer carro neste evento é público.
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  Aquilo pareceu calá-lo, mas não o suficiente para fazê-lo ir embora.
  - Abra a porta. – mandou novamente.
  - Eu já disse que não. Vá embora. – meu tom de voz aumentou e o vi se afastar de perto do carro. Achei que ele havia ido embora. Cerca de vinte minutos depois, ouvi o vidro da janela do lado de Ace se estilhaçar, me fazendo dar um pulo com o susto. Vi do lado de fora com uma chave de fenda em mãos.
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  - VOCÊ ESTÁ MALUCO? COMO PODE QUEBRAR…
  - Eu mandei você abrir, você não quis, então dei meu jeito. – jogou a chave de fenda fora e colocou o braço para dentro do carro, destravando e abrindo a porta do lado do motorista.
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  - Ace irá…
  - Ace permitiu que eu quebrasse o vidro dele, desde que eu pague depois. – falou, como se já tivesse feito isso várias vezes. Olhei para os lados e as pessoas nos observavam curiosas.
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  - Vá embora. – falei, envergonhada por estar perto dele.
  - Por que iria? – ele olhou para mim, encostado no banco. Mexeu na rádio, mudando a faixa do CD que tocava.
  O observei com raiva. O que mais odeio é a falta de tato que uma pessoa tem em perceber que não é bem-quista por outra. Cada vez mais odeio por ser tão irritante. Faz as coisas como quer e está acostumado a ter todos obedecendo suas ordens. Afim de não querer discutir, destranquei minha porta e saí do carro, tentando me afastar o mais rápido possível. Poucos minutos depois, senti uma mão agarrar meu antebraço.
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  - O que tem de errado em você? – sua voz estava nervosa. Ele agora parecia duas vezes mais alto que eu. Soltei meu braço de sua mão com uma expressão de nojo.
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  - O meu problema é você, ! Quero me manter longe, mas você fica me perseguindo! – grito, nervosa, vendo-o parar para me ouvir. Ao perceber que ele não gritaria de volta e que as pessoas estavam nos olhando, baixei meu tom de voz, envergonhada por chamar tanta atenção. – Você me contratou para trabalhar; concordei em vir porque Ace disse que eu devia me esforçar com as pessoas para facilitar meu trabalho futuramente. Mas isso não quer dizer que quero falar com você. Eu não gosto de você, você não gosta de mim. Tudo o que você faz é para me provocar e eu odeio pessoas assim! Odeio que acham que podem brincar comigo e odeio quando fazem pouco caso de algo que para mim é importante! Você é o chefe, e por isso não digo muitas coisas que gostaria de dizer, mas gostaria que tivesse pelo menos um pouco de respeito por uma funcionária sua, porque mesmo precisando muito do dinheiro, não sou forte o suficiente para aturar suas brincadeiras para sempre!
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  Ficamos calados por um tempo, até ouvi-lo dizer:
  - Acabou?
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  Aquilo foi a gota d’água. Ele não ouviu nada do que eu disse. Com uma única palavra, destratou toda a raiva que havia colocado para fora e ignorou minhas emoções, como se cuspisse em cima da minha indignação. Apertei meus lábios, nervosa demais para manter nossa conversa. Não preciso passar por isso. Não preciso ser perseguida pelo meu chefe, porque ele acha que pode me tratar como quiser. Balancei a cabeça, desistindo de tudo e passei por ele, que voltou a segurar em meu braço, mas me soltei antes que pudesse firmar sua força.
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  - Me deixa em paz. – foi tudo o que eu disse antes de me afastar.
  Comecei a procurar por um taxi. Pagaria todos os meus quinhentos dólares para que ele pudesse me levar de volta para a cidade. Não estávamos longe. As pessoas começaram a sair do supermercado e se dirigir para os carros. Ace veio até mim quando todos estavam instalados e prontos para partir:
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  - Hey, estamos indo! – seu sorriso se desfez ao olhar para mim. – Ah, ele não foi muito gentil. – observou. Suspirou e se sentou ao meu lado. – Ele é assim…
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  - Não, ele não é assim. Ele não é assim com você, com Kendra ou com todo mundo que está aqui. – olhei para Ace, que não soube me responder, porque sabe que tenho razão. – Ele só é assim comigo e não sei por quê. Desde o primeiro dia ele me trata como se eu estivesse invadindo seu mundo e quando vou embora, dá um jeito de me trazer de volta. Eu não sou um brinquedo e tenho problemas maiores para me preocupar do que ter de lidar com as atitudes mimadas dele.
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  Ace passou sua mão gigante em minhas costas, procurando me consolar. Quando assisti em filmes as pessoas fazerem isso nas outras, não imaginava que fosse tão eficiente. Rapidamente senti meus ombros relaxarem, de modo que uma pequena dor incômoda se instalou no lugar da tensão.
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  - não é dessa maneira que você acha que ele é. – começou a falar. – Tem razão quando diz que ele a trata diferente de todos. Também não sei por que ele é assim com você; na verdade, nunca o vi tratar alguém assim antes, mas para ser sincero, é até bom vê-lo querer manter alguém perto dele. Pode não parecer, mas ele nunca foi muito bom em manter as pessoas ao redor dele. Elas facilmente se aproximam por causa da posição dele no grupo, mas a única pessoa que realmente está do seu lado é Violet.
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  Ace me parece mais um amigo do que Kendra, com suas mentiras e ações clandestinas sobre minha vida pessoal. Abri um pequeno sorriso, não conformada com a situação, mas sim agradecida por vê-lo tentar me fazer sentir melhor. Se levantou, anunciando que deveríamos ir, pois estávamos atrasando o grupo.
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  - Na verdade, não vou. – falei. – Não quero mais ir, perdi o pouco incentivo que tinha. As pessoas podem continuar me odiando até a próxima oportunidade que me surgir. Só quero voltar para meu quarto e estudar.
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  Ace não pareceu ficar bravo ou demonstrar estar aborrecido por perder tempo comigo e meus problemas.
  - Não é seguro ficar aqui. – olhou para os lados.
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  - Vou ligar para algum táxi me buscar. – falei.
  - Eles não vêm até aqui, . – Ace explicou. Suspiro, me vendo mais uma vez perdida. – Por que você não vai até a praia e então pega o primeiro grupo que voltar para a cidade?
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  - Ninguém irá voltar antes de segunda-feira. – comentei, vendo que ele não me contrariou. – Pode ir, ficarei dentro do supermercado aguardando algum táxi aparecer ou conseguir uma carona com alguma família de turistas. Não se preocupe comigo; pode não parecer, mas sou mais forte do que imagina.
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  - Não duvido, gata. Qualquer pessoa que odeie o é forte o suficiente. – soltou uma risada. – Bem, pegue meu celular, se chegar seis da manhã e você ainda estiver aqui, me ligue e vejo no que poderei ajudar. – seus dentes brancos apareceram novamente com o sorriso que deu e logo depois de gravar seu número, se afastou de mim.
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  Vi o grupo de carros se afastarem em algazarra e me dirigi para dentro do supermercado, onde o segurança disse que havia uma agência de táxi que trabalhava de madrugada, mas que custava bastante caro. Liguei para a tal agência, que me informou que o táxi mais próximo demoraria cerca de duas a três horas para chegar. É minha única alternativa, então pedi que viessem. Enquanto isso, me sentei no banco que havia dentro do supermercado e fiquei esperando.
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  Duas horas e meia depois, nenhum sinal do táxi. Olhei em meu relógio de pulso pela milésima vez para me certificar de que estava fazendo as contas certas. Talvez devesse ligar para a agência de táxi para verificar se ele estava chegando. Por sorte, a loja de conveniência era grande e movimentada, de modo que várias pessoas em grupos ou em família, passavam para esticarem seus músculos ou irem ao banheiro. Revezava entre ficar dentro com o segurança ou fora com meus pensamentos.
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  Nunca imaginei que algum dia poderia me encontrar na situação em que estou. Jamais precisei andar de transporte público em São Paulo; fazia por puro capricho de tentar me sentir uma garota normal, mas não com frequência, já que nunca soube me adaptar à população. Quando se nasce em um berço de ouro, tudo o que você aprende deve servir somente para pessoas de classe social igual à sua ou superior, caso exista alguém mais poderoso. Por causa disso, sempre tive dificuldades em ir a festas de pessoas estranhas ou bares que não conhecia. Preferia pagar um jantar caro nos Jardins a ter de sentar em uma cadeira de plástico na Lapa. Há quem diga ser preconceito; às vezes me pergunto se sou mesmo preconceituosa, então me convenço que, na verdade, eu só não sei lidar com esse tipo de vivência. Ninguém que deita em um bom colchão quer deitar em um chão; se tivesse a opção de não fazer, eu não faria.
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  Entretanto, minha situação agora era diferente. Conversando comigo mesma dentro do rápido banho que tinha de tomar na sexta-feira quando recebi a notícia de meus pais, concluí que não deveria sofrer desde agora, quando há mais três meses que não precisava me preocupar, pois meu pai disse que daria um jeito. Contudo, não sou uma pessoa fã de surpresas e prefiro começar a sofrer mais cedo, do que sofrer o dobro depois. No entanto, a situação agora me deixa em uma posição delicada. Ter de aguentar me tratando como sua boneca, me jogando e pegando quando bem quer… Não suporto esse tipo de pessoa. Arranjaria uma maneira de processá-lo, se não dependesse tanto de sua ajuda. Agora entendo a posição dos subordinados dos meus pais que aguentavam seus desaforos todos os dias sem retruca-los. Eles não se mantêm calados porque querem, mas sim porque precisam.
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  Aperto meus lábios e abraço minhas pernas, trazendo-as para perto de mim. Bato minha testa nos meus joelhos em meio à punição de algo que não fiz errado. Meus pais deveriam estar passando por esse sofrimento, não eu. Eu deveria continuar somente focando em meus estudos para me tornar uma profissional tão boa quanto eles. Foi o que me disseram. Desde que eu me formasse com méritos, não precisaria me preocupar com questões financeiras, algo que os pais deveriam ser obrigados a se responsabilizar. E agora estou aqui, sentada no meio fio em frente a uma loja de conveniências à uma hora e meia da cidade de Cambridge esperando um táxi que desconfio não vir. Levanto a cabeça para observar o movimento; depois de um tempo morando nos Estados Unidos, você aprende a confiar nas pessoas ao seu redor e acreditar nas taxas de criminalidade baixa – com relação ao Brasil – que eles têm. Mesmo assim, o fato de estar sozinha em um lugar desconhecido me faz sentir como se estivesse perdida no centro de São Paulo. Estou com medo.
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  Vejo dois faróis fortes em meu rosto. O carro que estacionou do outro lado do estacionamento, a cerca de vinte a trinta passos de onde estou sentada não se importou de manter as luzes desligadas depois de parado. Mesmo com uma careta em meu rosto, o motorista foi somente desligar o carro depois que desviei meu olhar para voltar a acostumar com a claridade natural de onde estava. Demorou um minuto inteiro para os flashes saírem de minha vista e eu poder olhar para os lados sem semicerrar os olhos. Assim que virei meu rosto de volta para o carro afim de ver o rosto do legume insensível que o dirigia, me deparei com um par de pernas parado em minha frente. Reconheci a calça jeans escura logo que meus olhos cruzaram com o tecido.
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  - Você é bem corajosa para uma estrangeira mimada. – disse ainda parado em minha frente. Preferi me manter calada. O medo e a insegurança que senti até então acabaram com minha força de vontade de retrucar suas ironias. Abaixei a cabeça, encostando minha testa em meus antebraços. Com a presença de , meu corpo rapidamente relaxou por haver conhecido me fazendo companhia, mas é óbvio que eu nunca admitiria para ele. – E uma garota bem orgulhosa. Não irá me pedir carona de volta para Cambridge?
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  - Seria contraditório pedir ajuda a você, quando há algumas horas disse para que me deixasse em paz.
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  - Tem razão. – seus pés se moveram um pouco, mas não o suficiente para fazê-lo sair do lugar. – Mas sua situação agora não é das melhores.
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  - Vai embora, . – pedi, a exaustão estampada em minha voz. Ele pareceu perceber e não disse nada. Apenas se virou e se afastou. Soltei um riso nasalado baixo e balancei a cabeça, olhando o relógio mais uma vez e confirmando que o táxi não viria. Três horas de espera. Eu definitivamente nunca mais acreditarei em nada do que Kendra dizer.
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   parou o carro a poucas distâncias de mim e abriu a porta do carro. Mesmo sentado no lado do motorista, seu braço era longo o suficiente para alcançar a maçaneta do lado passageiro.
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  - Entre. – falou.
  Pela primeira vez, meus pés não obedeceram minhas ordens e rapidamente me fizeram levantar, entrando dentro da SUV de e fechando a porte. Tão surpreso quanto eu, ele não disse nada até estarmos de volta na estrada.
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  - Estou aguardando um pedido de desculpas.
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  - Não tenho com o que me desculpar. – falei, finalmente sentindo que poderei fechar meus olhos sem me preocupar em ser roubada ou raptada. Ouvi sua risada; percebi que dessa vez, o som do carro estava desligado. O silêncio também me fez lembrar de que há algumas horas, o lugar onde estou sentada provavelmente foi base para sua transa com uma das garotas que se insinuou durante todo o tempo na praça. Sem me importar com sua atenção em minhas ações, retirei meu casaco e cobri o assento, me sentindo melhor por não estar em contato com o local. Mais uma vez ouvi o riso de :
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  - Não transamos aí.
  - Não me importo, continua sendo dentro do seu carro. – respondi grosseira, me virando de costas para ele e voltando a fechar meus olhos, afim de dormir. Foi quando pisquei para me preparar para descansar que vi a placa de retorno passar e ignorar a entrada. – Você passou o retorno.
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  - Eu sei.
  Olhei para ele. Havia um sorriso em seus lábios.
  - Por que voltou se não iria me levar para Cambridge? – minha pergunta soou mais alto do que imaginava. Ele olhou para mim rapidamente e voltou a encarar a estrada.
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  - Ace estava com peso na consciência, mas bêbado demais para conseguir distinguir o carro dele do meu. Disse que me pagaria mais tarde se viesse lhe buscar, nem que fosse para deixa-la isolada no meio de todos na festa.
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  Claro. Ace quem pediu para me ajudar, porque era óbvio que ele não faria por conta própria. Resolvi não questionar mais nada e me deixei adormecer no carro.
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  Quando abri meus olhos, o som no lado de fora era abafado pelos grossos vidros da SUV. não estava mais no carro, que se encontrava desligado e com frestas da janela aberta para o ar circular. Me perguntei se poderia me manter aqui até a festa acabar, mas sei que demorará alguns dias para ela ser encerrada. Decido então sair e procurar alguém que esteja voltando para Cambridge. Olho em meu relógio, que marca cinco da manhã. Talvez algumas pessoas estejam se preparando para voltar, já que alguns fazem bicos em restaurantes aos domingos, dia da semana que melhor pagam os estudantes.
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  Destravo minha porta e saio do carro, sentindo a brisa fria da manhã. Abraço meu corpo e saio andando até chegar a um tipo de morro abaixo; no final dele estava a praia. Vi muitas pessoas jogadas pelo chão dormindo ou desmaiadas. Outras ainda aproveitavam as bebidas e o DJ que ainda tinha energia para tocar a música. Mesmo nessa hora da manhã sendo normal das pessoas começarem a se cansar e se dispersar para seus próprios relacionamentos, ainda havia muita gente na pista de dança ou caminhando por aí. Vi em um canto com seus amigos, rindo e se divertindo; na verdade, todos estavam se divertindo, como se não se importassem com a garota que estava adormecida dentro do carro. Abro um pequeno sorriso; eles não se importam, .
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  Fecho os olhos ao sentir o vento com a brisa do mar bater em meu rosto. Meu corpo imediatamente me fez querer deitar e adormecer sob a brisa. Ouvi risos altos próximos a mim e vi um grupo de garotos subirem. Os primeiros do grupo possuíam chaves de carro em suas mãos e percebi que era o momento certo para arranjar uma carona. Caminhei até eles, que não pareceram me reconhecer como a garota que odeia.
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  - Oi garotos, para onde estão indo?
  O grupo se entreolhou e voltaram a me encarar, sorrindo.
  - Para onde você quer ir? – o da frente perguntou, me fazendo dar um passo para trás. Então é isso. Qualquer coisa que eu diga será interpretado com malícia. Abro um pequeno sorriso, achando toda a situação ridícula.
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  - Cambridge.
  - Bem, estamos indo para o lado oposto. – um deles disse, mas foi impedido para o garoto à sua frente, que havia me perguntado para onde queria ir.
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  - Se você quiser, posso leva-la até Cambridge, gata. Meu carro está logo ali. – apontou para um conversível, como se achasse que fosse me impressionar. – Mas o pagamento não vem em dinheiro, se é que me entende.
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  - Hey, Tom! – ouvi um garoto se aproximar de nós. Olhamos para o dono da voz, que arfava devido à correria ao subir o morro. – A garota é acompanhante do . – apontou para trás, onde olhamos na direção e vimos o ‘dono da festa’ nos encarando.
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  - Eu não estou com ele! – protestei para o garoto que levantou os ombros. Olhei para o tal de Tom, que olhava de mim para em um ponto muito longe. Tampei sua visão: – Seja o que for, pago.
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  Aquilo pareceu fazê-lo considerar, contudo, poderia saber que ele não aceitaria, já que o nome de foi posto em jogo.
  - Desculpe, gata, mas não posso te ajudar. Não hoje. – Tom disse, dando uma leve piscadela e se distanciando com seus amigos.
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  - É só uma carona! – grito, mas eles não me ouvem. Fecho meus olhos em meio a tentar conter a raiva que estou sentindo. Olho para o lado e vejo que o garoto dedo-duro não está mais presente. Quando viro para olhar para , ele já não olhava mais em minha direção. – Idiota. – murmuro, virando meu corpo e indo em direção de volta ao estacionamento, onde poderia aproveitar a carona de alguém.
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  Depois de vinte minutos esperando e sendo ignorada, vi que não adiantava ficar ali. Fui em direção ao morro e desci as escadas que levava à praia tão rápido que mal percebi a linda praia que recebia a festa. continuava no mesmo lugar e parou de falar com as garotas e seus amigos assim que me viu me aproximar:
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  - Pare de mandar as pessoas me ignorarem. – pedi, vendo-o levantar as sobrancelhas.
  - Nunca fiz isso.
  - É? Então por que ninguém quer me dar carona de volta para Cambridge? Por que alguém menciona seu nome quando vão me negar o pedido?
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   solta uma risada e olha para os amigos, que o acompanham.
  - Veja bem, você chegou no meu carro. Teria sido melhor se tivesse vindo no de Ace. – apontou para o lado, onde vi Ace e uma garota se atracarem em meio à areia.
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  Foi quando eu vi, atrás de Ace e a garota, Jonathan com um grupo de amigos e algumas garotas que fugiam dele. Olho para à minha frente e ele parecia estar se divertindo com meu nervosismo. Sem dizer mais nenhuma palavra, me afastei e fui em direção ao grupo de Jonathan. Ele retirou o moletom de Harvard e se permitiu ficar somente com uma camiseta branca, o que o fez parecer menos débil do que antes. Na verdade, ele meio que me lembrava um pouco de Gabriel.
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  - Hey, estive procurando você a festa inteira. – segurei o braço de Jonathan, que se surpreendeu ao ver alguém tomar alguma iniciativa consigo. Ao ver quem sou, abriu um grande sorriso.
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  - Procurei por você também; Ace até me disse que você havia desistido de vir.
  - Mudei de ideia. – um pequeno sorriso se formou em meus lábios sem minha permissão. Me lembrei do tratamento que estava seguindo com Tom. Malícia, é disso que preciso. – Então. – comecei a falar. – Você está ocupado? – olhei para seus amigos e as garotas que os acompanhavam. Ele seguiu meu olhar e riu:
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  - Estou agora. – colocou o braço direito em meus ombros e abri um sorriso para mostrar que ele havia feito a escolha certa. – O quão bêbada você está?
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  - Estou totalmente sóbria. Ninguém me serviu nada até agora. – falei, aparentando pesar. Jonathan pareceu cair na minha brincadeira e começamos a caminhar em direção a um quiosque onde dezenas de pessoas estavam amontoadas para conseguirem uma bebida.
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  - Vamos conseguir algo para nós então.
  Aguardei chegarmos próximo ao quiosque e então vê-lo pedir para mim esperar ali para ele se infiltrar entre as pessoas para pegar nossas bebidas. Assim que me deu as costas, virei meu corpo em direção ao mar, pensando no plano que deveria seguir para fazê-lo conseguir um carro para me levar de volta para Cambridge. E então pensei em Gabriel. Será que ele ficaria nervoso por eu estar me insinuando para um estranho? O que ele faria em meu lugar? Será que essa é uma das maneiras de iniciar o processo de traição? Não quero trair Gabriel, não quero me tornar uma pessoa como a mãe dele, a quem odeia. Na verdade, até agora, Gabriel é a única pessoa que posso confiar em dizer que me ama. Olho para o céu que se tornava escarlate pelo nascer do sol e peço desculpas mentalmente a ele, esperando que possa sentir meu arrependimento caso algo pior aconteça hoje.
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  Jonathan voltou alguns minutos depois com uma garrafa de vodka e alguns copos de plástico. Sorriu, vitorioso, levantando as duas mãos com a bebida e os copos, como se tivesse ganho uma batalha. Sorri, mostrando estar animada.
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  - Escuta… – olhei para ele, enquanto arrumava o moletom amarrado à cintura. – Não sei se você percebeu, mas não sou uma pessoa que gosta de ficar sob os olhos dos outros. – comecei meu plano, feliz em vê-lo concordar comigo. – Não sei se você está com carro, mas… O que quer que seja, não farei em público. Beijar ou abraçar está na lista.
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  - Você está falando sério? – seu tom de voz me fez recuar. Olhei para o lado afim de pensar em uma saída, mas minha atitude pareceu mostrar que estava sem graça. – N-não, quero dizer. Bem, não tenho um carro, mas posso conseguir um. Meu colega de república, David, viemos no carro dele, mas acho que ele não irá usá-lo até quinta-feira, então…
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  Abri um sorriso, respondendo às suas dúvidas.
  - Tudo bem. Vamos fazer assim. Você vai indo para o estacionamento com a bebida e eu vou pegar as chaves com David. Nos encontramos lá. – ele criou o plano e eu apenas concordei. Com um sorriso no rosto por finalmente estar prestes a voltar para Cambridge, fiz o caminho até o morro com as escadas que me levaria até o estacionamento, rezando para David não estar sóbrio e entregar sem pestanejar as chaves de seu carro para Jonathan.
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  Encostei em um carro cor berinjela. Os americanos gostam de carros com cores extravagantes, percebi. Alguns carros balançavam, mostrando que alguns casais ou grupos se divertiam de suas próprias maneiras. Me servi de um gole de vodka, cuspindo logo em seguida por ter um gosto tão ruim. Olhei para a garrafa com uma careta, como as pessoas poderiam gostar tanto disso?
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  Foi quando ouvi passos perto de mim e abri um sorriso esperando que fosse Jonathan, mas não era. Para minha não surpresa, estava se aproximando.
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  - Você não demorou para pensar em um plano, não é? – parecia nervoso.
  - Você deveria saber que sou responsável o suficiente para conseguir arranjar minha própria maneira.
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  - Esse garoto, Jonathan, ele só quer te traçar.
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  - Assim como você faz com suas garotas. Mas ao contrário delas, eu não tenho a menor vontade de ter uma transa casual. Agora vai embora. Vai aproveitar suas amiguinhas e me deixa em paz.
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  - Você não é nem um pouco sensata, . – sua voz se tornou sombria. – As coisas seriam mais fáceis se você não visse em mim alguém que só quer te provocar.
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  - Mas é exatamente isso o que você faz. – respondo. – É a única coisa que você sabe fazer comigo, todo mundo sabe. Você me trata diferente das outras pessoas porque me odeia, mas quer saber? Eu não me importo. Você não é a primeira pessoa que me odeia aqui, é só mais um.
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  - Por que tudo o que você diz é para me atacar, garota?
  - Porque assim como você não faz as coisas que eu peço, também não obedeço aos seus desejos. Você precisa ficar me perseguindo? Acha divertido me ver nervosa?
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  - Você…
  - Hey, consegui as chaves… Ah, oi .
  - Kennedy. – sequer olhou para Jonathan. Manteve seus olhos em mim por um tempo e percebi que sua posição era tão grande e forte, que Jonathan não ousou atrapalhar nosso contato até se mexer. – Kennedy, você se importa de nos dar cinco minutos?
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  É óbvio que ele se importa. Olhou de para mim, confuso por estarmos tão próximos um do outro. Esperou que eu dissesse que estava com ele, mas não disse nada. Não podia demonstrar em sua frente que não tenho o mesmo respeito por que todos têm.
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  - Claro, vou indo para o carro. – Jonathan falou para mim e apontou para trás, onde vi um jipe. Concordei com a cabeça e o vi se retirar tão lentamente quanto uma lesma.
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   esperou que ele estivesse longe o suficiente para dar um passo à frente. Segurou meu braço quando fiz menção de me afastar; seu aperto era tão forte que não tive coragem de me mexer, tampouco fiz careta para deixar aparecer a dor que senti.
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  - Eu vou falar uma vez só, então é melhor você prestar bastante atenção – seu hálito era uma mistura de álcool com tabaco. Não suporto cigarro, o odor ataca minha sinusite e me dá dor de cabeça, contudo, não posso mexer meu rosto e desviar o olhar dele. Não posso perder. -, eu te contratei exatamente pela razão de você não ser como as garotas com quem transo. Pouco me importa se você me odeia ou eu não te suporto; enquanto eu for o chefe, você terá de obedecer às minhas regras, sejam elas agradáveis a você ou não. – olhei em seus olhos. Pela primeira vez, não me perdi no azul. Estou tão absorta em suas palavras e no sangue subindo à minha cabeça, que não pude encará-lo profundamente. – Se você entrar naquele carro, considerarei seu pedido de demissão. Eu não preciso de vagabundas no meu negócio, lutei muito por ele para que mulheres desse tipo venham diminuir o nível do trabalho.
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  Foi o limite. Senti meus olhos se arregalarem e o choro chegar à minha garganta. Nunca fui tão humilhada em toda a minha vida. Vagabunda? Quem ele pensa que é para falar assim comigo? Por que me remeto a esses tipos de comentários? Por que preciso ouvi-los, quando deveria estar em meu quarto estudando para finalizar logo a universidade e voltar para o Brasil?
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  Apertei meus lábios tão forte que a dor rapidamente começou a fazê-lo adormecer. Não sabia o que lhe responder, porque minha mente está entorpecida com suas palavras. Vagabunda. Será que é esse o comportamento que estou tendo? Será que entendi errado quando analisei o ambiente e vi que somente conseguiria algo agindo como todos eles? Será possível que tenha razão quando disse que eu não sei analisar as pessoas?
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  Movi com toda a força que tive meu braço, mas ao observar meus movimentos, vi que foi tão fraco que ele mal percebeu.
  - Tudo bem. – falei, sentindo sua mão afrouxar meu braço; provavelmente haveria uma marca roxa ali no dia seguinte. – Não vou entrar no carro dele. – expliquei, minha voz fraca. Ele concordou com a cabeça.
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  - É o cer…
  - Mas também não vou mais trabalhar com você. – seus olhos se arregalaram com meu aviso. – Não vou mais lhe causar incômodo e não vou mais me aborrecer com suas grosserias. – juntei um pouco mais de força para soltar meu braço de sua mão; sucesso. – Não sou uma vagabunda. Não sou uma pessoa que inferioriza uma empresa apenas por estar nela. Estudo em Harvard para não ser tudo isso. Vim de outro país para não ser tudo isso. – comecei a me afastar, cada passo dado, uma nova vontade de choro entala em minha garganta. – Prefiro cancelar minha matrícula por não conseguir pagar uma mensalidade, do que trabalhar em um lugar onde me rebaixam a esse nível. – respirei fundo. – Você pode mandar o contrato de demissão pela Kendra. – lhe dei as costas para ir embora.
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  Enquanto andava o mais rápido que conseguia afim de me distanciar de , senti um frio extra no rosto. Ao colocar minha mão em minha bochecha para sentir a temperatura da minha pele, senti o rastro úmido de uma lágrima. Fecho os olhos, arrependida por não ter percebido antes. Agora minha imagem é de uma coitada que chora quando é chamada de vagabunda. Ótimo. Minha vida está ótima.
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Capítulo 4

  Não esperava que o clima fosse tão gelado durante a noite em Massachusetts. Abracei meu corpo enquanto andava na estrada que me levaria de volta para Cambridge; isso é, se eu chegar viva.
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  Não sei de onde surgiu a loucura de voltar a pé, mas até então, parece ser a melhor solução, já que não posso voltar atrás e esperar que alguém me desse uma carona. É bastante óbvio que ninguém me ajudaria, pelo simples fato de que não permite que eu me aproxime de ninguém, ou melhor, ninguém se aproxime de mim.
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  Sinto as lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas e funguei o nariz. A voz de continuava a ecoar em minha mente, como se estivesse berrando.
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  “… Eu não preciso de vagabundas no meu negócio, lutei muito por ele para que mulheres desse tipo venham diminuir o nível do trabalho.”
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  Nunca imaginei que uma palavra tão usada comumente pela sociedade fosse me afetar tanto. Ouço e vejo o xingamento ‘vagabunda’ em tantos lugares: na internet, nos programas, nas novelas, até na sala de reuniões com os clientes dos meus pais… Mas nunca, jamais imaginei que poderia um dia ser chamada de uma. Estudei minha vida inteira, fui a primeira da sala e entrei em Harvard para chegar agora e ser chamada de “vagabunda”. Limpo mais uma vez as lágrimas que escorrem pelo meu rosto e olho para o céu, enxergando-a parcialmente por minha vista ainda estar borrada pelas lágrimas. Solto o ar que está preso em meus pulmões. Quem eu deveria odiar mais? Meus pais, por me colocarem nessa situação? Gabriel, por não estar ao meu lado para me consolar e ter me incentivado a procurar um trabalho? , por ter sido quem utilizou essa palavra repugnante para me descrever? Kendra, por me enganar a pedido de ? Ou eu mesma, por ser estúpida suficiente para ouvir todos eles?
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  Olhei em meu relógio, que marcavam quase seis da manhã. Cada passo que dou mais perto de Cambridge me faz me sentir mais e mais estúpida. Chamei de idiota, mas pelo jeito, a idiota de verdade sou eu. Eu quem fui burra de ouvir as pessoas. Eu que achei que poderia me tornar mais sociável. Eu que tive esperança de fazer algo melhor que não fosse somente estudar. Mas aparentemente, a única coisa que sei fazer bem é estudar; até porque minha memória fotográfica me auxilia, caso contrário, seria completamente inútil.
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  - , entre no carro. – ouvi sua voz falar ao meu lado. Olhei de relance e vi com sua SUV dirigindo devagar no acostamento, tentando acompanhar meus passos. O que ele espera? Que eu o obedeça? Que eu esqueça suas palavras? Que eu finja que nada aconteceu? Mesmo que eu quisesse, que minhas pernas e meus pés protestassem que eu pensasse mais neles, que tanto doíam por estar a mais de uma hora andando eu não cederia. Meu orgulho está tão ferido que mal consigo ouvir os sons dos carros passando em alta velocidade, ou que minha razão me dê socos no estômago por estar tão indefesa e aberta a ser morta ou estuprada no meio desse nada que estou.
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   acelerou e jogou o carro em minha frente, fechando meu caminho. Abracei meu corpo com mais força e comecei a dar a volta no carro; ouvi a porta se abrir e rapidamente meu corpo ser virado em sua direção.
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  - Você não está me ouvindo? – chacoalhou meu corpo, como se quisesse me fazer acordar. – Entre no carro.
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  - Eu já disse. – minha voz saiu fraca. – Me deixa em paz.
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  Me mexi, desconfortável, e senti suas mãos me largarem. Dei-lhe as costas mais uma vez e comecei a andar.
  - Me desculpa! – ele gritou atrás de mim. – Pelo modo que falei. Eu estava com minha cabeça quente e acabei falando tudo o que me vinha à mente. – sua mão novamente agarrou meu braço, me impedindo de caminhar. O vento parecia mais forte agora, mesmo com o sol nascendo atrás de mim. – Se você quer se matar, arranje outra oportunidade. Não quero viver com peso na consciência.
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  - Claro. – falei, finalmente olhando em seus olhos. – É por isso que está aqui. Porque acha que se acontecer algo comigo, é porque eu fui embora depois do que você falou; mas veja só, eu iria embora de qualquer maneira, então não precisa se forçar a fazer isso.
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  - Você não vai chegar em Cambridge antes do meio dia. Estamos a duas horas e meia de lá de carro.
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  - Você não precisa se preocupar com isso. – ameacei começar a andar, mas ele não deixou. Suas mãos, ainda fortes, seguravam meus braços e a ausência de força me impedia de tentar me soltar. – Me solta.
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  - Não. – falou. – Não quero ter de falar palavras duras para você novamente, mas você está sendo irracional.
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  - Eu sei. Meu comportamento tem sido irracional desde um tempo atrás. – penso em como minha vida mudou depois que meus pais falaram sobre a falência deles. – Mas vou frisar mais uma vez: Você não…
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  - Eu tenho tudo a ver com a situação. Se você quer ser forte, então aguente o que as pessoas têm a dizer, mesmo que isso a machuque! Sabe quantas vezes irão te xingar durante uma sessão no tribunal ou em um fórum? A vida não é fácil, Sophia, e você tem de parar de achar que poderá ficar em seu mundinho de estudos e notas altas para sempre! Deus do céu, como pode ser tão teimosa?
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  Levanto meus olhos para . Gabriel já havia me falado isso antes. Ele também me chamou de teimosa quando insistia em algo que ele tentava me convencer. Também disse que meus pais me colocaram em um mundo onde só eles têm permissão de me dizer o que fazer. Finalmente senti minhas pernas falharem; se não estivesse tão próximo de mim para me segurar, eu provavelmente cairia de joelhos no chão. Não fiz barulho ao voltar a chorar, mas percebi que estou chorando porque senti muitas lágrimas saírem de meus olhos como se fizessem uma competição sobre quem chegaria mais rápido até o chão.
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  Não tentei me afastar de quando ele me abraçou em forma de consolo, tampouco briguei com ele quando senti suas mãos apoiarem minhas costas e minhas pernas, me levantando com facilidade e me levando para dentro de seu carro. Deixei que colocasse o cinto em mim e não ligou o som ou discutiu quando encostei minha cabeça no vidro da janela e fechei meus olhos, exausta.
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  Antes mesmo de acordar já conseguia sentir a dor dos músculos das minhas pernas me punirem por tê-los feito se esforçar tanto. Minhas mãos tocaram um colchão macio que não parecia ter fim. Espreguicei meu corpo sem querer abrir os olhos; até a razão me dar um tapa na cara. Não estou na minha cama, porque ela não é grande, nem macia como esta, tampouco possui travesseiros que afundam com o peso de minha cabeça e a coberta não é de plumas de ganso como a que está me cobrindo.
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  Abri os olhos e eles logo doeram com a claridade do sol que penetra o quarto sem vergonha. As cortinas estão abertas e os pássaros cantam do lado de fora. Olho pela extensão do quarto que não reconheço. Ele é enorme com as paredes brancas. Os móveis são em tons de marrom escuro e os detalhes, como maçanetas ou dobras são todas de aço. Forço meu corpo a se sentar, mas além de estar completamente dolorida, gosto dessa cama o suficiente para querer usufruí-la mais um pouco. Achei interessante o modo como uma janela ocupa praticamente uma parede inteira, dando uma visão panorâmica da vista afora; deitada, só consigo ver o céu azul e sem nuvens. Que horas são? Não deve ser de manhã mais. Virei meu corpo para o outro lado com dificuldade e a porta do banheiro aberta, onde pude só enxergar o box do chuveiro bastante afastado da entrada; imagino quão grande o banheiro é.
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  Assim, a porta que restou só pode ser a entrada e saída do quarto. Está fechada e não ouço nenhum ruído fora dela. Volto a deitar meu corpo para cima, observando o teto branco sem falhas. Fazia tempo que não me encontro em um cômodo tão pacífico. Uma saudade de meu quarto no Brasil surge; exceto pela janela, não é tão diferente desta. Também possuo uma cama de casal e também tenho um banheiro incluso, formando uma suíte. Em São Paulo o céu também é bonito na maioria dos dias, mas há bastante barulho de carros, pessoas falando e buzinas. Mesmo morando em um condomínio nos Jardins, morar em uma casa não muda nada o ambiente externo que vemos da cidade. São Paulo é uma cidade caótica, mas isso faz somente que eu não me sinta tão sozinha. Procuro ouvir algo que não fossem os pássaros, mas não consigo. De certo modo, a paz diminuiu um pouco, dando espaço à minha solidão. Ser filha única e ter pais conservadores sempre fez de mim uma pessoa antissocial. Não podia ir à casa das minhas amigas ou chama-las para me visitar. Não ia a muitas festas, nem saía para as noitadas. Mesmo mais velha, meus pais continuaram insistindo de que tais atividades não eram tão importantes quanto estudar para entrar na São Francisco.
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  Estudar. Me perder nos cálculos e nas histórias de pessoas que já estão mortas. Descobrir como funciona o corpo humano e saber como criar textos perfeitos. Sempre achei os estudos fascinantes, por isso, nunca protestei contra meus pais ou invejei minhas amigas quando elas saíam para as festas. Claro que queria viajar com elas ou participar dos programas noturnos; mas não o suficiente para odiar meus pais por terem tirado isso de mim. Na verdade, até a algumas semanas eu estava bastante feliz com a minha vida. Estudar, ser apta a falar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa de qualquer idade, receber o meu diploma e poder voltar para o Brasil. Lá, prestaria a OAB e então iniciaria minha experiência como advogada. Quando tivesse dinheiro o suficiente, moraria com Gabriel e então um dia nos casaríamos e teríamos filhos. Uma vida tranquila e feliz.
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  Completamente diferente do que estou vivendo agora.
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  Viro meu corpo, arrastando um travesseiro para mais perto de mim de modo que pudesse abraça-lo. Fiquei encarando o chão encapetado; até ele parecia macio para se deitar. Por um segundo, gostaria que o mundo parasse para que eu pudesse continuar deitada, onde somente respirar fosse o suficiente para me manter viva. Suspiro ao lembrar que devo voltar para o campus e que não faço ideia de onde estou. Demoro alguns minutos para juntar força para me levantar e me arrastar até o banheiro, que é muito maior do que eu imaginava. Olho para a banheira que estava escondida atrás da porta e uma vontade imensa de enchê-la de água e espuma toma conta do ambiente. Dou-lhe as costas para tentar não prolongar meu sofrimento de não ter permissão de usá-la; assim, me deparo com meu reflexo no espelho e vejo o estado que me encontro. Meus cabelos parecem um ninho de pássaros recém-nascidos que não conseguem ficar parados, meus olhos estão tão inchados como as de um peixe japonês kingyo e meu rosto, pálido como a areia da praia. Minha roupa está amassada e fedendo tabaco. Com o sabão da pia, faço o que posso para melhorar minha imagem, mas não consigo fazer um milagre. Me retiro do banheiro o mais rápido possível, querendo fugir do meu reflexo. Vou até a janela a fim de enxergar melhor o lugar onde me encontro.
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  Eu deveria ter imaginado e não deveria abrir a boca em um ‘O’ gigante, demonstrando surpresa. Logo que cheguei à janela, reconheci a área externa da mansão de , onde aconteceu uma festa imensa há alguns dias. O lugar agora parecia muito melhor aos meus olhos; limpo e vazio. De repente, senti uma urgência em ir embora. Era verdade, eu deixei que me colocasse dentro de seu carro e acabei adormecendo durante o caminho de volta para Cambridge. Corro até meu casaco e no bolso encontro meu celular sem bateria. Fecho os olhos em pesar. Como posso ser tão burra? Olho para os lados sem saber o que fazer. Coloco meu tênis snickers e sigo para a porta; ao mesmo tempo, antes de tocar na maçaneta, a vi vir em minha direção, causando um grande estrago em meu rosto com relação à dor que senti. Caí de bunda no chão e ouvi a voz de preencher o quarto:
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  - Você está bem? – sua voz parecia preocupada. Abri meus olhos e através dos meus olhos lacrimejados, o vi agachado em minha frente. – Desculpe, acabei entrando sem bater, achei que ainda estivesse dormindo.
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  - Tudo bem. – falei, me levantando.
  Ficamos parados um de frente para o outro; não sabia o que falar. Talvez agradecer pela carona? Por ter me dado um bom lugar para dormir? Não… Pode ser que ele ache que estou querendo me redimir por ter pedido demissão.
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  - Preparei o almoço. – ele falou, dando-me as costas e saindo corredor afora. Dei alguns passos para ver a direção que ele fez e o segui:
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  - Na verdade, eu vou embora. – vi seus pés pararem de andar no meio da escada.
  - Você pode ir depois de comer.
  - Não estou com fome, obrigada.
  - Você sabe que estamos a mais de uma hora de seu dormitório, não é?
  - Bem, sobre isso… Será que você poderia me emprestar seu telefone? Meu celular acabou a bateria e parece que ele não tem sinal aqui… Eu pago!
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   olhou para mim por mais alguns instantes, como se avaliasse a possibilidade de eu pagar uma ligação de menos de 10 minutos. Enfim, balançou a mão e apontou para uma das salas que havia no andar térreo. Depois, terminou de descer as escadas e sumiu de vista.
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  Desci devagar devido minhas pernas estarem doloridas ainda. Fui até o cômodo indicado e encontrei com facilidade o telefone. Liguei para a empresa de táxi cujo número decorei e eles me informaram que um carro chegaria em mais ou menos vinte a trinta minutos. Rezei para que dessa vez táxi venha mesmo e coloquei o telefone de volta na base. Com tempo de sobra até o táxi chegar, olhei ao meu redor. Agora que não havia som alto ou centenas de pessoas espalhadas, podia ver melhor o interior da mansão. Mesmo vivendo em um lugar de alto luxo em São Paulo, não posso comparar ao que é realmente esse lugar.
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  Se tinha tanto dinheiro assim, por que precisou de ajuda de um sócio para comprar um prédio naquele bairro isolado e claramente mais pobre que o centro da cidade? Caminhei pelo corredor onde ele sumiu e andei devagar, observando cada cômodo que passava por mim, até chegar a uma cozinha onde ele estava sentado em um banco em frente à uma bancada repleta de coisas para comer. Imediatamente meu estômago reclamou de fome, mas disse a ele que não tinha fome.
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  - Eu, hum, vou indo então. – falei da porta. Não queria ter de entrar e diminuir o espaço entre nós. – Obrigada por… Hum, pela carona.
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  Ele não respondeu. Continuou comendo e assistindo à TV, me ignorando. Soltei o ar, me lembrando com quem estava falando e balancei a cabeça, dando-lhe as costas e, agora mais rápido, fazendo o caminho de volta até o hall, onde encontrei a porta destrancada, pronta para me deixar ir embora e nunca mais olhar para novamente. Nunca mais me perder em seus olhos . Nunca mais ser feita de boba ou humilhada.
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  Está tudo bem. Mesmo sem dinheiro, estou bem. Estou tranquila. Claro. Posso conseguir outro trabalho. Mesmo não ganhando a quantia que ganharia com ele ou não podendo conseguir bons empregos por não ser americana, eu tinha dinheiro na minha conta e conseguiria juntar mais para pagar mais um semestre da faculdade. Consigo me virar.
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  Quando sento no meio fio, já estou desesperada.
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  Resolvi não procurar um novo trabalho até a volta às aulas. Na verdade, meu psicológico me fez lembrar de tudo o que passei nos últimos dias e travou meu corpo de sair do meu quarto senão para ir ao vestuário feminino tomar banho ou comprar algo para comer.
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  Kendra chegou era quarta-feira. Usava roupas diferentes, mas não parecia ter tomado muitos banhos desde sábado. Seu cabelo estava oleoso e a pele mais bronzeada. Não falou comigo quando entrou, nem quando saiu para tomar banho, muito menos depois de voltar limpa. Soube que retornou quando senti o odor de flores do sabonete que usa. Espreguicei em minha cadeira; consegui me por em dia com os estudos que havia deixado de lado para ir à festa no sábado. Olho para o lado e a vejo me encarar séria enquanto enxuga os cabelos sentada em sua cama.
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  - Por que pediu demissão?
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  - Por que invadiu minha privacidade sem minha permissão e expôs para todo mundo?
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  Ela não respondeu. Tampouco pareceu se abalar com o fato que eu não deveria saber.
  - Você sabe o quanto me esforcei para colocar você lá dentro?
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  - Porque você quis ou porque alguém pediu? – mais uma vez ela não respondeu minha pergunta.
  - Você é uma egoísta mimada, !
  - Desculpe se eu não fico em um lugar onde me tratam mal e me chamam de vagabunda! – me levantei, sem querer, elevando meu tom de voz de modo que finalmente a surpreendi. – Eu não sou uma vagabunda! Eu não dou meu corpo para as pessoas para conseguir o que eu quero! Sabe o que eu passei naquela festa? Sabe o que eu tive de ouvir até finalmente sair de lá? Não, você não sabe! Porque você está enturmada, transando com seu querido sei lá o quê seu! Eu achei que você realmente quisesse ser minha amiga! – apontei para ela. – Saí do quarto no sábado à noite achando que finalmente havia conseguindo firmar um relacionamento com alguém! E então descubro que você foi mandada me convencer a ir até lá e que, além disso, mostrou todas as minhas coisas para eles, inclusive minha gaveta de lingeries! Me desculpe se eu não quero ter de olhar para todo mundo que sabe as cores das minhas calcinhas ou que acham que sou careta demais porque não transo com desconhecidos!
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  Sem olhar para trás, pego minha bolsa e saio do quarto.

  Não sei o que está acontecendo comigo. De acordo com os estudos, nossos corpos mudam somente até os dezoito anos. Estou quase fazendo vinte e um e mesmo assim consigo me surpreender. Eu não costumo gritar com as pessoas ou retruca-las de modo grosseiro. Não sou uma pessoa irônica.
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  Desço as escadas da entrada dos dormitórios e vejo milhares de grupos de pessoas espalhadas pelo campus. Claro, era a semana da feira social e as pessoas aproveitavam o máximo que podiam do campus, a fim de juntarem inspiração e força de vontade para entrarem aqui no próximo semestre. Saio rapidamente do campus e vejo, do outro lado da rua, a SUV de Ace com ele à frente chupando um pirulito. Acenou para mim quando me viu e não pude ignorá-lo; de todas as pessoas que conheci daquele grupo, ele era o único a quem eu não poderia ignorar.
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  - Como vai, baixinha? – me deu um longo abraço. Ace cheirava a perfume francês e usava uma camiseta cinza por cima da jeans. – Está com fome?
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  - Muita. O que está fazendo aqui?
  Ele abriu um sorriso. Ah.
  Viro as costas para ele, que solta uma risada.
  - Ah, baixinha, me dá uma chance! – correu até mim enquanto me afastava em passos pesados, nervosa. – Eu juro que não vim por ordem de ninguém.
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  Paro de andar e olho para ele.
  - É verdade, eu apenas fiquei sabendo das coisas hoje de manhã e achei que deveria vir aqui bater um papo. Sem compromisso. – levantou a mão esquerda como se fizesse uma promessa na língua dos escoteiros.
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  - Sem me convencer a voltar?  
  - Bem…
  - Tchau, Ace.
  - Qual é, você sabe que eventualmente eu iria tentar alguma coisa, não sabe? Confia no careca aqui, baixinha! – apontou para sua cabeça que brilhava à luz do sol. Não pude evitar soltar uma risada e concordei. Precisava disso, rir mais.
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  Entrei em seu carro que tinha o mesmo odor de sábado; sua janela continuava quebrada, mas ele não parecia se importar.
  - O que quer comer?
  - Qualquer coisa saudável. – falei, vendo-o soltar uma risada e acelerar.
  - Você quem manda!
  Durante o caminho, Ace falou como havia sido a festa, que a propósito, ainda acontecia. Quando perguntei como eles conseguiam manter uma festa rolando tanto tempo, ele disse que as pessoas que participavam devem pagar um valor todos os dias para que o estoque e o aluguel do local fossem pagos. Além disso, eles recebiam patrocínios por e seu sócio terem contatos, então não era tão difícil assim. Paramos em frente a um restaurante no centro; ele parecia conhecer algumas dessas pessoas que cuidavam do carro e deixou uma nota de vinte para um, falando sobre a janela quebrada.
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  Depois de pedido uma salada e um grelhado, Ace apoiou as mãos em cima da mesa, cruzando seus dedos e abrindo seu sorriso branco brilhante.
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  - Como você está, baixinha?
  - Bem. – respondi. – Estou com meus estudos em dia.
  - Sei… Talvez eu me inspire em você para conseguir subir algumas salas, você sabe. B ou C… Falam que o tratamento muda neles.
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  - Deve mudar. – levantei meus ombros. Ele soltou uma gargalhada.
  - Não seja má só porque está na S. Eu sei que vocês estão no topo do pedestal, mas para um E como eu, estar na B ou C é um evento muito importante.
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  - Espero que consiga. – falei, vendo-o continuar sorrindo. – De verdade, não estou sendo irônica. – concertei, vendo-o rir.
  - Ta bem, ta bem. Veja, voltei hoje com Kendra, estou sóbrio e falei com , então eu meio que sei sobre tudo o que está rolando.
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  - Imaginei. – dei um gole no meu chá, vendo-o se mexer em sua cadeira.
  - Você quer me contar a sua versão da história?
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  - Como você vê depois do que ele te falou?
  - Insensível? Exagerado? Talvez… Homem? – rimos juntos.
  - Então não acho que você saiba de alguma versão falsa. Ele me ofendeu, eu me cansei e pedi para sair.
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  - Achei que fosse mais forte, baixinha.
  - Eu sou forte. Mas não gosto de viver em um ambiente onde as pessoas não gostam de mim ou me tratam mal.
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  - Mas ninguém senão te tratou mal.
  - Ace. Ele é o chefe.
  - É, faz sentido. – disse, pensativo. – Mas veja, , você precisa da grana, ele precisa de ajuda. Faltam praticamente dois meses para nossa apresentação e nada começou a ser feito.
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  - Isso já não é mais problema meu, Ace. Além do mais, ele não pareceu se opor ao meu pedido. Não vou até ele revogar meu direito e parecer uma idiota.
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  - Parece até que estou falando com um casal recém-separado. – o ouvi resmungar. Levantei uma sobrancelha e ele riu sem graça. – Tudo bem. Você não vai voltar. Então o que você vai fazer?
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  - Procurar um novo emprego.
  - Você sabe que Harvard não permite que os alunos trabalhem em lugares renomados sem obter um diploma, não é? Você não irá conseguir nada mais do que uma lanchonete classe baixa ou ficar na cozinha de um restaurante lavando louça e ganhando seis dólares a hora.
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  Fico calada. É claro que eu sei. É claro que eu sei que não vou conseguir nada igual, mas não quero mais me sentir pior do que já estou. Não quero sentir que não tenho escolha, quando eu tenho escolha.
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  - Baixinha, olha só. Sei que eu sou amigo de todos eles, mas veja bem, desde que você entrou para o grupo, se tornou minha amiga também. Então eu estou, sim, preocupado. Pode ser que você fique mal algumas vezes, mas na maioria nem ficará no mesmo ambiente.
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  Suspiro e desvio meu olhar do seu. Não quero ter de dizer não para Ace; mas não quero voltar. Na verdade, pode ser que eu queira, pelo dinheiro, mas meu orgulho está ferido demais para ter de passar por mais uma humilhação em pedir para reconsiderar meu contrato. Olho para o lado e, ao fundo, vejo sua figura entrar pela porta e parar assim que me vê sentada com Ace.
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  - Você o chamou. – falei. Ace olhou na direção que meus olhos apontavam e então voltou a olhar para mim. – Achei que de todo mundo, pelo menos você não me enganaria. – me levantei e ele me acompanhou.
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  - Tudo bem, eu te enganei! Mas não foi por mal! – parei para ver seu olhar de arrependimento. – Se te alivia, também enganei para vir até aqui.
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  - O quê?
  Ace suspirou e abriu a boca para falar algo, mas foi impedido por :
  - O que ela faz aqui?
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  - Sente, .
  - Não. Quero saber o que ela faz aqui. – apontou para mim, como se ele não suportasse a minha presença. Não vou negar que acho que ele não suporta mesmo, mas a recíproca é verdadeira.
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  - Se você se sentar, terei o prazer de explicar. – Ace apontou para uma cadeira entre ele e eu na mesa quadrada em que sentávamos. – Se não se importa, pedi o seu prato favorito, .
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  - Comece a falar. – falou e Ace me obrigou a sentar de volta em meu lugar.
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  - Sabem que dia é hoje? Vinte e sete de Outubro. Para o dia 22 de dezembro faltam cinquenta e seis dias. Sabem por que eu sei? Porque meus alunos estão fazendo contagem regressiva; e sabem por que eles estão fazendo contagem regressiva? Porque nós, professores, prometemos aos nossos alunos que teríamos um grande evento e um palco para eles se apresentarem para seus amigos e familiares. Estão todos ensaiando de segunda a segunda, seja no estúdio ou fora dele para a apresentação. E o que nós vemos no prédio? Nada. Sim, porque ninguém começou a organizá-lo. – Ace olhou para , que desviou o olhar sentindo o peso de sua responsabilidade pesar. – Você disse que está com tudo sob controle, mas a cinquenta e seis dias da apresentação, não temos nem convites ou folders para distribuir. Por outro lado – olhou para mim. -, Harvard não é barata. Mesmo sendo uma S e ganhando privilégios, como o dormitório, manter-se lá não é fácil, não é somente estudar. Além disso, você não está entre os três primeiros, , então quer dizer que você não tem desconto nenhum na sua mensalidade. Querendo ou não, são quase três mil dólares por mês e que eu me lembre, a moeda do Brasil não é em dólar, o real não é mais caro que nossa moeda americana e sua família está falida. – apertei meus lábios, querendo lhe dar um tapa na cara. – Sei que estou sendo duro com vocês, mas preciso que vocês abram os olhos para a realidade, ao invés de ficarem se preocupando em provocar e atingir um ao outro. Não são somente vocês que estão nessa jogada, há centenas de pessoas no meio disso. Se quisermos que todas aquelas pessoas que foram ou estão nas festas entrem para o estúdio, precisamos de um estúdio pronto. Se você quiser continuar em Harvard, nota alta não será o suficiente para isso, você precisa de dinheiro e a maneira mais rápida é trabalhando para o .
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  Nem eu, nem falamos nada. Ficamos calados, com o peso da realidade pairando em nossas costas. Ace tem razão. Estou sendo infantil. Kendra tinha razão quando disse que sou mimada. Não estou acostumada a ser criticada, por isso não sei lidar com as críticas. Apenas fujo. Fecho meus olhos me sentindo estúpida por ter enxergado depois que alguém jogou verdades em minha cara. Olho para , que parecia perdido em seus próprios pensamentos.
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  - Será que… – comecei a falar. – Bem, Ace tem razão, eu preciso mesmo do dinheiro. – falo baixo. Vejo me encarar.
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  - Você não pareceu se…
  - . – Ace o olhou, sério. Preferia ele sorrindo. Vi que seu humor é cativante independente de ser bom ou ruim. – Ela está deixando o orgulho dela de lado, será que você pode fazer o mesmo? Ou você já arranjou alguém como ela para nos ajudar?
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  O vi apertar os lábios. Claro que não havia. Deveria estar se divertindo nas festas durante todo esse tempo, comendo garotas que ele denomina serem “vagabundas” e bebendo tudo o que pode com seus patrocínios.
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  - Precisamos começar pelas salas de dança. Retirar todas as mesas e arranjar um lugar para deixa-las. – começou a falar, de modo que Ace abriu um sorriso. – Os espelhos também devem ser polidos. Faz tempo que alguém não…
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  - Espere! – levanto uma mão, vendo os dois olharem para mim. – Você não vai me pedir desculpas?
  - Por que deveria?
  - Por ter me xingado? Por ter me tratado mal?
  - Você irá me pedir desculpas por ter sido rude comigo? Me chamado de idiota? – retrucou.
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  - Inacreditável. Inacreditável!
  - , deixe isso para lá… – Ace começou a falar, suplicante. – Vamos apenas focar no negócio, pode ser? Sem assuntos pessoais?
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  - Se ela conseguir, é claro. – comentou, me fazendo semicerrar os olhos. – Olhe só, eu posso conseguir alguém para ficar no seu lugar. Eu apenas não o fiz, porque me pediram.
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  Ace olhou para e então voltou a olhar para mim. Meus lábios tremiam. Mais uma vez humilhada. É isso. É por isso que os pobres não gostam dos ricos; é isso o que chamam de abuso de poder. Mal posso esperar para começar a atuar na minha área e processar cada um que vier tentar me humilhar.
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  Não disse mais nenhuma palavra, de modo a esclarecer que havia ganho a discussão. Cruzei meus braços e ouvi com o máximo de atenção que conseguia dar, mas não era muita já que não consigo suportar ouvir a voz de por muito tempo.
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  Depois do almoço, Ace seguiu o carro de até o estúdio, onde me deixou e disse que levaria o carro no mecânico para arrumar o vidro que quebrou no sábado passado. Assim que o vi ir embora, me senti ainda pior por estar sozinha com .
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  - Esta é a planta do prédio. – ele abriu um tubo e de dentro tirou uma enorme folha enrolada, esticando-a na mesa. – Este é o térreo. Se você quiser os outros andares, poderá pegar os outros tubos, está escrito em cada um a qual andar se refere. Minha ideia é que as salas e o térreo estejam prontos no dia da apresentação. Há várias coisas que precisam ser reformadas, mas não sei se dará tempo, então estipulei prioridades.
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  Pelo celular, anotava tudo calada. Não queria lhe dirigir a palavra. Não queria ter de questioná-lo, pois ele poderia me responder novamente com o abuso de seu poder.
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  - O primeiro andar será destinado à secretaria, escritórios, sala dos professores e de reuniões. Vamos focar toda a administração nele para que não haja problemas de comunicação depois. – apontou para um segundo tubo. – Aqui no térreo, vamos manter as aulas infantis e sala de apresentação. Há três cômodos deste lado que transformei em um para termos um grande salão. Conversei com alguns arquitetos e eles o planejaram assim. Quebrei as paredes e fiz o acabamento, mas ainda não há pintura. A lanchonete será no último andar; chamarei de Roof. Os pais de alguns alunos concordaram em pagar a mensalidade com os alimentos e bebidas, então não será difícil mantê-lo; apenas precisamos de pessoas para fazer os salgados e servir. Você está entendendo tudo?
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  - Estou.
  - Não está com nenhuma dúvida?
  - Não.
  - Nem sobre qual material usar?
  - Está escrito na legenda das plantas. – apontei, vendo-o perceber o mesmo.
  - Bem… Os escritórios precisam ter um design moderno e descolado. As salas devem possuir pelo menos uma parede inteira espelhada para os alunos, além de lugares para as caixas de som; uma TV para cada sala e cortinas blackouts para os ensaios com roupas noturnas. As paredes já foram equipadas com materiais antissom, por isso não há com o que se preocupar. Tudo o que é relacionado à construção já foi feito. Os banheiros precisam somente ter os azulejos trocados e um design melhor. Vou cuidar da parte dos materiais de dança, já que você não deve ter muita noção do que deve ser comprado.
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   falou por mais um tempo sem parar novamente para perguntar se eu tinha alguma dúvida. Foi somente quando ele parou de falar e olhou para mim na esperança que eu lhe perguntasse algo, que abri minha boca:
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  - Como vou fazer os pagamentos?
  - Alec me deu um cartão de crédito para fazer todos os pagamentos, mas há coisas que irei pagar do meu bolso mesmo. Além disso, há uma conta com os valores doados ou juntados das festas que fazemos. Poderemos gastar com conforto, desde que não haja exageros. Você deve fazer um documento com tudo o que gastar e seus valores para que eu possa aprovar e lhe dar o cartão para fazer os pagamentos. Se houver uma segunda mão de obra, tenho que saber quem entrará aqui e quanto tempo ficará.
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  - Tudo bem. – respondi e o aguardei me dispensar. Contudo, apenas suspirou e colocou os braços em cima da mesa, cruzando os dedos e se inclinando para falar:
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  - Eu sei que não começamos bem. Se está disposta a fazer o trabalho, teremos que nos dar melhor para haver uma comunicação melhor. Estou falando isso como dono desse estúdio, não como .
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  - Tudo bem, desde que você se desculpe por ter me chamado de vagabunda.
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  - Eu já me desculpei… – começou a falar, nervoso, mas, ao me ver indiferente, fechou os olhos e respirou fundo. – Me desculpe por ter me referido a você como vagabunda. Eu não quis dizer que você é uma, porque sei que não é. Satisfeita?
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  - É o que tenho para hoje. – falei, cruzando minha perna. Fiquei satisfeita ao vê-lo tentar se conter mais uma vez. – Posso começar por o que eu quiser, desde que seja da lista de prioridades?
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  - Sim. – sua voz parecia travada. Abri um pequeno sorriso por vê-lo bravo comigo. – Comece por onde quiser.
  - Ok, então vou dar uma olhada nos cômodos priorizados. – peguei a planta do térreo e o bloco de caderno que ele me mostrou com a lista de prioridades e me retirei sem pedir permissão.
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  Quando voltei para o campus, Kendra não estava mais no quarto. Deve ter saído com seus amigos para voltar à festa. Trouxe a planta do andar térreo comigo e abri meu notebook, afim de ver lugares para comprar os móveis e materiais da reforma. Pela primeira vez desde minha vida passada, não pensei nos meus estudos ou nas notas que terei de manter nos testes de avaliação que virão na semana depois dessa imensa folga. Mantive a mim mesma acordada por várias horas, os olhos grudados no meu notebook; sem perceber, estava aguardando o carregamento de um vídeo do Youtube. O vídeo era uma gravação caseira de uma das apresentações do estúdio de dança. Logo que o som preencheu meu quarto, pude ver parado no meio de um palco improvisado. Ele não parecia se preocupar com a falta de estrutura do palco ou da iluminação; a música parecia estar boa no ambiente e as pessoas demonstravam sua ansiedade e animação em vê-lo dançar através de gritos, palmas e assobios.
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  Parecia um pássaro voando livre acima da selva. Um imenso pássaro, com asas largas e penas negras e brancas cobrindo sua extensão. Os olhos, fechados, completava a expressão sofrida da música dramática que tocava. Mesmo sozinho, não era necessário muito mais para satisfazer toda a performance. mexia seu corpo em um ritmo além do normal. A sensação era de estarmos somente eu, ele e a música. Quando pedi para reproduzir novamente o vídeo, pude perceber que as pessoas no vídeo mantinham-se caladas, provavelmente tendo a mesma sensação que eu. Abri a boca, chocada com sua delicadeza e na maneira como deslizava de um lado para o outro como um pássaro.
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  Continuei olhando para a tela mesmo depois da música ter finalizado e o vídeo parado. Eu nunca poderia imaginar que ele dançasse tão bem. Claro que sei que ele é bom ou ótimo, afinal, ninguém pior do que todos os dançarinos do estúdio seria qualificado para ser o líder; entretanto, o que vi no vídeo era algo próximo à perfeição. Não entendo muito de música e dança, mas ser leiga não justifica negar que ele é um ótimo dançarino. Uma pessoa que ama a dança. Que ama o que faz.
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  Aperto os lábios, sentindo uma ponta de inveja apertar meu peito. Amar o que faz. Olho para o lado, onde os post its coloridos e organizados por ordem de importância estavam intactos pela primeira vez por mais de um dia seguido. Jamais imaginei que elas fossem significar tão pouco agora. Suspirei e espreguicei meu corpo, tentando acordar daquele transe. Achei que ficaria perdida somente nos olhos profundos de , mas me enganei. Solto uma breve risada, ligeiramente irritada comigo mesma; , de repente, se tornou uma pessoa interessante. Insuportável, mas interessante.
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Capítulo 5

  Os dias que se seguiram foram tão insuportáveis quanto os dias anteriores. Até quinta-feira dividi meu tempo entre meus deveres no trabalho e meus estudos; corri pela cidade com o mínimo de dinheiro que conseguia economizar à procura de mão de obra e materiais para a reforma solicitada por . Se na época próxima aos testes meu sono era limitado apenas algumas quatro ou cinco horas, deveria me acostumar a ter esta quantidade de sono por um bom tempo se quisesse continuar na sala S e receber dinheiro para pagar meus estudos.
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  Kendra voltou ao dormitório no final do dia. Jogou sua bolsa de couro em sua cadeira, na escrivaninha ao lado da minha e se jogou de cara em sua cama. Ignorei sua presença, pois estou focada demais em terminar de estudar direito civil. Deveria criar um bom argumento para a próxima aula prática, na segunda-feira depois da semana do saco cheio. Se fosse uma aluna normal, poderia esperar que os estudantes ainda estivessem de ressaca e não poderiam elaborar bons argumentos contra os meus, mas todos sabem que os alunos S não são os 10 melhores por puro dom. Nós nos esforçamos muito para nos mantermos aqui. Enquanto alguns passam as manhãs e parte da tarde estudando, nós perdemos as noites, madrugadas, finais de semana e, no caso de Gillian, o primeiro lugar, as férias. Por sorte, senti que estou conseguindo manter meu fluxo sem exagerar; o fato de não precisar ir até o estúdio nos dois últimos dias me ajudou a economizar o tempo da viagem para me dedicar mais aos estudos. Além disso, diminuí o tempo do meu banho e alimentação para ler mais. Uma hora de sono não fez muita diferença depois de um dia cheio, por isso, a partir de amanhã testarei diminuir mais uma hora e acrescentar mais carboidratos na minha alimentação para conseguir me manter saudável.
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  - Fiquei sabendo que retificou sua demissão. – a voz de Kendra saiu abafada pelo edredom. Não respondi, preferi me manter calada a expressar mais uma vez minha inimizade com o meu chefe. – As pessoas andam perguntando quando você irá aparecer no estúdio. – continuei a ignorando. Não tenho o menor interesse no que todas as pessoas daquele lugar pensam. Dinheiro. Preciso do dinheiro. Ele deve ser meu foco para conseguir suportar toda a humilhação. – Hey, estou falando com você, sabia? É má educação ignorar uma pessoa quando ela está falando.
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  - É mais mal educado atrapalhar alguém que está concentrada em seus estudos. – retruquei, finalmente virando minha cadeira para olhá-la. Kendra havia virado o rosto e olhava para mim. Solto o ar e balanço a cabeça, voltando minha atenção para meus estudos.
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  - Vamos jantar juntas.
  - Não, obrigada. Não caio na mesma duas vezes.
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  - Estou falando sério agora. – ouvi se mexer. – Sei que você tem memória fotográfica e só estuda para ter certeza de que não irá esquecer nenhuma informação possivelmente importante para o teste de avaliação.
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  - É verdade. Eu tenho memória fotográfica. – voltei a girar minha cadeira, vendo-a agora sentada. – Pode não parecer, mas nós do S queremos chegar ao primeiro lugar. Não queremos ter ninguém à nossa frente.
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  Kendra soltou uma risada.
  - Tudo bem, sei que você está empenhada a conseguir uma bolsa na mensalidade. Mas estou sendo sincera quando digo que gostaria de jantar com você como uma companheira de quarto de verdade; sabe, falar sobre nós.
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  - Foi mandada a se aproximar de mim? – perguntei, levantando uma sobrancelha. Pela sua expressão, vi que se sentiu ofendida; contudo, como uma boa aluna, pensou antes de se expressar:
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  - Tudo bem. Eu mereci essa. E provavelmente mereço também não ter sua confiança, mas gostaria de tentar mais uma vez.
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  Não a respondi. Olhei em seus olhos e me lembrei sobre dizer que sou uma péssima pessoa em analisar outra pessoa. Me pergunto se devo concordar com ele. Pode ser que minha falta de contato com outras pessoas ou o fato de não ter um círculo de amizade seja prova de sua hipótese. Enfim suspiro:
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  - Não desistir é uma qualidade importante para um profissional da área de direito. – falei baixo, vendo-a abrir um pequeno sorriso.
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  - Saber quando investir em algo também. – concordei com sua afirmação. – Gosta de comida asiática? – se levantou ao ver-me fechar meu livro e colocá-lo de volta à pilha de livros em pé em minha mesa. Levantei os ombros, mostrando que não havia problema para mim. – Ótimo, então vamos.
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  Olhei para o ambiente do restaurante que estávamos. Não me parecia estar de acordo com as leis atribuídas pela Vigilância Sanitária, mas não devo questionar as escolhas das outras pessoas, a não ser que elas me solicitem opinião. Contudo, o lugar realmente não me parece dos melhores, mesmo estando cheio.
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  Localizado em um beco, não há placa para identificar o local como um restaurante. A porta de ferro fechada espanta qualquer pessoa que gostaria de comer um lugar calmo, tranquilo e higiênico. As luzes estavam tão baixas que era difícil ver os rostos das pessoas sentadas às outras mesas; não há ninguém para nos receber e nos direcionar a uma mesa. Kendra pareceu já estar acostumada e não demorou a andar até um canto mais vazio do restaurante, uma mesa próxima ao bar. Sentei no banco estofado da mesa de quatro pessoas e aguardei o cardápio que nunca veio. Kendra pediu minha refeição por mim, confirmando antes se tinha alergia a algo em específico.
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  - O lugar não é dos mais arrumados, mas a comida é muito boa. O preço também vale a pena. – explicou ao me pegar analisando o locar de cabo a rabo. Assenti, sem saber se deveria confiar nela.
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  - Como encontrou este lugar?
  - É um dos points da galera. Você sabe. Que tem menos condições financeiras.
  Ela estava me mostrando os lugares que terei de comer futuramente. Não poderei me dar o luxo de comprar as comidas congeladas das lojas de conveniência no qual estou acostumada, ou comer no refeitório do campus. Teria de sair e vir a restaurantes escuros e sujos, localizados em becos perigosos para me manter nutrida. Estar nos Estados Unidos não me pareceu nada vantajoso com relação à São Paulo agora.
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  - Então – ela voltou a falar, chamando minha atenção de volta para ela. -, acredito que faz parte do processo da amizade, nos conhecermos melhor. Tudo o que sei de você é que não é daqui, é uma escrava dos seus pais e está prestes a se unir à maioria da população mundial, tornando-se uma classe baixa. Ah, e é uma obsessa por estudar, mesmo tendo memória fotográfica.
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  Ouvindo-a falar, não me parece uma vida boa. Mesmo que as palavras sejam rudes, o pouco que conheço de Kendra me faz saber que ela não tem a intenção de me ofender. Se tivesse, ela não me machucaria com palavras.
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  - Eu tenho um namorado. – falei, como se aquilo fosse mudar sua opinião sobre mim. A vi levantar uma sobrancelha, ligeiramente surpresa. – Vamos fazer cinco anos no começo do ano que vem.
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  - Cinco anos? Você tem um namorado a cinco anos? – ela perguntou, descrente da possibilidade. – Ele não vem te visitar?
  - Bem, ele não possui a mesma situação financeira que a minha. Está ocupado finalizando os estudos para poder ser efetivado e ganhar mais no seu estágio. – falei. – Ele é uma pessoa muito centrada.
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  - Quero ver a foto dele. – apontou para meu celular guardado em minha bolsa. Sem pestanejar, peguei o celular da bolsa e abri a única foto que tinha dele e mostrei para ela. – Uau. Estou chocada. – ela disse. – Não tem fotos de vocês dois?
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  - Não somos muito de tirar fotos juntos.
  - Mas nenhuma foto? – por um segundo, pensei que ela fosse estúpida. Estou com o celular aberto em sua frente e me viu selecionando a imagem dentro do álbum. Não havia outra foto de pessoa ali dentro, só aquela. Entretanto, pensando melhor, me lembrei sobre Helena dizer sobre nós dois não parecermos um casal. Não transamos e não tiramos fotos juntos. Depois de cinco anos de namoro, é normal que pelo menos tivéssemos uma foto para me lembrar do quão feliz sou ao seu lado. Aparentemente, estar solteira e estar com Gabriel me parece a mesma coisa. – Seus relacionamentos são tão esquisitos quanto você. – Kendra quebrou meus pensamentos, ao ver que eu não respondia seu choque. – Me fale sobre ele.
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  - O nome dele é Gabriel. – comecei, vendo-a concordar com a cabeça e receber nossas bebidas por mim. – Ele estuda engenharia e trabalha tanto quanto eu estudo para conseguir juntar um bom dinheiro.
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  - Pare! – ela levantou uma mão. – Que-chatice! – exclamou. – Sem ofensas, mas seu namorado parece tão chato quanto você! Quais são seus hobbies? O que se dão de dia dos namorados e Natal? Quantas vezes transavam por dia?
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  Corei ao ouvir a última pergunta e desviei meu olhar dela para um grupo de asiáticos que falava em alguma língua oriental. Riam e bebiam goles de cerveja sem parar.
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  - , vocês transam, não é? – Kendra perguntou, receosa pela resposta. Assim que voltei a encará-la, sabia que ela saberia a resposta. – Não acredito! Nenhuma vez? Você é virgem?
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  - Fale baixo! – coloquei a mão em sua boca, olhando para os lados. Ninguém pareceu se importar ou ouvir sua surpresa, mesmo assim, me senti exposta demais. Kendra estava boquiaberta e seus olhos muito arregalados. Eu sabia que sua reação seria exagerada, mas não tanto. – Nós só…
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  - Você tem medo?
  - Não! – exclamei. – Não tenho medo, é só que, bem, somos pessoas conservadas.
  - Ah, entendi. Vocês têm aquela promessa de só transarem depois de se casar…
  - Não! Não fizemos uma promessa, não uso anel da castidade! – levantei minha mão e a vi voltar a ficar surpresa. – Eu não sinto que devo transar sem estar no clima, só isso!
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  - . Vocês vão fazer cinco anos. Tem noção de quanto tempo é isso? Cinco anos? É tempo pra caralho! – arregalei os olhos ao vê-la falar o palavrão. – Cinco anos é tempo o suficiente para você saber pelo menos se quer ter filhos dele! Você acha que ficará grávida por trocar olhares com seu marido? Precisa de um pau e uma vagina para fazer acontecer!
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  Não disse nada. O nível da conversa está baixo demais para eu saber retruca-la. Não estou acostumada a ouvir tais palavras rudimentares e não sei como ela está acostumada a ser respondida, mas o melhor para mim é me manter calada observando sua inconformidade. Kendra continuou falando sobre sexo até nosso jantar chegar; admito ter perdido um pouco da fome que tinha depois de saber detalhes sobre suas relações com Hans, mas o fato de estar tendo essa conversa com uma garota me fez sentir como se estivesse de volta na época da escola. Estava sentindo falta de ouvir garotas falando sem parar de seus relacionamentos.
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  - Seus pais não te ligaram mais? – ela perguntou durante a janta. Concordei. – O que eles falam?
  - Eu não atendo. – respondi. – Não acho que estou preparada para falar com eles. Não quero ter de ouvi-los inventar desculpas para se justificarem ou ignorar meu sofrimento e perguntar se eu já encontrei um novo emprego.
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  - Isso justifica sua frieza com as pessoas. Caramba , veja bem, eu não venho de uma família de pessoas boas, mas nem por isso elas são tão filhas da puta como os seus pais. Tenho a intenção de ofendê-los, porque eles não me parecem nada legais.
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  - A verdade… – comecei a falar, tomando um gole do meu chá gelado. – A verdade é que não discordo de você. Meus pais não são bons exemplos de pais; vim para cá para ter um pouco mais de liberdade. Você pode achar que estudo por obrigação, mas eu gosto. Quando no Brasil, eles me obrigavam a fazer aulas de aeróbica e etiqueta; eu odiava. Queria voltar para casa e ler livros. A única coisa que os fazia parar de mandar em minha vida, era quando inventava que tinha de estudar para alguma prova. Eles não sabem da minha memória fotográfica, por isso, nunca me repreenderam quando fingia querer estudar mais.
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  Ficamos caladas sentindo o luto da falta de carinho familiar que recebi durante minha infância e adolescência. Quando penso em quantos momentos de alegria tive, posso somente dizer com certeza que foi quando recebi minha carta de Harvard. Saber que poderia viver uma vida sem limites era minha alegria, contudo, mesmo mudando para os Estados Unidos, continuei com a mesma rotina que meus pais impuseram desde quando eu era criança. Vindo para outro país descobri que estou velha demais para querer sair da minha zona de conforto; ninguém nunca diria que meus próprios pais me fariam sair dele por obrigação. Mesmo tendo aumentado meu círculo de amizade de zero para um e meio – Kendra ainda não conseguiu conquistar 100% da minha confiança e Ace é melhor do que qualquer amiga que tive durante a época do colégio -, ainda sinto repugnância pelos meus pais. Não estou feliz com amizades novas como deveria; tampouco estou feliz de estar nos Estados Unidos. Talvez se estivesse no Brasil, teria observado de perto os problemas que eles enfrentaram e conseguiria ter se precavido com Gabriel.
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  - Você bebe? – Kendra balançou uma garrafa preta em minha frente. Nego com a cabeça, mas ela ignora. – Beba um gole disso. É amargo no começo, mas depois fica doce; faz bem pro coração. Você sabia que as mulheres devem beber uma taça de vinho por dia?
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  - Você bebe bem mais do que uma taça de vinho por dia. – falo, bebericando um gole do álcool e fazendo uma careta logo em seguida. Quem diria que uma pequena quantidade de líquido fosse tão forte ao paladar?
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  Ouvi a risada de Kendra.
  - Uma mulher prevenida vale por duas. – faz um ‘v’ com os dedos indicador e anular e serve a si mesma com uma quantidade que era o triplo do que havia em minha taça. Por uma fração de segundo, agradeci mentalmente pela sua consideração, mesmo achando que não irei ingerir tudo o que me colocou na taça. – Agora vamos falar sobre coisas felizes. – ela sorriu, apoiando seus braços na mesa. – Você acha que conseguirá finalizar o prédio até o dia da apresentação?
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  - Hum, há uma grande possibilidade de atrasar, mas estou analisando alguns profissionais que estão interessados em dinheiro, principalmente porque estamos no final do ano e todos começam a pensar no extra para os presentes natalinos. Consegui alguns pintores, mas os vidraceiros estão bastante caros.
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  - Achei que não tivesse limites.
  - É o que ele diz, mas se há uma possibilidade de pagar mais barato, por que não?
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  A comida era extremamente gordurosa; não sei como conseguirei digerir toda essa gordura a partir de agora, mas irei procurar na internet, maneiras de ser saudável com pouco dinheiro. Não deve ser difícil, afinal, para se fazer uma salada não é necessário energia, tampouco gás. Pedi um chá verde assim que senti meu estômago reclamar do excesso de porcarias; disse que estava satisfeita quando Kendra perguntou se eu não iria mais comer. Sempre tive vontade de ter estômago forte, mas há algo nele que me faz ser uma pessoa saudável sem exatamente querer.
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  - O que você acha de ? – Kendra surgiu com o assunto de repente e não pude evitar de lhe mandar um olhar feio, como se ela já não soubesse minha opinião sobre meu chefe. – Não é possível que você não o ache nem um pouco, nem um pouquinho – fez um tamanho minúsculo com os dedos e até chegou a fechar um dos olhos para se expressar melhor. – atraente. Quero dizer, todas as mulheres e gays presentes ali já sonhou em dividir uma cama com ele, nem que fosse por uma noite.
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  - Há várias garotas que conseguem dividir um carro com ele por alguns minutos. – falei, me lembrando da terrível cena que presenciei indiretamente há alguns dias. Por sorte havia parado de comer; a combinação da cena com a comida gordurosa não me faria bem.
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  - Quem? Me fale! – Kendra se inclinou para cima da mesa. Levantei meus ombros, demonstrando que não sabia. – Você definitivamente deve começar a se enturmais mais, pelo menos para decorar o nome das pessoas. É uma pena que ainda não tenhamos uma ficha com fotos e nomes para você; seria de grande utilidade. Sempre quis saber qual o tipo de .
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  - É fácil. – falei, vendo-a levantar suas sobrancelhas, surpresa. – As vagabundas.
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  Kendra riu.
  - Você fica bastante cômica falando ‘vagabunda’, mas até que pegou bem. De fato, o sempre teve mal gosto para as garotas. Ele sempre pega as que são mais fáceis para ele, por isso é difícil saber se ele tem um tipo específico. Algumas pessoas falam que ele namorou Violet por alguns anos, mas o fato dos dois serem machos alfas em um relacionamento, acabou fazendo-os rapidamente se separar.
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  - Machos alfas?
  - Quando duas pessoas querem mandar num relacionamento. Geralmente os homens tomam atitudes, as mulheres decidem, mas quando os dois querem fazer as duas coisas descaradamente, acabam se separando. – ela mexia seus pauzinhos ‘hashis’ encenando uma relação. Concordei com a cabeça, entendendo seu ponto. – Mas diga, você nunca pensou no quão bom ele deve ser, hum, beijando?
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  - Não. Não tenho o menor interesse nele. Estaria muito melhor se não o tivesse conhecido. Ele dança bem, é um fato, mas não gosto de homens que acham que são os donos do mundo. Não é porque sou mulher que preciso indefesa e ingênua.
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  - Você é bastante ingênua.
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  - Não assim. Você me entendeu. – revirei os olhos e ela riu mais uma vez. – Não entendo como uma pessoa pode ficar com outras a ponto de transar sem compromisso.
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  - Você é mesmo bastante quadrada. Até Gillian transou com mais pessoas que você, e ela não é nem um pouco atraente. Não é nem ‘bonitinha’, sabe? Uma feia, arrumada.
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  Ri com sua expressão. Bonitinha se tornou uma ‘feia, arrumada’. É interessante e tem cabimento. Na época do colégio, quando alguém não queria machucar a amiga logo que ela apontava para sua nova paixão escolar, falava-se que ele era ‘bonitinho’; imediatamente todo mundo sabia que ele não era lindo.
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  - Gabriel é um cavalheiro. – protegi meu namorado, vendo Kendra fingir que estava vomitando. – Isso foi rude. Algumas pessoas não se importam de serem virgens para seus companheiros.
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  - Sim, as pessoas que possuem promessa de castidade. Que eu saiba, você não tem essa promessa, o que faz de você uma tola vivendo no século 21. Pode ser que você não esteja errada em guardar sua virgindade para o Gabriel – ela disse logo que me viu fechar a expressão. -, mas nada muda o fato de ser uma grande careta.
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  - Você está querendo me dizer que traição não é mais um pecado?
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  - Bom, grande parte da sociedade acha que sim, mas para aqueles que possuem valores mais liberais, a traição não é visto como uma traição em si, mas sim uma maneira de renovar as energias, não se desgastar no relacionamento, se sentir mais à vontade sexualmente com o parceiro…
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  - Pare! Isso é… Repugnante! – levantei minha mão para ela. – As pessoas se relacionam e se casam pensando que serão felizes para sempre. Fomos criados para dedicar nossa lealdade com um companheiro, por que esse conceito mudaria apenas porque mudamos de centenário? Não é errado ver casais de idosos que se casaram e dedicaram-se um ao outro. Todos dizem que querem ter alguém com quem possa envelhecer junto, mas acabam traindo seus companheiros na primeira oportunidade que existe. Trair machuca nossos sentimentos, nosso orgulho. Não é uma coisa boa, não é uma renovação de energia. Isso é ridículo!
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  - Tudo bem, temos opiniões opostas. Não vamos falar mais sobre isso. Você não vai perder sua virgindade com alguém que não seja Gabriel e eu não vou transar somente com Hans pelo resto da vida. Fim.
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  Mesmo querendo retruca-la, o fato dela ter posto um ponto final da discussão me fez entender que ela não queria brigar. Eu devo ter me exaltado um pouco, mas me lembro de todo o sofrimento estampado no rosto de Gabriel quando seus pais se separaram e toda a dor que causam até hoje com affairs não confirmados e filhos ilegítimos. É horrível. Traição só traz dor.
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  A quinta foi agitada com relação à quarta. Mesmo eu não correndo pela cidade à procura de mão de obra barata para a reforma dos primeiros andares e o Roof, o fato de ter combinado encontro com os profissionais que toparam dar uma olhada no prédio me fez ter menos tempo para estudar e mais tempo para gastar conversando com eles e tentando negociar um valor justo. se intrometeu no meio de minha negociação, mas como o dinheiro veio de seu bolso, não expus minha opinião ao ver dois dos oito homens saírem insatisfeitos e sem acordo algum.
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  - Você devia saber pelo perfil deles que eles esperavam lucrar mais de dois mil com uma simples pintura.
  - Bem, eu disse que não pagaria mais de 1.000, porque não era o prédio inteiro. – entrei atrás de si em sua sala, observando-o dar a volta em sua mesa e sentar em sua cadeira.
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  - Até 1.000 dólares é muito para esses caras que ganham 200 por um trabalho de final de semana.
  - Bem, então talvez seja melhor você correr atrás da mão de obra, porque está bastante claro para mim que não sei distinguir quem concorda em receber 600 reais para pintar um andar inteiro ou não. – cruzei meus braços.
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  - Você irá sempre discutir comigo? Não consegue tomar como aprendizado?
  - Talvez se você soubesse como usar sua tonalidade de voz, eu poderia interpretar que está tentando me ajudar; no entanto, atrapalhar minha negociação e pedir para eles se retirarem quando não aceitaram 600 dólares não é a melhor maneira de demonstrar ensinamento.
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  Nos calamos, encarando um os olhos do outro. Suspirei, exausta.
  - Se você irá reprovar tudo o que faço, por que quer que eu corra pela cidade procurando opções para você? Gastei três dias correndo atrás e selecionando profissionais que possuem currículo—
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  - Eu não preciso de pessoas com currículo. Preciso de pessoas que façam um bom trabalho por um valor baixo.
  - E onde você acha que encontrará essas pessoas? Quer importar chineses ou mexicanos? Há milhares deles loucos para pisar em terras americanas! – apontei para trás. – Se você quer pagar pouco por um trabalho, então não me diga que poderei gastar com conforto! Diga que tenho um limite! Diga que um trabalho de pintura de um andar vale 600 dólares!
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  Me senti envergonhada ao não vê-lo me retrucar. Manteve-se calado, me encarando sério, como se pensasse em uma boa resposta para me dar. Mas ele estava errado; estava errado desde quando não me orientou com limites de valores. Ao ver que ele não diria mais nada, pedi licença e saí de sua sala, indo até o quarto andar, onde uma música tocava extremamente alta. Não sei por que colocaram paredes antissom se todos deixam suas portas das salas de aula abertas.
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  A terceira porta mostrava uma sala mediana, onde duas paredes eram cobertas por espelhos recém-polidos. O piso estava encerado, mas possuía diversos riscos das solas que pisavam e rodopiavam em cima. Um grupo enorme de homens e mulheres se aqueciam ao som de Christina Aguilera. Ace estava ali em um canto conversando com algumas garotas, mas não ousei interrompê-lo. Não sei os horários de aula, mas sei que ele trabalha na parte da tarde.
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  Encostei na parede oposta da porta para observá-los dançar. Assim que Ace anunciou o início do treino, as pessoas o obedeceram rapidamente, colocando-se em seus lugares em posições iguais. Quando a música iniciou com uma forte batida e o primeiro dançarino pulou como um canguru de tão alto, vi que eles eram um grupo mais experiente. A música era rápida, fazendo os passos parecerem impossíveis de serem feitos por uma pessoa como eu. Fechei minha boca ao ver de longe meu reflexo surpreso no espelho.
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  Sempre achei que quem dançasse fizesse porque gostava. Não há muitas pessoas no mundo que não goste de música, muito menos que não arrisque dar alguns passos, mesmo desengonçados. Contudo, assistindo o movimento de seus corpos e me lembrando de algumas lições aprendidas na aula de etiqueta, quando aprendíamos a nos portar em conversações públicas, palcos ou na mesa de jantar, a professora sempre insistiu em firmar em nossas cabeças que a mensagem corporal era fundamental para o sucesso. Aquelas pessoas se movimentando juntas em passos iguais e sincronizados não pareciam gostar de dançar. Elas parecem amar.
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  Escorreguei encostada na parede até me sentar. Observei o grupo treinar a mesma música cerca de seis ou sete vezes seguidas para então pausarem para beberem algo ou beliscarem algum lanche que alguém havia trazido.
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  - Olha só, a mesquinha está aqui. – uma garota anunciou meu apelido ao me ver levantar e limpar minha jeans.
  - O que você achou, mesquinha? – uma das garotas se aproximou de mim com o grupo de amigas ao redor.
  - Vocês dançam extraordinariamente bem. – concordei com a cabeça e as vi rirem de mim.
  - Extraordina, o quê? – alguém disse dentro do grupo. – Ela é escrota.
  “Escrota?” Pensei. Escrota não é uma boa palavra para se dirigir a uma ‘pessoa’, principalmente a uma que acabou de elogiá-la.
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  - Eu sei que nós mandamos bem, mesquinha. Para alguém como você, qualquer um nesse grupo dançaria bem, mesmo com a Laurie errando o mesmo passo todas as vezes. – ela olhou para uma garota mais alta, parecendo mais desengonçada, que revirou os olhos e lhe falou um palavrão.
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  - Qual o papo com a minha amiga? – Ace se intrometeu na conversa, passando o braço por meus ombros. – Tania? – ele sorriu para uma das garotas. As vi se entreolharem.
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  - Amiga? Ace, você precisa filtrar melhor suas amizades, cara. – uma morena com os cabelos curtos e vermelhos disse.
  - Ela acha que falando como os ricos irá nos inferiorizar, mas essa guria está muito errada! – a tal de Tania disse. Abri a boca, chocada por ter sido mal interpretada.
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  - Eu não…
  - não machuca sequer uma formiga e olhem só vocês, todas ofendidas. Aposto que não entenderam bulhufas do que ela disse e acham que foi um xingamento de alguém da S. – Ace riu. – Mesmo sendo S, qualquer xingamento que não seja ‘energúmeno’ seria facilmente compreendido por vocês, meninas. Não a levem tão a mal.
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  - Não a levar a mão, ‘cê tá brincando, Ace. Se quiser comer a garota, precisa primeiro da permissão do .
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  - não tem nada a ver com a minha vida. – achei bom deixar claro, mas pela reação de Ace e as risadas das garotas, não deveria ter aberto minha boca. Elas se afastaram entre risadas e olhei para meu ‘amigo’, que me olhava sem graça. – Por que elas riram?
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  - Você acabou de dizer que nós estamos em um relacionamento aberto.
  - Somos amigos. – disse, ainda não compreendendo seu pesar. Talvez ele tivesse dito para apenas espantá-las de perto de mim?
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  - Não, . Você concordou quando elas disseram que eu quero te comer.
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  Arregalei meus olhos, abri minha boca e pensei em correr atrás delas para me corrigir, mas ele riu.
  - Não se preocupe, elas sabem que não é verdade. Não me leve a mal, mas você não faz muito meu tipo. Eu gosto de curvas, entende? – faz o formato de um violão com as mãos e solto uma risada. – E como vão as preparações?
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  - Não vão. não aprova nada do que faço. Me pergunto se ele realmente precisa de mim ou se só me quer aqui para me humilhar em cada oportunidade que encontra. – volto a me encostar na parede e Ace suspira.
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  - Ele só está sentindo a pressão de começar a colocar a mão na obra.
  - Mas ele não está colocando a mão na obra. O trabalho dele até agora é me interromper e dispensar todo mundo que eu tento trazer para fazer a reforma.
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  - Vou ver o que posso fazer para te ajudar. Ultimamente o humor dele anda tão negro que nem Violet consegue suportá-lo.
  Solto o ar, mostrando exaustão em ter de lidar com ele por muito mais tempo que Violet. Observei as pessoas entrarem e saírem da sala cumprimentando Ace, mas me ignorando.
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  - Por que todo mundo me odeia? Só porque sou ou era rica?
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  Ace colocou as mãos na cintura, pensando em como poderia me responder a pergunta. Ele mesmo não parecia saber como se expressar, até que me chamou com um dedo para dentro de uma sala vazia. As paredes antissom seriam uma boa agora.
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  - Não é que elas não gostem de você, algumas realmente tem preconceitos contra pessoas ricas, assim como ricos possuem preconceito contra os menos afortunados, mas você não tem culpa de nada, é só que elas passaram por maus momentos com pessoas ricas e a imagem acabou generalizando. Os alunos de Harvard entendem melhor sua posição, mas não tentam ajudar porque também estão tentando se enturmar; você deve entendê-los. – ele colocou uma mão em meu ombro.
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  - Não entendo por que simplesmente não me ignoram então.
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  - – ele suspirou mais uma vez. -, a verdade verdadeira, não me corrija, porque falei de propósito. – ele me olhou sério ao sentir me mover, perturbada pelo “verdade verdeira”. – A verdade verdadeira é que o fato de você estar sempre com as faz te odiarem. Não sei se Kendra já falou, mas as garotas são loucas por . Todo mundo é. Alguns sexualmente falando e outros não, mas ele é adorado aqui dentro. E você o trata mal, ele está sempre mal humorado depois de falar com você e mesmo assim, traz você de volta, quando todos tentam demonstrar serviço para ele, entende?
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  - Mesmo entendendo, eu não tenho culpa de nada; talvez de trata-lo mal e ser o motivo de seu mau humor, mas… Eu não estaria aqui se você não tivesse vindo falar comigo.
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  - Não deixe as pessoas saberem disso! – ele brincou, me fazendo rir. – Essa é uma verdade, mas você não deve se preocupar; as pessoas logo esquecem e com o tempo você começa a se dar melhor com elas. Kendra está se esforçando em limpar a imagem que criou de você aqui dentro. Os professores gostam de você e todo mundo acha que também, por isso não fazem maldades. – abri a boca para tentar interrompê-lo, mas ele foi mais rápido. – Acredite, elas conseguem ser muito piores. Mas como eu disse, você não deve se preocupar. Apenas dê tempo ao tempo. – recebi dois tapinhas em meu ombro como incentivo e concordei com a cabeça para mostrar que aceitei sua sugestão.
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  Depois de minha conversa com Ace, decidi continuar assistindo aos treinos do grupo que havia dado um tempo para descansar e o grupo seguinte de Bob. Ele me pareceu ser uma das pessoas que me atura porque precisa, mas duvido que sua razão em não gostar de mim seja porque tenho um relacionamento próximo de ódio com .
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  - Então, S, como você se sente se tornando pobre? – sua primeira fala me chamou a atenção. Quando me deparei com seu olhar, vi que ele estava propositalmente tentando me tirar do sério. Levantei meus ombros e respondi de forma simplória:
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  - Da mesma maneira que você se sente quando entra na minha sala de aula.
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  Aquilo pareceu calá-lo. O vi soltar uma risada nasal e cruzar os braços, apoiando-se na mesa em que eu estava sentada dentro da sala de dança. Não olhou para mim, mas pude sentir que sua atenção ainda era minha.
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  - Você sabe por que está aqui? – ele perguntou.
  - Porque eu e precisamos de coisas que somente eu e podemos fazer um pelo outro. – olhei para ele com minha péssima mania de achar que devo encarar as pessoas para demonstrar respeito a elas, mesmo não tendo respeito algum. Bob riu e balançou a cabeça: – Não pense besteiras.
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  - Você viu a maneira que se explicou? Como quer que não pense besteiras?
  - Bem, mesmo sendo um J, é inteligente o suficiente para estar em Harvard. – levantei meus ombros, vendo-o finalmente virar seu rosto para mim com um sorriso malicioso no rosto.
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  - Até que para uma S, você é bem engraçada.
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  - Então este será meu apelido? S? Uma letra?
  - Achei que os S gostassem de ser chamados assim. Uma maneira simples e eficiente de falar que vocês são melhores e mais inteligentes que o resto de nós.
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  - Desculpe, não estou sabendo desta teoria do egocentrismo pairando sobre minha imagem e de meus colegas de sala. Estamos ocupados demais tentando roubar ou manter nossas colocações. – Bob riu mais uma vez e deu um tapa em meu braço, de leve, como se estivéssemos nos divertindo como bons amigos.
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  - Sabe, sempre achei que J e S se dariam melhor do que as outras salas entre si, porque mesmo estando tão longe, somos a letra mais próxima de vocês.
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  - Faz sentido. – comentei. – Infelizmente, nunca conheci um J antes de você para poder lhe afirmar, mas aparentemente, você já encontrou com algum S para achar que somos tão ruins assim.
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  - Minha ex é S. Você deve saber quem ela é.
  - Desculpe, acho que não deixei claro que fora Kendra e agora Ace, eu nunca tive nenhum contato pessoal com alguém dentro de Harvard. – olhei para Bob, que cruzou os braços e colocou um sorriso nos lábios.
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  - Isso me faz gostar de você um pouco mais. – apontou para mim. Não pude evitar levantar uma sobrancelha. – Gillian. Namoramos por dois anos até ela tomar a primeira colocação e achar que somos incompatíveis demais para ficarmos juntos.
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  Isso explica sua intenção em odiar qualquer S. Gillian não é a garota mais delicada e gentil que já conheci. Na verdade, durante os julgamentos, odeio contra argumentar com ela, porque ela sempre ganha. Há algo em sua voz que a faz sempre ter razão, mesmo sendo claro para todos que o oponente tem o favor do caso. Gillian não é o primeiro lugar de Harvard porque é uma mente geniosa; ela é a primeira porque ela é, mesmo, a melhor aluna de direito. Minha relação com ela talvez seja a mais agradável entre todas as outras 2 alunas mulheres da nossa sala. O fato de nós mantermos um contato somente para comparar respostas, discutirmos sobre a prova com os professores e sermos as únicas garotas nas cinco primeiras colocações nos faz, indiretamente, considerarmos a outra como contato relevante depois de nos formarmos.
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  - Eu sei que está surpresa, Gillian não é uma garota que parece que um dia teve um namorado.
  - Na verdade, ela me parece bastante ter um namorado. – falei, chamando-lhe a atenção. – Gillian é muito mais sociável do que eu, por isso, do meu ponto de vista, não é impossível que ela não tenha jamais se relacionado.
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  Bob ficou me encarando por um tempo até seus alunos voltarem e tirarem sua atenção de minha conclusão. Nossa conversa foi finalizada ali. Até o final da aula, ele não falou mais comigo e quando foi embora, apenas disse para eu limpar a sala para deixa-la pronta para Cori no dia seguinte.
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  Parada no meio da sala com o rodo depois de tê-la varrido por completo, encarei meu reflexo no espelho. A essa hora, já não há mais alunos, nem professores no prédio, já que a festa na praia ainda acontece e os carros que haviam vindo para trazer os alunos de lá, voltaram. Com pelo menos o quarto andar para mim, liguei o som e não me importei de mudar o CD que agora tocava Pixie Lott. Não sei por que, mas minha memória fotográfica me fez guardar alguns passos que acho serem fáceis para minha inexperiência com a dança. Fecho os olhos e balanço a cabeça de acordo com que vou me lembrando dos passos feitos pelos alunos de Bob. Talvez eles sejam mais novos que os alunos de Ace, já que os passos eram muito mais fáceis até para pessoas péssimas como eu.
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  Com a mão firme no cabo do rodo, movi, com vergonha, meu pé direito, formando um semicírculo para trás. Joguei minha mão livre para o lado com leveza, sentindo cortar o vendo estagnado da sala. De acordo com que a música se tornava mais rápida, meu corpo pareceu formigar para eu aumentar meu ritmo. Mesmo errando alguns passos, não parei. Também não abri meus olhos, porque sentiria vergonha do meu corpo desengonçado se mover; o importante é achar que estou dançando como os alunos. Ouvindo a música, é como assisti-los dançar. Estou hipnotizada, meu corpo se mexe sem minha permissão e tudo o que tenho em mente é a voz de Pixie cantando com seu sotaque britânico, parece até que grita para mim “Dance mais! Dance mais!”.
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  Respiro o ar abafado que se formava na sala. Abro um pequeno sorriso ao imaginar a mim mesma no meio de todas aquelas pessoas, me divertindo como elas e me sentindo parte do grupo. Recebendo elogios ou até mesmo bronca por ter errado algum passo. Nunca dancei em minha vida; não uma dança coreografada. Ter meus pés seguindo uma regra é muito mais divertido do que não ter regra nenhuma em uma balada. Saber que há uma coreografia torna a música mais interessante, saber expressar a letra que é cantada faz com que me sinta como uma personagem da história da música.
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  Quando me lembro que na estrofe seguinte os dançarinos deveriam fazer uma pirueta em torno de si mesmo para dar então um passo de ballet, tento fazer o mesmo, mas obviamente não consegui, escorregando no chão encerado já que meus sapatos não são apropriados para a dança, mas, surpreendentemente, não caio no chão. Abro os olhos com o susto em sentir um par de mãos segurarem minha cintura e arregalo-os ao ver sério muito próximo de mim. Tão próximo que sinto o ar saindo de suas narinas. Tão próximo que me perco facilmente em seus olhos .
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  Ele não precisou dizer uma palavra para me fazer enrubescer ao ser pega de surpresa. Não consegui desviar meu olhar do seu, mas estou envergonhada demais para falar qualquer coisa. Esperei a ironia de suas palavras bater em meu rosto, mas não foi o que aconteceu.
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Capítulo 6

  - Você deve esquecer o peso de seu corpo. – explicou, sério. – O pé esquerdo deve continuar fixo no chão sendo somente a base da pirueta, a força do impulso deve vir da perna direita. – tocou minhas pernas, tirando de meu transe e me fazendo rapidamente empurrá-lo para longe de mim. Segurei o rodo que usei para encerar a sala e arrumei meu cabelo completamente embaraçado. – Você não é—
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  - Foi sem querer. – o cortei, desesperada para sumir de sua frente. – Não danço.
  - Não é o que parece. – sua voz é calma demais. Prefiro vê-lo me debochar a ter sua compreensão. – Você dança bem.
  - Não minta. Na verdade, não quero saber. Eu não danço. – repito novamente, dando-lhe as costas por estar muito envergonhada e indo desligar o som da rádio. Assim que o fiz, voltei a passar o rodo no chão com mais força e rapidez.
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  - , dançar não é uma vergonha. – o ouvi dizer. Não o respondi. – Você pode dançar e estudar, sabia?
  - Não diga besteiras. – resmunguei. Senti sua mão agarrar meu antebraço e então me virar para encará-lo.
  - Dançar não é uma besteira. Tampouco estudar. – sua voz era grave e o hálito de hortelã era uma novidade para mim. – Se você quer dançar, pode vir nas aulas…
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  - Não. Eu… – não sabia o que falar. Comparecer às aulas como uma aluna é impossível. Não tenho todo o talento; além do mais, as pessoas me odeiam, como iriam querer fazer qualquer trabalho em conjunto comigo? Não preciso de mais preocupações em minha vida. – Eu não danço. – foi o que consegui falar.
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  - Você parece estar dizendo um mantra para si mesmo. É claro que você não dança, você nunca dançou. Mas o que eu vi agora não é nada do que você está falando. Você dança, sim. E muito bem.
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  - Eu dancei aqui, mas não significa que eu dance. Eu. Não. Danço! – bati o rodo no chão, enervada por tê-lo me elogiando pelas qualidades erradas. Como pode uma pessoa que nunca se mexeu na vida receber elogios de um profissional, quando há centenas de pessoas loucas por ter sua aprovação?
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  - Prove.
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  - O quê? Como posso—
  - Se você não sabe dançar, então prove. Quero que faça os mesmos passos que fez agora.
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  - Isso é ridículo, não irei fazer nenhum passo—
  - Então você sabe dançar. – ele sorriu. Me calei, brava e nervosa. Ele estava fazendo isso de propósito.
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  - Fale o que quiser. – não havia terminado de encerar o piso, mas não o faria mais. – Eu não danço. – terminei nossa discussão, me retirando de perto dele o mais rápido que consegui. Por sorte, ele não me impediu de ir embora, tampouco pareceu se importar de eu estar fazendo hora extra.
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  O caminho de volta para a universidade não foi das melhores. Entre odiá-lo por querer me arrastar para o mundo da dança e me sentir envergonhada por ter dançado, nenhuma das duas situações me faz sentir melhor.
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  - Você dançou. – ouvi Kendra retirar meus tampões de ouvido que comprei no primeiro mês de aula, porque ela tinha costume de ouvir música do celular alto o suficiente para até a vizinha de nossa vizinha conseguir escutar. Desviei meu olhar para si, que agora se sentava em sua cama para poder me enxergar de uma maneira confortável. Não respondi, porque não queria que as palavras “eu dancei” saísse de minha boca, mesmo sua afirmação sendo verdadeira. – Você sabe o quanto está me amolando para fazê-la dançar?
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  - Agradeço se pelo menos desta vez você tomar meu lado como partido e me deixar em paz. Não se se você se lembra, mas o teste de avaliação é amanhã e se quiser chegar pelo menos na sala C até o final do curso, deve começar a se esforçar mais com seus estudos.
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  - Olha , não é por nada. – ouvi sua voz, mesmo tendo lhe dado as costas para voltar a gravar as leis fundamentais apontadas pelo professor Otler. – Mesmo você estudando, sendo uma S e tendo várias facilidades que eu não tenho aqui dentro, me sinto uma pessoa muito mais sortuda do que você pelo simples fato de eu ter uma vida social e você não.
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  - Bem, eu vejo exatamente o contrário. – respondi, escrevendo algumas leis sem olhar no livro para confirmar se decorei todas.
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  Ouvi seu suspiro, em que tenho certeza ter sido proposital para eu ouvir e vi que, como parte da lei da amizade, devo desviar minha atenção para ela por alguns segundos, até que se sinta satisfeita em falar com alguém para que então possa retornar aos meus estudos.
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  - Dançar faz bem para o corpo, você sabia? Conversei com Illa Winea da turma de medicina e ela disse que o corpo libera toxinas com o suor. Quando se estuda, as toxinas preenchem nosso corpo, fazendo com que percamos a fome ou nos esqueçamos de nos alimentar ou hidratar. Com a dança, podemos eliminar grande parte dessas toxinas e ter uma vida mais saudável.
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  - Você está inventando o nome da estudante e as vantagens de dançar.
  - E daí? Faz sentido. – ela sorriu. Tenho certeza que deu essa desculpa aos pais para que eles não a atormentassem por gastar tanto dinheiro com ela e no final, tê-la ligada mais no grupo de dança do que nos estudos arduamente pagos. – Veja bem, se você dança, seu corpo não se torna sedentário.
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  - Achei que quisesse ser minha amiga.
  - Quero mais continuar pegando Hans, você sabe, ele é um gato. E é rico. Se nada der certo aqui, ele é minha caixa forte.
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  - Como pode imaginar que algo dê errado, com você estudando em Harvard?
  - Harvard é só um nome. Claro que se você o tem em seu currículo, é facilmente colocado na primeira colocação das entrevistas; mas isso não quer dizer que você vá ser um bom profissional, que sairá empregado ou que terá uma boa vida. Mesmo que eles façam propagandas positivas sobre os alunos, esse sucesso não é referente a 100% dos graduados.
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  - E você acha que eu não sei? – falei, como se ela fosse tola. – Você acha que eu estudo arduamente para ser uma fracassada?
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  - Estou pensando com prevenção.
  - Está pensando como uma perdedora. – falei séria, vendo-a levantar as sobrancelhas. Suspiro e balanço a cabeça: – Se você gosta de dançar, não a julgo, mas eu não danço.
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  - Não é o que disse, e não sei se você se lembra, mas ele é profissional.
  Bati minha caneta em cima do caderno, como sempre faço quando erro alguma resposta que deveria decorar corretamente. Viro minha cadeira na direção de Kendra e digo, rude:
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  - Estou cansada de você e e todos ali acharem que sou uma tola que pode ser facilmente manipulada. Estou cansada de ter uma opinião e não ser aceita porque ela não condiz com as crenças e opiniões de vocês. Eu estou trabalhando pelo dinheiro; minha intenção é de dar o fora e me afastar de todos assim que terminar o curso. Eu não danço. Não gosto de dançar e estou começando a odiar todos que dançam!
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  Kendra não soube o que responder por alguns segundos, provavelmente surpresa por finalmente me ver demonstrar algum tipo de aborrecimento. Não gosto de explodir assim, mas ela e todos estão sendo injustos demais comigo. Posso não ser tão sensata com relação à vida, mas estudo muito para saber quando as pessoas estão abusando de minha boa vontade. Ouvi o ar pesado sair por seus lábios e soltar um riso nasal, pegando sua bolsa de retalhos e se retirar do quarto.
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  Fecho os olhos, tendo a única possível amiga de minha vida sair sem olhar em minha cara. Não posso me sentir mal por perdê-la, não estou errada. Estou certa. Lembro o que o doutor Richie disse sobre meu desempenho nas aulas práticas: devo ser mais firme em minhas decisões se quiser me convencer e convencer aos outros sobre minhas hipóteses.
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  Achei que falando aquilo para Kendra, as coisas voltariam a ser como eram, mas, aparentemente, ela não me pareceu se aborrecer e continuou a falar comigo como se nada tivesse acontecido. Além disso, parecia mais fácil de se lidar; se manteve longe de mim durante todo o momento que trouxe profissionais para apresentar o espaço depois de fechado acordo para o trabalho; fiquei feliz em saber que o térreo ficaria pronto em uma semana e meia.
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  No campus, procurei criar laços de contato com alguns alunos que fossem ligados à arte. Reconheci alguns que dançavam no estúdio e todos se demonstraram interessados em ajudar a decorar as salas e corredores do local. Criaram desenhos que levei para no final da sexta-feira seguinte, depois de ter recebido o resultado de que não desci nenhuma colocação, tampouco subi, apesar de minha nota ter aumentado, fazendo crescer o espaço de pontos entre eu e Jason no quinto lugar. A novidade na colocação foi Gillian ter perdido a primeira posição para Yang, um chinês americano que há meses a pressionava durante as aulas técnicas e práticas.
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  Depois de entregue os desenhos para selecionar os que mais lhe agradar, encontrei com Bob encostado na parede oposta à sala do chefe, com os braços cruzados e um pé apoiado na parede atrás de si. Achei que ele gostaria de falar com , por isso, ignorei sua presença e me afastei dele.
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  - Você é bem grosseira, S. – ouvi sua voz atrás de mim e me assustei ao vê-lo vir até onde estou. – Esperei você sair e sou ignorado.
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  - Achei que fosse falar com .
  - Nós, advogados, prezamos muito a comunicação. – reviro os olhos ao sentir sua primeira facada de nossa conversa. – Está voltando para o campus?
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  - Tenho algumas coisas para fazer.
  - Você sabe que mesmo sendo relativamente aceita pelos alunos e pessoas do bairro, não faz do lugar menos perigoso, não é?
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  Começamos a descer as escadas até o térreo, onde comecei a encerar o chão do palco do anfiteatro. As cadeiras chegariam no dia seguinte para preencherem o salão com 700 cadeiras e o chão deveria estar limpo para os funcionários pregarem os móveis no chão.
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  - Pegarei um táxi. A empresa irá pagar. – apontei para cima, onde estava cuidando de escolher os desenhos da decoração. Vejo Bob sorrir e encostar em uma parede. – Se irá ficar, por que não me ajuda?
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  - Não sou pago para limpar chão.
  - Nem eu. – olhei para ele, que mantinha seu sorriso irritante nos lábios e se desencostou, pegando o rodo com o pano que estava apoiado no balde. – O que você quer falar comigo?
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  - Sabe, conversar com você está me incentivando a tentar estudar. Se uma tola como você consegue se manter em terceiro, talvez não seja tão difícil chegar em segundo.
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  - Sabe, me ofendendo não fará você descobrir a razão de Gillian descer uma colocação. Principalmente depois que eu já disse que eu não sou próxima a ela. Isso mostra que mesmo sendo menos tolo que eu, ainda não é mais esperto para estar acima de mim. – olhei para Bob, que abriu um pequeno sorriso. – Seja o que for, a resposta é “não sei”, por isso, não perca seu tempo e vá embora.
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  - Mulheres sempre acham que nós, homens, achamos que elas são melhores amigas. – ele suspirou, cruzando o braço. – Sabe, , no seu mundinho você até pode ter razão em achar que sabe tudo sobre nós, mas na verdade, você não sabe de nada. Não vim aqui para saber a razão de Gillian descer uma colocação. Se você prestou atenção nos último ano, ela desceu de colocação várias vezes.
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  Revirei os olhos. Como poderia não saber, estou de olho em Gillian desde quando ela me derrotou nas aulas práticas pela primeira vez. Não tenho o costume de perder, muito menos de esquecer do rosto e do nome da pessoa que me derrotou.
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  - Vim aqui lhe propor uma parceria onde você fica amiga de Gillian e eu te ajudo com essa reforma.
  - Você quer ajudar na reforma independente de eu estar no meio ou não. Apenas seja mais corajoso em dizer que ainda tem sentimentos por sua ex e precisa de minha ajuda. – ouço a risada de Bob.
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  - , … – ele balança a cabeça. – O que eu disse sobre você achar que você conhece os homens? – devo dizer que seu corpo está tão próximo ao meu que consigo ver parte de uma tatuagem vindo de seu peitoral e subindo pela lateral do pescoço. – Quando eu disse “parceria”, quer dizer que tanto eu, quanto você precisamos da ajuda do outro para suceder o plano. Você pode achar que está tudo bem agora, mas as pessoas aqui não estão muito mais felizes em ter de te ver todo dia. – semicerro os olhos, querendo saber até onde ele chegaria com essa história. Eu sei que não sou benvinda, mas enquanto meu chefe precisar de mim e deixar isso claro, ninguém ousaria retruca-lo. – Na frente de eles podem demonstrar algo, mas por detrás de , você pode se machucar. Por isso, convenhamos – ele sorri o sorriso que meu pai intitulou de “sacana”. Via muito essa expressão no rosto dos clientes presos que ia visitar com meu pai e eles pediam para ele “dar um jeito”. -, você precisa de mais aliados senão Ace.
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  - E o que te faz pensar que eu quero você como aliado meu?
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  Bob levantou os ombros e colocou parte do cabelo que fugia do rabo preso e caía em frente ao rosto, atrapalhando sua visão sobre mim. Seus lábios continuavam curvados no sorriso “sacana” e deu um passo para trás, me dando visibilidade sobre seus braços tatuados.
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  - Na posição em que está, é lucro.
  De fato, ele está certo.
  Ace nunca teve medo de dizer a todos que gosta de mim como sua amiga, mesmo assim, ele sempre foi amigo de todos o suficiente para não estar em uma má situação quando precisava me proteger; contudo, sei que ele não pode fazer com frequência, ou as pessoas poderão começar a se afastar dele e fazê-lo perder seu posto de professor favorito do estúdio. Já Bob, as garotas gostam dele por causa do ar badboy que ele tem. Acredito que seja o efeito dos cabelos compridos e, quase sempre, sedosos. Além disso, quando fora do estúdio, ele sempre está com um cigarro preso entre os dentes, fazendo-o parecer Ben Barnes em As Crônicas de Nárnia e o Príncipe Caspian. Parando para pensar, ele se parece bem com Ben, mas com um ar muito mais rebelde.
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  - O que foi? – perguntou, vendo que demorei mais que o normal observando-o. Pisquei, sem graça e desviei o olhar de seu rosto. Gosto bastante de Ben Barnes, compará-lo foi um erro. Agora Bob me parece muito mais respeitoso.
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  - O que você quer exatamente de uma amizade minha com Gillian?
  - Que ela volte para mim.
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  - E por que você não tenta você mesmo falar com ela?
  Ouço um breve riso saindo de sua boca e ele joga os cabelos para trás com uma única mão.
  - Gillian não quer ser vista perto de mim. Você já viu algum S andar com um J?
  - Você poderia usar este aviso antes de falar comigo. – murmurei, mas ao vê-lo levantar as sobrancelhas, limpei a garganta. – Bem, não sou boa com amizades.
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  - Diga a novidade.
  Me calei, vendo-o mais uma vez ser rude comigo. Pegou o rodo de minha mão e começou a me ajudar a limpar o salão.
  - Tudo bem, posso tentar. Mas devo avisá-lo que se quiser minha ajuda, as coisas terão de ser da minha maneira. Gillian e eu não somos próximas senão na época das provas, por isso, pode levar um tempo para que eu consiga me aproximar dela fora dessa época sem levantar qualquer suspeita.
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  - Faça como quiser. – ele disse, me dando as costas e se afastando para limpar o outro lado do salão.
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  Eu provavelmente era a última pessoa a sair do estúdio. Suspirei, exausta ao pensar que ainda teria de ler a matéria de hoje antes de dormir, se quisesse me manter em dia com os estudos. Violet havia passado mais cedo por mim para me entregar o cartão de débito com um valor moderado dentro para pagar o táxi que viria me buscar. Agradeci mentalmente por não precisar falar com antes de sair. Olhei em direção ao segundo andar e as luzes estavam apagadas, por isso, interpretei que estava sozinha e me despedi dos seguranças, sem obter uma resposta.
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  No lado de fora, e uma garota loira conversavam de maneira expressiva. Tentei não ouvir a conversa, mas os seguranças pareciam não querer liberar a porta para que eu pudesse sair, por isso, fui obrigada a ser um espectador na cena dos dois:
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  - Achei que estivéssemos em algo, ! Estou cansada de vir até você e ao dar as costas, ver você se atracando com alguma aluna!
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  - Vivian, eu nunca disse que nós estávamos em algo.
  - Você disse, sim! Na festa na semana passada. Caramba, , não é possível que depois de um dia inteiro transando na praia, você possa se esquecer de tudo!
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  Olhei para trás, achando que estava demais para eu ficar ouvindo uma conversa tão pessoal. Balancei o braço em direção à cabine de segurança, mas me arrependi assim que ouvi o barulho da porta sendo destravada. Imediatamente, e Vivian olharam para mim.
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  - Desculpe. – murmurei, encostando com a maior discrição possível a porta e dando as costas para fugir rapidamente de levar algum sermão por ter ouvido seus problemas de casal.
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  - Espere aí, , tenho algumas coisas para falar para você. – a voz de surgiu e parei, não me virando e rezando para que ele estivesse brincando. – Entre no carro.
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  - Vou pegar um táxi.
  - Eu disse que tenho que—
  - O quê? ! Estamos no meio de uma conversa! Vá embora, Mesquinha. – balançou a mão, como as pessoas geralmente fazem para pássaros e cachorros se retirarem de perto de si.
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  - Vivian, a questão é simples. Não existe “nós”. Nós transamos, sim. Foi bom? Foi. Mas nem toda transa resulta em compromisso. Eu não estou em um compromisso com você, nem ninguém, por isso, posso me “atracar” com quem eu quiser. Agradeceria se você parasse de se martirizar, pois só você está se machucando entre nós dois. É para seu próprio bem. – lhe deu as costas e começou a andar em minha direção, tirando a chave do bolso e apertando o botão que destravava o carro. – Anda, , achei que fosse eficiente. – disse, irônico, pegando em meu antebraço e me empurrando para dentro do carro antes que pudesse protestar.
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  Vi Vivian reclamar e gritar alguns xingamentos antes de virar a esquina, indo em direção ao caminho para Harvard. Aguardei pacientemente ele iniciar o que deveria falar para mim, mas não houve nenhum diálogo até depois de dez minutos eu iniciar a conversa:
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  - O que quer falar?
  - O quê? – olhou para mim de relance enquanto dava atenção à rua.
  - Você disse que havia algo para me dizer.
  - Não era nada. Foi para Vivian me deixar em paz.
  Dei um riso nasalado, descrente que pudesse existir, no mundo, uma pessoa tão cara de pau quanto ele. Balanço a cabeça e começo minha missão de evitar, ao máximo, ter qualquer tipo de contato visual com ele; principalmente seus olhos .
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  - Estou aliviada. – comento.
  - O quê?
  - Não sou a única que você trata como um objeto.
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  - Como é que é? – sua voz saiu em um tom de riso, como se não pudesse acreditar no que eu dizia. – Desde quando eu te trato como um objeto?
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  - Não seja tolo, , você acha que não trata, mas trata. Você não se preocupa com as pessoas sentem, apenas percebe depois que já as machucou. Só porque está em uma posição privilegiada, acha que as pessoas são obrigadas a tolerá-lo.
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  - Você está mesmo começando a me dar sermão porque coloquei você dentro do meu carro ao invés de fazê-la voltar a pé?
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  - Não, , a questão não é essa? Viu como você não se importa? Deixe para lá. – falei, exausta demais para ter de discutir com ele. Tenho que poupar o máximo de energia possível, pois tenho que estudar para a prova de desempenho que teremos daqui a duas semanas. Sempre que Gillian cai uma colocação, tenho de me esforçar mais em não me esquecer das leis que possuo mais dificuldade em gravar. Todos na sala S veem seu fraco desempenho e começam a estudar mais para que na próxima prova, tenham uma oportunidade ainda maior de subirem de colocação ou não deixarem que outros passem em sua frente.
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  Pela primeira vez, não me respondeu nada. Manteve-se calado, o que me deixou surpresa a ponto de arriscar encará-lo. Ele encarava o trânsito sério, parecendo um pouco pensativo. Sua testa estava enrugada, provavelmente pensando no que eu havia acabado de dizer, o que é muito bom, já que de todas as coisas que discutimos até agora, ou eu perdi ou tive de fingir que perdi para o agrado dele.
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  - Não vou perguntar se você está livre hoje. Mesmo sendo sexta-feira, você é a única pessoa do mundo que conheço que não tem hora para descansar ou se divertir, por isso, diga, esperneie ou faça o que quiser, mas estou te raptando. – ouvi o som de seu carro acelerar com mais força e arregalei meus olhos, vendo-o se desviar do caminho para Harvard.
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  - Você só pode estar brincando. – mencionei, grudando minhas mãos em seu vidro ao ver a rua que estava acostumada a visualizar quando pego carona com Ace passar em um segundo. – Isso é algum tipo de castigo por eu ter lhe dito verdades? Você viu que estou certa e está tentando se vingar de mim? !
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  - Eu já disse, esperneie o quanto quiser, eu não me importo. Quero que você veja uma coisa.
  - Veja o quê? O que tem aberto a essa hora da noite, senão casas de dança repletas de luxúria e…
  - Você já parou pra pensar que seu linguajar é um tanto ultrapassado ou avançado demais para alunos da sua idade? – parei de falar, somente porque seu comentário foi aproximadamente o mesmo que Ace fez no dia em que nos conhecemos. – Sabe o que é isso? Excesso de estudo. Não é ruim estudar o máximo que conseguir, mas você deve entender que às vezes, as pessoas só querem manter um diálogo normal, sem ter de pensar em palavras difíceis. Porque você tem essa memória boa, acaba decorando as palavras que precisa usar nas suas provas ou alunas, não sei.
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  Mantive minha boca fechada, porque não queria lhe dar o luxo de me ver concordar. O que ele disse é uma grande verdade. Devido minha leitura e ser toda relacionada ao curso, tenho problemas em falar gírias contemporâneas. Desvio meu rosto, dando uma chance a de me levar a um lugar que não possamos discutir mais uma vez. Hoje está sendo um dia atípico. Não discutir com ele torna o dia incomum, mas ligeiramente mais agradável.
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  O caminho foi tão quebrado que me perdi depois da terceira curva à esquerda. parece conhecer a cidade com a palma de sua mão. Paramos em um estacionamento praticamente lotado. Ele jogou as chaves de seu carro para o manobrista que parecia já conhecê-lo e então o vi retirar um blaser do porta-malas antes de seguir à minha frente até a saída do estacionamento. A rua onde estávamos estava muito movimentada com carros populares, mas em sua maioria, de luxo. Luzes de holofotes faziam as ruas brilharem tanto quanto a Times Square em Nova Iorque. Tentei seguir seus passos, mas ao me sentir ofegante, obriguei-o a diminuir seus passos e me esperar alcançá-lo para atravessarmos a larga avenida juntos.
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  - Onde estamos? – perguntei pela primeira vez. Achei que não me ouviu, por isso, perguntei novamente. – , onde estamos?
  - Você logo verá. – percebi em sua tonalidade que ele parecia ansioso sobre onde quer que estejamos indo. As pessoas começavam a aparecer mais próximas umas às outras devido à quantidade que se amontoava à frente de uma casa específica. Olhei os cartazes espalhados pela parede do local e arregalei os olhos ao ver a foto de um casal de bailarinos em uma pose típica do Cisne Negro. Meus avós me levaram em meu aniversário de quinze anos para assistir a uma peça do Cisne Negro; na época, disse que queria ser bailarina, mas minha mãe acabou com meu sonho dizendo que eu deveria ter me decidido mais cedo, pois somente fazem sucesso, as bailarinas que começam desde a época infantil.
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  Não falei nada quando me pus no meio de todas aquelas pessoas bem vestidas. Eu, com uma jeans, alpargata e larga camisa de linho preso metade dentro da minha calça não parecia nada fina perto dos vestidos de paetê e saltos Loubotin que passam ao meu lado. Olhei para , que estava de acordo com os homens que estavam para participar do evento; uma calça social preta com uma camisa que era grudada em seu tronco. O blaser dava um ar mais esportivo, de modo que deixou claro que o evento não exigia muito dos convidados.
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  - Eu acho que não posso…
  - Você está comigo, relaxe. – seu tom de voz me dá a intenção de que está se divertindo. Enquanto encontra com seus conhecidos, observo ao redor com atenção. Todas as luzes espalhadas pela entrada, chamando a atenção até de quem está passando à frente do local dentro do carro. Vi, assim que cheguei à porta, que o local se trata de um teatro. O espaço irá apresentar grupos de dança desde o hip-hop até o tango. Nunca havia imaginado que pudesse haver um evento de classe média-alta que trouxesse tanta diversidade em tipos de dança.
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  Enquanto me perdia em observar todos os detalhes do teatro, colocou a mão em minha cintura para me direcionar à entrada, onde conversou com o segurança, mostrando sua identidade e sendo facilmente permitido entrar comigo como sua acompanhante.
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  - Você possui mesmo um ingresso para acompanhante? – perguntei assim que passamos a porta da entrada. Ele abriu um pequeno sorriso.
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  - Sempre compro dois ingressos, mas na maioria das vezes chamo um dos professores, porque não tenho ninguém em especial para convidar.
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  Não consigo evitar corar com seu comentário. me explicou que o evento é um jantar beneficente que os clubes e grupos de dança da região se reúnem para ajudar crianças carentes. Por alguns dos clubes fazerem parte da alta sociedade, é normal que os integrantes dessa classe compareçam ao evento para mostrar à todos que eles estão contribuindo com algo. O evento começa com um jantar com música ao vivo, tempo o suficiente para se divertir e conversar. Depois de uma hora e meia, as apresentações começariam e então não seria mais possível trocar qualquer palavra – anseio por esse momento.
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  Caminhamos até o primeiro andar do teatro, onde surpreendentemente me vi adentrando a porta do camarote. cumprimentou alguns outros indivíduos que já estavam acomodados em suas mesas iluminadas por candelabros folheados a ouro e velas já meio derretidas apoiadas em si. Grande parte das mesas era composta por casais. Me pergunto quantas mulheres já trouxe para jantar com ele e assistir mais dança além do que já viram durante o dia e a tarde inteira no estúdio. Ao me pegar pensando tal baboseira, balanço a cabeça, espantando o pensamento inútil.
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  - Você deve estar acostumada a participar destes tipos de evento. – ele comentou quando sentamos na mesa. Encare-o, confusa. Se ele queria dizer que eu estou acostumada a presenciar apresentações de dança, está bastante enganado. As únicas apresentações que assisti, foram as de ballet que meus avós me levavam quando mais jovem; mesmo assim, as casas de espetáculos em São Paulo são diferentes desta.
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  - Na verdade, nunca vim em algo assim antes. – respondi, observando com atenção o cardápio entregue assim que me sentei. O garçom rapidamente nos serviu de um vinho branco para começar. Levantei meu rosto e vi seu olhar surpreso para mim. – Quero dizer, fui à apresentações de ballet…
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  - Ballet… – ele riu. – Não sei como estou surpreso.
  Devido ao milagre de não estarmos discutindo com tanta frequência hoje, decidi me esforçar em não retruca-lo para não correr o risco de ser deixada sozinha neste lado da cidade, que apesar de claramente mais seguro de onde o estúdio se localiza, é mais desconhecido para mim. O garçom se apresentou a nós como Lou e disse que serviria a nós nesta noite. Ele explicou como funcionava o menu do jantar, que possuía três opções de entrada, principal e sobremesa, em que nós deveríamos escolher um de cada para nossa janta. Fiz meu pedido antes de , já que a lei da etiqueta exige que a mulher seja atendida antes.
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  Assim que Lou se afastou com nossos pedidos, olhei ao redor, interessada em observar o ambiente e as pessoas que passavam por nós. Percebi que somente aqueles que se encontram no camarote possuem o privilégio de jantarem antes do início da apresentação, por isso, grande parte dos outros setores se encontravam praticamente vazios. Algumas pessoas que pareciam ser importantes paravam em nossa mesa para cumprimentar e, consequentemente, eu, que tentei ao máximo não envergonhar meu chefe, algo que fiz com sucesso, já que sou graduada na turma avançada de etiqueta de São Paulo.
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  Durante o jantar, e eu conversamos sobre a reforma. O que já havia sido feito e que deveria de uma atenção extra por não estar da maneira que ele queria; a satisfação de determinados espaços terem gasto menos do que o orçamento oferecido e outros que precisarão de um dinheiro a mais se quiser ser deixado ao gosto de . No geral, nas duas últimas semanas finalizamos 19% do programado. A fachada externa do prédio estava em processo de reforma e combinei com que iria apressá-los para finalizarem antes do final de Novembro. Terminamos todas as combinações quando finalizamos a sobremesa. O tempo de Lou retirar nossas taças de tiramissu foi suficiente para as luzes serem apagadas e a introdução da apresentação ser feita.
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  A apresentação era diferente do que eu imaginava que seria. Com tantos tipos de dança apresentados no panfleto com a programação, achei que seriam somente apresentações seguidas uma das outras com um intervalo de vinte minutos para os dançarinos descansarem, o cenário ser trocado e as roupas serem rapidamente colocadas sem amassar. Contudo, assim que a primeira cena foi iniciada, me vi assistindo uma peça de teatro, onde clãs de dança disputavam sua atenção com seus movimentos ousados e sensuais. Danças com personalidades diferentes onde tinham seus dançarinos tentando demonstrar, com o poder do corpo, que eram superiores aos outros. Não consegui disfarçar minha fascinação em gostar da apresentação, de achar belas as pessoas, suas maquiagens, expressões e danças. Minha animação em assistir a peça foi tão grande, que minhas costas se desencostaram do encosto da cadeira para visualizar melhor aquele imenso grupo no palco. A história que os envolvia era impressionante; tanto que me peguei presa durante o intervalo e todo o caminho até de volta no carro de , onde o silêncio se manifestou.
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  - O que você achou?
  Esperava que ele não me fizesse essa pergunta. O que poderia dizer? Não poderia mentir e ferir seu ego. Olhei para ele, que dirigia tranquilamente, como se não tivesse pressa de me levar de volta para meu dormitório em Harvard. Engoli seco, pensando sobre quais palavras utilizar.
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  - Interessante. – escolhi, mostrando que estou contida em minha fascinação, mas que meu orgulho não permitiria que cedesse às suas expectativas de encontrar uma garota que disse não dançar, adorando a dança.
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  - Ano passado eu fazia parte desse grupo que se apresentou. – a informação me surpreendeu mais do que a descoberta de que a apresentação não era ordinária. Virei meu rosto, boquiaberta.
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  - Como?
  - Quis sair no início do ano passado, assim que a temporada de apresentações se acabou, para abrir meu próprio estúdio. Eu já tocava ele antes, mas achei que dedicar mais do meu tempo poderia ser melhor para todos.
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  - Você sacrificou sua carreira pelos seus alunos?
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  - Seu modo de pensar é engraçado. – ele riu. – Se apresentar aí é, de certo modo, o ápice da dança aqui no estado, mas eu já fui para outros lugares antes. Para um dançarino profissional, depois que você chega ao ápice de seus sonhos, mantê-lo e passá-los para outras pessoas é um bom futuro. Além disso, você deve saber quando sair. Esperar decair para desistir da carreira não garante nada.
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  Fiquei calada, pensando em seu ponto de vista. Não acredito que haverá um dia que eu desista de advogar porque acho que estou no ápice e não há mais nada que possa conquistar. Enfim, percebo que não posso comparar nossas profissões. Um dançarino é diferente de um advogado, que possui centenas de pessoas penduradas em seus pescoços para ajudá-las a ter uma vida melhor, enquanto quem dança deve se esforçar para entreter todos aqueles que entendem ou admiram a dança.
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  - Todos os dançarinos têm suas próprias profissões. – decidiu continuar a me surpreender. – Alguns são médicos cirurgiões, chefs gastronômicos, professores… Advogados. – olhou para mim. Engoli seco, receosa pelo caminho que ele está direcionando a conversa. – Trouxe você, porque queria te mostrar que dançar não é somente um hobby. De fato, grande parte dos dançarinos começaram suas carreiras pelo hobby, mas viram que a dança é muito mais que isso. Há pessoas de todas as classes sociais que quebram essas barreiras para usufruírem de um mesmo gosto. Ser rico ou pobre quando se dança não faz a menor diferença; o que conta para nós são os movimentos que seu corpo consegue fazer. Não estou querendo te obrigar a nada, porque sei quão teimosa você é. Mas você dança, ; não é uma dançarina caloura. Eu entendo de dança e tenho certeza que não estou enferrujado ao identificar um bom corpo maleável. – reviro os olhos e me mexo em meu lugar passageiro. – Preste atenção. Não vou insistir se você não quiser, mas você poderia tentar. Sozinha, comigo ou com Ace. Seja por hobby ou para desestressar. Isso não irá atrapalhar seus estudos. Troco horas de trabalho pela dança, se quiser.
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  - Você só pode estar brincando. – soltei uma risada, cruzando meus braços.
  - Você acha mesmo que eu suportaria um jantar inteiro com você por uma brincadeira? Você acha que dança é uma brincadeira para mim?
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  Seus olhos capturaram os meus. Me arrependi assim que os encarei. não parecia estar brincando e eu não estava levando a sério seu discurso. Foi como quando estávamos no estacionamento na semana do saco cheio e ele fez pouco caso de meu desabafo. Deveria pensar que ele apenas está pagando na mesma moeda o que senti, mas sou boba demais para deixá-lo nessa posição.
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  - Eu não danço. – falo baixo.
  - Você dança, sim.
  - O que você viu em mim? Eu só imitei alguns passos que vi, não é como se houvesse qualquer sinal de profissionalidade…
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  - Não está perfeito. – ele concordou. – Mas esses “alguns passos” que você deu depois de ficar algumas horas assistindo os alunos dançarem são mais perfeitos do que os que eles mesmos fazem. , o que você fez os alunos demoram meses para aprender. Meses. Não estou falando de três meses, estou falando de doze, quinze, dezoito meses. Aquela sala está com Bob há dois anos e meio.
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  Não soube o que responder. Dois anos e meio? Para aprender uma dança? Ou um passo? Senti meu ego começar a crescer e a possibilidade de fazer alguns passos, mas logo a imagem de meu diploma apareceu em minha frente. Minha prioridade é minha formação. Nunca tive um hobby. E se não soubesse controlá-lo a ponto de atrapalhar meus estudos?
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  - Não posso… – murmurei. Ouvi o som de sua respiração pesar e, sem dizer nada, acelerou o carro, voltando a dirigir como um louco como sempre faz.
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  Quando abri meus olhos de verdade, vi que estávamos de volta ao estúdio. estacionou à frente e desligou o carro, saindo e mandando fazer o mesmo. Os seguranças que eram pagos para ficarem durante a noite e a madrugada abriram a porta automática antes mesmo de tocar a campainha eletrônica. Com um bip, o carro foi trancado atrás de mim.
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  Subimos até o terceiro andar, onde as salas prontas estavam sendo mais utilizadas que as do quarto andar como no primeiro dia que entrei aqui. Estávamos reformando o quarto e quinto andar, por isso, pedimos aos alunos que utilizassem as novas salas com espelhos melhores, ar condicionado e toda a estrutura perfeita para as aulas. retirou o blaser e a camisa, mostrando a regata de algodão branca cobrindo seu tronco aparentando ser formado somente de músculos. Depois de vê-lo tanto nessa vestimenta, já não me sinto mais perturbada ou sem graça. Vi mais pedaços de pele de do que de Gabriel.
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   ligou o som e escolheu uma música, que logo identifiquei ser aquela que dancei sem querer. Dei passos para trás até encostar na parede.
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  - Venha. – ele disse. Neguei com a cabeça. – Venha, .
  - Não. – respondi. – Me deixe em paz.
  - Você vem ou eu precisarei te buscar?
  Olhei para ele, duvidando que ele pudesse fazer tal ação. Me dirigi em direção à porta da sala, mas ele rapidamente se apressou a pôr-se à frente, fechando-a e trancando.
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  - . Não quero.
  - Você quer. – ele falou. – Você só está com medo de que isso se torne mais importante do que seus estudos. Não a culpo de estar receosa em ter suas crenças alteradas, mas você precisa saber o que gosta de verdade.
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  - Eu não danço. – falo novamente, tentando, uma última vez, me desfazer do aperto de sua mão. Obviamente sou fraca demais para conseguir, por isso, quando vi, estávamos no meio do salão e a música tocava como se não tivesse um final. –
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  - Se você não gostar, não irei mais insistir. – sussurrou perto de mim, devido à proximidade de nossos corpos. – Você se lembra dos passos. Feche os olhos.
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  Eu poderia dizer mais tarde que estava atordoada por seus olhos. Culpá-los por me fazer obedecê-lo. Fechei meus olhos e deixei que a música penetrasse em meus ouvidos e tomando conta de minha mente, de modo que meu corpo amoleceu aos poucos e senti tomar a iniciativa, segurando em minha cintura para que pudesse dar o primeiro passo.
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  Como antes, parecia que já fizera isso dezenas de vezes. Que meu corpo já estava preparado e acostumado com os movimentos, realizando-os sem hesitar. Às vezes, me pegava presa entre as mãos de , que me ajudava a fazer os movimentos mais arriscados, onde era necessário um parceiro que aguentasse seu peso para levantar e leva-la até o chão. Alguns passos pareciam ser os mesmos que vi na apresentação de ballet há anos. Mesmo visto a apresentação pela última vez quando tinha 15 anos, foi como se tivesse assistido ainda hoje a dança, imitando os pés firmes e empinados das bailarinas, ombros eretos e rosto erguido. Mesmo com os olhos abertos, não enxergava nada senão qual seria o próximo movimento a realizar. finalizou a dança, segurando-me pela cintura e me inclinando, de modo que dependi de seus braços fortes para não me deixar cair de costas no chão. Pisquei, finalmente enxergando seus olhos e o rosto muito próximo ao meu. Sua respiração é forte e descompassada. Não parecia achar que sou pesada, pois não fez nenhuma careta para me provocar e dizer que preciso emagrecer.
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  Olhei para o lado e ao ver nossa posição pelo espelho embutido à parede, limpei minha garganta e rapidamente me afastei de si, voltando a ficar em pé e me afastando, um pouco tonta, de perto de seu corpo. Tentei arrumar os cabelos bagunçados e me esforcei o máximo que podia para não encarar seus olhos; mas sei que está me encarando. Está parado onde nós dois paramos, esperando que eu diga que ele tem razão, que gosto de dançar e que se me esforçar, serei uma dançarina boa como ele. Quer que eu o obedeça e troque horas de trabalho por horas de ensaio; que me una com todos os que me odeiam para ajudar a deixar a dança ainda mais cheia e bonita.
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  Empurro o cabelo que caía em meu rosto para trás da orelha. Olhei para a porta, tentando mostrar para ele que quero ir embora. Começo a pensar na desculpa que darei para não vir trabalhar no dia seguinte. Sempre achei que nunca precisaria pensar em uma mentira, mas estou tão envergonhada, que não quero ter de encará-lo amanhã.
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  - Você dança. – ele falou. Fechei meus olhos, tentando não ouvir o que ele diz, mas é impossível. Sei que ele está certo. Eu danço. Descobri algo que não seja estudar que eu faço bem. Algo que minha memória fotográfica pode me ajudar a aperfeiçoar, como me auxilia nos estudos. Dou-lhe as costas, me esforçando em não deixá-lo ver minha vontade de concordar com ele. “Eu não danço.” Digo mentalmente para mim mesma. Não danço. Eu estudo. Tenho de ser uma advogada. Tenho um plano que fiz há dois anos, não posso desistir dele porque algo novo apareceu. Preciso subir uma colocação na faculdade, é uma responsabilidade que tenho comigo mesma. Não posso mais esperar que meus pais possam resolver as coisas para mim. Gabriel me espera no Brasil para nos casarmos e termos nossa vida tranquila e feliz. Dançar nunca esteve nos meus planos. Não é agora que deve estar.
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  Senti suas mãos em minha cintura e foi como se todos meus pensamentos sumissem em um piscar. Tê-las ali, seus dedos pressionando minha pele… Quero dançar. Quero mexer meus pés e ser melhor em algo além dos estudos. Quero ser impressionante como ele é e que haja pessoas que se sintam fascinadas por seus movimentos como eu estive hoje durante o jantar.
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  - Pare. – peço, minha voz fraca demais por estar dizendo algo que não quero que aconteça. Quero muito que ele insista mais um pouco.
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  Sinto sua respiração em minha nuca. Meu corpo estremece com a proximidade. Gabriel nunca esteve próximo assim de mim. Nos beijamos, mas nunca estivemos próximos o suficiente para me arrepiar dessa maneira, senão nas primeiras vezes, quando ele ainda me conquistava. Esforço minha mente em fazê-lo aparecer para que tome alguma atitude contra atrás de mim. Não consigo. Gabriel não está sendo minha prioridade agora; minha fidelidade foi quebrada ao substituí-lo de meus pensamentos por . Ele era quem estava me provocando agora, portanto, ele quem tomava conta de minha mente.
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  Senti seu braço direito erguer e me engano ao achar que ele fará algo. Apenas destrancou a porta e a abriu à minha frente.
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  - Se você não quer dançar, pode ir embora.
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  Meus olhos se arregalaram olhando o breu do corredor. A única iluminação vem da sala onde estamos, por isso, é mais fácil encará-lo do que ir de frente à escuridão. Engoli seco, meu corpo pronto para se mover para longe de ; o problema foi minha mente. Dentro de mim, uma voz dizia que eu deveria me manter parada com . Ali era meu lugar. Com todas aquelas pessoas. Pela primeira vez, tenho a oportunidade de participar de algo que me convidam por eu ser boa, não por serem obrigados por haver uma voz autoritária mandando. Mesmo que haja pessoas que chegam a me odiar, há mais pessoas que gostam de mim do que na época escolar. Helena é o único contato que tenho e mesmo assim, não sei se ela é alguém que posso chamar de colega como Kendra ou Ace.
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  Dei um passo para frente, sentindo soltar o ar em um riso nasal. Segurei a porta e, para sua surpresa, fechei-a antes que pudesse mudar minha ideia de querer sair dali e voltar a ser tratada como um objeto ou uma bactéria indesejada. Encostei minha cabeça na porta, me perguntando que tipo de loucura se passa por minha cabeça para querer fazer algo assim. Aperto os olhos, tentando voltar à realidade, mas ao voltar a abri-los, nada mudou.
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  Viro meu corpo e me deparo com me encarando com um pequeno sorriso. Levantou seu braço esquerdo com a mão aberta, pedindo para que eu depositasse a minha ali.
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  - Venha, vou te mostrar o que precisa melhorar.
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Capítulo 7

  Quando mostrou minha dança para os professores e os alunos veteranos, senti que todos passaram a me tratar melhor e com mais respeito. Saber que a mesquinha dançava até melhor que alguns deles fazia com que o ódio de alguns se esvaísse e de outros se intensificassem por haver mais um obstáculo na realização de seus sonhos – ou de chamar a atenção do chefe.
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  - Você tem mais força no seu pé direito, então tente dar os rodopios apoiados nele. – Hans disse no final da sexta-feira seguinte, depois de ter feito algumas horas de treinamento com ele a pedido de . Como esperado, Hans era ousado em seus movimentos, mas não deixou de se ver surpreso por minha facilidade em aprender a imitá-lo. Infelizmente, não entendo de dança o suficiente para arriscar passos novos por mim mesma; tudo o que faço é limitado ao que assisto-os fazer.
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  - Tudo bem. – falei, memorizando o aviso e olhando para minhas pernas, que parecem iguais a olho nu. Olhei no relógio, que marca o fim de meu expediente no trabalho; me despeço com um agradecimento do namorado de Kendra e saio correndo para o vestiário, onde um grupo de garotas conversavam sentadas, trajadas somente em suas toalhas. Cumprimento, sendo respondida por algumas – a minoria.
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  - Então, desde quando dança? – Patricia, que me lembro, se apoiou no batente do meu chuveiro, me deixando sem graça, já que seu corpo cheios de curvas bem delineadas e a pele em um tom bronzeado muito bonito, deixava o meu corpo sem graça.
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  - Na verdade, comecei semana passada. – falo, me ensaboando. Ouço sua risada.
  - ‘Tá falando sério? – concordei com a cabeça ao vê-la não acreditar no que digo. – Como?
  - Como?
  - Como consegue surpreender sem nunca ter dançado?
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  - Não sei.
  - Você não acha que isso é ofensivo para todos que treinam duro há anos?
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  - Acho. Não quero pegar o lugar de ninguém.
  - Isso não tem nada a ver. – Patricia olha para meu corpo. – Você está em algum relacionamento com ?
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  - Ele é meu chefe…
  - Você me entendeu. – sua voz parecia agora irritada. Inclinei minha cabeça para o lado direito, pensativa, até entender que ela deveria estar se referindo a um affair.
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  - Ah! Não, não temos nada! – levanto meu braço. – Não nos damos bem, vivemos brigando.
  - Exatamente. – Patricia apontou para mim. – Você já viu brigar com alguém? Ele nunca provoca nenhuma mulher. Ele jamais correu atrás de alguém ou pediu para todos assistirem a uma apresentação. Nunca pediu para Hans, um dos melhores professores, dar aulas particulares a alguém.
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  Abro a boca, não me importando com a água que entra por causa do chuveiro aberto. Ele nunca havia feito nada disso? Sei que ele não tem o costume de brigar e ser uma pessoa pacífica, mas não vejo sua personalidade agressiva como um aspecto positivo. Preferia ser tratada como todos se fosse possível.
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  - Estou apenas te avisando, porque há uma das alunas que está de olho em você. – ah, então ela estava tentando me ajudar. Preciso treinar melhor minha análise corporal das pessoas. Patricia não parecia estar disposta a ser alguém próximo a mim. As pessoas deveriam sorrir quando tivessem a intenção de ajudar. – Enquanto você não é ninguém, é bom, . Mas a partir do momento que você se torna alguém aqui dentro, e um alguém que se mostra interessado, você corre mais risco do que uma pessoa normal andando na rua às duas da manhã.
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  Sou deixada sozinha com meus pensamentos quando Patricia sai sem se despedir ou esperar que eu agradeça por tentar me ajudar. Ao terminar de tomar meu banho, me arrumo rapidamente para voltar para o dormitório antes que anoiteça. Mesmo estando nos Estados Unidos, ainda não me sinto segura em andar sozinha e pegar transporte público depois de escurecido. Desço as escadas até o térreo rapidamente e me deparo com conversando com um grupo de alunas que pareciam ter sido retiradas direto da caixa de bonecas Barbie. Olhou para mim e então para seu relógio.
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  - Você não disse que faria a hora extra hoje?
  - Semana que vem. – anuncio, esperando que a segurança, ainda atrasando somente para mim, abrisse a porta automática. – Estou na semana véspera do teste de desempenho. – explico, ao vê-lo levantar sua sobrancelha.
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  - Você não deveria ter marcado esse horário no seu calendário de trabalho? – olhei para ele, com uma expressão “mesmo?” Ele estava discutindo comigo na frente das alunas porque eu estava saindo em meu horário normal para estudar?
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  - Eu deveria seguir o calendário que você fez, se não quisesse tanto que eu fizesse as aulas com Hans. Deveria ter saído há quarenta minutos.
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  - Hey, estamos em uma conversa aqui, se você não percebeu. – a garota loira à frente disse. Murmurei um pedido de desculpas, mas não pareceu se importar, voltando a falar:
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  - Venha à minha sala, precisamos discutir esse seu horário. Se toda vez que você tiver prova de desempenho, sair mais cedo durante a semana anterior inteira, teremos problemas. Os pedreiros e vidraceiros ainda estão no prédio, quem está de olho neles?
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  - Violet. Volte para sua conversa, não quero mais atrapalhar.
  - Não está, nós já tínhamos terminado.
  Vi as garotas olharem para ele boquiabertas e então para mim, nervosas. Fechei meus olhos, clamando por paciência. Será que ele não percebe?
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  - Vamos. – ele deu as costas às garotas e subiu à minha frente.
  Respirei fundo e corri para não ser pega pelas garotas, que estavam prontas para me pegarem pelos cabelos.
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  - , será que você poderia me ignorar quando estamos aqui dentro? Não sei se você percebeu, mas suas alunas não gostam quando você desvia a atenção delas para falar comigo.
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  - Não há motivo, eu já havia terminado, já disse. – tirou seu computador da hibernação e clicou em uma janela já aberta que mostrava meu calendário de trabalho. – Não posso ficar te pagando o que pago para você sair mais cedo.
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  - Mas estou chegando mais cedo. – falei. Ele não pode me retrucar, porque não chegava mais cedo que eu. Quando entrava no estúdio, já estou com o grupo de pedreiros orientando-os em seu trabalho. – Eu sei sobre meu banco de horas e não pretendo não cumpri-los se é isso o que lhe perturba. Será que você não poderia confiar mais em mim? Estou fazendo tudo o que manda, até decidi dançar.
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  - Agora a culpa é minha por você querer dançar?
  - Eu sempre disse desde o início que não queria. Você me convenceu, agora deve enfrentar comigo minhas dificuldades.
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   sentiu a responsabilidade. De um tempo para cá temos discutido com menos frequência, mesmo nos encontrando sempre dentro do estúdio. Mesmo assim, algumas vezes, como agora, é impossível deixarmos nossas diferenças de lado. Nossa relação já virou piada entre os professores do estúdio, que depois de me verem dançar, se sentem mais confortáveis perto de mim; principalmente para criticar meus passos e exigirem melhores performances em meus ensaios.
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  Kendra e eu também estamos mais próximas. Ela faz parte do grupo que fala comigo querendo que as ajude a melhorar. Quando estou estudando, de vez em quando ela põe uma de suas músicas e pede que eu dance o que aprendi para que ela possa pegar também os passos. No início me sentia nervosa, porque queria estudar, mas depois de um tempo, passei a acompanhá-la sem pestanejar. No entanto, tenho sentido decair nos estudos. Algumas aulas passo sonolenta e um de meus professores mencionou minha desatenção em sua aula, algo anormal para uma aluna S. Assim, decidi que me esforçaria mais para estudar, manter meu nível e não perder a imagem que criei durante os dois anos e meio para os professores.
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  Durante o final de semana, pediu que eu pagasse as horas que devia, pois deveria sair da cidade para encomendar alguns materiais para as salas de vídeo. Concordei, desde que pudesse levar meu material de estudo para repassar a matéria da prova que aconteceria no domingo de manhã. Os testes de desempenho ocorrem sempre aos domingos, dia raro de feriados caírem. Os alunos da J geralmente não vão realizar a prova, como Bob mencionou quando perguntei se ele não estava estudando para o teste. Ao invés de preocupado, ele riu, dizendo que nunca havia feito uma prova desde quando entrou no curso.
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  - Dê uma pausa, eles querem confirmar se precisa de mais uma mão de tinta nas paredes do quinto andar.
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  Deixei meu material na sala de Violet, que permitiu, subindo comigo para uma de suas aulas matutinas. Conversei com os pedreiros, que mostraram fazer um ótimo trabalho. Achei que não conseguiriam finalizar até a quarta-feira seguinte, mas fiquei satisfeita ao verem que fizeram perfeitamente o que havia pedido, finalizando quatro dias antes. Passamos para o sexto andar e ofereci o almoço, de modo a animá-los para se esforçarem a finalizarem mais cedo. Ganhar mais por menos dias de trabalho é sempre um bom prêmio. Anotei seus pedidos para fazer o pedido por telefone e quando voltei à sala de Violet, encontrei meu material de estudo despedaçado pelo chão.
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  Todo meu material. Tudo o que eu havia anotado na última semana de aula, durante a revisão cotidiana que os professores fazem na semana da véspera do teste de desempenho. Ajoelhei, pegando o monte de papéis picotados no chão e na mesa de Violet, meu caderno estragado com tinta vermelha e a palavra “mesquinha” pintada em preto à frente.
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  - O que diabos… – Violet começou a falar quando adentrou à sala na companhia de Ace.
  - Baixinha, o que aconteceu? – o ouvi perguntar, mas estou descrente demais para responder. – Não acredito que chegaram a esse ponto. Você tem uma cópia delas? – neguei com a cabeça. – Merda…
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  Eu não havia terminado de revisar. Com o desespero, não me recordo bem das últimas aulas. Fecho meus olhos esperando que seja um sonho, mas ao abri-los, os papeis continuam espalhados em pedaços pequenos pelo chão.
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  Violet me dispensa para poder voltar à universidade e tentar recuperar o material. Ace me deu uma carona. Começou a falar dezenas de coisas. As pessoas podem me roubar; seria mil vezes melhor do que perder minhas anotações. Como poderei subir de colocação?
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  Na universidade, corro até a área dos dormitórios. Ao passar pelo banheiro feminino, vejo Gillian saindo com os cabelos molhados. Gillian. É isso.
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  - Gillian, boa tarde. – a chamo, vendo-a me olhar séria. Engulo seco.
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  - Nesta pasta contém as anotações das aulas de Brooklin. – ela me entrega a última pasta verde com o nome da matéria e do professor Brooklin escrita à mão em cima de um adesivo.
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  - Não sei como te agradecer. – falei com minha voz trêmula. Gillian não respondeu, tampouco se moveu, como achei que faria. – Você precisa deles para agora?
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  - Não, já estudei tudo.
  - Não irá revisar?
  - Não forço minha mente. Ela pode defasar com mais rapidez que o normal.
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  Parece fazer sentido. Me sinto envergonhada por parecer que estou fazendo as coisas de última hora. Sinto minhas maçãs do rosto corarem e concordo com a cabeça, voltando a encarar suas anotações e abrindo meu bloco de anotações com o nome da matéria e de Brooklin como Gillian fez com sua pasta. Começo a anotar tudo o que leio, ao mesmo tempo em que memorizo a matéria.
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  Ficamos vários minutos calada; eu, anotando e ela me observando. Acho que ela não confia em mim o suficiente para me deixar sozinha com suas anotações. Ela tem toda a razão, sou uma concorrente. Posso querer prejudica-la e destruir suas anotações, como fizeram com as minhas. No desespero, não pensei em suspeitar de ninguém, até porque os alunos presentes ali são todos da sala D para baixo. Mesmo se quisessem elevar seus níveis e mudar para salas superiores, não conseguiriam entrar na S e acima do quarto lugar de imediato.
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  - Você está saindo com Bob? – sua voz surgiu tão de repente que por um segundo pensei se ela quem havia feito a pergunta. Levantei meu rosto para encontrar seu par de olhos verdes depositados em mim com tanto interesse quanto eu via durante nossas aulas práticas.
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  - Não. Frequento o mesmo local que ele, mas…
  - Você dança? – perguntou, surpresa. Engulo seco e confirmo com a cabeça, mas rapidamente tentando me explicar:
  - Eu não sabia que sabia dançar. Na verdade, fui até lá porque Kendra, que mora comigo no dormitório tentou me ajudar, já que estou passando por alguns problemas. – decido não mencionar sobre meu problema financeiro. Assim como Gillian não me confia suas anotações, não lhe confio meu segredo. Se algum professor souber que trabalho como assistente do dono de um estúdio de dança, é bem capaz que não me respeitem o suficiente para confiarem em meus diálogos e argumentos. – Sem querer, vi que danço.
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  - Você tem aulas com Bob?
  - Não. Eu só faço… Bem. Tenho memória fotográfica, lembra? – aponto para minha cabeça, vendo-a concordar com a cabeça. – Sei que vocês foram namorados.
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  - Ele falou sobre mim?
  Concordei com a cabeça, porque me pareceu melhor do que falar em voz alta. Tenho a mania de falar demais quando começo a soltar a voz. Gillian não pareceu querer estender a conversa, mas vejo em seus olhos que está bastante curiosa para saber mais sobre o assunto.
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  - Você ainda gosta dele? – pergunto, tentando me entrosar com ela. Em meus olhos, lhe permito ver que é uma pergunta superficial, feita por obrigação, quando, na verdade, estou muito interessada, me lembrando do trato que fiz com Bob há uma semana e pouco.
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  Gillian olha para os lados, pensativa. Não sei se algum dia ela já chegou a conversar sobre amor com alguém, assim como nunca havia acontecido comigo até Kendra decidir ser uma boa amiga de verdade. Ainda estamos treinando nosso relacionamento, estreitando-o quando possível, mas me sinto mais confortável e disponível a ajuda-la quando precisa. Vejo Gillian morder o canto do lábio, como se estivesse se decidindo se deveria me falar ou não. Se fosse há um mês e meio, teria dito que não precisava me falar, mas também não teria minhas anotações picotadas e tido a oportunidade de ter esse momento mais íntimo com a segunda colocada da S.
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  - Não somos compatíveis.
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  - Dizem que polos opostos se atraem com mais facilidade. – retruco. Ficamos caladas, esperando que Gillian mesma tomasse a iniciativa. Olhou para mim e, como uma boa S, pude entender o que seus olhos diziam. Parte de mim ficou surpresa por conseguir compreender com tanta rapidez Gillian; sempre desejei uma amiga que pudesse se comunicar comigo através do olhar, mas nunca estive perto demais de uma pessoa para poder trocar um olhar longo como este.
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  Permanecemos caladas enquanto eu terminava de anotar o que precisava para refrescar minha memória sobre a aula. Me senti mais aliviada ao finalizar e me recordar de todas as palavras ditas pelo professor e suas caminhadas de um lado para o outro; um tipo de ‘tique’ por não conseguir ficar parado.
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  - Obrigada por me ajudar. – falei, empurrando de volta para ela sua pasta verde. Gillian pegou a pasta e a colocou em terceiro lugar na pilha que havia trazido para mim. Nos levantamos e arrumamos o lugar da cadeira de volta para seu lugar inicial. Caminhamos juntas até a área do dormitório feminino, onde deveríamos nos separar; eu morava no segundo andar e ela, no quarto. Nos encaramos quando chegamos em meu andar e ela me mandou um olhar antes de voltar a caminhar para subir os lances que faltavam para seu andar.
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  - Gillian. – chamei-a, vendo seu corpo virar e seus olhos castanhos me encararem, como se não tivesse interesse no que direi. – Saio todos os dias às 13:30 pelo portão B.
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  Sem dizer mais nada, demos as costas para a outra e seguimos nossos caminhos, separadas; eu, ligeiramente mais feliz de estar conseguindo firmar minha terceira amizade.
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  Milagrosamente, consegui me comunicar com Gabriel aquela noite. Geralmente ele passava a parte da noite estudando as matérias da faculdade ou criando seus trabalhos. Ele preferia não deixar nada ligado, como a internet, TV ou radio, porque possui déficit de atenção. Desde quando começamos a namorar, sempre foi difícil de mantermos uma conversa fixa por mais de quinze minutos. O máximo que conseguimos foi meia hora, quando estávamos dentro da sala da psicóloga escolar para fazermos a sessão anual. Mesmo que, ao contrário de mim, ele não tenha avaliações a cada duas semanas para a análise de seu desempenho, Gabriel não possui memória fotográfica para ajudá-lo, assim, vive se esforçando para fazer dar certo seu esforço em se formar no final deste ano. A época do TCC sempre foi um pesadelo para todos os alunos brasileiros; sei que é pressão atrás de pressão, e para uma pessoa como ele que trabalha de segunda a segunda, acabaria me tornando um martírio em sua vida se não o compreendesse.
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  - Seus cabelos estão longos. – ele observou assim que liguei a câmera. Toda vez que ligávamos a câmera do Skype, Gabriel observava alguma diferença em mim; mudanças positivas. Nunca ousou dizer que estou mais gorda, inchada ou com uma péssima cara pelo cansaço das provas finais. – Como estão as coisas?
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  - Melhores. Acho que já me acostumei à rotina. Hoje foi um dia muito estressante para mim. – comecei a falar, vendo-o desviar sua atenção do que fazia para olhar para mim preocupado. Em nossas conversas, não precisávamos parar o que fazíamos para nos falar. Ele fazia seus projetos, já que funcionava melhor dando atenção a várias coisas ao mesmo tempo, enquanto eu estudava enquanto ouvia-o falar sobre o trabalho, a faculdade ou algum momento de relaxamento que teve com seus amigos. Quando comecei a trabalhar, Gabriel me deu muitas dicas de como me manter nutrida e focada para que nada atrapalhasse meus estudos, na época, minha maior preocupação. Depois que comecei essa rotina, respeito-o ainda mais por conseguir aturar tanto trabalho todos os dias da semana incessantemente. – Estava no trabalho e levei minhas anotações que fiz durante a aula para revisar a matéria das provas de desempenho. Deixei na sala da sócia do meu chefe e quando voltei, estava tudo picotado no chão e sujo com tinta. Eu não havia terminado de fazer a revisão, então me desesperei porque não tive tempo de fazer uma cópia das anotações. Por sorte, a Gillian, se lembra? Ela foi gentil o suficiente para me auxiliar, emprestando suas anotações.
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  - Achei que vocês não se falassem. – ele comentou, ligeiramente mais relaxado ao saber que deu tudo certo no final.
  - Nós não nos falamos. – confirmo. – Mas temos um relacionamento próximo, se posso arriscar a dizer. Nós sempre recorremos à outra quando temos alguma dúvida ou achamos que estamos corretas sobre algum caso nos apresentado. Ela é uma boa cúmplice quando quero recorrer sobre alguma resposta que o professor declarou errado, mas que sei que está certo.
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  - Bem, então que bom que ela pode te ajudar. Você não pode se deixar relaxar, . – sua voz foi dura, mas sei que foi devido ao susto. Gabriel é o único que sabe que sou um pouco desastrada quando se trata de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Ao contrário dele, acabo me atrapalhando e me esquecendo de algum detalhe importante, como aconteceu agora. – Se você aderir ao costume de sair da sala de aula e ir até à gráfica tirar uma cópia, não sofrerá mais este tipo de apuro.
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  - Farei isso. – sorri, feliz por vê-lo preocupado e tentando me ajudar com costumes para não me prejudicar novamente. – E você? Quando terminará seu TCC?
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  - Nós estamos finalizando a quinta revisão. Nosso orientador é extremamente exigente e quer que o projeto seja perfeito. Estou gastando uma grande grana com ele. Nunca imaginei que criar um alarme fosse tão trabalhoso.
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  - Mas não é um alarme qualquer. Ele poderá ajudar idosos com Alzheimer a viverem tranquilamente quando sozinhos. – falei, orgulhosa. O projeto de Gabriel com seus colegas de sala era impressionante e totalmente sustentável. Acho incrível como eles podem criar algo fascinante como o projeto deles. – Não se contente com nada menor que um dez.
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  - Não irei. – ele mandou um sorriso para mim enquanto digitava no computador. – Fora o vandalismo, como anda o trabalho?
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  - Estamos um pouco atrasados, mesmo adiantando algumas coisas. – começo a falar devagar, pensando se seria certo falar sobre meu momento com , minha decisão em dançar e as aulas particulares com vários homens.
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  - Seu chefe continua a atormentando?
  - Não… Bem, um pouco, sim. – admito, vendo-o concordar com a cabeça. Ficamos calados por um tempo enquanto a dúvida que seguro dentro de mim desde minha conversa com Helena no início do mês passado martela minha mente. – Gabriel? – o chamo, ouvindo-o murmurar ‘hum’, mas não desviando seu olhar para mim. – Você não sente… Hum… Ciúmes?
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  Vi seus olhos finalmente procurarem por mim na tela, mas não tive coragem de ficar em seu campo de visão, olhando minha tela para saber se estava no alvo da câmera. Ele abriu um pequeno sorriso ao ver minha reação infantil e deixou o computador de lado, prestando atenção em mim.
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  - Sinto ciúmes desde quando você foi embora, mas não posso deixar que isso atrapalhe seus planos, não é? O seu futuro é brilhante, quero que se suceda. – abro um sorriso, aliviada por vê-lo ter uma reação positiva sobre minha dúvida. Helena disse que se ele não sente ciúmes, é porque está desencanado de mim. Saber que ele tem essa preocupação me deixa muito mais segura sobre nosso relacionamento. – Além do mais, nós iremos nos casar, lembra? De acordo com a minha programação, seis meses depois que me formar, poderei começar a procurar um apartamento para nós. Não será como a cobertura onde vive, mas será suficiente para ficarmos finalmente juntos. – abriu o sorriso com dentes brancos que sempre gostei. Sorri, feliz por vê-lo falar sobre nosso futuro. Ele quase nunca falava, já que não tínhamos muito tempo de discutir sobre isso e usávamos o pouco tempo disponível para atualizar o outro da atualidade.
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  - Gabriel, eu não tenho mais…
  - , desse jeito você me ofende. Você acha mesmo que estou me esforçando tudo isso para ainda depender da fortuna que você tinha? Acho que estou até mais rico que seus pais agora. – demos nossa primeira risada juntos. Ele parece mais alegre hoje, fazendo piadas que raramente vêm. – Preciso sair, estou finalizando a monografia para enviar para o nosso orientador e em seguida terei de ir até a casa de um dos integrantes do grupo para dar uma olhada no projeto.
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  - Tudo bem. – digo. – Eu vou estudar mais um pouco e dormir.
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  - Boa sorte no seu teste. Terceiro lugar amanhã.
  - Terceiro. – sorrio. – E… – antes de terminar minha frase, vejo-o acenar e desligar nossa ligação. Fico encarando a imagem da imagem desligada e suspiro, triste por mais uma vez não ouvir sua declaração de amor ao nos despedirmos.
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  Sábado seguinte chegou rapidamente. Acordei mais cedo, como sempre faço, para correr até o mural do rank e descobrir que lugar estou no desempenho da turma de 2015. Como sempre, há um espaço reservado para alunos S verificarem primeiro suas posições; um local privilegiado para os melhores alunos não se misturarem com os outros. Ter as melhores notas garantem bons privilégios, como a própria instituição menciona no início de todos os anos letivos.
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  Vejo um grande burburinho entre os alunos e estranho a discussão que acontece ao lado do mural. Mostro meu crachá para o segurança que guarda a entrada da área S e vejo meus colegas de sala com os rostos vermelhos. Não ouso abrir a boca para questionar o que pode ter acontecido; faz parte de nosso relacionamento, não nos relacionarmos uns com os outros. Passo por todos e chego ao mural, onde vejo meu nome salvo no quarto lugar. Parte de mim se sente mal por não ter conseguido subir uma colocação, contudo, o peso rapidamente se esvai ao ver o nome seis colocações depois de mim. Em décimo lugar vinha uma aluna da sala H – Una Parker. Procuro por Joseph Burke, até então dono da décima colocação por sessenta semanas seguidas, mas não o encontro. Volto a encarar a lista, vendo se há alguma surpresa maior que essa, mas a única diferença que tivemos na S, é Gillian voltando ao primeiro lugar.
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  Sempre que um novo aluno entra na S, somos obrigados a comparecer à sala para nos encontrarmos frente a frente com o novo concorrente. Tenho certeza que todos os meus colegas de sala estão tão apreensivos quanto eu sobre Una Parker. Estamos no penúltimo ano escolar e acostumados em variarmos nossas colocações entre nós; uma competição considerada saudável para os professores. Contudo, com a entrada de Una Parket, a harmonia foi quebrada. Não sabemos como ela é, o que mais acertou no teste, qual foi seu desempenho comparado ao de Joseph e, o mais importante, como ela conseguiu vir da sala H para a S de uma só vez.
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  A sala S não é como as outras salas do nosso ano. Ao invés de carteiras para caber mais alunos dentro da sala, nós possuímos um balcão que poderia ser utilizado espaçosamente por três ou quatro alunos. Com dicionários, os cinco livros mais importantes do curso, luminária para as aulas de fim de tarde e tomadas para nossos eletrônicos, nossa sala foi especialmente criada para alunos especiais. Há cinco balcões ao lado da janela e cinco ao lado da parede que agrega a porta da sala. Somos posicionados de acordo com nossa posição no rank e, consequentemente, posições pares ao lado da janela e ímpares ao lado da porta. Por ser a quarta colocada, me sento no segundo balcão atrás de Alden, o segundo colocado. Nos posicionamos em nossos lugares aguardando a chegada de Una Paker. O reitor da universidade entra, acompanhado do professor responsável por nossa sala e a coordenação. Sempre que um aluno entra na S, é motivo de quase uma festa para os perfis autoritários.
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  - É um enorme prazer observar o nível de nossos alunos se elevarem. Fazem oito anos que não encontramos uma turma tão dedicada e geniosa como esta. – o reitor inicia seu discurso, esbanjando orgulho a cada palavra dita. – Como já devem ter visto, esta semana tivemos uma grande surpresa com o resultado do teste de desempenho. Uma aluna H conseguiu quebrar todos os obstáculos para chegarem até vocês, S. Deem boas-vindas à Una Parker, décima colocada no ranking geral da turma de 2015.
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  Ao contrário do que imaginava, Una Parker não me parecia uma garota estudiosa. Com a saia mais curta do que as que eu, Gillian e as outras alunas usamos, maquiagem exagerada e os seios imensos, até o corpo docente presente ficou sem graça com sua imagem, mas aturando seus costumes por ter sido um caso extraordinário na universidade. Una não disse nada para nós quando o reitor pediu, tampouco respondemos as boas vindas quando chegou nossa vez de a cumprimentarmos. O coordenador do curso apresentou a ela seu lugar, no último andar dos balcões ao lado da janela, antigo local ocupado por Joseph Burke. Assistimos subir até o balcão e, calada, se sentar da maneira que lhe convinha.
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  Não costumo julgar as pessoas de primeira vista, mas não pude evitar não gostar de Una. Seu comportamento não condiz com sua inteligência e sua presença atrapalha a harmonia da sala. Me mantive calada ouvindo as palavras do reitor e coordenador; assim que fomos liberados, nós, um a um fomos saindo calados, com um grupo imenso de alunos do lado de fora gritando e pulando feito macacos quando Una saiu, celebrando a quebra do muro entre alunos S e o resto. Mesmo que não me importe com essa diferença, estou me sentindo um pouco perturbada por ver tantas pessoas sendo rudes apenas porque alguém que antes diziam que nunca conseguia entrar em nossa sala, acabou ingressando. O preconceito surgiu por alunos de A à J, não nós da sala S. Nunca falamos para ninguém que somos melhores que os outros, apenas focamos em continuar em nossa colocação.
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  Com o discurso, acabo me atrasando para ir até o estúdio. Para ajudar, uma das estações da linha que pego está interditada e tenho de pegar um táxi até o estúdio, já que não sei pegar ônibus e deve estar nervoso o suficiente para aturar uma desculpa minha, uma vez que já me ligou sete vezes desde quando saí da universidade.
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  - Está uma hora e dez atrasada.
  - Desculpe. – falo.
  - Sua desculpa é…
  - Hoje saiu o resultado de nosso teste de desempenho e uma aluna da sala H entrou na minha sala. Sempre que entra um novo aluno em minha sala, o reitor e seu corpo docente faz um discurso de boas-vindas especiais para nós. Não pude sair antes. E a estação da linha 3 está interditada, tive de pegar um táxi de lá até aqui.
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   pareceu compreender meu atraso. Resmungou algumas palavras e me mandou até o sétimo andar, onde alguns pedreiros começavam a reforma do Roof, lanchonete do estúdio. Passei minha manhã inteira com eles, verificando até coisas que não fazia a menor noção de como deveria ser feita. Ao terminar o trabalho com os pedreiros e deixando-os sob a supervisão de Cori e Tan, desci até o primeiro andar, me encontrando com , Kendra, Hans, Bob e Ace em sua sala.
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  - E aí, S? Fiquei sabendo que hoje foi dia de milagre em Harvard? – Ace sorri animado; parecia feliz do carma ter sido quebrado. – Quem saiu? Quem entrou? Como está se sentindo? Qual foi sua colocação?
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  - A pessoa era de qual sala? – Kendra perguntou, sentada no colo de Hans na poltrona localizada ao canto da sala. Olhei para todos e então para , que levantou a mão, permitindo que eu tivesse esse tempo para “fofocar” com todos.
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  - O nome dela é Una Parker, veio da…
  - UNA? – Ace, Kendra e Bob gritaram, me fazendo dar um pulo com o susto. Olho confusa para todos e vejo inclusive Hans e trocarem olhares.
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  - Espere. – Kendra sai de cima do colo de Hans e tira Ace de sua poltrona, empurrando-a de frente para eles e fechando a porta atrás de mim depois de me fazer sentar na mesma. – Una Parker? Uma ruiva com os olhos muito ? – concordo com a cabeça.
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  - Ela é uma H. – Bob falou. Concordei mais uma vez. – Para que lado este mundo está rodando…
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  - Vocês a conhecem? Ela é uma boa estudante? Tem boa memória? – me ponho no canto de minha poltrona, interessada em saber tudo sobre Una Parker. Preciso unir o máximo de informações que puder para que não seja pega de surpresa na próxima prova de desempenho que acontecerá na semana seguinte.
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  - . Ela é uma H. – Ace explica, paciente. – Uma H não é inteligente. Nem esforçada. Como ela conseguiu?
  - Se ela conseguiu, é porque ela é inteligente E esforçada, Ace. – Kendra olhou para todos.
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  - Mas por que ela decidiu entrar na S agora? Estamos no final do ano, ela não deveria estar treinando para o solo? – Hans pergunta para Ace, que parecia pensativo sobre o assunto.
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  - Qual colocação ela entrou? – Bob perguntou, provavelmente preocupado com Gillian.
  - Décima. Mas esperem! – levanto minhas mãos. – Vocês conhecerem-na é compreensível. – apontei para Bob, Kendra e Ace. – Mas vocês…
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  - . – Kendra me chamou. – Una é dançarina. A melhor, na verdade. Ela tem um solo na apresentação do final do ano e apenas não aceitou ser professora, porque não sabe se relacionar com as pessoas.
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  - Uma característica boa para se adaptar ao S. – Ace brinca, mas ninguém ri.
  Arregalo os olhos. Ela dança. Ela dança muito bem. Aqui. Aqui neste estúdio. Terei de encontrar com ela todos os dias durante o horário de aula e também no trabalho. Pensando na situação, minha mente dá um nó ainda maior. Como ela conseguiu estudar tanto para chegar à S e ter seu solo na apresentação de final de ano? Ela não deve ser nada menos do que genial. Estremeço com a chance de perder lugar para ela. Não posso.
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  - , mantenha a calma. – finalmente se pronuncia. Pisco, saindo de meu transe. Com seu comentário, os outros quatro me deram mais atenção e à minha situação.
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  - Ela está em décimo, você em quarto, relaxa, baixinha. – Ace sorri, mas não retribuo.
  - Ace, cara. Una estava na H. H. A antepenúltima pior, se lembra? Sabe quantas pessoas ela ultrapassou até chegar à décima colocação? não pode subestimá-la. Você precisa estudar se quiser chegar aos três primeiros. – Bob disse, olhando para mim sério. Encosto no sofá, derrotada. Ela conseguiu ultrapassar mais de 250 pessoas em duas semanas. Duas-semanas.
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  Sinto meus olhos enxerem de lágrimas. Como poderei competir com uma garota que é tão especial quanto qualquer um dos 9 colocados da sala? Somos geniais, mas sua colocação essa semana mostrou que ela pode deixar os outros de nós no chão. Solto o ar, quase sufocada depois que me lembrei que parei de respirar.
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  - , pare de se desesperar. Isso não faz muito sentido. Continue a estudar, irei investigar isso. – Kendra disse, colocando a mão em meu ombro. Olho para cima, encontrando seus olhos repletos de segurança. – Conheço Una Parker e se meus instintos estão certos, há alguma falcatrua aí.
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  - Vou ajudar Kendra, baixinha. – Ace sorri.
  - Obrigada… – respondo, minha voz fraca.
  Ace, Kendra e Hans se retiram da sala assim que veem que o assunto acabou. Bob olhou para mim esperando por um update sobre Gillian.
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  - Estamos todos assim. Pensar nessa situação era inimaginável. Mas se você quer ficar mais tranquilo, Gillian não te odeia e ainda se preocupa com você. – falei, vendo-o se satisfazer com minha resposta e se levantar, colocando a mão no meu ombro e apertando-a antes de sair sem dizer mais nenhuma palavra.
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  Assim que Bob se retirou, deixei meu rosto afundar em minhas mãos. Havia me esquecido de o telefone tocar e ele atender. Fiquei sem graça de mostrar minha fraqueza em sua frente. A verdade é que estou desesperada porque sei quão genial Una pode ser. Tenho me esforçado 110% para conseguir manter o ritmo de estudos e satisfazer os gostos de meu chefe. Se Una consegue ser a melhor dançarina e também entrar na décima colocação com facilidade, eu não deveria descansar e sim me esforçar ainda mais.
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  Me levantei e, sob o olhar de , anunciei minha saída para continuar o trabalho, afim de tirar todos aqueles pensamentos de minha mente.
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  O som era Madonna. A balada estava remixada, mas parecia original aos meus ouvidos. Hans havia me ensinado essa coreografia no início da semana dizendo ser uma boa alternativa para soltar os maus fluídos do corpo, depois de um dia de estresse das provas. , que tinha deixado as câmeras internas por último na lista de prioridades, pediu para que eu cuidasse de que todas estivessem instaladas e funcionando na sala de segurança até o fim desta semana, de modo que hoje me sinto mais segura de deixar minhas costas na sala de Violet ou dos professores. Nesta dança há vários rodopios, movimentos clássicos do ballet e agitados da dança de rua. Sinto minhas pernas mais fortes e meu fôlego durar mais. Depois de um tempo treinando, consigo manter meu foco em outras coisas, como meu reflexo no espelho, para me policiar melhor sobre meus passos. Com isso, vejo parado com os braços cruzados e encostados na parede ao lado da porta, observando meus passos.
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  - A raiva está sendo um bom fator para a sua dança agora.
  - Não estou com raiva.
  - Achei que sua percepção estava melhor. – se aproximou de mim, oferecendo uma garrafa de água. Aceitei depois de enxugar meu rosto suado. – Consigo ver através de seus movimentos, . O seu medo se transformou em raiva.
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  Pensei sobre sua análise. De fato, consigo sentir um rastro de raiva dentro de mim. Olho para meu reflexo no espelho e encontro uma diferente. Minha raiva antes era mantida dentro de mim e agora podia descontá-la na dança. Suspiro, desligando o som que não parava de tocar.
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  - O que você acha de dançar uma dupla? – ele pergunta.
  - Dupla?
  - Com um parceiro. – ele falou. Levanto meus ombros e bebo mais um gole da água.
  - Não vejo alguém que queira fazer dupla comigo em uma apresentação e os professores já possuem seus solos.
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  - Não mencionei o nome de alguém, mencionei? – perguntou. O encarei, confusa. – Estou falando de mim.
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  - Não brinca.
  - Pareço brincar? – levantou uma sobrancelha. Suspiro e nego com a cabeça.
  - Não quero me apresentar.
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  - Não me faça ter de convencê-la novamente.
  - Não me obrigue mais essa vez. Você não viu o que aconteceu? Não tenho mais tempo para me dedicar à dança, preciso garantir minha colocação e me sentir segura nele para conseguir ao menos a terceira colocação. Os testes a partir do próximo mês será mensal ao invés de quinzenal, por isso, meus concorrentes terão mais tempo para se dedicarem aos…
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  - Dance comigo. Agora.
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  - O quê?
  - Estou pedindo para você…
  - ! Estava te procurando. – olhamos para trás e vimos minha nova concorrente se aproximar. – Precisava combinar melhor com você o uso da sala do quarto andar, agora que estou me dedicando mais aos estudos, terei menos tempo para treinar… Ah, oi .
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  Assinto com a cabeça ao vê-la me encarar com um pequeno sorriso no rosto.
  - Não fiquei surpresa em ver que a sala S é tão diferente da H. Na verdade, estou me sentindo bem melhor na S. Receber privilégios é ótimo, não acha? Como é o quarto lugar? Estou pensando nos meus planos de estudo, acho que agora que entrei na décima, o primeiro está próximo. – soltou uma risada, fazendo com que minhas bochechas corassem com a raiva anônima vista até agora somente por . Ele ficou encarando a nós duas e não reclamou quando anunciei minha saída.
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  Durante o banho, fiquei pensando no que Una Parker disse. Ela tinha a intenção de roubar o lugar de Gillian e me mandar para o quinto lugar. Não posso permitir, devo começar a planejar melhor meus horários para conseguir subir uma colocação o mais rápido possível. Próxima semana será a última prova quinzenal e então estarei marcada.
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  Não sei por que não tentei me afogar no chuveiro.
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  O teste seguinte foi feito repleto de nervosismo. O ápice, foi ver Una Parker receber a prova e, uma hora e meia depois, levantar e entregar a prova inteira feita. Esforcei ao máximo minha mente para que não desviasse a atenção para o fato dela ter batido o recorde deste ano em rapidez ao realizar a prova. Depois de finalizado a prova, me pergunto se o fato dela ter terminado tão rápido se deve a saber toda a matéria com facilidade ou não saber de nada.
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  Posso afirmar que nenhum dos alunos da sala S estão confortáveis com a presença de Una. Geralmente, quando um novo aluno ingressa, vemo-lo como um novo concorrente saudável vindo da sala A ou B. Una veio da H e mostra que não faz a menor questão de agir como nós, ganhando popularidade na universidade por ser a única aluna S que conversa com todos de igual para igual. É o que dizem, pelo menos. Acho impressionante a maneira como as pessoas julgam pessoas como nós, o restante da sala S que é tímido e antissocial o suficiente para não arriscar um contato físico com outra pessoa que não seja o professor ou outros de nós. Por convivermos mais com o outro, é normal que conversemos mais; o mesmo ocorre com o fato de não sermos festeiros.
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  O resultado veio como na vez passada. No último teste de desempenho quinzenal, Una Parker ultrapassou Kentin Yohan, indo para o nono lugar. Minhas mãos tremeram assim que a vi virar para mim depois de ver, com satisfação, sua nova posição. Antes de se retirar da área especial para os alunos S entre a gritaria e alforria dos alunos da F abaixo celebrando sua conquista, Una olhou para mim com um sorriso e fez o número cinco com a mão direita, mostrando que faltam apenas cinco colocações para me derrubar.
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  - Eu vi. – Kendra falava na sala de , onde fui obrigada a me sentar por estar distraída demais e acabei cortando minha mão durante a decoração que realizava com Cori, Tan, Violet e Pietro. – Ela definitivamente fez o número cinco com a mão.
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  - Então é pessoal. – Ace disse, pensativo. – O que você fez para Una, baixinha?
  - Até sua décima colocação, não sabia quem ela era. – comentei, vendo Bob revirar os olhos, não gostando de minha resposta por confirmar que alunos S não se misturavam com outra turma. – Não é por mal, eu só não…
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  - Ele sabe, bella. – Pietro olhou feio para Bob. – Apenas está sendo inoportuno.
  - Então ok. Você não fez nada. O que será que ela pode achar que você fez, para querer tanto te tirar de sua posição? – Ace cruzou os braços, pensativos.
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  - Não é óbvio, Ace? – Kendra disse. – Una está se vingando por ter roubado dela.
  - O quê? – falei, descrente que uma situação tão séria pudesse ter sido causada por um engano tão chulo. – Não pode ser, há um equívoco.
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  - Ela tem razão. – se pronuncia, sentado em sua cadeira. – Não é possível que Una tente descer a este nível por causa disso.
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  - Não acho que seja uma descida de nível, . – Violet finalmente falou, depois de terminado o curativo em minha mão. – Todos sabemos que Una entrou no estúdio por causa de você, que faz tudo para chamar sua atenção, inclusive quebrou meu pulso há dois anos e meio. – levantou seu pulso ruim. – Além disso, foi ela quem acabou com todas as anotações de há algumas semanas.
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  - Como você sabe?
  - Você acha que sou tola? – Violet colocou as mãos na cintura. – Tenho documentos importantes nessa sala, não posso deixa-la sem uma câmera escondida como precaução.
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  Ficamos todos surpresos com a novidade de Violet. Agir fora dos planos de é atípico, fazendo com que ele se calasse.
  - A novidade é saber como ela conseguiu ficar tão inteligente, quando não sabia fazer contas matemáticas durante a época das raves. – apoiou o queixo em uma das mãos enquanto cruzava os braços.
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  Olho para minha mão machucada, pensando o que farei se chegar ao quinto lugar. Não consegui subir para terceiro, mesmo a diferença de pontos entre eu e ele diminuir consideravelmente. O quinto lugar não possui descontos na compra de materiais, algo solicitado com frequência pelos professores. O valor integral é sempre extremamente caro para um aluno bolsista, por isso, é importante recebe-lo, se não quiser depender de anotações ou digitalizações malfeitas.
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  O nervosismo com a situação também acabou por atrapalhar meus ensaios. Caía com frequência, trombava com o vidro e errava os passos. Durante as duas horas cedidas para meus ensaios, mais me machuquei que me concentrei, me fazendo sentir ainda mais nervosa. Apoiei meus braços no chão ao cair pela terceira vez seguida no mesmo momento da música; encarei o chão, ofegante, pensando o que poderia fazer para melhorar. Estudar mais não era a solução, sei tudo facilmente, tenho tudo decorado. Durante as aulas de dança, Una estava presente nas mesmas que eu, me empurrando e ficando em minha frente sempre que podia, atrapalhando minha performance. Quando estava presente, era tudo pior. Seus pés com frequência apareciam em minha frente e diversas vezes recebia tapas durante rodopios muito próximos.
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  - Você não está limpando a mente. – disse, encostado no batente da porta semiaberta. levanta o rosto para encará-lo, mas volta a olhar para o chão ao vê-lo parado. – Você não disse que a dança serviria de relaxamento? Não me parece relaxada.
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  - Não estou com vontade de discutir hoje, . Apenas me deixe aqui. – falei, exausta demais para ter mais essa discussão com ele. – Além do mais, já terminei. – me levantei com dificuldade por meu corpo estar mais dolorido que o normal e peguei a toalha pendurada na cadeira próxima à caixa de som, enxugando meu suor.
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  - Pensou sobre minha proposta? – ouvi sua voz se aproximar mais de mim. Virei meu corpo para ele antes que me pegasse de surpresa.
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  - Sim. A resposta é não, e não dançarei com você agora. – finalizei ao vê-lo abrir a boca. Desliguei o som e tirei o fio da tomada para que não houvesse nenhum estrago. Enquanto bebia um gole de minha água, senti suas mãos prensarem minha cintura e puxar-me para perto.
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  A surpresa foi tão repentina, que quando percebi, estávamos dançando sem nenhuma música. Não posso negar que temos encaixe. Tenho lido livros sobre dança e assistido a vídeos de profissionais ensinando e criticando outros dançarinos menos experientes; por isso, tenho uma noção melhor do que é uma boa dança ou não. tem um forte poder de liderança até na hora dos movimentos; mal vejo se mexer e já estou fazendo algo que é aprovado por sua expressão corporal.
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  Não sei quantos minutos nos movimentamos. Finalizamos a dança quando ele segura minha perna, na altura de minha coxa e empino meu pé para ficar mais alta e sentir a ponta de meu nariz tocar a dele, que tinha seu rosto abaixado para me fazer perder-me em seus olhos mais uma vez. Respiramos com nossas bocas abertas; não pude sentir mais nenhuma dor perturbante dos tombos e tapas que tomei durante o dia. Encarar os olhos de sempre me deixa em transe dentro de mim mesma. Sem perceber, desci meus olhos para seus lábios, que estavam entreabertos devido a respiração. Nunca os vi tão avermelhados e carnudos como agora. Não tive tempo de ceder à ideia de que estava curiosa em saber como seria tocá-los, pois tomou a iniciativa antes de mim.
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  É diferente de Gabriel. Sinto meu corpo inteiro estremecer quando sua mão solta minha perna e me ergue, carregando-me em seu colo, indo até a porta e trancando-a atrás de mim, evitando que fossemos atrapalhados como as vezes anteriores. Percebo que estamos no canto oposto da sala, quando ele apoia meu corpo sentado na mesa ao lado da caixa de som. Minhas mãos estão apoiadas em seus antebraços feitos de músculos; eles parecem muito mais rígidos do que as primeiras vezes que nos encontramos. Seus lábios são muito mais carnudos do que aparentam; durante o beijo, consigo me perder nele, na massagem que minha língua recebe de sua, algo que Gabriel dificilmente fazia – pelo menos não com tanta intensidade. A ‘mão boba’, como Kendra intitulou depois de ter comentado sobre as ações de Hans serem imprudentes demais para serem realizadas em público, agora estava deslizando pelas laterais de meu corpo como se seus olhos, fechados, fossem cegos de verdade e estivesse tentando descobrir qual a forma meu corpo tem. Arrisco subir minhas mãos para seu rosto e nuca, como vejo nas séries e filmes de romance; ao contrário dele, não consigo passar tanta emoção com meus toques, por isso, em contraste e para garantir que seu fogo não se apague, dá um passo a mais para perto de mim, como se fosse possível, e aprofunda ainda mais nosso beijo, começando a me deixar sem ar. Mesmo assim, não quero parar. A ideia de estar sendo infiel a Gabriel não é forte o suficiente para minhas mãos tomarem a atitude de me separar de . Seu corpo se encaixa tão perfeitamente com a minha, que sinto como se Gabriel nunca tivesse existido.
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  Nosso beijo acaba, quando a falta de ar começa a nos atrapalhar. Como nos filmes, Gabriel não se separa completamente de mim, me deixando sentir seu hálito de pasta de dente enquanto suas mãos acariciam minha cintura e minha mão, sua nuca. Distribui beijos estalados em meus lábios, como se não quisesse finalizar nosso breve romance. Fecho meus olhos, não acreditando que fiz minha primeira loucura em um país estrangeiro; Kendra tinha razão quando disse que um romance proibido é muito mais excitante que um romance de quatro anos como o que eu e Gabriel temos.
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  - Não posso… – falo, me lembrando de Gabriel e seu sorriso cativante.
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  - Esqueça-o. – estremeci com sua ordem tão séria e direta. Não ousei retruca-lo, pois ainda estou inserida demais na emoção atual para quebrar o encanto. Arrisco encarar seus olhos e a vontade de beijá-lo faz com que meus lábios formiguem.
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  - Eu poderia… – começo a dizer, mas não consigo finalizar. Estou sem graça demais para perguntar se poderia beijá-lo mais uma vez. levanta meu queixo de forma que meus olhos encontram os dele para que pudesse entender minhas vontades. Abre um pequeno sorriso e acaricia minha bochecha com o polegar da mão que segurava meu rosto.
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  Lentamente, seus lábios grudaram nos meus; diferente da primeira vez, ele não parecia ter urgência. Suas mãos ficaram estacionadas em minha cintura e rosto, enquanto tinha meus braços apoiados em seus ombros, que parecem bem mais altos que imaginava. Estando assim tão de perto, vejo como sou tão pequena, comparada a ele. Meu corpo estremece mais uma vez ao sentir sua mão passear por minhas costas; um carinho gostoso.
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  Quando nos separamos pela segunda vez, decido abraça-lo, ao invés de encarar seus olhos novamente. Sinto seus lábios passearem pelo dorso de meu pescoço, me deixando sem graça por estar suada; contudo, ele não parece se importar e se mantém junto a mim. Calados ficamos até decidir que precisava ir embora. Não neguei sua vontade quando disse que aguardaria tomar meu banho para irmos embora juntos. Achei que durante meu banho, a consciência de ter realizado uma traição tomaria conta de minha mente e corpo, fazendo com que me sentisse pesada, como se meu mundo fosse desmoronar, como acontece nos filmes e seriados. Não me vi péssima, apenas perturbada em pensar que terei de encará-lo algum dia. Daqui a um ano e dois meses.
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  Enquanto me enxugo, olho meu reflexo no espelho e vejo um pequeno sorriso em meus lábios. Uma expressão que não vejo há anos; talvez nunca tenha visto. A animação de sair e ter um homem me esperando para sairmos juntos me trás borboletas no estômago, como minhas colegas falavam quando contavam suas experiências em encontros com amados. Me sinto mal por estar apenas com uma jeans, pólo e um Ked’s vermelho. Desde quando entrei aqui, percebi que não poderia me vestir como me vestia antigamente, ou continuariam se dirigindo a mim como “mesquinha”.
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  Com os cabelos ainda molhados, saio do vestiário feminino com a mochila em meu ombro direito. está encostado na parede oposta à saída com os braços cruzados. Pela primeira vez, não reclama de minha demora, já que se ofereceu para ficar por vontade própria. Pegou a mochila de meu ombro para colocar na sua, uma gentileza que jamais imaginei vê-lo fazer comigo. Quando ameacei andar em direção à saída, sinto sua mão segurar a minha, atrasando minha meus passos para olhar em sua direção. Um sorriso, mesmo que pequeno, jazia em seus lábios, mostrando que sua intenção é que saíssemos com nossas mãos dadas, como se estivéssemos em um relacionamento sério. Sinto minhas bochechas corarem ao me imaginar sendo vista nesta situação com ele, ao mesmo tempo em que me sinto feliz por receber o carinho que esperei de Gabriel durante anos.
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  O mês de outubro foi finalizado com a festa de Halloween praticada pelos estabelecimentos das lojas do bairro. Por haverem muitos negócios de família onde há crianças, o bairro, todos os anos, se une para enfeitar a rua e fazerem brincadeiras costumes do feriado, com direito a fantasias, doces, travessuras, e claro, dança.
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   quis que este ano, como a estrutura do prédio estava praticamente finalizada, com exceção de alguns detalhes, que o estúdio fosse responsável pela casa dos horrores. Os alunos e professores pareceram se divertir, enquanto rapidamente me ofereci para ficar à porta da porta enfeitada macabramente, controlando o número de pessoas a entrar. Com o evento e a cobrança da entrada, arrecadaríamos mais dinheiro para investirmos na decoração para o evento principal em dezembro.
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  Depois do dia em que nos beijamos, tem estado bem mais tolerante comigo, apesar de continuar me tratando da mesma maneira, como se não quisesse que todos soubessem de nosso deslize. No começo, achei que deveria me preocupar; enfim me achei uma tola por pensar em ter qualquer tipo de relacionamento com ele enquanto namorando Gabriel, que está se esforçando tanto no Brasil. Assim, passei a trata-lo da mesma maneira de antes; na universidade, me preparei com mais facilidade para os testes. Ter minha mente livre de problemas por ver Una ter dificuldades em continuar a se dar bem com os professores me trouxe mais segurança em saber que ela não iria subir cinco colocações, tampouco que eu descerei. A prova seria no domingo do Halloween; Bob já anunciou sua ausência rotineira no teste. Como eles não reprovam, Bob diz que não há necessidade de realizá-lo. Gillian e eu estivemos mais próximas desde quando Una entrou na sala; na verdade, sinto que todos os nove de nós estamos mais próximos. Há claramente uma barreira entre nós, e ela.
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  Una tem estado a cada dia pior. Durante meus ensaios solitários, invade o espaço dizendo que reservou, mesmo sendo uma grande mentira. Passa o tempo inteiro conversando com seu grupo de amigas. Nas aulas de dança, continua a me empurrar e distribuir tapas. Pietro até me afastou dela, mas mesmo assim, nas poucas vezes que nos cruzamos, sempre paro no chão ou com alguma parte do corpo dolorida por ter sido acertada. disse querer falar com ela, mas se ela realmente tem essas atitudes por causa dele, não quero dar mais razão para ela fazer coisa pior, como quebrar meu pulso, como fez com Violet.
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  Deixo o próximo grupo de sete pessoas entrarem e olho para meu relógio, que marcam onze e meia da noite. Pedi o dia seguinte de folga para , que demorou a conceber meu pedido, mas concordou quando disse que chegaria mais cedo durante toda a semana seguinte, principalmente porque não haveria aula durante a semana por este ano o campus ser sede de um congresso importante da área de Direito; infelizmente, somente os três primeiros lugares têm direito de comparecer gratuitamente e como não posso gastar meu dinheiro com nada, não poderei ir, sobrando tempo para me dedicar aos estudos e ao trabalho. Pelos testes terem passado para mensal, tenho mais tempo de realizar horas extras e receber por eles, tendo um dinheiro a mais em minha conta. Suspiro, deixando-me aceitar que preciso ir embora, mesmo me divertindo em ver crianças e adolescentes saírem correndo pela porta de saída do “castelo”, alguns com lágrimas nos olhos e outros com as bochechas vermelhas da correria e dá risada.
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  - Patricia, você poderia continuar sem mim? Preciso voltar para a universidade. – aponto para o relógio. Como já havia combinado minha saída às onze horas e estava meia hora a mais que o esperado, Patricia, com quem tenho conversado com mais frequência agora, negou sem fazer nenhuma reclamação, o que é um verdadeiro milagre.
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  Deixei meu posto de porteira e adentrei ao castelo, passando pelo meio dos panos para chegar até o pé das escadas, onde subi até o primeiro andar e fui em direção ao escritório de avisá-lo sobre minha saída. Não havia o visto o dia inteiro e, desde quando nos beijamos, sinto que preciso vê-lo para me sentir mais motivada. Uma infantilidade ou ingenuidade que acho engraçado sentir. Dou duas batidas na porta e abro a maçaneta. Empurro-a com delicadeza, já que é difícil vê-la fechada; assim que terminei de abri-la, entendi a razão de estar fechada. Arregalei meus olhos ao encontrar Una deitada em sua mesa nua e antes mesmo de dizer meu nome, fecho a porta ouvindo-o me chamar de dentro da sala. Saio correndo sem esperar qualquer explicação.
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  No meio do caminho, encontro Kendra e Hans saindo aos risos, fantasiados de vampiros. Os dois pareciam formar um casal. Me pergunto se Hans transa com outras garotas dias depois de beijar Kendra e se ela sabe ou se importa.
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  - Achei que fosse aproveitar a festa, . – Kendra disse, sentindo as mãos de Hans contornar sua cintura. Nego com a cabeça.
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  - Já estou indo. Até logo. – anuncio, terminando de descer o lance de escadas. Saio do prédio e, ainda fantasiada, vejo um grupo de alunos de Harvard se prepararem para voltar. Um deles, Jonathan, o garoto que encontrei na festa da praia, estava prestes a entrar no banco da frente. Penso se seria correto pedir carona a ele, já que deixei-o sozinho sem avisá-lo de que voltaria.
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  Vejo-o olhar em minha direção e fechar seu sorriso, desviando seu olhar por um breve momento, voltando a me encarar. Limpo minha garganta e me aproximo lentamente, rezando para que ele não seja uma pessoa rancorosa.
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  - Oi. – falo, as mãos para trás, meus dedos cruzados, pedindo por sorte. Jonathan me responde com um aceno de cabeça. – Será que… Bem. Acho que devo antes me desculpar sobre aquele dia.
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  - Você ficou com . – ele afirmou. Neguei com a cabeça.
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  - Na verdade, nós discutimos e com minha cabeça quente, fui embora com outra pessoa, me esquecendo de meu compromisso com você. – minto com tanta facilidade, que parece que faço isso todos os dias. – Fiquei com vergonha de lhe procurar; quando o fiz, acho que já havia mudado de curso. – olho para o lado. Ficamos calados; eu, aguardando que ele dissesse algo, pelo menos alguma sentença de rejeição. Me senti extremamente aliviada quando o vi se mexer à minha frente, depois de ouvir seu amigo na direção chama-lo.
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  - Estou indo para o campus agora, está indo embora? – apontou para o lado. – Mas o carro está cheio, então você terá de vir em meu colo. Sem segundas intenções. – levanta as mãos ao me ver levantar uma sobrancelha.
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  Olho para o lado e não vejo aparecer para se explicar. Talvez não houvesse o que explicar. Nossa situação era clara, apenas nos beijamos uma vez e saímos andando como namorados fazem. Jantamos juntos e nos beijamos mais dentro de seu carro, mas é o que sempre me disseram sobre ele: somente fica com as garotas que são fáceis para ele.
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  - Tudo bem. – digo, vendo-o entrar e permitir que entre logo em seguida, me acomodando em seu colo. Cumprimento o colega de Jonathan, que encarava-o com um sorriso maroto e viro o rosto em direção à rua para evitar ver qual foi a expressão que Jonathan mostrou em resposta.
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  O caminho não foi rápido, tampouco longo. Me vi acomodada com a presença de seus amigos, pois eles falavam tanto que não tinha tempo de falar também; para mim, era o suficiente. Não estou afim de falar. Olho para o cenário externo do carro que parecia um borrão. Penso na cena de com Una, o fato dele não ter mudado seu comportamento comigo e não ter mais falado nada sobre o que aconteceu comigo depois. Tudo fazia bastante sentido agora, por isso, meu orgulho me dá facadas no meu peito, fazendo-o doer por parecer uma tola por tanto tempo.
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  Assim que chegamos ao campus, agradeci Jonathan pela carona e dei-lhe um fora, dizendo que estou cansada, pois cheguei bem cedo para trabalhar, mas que estaria livre no dia seguinte, caso ele quisesse. Fui embora antes dele me perguntar o número de meu quarto.
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  Tomei um banho com minha mente presa à . Como poderia me comportar em sua frente agora? Durante esse tempo entre nosso beijo e a transa dele com Una, achei que estivéssemos no início de algo. Conversando com Kendra, ela me disse que ter um relacionamento aberto com enquanto namorando Gabriel não é uma coisa ruim, principalmente quando Gabriel não me dá a menor atenção há uma semana e meia e nem responde nenhuma de minhas mensagens. No momento de nossa conversa, achei como se o mundo conspirasse para eu e , contudo, agora, vejo que foi só mais uma ilusão minha, como acontece com todas as mulheres ingênuas do mundo.
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  Assim que deito em minha cama com o livro de estudos em mãos para a prova de domingo, ouço meu celular vibrar ao meu lado, no criado-mudo. Pego-o com a maior rapidez que meu corpo cansado consegue, pensando que fosse ser , mas não é. O nome de meu pai aparece no identificador eletrônico e penso se esse é um bom momento de atendê-lo. Todavia, ele está me ligando incessantemente há um mês; mesmo que esteja nervosa com ele, não consigo odiá-lo tanto a ponto de não lhe dirigir nunca mais uma palavra.
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  - Achei que me ignoraria por mais alguns meses. – sua ironia trouxe o arrependimento imediato em ter atendido. – Estou ligando com a intenção de saber como está e você não se dá ao luxo de me atender?
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  - Não estou nada diferente de quando me disse que não teria dinheiro para pagar minha universidade. – sinto que soei grosseira, mas a esta altura, não estou preocupada em ser polida com ele.
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  - Um comportamento justo. – seu comentário esfriou nossa troca de ofensas. Meu pai sempre foi um homem de língua afiada; melhor que minha mãe, se posso arriscar, mas sempre soube admitir quando estava errado ou quando a pessoa com quem discute está certa, uma qualidade admirável e que sempre procurei aderir, mesmo tendo puxado minha mãe. – Sua mãe comentou comigo sobre você estar trabalhando, é verdade?
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  - Alguém precisa conseguir dinheiro para eu receber meu diploma. – a ofensa saiu sem minha permissão. Paro para ouvir sua respiração e vejo que ele estava mais perturbado do que o normal. Não o culpo, na verdade, gostaria muito que ele se arrependesse. Sei que meu pai não é uma pessoa que se arrepende de suas atitudes e o fato de atrapalhar a formação de sua filha não é algo grandioso o suficiente para fazê-lo se sentir assim; contudo, sempre tenho a esperança de que ele cometa um erro e consiga se arrepender por ele. Me faz vê-lo mais como um pai, não um mero tutor.
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  - É uma boa ideia que você tenha experiências da vida nesta idade. Os adultos estão mais tolerantes com pessoas da sua idade e aceitarão melhor os erros que cometer.
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  - O que os adultos diriam do seu erro então, pai? – é impressionante como ele não consegue enxergar quão impertinente está sendo. Ele está em um processo de desvalorizar todo o esforço que fiz durante toda a minha vida e ainda tem audácia suficiente para tentar me passar alguma lição de moral?
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  - , você precisa de mais humildade em seu…
  - Humildade? – meus olhos se enchem de lágrimas enquanto olho para a tela de meu computador, vendo Gabriel entrar no Skype, mas logo sair, sem me dar tempo de enviar uma mensagem. – Estou cansada de ser humilde, pai! Minha humildade me fez seguir os passos que o senhor e a mamãe queriam! E olha onde estou? Sendo humilhada na frente de centenas de pessoas por não conseguir pagar meu último ano da faculdade, quando estive entre os 10 melhores desde o início! Gostaria que o senhor e sua lição de humildade não me ligassem novamente senão para falar que tudo foi um mal-entendido e que não preciso mais ir para aquele lugar horrível fazer algo que eu não gosto!
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  Não consegui enxergar o botão de desligar do celular, então somente taquei-o longe, aonde não pudesse ouvir meu pai tentando cortar minha fala. Onde não pudesse tentar ligar para Gabriel pela milésima vez. Onde não me permitisse esperar por uma ligação de que sei que nunca virá.
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Capítulo 8

  No dia seguinte, acordei mais cedo para ir à sala de aula ler o material uma última vez, mais com a intenção de me distrair, do que de estudar. Noite passada não dormi cem por cento, principalmente depois que Kendra voltou e tentou falar comigo sobre algo que não consegui entender devido o excesso do choro que saía de dentro de mim. As pessoas costumam dizer que quando temos uma péssima noite, a tendência é que o dia seguinte seja pior. Não posso me dar ao luxo de pertencer a este grupo, porque tenho a prova de avaliação para realizar. Não posso perder meu quarto lugar senão para uma das três colocações acima de mim; assim, acordei três horas mais cedo para dar tempo de, caso haja qualquer resquício de dor da noite passada, acabar com todo o vestígio até o horário da prova.
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  A prova estava mais fácil do que imaginava. Dizem que a mente carregada de preocupações faz com que o dever tenha menos espaço na cabeça, contudo, as questões me pareciam muito mais fáceis de serem respondidas do que jamais esteve. Ao contrário das provas anteriores, terminei com duas horas de antecedência e, mais feliz, me dirigi em direção aos dormitórios para planejar meu domingo de folga para repassar o conteúdo dos três últimos dias de aula, além de praticar com mais afinco, meus argumentos para a aula prática da próxima semana; fazer dentro do transporte público me fez perceber que as pessoas têm uma opinião diferente de mim, como se fosse alguém com uma sanidade falha falando sozinha.
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  - . – Gillian sempre foi conhecida por possuir uma presença única nos lugares. Mesmo com a voz baixa, qualquer um facilmente conseguia ouvi-la. Olhei para trás, onde ela, que havia terminado a prova antes de mim, estava parada com sua pasta de estudos em mãos. Parei de caminhar, esperando ela se aproximar e, quando o feliz, olhou para os lados, sem saber exatamente o que fazer em seguida. – O que você achou?
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  - Estranhei como achei fácil responder.
  - Foi o que imaginei. – ela concordou. – Talvez tenham modificado o método de avaliação para que os outros alunos tenham mais mobilidade entre as salas. Professor Ollenz havia mencionado que a reitoria gostou quando Una Parker ingressou em nossa sala. Disse que sentiu que os alunos das salas abaixo se sentiram mais motivados a estudar, elevando ainda mais o método de ensino dos professores com relação às outras universidades, causando quase um abismo entre as comparações.
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  - Pode ser. – concordo facilmente em um linguajar moderno demais ao que estamos acostumadas; percebi logo que as palavras saíram de minha boca. Gillian arregalou os olhos por eu ter usado um termo geralmente dito pelas pessoas para demonstrar desimportância no assunto. Limpo minha garganta, sem graça: – Talvez tenham facilitado a prova para darem mais uma razão de motivação para os alunos.
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  O silêncio voltou a reinar entre nós duas. Vi Gillian colocar os cabelos louros para trás da orelha e me encarar, como se eu fosse a responsável por dar o próximo passo em nosso diálogo. Limpei minha garganta e olhei para os lados, vendo algumas pessoas encararem a nós duas com surpresa, mesmo já não sendo um milagre trocarmos palavras em público.
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  - Você tem planos para o almoço? – pergunto, vendo sua expressão suavizar.
  - Não. Não costumo estudar aos domingos. – abre um pequeno sorriso, me deixando sem graça. A melhor aluna do terceiro ano de Harvard não estuda aos domingos, enquanto eu pratico repetidamente em todas as minhas horas livres. Surpreendentemente, seu comentário foi bem melhor aceito por mim do que o rápido estresse que tive com meu pai ao telefone na noite passada.
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  Acompanhei Gillian até seu dormitório e vi que sua colega de quarto era como Kendra, só que mais… Caseira. Gillian havia me dito em uma das nossas rápidas conversas que sua roomate era da sala H e não gostava de sair do quarto nem para comer. Ela quem tinha de levar os alimentos para a garota, se quisesse paz durante as horas de estudo. Me senti um pouco melhor por ter Kendra como colega de quarto, mesmo tendo de cuidar dela quando volta bêbada das festas. Ela dificilmente ficava mais de uma hora livre – enquanto acordada – dentro do quarto, por isso, tenho liberdade de fazer o que eu quiser, pois o espaço todo é meu.
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  Depois que passamos em meu quarto para pegar minha bolsa, caminhamos em direção à saída do campus; nesse meio tempo, houve a novidade de conversarmos enquanto caminhávamos. Isso me deu uma forte certeza de que estávamos em uma relação mais íntima de amizade. Devo me lembrar de perguntar a ela se tenho permissão de chamá-la de amiga. Estava tendo um bom momento enquanto nos decidíamos onde iríamos comer, pois temos gostos parecidos; o que é de se esperar de duas pessoas que se preocupam em manter o bom hábito alimentar para os estudos não serem prejudicados.
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  Uma surpresa aconteceu quando vi parado com seu enorme carro em frente à porta do campus, como se soubesse que eu fosse sair por ali em algum momento. Paro, boquiaberta e sinto Gillian parar ao meu lado, terminando nosso diálogo para observar a pessoa a quem eu desviava minha atenção. usava uma de suas camisetas regatas de algodão que moldurava seus músculos para quem quisesse observar. A jeans preta grudada às pernas tão definidas quanto o tronco; era óbvio que todas as pessoas, principalmente femininas, encaravam com curiosidade o cidadão que claramente não fazia parte do grupo de alunos de Harvard. Olhei para os lados e vi Ace mais à frente com alguns amigos da E; devo me lembrar de perguntar como ele foi na prova, já que na semana anterior veio tirar algumas dúvidas comigo sobre a matéria, dizendo que não seria mal até o final do nosso curso, dele chegar até a B, pelo menos.
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  - Há algo errado? – Gillian perguntou ao meu lado, interrompendo meu transe. Olhei para ela e em seguida para , que continuava encostado em seu carro, como se esperasse que eu fosse até ele.
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  - Nã…
  - Achei que você não viria! – a voz de Una Parker soou atrás de nós duas. Virei meu corpo para observá-la passar por entre eu e Gillian, empurrando-nos para o lado e então chegando até , que abria um pequeno sorriso, desencostando do carro e deixando-se beijar por ela.
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  Arregalei meus olhos, compreendendo a razão de estar ali. Ele foi buscar Una na prova. Perguntar como ela foi, levá-la para almoçar e repor suas energias. Aperto os lábios ao vê-los tão à vontade em trocar carícias ousadas em público. Sinto minhas bochechas queimarem e olhei para Gillian, que olhava de mim para eles.
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  - Devemos ir? – ela perguntou, apontando para o lado. Limitei-me a concordar com a cabeça e segui seus passos, passando por Ace e seu grupo, que me olhavam calados. Fechei os olhos em pesar, me sentindo ainda pior por estar sendo relacionada ao casal puro amasso. Apertei os passos e Gillian, calada, me acompanhou até decidirmos pegar um táxi para o centro de Cambrige.
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  Durante o caminho não conversamos sobre qualquer assunto por minha culpa. Minha mente estava perdida em devaneios com a cena da noite passada e a que presenciei há pouco. Não consigo compreender a atitude de . Por que pareceu tão interessado em mim àquela noite, se me trataria dessa maneira no dia seguinte? Como não foi sensível em saber que não sou como Una e todas as garotas que ele se relaciona abertamente? Pouco a pouco, o arrependimento de ter traído Gabriel começa a tomar conta da minha mente, fazendo meu corpo se encolher com a vergonha e o medo de passar a notícia para ele.
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  Gillian me chamou quando o táxi chegou ao restaurante que ela acabou por se decidir sozinha. Não reclamei quando vi que era comida grega. Sempre tive interesse em experimentar uma culinária diferente e devido ao dinheiro que recebi no último mês das aulas extras, tenho confiança que posso gastar mais com alimentação sem me preocupar em sair da quantia estipulada para gastar diariamente.
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  O ambiente é aconchegante, como se estivéssemos entrando em uma das casas gregas, com as paredes de pedra informal, o chão aparentando ter partículas de areia espalhadas, como se o local fosse próximo à praia. O cheiro de maresia programada pelo aromatizante e os integrantes da equipe do restaurante vestidos com roupas típicas do país me fazia sentir em outro lugar.
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  - Fantástico. – murmuro, maravilhada.
  Gillian e eu somos colocadas em uma mesa mais afastada e silenciosa, para que pudéssemos conversar sem elevar nossas vozes e poupá-las para as aulas práticas. Pedimos nossas bebidas e depois de decidido o que comer, encaramos uma a outra, aguardando uma iniciativa.
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  - Aquela pessoa que estava na porta da universidade… – Gillian começou a falar. – É seu companheiro?
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  Aperto os lábios, sem saber o que responder. Olho em seus olhos e sinto segurança em poder falar sobre meus assuntos pessoais com ela, afinal, sei sobre seu ex relacionamento com Bob; o mais justo seria retribuir, falando sobre minha traição e tolice em confiar em uma pessoa como .
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  - O nome dele é . – começo a falar. – Ele é meu chefe no lugar onde eu trabalho. É um dançarino profissional, muito bom. Foi ele quem viu meu talento com a dança e me convenceu a dançar. – olhei para o lado, envergonhada sobre como iria abordar o início do meu pseudo-relacionamento com ele. – Nós… Bem. Hum. Nós nos beijamos e na hora me pareceu sério, já que ele se comportou como um namorado. Então ontem, sem querer, o peguei, hum, em uma situação constrangedora com Una Parker.
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  - Una Parker? – concordei com a cabeça, vendo-a se encostar em sua cadeira. – Bem, isso não foi muito leal.
  - Acredito que ela não seja uma pessoa leal, de qualquer maneira. – cocei atrás de minha orelha, começando a me arrepender por ter tocado os lábios macios de . O peso de ter achado que havia encontrado uma pessoa que sabia como me tratar começou a aparecer mais, me deixando ainda pior. Suspiro e bebo um gole da bebida que chegou.
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  - Bob… – ela limpou a garganta ao sentir meus olhos nela. Sei que não há uma maneira de nos comunicarmos sobre garotos, quando a única coisa que entendemos bem tem relação com os estudos. Contudo, meu coração pareceu esquecer o rosto de e focou em Gillian e Bob. – Ele… Hum, também tem momentos… Constrangedores?
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  Não soube como responder. É claro que Bob esteve em todas as festas que eu fui obrigada a comparecer e é claro que sempre esteve rodeado de garotas, contudo, em todas elas, não me recordo tê-lo visto de fato tendo algum relacionamento além da sensualidade dividida entre ele e as garotas. Na dúvida, resolvi que era melhor negar para que ela e Bob, caso um dia viessem a reatar, conversassem sobre isso entre eles.
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  – Tirando a questão de achar que você e Bob não são compatíveis, há outra razão de você ter terminado sua relação? – perguntei, mexendo o canudo com os dentes. Gillian olhou para o lado, seus olhos vazios. Será que é assim que pareço quando me falam de Gabriel? Nunca terminei com ele e, na verdade, o amo o suficiente para nunca tomar essa iniciativa. Ele provavelmente ficará muito bravo quando lhe contar sobre o que eu fiz. Irá me comparar com sua mãe, a quem tanto odeia. Parei de tentar entrar em contato com ele fazem alguns dias, porque não sei o que farei quando nossa comunicação acontecer, assim como sei que não conseguirei omitir o fato.
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  - Bob e eu nos conhecemos desde pequenos. Ele sempre foi mais alegre que eu; também sempre teve mais facilidade de fazer amizades do que eu, por isso, todos os amigos que eu tinha apenas falavam comigo porque estava sempre junta dele. Devido minha ingenuidade, ele sempre se encontrou na posição de achar que devia me proteger de tudo e o fato de estarmos sempre colados nos ajudando, acabou fazendo-o pensar que pertencíamos um ao outro para sempre. Eu não queria vir para Harvard. – levantei as sobrancelhas, surpresa com a novidade. – Meus pais não tinham dinheiro para pagar, mas o pai de Bob sempre havia dito que ele deveria entrar na melhor universidade do mundo, por isso, quando Bob disse que iria para onde eu fosse, o pai dele me pediu que entrasse em Harvard e ofereceu pagar meus estudos. Porque eu não tinha muito dinheiro para pagar uma boa universidade e a maioria apenas oferecia bolsas de estudos a partir do segundo semestre, decidi aceitar. Nós terminamos no final do primeiro semestre e o pai dele parou de me financiar; estava tudo bem, eu já havia me planejado por um tempo o que fazer, por isso quis o primeiro lugar.
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  - Você já sabia que terminaria com Bob? – arregalei meus olhos. Surpreendentemente, saber a razão de Gillian estar sempre em primeiro lugar não era nada, comparado à minha surpresa em vê-la prever o término de seu relacionamento com tanta frieza.
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  Gillian negou com a cabeça.
  - Achei que poderia dar certo, mas então nos deparamos com essa burocracia de divisão de alunos por méritos. No início, Bob disse que estava tudo bem eu estar em primeiro e ele quase em último. Ele não se importava muito com os estudos e se acomodou. Mas as pessoas não são muito gentis e começaram a afetá-lo ao invés de mim. Ser um S… É um título de prestígio, você sabe. As pessoas preferiam caçoar de Bob à mim. Vendo-o sofrer tanto… – e deixou a frase no ar.
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  Apertei os lábios, compreendendo a razão do término. Gillian estava poupando Bob do sofrimento. Visualizo a expressão que Bob sempre tem em seu rosto quando Gillian surge no assunto entre eu e Kendra. Na maneira como pergunta sobre ela quando estamos sozinhos e ele quer saber sobre ela, ao mesmo tempo que não quer deixar transparecer todo seu interesse. Abro um pequeno sorriso, vendo-a me encarar, séria.
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  - Eu gostaria de expor minha opinião. – levantei a mão até à altura do peito, como faço durante as aulas práticas. Com um aceno, Gillian permitiu de me expressar. – O ser humano possui um erro comum de tomar lados, achar que o que ele faz para o outro sempre será melhor do que o outro diz ser bom para ele mesmo. – lembro-me de tentando me convencer sobre a dança. Até um ponto é irritante; aos poucos, com a repetição, acabei considerando sua opinião, cedendo e concordando com sua ideia maluca. – Contudo, você não tem conhecimento de como Bob está depois do final de sua relação. Como uma pessoa que era presença constante em sua vida, se extinguir dela o deixou, de certa maneira, perdido.
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  - Como pode ter certeza?
  Levantei meus ombros.
  - Eu apenas tenho.

  Almoçamos com calma, como se não estivéssemos preocupadas com os estudos que nos ocupariam a mente na semana que estava para começar. Durante a refeição, parecia que havíamos entrado em um acordo onde não falaríamos sobre estudos, leis ou professores. Me surpreendi com o número de interesses em comum que temos; as vontades que desejamos realizar, mas que não há coragem suficiente para realiza-las.
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  Voltamos para o campus a pé, parando em uma loja ou outra, comprando alimentos para deixarmos no quarto e entrando em papelarias para renovar nossos estoques de material de anotação. Enquanto isso, tagarelamos sem parar sobre nossas preferências e discutíamos sabiamente quando achávamos que a outra não estava certa. No final, foi uma tarde mais divertida do que imaginava.
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  - Até amanhã. – falei, assim que chegamos no andar do dormitório de Gillian, que ficou me encarando.
  - ? – ela perguntou quando eu estava na metade do lance de escadas para o andar de cima. – Será que… Um dia desses… Eu poderia, hum, acompanhá-la em seu ambiente de trabalho?
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  Abri um pequeno sorriso e fiz o sinal de positivo com o dedo.
  - Saio todos os dias às 13:30.

  Quando Kendra entrou, achei que estava bêbada por ter feito tanto barulho e estar tão atrapalhada com os pés a ponto de cair no chão.
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  - Hans, deixe de ser chato! – gritou, me fazendo tirar os fones de ouvido e olhar para trás, vendo Ace e Hans acompanhando-a.
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  - Como ele conseguiu entrar? – apontei para Hans, que se sentou na cama de Kendra, enquanto Ace fechava a porta atrás de si tão rápido quanto uma cheetah.
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  - Baixinha, qualquer um consegue entrar aqui quando tem um crachá. – Ace apontou para o cartão entre os dedos, que identifiquei ser de seu colega de quarto belga. – O problema foi entrar neste quarto sem levantar suspeitas. Mas enfim – abriu um sorriso e se aproximou de mim. -, falemos de você: Como foi na prova?
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  - Achei extremamente fácil.
  - Você não tem um pingo de sensibilidade mesmo, não é? – bagunçou meu cabelo entre risos, deitando em minha cama.
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  Na universidade, não há problema em garotas e garotos invadirem o quarto do outro enquanto está em horário de livre circulação. O problema é identificado quando o horário de retirada das onze da noite soa e os inspetores passam para verificar todos os quartos. Kendra nunca esteve em nenhuma das inspeções e quando estava, se encontrava desmaiada pela embriaguez.