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Temporada #018

Warriors
Imagine Dragons

Esta história não possui capas prévias (:

Sem informações no momento.

Dust

– Prólogo –

  Desde que minha visão anunciara três pessoas desconhecidas construindo uma espécie de abrigo, a curiosidade que habita em mim me obrigou a ir ao seu encontro, tentando entender o que ocorria. De primeira, senti meu rosto arder com o contato do solo quente, provavelmente deixando uma leve marca vermelha em minha bochecha. Após ter sido neutralizado, se assim poderia dizer, fui posto em pé, encarando as faces recheadas de dúvidas, entretanto, uma delas não tinha uma expressão. Não se surpreendeu quando me aproximei, nem mesmo esboçou alguma reação ao me jogarem no chão. Ela, que possuía seus olhos vendados, passou um pano gasto com um pouco de água fresca na parte queimada, como se enxergasse através do tecido. Em uma linguagem desconhecida para muitos, solicitou que os outros procurassem em seus mantimentos uma fruta para que pudesse ajudar a sarar a ardência que me causaram, e um tanto a contragosto, os seus companheiros marcharam em direção ao deserto, desaparecendo dentre a poeira. Pisquei repetidamente, sem compreender muito bem a cena anterior e as minhas indagações já estavam prontas. Ao depositar minha atenção na silhueta ao meu lado, pude ter acesso a uma sensação estranha e ao analisar mais a fundo os detalhes, meu coração acelerava, causando um certo desconforto. Além de tentar desvendá-la apenas com o olhar, era nítido o bloqueio que havia entre nós, a barreira que criara para se defender era uma das mais fortes que eu já tive a chance de apreciar.
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  — Vejo que a curiosidade cai bem em você, ela escorre pela sua boca. – Escutei sua voz me acordar dos meus pensamentos – Não estávamos avisados de que receberíamos visitas, ainda mais quando uma guerra se aproxima e temos que proteger o nosso povo. No que posso ser útil, Devon? – A sua risada fez com que os meus ombros relaxassem depois te ter sido encarado por dois minutos – A sua chegada foi anunciada pelo nosso ancião, que só me informou o seu nome e características, a dedução ficou por mim.
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  — Então você deixou que seus amigos me tacassem no chão sem motivos? – Perguntei incrédulo e com certa quantidade de drama, a vendo sorrir divertidamente.
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  — Não seja egoísta, Devon. Se eu me levasse pela curiosidade, as chances de pôr meu povo em perigo seriam altas. Meus deveres vem antes dos meus desejos, e é assim como vivemos. É bom ter ciência disso se quiser estar conosco.
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  Antes que eu fosse respondê-la, sua mão foi posta na queimadura em meu rosto, sarando qualquer vestígio avermelhado. Seu toque foi o mais doce e gélido que já experimentei de alguém que tivesse a cura em suas raízes, e, sendo sincero, há poucos regenerativos espalhados por aí. Os mais sábios diziam que quem era tocado por um, ou caía em uma paixão obsessiva ou em uma eterna loucura, visto que esse grupo conseguia reintegrar toda a essência de quem era tratado por eles. A ganância, é claro, fazia com que os cidadãos se auto machucassem para sentirem novamente o prazer em ser curados, e com eles, vieram os indivíduos que os consideram uma ameaça, iniciando a conhecida caça aos regenerativos. Muitas vezes os capturados eram mantidos em cativeiros e usados para o beneficiamento próprio de seus sequestradores, tendo condições insalubres e escassas de sobrevivência. A maioria havia sido salva, mas após viverem tempos sombrios, decidiram se separar para manter a segurança de seus colegas. Alguns perderam suas forças, enquanto outros sumiram do mapa para que não sofressem mais abusos. A triste realidade que suportam afetou negativamente àqueles que precisavam verdadeiramente de seus cuidados, e com o número extremamente restrito, é compreensível usarem toda e qualquer forma de defesa quando um intruso resolve dar as caras.
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  Reparei novamente na mulher a minha frente que mantinha o seu semblante neutro e uma respiração calma, e as dúvidas só cresciam dentro de mim. Ao abrir minha boca para balbuciar algo, a fechei por não saber o que indagar. Inicialmente, como belo nômade que sou desde criança, a minha intenção era continuar o meu caminho até achar um espaço que eu pudesse montar meu abrigo por três dias para depois ir em busca de novas terras para desvendar.
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  Talvez fosse a minha missão, não sei. A única certeza que tinha era a de não permanecer no mesmo lugar por muito tempo.
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  — Já passei longos minutos em sua presença e a lua iniciará o seu novo ciclo, indicando que não é seguro se manter longe da barreira pelas horas seguintes. Se decidir ficar terá momentos suficientes para fazer suas perguntas, se não, sugiro que vá embora antes que seja encontrado. – Ela se virou para mim, aguardando a minha resposta. Passei meus dedos pela minha nuca, sentindo o quão rígida estava. O vento trazia grãos de areia que batiam contra nossa pele, e quando menos percebi, minha escolha foi feita. – Me dê sua mão. Repita comigo: Do pó nós nascemos – A vi pegar um pedaço de vidro de seu bolso, furando a minha palma -, enraizamos nosso sangue na terra seca – Eu grunhia por causa da dor – para que nela fique marcado que as próximas árvores que nascerão – O líquido vívido pingava sob a terra – serão frutos dos primeiros que voltarão a ser –  Seu olhar encontrou o meu, para que assim pudéssemos terminar o trecho – poeira.
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– Capítulo 1 –

  — A poeira cai bem em você, Devon. – Escutei risos abafados por todo o campo, enquanto meu corpo continuava estendido no chão, se recuperando do golpe.
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  O que era para ser poucos dias, se tornou um mês, depois dois, e eu havia parado de contar assim que a minha razão começou a me ignorar. Toda noite minha mente revivia o momento em que meu sangue foi derramado sob a terra seca, e inexplicavelmente a energia que me invadiu corria por cada extremidade possível, era como se meu espírito estivesse sendo ligado diretamente ao solo. Ainda sem respostas concretas para alguns questionamentos, decidi prolongar a estadia, e bem lá no fundo, pela primeira vez senti que estava sendo útil em algo.
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  A primária impressão que tive da cidade era literalmente: poeira. Respirar livremente somente com um pano em volta de nossos narizes e bocas, às vezes ousava a tirar a proteção, entretanto, o arrependimento vinha como um flash. As poucas pessoas que habitavam o local estranharam a minha presença e mesmo que não demonstrassem, era perceptível que foram se acostumando por causa de sua líder e dos conselhos de Ivaan, o ancião e profeta. Quando comecei os treinamentos, o homem foi quem fez o teste para saber em qual equipe eu atuaria. Com um pouco de sangue e uma bebida que possuía um gosto duvidoso, fui escalado para participar do grupo de combate e de alquimia, sendo o último designado especialmente pelos meus conhecimentos, sem necessidade de ingerir mais nada. A terra, ao receber uma parte nossa, mostrava qual caminho a seguir e fazíamos a sua vontade, já que, de acordo com o juramento e as crenças, os próximos frutos serão provindos de nós. Basicamente, somos uma parcela na escolha do nosso futuro, e como tratamos o solo é o reflexo de como lidamos conosco. Aprendi isso em uma das noites que fiquei em claro, ao receber a companhia de Giovana e Lilo durante a sua patrulha. Ganhei mais conhecimento de acordo com o avanço nas tarefas, e com a ajuda das duas garotas, logo minhas técnicas em campo iam se aprimorando. Se dessem qualquer arma na mão de Gio, mesmo sem nenhum treino, ela saberia como manusear perfeitamente. Sua especialidade era em lógica, mas o que a dava vantagem era prever o lance de seu oponente, seja por dedução como por visões. Todos sabiam que ela seria a sucessora de Ivaan, entretanto, o seu foco não a permitia pensar mais do que podia alcançar. Já Lilo era a chefe da equipe de combate sem armas e conseguia se comunicar através do pensamento, independente se as pessoas não compartilhassem do mesmo dom. Ivaan tinha o seu ajudante, Antônio, que não era só bom em alquimia, mas também era responsável por ensinar os novos cidadãos tudo o que precisavam saber. Tínhamos aulas de todas as equipes, era indispensável saber sobre primeiros socorros, técnicas básicas de luta, culinária e entre outros assuntos. Felizmente, a comunidade contava com duas regenerativas, mas sempre que mais pessoas chegavam, as expectativas para recebermos mais indivíduos com o dom da cura diminuía.
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  — Seu namorado precisa focar mais, Quinny. – Lilo gargalhava enquanto limpava suas mãos, logo me estendendo uma para que eu levantasse.
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  — Então é isso que você anda falando para as pessoas, Devon? Que temos algum tipo de relacionamento?
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  — Não é o que temos? – Perguntei despretensiosamente sentindo a dor indo embora do meu braço esquerdo.
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  — Talvez se você tivesse me pedido, sim. – Respondeu apertando levemente a cicatriz para que pudesse terminar de fechá-la – Vá até Bellatrix para ela cuidar de sua costela, temos reunião hoje a noite.
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  — E eu não ganho nenhum beijo pra ajudar a sarar?
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  — Não seja egoísta, Devon. – Se aproximou – Quando seu combate melhorar, quem sabe?
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  Observei Quinny se afastar e fiquei parado pensando no que discutiríamos mais tarde. Se eu falasse que não estava ansioso, daria para ler em meu rosto a mentira mais mal contada por mim em todo o tempo que passei aqui. Uma das regras era que a sinceridade vinha antes de qualquer mínima vontade própria, visto que para manter a ordem da cidade a transparência era essencial, sem contar que por termos o Ivaan, as pessoas ficavam mais receosas de enganarem os seus colegas mesmo ele respeitando o livre arbítrio da população. A guerra aconteceria em qualquer minuto, e caso eu estivesse sozinho agora por lugares distintos, provavelmente nem veria rastros, apenas escutaria alguns comentários sobre. As ameaças batiam fortemente na barreira que resistia firme, porém começamos a perceber algumas rachaduras nas laterais, dando um pouco de vantagem aos inimigos. Desde os “avisos” mais brandos, nós fomos comunicados da gravidade do que viria e foi dada a oportunidade de ir para cidades que fossem distantes o suficiente para se protegerem juntamente das crianças.
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  Nesses meses, Quinny e eu desenvolvemos um sentimento genuíno e a cada dia ficávamos mais próximos, dando a sensação de que já nos conhecíamos há anos. Tendo poucas noites disponíveis para estarmos juntos, terminávamos todos os deveres para que ela relaxasse por algumas horas. O seu descanso tão merecido vinha com um sono tão profundo e quando acordados, tínhamos o costume de comer observando a lua e os seus ciclos, nos abraçando e rindo dos assuntos aleatórios. Sua prioridade continuava sendo a sua cidade, afinal, ela foi uma das pessoas que a criaram e garantia para que tudo ocorresse da melhor forma possível. O encanto que emanava de si era espetacular de se admirar, se eu pudesse, ficaria o dia inteiro a observando e não me cansaria. Sinceramente, se o Devon mais novo soubesse que um dia desejaria nunca sair de um lugar, ele diria que teria enlouquecido. Mas, acima de tudo, o dever que eu havia selado com a terra e o comprometido de ter sido um de seus criadores tinha de ser posto em primeiro lugar.
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  Definitivamente, o Devon adolescente diria que estou enlouquecido.
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*

  — Ivaan, não há nada que você possa nos dizer? – Giovana entrelaçou os seus dedos embaixo de seu queixo, enquanto recebia um olhar impaciente de Lilo por culpa da pergunta.
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  — Gio, já temos você como vantagem. Se ele contar algo, mudará o ciclo da lua e, consequentemente, o cenário. – Antônio respirou fundo, não sabia quantas vezes tinha de explicar para a amiga o que julgava ser o óbvio.
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  — Ivaan nunca interferirá no livre arbítrio dos cidadãos em uma guerra, o que acontecer no campo já está escrito nas raízes da terra. – Quinny se pronunciou após um longo período de silêncio. Sua feição se mantinha neutra, como na primeira vez que a vi.
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  — Com todo o respeito, mas você flerta com o perigo sempre que pode, Quinny! Como não pode ficar curiosa com o futuro?
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  — Até que entendo ela. – Recebi olhares curiosos – Concordo que nosso ancião não deva nos dar dicas, mas vocês não ficam curiosos com o amanhã?
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  — Ficamos, sim. Como qualquer indivíduo. – Lilo balançava a caneta.
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  — Não sejam egoístas. Quanto mais desejarem ver o futuro, principalmente os dos ataques, mais gananciosos se tornarão. Meu trabalho requer que eu tenha amizade com a morte, Gio. Os aqui presentes deveriam ter noção disso.  – Ao contrário da sua fala, seu tom de voz permaneceu calmo e doce e era perceptível que seus olhos fecharam ao sorrir durante os minutos em que ficamos quietos. – Recapitulando, então: Gio, Lilo e Antônio vão para as três bases, cada um assumindo uma e guiando as equipes; Ivaan e Bellatrix produzirão os remédios, enquanto Devon os dá cobertura até Marshall sair de seu posto na torre; E eu cuidarei dos efêmeros no solo e da barreira. Não deixem os seus postos por motivo algum, se o pior acontecer, relatem aos anunciadores que estarão escondidos para que os reforços possam ajudar. Na hora da guerra, os seus deveres devem sobressair os seus desejos, há um povo que confia e depende de nós. Entendidos? – Assentimos ainda calados.
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  — E lembrem-se, filhos: a terra estará ao seu lado, vocês fazem parte dela e ela corre por suas veias. Façam o que for preciso.
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  O clima tenso dentro da pequena sala se esvaiu ao levantarmos e andamos para fora, sendo recebidos por um lindo céu estrelado. A brisa nos agraciava, movimentando as bandeiras que tinham em cima de cada tenda e a lua iluminava os trajetos dos meus amigos que iam dormir. Fui deixado a sós com Quinny, que apenas observava o luar através de sua venda, aproveitando o vento que mexia em seu cabelo. Vê-la desse jeito tão bonita provocava sensações tão gostosas em mim, quase a chamando para um abraço.
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  — Eu também gosto de estar com você, Devon.
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  — Você lê mentes?
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  — Não. – Ela gargalhou – Dá pra ver em seu rosto.
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  — Hum… E o que mais está escrito em minha bela face, meu amor?
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  Quinny se afastou, me deixando um pouco confuso. Com a mágica que só a mesma tinha, não pude desvendar o que sentia, nunca conheci alguém que escondia tão bem as suas emoções. Ouvi seu suspiro e a fitei cheio de dúvidas. Seus dedos reuniam os inúmeros fios em um coque, mostrando o pequeno laço que havia na ponta de seus panos, e logo seu indicador encontrou o tecido. Junto ao seu dedão, pressionou um contra o outro e puxou delicadamente, fazendo o pano cair sob sua mão desocupada. Fiquei boquiaberto com o seu ato, mas logo a ansiedade tomou conta de todo o meu corpo, me impedindo de correr dali para que o próximo passo não se concretizasse.
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  — O momento chegou, Devon.
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– Capítulo 2 –

  — Vai ficar parado aí ou irá reagir e me atacar também?
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  — É justo eu te atacar com você vendada?
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  — A minha condição física não deveria ser um empecilho para o meu oponente. Mas, já que prefere assim.
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  Os meus sentidos me abandonaram ao levar um soco no maxilar e ter meu corpo derrubado no chão quente, sendo meu peito feito de apoio de pé. Os únicos sons que consegui balbuciar foram gemidos dolorosos, as estrelas que eu via não faziam parte do céu e minha cabeça começara a latejar. Quinny mantinha sua expressão séria e era nítido que seu olhar não era de reprovação, mas sim de incerteza. Mesmo não vendo totalmente por causa de sua venda, estávamos há três meses convivendo diariamente e durante as noites que passávamos juntos, aprender lê-la foi um dos meus passatempos favoritos. Peguei sua mão e levantei, ainda com incômodos e a respiração ofegante. Os treinamentos foram divididos por níveis, e como a minha experiência era intermediária, fui colocado para o avançado. No início, eu adorava e quase me gabava por tal colocação, afinal, meu ego havia sido massageado. Entretanto, ao observar as primeiras aulas, recolhi meu orgulho e tentei me dedicar o máximo possível. Nós dois treinávamos fora do expediente por pedido meu, não sabíamos quando a guerra chegaria e eu queria estar 100% preparado, ou pelo menos, 80%.
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  — No campo as pessoas não te pouparão por estar debilitado. Se está de pé, significa que lutará até a primeira morte. Sua ou do oponente. – Quinny se aproximou e pôs sua mão em minha costela, de forma que apertasse o suficiente para que pudesse fazer o seu trabalho – Sempre treinei desse modo, meus instintos são trabalhados em todas as áreas. Não é porque estou vendada que eu não possa enxergar, Devon.
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  — Perdão. – Pedi assim que o seu foco mudara para o meu rosto.
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  — Para mim ou para si mesmo? Você foi o prejudicado da história.
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  — Por que você…
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  — Meus pais esconderam o meu irmão e eu por muito tempo nas sombras e sempre que tínhamos que sair na claridade, meus olhos sofriam. Tanto pela falta de costume como por sua condição. Há crenças que expliquem que os regenerativos que nasceram com os olhos acinzentados foram amaldiçoados pelos gananciosos para que, quando mais velhos, servíssemos a eles com um dom mais forte do que o normal. – Parecia que ela podia ler a minha mente ao responder a pergunta inacabada – A sensibilidade que sinto é melhorada com essa venda, que há pequenos furos que permitem que eu enxergue, estimulando a minha visão. Geralmente quando é extremamente necessário, em caso de vida ou morte, eu a retiro. Um dia você verá, se continuar conosco.
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  — Espero que eu não precise. – Quinny arqueou uma sobrancelha – É claro que eu adoraria vê-los, mas não em uma situação tão extrema, sabe… – Riu ao escutar a resposta – É por isso que você é quem cuida da barreira?
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  — Sim, sou basicamente a guardiã. Não só o meu sangue está na terra, mas como a barreira sou eu. Tudo o que criamos está diretamente ligados a nós, assim como o solo é feito de você.
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  — “Do pó nós nascemos, enraizamos nosso sangue na terra seca para que nela fique marcado que as próximas árvores que nascerão serão frutos dos primeiros que voltarão a ser poeira”.
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  — Alguém fez o dever de casa, não é? – A mulher sorriu marotamente – Vamos, amanhã a reunião será antes de todos acordarem.
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  — Me concede a honra de te acompanhar? – Fiz uma reverência, oferecendo o meu braço em seguida.”
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  Seria difícil não relembrar este dia, ainda mais tendo-a em minha frente com seus olhos voltados aos meus. Eu continuava parado e sem reação, apenas observando a mulher com sua expressão neutra. O cinza consumia toda a sua íris e pupila, em um tom claro, quase se igualando ao branco da  esclera. A ganância aumentara uma história para justificar o seu egoísmo, incentivando atos horrendos em prol de seu próprio prazer, enquanto os regenerativos viviam no escuro para terem a sorte de sobreviverem. Uma das pessoas mais belas que eu tenho a sorte de apreciar doou sua vida ao seu povo, os protegendo e liderando uma cidade que, com a minha chegada na época, tinha dez pessoas. Hoje, em questão de meses, eu perdia a conta de quantos cidadãos abrigávamos e ela sempre colocava o seu dever em primeiro lugar. Mas, sabendo de tudo isso, eu ainda possuía uma parcela de inconformação. Não entrava na minha cabeça que provavelmente esse seria um de nossos últimos momentos, e que, talvez, daqui há cinco minutos ou cinco horas entraríamos na guerra.
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  — É tão fácil ler você. Acho que é um dos motivos por gostar de te admirar, é um dos poucos que é transparente o suficiente para confiar. Não espero que concorde, só quero retribuir a sua sinceridade.
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  — Você tem razão. Eu não concordo com a possibilidade da sua morte, tampouco com o fato de quererem invadir uma cidade por causa de indivíduos que nunca fizeram nada de errado! – Senti a minha raiva controlando o meu tom de voz.
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  — Sua preocupação não pode falar mais alto, Devon. É compreensível toda a irritação, infelizmente a escolha é única e não temos como dar as costas agora. Nós somos os guerreiros que construíram essa cidade. – A mulher acariciou a minha bochecha, mantendo o contato visual – Não chore por mim, Devon.
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  Segurei sua mão e a abracei tão forte que ao ser retribuído na mesma intensidade, meus músculos relaxaram brevemente. O seu cheiro adocicado trazia uma certa quantidade de calma para o meu interior, mas, tê-la em meus braços durou por meros segundos.
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  O próximo som que escutamos foi um estrondo vindo de longe da barreira.
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  Eles chegaram.
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– Capítulo 3 –
A guerra

  O caos preenchia todas as extremidades do campo, as armas estridentes e o som de corpos caindo no solo se sobressaiam até mais do que os gritos de ambos os lados. A lua, que até então, iluminava os nossos caminhos e era um dos pilares de força da barreira havia se retirado do jogo, entrando em seu mais novo ciclo e deixando as cidades mais fracas. A terra banhada em sangue não absorvia o líquido dos oponentes, as tochas espalhadas eram apagadas pela ventania e a noite entrava em sua segunda fase sem ao menos termos noção de quando acabaria o combate. A nossa desvantagem ainda não tinha sido descoberta por causa do plano de Giovana, mas era só uma questão de tempo até perceberem que estávamos em quantidade reduzida. Lilo se aproximou de mim pedindo para que eu a desse cobertura, e assim o fiz, ajudando-a a manter os gananciosos o mais distante da barreira. Desde que a guerra iniciou, Quinny havia posto a sua venda novamente, seria difícil proteger todo um povo se os inimigos soubessem que era ela uma das mais raras regenerativas das cidades, o que, quase confirmado, é um dos motivos que os levaram a tentarem invadir a nossa. Com a mistura de raiva e determinação, os conhecimentos que absorvi agiam de acordo com a minha vontade, sendo certeiro com a espada que eu carregava nas costas. As flechas disparadas por Antônio podiam ser achadas conforme eu corria, da torre a sua visão era privilegiada  e uma de suas funções era informar aos anunciadores o status do cenário que enfrentávamos.
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  Aos poucos íamos contornando a situação, entretanto a dificuldade nos atrasava por desvendarem parte de nossa estratégia. O ar seco não facilitava a recomposição, o que nos dava vantagem pelo costume, entretanto aqueles que tinham o seu condicionamento afetado sofriam duas vezes mais.
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  Uma explosão foi projetada e sem ao menos termos chance de nos planejar, reagimos com toda a força que nos restava. Lilo se comunicou comigo e sem tempo de me assustar com sua voz surgindo em minha cabeça, eu comecei a ir o mais rápido para onde tinha me informado, quase tropeçando em corpos e destroços no solo. O meu coração acelerava a cada passo dado sem dar espaço para que a ansiedade tomasse conta de mim.
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  Uma parte torcia para a explosão não ter sido na barreira e que Quinny estivesse bem.
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  Mas, o que os meus olhos me mostraram me quebrou por inteiro.
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  A pus em meu colo tentando estancar o sangue que escorria de sua barriga, entretanto parecia que o meu ato estava sendo em vão. A sua tosse me chamou a atenção e sua mão puxou a minha, tirando-a de seu ferimento.
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  Conte para mim, Dev. Não seja egoísta. – A vi sorrir.
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  — Como consegue sorrir sentindo tanta dor? – Não obtive resposta – As meninas estão do outro lado da barreira tentando impedir novos ataques. Antônio pediu os reforços, porém temos algumas pessoas querendo se render… Eu não sei o que fazer, ainda mais te vendo nessa situação.
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  — Não seja egoísta, Devon. – Tentou puxar um pouco do ar – Tire a minha venda.
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  — Você tem certeza? – O olhar que recebi me fez conter toda a minha insegurança, logo retirando o pedaço de pano de sua visão.
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  — Ponha meu corpo no solo e se afaste o quanto puder. Devon, não chore por mim, tudo bem? — Foram suas últimas palavras até eu começar a ir para direção oposta da sua.
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  Quando minhas pernas me traíram, um clarão tomou conta de todo o campo e o barulho das espadas se chocando contra a terra foi o que cortou o silêncio. O céu da madrugada foi iluminado brevemente, sendo quase impossível manter os olhos abertos para tentar entender o que ocorria. A normalidade voltava gradativamente e todo o nosso povo pôde visualizar a proteção da barreira intacta, como se não tivesse sofrido nenhum impacto. Como uma última despedida, observei Quinny de longe e respirei fundo, sentindo a sua presença em todas as extremidades do campo.
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  Em sua honra, tomaríamos o trono que é de nosso direito, para que os futuros frutos tenham a garantia de que suas raízes vieram dos primeiros guerreiros que construíram essa cidade. Do .
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Fim

  Nota: Olá! Tudo bem?
  Espero que gostem de “Dust” tanto quanto eu adorei escrevê-la! Confesso que foi um desafio e tanto, mas o resultado me deixou bem feliz. Talvez eu a desenvolva com mais detalhes no futuro, contando um pouco sobre os regenerativos, a relação dos principais e sobre a guerra.
  Beijos! <3

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Melissinha
Melissinha
1 ano atrás

QUE SACO LIVINHA, QUE HISTÓRIA GOSTOSINHA DE SE LER! COMO SEMPRE VOCÊ É PERFEITA EM TUDO 

Comentário postado originalmente em 17 de Dezembro de 2020

Liv
Liv
1 ano atrás
Reply to  Melissinha

MELISSINHA! Muito obrigadaaaa! Fico feliz que tenha gostado, anjo <3

Comentário postado originalmente em 17 de Dezembro de 2020

Bia
Bia
1 ano atrás

Meu Deus, essa é definitivamente a minha história preferida!! O enredo foge do comum e sua escrita impecável torna toda a experiência de ler Dust em algo muito, muito, muito prazeroso. Parabéns! Eu ameeeei! <3

Comentário postado originalmente em 15 de Fevereiro de 2021

Liv
Liv
1 ano atrás
Reply to  Bia

Muito obrigada!!!! Eu amei escrever Dust e fico tão feliz e animada ao ver que outras pessoas gostaram tanto quanto eu <3

Comentário postado originalmente em 16 de Fevereiro de 2021


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