Natashia Kitamura
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24º Andar

  Olhei para o mar ao fundo, imaginando o cheiro da maresia que batia àquela hora da madrugada. Por um breve momento, senti a brisa bater em meu rosto com leveza, como se quisesse acariciar minha pele. Coloquei as mãos nos bolsos da calça social criado por medida e fechei os olhos, tentando relaxar toda minha musculatura, que há pouco estava tão tensa. Respirei fundo, forçando minha imaginação criar a ilusão do cheiro da água salgada. Mesmo que o mar estivesse tão perto de mim, sentia-o longe por não querer me deslocar de meu escritório para colocar os pés descalços na areia. O caminho não era longo. A pé, poderia demorar de dez a quinze minutos para chegar à praia, mas estou exausto demais para seguir todo o caminho inverso que fiz agora mesmo.
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  Aos vinte e oito anos, sinto-me mais velho do que muitos homens de quarenta ou cinquenta. Não me considero uma pessoa estacionada; muito pelo contrário, a causa da sensação de velhice é o excesso de trabalho. Olhei ao redor, pela parede de vidro em formato côncavo que cobria 180 graus de meu escritório, localizado no vigésimo quarto andar do prédio de negócios. O último andar. Na parede oposta, a que não era formada por vidro, havia somente uma parede branca com alguns quadros considerados importantes para empresários e pessoas importantes que comparecessem em meu ambiente de trabalho, como meu diploma de bacharelado e mestrado. Diferente de outros escritórios, minha sala não possuía fotos. Filho único e com pais que não têm o hábito de se intrometerem em minha vida, não costumo trazer minha vida pessoal ao ambiente de trabalho.
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  No lado direito da paisagem externa, vi meu prédio residencial, que comprei somente porque facilita minha vida possuir minha moradia perto do escritório. Entretanto, foram poucas as vezes que passei mais que 10 horas seguidas dentro do apartamento; quando estou cansado demais para pensar, acabo adormecido no confortável sofá de meu escritório. Não usufruo de tudo o que comprei para meu próprio entretenimento na residência. Nunca usei a churrasqueira que há na espaçosa sacada do prédio ou do ofurô que vem embutido no banheiro da suíte principal. Nunca convidei ninguém para dormir em um dos quartos de hóspedes e nem abri os armários das despensas para tentar cozinhar algo para alguém no final de semana.
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  Durante toda minha infância e adolescência, achava que minha vida seria como outra qualquer. Um garoto com vontade de conhecer o mundo, com grande potencial de aprendizado e com uma facilidade enorme em aprender línguas e entender questões difíceis de exatas. Por querer aprender mais sobre o mundo, decidi me deslocar do interior de Kansas, para Toronto, o lugar que todos diziam ser bom o suficiente para fazer as pessoas sentirem-se jovens, mesmo tendo a pele flácida operada para parecer esteticamente esticada, ou os cabelos descaradamente pintados para não mostrar o branco da idade. Achei que seria uma boa oportunidade estudar em uma universidade onde as pessoas não se conhecessem desde a infância. Assim que me mudei, fiz algumas amizades e a cada mês que se passava, o grupo se tornava maior. Quando fui para o segundo ano do curso de administração, o grupo possuía cerca de trinta a quarenta pessoas. Com dois deles, fixei uma forte amizade que me garantiu meu primeiro emprego em uma agência imobiliária. Três meses depois, tive minha primeira namorada, cujo relacionamento não durou três meses, mas que me proporcionou contato com um ex-cunhado muito talentoso na área da engenharia. Mesmo tendo de encontrar minha ex durante os finais de semana, senti que podia suportar, quando havia ali, para nascer, uma proposta de empresa como nenhuma outra. Um ano depois, eu, meu ex-cunhado e meus dois amigos lançávamos uma Start Up experiencial no ramo de construtoras. Devido o baixo valor cobrado por não sermos formados, empresas grandes solicitavam nosso trabalho, auxiliando a aumentar nosso histórico com bons nomes em nosso portfólio. Três anos e meio depois de lançado a Start Up, logo depois de nossa colação de grau, transformamos a microempresa em uma empresa de médio porte, que não demorou a se tornar uma grande empresa no Canadá. A grandeza nos fez crescer, lançando franquias em cidades grandes próximas da minha cidade natal, como Orlando, Tampa e Los Angeles, cidade natal de um da nossa sociedade. A mudança de um deles para a China fez com que a sociedade diminuísse; depois de um ano, o segundo desistente, meu ex-cunhado, queria seguir suas crenças religiosas; dois anos e alguns meses depois, há exatamente um mês e doze dias atrás, meu amigo, Jay, faleceu em um acidente aéreo. Por não haver testamento, o negócio foi deixado nas mãos da única pessoa responsável senão ele: eu. Assim, acabei por me tornar cem por cento dono de uma das maiores construtoras do Canadá. Fechei a franquia de Los Angeles, que Jay cuidava, e dei o dinheiro à sua família, como agradecimento por terem sido bons comigo durante minha estadia em seu lar.
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  O trabalho excessivo me tornou uma pessoa ainda menos sociável que antes. Convites chegavam dia sim, dia não; eventos nacionais, internacionais, aberturas, desfiles, congressos… Coisas que não me importavam. O que eu imaginava que seria minha vida, cheia de atividades e emoções ao redor do mundo, acabei por ficar preso em um escritório no vigésimo quarto andar de um prédio em Toronto. Uma reunião da turma de formandos de 2007 fez com que eu desistisse do meu sábado e comparecesse ao evento, algo que chamou muito a atenção da mídia, que procurava desesperadamente encontrar algum ponto de mim que lhe rendesse um bom dinheiro; mas o que teria de bom em um homem que não sai de seu escritório? A não ser que a bolsa de valores despenque e eu perca parte de minhas ações, nada acontecerá de novo. O evento foi como deveria ter sido nos planos dos organizadores da festa. Encontrei vários colegas; o grupo de trinta pessoas de antes se tornou agora de quase cinquenta, já que a maioria de nós casou-se ou está em um relacionamento sério. Obviamente, minha presença fez com que a oportunidade de perguntar sobre minha vida pessoal se tornasse uma atração. Não falei que desde minha primeira ex-namorada, sequer chamei alguém para tomar um vinho.
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  Abri meus olhos e vi as nuvens quase transparentes por causa da escuridão passar lentamente pelo prédio em que estava. Olhei para o prédio ao lado, o único da mesma altura da minha por permissão do governo. Foi o único lugar que não consegui comprar o ar acima do mercado que havia antes ali, para evitar que minha vista fosse quebrada por paredes de concreto. Como não consegui obter sucesso e, como disse antes, para facilitar minha vida, comprei o mesmo andar no prédio para que não perdesse o lado esquerdo de minha vista, tendo-a complementada em minha residência.
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  O prédio era relativamente novo, possuía apenas três anos e parecia um hotel de negócios, com camareiras, manobristas e serviços de quarto. Foi uma boa ideia a dos proprietários, em criar algo que pessoas com uma agenda limitada como a minha, necessitem para melhorar o pouco tempo livre que temos. Olhei para o prédio, que possui apenas duas ou três janelas com luzes acesas. Por ser uma madrugada de sábado para domingo, acredito ser normal famílias ou amigos se reunirem para beber e conversar. Meu andar, o penúltimo, logo abaixo da cobertura, que era fechada para alguém que não conheço e que aparece muito menos vezes que eu, não vendeu um dos dois apartamentos que ali. Entretanto, ver a luz acesa me fez questionar se em algum momento durante minha ausência na festa, o proprietário liberou a chave para algum novo casal de recém-casados, loucos para ter uma bela vista como aquela, mesmo com o prédio da minha empresa atrapalhando sua visão periférica. Me aproximei mais do vidro, em uma curiosidade não usual sobre os novos moradores.
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  Me surpreendi com o que vi, por detrás das cortinas transparentes que esvoaçavam devido à forte brisa que batia àquela altura nessa hora da madrugada. Não corei ao vê-la baixar o zíper de seu vestido tubo vermelho, nem muito menos quando ficou somente de lingerie olhando para o que achei que seria um espelho, tirando seus brincos e colar. Mexi meu corpo apenas para saber que estava vivo ou acordado; a vi ficar de costas para a janela e consequentemente para mim, e então retirar o sutiã tomara que caia, deixando suas costas nuas ao meu dispor. Colocou uma camisola de seda azul marinho e me perguntei se ela não sentia frio, já que o inverno à noite não passava de alguns graus negativo. A vi caminhar de um lado para o outro e então, de repente, a luz ser apagada, acabando com minha pouca atividade durante a madrugada cansativa.
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  Durante os dias que vieram, não me lembrei da mulher que estava no apartamento que dividia o mesmo andar que o meu; entretanto, durante a noite, me pegava olhando para o lado, me perguntando o que tanto ela fazia para chegar tão tarde em casa. Haviam dias, percebi, que ela não voltava, ou pelo menos não aparecia na sala ou no quarto, ambientes que conseguia enxergar de meu apartamento. Além disso, me peguei enfrentando o vento gelado do inverno e indo até meu apartamento, apenas para saber se teria a oportunidade de me dopar com ela. Quando perguntei aos funcionários do prédio sobre minha nova vizinha, eles disseram que ela era uma pessoa que morava sozinha e se mudara não faziam nem dois meses.
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  O Natal estava se aproximando, por isso, as luzes de enfeite começavam a aparecer nas janelas e sacadas do prédio. Via crianças com seus pais se divertindo ao enfeitarem a enorme árvore que cabia dentro do enorme apartamento de mais de um milhão de dólares. Depois que vi minha vizinha pelo vidro de meu escritório, pude perceber que criei o hábito de, à noite, observar as outras atividades que os condôminos daquele prédio realizavam. Geralmente casais assistiam a algo juntos ou crianças brincavam na sala enquanto os pais cozinhavam ou liam ao jornal. Haviam alguns momentos que me pegava sorrindo enquanto assistia os outros terem momentos de relaxamento com pessoas amadas, enquanto eu estava ali sozinho, trabalhando, para variar.
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  Com o tempo, vi que minha vizinha aparecia durante alguns dias da semana e outros, sumia. Conversando com os empregados do prédio, descobri que ela trabalhava como comissária de bordo em uma empresa nacional de voo. Por isso, de vez em quando passava dias fora trabalhando. Por um momento, invejei seu cargo, já que viajar sempre foi meu sonho. Olhei para o céu cheio de estrelas e me perguntei como seria estar próximo delas com frequência.
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   Meus pais gostavam do Natal. Sempre gostaram. Mesmo depois de adulto, os dois insistiam em manter o hábito de me dar presentes que apenas eles dariam, como meias ou roubas de baixo. Quando recebi a mensagem de minha secretária dizendo que minha mãe gostaria de confirmar minha presença no jantar de natal, não pude disfarçar a careta em ter de me imaginar encontrando com toda minha família de Kansas. Mesmo que meus pais sejam pessoas que não se importam com minha vida profissional ou amorosa, pareceu que as coisas mudaram desde a última vez que os visitei há alguns meses.
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  - E quando irá nos apresentar sua namorada? – ouvi a voz de minha mãe no telefone.
  - Não há nenhuma namorada. – respondo, exausto, enquanto digito algumas coisas no meu computador.
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  - Você disse que estava saindo com alguém da última vez.
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  - Eu estava mentindo. – sempre achei impressionante como era mais fácil ser honesto pelo telefone. Não ver a expressão nervosa ou desapontada de minha mãe facilitava bastante em seguir suas regras de nunca mentir.
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  - , isso é errado. Achei que você finalmente tinha tomado um jeito, já está perto dos trinta e ainda sequer teve uma namorada.
  - Eu namorei na época da faculdade. – abri um pequeno sorriso pela diversão que sentia quando queria colocar minha mãe em problemas.
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  - Aquilo não foi um namoro. Você não nos apresentou a garota e o relacionamento não durou o suficiente para sequer pensarem em filhos.
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  - Mãe. Por que a senhora não se contenta com Julie?
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  - Julie e eu brigamos. Sua irmã anda muito sensível desde que engravidou. Não me lembro de ser assim quando estava gravada de vocês. Onde já se viu? Desligar o telefone na minha cara? Eu só estava falando que o pernil que ela se responsabilizou em fazer não poderia estar seco e esturricado como da última vez que ela o fez!
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  Revirei os olhos. Era sempre assim. Quando minha mãe e Julie brigavam, elas não costumavam conversar com meu pai ou um psicólogo; as duas me ligavam e passavam horas no telefone. Assim que desliguei a linha com minha mãe, vi no visor de meu celular o nome de minha irmã mais nova piscando. Antes mesmo de falar um ‘alô’, ouvi sua voz:
  - Mamãe está um saco.
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  E lá vamos nós.
  - Para ela, você está um saco também. – disse, voltando ao trabalho.
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  - Ela foi mais rápida que eu dessa vez. – ouvi sua voz estressada. – O que custa ela ser mais sensível comigo? Eu estou grávida! Minhas emoções estão à flor da pele e Albert insiste em trabalhar o dia inteiro mesmo eu estando grávida!
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  - A vida não para mesmo quando sua mulher está com um filho no ventre. – protejo meu cunhado e amigo de infância. – Veja só, Juls, seu marido está fazendo muito bem em trabalhar mais e garantir que você e o bebê não passem dificuldades.
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  - Homens… – ouvi-a resmungar. – Por que diabos casei com seu melhor amigo?
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  - Porque era o único homem que eu deixava se aproximar de você. Achava que você nunca teria nada com ele, quem iria gostar de Albert na puberdade? Ele tinha espinhas enormes!
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  - . Você está sendo infantil. Além do mais, você mesmo espantou todos os homens de perto de mim e o único que sobrou para eu me apaixonar foi ele. A propósito, o que acontece com sua voz? Cada vez que falo com você, seu sotaque está mais e mais sulista.
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  - Preciso sempre me adaptar ao ambiente para agradar aos clientes. – falo em um tom de voz superior, ouvindo-a bufar. Pude visualizá-la mudar o peso de perna e revirar os olhos. “Me poupe” foi o que ela disse em seguida. – E você me ligou para falar sobre sua briga com Sofia? Sinto te dizer, mas eu já sei a história inteira. Ela contou duas vezes. Duas. – ressaltei, tentando evitar ouvir pela terceira vez.
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  - Bem, então você pode falar sobre essa história de namorada. Ela não para de dizer que finalmente as irmãs dela e do papai pararão de falar que você é encalhado.
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  - Eu menti para ela para que parasse de falar sobre nossas tias. – expliquei, entediado.
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  - Ah, sim. Achei mesmo que você não seria tão bom em conquistar alguém nos últimos dois meses desde quando nos vimos. – abri um ligeiro sorriso com sua sinceridade. Julie tem mais facilidade em ser honesta do que eu. – Aposto que fica no seu escritório o dia inteiro.
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  - Desculpe se eu trabalho.
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  - Desculpe se Bert é rico. – soltei uma risada. – Ou se eu sou econômica o suficiente para ele não precisar se preocupar com gastos excessivos. – disse ao me ouvir rir. – Mano, maninho. Você sabe que eu me preocupo com você. – Fecho os olhos, pensando se seria capaz de desligar agora na cara dela e depois dar uma desculpa do temporal inexistente lá fora. – Você já está com quase trinta. E nunca namorou de verdade.
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  - Eu…
  - Não ouse chamar aquilo de namoro, , aposto que você nem transou com ela nem nada. Às vezes desconfio que você é virgem.
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  - Não se transa somente com namoradas. – falo, ouvindo-a se calar e então soltar um grito.
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  - Que nojo, ! Você é meu irmão! – solto mais uma risada e ouço seus resmungos até se calar e então, sem perceber e vários minutos depois, ouço: – Posso te apresentar a Lizzie.
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  - Você já me apresentou. Quatro vezes.
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  - Mas agora ela está diferente. Fez plástica no nariz, colocou silicone, entrou na academia e está fazendo ioga, além de ter pintado os cabelos de loiros. Está uma boneca. A Barbie, mais especificamente.
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  - Você sabia que a Barbie foi inspirada em uma prostituta? – comentei, ouvindo-a me xingar, fazendo-me abrir um sorriso.
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  Mesmo com um ano de diferença entre nós dois, Julie sempre agiu como se fosse a mais velha. Por eu ser uma pessoa afastada e que gosta de estar sozinho em meu próprio espaço, ela sempre se sentiu na obrigação de me fazer sair e me divertir. Quando pequenos, gostava de me ouvir rir; às vezes, eu ria somente para que ela não chorasse. Suspirei e virei minha cadeira para a direção oposta à da minha mesa. A neve caía no lado de fora levemente, parecendo que servia de cenário para os turistas que vinham de monte à cidade nesta época.
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  - … mamãe?
  - Como? – disse, saindo de meu transe.
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  - Você comprou o vinho para a mamãe? – ela repetiu a pergunta, provavelmente nervosa, uma vez que odeia quando as pessoas lhe fazem falar a mesma coisa mais de uma vez.
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  - Ah, não, ainda não.
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  - Vai agora. – ela disse. Revirei meus olhos. – Vai, , saia um pouco desse cubículo e vá respirar um ar! Não vai demorar meia hora, sei que tem uma loja de conveniências vinte e quatro horas neste mesmo quarteirão.
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  - Já passou pela sua cabeça que eu possa estar trabalhando? – perguntei.
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  - Claro que não, estamos na véspera da véspera de natal e você irá embarcar em nove horas. Deve estar com suas malas prontas e o vinho da mamãe comprado.
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  Olhei no relógio, que marcavam uma e meia da manhã. Fechei os olhos, exausto e olhei para a varanda do prédio residencial do outro lado da rua. A luz do andar 24 estava ligado, significando que alguém provavelmente passaria o natal em casa. Decidi concordar com Julie antes que ela iniciasse o processo dramático sobre sua situação de gravidez. Assim que desliguei, enviei todo o trabalho para o meu e-mail e desliguei o computador, pegando meu grosso casaco e o cachecol para me protegerem do frio até meio quarteirão de distância.
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  Mesmo que a neve ainda esteja caindo, o frio já não estava tão intenso quanto há horas, quando entrei no prédio da empresa. Caminhei com as mãos no bolso e vi o ar em forma de fumaça branca sair do meu nariz e da minha boca. Olhei para os lados enquanto via as pessoas passearem sorridentes, repletas de sacolas nas mãos e ouvindo os coros natalinos que haviam na rua. Não demorou nem dez minutos até chegar na loja de conveniência, climatizada pela calefação, tornando o ambiente quente e confortável. Fui até o corredor dos vinhos e passei a prestar atenção nas marcas.
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  Quando avistei a última Malbec na prateleira, sorri com a sorte. Peguei a garrafa e conferi se ela aquela mesma que queria. Minha mãe sempre amou vinhos argentinos. Quando estava prestes a me virar, senti me cutucarem nas costas.
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  - Desculpe, mas eu ia comprar este vinho.
  - Bem, ela estava na prateleira. Irei levá-la. – olhei para a mulher em seu casaco longo vermelho. Ela suspirou:
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  - Você não poderia escolher outro? Eu realmente só bebo este. – apontou para a garrafa em minhas mãos. Encarei o vidro e então para ela.
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  - Na verdade, a pessoa a quem darei este vinho também só bebe ele. – argumentei. A vi mexer nos cachos propositalmente feitos para melhor estilo e bufar, mudando o corpo de peso. Vi que era magra e tinha os cílios compridos. Usava uma bota preta de cano alto e as bochechas estavam altamente coradas por causa do frio lá fora. – Podemos perguntar se há mais em estoque. – dei a ideia, vendo-a me encarar.
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  - Está tudo bem, eu vou. Fique à vontade. – balançou a mão para mim. Não entendi a razão de não ter me movido. Meus pés pareciam não querer se mover. Em segundo algum desviei meus olhos dela. Vi tirar o celular do bolso e encarar o visor, que vibrava em suas mãos. Ao atender, não pude deixar de ouvir os gritos no outro lado da linha:
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  - , QUAL É O SEU PROBLEMA? POR QUE NÃO VEM PARA CASA NESTE FERIADO? – vi sua careta e a mão afastar o aparelho do ouvido. Continuei calado, ouvindo a mulher gritar no telefone sem ao menos deixar a tal responder. – VOCÊ DISSE QUE PASSARIA O NATAL COM A SUA FAMÍLIA; SUA MÃE ACABOU DE ME LIGAR PERGUNTANDO O QUE NÓS DUAS FARÍAMOS PARA FESTEJAR. O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?
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  - Eu só quero descansar, Jamie. – sua voz, exausta, era fácil de identificar. A vi explicar por mais um tempo sobre não querer mais viajar e sim aproveitar as férias para fazer o que realmente deveria, descansar. Ficou por mais três minutos no telefone e não me viu parado ali. Assim que sumiu de minha vista, percebi que ainda estava parado como um poste. Antes que alguém achasse que estava com algum problema, me dirigi ao caixa e paguei pelo vinho.
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  Minha mala deveria estar pronta, mas, para variar, eu não lembrava sobre a viagem ser tão cedo assim. Caminhei até o prédio residencial que morava e cumprimentei os funcionários e outros condôminos que estavam fazendo o caminho oposto ao meu. Entrei no elevador e, antes de fechar, ou a voz:
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  - Segure o elevador! – instantaneamente, coloquei a mão entre o vão da porta que se fechava, fazendo com que o sensor percebesse meu movimento e voltasse a abrir as portas.
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  Surpreendentemente, , a garota do supermercado estava ali com uma sacola em mãos. Se assustou ao me ver dentro do elevador.
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  - Boa noite. – a cumprimentei. Ouvi-a responder com a mesma educação e então olhar para o painel de botões dos andares. Vi seu olhar se virar para mim e então deixar os braços caírem de volta ao lado do corpo. – Não irá apertar seu andar? – perguntei, educado.
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  - Já está apertado. – ela respondeu.
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  Estranhei. Olhei para o painel e somente o número 24 estava apertado. Olhei para , que encarava a porta.
  - Você mora no vigésimo quarto?
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  - Eu passo meus dias de descanso lá, sim. – ela disse com um pequeno sorriso. – E, pelo que vejo, você é meu vizinho fantasma.
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  Sorri, encostando na parede do elevador.
  - Vizinho fantasma?
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  - Eu moro aqui faz alguns meses e nunca vi você entrar, sair ou fazer qualquer barulho para que eu possa, como em qualquer condomínio, ir reclamar ou então pedir uma xícara de açúcar.
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  - Este é meu segundo lar. – expliquei, ouvindo o sino do elevador avisando que havíamos chego no vigésimo quarto andar. – Moro mais no meu escritório.
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  - Pelo menos é um lugar fixo. – ela disse. – Eu moro em vários aviões da Air Canada. Sou uma empregada que voa. – soltei uma risada e a vi se dirigir em sua porta. Ao perceber que teríamos que mudar de lado por termos saído no lado oposto de nossas portas, nos atrapalhamos um pouco. Durante esse tempo, vi seus olhos enormes e os lábios avermelhados do frio. – Irá passar o natal aqui?
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  - Não, voltarei para Kansas. Família.
  - Ah, sim.
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  Ficamos calados em um silêncio constrangedor, até que a ouvi falar:
  - Quer beber alguma coisa? Tentei comprar um vinho hoje, mas pegaram o meu favorito na minha frente. – ela disse, passando o cartão-chave para abrir a porta.
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  - A pessoa deve ser mesmo muito insensível em não ceder a garrafa de vinho para você. – comentei, com um sorriso. Ouvi-a rir e concordar com a cabeça.
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  - Tudo bem, eles disseram na loja que chegarão mais amanhã. Comprarei cinco só para garantir que ninguém mais pegue nada antes de mim. – deu espaço para eu entrar em seu apartamento. Caminhei para dentro da residência e pude ver um espaço quase igual ao meu, só que em lados opostos. O mesmo material, quase a mesma decoração. – Bom gosto.
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  - Vou informar à designer do prédio.
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  - Ah, Alicia faz um bom trabalho. – ela me olhou, surpresa e abri um sorriso. – Decorou meu apartamento também. A diferença é que na sua casa há uma enorme árvore de natal e luzes de natal por todo o canto. – observei, vendo a decoração intensa.
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  - É meu feriado favorito… – sorriu, sem graça.
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  Durante vinte minutos ficamos conversando sem parar. Quando a meia hora se aproximava, me perguntou se estava com fome e resolvemos pedir comida para continuarmos a conversar. Vi que tinha muito em comum comigo. Preocupada com o trabalho, acabou se esquecendo de viver a vida. Mesmo viajando constantemente para lugares da América do Norte, nunca aproveitou nenhum dos lugares que foi. Tinha os mesmos interesses sobre negócios do que eu e os mesmos hábitos também. Por não ter vinho escuro, trouxe um Chardonay, mesmo não sendo uma celebração.
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  - Nós ganhamos muitas bebidas de clientes satisfeitos. É algo barato no Duty Free. – ela sorriu e apontou para a prateleira repleta de garrafas intactas. – Eu geralmente só sirvo para os convidados.
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  - Há uma boa recompensa, então. Este é uma delícia. – olhei o líquido dentro da taça e a vi me encarar.
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  Não soube quando seus olhos paralisaram os meus. Ficamos durante longos minutos calados, apenas tentando ler o que o outro dizia. Para ela sou apenas um vizinho fantasma. Nunca poderia dizer que para mim, conhecia-a melhor do que muitas outras pessoas, apenas porque durante todos os meses desde quando se mudou, fiquei a observando da sala de meu escritório.
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  Enfim quebrou o contato quando o telefone tocou. Se levantou e se dirigiu até a base do telefone, enquanto vi que já era a hora de ir embora. Levei os pratos e a comida que restou para a cozinha, organizando as louças dentro da pia. Quando terminei, ela saía da ligação.
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  - Não precisa fazer nada! – correu até mim. Sem perceber e por estar somente de meias, escorreu na cera passada no piso e cairia se eu não a segurasse por instinto.
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  O problema fora a maneira como ela caiu. Estava quase fora de meu alcance, por isso, para não deixá-la se machucar, acabei caindo junto. Não sei como parei em baixo dela, mas seu peso era o mesmo de uma pena, se pudesse comparar. Ao invés de sair rapidamente de cima de mim desconcertada. Ficou encarando meus olhos como fizemos há minutos.
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  Talvez fosse o espírito natalino, ou quem sabe ter ouvido minha mãe e Julie falarem sobre meus relacionamentos amorosos mais cedo. Quando achei que seus olhos se fecharam, capturei seus lábios ligeiramente, em seguida sentindo suas mãos percorrerem meu pescoço e seu peso voltar a relaxar em cima de mim. Eu estava beijando uma estranha. Minha vizinha estranha. Pedi licença para deixar minha língua explorar sua boca e ao sentir o toque da língua dela, me senti na obrigação de massageá-la, ouvindo-a arfar e aproximar ainda mais seu corpo do meu. No chão, com um impulso só, virei nossas posições, deixando-a deitada, enquanto me apoiava em meu braço e tocava sua cintura.
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  Assim que nos separamos, olhei em seus olhos. Pode ser que por sermos adultos, a situação não se tornasse tão embaraçosa. Ou por sermos pessoas passivas. Vi-a explorar meu rosto com seus olhos e então dizer:
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  - Você beija muito bem.
  - Você não viu nada. – respondi, voltando a grudar meus lábios nos seus.
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  Minha família não chegou a brigar comigo quando liguei na manhã seguinte dizendo que perdi o voo para Kansas e não iria passar esse feriado com eles, apenas o ano novo. Acredito que a indignação não tenha vindo, porque ouviram ao fundo, perguntar quanto tempo eu demoraria para terminar o almoço. Assim que desliguei, peguei a bandeja com a comida que pedi e voltei para o quarto de , levanto junto, duas taças e o Malbec.
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Fim

  Nota: Para minha amiga secreta, Bruna V. Bruninha, esqueci completamente que o fandom que escolheu era com garotos mais novinhos. Foi força do hábito, mas achei a história tão mais fácil de escrever que optei por manter ela mesma, hahaha! Espero que mesmo alguns dados não coincidindo, que você goste! Feliz Natal!

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Ray Dias
7 meses atrás
  Aos vinte e oito anos, sinto-me mais velho do que muitos homens de quarenta ou cinquenta. Não me considero uma…" Read more »

Me identifiquei tanto com a primeira frase do parágrafo hahaha

Ray Dias
7 meses atrás

Não acredito que acabou tão rápido! Achei que teria o clichê de levar a namorada de mentira pra casa dos pais e tal. Ai, ai, que bom que pelo menos a vida miseravelmente solitária dos dois teve um recesso de boa transa nas férias.


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