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Ghost Feelings

Capítulo 11 – Sussurros em Woodlawn

  Woodlawn. Woodlawn. Eu dirigia cegamente, como um louco, e tinha certeza de já ter ultrapassado dois sinais vermelhos. O celular novo parecia levar uma eternidade pra ligar e passar as configurações, quando finalmente pude ouvir a voz da máquina me ensinando a usar o controle de voz. Gritei sobre a localização de Woodlawn e foram mais segundos arrastados até que ela pesquisasse, ao mesmo tempo em que eu sentia uma gota de suor em minha testa. Pensei em parar até achar a localização exata do cemitério, mas eu simplesmente não sabia se conseguiria. Eu dobrava o World Trade Center quando o telefone finalmente disse o endereço, no Bronx. Bufei e, como um maluco, derrapei o carro para a direita, cantando pneu, e me enfiei do outro lado da pista, recebendo várias buzinas e gritos que duraram milésimos de segundos. Eu já estava muito longe.
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  Pelo horário, o portão de ferro batido já estava fechado, com algumas lâmpadas dos postes da entrada apagados, o que deixava ainda mais escuro. Havia uma neblina densa e bizarra no ar, deixando o ambiente ainda mais macabro. Estacionei o carro a uma longa distância e em hipótese alguma eu poderia escalar o portão da frente. Já deveria estar em uns 6 graus e a temperatura só cairia mais à medida que as horas passassem, e me preocupei com a possibilidade de nevar, apesar de o inverno ainda nem ter começado.
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  Eu jamais visitava cemitérios. Era um local que sempre havia uma remota chance de ter um fantasma e eu não precisava necessariamente visitar túmulos para me comunicar com quem quer que seja. Mas invadir um cemitério ou a sala de provas da polícia, que diferença fazia?
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  Havia câmeras principalmente na entrada. Dei a volta em um ângulo de 360º pelos muros, onde havia uma grande quantidade de árvores e muita moita. havia entrado de alguma forma. E tinha dado certo, visto que não havia nenhum carro de polícia ou pessoas correndo pra lá e pra cá.
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  Os arbustos atrás dos muros eram tão espessos que não era difícil escalar uma das árvores grossas para chegar ao topo. Caí de joelhos do outro lado, mas meus músculos estavam tão tensos que mal senti o impacto. O breu impossibilitava a minha visão e eu não fazia ideia de como acharia . O túmulo de Elena era algo que eu definitivamente não procurei saber e o cemitério era enorme. A cada minuto que passava minha garganta se fechava ainda mais e me senti um idiota por não lembrar o número de de cor para poder usar o telefone.
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  Depois de andar alguns metros pelo leste do cemitério, avistei uma luz fraca ao longe. Parecia vir da boca de uma lanterna e estava se mexendo rápido e depois devagar, como se a pessoa estivesse em movimento. Não parei para tentar adivinhar muito e corri a plenos pulmões em direção à luz, torcendo para que Elena tivesse desistido da ideia do ataque.
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  A neblina ficava mais densa à medida que eu me aproximava da luz e aquilo me causava arrepios intensos, como se me dissessem o que estava por vir. Sem perceber, gritei o nome de e imediatamente o pequeno foco de luz virou-se totalmente pra mim, me cegando por alguns momentos e me fazendo parar. A próxima coisa que senti foram braços passando em volta do meu pescoço, e um cheiro que estranhamente eu já reconhecia.
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  — ! — arfava, seu peito descendo e subindo tão rápido que parecia que havia corrido há pouco. Um soluço denunciava que ela segurava um choro.
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  Instintivamente, puxei seu rosto para olhá-lo melhor. Ela parecia totalmente apavorada e estava com a testa molhada de suor. Usava um vestido com os ombros desnudos e tremia naquela noite gelada. Parecia assustadoramente pálida.
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  Ela rispidamente me soltou ao ver que eu encarava demais, parecendo perceber o que havia feito. De repente, toda a sua postura rígida estava de volta e ela passou as costas das mãos embaixo dos olhos.
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  — Você está bem? — perguntei, pegando em seu braço e me aproximando para enxergá-lo melhor. Olhei para os lados, atordoado com a pouca visão, e me preparando para Elena aparecer a qualquer momento. — Tá machucada? Viu algo estranho? Por que você está assim…
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  — Eu estava… Eu… — ela começou e sua voz era abafada na tentativa de segurar mais soluços. — Como você chegou aqui? Como você sabia…
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  — Isso não importa agora! Você não deveria estar aqui! — Olhei pra ela, dizendo entredentes, minha irritação evidente. — Achei que tínhamos combinado que essa não era uma boa ideia! E o que raios aconteceu com você…
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  — Eu não sei! Eu estava na lápide de Elena… Aí… — Ela ficou com os olhos perdidos e meu coração de repente se apertou. Peguei a lanterna ainda acesa em sua mão direita e rolei a luz para averiguar o ambiente rapidamente.
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  Bem atrás dela, havia uma estátua imensa de uns seis metros de pedra branca, com a forma de um anjo. A pintura estava lascada, as últimas folhas do outono ainda estavam espalhadas pelo chão e um vento gélido as empurrou para longe. O silêncio era um tormento, gritava no fundo de minha mente. Algo de bom não iria acontecer se continuássemos ali.
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  — Temos que sair daqui agora mesmo — falei e virei o corpo para andar na outra direção.
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  — Espera…
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  — Se disser algo sobre terminar seu serviço, eu nem sei o que faço com você, ! Vamos sair daqui antes que alguém nos pegue!
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  — Serviço? — Ela juntou as sobrancelhas. — Não é nada disso que você tá pens….
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  Eu não podia ouvir suas explicações. Peguei em sua mão e a lanterna e a puxei para a direção que eu me lembrava do muro. Meus músculos ainda estavam tensos e talvez eu apertasse demais a mão dela, mas nada se comparava à rigidez que senti ao ouvir aquele sussurro na escuridão.
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  — Não tão rápido, . — A voz de Elena soou surpreendentemente macia e abafada, tão diferente da voz arrastada que eu ouvira no banheiro.
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  Abruptamente, virei meu corpo para trás. Não havia absolutamente nada ao redor, mas cada nervo do meu corpo estava alerta. Ouvi mais uma risadinha e mais um sopro frio, e desloquei para trás de mim, não soltando sua mão em momento algum.
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  Elena estava brincando comigo. Desde o início sabia que eu viria atrás de e queria machucá-la na minha frente. Eu movia a lanterna por todos os lados, mas ela não aparecia e ficava repetindo palavras e risadas que eu não conseguia compreender, com uma voz que não era mais dela.
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  “Você não pode escapar de mim.”
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  “Você não tem vergonha de se fazer minha amiga agora que estou morta?”
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  “Você permitiu que ele fizesse isso comigo.”
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  “Me matou igual fez com seu irmão, com seu pai, com mais quem, ? Quem será o próximo da sua lista? Amiga…”
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  Que merda de papo era aquele?
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  — , o que foi? — sussurrou e parecia estar tremendo mais. Aquelas palavras não eram direcionadas a mim e Elena não aparecia, então o que diabos era todo aquele jogo?
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  Em um milésimo de segundo, soltou de meu aperto e gritou quando teve o corpo arrastado pelo chão e lançado de costas à estátua do anjo, que tremeu com o baque e a fez cair de bruços. Imediatamente corri em sua direção, mas um puxão invisível me fez tombar para trás e também cair. Na mesma hora, Elena se materializou à minha frente, com um sorriso macabro no rosto.
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  — Filha da puta! — resmunguei, tentando me levantar. — O que você pensa que está fazendo?
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  — Estou fazendo o que ninguém fará por mim. Ou você pensa que vou ficar sentada, olhando a vida de todos aqueles que colocaram Ash propenso a me assassinar seguirem seus caminhos felizes? A resposta é não. — Sua voz ficou baixa e ela aproximou o rosto do meu. — Vou te dar uma última chance, . Você não tem nada a ver com isso, então sugiro que…
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  Só que ela não terminou de falar, pois meu punho a impossibilitou. Acertei seu nariz em cheio, fazendo-a gemer e cambalear para trás e atingi seus tornozelos, o que a fez cair finalmente. Isso me daria tempo de chegar a , mas não atrasaria Elena por muito tempo.
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  Me abaixei ao lado de , que ainda estava no chão, porém parecia acordada.
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  — Ei! , olha pra mim! Você está bem? — eu ofegava desesperadamente, pensando em uma forma de me livrar de Elena para sairmos dali. — Fala comigo, você se machucou?
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  — … — ela grunhiu, tentando se levantar e colocando as mãos na cabeça, como se sentisse dores. — O que aconteceu? Você ouviu… As vozes… Tinham vozes…
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  Minha garganta ficou seca e desviei os olhos. Aquela era uma variável que eu não esperava.
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  — Temos que sair daqui agora mesmo, depois nós…
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  — Você não vai a lugar nenhum! — Ouvi o grito de Elena na mesma hora em que ela puxou a gola do meu casaco, me jogando para trás violentamente.
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  Tudo à minha volta estava girando. Eu havia rolado como uma bola por pelo menos uns quatro metros e tenho certeza de ter ouvido chamar meu nome. Antes que eu pudesse me recompor, senti um chute direto no abdômen e depois um punho forte direto no olho.
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  — Primeiro será você, então… — Elena murmurou enquanto apertava novamente meu pescoço, dessa vez com tanta força que eu poderia levar a sério o lance de me matar. — Depois eu me resolvo com a garota e então Margot, Ash, todos eles…
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  Senti o ar passar cada vez menos pela minha glote e meus olhos quase saltaram das órbitas. Movi uma das mãos para o pescoço de Elena, tentando causá-la algum dano para que afrouxasse o meu aperto, mas pelo visto estava sendo sem sucesso. Ouvi a voz de mais uma vez, dessa vez se levantando por completo e correndo até mim.
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  — Não… — tentei falar, gritar, gesticular para que ela não chegasse perto.
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  Mas ela não pareceu me entender e continuou em frente, com uma expressão assustada no rosto. Eu sabia que ela não podia ver Elena, mas deveria ser desesperador ver uma pessoa prestes a morrer de asfixia sozinho. Assim que ela se aproximou de mim, uma das mãos de Elena soltou do aperto em meu pescoço e brevemente tocaram , fazendo-a ser lançada novamente para trás, desta vez a poucos metros. Pelo seu grito, ela havia batido em algo. Uma raiva aterradora me tomou e puxei a outra mão de Elena, tirando do meu pescoço e jogando a testa em seu nariz, empurrando-a para o lado e depois dando mais um soco, e depois mais outro. Ela gemeu e tossiu, e lhe incitei um pontapé no tórax.
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  — Estou te avisando… — disse entre dentes, meu punho lhe dando mais um golpe no rosto. — Se chegar perto dela de novo, vou te mandar direto pro inferno!
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  Ela parecia fraca, mas mesmo assim deu um sorriso irônico, mostrando dois dentes quebrados que logo voltariam ao normal.
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  — Seu burro. — Ela gargalhou como uma bruxa. — Ele vai atrás dela! — Ela riu e tossiu logo em seguida. — E ele… Com ele você não…
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  Ela tossiu mais uma vez, dessa vez com mais violência, e simplesmente desapareceu no ar.
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  Sem perder mais nenhum segundo, levantei rapidamente e me abaixei ao lado de , pegando seu rosto em minhas mãos. Havia um corte aparentemente superficial acima de sua sobrancelha esquerda que sangrava, e ela parecia estar um pouco grogue por causa do segundo impacto. Seus olhos se abriram lentamente e sua respiração estava pesada e profunda.
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  — . Ei — falei devagar, sussurrando, afastando seu cabelo do rosto. — Você pode levantar? Fala comigo… Temos que…
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  As pontas de seus dedos foram direto para minha boca, calando-me. Sua cabeça se levantou e pude sentir sua respiração quando ela tocou sua testa na minha, ainda de olhos fechados. Senti uma queimação em minha pele e meu coração desestabilizar.
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  — Você… está bem? — ela perguntou, se afastando do toque por um breve momento. — Você estava… Eu não sei…
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  — Eu prometo que vou te explicar tudo. Agora, por favor, me diga que consegue levantar, nós precisamos urgent…
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  Como uma série de coincidências ruins, uma sirene começou a apitar e luzes vermelhas e azuis estavam piscando ao longe. Não, não, não, não. Xinguei raivosamente ao observar um par de lanternas correndo ao longe, se movimentando aleatoriamente, procurando o local da confusão. Parecia que toda a algazarra havia finalmente atraído a atenção dos coveiros. Era tudo que eu não precisava.
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   pareceu perceber e imediatamente se levantou, ainda que cambaleante.
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  — Ai meu Deus… — ela arfou, olhando desesperadamente para os lados. — … O que a gente faz?
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  — Faça o que eu disser! Vamos! — Puxei-a rapidamente pela mão pela direção que eu me lembrava do muro.
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  O problema não era apenas escalar o muro para sair do cemitério. Os coveiros poderiam não nos pegar, mas a polícia com certeza iria, visto que eles estavam dirigindo em círculos ao redor do local. Puxei para a escuridão da base do muro há poucos metros da estátua e mesmo que eu não tivesse ideia de qual direção sairíamos do outro lado, não tínhamos outra escolha.
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  — Ah não… — ela murmurou, engolindo em seco olhando para a altura do muro, que era maior do que o da Columbia.
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  — Eu vou primeiro — falei, olhando firme em seus olhos, tentando passar confiança. — Vamos pela árvore e saltamos do outro lado.
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  — Nunca subi em uma árvore. — Ela olhou para cima e pude ver o medo que ela sentia.
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  — Você vai conseguir. Como da outra vez. — Coloquei a mão em seu ombro e senti o formigamento estranho de novo, fazendo-me soltá-la depressa. Ela concordou com a cabeça e eu comecei a escalada.
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  Visto que não era a mesma árvore que eu havia subido na chegada, essa estava mais lisa e difícil de alcançar o topo. Depois de ter ralado as palmas das mãos umas duas vezes quando quase escorreguei, consegui chegar ao ápice da árvore e pular para o muro, que era mais espesso nesta parte. Olhei para de cima, esperando-a, olhando para os lados nervoso com a iminência da outra ronda da viatura, que parecia estar do outro lado.
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  Apesar de nunca ter feito aquilo, se saiu bem. Conseguiu chegar ao alcance de minhas mãos bem mais depressa do que eu esperava e a puxei para o muro, onde ela se sentou, com os olhos fechados e respirando pesadamente. Independentemente do seu medo de altura, ela havia chegado bem e com apenas os machucados que havia ganhado lá embaixo.
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  — Eu vou pular e te seguro — disse mais uma vez, em voz baixa, e ela apenas concordou com a cabeça sem abrir os olhos.
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  Pular daquela altura não foi tão difícil, e dessa vez consegui cair de forma mais digna. O problema foi que o barulho pareceu ser mil vezes mais alto no asfalto por conta do silêncio ensurdecedor da rua parcialmente iluminada por postes amarelos e sem uma alma penada, apenas o barulho da sirene que se aproximava cada vez mais. Sussurrei para pular e a vi concordando com a cabeça novamente, passando as pernas para o outro lado do muro, finalmente abrindo os olhos.
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  Ela respirou fundo e pulou direto para os meus braços estendidos. Dessa vez a segurei firme, sem cair, e coloquei-a no chão, xingando aquele formigamento persistente que eu não sabia de onde vinha.
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  Não dava tempo de perguntar se ela estava bem, apesar de que seu semblante denunciava novamente que ela queria vomitar. As sirenes estavam altas, as luzes se aproximavam cada vez mais e o barulho do impacto dos meus pés havia feito os policiais pisarem no acelerador.
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  Olhei em volta. Não era o lugar onde eu havia escalado na chegada com toda certeza, e a única forma de encontrar meu carro seria contornando todo o muro do cemitério até o portão de entrada, o que seria extremamente suspeito se fôssemos pegos e não havia tempo para encontrar um esconderijo.
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  Na verdade, não havia tempo pra nada. Tentei correr alguns metros com , mas não éramos mais rápidos do que um carro. Sem chance de não sermos colocados na viatura se fôssemos pegos naquela situação em meio a uma correria e não estava nas melhores condições físicas para isso.
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  Por fim, havia um jeito. Impopular, eu diria.
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  — Para! Não vamos conseguir. — Puxei seu braço e ela juntou as sobrancelhas, usando sua expressão normal quando queria dizer que eu estava maluco.
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  — O que você quer dizer? Eu realmente não quero dormir em uma cela… — ela sussurrou entre dentes, olhando nervosa para os lados.
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  — Lembra que eu disse pra fazer o que eu disser? — Ela concordou com a cabeça, ansiosa. — Preciso que você fique parada.
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  Foi nessa hora que eu a beijei.
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Capítulo 12 – Silêncio e segredos

  A buzina soou uma, duas, talvez até três vezes. Era um barulho incômodo, como o zumbido de um mosquito, soando bem ao fundo do ambiente. Pelo menos era assim que parecia quando minha mente estava completamente focada em outra coisa.
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  Beijar não foi premeditado, de forma alguma. Foi uma decisão tomada impulsivamente, visando um objetivo em comum: distração. Então esperava que mais tarde isso explicasse por que estávamos imprensados no muro nos beijando de forma tão ardente.
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  Uma luz branca e forte iluminou a lateral de meu rosto e eu voltei ao foco. Abri um dos olhos e vi um policial se aproximar de nós, com a lanterna em nosso rosto. Afrouxei o aperto no cabelo de e mantive o braço em sua cintura, que não fazia ideia de como fora parar lá. Ela continuava me beijando de olhos fechados, aparentemente não percebendo que tínhamos sido descobertos.
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  — Ei, vocês aí! — O policial foi chegando perto, eu me afastei lentamente do beijo e ela pareceu finalmente voltar à vida real e tentar se afastar, mas a impedi com meu braço. Seu rosto estava inteiramente pintado de vermelho. — Não acham um pouco inapropriado fazer esse tipo de coisa aqui a esta hora?
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  O policial desligou a lanterna e nos encarou. abaixou a cabeça, envergonhada, e eu dei um pigarro antes de falar:
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  — Sentimos muito, senhor. Nós já estamos de saída…
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  — O que aconteceu com a roupa dela? — ele me interrompeu, apontando para o vestido de sujo de terra e seus joelhos ralados. — A senhorita está bem? Esse rapaz tentou fazer alguma coisa com você? — Ele foi se aproximando lentamente de mim.
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  — Não, não! — falou depois de um tempo. — Isso… É difícil explicar, senhor…
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  Ela olhou brevemente para mim, como um pedido de ajuda para formular uma história que ainda não tínhamos.
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  — Difícil, é? — O policial semicerrou os olhos e olhou desconfiado para nós dois. — Posso saber de onde os dois estão vindo?
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  — Senhor, como eu disse, é um pouco complicado…
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  — Recebemos uma denúncia de possíveis vândalos aqui no cemitério jardim. Pelo estado de vocês, parece que estavam fazendo algo bem trabalhoso. Vocês sabem algo sobre isso? — Ele levantou a sobrancelha e abri a boca pra falar, mas minha mente deu um branco. olhou de soslaio para mim, como quem dissesse “fiz minha parte, agora faça a sua”.
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  E o único jeito que achei talvez não a agradasse tanto.
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  — Senhor, é um pouco constrangedor… — respondi, sorrindo amarelo.
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  — Falem logo ou vão ter de falar na delegacia — ele disse firme.
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  — Nós só estávamos tentando fazer… o senhor sabe… em um lugar diferente! — despejei, e eu não sabia que poderia ficar mais vermelha do que já estava. Ela virou o rosto pra mim na mesma hora, com um grande ponto de interrogação na testa. — Não deu muito certo, como pode perceber.
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  O policial continuava nos encarando, analisando toda a situação. De repente, sua boca se abriu em surpresa e ele deu uma gargalhada.
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  — Ah… Certo, certo, esses jovens. Sempre se aventurando. — Ele riu mais uma vez, guardando a lanterna no bolso de trás do uniforme. Eu e demos risos forçados. — Compreendo a situação, mas vocês precisam sair daqui. Já passa da meia noite e estamos procurando suspeitos, então vão tentar fazer, sabe, aquilo em outro lugar. Meu cunhado é dono de um motel nessas redondezas. — Ele tirou um cartão retangular do bolso e me entregou. — Não é cinco estrelas, mas é melhor lá do que o que vocês estavam tentando fazer nesse muro. — Alerta rosto vermelho de novo. — Então é isso. Vou completar a ronda e quando eu passar por aqui de novo, não quero ver vocês.
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  — Muito obrigado, senhor. Tenha uma boa noite.
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  Ele retribuiu o cumprimento e entrou novamente na viatura, ligando a sirene antes de arrancar e sair. Olhei para , que ainda estava com as bochechas vermelhas e fazia de tudo para não olhar em meus olhos enquanto ajeitava seu cabelo e vestido.
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  — Então… — comecei a falar, mas ela levantou a palma da mão para me interromper.
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  — Você ouviu o policial, temos que sair daqui agora — ela disse e começou a andar em frente, na direção que estávamos indo antes. Por um momento, ela parou e se virou. — O que ainda está fazendo com esse cartão?
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  Bufei e joguei o cartão na lixeira mais próxima.
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  Eu estava pronto para o bombardeio de perguntas que me lançaria. Comecei a pensar em histórias, doenças, as desculpas mais esfarrapadas possíveis para explicar os eventos daquela noite. Pensava seriamente em confirmar seu julgamento de que eu realmente deveria ser epilético. Ou que eu era só doido mesmo.
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  Mas as perguntas não vieram. Não recebi palavra alguma desde que entramos no carro. E isso não me fazia sentir nada bem. Ela estava encolhida no banco, com o olhar distante, vazio, e eu nem acredito que daria tudo para saber o que ela estava pensando.
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  Não sabia se deveria levá-la pra casa, pra um hospital ou qualquer lugar que seja. Não tinha coragem de perguntar. Tentei pensar que ela estava daquele jeito por causa do beijo, mas parecia mais do que isso. Ela não era lá de se sentir tão afetada por causa de um beijo.
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  Ela não mostrou reação alguma quando estacionei o Jeep nas redondezas da baía de NY, de frente para o mar e o Upper Bay, com a estátua da liberdade brilhando ao longe. Não havia ninguém próximo, o silêncio era tanto que ouvíamos as batidas das ondas nas rochas.
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  Acendi a luz do carro e ela pareceu acordar. Não queria, mas vi medo nos seus olhos. Seria de mim? Se não, de quem mais seria?
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  Estiquei o corpo em sua direção e ela se encolheu ainda mais. Olhei pra ela, cauteloso, e abri lentamente o porta-luvas à sua frente, pegando um pequeno kit de primeiros socorros que eu mantinha para situações que eu sabia que iria passar.
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  Olhei para sua perna esquerda, pro ralado vermelho bem no centro do joelho e algumas feridas mais leves pela panturrilha. Ela acompanhou meu olhar, mas não relaxou.
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  — O que estamos fazendo aqui? — Sua voz não era ansiosa e nem apavorada. Ela parecia cansada.
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  — Não achei que você fosse querer chegar em casa assim — mantive minha voz firme, apesar de saber que fingir que nada aconteceu não resolveria nada. — Posso cuidar disso — disse em um sussurro.
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  Se ela dissesse para levá-la embora, eu a levaria sem piscar. Estava disposto a fazer qualquer coisa que ela pedisse para que tirasse a expressão de desconforto que havia tomado. Uma sensação estranha me invadia quando eu a olhava, parecia que estava me machucando.
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  Para minha surpresa – e não posso negar, alívio – ela girou o corpo em minha direção e estendeu a perna em cima da minha. Ela segurou a barra do vestido que havia subido alguns centímetros, procurando cobrir o máximo de pele que conseguia. O olhar dela era cauteloso, parecia estar me vigiando.
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  Sem dizer nada, abri a caixa e comecei a fazer o curativo em silêncio. Ela encostou a cabeça na janela e fechou os olhos com força quando mexi em seu joelho, e não me senti nada bem vendo-a sentir dor.
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  — Ai! — ela gemeu, ficando trêmula por alguns segundos. — Acho que eu mesma posso fazer isso… — Ela ameaçou retirar a perna, mas puxei-a de volta para o lugar.
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  — Já estou terminando — murmurei. Não queria parecer ameaçador, mas posso ter deixado um pouco da minha irritação vir à tona. Se ela queria me torturar com seu silêncio, tudo bem, mas que saiba que eu não estava gostando nada daquilo.
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  Ela não brigou ou discutiu, deixou que eu terminasse o curativo. Posicionei sua perna com cuidado para debaixo do banco e em seguida encarei o corte em sua testa.
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  — Posso te ajudar com isso também? — falei baixo novamente.
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  Dessa vez ela não tentou negar. Se aproximou lentamente de mim e eu dela, uma aproximação que fez meu sangue ferver. Apliquei a clorexidina, ela deu leves espasmos e usei minha outra mão para estabilizar seu rosto. Eu via que ela estava com os olhos fixos em mim, me estudando, cada centímetro do meu rosto. Sentia que ela estava procurando traços de que tudo que havia visto fora real, que eu estava realmente ali, cuidando de seu machucado depois de tê-la visto voar pela estátua e ter quedas inexplicáveis. Que eu realmente havia sido lançado ao ar por uma força invisível e dando socos ao vento.
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  Eu sabia que as perguntas estavam ali, nos seus olhos. Eu só não sabia se ela queria saber as respostas. E era exatamente por isso que ela ainda não havia fugido: porque não tinha certeza do que tinha acabado de ver.
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  A maioria das pessoas era assim. Fantasmas agem no cotidiano o tempo todo, mas as pessoas preferem simplesmente ignorar e aceitar que eram coisas de sua cabeça. Que não era real. Que fantasmas não existem. Era mais fácil. A ignorância é uma benção.
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  Mas ali, com seu rosto tão próximo do meu que era capaz de sentir sua respiração, eu sabia que ela estava além. Que eu havia aguçado sua curiosidade — ela só não sabia como lidar com ela naquele momento.
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  Terminei o curativo e guardei a caixa no porta-luvas. Voltei as mãos ao volante e as coloquei nas chaves, pronto para ir embora.
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  — Você ainda não me respondeu — ela falou, impedindo que eu desse a partida.
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  Ela iria começar a falar e eu não sabia se isso era bom ou ruim.
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  Apenas olhei pra ela, esperando.
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  — Como sabia que eu estava lá?
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  Pensei. Costumava lançar a primeira resposta que vinha à minha mente para e sempre obtive 100% de sucesso. Mas algo me dizia que com não seria bem assim.
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  — Já disse que isso não importa. — Tateei a entrada abaixo do rádio e achei o maço que guardava. — O importante é que eu estava lá. — Acendi o cigarro, mesmo sabendo que não entendia essa mensagem.
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  Ela continuou olhando para mim fixamente. O medo ainda estava lá, mas agora eu também via um novo tipo de sentimento, como frustração.
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  — Não vai perguntar se estou bem? — Ela deu de ombros.
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  A fumaça enchia o carro, mas ela não parecia se importar. Ela parecia estar me desafiando a dar a resposta correta.
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  — Espero que esteja — respondi em um fio de voz. Oras, eu não tinha coragem de lhe perguntar isso.
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  — Pois não estou! — ela vociferou e me deixou preocupado. Agora eu via a raiva. A veia dilatada na têmpora. Ela desejava gritar. — O que… O que foi aquilo? Como você… Como eu…
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  Ela não sabia por onde começar. A pergunta estava na ponta da língua, mas as palavras se perdiam. Ela estava confusa e isso não era bom. Quis bater minha cabeça na parede por ter vindo até aqui. Quis me socar até a morte por ter deixado o restaurante e ido até Woodlawn. Mas daí teria passado por tudo que passou hoje e poderia estar morta. Eu sentia raiva de mim mesmo por não poder explicar.
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  Permaneci frio frente à sua confusão. Eu não podia envolvê-la mais. Aquilo tinha sido um erro. Precisava me afastar e dessa vez definitivamente. Poderia observá-la de longe, vigiar o fantasma estranho sem englobá-la nesse meu mundo.
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  — Você parece cansada — falei, colocando o cigarro na boca e metendo as mãos novamente no volante. — Vou te levar pra casa.
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  Ela jogou o corpo pro meu lado, tirando o cigarro à força dos meus lábios e jogando-o pela janela. Estava com um olhar furioso, frustrado e ao mesmo tempo amedrontado.
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  — Eu lembro. Eu vi. Eu não sou louca — ela sussurrou, seu nariz praticamente encostando no meu. Ela sabia o que queria falar, mas seu tom de voz não era firme; ela parecia apavorada só de proferir aquelas palavras. — Eu ouvi… Ela disse… Sobre o … — Seu rosto se curvou em uma careta de choro, mas ela se conteve. Seus olhos marejaram e não demorou muito para deixar uma lágrima sair.
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  Ela abaixou a cabeça e seu corpo tremeu para segurar os soluços. Trinquei o maxilar, com uma vontade súbita de socar Elena mais umas dezenas de vezes. Como ela havia feito aquilo com eu não fazia ideia, mas não podia ceder e bater um papo com ela sobre aquilo naquele momento, por mais que eu estranhamente quisesse isso.
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  — Deixa eu te levar pra casa — repeti mais uma vez, em voz baixa. Minha voz estava o mais nula possível.
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  Ela ergueu a cabeça e me olhou feio, agarrando a minha camisa e me puxando pra mais perto.
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  — Você… — ela ofegou. — Você viu alguma coisa. Estava vendo alguma coisa. — Não era uma pergunta. — Você estava lá! Você se lembra, você a ouviu! Ela falou sobre o meu pai, sobre , oh meu Deus, … — Seu corpo sacudiu em soluços e ela fechou os olhos com força, mais lágrimas rolando. — Fui visitá-lo e ela te machucou, você a viu! É igual daquela vez, ele também podia vê-los…
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  — Não faço ideia do que você está falando. — Mantive a expressão séria a fim de que ela entendesse. — Você levou uns tombos, não sabia que era tão desastrada. Até me derrubou em uma das vezes.
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  Sua boca se abriu em um choque. Me senti um cretino. Ela buscou a verdade em meus olhos, que permaneciam frios e até insensíveis.
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  — Não, você também ouviu — seu tom de voz ficou mais firme, com raiva. — Você conversou com ela, na escuridão… Eu sei que tinha algo na escuridão, você se lembra!
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  Nervoso, agarrei seu cabelo com uma das mãos e aproximei nossos rostos até encostar em seu nariz. Tornei meu olhar furioso, impaciente, deixando explícito que queria que ela calasse a boca.
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  — Quer saber do que eu me lembro? — entredentes, minha voz saía como um rugido. — Lembro disso… — Contornei seus lábios com os dedos, detendo meu olhar ali. — E disso… — Coloquei mais força no aperto em seu cabelo. Senti a agressividade dela se dissipando e ela fechar os olhos ao toque, ofegando. Um súbito desejo doentio e aproveitador me inundou. — Não se lembra?
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  Larguei seu cabelo com força e a vez de quem se encolher foi minha. Queria sair do carro, gritar. Queria que alguém tirasse essa mulher atraente do meu carro, queria não ter tanta vontade de contá-la sobre o que aconteceu, queria não sentir a curiosidade latente sobre absolutamente tudo de sua vida, queria não me sentir um lixo por vê-la chorar e não fazer nada.
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  Ela ainda parecia com raiva, mas voltou ao banco. Seu choro havia cessado, transformado em apenas pequenas fungadas. Eu sabia que, se pudesse, ela sairia do meu carro naquele momento e iria embora de outra forma. Eu havia agido como um perfeito babaca e, mesmo que propositalmente, não conseguia evitar de me sentir mal. Eu havia literalmente desprezado toda a sua dor e a tratado como fui tratado sempre que toquei nesse assunto poucas vezes na vida.
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  Ela estava sofrendo pelas palavras de Elena e meu corpo queimava de curiosidade, mas eu não podia me permitir adentrar a intimidade de . Tinha medo de conhecê-la melhor. Tinha medo de não querer ir embora.
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  — Nunca mais faça isso — ela murmurou, encostando a cabeça no banco.
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  — Te oferecer uma carona? — Olhei para frente, os dedos apertando o volante.
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  — Me beijar. E… me tocar desse jeito. — Ela me olhou de soslaio, mas não me atrevi a retribuir. Tinha que deixar claro que aquilo não importava.
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  — Claro — respondi seco, girando a chave. — Nunca mais vou te beijar.
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  Naomi devia estar uma fera, e com toda razão. Assim que eu havia completado o pensamento de que não estragaria mais a noite, eu fiz isso e muito mais. Pensei em várias formas de como explicaria o que havia acontecido naquele dia, que ainda continuava nebuloso.
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  Mas não precisei pensar tanto, pois Naomi estava parada no meio da minha sala assim que abri a porta, usando um roupão azul marinho e bebendo uma taça de vinho, com os Beatles tocando ao fundo.
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  Ela se virou ao me ver entrar e não disse nada. Eu respirei fundo enquanto fechava a porta atrás de mim.
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  — Eu juro que posso explicar.
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  — A bela NY agora anda ensinando rapazes a largarem damas plantadas no meio do jantar?
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  — Eu não devia… Não foi… — Fechei os olhos, balançando a cabeça. — Me desculpa. Foi um vacilo terrível. Eu prometo que vou te compensar.
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  — Vai mesmo? — Ela levantou a sobrancelha e colocou a taça na mesa de centro. Em seguida, ela desamarrou o roupão e deixou que este caísse no chão, revelando seu corpo completamente nu. — Vamos ver como você vai se sair nisso.
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  Naomi me beijou, violenta e sedutora, passando a língua pelos meus lábios e jogando meu casaco ao chão. Puxou pela gola da minha camisa até a bancada da cozinha, onde se sentou e passou as pernas pela minha cintura.
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  — Lembra como a gente queria experimentar na cozinha? — ela sussurrou em minha orelha entre os beijos nessa região. Arfei, o sangue indo à toda velocidade entre as minhas pernas, deixando que ela tirasse minha camisa.
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  Beijei seu pescoço e desci até os seios enquanto ela desatava o zíper da minha calça. Respirando pesado, ela repentinamente desceu da bancada e virou de costas para mim, inclinando e encostando todo o tronco em cima da superfície retangular, virando a cabeça de lado.
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  — Você sabe como eu gosto — ela falou baixo, mordendo os lábios, olhando para mim de soslaio.
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  Foi o que bastou para eu terminar de retirar minhas roupas. Peguei em sua cintura e dei a primeira estocada, enquanto colocava a outra mão em seu cabelo. Minha visão de suas costas nuas, os cabelos jogados para o lado enquanto ela gemia… de repente fui transportado para o carro mais cedo, o rosto de perto do meu, sua perna na minha, sua pele macia, os cabelos sendo postos de lado e uma cena que não havia acontecido: ela se virando de frente para mim, me permitindo beijá-la de novo, observá-la, tirando o resto das roupas, um beijo tão ardente quanto o do muro ou mais.
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  Fechei os olhos com força, lutando para voltar à realidade. Ouvi Naomi pedir que eu fosse mais rápido, visto que eu havia perdido o ritmo. Abri os olhos novamente e tentei de novo, mas dessa vez a lembrança do muro veio com força total, as mãos de indo para o meu cabelo, sua língua que havia começado relutante, mas no final já explorava toda a minha boca em um ritmo frenético e intenso. Fechei os olhos novamente, revivendo o toque e senti meu corpo arder em chamas. Em mais um abrir de olhos, visualizei as costas de Naomi, o cabelo loiro nada parecido com o cabelo que eu havia tocado mais cedo, nem a boca, as costas; e eu quis voltar loucamente para a lembrança de , a situação e tudo.
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  De repente, eu não conseguia mais.
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  Me afastei de Naomi, ofegante, coçando os olhos e vestindo minhas roupas de volta. Eu mal havia notado que eu brochei, mas ela com certeza percebeu. Procurei um cigarro nos meus bolsos e não achei, andando até o outro lado da bancada.
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  — Qual é o problema? — Naomi caminhou até mim, colocando a mão em meu rosto e desviei o olhar. — Você está bem? Aconteceu alguma coisa hoje?
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  — Não aconteceu nada — respondi rápido, me desvencilhando sem perceber e caminhando até uma das gavetas da pia, achando um maço.
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  — Realmente não aconteceu nada. — Senti o tom irônico em sua voz. — E isso não é normal. Vai, me diz o que aconteceu hoje.
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  Suspirei e acendi o cigarro, em seguida pegando duas cervejas na geladeira.
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  — Olha, me perdoa. — Entreguei uma pra ela, junto com minha camisa que peguei do chão. — Eu não sei o que aconteceu, devo estar preocupado com as provas e toda a matéria perdida nesse tempo que passei no hospital, não sei.
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  — E desde quando você se preocupa com essas coisas? — Ela vestiu minha camisa e nós dois nos sentamos no tapete em frente à enorme janela da sala, olhando o horizonte brilhante de NY. — O que está havendo? Conversa comigo. — Ela passou a mão em meu cabelo.
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  Olhei pra ela, que tinha uma expressão calma, mas seu olhar era ansioso. Ela bebeu um gole da cerveja e roubou meu cigarro antes que eu o colocasse na boca, pois ela sabia que era uma forma de eu ficar sem falar. Respirei fundo e não vi escapatória.
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  — Eu vi Elena no banheiro. — Dei de ombros. — Ela enlouqueceu e me atacou… — Bebi um gole da cerveja e me calei.
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  — E? — ela perguntou depois de um tempo. — Estava esse tempo todo lutando com uma assombração? Me recuso a acreditar.
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  — Não exatamente… Ela estava indo matar alguém.
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  Naomi balançou a cabeça devagar.
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  — Um espírito vingativo? Não é muito cedo pra essa garota?
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  — Pois é, foi meu primeiro pensamento. É tudo muito estranho. Até semana passada ela mal conseguia sair do campus e agora me encontrou em um lugar onde eu nem frequento. Fico pensando se ela não pode aparecer aqui a qualquer momento…
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  — Ela não irá fazer isso. — Naomi disse tranquila enquanto bebia outro gole da cerveja.
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  — Como tem tanta certeza disso?
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  — Porque eu tenho. — Ela deu uma piscadinha. — Você devia ler mais sobre os mortos, . Como é esperado, você despreza tudo que vem do lado de lá, mas sua vó é capaz de mais coisas do que você pensa. Ela com certeza protege esse lugar com tudo que tem.
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  — Do que está falando? — Eu ri debochado, roubando meu cigarro de volta da mão dela. — Minha avó é só um fantasma que quando viva podia ver outros fantasmas. Não há nenhuma habilidade especial a mais.
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  — Claro, claro. Não subestime a Madame Padmé. — Naomi concordou com a cabeça, dando um sorriso maroto. — Mas e então, é com isso que você está preocupado? Não fica assim, essa garota não vai achá-lo de novo nem tão cedo.
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  — Não é comigo que estou preocupado — murmurei, olhando para frente.
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  — Então o que é? — Suas sobrancelhas se juntaram por alguns segundos antes de ela soltar um “Ahh” da descoberta. — A pessoa que ela queria matar, claro. Por acaso tem algo a ver com o cara entrevado em uma cama de hospital com a perna arruinada nesse momento?
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  Repentinamente, eu estava em um dilema. Sobre os mortos, eu não costumava esconder nada de Naomi. Absolutamente nada. Parecia extremamente errado fazer aquilo com a única pessoa que eu conhecia que compartilhava aquela realidade comigo, como se fosse um código de irmandade desde o nascimento.
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  — Mais ou menos — respondi. Ela piscou os olhos, esperando o resto da resposta. — Ela queria matar outra pessoa.
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  — Uau. Nervosinha ela. — Ela soltou uma risada enquanto bebia outro gole. — O que foi isso? Bullying coletivo? Quem era o próximo alvo?
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  Novamente o dilema sondando a minha cabeça.
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  — Era… uma garota. Elena me disse pra onde estava indo e que pretendia matá-la… Eu nem pensei direito e fui.
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  — Hmmm — ela murmurou e ficou em silêncio por algum tempo. — Saiu correndo para salvar uma garota, que situação atípica de . Devo ficar com ciúmes?
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  — Claro que não. — Dei uma risada, mas pareceu meio engasgada. — Eu nem a conhecia, mas a situação de Elena me deixa inquieto, ela precisa ser detida.
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  — Entendi, senhor vigilante. Agora a pergunta que não quer calar: por que não me levou junto? — Ela ergueu as mãos para frente como uma pergunta óbvia. — Esqueceu que estamos juntos nessa? Eu nunca recuso uma boa briga com esses indigentes penados e você sabe bem disso. Tudo isso poderia ter sido resolvido bem rapidinho e agora estaríamos fazendo coisas bem mais interessantes… — Ela passou as mãos pelos meus ombros, se aproximando de mim de joelhos, chegando perto da minha boca.
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  Novamente no automático, desviei antes que nossos lábios se tocassem, dando um sorriso fraco de volta.
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  — É, você está certa. Na hora eu não pensei em te meter nessa, me desculpa.
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  Ela concordou com a cabeça, mas sua testa estava enrugada levemente, com uma expressão desconfiada.
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  — Aconteceu mais alguma coisa hoje, ?
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  O dilema. Dessa vez me apertava como paredes em movimento, prontas a me esmagarem se eu não achasse uma saída. Sim, havia acontecido mais alguma coisa que eu estranhamente não queria falar sobre.
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  Percebi que eu nunca havia tido uma conversa daquelas com Naomi. Digo sobre outras garotas. Por mais que eu buscasse em todo o histórico da nossa história, eu nunca havia tido motivos para sequer tocar no assunto. A verdade nua e crua era que Naomi era a única.
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  Não que não pudesse haver outras. Eu não estava preso à Naomi, nunca me sentira assim. Mas quando eu pensava em falar sobre , sentia a garganta fechar. Como se eu quisesse guardar aquele momento só pra mim dessa vez, sem contar para terceiros, mesmo que este fosse Naomi. E, por um lado, eu não imaginava qual seria sua reação e o rumo que a conversa teria – e não estava disposto a tê-la naquele momento.
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  Ela ainda esperava uma resposta e tentei bolar uma explicação no meio da minha cabeça confusa.
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  — Já disse que não. — Dei de ombros. — Só tive problemas técnicos na hora da fuga. — Mostrei as palmas das mãos raladas da árvore.
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  Ela deu uma risada e pegou as palmas de minhas mãos, passando os dedos de leve sobre os machucados. Seu olhar parecia estar viajando para outro lugar.
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  — Eu devia saber que não havia acontecido nada grave — ela dizia com um sorriso em linha reta. — É que depois do que você me contou e de tudo que passou… Sei lá, apenas pensei… — Ela balançou a cabeça e o sorriso foi desaparecendo aos poucos enquanto ela se abraçava.
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  Naomi só me permitia ver esses momentos de fraqueza poucas vezes durante a vida. No fim, ela estava preocupada comigo e isso a assustava porque ela bem sabia como eu podia me virar bem em qualquer situação quando se tratava dos fantasmas. Mas eu não podia julgá-la daquela vez, não depois de tudo que havia acontecido.
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  — Por um momento pensei que você tinha ido atrás dela. — Ela deu uma risada seca, sem graça. — Sabe? Da garota que está sendo perseguida por aquele… — Ela teve um arrepio e balançou a cabeça. — Enfim. Foi uma ideia maluca, não é? Você não faria isso depois do que ele lhe fez.
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  Com a boca seca, apenas concordei. Naomi ainda não relacionava a garota que havia aparecido em minha porta naquela manhã com a que estava exposta à morte e eu mais uma vez não fiz questão de dizer. Essa sim seria a reação dela que eu não queria ver. Apesar de que, se fosse para afastar , poderia ser bastante necessária.
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  Conversamos por mais um tempo madrugada adentro. Ela me contou que havia ligado pra ela, porque não conseguia falar comigo, pois eu ainda não havia feito o favor de comprar um celular novo. Lembrei-me que o havia deixado largado no carro e prometi que ligaria para Naomi e com o número novo assim que eu dormisse um pouco. Como de praxe, Naomi avisou que eu não a veria saindo pela manhã pois seu voo era muito cedo. Dessa vez, ela tinha negócios na Flórida e brincou que mandaria lembranças à minha mãe.
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  Finalmente senti o sono me alcançando e fui para o quarto, deitando ao lado de Naomi. Fechei os olhos e, infelizmente, os pensamentos continuavam ali. Como um repeteco dos acontecimentos, um resumo de tudo que havia se passado. Eu não sabia se deveria refletir ou ficar ainda mais ansioso. Eu havia quebrado a promessa com minha avó sem nem pensar duas vezes por causa de uma garota que eu mal conhecia – e que estranhamente me fazia querer protegê-la – e que, pelas frases de Elena, escondia algum tipo de segredo. Mas era mais do que isso. Nos últimos dias, eu havia me deparado com muitas situações novas que me deixavam cada vez mais em dúvida e perdido sobre o que eu estava fazendo, e isso por si só já era novidade. Como se tudo isso fosse por um propósito desconhecido, mas a sensação de que alguma coisa terrível iria acontecer ainda estava aqui.
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  E eu não fazia ideia de como prevenir.
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Capítulo 13 – Hereditário

  Eu tinha certeza de que estava sonhando.
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  Os pés descalços mergulhados na poça não me deixavam mentir. Até porque minha última lembrança havia sido na minha casa, no meu quarto, deitado ao lado de Naomi. Mas ali, naquela escuridão enevoada e medonha, nada tinha a ver com o apartamento, muito menos com a sensação de familiaridade e de segurança que eu experimentava ao lado dela. Era apenas… o nada.
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Se preferir, coloque para tocar Dreamscape – Nox Arcana.

  Aos poucos, o cenário foi tomando forma. Paredes levantaram-se do chão, escuras e mofadas. Uma única luz tênue amarelada vinha de algum ponto do local que eu nem sabia do que se tratava. Queria dizer que estava com medo, mas a minha curiosidade abafou esse sentimento antes que ele pudesse dar as caras. Isso porque havia outro par de pés submersos na água, que corriam timidamente à medida que a outra pessoa se aproximava.
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  Ele se aproximou tão rápido, correndo, pisando forte no chão molhado e fazendo com que os respingos me atingissem. Pelo reflexo turvo na água eu não o reconheci. Ergui os olhos e obtive o mesmo sentimento de estranhamento. Era apenas um homem, um desconhecido. Tinha um olhar de puro pânico e o corpo encharcado. Ele havia surgido de lugar nenhum, estava fugindo.
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  Ele corria exatamente na minha direção e com certeza me derrubaria se eu não saísse de seu caminho. Mas eu precisava pará-lo, perguntar o que estava acontecendo, que lugar era aquele, o que eu estava fazendo ali. Entretanto, mesmo com o choque iminente que sofreríamos caso eu não me mexesse, ele não parecia estar me vendo. Tinha os olhos cravados em mim, mas confusos, concentrados, amedrontados em um ponto à frente. Como se eu não estivesse ali. E gostaria de dizer que essa foi a parte mais bizarra da coisa.
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  Mas, ao faltarem menos de dois passos para o impacto de nossos corpos, tudo ao redor ficou em câmera lenta. A imagem do homem à minha frente tremulou e se transformou. Tinha os mesmos olhos assustados, o mesmo medo e desespero de antes. Mas, em um piscar de olhos, não havia mais homem desconhecido algum.
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  Eu estava correndo de algo que se escondia no escuro. Eu era o dono dos pés espalhafatosos que lançavam as gotas da água corrente ao redor, com as roupas molhadas grudando na pele. Eu era a pessoa com o semblante destilando puro terror.
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  E ele – ou eu – estava prestes a me acertar em cheio. No último milésimo de um segundo, senti seus olhos cravarem nos meus, duros como pedra. Minhas pernas viraram chumbo. Levantei a mão para tocá-lo, mas ele simplesmente me atravessou. Como fumaça. Girei o corpo para trás, mas ele não estava. Havia simplesmente desaparecido, como se fosse uma ilusão.
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  Mas uma segunda presença, muito mais atenuante e devoradora, surgiu pelas minhas costas. E quando me virei, fui tomado por uma mão fria e atroz em meu pescoço, em um aperto que revelava diretamente sua intenção de me matar – e também todo o intuito daquele sonho.
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  Não precisei olhar para o seu rosto. Eu já sabia. Toda a aura negra e medonha me foram familiares no mesmo instante, fazendo-me reviver o vazio e o ataque. Tentei lutar contra ele, mas era inútil – inútil de uma forma diferente, uma impotência que eu jamais havia sentido. Todo e qualquer movimento não parecia atingi-lo e eu mal saía do lugar, por mais que tentasse. Com o ar faltando cada vez mais em meus pulmões, questionei-me se aquele era realmente um sonho, se o medo que começava a me desesperar era real e motivo suficiente para que eu me preocupasse. Seus lábios se abriram lentamente em um sorriso feio, distorcido, mostrando os dentes lascados e sujos. Ele aproximou seu rosto do meu, não afrouxando o aperto em momento algum, e sussurrou apenas uma palavra:
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  “Destino”.
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  Era aí que eu acordava, sentando-me veloz na cama e levando as mãos automaticamente para o pescoço, arfando e encharcado de suor. Foi um sonho. Um sonho que me acompanharia não apenas naquela noite. Um sonho que me perturbava com a sensação inteiramente realista de se estar morrendo.
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  — ? — A voz de Naomi soou grogue e sonolenta ao meu lado. — Que horas são?
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  Eu não sabia, mas os raios de sol já penetravam as janelas.
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  Joguei as pernas pra fora da cama, controlando minha respiração pesada para que Naomi não percebesse e fizesse perguntas. Tudo que eu menos queria e precisava naquele momento era preocupá-la com coisas que nem eu sabia o que eram.
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  — Sete horas — respondi ao olhar o aparelho de som na mesinha de cabeceira. Levantei-me logo em seguida, seguindo para o banheiro.
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  Diante do reflexo no espelho, pousei os olhos imediatamente sobre o meu pescoço. Não havia nada de anormal. Absolutamente nada. Mesmo que a sensação e o medo cortante estivessem ali há poucos instantes, a imagem vívida de seu rosto e suas palavras imprimidas em minha mente. Um arrepio atravessou a minha espinha ao me lembrar do enigma de estar vendo a mim mesmo como um espectador, da mesma forma que me olhava agora mesmo nesse espelho. Sem contar na outra maldita figura do homem desconhecido, que eu nunca havia visto em toda minha vida.
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  Me despi rapidamente e entrei no box, ligando a água gelada em plena manhã de outono. Apesar de odiar o frio, ele era o único capaz de desviar meus pensamentos para outras coisas no momento. Sem pensar em que diabos foi aquele sonho, quem diabos era aquele espírito e o que “Destino” significava. E eu torcia para não ter relação alguma com a conversa que tive com minha avó no hospital.
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  Mal senti quando os braços de Naomi envolveram minha cintura, contrastando a água fria com seu corpo quente como sempre foi. Como um idiota, um lapso de memória do muro da noite anterior veio à tona, fazendo-me fechar os olhos de frustração.
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  — O que é isso, babe — ela murmurou, soltando-se do abraço e ficando na ponta dos pés para mudar a temperatura do chuveiro. — Você está tomando um banho frio de manhã? O inverno é daqui a pouco. — Ela soltou uma risada e puxou meu braço, virando-me pra ela. — Tá tudo bem? Ainda pensando na Elena?
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  Concordei com a cabeça, sorrindo timidamente enquanto pegava uma embalagem de shampoo qualquer. Só assim para que ela talvez não me perguntasse mais nada e eu não tivesse que mentir, ou esconder o que estava sentindo e pensando, algo que eu nunca fizera com Naomi.
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  A verdade era que eu mal conseguia colocar em palavras o turbilhão de coisas que eu sentia no momento. Como iria agir com quando a visse no campus? Se é que a visse. Como explicaria os eventos inexplicáveis da noite anterior, agora que ela tivera tempo de refletir e aguçar sua curiosidade, mesmo com minhas atitudes cretinas logo após no carro. Pensar nisso só alimentava o bolo em minha garganta. O que raios ela deveria estar pensando de mim?
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  Eu definitivamente não deveria estar me importando com essa última parte.
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  — Ei, não fica assim. — Naomi murmurou enquanto massageava meu cabelo molhado. — Tudo vai se ajeitar. Não é a primeira vez que você tem problemas desse tipo.
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  Na verdade, parecia que era. Eu só não sabia como explicar isso.
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  — É, você tá certa. — Suspirei, e em seguida Naomi grudou seu corpo no meu embaixo da água que agora caía mais quente, tão quente quanto aquele abraço.
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  Queria contá-la do sonho estranho que me fez acordar em pavor. Queria contá-la a verdade sobre ontem, que eu havia ido atrás de e que todos os motivos para fazer aquilo continuavam confusos dentro de mim. Queria contar do beijo, minhas suspeitas e teorias sobre aquele caso, mas só consegui afogar minha cabeça na curva de seu pescoço e ficar em silêncio.
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  — Vai me levar ao aeroporto? — ela perguntou e eu apenas balancei a cabeça positivamente. — Quer fugir de toda essa merda e ir passar uns dias no México?
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  — Quero. — Minha risada não durou nem meio segundo. — Mas não posso.
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  — Então você não quer de verdade — sussurrou, correndo os dedos levemente pelas minhas costas e ombros.
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  Eu queria. Queria tanto deixar aquela casa, aquela cidade e até mesmo o país por pelo menos um dia. A ideia me enchia de alívio, a possibilidade de esquecer nem que fosse um pouco dos últimos acontecimentos me enchia de excitação.
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  Entretanto, a probabilidade de algo extremamente ruim acontecer na minha ausência era alta demais. Eu não fazia a menor ideia de qual seria o próximo passo de Elena e duvido muito que apertemos as mãos depois dos golpes que dei nela. E havia . Principalmente . E absolutamente tudo que a envolvia.
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  E odiava admitir que tudo aquilo não saía da minha cabeça um minuto sequer. Mesmo a caminho do aeroporto de LaGuardia, as névoas de minhas preocupações ainda estavam presentes, tão reais e palpáveis quanto poderiam ser. Eu mal ouvia o que Naomi dizia e pude ver claramente sua inquietação ao meu dar um último abraço antes de seguir para a plataforma de embarque.
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  Eu odiava ser o centro das atenções.
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  Como quando Keyi Tao me pegou no meio de uma discussão um tanto acalorada com um fantasma atrás das arquibancadas na oitava série. No outro dia, os dedos em minha direção e os murmúrios sobre como eu era alucinado me fizeram dar um murro em Brad Rekert por ter me confrontado a chamar meus “amigos” bem no meio do refeitório após ele ter decidido derrubar minha bandeja. O número de dias que eu havia pegado de suspensão são totalmente irrelevantes agora.
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  Desta vez, ao menos, eu tinha certeza de que aqueles olhares e acenos nada tinham a ver com os mortos. De acordo com , o aumento considerável da minha desconhecida popularidade se devia ao fato de eu não ter deixado que Ash morresse no acidente da viga, provando assim o “quão brilhantes eram minhas habilidades práticas”.
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  Considerando o fato de que ninguém sabia da metade do que realmente havia acontecido, eu não me sentia no clima de retribuir nenhum dos sorrisos.
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  Mais constrangedor ainda foram os tapinhas nas costas e perguntas carregadas de preocupação provindas dos meus professores, que estavam “preocupados com meu estado de saúde” e que eu simplesmente poderia ir embora se quisesse. Dei logo um jeito de cortar o assunto antes que aquilo se tornasse ainda mais humilhante.
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  Academicamente falando, a primeira parte do dia passou tranquila, visto que eu não havia me enrolado tanto sobre os conteúdos. Ao menos, preenchia tanto meu tempo que eu não tinha oportunidade de pensar em outra coisa – ou em outra pessoa. Digo, outras pessoas. E espíritos malignos. E fantasmas vingativos.
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  Entre um intervalo e outro, finalmente consegui ligar para minha mãe e levei pelo menos vinte minutos para acalmá-la. Se eu demorasse mais algumas horas para dar notícias, ela seria capaz de ligar para o reitor ou, pior ainda, pegar um avião. Ela descobriria sobre a minha estadia no hospital e aí me arrastaria de volta para a Califórnia sem nem me dar tempo de fazer as malas.
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  Na hora do almoço, disse que precisava fazer um trabalho que havia deixado para última hora e fomos para o Ferris Booth novamente. Com o John Jay interditado, nos restava abarrotar o Ferris, que geralmente era a primeira opção apenas para os calouros.
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  — Que merda é essa no seu prato? — mastigava enquanto abria o notebook na mesa.
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  Olhei confuso para sua careta de desgosto. Havia uma torta de batatas com cogumelos, falafel e um hambúrguer de grão de bico.
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  — Ah… Não sei, queria experimentar. — Dei de ombros, dando uma mordida no hambúrguer. Não posso dizer que era horrível. Na verdade, não era nada mal.
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  — Por favor, me diga que não vai vestir uma camisa preta e comprar um porco de estimação.
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  Revirei os olhos.
  — Volta pro que estava fazendo.
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  Eu acabava de enviar uma mensagem para Naomi perguntando se ela havia chegado bem quando ouvi xingar.
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  — O que foi? — perguntei.
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  — Eu estou completamente morto! — disse enquanto digitava com força no notebook. — Naomi poderia avisar com antecedência quando for me dar o melhor final de semana de todos, assim pelo menos eu deixo os trabalhos prontos. — Soltei uma risada e ele me olhou com ironia. — E vocês? Como foi o super final de semana?
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  — A mesma coisa de sempre. — Dei de ombros, bebendo um gole do suco.
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  — Eu duvido que com aquela lá seja sempre a mesma coisa. — me lançou um sorriso malicioso. — Em qual posição fizeram dessa vez?
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  — Cara, não…
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  — Ah, qual é, você costumava me contar essas coisas!
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  — Eu só contei uma vez e foi na formatura. Algum dia você vai parar de perguntar?
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  — Eu pararia se você pegasse outra garota que não fosse Naomi Robbie! — Ele deu de ombros, dando um sorriso de canto. — E não me olhe assim, você insiste em dizer que ela não é sua namorada. E na Gibbons poderia muito bem ter rolado com a Elaine, mas acabou rolando com outra garota desconhecida que nunca mais falou nela de novo, por sinal. Eu juro que não entendo seu critério de seleção, quer dizer, a Naomi é a maior gostosa, mas Elaine LuPone também te daria um bom trato. Se for igual às amigas daquela vez…
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   falava, mas eu já não estava mais escutando. Uma cena que acontecia logo mais à frente prendeu totalmente minha atenção.
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   entrou no Ferris, acompanhada de . Uma das mãos dele envolvia sua cintura, ou pelo menos estaria se não estivessem baixas demais. Ela usava um jeans e um suéter vermelho e parecia muito melhor do que ontem. Constatei que vermelho ficava muito bem nela. E não entendi por que reparei em uma coisa dessas.
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  Os dois se sentaram a algumas mesas de distância, no meio do salão. Ambos ocuparam duas cadeiras do mesmo lado da mesa, como se esperassem mais pessoas. A posição deixava-os quase de frente para mim. sussurrou algo no ouvido de , que sorriu abertamente e em seguida começou a beijá-la como se não estivessem em um local público.
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  Desviei os olhos, tentando voltar à conversa de , mas acabava olhando de novo. Ele beijava o pescoço dela e voltava a beijá-la, e ela ria de uma forma que eu nunca havia visto – totalmente diferente das reações anteriores que demonstrou perto dele. Bufei e peguei um guardanapo da mesa, tentando me distrair, mas meu sangue fervia. De repente nunca desejei tanto que alguém tivesse a coragem de repreendê-los por aquela pegação, para que não tivessem a chance de continuar. Mas ninguém faria isso com o filho do reitor.
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   havia percebido meu estado incomum.
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  — ! — ele deu quase um grito, me dando um soco de leve no ombro. — Acorda, cara. O que houve? O guardanapo te fez alguma coisa?
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  Pisquei algumas vezes e soltei o guardanapo de papel, que agora eram apenas pedacinhos espalhados pelo tampo da mesa. Em que momento eu fiz aquilo?
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  — Mas o que diabos você está olhando? — disse, virando-se para trás. Bem na hora que e se levantaram para comer. Por um minuto, que pareceu uma eternidade, nossos olhos se encontraram. Eu não fazia ideia de como estava minha expressão, mas o sorriso dela desapareceu assim que me viu. Por um milésimo de segundo, pareceu que ela estava corando, mas disso já não tenho muita certeza. Porém a velocidade com que meu coração se comportou assim que a vi, ah… Disso eu tinha certeza.
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  Tudo acabou quando passou um braço pelos ombros dela, carregando-a para dentro do restaurante enquanto dava beijos nada calmos em sua bochecha, apertando discretamente suas nádegas sempre que podia. Tentei ignorar meu sangue fervilhando novamente.
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  — Ei… Ei! — deu mais um grito e eu acordei novamente. — Para de encarar! O que está havendo com você?
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  — Nada. Nada — respondi rápido, dando um gole longo do suco, que estava quase quente.
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  — Nada? — Ele soltou uma risada irônica. — Você pode me contar afinal que raios está rolando entre você e a ?
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  — De onde você tirou isso? Não tem nada entre mim e .
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  — Então por que pareceu que eu teria que te segurar pra não pular no ? — Ele levantou uma sobrancelha. — O que é, tá afim dela por acaso?
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  — Não — respondi muito sério, bebendo o restante do suco. — Claro que não.
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  Olhei automaticamente para eles de novo, que já haviam sentado novamente. Uma garota loira de salto alto e um cara que eu poderia chutar que tivesse dois metros de altura sentaram-se nas duas outras cadeiras da mesa. Eles pareciam conversar alegremente, como um típico grupo de amigos. Mas não era isso que prendia minha atenção.
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  Ele passava a mão pelas pernas dela por debaixo da mesa e segurava em seu cabelo sem nenhum carinho. Um ponto branco em sua testa indicava o curativo que eu havia feito pelo corte de ontem, mas parecia não se importar; puxava seu rosto para o dele com rapidez, rude, mesmo que ela fizesse a mínima careta de dor. Esse cara tinha algum pingo de noção? Não via que ela estava machucada?
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  —
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  — Podemos ir embora? Acho que você pode terminar isso na biblioteca — disse, juntando minhas coisas um pouco desnorteado pela cabeça latejando.
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  — Ei, nós dissemos que ficaríamos mais meia hora… Não, espera, você estava encarando de novo — ele disse, rindo com ironia, apontando o dedo para mim. — É sério, , me conta o que tá pegando! Tem algo a ver com o episódio do almoxarifado?
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  — Eu já disse que não tem nada.
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  — E eu sei que você está mentindo! Pra um cara completamente desinteressado nas outras pessoas, você tá agindo bem estranho ultimamente, eu sei que tem algo entre você e a , mas infelizmente mal consigo adivinhar porque você sempre foge desse assunto e eu não posso simplesmente chegar pra ela e perguntar e…
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  — Ela é a “outra garota que não seja Naomi Robbie”! Está satisfeito agora? — A resposta saiu antes que eu refletisse a respeito e também não pude segurar o tom de voz mais alto que saiu junto.
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  Olhei para os lados automaticamente, me recostando na cadeira, passando as mãos no cabelo rapidamente. cortou sua fala na mesma hora, assumindo uma postura paralisada.
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  — Como… O que você disse? — ele sussurrou, como se eu tivesse revelado um segredo de Estado.
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  — Podemos ir agora? — disse, fechando minha mochila e largando umas notas na mesa, me levantando sem esperar por ele.
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  Eu cavei minha própria cova ao soltar aquilo para .
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  Também pudera, ultimamente eu parecia estar fazendo bastante aquilo: agir sem pensar. E isso era muito atípico da minha parte. Eu já não tinha mais espaço na lista de problemas a resolver, eles iam apenas se acumulando. Estávamos no final de novembro, mas eu parecia estar vivendo um Dia das Bruxas bem prolongado.
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  — Você enlouqueceu de vez! — disse , e não era uma pergunta.
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  Acendi um cigarro, usando minha técnica clássica de demonstrar que não queria papo, mas parecia estar imune à essa cartada.
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  — Ei, ei! — Ele puxou meu braço quando estávamos na Broadway, me fazendo parar. — Eu já sei que você é pirado, tá legal? E um pouco estranho, ainda é aceitável. Mas não sabia que você era suicida. — Ele respirou fundo, me encarando estupefato. — Como assim você beijou … — Ele se interrompeu e olhou para os lados. — Por favor, me diga que apenas beijou — sussurrou.
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  — Eu realmente não quero falar sobre isso agora… — Me virei para recomeçar a andar.
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  — Ah, mas você vai falar! — Ele puxou meu braço de volta. — Como isso aconteceu? Ou melhor, quando. Foi naquela festa? No almoxarifado? É mais um dos fatos que você estava escondendo? Faz todo o sentido…
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  — Ei, espera aí…
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  — Imagina só a situação! Cara, ninguém pode saber disso! — Ele colocou a mão no meu ombro. — É sério, . Eu gosto de ser seu amigo, mas você tá brincando com fogo. A não é pra você. Ela já tá envolvida em relações de poder demais, não precisa se enfiar nisso…
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  —
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  — Eu sei que deve ser difícil resistir a uma das beldades deste campus, mas o namorado dela é um maluco, já tentei conversar com você sobre isso. Você tem certeza de que ninguém viu vocês?
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  — , sério…
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  — Não, não, como você me lança uma bomba dessas e depois “não quer falar sobre isso”? — Ele frisou as aspas. — Tirando todos os fatos preocupantes dessa situação, isso é simplesmente irado! Quer dizer, ninguém nem imaginaria isso. Onde foi? Como foi? Até onde vocês chegaram?
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  — Foi por acaso, tá legal? É complicado te explicar agora e eu realmente preciso ir pra aula. Te vejo depois.
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  — Ei, espera aí…
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  Ignorei-o e segui rápido em direção ao carro estacionado do outro lado da rua, respirando fundo para conter minha irritação. Como eu explicaria aquilo pra ? Aliás, como fui me deixar levar por um momento completamente emocional? E que sentimento era aquele? Minha cabeça latejava só de pensar na cena de e anterior, e eu odiava ainda mais estar sentindo aquilo. Como se eu estivesse esperando algo depois de ontem, mesmo depois de eu ter sido um completo babaca.
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  Afastei todos esses sentimentos bem rapidamente para conseguir ver as coisas com clareza. Sempre fui lógico, objetivo. Olhava para situações com a razão, nunca fui uma pessoa emotiva, guiada por sentimentos. O que fiz ontem foi uma ação precipitada, guiada por um sentimento estranho que eu ainda não sabia o que era. Mas foi tão intenso que eu não pude me segurar e isso me incomodava mais do que tudo. Eu não podia sentir aquilo por ela, não podia fazer aquelas coisas por ela. Eu escondia um segredo lunático demais para envolvê-la na minha vida e, pelo que Elena havia dado a entender, ela também tinha segredos.
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  Cada vez que eu pensava nisso, eu lembrava novamente do espírito. E do acidente, e do meu recente sonho, e de como tudo parecia absurdamente ligado. E do que minha avó havia dito, que ele não estava atrás dela por acaso: que era destino. Destino. A mesma palavra que ele me disse no sonho. Aquilo me deixava cada vez mais curioso com a situação e completamente desconcentrado nos meus afazeres. Fora toda a minha ainda preocupação de que Elena pudesse aparecer do nada, e dessa vez ainda mais raivosa, ainda tinha o fato de que quase perdera a perna e devia estar nesse momento tentando juntar as pecinhas depois de ter me ouvido dizer seu tão misterioso nome – e eu não imaginava a retaliação que poderia prover disso.
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  Eu realmente queria saber o que raios havia acontecido para tantas coisas estarem se juntando ao mesmo tempo neste ano e eu infelizmente estar no meio disso tudo.
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  O professor falava e gesticulava várias vezes, mas eu não estava ouvindo. Meu pensamento pulava de um fato para outro e eu não conseguia parar de pensar na noite passada. Em tudo que Elena havia dito, na reação de à toda cena que ela havia visto e como agi feito um escroto. Eu daria tudo para saber o que ela estava pensando.
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  Tentei me convencer de que, por um lado, aquilo era bom. Era melhor que ela me ignorasse e seguisse sua vida depois de ver em primeira mão o quanto eu podia parecer desequilibrado – ou totalmente alheio ao sofrimento das pessoas. E como presenciar aquilo não daria crédito nenhum à sua carreira, ela também não contaria pra ninguém. Nós não nos falaríamos mais e tudo voltaria ao normal.
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  Mas ela continuaria investigando a morte de Elena. E Elena não iria parar tão facilmente. E ainda havia o espírito estranho atrás dela, que poderia atacar a qualquer momento. Era literalmente quem conseguisse chegar primeiro e só essa ideia já era suficiente pro meu estômago embrulhar de ansiedade. Por que eu não poderia simplesmente ouvir minha avó e deixar pra lá? Por um lado, ela estava certa, as pessoas morriam, impedir isso não era meu departamento e eu nunca havia parado pra pensar sobre salvar pessoas, visto que só havia encontrado os mortos que me pediam ajuda para resolver pendências aleatórias. Os espíritos malignos nunca estiveram em minha lista de encontros e isso ficava cada vez mais estranho a cada vez que pensava nisso.
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  Mal ouvi quando o professor finalmente liberou a turma, o que foi um alívio para o que eu estava pretendendo fazer. Juntei minhas coisas com rapidez para não dar tempo de ninguém resolver me parar pra tirar alguma dúvida e andei depressa para a Butler Library. Talvez não desse em nada, mas eu precisava verificar.
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  Eu estava prestes a morder a minha língua. Sempre censurei e desprezei todas as vezes que Naomi tentava me dizer que fizera “pesquisas” sobre a nossa “mediunidade” porque aquilo por si só já soava absurdo. Eu sabia perfeitamente que as coisas não eram tão simples quanto o que a internet mostrava e eu não acreditava que houvesse um livro com relatos reais de pessoas iguais a mim. Por 21 anos da minha vida, eu só conhecia Naomi, o que me fazia teorizar bastante sobre o número de pessoas que nasceram daquele jeito a cada geração.
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  A Butler Library ficava em um prédio colossal na parte central do campus em Morningside Heights, com pilares grossos de gesso branco enfileirados por toda a sua extensão, fazendo-a parecer uma construção grega do século XVII. No gramado à frente da porta, havia alguns estudantes sentados e outros espalhados pelos bancos aos arredores do pátio. Entrei rapidamente no salão amplo, com janelas imensas dispostas também em fileiras, deixando entrar a totalidade da luz cinza que vinha do dia frio lá fora. Os lustres com lâmpadas amarelas davam um ar medieval ao lugar e um silêncio pairava perfeitamente no ar, sendo possível escutar até o som das páginas sendo viradas. Dei um sorrisinho de canto à bibliotecária que não me recordava o nome, andei até o computador de consultas ao final do imenso corredor e suspirei antes de digitar a seguinte palavra: “mediadores”.
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  Eu me sentia ridículo. Uma lista de nomes apareceu na tela, com alguns livros de ciências, matemática e a maioria na parte da história. Todos eles eram o que eu esperava: uma baboseira sem fim sobre negócios e filosofia. Tentei “médium” e passei a odiar ainda mais o termo depois de ver os resultados. Por fim, com certa relutância, escrevi “espírito maligno” na lupa de pesquisa.
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  Devo admitir que os resultados me chamaram mais atenção. Não havia muitas opções para aquela palavra, apenas um monte de livros de ficção e suspense, histórias do Drácula e livros técnicos do gênero terror. Apenas um livro dentre tantos me chamou a atenção.
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  Levantei-me e segui para a seção indicada no computador. Ela era uma das últimas, no fim do segundo corredor, enclausurada entre tantas outras em um lugar onde nem havia as mesas dos estudantes. Olhei as diversas capas até achar uma velha e gasta, com a tinta vermelha desbotada. Peguei o livro em mãos e quase tossi com a poeira que veio ao meu nariz, o que deu a entender que ninguém costumava limpar aquela área recorrentemente. Recostei-me na prateleira de livros e observei o que estava em minha mão. O título do livro estava quase apagado, mas eu consegui entender a palavra “Memórias” e o nome do autor. Padre Jon Gélinas. As páginas estavam amareladas e as letras eram cursivas, escritas à mão. Parecia uma enorme carta. Juntei a sobrancelha e com certeza estava achando aquilo tudo muito confuso.
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  Li um pouco das primeiras páginas. Basicamente, o padre Gélinas contava a história de um homem chamado Winston Oldman que viveu no século XII, que era “médium” – uma pessoa que se comunicava e interagia com os mortos. Mas este não se contentava em não fazer uso algum daquele dom e também não achava certo os fantasmas vagarem por aí sem nenhuma paz. Daí veio a ideia de que ele precisava ajudar aquelas pobres almas a alcançar essa paz – o outro lado, o paraíso, inferno, purgatório, seja o que for. Ele acreditava no paraíso, é lógico. Daí surgiu o termo mediador – e a bendita missão de guiar os mortos. O legado avançou por várias gerações futuras desde então, sendo passado de pai para filho.
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  Meu coração deu um pequeno salto. De pai para filho. Senti que eu deveria parar de ler aquele livro imediatamente antes que eu começasse a acreditar no que ele dizia – ou pior: que eu começasse a ficar mais curioso. Eu não poderia me afundar naquela história de forma alguma, ainda mais uma parte da minha história que eu já havia superado fazia tempo.
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  Respirei fundo e pulei algumas páginas. Segundo o padre, Winston Oldman foi bem sucedido na tarefa de ser a ponte para a paz das almas que vagavam nesta terra, teve muitos filhos e boa saúde; também teve boa sorte na colheita, já que era camponês, e tudo indicava que aquela realmente era uma missão divina. Até que um dia ele encontrou um fantasma diferente dos outros.
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  Winston vivia em uma pequena propriedade longe do vilarejo. Em uma das muitas colheitas vigorosas, ele pegou seu primogênito e juntos foram vender as batatas, cenouras e rabanetes que haviam cultivado nas ruas da comunidade. Winston se dava bem com os habitantes, era bem querido por todos e conseguia sempre voltar para casa com os sacos vazios. Mas aquele dia foi marcado como a mudança de toda sua vida.
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  Havia um senhor ranzinza e resmungão que vivia mal dizendo os produtos de outros comerciantes locais, inclusive Winston, que vendiam bem mais do que ele e seu trigo e arroz. Não era uma pessoa muito confiável, por isso não vendia, sem contar nos preços exorbitantes. Era um homem avarento que só pensava em dinheiro. Naquele fatídico dia, este homem decidiu ter uma atitude radical, pensada por meses, talvez por anos: tirar a vida de Winston, que mais lucrava na vila e era amado por todos, mesmo com produtos “meia boca”. Ele não abriu sua tenda naquele dia e esperou que Winston finalizasse mais um expediente de sucesso ao final do entardecer para atacá-lo quando menos esperasse.
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  Winston e o filho terminavam de guardar os pertences na carruagem quando o velho apareceu, carregado com uma espada afiada que havia mandado forjar especialmente para aquele momento. Winston tentou acalmá-lo, não tinha armas para lutar contra aquela coisa e tinha que proteger seu filho e sua própria vida. Porém, antes que o velho pudesse agir, uma sombra negra e espessa pairou entre Winston e ele, materializando-se em uma mulher inteiramente de preto, olhando diretamente para o velho. Winston nunca havia visto nada igual. A aparição era medonha, cravada de medo e parecia sugar toda a sua energia só de estar por perto. O velho continuava olhando para Winston, apesar de sentir o ambiente pesar ao seu redor repentinamente. O filho de Winston tinha as pernas bambas, podendo ver claramente o que estava à sua frente. Mesmo imóvel, a criatura estava ali para matar – ambos sabiam disso. E mesmo sabendo, Winston não soube o que fazer, apenas ficou paralisado de medo.
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  As mãos da mulher se moveram lentamente para o velho e, sem dizer uma palavra, virou a espada para ele, dando a entender para os olhos humanos normais que o velho estava apontando a arma para si mesmo. Os olhos deste ficaram arregalados de horror e por algum motivo ele não conseguia emitir som algum. Winston sabia o que iria acontecer. Não sabia se podia impedir, estava com medo de tentar. Portanto, seu filho foi mais rápido. O menino de 14 anos gritou a plenos pulmões para a aparição, correndo e se colocando à frente do velho, empurrando as mãos do fantasma da arma. O velho caiu para trás, apavorado, se escondendo em posição fetal enquanto o garoto tomava uma posição defensiva em seu favor.
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  Foi quando o pior aconteceu. Sem hesitar, o fantasma de repente desapareceu e reapareceu atrás do garoto, que não teve tempo de se virar ao ter as mãos do fantasma em seu crânio, e a cena que se seguiu foi um desespero silencioso. O garoto abriu a boca para gritar, mas nada saiu. Seus olhos giraram nas órbitas e suas pupilas desapareceram, sua pele empalideceu e em seguida caiu duro no chão, com os olhos abertos brancos sem o azul que dava brilho ao seu rosto. Foi então que o fantasma simplesmente desapareceu.
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  O desespero de Winston foi aterrador. Ele balançava o filho, gritava, batia e nada. Sua pele estava fria como gelo e não havia dúvidas de que ele estava morto. Após a constatação, ele olhava angustiado para os lados, à procura da outra coisa: a alma de seu filho não estava ali. Ele não havia visto. Ela também havia sumido.
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  Um arrepio leve atravessou minha espinha e passei mais algumas páginas. Dizia que, após alguns dias do enterro do filho, Winston havia recebido a notícia de que o velho havia sido encontrado morto em sua casa alguns dias atrás. Também descobriu os crimes que aquele homem havia cometido: além de roubar e matar o antigo dono de sua propriedade pela posse de suas terras, havia molestado a filha dele, que morreu ao dar à luz a um menino, que foi morto por suas mãos e os dois enterrados na propriedade roubada. Tamanho o choque do vilarejo, os pertences e a propriedade do velho foram à leilão e algumas coisas estavam sendo vendidas livremente pelo comércio local.
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  Apesar do sofrimento da perda do filho, Winston voltou ao vilarejo para continuar levando o sustento de sua família. Ao lado de sua tenda, o local de venda de apetrechos aleatórios da casa do velho estava ali. Além de colchas, mantas, algumas antiguidades de ferro, havia desenhos em papel pendurados em uma corda na extremidade superior da tenda. Winston deu uma olhada rápida no conteúdo e um dos desenhos fez seu sangue gelar e sua boca ficar seca. Winston cambaleou até a tenda e perguntou quem era a moça bonita de cabelos negros do desenho. O funcionário do banco explicou que aquela era a filha do antigo proprietário, assassinada por Winston, a qual havia sido enterrada junto com seu filho recém-nascido, atrás da casa. Winston não ouviu mais nada, estava atônito, chocado. A mulher na foto era ninguém menos do que o espírito que havia levado a alma de seu filho.
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  O espírito não estava atrás de Winston e nem de seu filho. Ele tinha um objetivo, apenas um alvo. Mas foi interceptado por terceiros e agiu sem pesar algum sobre ele. E, no final, ainda foi atrás de seu alvo. Um arrepio perpassou por toda a minha coluna e eu sabia que o frio que eu havia sentido não era por causa do clima. Meus dedos tremiam quando eu passei mais páginas, mas não li por muito mais tempo, pois uma voz surgiu do nada atrás da minha orelha, fazendo-me praticamente saltar de susto:
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  — ! — sussurrou e ao me virar vi seu rosto através de um espaço entre os livros, do outro lado da prateleira.
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  — Quase me matou de susto — murmurei, fechando o livro vermelho em minhas mãos. Não demorou muito para que andasse até mim, caminhando rápido para atravessar a seção.
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  Ela se aproximou de mim com um sorriso sem graça estampado. Olhei para os lados, como se aquilo fosse uma pegadinha. Esperava uma expressão amargurada, chateada comigo. Podia jurar que ela parecia feliz em me ver.
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  Um frio na barriga me invadiu. Será que ela finalmente viera me confrontar sobre ontem? Pela forma como a tratei, pela verdade, pelo beijo, como eu havia tomado conhecimento de onde ela estava, entre outras coisas.
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  — Não sabia que voltava hoje — falou baixo, com um tom acolhedor. — Você, hã… Está bem? Está com uma cara estranha.
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  Desfiz o vinco em minha testa e me endireitei em uma posição ereta, mas continuava curioso. Ela não podia ser tão imprevisível.
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  — Não é nada, eu estou bem. — Passei uma mão nos cabelos. — E você?
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  — Estou bem, mas isso não vem ao caso. Eu queria saber de você… do seu estado de saúde.
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  — Meu estado de saúde? — Levantei a sobrancelha e abri os braços. — Estou ótimo, como você pode ver. Era só isso?
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  Ela iria fingir que nada aconteceu e tudo bem. Eu poderia seguir com o plano de ignorá-la, ou simplesmente mostrar que não queria mais nada daquela interação que eu não sabia como chamar. Ela se afastaria de mim assim que visse o quanto eu era escroto e não merecia sua companhia.
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  Mas o que veio a seguir não foi exatamente isso.
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  — Eu… Na verdade, eu tentei te ligar, mas pelo visto você ainda não arrumou um celular. Sinceramente, eu queria dizer… — ela atropelava as palavras e gesticulava bastante com as mãos, parecia nervosa. — Na verdade, quero que saiba que as coisas não precisam ficar estranhas entre nós depois de ontem.
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  Fiquei estático por um momento, só com meu coração batendo descontrolado com a lembrança automática do muro vindo com toda força na minha cabeça. Afastei-o imediatamente antes que ele tomasse todo o resto da minha mente e me fizesse perder a compostura.
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  — Ah… Aquilo? — Coloquei uma mão desajeitada na cintura, dando de ombros. — Pode ficar tranquila, eu já esqueci o que aconteceu.
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  Ela abriu um sorriso.
  — Isso é ótimo! Eu estava pensando em uma forma de te pedir desculpas por aquilo. Foi péssimo e sua namorada não deve ter ficado nada feliz…
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  — Naomi não é minha namorada! — interrompi-a e quis bater minha cabeça na parede. Droga, desnecessário. — Quer dizer… Tá tudo bem, não precisa se preocupar com isso, não é algo que eu tenha comentado com alguém, de qualquer maneira. Afinal, foi só um beijo sem importância.
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  — O quê? — Me olhou confusa.
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  Mordi o lábio inferior. Eu não queria falar do beijo. Não entendia por que, de tudo que aconteceu, ela viera falar daquilo. Não fazia o menor sentido. Não sabia até onde iam minhas habilidades de mentir.
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  — Que foi, achou que começaríamos uma história ou algo assim? — Soltei uma risada que pareceu mais amarga do que divertida. Ela continuava imóvel com a mesma expressão. — Bem, como eu disse, pode ficar relaxada. Eu disse que nunca mais vou te beijar de novo. Mesmo se for por um motivo maior, como nos livrar de preencher formulários de saída da prisão como estaríamos fazendo agora.
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  De repente, se aproximou de mim com a expressão mais confusa do que antes.
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  — Do que você está falando, ? — ela sussurrou entre dentes, olhando novamente para os lados. — Que beijo? Que prisão?
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  Pisquei os olhos, não sabendo o que responder de imediato.
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  — Muito esperta, levando a sério o papo de esquecer tudo que aconteceu. — Sorri mais uma vez. — Mas pode ficar tranquila, só tem nós dois aqui…
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  — Eu estou levando cada vez mais a sério o fato de você ser um lunático! — Ela deu uma risada sem graça, corando. — Que história é essa? Andou tendo sonhos eróticos comigo?
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  — O que… — Agora quem fazia a expressão confusa era eu.
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  — E beijo? Céus, você enlouqueceu de vez. Eu jamais te beijaria. Você sabe perfeitamente que eu tenho namorado… — Ela bufou, baixando os olhos, mas suas bochechas estavam totalmente vermelhas.
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  Peguei em seu queixo, interrompendo sua fala. Aproximei-me o bastante para olhar firme em seus olhos, que estavam um tanto arregalados.
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  — O que está fazendo? — ela protestou, tentando se afastar.
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  — Você está fazendo algum tipo de brincadeira comigo? Porque essa sua amnésia não tem graça nenhuma.
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  — O que você tá dizendo? — Ela se afastou de minhas mãos, parecendo irritada. — Eu vim falar com você na boa depois de ter atrapalhado o seu café da manhã ontem e te pegado com a sua nam… Quem quer que seja. E eu estava realmente preocupada com seu estado de saúde depois do coma e…
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  — Espera, o quê? — Agora quem estava nervoso era eu, e não de um jeito bom. — Você só se lembra disso? E o cemitério, a sua ideia maluca de ir à lápide de Elena, seu joelho e os outros machucados…
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  — O quê? Cemitério, Elena, do que você está falando? — ela aumentou um pouco o tom de voz, olhando preocupada para os lados novamente. — Eu não fui a cemitério nenhum ontem. Eu disse que te esperaria, só não esperava que você fosse se envolver em um acidente nesse meio tempo. — Ela bufou, passando as mãos nos cabelos.
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  De repente, ela parou e pareceu estar lembrando de algo, me olhando curiosa em seguida.
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  — Espera, como sabe do meu joelho?
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  — O que tem seu joelho? — perguntei rápido, tentando avaliar a situação como um todo em um curto espaço de tempo. Na verdade, eu não estava entendendo nada.
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  — Ontem à noite eu tive um pequeno acidente nas escadas da minha casa e machuquei a testa e… o joelho. — Ela juntou as sobrancelhas, como se tentasse se lembrar do ocorrido. — Mas eu não disse nada a ninguém sobre meu joelho. Como você sabia?
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  — Acidente nas escadas? Que papo é esse? — Me aproximei dela novamente, agora claramente irritado. — Estávamos juntos ontem à noite, eu te salvei da sua própria tolice de ir ao cemitério colocar a sua péssima ideia de uma exumação precoce do corpo de Elena atrás de provas pro seu caso. Como pode estar fingindo que nada aconteceu só por causa de um maldito beijo?
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  — Eu não estou fingindo coisa alguma, ! — Ela me deu um leve empurrão, ofegante. — Meu deus, você é louco! Andou me espionando por acaso? Você é algum tipo de pervertido para saber das minhas feridas não expostas e ainda por cima ter sonhos estranhos comigo? Qual é o seu problema?
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  Ela bufou e se virou para sair.
  — , espera… — Peguei em seu braço novamente.
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  — Não toca em mim. — Ela se desvencilhou rapidamente e foi embora, me deixando parado e imóvel.
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  Eu estava literalmente chocado. Ou estava atuando bem demais ou ela realmente havia perdido a memória. Que merda era aquela? Como isso era possível?! Seria um mecanismo de defesa a tudo que ela havia presenciado na noite anterior?
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  — Ela não vai se lembrar de nada.
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  Virei para trás a tempo de ver minha avó prostrada à minha frente. Minha respiração saía pesada, entrecortada, minha cabeça presa na conversa anterior. Ao constatar sua presença, reparei que ela não estava com uma expressão muito calorosa.
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  — O que está fazendo aqui? — sussurrei. Estava ansioso e desinteressado por qualquer sermão que sabia que iria levar. — Não posso conversar agora, preciso resolver uma coisa.
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  — Você quebrou a nossa promessa — ela disse assim que virei as costas. — Pior do que isso, você mentiu pra mim. Isso nunca aconteceu!
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  — Eu não… — comecei a falar, mas vi que não havia como argumentar contra aquilo. Ela estava certa, eu havia mentido e descumprido nossa promessa.
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  Respirei fundo e estava pronto para pedir desculpas e cedê-la um monte de justificativas, mas não o fiz.
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  — Como assim ela não vai se lembrar de nada? — lembrei-me repentinamente do que ela havia falado quando chegou. — Como você sabe… — De repente me calei, uma irritação tomando conta dos meus nervos, os lábios travados em uma linha dura. — O que você fez?
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  — Acho que você deveria se preocupar com o que você fez. — Ela rangeu os dentes, claramente com raiva. Seus olhos castanhos brilhavam. — Você tem ideia do que quase causou? Quase se revelar pra essa garota, como pode agir sem pensar desse jeito?
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  — Você estava lá? — questionei, aumentando o tom de voz. — Então com certeza viu que Elena a mataria se eu não tivesse chegado a tempo! Talvez eu não consiga concordar com a sua abordagem de simplesmente deixar a garota morrer. Isso não me parece nada certo…
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  — Irresponsável! Não posso ver você se matando sem fazer nada! Se aproximar dessa garota vai te fazer um alvo! Se depender de mim, vou fazer o que tiver ao meu alcance pra que ela não esqueça apenas aquela noite, mas tudo relacionado a você!
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  — Então foi isso que você fez? — Dei uma risada irônica, mas senti as mãos tremendo de irritação. — Bem que Naomi havia me dito que a senhora era mais do que aparentava. Esqueceu de me contar esse detalhe nos últimos 18 anos?
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  — Há muitas coisas que você não sabe, , e é bem melhor que continue assim. Estou exigindo que os eventos daquela noite não se repitam. Se afaste dessa garota imediatamente, antes que você seja pego pelo destino dela!
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  — Eu não sei que maldito destino é esse! Você por acaso sabe de alguma coisa? Conhece ela ao ponto de sair do caminho e deixar que uma sombra a pegue a qualquer momento? Destino uma ova! Isso é retaliação! — Respirei fundo, tentando controlar o tom de voz. Ainda estava na biblioteca. — E sabemos bem que nem toda retaliação é justa.
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  — Estou falando sério, ! Posso fazê-la se esquecer do próprio nome caso você continue com essa ideia…
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  — Está me ameaçando?
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  — Estou pedindo pra você ser honesto comigo!
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  — Honestidade? — Soltei uma risada. — Você quer falar de honestidade comigo? Logo você…
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  Parei e puxei o ar, percebendo que eu não poderia continuar aquela conversa naquele lugar. Logo mais as pessoas iriam perceber os burburinhos e iriam averiguar para me mandarem calar a boca, mas na verdade me veriam falando sozinho. No entanto, absolutamente tudo que saía da boca dela estava me deixando nervoso, de uma forma que eu nunca havia ficado.
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  — Então me diga, quem é meu pai? — questionei e a vi arregalar os olhos de surpresa. — De onde eu vim, onde eu nasci, como fui parar naquele orfanato? Qual era o nome da minha mãe? Hein? — Me aproximei dela, sussurrando. — Você não consegue me responder essas coisas, não é? Nunca conseguiu. É por causa dele que eu sou assim, não é?
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  Acredito que aquela foi a única vez em toda a minha vida que eu havia deixado minha avó sem palavras. Ela abria a boca para responder, mas as palavras não saíam.
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  — Não venha me cobrar honestidade quando você não está disposta a devolvê-la na mesma moeda. — Dei as costas para sair, mas voltei a me virar. — E sim, eu realmente não sei de muitas coisas, mas isso vai acabar. Cansei de fechar os olhos.
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  Larguei o livro vermelho em qualquer prateleira e segui porta afora da biblioteca.
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  Fechei a porta do carro com mais força do que pretendia. Desferi um golpe brutal contra o volante, ofegante. Eu espumava de raiva, frustração e, não posso negar, de mágoa. Jamais imaginei que minha avó pudesse ir tão longe e tão baixo. Não medi as consequências dos meus atos e agora deu no que estava acontecendo agora: não se lembrava de nada daquela noite. E, avaliando a situação minuciosamente, eu não entendia por que estava naquele estado caótico de decepção.
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  Porque sim, racionalmente, aquele havia sido um caminho alternativo efetivo. Sabendo como era perigoso colocar uma pulga atrás da orelha de , era melhor que eu não desse gatilhos para que ela se interessasse em qualquer coisa a meu respeito. No fundo eu sabia que já era hora daquilo parar. Alguma hora ela estaria refletindo sobre aquele dia e existiria um risco enorme de sua curiosidade cutucá-la e ela resolver investigar. As coisas poderiam fluir problematicamente caso aquilo acontecesse.
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  Eu sabia. Eu precisava deixá-la em paz. Deveria permitir que ela pensasse que eu realmente fosse um cara desequilibrado e pervertido, que ela deveria manter distância. Deveria deixar que minha avó fizesse seja lá o que fez para fazê-la se esquecer de mim de uma vez por todas, assim nunca mais teríamos qualquer tipo de contato. Era a melhor escolha.
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  Mas então por que eu tinha vontade de esmurrar qualquer coisa que se mexesse quando pensava que ela não se lembrava do beijo? E que sua última lembrança comigo foi aquela cena constrangedora com Naomi. Eu tinha vontade de gritar.
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  Seria melhor se ela estivesse com raiva de mim. Raiva por tê-la agarrado, por presenciar coisas assustadoras ao seu lado e depois tratar seu sofrimento com indiferença; raiva por toda frieza que demonstrei ao tocá-la. A raiva era melhor.
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  Ela não estava com raiva e, da mesma forma, consegui estragar tudo.
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  Foi melhor assim, repeti para mim mesmo várias vezes. Ainda assim, não conseguia parar de sentir raiva da minha avó. A forma como ela havia interferido na situação era baixa, apesar das boas intenções. E me ameaçar daquele jeito foi a gota d’água para que ela descesse vários degraus no meu conceito.
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  Dei a partida no carro, tendo a certeza apenas de que não queria ver ninguém pelo resto do dia.
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Capítulo 14 – Sangue e loucura são a cereja do bolo

  Não existia artifício mais desnecessário do que a neve.
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  Essa ocorrência meteorológica era admirada por uma quantidade esmagadora de pessoas. Visualmente, ela caía levemente do céu, tornando a paisagem calma e serena, virando palco para superstições românticas e declarações ao ar livre.
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  Na vida real, ela só servia para deixar tudo ainda mais frio e incômodo. E, como se não bastasse todo o frio que já fazia à medida que dezembro avançava, ela havia decidido cair mais cedo aquele ano, entupindo as ruas com seu rastro nas calçadas e em cima do meu carro. Era a época que eu sentia falta do sol e do calor da Califórnia.
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  Entretanto, ultimamente eu parecia sentir falta apenas de poder dormir normalmente. Além do frio piorar drasticamente o meu humor, eu estava a própria definição de zumbi por quase todas as manhãs devido às noites mal dormidas regadas a café e cigarro. Eram constantes as reclamações de por ter de repetir a mesma coisa várias vezes para que eu prestasse atenção e eu não lhe dava uma resposta muito educada toda vez que isso acontecia. Na última semana, meu ar irritadiço e calado, mais do que o normal, fizeram com que ele decidisse passar um tempo com seus outros amigos, que eu não fazia o menor esforço para me lembrar de quem eram.
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  As aulas eram apenas um conjunto tosco de frases sem sentido. Por pelo menos duas vezes, eu havia recebido uma advertência amigável do meu professor quando troquei os nomes dos ossos esfenóide e etmóide no esqueleto do anatômico, ou quando errei o diagnóstico de neurocisticercose, mesmo com a imagem clara do raio x do cérebro do paciente. A Dra. Turner quase teve uma convulsão.
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  Eu fazia alguma ideia sobre as suposições que o corpo docente – e discente – andava fazendo sobre minha recente perda de rendimento. Talvez falassem sobre uma consequência do breve coma, que meu sistema nervoso ainda devia estar “acordando”. Que deveriam acionar o serviço psiquiátrico da universidade, para que eu lidasse melhor com a recente experiência de quase morte. Ou, de acordo com as más línguas, eu havia percebido que a vida era muito curta para perder meu tempo em plantões intermináveis e ousando em tratamentos para o câncer.
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  A verdade era que ninguém fazia a menor ideia dos pesadelos. Ou dos sussurros que eu brevemente escutava em plena cafeteria, ou nas aulas, e nas refeições. Uma voz grave que me espreitava, repetindo palavras sem sentido, fazendo-me olhar em volta e não encontrar absolutamente nada. A sensação de estar sendo constantemente observado me acompanhava agora quase o tempo todo e isso me inquietava de forma anormal, mesmo sabendo que não se tratava de uma pessoa viva.
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  Era esse o motivo que me fazia levantar à noite e me enfiar em quaisquer referências, relatos, e dirigir até a New York Public Library atrás de trabalhos parecidos com o do padre Gélinas. Eu não obtive tanto sucesso como esperava. Não conseguia achar nenhuma solução registrada por alguém nesta vida. A ideia de que fosse algo realmente impossível lidar com fantasmas malignos literalmente me tirava o sono.
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  O tempo era algo que me intrigava. Em um dos diversos livros de ocultismo, dizia que esses seres gostavam de observar sua presa e atacá-la no momento mais oportuno, definido por eles próprios. Poderiam ser dias, meses, anos; ninguém sabia explicar o critério de escolha. As tentativas de comunicação com os mesmos acabavam em falhas – ou até pior do que isso. Portanto, eu não sabia explicar por que ele ainda não havia agido.
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  Por um lado, eu não me sentia como um alvo na linha de fogo. Isso porque, gradativamente, pude sentir os sussurros desaparecendo, assim como os pesadelos também – apesar de que isso não me impedia de continuar sem dormir. Concluí que ele queria me passar um aviso, fazendo o mesmo sonho se repetir, trazendo-me lembranças do escuro e do vazio no estacionamento, desta vez não apenas mostrando o rosto de , mas também de meus pais, Naomi, , jurava até ter visto lapsos do rosto de minha avó. Ver minha vida transparente e exposta perante a ele não me deixava nada tranquilo. Eu sabia que não era um alvo, mas ainda assim sofria com o jogo mental, ameaçador e diabólico dele, que parecia começar a relaxar assim que viu que eu não havia agido também.
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  Independente do que fosse, o recado estava claro: ele queria que eu me afastasse daquilo. Que eu me afastasse dela e de todas as tentativas malucas de frear seus planos. Só que desta vez não era apenas que estava em perigo. A imagem do estado de Elena sendo diretamente influenciado pelo espírito repetia-se em minha mente diversas vezes, mesmo eu não fazendo ideia de como ele estava fazendo aquilo. Não saber quais seriam seus próximos passos me deixava em estado de alerta e eu não imaginava o nível de sua fúria na próxima vez que nos encontrássemos.
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  Apesar de tudo, eu estava curioso sobre ele – mais precisamente sobre quem era. Queria entendê-lo, saber mais sobre suas habilidades anormais, por que ele me mostrava o mesmo sonho no mesmo ambiente úmido e mofado todos os dias e quem era o homem desconhecido que corria até mim e de repente se transformava em minha própria imagem. Mas, acima de tudo, queria saber por que ele estava atrás de e por quanto tempo mais a pouparia. Mesmo que ela estivesse envolta em segredos bizarros que culminaram na situação atual.
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  Não era preciso dizer como estávamos depois do episódio na Butler, apesar de que não foram poucas as tentativas de de perguntar. O contato estava reduzido a zero e eu não a via muito ultimamente, mas isso não era nenhuma novidade. Normalmente, não frequentamos os mesmos prédios ou corredores do campus. Ainda assim eu, que nunca fui de reparar em pessoa alguma, me via de vez em quando fazendo uma vistoria completa por qualquer lugar que eu pisasse à procura de vê-la.
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  Consegui o feito no Ferris uma vez. Ela me encarou, mas não parecia muito disposta a conversar, seguindo em frente com as amigas e sua indiferença. No mesmo momento, me perguntei se minha avó havia cumprido a ameaça de fazê-la se esquecer de mim. Mas quando virei a cabeça para trás e a peguei dando uma última espiada, sabia que isso não tinha acontecido.
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  Não pretendia lutar contra sua decisão de não falar comigo. Quanto mais eu ficava longe dela, mais os sonhos e as vozes desapareciam, e eu não conseguia não ligar uma coisa à outra. Ele se certificava de que eu cumpria com suas advertências e assim, pouco a pouco, me deixava em paz.
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  Mas ele deixaria em paz?
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  Era pouco provável.
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  E era por isso que eu ainda não conseguia dormir. Todavia, também não sabia o que fazer.
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  Na primeira quinzena de dezembro eu já havia achado uso de todos os casacos e sobretudos que ganhara no inverno anterior. No meio da multidão de estudantes era fácil adivinhar quem vinha de fora e quem era nativo da cidade: no final do outono, os nova iorquinos ainda não estavam sentindo os sete graus tanto quanto eu estava.
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  Bati a porta do carro ao chegar ao estacionamento, fazendo com que um acúmulo de gelo e neve caísse aos meus pés, molhando minhas botas. Eu estava exausto para me estressar, mas mesmo assim quis xingar e bater naquele estúpido pedaço de gelo como se ele tivesse me atacado no peito.
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  Respirei fundo e voltei à realidade. Havia decidido que eu levaria aquele dia de forma normal e leve. Absolutamente me controlava para não socar qualquer parede em busca de calar meus pensamentos. Eu voltaria a ser um cara normal.
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  Infelizmente, essas coisas não dependem apenas de você.
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  Ao virar e seguir para o departamento, dois caras se aproximaram de mim. Eram altos e não muito esqueléticos, mas devo repetir: eram bem altos. Olhei de um para o outro enquanto estes estacionaram bem à minha frente, com os braços flexionados à frente do peito, me encarando praticamente imóveis.
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  Não disse nada. Achei que não deveria. Tentei ignorar a intervenção estranha e dar a volta, mas um terceiro cara surgiu de trás do meu carro, barrando minha segunda opção de caminho, igual ou até mais alto do que os outros dois.
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  Fodeu. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Voltei-me novamente para os dois caras e repentinamente me lembrei deles: eram os cretinos que haviam gentilmente quebrado meu nariz na Gibbons alguns dias atrás.
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  À luz do dia eram bastante diferentes, infelizmente pareciam bem mais ameaçadores, se é que isso era possível. Ou haviam se exercitado nesse meio tempo.
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  — Posso ajudá-los? — perguntei, deixando claro a minha falta de vontade de jogar aquele jogo.
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  Um dos dois, de cabelo loiro curto e impecavelmente penteado, deu um passo à frente.
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  — Você precisa vir conosco.
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  Ele esticou a mão para pegar em meu braço, mas me afastei de imediato.
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  — Precisa me dizer mais do que isso pra me fazer ir com vocês — tentei manter meu tom de voz firme, mas na verdade eu repassava todos os golpes que conhecia na situação de ter de usá-los naquele momento. — O que está acontecendo?
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  — Você vai vir agora…
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  — Não vou.
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  — Você vem! Se não…
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  — Se não o quê? — aumentei o tom de voz, dando dois passos para trás.
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  O outro cara ao seu lado, o mais forte, se aproximou de mim e agarrou o colarinho da minha blusa antes que eu escapasse. Ele chegou perto do meu rosto e sussurrou bem perto do meu nariz:
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  — Ou se não todos vão ficar sabendo que você é um lunático que fala com fantasmas.
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  Congelei.
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  Mal percebi minhas pernas se movendo à medida que eles agarraram meu braço e me conduziram por um caminho que eu não estava prestando atenção. Não conseguia nem lutar contra; só conseguia pensar de que merda eles estavam falando e como haviam chegado àquela conclusão.
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  Depois de andar o que pareceu ser um quarteirão, passamos por uma porta de metal enferrujada e adentramos em um ambiente escuro e úmido, com algumas lâmpadas amarelas espalhadas pelo teto e parede, com prateleiras industriais gastas pelo tempo e caixas de papelão jogadas nos cantos. Lá dentro parecia pelo menos três vezes mais frio do que lá fora, mas eles não pareciam estar sentindo isso. Sem dizer uma palavra, colocaram as mãos nos meus ombros e me jogaram em uma cadeira de metal em frente a uma mesa quadrada branca, com alguns rabiscos.
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  Aquilo era uma cena de sequestro com toda certeza, o cenário casava com essa temática. Será que haviam chamado a NASA ou qualquer outro laboratório prontos para fazer um novo MK Ultra em mim? E visto que eu havia vindo parar aqui contra minha vontade, só me restava esperar o que viria – enquanto eu ainda repassava todos os golpes na cabeça.
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  Um barulho lento de passos junto a um impacto leve no concreto foi ficando mais próximo e eu senti que alguém se aproximava.
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  — E aí, amigo.
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  Ash foi surgindo lentamente à meia luz, saindo de um fundo escuro que eu não sabia o que era. Ele usava um boné preto virado para frente, que escondia uma parte do seu rosto e se arrastava em duas muletas, puxando o encosto de uma cadeira até à frente da mesa.
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  — Ash? — falei involuntariamente, mesmo sabendo que era ele; por um lado, ele não parecia muito igual à última vez que eu o vi. Parecia ter perdido peso e estava mais pálido.
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  Ash levantou uma das mãos e fez um movimento estranho, como se estivesse limpando o ar à sua volta, e balançou a cabeça em direção à porta. Ouvi os passos dos três caras que haviam me arrastado até aqui se afastarem até a porta bater.
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  — Deixemos as formalidades de lado, pode me chamar de — ele disse, posicionando as muletas em cima da mesa. — Sei que você conhece o meu nome.
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  Apenas balancei a cabeça e automaticamente olhei para os lados. Eu não fazia ideia de onde estava, mas sabia que ainda era no campus. O escuro não me deixava enxergar, aquilo parecia um depósito. O que queria comigo em um depósito?
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  — Sinto muito pela abordagem que eu usei, mas duvido muito que você viria voluntariamente se soubesse que era eu. — Ele deu de ombros e seguiu meu olhar em volta. — Esse é o antigo almoxarifado, atualmente na lista dos lugares a serem reformados na universidade. Você o conhecia?
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  — Não — respondi e virei-me para ele com uma certa ansiedade. Ou ele me dizia o que diabos eu estava fazendo ali ou teria de dar um jeito de sair. — Afinal, o que você quer?
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   deu uma risada, ajeitando o boné.
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  — Certo, certo — ele limpou a garganta, fitando-me sério. — Eu queria te agradecer.
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  Continuei olhando-o, como se não tivesse entendido.
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  — Sabe, o acidente que me deu essas gracinhas de presente. — Ele apontou para as muletas na mesa. — Se você não estivesse lá, talvez eu teria ganhado uma super cadeira de rodas tunada ou apenas um caixão. — Ele riu novamente.
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  — Não precisa agradecer, não fiz muita coisa. Algumas pessoas só estão no lugar certo na hora certa — respondi ainda sério.
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  — Eu sei que sim. — Ele concordou com a cabeça, sem tirar o sorriso sacana do rosto. — Por isso que eu também quero me desculpar. Sinceramente. Aquela noite na fraternidade foi uma loucura e como infelizmente não podemos voltar na droga do tempo, só me resta te pedir desculpas.
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  — Ah… — Concordei com a cabeça, desviando os olhos. — Sem problemas. Foi só um mal entendido. E quanto ao acidente, foi uma coincidência, nada com que…
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  — Eu sei que aquilo não foi um acidente, — ele me interrompeu, dando um sorrisinho de canto. — Sei que alguém estava tentando me matar.
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  Engoli a seco, não encontrando as próximas palavras a serem ditas. mal deveria se lembrar que eu havia falado com Elena, que ela havia soltado aquela viga em cima dele e que havia me dito seu nome.
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  — Do que você está…
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  — Sério, . — Ele soltou mais uma risada sacana, dessa vez mais curta e irônica. — Acho que você ainda está se situando, então vou deixar mais claro: eu sei que você falou com Elena. E sei que ela tentou me matar. Não precisa fazer essa cara.
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  Ele sabia. sabia de tudo. Como raios ele sabia de tudo?
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  Havia espanto e surpresa em meu semblante, eu tinha certeza. Nunca havia passado por um ultimato como aquele em toda minha vida. Na verdade, não poderia chamar aquilo de ultimato – estava apenas me informando que sabia de tudo. E eu não sabia como reagir àquela revelação.
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  Tentei manter o máximo de discrição possível, mas não conseguia controlar meus olhos, que estavam fixos em seu rosto. Senti a boca seca e me lembrei do que sempre disse que faria se passasse por aquela situação algum dia.
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  Primeiro, soltei uma risada para atenuar a tensão, ainda que não fosse convincente.
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  — Você é mais louco do que eu pensei — falei, e fui me levantando da cadeira. — Se era só isso que você queria me dizer, sinto que não posso contribuir com os seus delírios, então… — Dei as costas para começar a sair.
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  — Quando ela vai voltar? — Parei novamente. — Sinto que da próxima vez ela não vai apenas destroçar minha perna e me fazer comprar uma moto nova. Ela vai vir com tudo. Sei que ela acha que eu a matei.
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  Fechei os olhos e recomecei a andar. Eu deveria ignorá-lo, apesar de tudo em mim queimar de curiosidade, e um pouco de desespero me tomava querendo saber como raios ele sabia de tudo que estava falando.
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  — Eu sei de você e da .
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  Parei e virei-me bruscamente. O sorriso ladino que saiu de seus lábios avisou que ele havia me pegado. Não só nisso, como em todo o resto. Voltei à mesa a passos largos, colocando as palmas das mãos na superfície com força, aproximando-me dele.
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  — O que você sabe? — apesar da voz baixa, eu emitia um grunhido estranho na garganta. Eu queria sacudi-lo até que me contasse toda a verdade.
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  — A conversa vai ser bem mais proveitosa se você se sentar. — Ele apontou a cabeça para a cadeira que eu havia deixado poucos minutos atrás.
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  Sentei-me novamente, não tirando os olhos dele.
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  — Antes de mais nada, vou responder à sua pergunta não dita: não, eu não vejo os fantasmas. — Ele deu de ombros, dando um sorriso de canto. — Acredite, eu sou só um garoto de família humilde do Ohio. Não tenho nada de especial. Mas isso não quer dizer que eu não saiba que existam pessoas como você.
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  Ele tamborilou os dedos na mesa e eu continuava sem palavras. Mesmo não sabendo por que, meu corpo continuava em total estado de alerta, como se eu tivesse de esperar que algo pudesse acontecer.
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  — Como você sabia? — praticamente sussurrei e se ele ainda estava jogando verde, eu havia acabado de dar-lhe a confirmação que ele precisava.
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  — Ah, eu não sabia. — Ele levantou as sobrancelhas, balançando as mãos em negação. — Foi como em um quebra cabeça, entende? Juntei cada peça e de repente, bum! Eu entendi tudo. — Ele deu um sorriso divertido e eu o olhei confuso. — De qualquer forma, desconfiei desde que você pisou naquele quarto e disse aquelas coisas. Na hora eu estava nervoso o bastante para não raciocinar e aí fiquei sabendo que você era… Bem, você. Mas depois foi fácil pensar nisso. O acidente com a viga só serviu para confirmar a minha suspeita.
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  — O que te levou a pensar que eu havia falado com Elena? E que porra é essa de eu ser eu
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  — Sabe, eu tenho uma irmãzinha de nove anos — ele divagou, parecendo ignorar minha pergunta. — Estava conversando com ela no dia do acidente. Ela é a coisa mais adorável de todas e extremamente inteligente. Não somos filhos do mesmo pai, mas isso não interfere de mais da metade da minha renda com os medicamentos irem para uma poupança com o nome dela, para o caso de ela não ter que se virar como eu faço pra conseguir um diploma. E ela é muito especial, sabe? Quando ela contava à nossa mãe sobre os amigos que ela encontrava por todo canto, minha mãe sempre justificou como os amigos imaginários que toda criança tem. Eu também cheguei a acreditar nisso, mas no fundo eu sabia que ela estava vendo algo. Sabia que era algo tão importante que ela não queria perder tempo tentando nos convencer se era verdade, ela continuava ajudando aquelas pessoas, seja lá no que for. — Ele me encarou. — Tudo bem que ela é só uma criança e às vezes não pode fazer muito. Mas sempre esperei que ela aprendesse a lidar com esse dom, assim como você deve ter aprendido.
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  Meus ombros cederam e me senti ficando surpreso novamente. Eu não fazia a menor ideia de que tinha uma irmã igual a mim.
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  — Pensando nisso, foi fácil adivinhar que Elena havia falado com você e que pediu para você fazer o que fez naquela noite. Sinto dizer que desde então minha resposta não mudou. Eu realmente não a matei. — Ele deu de ombros.
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  — Acredito em você — respondi, sem pestanejar. Era verdade, não havia por que mentir em um momento daqueles.
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  — Eu sei que sim, se não, eu estaria morto agora. Mas ela não acredita em mim, não é? Por isso tentou me matar.
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  Não respondi, apenas concordei de leve com a cabeça. Apesar de que o fato de Elena acreditar nele ou não era bem mais complexo do que aquilo.
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  — Entendo… — ele suspirou. — Acredito que ela não vá parar até conseguir o que quer.
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  — Ela vai parar quando descobrir o que aconteceu — respondi, de repente ansioso. — Ela só não sabe disso ainda. Ultimamente ela não anda muito bem.
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  — Você deve estar investigando isso, não é? Ir me perguntar foi o seu primeiro passo.
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  — É, pode-se dizer que sim. Mas ainda não conseguimos nada, e por mais que…
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  — Conseguimos? — Ele vincou as sobrancelhas e depois tornou a levantá-las. — Ah, claro… Você e a estão juntos nessa.
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  — Não estamos… Como sabe de mim e da ? — perguntei rápido, atropelando as palavras. — Tenho plena certeza de que Elena não foi te contar isso.
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  — Devo alertar que vocês dois não são exatamente do tipo discretos — ele disse irônico. — Conheço cada centímetro desse lugar, é literalmente meu local de trabalho. Olhe por aquela janela ali. — Ele apontou para uma das poucas janelas do local, retangular e suja de poeira.
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  Nos primeiros segundos não consegui interpretar o que ele havia pedido. Mas depois, ao longe, quando avistei uma pequena parte do muro aos fundos do campus, ao final do pátio, entendi tudo.
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  — Você estava aqui aquela noite? — arfei, curioso.
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  — É, e eu sempre achei muito difícil vocês dois sozinhos terem feito aquela merda no John Jay. — Ele levantou as sobrancelhas. — Foi Elena também, não foi?
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  Concordei, ainda de boca aberta.
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  — Cara, ela está pior do que eu pensei — ele disse a si mesmo, em seguida voltando a me encarar. — Talvez eu possa te ajudar com essa investigação.
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  — Você sabe quem a matou?
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  — Definitivamente, não. Mas tenho minhas suspeitas.
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  — tem algo a ver com isso? — perguntei ansioso novamente. Talvez eu devesse medir melhor minhas palavras, pois a postura de Ash mudou ao ouvir aquele nome.
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  — Não… Acho que não — ele disse em voz baixa. — Ele é um pouco esquentado, mas ainda somos amigos. Ele não faria isso com ela. Tem algumas pessoas que precisam ser ouvidas antes de tirar conclusões precipitadas. — Aproximei a cadeira da mesa, esperando que ele continuasse. — Vocês falaram com a Margot?
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  — A colega de quarto de Elena? — respondi, lembrando-me da garota repentinamente. Neguei com a cabeça.
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  — Elena não costumava reclamar dela, na verdade elas até pareciam se dar muito bem. Porém, a garota é um pouco… Estranha — ele disse a palavra lentamente. — Não sei te explicar. Ela parecia ter algo.
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  Realmente nunca havia passado pela minha cabeça interrogar a colega de quarto de Elena, pelo menos até aquele momento.
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  — Você acha que ela…?
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  — Eu não acho nada, cara. Estou apenas contando o que presenciei. Isso fica na sua mão a partir de agora. — Ele começou a se levantar, tirando as muletas de cima da mesa e as colocando no chão. — De qualquer forma, isso me interessa também. Ainda não estou afim de morrer, então implicitamente estou ajudando a mim mesmo.
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  Ele apoiou os dois braços nas muletas e saiu de trás da mesa. Me levantei da cadeira e ele se aproximou de mim lentamente, dando-me um pedaço de papel dobrado.
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  — Esse é meu número. Quer dizer, o número do . — Ele sorriu de canto. — Pode me ligar quando precisar, tenho mais amigos do que imagina e amigos de confiança. Os caras não vão dizer uma palavra sequer. E consigo ser mais discreto do que vocês dois. — Ele riu e deu as costas para ir, mas virou-se novamente. — A propósito, imagino que não faz ideia sobre você, não é?
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  — Não — respondi em voz baixa. — E nem deve saber.
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  — Entendo. Então você também deveria ser mais discreto. — Ele deu de ombros. — Falando nisso… Sei que essa parceria entre você e ela deve ter surgido depois daquela noite da festa, mas espero que seja apenas isso. Se o descobrir, creio que eu não vou poder fazer muita coisa por você.
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  Dei uma risada irônica, contabilizando mais um aviso sobre . Era palpável que de todas as direções vinham pessoas e motivos para me manterem longe de .
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  — Acredito que essa parceria não exista mais.
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  — Pois então recupere. é durona, mas é justa e esperta. Ela deve conseguir o depoimento de Margot à polícia no dia que achou Elena e também mais informações importantes. Vocês vão conseguir.
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  — Eu preciso saber mais. — Ergui uma sobrancelha. — Preciso saber da sua versão.
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  — Pois então você terá. Mas acredito que Margot fará trabalho melhor.
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  Ele deu um leve aceno e em seguida voltou a dar as costas e se retirar.
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  — — chamei-o no último instante. — Você não está com medo?
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  Ele apenas virou a cabeça e deu um sorriso.
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  — Estou apavorado.
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  Quando eu tinha 16 anos, minha tia Shmi, irmã do meu pai, havia decidido que precisava se reencontrar depois do terceiro divórcio.
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  Ela se enfiou em um avião e passou alguns meses em um mochilão pelo sudeste da Ásia, passando por mosteiros budistas e templos de dinastias antigas. Seja lá como isso ajudava no processo. Ela voltou para casa bronzeada e distribuindo amuletos e previsões ao ler as mãos de todos da família.
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  Não que isso fosse algum problema, ao menos para mim. Meu pai parecia irritado com mais uma “fase” da irmã, que sempre foi indecisa sobre tudo em sua vida e se enfiava em aventuras que levavam sua existência ao limite. Era uma rebelde genuína, nada parecida com o irmão mais velho advogado.
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  Nos meus dez anos, ela estava estacionada na fase groupie e me sequestrou no dia anterior ao meu aniversário para me levar a um show do The Cure para que eu a fizesse companhia. Eu só não contava que ela me deixaria sozinho, no meio de uma multidão insana entupida de cocaína e cerveja barata, para que ela acordasse no dia seguinte na cama de Jason Cooper, o baterista.
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  A fúria de meus pais daquele dia afastaria até o mais terrível dos espíritos malignos. Mesmo que minha tentativa de defender minha tia ao dizer que, pelo menos, o show era perto de um ponto de táxi e que havia sido uma das noites mais divertidas da minha vida – o que não era mentira, visto que eu havia me amarrado no som que praticamente definiu meu gosto musical dali para frente –, meus pais ignoraram absolutamente tudo que eu dizia e proibiram que minha tia chegasse perto de mim de novo. Ao menos essa conversa não durou muito tempo e ela já estava de volta no jantar de ação de graças.
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  Eu gostava muito de tia Shmi. Além dos meus pais, ela foi uma das primeiras da família que abraçou completamente a ideia de Katarina e Jordan decidirem adotar uma criança de seis anos. E devo dizer que ela não poupou esforços para me enturmar nas primeiras festas de fim de ano com seu alto astral. Eu até havia criado coragem para contar a ela sobre meu primeiro beijo com Aliyah Field aos doze anos na piscina ao fim da aula de natação. Eu deixei claro que não pretendia convidá-la para o baile de inverno.
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  Mas quando tia Shmi pegou na minha mão após voltar de sua nova peripécia, comecei a pensar se realmente estava fazendo as coisas direito. Isso porque os seus olhos faltaram quase para saltar das órbitas quando ela repetiu para mim em um tom abafado: você fala com os mortos.
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  É claro que a sala de estar inteira explodiu em risadas, as do meu pai totalmente forçadas e engasgadas, dando tapinhas de leve nos ombros dela para que voltasse ao seu lugar e parasse com seu show. A atmosfera estava tão despreocupada que ninguém reparou como eu tinha congelado no meu lugar, a boca repentinamente seca, os olhos estáticos. Uma mão em meu ombro me acordou e tive de me esforçar para acompanhar o convite amigável de meu avô materno, me chamando para pescar quando fôssemos à fazenda novamente, e ainda tentar rir com as histórias dele sobre como andava a plantação de café.
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  Mas eu não conseguia contribuir muito com a conversa. Do outro lado da sala, tia Shmi ainda me olhava boquiaberta, sentada em uma das poltronas, não dando a mínima atenção para o bebê de Margaret Nelson, nossa vizinha, que era o motivo de todos estarmos ali reunidos. Ela parecia estar em um tipo de transe, perguntando-se o que havia acabado de acontecer, seja lá o que foi aquilo. De repente, ela balançou a cabeça e desviou o olhar, voltando-se para a vizinha e seu filho.
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  Assim como as demais, essa fase dela também não foi permanente, apesar de que por muitas vezes se auto intitulou budista. Mesmo hoje, no quarto casamento com um jogador de beisebol da segunda divisão, nunca mais consegui ficar do mesmo jeito ao lado dela, por mais que eu tentasse. Ela, ainda que disfarçasse melhor do que eu, também não conseguia fingir que não havia visto, ou sentido, alguma coisa estranha sobre mim. Que eu não era muito normal. Ela só não sabia explicar como. Apesar disso, eu tentava fazer o possível para manter o comportamento natural.
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  Desde então, o pensamento de que alguém poderia descobrir o meu segredo me infernizava vez ou outra. Digo, eu gostava de parecer normal. Odiava ser o centro das atenções até mesmo quando era para os elogios do meu histórico escolar e desempenho acadêmico, no entanto, nenhuma dessas pessoas me olhava com medo ou saía correndo por causa disso.
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  Mas se aparecesse alguém que realmente acreditasse que eu podia bater um papo com fantasmas por aí, eu não imaginaria quais seriam as consequências porque, bem, era uma ideia tão ridícula que elas logo afastavam do pensamento. Afinal, fantasmas não existem.
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  Nas poucas vezes em que fui flagrado, era fácil inventar qualquer tipo de estresse para falar sozinho – ou gritar aos quatro ventos e desferir um soco no ar, dependia muito do meu humor –, mesmo que as testemunhas insistissem em me dar um diagnóstico de esquizofrenia na mesma hora. Não me importava com suas suspeitas, afinal, elas jamais admitiriam a si mesmas que aquilo poderia ser verdade. Era loucura demais.
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  Mas revelou sua desconfiança com tanta naturalidade que me tirava toda a escolha sobre confirmá-la ou não. Ele já sabia da resposta antes mesmo de eu dizê-la. Contudo, confiar nele cegamente não era uma opção. Mesmo que tenha me confiado histórias pessoais demais.
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  E por toda essa informação, eu estava prestes a fazer algo realmente perigoso.
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  Quatro graus era o que dizia na tela do meu celular. O frio que eu sentia era bem mais intenso do que isso.
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  O vento gélido da madrugada balançava meu cabelo enquanto eu escalava o muro de pedra do cemitério de Woodlawn, desta vez com mais agilidade. Do outro lado, certifiquei-me de cair mais graciosamente do que da última vez, com os joelhos e as mãos intactas. Ajustei a luz da lanterna para que não passasse de uma fraca iluminação e apressei-me a correr pela direção que lembrava estar o túmulo de Elena.
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  O som dos meus passos batendo ruidosamente em cima do cascalho soava três oitavas a mais na noite silenciosa. Flocos mínimos de neve começavam a cair, misturando-se com a fumaça branca que saía pesada de meu nariz e boca. A neblina espessa cobria grande parte do ambiente, atravessando entre uma lápide e outra, moldando-se pelo vento em formas humanas assustadoras, como um passeio coletivo dos mortos. Estremeci com a ideia, torcendo para não encontrar nenhum fantasma além de Elena hoje.
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  Parei de correr ao chegar à estátua do anjo. Parecia exatamente como naquela noite, assim como todo o resto. Apesar de que agora eu tinha a estranha sensação de que seus olhos brancos de pedra me observavam, como uma testemunha viva do fatídico dia. Afastei logo o pensamento, continuando em frente, por onde havia corrido.
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  Em poucos metros, visualizei o nome de Elena talhado em letras cursivas na lápide de granito acima de sua sepultura. Um ramalhete de rosas brancas e vivas perfumava o pequeno espaço, recentemente colocado. Ao lado dele, uma foto em miniatura da garota de cabelos ruivos e olhos verdes sorria para mim. Aquele pequeno retrato emanava tanta vida e pujança que despertaria o sentimento de compaixão em qualquer visitante. Tão jovem e bonita, uma vida inteira pela frente. Nem de perto parecia com a garota raivosa que vagava por aí em busca de vingança cega.
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  Ajoelhei em frente à pedra, tateando os bolsos do casaco até encontrar a pequena navalha. O nervosismo já esperado me tomou. Fechei os olhos e respirei fundo antes de passar a lâmina pela palma da mão.
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  Aos quinze anos, eu havia gritado pela dor aguda do sangue quente escorrendo pelo meu pulso. Hoje, me limitei a trincar os dentes enquanto apertava a ferida acima do chão, deixando que o sangue caísse mais rápido do que a neve, empapando a grama e penetrando aos poucos a terra, em direção a um corpo mofado dentro de um recipiente de madeira.
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  Fechei os olhos com força e pensei em Elena. Eu era ridiculamente inexperiente naquilo e, em vez disso, comecei a pensar em minha avó, que havia me ensinado a técnica. Como se eu estivesse pedindo uma ajudinha. Não iria funcionar, eu sabia. Não era sobre o corpo dela que eu derramava meu sangue, formando a conexão invisível e medonha que puxá-la-ia até mim, seja lá onde estivesse. Eu nem sabia onde estava seu corpo. Não tinha qualquer item pessoal para substituí-lo, naquele caso. Eu não sabia nada a seu respeito, como suas habilidades secretas de mexer na memória das pessoas.
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  Foi bom lembrar disso naquela hora, me deu a raiva necessária para parar de pensar nela e me concentrar em Elena novamente. Pensei em seus olhos assustados no John Jay da primeira vez, seus lamentos no meu carro e seu andar preguiçoso por entre as prateleiras da Butler. Pensei na garota inocente que havia sido assassinada sem mais nem menos, por razões desconhecidas. Desejei que fosse essa Elena que surgisse à minha frente naquele momento.
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  Um farfalhar de folhas às minhas costas entregava que eu havia ganhado algum êxito. Girei o corpo para o barulho, encontrando uma Elena olhando confusa para os lados, perguntando-se como havia ido parar ali repentinamente.
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  Eu só sabia que era ela, pois essa técnica não admitia esse tipo de falhas. O cabelo longo estava ralo e falho, mais curto, grotescamente bagunçado. Os círculos escuros tomavam conta de seus olhos e lábios, e seus dedos longos e esguios apresentavam tremores contínuos, que percebi também em suas pálpebras.
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  Ela estava definhando.
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  Levantei enquanto enrolava a ferida com uma gaze que me certifiquei de trazer. Ela olhou para mim com puro espanto, ainda olhando para os lados, como se não fosse real.
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  — O que é isso? — murmurou, a voz cortante e seca. — Como vim parar aqui? O que você fez?
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  — Precisamos conversar — mantive meu tom de voz firme, olhando fixamente para ela.
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  Ela sumiu bem diante dos meus olhos, mas desta vez eu estava preparado. Virei para trás imediatamente quando ela avançou para mim, pegando em seu braço direito e torcendo-o nas costas, fazendo seu corpo curvar-se para o outro lado, para a lápide com seu nome.
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  Aquilo pareceu enfraquecê-la. Seus rugidos diminuíram e ela pareceu parar de lutar, encarando o retrato ao lado das flores.
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  — Me-me solta! — ela balbuciou, balançando a cabeça violentamente. Eu não sabia se podia segurá-la o bastante caso resolvesse se agitar, mas não podia demonstrar isso.
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  — Se prometer se comportar, eu solto! — falei entredentes. — Não adianta tentar fugir, tenho umas boas horas com você presa aqui comigo.
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  Ela agitou os braços de forma agressiva por um momento e segurei-a com mais força ainda, pressionando o corte recente, manchando a gaze com mais sangue. Ela xingou e desferiu palavrões horrendos quando finalmente bufou e se acalmou.
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  — Seu desgraçado de merda! — ela arfou, já com os joelhos no chão. — Me solta logo, não vou para a porra de lugar nenhum!
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  Esperei quase um minuto inteiro antes de soltá-la, mordendo os lábios para esconder a dor do corte. Ela ficou de pé e me encarou enquanto balançava o braço que eu sabia que tinha quebrado, abrindo o sorriso feio e medonho em minha direção.
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  — Você não tem mesmo medo de morrer, não é, ?
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  — Quando isso acontecer, espero sair logo de cena, sem alvoroço. — Dei de ombros, apertando o nó da gaze. — Pode me dizer por que raios você não fez isso ainda?
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  Seu sorriso diminuiu, mas sem perder o brilho divertido nos olhos. Tudo aquilo parecia uma piada.
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  — Porque preciso levar algumas pessoas junto comigo antes disso.
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  — Achei que eu tinha sido bem claro ao informar que Ash não te matou.
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  — E você, como uma donzela, acreditou nele, mesmo depois de ter levado uma surra! — Ela soltou uma gargalhada. — Devia ser mais inteligente, . pode ser muito bom na arte da manipulação, ele precisa disso.
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  Tentei responder, mas desisti. Não adiantava argumentar com Elena naquele estado, quando ela estava – ou acreditava estar – tão certa sobre . Eu só estaria perdendo meu tempo.
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  — Pelo que me lembro, você disse que gostava muito dele. Queria apresentá-lo aos seus pais e coisa e tal — falei, e suas pálpebras se moveram de nervosismo. — E levei a surra depois de ele ter me dito que também gostava de você. Então pode me explicar por que diabos ele te mataria?
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  — Ele é um mentiroso! Filho da puta cafaje…
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  — Não adianta fugir das perguntas, Elena! Quanto mais sangue eu derramar nesse solo, mais tempo você vai permanecer aqui. E então tudo depende de você me responder. Como vai ser?
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  Na verdade, eu não sabia ao certo daquilo, não tinha prestado muita atenção nessa parte da aula quando minha avó aplicou a técnica, estava ocupado demais me segurando para não chorar pelo corte errado e profundo na palma da mão. Mas sabia mentir e era isso que importava no momento.
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  Ela soltou um barulho estranho do fundo da garganta, aparentemente deixando o ódio vir à tona.
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  — Posso quebrar o seu pescoço…
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  — Por que te mataria?
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  — …assim seu sangue não derramaria…
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  — Responda! — Dei um passo à frente, gritando mais alto do que ela, torcendo para que ninguém tenha escutado.
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  — Porque ele é um covarde desgraçado que tinha medo de estar comigo! — ela gritou, arregalando os olhos. — Ele… Tudo estava indo bem, mas então… Ele e brigaram, então ele gritou comigo. Foi repentino, não havia nada de errado entre nós e ele simplesmente saiu… Sumiu por três dias.
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  A tremedeira em suas pálpebras aumentou drasticamente e seus olhos se arregalavam e tomavam uma expressão confusa e irreal, como se ela não estivesse entendendo as lembranças que a tomavam subitamente. Percebi que aquela deveria ser a primeira vez que Elena se esforçava para lembrar o que havia acontecido antes dos remédios. E eu não sabia dizer se isso era bom ou ruim.
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  Fora isso, me prendi na informação. Automaticamente, lembrei-me das palavras de a na Gibbons àquela noite. “A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz…”
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  Nunca havia me perguntado porque ele disse tal coisa. Porque tinha de terminar com Elena. A sensação de que ele tinha algo a esconder não havia me abandonado nem por um segundo.
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  — Por que e brigaram? — perguntei, ao ver que ela olhava com um certo desespero para os lados, como se suas memórias tivessem tomado forma e espreitavam-na.
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  — Eu não sei — ela gemeu, lentamente colocando as duas mãos na cabeça. — Eles estavam sempre brigando, eu não fazia ideia sobre o quê. Ele entrou em contato comigo depois desse tempo, me pediu desculpas, voltamos a ser o que sempre fomos… — ela respirou fundo, a tremedeira agora tomando suas mãos. — Ele estava sendo amoroso, atencioso, me ofereceu os remédios… — Seus olhos ficaram frios e duros e ela grunhiu. — E então eu morri! Por causa dele eu estou aqui!
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  Não.
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  Aquilo definitivamente era estranho demais.
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  — não te matou, Elena — falei firme, mesmo que ela tenha me lançado o ódio que a consumia. — Independente de quão estranha é a situação, preciso que você se lembre de mais coisas, de mais pessoas. Onde estava sua colega de quarto?
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  — Ela não estava lá…
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  — Onde ela estava?
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  — Eu não sei, eu não sei. — Ela levou as mãos à cabeça novamente, como se sentisse dores. — Eu não me lembro… Ela tinha um emprego…
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  — Mas vocês eram amigas…
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  — Ela não era minha amiga! — gritou. — Ela só sabia me humilhar com seu tom implícito e gentil, dizendo como eu não era boa o suficiente para ficar com um cara como Ash! Se gabava para mim dizendo que se ele ainda não tinha dito seu nome, era porque me considerava como mais um de seus brinquedos, que nunca me levaria a sério! Me dizia isso várias vezes! E no fim estava certa, mas isso não diminui seu posto de vadia!
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  Eu devia ser louco por manter Elena presa prestes a ter mais um surto de raiva. Era por isso que aquela técnica nunca era recomendada – e minha avó com certeza me mataria se soubesse. Esperava que ela nunca soubesse.
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  Mas eu me sentia tentado a arrancar ainda mais informações à medida que ela me dava resultados. Quando o tempo se esgotasse, eu não sabia se teria uma chance daquelas de novo.
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  De repente, ela soltou um berro horrendo, caindo de joelhos no gramado molhado. Seu corpo inteiro tremia e ela respirava com dificuldade, os olhos catatônicos, um pavor que eu não sabia de onde vinha.
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  — Elena! — Corri até ela, ajoelhando-me, pegando em seus ombros. — O que está acontecendo? Fala comigo! Você está se lembrando?
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  — Não… Para com isso… — Ela olhava para todos os lados em pânico. — O que são essas coisas? Quando foi isso…
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  — Elena, presta atenção em mim. Olha pra mim! — gritei, conseguindo sua atenção por um momento. — Me diz o que está se lembrando! Preciso que você me diga!
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  — Não… Não faz sentido. Ele não me disse isso, não foi isso que me mostrou… — Ela agarrou o colarinho do meu casaco, aproximando-se do meu rosto. — KL… D… 89… 6… Um acidente… Margot… Ela me ofereceu…
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  Cada palavra era pronunciada com dor e todo ódio de Elena parecia ter desaparecido. Eu a olhava ansioso, esperando que isso não a pressionasse, mas ela nem parecia estar me vendo. Só repetia palavras desconexas, para o vento, as árvores, qualquer coisa que estivesse no ambiente.
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  — Que acidente? — tentei perguntar e ela balbuciou algumas palavras. — O que Margot fez? Elena, preciso que continue se lembrando. Vamos, sei que você consegue, eu posso te ajud…
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  De repente, sua boca se escancarou em um grito seco, olhando para algum ponto atrás de mim. Um horror genuíno estampou seu rosto e eu não sabia que era possível sua palidez fantasmagórica piorar.
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  — Ele está aqui… — sua voz saiu em um fio, quase inaudível, mas que pude compreender com toda a clareza.
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  Virei para trás tão rápido que precisei apoiar um dos braços para não cair. Não havia ninguém. Me levantei do chão, analisando cada mísero pedaço da cena onde eu me encontrava, para qualquer lugar que meus olhos alcançassem. Uma gota de suor desceu pelas minhas costas. O silêncio era o mais pesado que eu já havia presenciado – o terror de presenciar o absoluto nada. Eu podia ouvir até as batidas aceleradas do meu coração.
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  E o choro de Elena continuou.
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  — … — sua voz foi a quebra do silêncio e não virei imediatamente. Continuava olhando para todos os lados, o sangue pulsando nos tímpanos, em absoluto estado de alerta.
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  Quando me virei novamente para ela, já não estávamos mais sozinhos.
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  Apesar das mudanças bruscas, ela finalmente parecia a garota perdida e frustrada que havia invadido meu carro novamente. Estava de pé, com o choro preso na garganta, tentando contê-lo. Olhava para baixo, intimidada pela presença que agarrava seu braço direito e olhava diretamente para mim.
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  Senti que poderia passar por aquela situação milhares de vezes e ainda assim não me acostumar nunca com a sensação sufocante que ele trazia consigo. Parecia que eu adentrava em um mundo paralelo quando ele chegava perto, tamanha era a vastidão da angústia e desespero que ele infligiu apenas por estar ali, parado, sem mover um músculo. Ele era envolto por uma fumaça negra, como se tivesse pintado toda a neblina que serpenteava aos nossos pés, tornando tudo ainda mais escuro e ameaçador. E se era sua intenção me deixar com medo, ele havia conseguido. Eu estava.
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  Aquilo definitivamente não estava nos meus planos.
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  Meus pés não se moveram, nem sei se deveriam. Até o ar estava mais pesado com aquela presença, fazendo-me inspirar com mais força do que o normal.
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  Em um movimento gracioso, ele inclinou-se levemente para o lado, aproximando os lábios próximos à orelha de Elena, sussurrando palavras que eu não conseguia ouvir.
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  Aos poucos, o choro dela foi cessando e sua tremedeira também era levada embora à medida que ela escutava seja lá o que fosse aquilo. Um desespero, misturado com raiva, tomou conta de mim tão abruptamente que me esqueci do fato de que estava com medo.
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  — Elena, não escute ele! — gritei, fazendo-o parar no ato. — Saia de perto dele agora! Não escute o que ele tem a dizer, olha pra mim! ELENA, OLHA PRA MIM!
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  Dei um passo à frente na mesma hora em que ela levantou a cabeça. Não soube explicar o que vi. Eu não sabia o que ele estava fazendo, mas eu havia interrompido seu processo pela metade. Ela havia parado de chorar, mas os mesmos olhos preenchiam a expressão perdida que ela tinha segundos atrás, que tinha desde que eu a conhecera. Ela olhou de mim para ele lentamente, como se não soubesse o que fazer.
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  Ele deu uma risada sarcástica e voltou-se para ela.
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  — Solta ela! — gritei novamente, desta vez para ele. — Disse para soltá-la AGORA!
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  Eu não sabia o que tinha feito.
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  Eu não tinha nada em vantagem para uma luta.
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  Ele soltou lentamente o braço de Elena, virando o rosto para mim. Quando cravou os olhos totalmente negros nos meus, eu sabia que iria morrer.
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  Não tive tempo de ponderar sobre o assunto. Em meio segundo, ele estava na minha frente, vários centímetros mais alto do que eu, e senti como se um toldo escuro e impenetrável caísse sobre nós dois. Eu não via mais nada ao redor, nem árvores, lápides ou Elena. Mas também não conseguia virar a cabeça para olhar. Era como se ele tivesse amarrado minhas pernas ao chão e me hipnotizasse para olhar somente em seus olhos.
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  Olhos esses que me gelava a espinha e eu não conseguia mais disfarçar a tremedeira sobre todo o corpo. Eu nem sabia como ainda estava de pé. Ele me avaliou de cima a baixo, um sorriso grotesco atravessando os lábios, claramente se divertindo com o meu terror.
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  — — ele murmurou, a voz arrastada e rouca que me atingiu como um soco. — Tsc, tsc. Você é teimoso. Tal qual o seu pai.
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  Minha garganta fechou. Tentei encontrar palavras, mas não conseguia proferir coisa alguma. Minha mente não funcionava. Ele riu de minha confusão.
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  — O seu desejo de morrer é absolutamente esplêndido. Espetacular! Arriba, à toda essa genética! — Ele gargalhou, com os braços levantados lado a lado, cantando uma vitória.
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  Quando finalmente achei minha voz, ela saiu em um sussurro árido, espesso, como se não proferisse palavras há vários dias:
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  — O-o q-que… — Eu tinha certeza de que minha boca estampava rachaduras. — Do que…
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  — Oh, não, pobre rapaz! — Ele levou uma mão ao peito, teatralmente. — Peço que me perdoe a inconveniência, sempre insisto em esquecer de sua vida atual totalmente maquiada sob um sobrenome aleatório que lhe foi dado por duas amadas almas extremamente tediosas. — Ele balançou a cabeça e passou o dedo indicador pelo meu ombro, me provocando ainda mais arrepios. — Mas você gosta deles, não é? Mesmo que a curiosidade sobre sua origem te tome algumas vezes, você a afoga prontamente porque pensa no doce e gentil casal , entristecidos pela infertilidade, mas reencontrando a felicidade em um garotinho do Melbourne. E eles cuidaram tão bem de você, todos assistiram. Como poderia sequer cogitar pensar quem foram as pessoas que o deixaram na frente daquele portão sujo e fedorento quando ainda nem sabia falar? Adorável, , simplesmente adorável! — Ele bateu pequenas palminhas.
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  Cerrei os punhos, mas não conseguia fazer mais do que isso. Ainda me sentia preso, com algo apertando meu peito, sem fazer ideia do que era.
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  — Ainda assim, sua personalidade é fascinante, espantosa. Existem pouquíssimas pessoas em seu acervo de sentimentos, mas estas ainda são interessantíssimas. Como a belíssima Naomi Robbie, selvagem e sedutora! Gostaria muito de vê-la de perto…
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  O ar escapou de meus pulmões e consegui dar um passo à frente, mas seus dedos me tocaram mais uma vez, parando-me. Meu corpo não reagia àquele toque. Eu queria falar, gritar, fazer qualquer coisa. Simplesmente não conseguia.
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  — Calma, meu jovem. Tenho que destilar algum elogio sobre aquela gata loura. Acredito que, sem ela, você não seria quem é hoje, lidando com a habilidade infame que permite nossa comunicação neste exato momento. Esse cômico senso de justiça está no seu sangue, mas posso apostar que ela o ajudou a moldá-lo, mesmo que indiretamente. — Ele sorriu, com um brilho estranho nos olhos. — É uma pena, ela não merecia ter sido largada daquele jeito, até pior do que você. Mas com a família que teria, acredito que ela teve sorte ao ser encontrada por aquela velha gorda.
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  Eu não podia escutar isso. Não podia deixar que ele entrasse na minha vida desse jeito, na vida das pessoas que eu gostava! Tentei novamente me mexer, mas sua voz se tornou ainda mais cortante.
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  — E quanto ao garoto esquisito que correria se descobrisse seu segredo? Como é mesmo o nome dele… — Ele juntou as sobrancelhas, atuando, rindo em seguida. — … Outro na sua lista de pessoas importantes. Fascinante! Esse jovem sempre dá um jeito de me surpreender, e acredite, não sou facilmente surpreendido. A lealdade que ele possui por você é, no mínimo, assombrosa. E com certeza você já deve ter notado isso, mesmo com toda a estupidez que o envolve. Mas não se sente pronto a incluí-lo nessa parte da sua rotina. Não posso dizer que é uma má ideia. — Ele deu de ombros. — Afinal, ele é seu único amigo e posso sentir o seu desespero por mantê-lo em sua vida. Faz ela parecer mais normal, não é? Ter alguém que divida uma bebida ou um cigarro com você, sem considerar o fato de que você pode estar vendo uma alma morta vagando por detrás de suas costas e que eles podem falar. E até atacar. É um fardo muito grande para atribuir a alguém. Vemos que a maldita nobreza também te apetece, assim como seu pai. Deslumbrante!
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  Eu tinha certeza de que meus dedos já estavam brancos com a força de meus punhos. Alguma coisa queimava dentro de mim, lutando para sair, mas não obtinha sucesso. Ele parecia estar controlando até minhas reações. E seu sorriso debochado me deixava em conflito: eu não sabia se partia para cima dele, correndo o risco real de morrer, ou se fazia as perguntas que eu sabia que estavam vindo, uma tonelada delas. E ele estava certo, eu me odiava por isso.
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  Fechei os olhos com força, em uma tentativa desesperada. “Vó, se você estiver ouvindo, agora seria uma boa hora para aparecer e se meter nos meus problemas de novo.”
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  — Ela não vem, garoto.
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  Abri os olhos, verdadeiramente assustado. Ele ainda sorria, agora com um prazer genuíno pela minha surpresa.
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  — Não vou mentir, não se pode subestimar aquela velha, ela soube muito bem como proteger você por todos esses anos. Apesar de tudo que fez! — Ele gargalhou novamente, dessa vez exagerando de uma forma que me fez pensar por um minuto que alguém escutaria. — É hilário assistir à compensação de seus erros, te educando em sua habilidade e ensinando-lhe técnicas perigosas como aprisionar um fantasma raivoso. Brilhante! Não bastasse tudo isso, ainda tendo sucesso em te privar de toda a verdade sobre seus progenitores. Realmente, ela não é qualquer mulher. Não excluindo sua notável habilidade extra com as mentes, mesmo que ela diminua drasticamente no outro plano. Ou você acha mesmo que eu sou o primeiro que você vê?
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  Firmei os joelhos para não desabar. Puxei o ar com força e não sei como ainda encarava firmemente seus olhos. Suas palavras, desde o começo, me atingiam como lascas desesperadas, mas agora foi como se ele tivesse cravado uma espada no meu peito.
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  Não conseguia responder à altura com a mente embaralhada do jeito que estava. Só queria sair dali, precisava sair dali.
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  — Cala a boca… — murmurei, levando a mão direita ao peito, apertando a camisa, como se isso diminuísse o aperto que eu sentia. — Não quero ouvir mais nada de você, não preciso…
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  — Não quer ouvir? — De repente ele estava a centímetros de mim e eu arfei. — Mas ainda nem começamos a falar sobre o principal. Sobre o motivo de todo esse infortúnio. Você sabe de quem estou falando, não é mesmo?
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  O sorriso em seu rosto lascado desapareceu de imediato. Arrisco dizer que uma raiva sem igual tomou conta de mim ao mesmo tempo que vi o lampejo da mesma raiva salpicar seus olhos. Eu sabia o que ele diria antes mesmo das palavras saírem de sua boca.
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  — Por onde começamos a dialogar sobre minha doce garota do Queens, que agora dorme profundamente em sua cama vitoriana, trajada de uma linda camisola de seda com detal…
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  Eu nem sei como aconteceu. Esse tempo todo me sentia grudado ao chão, petrificado de um medo que tentava me tomar, o espanto por todas as coisas que ouvia. Mas aquele ardor que parecia preso, um ódio sufocado por aquela presença, finalmente havia conseguido ser liberado. Não notei quando meu punho acertou em cheio seu nariz, mas de repente o desequilíbrio que sua presença emanava no ar evaporou e pude respirar normalmente.
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  Pousei as mãos nos joelhos, arqueando as costas com o ar frio que entrava por minhas narinas. Eu podia ver tudo novamente. A grama misturada com a neve que ainda caía, as árvores ao redor, as diversas pedras cinzas marcadas com nomes, as flores que enfeitavam as sepulturas. Pude ver Elena no mesmo lugar, parada com o rosto em choque, como se estivesse me vendo pela primeira vez.
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  Seja qual fosse o casulo onde ele havia nos metido, eu estava fora dele.
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  Pude jurar que havia investido toda a minha força naquele soco, mas ele apenas cobriu a área atingida, dando um passo para trás, sem emitir som algum. Quando os dedos se afastaram o suficiente para que eu visse seus olhos de novo, eles haviam tomado um brilho estranho e a risada que escapou de seus lábios me atravessou o corpo.
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  Ele estava se divertindo com toda a situação, se divertindo em me ver falhar, se deliciando com a minha impotência. Igualmente ao meu sonho.
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  Uma onda de ódio me fez partir para cima dele de novo, dando socos aleatórios como uma criança, sem saber o que estava atingindo. Um rugido agudo escapou de minha garganta e soquei-o com mais força, descontrolado, sem estratégia. Não era mais por Elena e por tudo que ele estava fazendo com ela. Não era mais pela perseguição mortal em . Era por mim, pela minha vida, por coisas que eu não sabia e ele sim, por coisas que eu repeti a mim mesmo que não queria saber, por todos os sentimentos que ele estava arrancando de mim à força. Ele tinha de pagar por aquilo, por tudo aquilo, e eu pensei que meus socos seriam capazes de fazer todo o trabalho.
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  Mas então, como se tivesse deixado eu extravasar toda a minha raiva nele por pura gentileza e agora decidisse que a brincadeira tinha acabado, ele pegou em meu pescoço com uma mão só e, em um movimento rápido e firme, como se seus pés apenas deslizassem pelo gramado, lançou-me com brutalidade na árvore mais próxima, batendo a lateral de meu rosto como se fosse uma bola de tênis na madeira.
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  Fiquei zonzo por alguns instantes, mas ele não me deu tempo de me firmar. Pelo colarinho do meu casaco, ele me levantou novamente, forçando-me a encarar seus olhos negros e diabólicos, ainda levemente elevados pelo sorriso insistente no rosto. Ele ainda estava sorrindo.
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  Por um momento, pude sentir a sombra negra novamente tentando aparecer e me fechar ali, junto a ele, para me deixar imóvel e vulnerável de novo. Mas agora eu sabia. Sabia que aquilo era um truque, que ele estava na minha mente. Sabia que sim, ele era real, era bem real, mas não aquela sombra, não a redoma sombria que pairava sobre nós. E eu não a deixaria me tomar de novo.
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  E pela faísca em seus olhos, ele pareceu perceber a minha convicção.
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  — Formidável — ele murmurou em voz doce, o sorriso se alargando, a mão firme em meu peito, prendendo-me contra o tronco da árvore. Percebi que algo latejava na minha testa. — Você é… especial. De alguma forma maluca, mas é, garoto, acredite, é sim.
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  Eu arfava, não conseguindo me livrar do sentimento angustiante de sua voz tão próxima de mim novamente. E aqueles olhos, Deus, pareciam olhar através de mim. Os mesmos olhos dos pesadelos, os mesmos olhos assassinos que encaravam na madrugada chuvosa sob as luzes vermelhas. Eram os olhos de um demônio.
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  Talvez era essa a palavra que Naomi buscava para descrevê-los. Talvez ela só não tinha coragem de dizer.
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  Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, avaliando-me, como se estivesse procurando por uma guarda baixa, ou algum outro segredo ou sentimento que não estivesse escondido o suficiente para puxar e esfregá-lo na minha cara. Meu coração pulsava loucamente no peito, tentando pensar o que era, o que poderia ser. Por mais maluco que parecesse, preferia que ele me surrasse até a morte a ter que ouvir seus relatórios sobre meu subconsciente.
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  Ou ele estava vendo algo que, bem, somente ele estava vendo. Algo que eu nem sequer desconfiava. E pareceu feliz com o que quer tenha sido, pois soltou uma gargalhada escandalosa que fez os ombros tremerem tanto que pensei que me soltaria sem querer. Mas seu aperto não se afrouxou nem um milímetro.
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  — Meu jovem, estou deveras encantado com o nosso encontro, não posso negar, você é mais interessante do que eu pensei! E oras, infelizmente nem posso explicar por quê. — Mais uma risada, desta vez com um tom aveludado e amargo ao mesmo tempo. — Preciso concordar com aquela velha. Em seu caso, a ignorância é a maior das bênçãos.
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  Trinquei os dentes e tentei me mover antes que ele começasse mais um monólogo invasivo, mas mal pude me mexer. Ele restringiu o aperto e, de uma forma inexplicável, minhas pernas não se moviam. Mesmo sem a redoma, mesmo sem a escuridão.
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  — Você acha que aprendeu todos os meus truques? — Ele ergueu uma sobrancelha sutilmente, agora tirando o sorriso sacana dos lábios, retornando a expressão séria, o rosto duro como pedra, exalando um terror infindável em mim. — Vamos começar a conversar: seus números de heroísmo perderam a graça. No dia daquela festividade horrenda, cheia de humanos imundos querendo provar alguma coisa enquanto bebiam cerveja ancorados de cabeça para baixo, eu sabia que havia sido visto. Ah, eu sabia. Por um momento, achei que estava louco. Não era possível, um deles por aqui, depois de tantos anos que havia visto o último. Mas não me importei, afinal, você não tinha nada a ver com a minha garota. Ou, ao menos, pensei que não teria.
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  “Mas então você estava com ela naquele bar sujo e fedido, e desta vez pude notar que você estava disposto a interferir. Não sabia o que estava fazendo, era óbvio, mas sabia o que eu pretendia fazer e não se segurou até executar seu primeiro ato de herói. Moleque estúpido. Naquela mesma noite, observei você. Observei dentro de você. Pensei em agir de uma vez, de forma limpa e rápida, mas eu sabia que era questão de tempo até que você se abrisse com sua velha mentora e ela te alertasse sobre a situação. Ah, com certeza ela te alertaria.”
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  “Mas, antes disso, você resolveu atacar novamente com o seu heroísmo. Veja bem, , vou te dar uma breve explicação dos fatos: aquela garota bem atrás de nós, a estudante de Direito mirrada e estúpida que foi assassinada sem motivos aparentes, quer uma coisa muito simples: vingança. E ela precisa disso, compreende? Ela precisa matar a pessoa que causou isso primeiro, é um raciocínio evidente. Se vai levar algumas outras pessoas ou arquiteturas colossais no processo? Francamente, não me interessa. Sei que minha garota está bastante interessada nela, o que a torna uma bela isca para todo o espetáculo que eu planejo e ainda assim ajudo uma morta desesperada por justiça. Acredite quando eu digo que não há espaço para você e suas manobras nesta festa graciosa.”
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  “Ainda assim, tive de lidar com sua intromissão mais uma vez naquele estacionamento. Eu havia finalmente conseguido entrar na mente da garota Victor, plantando a certeza de uma vez por todas que aquele marginal havia feito isso com ela, mostrando-lhe lembranças convenientes, até lhe revelei seu nome verdadeiro, apertei ainda mais o cerco para deixar claro que ela tinha de agir com as próprias mãos, que só assim ela iria conseguir toda essa conversa fiada de paraíso e que mediador nenhum faria isso por ela. E eu estava conseguindo, ah, como estava, meu rapaz, ela foi atraída pela justiça rápida e menos burocrática que não conseguiria confiando em você.”
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  Engoli em seco, o rosto lívido demais para tentar disfarçar o sentimento explícito de choque.
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  — S-seu… — tentei falar, tentei manter a voz firme. Senti os dentes trincando, a raiva voltando à tona. — Você sabe que não a matou…
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  — E afinal, quem sabe? — Ele deu uma risada sarcástica, levantando os ombros, aproximando um pouco mais o rosto de mim. — Acho que você ainda não entendeu minha total falta de interesse pela garota Victor e tudo que aconteceu a ela. Ela estava fraca, vulnerável, desprotegida e tinha alguém em mente. Bingo! Foi como dar a mão a uma criança perdida e guiá-la pelo caminho de casa. Tão, mas tão fácil.
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  “Se o garoto das drogas morresse naquele dia, minha garota ficaria aflita. Ela poderia ligar os pontos, mesmo que não fosse encontrar nada, mas se afundaria neste caso, pode ter certeza que sim. Ela é inteligente, muito inteligente, aposto que sabe, e tem sentimentos guardados tão pesados que não a tornam 100% cética, você compreende? São coisas realmente sombrias, que tomam forma de vez em quando com a minha ajuda, com certeza. Tenho um passatempo peculiar de visitar os seus sonhos de vez em quando.”
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  Mais uma vez a raiva, a vontade de atacá-lo e mandar que calasse a boca, mas novamente sua habilidade estranha não me permitia, e ele continuou:
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  — Aos poucos, eu entraria tão fundo, mas tão fundo em sua mente que drenaria toda a sanidade dela, garoto, não duvide disso. Às vezes é difícil, eu admito, tenho tentado por sete anos e fiz pouco progresso. Ela também é uma garota especial, não como você certamente, mas é especial. Mas o acidente seria uma ladeira difícil de pará-la. Ela encararia como um desafio e se entregaria, e isso me abriria portas para seu interior, e sua morte aconteceria de forma quase cinematográfica, honrosa até. O sangue e a loucura dela são como a enorme cereja do maldito bolo. Tudo estava encaminhado. Mas, como disse, você não se aguentou.
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  “Naquela hora, você não era mais apenas um garoto inconveniente, metendo o nariz onde não era chamado. Você me deixou com raiva. E, acredite, o que fiz com você naquele dia não chegou nem perto do que eu poderia. Poderia te deixar em coma pelo resto da sua vida e seus pais patéticos jamais desligariam os aparelhos com a esperança de te ver retornar, mas ninguém os avisaria que era uma perda de tempo porque você não teria mais a sua alma. E ela estaria presa no vazio para sempre, convivendo consigo próprio até definhar e virar parte do próprio nada.”
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  “Tive paciência e me levei a crer que você era, afinal, um garotinho assustado. Que minha demonstração te deixaria tão apavorado que você nunca mais ousaria olhar para minha garota de novo. Mas então algo realmente magnífico ocorreu fora dos meus planos e nada teve a ver com você, . Tudo aconteceu por culpa da vadia ruiva bem atrás de nós, que tentou descaradamente roubar a vida da minha garota, como um mero teste da minha paciência. Me vejo obrigado a te informar que ela luta mais do que eu gostaria quanto ao controle que eu imponho, mas, no final, ela sempre volta para mim. Nisso você pode ter certeza.”
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  “Naquele dia, neste mesmo cenário onde conversamos agora, você chegou aqui tão rápido como uma bala ao menor sinal de ameaça da ruiva em relação à garota. Tsc, tsc — ele estalou a língua. — A Victor não sabia de absolutamente nada naquele dia. Ela estava lutando contra mim de novo e viu sair de casa para vir a este mesmo lugar. Ela caminhou lentamente até a avenida, passou pela F&J Daisy para comprar o mesmo ramalhete de orquídeas e pegou o primeiro táxi. Chegou aqui minutos antes de fecharem as portas e se lamentou por horas a fio nas duas sepulturas conjuntas do pai e do irmão. Ela repete esse ritual mais vezes do que você imagina. A única diferença é que, naquela ocasião, ela guardou uma única flor para deixar no túmulo de Victor, como um sinal da mais pura solidariedade.”
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  De repente, lembrei-me daquela noite. De estar tão apavorado com a iminência de Elena que queria arrastar dali o mais rápido possível e não dei atenção alguma a suas palavras. “Não é nada disso que você está pensando…”
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  “Depois de seu resgate ao garoto da Harley, Elena ficou desacreditada com a minha promessa e quis descontar na minha garota. Não vou negar, acho que exagerei um pouco com ela, mas acredite, ela não seria capaz de fazer algum mal a . Eu chegaria primeiro de qualquer forma. Mas foi tocante vê-lo correr para salvá-la, ao mesmo tempo que extremamente irritante. Ali eu tive a certeza de que você não havia entendido nada e muito menos aprendido a lição. Isso me deixou com raiva, garoto, muita raiva. Você ainda estava tentando interferir, mesmo agora sabendo dos riscos.”
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  “Tive de tomar medidas um tanto inesperadas, como perder o meu precioso tempo entrando em sua mente dia após dia, dando-lhe pequenas doses do que eu poderia fazer e ainda posso caso você não se aprumasse e sumisse do meu caminho. Ah sim, rapaz, sei o quanto você ficou perturbado com todos os sonhos enigmáticos e as lembranças do desespero, eu sei bem, mas eu esperava que o recado estivesse no mínimo simplório: desapareça de toda a história que não te envolve e continue a viver sua vida patética como viveu até agora. Aprenda de uma vez por todas que o destino é mais forte do que eu, você e todos nós. Não costumo avisar duas vezes, muito menos três, portanto considere-se com sorte de eu te deixar viver mais um dia.”
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  Suas últimas palavras saíram como lâminas afiadas em direção a todo o meu corpo, uma ameaça velada – uma última ameaça. Ele deu um sorriso sarcástico e começou a se afastar lentamente, deixando-me parado ainda junto à árvore, sentindo de novo as minhas pernas e o meu punho, soltando o ar forte e rápido, percebendo naquele momento que havia ficado sem respirar por alguns minutos.
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  Se eu ficasse quieto, ele iria embora. Levaria Elena com ele e juntos concluiriam o seu plano maligno que terminaria não só com e mortos, eu tinha certeza. E ele apenas pedia que eu aceitasse e ficasse fora de seu caminho. Bufei, tentando controlar a respiração, tentando ainda mais digerir tudo que havia acontecido.
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  Mas ele não podia ir embora. Não ainda.
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  — Por quê? — minha voz saiu seca, rugosa, e mesmo sem ver eu sabia que a cor havia deixado meu rosto. — Por que quer matá-la? O que há por trás disso?
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  Ele parou no mesmo momento e o ombro subiu e desceu com risadas. Ele virou-se para mim novamente, caminhando de forma descontraída, como se eu finalmente tivesse feito a pergunta que ele tanto queria ouvir, a qual ele explicaria com prazer – ou apenas brincaria comigo com enigmas, como estava fazendo a noite toda.
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  — Ora essa, é claro que você perguntaria isso, não é mesmo? — Ele riu novamente, juntando os dois braços atrás das costas. — Veja bem, garoto, queria muito poder respondê-la, mas sinto que não devo. Já lhe revelei muitas coisas em uma só noite e posso acreditar rigorosamente que terá muito o que pensar – ou simplesmente sonhar – daqui para frente, sem interferência minha. E ah, sim, eu não mencionei sobre esses sentimentos confusos que você insiste em nutrir pela minha garota, mas é desnecessário. Acho que consegui deixar bem preciso que não é muito inteligente mantê-los.
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  — Não tenho… — comecei a dizer, mas travei. E tinha certeza de que nenhum truque dele estava agindo sobre mim naquele momento.
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  Ele arqueou as sobrancelhas, esperando que eu continuasse.
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  Seu sorriso vitorioso me fez ter vontade de quebrar todos aqueles dentes.
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  — Você é um rapaz de atitudes, , lembre-se disso. Se estivéssemos em um dia comum, eu lhe aconselharia a ser mais honesto consigo mesmo em relação a toda essa coisa sentimental, mas hoje não. Não por ela. Hoje quero apenas que você volte para casa lembrando-se porque ainda está vivo. Porque eu permiti.
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  E então ele desapareceu em um piscar de olhos, levando Elena junto a ele, deixando-me sozinho com os fantasmas que havia plantado na minha cabeça.
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Capítulo 15 – O oculto sob o jazz

  Desta vez havia grama.
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  Um espaço aberto como uma clareira, rodeado de árvores gigantes como sequoias, com suas raízes grossas juntando-se uma após uma outra, como se dessem as mãos, delimitando o espaço em um círculo fechado, com apenas poucos feixes de luz que conseguiam achar alguma brecha entre as folhas há quilômetros acima. O vento soprava timidamente, balançando os galhos que criavam sombras grotescas nos cascos de suas vizinhas, como dedos de um monstro que ataca por trás. Eu sentia esse vento que, apesar de tudo, era refrescante, e mesmo que atingisse tudo ao seu redor, ainda assim se mantinha silencioso.
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  Eu sabia que era um sonho. Mesmo que eu sentisse o cheiro de terra molhada e as gotas do orvalho caíssem um pouco no meu ombro. Mesmo com meus ouvidos tão aguçados quanto o de um morcego, ali, naquela imensidão verde escura e brutal, eu não conseguia ouvir os sons de fora. Não conseguia ouvir o trânsito caótico que passaria por debaixo da minha janela àquela hora. Porque era exatamente onde eu deveria estar: no meu quarto. Na minha casa. Fora dessa redoma.
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  Mas não era por causa de nada disso que eu estava ciente da fábula da vez.
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  Era porque estava sorrindo para mim, bem à frente.
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  Era loucura a forma como ela estava linda. Seus pés descalços na grama alta não pareciam lhe incomodar, assim como os braços desnudos molhados pelo resquício da chuva. Havia um círculo no alto por onde entrava a maior parte do sol, agindo como um holofote bem em cima dela. Por um momento, devo ter perdido o fôlego de verdade. O que meus olhos viam poderia ser considerado um novo espetáculo da natureza.
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  Esperei que ela dissesse alguma coisa. Estávamos há pelo menos oito metros de distância e eu não sabia se deveria me aproximar ou não.
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  — Vai ficar parado aí? — Ela falou, ainda sorrindo. — Não quer se aproximar de mim?
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  Engoli em seco, não sabendo o que responder a princípio.
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  — Não quer saber mais sobre mim? — Ela deu de ombros.
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  Era um teste. Poderia ser ele. Poderia ser qualquer coisa. Eram formas primitivas para me passar mais algum tipo de recado, era sim, só podia ser.
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  Mas era diferente. Alguma coisa era diferente.
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  — Não sei se devo — respondi em voz baixa.
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  Ela riu da minha resposta.
  — Não deveria, não. Mas você quer, não é mesmo?
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  — Eu quero… Digo, quero te ajudar, eu…
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  — Tsc, besteira. Isso é só uma desculpa para o que você realmente quer. E não apenas eu, porque sim, eu sei que você tem esse desejo reprimido por mim, mas não é essa a questão. A verdade é que você quer saber mais sobre você mesmo. — Ela jogou os cabelos para trás e me olhou com um brilho estranho que escapava das pupilas. — Foi assim desde o começo, essa conexão esquisita que temos, que faz com que você me procure e queira me proteger e que mexe até comigo, sabia? Talvez eu ainda não saiba disso, assim como você, mas ela existe. E são tantas perguntas, eu sei que são, as dúvidas cruéis que te fazem perder o sono. Porque existe algo agindo por trás, alguma coisa grande, tão grande que você tem medo de descobrir, que pode explicar todos os seus passos até agora. Mas você ainda não agiu. Por que, ? Por que ainda não fez nada?
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  A resposta veio e se foi. Se foi tão rápido que me perguntei se realmente existiu uma. A imagem dela estava causando algo forte e vivo dentro de mim, mas não era real. Ela não era real. Mas suas palavras eram, pareciam tão reais quanto o suor acumulado na palma de minhas mãos. E eu sentia, em seus olhos brilhantes, o chamado para algo perigoso, mas libertador. O chamado para a verdade.
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  — Você vai, não é? — Ela quebrou o silêncio mais uma vez, e por um momento louco me perguntei se estaria tendo o mesmo sonho. — Se não for, eu vou correr perigo e você vai ficar cego para sempre. Não se preocupe, podemos lutar juntos… Ou morrer juntos…
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  O New York Presbyterian Med Center era o famoso hospital afiliado da Columbia nas imediações de Washington Heights. Seguindo pela Riverside Dr., ficava a meros doze minutos de carro, se saísse rápido do Ferris bem antes da hora do almoço. A porta giratória da entrada abria-se para o imenso salão da recepção, abarrotado de barulhos distintos. O toque incessante dos telefones que não paravam, a caneta que deslizava no papel para preenchimento de novas fichas, o abrir e fechar de gavetas, os passos rápidos contra o piso marrom e escorregadio, o tilintar dos aquecedores ligados, os gritos, céus, principalmente os gritos, vindo de todos os lados.
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  O vento ruidoso soprava regularmente do lado de fora, empurrando-me com a porta para o lado de dentro, fazendo-me sacudir como um cachorro depois de sair da água para tirar toda a neve do meu casaco. Uma mulher baixa de roupa azul de enfermeira passou correndo por mim assim, que coloquei os pés no pequeno caos do ambiente, batendo com os ombros um pouco acima do meu cotovelo, mas ela nem pareceu reparar. Ninguém pareceu reparar em mais um par de pernas que cruzava a entrada.
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  Havia pelo menos cinco pessoas por trás do balcão de mármore circular. Pelo menos três delas estavam ocupadas demais falando ao telefone – um homem, particularmente, gritou para a outra pessoa da linha que eles definitivamente não poderiam enviar uma ambulância para buscar cidadãos perfeitamente saudáveis que ficaram presos no carro pela neve do Brooklyn. Isso não era trabalho deles –, uma outra mulher de meia-idade parecia estar organizando uma tonelada de fichas e a outra, pelo menos quinze anos mais jovem, batia um papo agradável com um policial em horário de almoço, torcendo a ponta do cabelo castanho no indicador, exibindo um sorriso débil e apaixonado.
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  Visto que todas elas me olhariam como se eu fosse mais um incômodo do dia, optei por aquela que eu menos me importaria de interromper.
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  — Com licença… — baixei os olhos para o crachá da moça de cabelo castanho — Srta. Farran.
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  Ela e o policial viraram o rosto para mim ao mesmo tempo, para depois se encararem com certo constrangimento. Ele pigarreou e levantou as costas, ajeitando o cinto de maneira desajeitada e inclinando a cabeça brevemente para me cumprimentar, e fiz o mesmo.
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  — Então… Te vejo mais tarde, Srta. Farran — seu tom de voz baixou ao chamá-la daquela forma e ela acenou, de repente triste, olhando enquanto ele se afastava. Se eu estivesse disposto, tentaria adivinhar que, segundos antes, ele a estava chamando pelo primeiro nome.
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  Afastei o pensamento de que eu havia acabado de estourar uma bela bolha romântica e virei-me para ela.
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  — A sala do Dr. Jean Christensen, por favor.
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  Ela ainda parecia frustrada pela suposta mudança de comportamento do policial, mas deteve o olhar em mim ao ouvir o nome que disse, como se eu tivesse pedido a ela o número da sala do presidente da República.
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  — Desculpe, não…
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  — Tenho hora marcada. .
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  Seu olhar mudou: agora parecia encher-se de ternura e uma tortuosa pena, como se as palavras que saíram da minha boca na verdade fossem: você sabe por que estou aqui, não é? Você sabe perfeitamente por que vim me encontrar com o melhor oncologista do país, não sabe, srta. Farran? Pode se apressar em verificar esse horário, pelo amor de Deus, porque sinto que vou morrer a qualquer instante?
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  Céus, ele é tão jovem…
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  Os dedos dela correram pelo teclado e em seguida recebi um pequeno retângulo de papel com meu nome gravado, colocando-o no lado direito do peito. Ela explicou brevemente a localização, duas vezes, e se eu não a tivesse dispensado da forma mais educada possível, iria começar a terceira. Talvez ela quisesse se certificar de que eu chegasse à sala do doutor, que conseguisse salvar a minha vida.
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  Segui pelo salão até o elevador, que abriu quase que imediatamente antes que eu apertasse o botão. Um aglomerado de pessoas saiu e entrei, apertando o número oito na grande tecla redonda de metal.
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  Quando as portas se abriram, eu nem parecia estar no mesmo lugar da entrada. Daqui de cima, onde o corredor era mais estreito, as paredes extensas completamente de vidro deixavam a luz do dia entrar furiosamente, forçando cada pedacinho de espaço a se iluminar. Era quase impossível não parar, nem por um segundo, para admirar a visão da cidade vista daquele ângulo: o rio Hudson logo abaixo, separando New York de New Jersey, logo mais à frente, com a dupla de prédios altos e espelhados de Fort Lee brilhando em meio às construções batidas. Se o tempo não passasse de uma enorme redoma cinzenta, a paisagem seria de tirar o fôlego.
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  Segui em frente por mais alguns metros, virando à esquerda no final do corredor, entrando em outro com portas dos dois lados. Lembrei-me do número 55 e bati, recebendo um “entre” como resposta.
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  O Dr. Christensen estava sentado atrás de uma mesa muito grande para quem tinha apenas um computador e duas pastas em cima dela. Atrás dele, havia a visão magnífica também do rio Hudson pelas paredes igualmente de vidro. O aquecedor ligado na sala fez o cenário lá fora parecer um mero cartão postal ruim.
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  Ele afastou a cadeira de rodinhas e se levantou prontamente antes que eu terminasse de fechar a porta.
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  — , finalmente. — Sua mão apertou a minha com força. — Estava aqui me perguntando se foi muita indelicadeza de minha parte não mandar ninguém para guiá-lo até aqui.
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  — Imagina, doutor. Os funcionários souberam me explicar bem. — Tão bem como se explica onde fica o banheiro para uma pessoa com diarreia.
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  — Ótimo, ótimo, por favor, sente-se. — Ele apontou para a cadeira presente do lado oposto à sua, com a insistente visão agora apenas das nuvens pálidas lá fora. — Estou há alguns dias admirando o seu histórico, sr. , e ele é brilhante, sem dúvida nenhuma. Um dos melhores que eu vejo desde Ted McDiarmid em 1938, ao menos na área das ciências. Quando o reitor me disse de seu interesse específico na oncologia, fiquei muito curioso. Existe algum motivo peculiar para isso?
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  Ele apoiou os antebraços na mesa e olhou para mim, olhou de verdade para mim, desde que cheguei. Sua pergunta era sincera, mas senti que estava incompleta. Ele queria completá-la com: por que um garoto como você, com um potencial como o seu, com a família que tem, quer se enfiar em pesquisas falidas e rondado pela morte inevitável materializada nos rostos de pacientes que, você sabe, não vamos conseguir salvar. Vamos mandá-los para a quimioterapia e concedê-los mais alguns anos de vida, quem sabe, e você voltará a vê-los de novo, mas tudo acaba do mesmo jeito. Daí vem a parte do inevitável, garoto. Você me entende?
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  Depois de dois segundos de silêncio, suas pupilas se mexeram de um lado a outro, para cima e para baixo, avaliando meu rosto. Talvez ele estivesse pensando que eu havia bebido em alguma festa de fraternidade a noite inteira e acordado na cama de alguém há menos de uma hora da entrevista e corrido pra cá. Deve ter pousado o olhar por alguns segundos a mais na minha mão direita ainda enfaixada pelo meu último ímpeto de herói. Devia estar aguçando o olfato, procurando o cheiro do álcool e do cigarro. Bom, talvez ele os encontrasse, mas nada tinha a ver com festas universitárias.
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  As olheiras também estavam aqui, junto com as roupas amassadas e o cabelo desleixado. De repente, a voz de ecoou no fundo da minha mente: Sempre pensei que o notável aluno número um fosse um cara sério, sofisticado, com gostos elegantes bem diferentes de tatuagens, brincos e x-burguer em bares suspeitos no meio da noite. É incrível como um cérebro brilhante pode habitar em um cara boêmio, delinquente e um tanto esquisito. Eu quase podia ouvir o Dr. Christensen dizendo a mesma coisa.
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  — Acho uma área bastante desafiadora — respondi, finalmente, ajeitando as costas na cadeira confortável. — É passível de se conseguir um destaque nas pesquisas, visto que é uma área bastante aberta a ideias novas.
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  — Ah sim, as ideias novas são importantíssimas, são preciosas, elas podem salvar vidas. Você gosta da ideia de salvar vidas, sr. ?
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  Acredito que a palavra “sim” saiu da minha boca quase que imediatamente, mas a resposta parecia estar há quilômetros de distância. Isso porque um embrulho sinistro tomou conta do meu estômago e os terríveis pensamentos que eu tinha varrido para o fundo da mente antes de passar por aquela porta estavam começando a querer sair de novo, como garras que roçavam nas laterais de minha cabeça, sussurrando de forma grotesca: “Mais uma palavra-chave, . E aí, vai me deixar sair agora? Posso passear mais um pouquinho pela sua sanidade e observar por quanto tempo você aguenta sem fazer nada? Posso? Deixa, vai…”
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  Calem a boca.
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  O conceito de salvar vidas era muito simples, sempre foi. Todo mundo sabia o que significava. A ciência usada para fins militares na guerra foi em nome de salvar vidas. O Orfanato Melbourne estava lá para salvar as pequenas vidas abandonadas em sua porta. Os heróis de séries policiais que eu costumava assistir quando criança – quando a sra. Cusack tomava uma dose do whisky que ela escondia muito bem em algum lugar da cozinha e apagava na mesa logo em seguida –, todos eles, matavam os bandidos no final, vez ou outra de formas bem horrendas para uma criança de quatro anos e eram ovacionados pela população porque estavam salvando vidas. Todos os bons homens da faculdade de Medicina batiam no peito respeitosamente e recitavam o juramento de Hipócrates com uma maior força nas cordas vocais quando se dizia: “guardarei o máximo respeito pela vida humana”, para depois não aceitarem atender as comunidades carentes de graça por pelo menos uma vez na semana.
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  Besteira. Tudo isso era besteira.
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  Tudo não passava de palavras.
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  Salvar vidas nunca passou de um mero conjunto de palavras em justificativas para responsabilizar ações que visavam apenas algum tipo de satisfação pessoal. E eu sempre entendi isso, ou, ao menos, achava que entendia. Sabia perfeitamente os motivos reais que me levaram a prestar o vestibular e estar aqui, agora, do outro lado do país, sentado em frente a um dos médicos mais exclusivos da área, prestes a começar um estágio muito antes que qualquer colega do departamento.
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  E nada tinha a ver com salvar vidas. Porque eu não encarava a morte como a maioria das pessoas encarava.
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  Eu via a morte constantemente. Desde que nasci. Costumava pensar que os fantasmas eram apenas o resquício, a lembrança da morte, seja lá como ela fosse, tudo terminava do mesmo jeito. Porém, ultimamente, tive a certeza clara de que realmente encarei a morte. E conversei com ela, frente a frente, em um cemitério escuro e gelado. E foi como se portas, antes lacradas, se abrissem dentro de mim e uma venda invisível finalmente caísse dos meus olhos, despertando-me para a realidade.
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  A morte, antes uma ocorrência simples, havia se tornado algo complexo. Desconhecido. Imprevisível. Horripilante. E mesmo os estilhaços dela que me espreitavam, até eles, tornaram-se um tanto novos para mim. Tudo que eu conhecia parecia perder o sentido a cada vez que eu refletia sobre o assunto.
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  Então, talvez, o meu sim imediato, como todas as afirmações prontas que eu calculava na mente em quase todas as situações, pode não ter parecido tão firme e sincero. Daquela vez, pela curvatura da sobrancelha e expressão duvidosa do Dr. Christensen, eu via que não. Minha resposta não foi convincente.
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  — Certo, claro. Espero que só tenhamos a ganhar com suas contribuições no nosso centro de pesquisas. — Ele meneou com a cabeça enquanto arrastava a cadeira para trás, levantando-se em seguida. — Então, vamos conhecer o ambiente?
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  Acenei com um meio sorriso, começando a segui-lo para fora da sala, entendendo imediatamente que a intenção daquele encontro jamais havia sido sobre uma entrevista. O Dr. Christensen havia sido intimado, da maneira mais educada possível, a me aceitar assim que recebeu meu formulário. E não que meus pais, ou o reitor, ou todo o corpo docente tenha feito uma ligação amigável para estimular sua decisão sobre mim. Nem se Einstein arrumasse um papel e caneta debaixo da terra e enviasse uma carta em prol de bajular minhas qualidades daria em alguma coisa. Não. Ele simplesmente não podia se dar ao luxo de perder uma grande mente e nada tinha a ver com suas próprias vontades.
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  Se aquele estúpido pedaço de papel não fosse parar na mão de vários professores e profissionais antes que chegassem às dele, o tempo daquela conversa seria ainda mais curto e eu poderia dar adeus a qualquer chance que teria. Porque Jean Christensen não estava interessado em grandes mentes – ele estava interessado em humanidade, ideologias, paixão pela vida e todas essas coisas que com certeza não viu em mim –, mas as pessoas anteriores estavam, e ele já havia chegado ao ponto de por que não ceder um pouco em troca da paz de espírito? Ele não vai aguentar muito tempo mesmo.
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  Em troca, eu não sentia que teria alguma paz.
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  Entramos em outro elevador, onde ele apertou o botão para sairmos apenas um andar acima daquele.
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  O centro de Oncologia consistia em imensos corredores silenciosos, com exceção ao que levava à oncologia pediátrica, que borbulhava de risadas e cores com os voluntários recorrentes que gritavam, dançavam e faziam brincadeiras animadas para crianças que mal tinham fôlego para rir tanto. Em um contraste louco, bem ao lado, estava o corredor de tratamento com quimioterapia, onde tudo era cabisbaixo, triste e desesperançoso. Percebi um olhar furtivo do Dr. Christensen enquanto me apresentava essa ala, como se me desafiasse a encarar a realidade e finalmente saísse correndo, talvez ir de encontro a uma área mais parecida comigo.
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  Por fim, ele entrou em uma sala no fundo do corredor onde havia uma pequena aglomeração de enfermeiros. Ele me apresentou um a um, sem errar ou hesitar nenhum nome e tenho certeza de que não olhou para o crachá de nenhum deles.
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  — Srta. O’Reilly, pode levar o rapaz para a Dra. White dar a última assinatura em seu formulário? Ele começará depois do ano novo.
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  Welker O’Reilly, uma garota pequena de cachos esvoaçantes, sorriu para mim e assentiu para o Dr. Christensen. Ele apenas me lançou um último olhar severo e um sussurro de boas-vindas antes de deixar a sala.
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  A conversa no ambiente retornou assim que ele saiu, me tirando do pedestal de centro das atenções. A garota acenou brevemente para que eu a seguisse também para fora e começamos a caminhar em direção a outro elevador no corredor contrário de onde eu tinha vindo.
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  — Nervoso? — A voz dela surgiu assim que pisamos dentro do elevador e ela apertava o botão para pelo menos três andares abaixo. Ela me lançou um olhar simpático, percebendo rapidamente o quanto eu olhava para os lados.
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  — Ah… Não, só estou tentando me situar.
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  — Você vai aprender rápido depois de uns dias andando de lá pra cá. A propósito, pode me chamar de Wel. Já vi você no departamento algumas vezes.
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  — Claro… — Desviei os olhos, talvez demonstrando sem querer minha total falta de interesse em um dia chamá-la de Wel.
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  O elevador deu um suave solavanco ao começar a descer.
  — Não precisa se preocupar com o Dr. Christensen — ela suspirou. — Ele vai te testar o tempo todo, assim como deve ter feito durante a sua entrevista. Ele só quer ter certeza se você aguenta a pressão.
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  — Eu não diria que esse é o único problema — sibilei, olhando fixamente para a porta dupla, torcendo para que ela se abrisse de uma vez.
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  — Ah, e não é. Ele vai almejar o seu limite, de formas bem sutis até, mas não se desespere. Tudo isso é para mostrá-lo o quanto você quer estar aqui. E espero que eu possa te ajudar de alguma forma.
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  O solavanco que demonstrava a chegada ao andar finalmente aconteceu e a porta dupla se abriu em mais um corredor padrão, desta vez com um fluxo maior de pessoas. Welker saiu na frente, andando rápido, cumprimentando uma ou duas pessoas pelo caminho. Ao fazer uma curva, consegui identificar a placa do centro de gastroenterologia escrita em três línguas diferentes.
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  — Bela escolha geográfica para se ter uma sala… — murmurei, mais uma vez falhando em frear meus pensamentos antes que passassem pelo filtro que levava até a boca. Por sorte, Welker riu com vontade de meu comentário.
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  — A Dra. White não faz parte do centro de Oncologia, mas faz parte do comitê do hospital como o Dr. Christensen, que assina como uma segunda ou terceira pessoa todos os formulários de novos estagiários e residentes que entram por aquela porta. Só de caminhar até a sala dela significa que você conseguiu a sua chance.
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  Levantei as sobrancelhas enquanto ela tagarelou por mais dois minutos até bater em uma porta branca grande, com o nome Roberta White em letras garrafais e um parágrafo inteiro de especializações.
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  A Dra. White era uma mulher baixinha e morena, com os óculos presos na cabeça e o jaleco dobrado até os cotovelos. Ela deu um sorriso simpático para mim e Welker, e falou em seu inglês carregado de sotaque:
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  — Bom dia, Wel, como vai? E você é…
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  — , Dra. — Welker respondeu na minha frente. — Aquele senhor .
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  O rosto da Dra. se iluminou quase que imediatamente e tive vontade de revirar os olhos.
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  — Claro, como eu pude esquecer. Jean havia comentado comigo, mas recebi uma chamada de emergência… — Ela olhou para o relógio de pulso e em seguida colocou a mão no bolso. — Vou pedir para que o senhor entre por um segundo enquanto vou buscar seu formulário na ala administrativa, só vai levar um minuto…
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  — Posso buscar, se a senhora quiser — Welker se prontificou.
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  — Você pode me acompanhar para me ajudar a achar o documento e também pegar mais blocos de receitas que estão totalmente em falta comigo e minha paciente precisa deles. Eu sou péssima para me achar no meio daquela bagunça. Você entende, não é, Wel… — ela dizia enquanto tateava o tórax à procura dos óculos presos em cima da cabeça. Welker prontamente ergueu as mãos e os mostrou à mulher perdida. — Ah, o que eu faria sem você? Entre, por favor, senhor , não vou demorar. Se minha paciente perguntar por mim, diga que fui à ala administrativa por um instante. E preciso achar as chaves do carro…
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  Ela começou a se afastar, entretida em seu monólogo sobre coisas agora que só eram compreensíveis a ela mesma. Welker olhou para mim novamente.
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  — Bom, então é isso. — Ela deu de ombros. — Acho que te vejo depois do ano novo. E também na festa beneficente, espero.
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  — Festa beneficente? — Perguntei confuso.
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  — É, a festa que o reitor está promovendo para as reformas da Columbia. Você com certeza recebeu o convite, não é? Não só você, como sua família, é claro. Eles sempre contribuem muito com a universidade.
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  — É… — Balancei a cabeça, lembrando-me vagamente do e-mail na caixa de entrada com o convite luxuoso para a tal festa que eu estava tão animado para ir quanto para acompanhar minha mãe no espetáculo de Susan Boyle. — Se eu não conseguir achar uma rota de fuga eficiente até lá, pode ser que eu apareça.
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  Tenho certeza de que fui o mais sério possível, mas ela riu calorosamente. Por um segundo, quis explicar que não, não havia a menor chance de eu colocar um smoking e aguentar conversas executivas por horas a fio, nem se meus pais me comprassem a discografia inteira do Led Zeppelin em vinil. Mas o pensamento durou realmente por um segundo.
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  — Você é engraçado, . — Ela passou a mão no cabelo de forma… não natural. — Preciso ir antes que a Dra. perceba que eu sumi. Ela é um pouco desligada às vezes. A gente se vê por aí? — Ela destilou um sorriso convidativo.
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  — Claro, a gente se vê. — Balancei a cabeça e ela se retirou, virando-se no meio do caminho para me dar uma última acenada com as mãos.
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  Suspirei e entrei na sala de consultório da Dra. White inteiramente em tons de branco e azul claro. Havia uma janela imensa também atrás de sua cadeira presidente, esta sendo contemplada com a vista do trânsito da cidade logo abaixo. Duas portas, uma em cada extremidade da parede, estavam fechadas. Sentei-me na cadeira à frente da sua mesa, da mesma forma que na sala do Dr. Christensen, e esperei.
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  Não esperei por muito tempo até que eles voltassem. Comecei a acreditar fielmente que, na verdade, eles nunca iam embora. Reparei no caos instaurado que era a mesa da Dra. White e entre as pastas abertas, canetas espalhadas e post-its colados em qualquer espaço aberto do tampo, havia um retrato de família. Ela sorria ao lado de um cara ruivo e sardento que parecia uma cópia do Domhnall Gleeson e duas crianças no centro; um menino que devia ter seus quatorze anos e segurava um saco de pipoca enquanto os headphones circulavam atrás de sua nuca; a outra era uma menininha que não devia ter mais de seis anos e estava quase escondida atrás de um enorme Mickey de pelúcia vários centímetros mais largo do que ela. Eles sorriam abertamente para mim. A cena pareceu tomar forma em minha mente. Roberta levantando-se cedo de manhã com o marido, arrumando as crianças, cantando músicas felizes no carro, fazendo brincadeiras idiotas e fazendo-se entrar nos brinquedos do parque por uma simples vontade de ver as crianças sorrirem – mesmo que nem todas elas saíssem sorrindo do Expedition Everest.
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  São uma família bonita, não são? Ah, eu sei que são, não dão trabalho nenhum. O garoto é do clube de robótica da escola. A garota tem um forte senso de justiça, será uma grande advogada, juíza até, quem sabe. O pai é engenheiro civil, mas de que importa todas essas realizações, não é mesmo? O importante é que eles se amam e são felizes. Mas de que importa isso também, oras, eles são uma família de verdade! HAHA, ela engravidou muito cedo, sim, muito cedo, mas escolheu ficar com o bebê, ela não o abandonou no topo de uma escadaria em uma cidadezinha do Oregon, não. Por que será que alguém faria uma coisa dessas, ? Se é que podemos te chamar assim, afinal, você nem sabe como recebeu tal nome, não é mesmo? Como seria o sobrenome deles, a casa deles, em que cidade você estaria morando agora, quais amigos teria…
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  Apertei os nós dos dedos com força, balançando a cabeça de forma brutal. Qualquer brecha de silêncio era a mesma coisa. E, por mais que eu acreditasse – que quisesse acreditar – que tudo aquilo estava vindo dele, que não eram pensamentos realmente meus, ao mesmo tempo isso não tinha cabimento. Trinquei os dentes e me odiei mais uma vez por constatar ser eu a pessoa refém de todos aqueles questionamentos, pois eram verdadeiramente meus. Todas aquelas perguntas, suposições, tudo que eu havia tido sucesso em varrer da minha mente por todos aqueles anos agora invadia minha cabeça desvairadamente ao menor sinal de gatilhos, como se me desafiassem a fazer alguma coisa a respeito – como em meu sonho de mais cedo. E eles não desistiriam enquanto eu não fizesse. Eles me enlouqueceriam.
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  Por um momento insano, o rosto da garotinha da foto pareceu sair de trás do Mickey gigante e me lançar um enorme sorriso enquanto dizia: meus sapatos são bonitos, não são? Minha mãe que comprou de aniversário. O que a sua mãe te deu de aniversário? Ah é… – e gargalhou de forma grotesca.
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  Um barulho na sala ao lado despertou-me das alucinações ridículas e me fez levantar. Eu havia me esquecido completamente de que não estaria sozinho na sala.
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  Ouvi um gemido estranho e dei um passo à frente. A princípio, pensei que poderia ser uma idosa. Ela deve ter se cansado de ficar deitada e resolveu se levantar para procurar a Dra. O som agudo de vidro se espatifando no chão me fez abrir a porta em um rompante.
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  — Você está bem…
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  O que era uma garrafa de água mediana agora não passava de restos de cacos espalhados pelo piso ao lado da maca. Foi a primeira coisa que olhei. Ao lado dos cacos, um par de pés descalços apresentou um leve corte na região do dedão. As unhas estavam pintadas de preto. Ela usava uma calça jeans escura com uma faixa branca costurada na lateral, pegando desde a borda até a cintura. Depois, não havia mais roupa alguma. Ela estava sem blusa. E havia algo no abdôme…
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  Perdi a fala por alguns instantes ao notar que não havia idosa alguma.
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  — Ah, meu Deus…
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   puxou um pedaço de pano de algum canto de cima da maca, desviando dos cacos de vidro do chão, cobrindo-se em desespero. Posicionou o tecido bem em cima da protuberância abaixo do seio, usando a outra mão para esconder o decote do sutiã.
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  — O que você pensa que está fazendo? — Ela gritou, mas sua voz tremeu.
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  Em um momento de torpor, continuei olhando-a bem dentro dos olhos, movendo-os novamente para o que ela escondia atrás da blusa. Pareceu que meu cérebro precisava constatar que aquela era real e que algo estranho no ar precisava da minha atenção.
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  — Desculpa, eu não quis, eu… — consegui proferir tais palavras quando as encontrei, mas sua expressão demonstrou que eu só havia a deixado com mais raiva.
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  — Sai daqui!
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  — O vidro, eu escutei, eu não sabia que você estaria aq…
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  — Sai daqui agora!
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  Ela atravessou a sala em um rompante, empurrando-me junto com a porta para fora, fechando-a em um baque surdo. Um soluço preso escapou de sua garganta e uma onda de angústia me tomou ao notar que ela estava chorando, mesmo que o som fosse tão abafado que me fazia ter certeza de que estava escondendo o rosto em alguma parte do corpo.
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  — , não é isso, por favor, você precisa me ouvir… — falei pela porta, não recebendo retorno de imediato. Um pico de desespero vivo me tomou e sumiu imediatamente assim que me preparava para dizer-lhe mais desculpas, qualquer uma que a fizesse falar comigo. E então me lembrei – e entendi.
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  Ela não estava chorando porque o ex parceiro marginalizado, o qual ela acreditava não ter as melhores intenções, havia visto mais do que devia. Que agora iria para casa e poderia sonhar e se masturbar com a visão dos seus seios fartos escapando do sutiã apertado. Que ele esteve tão perto de fazer algo com ela em uma maca de hospital, como o perfeito doente que era…
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  Não.
  O problema não era ter visto mais do que devia, era simplesmente ter visto o que não devia. O que nunca deveria ser visto. Poderia apostar meu carro que nem sabia o que estava rolando embaixo daquele tecido. Aquela cicatriz…
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  A linha grossa em alto relevo que começava no esterno e descia até curvar o meio de sua barriga, continuando o trajeto até o início das costelas. Uma cicatriz enorme, mal curada, um lembrete descomunal de algo grande, silencioso, eu tinha certeza. Uma marca que poderia contar tantas coisas, revelar tantos segredos – e onde eu havia visto uma igual daquele jeito mesmo…? – que por um momento tive de me controlar para não abrir a porta de novo.
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  Eu havia visto o segredo. Era por isso.
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  Respirei fundo, quantas vezes precisei, para deixar a visão de lado e falar o mais calmamente possível:
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  — , eu não sabia — falei em um quase sussurro, com o cotovelo apoiado na parede ao lado, torcendo tanto que ela me respondesse que apertava o meu peito. — Eu não fazia ideia, está tudo bem…
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  O choro sufocante começou a cessar rápido, como se ela concentrasse todas as forças em expulsar as lágrimas, forçando os sentimentos a saírem por bem ou por mal.
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  — Cadê a doutora White? — ela respondeu com a voz mais perto do que imaginei. Deveria estar na mesma posição, colada à porta, sem conseguir me encarar.
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  — Ela foi até a ala administrativa pegar alguns documentos, não deve demorar. Por que você…
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  A porta se abriu antes que eu terminasse e ela estava completamente vestida, da cabeça aos pés. Ela passou direto por mim, sem ao menos olhar para os lados, em direção à porta.
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  —
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  — Diga a ela que tive um compromisso e que vou remarcar o exame.
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  — Não, espera! — Atravessei o ladrilho a passos largos até chegar a ela, antes que alcançasse a porta. Seu rosto estava tenso, alarmado de tantas maneiras; os olhos vermelhos pelas lágrimas sufocadas não conseguiam focar nos meus, o maxilar estava trincado para não deixar nenhum soluço ou sequer qualquer nuance de choro. Ela nem parecia respirar direito. — Não precisa sair, eu saio. O que temos a resolver não é tão urgente, posso esperar uma próxima oportunidade.
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  Comecei a me virar para pegar a mochila largada na cadeira em frente à mesa bagunçada, quando ela finalmente me encarou. Um silêncio pesado e opressivo se instaurou enquanto olhei naqueles olhos, que pareciam gritar alguma coisa para mim, alguma coisa desesperada. Eles rolaram pelo meu rosto, me avaliando, e sua expressão relaxou. O queixo cedeu e sua boca saiu da linha fina de tensão, o lábio tremeu. Ela queria dizer algo, mas não conseguia, pensava demais. As poças de água vieram e eu entendi o que aquele olhar afogado estava gritando:
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  “Por favor, não pergunta nada. Não me questione sobre o que acabou de ver, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, por favor, . Só esquece que me viu aqui. Pode perguntar a ela se quiser, mas não faça eu falar, não faça com que eu relembre. Só isso, é só isso que eu peço…”
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  Balancei a cabeça de leve sem perceber, no automático, e ela retribuiu em uma espécie de conversa silenciosa bizarra e saiu da sala, deixando-me absorto em um mar de possibilidades e dúvidas.
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  Uma onda violenta de perguntas engolfou minha mente como um tsunami. Flashbacks terríveis da noite escura na presença da morte misturadas com meu sonho claro e vívido com de mais cedo pareciam dançar na minha frente, pedindo-me para ligar alguma coisa, qualquer coisa, e que após fazer isso, bem, que eu fizesse alguma coisa. Que eu perguntasse a ela. Que eu perguntasse à cicatriz.
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  Afinal, quer ver a cicatriz ou outra coisa, hein, ? Eles eram bonitos, pode admitir, você queria vê-los de novo, não é mesmo, senhor
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  — Senhor ? — Em um puxão da realidade, a doutora White estava parada à minha frente, com um ligeiro olhar preocupado. — Está tudo bem?
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  — Sim… Sim, estou — respondi automaticamente, rebocando todo o resto de consciência que havia fugido para outro lugar depois que deixou a sala.
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  — O seu formulário está bem aqui, pode levar para casa e apresentá-lo de novo ao Dr. Christensen depois do ano novo. Preciso avisar a minha paciente…
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  — … A sua paciente precisou sair. — Ela dobrou as sobrancelhas, confusa. — Ela disse que tinha um compromisso e que vai remarcar a consulta.
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  A doutora permaneceu com a expressão confusa, adicionando um sentimento de desolação ao andar até sua mesa e começar a escavar alguns papéis.
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  — Que estranho. Ela não é do tipo que desmarca uma consulta em cima da hora, ainda mais nos dias de elastografia. Deve ter acontecido algo muito grave…
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  — Elastografia? — Perguntei. — O que ela tem?
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  — Para que serve um exame de elastografia hepática, senhor ? — Ela perguntou e senti sua intenção de me mostrar o início do estágio.
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  — Para detectar sinais de rigidez do fígado, como nos casos de cirrose e hepatite, e uma bióp… — Olhei para ela, sentindo minha garganta fechar.
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  Ela deu um sorriso complacente, uma professora avaliando seu aluno.
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  — Muito bem, vemos que você está pronto para responder qualquer coisa — ela disse, sentando-se na cadeira. — E não, a paciente não se enquadra em seus exemplos, mas como você ainda não é parte oficial da equipe, sinto ter de não passar mais informações.
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  — Mas ela está bem? O que ela está sentindo? — As perguntas saíram com pressa e ansiosas, e a doutora levantou os olhos da papelada, me encarando com curiosidade.
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  — Gostaria muito de respondê-lo, senhor , mas ela também não me informou de forma clara. Apenas disse que não estava se sentindo bem e marcou a consulta. Ela sempre foi muito pontual e passa bastante por aqui. Depois do acidente, a rotina ficou mais assídua e…
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  — Acidente? — A interrompi automaticamente, um embrulho estranho tomando conta do meu estômago. — Que acidente?
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  — Precisa cursar novamente a disciplina de Ética Médica, ? Soube que passou com a nota máxima.
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  Ela me encarou novamente, desta vez com as sobrancelhas levantadas, como se gritassem claramente “Você tem algum problema auditivo, meu jovem?”.
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  Para minha sorte – ou não –, um bip intenso começou a tocar em seu bolso, fazendo-a se levantar apressada.
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  — Tenho uma emergência, , então acredito que não temos mais nada a resolver, por enquanto. — Ela deu um leve sorriso de canto enquanto abria a porta para mim. — Depois do ano novo, eu garanto que você irá descobrir todas as respostas para as suas perguntas.
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  Acenei, ainda absorto com as dúvidas de um segundo atrás, deixando a sala com apenas um único ponto de certeza de que eu não poderia esperar até o ano novo.
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  — Você quer o quê? — trincou os dentes e olhou automaticamente para os lados, preocupado se as paredes realmente tinham ouvidos, pois não havia ninguém por perto.
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  — Você quer mesmo que eu repita? — Revirei os olhos, folheando mais uma página de um glossário de anatomia qualquer. Do outro lado da prateleira, pude ouvir ele bufando.
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  — Por que quer esse tipo de informação sobre a ? Achei que nosso assunto era a Elena.
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  — As duas coisas fazem um pouco de sentido, acredita em mim.
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  — Então por que não pergunta a ela?
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  Mordi o lábio inferior, pensando em alguma resposta que fosse coerente o bastante para não atrair mais perguntas. Não olhei para trás, mas pude sentir seus olhos vagos em minhas costas, olhando através dos livros da seção de Medicina e Saúde da Butler, que costumava ser movimentada, se não fosse a neve caindo violentamente do lado de fora.
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  — Não é o tipo de pergunta que eu faria a ela — respondi em voz baixa. pareceu trocar de livro.
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  — Afinal, você tem feito alguma pergunta a ela? Ainda estão nessa de não se falar?
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  Não respondi. Ele suspirou.
  — Vou falar com Maverick.
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  — Quem?
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  — Alguém muito útil com computadores, você vai gostar. E nem pense em me perguntar seu nome verdadeiro.
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  Fechei o livro no capítulo de ossos do crânio e coloquei-o de volta na prateleira. Comecei a virar para caminhar para fora do corredor, quando ele disse, um pouco mais alto e mais firme:
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  — Com uma condição.
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  Parei e olhei para ele pela primeira vez desde que a conversa discreta entre nossas costas havia começado. Ele não se virou e sua cabeça estava abaixada, ainda folheando um livro, o característico boné escuro escondendo metade do rosto.
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  Esperei.
  — Vai atrás da .
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  — Não — respondi de imediato. Ele enrijeceu os ombros, mas não se mexeu.
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  — Não vamos conseguir sem ela, precisamos…
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  — Não precisamos dela, posso conseguir as informações sobre Margot sozinho, já fiz isso antes…
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  — Mas qual é a porra do seu problema? — Ele fechou o livro com certa brutalidade, virando-se para mim o mais rápido que conseguiu por causa das muletas. Seus olhos por entre os livros da prateleira vizinha pareciam assustadores por debaixo do boné. — quer descobrir tanto quanto nós quem matou a Elena, mesmo que nossos motivos sejam completamente diferentes, e você, doutor, sabe bem que unir forças nesse momento não é lá uma estratégia de se descartar. Então posso saber por que ainda continuo ouvindo seu maldito não?
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  Balancei a cabeça, respirando fundo, um amontoado de palavras dançando em minha mente, esperando para serem corretamente selecionadas e lhe dar uma resposta convincente.
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  — Eu não quero envolvê-la nisso — respondi, quase em um fio de voz. Ele juntou as sobrancelhas, estudando meu rosto. — Você sabe o estado da Elena. Ela não está medindo forças, ela pode aparecer a qualquer momento e…
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  — É, mas eu sou o único alvo dela, não é? No fim das contas, eu sou a prioridade para bater as botas, então ainda posso salvar o dia caso ela resolva fazer alguma coisa. Eu sou o mártir aqui, entendeu? Você não tem que se preocupar com a .
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  — Não é isso…
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  — Então o que é? Por acaso ela quer fazer um rodízio de vítimas? Ela convidou mais um dos seus camaradas para o banquete? — Ele abriu um sorriso brincalhão e não retribuí.
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  Desviei os olhos, mas a tensão instaurada foi palpável. parou de sorrir. Suas sobrancelhas baixaram e seu lábio tremeu levemente, exibindo todos os sinais de uma ligeira agitação interior.
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  — Tem mais um. — Não era uma pergunta.
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  Recostei-me na prateleira atrás de mim, baixando os olhos, pensando seriamente em girar os pés e sair da Butler sem dizer nada. não correria atrás de mim, nem podia. Ele talvez me ligaria, mas eu não iria atender. Ele tentaria se encontrar comigo de novo, mesmo que fosse daquele jeito isolado, como da primeira vez que ele me chamou, mas eu daria um jeito (mais eficiente) de fugir.
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  Contudo, em meu íntimo, eu sentia que nada daquilo adiantava de alguma coisa. Que mantê-lo à luz da ignorância da situação, de uma que especialmente o envolvia, não ajudaria em nada. Seria como se ele estivesse estudando apenas metade do conteúdo de uma prova importante e eu não tivesse a bondade de ceder-lhe o resto. O resultado estava claro apenas para mim.
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  — Ele está atrás dela? — Perguntou ele, depois de um tempo, e balancei a cabeça lentamente em resposta. Ele olhou para cima e para baixo, aleatoriamente, e percebi a confusão mental em que se encontrava, as perguntas que se aglomeravam na fila. — Minha nossa… O que está acontecendo, ? O que não está me contando?
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  — Você só precisa saber que Elena não está agindo desse jeito sozinha. Digo… ela está sendo controlada. Esse cara, ele colocou coisas na cabeça dela, contendo suas verdadeiras lembranças, ele…
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  — Cara? Que cara?
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  — Eu não sei quem ele é. Não é um dos fantasmas que estou acostumado a lidar, tá bom? Ele tem anos, talvez décadas de ódio para destilar em cima de e está usando Elena para isso. Então, infelizmente, por mais que Margot ajude a desvendar quem matou Elena, não acho que ela seria capaz de ir, não desse jeito…
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  — Espera aí, tá me dizendo que estamos correndo em círculos? Que não vamos chegar a lugar algum? — Ele aproximou o rosto da prateleira, a expressão compenetrada como um falcão. — Que Elena está jogando dardos no meu rosto em algum pub do além por causa de um maldito cadáver filho da puta que está atrás de ?
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  Engoli em seco e ele confirmou em meu olhar. Quis explicar que não era bem daquele jeito, mas sentia que teria a incrível capacidade de pegar todas as mentiras do mundo no ar, mesmo as minhas.
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  Ele ficou em silêncio, parecendo estudar a situação como um todo.
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  — Então Elena não acredita de verdade que eu a matei… — ele murmurou aéreo, perdido.
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  — Escuta, . Eu sei o que parece, mas você não precisa se envolver nessa parte. Eu posso resolver sozinho.
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  — Vai enfrentar uma assombração dessas sozinho? Tem certeza? — Ele me cortou, ainda sem olhar para mim, concentrado em seus próprios pensamentos. — Você é um idiota. — Ele levantou os olhos para mim. — Sei que pode ser um tanto irritante e egocêntrica, mas o que raios ela fez para acabar nessa situação?
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  — Eu não sei — respondi em meu tom mais sincero e verdadeiro. — Eu realmente não sei…
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  — E ainda não quer falar com ela? — Sua risada saiu nervosa, áspera. — Eu pensava que você fosse mais inteligente.
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  — O que você quer que eu faça? — Respondi entredentes, em um tom rude que foi automático. — Se eu me aproximar dela e continuar a investigação de Elena, ele vai estar mais perto de matá-la, e a mim também, e então todo o esforço de ajudá-la vai pro ralo, e duvido muito que você encontre outro lunático que dê bom dia para os mortos que não esteja em um manicômio o mais rápido possível a tempo de salvar o seu rabo!
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  Bufei e ajeitei a mochila enquanto ele riu de forma seca e curta, impressionado com meu súbito nervosismo.
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  — E desde quando é inteligente ficar longe da garota em perigo? — Ele meneou com a cabeça, inclinando-a levemente para o lado, estudando-me novamente. Um pico de raiva atravessou o meu corpo ao ver aquela expressão. — É o seguinte, , você está certo, eu me preocupo com meu rabo e vou atrás da solução que vai me fazer não virar comida de fantasma, mas se Elena estivesse viva e na mira de um psicopata louco como esse, eu não o perdoaria, entendeu? Acredite se quiser. Mas ela já está morta e não posso fazer muita coisa a não ser ajudá-la a ter um pouco de paz. Porém está viva e andando por aí sem saber de nada, então não me venha com essa de não a meter na história para protegê-la, você não passa de um covarde! — Sua voz saiu abafada, despida de arrogância, porém afiada como uma espada. — Seja lá quem for esse filho da puta, você só vai entregá-la de bandeja a ele ficando longe sob essa desculpa esfarrapada. Mantenho minha exigência: corra atrás do prejuízo e continue a investigação de Margot, repito, com a ! Ele pode te matar? Que seja, então ficamos os dois na mira dos mortos, mas não recue do que você acha certo a se fazer. Se quer dar um jeito no bastardo, comece mostrando que não tem medo.
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  Ele me encarou com um olhar firme e frio, quase autoritário. Pareceu pelo menos dez anos mais velho do que era, e senti minha raiva se dissipando, dando lugar a um sentimento de confiança mútua. Confiança? Céus, o que estava acontecendo aqui…
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  Uma vibração perfeitamente audível soou entre nós graças ao silêncio morto da biblioteca. tateou os bolsos da frente e apenas olhou para o visor, desligando o telefone logo em seguida.
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  — Preciso ir, doutor. Tenho negócios a resolver. — Ele juntou uma das muletas embaixo do braço e andou até o corredor bem mais rápido do que antes; ele andava se recuperando bem. — Vou falar com Maverick e providenciar o dossiê completo da .
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  — Tudo bem… — assenti com alívio.
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  — Nossa conversa ainda não acabou. Você ainda tem muitas coisas para me contar. Eu sei, eu também, mas agora, por Deus, preciso fumar… — Ele começou a caminhar lentamente para a entrada, mas parou de repente e virou o rosto ligeiramente em perfil. — Você está com medo, não está?
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  Não respondi. Mas sim, eu estava. Ele sabia.
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  Estou apavorado.
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  Eu estava pronto para ser preso caso tudo desse errado.
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  Estacionei do outro lado da rua, em frente à casa que parecia já conhecer tão bem. Os muros que a ladeavam deviam ter no máximo três metros e o portão de ferro da frente descansava no meio de dois enormes pinheiros, decorados com as mais variadas luzes de Natal. Além do portão, existia um caminho de pedras e madeira que chegavam até um pequeno lance de escadas que levavam à porta da frente – a qual não pretendia usar.
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  Fechei o carro com cuidado, usando a visão periférica para me assegurar de que não havia ninguém à espreita. O vento gelado da meia noite cortava minha pele e envolvi a cabeça com o capuz a fim de quebrar um pouco a força dele, pelo menos até que eu obtivesse êxito em entrar.
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  Dei a volta na casa, medindo as grades mentalmente e praguejando em silêncio por não ter atendido a nenhuma de minhas ligações de mais cedo, como se soubesse que era eu, mesmo sob número diferente. Não foi difícil apoiar os pés nas falhas dos tijolos, mas a neve parecia ter deixado tudo mais escorregadio. A queda do outro lado foi dolorosa e nada graciosa. Ajeitei o capuz e ergui o olhar para cima. Eu estava ciente da porcentagem alta de possíveis câmeras de vigilância, mas não esperei para ver o jardim se encher de seguranças ou mordomos desesperados com lanternas. Esperava que, depois de hoje, desse um jeito de apagar os rastros de qualquer resquício da minha entrada clandestina.
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  Andei sorrateiramente por entre os pinheiros, com minhas botas deixando pegadas na grama salpicada de neve. Olhei novamente para cima. Havia uma porta dupla de vidro que dava acesso à uma sacada no segundo andar. Era uma das únicas luzes que estavam acesas na casa. Se não fosse o quarto dela, eu teria problemas mais do que desagradáveis.
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  Uma outra árvore, de tronco grosso e áspero, repousava imponente em frente à porta, fazendo sombra em sua varanda. A ideia de escalá-la não era convidativa, visto que eu não podia garantir que não fosse cair feio e fazer qualquer barulho que chamasse ainda mais atenção do que as possíveis câmeras de segurança. Também não podia repetir o clichê de tentar acertar sua janela com algumas pedras porque isso também faria um barulho desnecessário que igualmente seria um convite à polícia. Preferi manter a opção arriscada e vergonhosa de me equilibrar no galho longo e espesso, que servia como uma passarela até sua varanda, e respirei fundo.
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  Pousei no chão, procurando fazer o mínimo de barulho. Encostei na parede de concreto, fazendo o máximo possível para que a luz não captasse minha sombra.
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  Uma música baixinha tocava ao fundo e reconheci o saxofone de Lester Young. Dei uma espiada o mais discretamente que consegui através do vidro.
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  O quarto amplo era do tamanho da minha sala e cozinha juntas. Havia uma cama de casal no centro, com uma cabeceira provençal branco giz, o que combinava com os lençóis e os outros móveis. O piso era um porcelanato esmaltado branco que eu havia visto uma vez em uma revista de arquitetura. Os demais móveis estavam espalhados organizadamente pelo quarto, limpos e bem arrumados.
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  Não demorei a ver a silhueta de , que estava ajoelhada de costas para a porta da sacada, mexendo em alguma coisa no baú ao pé da cama. Ela cantarolava o ritmo da música, os cabelos soltos e molhados recém saídos do banho.
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  Respirei uma última vez. Repassei mentalmente minha conversa com de mais cedo. Lembrei-me da conversa curta, porém um tanto frustrante com Elena no cemitério. O que tiver de ser, será. Prostei-me em frente à porta e bati.
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  Vi seus braços tremerem de susto quando se virou, seu semblante completamente espantado. Mas ao se levantar e correr até a porta, parecia mais com raiva.
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  — É sério isso, ? — Ela puxou a gola da minha camisa para dentro, olhando para baixo e para os lados, verificando se alguém poderia estar espiando. — O que você pensa que está fazendo? Achei que estava claro que eu não quero falar com você.
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  — Exatamente por isso eu estou aqui! A gente precisa conversar.
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  — Não temos mais nada pra conversar. Ainda mais aqui…
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  Ela bufou, mas seus olhos varreram o quarto enquanto ela pensava em uma forma de me mandar embora. Não estava assustada por ter o espaço invadido, muito menos por ser eu a pessoa que fez, ela parecia com medo. Medo do assunto que eu queria tratar, medo que fosse sobre o que eu vira mais cedo.
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  — Eu garanto que você vai gostar do que eu vou dizer. É sobre Elena.
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  Ela endireitou-se, as orelhas empinando como antenas. Apesar da insegurança no olhar, ela gesticulou para que eu continuasse.
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  — Conhece Margot Pires?
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  — Margot… — Suas sobrancelhas se juntaram e voltaram ao normal após ela se lembrar. — A colega de quarto da Elena. Ela faz Arquitetura.
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  — Precisamos falar com ela.
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  — A polícia já falou com ela. — deu de ombros e parecia querer encurtar o assunto o máximo que podia para me mandar embora. — Isso é alguma desculpa sua pra invadir minha casa no meio da noite? Estou louca pra saber quais são suas intenções.
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  — , me escuta. — Me aproximei dela, o que a fez dar um passo para trás.
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  Fiquei em silêncio, sentindo uma pontada forte de culpa e me sentindo o maior idiota do mundo por não ter corrido atrás dela para explicar as coisas depois da Butler. Ou por ter visto sua cicatriz de forma tão inesperada e não ter lhe passado toda a segurança possível de que não havia problema algum naquilo, mesmo que eu não soubesse de nada.
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  Ela te acha um maluco, HAHA. Ela acha que você é um pervertido, ou ela PENSA que acha. É difícil saber o que ela sente, sabe, garoto? Ela não sabe mentir, mas é bem confusa às vezes. Ela se força a sentir tantas coisas que às vezes se perde no que sente de verdade. Você entende, não é? Afinal, você faz o mesmo…
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  — Ok, me desculpa! Eu errei ao te tratar daquela forma na Butler, eu não sei o que me deu, eu… — Respirei fundo. — Talvez realmente tenha tido mesmo um sonho com você. E quanto a hoje, eu juro, eu não sabia que você estava lá, eu não fazia ideia de nada… Nada disso.
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   corou de forma atenuante. Ela mal conseguia me olhar. Eu tinha a capacidade de mentir naturalmente, mas aquilo havia a pegado de jeito. Ela pareceu ter parado na parte do sonho que eu aparentemente tivera com ela.
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  Começar a repará-la não ajudou muito. A luz amarelada do abajur era tênue, mal iluminava as outras partes do quarto. Ela deveria estar se aprontando para dormir. Usava uma camisola vinho vários centímetros acima do joelho. Eu podia ver a curva de seu quadril, o decote aberto que deixava seus seios à mostra bastante convidativos. A maldita voz em minha mente pareceu voltar explodindo em risadas enquanto me mostrava a lembrança do desenho de seu decote de mais cedo. A vontade que tive de vê-los foi absurda.
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  Ela sabia que eu estava olhando. Eu não conseguia evitar. Talvez toda a preocupação de ser visto ao chegar ali e tentar acalmá-la para que não chamasse a polícia não me deixaram reparar nela direito. Eu estava extasiado por dentro.
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  — Você… sonhou mesmo comigo? — Ela disse em um fio de voz. Ainda estava afastada de mim, mas já conseguia me encarar, mesmo que ainda estivesse corada.
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  — É, parece que sim — minha voz saiu rouca e eu tentava estupidamente tirar meus olhos do corpo dela.
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  Ela mordeu o lábio inferior, desviando os olhos de novo. Uma avalanche de tesão me atingiu sem mais nem menos. À luz baixa, naquela roupa, o jazz baixinho ao fundo e com aquela expressão, ela pareceu estar virando minha mente de cabeça pra baixo e de repente me esqueci do que estava fazendo ali. Ela olhou nos meus olhos de novo e tinha alguma coisa dessa vez, algo inesperado – ela podia não se lembrar daquele dia, mas uma faísca em seu olhar me mostrou que ela também poderia ter “sonhado”. E estava curiosa, mesmo que tentasse afogar esse pensamento a todo custo.
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  Posso apostar que me descontrolaria ali mesmo se ninguém batesse na porta naquele momento.
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  — Srta. ! — Disse uma voz feminina.
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   imediatamente acordou do que quer que estava acontecendo naquele momento e puxou meu braço para o outro lado do quarto, me empurrando para um outro cômodo.
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  — Fica quieto e não sai daqui — ela sussurrou, fechando a porta.
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  A luz da lua entrando pela janela me mostrou que eu estava no banheiro. Com o mesmo piso branco do quarto, o espaço parecia estranhamente mergulhado em um tom de azul. Pude sentir o cheiro dela por todo lugar e algumas gotículas de água ainda brilhando no vidro mostravam o banho recente, o que me trouxe imagens absurdas dela nua no chuveiro. Mas o que estava acontecendo comigo?
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  — Com quem estava falando, querida? — Perguntou a voz de antes. Parecia uma mulher de meia idade.
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  — Com ninguém, Susan — respondeu , naturalmente. — Estava cantarolando só.
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  — Aqui, seus imunossupressores. — Ouvi algo como o barulho da retirada de uma tampa. — Quase se esqueceu de tomá-los de novo.
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  — Você jamais me deixaria esquecer.
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  Depois de mais alguns barulhos desconexos, ouvi Susan falar novamente:
  — Sua mãe levou mais dois vinhos da adega para o quarto. Ela deve estar tendo uma noite daquelas.
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  — Eu imagino que sim. Mas ela jamais diria, não é?
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  — Infelizmente, quando o assunto é seu irmão…
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  — O assunto não foi meu irmão, Susan. Ludie apenas fez seu trabalho e a informou sobre a volta de . Mas e eram… — parou e ouvi um suspiro. — Enfim. Ela tem dificuldade com coisas ligadas a ele.
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  — Mas a senhorita também não se perturbou com a notícia?
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  Silêncio e depois mais barulhos incoerentes. parecia estar andando pelo quarto.
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  — Isso já faz muito tempo — ela disse tão baixo que mal a ouvi, mas pude sentir o tom cortante em sua voz. Ela havia encerrado o assunto.
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  — Certo, certo, eu fui indelicada. A senhorita não tem de passar por isso de novo. Eu só queria vê-la feliz… Você e sua mãe. Como nos velhos tempos.
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  — É claro, Susan. Eu agradeço muito a sua preocupação. Agora, se não se importa, preciso dormir, tenho que chegar cedo ao jornal.
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  — Tudo bem, claro. — Os passos da mulher se distanciaram, mas pararam novamente. — Tem certeza de que não quer que Ludie te leve?
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  — Tenho sim. Vá descansar, Susan, já passou da sua hora.
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  Mais um burburinho e a porta da frente abriu e fechou. Ainda levou um tempo até abrir a porta do banheiro de novo.
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  — Você tem dez minutos, — ela disse, voltando ao centro do quarto.
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  Algo em mim se remexia de curiosidade para perguntar sobre absolutamente tudo que eu havia escutado e sentia que ela imaginava isso. O impulso de querer saber mais sobre ela estava ali, presente, mas eu não conseguia avançar. Tinha medo de chegar perto demais, de querer saber mais e não querer mais ir embora.
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  Ela imaginava que eu havia escutado a conversa e talvez esperasse que eu perguntasse alguma coisa. Parecia ter as respostas na ponta da língua e algo me dizia que todas elas seriam derivações da frase “não é da sua conta”.
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  — Temos que falar com a Margot. E — levantei o dedo assim que ela abriu a boca para falar — realmente discretos dessa vez.
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  — Por que a Margot? Ela é uma garota normal, não tem nada de suspeito nela além das tatuagens e os piercings. Vamos perder tempo.
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  — Confia em mim. Tenho motivos para acreditar que ela pode estar escondendo alguma coisa. ‘Tô dizendo, precisamos falar com ela. Não como em um interrogatório, mas de forma natural. E precisamos do depoimento que ela deu à polícia, você sabe um jeito de conseguir?
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   me encarou por quase um minuto inteiro antes de colocar o rosto entre as mãos, com os pensamentos voando longe. Ela parecia estar em um dilema, caminhando em semi círculos pelo quarto.
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  — Eu tenho o depoimento dela — disse ela quando parou.
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  — O quê?
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   não respondeu. Em vez disso, voltou-se para uma cômoda branca próximo à porta da varanda e abriu a última gaveta. Tirou de lá o que parecia ser um livro muito grosso e pesado, cheio de marcadores coloridos de post its.
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  — O que é isso? — Perguntei assim que ela se virou novamente pra mim.
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  — Tudo que eu tenho sobre o caso da Elena. — Ela estendeu o livro pra mim.
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  Não consegui controlar meu choque ao ver o conteúdo do livro. Ali estava a vida de Elena Victor, desde a infância até sua morte no dormitório; a profissão de seus pais e seu sobrenome de renome na Virgínia; também havia informações sobre todas as pessoas com quem ela mais interagia, até seus professores e colegas de trabalho.
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  — , o que é isso? — Repeti a pergunta, dessa vez trincando os dentes.
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  — Eu te disse que iria investigar — respondeu ela, com um certo temor nos olhos. — Eu venho juntando isso desde que te deixei na enfermaria do campus. É tudo que eu tenho, mas não ajuda em muita coisa. E nem preciso te dizer como ninguém deve saber disso, . Eu estou confiando em você.
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  Ouvi-la dizer aquilo me deixou surpreendentemente mais tranquilo. O que eu menos queria era vê-la se envolvendo no caso de Elena sozinha como estava fazendo, o que era muito perigoso. Não que ela soubesse do quanto.
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  Concordei com a cabeça. Ela pegou o livro de volta e sentou-se no chão, ao pé do baú. Eu me sentei ao seu lado enquanto ela folheava as páginas à procura de algo.
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  — Aqui. — Ela apontou para um documento escrito à mão, em letra cursiva, garranchada. — O depoimento que Margot deu à polícia no dia doze de novembro.
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  — Você consegue ler isso?
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  — Eu digitalizei esse documento. E te garanto que, de longe, ele é o mais sem graça e menos suspeito de todos, mesmo vindo da pessoa que encontrou o corpo e chamou a polícia. — Ela pegou a folha amarelada. — Margot chegou tarde no dormitório na noite do dia 11, o registro de entrada e saída comprovaram isso. Ela disse que encontrou Elena aparentemente dormindo e saiu logo em seguida, aparecendo muito cedo no outro dia na sua aula, o que os professores e demais colegas também confirmam. Ela não dormiu no quarto na noite do dia 11, quando Elena supostamente cometeu o suicídio, estava ocupada no seu emprego noturno em um pub no Bronx.
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  O eco da voz de Elena ressoou de leve com a lembrança: “Eu não me lembro… Ela tinha um emprego…”
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  — E alguém confirmou esse emprego? — perguntei, e mordiscou o lábio.
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  — Bem, se quer saber, ela estava tão perturbada que eles não acharam necessário fazer isso. Como eu disse, ela é de longe a menos suspeita. A polícia arquivou o caso como suicídio no mesmo dia, não havia mais indícios.
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  Assenti, encostando a cabeça no colchão acima.
  — Você sabe o nome desse pub?
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  — Sei, mas… , sério, você precisa me contar por que quer tanto assim falar com a Margot.
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  — Já disse pra confiar em mim.
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  — Eu estou confiando em você nesse exato momento. Eu só estou te pedindo a mesma coisa.
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  Desviei os olhos. Eu não podia contar sobre . transformaria aquilo em algum tipo de caçada pessoal e seu foco poderia mudar – o que era exatamente o que ele queria. Ou ela estenderia seu campo de suspeitos. Ou pior, teria de contar como havia sido aquele fatídico encontro – e consequentemente, isso envolvia o meu segredo. Precisava que ela me ajudasse sem, ao mesmo tempo, se envolver tanto. Eu só não sabia como.
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  — Conheci uma pessoa que tem motivos para desconfiar dela.
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  — Que pessoa?
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  — Eu realmente não posso te contar.
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  —
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  — Por favor, . — me aproximei dela, passando os dedos entre os cabelos, procurando uma boa e convincente desculpa. — Sei que não mereço te pedir isso, mas, só dessa vez, confia em mim sem fazer muitas perguntas. Nem que seja pela última vez.
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  Ela me encarou com os olhos brilhando, as pupilas levemente se dilatando. Sensações estranhas quiseram me tomar mais uma vez, mas me controlei. Não percebi que minha perna encostava em seu joelho, que eu havia me aproximado demais de seu nariz.
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  Ela acenou de leve com a cabeça, mas eu mal sabia o que estava ocorrendo. Ela estava perto demais. Eu sentia o cheiro de seu cabelo, a respiração entrecortada que escapava do silvo de sua boca. Vi em seus olhos que ela retornava ao sonho estranho do beijo e se controlava para não se deixar levar.
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  Um som estranho esganiçado começou no canto do quarto, fazendo com que nós dois pulássemos de susto. Em cima de um pequeno móvel branco estava uma velha vitrola, da onde vinha o jazz que inundava o ambiente. correu até ele e tirou o palito de cima do disco, que parou de repetir a mesma nota. Ela suspirou tristonha.
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  — Algum problema? — Perguntei, me aproximando dela e do aparelho.
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  — Não… Quer dizer, não sei. — Ela passou a ponta dos dedos por trás da vitrola. — Ela anda dando defeito ultimamente. Já tentei consertá-la, mas nada adianta. As pessoas sempre dizem que não há nada de errado com ela, mas ela está assim.
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  — Ela parece bem antiga — comentei, observando o objeto dourado polido, reluzente e impetuoso em cima do móvel.
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  — Era do meu pai — disse ela, os olhos brilhando ao admirar o objeto. — E foi do meu avô antes dele, e do meu bisavô e etc. Agora deveria ser do … — ela murmurou em um tom quase ininteligível, perdendo o brilho de antes. Ela rapidamente se recuperou, sem deixar quase nenhum vestígio do quanto o objeto a afetava. — Vou tentar com outro disco.
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  Ela virou-se rapidamente para o outro lado do quarto, seguindo para uma prateleira nos fundos, quase ao lado do banheiro. Ela estava repleta de discos de vinil, dos mais variados artistas dos anos 50 e 60. Aquilo me levou brevemente de volta para casa, dos discos da minha mãe e o jazz enchendo a sala junto ao cheiro do charuto do meu pai.
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  Voltei meu olhar para a vitrola. Aparentemente, não havia nada de errado com ela. Não que eu entendesse de vitrolas, minha mãe se contentava em tocar seus discos em uma versão mais moderna do aparelho. Aquele de parecia realmente emprestado de Irene Dunne em Penny Serenade.
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  Antes de acontecer o que de fato aconteceu, eu não havia sentido nada. Digo, eu tinha sentido, mas não soube identificá-lo. Parecia uma brisa, um fio de vento que dançava pelo quarto, tocando minhas mãos, rosto, nuca. Apesar de parecer um delgado pedaço de ar facilmente imperceptível, ele era pesado, espesso, não de forma sufocante, mas se tornava tão real quando notado que se tornava quase físico.
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  Agora eu percebo que sim, ele estava ali o tempo todo.
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  Em cima do móvel, havia uma prateleira planejada de gesso branco. Pude ver algumas medalhas de redação, soletrando, melhor texto e coisas do tipo durante todo o ensino escolar de . Ao lado destas, havia uma fotografia de pequena, no meio de uma mulher muito bonita, que se parecia muito com ela. Supus na hora que devia se tratar de sua mãe. E do outro lado um homem alto, forte, que tinha claramente os olhos dela, olhos estes que me passavam bondade e gentileza em um súbito torpor. Olhos facilmente capazes de salvar a vida da filha. Seus pais a abraçavam felizes enquanto ela erguia uma de suas primeiras medalhas, com uma falha entre os dentes da frente.
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  A próxima fotografia era de uma mais velha, aparentemente recente, desta vez somente ao lado da mãe, em um fundo azulado escuro, as duas com roupas formais e um sorriso forçado, tão diferente da primeira foto. Uma foto incompleta.
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  A terceira foto era maior. Estava enquadrada em uma moldura de madeira polida, envernizada, como se fosse cuidadosamente limpa todos os dias. parecia adolescente, com uniforme escolar, também no meio de duas pessoas. Uma delas, ao seu lado esquerdo, era um rapaz que eu não conhecia. Tinha uma expressão um tanto ladina, com o peito estufado, orgulhoso; me fez lembrar da pose de bad boy de . O outro era alto e magro, e sorria espontaneamente para a câmera, como se fosse ele o responsável pela piada para todos os outros rirem. Todos usavam o mesmo uniforme escolar. Algo naquela foto me parecia estranhamente pesado e familiar.
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  Mal percebi quando a peguei nas mãos e olhei mais de perto. Corri os olhos pelos dois adolescentes mais uma vez. E o que vi ali fez meu sangue parar de circular e minhas pernas virarem chumbo.
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  — ! — falou, mas eu mal a escutava. Estava completamente atônito. — O que aconteceu? Você está pálido. O que você…
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  Minha boca ficou seca e eu senti meu coração ir parar nas costas. Minha cabeça piscava como fogos de artifício. Eu sentia meu corpo tão pesado que tive medo do mundo escurecer de repente.
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  Ela encarou a fotografia ainda em minhas mãos, meus dedos brancos apertando a moldura. Engoli em seco, tentando ao máximo voltar à normalidade.
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  — Desculpa, isso estava… Eu só… — tentei falar, recolocando a foto em cima do móvel. Olhar para ela estava me causando um certo tipo de ânsia que eu não conhecia.
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  Surpreendentemente, ela deu um sorriso curto e amigável, pegando a foto de volta. Algo gritava dentro de mim, confuso, perplexo; a temperatura pareceu cair cinco graus.
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  — Não precisa se desculpar por espionar fotos de escola, .
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  — Quem são? — Perguntei ansioso, ainda em dúvida se queria saber a resposta.
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  — Este é , um… amigo da família. — Sua voz falhou enquanto ela apontou para o cara da esquerda e avançou o dedo para o outro. — Este é … meu irmão mais velho. Ele faleceu há sete anos. Um pouco depois que tiramos essa foto.
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  Apoiei as mãos no móvel, ao lado da vitrola. Imediatamente, o disco começou um leve movimento anti-horário, voltando à mesma nota do saxofone, desta vez com a voz de Chet Baker em um uivo triste e constante: I guess I’m just a fool, who never looks before he jumps
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  Everything happens to me
  I guess you’re just a fool, who never looks before jumping
  Everything will happen to you
  You’re gonna die die die die die die die die die
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  Tirei o disco, jogando-o em alguma parte do piso, prendendo a respiração. Um tremor em minhas mãos parecia confirmar o choque que me empalidecia. Olhei para , que tinha um terror confuso em seu rosto enquanto se abraçava pelo frio repentino que eu sabia ter se instalado ali. Seus olhos arregalados estavam focados não no disco defeituoso que havia saído voando de minhas mãos, mas no aparelho em si, agora silencioso, sem qualquer resquício de vozes atormentadas e malignas.
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  Porque não tinha sentido. Não podia ser. O palito da vitrola ainda estava levantado, imóvel, preguiçosamente apoiado onde havia o deixado quando nos levantamos. E ela com certeza estava se convencendo internamente de que estava cansada, sim, só podia estar, o cansaço era a única explicação para estar alucinando com um disco que começara a tocar sozinho sem explicação alguma, fazendo alguma paródia macabra de Everything Happens to Me.
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  Abri a boca para perguntar se ela estava bem, mas voltei a fechá-la. Aquilo tampouco faria sentido. Mesmo com toda a atmosfera se transformando em um enorme peso gélido e oco, ela responderia que sim, estava bem. Ela se deitaria naquela noite, talvez ainda pensando no que havia acabado de acontecer, mas o sono a levaria tão rapidamente daquele momento e ela se esqueceria na manhã seguinte, porque não valia a pena se prender a ilusões, a distorções de perspectiva. Porque, afinal, ela não havia entendido o que acabara de acontecer. A verdade estava pousada ali, ao seu lado, por um tempo que não me atrevo a imaginar, e ela jamais percebeu. Jamais perceberia.
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  Desejei que eu mesmo não tivesse percebido.
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  Que a velha vitrola empoleirada no armário havia realmente passado para seu irmão. E que estava impregnada dele.
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  E que eu o conhecia.
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  Diferente do sorriso vívido que esboçava a fotografia, ele estava envolto em aura negra e enxofre, com um olhar de ódio e uma voz cortante e fria, assolando meus pesadelos, perturbando minha mente.
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  Me aconselhando a ficar longe de sua garota.
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  Era ele.
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Capítulo 16 – Dança com o diabo

  A faísca queimou diante dos meus olhos.
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  O mundo girou, transformando as imagens ao meu redor em algum borrão sem sentido, maluco, vertiginoso. Haviam árvores, um céu cor de cinza, luzes verdes e vermelhas muito próximas uma da outra, uma imensidão de selva de pedra logo acima de meus olhos. E neve… Com certeza estava nevando loucamente àquela manhã. Eu sabia disso. Eu me lembrava.
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  Não lembrava?
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  Me lembrava do casaco sobrepondo outro ao descer do elevador. De chegar ao carro na frente do prédio. De dirigir até a Broadway. De receber uma mensagem de para que eu o encontrasse no Toby’s… Ou era no Starbucks?
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  Isso não fazia sentido. Eu nunca ia ao Starbucks. gostava de lá, mas eu sempre reiterava o quanto era desagradável desfrutar de um café superestimado. Não havia cabimento eu ir ao Starbucks…
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  E por que estou pensando tanto no Starbucks?
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  Tinha que me concentrar.
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  Dirigi para a Broadway. estava me esperando em alguma cafeteria. Eu via a cena claramente agora. O café mocha gelado – gelado, céus, no meio de toda aquela neve – estava apoiado ao lado de seu cotovelo enquanto ele deslizava aqueles dedos longos sobre o teclado, terminando algum trabalho atrasado, apostei. Não me lembro de confirmar esse fato ou não.
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  Eu tinha algo para fazer também. Qualquer uma das rotineiras tarefas acadêmicas que estava acostumado a fazer, mas não tinha conseguido completá-la na noite anterior. Por que não tinha conseguido?
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  Ao abrir meu computador e ver a tela em branco, me lembrei do bendito artigo pendente que havia prometido ao professor Redford sobre algo relacionado ao meu novo futuro estágio almejado no Presbyterian, ao lado do doutor Christensen. Era sobre… Sobre o que era mesmo?
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  O tratamento cirúrgico das patologias tumorais, incluindo a quimiot…
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  O tratamento cirúrgico de patologias tumorais, como…
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  O tratamento cir…
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  Fechei a tela do notebook, bufando. Apoiei os cotovelos sobre a mesa de madeira, encarando a logo da marca do aparelho dançar na minha frente, me sentindo um completo inútil por não conseguir o foco necessário para ao menos começar a escrever o artigo.
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  Respirei fundo, fechando os olhos com força. Senti pensamentos querendo me tomar, querendo arrombar a porta na qual eu os havia prendido, mas o que era? Alguma coisa definitivamente estava querendo me dominar, trazer de volta alguma catástrofe qualquer que eu havia experimentado nos últimos dias, mas o que era… Céus, eu não me lembrava…
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  Alguma coisa estava ruindo dentro de mim e parecia uma tarefa difícil demais fingir que estava tudo bem. Me remexi na cadeira, ainda encarando a tela do computador, mas de alguma forma não estava conseguindo disfarçar. Sabia que tinha algo de estranho no meu rosto, algo que mostrava nitidamente o quando eu lutava contra… Contra o quê?
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  — Ei, cara, você tá legal? — perguntou do outro lado da mesa, enquanto fazia um barulho terrível comendo batatas de um pacote. — A sua cara parece melhor do que na semana passada, mas ainda parece que você tirou um B na prova. O que tá pegando?
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  Revirei os olhos em uma maneira de disfarçar o quanto eu havia esquecido, por alguns momentos, que ele estava ali.
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  — Tá tudo bem — respondi, a voz saindo mais como um sussurro. Olhei brevemente de soslaio para os lados, averiguando o ambiente da cafeteria na Broadway pela terceira vez, tentando me convencer de que a ação era decorrente da pura rotina de inspeção a qual eu fazia questão de realizar, principalmente em lugares que eu nunca havia estado.
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  Era isso, apenas por isso?
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  Um nervosismo latente parecia arrepiar até meu último fio de cabelo. Aquela não era uma inspeção comum, eu procurava um fantasma específico. Um conhecido, se é que eu podia chamá-lo assim. Um fantasma com um nome, rosto e uma incômoda sede de sangue.
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  Espera.
  Nome?
  Tentei reconectar meu raciocínio sobre qualquer assunto sobre oncologia cirúrgica e voltar a digitar qualquer frase que eu estivesse planejando, mas nada veio. As outras coisas, coisas triviais da vida banal de um estudante ou de pessoas normais, pareciam não estar ganhando espaço para entrar em minha cabeça, e eu estava cansado de tentar abarrotá-las no meio das outras lembranças e dos questionamentos acerca de alguma coisa… Algum acontecimento… O que havia acontecido?
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  Tentei juntar os fragmentos. Meu subconsciente gritava para mim, implorava para que eu simplesmente pensasse. E que aquilo tinha um propósito, precisava ter um. Por um momento, tive a certeza de que, seja lá o que estivesse acontecendo – ou o que diabos aconteceu –, eu finalmente estava percebendo que não estava no controle de absolutamente nada.
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  Se é que já estive algum dia.
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  — O que acha de visitarmos a Naomi antes do Natal? — perguntou, agora focado na sua tela à frente, digitando rapidamente. — Ainda não vi nenhuma divulgação de alguma festa que preste no Fórum e não quero ir para a Califórnia ouvir minha tia-avó Tracy contar das consultas veterinárias de cada um dos onze gatos sem lembranças satisfatórias para me consolarem.
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  — A tia Tracy não tem onze gatos — disse enquanto digitava as primeiras palavras que surgiam no breve silêncio que se seguiu em minha mente à medida que eu abria a boca. Não me lembro de nenhuma delas. — Ela tem dezesseis. — levantou os olhos arregalados por cima da tela. — Você sempre se esquece das cores repetidas.
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  Ele fez uma careta de frustração e surpresa, pegando em seu celular e voando com os dedos pela tela, com certeza publicando aquela velha descoberta em alguma rede social.
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  Suspirei e olhei para o relógio na tela. Ainda era o começo da manhã e eu sei que – por qual motivo mesmo? – deveria estar indisposto, mal-humorado, exausto de todas as formas possíveis. Era assim que eu normalmente me encontrava ultimamente. Depois do meu encontro com ele… Ele… Ah, que se dane. Começou bem antes disso. Mais especificamente depois da última conversa com minha avó no último corredor da Butler.
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  Vó…
  Mas não. Eu me sentia ligado, como se o sangue fervesse por toda a extensão do meu corpo e nem parecia estar fazendo mais tanto frio naquela cidade que já estava se afogando em neve. E isso não fazia sentido, visto que eu mal havia dormido.
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  Por quê?
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  Eu sentia a lembrança emanando pelo meu corpo naquele exato momento, mas eu não a alcançava. Sabia que, anteriormente, dentro do evento anterior que não conseguia me lembrar, eu havia sido tomado por um desespero tão grande que mal conseguia respirar. Que não conseguia encarar nada, nem uma parede sequer, sem ativar todos os meus sentidos de alerta à espera de que alguma coisa fosse acontecer.
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  Céus, por que eu estava desse jeito?
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  Ouvi o celular vibrando no meu bolso, que ignorei por um momento. Tentei voltar a pensar no artigo, na conversa que teria com minha mãe logo depois que ela soubesse do estágio e ela certamente me lembraria de não perder o avião e comentaria sobre o que cozinharia naquele dia, e talvez – eu esperava que não, mas com ela não dava para ter certeza – ela comentaria, aos bocados, sobre a filha de algum cliente ou grande amigo do papai, ou até de alguma nova vizinha que estaria pensando em chamar para o jantar e que eu provavelmente gostaria dela. Só comentando, diria ela no final.
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  Ah, a porra do Natal.
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  Ele vibrou mais uma vez e eu respirei fundo, dando-me por vencido pelas forças externas que não me deixariam tentar ser um cara normal hoje.
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  — Alô — atendi sem olhar o número do visor e me arrependi na mesma hora.
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  — Onde você está? — A voz de me fez olhar automaticamente para , que ainda encarava os códigos na tela azul, absorto demais para prestar atenção em meu maxilar trincado. — ?
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  — Por quê? — Perguntei, olhando rapidamente para os lados.
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  — Sabe aquelas cabines empoeiradas que são nada mais do que lixo que a Columbia insiste em manter no segundo andar da Butler? — Me detive em apenas murmurar em resposta. — Ao meio-dia. Maverick vai estar esperando.
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  Ele desligou e eu prontamente guardei o celular, minha cabeça latejando de repente. Minha mente voltou ao dia anterior. Eu sabia que havia me encontrado com ele, que havíamos conversado, mas… Sobre o que era mesmo?
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  Voltei à tela do computador, mas tudo não passava de uma massa branca e desfocada, à medida que eu parecia me tocar do conteúdo que seria aquela conversa – meu deus, o que era? E queria dizer que eu estava preparado, mas não estava, não mais.
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  — ! — Ouvi a voz de , que tinha a tela agora abaixada e arrumava a mochila. Percebi que eu fiquei em um estranho estado de transe por mais tempo do que pensei. — Estou dizendo que estou atrasado para minha aula, vai me dar uma carona?
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  — Vou, vou… — respondi, distraído, enquanto também começava a guardar as minhas coisas, tateando os bolsos em busca da minha carteira.
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  — Eu já paguei. — Ele revirou os olhos e eu assenti, começando a caminhar para fora, torcendo para que ele não percebesse tanto minha agitação, mas isso não parecia mais ser algo que eu pudesse evitar. — Você está bem mesmo, cara? Quer que eu dirija?
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  — Não precisa.
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  Saímos para a neve e o vento gelado soprando a tal velocidade que parecia cortar o meu rosto. Sentia como se literalmente o cortasse, abrindo um rasgo mediano na bochecha…
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  Abri a porta do motorista, sacudindo o casaco de leve para me livrar dos resquícios dos flocos incômodos.
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  — Quem era no telefone? — Ele perguntou, enquanto colocava o cinto de segurança. Engoli em seco, olhando para frente, concentrando minhas mãos em qualquer botão do painel à procura do som mais alto que eu pudesse achar.
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  Ah. não conhecia . Digo, ele conhecia o alter ego dele, Ash. Apesar de que os dois não eram tão diferentes um do outro, pela minha singela opinião.
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  E ele não fazia a menor ideia de que eu estava familiarizado com os dois. Mais do que imaginei.
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  — Ninguém importante.
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  — Ah, claro, como se você se desse o trabalho de atender pessoas não importantes. Vai continuar fingindo que não te conheço? — Ele levantou as sobrancelhas e quase tive que morder a língua para não gritar que não, talvez você não me conhecesse tanto assim, como eu não conhecia tanto as pessoas que achava que conhecia, como eu também poderia ser uma pessoa totalmente diferente ao seu ver, mas consegui me conter. Meu deus, eu estava uma pilha de nervos. Por que eu estava daquele jeito? — Com a Naomi você mostraria um certo calor humano e sua mãe te mataria se ficasse menos de vinte minutos com ela ao telefone, então quem mais poderia te deixar assim?
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  Abri o porta-luvas, me xingando internamente por não ter renovado o estoque de cigarros do carro. Não que eles fossem servir para alguma coisa naquela hora, não com . Mas eu precisava pensar, precisava de silêncio. As perguntas dele pareciam estar elevando meu pico de estresse e voltei a sentir os pensamentos querendo me invadir novamente, tentando achar alguma brecha que os daria liberdade dentro de minha mente.
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  Eu sentia que precisava impedi-los. Só não sabia por quê.
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  — Era a ?
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  Ergui os olhos automaticamente, me sentindo um idiota por demonstrar tanto o quanto o nome dela me afetava de certa forma. Mas, desta vez, tinha algo de estranho no ar. Como se não houvesse apenas interesse ou curiosidade salpicado em meus olhos ao ouvir o seu nome, mas mais alguma coisa…
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  Alguma coisa mais forte.
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  O impulso durou poucos segundos. Soltei uma risada nervosa, irônica, girando a chave na ignição.
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  — Você está viajando.
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  — Acha que eu esqueci aquela história maluca de beijo? E ainda mais com , céus! — Ele inclinou a cabeça para cima, como algum trovador idiota da idade média ao recitar um poema brega de indignação — Você anda tendo aventuras secretas bem agitadas, se envolvendo com garotas comprometidas e tudo mais. Ainda não me decidi se acho isso irado ou simplesmente loucura. Por que não fazia essas coisas quando estávamos no colegial?
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  — Não vou te responder. — Curvei na Riverside Dr, sentindo o peito ficar quente. Agora a voz dele estava me irritando, como se cutucasse algo dentro do meu peito que doía, ardia. Tentei reparar em um cara vestido com a pior roupa de papai Noel de todo o país em frente a uma loja de departamentos, balançando um sino dourado preguiçosamente enquanto era açoitado pelo vento e pela neve.
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  — Ela teve alguma coisa a ver com todo o seu mau humor da semana passada, não teve? Vocês tiveram uma conversa sincera e ela decidiu continuar com aquela cópia de Biff Tannen, não foi? Já era de se esperar, você não deveria ficar tão chateado, . — Ele suspirou, colando os olhos no celular de novo. — Pensa só, se ela se envolve com outro cara quando se sente indecisa dessa maneira, ou por alguma insegurança qualquer, digo, ela pode fazer isso com você também…
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  Trinquei os dentes, agora direcionando minha mente para qualquer ponto interessante do trânsito, qualquer cidadão que caminhava em direção ao trabalho, qualquer coisa que me dispersasse das palavras de e não me permitisse gritar que, na verdade, o babaca era eu e nem se lembrava que eu a havia beijado. Eu.
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  — Existem pelo menos centenas de garotas naquele campus prontíssimas para topar qualquer coisa com você, inclusive qualquer interesse meloso que você possa estar tendo no momento. Não entendo como você pode ter pensado que se envolver com a era a solução pra isso, vocês nem se conhecem direito, digo, você não sabe absolutamente nada sobre ela…
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  — Dá pra calar essa boca? — Interrompi, o sangue pulsando em meus ouvidos, indicando uma súbita vontade de gritar. A queimação no peito pareceu ter atingido um limiar que eu não me recordava de estar tão baixo. Eu queria socá-lo pela primeira vez na vida. E não sabia por quê.
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   me encarou com a expressão estupefata pela grosseria inesperada e me arrependi no mesmo momento. Não podia deixar que meus problemas extracurriculares afetassem meu temperamento, como nunca deixei. Ser um cara pavio curto e estressado a maior parte do tempo só serviria para atrair mais atenção para mim mesmo, e eu com certeza não precisava disso.
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  — Foi mal, eu só… Eu só não quero falar sobre isso agora e muito menos ouvir suas suposições sobre o que eu sinto ou deveria sentir, ou de qual caminho eu deveria tomar ou sobre a porra do que eu deveria fazer… Pelo menos não você, já basta minha… — Suspirei, me detendo ao notar que quase iria soltar sobre minha avó e aquilo não faria sentido algum para .
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  Porque era simplesmente inimaginável que minha doce avó Connie, que morava em um enorme sítio no interior da Califórnia, que havia me ensinado a genealogia de minha nova família e a brincar na terra escura enquanto fazíamos buracos nas mesmas para plantar sementes de frutas variadas e me presenteava com centenas de dólares escondido de meus pais fazer algo que me deixasse no mínimo incomodado.
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  Ele balançou a cabeça, não insistindo mais no assunto até que eu estacionasse em frente ao portão principal de Morningside Heights, onde a aglomeração de pessoas começava a se espalhar com o horário do primeiro tempo.
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  Ele destravou o cinto de segurança, olhando em minha direção.
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  — Você precisa de um cigarro, não é? — Ele perguntou e apenas suspirei. Ele pegou um maço pela metade do bolso da frente da mochila e jogou em meu colo. — Vou ligar para Naomi para marcarmos uma noite de descarrego para você. Garanto que você está precisando de uma boa diversão. Até mais tarde.
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  Ele saiu do carro antes que eu me queixasse, caminhando rápido para dentro do prédio. Me contentei em apenas bufar e acender o cigarro, jogando o resto no banco do carona enquanto dava a partida e seguia em frente.
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  Uma nova vertigem bagunçou as imagens da lembrança. A ponta do cigarro ainda queimava, consumindo o tabaco mais rápido à medida que traguei a fumaça como se pudesse sugá-lo todo de uma vez só. A nicotina atravessou meu corpo, mas eu não me senti muito melhor… Ou senti? E aquele cigarro, aquela ponta ardendo em fogo vivo… Não me lembro de tê-lo jogado fora…
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  Eu terminei de tragá-lo?
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  Não é isso. Tinha outra coisa. Eu estava dirigindo.
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  O trânsito estava fluindo na 116 Street Station. Na esquina da encruzilhada em frente aos portões de ferro, um homem corpulento, trajado de pelo menos três casacos, passou correndo pela rua fora da faixa de pedestres, carregando um enorme pinheiro de Natal, que se arrastava pelo chão molhado, ajeitando-a bruscamente na caçamba de uma picape. As árvores e todo o verde em cima das divisórias de asfalto que separavam as duas vias da 3030 Broadway agora não passavam de galhos secos e nus, expostos ao vento gelado e ruidoso da estação. A uma hora daquelas, era no mínimo inesperado que eu não estivesse cercado de carros à minha volta, tendo consciência do tráfego quase caótico que se estabelecia nos primeiros horários executivos da cidade.
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  Mas não nessa manhã. Eu via agora, e via claramente na hora. Eu via na lembrança, e também achava estranho o fato de estar praticamente deslizando sobre a pista, sem parar a cada minuto pelo mini engarrafamento.
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  O Ford à minha frente foi parando gradativamente. Olhei para cima, encarando o sinal vermelho da W 120th Street. Senti um zumbido baixo ecoar em meus ouvidos. Luzes vermelhas… E verdes…
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  Um bolo estranho se formou em meu estômago.
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  Mas eu parecia bem. O eu de dentro do carro, encaixado por trás do Ford vizinho, espalhando fumaça por todo o estofado do Jeep, ainda preocupado, ainda estranhamente ansioso, mas normal. Não havia nada de estranho no ar, eu não conseguia encontrar o motivo da pequena pontada de angústia que havia sentido há pouco.
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  Tranquilamente, virei a cabeça para a esquerda. Se o trânsito era quase inexistente na pista, não se podia dizer o mesmo das calçadas. As lojas eram um grande escândalo de luzes e tapeçarias vermelhas que escorriam pelo teto, pelo chão e o resto era usado para a confecção das roupas de papai Noel e demais duendes. Uma delas não havia encontrado um homem com nanismo que quisesse se submeter ao emprego temporário em tempo do pico de vendas, então agora bajulavam uma criança chorona com orelhas pontudas falsas enquanto ela se recusava a gritar para os clientes do lado de fora. A cena era engraçada e de repente eu quis rir, quis rir de verdade, e o faria, mas…
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  Eu não ri. Em vez disso, meu rosto ficou sério de um momento a outro. A cena do garotinho agora era rica em detalhes em minha memória e eu me lembrava de achá-la cômica, mas eu não… O que era?
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  No prédio de vidro espelhado do Northwest Corner Building, com a barraquinha do Joe Coffee Company logo à frente funcionando a todo vapor, um par de botas de repente me chamou a atenção.
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  Elas eram prateadas, lotadas de glitter e lantejoulas, brilhando em tons de verde e vermelho vivo. Estavam paradas no meio da multidão de pernas que iam e vinham na calçada. Juntei as sobrancelhas e ergui o olhar. Não era uma vestimenta tão atípica em New York, ainda mais na época em que corais e apresentações teatrais ferveriam no Central Park. Mas continuei olhando, eu lembro, havia outra coisa…
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  Percebi que as pernas da garota que a usava estavam completamente nuas e franzi o cenho de forma atenuante quando notei que, na verdade, ela nem estava usando calças. O termômetro já começava a indicar temperaturas abaixo de zero e a neve não parava de cair, mas a garota usava apenas uma pequena tanga brilhante e uma faixa para cobrir os seios.
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  Descolei as costas do banco do carro, sentindo o corpo inteiro ficar rijo. O bolo no estômago se formou de novo, desta vez acompanhado de uma estranha sensação ruim, muito ruim.
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  Ela estava parada no meio da massa de pessoas, fazendo movimentos estranhos com a cintura e os braços, como uma dança específica que me foi estranhamente familiar. Onde eu já havia visto tal coisa antes? Cocei os olhos para me certificar de que, por via das dúvidas, eu não havia ficado maluco de vez. Aquilo não era nenhuma boneca inflável estranha, usada para atrair quaisquer clientes para o Natal. Os cabelos loiros estavam estranhamente jogados sobre seu rosto e tudo parecia tão desfocado a princípio, tão estranho, tão fora do nor…
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  O motor do Ford roncou à minha frente, seguindo para a luz verde e curvando em qualquer uma das ruas da W 120th St. Pisei o acelerador automaticamente, lembrando-me de que ainda estava no meio da rua e que o motorista de trás deveria estar com as mãos por cima da buzina. Engatei com o carro e segui em frente devagar, mas de repente olhei para o lado mais uma vez. Precisava me certificar de que tinha visto mesmo aquilo, de que alguma coisa muito errada e muito séria estava acontecendo ali e ninguém parecia…
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  Uma onda violenta de frio se deslocou por todo o meu corpo. (Coloque pra tocar “What Really Happened” de Chris Bacon).
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  Em câmera lenta, tudo pareceu acontecer em minutos arrastados de puro terror.
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  O cabelo da garota semi nua no meio da calçada voou de modo feroz pelo vento repentino e ela virou o rosto em minha direção, com o carro ainda em movimento. Um choque paralisante endureceu minhas pernas e braços ao notar o mesmo sorriso e os olhos de Naomi, que acenou para mim do outro lado, como em todas as vezes que fizera na vida.
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  A intensidade da vertigem ficou mais forte, fazendo com que as imagens ficassem mais nebulosas, indistintas. Não, eu não podia sair agora, não podia acordar agora, se é que estava dormindo, se é que aquilo era real, não importava, eu tinha que continuar!
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  Ela esticou os braços para a frente, torcendo o dedo indicador da mão direita para me chamar em um sorriso ladino e jovial, como distribuía em cima do palco. O mesmo sorriso, idêntico, até os olhos, tudo… Naomi…
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  Senti a garganta fechar. Olhei para os lados, procurando quaisquer dedos apontados em sua direção, qualquer sirene de alguma ambulância ou até mesmo da polícia que com certeza receberia uma denúncia de atentado ao pudor por ter uma garota completamente desvairada posando na calçada daquela maneira, como em um protesto político qualquer, mas nada veio, absolutamente nada, minha boca ficou seca ao notar que ninguém parecia estar vendo aquilo, ninguém está vendo
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  Ninguém…
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  Um baque surdo e violento no meu para-choque, seguido por um impacto brutal no para-brisa, me fez voltar à realidade pelo abalo. Foi tão forte e repentino que pareceu deixar toda a minha mente na cena anterior, fazendo as próximas parecerem um enorme borrão. O cigarro escapou de meus lábios e voou de encontro ao lado contrário, passando bem diante de meus olhos… A faísca…
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  Minhas mãos agarraram o volante à medida que senti o mundo girar ao meu redor.
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  O mundo girar… O mundo girou… Transformou as imagens em borrão…
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  O barulho dos pneus cantando no asfalto encheu meus ouvidos, ao passo que fechei os olhos com força ao sentir um corte atravessar minha bochecha esquerda. Como se o vento ruidoso do lado de fora cortasse meu rosto…
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  De repente, gritos – ao longe, pareciam vir de quilômetros de distância – encheram o ambiente, até o carro finalmente parar em um solavanco, me jogando para frente e senti a testa bater em algo duro e disforme, sentindo imediatamente o sangue quente descer pela lateral do rosto.
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  O sangue. Com a cabeça inclinada na vertical sobre o painel, o mundo continuava girando. Os prédios, não havia tantos prédios assim por aqui, eles pareciam duplicar, triplicar, assim como as árvores, as luzes do semáforo piscando… Verde e vermelho…
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