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Ghost Feelings – Interlúdios

Interlúdio I

  Provavelmente, tudo começou com uma mulher que não queria ser mãe.
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  O nome dela era Luisa Mirren. Aparentemente mestiça. Aparentemente nativa. A origem era um mistério. Trabalhava como garçonete em algum restaurante de macarrão em Daegu, na província de Gyeongsang, na Coreia do Sul. O lugar era quente e pequeno, consistindo de clientes exclusivamente masculinos e dispostos apenas a beber até cair noite após noite, oferecendo quantias absurdas de gorjetas e finalizando o estoque da casa.
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  Foi ali que ela conheceu Finn Boyega. Isso foi há 45 anos atrás.
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  Ele não era o tipo de pessoa que estava disposto a conseguir algo a mais do que uma noite. Luisa tampouco queria isso. Não ter pais ou históricos escolares perfeitos foi motivo de perturbação apenas nos primeiros anos de vida. Depois, ela tinha coisas mais importantes a se preocupar, como sobreviver, conseguir um emprego e sair do maldito orfanato.
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  E, claro, ainda tinham os terríveis fantasmas que apareciam vez ou outra.
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  Luisa os odiava. Sempre se lembrou disso. Talvez algo intenso e sufocante pairasse em sua mente, algo como uma lembrança dela mesma conversando com seres que ninguém mais via quando criança e gerando algum tipo de raiva irracional em seu pai bêbado, que descontava o fato de ter uma filha anormal na própria esposa. Isso foi há muito tempo. Mas a culpa ainda permanecia ali. Culpa dela; culpa deles; culpa dos mortos. Porque, apesar de tudo, ignorá-los não fazia nenhum sentido.
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  Até ela aprender que usá-los traria bem mais benefícios.
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  Ela viu o homem estrangeiro entrar e se sentar a uma mesa do canto, sozinho, diferente dos outros que chegavam em bandos e se mostravam indiferentes a qualquer depredação que pudessem causar em favor da bebedeira. Sofía Squibb, a outra garota, apontou com a cabeça para o homem sem atendimento, entregando-lhe um cardápio engordurado e o bloco de comandas no bolso do avental.
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  O cabelo de Sofía flutuava acima da cabeça com eletricidade estática e estresse servil. Luisa imaginou que o seu estivesse do mesmo jeito, ainda que estivesse muito bem preso por dois coques atrás da cabeça.
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  Ela perguntou ao rapaz, displicentemente:
  — Você quer a mesma coisa que eles? — apontou para o grupo na mesa mais próxima, que ria e gritava enquanto olhavam para uma revista pornográfica exibida sem qualquer pudor.
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  O homem olhou com tédio, expressão muito parecida com a que ela já tinha. Uma risada sarcástica iluminou seus lábios; ele até que era bonito.
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  — Tá brincando? — ele levantou uma sobrancelha e estendeu a mão para o cardápio. Ela o passou e pegou o papel da comanda. Era estranho atender daquela forma normal quando os demais clientes apenas gritavam seus pedidos sem sair do lugar — Uma cerveja. Um cigarro. E um pouco de bibimbap.
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  — Não temos carne — respondeu ela, enquanto anotava.
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  — Não esperei que tivessem.
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  Ela ergueu os olhos de relance. Tendo finalmente terminado de anotar o pedido, escorregou o bloco para dentro do avental e andou de volta ao caixa.
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  Aquele foi o primeiro dia. Ele voltou no próximo, sozinho novamente, trazendo uma vela repousada em um recipiente de superfície metálica, pedindo um isqueiro – tanto para o cigarro, quanto para a vela. Ele pediu para que ela esperasse e visse o que aconteceria.
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  — É cheirosa — disse ela, constatando o cheiro adocicado e agradável, que preencheu rapidamente a região da mesa redonda, em um lugar que só cheirava a carne de porco, cigarro e makgeolli.
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  — É o meu trabalho — informou ele. Não era apenas isso que fazia. Também fabricava luminárias de cristal e lapidava esculturas de gelo para festas de luxo em Gangnam. Luisa sabia que ele era um forasteiro só de olhar aquele sorriso sacana – e também um mentiroso.
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  — É bonito — ela se conteve em dizer, formal.
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  — É pra você — disse, generoso — Pode pegar.
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  Uma tatuagem serpenteou para fora do casaco quando ele estendeu o braço para empurrar a vela acesa. Ele tinha algo de faminto. Todos os instintos de Luisa a disseram para agradecer, não receber e ficar longe. Porém, ao mesmo tempo, com o pano de fundo pacato e atormentado que era sua vida, também foi igualmente empolgante.
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  De qualquer forma, ela não tinha nada de importante a fazer depois do trabalho.
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  A aventura acabou cedo.
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  Luisa odiava aquele emprego. Mesmo com situações arrasadoras, ela só queria um trabalho que não sugasse todos os pensamentos de sua cabeça e os substituísse por cantadas e assédio barato, misturados com gritos estridentes de palavrões e música repetitiva.
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  Às vezes, ela saía furtivamente para a rua de trás em um dos poucos intervalos e, enquanto recostava a cabeça contra a parede de tijolos do restaurante e se dava um pouco de alívio para fumar um cigarro vagabundo, ela sonhava preguiçosamente com o futuro. Não com o que ele tinha, mas o que ele representava. As pessoas morreriam pelo futuro. Gastariam fortunas por uma pequena palha dele, uma olhada rápida e discreta. Luisa não queria estudar prédios, nem nadar com baleias ou explorar a Costa Rica, como os grandes sonhadores que querem mudar o mundo dizem. Ela queria descobrir o futuro; prevê-lo. E, acima de tudo, vendê-lo.
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  Luisa não sabia se realmente queria ser uma médium. Ela simplesmente gostava do nome como isso soava. E, afinal de contas, para uma garota sem perspectivas de vida, sem pais ou amigos e que se comunicava com os mortos, médium soava como uma carreira. E estar, de fato, dentro do paranormal já a tornava mais legítima do que muitos.
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  Toda essa vida imaginada parecia bem distante do restaurante logo atrás. Ela tinha vontade, mas não tinha coragem. Não até precisar ter.
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  Quando os enjoos começaram, Finn já estava bem longe. Pensando bem, ele nunca esteve perto, não o suficiente. Também nunca trabalhou com luminárias e esculturas, nem com nada legal. Na verdade, com a ajuda de um desconhecido que ela encontrara perto da suposta pensão em que estava hospedado, Luisa descobriu que ele, de fato, trabalhava no contrabando de armas para os universitários e ativistas pela democracia durante os protestos pela abolição do sistema Yushin de 1975. Não demorou muito para que a polícia fosse chegando mais perto e ele, consequentemente, mais longe. E Finn? Esse nem era seu nome verdadeiro.
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  Luisa sabia que ele era um mentiroso, mas não imaginava que fosse um criminoso.
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  Alguns minutos depois da revelação, ela voltou para casa a pé, arrastando seu resto de dignidade até a ponte Ayanggyo, onde a verdade a atingiu em cheio: ela não tinha nada. Nem dinheiro, família ou até mesmo esperanças. Ela só tinha seu orgulho e um bebê crescendo desordenadamente em seu ventre. Um bebê que odiava mais do que tudo.
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  A imensidão negra do vazio era melhor do que aquilo. Era melhor do que suportar. Ela quis chorar, e conseguiu soltar umas lágrimas de ódio antes que colocasse o primeiro pé no parapeito. A morte não era nada, não significava a mesma coisa para ela, que a via todos os dias, mas era melhor do que a vida que estava fadada a levar.
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  — Fala sério. Mais uma por aqui… — ela ouviu a voz ao seu lado e se virou imediatamente. A garota tinha o olhar distante, com os braços apoiados na grade divisória, passando os dedos pelo ar como se estivesse massageando o vento, e não percebeu que a outra a encarava diretamente. Ela se chamava Helen e estava morta há três anos. Luisa soube disso na mesma hora em que viu os pés descalços e a palidez cadavérica.
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  A garota suspirou e olhou para Luisa com um pouco mais de atenção. Quando entendeu que estava sendo vista, ela prontamente perdeu o sorriso e girou o corpo inteiro.
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  — Você está olhando pra mim? — perguntou, receosa.
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  Luisa secou uma lágrima, franzindo os lábios e desgosto. Ninguém nunca a viu chorar. Nem vivos nem mortos.
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  — O você acha? — disse ela, ríspida.
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  A garota soltou uma gargalhada alta, perplexa.
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  — Deus do céu, esse tipo de gente existe mesmo — ela passou uma língua nos lábios, se aproximando de Luisa — Você não parece assustada. Sabe que estou morta, não sabe?
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  — Fico feliz que você saiba. Nem sempre é assim — Luisa fungou, afastando-se do parapeito — Você deve ter o quê? 15 anos? Chegou a concluir o ensino médio?
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  A garota se espreguiçou, oferecendo uma mão para Luisa.
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  — Eu não me lembro. Consegue ver isso para mim?
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  Ela juntou as sobrancelhas, olhando-a com desprezo.
  — Não consigo fazer esse tipo de coisa.
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  — Sério? Então você vê assombrações? — a garota zombou, mas não recolheu a mão — Não tem nada de mais especial em você?
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  Luisa trincou os dentes, ignorando toda a queimação de raiva que a frase causava. Especial. Eram coisas que sua mãe mentalmente doente vivia repetindo, para então se contradizer um minuto depois, mandando-a ajoelhar e rezar a Buda para que tirasse todos os demônios de suas células. E, claro, quando estava fisicamente debilitada pelas surras e era forçada a tentar todos os rituais possíveis para que a filha melhorasse.
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  Era por isso que não se podia ignorar os mortos. Eles sempre voltavam, de uma forma ou de outra, mesmo que seja apenas em sua cabeça, como foi o caso de sua mãe.
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  Luisa sabia que não tinha nada de especial, absolutamente nada. O que ver fantasmas tinha a ver com essa palavra? Ela não recebia nada em troca por isso.
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  A garota riu com o silêncio dela, em deboche velado. Começou a puxar os dedos de volta, mas Luisa os pegou com afinco, com raiva, os olhos destilando todos os sentimentos ruins que asfixiava dentro de si por tantos anos.
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  — Posso fazer isso também, cretina — ela sussurrou furiosamente, não dando a mínima para algumas buzinas que ouviu do tráfego logo atrás. A garota sem nome arregalou os olhos de susto, sentindo os dedos serem esmagados com fervor, com realidade — E posso te jogar daqui de cima junto comigo, o que acha disso? Você vai boiar e flutuar até o próximo condado, e eu não terei mais uma maldita vida para me preocupar! Quer se lembrar do seu maldito nome? Pois então lembre! — ela soltou os dedos bruscamente com um empurrão, engolindo todas as lágrimas que queriam sair novamente, desejando que a garota se calasse ou simplesmente saísse dali para que ela pudesse morrer em paz.
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  A reação da garota fantasma era inacreditável. Ela ficou parada, os olhos arregalados de terror, encarando o mesmo ponto que Luisa havia tocado, como se ainda não acreditasse. Luisa revirou os olhos, rezando para que ela não perguntasse como aquilo acontecia, como os outros malditos fantasmas perguntavam. Não havia necessidade de esclarecer pois ela não sabia responder. Ela não sabia de nada, porque não era nada normal que uma pessoa visse coisas que outras não viam na Coreia da década de 80, o que restringia bruscamente os meios de pesquisa que não fossem velhos sozinhos e senis e um grande hospital caótico para loucos na saída da cidade que eram especialistas em lobotomia, então não, que essa garota morta guardasse a curiosidade para si e finalmente desaparecesse.
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  — Como… Como você fez isso? — ela sussurrou e Luisa já se sentia importunada. Ela não sabia ser elegante, mas queria se desviar dessa linha de conversa o mais rápido possível, então tentou respirar fundo e não gritar – também para que outras pessoas que passassem ali não a interrompesse ao chamarem a polícia ou a ambulância de loucos.
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  — Olha só, eu não…
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  — Helen — interrompeu a garota, absorta, com voz embargada. Ela estava chorando. Luisa juntou as sobrancelhas — Meu nome é Helen. Eu me lembrei.
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  Tirando as mãos do parapeito, Luisa se virou para a garota, ainda séria como uma pedra, porém com a feição mais suavizada pela curiosidade.
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  — O que você disse?
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  — Helen Murguía. Esse é o meu nome — ela soluçou, pegando em uma mão de Luisa repentinamente. — Meus pais são Honey e Remo Murguía. Eles moram em Guryong e são professores. Meu irmão se chama Chiun e trabalha em uma concessionária. Morri em um atropelamento de carro e… E… — ela ficou com os olhos distantes, falando agora com a voz falha: — O colega dele. O gerente. Ele me atropelou. Lembro do rosto dele quando foi ver o meu corpo. Ele me viu e fugiu, mesmo me conhecendo — ela soluçou, mais forte desta vez, tão alto que Luisa sentiu os pelos se arrepiarem — Ele nem pediu ajuda. E trabalha com meu irmão todos os dias. Eles são amigos. Eu me lembrei.
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  Luisa permaneceu estável, sem nenhuma expressão significativa. É claro que ela pediria ajuda, todos eles faziam isso. E ela não se encontrava em nenhuma posição de querer ajudar, apenas em mandá-la embora dali o quanto antes. Ela ainda precisava morrer, precisava morrer esta noite.
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  — Foi bem aqui — Helen continuou, apontando para o asfalto ao lado — Foi aqui, nessa ponte. Ele me atropelou bem aqui, e fugiu. Foi ele, eu tenho certeza — ela soluçou mais uma vez, pegando nas mãos de Luisa com mais força — Você precisa me ajudar. Ele tem que pagar por isso, tem que pagar pelo que fez. Ele frequenta a minha casa, sai com o meu irmão e com certeza foi ao meu enterro. Não é justo!
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  Luisa puxou suas mãos de volta com brutalidade, frustrada e confusa como detestava ficar. Helen, ou seja lá quem fosse aquela assombração, não se lembrava do que ela estava pretendendo fazer quando pisou ali? Não a viu tentando se juntar ao outro lado ao se preparar para pular? Que raio de ajuda ela estava pedindo? Luisa precisava de ajuda! Ninguém mais importava naquele momento a não ser ela mesma.
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  Não havia nada de bom em ajudar almas perdidas. A única coisa que ganhou em troca fazendo tudo aquilo foi uma cozinha engordurada e uma pia de cuba grande onde lavava as louças todas as madrugadas. Mesmo que tivesse cuidado, ela ainda era acotovelada de tempos em tempos, tendo que limpar pratos e comida do chão, e se esforçar para não ser atingida pelas garrafas de cerveja que voavam pelo teto quando os nervos ficavam mais altos, assim como a música. E dormir nos fundos de um quarto de 20m² não era lá grande coisa para se gabar.
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  — Você está vagando há tanto tempo e ainda não se tocou? — disse ela em voz baixa, carregando toneladas de amargura. — Não existe justiça. Muito menos arrependimentos. Esse é o trabalho dos vivos: correr contra a morte. Acha que alguém vai se dispor a fazer o bem quando isso os aproxima dela?!
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  — Mas… Não deveria ser assim — a garota colocou as mãos no rosto, chorando pesadamente — Os meus pais… Deus do céu, eles pensam que o culpado está longe, perdido nessa cidade enorme quando ele está dividindo refeições na mesa deles! E minha mãe deve chorar todas as noites, vivendo com essa dúvida eterna, esse sentimento terrível. Você consegue entender, não consegue? Deve conseguir… Afinal, você também é mãe…
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  Luisa enrijeceu todos os músculos, transformando o semblante duro em algo surpreso e apavorado, abrindo e fechando a boca várias vezes antes de dizer:
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  — C-como você sabe uma coisa dessas?
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  — Suas mãos. Eu senti — Helen estendeu as mãos para pegar as de Luisa mais uma vez, mas a mulher as afastou para atrás das costas — Tem dois batimentos. Você está grávida… — ela fungou, dando um passo à frente, avaliando o rosto da mulher — Não deveria desistir dele. Você é especial, então ele também será. Quando me tocou, eu me lembrei, eu pude…
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  — Não diga besteiras! — Luisa chiou, a palavra causando-lhe cólera intensa — O que acha que vai ser de mim, criando um filho sozinha? Sem nem saber quem é o pai. Sem dinheiro, sem uma casa decente… Acha que todos tiveram uma família como a sua? — ela trincou os dentes e, impulsivamente, puxou novamente uma das mãos de Helen e aproximou seu rosto raivoso para o dela — Acha que o que sofreu foi uma injustiça? Que as pessoas precisam ser castigadas? Pois então, garota, lembre-se de uma coisa: os mortos não deviam querer coisa alguma! Não importa o que digam, vocês são a escória da roleta russa do universo, que anda para a frente enquanto vocês só vão ficando para trás! Acha injusto? Pois então esqueça! Esqueça o que te aconteceu e volta a vagar nessa ponte miserável, se remoendo por coisas e pessoas que ainda vivem, eu não tô nem aí! Só me deixa em paz e desapareça de uma vez!
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  Ela se afastou de Helen mais uma vez, apoiando novamente as mãos no parapeito gelado de metal, apertando os dedos para se acalmar. A água escura continuava correndo, o vento zunindo em seus ouvidos, sussurrando o convite da morte ao fundo, mas Luisa se sentia menos corajosa a cada minuto que ainda passava na superfície. Sua concentração estava em absorver os sentimentos ruins e não deixar que eles a fizessem perder a cabeça. Ceder ao descontrole era coisa de gente fraca e estúpida. Ela tinha um pouco de orgulho e morreria com ele.
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  Uma risada drástica a acordou de seus pensamentos. Ela encarou Helen ao seu lado, na mesma posição, os dedos na barra de metal e os olhos na infinita escuridão, rindo da mesma forma que estava há alguns minutos atrás.
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  — Não acredito, mais uma por aqui — a garota resmungou, abrindo mais uma gargalhada. Luisa juntou as sobrancelhas. — Todo mês é assim. Às vezes são dois na mesma semana, outras são três, puxa, as pessoas querem mesmo morrer…
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  O olhar inocente e perdido havia sumido. Ela era aquela mesma pessoa que Luisa encontrou quando chegou. Um fantasma vagante, uma alma perdida que não sabia que estava perdida.
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  E, desta vez, sem obter nenhuma resposta, ela apenas deu mais uma olhada em Luisa e desapareceu por completo.
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  A mulher apertou os dedos no parapeito novamente, fechando os olhos com força. “Não entre em pânico, não entre em pânico, foi uma coincidência…”
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  Mas não fazia sentido. Não existem coincidências e ela nem precisava ser uma estudiosa para acreditar nisso. Suas pernas falharam por um momento e ela se abaixou, encarando a parede de cimento com o peito transbordando de descobertas arrasadoras.
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  Luisa sempre foi considerada uma criança estranha. Estranha, não especial. Porque crianças que falam sozinhas em ambientes vazios, fazem movimentos estranhos ao vento e riem de piadas isoladas não poderiam ser consideradas normais. Tudo isso levou a um isolamento inevitável no velho orfanato onde dormia em um cobertor fino sob um chão gelado e sujo.
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  Apesar disso, ela esbanjava tranquilidade e um desprezo mútuo sobre a população em geral do lugar, que não era considerado o melhor orfanato da região, tendo repetidos relatos de maus tratos ano após ano, e a boa e velha dose de corrupção com as doações recebidas. Luisa não era como as outras crianças ao se fazer de cega para a maldade dos adultos. Ela a conhecia, direto na pele.
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  Mas não foi por nada disso que falou aquelas coisas para Carla, a garota do quarto ao lado. Na verdade, ela não percebeu quando disse na hora. Carla Maxwell era uma órfã barulhenta, que jurava ter pais que estavam ficando ricos do lado de fora e que apenas por isso a deixaram passar uma temporada naquele lugar horrendo. Era tão absurdo que Luisa sentia vergonha alheia apenas por se lembrar. Carla reunía um exército de crianças a seu favor, sempre demonstrando superioridade para abafar seu lado medroso e medo da realidade da rejeição, e tinha um alvo favorito em sua perturbação diária: Luisa Mirren.
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  Por algum tempo, Luisa não entendia essa perseguição, visto que ela mesma não fazia questão de nenhum contato com as outras crianças. Porém, depois de um tempo, ela apenas aceitou que os opressores não tem realmente um motivo para agir; eles apenas descontam suas frustrações em quem não dá a mínima para isso.
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  Mas Luisa, afinal, conseguiu se livrar daquela garota tola. Pensando agora, naquela ponte, ela se deu conta e sentiu todo o peso da realidade sobre si. Luisa não tinha muitos brinquedos naquela idade; a única coisa que prezava o bastante para esconder consigo era um colar artesanal, feito de barbante e arroz, que sua mãe havia feito antes de enfiar um canivete na garganta. Não era nada bonito e nem muito trabalhado. Era apenas um recipiente com todos os sentimentos bons que Luisa já teve. Ela o olhava como se olha para um filme de comédia; apenas a visualização de um sentimento que ela não conseguia incorporar.
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  Quando Carla descobriu o esconderijo secreto do artefato e o desfez em pedaços no meio do pátio, Luisa se sentiu um pouco fraca. Ela não soube descrever exatamente o que foi aquilo que tomou seu peito. Aos 11 anos, a garota já não esperava bondade alheia das pessoas, mas tinha certa esperança de que conseguiria viver em paz se deixasse os outros em paz. Era o que estava fazendo, e ao ver o resquício de seus sentimentos bons se esvaindo e separando-se ao vento e risadas debochadas, viu que estava perdendo tempo com todos os humanos em geral. As pessoas eram mesquinhas e más, todas elas. Amor e respeito não existiam. Ela entendeu tudo isso muito cedo.
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  Naquela hora, ela se viu capaz apenas de abandonar aquele pátio e colocar os pensamentos no lugar. Não era hora de perder a cabeça. Mas também não era como se Carla fosse se safar dessa tão fácil.
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  Quando a noite caiu, Luisa invadiu o quarto vizinho e surpreendeu a garota com algum corpo apodrecido de um dos muitos ratos capturados no quintal de trás. Ela nem ao menos pôde gritar; Luisa abafou qualquer berro que pudesse sair com suas mãos, olhando-a com ódio e, acima de tudo, frieza.
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  — O que foi? Vai chamar os seus pais? — ela sussurrou, furiosa, os olhos arregalados em surto — O que eles são mesmo? Médicos? Posso marcar uma consulta? — e então, ela aproximou seu nariz do rosto de Carla e trincou os dentes: — Sua vadia louca. Você merece ter cada nervo desse cérebro de merda queimando em algum lugar do inferno. Acha que seus pais vêm te buscar? Idiota! Esqueça que tem pais, ou que exista alguma mínima possibilidade de que eles apareçam algum dia. Não está afim de fazer isso? Pois então esqueça seu próprio nome, porque assim você simplesmente some do mapa! Lixo! — ela apertou a boca com mais força, e sentiu a saliva de Carla em seus dedos — Se mexer comigo de novo, juro que chamo meus amigos para se livrarem de você, e acredite, os mortos não tem mais nada a perder.
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  Luisa se afastou, deixando a garota desesperada e aos prantos no escuro total.
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  Ela não esperava que Carla fosse ouvi-la. Na verdade, Luisa já estava preparada para receber uma visita dos coordenadores do orfanato e um anúncio de transferência para algum reformatório da cidade, onde apanharia diariamente e trabalharia para poder comer duas refeições por dia. A atitude não tinha sido calculada, mesmo que ela não tivesse qualquer arrependimento. Mas, no dia seguinte, a agitação entre os adultos mostrou que alguma coisa de mais terrível tinha acontecido. E, curiosamente, não parecia ter a ver com ela.
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  “Amanhã à tarde, foi o horário mais próximo que consegui marcar.”
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  “Não tem como ser mais cedo? Ela está muito mal, se a assistência social vier…”
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  “É um estagiário, ele disse que tem aulas de manhã, o que eu posso fazer?”
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  “Diga que é urgente, é uma criança! E ela diz que não lembra do próprio nome!”
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  Em pouco tempo, Carla Maxwell não estava mais entre eles. Ela não se lembrava mais de se chamar Carla Maxwell, mas também não parecia aceitar outros nomes. Também parece ter enlouquecido de vez ao notar que estava em um orfanato, sem pais, sem nenhuma lembrança deles. Ela não tinha mais esperanças, muito menos a preciosa espera. Ela não tinha mais nada.
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  As pessoas precisavam de algo a que se agarrar para continuarem vivendo, mesmo que fosse em uma mentira.
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  Luisa não percebeu nada no início. Ela transbordava por dentro de algum tipo de felicidade ácida, uma que se alegrava com a vingança, com o desespero de quem te fez mal. Ela não lamentava o suicídio de Carla, mesmo que toda a região tenha ficado plenamente em choque com a morte de uma menina de 13 anos. Funcionários mudaram seus turnos, outros se demitiram e por todo o lugar corria o boato de que aquilo era um mau presságio. Que a casa agora ficaria mal-assombrada.
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  Luisa continuou comendo e dormindo muito bem, obrigada.
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  Mas quando disse as palavras para Helen, não parecia ser essa Luisa, que estava agora abaixada contra o parapeito, relembrando do episódio de Carla. Aquela Luisa não sabia o que estava fazendo, assim como esta, mas tudo parecia terrivelmente ligado. Se quisesse apagar a mente de alguém, ela poderia. Se usasse as palavras certas, o resultado poderia ser funcional.
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  Então, afinal, Luisa Mirren tinha algo de especial?
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  Ela se levantou, não sabendo o que pensar de imediato. Olhou novamente para a água escura corrente, encarando a morte agora com pesar, com cansaço. Uma ideia descabida e sem garantias encheu sua mente, e ela de repente tinha algo a tentar antes de findar com tudo.
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  Uma última chance. A vida teria uma última oportunidade para mostrar que merecia ter Luisa de pé, e com o coração batendo.
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  Com seus dois corações.
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  Foi fácil achar Guryeong e toda a família de Helen Murguía.
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  Ela viu o homem mais velho se despedir de sua esposa para ir trabalhar, dando-lhe um beijo amoroso no rosto. O filho repetiu o mesmo gesto, retirando um maço de cigarros escondido do bolso de trás da calça social e acendendo um deles ao chegar na calçada.
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  Ela o seguiu, desligando a mente da negatividade que a situação poderia se transformar. Seu coração palpitava no peito. Ela estava nervosa, mas isso era fraqueza. E nada se conseguia com covardia.
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  O emprego na concessionária era real. O gerente era real. Luisa o reconheceu quase imediatamente, mesmo nunca tendo visto o sujeito. Alto e de pose descontraída, sem um pingo de autoridade. Foi gentil com absolutamente todos os funcionários e clientes desde o primeiro ao último segundo do expediente. Pagou um almoço para os estagiários. Limpou os vidros do para-brisa por conta própria. Era com certeza o tipo de pessoa da qual não se espera um mísero levantar da voz.
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  Mas Luisa sabia da verdade, e tinha uma solução bastante específica.
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  Ao fim do dia, quando o céu já não estava mais bonito e o trânsito caótico, Luisa esperou que o homem trancasse as portas e caminhasse serenamente até seu carro. Por um instante, parecia uma bobagem estar ali, naquele momento, olhando para um rapaz trabalhador por horas a fio, que não fez nada além de atender clientes e servir cafés esporádicos para funcionários e estranhos, sempre com um sorriso no rosto. Ela queria estar em casa, recostada na parede fria do cubículo onde dormia sob um lençol, sonhando em cavar uma cova funda o suficiente para se enterrar, tentando decidir apenas a melhor hora para fazê-lo, a melhor hora para findar sua vida de vez.
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  Mas ela havia dito que tentaria. Que alguma coisa extraordinária aconteceu no ano de seu nascimento, e que todo o sofrimento que passou desde então precisavam servir de alguma coisa.
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  Aquele era o ano da mudança.
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  Aproximando-se rapidamente da calçada, ela prostrou-se bem em frente à porta do rapaz, que levou alguns segundos para notar que uma outra pessoa estava parada ao seu lado. Ele era jovem e bonito. Parecia não ter muito mais que sua idade. Se ela tivesse uma vida diferente, poderia conhecê-lo e se apaixonar por ele, mesmo que fosse matá-lo caso descobrisse seu grande segredo.
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  Ela também deveria morrer naquele ano, com todos aqueles segredos, mas era tarde demais. O assassino à sua frente era sua última cartada.
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  — Posso ajudar, moça? — perguntou ele, com um belo sorriso gentil.
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  Luisa baixou os olhos até a fita metálica presa no uniforme. Specs Whannell. Quais eram as chances? Até seu nome soava plácido e cavalheiro, muito diferente de um verdadeiro assassino.
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  Ela coçou a garganta, juntando toda a firmeza restante na voz:
  — Eu sei o que você fez.
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  Specs piscou os olhos por um instante, avaliando o rosto cansado e pálido de Luisa.
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  — Como? — franziu o cenho. Ela parecia uma mulher louca em busca de dinheiro fácil na venda de mentiras como as cartomantes dos becos de Yongsan-gu. Uma perfeita ironia começando a traçar a sua história.
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  — Sei quem você matou.
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  O belo sorriso desapareceu do rosto do rapaz. Tudo em que conseguia pensar era continuar seu caminho até o carro e dirigir para casa como se nada tivesse acontecido. Como se aquela mulher não fosse real, apesar de ser.
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  Specs manteve a compostura, apesar de tudo. Seu nariz tremeu com uma risada fraca e curta, e ele voltou a dizer:
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  — Acho que você se enganou, moça — disse ele, sem disfarçar o tom trêmulo de forma eficiente — Não existe a menor possibilidade de eu matar alguém.
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  — Então é assim que vai ser? — os olhos de Luisa se estreitaram — Então vamos botar as cartas na mesa: Helen Murguía. Filha de Honey e Remo Murguía. Irmã de Chiun Murguía. Morreu na ponte Ayanggyo, em um trágico acidente de carro. Mas a negligência do motorista em prestar socorro a matou primeiro do que isso. O nome desse sujeito? — ela nivelou seus olhos para o crachá — Specs Whannell.
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  A palidez expressada pelo rosto do homem o deixava repentinamente doente. Os passos trôpegos para trás mostraram a dimensão de seu choque. Uma das mãos apoiou o restante do corpo no capô do Ford enquanto sentimentos desconhecidos de medo e pavor enroscavam-se em seu peito, retendo o fluxo de ar aos pulmões e impedindo que qualquer som saísse por sua boca.
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  Quando finalmente voltou a si, Specs ficou ereto, fechando os dedos trêmulos em punho.
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  — C-como… Como você…
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  — Talvez seja melhor não saber, querido — Luisa foi propositalmente informal. O rapaz fez uma careta pelo tom, e ainda mais quando a mulher fez nascer um sorriso singelo nos lábios — O fato é que você é um criminoso, que consegue desfrutar muito bem de bulgogi todos os dias no café da manhã, mesmo sabendo que…
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  Algo tocou seu ombro.
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  Tocá-la era estritamente contra a política de Luisa. Ninguém deveria tocá-la enquanto ela estivesse naquele restaurante sujo, e especialmente ninguém deveria tocá-la naquele momento, quando ela estava tentando ser corajosa. Specs apertou os dedos em torno de seu ombro, aproximando-se com um olhar raivoso. Ela viu as duas carreiras de dentes trincarem bem perto de seu rosto.
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  — Quem é você? Onde estava naquele dia? — sua voz era baixa e intimidadora. Era o bastante para que Luisa se sentisse amedrontada e tentada a dar um rodopio e sair dali imediatamente. — Como se atreve…
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  A ponta da lâmina roçou no tecido de seu casaco esportivo. Specs olhou para baixo, vendo sua posição perigosa, afrouxando o aperto nos ombros da mulher. Ele não viu o quanto ela se controlava para não deixar que suas mãos trêmulas soltassem a faca. Seu olhar não se desviava do dele nem por um segundo.
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  — Tire. As mãos. De mim. — Disse pausadamente com os dentes trincados em um aviso implícito: ela também podia ser perigosa. — Acredite, senhor Whannell, estou tentando ajudar.
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  Diante dela agora estava o gerente de uma grande concessionária, funcionário competente e bem querido por todos, sempre arrumado e presidencial com as pernas bambas e olhos aterrorizados à medida que a verdade atingia-o na forma de um escape metálico dos bolsos do sobretudo da mulher desconhecida. Specs sentiu vontade de correr, mas pensando bem, ele esteve correndo até agora. Aquele parecia ser um momento decisivo de alguma coisa que ainda não sabia identificar qual era.
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  — V-você… Você não tem provas. — Balbuciou, arrastando os pés para trás.
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  Luisa forçou uma risada sarcástica a sair, mesmo que ainda tivesse o coração martelando pesado no peito e todos os instintos em alerta máximo.
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  — Acha mesmo que quando uma pessoa desconhecida te ameaça, ela não tem nada? — Blefou, mantendo os olhos em linha reta na direção do rosto assustado do sujeito.
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  Um silêncio pesado pairou sobre a ameaça de forma sufocante. Um mísero fio de ar passava pela glote do rapaz, e sangue começava a escapar das gengivas de Luisa pela pressão que colocava nos dentes. Ambos assustados, e ambos pensando em um jeito de escapar.
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  Com um pigarro, ele se aproximou da mulher, agora certificando-se de não tocá-la, e sussurrou furiosamente:
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  — O que você quer? — O veneno escorreu junto com a saliva que pulou para fora, os olhos esbugalhados demonstrando as vertentes de um homem desesperado — Quanto você quer?
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  Ao se corrigir, Luisa baixou os olhos pelo corpo do rapaz. Seu relógio parecia ser mais caro que seu carro, e este já fazia parte de um modelo moderno e ocidental, revendido apenas em sua própria concessionária. Ele tinha o tom de pele pálido e encantador, muito diferente de trabalhadores braçais que perdiam sua vida e saúde sob o sol. As mãos, quando a tocou, eram macias e sem atrito. O aveludado de sua voz no cumprimento inicial mostrava boa educação. Luisa nunca soube como conseguia julgar a fortuna de alguém pelos mínimos detalhes, mas aquele cara não fazia muita questão de escondê-la.
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  — 30 milhões. — Respondeu, por fim.
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  O homem a encarou incrédulo. Tanto pelo valor, quanto pelo fato de que aquilo realmente seria resolvido com dinheiro. E então, ele sentiu raiva. E Luisa não moveu um músculo sequer.
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  Diferente do que sua voz entregou, ela não tinha um valor em mente. Talvez, na hora do medo e dos pensamentos embaralhados, ela tenha pensado em algo como férias de primavera e lugares como a Costa Rica e a costa espanhola. Lugares onde ela conseguiria um bronzeamento de verdade. Lugares onde poderia fugir e se tornar outra pessoa.
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  Mas na hora de dizer os números, ela apenas fitou aquele rosto bem cuidado e as roupas odiosamente engomadas e sentiu nojo pelo assassino. Sentiu nojo dos jantares que ainda frequentava na casa da vítima. Sentiu nojo de toda aquela aura confiante que o transformaram no último suspeito.
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  Luisa provavelmente estava mais próxima de uma ínfima expressão de ira de Specs Whannell mais do que qualquer outra pessoa já esteve.
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  — Você está brincando, não está? Eu espero que esteja — disse ele, de maneira que indicava menos esperança e mais certeza.
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  Ela pensou em rir e falar mais alto, mas provocar aquele homem não seria a ideia mais inteligente, portanto, inclinou a cabeça para cima para mirar em seus olhos sem um pingo de divertimento.
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  — 30 milhões de wons ou a central de polícia de Busan. O que parece melhor?
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  — Maldita… — o rapaz trincou os dentes, enraivecido. Inesperadamente, aproximou os passos rapidamente até Luisa, que ainda mantinha as mãos em prontidão no casaco. Ele notou antes de tomar qualquer atitude que se arrependesse. Havia algo irritantemente impressionante nele, uma impressão de que ele era muito alto e muito forte, o estereótipo de um homem protetor, apesar de não ser mais alto e mais forte do que a maioria dos homens estrangeiros da Coreia. — Acha que é fácil conseguir 30 milhões de wons?
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  — Não ligo se é fácil ou não, senhor Whannell. Você não parece um ser humano inibido e tem uma beleza acima das demais, então creio que pode tomar uma atitude. Sem sujar as mãos.
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  Ele a encarou mal-humorado. Uma mão se enfiou em um dos bolsos da frente, onde remexeu no bolo de chaves enquanto mordia o lábio inferior e puxou-a para fora, apontando a superfície metálica para o rosto dela.
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  — Você vai desaparecer depois?
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  A contragosto, Luisa encarou a ponta da chave, desejando girá-la direto em seus olhos.
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  — Você nunca mais vai me ver, senhor Whannell — disse ela com simplicidade. — Mesmo se acontecer, não se lembrará de mim.
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  As palavras foram ditas com confiança, porque só assim o poder emanaria dela com fidelidade. Ela estendeu a mão formalmente, esperando a retribuição do gesto para o selamento de sua habilidade imaginária. Até aquele momento, quando tudo ainda não passava de um teste.
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  Specs olhou para a mão oferecida com os músculos faciais retesados em uma rejeição explícita. Se Luisa pareceu bonita à primeira vez, agora ela parecia um ser sujo, de aparência amarfanhada e puída, com um sobretudo que provavelmente havia sido lavado vezes demais. Tudo nela o desagradava, principalmente o olhar confiante e ameaçador.
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  Ele apertou as mãos da desconhecida, e a magia aconteceu.
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  Por precaução, ela repetiu as palavras, com mais destreza desta vez:
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  — Me entregue o dinheiro e eu vou desaparecer, senhor Whannell. O senhor nunca se lembrará de mim, mesmo que eu volte pra cá. Estamos entendidos?
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  Sua voz era suave e arrepiante, ao mesmo tempo. Foi o bastante para causar calafrios no homem. Ela parecia bonita outra vez, um tipo de beleza perigosa. Seus interesses egoístas a tornavam um soldado em uma guerra em que o inimigo eram todas as outras pessoas.
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  O rapaz puxou a mão rapidamente ao sentir a energia diferente que rondava aqueles poucos centímetros entre ele e ela. Os pensamentos se dissiparam como um jato. O que ele estava indo fazer mesmo? Ah. Claro.
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  — Venha sem fazer barulho — murmurou ele, fazendo o caminho de volta para a concessionária. Luisa esperou um pouco antes de segui-lo. Seu jeito de andar era extremamente elegante. Ela deixou a faca em prontidão.
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  A loja era ampla e impecável. Um pequeno lance de escadas e já estavam dentro do escritório individual e majestoso. O homem abriu uma gaveta e tirou de lá um talão de cheques. Luisa cravou os olhos na caneta que deslizava pelo papel. 30 milhões de wons.
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  Seu coração acelerou com a constatação do que estava acontecendo. Inesperado não era bem a palavra certa para descrever a situação, mas era próxima.
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  O homem lhe entregou o cheque. Ela o verificou de novo. Então, sorriu e disse:
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  — Foi um prazer fazer negócios com você.
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  E deixou a loja sem emitir uma única expiração.
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  Tucker Sampson Mirren nasceu 8 meses depois.
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  O apartamento para onde foi levado da maternidade era maior que os 20m² onde sua mãe costumava dormir, e a casa onde cresceu a partir dos três anos de idade, quando entrou em um trem para Seul, era espaçosa e agradável, com quintais vastos e uma macieira velha e retorcida no meio do gramado baixo, onde ele mesmo tinha pendurado um pneu velho em um dos troncos para servir de balanço. Uma casa grande demais com brinquedos demais para uma criança que passava seus dias sozinha.
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  O menino tinha traços delicados e uma aparência um tanto frágil, com olhos grandes e redondos e belos cabelos escuros que se mantinham baixos com algum esforço, aplicado por ele mesmo. Ele parecia com o pai, mesmo que nunca o tivesse visto ou tido qualquer referência sobre sua existência em algum lugar. Toda vez que sentia o impulso de perguntar, seu cérebro o levava a repensar dezenas de vezes. Sua mãe não emitia uma única vibração de interesse em respondê-lo.
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  Aos 11 anos, sua mãe não era mais Luisa Mirren. Tucker Mirren era filho da Madame Padmé, a maior cartomante e médium de Seul e uma das mulheres mais ricas da região de Yongsan-gu. O negócio não tinha nada de legítimo, mas nenhum órgão oficial estava preocupado em lidar com bruxas pelo bairro enquanto o regime militar de pós guerra das Coreias ainda estourava em rebeliões no centro e discussões na câmara sobre como lidar com o problema da separação.
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  Nem por isso, ela deixava de ganhar rios e rios de dinheiro enquanto vendia um futuro que não podia ver – mas podia mentir enquanto via outra coisa.
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  Os fantasmas sempre revelavam informações interessantes sobre seus clientes.
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  Com a veracidade das informações sendo repassadas com rapidez, ela logo tinha uma lista cheia de consultas e cada vez menos tempo em casa. Pensar em Tucker era algo recorrente no começo, mas depois se tornou cada vez menos necessário. O garoto se descobriu independente antes dos 10 anos. Era perfeitamente capaz de comer e se limpar sozinho, assim como estudar e se dedicar às demais tarefas. A casa era limpa e organizada 3 dias por semana por uma senhora de meia idade que tampouco falava muito – seja pelo motivo de não querer perder tempo com crianças ou por pressa de finalizar o serviço naquela casa, que a dava arrepios constantes.
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  A mulher fazia questão de limpar o quintal dos fundos primeiro do que todos os outros cômodos, desde que fez a besteira de deixá-lo para o fim do dia e pegou o garotinho rindo e se divertindo aos ventos, sendo empurrado em seu grande pneu de balanço por uma força aparentemente invisível, visto que seus pés não tocavam o chão e seu corpo estava relaxado demais para fazer algum esforço.
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  Esta havia sido apenas uma das vezes. Em outras, ela o pegava sussurrando sozinho em cômodos diversas vezes, em frente ao espelho, ao lado de sua cama ou até mesmo enquanto fazia suas refeições. Era aterrorizante, e um pensamento tão maluco que ela não se via capaz de contar a alguém. Aquela casa precisava de, pelo menos, 40 talismãs de Buda e todas as religiões que quisessem ajudar.
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  Infelizmente, a Madame Padmé pagava muito bem.
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  Em uma manhã, Luisa havia conseguido um horário livre para tomar o café da manhã em casa. Ela tinha uma visita agendada no Hospital Municipal e pilhas de cartas a responder no escritório mais tarde, o que era mais cansativo do que se imaginava, mas nada importava quando a quantia de zeros que fechava o dia era o suficiente para que saísse e voltasse do país 30 vezes no ano.
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  Quando chegou à cozinha, o cheiro de arroz e sopa de algas invadiu suas narinas. Os acompanhamentos estavam sendo postos organizadamente na mesa principal por um garotinho de uniforme escolar, que desligava a panela elétrica cuidadosamente e pegava um talher a mais na gaveta.
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  Quando se virou para a entrada, um sorriso aberto e brilhante demonstrou a mais pura felicidade. Ainda segurando os talheres, ele correu até a mulher, olhando para cima com adoração.
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  — Mamãe! Vai tomar o café da manhã?
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  Luisa engoliu em seco, encarando rapidamente o garoto desconcertada e caminhando até a mesa, limpando a garganta antes de falar.
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  — Não posso demorar — ela não tardou a avisar. Ao se sentar, notou que seus pratos já estavam devidamente separados e organizados. Tucker pousou os hashis ao lado de seu cotovelo, tomando seu lugar do outro lado da mesa — Você fez tudo isso?
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  O garoto assentiu, em felicidade explícita. Aquele seria o melhor dia da semana, senão do mês inteiro. A alegria de tomar um café da manhã com sua mãe só seria substituída pelo dia em que ele comesse algo preparado por ela.
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  Luisa olhou para o filho e desviou os olhos rapidamente.
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  — Já falei para não perder tempo com essas coisas. Você precisa estudar — ela resmungou enquanto pegava o hashi, puxando uma pequena quantidade de arroz. — É pra isso que Galadriel é paga.
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  — A senhora Blanchett não gosta muito daqui — Tucker respondeu tristonho, concentrando-se em começar a comer. — E fui o melhor da classe de novo depois da semana de provas. A professora me perguntou mais uma vez se eu queria pular o ano.
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  O olhar de Luisa continuou focado no mesmo lugar. Ela já tinha conhecimento do rendimento invejável de seu filho. Sabia que ele era mais inteligente do que os demais, e que não necessitava de nenhuma pressão para ser assim. Mas parabenizá-lo por aquilo não era algo que estava disposta a fazer. Nem isso e nem qualquer atitude que poderiam rotulá-la como mãe.
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  Os dois comeram em silêncio por alguns minutos. A refeição preparada por Tucker era melhor do que esperava, o que a deixou tentada a fazer um elogio. Quando ergueu os olhos para isso, viu que o menino fitava algo atrás de suas costas. Devagar, ela se virou na direção da janela atrás, que mostrava o quintal dos fundos e a macieira velha com o brinquedo simples. O pneu estava ocupado por um adolescente pálido e de camisa amarrotada, debilmente combinada com uma calça de flanela e suspensório preto e desgastado. Seus pés estavam descalços, mas isso pouco importava. Ele não estava vivo para sentir o frio terrível do inverno que se instalava com mais força a cada dia.
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  Luisa olhou para o garoto na mesa, que havia pausado a alimentação para acenar de volta para o menino lá fora. Ela estreitou os olhos, descendo os hashis com certa força sobre o tampo, chamando a atenção do filho com um breve susto.
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  — Eu já não disse para se livrar dele?
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  Tucker engoliu em seco, baixando os olhos para a comida.
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  — Mas ele…
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  — Você me fez o favor e falou com ele? — suas sobrancelhas se ergueram. O menino continuou calado. — Enquanto Galadriel estava aqui? Não me admira que ela não goste de ficar. O que tínhamos conversado, Tucker?
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  Tucker usou um milésimo de segundo de seu tempo para imaginar como seria se jogar em uma conversa incômoda e vagamente autoritária com “Roberto” mais uma vez, perguntando-lhe o porquê ainda vagava em seu quintal e se ele e a mãe poderiam ajudá-lo de alguma forma. Apesar de gostar da ideia de ser útil, não foi um milésimo de segundo agradável.
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  — Ele não se lembra, mãe. Ele só quer brincar — os ombros dele se levantaram em uma resposta simples. Luisa franziu os lábios. — Talvez esta fosse a casa dele. Talvez ele só sinta falta…
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  — O quanto exatamente você acha que eu me importo com isso? — a resposta saiu entredentes. Tucker abriu um pouco mais os olhos. — Eu já te disse, sua preocupação deve ser única e exclusivamente com a escola, e quando os mortos aparecem, você simplesmente se livra deles. Faça-os ir embora para longe, lembra?
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  — Não consigo fazer isso — sua voz saiu baixa, envergonhada. — Não do jeito que a senhora faz. Não quero ignorar os problemas, quero contribuir. Quero que tenham uma passagem agradável.
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  — Você… — a mulher começou, mas tratou de fechar os olhos e segurar a língua. A repetição do mesmo assunto nunca foi o forte de Luisa. A insistência em algo já fadado ao destino não era algo que pudesse se intrometer. Desde a primeira vez que viu Tucker dormindo serenamente na pequena incubadora do Hospital de Busan, ela sabia que ele seria igualmente perseguido pela morte, assim como dizia aquele livro velho e antigo que leu quando não sabia o que fazer com 30 milhões de wons e um filho indesejado na barriga. Hereditário. Um fio contínuo. Uma habilidade amaldiçoada, persistente, geração a geração.
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  Certamente, a parte da mediação foi ignorada. Mediar transformava a prática em dom, e ela não se deixaria levar por essas mentiras, muito menos com aquela criança.
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  Entretanto, com o passar dos anos, ela se via cada vez mais frustrada ao notar que Tucker, o filho no qual ela se recusou avidamente a dar qualquer tipo de amor e, mesmo assim, o recebia de forma constante, mantinha apenas aquela característica parecida com a dela: a capacidade de ver. Nada de poderes ocultos e vantajosos. Nada que pudesse torná-lo especial, assim como ela.
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  A única coisa que aquele menino parecia se preocupar era com o bem-estar dos mortos vagantes. E isso deixava a cartomante cada vez mais desapontada.
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  — Não se preocupe, mamãe — ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando no dedo indicador da mulher. — Vamos pensar em algo para ajudá-lo. Somos pessoas interessantes, você e eu. Temos um propósito.
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  Luisa riu em escárnio, desviando-se do toque como se sentisse um choque incômodo. Antigamente, ela duvidava que Tucker tivesse o mesmo humor ácido e irônico que a mãe quando dizia aqueles absurdos, mas a continuidade do assunto dizia que ele realmente acreditava naquilo. O garoto ingênuo era realmente ingênuo. E sempre parecia genuinamente horrorizado quando a mãe tentava mostrá-lo o contrário de tudo isso, o que era ligeiramente cativante.
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  Às vezes, era verdadeiramente questionável como aquela criança tinha saído dela.
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  Por um breve momento, brevíssimo, que mais tarde a deixou desconcertada e envergonhada, Luisa considerou dar um abraço no filho e contar que ele tinha um bom coração, mesmo que isso não significasse nada no mundo real. Mas então, o telefone grudado na parede tocou e ela se lembrou das regras que ela mesma impôs sobre o tratamento que concederia àquela criança, e nenhum deles abriria brechas para as expectativas de uma mãe amorosa.
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  A ligação era um lembrete desesperado de sua clientela no hospital, que esperava impaciente pelo serviço de comunicação extra-corpórea. Ela desligou e olhou para a mesa, onde Tucker ainda tomava calmamente seu café da manhã e fitava a janela à frente. Uma sensação de acalento quis invadir o seu peito, mas foi rapidamente identificada e jogada para escanteio. Todo o seu apetite foi embora com o sentimento intrometido.
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  — Preciso ir. — ela limpou a garganta, fechando botões já fechados nas mangas do pulso. — Junte suas coisas. Vou te deixar na escola.
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  Tucker não precisou de uma ordem. Com entusiasmo, ele saltitou até o quarto no segundo andar, voltando com todos os seus pertences e correndo até o Fiat moderno e caro que se preparava para sair.
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  Ao tirar o carro da garagem, Luisa olhou para o garoto morto no quintal, e prometeu a si mesma que se livraria dele antes da hora do jantar.
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  Aquele foi, de longe, um dos dias mais marcantes de Luisa Mirren.
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  No futuro, ela diria com toda certeza que as coisas começaram a desandar a partir do momento em que ultrapassou as portas do Hospital Municipal.
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  O elevador se encontrava na cobertura. Enquanto esperava, um dos seguranças do corredor espichou o olhar pela mulher por mais tempo que o necessário, vasculhando suas roupas de cima a baixo e não fazendo o menor esforço para esconder a expressão de desdém. Luisa suspirou, balançando os pulsos repletos de pulseiras ornamentais e cristais oceânicos, combinando com seus brincos grandes e o batom escuro que marcavam presença. Pequenas mechas arroxeadas brilhavam nas pontas de seu cabelo, o que finalizava o look extremamente grotesco pela visão da sociedade coreana, mas também vendia seu trabalho como nenhum outro. A bruxa de Gangnam. Você vê o que eu sou, mas não vê quem.
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  O ruído de palavras inaudíveis veio do homem de pé, mais uma vez. Não precisava ter superpoderes para saber as palavras desagradáveis que estavam saindo por aquela boca. Ela viu os números do elevador diminuírem e deu um passo à frente, limpando a garganta para se livrar do ar seco do ambiente.
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  — Eu deveria estar usando um avental, querido? — disse ela, encarando a linha vertical da porta dupla, começando a ouvir a locomotiva se aproximando. O segurança parado há alguns metros primeiro olhou para os lados, confuso, sentindo um nervosismo latente com a possibilidade daquela mulher estranha estar falando sozinha, como gente dessa laia fazia.
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  Quando finalmente o encarou, ele retribuiu o olhar com desprezo.
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  — Pois eu estou trabalhando. Pra pagar minhas contas. Assim como essa pobre enfermeira também estava — as portas se abriram. Luisa lhe lançou uma leve piscadinha antes de entrar e apertou o botão da Ala Vip.
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  O homem deixado para trás sentiu um arrepio na nuca ao notar que não havia ninguém ao seu lado.
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  A expressão despreocupada de Luisa foi a primeira coisa que Arwen Tyler notou. Mesmo encarando o garoto entubado, que não devia ter mais de 24 anos, parecendo genuinamente morto e sem esperanças, a cartomante apenas suspirou e disse:
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  — Acho que posso cuidar disso.
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  A mulher soltou um suspiro de alívio. Em sua companhia, estavam apenas outras duas mulheres, que se mostraram tão aliviadas quanto, e a falta de participantes do sexo oposto só demonstrava como ela devia estar fazendo aquilo às escondidas dos homens céticos e acomodados.
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  No chão ao lado da maca, um tapete médio havia sido desenrolado, estampado com pequenos pontos brancos no tecido negro. Arwen automaticamente pensou na decoração extravagante que viria, como nos filmes e livros de mistério ocidentais que teve contato, mas nada disso veio. Luisa apenas se ajoelhou, indicou para as outras mulheres fazerem o mesmo e puxou uma vela grossa e branca da bolsa, pousando-a no centro.
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  — Você pode mesmo cuidar disso? — uma das companheiras de Arwen não segurou a língua. As mulheres da elite do país estavam preparadas para algo mais notável; sangue de galinha, pentagramas e velas escuras. Aquilo parecia simples demais para que as almas perdidas escutassem o chamado.
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  A Madame Padmé olhou a mulher com paciência. Arwen trincou os dentes para a amiga em repreensão. Ela encarou Luisa em um pedido de desculpas.
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  — Ganhar por hora me qualifica especialmente para cuidar disso — respondeu a médium, reposicionando a vela até que ela atingisse o centro absoluto do tapete. — Você trouxe o item? No mundo dos mortos, ser específico é essencial para que não tenhamos visitas indesejadas.
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  Um arrepio atravessou a espinha das 3 mulheres. Arwen, a mãe desesperada, puxou logo uma pequena medalha de ouro branco, gravada com o nome de Enrique, o garoto acamado logo ao lado. Luisa tirou uma caixa de fósforo do bolso e acendeu a vela com precisão, enrolando a medalha nas mãos.
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  Um soluço sufocado escapou da garganta de Arwen. Luisa quis revirar os olhos, mas fazer isso em um ambiente tão pequeno para ser reparado seria uma tremenda falta de educação. Com cuidado, ela suspirou e fechou os olhos.
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  — Enrique. Onde você está, querido?
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  Nada aconteceu no primeiro momento. Arwen tinha a garganta tão apertada que precisava manter a boca entreaberta. Luisa manteve-se na mesma postura, agora acariciando a joia com leveza.
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  — Enrique, não me faça levantar. Sua mãe está bem aqui e gostaria muito de falar com você. Vamos, apareça.
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  Por um segundo, tudo continuou na mesma. Até mesmo o ar parecia parado. E então, aconteceu.
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  A chama da vela tremeu com o vento produzido pelas cortinas, que se fecharam magicamente sozinhas, mergulhando o quarto no escuro absoluto. A mesma companheira cética levou as mãos à boca após soltar um grito de susto. Arwen prendeu ainda mais a respiração, sem fazer movimentos bruscos, como se já esperasse tal coisa. Os olhos da outra mulher quieta estavam marejados e assustadoramente focados no fogo. Luisa permaneceu estática no mesmo lugar.
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  Ela foi abrindo os olhos devagar, vasculhando o ambiente em busca de uma nova sombra, uma nova presença proveniente da invocação. Não havia sinal do garoto. As correntes em suas mãos eram comprimidas uma na outra, funcionando como um sino estridente no outro lado, chamando o nome específico de Enrique Arana, mas ele não parecia disposto a aparecer.
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  — M-madame Padmé… E-ele… — Arwen gaguejou, apertando os dedos um no outro no colo, mostrando-se mais controlada do que as outras.
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  — Ele não está exatamente morto, como deve saber, sra. Tyler — o tom arrogante da médium não era proposital. Ele era usado constantemente quando estava concentrada. — O processo é um pouco diferente. Pessoas em coma estão partidas ao meio. Uma parte da alma conhece o além, e a outra permanece…
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  Ela parou de falar. Algo se rastejava atrás das sombras das 3 mulheres.
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  Uma massa sombria e disforme que se locomovia pelas paredes.
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  Arwen notou o olhar focado da mulher e se virou para trás, mas seus olhos comuns não eram capazes de ver o que Luisa estava vendo. Mas nenhum coração que batia naquele cômodo deixou de sentir o frio intenso e a aura obscura cair sobre cada metro quadrado.
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  A imagem se deslocou até o chão, macabramente como uma aranha em movimento, com braços e pernas alinhados até que se ergueu em forma bípede. Então, ela se materializou. E Luisa deixou que as mãos trêmulas quase derrubassem o pequeno objeto.
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  Um homem estava parado há alguns metros da maca. Não era alguém que ela conhecia, não era alguém que tinha chamado. Seu rosto era tomado de veias saltadas e negras, e seus olhos eram sórdidos e tenebrosos, exalando o mais puro terror. Uma redoma escapava de si como correntes pesadas, serpenteando sobre o chão e paredes, tomando o ambiente por completo. Luisa sentiu o corpo todo tremer, sentindo-o ser tomado pelo horror. O comportamento não parecia ser voluntário, mas sim, automático. Ela sentiu medo, como não sentia desde os olhos furiosos do pai.
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  — Q-quem… — ela comprimiu os lábios, odiando-se pela voz vacilante. Quem era isso? Como ele se atrevia a deixá-la amedrontada? — Quem é você?
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  A aparição não respondeu. Por um momento, Luisa ficou realmente sem saber o que dizer. Ela nunca acreditara em pessoas que se diziam sem palavras, mas era assim que ela estava. Quando abriu a boca para repetir a pergunta, tudo que saiu foi ar. Então ouviu algo como o início de uma risada, não partindo dela. Quando deu por si, a sombra mortal estava em sua frente, apavorante como a reunião de todas as barbaridades do mundo.
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  Ele se aproximou rápido demais. Luisa raramente era pega de surpresa, mas o terror inicial a deixava com os nervos sensíveis. Um gemido a fez apoiar as mãos no chão, enquanto fitava os olhos negros acima de sua cabeça com um medo irracional. A chama se apagou e acendeu de novo. Ela se sentia totalmente sem o controle da situação.
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  — Madame Padmé, o que está acontecendo? — Arwen agora se despia de todo o controle emocional ao ver a paranormal olhar um ponto fixo invisível e o frio no quarto piorar. Uma das amigas não pareceu ter aguentado e estava desacordada ao lado. A outra parecia que estava prestes a vomitar.
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  Luisa não sabia o que responder. Seus ouvidos estavam vedados pelo tímpano estourando em um pânico crescente. Ao mesmo tempo, ela se sentia frustrada pela aparição estranha e horrível. Lentamente, ele ergueu o dedo indicador e foi descendo-o em direção a ela, começando a abrir um sorriso lascivo e demoníaco, os dentes podres e marcantes como um esqueleto vivo, o sorriso de um cadáver.
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  — Não… — ela arrastou o corpo para trás, inconscientemente.
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  — Madame Padmé… — chorou Arwen.
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  — Não! — Luisa gritou mais uma vez. O dedo a tocou. Seu corpo paralisou.
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  — Você é um pouco inconveniente… prostituta.
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  E então, tudo foi mostrado a ela.
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  Enrique Arana era um filho chaebol de uma grande empresa muito bem estabilizada no país. As riquezas e prosperidade o rondavam desde o nascimento, assim como algo mais terrível e pesado. Em uma regressão veloz e instantânea, ela viu a presença negra e marcante parada ao lado do garoto em diversas situações diferentes, todas esperando, aguardando o momento certo. E então, ela se apossou do que era dela por direito, em uma ocasião banal como um jantar de família, onde ele comemorava a aprovação dos estudos no exterior. Um garoto genuinamente saudável que de repente sofre uma convulsão catatônica e cai bruscamente sobre o próprio prato de comida.
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  Mas a cena veio a Luisa de forma mais completa. A aparição tocou no garoto — tocar, algo que ela jamais vira — da mesma forma que tocou nela há pouco, e suas pupilas desapareceram, assim como toda a cor de seu rosto. Ela viu claramente o momento em que seu corpo pendeu mole sobre a mesa e seu espírito pairou ao lado, olhando confuso por um longo momento para a confusão, como era de se esperar de fantasmas que morriam repentinamente.
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  Mas ele não olhou por muito tempo. Desfrutar da própria morte era um processo difícil e, para quem tinha pendências, duradouro. Mas a alma do garoto estava ali e, então, não estava mais. Um segundo ataque surgiu de suas costas, tão terrível quanto o primeiro, e seu corpo se agitou por inteiro ao tentar se afastar do que o estivesse segurando, mas ele não parecia nada mais que uma mera criança assustada enfrentando um gigante. A assombração assassina virou a cabeça e passou uma língua nos lábios. “Destino”, foi o que repetiu antes de desaparecer com a alma do garoto.
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  Um arfar furioso escapou de Luisa quando ela abriu os olhos novamente, deparando-se com a desesperada Arwen, que chorava como a morte e a fumaça da vela que se apagava pouco a pouco. Seus olhos estavam assustadoramente arregalados e se viraram automaticamente para o garoto deitado na maca. Ela se levantou, apoiou as mãos na cama e esperou alguns minutos. Aceitar aquilo parecia demais. Um terrível pressentimento de tudo ser verdade a tomou por completo.
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  Ao puxar as pálpebras para cima, Luisa soltou um grito inesperado, afastando-se para trás. Um tremor absoluto percorreu cada centímetro de seu corpo. Os lábios ficaram brancos à medida que a ficha ia caindo.
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  Enrique não estava morto, pois sua alma não havia passado para nenhuma dimensão conhecida. Ele também não estava vivo, porque o corpo não sobrevive sem o espírito. Sua alma havia sido devorada, raptada.
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    Como aquilo era possível?
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  — Madame Padmé… Madame, por favor… — ela mal sentiu quando seus pulsos foram agarrados pelas mãos duras de Arwen. A mulher soluçava sem descanso. — Madame, o meu filho… Cadê o meu filho…
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  — Seu filho não está aqui — respondeu Luisa, ainda paralisada. De repente, ela sentiu uma imensa e urgente vontade de sair correndo, uma necessidade de escapar dali o mais rápido possível. Em um impulso, ela se soltou bruscamente das mãos da mulher e começou a pegar sua bolsa e a enrolar o tapete novamente.
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  — O-o que você quer dizer? Ei…
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  — Foi o que eu disse. Não precisa me pagar por essa conversa, agora preciso ir.
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  — Mas… Não…
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  — Por favor — Luisa trincou os dentes, fitando a mulher. — Seu filho está morto, senhora Tyler. Esses aparelhos não irão trazê-lo de volta.
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  E então, ela partiu para a porta, ignorando a tentativa da cliente desesperada de chamá-la de volta. Respirar ar puro do lado de fora pareceu trazer de volta o resto de seu lado racional, e Luisa sentiu de repente uma vontade maluca de sair correndo, de chorar, de gritar de pavor.
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  O que tinha acabado de acontecer ultrapassava o desconhecido, mas de uma coisa ela tinha certeza: jamais queria lidar com almas predestinadas novamente.
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  Tucker foi embora aos 21 anos.
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  Não era para sempre, ainda que Luisa esperasse que sim. Um futuro brilhante estava destinado ao seu filho antes que ele se entendesse por gente. Tucker era bom tanto com os números quanto com as pessoas – vivas e mortas. Aos 21, seu nome foi citado com honorários na formatura dos novos engenheiros graduados pela Universidade de Seul, a mais prestigiada e tradicional universidade de toda a Coreia. As propostas de emprego vinham de todos os cantos, e um garoto recém formado já tinha colhão o suficiente para se tornar independente e andar com as próprias pernas.
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  A oportunidade perfeita dessa nova vida começar veio com a aprovação do mestrado no exterior. Mais especificamente, em Los Angeles, nos Estados Unidos. A carta de aceitação da Universidade de Stanford era basicamente um convite. Eles precisavam de Tucker Mirren, um gênio que tinha um claro interesse específico em Geotecnia e em reformas descartadas. O lugar dele estava mais do que guardado.
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  Mesmo antes de entrar no avião, Luisa sentiu aquilo que sabia que as mães normais sentiam ao ver um filho partir, mesmo que soubesse claramente de sua posição na vida de Tucker: a mulher que lhe deu à luz. A mulher que esteve disposta a lhe colocar em uma boa escola, de educá-lo o suficiente na vida sobrenatural para que não fosse pego ou desse motivos para ser humilhado por seus sentidos mais aguçados e a mulher que não o deixava passar fome. Não uma mulher para ceder abraços calorosos, canções de ninar ou conversas prolongadas sobre a vida. A palavra mãe ainda tinha o mesmo peso incômodo inicial para a mulher, e tentar esconder isso de seu filho e agir como uma perfeita dama estava fora de cogitação. Aquele era o mínimo que poderia oferecer aquela criança que não tinha culpa de nada: honestidade. Por mais cruel que ela parecesse.
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  Para seu crédito, o garoto paranormal tinha adquirido um autoconhecimento muito preciso para alguém que não tinha muitos amigos. Nada parecia abalar as verdadeiras convicções que Tucker tinha cultivado desde que passou a ficar mais tempo sozinho; ele amava sua mãe, independentemente de suas dificuldades afetuosas. Tinha uma rasa curiosidade acerca de seu pai, mas nada que não fosse facilmente esquecido depois de focar a mente em alguma lição de casa. Tinha uma determinação incontestável de exercer o propósito no qual acreditava desde que viu seu primeiro fantasma: ajudar os mortos. Levar luz à escuridão.
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  E, claro, trabalhar com construções. O sonho não veio por acaso. Qualquer relação com libertar fantasmas sem memórias de velhos escombros para erguer um novo monumento “limpo” e sem luzes defeituosas e quedas de temperatura não era mera coincidência.
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  Tucker provavelmente cresceu como uma das únicas crianças a montar o seu próprio futuro. Ele era filho de uma médium famosa, mesmo que fama não significasse exatamente acolhimento. Entre os adultos, o nome de Madame Padmé significava algo perverso, demoníaco, ainda mais porque, para todos os efeitos, não poderiam chamá-la de charlatã. No entanto, entre as crianças de sua idade, prevalecia o julgamento pela aparência, carregados de conceitos arcaicos trazidos diretamente de casa. Afinal, que mulher decente teria o cabelo daquela cor? Como ela pagava aquela escola com aquele trabalho horrendo, vinculado com o Diabo? Sem contar que era solteira, que absurdo…
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  A discriminação infundada de pessoas alheias nunca foi o bastante para incomodar Tucker. Ele sabia perfeitamente o que a mãe fazia. Ele era parte do mesmo meio, possuindo os mesmos poderes inexplicáveis. E, por mais esquiva que Luisa fosse, o garoto passou a entender muito cedo todos os avisos que recebeu desde que nasceu: eles não entendem – e jamais vão entender. Se preocupar com pessoas ignorantes só o faria perder tempo.
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  Essas coisas acalmavam Tucker. Saber que sua mãe estava apenas trabalhando para pagar as contas tornava o pensamento mais maternal. Pensar nela voltando para casa todas as noites parecia ser seu jeito de dizer que o amava.
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  Ele levou essa ideia em consideração quando voltou à Coreia, 4 anos depois. E não estava sozinho.
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  O solo americano foi palco do encontro de Tucker Mirren e Tatiana Bianchi.
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  Primeiro, ele a achava arrogante – e um tanto ácida. O trabalho com artes plásticas exigia de Tatiana uma visão mais profunda do mundo, enquanto Tucker era prático e simplista. No seu exterior, Tatiana enxergou um gênio da matemática carregado de estereótipos machistas orientais, aparecendo por mais vezes do que gostaria na biblioteca municipal onde tentava ganhar a vida até que conseguisse vender algum quadro. Ele, por sua vez, não sabia identificar pessoas dotadas de pré-conceitos até pisar em solo estrangeiro. Ao fundo, as duas pessoas se olhavam de relance entre uma prateleira e outra, buscando entender a origem do atrito ou, até mesmo, a origem da curiosidade que movia seus olhos automaticamente.
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  O rapaz estava para descobrir que aprenderia muitas coisas novas ao entrar naquele avião, e uma delas era Tatiana Bianchi.
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  Em pouco tempo, de forma surpreendente, o coração de Tucker batia descontroladamente quando seus olhos viravam na direção da garota de cabelos escuros que transitava pela cidade em vários bicos diferentes, colhendo gorjetas aqui e ali. Era sensato reprimir esse sentimento, ainda mais porque Tatiana não parecia ser o tipo de garota que gostaria de ser levada para a casa dos pais – amante de cigarros baratos, calças apertadas e decotes ousados, ela era um chamado para uma tremenda dor de cabeça, mas também para algum tipo maluco de libertação.
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  Em contrapartida, a visão que partia dela era a de um garoto elegante e bonito demais para seu gosto. O tipo de homem que a teria facilmente  na palma da mão se se aproximasse demais. Com o tempo, um horror exagerado tomou conta de seu ser quando notava, pouco a pouco, que Tucker Mirren estava caminhando a passos largos para dentro de seu coração, um lugar escuro e fechado, cheio de defesas ancoradas e arames farpados. Tatiana era o traço do sarcasmo, muito diferente do rapaz alto e inocente, de certo modo. A transparência dele acendia algo dentro de si. Uma folha em branco onde ela pudesse reescrever sua história, se livrar do lixo que vinha acumulando de anos e anos de tragédias e derrotas contínuas.
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  Mas Tatiana se surpreenderia ainda mais à medida que ia percebendo  que a vida de Tucker, talvez, não fosse tão simples assim.
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  E então, um ano depois, ela descobriu os fantasmas.
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  A verdade sempre soa como uma brincadeira no início. Todas as palavras do mundo somem da mente e dizer algo não parece ser o correto, sendo mais provável que uma gargalhada ou coisa relativa aconteça primeiro. Tatiana não era uma pessoa crédula, assim como a maioria da população relativamente renegada pelo mundo, mas duvidar da honestidade de Tucker era, no mínimo, inconcebível, e essa ficha caiu como uma piano em sua cabeça quando notou que ele estava falando sério.
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  Ela não pediu desculpas quando se afastou, no sentido mais cruel da palavra. Isso fez Tucker se sentir um miserável, assim como os conselhos de sua mãe diziam que ficaria se contasse a verdade para alguém, mas o que mais poderia fazer? Ele estava apaixonado. E era extremamente recomendável que dissesse toda a verdade para a pessoa que se amava.
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  Sabendo disso, a constatação de que ela também o amava veio de um jeito brusco, acompanhado de um impulso intenso de acreditar no que ele dizia, por mais absurdo que fosse. Se coisas tão infundadas quanto fantasmas poderiam existir no mundo, o amor que ela desconfiava sentir também era real, e isso era apavorante. Dizer em voz alta foi ainda mais.
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  Sendo assim, aqui estava Tatiana Bianchi: apaixonada por um cara que se comunica com os mortos.
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  Apesar disso, não foi preciso muita consideração para aceitar seu pedido de casamento dois anos depois. A vida de Tucker andava depressa, e nos dias mais felizes era fácil se esquecer de que, alguma hora, ele precisaria se despedir e voltar para casa. A ideia deixava Tatiana em uma agitação disfarçada. Perdê-lo não era mais uma opção; muito menos, ficar longe dele.
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  Por isso, em um gesto sarcasticamente cavalheiresco, ela aceitou as alianças em seu dedo sob o teto de uma velha igreja na costa oeste, enquanto dizia palavras bregas e apaixonadas em resposta ao texto introdutório de um velho amigo em comum, uma das únicas testemunhas dessa união oficial.
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  Levou mais 3 meses para que ela arrumasse as malas e se preparasse para pegar um voo de 22 horas para o outro lado do oceano. Foi o tempo necessário para que Tucker se formasse antes do previsto, se apossasse de suas várias cartas de recomendação e rejeitasse educadamente as propostas de emprego na América, alegando que não abriria mão de começar a sua família em casa.
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  Não era como se Luisa não soubesse de Tatiana.
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  No início, os relatórios de Tucker vinham diariamente, falando sobre todo e qualquer mísero acontecimento de sua nova estadia na Califórnia. Claro que eles eram cuidadosamente passados para a mãe, já que esta nunca estava em casa para atender seu telefonema. Ela soube da recepção dos grandes nomes de Stanford, das construções magníficas e históricas que o filho visitara – e das pessoas que ainda moravam ali –, dos livros que andava lendo e da comida ocidental que ainda empurrava forçadamente para dentro. Não era preciso pensar muito para saber que Tucker provavelmente preenchia linhas e mais linhas do diário de couro volumoso, escrevendo e recortando, enchendo-o com memórias tanto físicas quanto emocionais até que o objeto se parecesse incompatível com o resto dele.
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  As cartas com pequenas lembranças também continuavam chegando aos montes. Luisa respondia uma a cada cinco delas, sempre com um tom zombeteiro que dizia que o rapaz não estava aproveitando o suficiente, já que tinha tanto tempo para escrever. Todas acompanhavam um postal, uma pequena foto de aulas de campo e algo pequeno e elegante que pudesse ser carregado por aí. Pelo menos essa era a esperança de Tucker: que sua mãe o levasse por aí, de alguma forma.
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  A primeira vez que falou explicitamente de Tatiana foi em uma das correspondências que haviam se acumulado durante alguns meses. O nome era novo e sutil, facilmente esquecível se mencionado apenas uma vez, mas Luisa prestava mais atenção do que gostaria nas palavras de Tucker. Tatiana Bianchi era a garota da biblioteca, a detestável estudante que insinuava pré-conceitos irracionais sobre seu filho, impulsivamente e agressivamente. Suas orelhas adquiriram um tom de rosa-claro. Foram as palavras frustradas de Tucker que a contaram o ocorrido uma vez, mas serviu perfeitamente para que ganhasse a desaprovação imediata de Luisa. Ela facilmente mandaria a garota para o inferno, mas apenas dobrou a carta e passou para outra.
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  Nem por cem dólares, pensou Luisa. Nem por duzentos.
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  Não é como se fosse durar para sempre. Tucker era adulto e certamente poderia se relacionar com quem quisesse, inclusive, era totalmente recomendável que vivesse todas as aventuras dispostas a si em outro lugar bem longe, mas no final de tudo, ele voltaria para casa. Ela sabia, queria isso, mesmo que nunca fosse admitir. Tucker voltaria para Seul e se casaria com uma mulher coreana, formaria sua perfeita família – ou o mais perto disso – enquanto trabalhava em um bom cargo no governo restaurando patrimônios históricos – e limpando-os, de certo modo, de fantasmas desgarrados que não encontravam o caminho de casa.
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  Mas ela tinha de confessar que estava um pouco desconcertada pela repetição daquele nome nas cartas posteriores. Ele aparecia com mais frequência, e com menos reclamações. Até que chegou ao ponto de ser elogiado. E apresentado a ela através das palavras, como se fosse uma pessoa física, gentil, palpável. Isso não parecia muito… Agradável.
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  Tucker não devia estar falando sério sobre se envolver com essa estrangeira, certo?
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  Porém, quando viu o garoto se aproximando ao longe no aeroporto acompanhado de uma mulher alta, de cabelos escuros e escorridos e pequenas sardas no nariz, ela quase se esqueceu da saudade que sentia do garoto. Antes que eles se aproximassem por completo, a feição da cartomante já estava à beira do desgosto.
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  Tucker a puxou para um longo abraço que a fez sentir o peito quente. Foi um momento raro e bom, onde absolutamente tudo no mundo entrou em equilíbrio; seu filho estava de volta. A Terra ainda girava, e o dinheiro das vendas de futuros ainda era abundante.
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  — Mãe, essa é a Tatiana! Lembra das cartas? — o rapaz abriu um grande sorriso ao mesmo tempo em que esticava um braço para passá-lo pelo ombro da garota. Esta também sorriu e arriscou um “olá” em coreano, que saiu melhor do que a maioria dos turistas, denunciando o tempo em que esteve treinando com nativos.
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  Luisa a encarou por um momento longo demais. Tatiana ergueu o olhar, que cruzou com o dela, e algo pesado e forte passeou por entre as duas mulheres, sentido por ambas em diferentes intensidades. Luisa deu um passo leve para trás, com o cenho franzido, enquanto Tatiana apenas desviou os olhos rapidamente, franzindo as sobrancelhas em arrependimento em vez de crueldade, muito diferente de Luisa. Ela parecia ter levado um choque leve, que, apesar de tudo, ainda era um choque.
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  Ali, Madame Padmé soube que havia algo de errado com aquela garota. E que seu filho precisava se afastar imediatamente.
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  No entanto, antes que dissesse qualquer coisa que faria Tatiana duvidar de si mesma, Tucker deslocou seu braço do ombro para a mão da garota, puxando-as para cima e revelando o brilho dourado que cintilava em conjunto das mãos unidas.
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  Tatiana corou, e ouviu a voz de Tucker dizer: estamos casados!
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  — Grávida?!
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  Foi como Luisa reagiu, menos de dois anos depois da volta de Tucker para casa. Ironicamente, aquele era o mesmo tempo em que ela não o via, desde que descobriu que tinha se casado no exterior com uma mulher qualquer. Ele tinha feito tudo sozinho sem comunicá-la, o que era incomum em todas as facetas, inclusive de aceitar um emprego em Sokcho e de arrumar uma casa no campo, grande e espaçosa para sua nova família. Luisa nunca visitou aquela casa. A recusa era veemente.
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  Por isso, para saber que Tatiana tinha engravidado, ela precisou receber a notícia pessoalmente do garoto, que explodia de felicidade sem limites. Luisa ficou muda, a única reação possível que conseguia esboçar diante do comunicado.
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  Primeiramente, surgiu o sentimento terrível de ser avó, o que provavelmente sabia que ia acontecer, mas não imaginava que seria tão depressa. Segundamente, o filho daquele casal nunca poderia ser coisa boa. Tirando o fato de toda a estranheza e energia pesada que sentia emanando da nora, a miscigenação não fazia parte dos planos que ela tinha para Tucker – ainda que ela mesma fosse parte de uma. Seu pensamento egoísta a fazia crer com todas as forças que ele terminaria exatamente onde ela quisesse. Aquela criança não era parte do roteiro, ela era um acidente.
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  E há quem diga que a cartomante se manteve calada diante de tudo que a desagradava até o presente momento, mas naquele dia específico, a alegria de Tucker incendiou até a mais profunda raiva de seu ser. Família feliz? Casamento feliz? Que se dane. Aquilo era contra tudo de melhor que ela tinha planejado. Tucker estava andando com as próprias pernas de uma forma detestável: casado com uma estrangeira, pai de uma criança que provavelmente nasceria com as mesmas habilidades e, quem sabe, parecido com ela. Absurdo. Não era pra ser assim…
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  As palavras foram duras de propósito, acompanhadas de um olhar maldoso. Tucker raramente perdia o sorriso, mas foi inevitável. Ele achou que conhecia todos os problemas da mãe, e tinha paciência com todas as suas dificuldades afetivas, mas daquela vez era diferente. Ele tinha alguém para defender. Pessoas para se posicionar. Coisas além daquela casa grande com quintal e um passado solitário para se apegar. Tudo pareceu mais simples e direto. Ele amava Luisa, verdadeiramente, mas também amava sua nova família, que agora eram sua nova prioridade.
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  Luisa estava errada. Ele nunca se arrependeria de nada que o levou até Tatiana e, por mais que fosse grato, concederia ao seu filho todo o amor que lhe foi negado desde o nascimento.
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  E então, ele foi embora, e aquela foi a última vez que Luisa viu seu filho vivo.
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Interlúdio II

  Quando Tatiana estava no sexto mês de gravidez, Tucker o viu pela primeira vez.
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  Foi numa fila de banco abarrotada, quando ele tentava abrir uma poupança para a faculdade do filho que ainda não havia nascido. Ele insistiu para que Tatiana ficasse em casa, que seus pés poderiam doer se ficasse mais de 40 minutos de pé e todas essas coisas superprotetoras que Tucker costumava dizer, mas que quase sempre começavam uma discussão. Se ela não estava cansada, então não estava cansada. E queria participar de cada processo que envolvesse o futuro do garotinho ainda sem nome.
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  Sendo assim, ele a deixou, pelo menos, no banco mais próximo e ficou de pé, esperando. O lugar estava mais desorganizado do que cheio, e ele desejou reencontrar um antigo colega de turma que tinha uma família inteira de bancários que não hesitaria em passá-lo na frente. Pelo menos, ele era um dos únicos amigos a quem Tucker se lembrava de poder ligar a qualquer hora; uma das únicas pessoas que não se importaram de Tucker Mirren ser filho de uma bruxa.
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  Logo à sua frente, uma senhora idosa resmungava enquanto contava notas soltas nas mãos, alegando que as coisas naquele país ficavam cada vez mais caras. Em outro ponto, um homem tragava um cigarro serenamente enquanto se sentava há duas cadeiras de distância de Tatiana. Não havia nada de incomum no gesto. Ele puxava a fumaça e a soltava logo em seguida. A redoma de vapor tomava o redor de sua cabeça e, então, se esvaía pelo vento para a primeira saída de ar, bem ao lado de Tatiana.
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  Não que ela se importasse realmente com o cheiro da nicotina. Tatiana tinha parado de fumar apenas alguns meses antes de se casar, um pouco depois do “sim” dito em alto e bom som, porque casar significava ter filhos, e ela não adiaria sua reabilitação só para quando os enjoos começassem.
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  Mas Tucker se importava. A fumaça poderia fazer mal ao bebê e outras tantas coisas que andava lendo sobre maternidade nos últimos meses, mas o homem não chegou nem perto de tomar uma atitude. Porque viu algo horrendo o bastante para paralisar seus braços e pernas.
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  O fumo queimou mais uma vez e se propagou ao redor, porém, a fumaça não se distanciou até que sumisse do lado de fora. Ela pousou ao lado de Tatiana, condensando-se devagar até que assumisse uma forma nebulosa e fina, transformando-se lentamente em um braço e uma perna, em seguida um tronco avantajado, dedos compridos, nariz pontudo, uma pessoa inteira. Uma pessoa feita de fumaça.
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  Tucker franziu o cenho e olhou ao redor, mesmo que no fundo soubesse que coisas daquele tipo não seriam visíveis para outros olhos além dos seus. O vapor continuava se condensando e formando a pessoa como uma peça de argila. À medida que o homem liberava mais gás, mais partes do corpo eram reveladas. Agora ele via pernas longas em calças pretas, botas da mesma cor e o princípio de um sobretudo. De cima para baixo, tudo era um manto negro e atenuante. Até que, por fim, quando chegou aos olhos, as pálpebras fechadas se abriram bruscamente, revelando algo que foi sentido por todo o quadrado, mas que atingiu o peito de Tucker em um golpe sufocante.
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  Os olhos da aparição eram completamente negros, como os de um demônio. A fumaça, antes branca e invisível, agora se transformou em pedaços flutuantes em preto, rondando o rosto maléfico e sem foco, diminuindo a temperatura geral e abalando toda a lógica da mente de Tucker. Suas mãos tremeram, e por um segundo, ele não conseguiu se mexer. Balançou a cabeça, tentando focar nos resmungos da senhora à sua frente novamente, desejando que o que fosse aquilo, sumisse tão rápido quanto apareceu, mas nenhum terror foi tão gritante e expressivo quanto o que sentiu ao ver a cabeça do fantasma virar na direção de Tatiana.
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  Ela encarava o marido com a sobrancelha franzida. Tucker parecia estar passando por uma silenciosa sessão de tortura. Sua boca estava travada em uma linha fina, e os músculos estavam tão retesados que as veias saltavam para fora. Em poucos segundos, o rosto de “estou-vendo-alguém” disse a ela tudo que precisava saber mas, ainda assim, fantasmas eram parte do cotidiano de Tucker. Ele não tinha medo deles. E parecia mais apavorado do que Tatiana jamais viu.
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  A manifestação horrenda continuava em seu processo de olhar e encarar a mulher com veemência, destilando uma aura perceptível de ódio. Tucker acordou depressa e caminhou até ela, pegando-a nas mãos e comunicando-se pelo olhar da melhor forma que conseguiu, apontando com a cabeça para o lado de fora, desculpando-se ao mesmo tempo por dissolver o descanso aos seus pés.
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  — Tucker! O que houve? — Tatiana tentou dizer, mas já estava sendo conduzida para fora. O homem não parecia ter um destino certo. Só caminhava para o mais longe possível do que quer que fosse aquilo.
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  O café ia ficando mais frio à medida que Tucker andava com ele de um lado a outro.
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  Seu nervosismo era amplificado a cada toque não completado da ligação. A assombração repentina era tudo em que conseguia pensar, somado ao jeito como olhava para Tatiana, com reconhecimento, com ódio escancarado.
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  Quando a linha finalmente foi completada, a voz de Luisa soou ruidosa do outro lado, e Tucker ignorou a iminência de uma conversa difícil.
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  — Achei que falar comigo era uma ideia ruim, Tucker — atendeu bruscamente. O homem revirou os olhos.
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  — Não temos vítimas por aqui. E eu não estou te entrevistando ou coisa parecida, então pode só guardar essas pedras, por favor?
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  Um silêncio do outro lado. Um raio cruzou o céu no intervalo das palavras, avisando o início das tempestades de outono.
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  — Problemas no seu paraíso?
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  — Eu vi uma coisa.
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  — Que coisa?
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  — Uma… — um suspiro escapou forte de sua boca. Ele mordeu os lábios e pensou. Por um instante, acreditou no fato de que, não importava o quanto sua mãe estava inserida no paranormal, até mesmo ela poderia achá-lo maluco.
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  — Uma o que? — a voz dela parecia entediada. Não era fácil prever muita coisa apenas pelo ruído do rapaz. Luisa nunca foi boa nessas coisas. — Olha só, estou um pouco atrasada para uma consultoria de um garotinho que jura ter visto a irmã mais velha morta em cima de um quadriciclo na frente de um estábulo, então se puder…
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  — Parecia um demônio, mãe — Tucker largou a xícara de café. Seus dentes trincaram quando olharam para trás, procurando baixar o tom de voz para que Tatiana não o escutasse. — Eu não sei. Eu vi. Tinha olhos negros e assassinos, surgiu no meio da fumaça, era um lugar fechado… E senti um medo inexplicável. Não sei se você acredita, mas eu juro…
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  Silêncio. Luisa tinha uma capacidade extraordinária de prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo, absorvendo conversas e sons ao redor, preparada para qualquer tipo de intervenção. Mas quando ouviu sobre os olhos negros, a linha de raciocínio foi bruscamente interrompida e sua mente entrou em pane. A lembrança do hospital voltou com tudo e o telefone quase escorregou de suas mãos quando sentiu os músculos paralisarem.
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  Por dois dias após o ocorrido, Luisa desmarcou todos os compromissos, seja de trabalho ou não, e ficou trancada no quarto com todas as luzes acesas. Alguma coisa se revirava em sua mente, algum sonho perturbador, como se tal espectro fosse aparecer novamente em sua frente, mesmo ela não tendo feito nada para chamá-lo. Ela desejou que pudesse usar seus poderes em si mesma, qualquer coisa que tirasse aquela imagem de sua cabeça e a deixasse minimamente mais leve.
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  Depois disso, a cartomante avançou por alguns campos entalhados por geleiras no inverno e foi parar em uma alta biblioteca budista no Templo Naritasan Shinshoji no Japão e ficou lá por pelo menos duas semanas. A facilidade que esperou encontrar para descobrir do que aquilo se tratava em um lugar espiritualizado e ritualístico foi duramente frustrada. Os budistas entendiam de demônios e seres sombrios que habitavam em florestas, monstros escondidos em fontes ocultas de água, pequenas cavernas, cepos queimados por raios e divindades que estranhamente deixavam marcas em pedras. O mundo dos mortos era algo insanamente raso e desprezível comparado com todas as maravilhas místicas que vagavam sobre a Terra.
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  Contudo, antes que voltasse para a Coreia com a carga de alguns livros grossos sobre ocultismo debaixo dos braços e várias histórias de terror para contar, um dos monges fez a seguinte pergunta a Luisa:
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  — Você acredita no inferno?
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  Como esperado, ela balançou os ombros.
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  — Isso importa?
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  — Mas acredita no diabo — continuou ele. — Ou em um ser que seja a origem de todos os monstros, não é? Tudo que ouviu aqui pode parecer um grande circo dos horrores, mas todas as bestas vieram de algum lugar. De um único lugar. Se as divindades nasceram da luz, os monstros vieram do contrário e todos os lados são regidos por um mandante. Não concorda? — sua voz era aveludada e romântica. Ele dizia tudo calmamente enquanto servia uma xícara de chá. — O mais engraçado, senhorita Mirren, é que não importa o tipo de conto que ouviu por esses corredores, ninguém aqui jamais viu nenhuma dessas criaturas. Nem mesmo o nosso chefe, que passa metade de um dia em meditação plena e possui uma sabedoria acima do normal. As pessoas gostam de ouvir sobre milagres, mas não sabem como vê-lo. Nunca viram um. Mas hoje nós vimos a senhorita, e acredite, agora sim podemos ter uma história de verdade para contar.
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  Luisa cruzou as sobrancelhas. O homem continuava com seu sorriso singelo.
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  — De que adianta ouvir sobre bestas fantásticas se não as vemos? Mas a senhorita os viu. Vê desde criança. A senhorita é o verdadeiro milagre. O maior que já pisou aqui — então, se aproximou, levando a xícara até o nariz. — Porque todos os monstros nascem do próprio ser humano. A vida e a morte são as duas vertentes da luz e da escuridão, e você é participante dos dois lados. Monstros nada mais são do que humanos renegados, injustiçados, tristes e desalmados. Pobres almas em busca de uma ressignificação para o que deixaram para trás através da vingança.
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  A mulher parou por um momento e engoliu em seco. Os olhos do homem fitavam-na com firmeza, confiante na informação que dava. Luisa não saía por aí anunciando o que podia e não podia fazer, mas não era sempre que encontrava alguém com deduções tão certeiras.
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  — O senhor acredita na vingança? — perguntou em um tom calmo e curioso. Ele estalou a língua, mexendo os músculos faciais em uma expressão divertida.
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  — A vingança é uma patologia venenosa. Mas torna as pessoas mais fortes. Essa é a questão, senhorita Mirren. Entre os mortos, ela pode durar para sempre. Mas o ódio atrelado à vingança deixa marcas por gerações. A ira se transforma em destino. E quem está marcado por ela não tem como ser salvo.
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  Um leve fio de vento roçou a nuca de Luisa, arrepiando seu tronco por completo. Ela sentiu a boca ficar seca repentinamente.
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  — Como uma criança pode se tornar um alvo? — a pergunta foi dita mais para si mesma, em um tom de voz baixo. Enrique veio à sua mente imediatamente, e a imagem horrenda da criatura que fazia a vistoria de seu corpo meio-vivo-meio-morto. De repente, por um milésimo de segundo, ela pensou em Tucker, seu filho de 11 anos que estava nesse momento estudando para alguma prova e brincando com fantasmas em vez de se livrar deles. E se ele visse uma coisa daquelas algum dia? E se estivesse perto deles e tentasse…
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  A ideia a deixou surpreendentemente apavorada.
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  — Já ouviu falar que as crianças herdam os pecados de seus pais? — a resposta a tirou de seu devaneio. — Destino, senhorita Mirren. Um erro que perdura por sucessões de descendência. Um pouco menos, um pouco mais. É muito incerto. A única coisa que sabemos com certeza é a da morte prematura e inevitável de quem carrega esse fardo.
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  Luisa começou a se levantar. Era uma longa caminhada até onde pudesse pegar um táxi, e mais ainda para chegar ao aeroporto. O dia estava bonito, ainda que gelado, mas uma brisa estranha engolia o ar ao redor, algo que comunicava desespero e mistério. Como se todos os segredos do mundo estivessem observando-a por trás daquelas árvores amontoadas do jardim.
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  — Eu preciso ir. Foi um prazer…
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  — Você precisa ter cuidado com eles, senhorita Mirren — ele disse nas costas da mulher. Ela parou, mas não se virou. — Monstros desse tipo adoram se alimentar de almas especiais. Eles são incapazes de tomar seus corpos em vida, mas não há nada que os impeça na morte.
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  Ele tomou o chá com serenidade. Luisa balançou a cabeça e apertou o passo para fora, sentindo a outra grande necessidade de sair daquele lugar, cheio de verdades misteriosas e incompreensíveis.
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  Mesmo assim, ir até ali não foi um exercício inútil. As informações em código recebidas pelo monge não foram totalmente captadas por ela até os dias atuais, mas o fato principal estava ali: fantasmas malignos existiam – e tinham um objetivo. Eram os maiores responsáveis pelas possessões e massacres de famílias inteiras, o que era uma prova a mais da teoria amorfa que Luisa passou a criar havia pouco: uma pessoa precisava morrer, e quase sempre estava à mercê de receber ajuda, o que estendia a fatalidade para quem se envolvesse. No fim, amor e morte andavam juntos, e uma coisa levava à outra.
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  Por isso, quando sua mente foi engolfada por lembranças e a voz de Tucker se perdeu, ela rapidamente achou o caminho de volta para a conversa e todo o desespero anterior foi acionado quando ouviu as palavras:
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  — … e estava olhando para Tatiana…
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  — O que você disse? — ela interrompeu, com angústia latente. Tucker suspirou fundo antes de continuar.
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  — O fantasma olhava pra ela. Não parecia nada perdido, e a olhava como se… como se a conhecesse, como se estivesse esperando…
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  — Tucker Mirren, não diga mais uma palavra! — Luisa havia encontrado energia para gritar. Energia e desespero, tudo combinado. — Você vai juntar as suas coisas e voltar para casa imediatamente, e não estou te dando uma escolha. Essa garota é amaldiçoada, eu já deveria saber, eu senti desde o primeiro momento…
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  — Espera, do que está falando? — Enquanto se movia, Tucker olhou novamente para trás, tentando buscar o equilíbrio no tom de voz. — Amaldiçoada? Ir embora? Mãe, o que você…
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  — Tem um espírito maligno seguindo essa garota e ela vai morrer, Tucker. Não há nada que você possa fazer sobre isso. Ele vai tomar o corpo dela e fazê-la se enterrar por conta própria em alguma vala da beira do rio Han, eu não me importo! Mas você não precisa ter o mesmo destino, então sugiro que arrume suas malas e venha já pra casa.
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  Um silêncio anormal perdurou por um minuto inteiro. Depois, a voz de Tucker ecoou de um jeito atípico, diferente, parecendo tenso e urgente:
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  — Você ficou maluca? — o trincar de seus dentes pode ser ouvido do outro lado da linha. Luisa parou, sabendo que aquele tom não era um traço típico do filho, de maneira que ela imediatamente se sentiu incomodada. — Estamos falando de algum moribundo aqui? Estamos falando da minha esposa, mãe! Do meu filho, o seu neto! Você consegue se ouvir?
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  — Essa criança é um erro, Tucker! Uma coisa é nascer com sentidos especiais, mas nascer de uma mulher amaldiçoada? Acha que ele vai longe? Acha que ele não vai ser capaz de matar toda a sua família perfeita?
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  — O que você sabe sobre isso? — a voz dele começou a falhar. — O que são esses espíritos? O que eles querem com a Tatiana?
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  — Eles querem matá-la e nada mais do que isso! E deixá-la pairar do seu lado vai te levar pro mesmo destino.
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  — Isso é crueldade. Isso é… — a garganta de Tucker ia se fechando pouco a pouco. Ele parecia prestes a colocar as mãos nos bolsos, sentir o metal sólido das chaves do carro, buscando algo presente do momento para que mantivesse sua consciência lógica no lugar e pensasse. Porém, quando se tratava do mundo dos mortos, era fácil se perder em suposições. Ele queria acreditar que era exatamente o que sua mãe estava fazendo: supondo. Mas a clareza em sua voz não o deixava acreditar nessa parte.
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  Tucker sempre pertenceu a menos lugares do que as outras pessoas. A certeza de que o seu espaço perfeito estaria guardado em algum canto por aí serviu como motivação para continuar sendo plenamente quem era. O lugar certo estava reservado ao lado de Tatiana, com a família que formariam com os olhos focados apenas no futuro, sem trazer o passado imutável à tona. Não havia espaço em sua mente para que refletisse sobre qualquer vingança sendo apontada para a garota sorridente pela qual se apaixonou na América. O que importava era seu desespero por tirá-la desse alvo e impedir seja lá o que estivesse tentando se meter em sua família, o lugar onde ele finalmente pertencia.
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  Suas mãos penderam ao lado do corpo quando sua mente finalmente encontrou um eixo. Luisa tremia do outro lado, imaginando coisas terríveis com o silêncio, concentrando-se em ouvir a respiração do garoto.
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  — Se você não quer ajudar, tudo bem. Mas desistir e sair correndo não é uma opção. Não sei como foi capaz de pensar que eu faria uma coisa dessas.
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  A afirmação não oferecia nenhum tipo de negociação. Luisa sentiu uma queimação no nariz, descendo para o peito, formando uma tremenda vontade de berrar e enlouquecer. Algumas palavras se atropelavam em sua garganta, indícios de uma mudança de ideia e um orgulho sendo asfixiado, mas ela era mais forte do que os sentimentos desesperados de uma mãe. Tucker perceberia, mais cedo ou mais tarde, o perigo que estava correndo sem motivo e logo estaria de volta em casa.
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  — Na sua caixa de correio — disse após disfarçar uma fungada.
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  — Onde?
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  — Vou te enviar uma coisa — seus olhos se fecharam com força. Os nós de seus dedos se tornaram brancos enquanto apertavam o telefone. — Uma coisa que vai te explicar tudo, e você vai entender! Se não abandoná-la agora, você e aquela criança vão morrer, Tucker. E não vou fazer nada para impedir isso.
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  — Mãe…
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  Sem esperar o fim da frase, Luisa bateu o telefone no gancho apressadamente, soltando todo o ar preso na garganta. O estacionamento do outro lado da janela estava banhado pelo sol do fim da tarde e seu punho tremia em necessidade de desferir um soco no vidro, um soco raivoso até que a divisória desaparecesse e o ar entrasse de forma correta naquele cômodo pequeno no alto da antiga casa.
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  No fim, foi o que acabou fazendo. O golpe no vidro foi infinito. O berro saiu sem nenhum pudor e o sangue escorreu até o pulso. Ela quis fazer coisas inimagináveis, coisas que jurou que jamais faria, como usar seus poderes no próprio filho, ainda que nunca tenha precisado. Tucker sempre fora o menino perfeito e obediente, dotado de uma adoração incompreensível pela mãe e fazendo-a pensar que, independente do que quisesse na vida, a vontade dela prevaleceria sobre suas escolhas.
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  Mas desde Tatiana, essas expectativas foram gradativamente frustradas. Tucker amava sua mãe, mas também amava sua esposa e sua nova vida. As tentativas de juntar os dois lados foram muitas e cansativas e, naquela conversa ao telefone, pareceu um ultimato. E ele tinha feito sua escolha.
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  Aquele era apenas o primeiro ato de Luisa na busca de seu afastamento total de Tucker e toda a bagunça sombria em que estava se metendo. O rapaz voltou a procurá-la mais vezes, e era duramente recebido com silêncio e indiferença. As palavras nos livros se tornavam cada vez mais confusas, enquanto uma angústia sem tamanho o dizia que o tempo estava se esgotando. Assim como a aparição em seus sonhos.
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  Luisa acreditava severamente que sua nora carregava uma terrível maldição. Uma marca, como disse o monge de anos atrás. Aquelas que, com toda certeza, foram adquiridas de forma inconsciente e que colocavam fantasmas malignos em sua cola, igualmente ao garoto do hospital, preso entre duas dimensões. Aquele era o destino de Tatiana – a herança maldita de seus pais.
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  Era noite de natal quando a cartomante se encontrava parada sob a luminosidade fraca do poste no meio fio, mantendo a postura firme e uma expressão dura como granito. A hesitação percorria cada nervo de seu corpo; a dúvida martelava em seus ouvidos. Se fizesse aquilo, haveria consequências – mais perguntas de Tucker, passar uma impressão errada de que se preocupava com ele e aquela família, limites antes nunca ultrapassados… Ela precisava aceitá-las antes de ir em frente.
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  Por fim, a mulher suspirou e esfregou as duas mãos dentro de luvas grossas de couro para aquecê-las antes de entrar no carro e dirigir para a casinha no campo.
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  A ligação anterior de Tucker continuava soando como se ainda estivesse acontecendo. Toda a insistência pela defesa de Tatiana a deixava genuinamente enojada. A bondade do garoto – que claramente não veio dela, e, considerando toda a situação do pai, dificilmente foi herdado daquele lado – era algo distante da realidade que construiu. Por alguns segundos, Luisa se arrependeu por não ter abominado esse lado naquela criança desde que notou a primeira vez. Por não tê-la ensinado direito que pessoas boas eram fracas, e quem não tinha capacidade de salvar a própria pele primeiro estava fadado à morte e ao fracasso.
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  Era tudo por Tatiana…
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  Com alguns minutos de pesquisa e algum dinheiro, ela descobriu, algumas semanas atrás, que a mulher não tinha família viva – o que se tornou auto explicativo por si só. Tatiana Bianchi – agora Tatiana Mirren – não era uma pessoa ruim, mas vinha de um lar massacrado por demônios e isso era algo que Tucker se recusava a enxergar.
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  Pobre garoto. Do pai, Tucker provavelmente recebera esse instinto audacioso, fugaz e uma terrível síndrome de herói. O gosto pela pesquisa e os estudos foram herdados de ninguém exatamente. Alguma parte das duas gerações tinham deixado aquele garoto tão burro e tão inteligente na mesma proporção.
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  Lembrar disso vinha junto com sentimentos de desgosto que eram brutalmente afogados. Aquela devia ser a parte dela em Tucker, além de toda a aptidão com fantasmas: o ego incansável, o que ela tinha de sobra e que o garoto se recusou a pegar, nem que seja um pouco. Ele tinha feito tudo que lhe foi mandado, até mesmo uma década de aulas de instrumentos musicais clássicos e aulas de taekwondo de verdade, mas quando mais ela desejou sua submissão, quando sua vida estava em risco, ele escolheu o outro lado.
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  Um sinal vermelho obrigou Luisa a parar. A cada minuto que se aproximava mais do cruzamento que iria em direção a Sokcho e todo o seu campo com odor marítimo, uma nova arritmia acontecia em seu peito. Um desespero urgente de alcançar seu destino, um sentimento estranho.
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  Em essência, ela sairia de casa bem antes disso e buscaria o próprio filho daquele lugar distante, colocando-o sob sua proteção até que a hora chegasse, independente de sua vontade. Porém, sem saber, Tucker já estava buscando meios de parar seja lá o que fosse aquela coisa. A assombração voltou a aparecer em momentos esporádicos depois do banco. Uma vez no mercado, em casa, no banco de trás do carro. Situações em que ele paralisava de medo e não sabia como reagir. Não sabia como falar com tal coisa. Ele só sentia a imensa vontade de matar que emanava daquele ser, e toda essa vontade voltada para Tatiana.
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  E então, nasceu em setembro. E tudo de ruim que poderia ter existido até ali, desapareceu por um tempo.
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  Um tempo curto demais.
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  Luisa não estivera por perto por muito tempo, mas, enquanto estivera, fora uma excelente professora. Ela sempre fazia questão de dizer que se Deus existisse, não poderia distribuir coisas boas por tanto tempo. Ele sempre as tomava de volta para uma melhor disposição entre seus filhos; ninguém, jamais, experimentaria felicidade para sempre. Tucker sentiu isso na pele quando tudo ruiu naquela noite de natal.
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  O papel de pai não era tão simples quanto se pensava – nem todos tinham o colhão de aguentar e seguir em frente. Seu próprio pai não teve a coragem suficiente para tal coisa. Mesmo assim, cuidar de uma criança fazia parte dos planos do rapaz, ainda que sem pressa. Mas quando chegou, ele sabia que aquele garotinho esteve esperando por ele como uma recompensa por todas as boas ações que teve durante a vida.
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  Em um momento tão feliz, ele queria que sua mãe o conhecesse. Tucker estava em um estado atípico, catatônico, um tanto cansado demais e esgotado demais pelas recentes preocupações exageradas e todas as leituras que contava brevemente a Tatiana. Ela podia saber dos fantasmas, mas não precisava necessariamente saber que estava sendo um alvo de um. No entanto, a mulher era observadora e não era como se não desconfiasse que Tucker escondia alguma coisa. Os livros de ocultismo e possessões demoníacas espalhados pela mesa do escritório diziam isso. Alguma coisa estava acontecendo e ela o confrontaria se a bolsa não tivesse estourado em poucas horas depois.
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  Depois disso, nada mais importava. Apenas e seu novo sorriso que iluminava o cômodo inteiro da casa. O momento de paz e felicidade antes da tragédia.
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  Na noite de natal, Tucker ligou para sua mãe pela última vez. Para convidá-la para a ceia. Luisa foi abrupta e concisa ao arranhar a voz:
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  — Agora você até mesmo participa de confraternizações ocidentais? Por causa dela? Não, obrigada.
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  — Você não quer conhecer o…
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  — Não quero saber dessa criança condenada, achei que tinha deixado isso bem claro, Tucker — foi o que ela disse, com amargura. Ela ainda estava esperando; um pedido de desculpas, um aviso de desistência, um natal tedioso e comum a dois, como sempre tinha sido.
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  Em vez disso, uma respiração pesada e ruidosa gritou em seus ouvidos através da ligação.
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  — Estou tentando, mãe, juro que estou — as palavras saíram fracas, em cansaço. — As coisas estão mais tranquilas agora. Eu não o vejo há semanas… Desde que nasceu. Ainda leio aqueles livros, mas com menos frequência… — mentiu. Luisa não estava lá para ver seu lábio tremer. — Não é como se ele tivesse muitos parentes para visitar. Só não quero que depois seja tarde demais.
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  Rir foi a reação imediata da cartomante, mas o peso das palavras seriam capazes de levá-la ao chão, se seu inconsciente já não pensasse imediatamente em um plano de ação para colocá-la de pé. Seu punho quis acertar a janela de vidro novamente. O sangue implorou para sair, junto com a raiva.
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  — Adeus, Tucker — e se preparou para desligar primeiro, como de praxe.
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  — Feliz natal, Madame Padmé — a voz do rapaz foi alta o suficiente para que ela ouvisse longe dos ouvidos. Quando aproximou o objeto novamente, a voz de Tucker era baixa e aveludada, em um alívio conclusivo. — Eu te amo, mãe.
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  Aquele “eu te amo” passeou por todos os pontos do cérebro de Luisa até que ela soltasse o telefone de volta no gancho com força. Ela quis soltar uma série de impropérios tão variados e afiados que impressionaria Tucker. Os xingamentos acabariam com ele mais do que qualquer golpe. Mas, no fim, a única coisa que saiu dela foi um resmungo atravessado entre os dentes trincados. Uma injúria de frustração que pesou em seu peito como uma bigorna. Um incômodo sentimento de culpa revelava o que ela realmente queria gritar: me ama? Como você ainda pode dizer isso? Depois de tudo que eu disse? Depois de tudo que fiz? Depois de todas as vezes que deixei bem claro o quanto você foi um acidente…
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  Como você ainda pode me amar?
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  Eu não mereço ser amada.
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  Eu não quero ser amada.
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  Eu não quero amar ninguém.
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  Nem mesmo você.
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  Ela acendeu o quinto cigarro da noite. Girou os braços como moinhos para afastar a fumaça e encheu uma taça de vinho. Olhou para a neve que caía lá fora e sentiu o peso incômodo que a acompanharia no caminho inteiro até Sokcho mais tarde.
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  Quando estacionou na frente do jardim, as luzes amareladas estavam acesas. Ela ouviu um grito e um choro estridente. Todo o terror se estilhaçou e derramou dentro de si. Joelhos encontravam peitos à medida que a cartomante correu em luta contra a neve, prendendo a respiração e o medo, afastando os piores pensamentos.
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  Ela não precisou bater na porta. A entrada estava aberta, pavimentada com sangue pelo piso de madeira, adiantando o último suspiro que Tucker Mirren dava metros adentro.
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Continua

  N/A FIXA 📌: Olá! Você aterrissou no meu tesouro!
  Me faltam as palavras certas pra expressar como eu amo essa fic e tudo que ela me trouxe, tudo que ela se transformou e tudo que veio a partir dela. Grandes coisas, grandes acontecimentos, não cabem nessas linhas de rodapé. Tenho uma gratidão intensa por Ghost Feelings e espero que você, novato nesse território, termine essa epopeia com o mesmo sentimento meu e de muitos: ainda bem que eu parei aqui. Aproveita!
  Caso você se interesse, dá uma passadinha no meu perfil no instagram (@sialrzm), onde eu posto sobre outras fanfics, avisos de atualização e muito mais. E reiterando: nunca deixe de falar o que achou da fic, isso é MUITO importante pra mim! Agradeço de coração pelo seu tempo e pelo seu feedback 🔗 

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Lelen
Admin
1 mês atrás

Caceta, gente que vê gente morta não tem paz mesmo, né? JKPASONDASPODN
Pera, será se quem está por trás do Jin é a Luisa? SENHORA, DEIXA MEU HOMI LINDO E DOCE EM PAZ. Oh, Tucker é o pai do JK então? Por isso o Jin falou que o Jungkook se parecia com o pai? POR QUE O JEITINHO PARECE MESMO KKKKKKKK
Ah não, pera, se o Tucker é o pai do JK, então a Luisa é a vovó. VOVÓ, EU TÔ JULGANDO A SUA VERSÃO MAIS JOVEM. ESPERO VER QUANDO VOCÊ COMEÇOU O SEU ARCO DE REDENÇÃO, OK? kkkkkrying
Eu tô vendo uma história se repetindo, não sei se rio ou se choro, help.
Pera, Tatiana era uma alma destinada também, aí Tucker percebeu/viu E EM ALGUM MOMENTO DEU MERDA QUANDO ELE TENTOU INTERVIR, NÃO É? 
Gente, pqp, eu aqui querendo umas respostas (tive umas) e arrumando mais perguntas, TENHA DÓ DE MIM, SIAL IOSDBFAOSPNDAPOSDNP

PS: Sim, eu fui comentando enquanto eu tava lendo, então dá pra ver todo o raciocínio que eu tive aqui kkkk
E agora eu tô pensando que talvez não tenha nada por trás do Jin, se ele for esse negócio de alma destinada, talvez ele fosse uma coisa quando encarnado e outra depois que morreu, maaaas, tem umas coisas que ainda me fazem acreditar que ele é só mais um fantoche nesse teatro todo, viu? HASOASHPO

Lelen
Admin
1 mês atrás

🤡🤡🤡 eu sou o Tucker todinha (nem tanto, mas é kkk), acho que eu iria longe para poder tentar salvar as pessoas que eu amo, mas PQP, né kkkkkkkkrying
E Ô PORRA, OLHA COMO TERMINOU ESSE CAPÍTULO, PQP GZUS AMADO, NÃO PODEEEEEE. Então foi vovó que colocou o menino pra adoção? Que caraio de presente de natal, hein? Fala sério. E ainda vai chegar outro presente no presente, né? AAAAAAAAAAAAAAH. PQP.


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