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Ghost Feelings

Capítulo 17 – Concepção de setembro

  — Pela última vez, — Naomi bufou pela terceira vez do outro lado da linha, e tenho certeza de que eu já teria levado um belo empurrão se estivesse do seu lado — Eu ‘tô bem! Muito bem, aliás, principalmente depois de receber o seu presente, que por sinal me deixou muito curiosa. Desde quando começamos a trocar lembrancinhas de casais comuns? Devo te comprar um relógio caro ou algo assim?
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  Ignorei o embrulhar do meu estômago ao pensar nas flores brancas paradas em algum canto do seu quarto de hotel e me contentei em apenas limpar a garganta.
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  — Quando você chega? — Eu sabia que estava estranho, e que ela deveria estar juntando as sobrancelhas nesse exato momento, se perguntando por que meu tom de voz estava tão… Como posso dizer, tenso? Como se eu tivesse uma faca no pescoço ou qualquer coisa parecida.
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  Ela sabia onde eu estava, com quem eu estava, e por isso não me faria perguntas difíceis demais.
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  Sua resposta demorou a vir, chegando em um tom mais baixo:
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  — Vou direto pra sua casa em dois dias. Devo me preocupar com o conteúdo da conversa?
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  Olhei rapidamente para do meu lado, que dirigia a menos de 50km/h em uma pista lisa e sem interferência nenhuma, como se estivesse transportando alguém que quebrou todos os ossos do corpo e não apenas a mão direita.
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  — Prefiro não adiantar nada — Respondi, olhando para fora da janela de novo — Conseguiu manter a nova chave extra que eu te dei ou vou ter que te encontrar batendo papo com o porteiro de novo?
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  — Ei, a filha dele não o deixa ver o neto, tá bom? Isso pode ser muito doloroso para alguém que frequenta o AA — Senti os olhos dela se revirando enquanto segurava uma risada. Típico — Fiz mais três cópias extras, senhor semi-organizado. O café da manhã vai estar na mesa assim que você acordar.
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  — Tudo bem — Suspirei, apoiando o cotovelo do braço bom na janela — Vou te esperar em dois dias. Agora preciso desligar.
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  — — Ouvi o eco de sua voz quando afastei um pouco o celular. Apenas murmurei em resposta e ela ficou em silêncio por um minuto inteiro — É muito grave?
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  Encostei a cabeça no banco. A música eletrônica de , embora baixa, não ajudava que eu me concentrasse nas próximas palavras, mesmo que eu não fosse e nem quisesse exatamente mentir. Eu realmente tinha algo sério a tratar com Naomi, e ela estava ciente disso a partir do momento em que disquei seu número, mas não adiantaria muito deixá-la preocupada e ansiosa tão antes da hora.
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  — Vamos usar o termo hermético, por enquanto. Com você aqui, essa palavra não existe, lembra?
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  Ouvi sua risadinha do outro lado. Ela tinha aceitado a resposta.
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  — Nem essa e nem qualquer outro termo formal que te deixe ainda mais sexy, babe. — Suspirou — Fica tranquilo. Vamos resolver, não importa o que seja.
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  Murmurei uma despedida breve e desliguei novamente o celular. terminava de curvar na esquina do prédio na West End Avenue, cantarolando seja lá o que fosse, acompanhando as batidas frenéticas do aparelho de som. Eu conseguia pensar apenas na única ligação perdida de que eu teria de retornar, de preferência depois de despachar o mais rápido que eu conseguisse.
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  Infelizmente, não consegui me livrar do seu serviço de babá.
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  Para todos os efeitos, eu parecia ter sofrido um grave acidente que me deixaria sequelas por um breve período de tempo. Pelo menos era essa a fábula que Sperber parece ter saído contando por aí. Pra não dizer que esse tinha sido o grande motivo pra me manter preso naquela enfermaria até o final da tarde.
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   havia se ocupado durante todo o dia em resolver burocracias referentes ao meu carro, que devia estar parado em qualquer guincho da cidade, trazê-lo de volta e me levar pra casa.
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  Juro que tentei mandá-lo embora de todas as formas que conhecia, mas ele parecia decidido a cuidar de mim como se eu fosse um inválido.
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  — E você precisa tomar esse remédio a cada 3 horas, esse outro a cada 6, e esse um por dia… ou será esse? Por dia que eles dizem é a qualquer hora? E se for na hora do outro remédio? Essa Linda não facilita mesmo as coisas…
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  E era nessa situação que eu me encontrava.
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  Não me atrevi a ligar meu celular em nenhum momento desde que cheguei em casa. Eu não poderia retornar nenhuma das ligações enquanto estivesse por perto. Alguma hora ele se cansaria e se jogaria no sofá, e pegaria no sono depois de alguns minutos. Eu só não sabia especificar quando seria isso.
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  Às nove, isso ainda parecia um pouco longe de acontecer. Tomei um banho, sentindo o cheiro da pizza na cozinha logo quando saí do box. As caixas espalhadas pela ilha foram a confirmação de que ele não pretendia ir embora tão cedo.
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  — Ah, você ‘tá aí — Disse ele quando entrei no cômodo — Infelizmente, a tradição da pizza com cerveja vai ser quebrada pelo famoso desentupidor de pia que é a coca cola. Pode colocar a culpa nos seus duzentos antibióticos.
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  Revirei os olhos, caminhando para o sofá enquanto sentia de novo aquela dor incômoda no braço.
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  — Você perdeu a consciência por alguns momentos no banho? Levou quase 1 hora — Ele resmungou enquanto vinha atrás de mim, trazendo duas caixas de pizza com ele.
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  — Claro que não — Respondi, com uma risada um tanto engasgada e nervosa — Acho que só perdi a noção do tempo.
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  Ele concordou com a cabeça, se jogando no outro sofá enquanto abria o telefone em algum aplicativo que sugaria seus olhos e sua atenção em um espaço recorde de tempo. Olhei para a frente, para a TV desligada, o tapete, as paredes, cada canto visível que preencheria minha mente. Não sabia se ajudaria em alguma coisa. Eu só precisava me certificar de que o tempo continuava correndo.
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  Depois que me vi sozinho no leito mal iluminado, comecei a me sentir um pouco anestesiado. Mesmo com o desespero ainda pulsando na cabeça sobre Naomi e a visita inesperada de – e todo o discurso que tive que submetê-la, todas as mentiras que contei à uma garota que só estava preocupada comigo –, eu me sentia estranho. Como se tudo tivesse acontecido há uma semana, e não há algumas horas.
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  Quero acreditar que meu cérebro tenha fritado depois de chacoalhar tanto com a sucessão de choques e decidido simplesmente entrar em colapso. O ontem e o hoje foram a própria definição de excesso de informação. Então, quando finalmente parei – como agora, ou como quando me vi livre das inspeções de Linda Sperber –, eu parecia estar assistindo as cenas novamente, como um filme. Voltando em algumas partes, pausando e acelerando outras. Uma onda de arrepios me tomava a cada recapitulação. Porque não parecia real, a situação toda parecia estar distante demais.
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  Ao forçar meu cérebro a se lembrar de tudo, novas cenas entravam na roda. Cenas finais, para ser mais exato. Eu sabia o que havia acontecido, o que tinha visto, mas estava tão apavorado com a ideia de Naomi estar morta que não me atentei aos detalhes quando recobrei a consciência.
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  Uma segunda presença. Uma que não estava congelada no tempo, uma outra pessoa, eu tinha certeza disso. Mesmo que estivesse tão delirante pela dor. Ela conversou com e, mais do que isso, salvou a minha vida. Pela reação dele, não foi uma conversa muito amigável.
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  Quem diabos era tal pessoa?!
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  Olhei para , agora mordendo um grande pedaço de pizza, ainda sem desgrudar os olhos do celular. Tranquilo e despreocupado – como sempre –, totalmente alheio ao turbilhão de pensamentos que me perturbavam.
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  — — Chamei. Ele murmurou em resposta — O que andam falando sobre mim? — Ele baixou o celular até a altura do queixo, franzindo a testa pela minha pergunta — Digo, sobre o acidente.
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  — Que tipo de pergunta é essa? — Respondeu, ainda mastigando — Por que quer saber disso?
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  — Ouvi dizer que tinham vídeos, fotos ou sei lá — Dei de ombros — Você tem aí? Posso ver?
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  Ele ajustou a postura contra o sofá, parecendo cauteloso na próxima resposta.
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  — , eu acho melhor…
  — Eu quero ver. Por favor.
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  Levou um tempo até que ele se levantasse do sofá e sentasse ao meu lado, ainda um tanto resignado. Me encarou mais uma vez enquanto buscava o que eu pedi na imensidão de material que guardava no celular, e continuei estático, demonstrando que não mudaria de opinião.
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  Finalmente, ele bufou em derrota e inclinou a tela na horizontal, entregando o telefone na minha mão enquanto as imagens começavam a acontecer na minha frente.
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  Elas me mostraram o que eu já sabia. O carro girando loucamente pela pista, o intervalo que passei perdido na inconsciência que duraram menos de cinco minutos e minha saída desesperada até a frente do para-choque. Toda a esquisitice que sabia que tinha feito, nenhuma novidade. Apesar de que eu tinha que concordar com o telefone sem fio, eu realmente parecia um lunático. Do tipo bem Norman Bates, doido de pedra.
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  Mas não era isso que eu esperava confirmar assistindo o filme sinistro que me tinha como personagem principal.
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  Eu esperava ver a segunda aparição.
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  Mas ao final do vídeo, especificamente na hora em que eu levantava e começava a voltar para o carro, a hora que eu me lembrava nitidamente ser a que os flocos de neve pararam de cair, a transmissão simplesmente parou em uma explosão de curto circuito. Como uma falha grave de sinal, acompanhado de um chiado irritante característico de televisores com defeito. Não havia mais nada.
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  Olhei pra de novo.
  — Todos os vídeos estão assim — Respondeu ele, pegando o celular de volta — Eles filmaram de vários ângulos, mas o conteúdo para ao mesmo tempo. Acho que o frio danificou alguma torre de telefone, vai saber. — Ele deu de ombros, mas desviou os olhos na hora. Como se duvidasse de suas próprias palavras.
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  Franzi o rosto, frustrado. Não que esperasse sucesso na tentativa de enxergar um ser sobrenatural através de uma gravação, mas tinha que descartar a possibilidade. Sabia perfeitamente que outro mistério na minha cola não me faria nada bem. Todo esse lance de perseguição e ameaças de morte iminente estava começando a me tirar a paciência e me fazer esquecer que tenho uma vida normal para lidar – para fingir –, e que para isso era necessário um mínimo de concentração da minha parte.
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  Era mais fácil falar.
  Como eu poderia me concentrar em qualquer outra coisa sabendo que: a) estava sendo seguida e observada pelo seu irmão falecido que, por motivos nada claros, tinha se tornado um espírito do mais maligno com habilidades assustadoras das quais jamais previ; b) ainda estava disposta a ir atrás do culpado pela morte de Elena e, mesmo que isso soe como qualquer maravilha heróica, só eu sabia dos perigos que tinham nessa missão insana porque era exatamente o que ele queria; c) não se lembrava do conflito com Elena naquela noite em Woodlawn, que incluiu um beijo nada planejado que foi simplesmente apagado da sua mente por outro fantasma com habilidades incríveis que eu também não tinha conhecimento, vulgo minha avó – e talvez eu não tivesse que me concentrar mesmo nisso; d) O ex namorado traficante de Elena era a única pessoa na face da terra, além de Naomi, que sabia sobre mim e meu serviço à comunidade de impedir que ela matasse pessoas – incluindo ele mesmo. Ah, e talvez ele tenha me oferecido uma mãozinha para acelerar o processo; e) Lembram que o irmão de é um fantasma maligno com sede de vingança? Pois bem, ele parece conhecer o meu pai. O biológico, no caso. E parece saber bem mais do que isso. Esse com certeza era o tipo de coisa que eu mais afogava nas profundezas do meu inconsciente; e f) .
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  Por fim, concluímos que a minha vida estava beirando ao caos nuclear.
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  — Esses foram os últimos que sobraram, dei um jeito de derrubar a maioria, sei que Katarina usa o YouTube às vezes… — Continuou , percebendo meu silêncio.
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  — Você não vai perguntar nada?
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  — Perguntar o que?
  — Não quer saber o que foi isso? — Inclinei a cabeça para o celular — Ou que tipo de coisa muito errada está acontecendo comigo pra agir dessa forma?
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  — Não acho que você queira realmente me contar. — Deu de ombros, voltando para o outro sofá — E eu não dou bola pra todas as histórias mirabolantes que falam sobre você, achei que soubesse disso. Não lembra da escola? — ele levantou as sobrancelhas, como se as lembranças fossem auto explicativas — Acho que tô mais aliviado por te ver vivo e quase inteiro. Não vou ter que passar por uma conversa difícil com a sua mãe, ela me enterraria junto com você. Em compensação, nenhuma gata do lado leste sabe que eu sou seu amigo, então ainda tenho chance com elas.
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  Revirei os olhos.
  — Idiota.
  Idiota e ignorante. De propósito. Ele sabia que eu estava escondendo alguma coisa, tinha me dito isso com todas as letras há algumas horas atrás em alto e bom som, mas será que ele fingia tão bem assim? Eu não era o único a mentir bem nessa sala?
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  — Mas vai me contar alguma hora, não vai? — Perguntou ele depois de um tempo — Sobre o que aconteceu hoje. E sobre outras coisas também.
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  Levei quase um minuto para concordar com a cabeça, mesmo não sabendo se algum dia seria capaz de fazer tal coisa.
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  O silêncio era ensurdecedor às duas da manhã. O único barulho que atravessava o cômodo de forma violenta eram os roncos intercalados de .
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  Saí do quarto com o máximo de cautela. Terminei de colocar a jaqueta jeans escura por cima do suéter, e coloquei os tênis com cuidado enquanto seguia para a porta em total alerta. babava no travesseiro e tinha o corpo torto e largado no sofá. Se meus cálculos estavam certos – e eu esperava que estivessem, tinham de estar – eu teria umas boas quatro horas lá fora sem que ele começasse a ter os espasmos bizarros que o fariam levantar para ir ao banheiro. E, agindo irritantemente como uma perfeita enfermeira, ele entraria no meu quarto pra ver se eu não estava febril ou coisa parecida. E se não me visse na cama, acredito que nenhuma história que eu inventasse seria plausível o suficiente.
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  Abri a porta com cuidado, olhando para trás a todo momento, percebendo cada movimento ínfimo dos seus músculos. Além de um ronco pesado e uma movimentação rápida dos braços, ele parecia totalmente imerso em algum universo paralelo que incluísse skins de League of Legends.
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  A corrente de vento no corredor já me preparava para a temperatura negativa que eu sentiria do lado de fora. De repente não pareceu que eu estava com as roupas certas – a quantidade certa. Peguei o celular com pressa enquanto descia pelas escadas rapidamente, sabendo que não teria garantias com o que pretendia fazer. Mas tinha que tentar, mesmo que a hora fosse propícia apenas para uma série de condutas degeneradas que com certeza passaram pela mente do sr. Garner da portaria assim que me viu atravessar a entrada. Mas não podia explicá-lo que, se eu ficasse mais um minuto em um maldito repouso, tinha certeza absoluta que enlouqueceria.
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  A voz de surgiu após o quinto toque, quando eu acabava de pôr os pés para fora do prédio e começava uma caminhada rápida até o fluxo de trânsito mais próximo onde eu pudesse pegar um táxi.
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  — A celebridade do momento. — O tom sarcástico demonstrou que ele estava muito bem acordado — Achei que estava morto em uma vala.
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  — Posso ter chegado bem perto — murmurei, e ele ficou em silêncio — Onde você está?
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  — Esqueça.
  — Por que?!
  — Achei que estava morto em uma vala.
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  Trinquei os dentes, parando no meio-fio enquanto rolava os olhos pela rua em busca de um carro amarelo.
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  — Acho que entende o motivo de eu ter atrasado.
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  Ele bufou, sussurrando algo ao redor que não pude entender.
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  — Lembra daquele lugar onde conversamos pela primeira vez?
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  — O covil para onde seus subalternos me sequestraram?
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  — Você deve entender melhor de covis do que eu — Ele riu, destilando ironia. — Vou te esperar lá. Não uso duas vezes o mesmo lugar, mas creio que a situação é um pouco crítica para minha sistematização. Vou fazer umas ligações e você pode entrar direto.
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  — Ok, eu…
  — Não se atrase.
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  E desligou.
  Olhei pro telefone e revirei os olhos, me perguntando por que raios era com ele que eu dividia um segredo tão importante.
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  Mais dez passos e finalmente um táxi estacionou ao meu lado. Estava tão frio, com o vapor saindo de minhas narinas em uma nuvem espessa e meu nariz congelando tanto quanto meus dedos, que o ar quente de dentro do veículo me atingiu como um soco pelo choque térmico. Desejei desesperadamente que aquilo não piorasse a minha maldita situação debilitada.
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  Não demorou muito para que ele estacionasse em frente aos portões de Morningside Heights. Um arrepio ultrapassou minha espinha ao visualizar aquela reta da 116 Street Station, e logo mais à frente a encruzilhada da W 120th Street, intacta, movimentada – mesmo àquela hora –, normal. Como se não tivesse sido palco de uma loucura sobrenatural há menos de 24 horas atrás.
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  Passei o capuz pela cabeça, lembrando-me repentinamente da primeira vez que me arrisquei a invadir a universidade. Em nenhum momento a ideia de entrar pela porta da frente me passou pela cabeça. Afinal, meu conceito de invadir não levava em conta toda aquela audácia.
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  Porém, por incrível que pareça, parecia estar falando a verdade quanto ao conteúdo de suas ligações misteriosas. O homem na guarita tinha uma expressão carrancuda e medonha, e o barulho do clique do portão de ferro me fez olhar automaticamente para as duas extremidades de suas pontas, mostrando as câmeras de segurança que poderiam me ferrar em zilhões de maneiras diferentes. Ele acompanhou meu olhar e deu um sorriso estranho de canto, inclinando a cabeça para o lado enquanto pegava um jornal debaixo do painel e desaparecia por trás dele.
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  Queria dizer que tinha tempo para questionar, até mesmo admirar toda aquela influência estranha vinda de e que eu não sabia ainda se era bom ou ruim estar envolvido em tudo isso, mas eu não tinha esse tempo sobrando. Apressei o passo para dentro, ouvindo os mesmos portões se fechando às minhas costas logo assim que passei o corpo por ele, cerrando os olhos pelo vento gelado que me acertava como um chicote no rosto. Maldito frio polar da madrugada.
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  Atravessei o estacionamento e parei na minha vaga habitual por trás da pilastra, tentando me lembrar da direção em que fui arrastado pelos dois energúmenos há algumas semanas atrás. Não foi difícil visualizar a porta dupla do galpão escuro e fechado, aparentemente abandonado à mercê da futura reforma, proveniente das verbas de famílias ricas e políticos influentes que de vez em quando se preocupavam com a educação do país.
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  Eu não fazia ideia de como entraria. Tudo estava lacrado e escuro como breu, um silêncio cortante que me fazia ouvir até o vento em meus ouvidos. Tateei os bolsos em busca do celular para avisá-lo que não era por ver fantasmas que eu podia atravessar paredes quando um clique alto soou do outro lado da porta e uma mão me puxou rapidamente para dentro, da mesma forma como havia sido na Gibbons naquela fatídica noite.
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  O jeito anfitrião de Ash realmente era peculiar.
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  Eu não fazia ideia da reforma particular que ele havia feito naquelas paredes, mas do lado de dentro estava tão bem iluminado que quase tive de proteger os olhos. A mesma mesa riscada se encontrava no centro, assim como as muletas de apoiadas ao lado de sua cadeira. Olhei para o lado e me deparei com os mesmos dois rostos desagradáveis que já haviam me arrastado até seu chefe agora mais vezes do que eu gostaria.
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  — Deus do céu, , você tá um lixo — Ouvi a voz de enquanto eu levantava a sobrancelha para o loiro alto que segurava meu antebraço esquerdo. O outro deve ter procurado meu direito, mas encontrou-o apoiado a uma tipoia — Soltem-no, não veem que ele não consegue machucar uma barata nesse estado?
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  Os dois deram passos bruscos para trás, assumindo posições de soldados preguiçosos enquanto ancoravam as costas na parede úmida.
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  — Acho que eu ainda teria vantagem sobre um aleijado — Apontei para as muletas e ele sorriu, me encarando de cima abaixo.
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  — Babaca desgraçado — Murmurou ele, inclinando as costas para trás. — Disseram que você parou o trânsito hoje. Achei que seu plano fosse ficar invisível.
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  — Queria que essas coisas dependessem só de mim — Dei um sorriso sarcástico, puxando a cadeira à sua frente e me acomodando. — E então, conseguiu o que eu pedi? Cadê ele?
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  Ele me encarou fixamente antes de transferir o olhar para algum ponto atrás de mim.
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  — Então ele é o cara? — Uma voz nova e feminina surgiu por trás de minhas costas, e segui o som até encontrar uma garota apoiada no outro canto do galpão, entre as prateleiras industriais desgastadas enquanto retirava earpods dos ouvidos. Ela era negra, alta e com tranças até a cintura. Também tinha cílios enormes e um olhar bastante persuasivo. Ela riu de forma seca ao me encarar. — Não sabia que você andava com CDFs agora, Ash.
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  — Ele salvou minha vida, queria que eu o ignorasse? — levantou uma das sobrancelhas. — Esta é Maverick. Acho que você teve sorte de estar na mira da morte por hoje. Ela não costuma dar segundas chances.
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  — Sua gratidão é irresistível — Ela sorriu sem mostrar os dentes e caminhou até a mesa, sentando-se com as pernas cruzadas por cima dela. — E então, você é o famoso . Não imaginei que fosse tão bonitinho.
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  — E não imaginei que você fosse uma garota — Dei de ombros, olhando rapidamente para .
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  — Tudo bem, gosto da expressão de surpresa quando descobrem — Ela inclinou o corpo para algo semelhante a uma bolsa pousada ao lado da cadeira de Ash, puxando um notebook fino e fios bagunçados enquanto os conectava nas entradas. — E então, o que posso fazer por você?
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  Olhei para , com os olhos confusos por um momento. Percebi que só o ato de mencionar o que eu realmente estava fazendo ali, principalmente na frente de uma pessoa desconhecida, já liberava uma torrente de culpa dentro de mim. Mesmo que fosse ridículo, mesmo que eu não tivesse de estar me preocupando com essas coisas agora.
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  — A filha de Rose respondeu, virando-se para a garota. — Lembra dela?
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  Um sorriso lascivo pareceu iluminar os olhos maquiados dela, como se lembrasse de algo divertido e engraçado.
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  — Ah, claro. A pequena , como posso esquecer? — Ela voou com os dedos pelo teclado, digitando algo que não pude ver. — Até que ponto gostaria de saber de sua vida perfeita e patética?
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  Não achava que ter um fantasma maluco querendo te matar fosse ter uma vida perfeita, mas considerando que ela não sabia disso, preferi ignorar essa parte.
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  — Não sei direito… — Comecei a falar.
  — Imaginei que não — Ela interrompeu, sorrindo pra mim por cima da tela. Suspirou antes de continuar: — Bem, como posso dizer? Ela consegue agir como uma perfeita princesa irritante quando quer, mas não posso culpá-la tanto com a mãe e histórias tristes que tem.
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  Empinei meus ouvidos, arrastando a cadeira mais para a frente quase que automaticamente.
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  — Sabe alguma coisa desse sobrenome, ?
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  — Só… Coisas da internet — Respondi, hesitante. A situação não parecia ter uma resposta certa — E a casa dela já pode dizer bastante coisa.
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  — Então já esteve dentro da mansão da família Addams? — Ela riu, sem tirar os olhos do que lia. Abri a boca para responder que não era nada daquilo que ela pudesse estar imaginando, mas vi as sobrancelhas levantadas de e percebi que nada sairia além de palavras cortadas. — Espertinho, gostei. Mas sim, a família comandava Wall Street melhor do que Jordan Belfort, de forma mais limpa e menos caótica, é claro. Talvez por isso não se interessaram em escrever um livro sobre eles. Ninguém quer ler sobre pessoas que recebem bênçãos a cada segundo, é chato — Ela suspirou, virando a tela pra mim, mostrando uma foto de estúdio de uma família de quatro, com o adulto e o garoto vestindo ternos escuros e caros e a mulher e a garotinha com vestidos de seda e laços enormes na cintura. Os reconheci imediatamente. — A nossa família do momento. Bobby , o pai, CEO, detentor de um poder aquisitivo imenso, principalmente nos anos 90, controlando uma das maiores corretoras da Bolsa de todo o país. Fazia quase um milhão de dólares por dia, tá bom pra você? — Ela mostrou um sorriso de canto. — É tão absurdo que você chega a se questionar se ele não sangrou em alguma encruzilhada para conseguir tamanha prosperidade, não é mesmo?
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  Me remexi na cadeira. soltou uma risada alta.
  — Rose , a mãe, socialite e aspirante a primeira-dama dos Estados Unidos. Na verdade, é só uma perua maluca e classuda que se viu tendo de trabalhar pela primeira vez na vida depois que o marido morreu. Ou foi pego pelos cães do inferno, nunca vamos saber — Ela deu de ombros. — Atualmente, se senta atrás de uma grande mesa em Wall Street e administra uma corporativa bastante rentável até, apesar de não chegar nem na esquina do que o marido ganhava. Mas com a balbúrdia do fim da corretora, foi o máximo que ela conseguiu fazer para manter o padrão de vida. Ao menos ela tem casa própria e uma herança bem gorda do falecido.
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  — Você a conhece? — Perguntei repentinamente.
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  Ela mordeu o lábio inferior enquanto pensava em suas próximas palavras.
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  — Digamos que ela é uma perfeita alusão à bruxa má do Oeste, e possui um estoque de feitiços excelentes para atrair pessoas influentes e pescar seu grande amor: o dinheiro. Tenho plena certeza de que um câncer terminal não a assustaria tanto quanto a ideia de ficar pobre — Ela sorriu de forma irônica, voltando-se à tela. — Agora podemos falar das crianças?
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  Ela apertou uma tecla e de repente várias fotos aleatórias foram jogadas em minha direção. Fotos de , diversas delas. Estava sempre rodeado de várias pessoas, com em algumas das fotos; havia imagens dele em várias paisagens ao redor do mundo, com capacete de proteção e roupas características de várias das práticas esportivas mais perigosas e insanas que eu conhecia, como pular de pára-quedas, rapel, bungee jump, entre outras.
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  — Ninguém pode dizer que esse aí não viveu — Comentou , e só agora percebi que ele havia acendido um cigarro.
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  — Ah, pode apostar que sim, a vida dele daria um ótimo documentário da Discovery Channel. Mesmo que agora esteja mortinho da silva.
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  — Como ele morreu? — Perguntei.
  Maverick digitou mais um pouco e uma compilação de imagens de fotografias de jornais, sites e blogs informativos piscavam na tela com frases gigantes em negrito “Herdeiro da Investimentos morre tragicamente em acidente de carro” e uma foto logo abaixo de um Mustang de luxo completamente destruído. Olhei a data rapidamente nos anúncios. Sete anos atrás.
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  — Ele bateu o carro numa árvore perto da ponte do Queensboro, há sete anos agora. E… estava junto com ele.
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  Olhei pra ela imediatamente, arfando. A informação pareceu me pegar como um tapa.
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  — O-o que?
  — É, pouca gente sabe disso. Rose conseguiu abafar a maior parte do conteúdo, e os que estão disponíveis hoje não passam de uma breve menção ao nome dele. Mas consegui vários vídeos de reportagens da época, alguns um tanto perturbadores. Não me leve a mal, você claramente é ateu e tudo mais, mas juro que questionaria sua lucidez depois de ver o estado em que ela ficou. O carro ficou completamente arrebentado e ela só quebrou uma perna, além de alguns arranhões. Parecia impossível que ela fosse sair dessa, mas ela tá aí, sem nenhuma sequela.
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  Olhei pra foto de novo, sentindo a boca ficar seca. Maverick não estava brincando, o carro realmente estava arruinado, transformado em uma grande lataria. Era inconcebível que alguém conseguisse sair vivo dali.
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  — Ele só tinha 21 anos — falou baixo, encarando as fotos do carro amassado com concentração quase empática.
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  — Nem me fala — Maverick suspirou. — Tinha a mesma idade que todos nós agora, e já tinha feito mais coisas do que eu pensei em fazer. Nas férias de verão ele se metia em embarcações, ia até o Haiti ser voluntário na construção de casas populares e escolas, doava uma boa parte do seu dinheiro para todas as instituições beneficentes locais que podem existir, e tinha toda essa merda de esporte radical. E ainda era um gato… Deus realmente tem seus favoritos? — Ela soltou uma risada, que não retribuí. Estava muito ocupado tentando encaixar aquela imagem de no espírito que estava por aí. — Bom, uma coisa é certa: ele não tinha lá muito jeito de ficar sentado atrás de um escritório em Wall Street como o fabuloso Bobby.
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  Ela tinha razão. parecia ser um cara notável à seu modo, mas ele realmente se dava bem com todas as pessoas? Era um filho amável com os pais? Será que foi submetido a uma pressão tão grande por um futuro que nem sequer queria?
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  Outra coisa me chamou a atenção naquele exato momento.
  — Como Bobby morreu? — Perguntei, lembrando-me da outra fotografia, e de como havia herdado aqueles olhos.
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  — Ah, ele morreu bem antes. Complicação de uma cirurgia no fígado, é só o que eu achei. tinha sete anos, uns treze. Desde então, os negócios foram contemplados pela incompetência mascarada de Rose. Não é engraçado? Claro que é, é hilário ver uma mulher rica bajular outros ricos pra ver se mantêm o número de zeros na conta. É capaz até de usar a pobrezinha da filha pra isso.
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   trincou os dentes com força, cruzando as sobrancelhas em direção à Maverick, tornando sua expressão mais séria de repente.
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  — Você sabe que fica absurdamente sexy com essa cara de quem tá me repreendendo, mas não posso evitar de falar a verdade.
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  — Essa verdade é uma especulação, querida respondeu com ênfase, a voz arrastada como se demonstrasse tédio pela repetição do assunto.
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  — Do que estão falando? — Perguntei, ansioso por não entender do que se tratava aquela troca de olhares. Maverick virou a cabeça rapidamente para mim. — Como assim usar a filha?
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  — Oh querido, acredita mesmo que existe algum amor naquele relacionamento fajuto da princesa e do macho narcisista que transa com ela? — Ela disse com a voz teatralmente doce. Ouvi um estalar de língua de . — Não me entenda mal, Ash, gosto do , você sabe disso. Só não gosto da energia pesada e autoritária de quem acha que pode me dar ordens. Deixo essa tolerância nas suas mãos — Ela sorriu para ele, virando-se para mim novamente. — Mas pelo visto Rose não se importaria em empurrar a filha para um maníaco qualquer se isso a garantisse laços fortes e garantias a longo prazo com uma família abastada. E acredite, os certamente cumprem bem esse papel.
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  — O que você quer dizer? Que o namoro de é por pura conveniência? — Perguntei, dobrando os dedos com certa força por cima do tampo da mesa. Eu estava vidrado no rosto dela, como se a desafiasse a mentir ou brincar sobre o assunto.
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  — Não estamos falando de um contrato e nem nada disso — Ela balançou a cabeça. murmurou um “Maverick” mais uma vez, mas ela apenas o ignorou. — Claro que eles transam e dão uns amassos quentes como qualquer namoro de verdade. E pode parecer nitidamente louco por ela, mas há algo por debaixo dos panos, e esse algo inclui conversas secretas de Rose com o todo-poderoso Elio em jantares executivos trimestrais, posso pagar pra ver.
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  — Especulações — repetiu, brincando com os dedos por cima da mesa — E exageros.
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  Ela revirou os olhos até as órbitas, bufando.
  — Não acredite em tudo que vê, — Ela inclinou a cabeça para mais perto do meu rosto, falando em um sussurro: — Se tiver interesse em tirar a calcinha da , eu te dou todo o apoio.
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  — Limites, Maverick — falou, rindo de forma leve enquanto puxava um dos dedos dela, afastando-a de mim. Agradeci internamente por isso, porque assim talvez ela não reparasse nos pontos quentes que tomaram meu rosto naquele momento, e o quanto isso era ridículo.
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  — Você sempre diz isso — Ela grunhiu. — Mesmo depois de me fazer preparar um dossiê sobre um cara morto. É bizarro.
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  Olhei para a tela do computador novamente, deixando que as informações passassem pra minha cabeça e eu obtivesse o máximo que pudesse. não era absolutamente nada ao cara exalando vida bem à minha frente. Perguntei à Maverick se existia algo a mais sobre ele, qualquer coisa, uma que talvez estivesse escondida, alguma coisa digna de reviravolta que me faria ao menos compreender porque um cara como esse mergulharia em um ódio profundo contra a própria irmã para querer matá-la.
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  Ela me deu a negação esperada. E de repente entendi que, em um mundo onde vivos e mortos facilmente coexistem, os olhos humanos eram incapazes de captar toda a verdade. Quanto mais computadores.
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  E de repente, a pergunta que aguardava na ponta da minha língua finalmente surgiu.
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  — O que é a cicatriz? — Olhei pra Maverick. — Ela tem uma cicatriz… Um corte grande, bem no meio do abdômen…
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  Maverick e se entreolharam, ela arregalando os olhos por um instante.
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  — Então quer dizer que você tirou a calcinha dela?! — Ela perguntou, com uma palminha de excitação.
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  — Quê?! Não…
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  — Espera, você viu a cicatriz? — inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Como isso aconteceu? Aquele papo na biblioteca era sobre isso?
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  Concordei com a cabeça.
  — Juro que não foi intencional — Suspirei, relembrando o episódio no hospital. — Mas algo me dizia que era importante e… Por que estão me olhando com essa cara?
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   limpou a garganta, se ajeitando na cadeira e desviando os olhos. Maverick apenas levantou as sobrancelhas, encolhendo-se por um momento.
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  — Você deve ser tipo a segunda pessoa na face da terra que já viu essa cicatriz, tirando a família e os médicos — respondeu, jogando a bituca do cigarro terminado no chão. — já comentou sobre ela. Acho que ele não sabia bem o que dizer, e talvez tenha vomitado alguns comentários nada agradáveis de um namorado, mas tenho certeza que isso não importa agora.
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  — Ah, mas é claro — Maverick riu de nervoso, jogando as pernas para fora da mesa. — Ele deve mandá-la usar uma blusa ou qualquer outra coisa enquanto come ela em cima de uma mesa. Assim fica mais fácil cumprir as exigências do pai de namorar com a formosa , que foi vendida como um tesouro perfeito, mas que se mostrou como uma propaganda enganosa com aquela cicatriz. Ele deve ter se sentido enganado.
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  — O que você tá dizendo? — Trinquei os dentes, de repente sentindo o peito quente por um sentimento maluco de raiva. Não dela, só talvez, bem talvez, por imaginar as coisas que ele dizia.
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  — Maverick… — suspirou novamente, como se repreendesse uma criança de cinco anos pela quadragésima vez.
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  — Tudo bem, tudo bem — Ela levantou as mãos em rendição. — Tirando toda a parte das teorias de conspiração sobre como o soberano garoto se sente, a cicatriz da é um fato e um imenso estigma. Ela fez uma cirurgia aos oito anos de idade, resultado de um diagnóstico atrasado de colangite esclerosante primária, o que já é raro por si só. O resto você pode adivinhar, doutor — Ela suspirou, de repente assumindo o semblante empático por meio instante. — Os ductos biliares já estavam nas últimas e a progressão para cirrose hepática não estava tão lenta. Ela não iria aguentar nenhum outro tipo de tratamento com drogas, e também não havia tempo. O único tratamento definitivo era o transplante.
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  Senti um arrepio violento na base da nuca. Os olhos de Maverick focaram-se em algum ponto da tela enquanto ouviu de forma preguiçosa, já tendo um breve conhecimento do que ela falava.
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  De repente, minha mente pareceu encontrar uma brecha para vagar para uma imagem de criança, só uma criança, sofrendo com fadiga e icterícia, dores que ela talvez não soubesse identificar naquela época, um caos acontecendo bem diante de seus olhos com pessoas correndo para salvar sua vida enquanto ela não entendia porquê.
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  Ela não entendia que estava morrendo.
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  Subitamente, quando uma dessas lâmpadas invisíveis se acendem acima de sua cabeça e você finalmente chega ao ponto de partida do que realmente quer dizer, uma pergunta pareceu desesperada para sair. Para que eu a soltasse, rápido, antes que eu a esquecesse, antes que eu saísse daquele antro sem nada, que eu não iria me arrepender se a deixasse sair…
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  — Deve ter sido difícil encontrar um doador — Falei, deixando que a força estranha guiasse minha língua para descobrir o que quer que fosse.
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  — A pontuação dela no MELD estava altíssima, favorável, era a primeira da lista, mas nada disso importa quando não se tem tempo. E isso ela definitivamente não tinha…
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  — Então quem foi o doador?
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  — Ora essa, quem você acha? — ela riu e ergueu os olhos — O pai dela, claro. Nosso querido Bobby de Wall Street.
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  A lâmpada em minha cabeça se transformou em uma voz sem rosto, que repetiu na mesma intensidade obscura, como se me teletransportasse para o momento novamente:
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  “Me matou igual fez com seu irmão, com seu pai, com mais quem, ? Quem será o próximo da sua lista? Amiga…”
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  Minha cabeça latejou.
  Os imunossupressores. A cicatriz no lugar exato do fígado. A elastografia – meu Deus, como não pensei nisso na hora? Estava tão óbvio! –, a recusa em dirigir, a preocupação com a comida. A complicação da cirurgia que matou seu pai, que a deixou viva por mais alguns anos, até finalmente perder seu irmão. Em um acidente em que ela estava, que presenciou, assim como a morte anterior.
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  Passei as mãos nos cabelos, completamente absorto por alguns segundos enquanto constatava em quanta desgraça havia rondado a vida de . No quanto ela havia aguentado por todo esse tempo, no quê exatamente aguentava agora, e tentei ignorar a vontade arrebatadora que me tomou pra saber de tudo, absolutamente tudo que a incomodava, a deixava infeliz e simplesmente fazer qualquer coisa para que desaparecessem. Será que um sentimento tão grande e tão forte como a culpa é capaz de atrair todo o tipo de infortúnio para si? De repente nunca quis tanto vê-la, e por mais que não fosse capaz de abrir o jogo sobre nada disso em momento algum, eu sentia algo forte e quente dentro de mim que certamente me fariam levantar e correr até certo quintal e subir em algumas árvores de novo.
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  Balancei a cabeça, expulsando os pensamentos banais que chegavam sem o meu controle. Olhei para , que parecia estranhamente reflexivo com a informação, como se tivesse escutado algo novo.
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  — Essa é a parte do estigma, rapazes — Maverick falou novamente depois de um tempo. — Essa deve ter sido a informação mais confidencial que consegui sobre isso, mas culpem o algoritmo incompetente do Presbyterian. As fichas médicas dos pacientes estão praticamente expostas. Mas, para todos os efeitos, absolutamente ninguém sabe sobre essa informação. É sério, ninguém. Culpem a velha bruxa por isso — Ela deu de ombros. — Seria uma vergonha social se descobrissem que seu marido morreu por algo tão estúpido como doar praticamente metade do fígado pra filha querida.
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  Olhei pra ela, um tanto estupefato.
  — Ah, não me olhe assim, Rose sabe bem como abafar escândalos e qualquer coisa que ela ache no mínimo vergonhoso para uma boa reputação. Posso te dar uma lista, se quiser — Ela sorriu. — Mas há coisas que realmente só ficarão em especulações. Como a forma com que essa rainha vermelha deve ter tratado a princesa depois de perder o marido por causa dela. Talvez por isso pense que tenha que compensar de alguma forma atendendo os desejos malucos da mãe dela, como namorar um cara como .
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   revirou os olhos novamente.
  Os pensamentos sobre namoro de conveniência e as possíveis palavras de sobre pareciam agitar alguma coisa dentro de mim, alguma coisa desconhecida que me fazia ter vontade de perguntá-lo cara a cara até que me dissesse o que ousava pensar sobre ela, mesmo sabendo da situação, ou grande parte dela. E tinha a leve impressão de que não seria capaz de ouvir sua resposta até o fim porque meu punho fechado em sua boca não aguentariam esperar. Mas rejeitei novamente, olhando para a frente, para a tela de novo, reparando em algo que não havia notado antes.
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  — Quem é esse? — Perguntei, apontando para um cara que estava presente em grande parte das fotos junto com . Era o mesmo cara que estava com e o irmão na foto da prateleira.
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  Um sorriso cintilou os lábios de Maverick.
  — É o Kim. Um belo gato, não é mesmo? — Suspirou. — A família dele é uma das mais poderosas do nordeste do país, quase no mesmo patamar da . Ele era o melhor amigo do , do tipo crescer juntos e todas essas coisas. As famílias são bem unidas, ou pelo menos eram.
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  — Como assim eram?
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  — Ah, você sabe, quando essas merdas acontecem nada fica do mesmo jeito. O bateu as botas muito cedo, foi um baque pra todo mundo. Depois de um tempo, a família Kim transferiu a sede da empresa pro Canadá e o foi cursar a graduação em Oxford. Eles não foram mais vistos juntos.
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  Lembrei-me do tom levemente amargo de e da mulher ao falarem sobre , e sua aparente volta. Como se fosse algo a ser temido de alguma forma, em um sentido indefinido da coisa.
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  — Sabe alguma coisa sobre uma possível volta dele?
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  — Isso é alguma informação confidencial?! — Maverick arregalou os olhos, digitando com avidez. — Eu tô totalmente por fora disso, não acredito. Mas vou adorar ver essa cena, pode acreditar — Ela riu, mordendo o lábio inferior.
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  Juntei as sobrancelhas, confuso. Ela focou os olhos em mim.
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  — Talvez exista outro motivo obscuro que explique o afastamento dos com os Kim, e te garanto que esses dois estão no centro disso.
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  — O quê…
   bufou forte, empurrando a cadeira para trás enquanto apoiava-se na muleta, colocando-se de pé de forma mais rápida que da última vez.
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  — Dá uma pausa nas suas fábulas, Maverick — Ele murmurou, seguindo para um dos cantos da prateleira. — Vou buscar o seu maldito pagamento.
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  Ela sorriu animada enquanto descia da mesa e remexia na bolsa por onde saíam os fios, tirando de lá um pequeno pen-drive e erguendo-o em minha direção.
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  — Aqui, acho melhor você ficar com isso. É todo material que eu consegui. Algumas coisas são melhor analisadas com calma do que ouvidas da boca de alguém.
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  — Obrigado — Dei um sorriso de canto, guardando o pequeno objeto no bolso — Ajudou bastante. Aposto que não vai me dizer seu nome, não é?
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  — Por enquanto não, doutor. Espero que não se ofenda — Dei de ombros, demonstrando claramente que poderia viver sem isso. — Mas… Posso perguntar se é verdade?
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  — O que?
  — Você e a . Tem alguma coisa acontecendo entre vocês?
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  — Não — Respondi rápido demais. — Não… Definitivamente não.
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  — Então você quer que alguma coisa aconteça?
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  — Também não — Bufei, colocando mãos desajeitadas nos bolsos enquanto ignorava o embrulho no estômago. — Não tem nada demais, somos apenas… Amigos.
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  Amigos, pff. Eu tinha enlouquecido?
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  Mas que outro nome eu daria para Maverick finalmente parar de me lançar aquele olhar desconfiado de um detetive na sala de interrogatório quando escuta do acusado: “Não fui eu”?
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  A diferença é que ela parecia estar se divertindo.
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  — Mas já beijou ela, certo?
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  São nesses momentos que se cospe a bebida quando o susto do flagrante é tão repentino que traz tudo à tona, da maneira mais literal da coisa. Eu não estava bebendo nada, mas posso garantir que fiquei com cara de tacho por tempo suficiente para confirmar tudo.
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  Ela arregalou os olhos e começou a rir. Eu realmente tinha enlouquecido.
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  — Deus do céu, isso é demais! — Ela bateu palminhas. — Fico aliviada que você tenha se encaixado na hipótese A.
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  — O que? Espera… Você acabou de jogar um verde? — Não pude disfarçar a indignação na minha voz.
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  — Não necessariamente, sendo que te fiz uma pergunta antes. Mas consegui fazê-lo pensar que já sabia, não é? É um dos meus talentos, , não fica chateado — Ela mordeu o lábio inferior, me encarando fixamente como se pudesse arrancar mais segredos. — Mas ou era isso ou você era um stalker pervertido mirando na . Fico feliz que a opção vencedora é a óbvia!
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  — Pois é, mas não é nada disso que você es…
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  — Fica frio, . Cruzei a linha te perguntando isso porque não aguentei a curiosidade, mas normalmente não quero e nem preciso saber porquê meus clientes fazem o que fazem, ou querem o que querem. E os segredos daquele ali são muito bem guardados por mim, e já que ele tem uma dívida a honrar com você, posso incluí-lo no pacote.
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  Olhei automaticamente para a direção de , me perguntando de repente se ele estava falando sério sobre o lance da dívida.
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  Quando voltei a ela, vi seus olhos brilhando de uma certa excitação que me lembro de topar nos olhos de Naomi quando conseguimos mostrar o caminho de casa para certos fantasmas barulhentos.
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  — Tudo bem, tanto faz. Mas ainda não muda o fato de que não tem nada entre a gente.
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  — Então é verdade mesmo! — Ela arfou, cruzando os braços e se afastando para a mesa logo atrás. Revirei os olhos. — Juro que nunca mais vou assistir a pegação desnecessária daqueles dois do mesmo jeito. Saber que existe um melhor pretendente para muda tudo.
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  — Acho melhor não contar com isso…
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  — Posso torcer então? — Ela inclinou a cabeça para o lado. — Assim como torci de cara que ela deve ter ido ao seu encontro logo depois do seu espetáculo de mais cedo. Ash me disse para não comentar nada, mas não consigo me controlar — Ela deu de ombros. — Ele também pediu para que eu derrubasse todos os vídeos que haviam publicado, mas alguém chegou primeiro do que eu. Um amigo seu, suponho? — Ergueu uma sobrancelha. — Ash é muito cauteloso com os negócios. Ele não me pediria pra fazer nada muito grandioso que pudesse chamar a atenção, então saquei na hora que estava rolando alguma coisa bem grande por trás.
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  Mordi o lábio inferior, me preparando mentalmente para a desculpa pronta e argumentar contra qualquer uma de suas perguntas sobre o acesso de loucura público que eu demonstrei. Mesmo que, talvez, tenha descoberto que não era mais tão bom assim em refutar pessoas que falavam com tamanha firmeza e confiança, sem os lábios trêmulos ou a dúvida pairando em suas cabeças, torcendo para que eu dissesse não às suas perguntas.
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  — Acho que tenho bons amigos, sim — Falei devagar, levantando-me finalmente, olhando as horas no relógio de pulso e averiguando que não poderia me demorar muito ao lembrar do cara dormindo no meu sofá.
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  — Oh sim, e ele é bom, muito bom mesmo. Espero conhecê-lo um dia — Ela deu uma piscadinha discreta em minha direção, e juntei as sobrancelhas no mesmo minuto, olhando pro lado e começando a me questionar onde estava .
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  — Vocês dois não estão… — Apontei dela para onde eu achava que ele tinha entrado. Ela demorou um minuto para entender do que eu falava e soltou uma gargalhada logo em seguida.
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  — O quê? Eu e Ash? Definitivamente não — Ela ainda ria enquanto começava a juntar os cabos e fechar a tela do notebook. — Não me interesso por homens que amam outras mulheres, você me entende? Mesmo que a dele já esteja morta — Ela se virou novamente pra mim. — Isso inclui você também, bonitinho.
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  Revirei os olhos pela quadragésima vez só naquele dia.
  — Já disse que não…
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  — Claro que não é — Ela puxou o zíper, e começamos a ouvir os passos lentos de retornando. — Mas se quer saber, ser amigo de pode ter suas vantagens. Que tal verificar o que o grande Bobby prometeu ao trocar a alma numa estrada vazia e melancólica? Posso tentar qualquer dia desses, não me importo de morrer em dez anos, o aquecimento global não me deixa muito esperançosa mesmo.
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  — Já acabou com o papo de pactos demoníacos? — reapareceu, trazendo consigo uma grande bolsa preta e jogando-a em cima da mesa. — Todo o combinado. Usei meus contatos do Alabama pra isso, então não diga mais que não sou bom pra você.
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  Ela deu um salto até ele, dando um beijo demorado em seu rosto e abrindo o zíper do pagamento logo em seguida, remexendo em apetrechos que não reconheci e se perdendo dentro daquele mundo particular.
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  — Venha comigo — sussurrou em minhas costas, seguindo então na direção de um espaço dos fundos. — Consegue se distrair com seus brinquedos por alguns minutos, querida?
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  — Mas é lógico — Ela respondeu, ainda dissecando os conteúdos da bolsa, sem olhar para nenhum outro lado.
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  Segui as costas de até o que parecia ser o lado mais carente de iluminação do lugar. Uma porta mediana vermelha estava localizada ao lado de uma pequena báscula, deixando entrar uma luz forte da lua, muito cheia àquela noite. abriu a porta sem dificuldades, saindo para um lado de fora repleto de entulho e galhos secos, alguns afogados em grandes tufos de neve. Pilastras de madeira desgastada sustentavam uma pequena sacada do segundo andar, nos protegendo dos finos resquícios de neblina e da maior incidência do frio.
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  — Quer um cigarro? — Ele perguntou, colocando um de seus cigarros negros entre os lábios, oferecendo um outro pra mim. — Fecha a porta.
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  Fiz o que ele disse, agarrando sua cortesia sem pestanejar.
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  — Agora já pode me contar porque não se misturou aos seus amigos do outro lado.
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  Bufei, aceitando seu isqueiro enquanto olhava pra cima. A luz estava realmente forte, me concedendo uma boa vista para tudo ao redor. Eu não conhecia aquela parte da universidade, ou pelo menos não a reconhecia de imediato. Mas algo me diz que a curva do pequeno relevo íngreme mais à frente me levaria direto ao portão de grades pelo qual pulei com uma vez.
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  — Eu não sei — Foi a única resposta que me veio à mente. E não poderia ter sido mais sincera.
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  — Você diz muito isso — Ele murmurou, soltando a fumaça característica da nicotina misturada com o frio negativo. — Será que realmente não sabe das coisas?
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  Encarei imóvel o horizonte à frente, o nada em especial. Queria dizer que nunca havia sido tão verdadeiro em toda a minha vida, e que isso era algo a se considerar, visto que Naomi vivia repetindo que eu poderia beirar à alguma sociopatia pela falta de reações fisiológicas ao mentir. E eu realmente era bom em mentir, mas esse comportamento parecia tão ultrapassado ultimamente, como se pertencesse a um que tinha a vida sob controle, que tinha as situações bem claras à frente e que lidava com coisas conhecidas e normais, ou pelo menos tão normais quanto fossem possíveis para um garoto que via coisas demais.
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  Eu não parecia mais ser esse cara, assim como tudo à minha volta.
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  — Você ficaria surpreso pela quantidade de coisas que não sei — Respondi, baixando os olhos. — Mas parece que sofri uma bela retaliação. Ou o começo de uma.
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  — Elena?
  — Quem me dera. Ela não tem todo aquele poder.
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  — Então foi o outro? — Ele estreitou os olhos. — Espera aí, ele foi atrás de você?
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  Respirei fundo, decidindo algo de imediato.
  — Também. Mas falei com Elena, de qualquer forma.
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  Vi seu rosto virar abruptamente para o lado, antes de alojar o cigarro na boca. Esconder emoções poderiam fazer parte da rotina de um Ash misterioso e estranho, mas parecia disposto a deixar isso de lado.
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  — Quando? — Perguntou, ansioso.
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  — Há algumas noites. No cemitério de Woodlawn.
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  — Que porra ela estava fazendo em Woodlawn? E como assim algumas noites? Foi antes do nosso papo na Butler?
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  — Sim — Suspirei. — Foi depois da nossa primeira reunião inesperada.
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  — Seu… — Ele trincou os dentes, virando o rosto para outro ponto do ambiente, respirando pesado a ponto de se controlar. — Por que não me contou antes?
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  — Porque fui justamente confirmar o seu discurso. Achou mesmo que confiaria em você logo de cara? — Levantei uma sobrancelha, tentando parecer o mais óbvio possível. — Tudo que me disse naquele dia foi um tanto surpreendente, e se tenho o trunfo de perguntar direto à fonte, preferia fazer isso. Mesmo que quase tenha perdido meu pescoço. — Diminuí o tom de voz na última frase.
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  — O que aconteceu? — Ele pareceu apressado de novo. — Como ela estava?
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  — Péssima. Deteriorando, pra ser mais exato. O ódio pode ser um sentimento bem forte entre os mortos — Ele baixou os olhos e pude jurar que estava tentando imaginar o estado dela. — Mas não é culpa dela.
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  Ele me encarou novamente.
  — Você encontrou com ele por lá também?
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  — Acho que o mais certo a dizer é que ele me encontrou. Apareceu por lá enquanto eu tentava obter umas respostas de Elena.
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  — Ele a machucou?
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  Pisquei os olhos algumas vezes antes de responder:
  — Acho que você já sabe a resposta.
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  Ele girou a cabeça para o lado contrário, remexendo no piso amadeirado e mofado sob seus pés, que era invadido pela neve nas aberturas estreitas e aleatórias de suas juntas. Certamente ele deveria estar sentindo o peso da impotência, e odiei perceber que já havia sentido a mesma coisa, que andava sentindo bastante até.
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  — E conseguiu algumas? — Perguntou ele, por fim.
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  Os olhos abaixo do boné preto pareciam afundados e cansados. Notei que jamais havia pensado no lado dele; no lado de uma pessoa que espera a morte iminente a qualquer momento, e nem sequer poderia vê-la ou ouvi-la. Como se recebesse um diagnóstico de câncer terminal, mas não obtivesse uma estimativa do seu tempo de vida restante. Quantas vezes ele deve ter se deitado na cama, se vendo incapaz de fechar os olhos e baixar a guarda pois poderia nunca mais acordar?
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  — Não posso dizer que não consegui — Respondi, sabendo que não existia saída daquela situação a não ser fornecendo toda a minha sinceridade. — Mas… Talvez elas façam mais sentido pra você do que pra mim.
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  — O que ela disse?
  — Além dos xingamentos habituais sobre você e de ameaçar me matar duas vezes, ela disse algo sobre uma briga entre você e . E algo sobre você sumir por três dias.
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  Ele fechou os olhos com força, jogando o cigarro pela metade no chão, pisando sobre ele com brutalidade.
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  — Claro que disse — Respirou fundo. — Foi bem antes de toda essa merda acontecer.
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  — É, e pelo visto você realmente estava certo; Elena e Margot não estavam nem perto de serem grandes amigas. Não que isso diga muita coisa, mas não custa verificar — Estreitei os olhos. — Então acho que você finalmente pode me contar algumas coisas da sua versão.
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  Ele me encarou com o canto dos olhos, sendo envolto pela fumaça pesada de sua respiração. Parecia estar tentando se lembrar do ocorrido, mas algo me dizia que ele só estava tentando pensar na melhor forma de contar.
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  — e eu sempre brigamos — Ele começou, baixando os olhos em direção aos pés ainda remexendo nos restos das cinzas e do gelo derretido. — Quer dizer, é mais fácil dizer que ele sempre briga. Na maioria das vezes eu só escuto e falo quando necessário. Como se eu fosse o maldito conselheiro do Rei Louco ou só mais um de seus subordinados. Não que isso me incomode, entende? É o preço a se pagar por firmar um pacto com um demônio importante, mesmo que eu fique tentado a quebrá-lo por diversas vezes. Principalmente quando esse demônio ameaça abrir a boca nos menores obstáculos e não tem muita paciência para resolvê-los.
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  — Filho da puta imbecil — Sussurrei olhando em frente, tendo consciência da raiva acumulada espumando no peito ainda pelas informações anteriores.
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  — É, eu concordo — Ele deu uma risada seca. — Mas ganhei uma boa grana depois de ele me descobrir e me forçar a isso, podemos dizer assim. Entrei nesse negócio de forma calculada, mas não posso comparar minha experiência de hoje com a do de 19 anos, que estava começando a se tornar o Ash. E que se safou de várias merdas por causa dos contatos do sócio. E ele exigiu menos da metade dos lucros, então não pude dizer não. Ele ajudou a expandir a minha distribuição de uma forma que eu jamais faria sozinho, ou pelo menos, não em tão pouco tempo.
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  — Tocante — Respondi com desdém. — Mas por que ele se arriscaria desse jeito? Não é como se ele precisasse da grana.
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   estalou a língua.
  — Vocês, garotos ricos… — Ele bufou, mantendo o tom cômico. — Ele não precisa da grana, mas ele a quer. Ele se arrisca porque pode se arriscar, porque sabe que nunca vai ser pego, não importa se acordarmos com o FBI batendo em nossa porta. Porque tem gigantes por trás dele que apagariam o seu nome de qualquer registro na velocidade da luz. Sinceramente, nunca estive interessado em saber profundamente porque tenho certeza do ninho de cobras peçonhentas perigosas que vou cair. Sou ambicioso, mas me acomodo rápido, entende? Quando não vejo vantagens, não vejo sentido em me envolver — Deu de ombros. — Portanto, não é uma questão de grana. não dá a mínima pra isso. É uma questão de poder, controle.
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  “Esse poder nos impulsionou de várias formas e, como eu disse, ele só queria a parte dele. Pelo menos foi assim que começou. Eu sabia que ele era um louco sádico e gostava de ser tratado como o chefe de tudo, mas na maioria das vezes, era apenas isso. Como se todo o esquema servisse apenas para alimentar sua necessidade de atenção. Dando o que ele queria, eu tive paz por um bom tempo. Suas exigências giravam em torno de melhor controle de caixa, mudança de pontos de entrega e coisas triviais de como se deve gerir um negócio ilícito e não ser pego. Ele não é o rei do sigilo, mas exigia isso de mim. Porque faz todo o sentido, ele não precisa dessa besteira de agir como se escondesse alguma coisa. Mas um cara que não tem onde cair morto, sim. E cumpri, religiosamente, todas as suas requisições porque todas elas giravam em torno do trabalho e não via porque não ceder a fim de ver o progresso, mesmo que visse tudo isso como seu playground particular. Mas daí eu conheci a Elena.”
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  A expressão divertida se esvaiu no ar. pegou o maço nas mãos e olhou para os últimos cigarros enfileirados no papelão, sem pegar nenhum deles.
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  — Agora que lembro disso, fico pensando se não sou mesmo um desgraçado dissimulado — Uma risada irônica escapou de seus lábios. — Porque realmente não pretendia sair com Elena Victor. Muito menos sentir qualquer coisa por ela. Mas acho que ninguém nunca pretende essas coisas, não é? Chega a ser hilário, como alguma piadinha sem graça do universo ou de quem quer que esteja observando a gente.
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  “Eu a vi pela primeira vez em alguma biblioteca pública do Queens, que juro ter forçado a me esquecer por puro hábito. Geralmente mando alguém para realizar alguma entrega específica, como era aquele caso, mas por algum motivo decidi ir. É estranho como não me lembro de coisas significativas como essa; a grande causa que me fez sair da minha zona de conforto e ir encarar um cliente cara a cara em um lugar público, mas posso te jurar com todas as minhas forças que não me lembro. E jamais tentei fazê-lo de novo porque olhar pra ela sentada ali, embaixo daquela janela enquanto lia um livro de economia, me fez esquecer grande parte dos meus compromissos pelo resto do dia.”
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  Dei um pigarro, apoiando um dos ombros na pilastra precária, ignorando mais uma vez o sentimento de: “Ei, cara, pode parecer estranho, mas acho que entendo totalmente o que você sentiu.”
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  — Por acaso já ouviu mais sobre minha reputação além dos narcóticos? — continuou ele, sem esperar resposta — Digo, sobre as festas, mulheres e esse tipo de coisa. Nunca me interessei sobre a proporção dos boatos, ainda mais porque são uma ótima divulgação, seja qual fosse o assunto. Mas, por incrível que pareça, Elena não tinha conhecimento de nenhum deles. Absolutamente nenhum. Mesmo que eu já tenha vendido um estoque gordo pra sua colega de quarto, Margot.”
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  “Ela era um poço de inocência e, pela minha experiência, isso deveria me repelir e não me atrair. Garotas retraídas nunca fizeram o meu tipo, mas de repente eu fiquei fascinado por ela. E queria poder dizer que isso veio com o tempo, que no primeiro momento eu apenas a achei bonita de uma forma diferente, mas não. A constatação veio na hora em que a vi. E talvez eu tenha fodido tudo não dando meia volta e saído pela porta da frente, ou por ter aceitado pegar o livro na prateleira alta que ela não conseguia alcançar. Sabe, quando alguém sai da sua vida de repente, você se pega frustrado relembrando esses mínimos detalhes, as ínfimas coisas que, se fossem evitadas, não te colocariam na merda que está.”
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  Um pequeno arrepio atravessou minha nuca, no mesmo momento em que a última faísca do Malboro se apagou.
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  — Eu bem que tentei controlar as coisas no começo, entende? Ela estava usando uma camiseta da Columbia, então não foi tão difícil assim começar algo quando ela estava bem debaixo do meu nariz. Mas eu não ligava ou trocava mensagens, por mais que quisesse. Também não disse meu nome e me mantive distante, por motivos que eu sinceramente não sei explicar. Talvez eu não entendesse o que estava acontecendo dentro de mim, o que eram todos aqueles sentimentos que ultrapassavam um simples desejo carnal. E, exatamente por não entender, preferia me manter longe para avaliar melhor o processo. Sou um cientista também, não se esqueça disso. — Ele expôs um sorriso em linha fina, voltando a expressão séria logo em seguida.
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  “Só que, por mais vezes que consigo contar, eu me via criando situações para que pudesse vê-la. Encontros simples e cotidianos com nada mais do que diálogos, ou pelo menos para ouvi-la falar. Cara, como eu gostava de ouvi-la falar. Sobre suas preocupações, família, amigos, planos… Era louco como eu me interessava por tudo que a envolvia. Mesmo que ela me devolvesse as mesmas perguntas e eu as desviasse, sendo excessivamente fechado e misterioso diante de uma garota que estava igualmente interessada em mim. Mas ela poderia desistir caso soubesse de tudo. E esses encontros foram ficando tão frequentes que não demorou muito a nos verem juntos e, principalmente, que ela soubesse.”
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  “Aconteceu duas semanas antes de ela morrer. Fui acompanhá-la até a porta do dormitório e Margot nos viu. Não reconheci ela de imediato, mas ela não me era estranha. Fiquei sabendo depois das várias cartelas que ela tinha comprado. Na mesma noite ela abriu o jogo com Elena, inclusive sobre meu nome e as drogas, e recebi uma visita em uma festa de fraternidade já no dia seguinte, com Elena me pegando em um perfeito flagrante junto com Emmett.”
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  — Parece que Elena se lembrava bem desse papo revelador com Margot. — Falei, lembrando-me das palavras odiosas de Elena ao se referir à sua colega de quarto. Se o que me disse é verdade, pode-se pensar que Margot Pires não era tão boazinha assim.
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   trincou o maxilar, encarando a noite como se estivesse assistindo todo o seu relato em um longa metragem.
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  — Como eu te disse: estranha. Pensando agora, posso até chamá-la de maluca. As coisas que ela disse à Elena, com tanta confiança desprezível, fariam qualquer um pensar que ela me conhecesse bem. Como se tivéssemos uma história ou algo do tipo. Como ela pode ter dito que Elena não era boa o suficiente pra mim? — Ele balançou a cabeça, pasmo. — Isso me incomodou por algum tempo, principalmente depois do que aconteceu. Mas a única coisa que eu podia fazer era torcer para que ela nunca mais aparecesse na minha frente. Nunca achei que atrairia esse tipo de pessoa, não com todo meu esforço em ser o mais discreto possível; pessoas que se sentem próximas o bastante para acharem que te conhecem e fazer suposições sobre a sua vida. É uma merda.
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  — Você e Margot já…
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  — Não! — Respondeu imediatamente. — De jeito nenhum! Não sei se sabe, , mas só curto encher meu pulmão de nicotina. Não sou adepto ao restante das coisas que bagunçam o cérebro e apagam sua memória, então eu me lembro perfeitamente de todas as garotas, e Margot não está inclusa nem na esquina de um possível interesse. E não sei que tipo de abertura ela viu pra agir dessa forma, ainda mais para aparecer com Elena no dia seguinte.
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  “Queria dizer que ela havia gritado poucas e boas e simplesmente sumido, mas não chegou nem perto disso. Ela não me perguntou absolutamente nada. Me viu claramente ganhando uma bolada de um estudante qualquer e disse que estava tudo bem. Que considerava o Ash com quem estava convivendo até então. E que queria se divertir com ele, com aquele Ash, porque sabia que não teria tantas outras oportunidades. Ela sempre foi inteligente, focada e presa em um mundo de futuro. Por várias vezes me disse que não tinha tido muitas experiências pra contar. E estava ali, só dizendo para termos isso, sem olhar pra nada mais ao seu redor. Tem ideia de como essa mulher me deixou louco?”
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  “Eu já estava viciado nela de um jeito tão novo que passei a rejeitar todas as outras, e não queria, em hipótese alguma, ter de explicar o que estava acontecendo. Nem pra ela, nem pra ninguém. Não queria arrastá-la pra esse meu mundo, por mais que ela já soubesse dele, e também não queria descarregar nada pessoal nos seus ouvidos. Talvez tenha sido meio injusto, ela descobrir tamanhos detalhes sobre mim só depois de morrer — ele deu uma risada forçada — Mas eu achei que estava fazendo o melhor, juro que achei. Talvez tenha sido um erro não pensar no futuro naquela ocasião.”
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  “Tudo estava indo bem, pelo menos na bolha que havíamos criado e expulsado os problemas. Até o dia em que a conheceu.”
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  Ele cruzou os braços, e seu tom de voz pareceu mais abafado. Eu já começava a prever o desprezo que mais uma artimanha de me causaria.
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  — Não aconteceu de imediato. No início, ele realmente parecia aprová-la, ou simplesmente não ligava, o que era mais provável. Como eu disse, ele não se importa realmente com a minha vida pessoal, se ela não tivesse qualquer interferência no serviço. Com quem eu dormia ou passava o tempo, não fazia diferença. Por algumas vezes, me vi dividindo um jantar com ele e , e Elena parecia gostar da socialização. As duas realmente tinham o que conversar, pareciam ter muitos interesses em comum. Talvez poderiam ter se tornado grandes amigas se não acontecesse o que aconteceu.”
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  “Eu não sei se foi o jeito desengonçado dela ou as roupas fora do padrão que o irritaram tanto. tem dessas às vezes: gostar da perfeição. Mas então, um dia, fui intimado a simplesmente terminar com ela. Foi estranho, devo admitir, de longe o comportamento mais bizarro que já vi partindo dele. Eu não pretendia apresentá-la a ele, não quando não tinha total certeza do rumo que aquilo tomaria, mas acabou acontecendo. E nada indicava que ele surtaria ou algo parecido. Foi a primeira vez que o vi mandar em mim, até mesmo me ameaçar. “Essa garota vai nos trazer problemas”, ele disse e repetiu mais de uma vez, ignorando todas as minhas dúvidas sobre da onde raios ele tinha tirado aquilo. Até hoje, aliás. Mesmo que não fizesse sentido, que ainda não faz.”
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  “Acredito que foi dessa grande briga que Elena deve ter comentado. A discussão calorosa onde ameaçou me entregar e desabar com todo o esquema, planejando agir como a primeira testemunha no banco do tribunal. Infeliz miserável — ele trincou os dentes, apertando os nós dos dedos — Ele me deixou louco de ódio nesse dia. Agindo como um perfeito maluco desesperado, com pressa para se livrar de Elena. Depois de muito tempo, me vi sem rumo e sem uma solução concreta, mas mesmo assim disquei o número dela e pedi para encontrá-la na entrada do portão. E então, depois de umas belas palavras burras em forma de gritos, terminei com ela ali mesmo.”
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  — Puta merda… — Falei depois de alguns minutos, soltando uma respiração pesada. Não consigo imaginar a expressão confusa de Elena ao encarar as costas de Ash enquanto ele simplesmente ia embora.
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  — Como eu disse: desgraçado dissimulado — Ele riu, de forma mais leve desta vez, finalmente pegando um novo Malboro e o acendendo entre os lábios, dando uma forte tragada antes de voltar a falar — Se Elena não me matar, pelo menos isso vai.
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  Ele estendeu o pacote pra mim. Neguei com a cabeça.
  — Onde esteve durante os três dias? — perguntei.
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  — O que você acha? Revendo a droga da minha vida inteira — ele passou uma mão pela cabeça, encarando a neve logo mais à frente — Não adianta levar os fatos em consideração quando colocam uma faca no seu pescoço, entende? Nunca me senti tão baixo e tão desprezível depois daquilo, mas não tive muita escolha. pode ser um tremendo filho da puta, o maior que já existiu, mas não é muito inteligente ignorar suas ameaças, ainda mais no estado em que estava.
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  “Durante esse tempo, posso imaginar todo tipo de coisas que Elena deve ter pensado. E que com certeza foi contar à , que bem tentou falar comigo, mas é claro que a impediu. Você precisa entender: assim como Elena, também não sabe de metade de todo o esquema em que eu divido com , e sei que ele não reagiria bem caso ela tentasse saber demais. Ele pode ser um perfeito porco quando se trata de gentilezas, a não ser quando está na presença do próprio pai. E pensar que eu poderia me foder de formas inimagináveis atrás de alguma prisão de segurança máxima no interior de algum estado americano enquanto ele continuaria a dar suas festas, indo à formatura e ganhando ainda mais dinheiro com o emprego pronto que seu pai deve arranjá-lo no governo, me deixava louco. Consegue sentir o quanto eu queria matá-lo? O quanto eu estava literalmente puto por ter permitido que as coisas chegassem nesse ponto?”
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  “Mas eu não podia aceitar o controle dele sobre a minha vida, não. Não dessa forma escancarada, invasiva, de um jeito que ele havia prometido que jamais faria. Era o maior golpe sujo que eu poderia sofrer. Foi então que, ao menos, eu poderia usar uma habilidade que ele não tinha: a discrição. E receberia o mesmo de Elena. Então liguei pra ela e tentei consertar tudo.”
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  — Essa é a parte que ficou sabendo na Gibbons… — falei, lembrando do ocorrido na mesma hora em que soltou uma risada.
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  — Ah, foi sim, por sua causa, ! — ele balançou a cabeça — Mas não importa. Não durou muito mais tempo depois de ela decidir me dar uma nova chance. Alguns dias depois ela estava afogada no próprio vômito.
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  Virei o rosto, observando o semblante totalmente atormentado de . Não podia me intitular como o ser humano mais empático do mundo, mas senti um nó na garganta ao imaginar todo o choque e tristeza genuína que ele deve ter sentido ao perder sua garota literalmente de um dia para o outro.
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  — Eu sinto muito.
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  Ele ergueu os olhos para cima, me encarando fixamente antes de erguer o canto da boca em um mero sorriso.
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  — Ninguém nunca me disse isso — Ele limpou a garganta — Debaixo da vista de , ninguém jamais diria mesmo. Não sabia que ouvir isso poderia ser… Reconfortante — ele inspirou devagar — De qualquer forma, eu o deixaria bem nervoso se demonstrasse qualquer tipo de mágoa ou luto, não importa o quão injusta era a situação. Mesmo que eu tivesse certeza que ela nunca faria isso consigo mesma.
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  — Você pensou em fazer alguma coisa? — perguntei — Em tentar descobrir o que aconteceu com ela?
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  Ele sorriu mais uma vez, mas desta vez parecia haver ainda mais tristeza do que antes.
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  — Sou acomodado, se lembra? — ele desviou os olhos, levantando os ombros — E me descobri um covarde também, ao pensar em ter de entrar nessa sozinho. Bom, pelo menos até você chegar. Acho que dois é realmente melhor do que um.
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  Sem perceber, comecei a rir. Nada muito alto e nem duradouro, mas a frase de repente se tornou um ponto hilariante quando pensei sobre ela. Quando notei que ali estava eu, certo que jamais compartilharia do meu segredo e – pior ainda – coisas sobre ele com outra pessoa que não fosse Naomi; assim como também carregava a filosofia de quanto menos gente ao redor melhor, pra poupar a minha criatividade de desculpas esfarrapadas pelas situações com os mortos, e entre outras coisas, simplesmente fazendo tudo isso e mais um pouco. E concordando com o que ele havia acabado de falar. Era tão literal que eu não tinha escolha a não ser achar engraçado.
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  O fato de que também tinha esperanças de ser um cara solitário a vida toda e acabou tomando a mesma rasteira que eu, tornou tudo ainda mais divertido.
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  — Acho que precisaremos de bem mais do que dois pra seguirmos em frente com isso — Falei depois do surto com as risadas, deixando um intervalo de silêncio ao retornar para o ponto principal.
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  — Ela disse mais alguma coisa?
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  Pensei sobre o acidente que ela de fato havia falado, e de como aquilo não se encaixava em nenhum ponto da história, ainda mais depois de ouvir o lado de . Se ele não soubesse, eu poderia considerar aquelas palavras como um devaneio de suas lembranças bagunçadas?
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  — Talvez… Ela tenha dito algo sobre um acidente.
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  — Que acidente?
  — Eu não sei. Ela literalmente disse acidente e repetiu algumas palavras confusas, e alguns números… Enfim, confusos. — Franzi os lábios ao tentar me lembrar deles, mas não tive sucesso. Concluí que não deveriam ser tão importantes assim.
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  — As informações que te arrumei hoje ajudaram em alguma coisa? — Ele perguntou depois de notar que não havia mais nada a acrescentar.
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  — Pode-se dizer que sim. E mais um grande não sei — ele soltou uma risada seca — Mas me mostrou claramente quem estamos enfrentando. Ou pelo menos uma parte disso tudo.
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  — Tá falando sobre o outro? O fantasma maluco atrás da ? — concordei com a cabeça — Ele tem alguma coisa a ver com o assassinato da Elena? Por isso ‘tá controlando ela dessa forma?
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  — Parece que não. Sei que pode parecer estranho, mas ele a está usando pra chegar na , para que ela continue com a investigação e assim ele poder pegá-la. Elena não é nada mais que um bode expiatório.
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  Bufei, aquecendo as mãos nos bolsos do jeans. A inércia em que me mantive enquanto escutava a história de não me deixou perceber o quanto estava congelando ali fora, e o quanto eu parecia sentir ainda mais frio toda vez que pensava em e em todo o rebuliço da situação.
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  Situação essa que eu não podia mais guardar pra mim.
  — Tá me dizendo que essa investigação é inútil? — Ele se virou pra mim, com um olhar que me desafiava a respondê-lo. Senti o conflito de interesses que girava em torno de /Elena/ e percebi que havia caído em uma rede mais embolada do que pensei.
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  — Não é. — Minha voz saiu firme e confiante — Elena merece saber quem a matou.
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  — Então pode me dizer porquê tem tanta importância nessa história a ponto de usarem Elena de isca? — Ele arqueou as sobrancelhas — Aconteceu mais alguma coisa na sua noitada no cemitério?
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  Não sei, apenas conheci o irmão morto dela. Seria uma boa resposta, bem curta e grossa, mas tinha a impressão de que me atacaria com sua muleta se eu soltasse mais um “não sei”.
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  De qualquer forma, eu precisava contar. Ele já me olhava impaciente, sabendo que eu escondia informações na manga, coisas importantes. Mesmo que eu parava pra pensar na melhor forma de contar e nada saía porque percebia que nada estava muito claro. Como quando você vai apresentar um trabalho de escola sem estudar e fica parecendo uma porta falante. Era exatamente o que estava acontecendo: eu não tinha total certeza de quais eram as verdadeiras intenções de , muito menos as futuras. Quando concluísse seu plano, no caso. Caso conseguisse.
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  Mesmo assim, apertei o botão do foda-se. Eu não podia ser tão contraditório ao me tocar, horas antes, de que não podia fazer nada daquilo sozinho e recusar toda a ajuda que pudesse logo depois. Porque deixar no escuro, lhe fornecendo apenas parte das informações que eu tinha não iam valer de nada.
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  Quando vi, eu já estava despejando tudo, desde a noite em Woodlawn, com todas as informações picadas e estranhas de Elena, ocultando – é claro – toda a conversa bizarra e frustrante que tive com logo depois, quando ele fez questão de destruir a minha mente com o passado. Não, definitivamente não precisava saber disso. Nem eu precisava.
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  Vi o momento exato em que a bituca do Malboro escorregou de seus dedos e sua pele ficou mais pálida do que o normal.
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  — O irmão… Jesus Cristo, ! Como o irmão da chegou nessa história?
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  — Você vai fazer aquela cara de bosta se eu disser que não sei?
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  — Mas… Puta merda! — ele tirou o boné, claramente chocado — E ele… Eu imaginei que você tinha visto algum defunto hoje mais cedo, e devia estar um completo lixo pra não prestar atenção no trânsito, mas não imaginei que seria isso, não imaginei nada disso.
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  — Ah, pode crer, eu muito menos. Minhas manhãs costumam ser bem mais tranquilas.
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  Ele arfou, ainda com os olhos baixos e arregalados, se aproximando de mim logo em seguida.
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  — Você acha que a fez alguma coisa com ele? — ele falou baixo, e parecia assustado. Queria dizer que se ele estava daquele jeito apenas pelo modo como o descrevi, ele teria um belo ataque cardíaco se pudesse vê-lo cara a cara — Quer dizer, eu já li algo sobre espíritos vingativos e seus rancores com suas vítimas, eles são…
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  — Por favor, não estamos em uma série de TV — revirei os olhos, estalando a língua — Fantasmas vingativos não atormentam suas vítimas derrubando quadros ou puxando seus pés de madrugada. Os mortos nem vagam assim por aí, se quer saber. Acha que uma casa é mal assombrada por que tem tiras de madeira na janela e pintura desbotada? Ah, pois adivinhe só, a maioria delas não possui nada além de ratos. Aposto que sua irmã deve saber disso — Abri os braços, dizendo o óbvio — Mas o irmão da ultrapassa tudo que eu já vi. Ele é assustador e extremamente perigoso. Não é do tipo que vai embora depois de algumas horas de conversa, ou que tenha alguma pendência para resolver por aqui. Não, ele só tem um alvo e um objetivo e não ‘tá nem um pouco paciente com quem tenta interferir no caminho. Apesar de tudo, eu segui mesmo assim, mesmo sem saber como lidar com isso, não ainda. Exatamente por isso eu preciso que você entenda o quanto isso tudo é perigoso, e completamente imprevisível. Eu literalmente não faço ideia dos seus próximos passos e da próxima vez que ele me encontrar, provavelmente vou ser o mais novo estudante morto da Columbia.
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   permaneceu imóvel, a cabeça abaixada enquanto batia os dedos na aba do boné, claramente pensando em tudo que acabei de dizer. Eu não queria acreditar que ele estava confuso de algum jeito. Não poderia estar, não é? Eu deixei bem claro que o resultado mais provável daquela empreitada era a morte certa.
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  Ele repuxou os lábios, abrindo e fechando a boca várias vezes antes de responder:
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  — Por que?
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  Pisquei os olhos, tentando entender se a pergunta era direcionada a mim ou mais um de seus devaneios.
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  — ‘Tô seriamente curioso: você é a porra de um herói ou tem mais nessa história que te interessa além de ?
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  Era incrível como eu escutava o nome dela e já abria a boca desesperadamente para negar qualquer que fosse a hipótese que poderiam ter sobre nós; sobre eu estar apaixonado e vice-versa, mesmo que a firmeza na minha voz andava bem abalada ultimamente. Mas essa não foi a pergunta. E percebi, depois de alguns minutos, que a resposta poderia ser sim.
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  Havia mais do que apenas . Não que ela não importasse, na verdade, ela importava mais do que eu gostaria (e que nunca soubesse disso), mas quando eu pensava em e em todas as suas palavras, eu não pensava apenas no rosto dela. Eu pensava nas perguntas. Um tsunami delas, todas implorando pra serem saciadas, meu subconsciente participando de toda essa confusão enquanto gritava escandalosamente: me dá um passado, poxa vida! Eu só quero uma identidade, um nome, é pedir muito saber se meus pais de verdade estão em uma vala ou jantando na Inglaterra com novas famílias? Vai, , pergunta pra ele, você sabe que precisamos saber…
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  Então talvez meu silêncio reflexivo tenha sido a resposta que ele precisava.
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  — Se te serve de consolo, minha cabeça também está na guilhotina — ele sorriu, suavizando a expressão dura de antes — E pelo visto somos um trio com passagens compradas pra morte. Não acha que tem o direito de saber que seu querido irmãozinho é nosso maquinista?
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  Ri sarcástico, sentindo o nariz doer por uns instantes pelo frio intenso.
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  — Você acha que é simples assim? “Olá, , bom dia, sabe o , seu irmão? Andei conversando com ele ultimamente e ele parece chateado com algo que você fez, inclusive pretende resolver pessoalmente. Toma cuidado por onde anda, viu? Ele tá uma fera. Ah, falando nisso, eu vejo gente morta, sabia?”
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  — Bom, você a faria rir pelo menos. Aposto que gosta do sorriso dela.
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  — Idiota.
  Ele riu alto, colocando uma das mãos no bolso, mantendo o riso até que se esvaísse em uma linha fina de som, e o silêncio se instaurasse de novo. Não era nada constrangedor ou pesado. Nele, algo entre eu e parecia ser reforçado.
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  — Ei, — disse depois de um tempo, e apenas murmurei em resposta — Você já parou pra pensar que os atributos normais de um fantasma não se aplicam ao porque… Bem, ele pode não ser um fantasma?
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  Olhei pra ele, confuso.
  — Já pensou que ele pode ser como um anjo da morte? Alguém que também levou uma rasteira do destino e agora não tem controle sobre sua própria alma?
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  Eu quis rir. Quis gargalhar e repetir pra parar definitivamente de virar as noites assistindo alguma série sobrenatural da Warner, ou que me poupasse de suas ideias malucas. E até consegui emitir um sorriso desajeitado, uma risada que saiu tão seca que arranhou minha garganta.
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  Aquilo beirava ao ridículo.
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  — Vou apenas dizer que não sei — respondi.
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  Ele suspirou.
  — Você devia se chamar Jon Snow.
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   estava no mesmo lugar.
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  Atravessei a sala com passos inaudíveis, acostumando meus olhos à escuridão até bater a porta do quarto atrás de mim, quando finalmente larguei os tênis no carpete e tirei o casaco pesado.
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  Deslizei rapidamente para debaixo dos cobertores, aliviado pelo aquecedor tê-los mantido quente e apaguei o abajur da mesinha de cabeceira, mergulhando o quarto no breu.
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  Pela fresta da cortina meio aberta, vi o céu se tornar azul escuro, quase preto, trazendo a aurora que iniciaria um novo dia. O sono e o cansaço me tomaram de tal forma que não aguentei olhar por muito tempo. Se dormisse agora, poderia facilmente acordar só no Natal. Mas se somasse minhas horas de sono desde a semana passada, eu precisava dormir pelo menos um dia inteiro pra repor todo o estoque desfalcado.
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  Talvez já estivesse acontecendo e eu estava tão bêbado de sono que não percebi. Ou estava acontecendo exatamente por eu não estar muito lúcido na hora.
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  Não fazia ideia de que horas eram, nem mais a cor exata do céu. Eu sentia pontadas agudas de dor na mão engessada, mas eram sensações distantes, muito abafadas pelo meu cansaço. Eu logo voltaria a dormir e não me lembraria mais dela, podendo muito bem resolver o desconforto quando acordasse. Abri um pouco os olhos, vendo apenas o vulto da arara de casacos ao lado do banheiro. De costas para a janela. Deitar de costas para a janela significava que eu só podia estar soterrando o meu braço machucado no descontrole do meu corpo durante o sono. Fechei os olhos lentamente enquanto virava o corpo para o outro lado, como se ele não fosse meu, como se os movimentos fossem fruto da minha imaginação. Me acomodei novamente na nova posição e me preparei para ser levado pela exaustão de novo.
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  Só que um estranho zumbido começou a ecoar nos meus ouvidos, também distantes, tudo parecia a quilômetros de distância. E uma fenda pequena do ambiente apareceu enquanto eu abria um pouco os olhos, enxergando nada além de um borrão. A janela à minha frente permanecia do mesmo jeito, a cortina semi aberta voava de forma violenta, como se fosse puxava para o lado de dentro. O vento estava assim tão forte do lado de fora? Por que eu não o sentia?
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  E desde quando a janela estava aberta? Eu havia ligado o aquecedor.
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  Ah, que se dane. Eu precisava dormir, e não estava disposto a me importar com alguns dólares a mais na conta de energia.
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  Fechei os olhos novamente. Que o mundo fosse invadido por extraterrestres, mas que eles me deixassem dormir.
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  O zumbido de novo. Abri novamente a fresta dos olhos, vendo não apenas o borrão, mas tudo à minha frente em câmera lenta. O vento continuava a balançar a cortina, mas de uma forma mais simplória, como se mãos invisíveis estivessem estendendo um lençol. Fechei-os mais uma vez e tentei abri-los por completo. Uma ondulação nos cobertores ao meu lado me fez ajeitar a cabeça para cima. Mover qualquer músculo estava sendo literalmente estranho, eu parecia um fantoche. Mais especificamente, um fantoche dopado.
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  Mas fantoches sonham? Besteira, é claro que seres inanimados não sonham, mas eu só poderia estar em um. Isso porque, quando terminei de mover a cabeça como uma ameba para cima e finalmente pude abrir os olhos direito, ainda cerrando-os contra a ardência do cansaço extremo, vi uma pessoa deitada ao meu lado.
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  E ela olhava diretamente pra mim, com os olhos arregalados demais para uma presença amigável.
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  Eu gritaria de susto se não fosse a fraqueza dos meus músculos. Acho que cruzei as sobrancelhas, ou acho que tentei me afastar quando notei o corpo virado em minha direção, mas, a repentina luz forte da lua que entrou pelo ponto descoberto da janela pairou logo à frente de seu rosto, e eu fechei os olhos novamente. Meu deus, aquilo não era um esgotamento normal, eu mal conseguia manter os olhos abertos.
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  — É você — Ouvi minha voz dizer, mais um som estranho que estava vindo de algum ponto da minha cabeça — Há quanto tempo, vó.
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  Ela não se mexeu um centímetro. Eu não precisava abrir os olhos pra saber que ela estava parecendo terrivelmente assustadora só por estar daquele jeito.
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  — Como você está? — perguntou ela, mas não parecia ser ela. A voz parecia seca e cansada, tão cansada quanto eu estava naquele momento — O seu braço… Olha o que ele fez com o seu braço…
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  Ela fungou, e tentei abrir os olhos novamente. Eu parecia estar usando um óculos de pelo menos quinze graus de miopia, porque tudo à minha frente não passava de um esboço. Eu sabia que estava ali pois via sua silhueta e ouvia sua voz, mas eu não conseguia enxergá-la como fazia normalmente. Que estado maluco era aquele?
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  Senti seu toque em meu gesso, e seus dedos passeando em cima dos meus. É, ela estava ali, eu não estava louco.
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  — Como você… — me preparei para perguntar como ela sabia daquilo, mas desisti ao sentir a fisgada na cabeça e fechar os olhos de novo. O zumbido aumentou três oitavas por meio segundo antes de diminuir de novo — Por onde andou?
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  — Não importa — ela fungou de novo, desta vez com a voz embargada. Ela estava chorando? — Eu só precisava saber que você estava bem. E também te pedir desculpas.
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  — Desculpas? Pelo que? — falei novamente, mal conseguindo completar a frase — Vó, estou muito cansado agora, acho melhor conversarmos depois…
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  — Eu não tenho muito tempo, — sua voz saiu com mais firmeza, me obrigando a abrir os olhos apesar da dor — Você precisa me ouvir.
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  Tentei me sentar, mas era inútil. Tive certeza de repente de que aquilo ali não era a realidade porcaria nenhuma. Que eu estava afundado em alguma névoa estranha que restringia meus movimentos. Mas meu deus, como ela queria conversar em um lugar desses? Eu mal captava direito suas palavras.
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  — Vó, se for sobre aquele dia na biblioteca, não precisa…
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  — Eu menti pra você, — ela disse novamente, e a silhueta de seus dedos apertaram o travesseiro logo abaixo — Meu deus, como posso dizer apenas isso? A verdade é que sempre menti. E ocultei, o que não sei se é melhor ou pior. E sou tão covarde, tão desonesta que não tenho coragem de te contar, nem mesmo nos meus últimos momentos. Mas você vai acabar descobrindo, com certeza vai, nunca subestimei sua inteligência. Exatamente por isso joguei sujo por tanto tempo.
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  — Do que está falando? — minha voz estava totalmente grogue, por mais que eu tentasse mantê-la estável. Se minha vó queria me confundir àquela altura de inconsciência, ela estava querendo brincar com a minha cara — É sério, vó, eu não…
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  — Eu sinto muito, — ela parecia prestes a cair no choro de verdade. Pegou em minhas mãos em um movimento desesperado, apertando-as contra as suas — Sinto muito, sinto tanto. Eu não podia… Eu não aguentava. Você se parece tanto com ele, mesmo nos primeiros meses de vida. Parecia exatamente de quando eu dei à luz, tão pequeno e tão inocente. Você sempre foi inocente, meu querido, sempre saiba disso. Nada, absolutamente nada é culpa sua.
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  — Para… — senti os dentes trincarem, o zumbido aumentar. Não, eu precisava sair desse sonho, ou do que quer que fosse isso, precisava dormir de vez ou acordar, mas não aquilo! De jeito nenhum aquilo!
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  Eu senti ondas de um pesadelo se formando.
  — E eu fiz o que pude pra te proteger. Durante todo esse tempo, eu pensei que estava fazendo meu melhor, mesmo errando várias vezes. Mesmo pensando que excluindo memórias fosse a melhor coisa pra que você vivesse uma vida mais perto do normal, uma em que você não sofresse tanto. Katarina e Jordan fizeram esse trabalho como ninguém, e não me arrependo de tê-los escolhido para cuidarem de você. Você cresceu tão forte, esperto e corajoso. Tão como seu pai que, diversas vezes, parecia que eu estava olhando pra ele. Olhando pro meu menino… Como não percebi antes que você jamais seria capaz de ficar parado enquanto outra pessoa inocente sofria consequências tão brutais? Eu sabia, no fundo era óbvio, eu só não aceitei de imediato… Porque sabia o que se tornaria, e eu não podia passar por isso de novo — Ela soluçou alto, tão alto que eu pediria para fazer silêncio pra não acordar o cara no meu sofá se eu não soubesse que ele não era capaz de escutá-la — Eu… Eu não mereço sua confiança, muito menos a sua estima. Dediquei minha morte a consertar meus erros de vida, mas não foram o bastante, e sei que jamais serão. Nunca fui uma boa filha, muito menos uma boa mãe, e cometi o maior pecado de todos ao não cuidar bem do meu filho, no momento em que ele mais precisou. Nem imagino o quanto ele sofreu, o quanto ele aguentou… — Ela balançou a cabeça, ou eu acho que era isso — Por isso você tinha que viver, . E garanti isso até aqui, até agora. Mas… creio que não vou avançar muito mais.
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  Tentei puxar minhas mãos, mas ela as segurava em aperto de aço. Bufei, começando a me irritar com aquela condição cega, um desespero urgente começando a nascer no peito. Eu tinha que acordar, aquilo tinha de sumir…
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  — Não faz isso… — comecei a falar novamente, lutando para manter os olhos abertos até que parassem com a palhaçada e me mostrassem ela nitidamente, até que ela se materializasse como sempre — Eu não consigo te ver… Cadê você…
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  — Eu não tenho mais forças — Ela disse novamente, ainda em meio aos soluços — Nunca tive muitas, mas elas foram se enfraquecendo com o passar dos anos. Nada que eu já não esperasse. Talvez, depois que eu desaparecer, todas as memórias que eu arranquei retornem pra você. E isso inclui a garota — Ela suspirou, tentando controlar as lágrimas — Você talvez tenha de explicar algumas coisas, mas isso não importa agora. Eu devia tê-lo ajudado em vez de tentar afastá-lo. Sinto muito, muito. Vocês dois não tem culpa de nada. Eu sou a maior culpada por não te contar, e por tentar adiar o inevitável. Por favor, espero que me perdoe. Mesmo que eu desapareça sem deixar nenhum legado, estou feliz por ter sido rápida o bastante pra te salvar dele da última vez… Não sei se sou capaz de fazer isso de novo — Ela soluçou forte mais uma vez, soltando uma tosse estranha e violenta. Pedi mais uma vez que parasse. Pedi desesperadamente por isso! Eu não podia ouvir essas coisas naquele estado, não podia ter revelações de nenhum tipo daqueles, pelo amor de deus, eram coisas demais, eram enigmas demais, ela precisava parar!
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  — Era você… — murmurei novamente, lutando contra o torpor — No acidente…
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  — Não consegui segurá-lo por muito tempo. E tenho certeza que ele virá atrás de mim na primeira oportunidade — Ela me interrompeu, limpando a voz — Presta atenção, . Independente do que acontecer comigo, você precisa sobreviver, entendeu? Sei que há muito tempo você não precisa da minha ajuda, e espero que tudo que eu tenha ensinado venha a calhar agora. Você só precisa saber a hora certa de correr, me entendeu? Diga que entendeu.
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  — Eu… — apertei sua mão com mais força, como se desse jeito eu pudesse vê-la melhor — O que está acontecendo? Por favor, me acorda, eu não consigo…
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  — Você não conseguiria me ver mesmo que estivesse acordado, querido — Ela fungou, e senti uma lágrima nas costas das mãos — Me escuta. Estou usando minhas últimas reservas para que você não se esqueça disso. Sei que tem um voo marcado para a Califórnia na véspera de natal, e você deve passar essa data com a sua família. Na primeira oportunidade, antes do ano novo, preciso que dirija até o Melbourne e suba no sótão. Você não entende agora, mas vai, eu te garanto. É importante que você saiba, que você finalmente abra seus olhos e aja conforme seus instintos. Eu não podia ir te deixando perdido do jeito que está. Peço perdão por isso também, por tudo.
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  — Não… — agarrei suas mãos, puxando-as para mais perto. Não sabia se deu resultado. Ela parecia estar sumindo cada vez mais — O que está fazendo, vó? Pra onde está indo… Volta aqui…
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  Senti seu braço sofrer espasmos e ficar mais leve, seguido de mais uma tosse cruel. Mesmo que eu ainda sentisse sua pele, ela parecia estar perdendo consistência. Tudo ficava cada vez mais estranho, e eu não gostava do rombo em minha cabeça que ela estava causando.
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  — Eu sou sua avó, . De verdade. E me arrependo amargamente por não ter deixado claro desde o início o quanto você teve pais maravilhosos, que te amaram da forma mais pura e genuína que um coração pode aguentar. E você cresceu forte e bondoso, mesmo que orgulhoso demais para demonstrar isso aos outros, porém tendo total disposição em se arriscar por aqueles que você realmente ama. Sei o quanto você deve ter aguentado sozinho, o quanto está agora, todas as dúvidas e medo de sua origem, o medo de se entregar demais, mas saiba que as pessoas também podem fazê-lo mais forte. E que nunca vou deixar de dizer o quanto sua habilidade é um dom necessário, que te torna virtuoso e importante, mesmo que não acredite em nada disso. Você é mais especial do que pensa, querido — Ela respirou fundo, e eu já não conseguia mais ver a cor de seu cabelo — Se lembra quando nos vimos pela primeira vez? Quando eu disse que seu nome era lindo e perguntei quem o havia dado a você. Você logo respondeu que foi a Cusack, sem nem hesitar. Disse que gostava dele, que o fazia se sentir parte do mundo, mesmo que não houvesse um sobrenome. E Katarina se alegrou com essas respostas, mesmo podendo ir ao primeiro cartório e lhe dar um nome de sua escolha para representar um recomeço, mas ela levou em consideração seus olhinhos brilhantes ao repetir que já tinha um nome. Mesmo que você não fizesse ideia do quanto ele era realmente importante — Ela tremeu mais uma vez, e eu não via mais pernas por cima do cobertor — Seu nome… É notável porque foi dado por seus pais. Gravado em uma pequena pulseirinha barata que fiz Cusack escondê-la imediatamente e pensar que tivera algo a ver com tudo isso. Antigamente, eu era capaz de fazer tal coisa. E tive de fazer, tinha que afastar qualquer menção aos seus pais que pudesse. Talvez essa fosse a única herança que foram capazes de deixar com você. Um nome. Só um nome… — Ela tossiu uma vez — Mas é o seu nome. Um nome dado antes mesmo do seu nascimento, talvez muito antes disso, quando os olhos deles se cruzaram pela primeira vez. Posso apostar a eternidade que o destino começou a agir ali, e sua concepção foi marcada para algum dia de setembro de algum calendário. E você foi esperado, e amado, muito amado. Tanto amor só poderia resultar em um bom coração e o homem destemido que você se tornou. Seus pais com certeza estão muito felizes… — sua imagem tremeluziu, e senti a mão se afastar — Acho que preciso…
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  — Não! — Tudo começava a ficar escuro de novo. Senti os lábios tremerem, um nó pesado na garganta, uma vontade de gritar. Senti o nariz queimar, a boca ficar seca, um desespero que não aguentaria por muito mais tempo — Não, não vai embora! Por favor, não vá embora… Por favor — Ouvi o meu próprio soluço, os olhos se arregalando na força, mas eu não via nada. Só a escuridão.
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  — Você vai ficar bem, eu sei que vai. Proteja as pessoas que você ama… Da retaliação injusta que você enxergou primeiro do que eu.
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  — NÃO! Não vai embora agora… POR FAVOR! Vó, por favor, não vai embora… VÓ!
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  — Eu… amo…
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  — NÃO! Onde você está? Me dá a sua mão, se segur… Não, não, não, segura a minha mão! NÃO VÁ! Vó, por favor, não vai…
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  — … Você…
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  — Anda logo, segura a minha mão, me acorda desse sonho! Vó, segure a minha mão! Não tem… — Um pigarro escapou de minha garganta, e eu sentia o peito descer e subir como se estivesse correndo. Como se não estivesse mais deitado, mas sim vagando sem rumo naquela escuridão, desesperado e atônito, preso na agonia — Não tem mais graça… — Funguei, arregalando os olhos de forma catatônica para forçá-los a se manterem abertos. Eu não ouvia mais nada, não sentia mais sua presença, não sentia absolutamente nada. Só o calor fugindo do meu corpo, dando lugar um sentimento horrível de desesperança que não me lembro de ter sentido.
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  —
  — Por favor, eu preciso de você, por favor! Não posso fazer isso sozinho, não posso enfrentá-lo, por favor…
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  — … Acorda…
  — Não vai, eu te imploro, vamos resolver juntos! Por favor, onde está você?! ONDE VOCÊ ESTÁ? NÃO ME DEIXA SOZINHO, NÃO SOLTA A MINHA MÃO, VÓ, POR FAVOR… por favor…
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  — !
  Senti um chacoalhar da cabeça, abrindo os olhos em um solavanco, desta vez de verdade. Encarei um ambiente iluminado e o rosto de acima do meu. Seus olhos estavam arregalados e mais assustados do que já vi em toda minha vida.
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  Eu arfava, como se tivesse corrido uma maratona. Empurrei seu peito para tirar sua cara da minha panorâmica, sentando-me com pressa enquanto parecia estar prestes a ter um choque anafilático. Não conseguia respirar, não conseguia pensar em nada. Sentia a camisa grudando nas costas e o suor descendo pela testa, como um verdadeiro ataque de pânico. Eu não via nada, absolutamente nada à minha frente.
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  — … Meu deus, , o que aconteceu? Fala comigo, por favor…
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  Senti seu toque em meus ombros, que repeli de imediato com um tapa inesperado. Ele se afastou, ainda com o semblante em choque, e eu não sabia o que fazer. Eu parecia um gato assustado, tremendo da cabeça aos pés enquanto ainda parecia estar vivendo a sensação mais perturbadora de toda a minha vida, acompanhada de um zumbido ainda insistente no fundo de minha mente.
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  Queria gritar, correr, entrar em contato com o SAC responsável do mundo dos mortos para que me explicassem o que diabos havia acabado de acontecer e pra onde caralhos haviam levado a minha avó, mas não adiantaria muito se eu continuasse parado e tremendo como estava.
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  Olhei pra mais uma vez, o bastante para que eu finalmente me esforçasse para começar a me acalmar. Ele estava pálido e com medo de se aproximar, não que eu o culpasse disso. Deveria ser claramente a primeira vez que ele me pegava num estado tão fora do normal, mesmo com todas as outras esquisitices da lista.
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  — Eu… — Comecei, a voz tão seca que tive de engolir várias vezes para voltar a falar — Acho que tive um pesadelo. Foi mal.
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   continuou parado, e só então percebi o quanto ele apertava os jeans largos na área da coxa para esconder o nervosismo. Será que gritei tão alto como pensei?
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  — Puta que pariu, … — Ele suspirou pesadamente, afrouxando o aperto — Eu te gritei tantas vezes e tentei te acordar, mas devo ter levado pelo menos cinco golpes enquanto você se debatia feito um maluco nessa cama. E estava gritando pela sua avó, o que aconteceu? Recebeu uma ligação tarde da noite da sua mãe ontem? Sua avó está bem? Ela parecia estar quando me deu 100 dólares no verão passado…
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  Trinquei o maxilar, começando a me levantar de fato. As cortinas retinham grande parte da luz, e as janelas estavam perfeitamente fechadas. As provas vivas de que tudo não passara de um pesadelo tenebroso.
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  — Que horas são? — Perguntei, caminhando para o banheiro. Foi um sonho. Eu estava exausto. Um pesadelo do mais terrível, mas não passava disso.
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  — Três horas — ele respondeu, vindo atrás de mim — Ei, cara, espera aí, você não pode levantar assim. Ouviu que eu disse que você parecia um garoto possuído, igual naquele filme, Invocação do Mal? Acho que isso pode ser aquela coisa estranha, terror noturno, eu acho. Você não tem dormido muito bem mesmo…
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  — — Virei para ele no meio do caminho, respirando fundo para que a resposta viesse curta e rápida — Sei que posso ter te deixado preocupado, mas não foi nada demais. Todo mundo tem uns pesadelos de vez em quando. Vou tomar um banho, não quer me preparar um sanduíche? — Ergui uma sobrancelha, enquanto ele me avaliava (novamente) como se eu tivesse um diagnóstico de dupla personalidade.
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  — Eu posso…
  — Ótimo, você é demais! Não tinha um trabalho pra entregar hoje? — entrei e apoiei as mãos na porta, pronto para fechá-la.
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  — Não vou te deixar sozinho…
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  — Acho que preciso ficar um pouco sozinho, se não se importa.
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  Ele tentou argumentar mais uma vez, mas logo ouvi sua respiração derrotada e uma despedida curta enquanto ele se virava para sair e eu rapidamente fechava a porta. Ancorei as costas na mesma, olhando para cima imediatamente enquanto minha cabeça girava, como se meu cérebro fosse despencar a qualquer minuto.
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  Sozinho, caminhei para o espelho, olhando a pele pálida e doente, os círculos embaixo dos olhos e as gotículas de sangue que escapavam do curativo na lateral da cabeça. Uma ânsia começou a me tomar à medida que as vozes do pesadelo se repetiam, e os tremores voltavam com toda a força quando eu me lembrava da sensação horrenda de sentir as mãos de minha avó desaparecerem sobre as minhas.
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  Liguei o chuveiro e arranquei a camisa suada. Abri a torneira da pia a fim de lavar o rosto com a água mais gelada que pudesse sair dali, um gelo que me acordaria na marra, que tiraria todas aquelas ideias malucas da minha cabeça, que me fariam voltar à realidade.
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  Foi quando baixei os olhos e olhei o gesso. E para algo que não estava ali antes.
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  Um traço fino e delicado desenhava elegantemente a inicial do meu nome, logo ao lado de um número 9 fechado em um quadrado perfeito. Era pequeno, quase imperceptível. Estava localizado logo na região da palma de minha mão, onde ela havia tocado antes de ir. Foi como se minha mente apagasse e o chão virasse geleia aos meus pés. Senti um frio absurdo, um frio fantasmagórico, enlouquecedor.
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  Meus joelhos cederam e a verdade me atingiu como uma bomba. Não, não, não! Foi um sonho, só um sonho! Um pesadelo do mais cruel e desumano, mas não a verdade. Não a realidade, não o maldito “é assim que é”, não, não! Eu não iria aceitar, eu não saberia como…
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  Olhei para o desenho de novo, como se ele me encarasse aos risos. A inicial não poderia ser minha e o número 9 não poderia significar setembro porque se fosse, indicaria que tudo aquilo não foi um sonho porcaria nenhuma. Significaria que tudo foi real, e por Deus, eu não podia aceitar tal coisa, não podia pensar no pesadelo…
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  Senti o peito apertar de novo, o terror se instaurar ao meu redor misturado com a raiva. De repente, me vi sem saída. Pressionado a aceitar a única opção viável à minha frente. Meu nariz ardeu em chamas enquanto eu sabia o que estava vindo, e por mais que me assustasse, não conseguia segurar. Enterrei o rosto entre os joelhos, abafando o som dos meus soluços, dos gemidos insanos que vinham da garganta, as lágrimas pesadas e quentes jorrando pelo meu rosto. A dor sem igual aumentava a cada confirmação que eu estava tendo naquele momento, uma após a outra. Eu mal conseguia respirar.
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  A dor insana que ressuscitava um sentimento tão adormecido que pensei que jamais sentiria. Ele se mostrou tão realista quanto um soco no estômago; a confirmação de não ter sido um erro. De ouvir, pela primeira vez, o quanto eu me parecia com eles. De ouvir que eles estavam orgulhosos de mim.
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  Afinal, eu tive pais. E eles me amaram, me deram um nome. Esse nome significava que eles me amavam, certo? E que não me largaram no topo da escadaria de um orfanato. Fui parar lá porque os pais – que me amaram – estavam mortos. Meus pais estavam mortos.
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  E de repente eu sabia disso. Tinha certeza. Como um conhecimento escondido, esquecido.
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  Meu deus, como aquilo doía! Por mais que sempre esperasse esse dia, que já tivesse pensado na possibilidade, não imaginei que doeria tanto. Que o sentimento me asfixiasse, torcendo meu peito como uma peça molhada. E estava doendo, doendo tanto. Se derramava dentro de mim de forma tão intensa e avassaladora, me fazendo querer bater a cabeça várias e várias vezes na parede. Era a maior loucura que eu já havia sentido, não tinha como descrever.
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  O discurso macabro de minha avó dançou em minha mente, cada palavra cravada como tatuagem em minhas lembranças. Tive a impressão de que jamais me esqueceria delas, por mais que tentasse, por mais que pedisse por isso. Fechei os olhos, quentes como o inferno, jorrando lágrimas como ondas enquanto tentei chamá-la mais uma vez. E outra, e mais outra. Caí para o lado em derrota, juntando os joelhos na barriga, lembrando-me com horror de sua voz fraca e urgente, sumindo bem à minha frente, sem ao menos poder vê-la… ela tinha sumido! Soltei uma risada bizarra, saindo em um gorgolejo de soluços e fungadas, pensando seriamente que eu ainda deveria estar em outra dimensão paralela por pensar daquela forma. Não é que ela pudesse morrer duas vezes. Não, ela não tinha morrido.
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  Mas tinha desaparecido. Sumido, evaporado no ar como os grãos de areia da costa de Carmel. E um aperto na laringe me dizia que nunca mais a veria de novo. Nunca mais escutaria seus conselhos e sofreria interferências desagradáveis.
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  Foi então que tudo começou a desabar.
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  E de repente, me senti mais sozinho do que jamais estive.
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Capítulo 18 – Maldito Duke Ellington

  A baía de Upper Bay não era tão bonita quanto a costa de Carmel.
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  O sopro gelado da maresia agora vinha acompanhado de um punhado de gelo. As ondas não faziam barulhos significativos pela falta de pedras e a poluição da terra firme tirava grande parte do prazer do turismo. Mas essas coisas eram o de menos. Eu não pretendia tirar nenhuma foto nova de família.
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  Só queria encarar a estátua da liberdade ao longe, desafiando-a a me dizer com todas as letras onde eu tinha errado.
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  O vento forte mal mantinha meu cigarro aceso. Não olhei as horas, mas considerando que a maré já quase alcançava o gramado da ilha da Liberdade, eu já estava afundado na madrugada. Outra vez. Mais uma delas onde eu esperava respostas do escuro.
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  Um foco de luz iluminou o perfil do meu rosto, desvencilhando-se logo em seguida. Ouvi passos apressados em minhas costas, mesmo que eu não pretendesse me mexer.
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  — Ei, garoto! — A voz grave foi ficando mais alta à medida que ele se aproximava. Virei a metade do rosto e ele apertou os olhos para enxergar melhor através dos óculos — O que está fazendo aqui? Qual é o seu problema? Vai morrer congelado se ficar aqui.
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  Soltei uma gargalhada, tossindo logo em seguida. Balancei uma das latas verdes ao meu lado, procurando uma que ainda tivesse um resquício de cerveja que eu possa ter me esquecido.
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  — Morrer — murmurei, desistindo da minha busca — Eu vou morrer, senhor. Não quero, mas vou. A morte está um pouco perdida por aí agora, mas daqui a pouco deve aparecer para me dar um olá.
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  O velho arregalou os olhos, aturdido por um momento enquanto encarava minha posição: pernas jogadas para o precipício, bem acima da imensidão negra do mar e da morte certa. Bêbado e maluco.
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  — Olha, garoto… Acho que as coisas não precisam ser assim…
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  Franzi o cenho, ativando as engrenagens lentas do meu cérebro por causa do álcool, tentando captar sua atitude. Quando entendi, mais uma gargalhada avassaladora escapou de minha garganta, saindo com tanta vontade que arqueei as costas para trás.
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  — Não, não é isso — balancei as mãos no ar, como se o afastasse — Eu não sou um suicida, apesar de muita gente achar que sim, principalmente depois de uns lances recentes. Não, não sou, Cassian, pode guardar esse telefone — eu não fazia ideia se seu nome era Cassian — Apesar da vida ser um porre, a morte é uma baita filha da puta. Não quero encontrá-la tão cedo.
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  Ele olhou para os lados novamente, agora se perguntando se eu não precisava de médicos especiais.
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  Revirei os olhos e constatei que talvez fosse hora de ir. Dei uma última tragada no cigarro e joguei-o para o lado, apoiando-me em um dos braços para levantar, não enxergando muito bem quando minha mão foi de encontro a uma das garrafas vazias do parapeito, que logo tombou para o lado e caiu de encontro ao mar. Uma das minhas pernas quase foi junto, ou era o que pareceu, porque senti um forte puxão no meu ombro e os olhos de Cassian me encarando agora com certa urgência.
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  — Você precisa ter cuidado! — ele grunhiu, me puxando para cima com uma força digna de vigias noturnas — Olha só pra você, está congelando! Sabe o seu nome e onde mora, pelo menos? Você precisa ir para casa…
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  — Cassian… — chamei, a voz saindo mais embargada do que me lembrava — Você já perdeu alguém?
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  — O que?
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  — Perguntei se já perdeu alguém. Um parente, uma namorada, um grande amigo, coisas desse tipo.
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  Ele abriu a boca para responder, mas não teve muita vontade de fazê-lo depois. Imaginou que não valeria a pena e eu não me importava realmente com suas respostas.
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  — Vem cá, vou te ajudar a pegar um táxi. Você não pode ficar aqui — ele passou umas mãos em minha costas, conduzindo-me para fora da brisa.
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  — Eu perdi alguém — suspirei — Quer dizer, acho que perdi. Você já achou que perdeu alguém, Cassian? E quando tentou confirmar, viu que não era possível? É uma sensação ruim, Cassian, péssima. Parece que vai te matar — sacudi o corpo em mais uma risada. Ele apertou a mão em minhas costas — Mas desta vez foi um caso especial. Eu não sinto que perdi apenas uma, mas três pessoas. De uma vez só. Como em um acidente de avião violento, que cai no meio do mar. Você sente o luto, mas ele dói um milhão de vezes mais porque sabe que nunca vai poder se despedir direito. Porque os corpos desapareceram ou viraram comida de tubarão..
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  Cassian desacelerou os passos, me avaliando pelo canto do olho. Ele engoliu em seco.
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  — Isso não diz muita coisa, na verdade — continuei — Eu nem os conheci, sabe? Então não preciso ficar triste desse jeito. Você concorda comigo, não é? Ainda mais porque eu só vejo a outra parte da população mundial que coexiste desde sei lá quando com a gente por causa deles também, e não sei se devo agradecer por isso. Você agradeceria, Cassian? — virei o rosto para ele — Agradeceria se fosse perturbado por gente morta o tempo inteiro?
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  Ele freou os sapatos por um segundo, fazendo minha cabeça girar pela parada brusca. Suas pálpebras tremiam de leve; ele parecia um pouco incomodado, mas também parecia assustado. Eu não sabia dizer com toda certeza.
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  — Você tem alguém para te buscar?
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  — Prefiro dizer que não — respondi devagar. Ergui o braço direito, agora solto sem a tipoia, o gesso escondido sob o casaco — E acho que não consigo dirigir ainda.
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  Ele repuxou os lábios, tateando os próprios bolsos.
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  — Qual é o seu nome?
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  — . Você gostou? Foi o nome que eles me deram.
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  — Você tem parentes, ? Alguém que possa ligar e avisar onde está?
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  — Nessa maldita cidade, que odeio a cada dia que passa, não tenho nenhum parente. A última que me restou parece ter sido abduzida por forças estranhas do além que eu não tinha conhecimento e já cansei de me sentir burro e fraco o suficiente por não ter impedido isso. Ela já estava morta, sabe, Cassian? Eles podiam tê-la deixado em paz enquanto cuidava de mim, ou só ficava de olho em mim daquele jeito dela, não importa. Precisavam ter feito o que fizeram? Fazê-la desaparecer? Não acha que foi demais?
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  Ele respirou fundo e recomeçou a me empurrar direto para a avenida, onde o movimento era lento e eu não via carros amarelos.
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  — Vou chamar um táxi para você. Consegue se lembrar da onde mora? — perguntou em tom urgente, como se implorasse para que eu não fosse nenhum delinquente fugitivo de algum centro de reformatório.
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  — Mas, Cassian…
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  — Meu nome é Bohdi.
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  — Bohdi! Bonito nome. Seus pais também que escolheram?
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  — Anda logo, garoto, antes que eu tenha de buscar você no banco de dados.
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  Levantei as mãos em sinal de rendição, cerrando os olhos enquanto repetia a localização da West End Avenue. Ele franziu as sobrancelhas, como se esperasse o endereço certo.
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  Bufei e procurei o molho de chaves no bolso da frente do jeans, erguendo-o na frente dele.
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  — Eu moro mesmo lá — balancei o coletivo de metais — Minha mãe insistiu, ela não confia nos dormitórios da faculdade. Mas foi bom no fim das contas; se eu encontrasse algum fantasma em um quarto compartilhado, isso me traria sérios problemas.
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  Ele piscou os olhos algumas vezes antes de puxar um objeto quadrado e preto, parecido com uma rádio patrulha e repetir algumas palavras nele, que não entendi. Em seguida, ele me encarou por um tempo antes de pegar no meu braço com um pouco mais de força e me puxar até o outro lado do pavilhão, onde parecia ser o estacionamento.
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  — Entra aí, garoto — ele apontou para um antigo Mustang 1987, e não sei como fui capaz de reconhecê-lo — Não posso te deixar ser preso antes do natal.
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  Ri baixo enquanto abria a porta do carona de forma desengonçada, me afundando no banco e encostando a cabeça na janela. Ele não demorou a entrar e ligar o motor, repetindo o endereço a fim de que eu concordasse. Apenas balancei a cabeça, vendo a cidade começar a se movimentar e tentando lutar contra uma possível vertigem.
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  — Quantos anos você tem? — perguntou ele de repente.
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  — Vinte e um — respondi, sem me mover.
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  — Você terminou com a sua namorada?
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  Mais uma risada que escapulia, desta vez uma tão seca e engasgada que tossi mais uma vez.
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  — É esse tipo de problema que leva as pessoas a encherem a cara por aqui?
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  — Terminou ou não? — ele grunhiu, tentando se manter paciente.
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  — Não, Cassian. Não tem como coisas sem início chegarem ao fim.
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  — Então é um amor platônico?
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  — Platão não tem nada a ver com essa merda — murmurei — Amor também não.
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  Olhei para as luzes atravessando meus olhos do lado de fora. Toda a sucata de prédios e bancos de praça, as placas azuis que indicavam ruas que eu nunca entrei. Eu odiava tudo. Cada detalhe.
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  Ouvi uma pequena risadinha disfarçada ao lado.
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  — Se gosta dela, melhor ligar logo, rapaz. Se ela for bonita, alguém vai roubá-la de você.
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  — Ela é linda sim — sussurrei, captando as luzes vermelhas de uma placa neon — E inteligente, forte, determinada, misteriosa, teimosa, atraente. Esconde tanta coisa dentro de si que fez com que eu me identificasse, como uma conexão estranha. E agora não consigo parar de pensar nela… — suspirei — Mas não posso gostar dela, Cassian. Não desse jeito. Mesmo que já seja tarde demais.
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  — Pobre rapaz — ele guiou o carro em um cruzamento, e as grades do Central já começavam a se tornar visíveis — Ela tem uma família difícil?
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  — Digamos que o irmão dela não gosta muito de mim.
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  — Entendo. Meu cunhado também não ia muito com a minha cara no início, sabe? Mas fui criando oportunidades para que ele me conhecesse melhor e hoje jogamos pôker todas as quintas. Pode ser o que falta pra você.
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  — Ele já me conhece bem, Cassian — ajeitei as costas no banco — E se trombar com ele de novo, vou fazer um tour a sete palmos do chão.
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  Cassian riu com vontade, enquanto permaneci impassível. Não iria reforçar a veracidade da frase.
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  Minha cabeça girou quando o carro finalmente parou. A rua deserta estava absurdamente silenciosa; um silêncio incômodo, que me trazia vozes à mente de vez em quando. Ele parecia estar olhando para fora antes de perguntar:
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  — É aqui mesmo?
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  Olhei para a fachada em cinza do prédio ao lado, reconhecendo as portas de vidro da entrada e o balcão redondo onde o sr. Garner lia o jornal.
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  — Lar, doce lar — sorri, enquanto ele ainda me olhava desconfiado. Puxei as chaves do bolso novamente, mostrando o chaveiro redondo que carregava o nome do edifício — Eu não estou invadindo. Eu juro.
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  Ele olhou do prédio para mim antes de suspirar e dar de ombros.
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  — Vê se pára de fumar, garoto. Não estamos mais nos anos 60, essa porcaria vai te matar.
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  — Espero que sim, Cassian — lancei-lhe um sorriso e abri a porta. Antes de seguir para dentro, abaixei o tronco até sua janela do motorista — Ah, só mais uma coisa, Cassian. Você é um cara legal, então caso morra inesperadamente com arrependimentos, pode me procurar. Talvez leve algum tempo, mas lembre-se que precisa visualizar essa mesma rua para conseguir se locomover, ok? Vou ter prazer em ajudá-lo. Tenha uma boa noite, Cassian.
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  Afundei o rosto no volante.
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  Eu não sabia se deveria fazer isso.
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  Só atendi aquele telefonema porque ela não parecia disposta a desistir. E ficar sob a inspeção de parecia pior do que sair e enfrentar.
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  Por fim, saí para o tempo gelado do fim da tarde, decidindo que seria um bom ouvinte e não falaria mais do que o necessário. Tinha preparado histórias – não muito convincentes e até muito fantasiosas, mas ainda eram histórias. Não seria parte do “quem cala, consente” porque eu jamais iria consentir. Se ela começasse a falar sobre qualquer memória comigo – recentemente recuperada – que incluísse Woodlawn, eu soltaria a resposta pronta na ponta da língua.
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  O Citizen parecia dezenas de vezes maior ao fim da tarde, sem a correria barulhenta dos estudantes e dos telefones. O céu estava em um tom roxo de ferida, e os postes já estavam acesos quando passei pela entrada, seguindo pelo corredor até a porta no final, que estava fechada. Observei a janela retangular de vidro ao lado da porta, batendo o dedo na mesma, fazendo erguer a cabeça da montanha de pastas dispostas sobre uma das mesas.
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  Ela correu e destrancou a porta.
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  — Nós podemos estar aqui? — perguntei ao constatar o ambiente totalmente vazio, e parcialmente iluminado por apenas uma luminária na mesa das pastas.
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  — Teoricamente não — respondeu enquanto empilhava algumas folhas destacadas e presas por grampos — Mas quando o Prof. Hill tranca aquela porta, dificilmente ele volta atrás.
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  — Ah… — virei-me pra ela, que ainda se mantinha concentrada em outro ponto — E então, o que queria conversar?
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  Eu sabia que ela havia me ouvido, mas ainda assim continuou organizando folhas por pelo menos um minuto. Seu rosto sério entregava que ela estava formulando as frases, e isso não me pareceu nada bom.
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  Ela não se lembra. Por favor, diga que ela não se lembra.
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  Por fim, ela se desinteressou dos papéis e virou pra mim, suspirando.
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  — Falei com a Margot.
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  — Você o que?! — arregalei os olhos, a voz aumentando uma oitava a mais — , como… Não combinamos que isso teria de ser devagar?
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  — Fica tranquilo, Gandhi, eu fui discreta. Bem, pelo menos é o que pareceu… no início. — ela levantou os ombros sugestivamente, me fazendo trincar os dentes.
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  — , o que você fez?
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  — Não fiz nada! Eu já vi ela em algumas festas, procurei tratá-la como se não fôssemos desconhecidas, mas ela estava, sei lá… estranha.
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  — Se você foi sugestivamente acusatória, ela não poderia se sentir de outra forma — bufei.
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  — Não, você não tá entendendo, , eu consigo ser casual mesmo falando sobre leis trabalhistas, tá bom? O assunto que envolve Elena e a polícia foi como um belo bom dia, e não houve muita coisa além disso. Eu literalmente fui apenas… normal. — ela deu de ombros, convicta.
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  Não era difícil acreditar em , visto que ela não tinha motivos pra mentir pra mim. Pelo menos não sobre aquilo.
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  — Tá legal. — falei, tomando a liberdade de puxar uma das cadeiras e me sentar — Começa do começo.
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  — Antes de mais nada — ela disse, sentando na cadeira à minha frente, puxando-a pra perto até que nossos joelhos encostassem — Eu devo te dizer que nada foi planejado, ela literalmente estava na minha frente no Starbucks. Achei uma boa oportunidade pra dizer um oi. Eu teria te contado antes, mas isso foi bem na manhã do seu acidente.
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  Acenei com a cabeça ao mesmo tempo em que uma lembrança me invadiu. No meio de toda aquela viagem maluca de regressão, onde eu estava inconsciente e refazia meus passos até parar na encruzilhada macabra em que havia me colocado, eu pensei no Starbucks. Sabia que era estranho e sabia que tal coisa não partiria de mim de forma tão simples, mas lá estava eu pensando em tal coisa. E agora, a situação parecia revestir-se estranhamente de sinal, e o aperto no estômago me tomou de novo.
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  Ah, não. Essa merda de novo não.
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  Devo ter deixado alguma coisa escapar, porque ela se calou por um momento e franziu o cenho.
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  — Está tudo bem? — perguntou, me avaliando.
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  — E onde entra a parte do estranha nisso? — ignorei sua pergunta com firmeza, demonstrando que eu não deveria ser o assunto da conversa. Ela entendeu rapidamente o recado.
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  — Aí que tá! Ela pareceu surpresa com meu cumprimento, mas até aí tudo bem, já que nunca nos falamos de verdade. E vendo que a fila não iria andar tão rápido assim, aproveitei pra perguntá-la sobre as aulas, o clima, o Natal, qualquer coisa que fosse.
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  — Essa é sua melhor forma de se aproximar de alguém? Encurralando ela com perguntas? — levantei a sobrancelha.
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  Ela revirou os olhos.
  — Só me escuta. Ela parecia estar respondendo bem, mesmo que estivesse achando estranho. Era esquiva em algumas perguntas, mas eu não esperava que ela me dissesse tudo da própria vida mesmo. Foi então que perguntei como ela estava depois do suicídio. — Ela respirou fundo — Ela ficou mais séria, mas me respondeu normalmente, que estava levando. Não havia nada de suspeito. Mas então eu me toquei de uma coisa…
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  — O quê?
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  — Você não acha estranho, nem um pouco bizarro, que Margot não pediu transferência de quarto do dormitório depois da morte de Elena? Digo, uma garota morreu na cama ao lado da sua, é o que as pessoas esperam que você faça.
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  — Como sabe que ela não pediu?
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  — Eu sei que ela não pediu, perguntei à Madison logo depois da cafeteria. E tudo bem que ela parece durona à la Perdita Durango, mas você não a viu naquele dia. Ela parecia lamentável e não parava de chorar, estava em choque. Parecia literalmente o tipo de pessoa que nunca mais pisaria naquele quarto.
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  Queria dizer que havia começado a colocar a cabeça pra funcionar, mas aquilo não dizia nada pra mim. Pelo menos não por enquanto.
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  — Isso não é muita coisa pra nós, . — Respondi depois de um tempo — Quer dizer, precisamos de mais do que uma garota que fingiu estar traumatizada com a morte da colega de quarto e dorme ao lado da cama que…
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  — É isso! — Ela me interrompeu, arfando levemente — Se ela fingiu, então definitivamente tá escondendo alguma coisa. O comportamento dela naquele dia não deixava espaço para nenhuma suspeita, mas se ela de repente parece outra pessoa diante do ocorrido, ela pode saber de alguma coisa.
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  — Ou ter feito alguma coisa. — Reiterei.
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  — Não vamos nos adiantar.
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  — Precisamos nos adiantar por algum lugar se quisermos acabar com isso rápido. Estamos ficando sem tempo — falei ríspido, xingando internamente por não segurar a língua. Ela me encarou em silêncio novamente, aproximando-se um pouco mais de mim.
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  — Você tá legal?
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  — Você já perguntou isso.
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  — E você não respondeu. Vai esperar que eu insista?
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  Droga. Eu não tinha empilhado um estoque de mentiras sobre minha cara de bosta. Esperava que ela fosse se lembrar dos eventos malucos no cemitério e me esperar naquela sala com a ambulância de um sanatório, mas não aquilo. Aquilo parecia pior, eu preferia uma lobotomia ao invés de uma conversa normal que pudesse abrir espaço para que ela notasse meu estado anormal.
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  Com isso, apenas respirei fundo antes de responder:
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  — Só alguns problemas. Coisas que ainda não entendi, não são nada demais.
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  Ela me encarou, estática e desconfiada. Não sabia dizer como era a aparência de uma pessoa enlutada, mas de repente pareceu que ela sabia. Que entendia também. Talvez conseguisse enxergar todo o inferno interior que me acompanhava.
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  Quis baixar o olhar e terminar a conversa, sair daquela sala e voltar a me concentrar nos demais afazeres que realmente importavam agora. Tinha aceitado que perdia todas as estribeiras quando estava com , mas pensar em abrir a boca e contá-la com todas as letras que havia perdido alguém já era demais. O que eu diria?
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  Como se explica a perda de alguém que já estava morto?
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  Senti o rosto ficar quente quando ela colocou as mãos sobre as minhas. Pude visualizar minha mente se teleportando para uma certa madrugada chuvosa e gelada no Brooklyn, quando os Beatles tocaram ao redor e eu fui hipnotizado por aquele mesmo olhar que ela me lançava. Como se eles falassem o que ela queria dizer, mas não considerava necessário dizê-lo em voz alta. E eu sabia, e senti. A empatia e o calor de seus dedos me atingiram com sucesso, junto com a certeza de que se não fosse embora logo, ela com certeza ouviria meu coração pulando como um louco no peito.
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  — Ser misterioso é uma característica nata sua. Mas não precisa ser assim o tempo todo — ela sussurrou — Se por acaso sentir que não é tão feito de ferro quanto precisa ser, pode conversar comigo. Sou ótima em ser perfeita.
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  Dei um sorriso involuntário, soando como aparente sarcasmo enquanto jogava pra fora toda a ansiedade que me tomava o peito pra dizer sim. Aquele dilema de novo, que exibia um leque de prós e contras pra caso eu decidisse aceitar e seguir o que não seria um problema para qualquer pessoa normal.
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  Mas eu não era normal e, de alguma forma, ela também não. A junção dos dois sujeitos resultaria em desastre.
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  Mesmo sabendo disso, apoiei os cotovelos nos joelhos, puxando sua mão para mais perto e trazendo seu corpo junto.
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  — Acha que você é um livro aberto, ? — perguntei, ainda destilando o que eu chamava de tentativa de mudar o assunto — ‘Tô pra dizer que com certeza esconde segredos absurdos por aí.
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  Ela tremeu os lábios por um instante, surpreendida pela atitude que veio do completo nada, mas tão logo se recuperou com um sorriso divertido.
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  — Todo mundo esconde segredos absurdos, . Faz parte do direito inerente de todos os seres humanos — ela cerrou os olhos — Mas segredos revelados sem provas são fofocas. Não faço parte dessa galera. Gosto de fatos comprovados.
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  — E está procurando algum deles em mim agora?
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  — Acho que estou procurando desde que te conheci.
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  Ela riu, não percebendo na hora, e fiquei sério. Porque notei a dimensão do quanto eu estava fodido.
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  Quanto mais tempo eu passava com ela, mais difícil era manter tudo escondido, e por tudo quero dizer tudo mesmo. Meu segredo, minhas mentiras, meus pensamentos, sentimentos… Ela parecia estar arrombando a porta da minha vida, que sempre se manteve muito bem trancada, e daí me senti confuso de novo. Me perguntando de repente quando aquilo tinha começado. Quando eu tinha dado permissão para me sentir dessa forma.
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  Porque ela não era mais uma garota comum e isso me apavorava como a morte.
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  — Isso é uma péssima ideia — murmurei, ainda sério, soltando minha mão da sua como se pegasse fogo — Também posso ser perfeito em não deixar que você se aproxime muito.
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  — Considerando seus acessos de loucura recentes, tenho certeza que seu rótulo passa bem longe da palavra perfeito.
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  Permaneci com a expressão fechada antes de soltar uma risada, a qual ela acompanhou. Não devia achar cômico um fato tão real e assustador quanto ser perseguido por um espírito maligno, mas não pude me conter. Esperava que pudesse rir quando toda essa merda passasse e eu me sentasse na primeira cadeira de um pub e contasse tudo à Naomi enquanto gargalhava até a barriga doer. Fazer isso antes com foi no mínimo inesperado.
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  — Você precisa tomar cuidado, — ela disse, ao fim das risadas — Não dá pra fingir o tempo todo. Parece que você está começando a desaprender o princípio de sorrir e acenar mesmo quando tudo à sua volta está uma bagunça.
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  Não, isso só acontece com você, e me enlouquece como o inferno.
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  Fiquei em silêncio pela falta de respostas curtas e convincentes para aquela observação. Se ela dizia, eu acreditava. Porque foi uma burrice incalculável me deixar à mercê de uma garota igualmente observadora, e igualmente curiosa. Apesar de também captar os desfalques na sua atuação, ela fingia melhor do que eu. Talvez porque não fizesse ideia do espectro sombrio que a rodeava, e de como seus motivos estavam envoltos em segredos. Segredos que eu precisava saber, mas não conseguia perguntar. Não sabia se conseguiria fazê-lo sem arrastar ela pra dentro disso tudo.
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  E, de forma alguma, queria que ela experimentasse esse tipo de coisa.
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  — … Mas somos amigos, não é?
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  Ergui o olhar, percebendo que vaguei em meus pensamentos por alguns segundos que cobriram sua fala anterior. O que eu ouvi me atingiu tão de perto que cheguei para trás imediatamente enquanto via aquele sorriso do mais encantador e cômico em seus lábios, decidindo de vez que, caso precisasse conversar com alguém, poderia muito bem dirigir até New Jersey ou trocar uma ideia com uma garrafa de Heineken. Seria mais apropriado e me deixaria menos culpado.
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  — Você fez seu dever de casa. Agora tá na hora do meu — falei assim que me afastei.
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  — O que você vai fazer? — Perguntou, apreensiva.
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  — Prefiro que você não saiba.
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  — Tá brincando comigo? — trincou os dentes — Você não invadiu meu quarto tarde da noite pra me deixar de fora.
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  — Eu só não quero que você se meta em problemas.
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  — Eu me meto em problemas desde que te conheci, , e mesmo assim aceitei participar disso. Então ou você me leva ou você me leva.
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  Ela disse firme e tranquila. Parecia ter certeza de que eu não teria coragem de dizer não a ela. E eu realmente queria dizer não. Definitivamente, não queria que ela estivesse por perto enquanto eu lidava com possíveis alvos de Elena. Não queria nem admitir o arrepio que passeou pela minha espinha ao saber de seu encontro com Margot na cafeteria, e eu nem podia explicar que isso era perigoso porque Elena poderia simplesmente aparecer a qualquer momento.
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  E ela não podia presenciar mais uma cena daquelas.
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  Entretanto, acabei não respondendo ao seu ultimato. Não porque não quis, mas a porta do escritório abrindo bruscamente me fez prestar mais atenção e levantar-me rapidamente com o susto.
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  Uma garota de cachos loiros soltos embaixo de um chapéu preto, com roupas igualmente da mesma cor se aproximou de nós no escuro, apertando os olhos para enxergar.
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  — ? — Ela disse, afastando uma mecha roxa para trás. Havia uma maquiagem preta forte em seus olhos — O que ainda tá fazendo aqui? Achei que iria embora depois de organizar sua mesa.
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  — Eu vou… Eu estava… — respondeu, ou pelo menos tentou. A garota olhava de mim para , e sorrateiramente para a mesa, que permanecia desarrumada — Madison, esse é…
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  — . — Madison completou, com um olhar confuso porém um sorriso fraco — Conheço você, doutor. Sua fama o precede, é bem mais gato pessoalmente. — Ela deixou que o sorriso se abrisse — Sou Madison Shue.
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  — Muito prazer em te conhecer. — Respondi, com um sorriso travado — Então, acho que vou…
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  — Já vai? Eu ainda nem perguntei que encontro inusitado é esse. — Ela olhou para , esperando uma resposta — Quando você ia me dizer que era próxima do número um?
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  — Não somos próximos! — As duas vozes saíram juntas, levando a um constrangimento momentâneo.
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  — Ele só veio deixar, digo, pegar uma coisa aqui. Ele já está de saída. — respondeu rápido, olhando rapidamente para a mesa e mapeando o espaço em busca de alguma coisa — Que eu não consegui encontrar.
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  — Ah, é, é. Posso pegar em uma outra oportunidade. — Respondi, começando a caminhar para a saída — Então… Eu já vou.
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  — Ei, ! — Madison gritou, fazendo-me virar de novo — Tá livre no próximo fim de semana? — Não respondi — Vai ter uma festa na casa nova da Alanna. Aquecimento pro Natal, deve ter comentado. Você com certeza vai ser bem presenteado…
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  Fingi apenas que não pesquei o tom malicioso de suas palavras e voltei novamente para a saída.
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  — Tenho certeza que vou estar ocupado, então… Até mais.
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  — , espera. — Dessa vez falou, e estava quase na minha frente quando me virei de novo — Sobre o que você ia levar… — Seus olhos foram de um lado a outro, escolhendo as palavras cuidadosamente pela presença de Madison — Não se esqueça de vir buscá-la, ok?
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  Pisquei os olhos, exercitando minha indiferença. Mas eu não conseguia fingir diante daquele jogo de palavras. E nem diante daqueles olhos.
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  Relutante, respondi:
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  — Tudo bem, eu vou buscá-la.
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  Eu saberia caso ele aparecesse.
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  Era nisso que me agarrava a cada segundo. Apesar de agir segundo seu próprio tempo, algo me dizia que ele não apareceria. Ela estaria comigo e isso não significava que estaria segura, mas tampouco estaria sozinha. Tive a impressão de que não teria problema, pelo menos não por hoje.
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  E não queria relacionar a minha falta de problemas com o desaparecimento de minha avó.
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  Decidi não ligar para e escutar uma resposta que eu já sabia. Ele diria para fazer exatamente o que estava fazendo agora. E sem garantias de resultados, eu evitaria conversas longas e desnecessárias. Esperava que ele pudesse entender.
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  Assim, abri o celular, encarando o nome dela na tela, movendo os dedos em um vou-não-vou constante que me fazia trincar os dentes. A lembrança nebulosa da cidade passando pelos meus olhos enquanto escutava a mim mesmo externando sentimentos a um completo estranho me atingiu de repente, me desafiando a responder: “por que você quer fazer isso?”.
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  A resposta estava no meu coração e não me importava mais de saber disso. Não que eu fosse fazer algo a respeito, mas depois da represália contra minha avó, tinha decidido que pelo menos pararia de mentir pra mim mesmo.
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  Eu saberia. E sentiria o peso negro em volta de mim, a sensação sufocante e sombria, mas ela estaria junto. E mesmo que não existisse nada ritualístico ou objetos de invocação dos mortos além de mim mesmo, ainda existia o fator de risco chamado Elena. Se ela ainda estivesse por lá.
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  Prestes a discar o número, o bip de mensagens apitou três vezes seguidas. Olhei para o nome de Naomi e fui tomado por uma sensação de culpa. Em tempos normais, ela já saberia de tudo. Tenho certeza de que largaria tudo que estivesse fazendo para me ajudar também, como sempre fez, e essa situação poderia sumir em pelo menos dois piscares de olhos. Mas tudo isso viria com uma condição, e eu não saberia explicar a ela porquê não estava disposto a aceitá-la.
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  Tentei pensar no último conselho de minha avó, focando em não ir muito além daquelas palavras: “saiba que as pessoas também podem fazê-lo mais forte”. Para um cara que passou a vida inteira procurando afastar o máximo de pessoas possíveis, aquilo não queria dizer muita coisa. Era como uma das leituras mediúnicas fraudadas em que se metia quando era viva. A comunicação com os fantasmas não significava um conhecimento do futuro. Os mortos não olhavam para a frente, eles eram o próprio passado.
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  Ignorei as mensagens e disquei o número de , decidindo que poderia me dar ao luxo de aproveitar minha passageira falta de problemas. Se não desse em nada, pelo menos eu estaria com ela, e me senti motivado a ir em frente, mesmo sem saber o que encontraria.
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  Se minha avó estivesse certa, o caminho ladeado pelos meus instintos eram o que colocariam fim àquilo tudo. Por mais suicidas e inconclusivos que pudessem ser.
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  A silhueta de apareceu no escuro, correndo sorrateiramente entre os pinheiros de seu jardim abarrotado de pisca-piscas, enquanto a mesma atravessava o muro gradeado, com um rápido olhar para algum ponto acima. Em seguida, cruzou a rua em direção ao meu carro. Sua cabeça girava tanto para os lados que duvidei que ela fosse me ver. Seu cachecol esvoaçava no vento gelado e, por precaução, eu já havia aumentado o aquecedor.
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  — Graças a Deus. — Ela meteu as mãos em todas as aberturas quentes assim que bateu a porta do carona.
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  — Os nova-yorkinos finalmente começaram a sentir frio? — Dei uma risada irônica.
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  — Eu estou sentindo a temperatura do painel. Você parece mais estar no inverno russo. — Ela levantou a sobrancelha e gesticulou para o meu grosso casaco esportivo que eu havia metido no banco de trás, por precaução.
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  — O inverno não é bem minha estação favorita.
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  — Eu bem que imaginei, Califórnia. — Ela riu e tirou seu cachecol e casaco, colocando-os também no banco de trás, ficando com apenas um suéter de três cores.
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  Ela me encarou ao perceber que eu a olhava com a sobrancelha levantada.
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  — O que? Eu juro que só sei disso porque eu preciso olhar os dados básicos de todos os alunos que eu publico no Fórum. — Ela gesticulou, falando rápido — Quer dizer, não é lá grande coisa saber da onde você veio. Muita gente vem de São Francisco.
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  — Claro… — Dei de ombros ao vê-la querendo se explicar mais uma vez, controlando o riso — Café com leite? — puxei um copo de papel ao lado da marcha que havia comprado no caminho pra cá. Ela me lançou seu típico olhar de desaprovação — É leite de amêndoas.
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  — Ah. — Ela pegou o café, aquecendo as mãos em suas laterais antes de bebê-lo.
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  — Tá legal, quer revisar algo antes de sairmos?
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  — Bem lembrado. — Ela largou o café ao lado da marcha e puxou uma pequena prancheta da bolsa quadrada, o que me fez querer questionar, mas não o fiz — A Margot vai entrar no trabalho à meia noite, e o horário que ela cumpre depende das gorjetas e do movimento, o que não ajuda muito. Mas fiz uma pesquisa sobre esse Rocket Riders e é o principal ponto de encontro dos moto clubes, e coincidentemente eles vão fazer uma trilha amanhã no Slide Mountain. Alguma arrecadação beneficente, não procurei saber. O que importa é que eles não devem demorar as horas habituais hoje que, acredite, são muitas. Pelos meus cálculos, ela deve estar liberada lá pelas duas ou três da manhã, assim como foi liberada no dia da morte de Elena. Daí podemos descobrir para onde ela vai.
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  Assenti, claramente sem nada a dizer já que havia feito tudo.
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  — Ok, então vamos. — Coloquei meu cinto e bebi um gole farto de café. Ela fez o mesmo.
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  O Rocket Riders era um pub sujo e mal encarado do Brooklyn. Eu queria poder estar exagerando, mas a estrutura de tijolos vermelhos gastos, a lama que se formava na entrada misturada com a neve que se acumulava e sujava o pneu das motos mais sinistras que eu já havia visto, e todo o pessoal que as acompanhava não me deixavam mentir. Não era um lugar que eu viria por conta própria.
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  Estacionei o carro em uma das vagas na lateral da estrutura, que não estavam ocupadas por motos. Era quase que totalmente carente de iluminação, com apenas as luzes vermelhas e amareladas do pub iluminando o lugar, e uma parte florestal atrás. Eu não queria pensar como era fácil sofrer um assalto ali sem que ninguém percebesse.
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  A posição era milimetricamente calculada: dali nós tínhamos a visão perfeita da porta da frente e dos fundos, e uma das poucas janelas concediam uma visão de dentro, com muitas cabeças indo de lá e cá e a pesada fumaça de charutos.
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  — Você se camuflaria bem nesse lugar — ela comentou enquanto desatava o cinto de segurança. Encarei-a confuso e ela inclinou a cabeça para o meu braço, que ainda estava coberto com o gesso que escondia grande parte das tatuagens.
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  Revirei os olhos.
  — Você precisa se despir de alguns estereótipos, .
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  — Não leva a mal, eu ‘tô fazendo um elogio. Devíamos ter pensado em te colocar em uma jaqueta de couro e atrair Margot usando seus próprios atributos de bad boy. Como não pensei nisso na minha pesquisa… — ela murmurou em completa zombaria, digitando algo rápido no telefone enquanto eu me ajeitava no banco. Constatar que ela estava feliz e empolgada por eu não ter dado para trás em levá-la no meu plano maluco fez as coisas valerem a pena — Falando nisso, como está seu braço?
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  — Em um chato processo de cura — respondi, dando de ombros — Nada que eu já não tenha me acostumado.
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  — Deu pra notar — ela riu e olhou para a frente — Ela está chegando. — sussurrou , prontamente ajeitando as costas no banco.
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  Margot cruzou a entrada do pub, cumprimentando alguns grandalhões cheios de tatuagens e cabelos compridos. Seu uniforme consistia em uma meia calça com botas até os joelhos, e um vestido típico de garçonete, que por baixo do sobretudo vi que a cor era igualmente preto. As tatuagens do braço ficaram expostas, e, quando deu um sorriso para outra mulher de cabelos roxos do local, pude ver seu piercing na língua e na sobrancelha.
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  — Ela fica bonita nessa roupa. — murmurou .
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  Quis dizer que ela parecia bonita e assustadoramente sexy, mas me calei. Senti que atrairia seu olhar de desaprovação de novo.
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  A música parecia mais alta do que realmente estava. Eu me perguntava como as pessoas lá dentro estavam conseguindo se entender com Psychosocial tocando tão alto em seus ouvidos. Na verdade, eles pareciam ter apenas largado o disco All Hope is Gone em algum aparelho e deixaram-no tocando no aleatório, até que tudo se repetisse e, claro, ninguém iria notar.
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  Cantarolei algumas notas de Dead Memories quando esta tocou pela segunda vez, e agradeci por não ter de estar de tocaia ao som de músicas ruins.
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  — Esse tipo de música te agrada? — disse depois de um tempo, quando a música acabou. Ela tinha um sorriso de canto — Mais uma vez me surpreendendo, senhor .
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  — Vamos começar esse papo de novo?
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  — Bom, não temos muito a fazer a não ser começar um papo. — Ela deu de ombros — Não que você precise responder, eu não estava…
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  — Eu gosto de Dead Memories. — Interrompi, virando-me levemente no banco para ficar de frente para ela — Digamos que no lugar dos seus discos de jazz, eu vou ter Ozzy Osbourne, Metallica, Iron Maiden, Slipknot. Não aqui, claro. No meu quarto, na Califórnia. — Frisei a última palavra, novamente segurando o riso. Ela entendeu a indireta e revirou os olhos — Mas, respondendo a sua pergunta, sim, me agrada. Acho que, de uma forma meio louca, os gritos e os instrumentos me acalmam. Os discos foram mais um costume que eu peguei da minha mãe, não é algo tão simbólico assim pra mim. Mas quando estou em casa gosto de ouvi-los.
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  O estilo me agradava por motivos mais profundos do que esse: com uma música daquele gênero em um volume considerável, não se escutava nada ao redor. Nada.
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  — A coleção da sua mãe deve ser ótima. — ela disse, sugestiva. Não era uma pergunta, ela se lembrava de quando a contei. Ela só não queria que fosse estranho o fato de se lembrar.
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  — Pois é, Duke Ellington que o diga. — Ela deu uma risada — Às vezes eu penso que se fosse vivo, bastaria que ele desse um oi que ela abandonaria eu e meu pai na mesma hora. E ele diz que morreria se isso acontecesse, então eu culparia Duke Ellington por me deixar órfão pela segunda vez. Essa piada é a sensação de todos os domingos, e minha m… O que foi?
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  O sorriso dela havia sumido, dando lugar a uma expressão confusa, porém que logo se recuperou imediatamente. Não demorou para que eu entendesse tudo e, ao contrário do que esperei, comecei a rir.
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  — Achei que tinha pesquisado tudo sobre mim, .
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  — Eu n-não sabia. — Ela gaguejou, gesticulando novamente, assim como fazia quando estava nervosa. Ela não tinha o olhar de pena que eu havia recebido durante toda a vida; parecia apenas chocada e um tanto curiosa com a informação — Quer dizer, eu sabia da empresa dos seus pais, eles são bem famosos na costa oeste. Eu vi as fotos e não achei semelhança, mas oras, isso não é motivo para se pensar em tal coisa, e em nenhum site dizia que o único filho dos era adotado, e… Meu deus. A sua mãe é tão linda, e o seu avô foi condecorado na segunda guerra pelo próprio Roosevelt! Eu vi um vídeo do seu pai no tribunal, ele se formou com citações honorárias em Harvard, e a sua mãe tem um ótimo currículo de filantropia e…
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  Ela respirou, parecendo assustada com seu próprio monólogo.
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  Então se deteve, arregalando um pouco os olhos.
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  — Desculpa, eu não… Eu não quis ver tanta coisa assim, é só que depois da confusão no John Jay, eu não sabia…
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  — Não sabia se podia confiar em mim. — Completei, balançando a cabeça — Não se preocupe com isso. Nada do que você disse está escondido em algum lugar que não possam buscar pela internet.
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  — Mesmo assim, eu não… — ela disse em voz baixa, se atrapalhando em seu raciocínio — Não quis dizer isso como se fosse algo ruim.
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  — Não seria ruim nem mesmo se quisesse dizer — olhei pra ela com firmeza e, acredito eu, gentileza o suficiente para que demonstrasse o quanto estava tranquilo. Ela pareceu relaxar um pouco mais — No meu caso, eu não poderia ter pedido pais melhores do que eles. Então, todo o lance de uma vida antes da adoção já foi superado por mim há muito tempo — desviei os olhos, esperando que o bolo recente na garganta não fosse por tentar forçar mais uma verdade goela abaixo — Sou muito grato por tudo que eles fizeram por mim. Eu não fui um adolescente muito fácil.
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  Olhei para , que tinha um brilho estranho nos olhos. Ela parecia… Admirada? Eu não soube dizer.
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  Mas ela tão logo corou e desviou o olhar, rindo de nervoso.
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  — Até parece, aposto que era o mesmo aluno modelo que é hoje.
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  — A questão não é a escola ou as notas, mas todas as brigas, polícia…
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  — Polícia?! — Ela arfou, descolando as costas do banco chocada — Você foi preso?
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  Não soube o que responder de imediato. Não porque não sabia o que responder, mas porque estava preso no momento em que eu havia soltado a língua de novo, um pouco demais de novo.
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  — Detido. — corrigi — É um pouco diferente de ser preso, mas deixou minha mãe em pânico do mesmo jeito.
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  — Não sei porque estou surpresa, considerando tudo que nós… — ela parou e limpou a garganta — Teve algo a ver com a sua habilidade com grampos?
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  — Pode ter certeza que sim.
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  A risada de ainda mostrava incredulidade, e eu apenas observei, sufocando a minha própria e deixando escapar apenas um sorriso. Incrédulo estava eu pelo rumo daquela conversa, e chocado com a extrema facilidade em falar da minha própria vida de repente. Parecia que, à medida que a conhecia, me sentia mais confortável, mais ligado a ela. Mesmo que ela não soubesse disso.
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  — Quase fui detida uma vez também. — contou ela, o brilho divertido nos olhos ainda presente.
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  Virei a cabeça automaticamente. Maverick não havia me deixado por dentro disso.
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  — Ora, ora, . — Não escondi o olhar de surpresa — Descobriu quem roubou sua borracha no fundamental e foi se vingar?
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  — Engraçado, , muito engraçado. — ela estreitou os olhos — Mas não… roubei bebidas de uma loja de conveniência quando tinha 16 anos.
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  — Uau. — coloquei as mãos no bolso do casaco — Então existe um histórico alcoólatra de escondido em algum lugar por aí?
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  — Na verdade, não. Aquela foi a primeira vez que bebi. — ela levantou os ombros — E a última. — lancei-lhe um olhar confuso e ela suspirou — Ponche na Gibbons. Não servem apenas álcool nas festas.
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  — Ahm… e por que foi a última? A delegacia a assustou tanto assim?
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  — Eu não quis realmente fazer aquilo, eu só… me deixei levar pelo momento, pelas pessoas, por tudo que estava acontecendo.
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  — Fala do seu irmão?
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  Saiu antes que eu me tocasse. A pergunta fez com que ela erguesse os olhos para mim e enrijeceu o corpo no banco. Quis imediatamente me desculpar e mudar o assunto, também porque lembrar dele fazia-me sentir um arrepio por toda a extensão da espinha.
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  Porém, ela respondeu antes que eu dissesse algo:
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  — Acho que é mais complicado do que isso. — Seu tom de voz saiu mais baixo que o normal, mas permaneceu firme — Eu tinha acabado de perder o , que me fez lembrar da morte de papai, e de como eu não saberia o que faria sem ele… — Ela deu uma risada fraca, olhando para frente — Foi aí que achei que talvez fazer uma loucura de adolescente ao menos uma vez na vida não me mataria. Mas, de fato, quase matou.
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  Olhei pra ela, confuso com a última frase.
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  Ela mordeu o lábio, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
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  Deixei meu olhos recaírem em seu abdômen, tão automático e tão rápido que posso considerar um movimento perfeitamente sutil. Ela não pareceu perceber, mas a cicatriz havia contado tudo que deveria.
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  — Não é que eu possa beber tanto… — ela balançou a cabeça, esticando o cotovelo sobre a marca no corpo — Fui parar no hospital. — Ela deu de ombros, olhando pra mim de novo e dando mais um sorriso, dessa vez mais convincente, como se ela se recordasse de um episódio engraçado. Mas algo naquele sorriso escondia mais alguma coisa, mais segredos — Foi um pouco humilhante na época, já que todos os meus amigos já tinham certa tolerância ao álcool e dado check-list em alguma idiotice de adolescente. Só restava eu pro primeiro porre, primeiro beijo, primeira vez… — Ela suspirou — Que cara é essa? Estou te impressionando?
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  — Acho que já passamos dessa fase. — Arqueei as sobrancelhas — Mas não vou negar que estou um pouco surpreso com a sua antiga falta de vida social. Não vai me dizer que você e estavam juntos…
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  — Não, de jeito nenhum. Eu nem o conhecia naquela época. Quer dizer, não dessa forma. — Ela balançou levemente a cabeça — Havia uma sucessão interminável de garotas que só sabiam comentar sobre as festas, os caras e suas experiências e eu nunca conseguia me encaixar, por mais que estivesse junto com elas o tempo todo. Era frustrante, mas ao mesmo tempo eu não conseguia fazer nada para mudar isso.
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  — E por que não? Você parece bem sociável pra mim.
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  — Não é esse o caso. era como o rei da escola. Ele era o cara mais popular do colegial, junto com , e mesmo já tendo se formado quando eu cheguei ao ensino médio, as pessoas ainda pareciam esperar algo de mim, algo dele. E por mais que ninguém pudesse reclamar da minha boa educação, eu não conseguia acompanhar a energia das outras garotas porque não sentia ⅓ da confiança que elas sentiam. Nunca consegui ser muito desinibida ou ter algum atributo que atraísse os caras que não fosse um amplo conhecimento por obras de Truman Capote e interesse em debates da economia do século XXI.
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  Ela mantinha um sorriso em linha dura, como se quisesse achar graça daquilo mas no fundo soubesse que era um erro.
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  — Isso não é nenhum defeito. — Murmurei em voz baixa.
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  — Bem, talvez não seja… — Ela encostou a cabeça no banco, olhando para o nada, refletindo — Mas da onde eu venho, as garotas não poderiam ser menos do que perfeitas. E por mais que elogios baratos sobre aparência externa possam parecer tão fúteis, toda vez que eu os escutava, sentia que estava no caminho certo. Parecia o mínimo que eu podia fazer: ser perfeita. Depois de tudo.
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  O tom de sua voz era tão melancólico e nostálgico que por um momento me perguntei se ela se lembrava que eu estava ali. Ou se realmente havia decidido que, de fato, éramos amigos, mesmo depois de minhas atitudes de mais cedo. Entretanto, não consegui dizer nada para tirá-la de tais devaneios. Apenas encarei seu rosto, ainda perdido, e só conseguia pensar no quanto ela era linda – não apenas em sua inquestionável beleza externa, mas uma beleza que talvez ela nem sabia que tinha. Ou simplesmente a escondia, porque não era o que as pessoas queriam ver. E era forte, de alguma maneira. Eu fazia alguma ideia vaga sobre os males das pressões sociais, mas do que eu sabia realmente? Desde pequeno, quando a experiência de flashs e etiquetas à mesa não deram certo para mim, eu havia tratado logo de achar um jeito de fugir de tudo aquilo. E meus pais, sempre compreensivos e solícitos, não discutiram. Exibir seu único filho e talentos nunca foi uma prioridade dos . E por isso eu os admirava tanto.
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  A lembrança das informações de Maverick sobre os vieram à toda. De repente, a ideia de uma mãe louca e fria, que culpava a própria filha pela perda dos outros dois integrantes da família pareceu muito real pra mim. Como frases curtas e grossas no jantar solitário da grande casa, ou como o mais puro afastamento voluntário. A decisão firme de não ceder o seu amor a uma criança que sofria pois acreditava que estava sofrendo muito mais.
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   não precisava dizer o quanto era cansativo todo aquele esforço; estava estampado em seu rosto. Ver aquilo me fez querer questioná-la sobre tantas coisas. Me fez querer induzi-la a continuar falando, sobre qualquer coisa. Ou, simplesmente tomado pela sensação repentina de empatia, puxá-la para um abraço. Não queria deixar tão claro que sabia como seu pai e irmão haviam morrido, nem perguntar por que raios ela se sentia tão contida a vida toda, como a culpa deveria consumi-la por estar no mesmo carro com no acidente, nem queria perguntar coisas que ela não sabia que eu sabia. Queria apenas que ela soubesse, de alguma forma, que não precisava usar máscara ou armadura alguma quando estivesse comigo.
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  Mesmo que eu, hipócrita, usasse várias.
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  — Estou te enchendo, não é? — ela disse de repente, fazendo-me levar um susto pelo tempo que fiquei encarando seu rosto — Desculpa, também não sou muito boa em distrair as pessoas.
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  — Como quer ganhar o Pulitzer sem saber distrair as pessoas? — brinquei, olhando pra frente e tentando me recompor.
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  — Considerando que quase perdi uma parte da chance quando me atrasei para a apresentação do meu artigo porque estava lotada de macarrão e suco de laranja, vou apenas dizer que não sou boa em distrair você.
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  Ela realmente não tinha ideia.
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  — Espera, aquele dia… — comecei e ela riu, e acompanhei imediatamente ao me lembrar do fatídico dia no John Jay que não exibia, naquela época, nenhum potencial de ser o ponto de partida em virar minha vida de cabeça pra baixo. E talvez isso o tornasse até cômico — Você ficou bem nervosa, foi assustador.
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  — Me irritou bastante, mas me senti culpada depois. Pensei em me desculpar quando descobri seu nome, mas você começou a aparecer em todo lugar que eu estava e pareceu um pouco estranho. Sou um pouco egocêntrica, caso ainda não tenha percebido.
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  Ela usou um tom divertido e confiante, claramente confortável ao falar de si mesma. Perfeita, uma ova. Aquela era a verdadeira , que acolhia a si mesma e seus defeitos sem peso algum nos ombros.
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  Senti um formigamento no estômago, e pela primeira vez desejei que parasse o tempo lá fora.
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  — Achou que eu estava te seguindo? — perguntei.
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  — Achei que deveria ficar longe de você — respondeu, incisiva — Você cheira a problema, . E mesmo ignorando isso, ainda não descartei a possibilidade de ser verdade.
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  Me encolhi ligeiramente no banco. Tive vontade de pegar um cigarro no porta-luvas, mas apertei os dedos no volante, não me controlando em me atentar no quanto Deus e os astros riam da minha cara. Problema era um eufemismo para o que eu realmente era, e se ela ainda estava ali sabendo disso, talvez fosse tão inconsequente quanto eu.
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  E algo me dizia, com toda a franqueza, de que ela pensava a mesma coisa sobre si mesma. Mesmo que fosse raso comparado com o que eu sabia.
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  Eu não sei qual dos dois era pior.
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  — Ela está saindo. — Ela disse de repente, erguendo o corpo para frente, tirando-me do meu momento embasbacado.
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  Olhei para a entrada e Margot deixava o pub, vestindo o mesmo sobretudo da chegada. O crachá e o avental do uniforme não foram retirados, o que deixava claro que poderia estar apenas fazendo um intervalo. Ela puxou um maço de cigarros do bolso antes de continuar pela rua estreita e escura ao lado do estacionamento, olhando sutilmente para os lados.
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  — Vamos. — já abria a porta e não me deu tempo de dizê-la para ir com calma.
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  Não posso dizer que seguir pessoas estava na minha lista de especialidades. Isso não era possível com fantasmas. Mas pelo visto, tinha mais essa habilidade escondida.
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  O chão de terra do estacionamento estava ligeiramente lamacento. Ao ver Margot se tornar apenas um ponto desfocado à frente, cruzamos o restante do terreno até o asfalto, sentindo o vento gelado socar os meus braços com violência. Olhei para trás, procurando indícios de olhos curiosos que notaram duas pessoas brotarem repentinamente no estacionamento silencioso, mas ninguém parecia interessado no que não envolvia Marlboros e Slash.
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   andava devagar. A rua ficava cada vez mais escura à medida que avançávamos, graças aos prédios desfigurados e lotados de pichações, com janelas quebradas que pareciam olhos ao nos observar. Engoli em seco, olhando para os lados automaticamente. Um grande estresse mental poderia levar as pessoas a verem coisas em um lugar como esse, mas no meu caso seria a pura realidade.
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  Margot andava sem pressa há uma distância considerável, a fumaça do cigarro pairando acima de sua cabeça. Haviam alguns carros e postes sem iluminação ladeando as calçadas falhas, e era entre eles que eu e andávamos sorrateiramente, sem fazer barulho.
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  Margot não foi tão longe. parou abruptamente, puxando-me para o canto escuro atrás de uma van enferrujada, abaixando-se na altura do pneu. Olhei para ela em total confusão, e ela apontou rapidamente para a frente, onde Margot havia parado ao lado de um carro preto.
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  Não era apenas um carro. Margot se debruçou sobre a janela do motorista, entrando pelo menos até o pescoço para dentro do Audi. Eu não queria ter de pesquisar o histórico de máfias de NY para saber o que um carro desses estava fazendo em uma rua daquela.
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  — Não consigo ver quem é — ela sussurrou com cautela, algumas partes de sua voz sendo cortadas. Puxei seu braço até o meu lado, inclinando a cabeça e tentando dizer com firmeza para que ela ficasse onde estava e me deixasse assumir a vigília. Ela revirou os olhos, mas aceitou.
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  O frio machucava minhas articulações. Com um joelho apoiado no chão, inclinei o corpo o suficiente para deixar em vista apenas os meus olhos, concentrados em todo e qualquer detalhe da cena que pudesse captar.
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  O papo – ou o que quer que estivesse rolando dentro do veículo – não demorou muito. Margot esticou-se para fora com um sorriso divertido no rosto, ao mesmo tempo em que o clique da porta anunciava que finalmente veríamos a tal pessoa escondida sob os vidros fumê.
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  Mas quem saiu de lá não foi exatamente o que eu esperava, e fui tomado por um choque repentino. Ele ria enquanto pegava na cintura dela e a pressionava no carro, não se importando nem um pouco de apertar seus seios no meio da rua. Meus dentes trincaram e um desprezo sem tamanho tomou conta de mim.
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   provavelmente percebeu que eu havia visto algo significativo, pois esticou o corpo para olhar para o mesmo lado, e um desespero me tomou. Segurei seu braço e tentei dizer para que ela não fizesse isso, mas era tarde demais, ela já apoiava as mãos no farol traseiro da van e olhava boquiaberta enquanto o cara agora beijava o pescoço de Margot.
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  Porque aquele não era um cara qualquer.
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  Era o maldito filho da puta .
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Capítulo 19 – Fogo e verdade no brilho carmesim

  Eu tinha duas opções.
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  Eu poderia arrastar para o mais longe possível dali e afastá-la daquela cena desprezível, a qual ainda presenciávamos. Eu duvidava muito que ela fosse lutar contra. Estava imóvel, sem expressão alguma, como se o choque inicial tivesse dado lugar a um outro tipo de sentimento que eu não estava obtendo sucesso em interpretar.
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  Ou eu simplesmente poderia mandar um belo foda-se pra minha sensatez e seguir o impulso que queimava meu sangue, uma raiva que me fazia trincar os dentes e murmurar algo como:
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  — Eu vou matar esse cara.
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  Nem percebi quando comecei a me mover em direção a ele, com os punhos em prontidão. Eu realmente pretendia dá-lo uma surra igual ou pior do que na Gibbons. E, tendo apenas ele como adversário, eu tinha quase certeza de que estava em vantagem, mesmo com um braço a menos.
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  Eu estava com tanta raiva que mal senti quando agarrou meu antebraço.
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  — Para. Vamos voltar.
  — Quê?! — Seu tom de voz era tão vazio que quase a perguntei se ela havia enxergado direito o que estava acontecendo — , ele não pode…
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  — Por favor, . Vamos embora.
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  Ela se levantou e começou a fazer o caminho de volta ao carro. Fiquei estático por um minuto antes de ir atrás dela, olhando para trás pela última vez.
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  Ela entrou no Jeep sem dizer uma palavra. Não mostrou o menor indício de que queria chorar. O rosto parecia esculpido em mármore, a feição dura e imóvel. Apenas apertou o cinto de segurança e olhou para frente, ereta, como um robô.
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  — … — Tentei de novo.
  — Você pode me levar para casa, por favor?
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  Ela não estava sendo autoritária ou rude. Na verdade, era apenas um pedido comum, em um tom quase simpático. Mas eu sabia o que havia por trás dele, e não saía da minha mente a imagem de desabando no travesseiro para chorar quando eu a deixasse na porta de sua casa.
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  E era por isso que eu não queria levá-la ainda. Porque, caralho, eu não queria vê-la chorar. Mesmo que eu não fosse ver de fato. Não que isso fizesse algum sentido. Enfim.
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  — … — Ela murmurou mais uma vez, respirando fundo ao perceber que eu ainda não ligava a chave na ignição.
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  Balancei a cabeça e arranquei com o carro, não conseguindo pensar em outros argumentos para que ela ao menos dissesse alguma coisa, qualquer coisa.
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  E permaneci nessa inércia até vê-la abrindo a porta no fim da noite e afastando-se para a entrada, ainda sem dizer uma palavra, me deixando para trás com a maior cara de idiota que não soube ao menos o que fazer. E ainda não sabia.
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  Fechei a porta com um estrondo.
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  Sozinho, tive de me deter várias vezes para não dar meia volta e dirigir de volta ao pub, mesmo que eu não fizesse ideia se poderia encontrá-lo de novo. Uma vontade incontrolável de deixar que meus punhos falassem por mim soavam como murmúrios pesados em meus ouvidos. Eu tentava, mas não conseguia encaixar a situação anterior em lugar nenhum da minha cabeça. Jamais imaginei ver o que havia acabado de ver. e Margot…
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  Lembrar da cena me fez ranger os dentes e tentar afastar a fúria que massacrava meu cérebro. O olhar frio de dizia mais coisas do que sua boca foi capaz de fazer; não importava se ela dissesse que estava bem, eu sabia que não estava. Também não importava se ela o amava ou coisa parecida, eu seria capaz de matá-lo da mesma forma.
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  A raiva me fez discar os números no celular sem vê-los realmente. Tudo dentro de mim borbulhava de tal forma que eu me via incapaz de esperar qualquer resposta para outro dia. A primeira tentativa acabou em caixa postal, mas não hesitei em ligar de novo. Seria capaz de sair novamente e bater em cada porta daquela enorme cidade se ele não me atendesse.
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  Por fim, o grunhido sonolento e confuso soou baixo do outro lado da linha.
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  — Alô…
  — Espero que acorde agora mesmo, , antes que eu saia daqui e faça isso pessoalmente — não controlei o tom alto da voz, e comecei a andar em círculos pelo piso liso.
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  — ? — ele pareceu mais acordado, limpando a garganta — Qual é a porra do seu problema…
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  — Vou te fazer uma pergunta e quero que me responda sinceramente, seu babaca. E se me disser que sabia de toda essa merda, eu juro que só vamos conversar de novo quando você estiver morto!
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  — Do que você está falando? — Ele rangeu os dentes, e pude ouvir os pés batendo no chão — O que aconteceu?
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  — Você sabia de e Margot?
  — O que?
  — O filho da puta miserável do seu parceiro se atracando com Margot Pires no meio da rua! Isso te surpreende? Você já sabia disso?!
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  O silêncio se alastrou do outro lado da linha. Meu sangue ferveu como um vulcão, os dedos ainda em recuperação apertando a base do gesso.
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  — Ah, não… — ele murmurou, e de repente soltei uma risada exasperada, nervosa, pesada. Percebi que esperava que ele dissesse que não, que eu estava louco e que era algo tão inimaginável que precisaria ver para crer.
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  Esperava que ele não me cedesse qualquer frustração por ter confiado em sua palavra.
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  — Vai se foder, — apertei o celular com força, a voz saindo firme e reta, como se quisesse que ele me escutasse nitidamente em um efeito presencial — Vai se foder.
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  — , espera…
  — Você sabia de tudo, não é? Sabia que ele estava com Margot, que ele estava traindo a , queria usar a garota pra se vingar do seu sócio, é isso, seu merda? Queria que ela se desse mal pra que levasse junto e assim governar seu reinado sem aquele infeliz no seu pé? Era isso que você queria?
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  — Cala a boca…
  — Achei que a gente tava junto nessa, que qualquer informação fosse importante e ocultar uma coisa dessas não seria opção. O que você estava pensando?!
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  — Caralho! — ele gritou, interrompendo minha próxima enxurrada de palavras — Dá pra calar a porra da boca e me deixar explicar?
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  Bufei, encostando uma das mãos no vidro da janela retangular. O brilho dos prédios logo à frente pareciam mais distantes do que realmente eram, e a rua estava mais ofuscada pela neblina noturna do inverno. Focar em elementos do presente ajuda a acalmar a mente, sempre dizia minha avó. Portanto, apenas grunhi em resposta para , sabendo que se abrisse a boca de novo, a paciência recém instalada iria pro lixo.
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  Ele respirou fundo. O barulho vinha acompanhado de sons constantes no chão. Ele parecia concentrar os pés em movimentos circulares, assim como eu.
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  — Primeiro de tudo — começou ele, agora com a voz abafada, revestida da calma e do tédio corriqueiro que sempre tinham —, como você ficou sabendo disso?
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  Eu não havia contado a ele. Não havia contado nem que pretendia fazer tal coisa. Não sabia como revelar que, sinceramente, esperava que observar Margot não fosse dar em nada, mas queria uma companhia específica para aquilo. Mesmo que isso soasse tão ridículo como soa em minha cabeça agora.
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  — Fui com até o pub onde Margot trabalha — respondi, por fim — Eu pretendia segui-la quando saísse.
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   estalou a língua, certamente se segurando para não externar reclamações sobre meus planos patéticos e amadores. No entanto, ele apenas murmurou um pedido para que eu continuasse:
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  — Ela pareceu ter um intervalo ou coisa parecida bem antes do horário final do expediente. Saiu na Greenpoint e depois em um beco sujo e escuro como na Bedford e foi em direção a um carro. Um Audi.
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  Ouvi o palavrão sair raivoso de sua garganta. Foi o xingamento mais verdadeiro que escutei dele até então; uma demonstração genuína do quanto ele estava puto.
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  — O que ele pensa que está fazendo… — falou, ou melhor, pensou alto.
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  — Fala logo, !
  Mais um minuto de silêncio. Encarei a luz dançante de um farol logo adiante quando ele se pronunciou novamente.
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  — Bem… — ele coçou a garganta de novo, agora mais cauteloso do que antes — Não posso dizer que ele sempre foi fiel a e nem nada disso.
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  Fechei os olhos com força, sabendo que chutaria qualquer coisa que se mexesse naquele momento. O mesmo ódio fervente invadiu meu peito, mas lutei contra o ardor o máximo possível.
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  — Eu sabia, tá legal? Droga… — ele continuou, e senti sua voz trêmula — Eu tenho um quarto na Gibbons, como você mesmo se lembra, mas ele não era realmente meu. O , ele… Ele aparecia de vez em quando com uma garota aqui e outra lá, e sinceramente, eu não dava a mínima pra isso, ele também deixou bem claro que nada daquilo dizia respeito a mim ou aos negócios, então eu não tinha porque me importar, eu não… Ah, que merda, — ele bufou, e os barulhos no assoalho pareceram enfim cessar — Eu sabia que ele pegava outras garotas, mas não sabia de Margot, eu juro. Eu jamais imaginei isso. Estou falando muito sério.
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  Abri os olhos de novo e percebi meu maxilar trincado. A tensão atravessava toda a minha espinha e o dilema de acreditar nele ou não ganhou forma outra vez em minha cabeça.
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  — A viu tudo? — ele perguntou em voz baixa, e respondi com o silêncio. Ele estalou a língua, recomeçando os passos arrastados — Que merda… Cara, que merda.
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  — Uma grande merda — respondi, agora com a voz quase totalmente limpa do ruído de ódio que a vestia desde que completei a ligação — Por que diabos não me contou isso antes?
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  — As puladas de cerca do não tinham nada a ver com nosso caso. Bom, pelo menos até agora… — ele sibilou em um sopro — E, depois de um tempo, imaginei que não traria nenhum benefício você pulando em cima dele até que os dois se matassem.
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  — Ah, então sabe que eu o mataria? — ri com o sarcasmo, apesar de não ter gostado de estar tão previsível e transparente daquele jeito.
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  — Claro, considerando o fato de que você é apaixonado pela namorada dele.
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  Abri a boca para responder, mas nada saiu. Pude visualizar minha imagem estupefata pelo vidro da janela, o flagrante me tirando toda e qualquer reação.
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  — Eu não… — comecei, mas cansei logo em seguida. Estava cansado de negar — Isso não importa, . Isso muda tudo, absolutamente tudo que vimos até então. Se e Margot estão juntos de alguma forma, a equação é outra.
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  — Espera aí, vamos com calma — ele disse devagar, como se refletisse ao mesmo tempo — Sei que você se sente tentado a pensar o pior por causa da , mas eles podem estar só transando às escondidas. Talvez acabaram de se conhecer, talvez…
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  — Vê se acorda, — interrompi-o, balançando a cabeça — Margot é nossa maior suspeita sobre Elena e não dá pra excluir o comportamento estranho de que você mesmo relatou. Não precisa reunir tantos neurônios pra saber que tem alguma coisa muito estranha nisso. Aconteceu e está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, será que dá pra pensar um pouco?
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  Uma longa pausa fez arder todas as possibilidades que deveriam estar passando pela cabeça dele agora e, não menos importante, pela minha também. Um alvoroço de recapitulações faziam piruetas diante dos meus olhos, como se me mostrassem que eu estivera olhando para o lado errado esse tempo todo. Ou que zombassem por eu estar totalmente na superfície.
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  E, mais uma vez, senti que nada mais estava certo. Nada estava em ordem, e coisas nocivas e assustadoras também poderiam estar acontecendo na vida real, longe da influência mortal de fantasmas assassinos.
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  — Ele não faria isso — o sussurro dele pareceu distante, como se, de novo, não estivesse falando comigo — Não faz sentido.
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  — Não dá pra confiar se ele realmente faria ou não…
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  — Por que, ? — ele aumentou a voz, me assustando por um momento — Me diz, por quê?! Por que faria alguma coisa com Elena? Não tem lógica, ele é um desgraçado mais covarde do que você imagina. Não existe coragem em alguém que sempre se safa, que nunca faz o trabalho sujo.
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  Suspirei, ainda olhando o meu reflexo semi nítido na janela.
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  — Você não disse que ele gosta de controle? — pontuei — Pois então veremos quem é que está sendo controlado.
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  A porra do natal.
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  Eram tantas luzes que New York poderia ser vista e identificada pelo satélite mais distante no espaço. O Rockefeller Center andava abarrotado, as vozes dos coros no Central Park enchiam meus ouvidos e a neve não parava de cair.
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  E ainda faltavam três dias.
  Meu apartamento deveria ser o único sem decorações vermelhas na West End Avenue. havia tentado jogar para cima de mim as luzes e uma pequena árvore que, diz ele, estavam distribuindo de graça na frente da Macy’s. Ele jamais admitiria que havia comprado. E mesmo com minha insistente negação, ainda assim lá estava a caixa de papelão aos pés do sofá, com um lacre que eu não pretendia abrir.
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  Não é que eu odiasse o aniversário de Jesus, ou o papai noel, ou toda a maldita energia comercial e passageira que infestava New York nessa época junto com as mensagens de amor e esperança.
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  É só que era apenas… Um dia estranho.
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  E, neste ano em questão, parecia mil vezes pior.
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  Eu era como um boneco de plástico dentro do globo de neve que vendiam nas lojas de segunda mão. Nessa época, minha única reação era ficar parado enquanto observava o sorriso de todo mundo e os pratos caprichados em que minha mãe extrapola toda vez. Se a neve era um símbolo da data, eu só a via depois que me lembrassem de tal coisa. Como se tivessem que me chacoalhar para isso acontecer, igualzinho ao boneco. Até isso, o natal era só mais um dia insólito.
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  Eu sentia algo diferente. Nada muito animador, na verdade. Parecia inibir todos os outros sentimentos tão felizes quanto os outros. E por mais que eu tentasse identificar o que era, eu não conseguia.
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  E isso me preocupava. Fazia-me questionar o passado. Como se aquele sentimento tivesse um motivo para existir, e um porquê eu não deveria me lembrar dele.
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  E isso já tinha um significado por si só. Porque, neste ano, eu parecia com medo de me lembrar.
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  Também havia a saudade de algo inexplicável, que eu também não sabia o que era. Como se eu sentisse falta de coisas que eu nem ao menos vivi, como ter minha vó viva. E com ela, talvez, uma família. Uma que, até pouco tempo atrás, eu não fazia ideia se cheguei a ter. E odiei esse sentimento mais do que tudo. Fazia eu me sentir o cara mais ingrato do mundo.
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  Agora que sabia, tudo isso parecia ter um significado oculto. E ele estava esperando para ser descoberto em alguma caixa velha guardada no sótão do Melbourne.
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  Entretanto, de uma forma bizarra, esses devaneios estavam presentes somente nessa época do ano. Mesmo que, neste ano em questão, eu estava ocupado com mais preocupações do que em qual dos acidentes natalinos me renderia um fantasma no meu pé ou qual a cor da meia que eu ganharia da minha tia-avó Katalin.
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  Como o fato de que eu não via fazia quase dois dias, e não fazia ideia dos próximos passos de . E sua insistência em não responder meus recados não me deixavam nada tranquilo.
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  A verdade era que toda aquela última situação com havia me deixado confuso e pensativo, isso quando eu não estava ocupado demais sentindo raiva dele. Perguntei-me várias vezes porque não havia ignorado o pedido de e dado ouvidos a minha revolta, mesmo que eu não pudesse imaginar as consequências disso. Mas vê-la ficar do jeito que ficou e agora simplesmente desaparecer e me evitar, fizeram-me tomar as medidas que eu não imaginei ter de tomá-las tão cedo.
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  Não que estas também tenham dado certo de imediato.
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  Com a véspera de natal se aproximando e o inverno devidamente instalado, o campus inteiro havia virado uma imensa distribuição de convites para festas. As opções variaram entre festa do chá, Hanukkah, rave eletrônica, festa à fantasia e os demais clichês regados a cerveja. Era só escolher uma delas e aparecer.
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  Quem colecionava os panfletos era , para quem eu já estava cansado de rejeitar os convites, mesmo que ele ameaçasse colocar Naomi na história.
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  Ela era outra que havia decidido desaparecer e não atender o celular após as várias mensagens que havia me deixado da última vez, dizendo que se atrasaria. Eu esperava sinceramente que fosse algum problema de sinal ou sua habitual negligência com os eletrônicos – e não que ela estivesse com problemas.
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  — Mas você pelo menos vai à festa da Alanna, não é? — perguntou quando empurrei a porta de vidro do Toby’s e saí para a temperatura negativa do lado de fora, que felizmente não veio junto com neve.
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  — Que festa? — Juntei as sobrancelhas enquanto aquecia as mãos no copo quente de café. O gesso havia ido embora no dia anterior pelas minhas próprias mãos e substituído por uma faixa grande de gaze que pegava até o pulso.
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  — Tá brincando comigo? Todo mundo vai nessa festa. E ela me disse que te convidou. — Olhei para ele, ainda mais confuso — Qual é, , a Alanna Kiyoko! Gostosa japonesa! Uma das amigas da do jornal. Sei que Madison deu um jeito de te convidar.
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  — Ah. — Murmurei, lembrando-me da garota loira com maquiagem pesada que eu brevemente conheci.
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  — Você sabe que a vai, não sabe? — disse enquanto abríamos a porta do meu carro.
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  Olhei para ele indiferente enquanto afivelava o cinto, fazendo-o revirar os olhos.
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  — É sério isso? — Ele riu sarcástico — Acha que eu não percebi você todo distraído ainda procurando por ela toda vez que a gente pisa em Morningside Heights? Ou só essa sua checagem interminável no telefone já entrega tudo. Não faz essa cara de bosta de quem não liga pro que eu tô falando.
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  — Eu não ligo para o que você está falando. — Liguei a chave, e o som logo em seguida.
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  — Você sabe que ela e o terminaram, não sabe?
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  Queria dizer que me contentei em olhá-lo de esguelha, ainda indiferente, mas aquela informação me fez virar a cabeça totalmente.
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  — O que você disse?
  — Uma informação mais do que suficiente: e não são mais o casal 20 desse lugar. Agora pode soltar o sorriso sacana que sei que está guardando.
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  Mas eu não sorri. Na verdade, não fui capaz de me mexer. Me senti uma besta quadrada por não ter me tocado de que essa possibilidade de término poderia existir, mas com tudo que havia escutado naquela noite com Maverick, imaginei que não iria desistir do papel. Se é que houvesse um papel. Sua reação perante a traição daquele boçal havia sido fria demais, como se não fosse uma surpresa.
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   ainda me encarava, esperando alguma reação. Se isso o faria parar de tentar me afastar de , eu deveria realmente sorrir.
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  Pisei no acelerador, tentando sugar a música para dentro da minha cabeça e não me fazer ter pensamentos a mil. Eu definitivamente precisava falar com ela. Nem que eu tivesse de escalar aquela árvore de novo.
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  — Ei, ei, você quer sofrer outro acidente?! — colocou a mão na marcha, puxando-a para a segunda — Ou pior: quer estragar meu rosto antes da festa? Estamos em uma avenida, pelo amor de deus!
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  — Desculpa — murmurei, diminuindo a velocidade, ainda olhando para a frente. Eu virava os olhos para todos os lados como um louco, como se fosse capaz de vê-la de repente — Como você ficou sabendo disso?
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  — Tá brincando? — ele riu em ironia — Todo mundo… Ah, esquece! As pessoas comentam bastante coisa supérflua como essa na caixinha do Fórum, como se fosse um grande evento da Columbia. Parece que rolou ontem.
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  — Ontem?! — trinquei os dentes, agora sim virando praticamente o tronco inteiro pra ele — E você só está me contando isso agora?!
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  — E-eu… — ele arregalou os olhos pelo meu tom — Eu achei melhor esperar pra ver se era pra valer, podia ser uma mera fofoca, entendeu? E se você soubesse antes e não fosse sério? Você poderia…
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  — Porra, — resmunguei e voltei a olhar pra frente — Poderia o que?! Ir atrás dela? — bufei — E como sabe que agora é pra valer?
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  — Porque a Alanna confirmou. Eles terminaram de vez, disse que ouviu da própria .
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  — Ótimo… — apertei os dedos no volante sem perceber. A música agora era um ruído confuso de bateria e gritos de Tom Araya. Nada muito concreto e importante para que eu prestasse atenção no momento. Tudo que eu conseguia pensar era no meu próximo passo, e se ele não envolvesse , eu juro que viraria New York de cabeça pra baixo.
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  Eu não sabia como a minha expressão estava, mas para ela deveria estar um tanto assustadora.
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  Pudera, eu deveria ser prudente e parar o carro para organizar meus pensamentos. Vários cenários malucos surgiam na minha frente agora, e pensar em chorando – de novo –, ou ouvindo palavras escrotas de ou até mesmo sendo tocada por ele daquela forma violenta que já presenciei uma vez me cediam uma queimação no peito e ainda mais vontade de vê-la. Não tinha nada a ver com o fim do relacionamento em si. Eu só queria saber como ela estava.
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  Parei o carro em um sinal vermelho e desabei as costas no banco, ainda com os músculos retesados. Uma pilha de nervos não era bem a palavra do que eu sentia, estava mais pra ansiedade absurda.
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  — Ei, — chamou , e apenas murmurei em resposta — Você vai mesmo atrás dela?
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  Ponderei sua pergunta por um instante e virei o rosto para responder:
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  — A que horas é essa festa?
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  Uma garrafa voou acima da minha cabeça.
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  O barulho do vidro se espatifando foi soterrado pelo som grave nas alturas que vinha de cada canto da casa. Eu sentia as vibrações das batidas em cada parte do meu corpo, como se fosse uma presença física – ou como se eu já estivesse chapado.
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  Os demais convites distribuídos mais cedo pareciam ter sido completamente ignorados em sua grande maioria, porque algo me dizia que todo o corpo discente na Columbia estava nessa festa. Os ombros e esbarrões inevitáveis ladearam todo o caminho até que eu e , logo à minha frente, conseguíssemos chegar em um corredor menos abarrotado, mesmo que ele cheirasse a vômito. Talvez isso explicasse tudo.
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  — Aquilo ali é uma jacuzzi? — ele perguntou, aparentemente para ninguém em particular, pois seus olhos foram sugados para a interação de cores do lado de fora.
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  A casa era realmente espetacular. Eu não fazia ideia de quem era Alanna e muito menos na possível profissão de seus pais que os possibilitaram ter uma casa daquelas, mas fiquei tentado a chutar que ela poderia facilmente ser parente do presidente da República. A visão que tínhamos para as paredes de vidro era de um amontoado de pessoas com roupas de banho, sem se preocuparem com o frio gélido do inverno porque estavam ocupados demais se aquecendo na piscina quente e, como pontuou, na bela jacuzzi há alguns metros dela.
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  E eu ainda não havia visto .
  Em mais alguns passos, se tornou possível chegar à imensidão da maior cozinha que eu já havia visto na vida. Dez Quinn, um dos veteranos que me lembrava brevemente de alguma aula que fez comigo porque estava atrasado demais em seu próprio ano, me reconheceu de imediato, me dando um aperto de mão de ferro assim que se afastou para pegar as bebidas. Ele estava completamente bêbado e não parava de repetir o quanto estava surpreso em me ver ali.
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  Não podia dizer que eu não sentia o mesmo.
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  Eu não frequentava festa alguma desde que havia chegado em New York, e Dez pareceu saber bem disso, inclusive da minha breve e última aparição na Gibbons. Não satisfeito em ter conhecimento desse fato, ele fez questão de gritar aos quatro ventos que está mesmo aqui, brilhantes do departamento, acham que estou mentindo?” e me pegar de surpresa ao mostrar que não estava sozinho. Em um segundo, senti olhos curiosos sobre mim, mesmo que estivessem realmente só curiosos, porque o álcool já não os permitia ter outro tipo de reações.
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  Finalmente, avistei novamente voltando aos tropeços até mim, carregando duas garrafas de cerveja. Me livrei dos braços de um Dez tagarela que agarrava o couro da minha jaqueta enquanto movia os lábios em alguma desculpa esfarrapada e andava até , pegando em seu antebraço e puxando-o para o outro lado da casa, ou para qualquer lado que eu pudesse me concentrar.
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  — O que aconteceu? — Ele perguntou aos gritos, tentando vencer a música eletrônica ensandecida que torturava meus ouvidos. Parei do lado de fora, notando que saímos por uma porta de vidro lateral que levava exatamente a um caminho estreito de pedras que conduzia ao jardim dos fundos, onde estava a piscina. Eu não sabia que precisava tanto de ar fresco até sair para a noite lá fora, mesmo que esse ar estivesse marcando -4.
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   já bebericava a cerveja com animação, olhando por toda a nossa volta enquanto algumas cabeças iam sumindo por entre as árvores. Se aquele corredor estava cheirando daquele jeito, eu não queria imaginar o resto.
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  — Você tem certeza que ela vem? — perguntei, pegando a outra garrafa de sua mão. Eu não olhava realmente pra ele; meus olhos pertenciam ao todo, buscando. Ele revirou os olhos, tendo a expectativa frustrada de que eu realmente poderia me divertir naquela noite.
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  — Eu já disse que sim! As melhores amigas dela estão aqui, como ela não viria? — ele deu de ombros — Enquanto isso, você pode fingir que veio pela diversão e vasculhar sua gata andando por aí? Preciso de você em destaque para atrair uma gata pra mim — ele apontou para a confusão de vozes logo à frente, começando a caminhar.
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  — Acho que você não deveria contar com isso — balancei a cabeça, pegando meu cigarro de praxe enquanto andava ao seu lado — Esqueceu que eu sou um pouco pirado?
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  Ele deu de ombros.
  — Isso não importa, tem gente que acha isso atraente.
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  Revirei os olhos e ouvi sua risada enquanto ele passava um braço pelos meus ombros e me puxava para a multidão.
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  Tudo era brilhante demais. Daquele lado, eu parecia ligeiramente deslocado. Com minhas roupas inteiramente pretas, meu casaco de couro e botas, eu era como James Dean em uma pool party. Era uma imagem distante, uma peça errada. A vastidão de biquínis e nados borboleta me fizeram olhar com mais atenção de novo, mas senti que não precisava. Algo me dizia que jamais usaria um biquíni em público, muito menos naquela festa.
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  Mas eu não conseguia encontrá-la de jeito nenhum. A esperança de que ela me atendesse já havia ido pro ralo há muito, mesmo que a voz eletrônica insistisse para que deixasse mais recados. E mesmo com a vontade insana de vê-la, eu ainda não sabia o que diria quando isso acontecesse. Eu não conseguia nem pensar nas palavras.
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   estava ficando animado. A cerveja era boa e talvez isso tenha ajudado na passagem quase rápida do tempo, que me levou a notar a uma hora e meia depois de ela ter se instalado. Meus pés vagaram pelos arredores do lado de fora, assim como a extensão da enorme sala oval e a região dos banheiros. Eu não me atreveria a pensar que ela estava em algum dos quartos no segundo andar, chorando e se lamentando com as amigas ou, – não, pelo amor de deus não, tudo menos isso – conversando com . Pude sentir a raiva espumando dentro de mim, tendo certeza absoluta de que não controlaria minha língua se visse tal coisa.
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  Também não estava disposto a controlar meus pés, pelo visto. Curvei em um segundo corredor, me preparando para pisar no segundo degrau da enorme escada larga e majestosa quando ouvi uma voz familiar:
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  — ?
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  Virei na mesma hora, dando de cara com uma Maverick de biquíni e shorts, o corpo molhado pós mergulho e usando um all star. Um grande dragão tomava quase toda a sua coxa esquerda, e as tranças estavam presas para cima da cabeça. Brincos enormes e redondos estavam em evidência em suas orelhas e uma toalha estava repousada em seus ombros. Juntei as sobrancelhas por um momento como se perguntasse o que ela fazia aqui, e não podia dizer que ela não havia entendido.
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  — Eu que te pergunto, — ela riu, se aproximando de mim — Achei que tinha ouvido errado, mas você está realmente aqui. Procurando alguma coisa?
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  Olhei para os lados novamente, colocando uma das mãos no bolso.
  — Não me diga que Ash também está aqui — falei, trincando os dentes automaticamente ao me lembrar dele. A vontade de socá-lo ainda não havia passado e, pela forma como ela sorriu, ela estava ciente.
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  — Está tirando uma folga hoje. Pelo visto, queria paz e sossego.
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  — Com certeza, ele precisa muito de paz e sossego — grunhi — Mas e você? Está trabalhando ou…
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  — Tô sempre trabalhando, . Mas também gosto de me divertir e me lembrar que a vida é curta. Esse insight finalmente chegou até você? Ou devo perguntar de novo o que você está procurando? — ela levantou uma sobrancelha — Ou melhor: quem.
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  Engoli em seco, dando uma última olhada para o topo das escadas.
  — Você viu a ?
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  — Mas é claro — Ela riu, batendo uma pequena palma de excitação — A mais nova solteira do pedaço, . Seria um evento histórico se ela aparecesse por aqui com uma roupa de matar e subisse em cima daquela mesa como Kat Stratford foi capaz de fazer em 1999. Ainda mais depois de ver toda a baderna que deve estar fazendo com outras garotas bem aqui agora…
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  — Mas o que…
  — Mas não! Eu não a vi, — ela deu um sorriso fraco, como se também estivesse decepcionada pelo fato — E devo dizer que isso me surpreende bastante, mas não é condenável. Terminar um relacionamento longo pode ser doloroso, mesmo que seja com um idiota como .
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  — É exatamente por isso que eu preciso encontrá-la. Será que você…
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  — Ei, ! Consegui alguns cigarros com aquele ca… — A voz de surgiu por trás de minhas costas e parou instantaneamente — Clarissa?
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  Olhei pra ele, me lembrando vagamente de tê-lo deixado em algum ponto de algum corredor enquanto ele lutava com alguma bolsa térmica em busca de mais cerveja. Com as horas avançando, a cabeça dele ia girando mais e as risadas ficavam mais altas, mesmo que tivesse bebido particularmente menos do que eu. Portanto, naquele momento, eu poderia pensar que ele estava tendo algum tipo de distorção de perspectiva por causa do álcool e ter chamado Maverick de Clarissa, mas o olhar arregalado dela em resposta mostrou uma situação inesperada.
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  — Jung? — ela arfou, com uma surpresa reprovatória — Não acredito…
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  — O que você está fazendo com ela? — ele se virou pra mim, arqueando os braços para apontar pra ela.
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  Maverick riu em ironia.
  — Veja como fala, calouro. Aqui não é seu parque de diversões de circuitos fajutos que não respondem ao seu 0 e 1 com amnésia severa de matemática discreta.
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  — Eu já disse que lógica binária não é a minha praia, sua…
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  — Ei, ei! O que está havendo aqui? — levantei os braços, podendo ver o fogo cintilando nos olhos de e de Maverick… Ou Clarissa? — Vocês se conhecem?
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  — Então não falou de mim, Jung? Pelo visto, feri seu orgulho mais do que imaginei — ela virou o rosto pra mim, sem perder a irritação no olhar — Não vai me dizer que esse é o seu amigo que chegou na minha frente pra limpar sua barra?
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  — Como assim? Do que você está… — parou, se tocando do que ela dizia — Espera aí, tá falando dos vídeos do acidente dele? Você é a que estava dificultando o firewall maldito com seus trezentos cavalos de troia feitos de massinha? Que porra de história é essa? — ele se virou pra mim novamente — , por que ela estava tentando tirar os seus vídeos? Sabe com o tipo de gente que ela anda? Do tipo que estariam rindo com toda aquela coisa, do tipo Ash e seus capangas, você tem noção disso?! Por que vocês…
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  Maverick soltou uma gargalhada alta. Por um momento, fechei os olhos com força. Merda, merda, mil vezes merda! A falta de noção de não saber o que estava acontecendo não foi maior do que a noção do que estava prestes a acontecer. Eu precisava sair dali, e com certeza precisava levar junto antes que…
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  — Você é hilário, Jung — Maverick riu novamente, como uma piada que nunca acabava — É sério que você não contou pra ele, ? Agora entendi porque pediu minha ajuda e a de Ash em vez da dele.
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  Eu não soube dizer exatamente o que se passou nos olhos de . Mesmo com todas as luzes coloridas e a música alta, eu vi claramente seu rosto paralisar. Um desespero começou a tomar meu peito e me virei pra Maverick com irritação, torcendo para que ela percebesse minha exigência de seu silêncio nos sibilos que meus dentes faziam em sua direção.
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  — Me contar o que? — o ouvi dizer, mesmo que sua voz parecesse vir do fundo de um poço — Do que ela está falando, ? Que raio de ajuda é essa que você não me pediu?
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  Não respondi. Mal conseguia abrir a boca.
  Meu deus do céu, não era hora pra eu me sentir um completo filho da puta e ter uma crise de consciência do quanto eu estava sendo um péssimo amigo. Não aqui, não agora.
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  Mas ele me olhava de um jeito tão penoso que tive vontade de sair correndo dali e esquecer de todo o meu objetivo da noite. Porque aquele olhar cravou em mim e expôs mais coisas do que eu gostaria, expôs praticamente todas as minhas mentiras, pelo menos as novas mentiras, que se fossem reveladas levariam às antigas, e em hipótese alguma isso poderia acontecer.
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  — Me responde, ! — ele aumentou o tom de voz, se aproximando de mim.
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  Eu não queria perder . Mas de repente senti que as coisas estavam em um patamar tão diferente dos anteriores que esse conceito havia se estendido para todos ao meu redor. E isso significava que ele não aceitaria mais mentiras esfarrapadas.
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  — , escuta… — comecei, sem saber absolutamente de nada que viria depois, sentindo o coração bater mais rápido do que o normal. Mas não precisei me preocupar por muito mais tempo com isso.
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  — Ora, ora! — vi a sombra de outra pessoa tomar o rosto de , bem à minha frente, aproximando-se por minhas costas a um degrau acima — Maverick, querida.
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  Ela o encarou com uma risada forçada, não se detendo em demonstrar desgosto. O tom seco e agudo da voz já me adiantava seu dono, e uma raiva automática se preparava para inundar todo o meu corpo à medida que fui virando o rosto para encará-lo.
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   passava os braços pela cintura de uma garota alta de cabelos louros, que usava um vestido apertado e ligeiramente torto.
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  Ele estampava um sorriso cafajeste enquanto exibia a camisa de botões aberta e bebericava um drink das mãos dela, que parecia absurdamente realizada com o que quer que tenha acontecido há minutos atrás. A cena me enojou de tal forma que senti os punhos se fechando, assim como a garganta, e nunca precisei tanto controlar as emoções como naquele momento. Eu sentia que o socaria até quebrar minha outra mão.
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   baixou os olhos até mim, me avaliando de cima a baixo.
  — Você está na minha frente… — ele cerrou os olhos, parando para se lembrar — .
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  — Você está certo — respondi, olhando fixamente pra ele — Eu estou BEM na sua frente.
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  Ele sustentou o olhar, soltando o quadril da garota.
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  — Não preciso usar do meu cinismo e fingir que não me lembro de você — ele sorriu — Como foi sua recuperação daquele nariz quebrado? Se bem que, com todas as notícias suas que vieram depois, acredito que ele não tenha sido nada.
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  — É verdade, você não dá nem pro cheiro, — grunhi, não vendo meus passos se aproximarem sem minha permissão.
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  — , não… — ouvi a voz de atrás de mim, mas ignorei.
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  Cheguei perto daquele rosto estúpido que merecia uma verdadeira surra e murmurei:
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  — Os mortos costumam se alimentar de gente fraca e patética como você, . É melhor tomar cuidado com quem anda irritando por aí.
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  A reação da garota veio primeiro do que a dele. Ela arregalou os olhos em um terror que passou em segundos, e de repente me perguntei o teor de minha feição ao dizer as palavras. O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto, dando lugar a uma carranca raivosa, como a de um cão observando uma presa.
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  Feito isso, foi a minha vez de lhe lançar um sorriso singelo de canto, satisfeito. Mesmo que não fosse o bastante.
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  — Seu doente de merda! — ele disse entre dentes, pegando em meu colarinho com toda a força bruta que eu havia esquecido — Acha que tem algum colhão pra me ameaçar? Por acaso sabe quem eu sou?
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  — Você não é nada, cretino…
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  — Chega, ! — saí de perto dele pelo puxão repentino e a voz de Maverick logo atrás de mim — Vamos sair daqui.
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  — Isso ainda não acabou, — ouvi a voz dele enquanto me afastava — Não tenho medo de malucos como você!
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  Virei-me novamente enquanto lançava o dedo do meio por cima dos ombros vizinhos, destilando um sorriso desafiador antes de perdê-lo de vista. Mas a última faísca de seu olhar havia ficado visível no último segundo. E eu estava disposto a esperar uma retaliação.
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  — Você tá ficando maluco? — grunhiu, me empurrando pra frente até que meus pés se equilibrassem em algum lugar com grama baixa e molhada do lado de fora novamente. Eu sabia que ele estava com raiva, mas nem o escutava direito, tamanho o ódio que sentia ao me lembrar daqueles dois lá dentro — Se resolver arrumar uma briga com nessa festa, não serão apenas dois contra um, vão ser pelo menos 40, entendeu? Vai quebrar muito mais do que só o nariz!
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  — O Jung tá certo — Maverick disse, olhando para ainda com um resquício de desgosto — Você não é nada confiável quando está com raiva, parece um adolescente destrambelhado.
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  — Ele não costuma ficar com tanta raiva assim… — murmurou enquanto eu ainda colocava as ideias no lugar. Suspirei, olhando em volta novamente, de repente sentindo o peito apertar de novo ao pensar que poderia ver a mesma cena que eu vi. E se ela visse…
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  — Onde ela está? — pensei alto, tentando me lembrar novamente dos lugares onde não havia estado. Algo dentro de mim me dizia que ela não estava ali, mas eu não queria dar ouvidos a essa voz porque se ela não estivesse ali, significava que eu não sabia onde estava, e isso era pior do que qualquer outra coisa.
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   e Maverick se entreolharam, os dois em uma comunicação silenciosa e apressada, como se discutissem o que fariam comigo e minha busca por uma garota de coração partido.
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  — Olha, , que tal nós…
  Não ouvi terminar. O ringtone alto do meu celular começou como um toque distante até que a vibração em meu bolso me fizesse tomá-lo com rapidez. Os números na tela não eram reconhecíveis, mas fizeram meu coração parar de bater por alguns instantes.
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  — Alô? — arfei, me afastando da maior incidência de barulho, atentando meus ouvidos ao máximo.
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  —
  Primeiro senti o alívio. Ele foi o bastante pra me deixar lúcido por alguns segundos, até que eu me tocasse da outra urgência do momento.
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  — Onde você está?
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  Ouvi uma risada e ainda mais barulho do outro lado. Não eram os mesmos que o da casa de Alanna. Ela estava em outro lugar.
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  — … — chamei mais uma vez, tentando não parecer tão ansioso — Me responde, onde você está?
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  — Eu não sei… Eu acho — ela riu mais uma vez, de forma extremamente alegre — Oh meu deus, é mesmo o ? Não acredito que acertei o número de primeira. Deve ser por ter ficado encarando os números sem parar nos últimos dias, mas não conte isso pra ele.
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  Bufei novamente, ignorando o formigamento no estômago, me controlando pra não gritar.
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  — , de quem é esse telefone?
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  Um silêncio. Um vácuo que não me trouxe nada de bom.
  — Boa pergunta… — ela murmurou, baixo demais. A música ao meu redor não me deixava escutar com clareza, e somada ao som alto e totalmente contrário da linha dela, a comunicação ficava cada vez mais difícil — Acho que é de algum cara que encontrei…
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  — Estou indo te buscar! — rugi, mandando minha paciência pro inferno. Comecei a caminhar sem rumo para a direção que me lembrava estar a porta da frente, não prestando atenção se estava me seguindo ou não — Tô falando muito sério: onde-você-está?
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  — Não precisa ficar tão nervoso — ela riu novamente, e algo me dizia que não estava muito diferente das pessoas bêbadas dessa casa, o que se tornava uma preocupação a mais; ela não podia beber — Aqui tem umas músicas que você gosta. Os gritos, a bateria… Tudo aqui é você… — a voz baixou ainda mais, e apressei o passo. Tentei me concentrar nos sons de fundo por um instante para captar alguma coisa. O barulho estridente de uma guitarra atravessou meus tímpanos e senti que tinha uma direção.
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  — Não sai daí — falei o mais alto que pude, o mais firme que consegui para que ela entendesse e ficasse.
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  Não esperei que ela respondesse. Quanto mais rápido eu chegasse, mais rápido poderia convencê-la e tirá-la seja lá onde fosse. Olhei para trás instintivamente e, como esperei, vi correndo em meus encalço, surpreendentemente acompanhado por Maverick, que agora vestia um suéter e se livrou da toalha nos ombros.
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  — , o que… — ele começou a dizer.
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  — Tem alguma banda de rock se apresentando hoje? — o interrompi com pressa, e ele me encarou confuso.
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  — O que?
  — Pensa, os milhões de cartazes que você me mostrou! Algum deles dizia algo sobre um show de rock em algum lugar?
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   abriu e fechou a boca, sem responder, o que me deixou ainda mais possesso com o nervosismo. Eu sabia que ele descartaria os convites que não tivessem nada a ver com ele, tanto do celular quanto da memória. Era inútil perguntar a ele, mas eu não sabia mais o que fazer.
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  — Tá falando da banda de punk judeu que está infestando algum pub nojento pra comemorar o Hanukkah? — Maverick disse um pouco antes que eu surtasse de vez e saísse buscando em cada garagem de New York — Eles devem estar tocando em algum porão no Bronx.
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  — Algum não é o suficiente, Maverick — respondi, e senti os olhos de vagando entre eu e ela ao mesmo tempo. Ele não deveria conhecer aquele nome, e não seria agora que nenhum de nós explicaria.
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  Ela desviou os olhos e puxou o celular dos shorts, zapeando a tela por alguns instantes até virá-lo para mim, mostrando um banner marrom com dizeres em negrito “FESTA SECRETA NA CURVA DO BODEN! O PUNK MODERNO DO FESTIVAL DAS LUZES TE AGUARDA! APRESENTANDO: HEROES OF KISLEV!” e somente isso.
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  Li os dizeres duas vezes e olhei-a sem entender.
  — Curva do Boden? — perguntou, igualmente confuso.
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  Maverick olhou para os dois, guardando o celular.
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  — Vocês precisam urgentemente sair mais — ela suspirou — Vamos nessa, cavalheiros. Direto para o Bronx.
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  Eu sabia que estava no lugar certo antes de Maverick me dizer. Percebi que ganhei experiência suficiente com tia Shmi.
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  Estacionei o carro na borda da calçada, que imediatamente recebeu o cartaz do show secreto de Hanukkah golpeado contra o pára-brisa, vítima do vento ruidoso que soprava lá fora. Pelo som alto e abafado da bateria misturado com gritos ao longe, a parte do secreto não estava indo de acordo com os planos.
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  A barulheira em questão vinha de algum lugar na esquina mais à frente. xingou ao sair do carro e notar que não era lá muito inteligente vagar pelas ruas naquele frio sem estar amassado por uma multidão de pessoas, mas Maverick parecia bem, mesmo com seus shorts e o suéter fino. Ela encarou as ruas semi vazias e percebi que devia estar seguindo o som, assim como eu. Ainda não conseguia vincular a imagem de em um show underground, mas esse era o menor dos problemas. Eu só precisava que ela tivesse feito o que pedi.
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  A próxima curva levava a uma rua estreita e, agora posso dizer, deserta. Os únicos atributos que não a tornavam uma vala esquecida eram os poucos carros estacionados em zigue-zague, desconectados. O barulho ficou mais alto à medida que íamos mais à frente, mas eu ainda não via nenhuma luz. Até um show de punk precisava de alguma luz.
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  — Ali — Maverick passou para o meu lado, esticando o dedo para um prédio baixo e de pintura lascada, exibindo uma placa de tecido fino e desbotado com os dizeres “Boden’s Bakery”. Uma foto engraçada de um homem com um enorme bigode sorria para a rua enquanto segurava um pão de baguete cristalizado.
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  Olhei confuso por alguns segundos até entender para onde realmente ela estava apontando. Um breu em formato de beco puído se estendia logo ao lado do estabelecimento, onde a rua sem saída era tomada por latas de lixo violadas por cães e um cheiro forte de muitas coisas. Uma porta média e enferrujada indicava os fundos da padaria, da onde vinha uma luz mínima que escapava para a rua, amarelada como uma vela. Ao me aproximar do ponto luminoso, um barulho longínquo atingiu meus ouvidos e minhas narinas foram tomadas pelo cheiro de cigarro, cerveja e algo ainda mais forte que não estava disposto a adivinhar. A porta estava meio aberta e, por trás dela, sentado em algum tipo de banco velho e desgastado de um carro, estava um homem alto e magro, coberto de tatuagens e fumando algo que, pelo cheiro, não era um Lucky Strike.
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  Ele virou o rosto imediatamente assim que chegamos à frente. Em uma olhada rápida, vi que existia outra escada logo depois da porta, e que a passagem estava sendo obstruída pelo cidadão de olhos baixos.
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  — O que posso fazer por vocês? — perguntou ele, e sua voz era tão arrastada que agora tive certeza absoluta do que ele estava fumando.
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  Olhei para automaticamente, vendo sua expressão impassível e sem o humor de sempre. Ele me encarou na mesma hora e apenas deu de ombros, me concedendo a decisão, como fazia quase todas as vezes. Não precisei olhar para Maverick e perguntar a mesma coisa; ela tinha o olhar cravado para além do homem, para a entrada.
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  — É dinheiro ou charada? — perguntei com confiança, metendo as mãos nos bolsos automaticamente e torcendo para ter notas suficientes. Senti o olhar de sobre mim, claramente repreensivo. Às vezes, ele me achava sem noção quando se tratava de dinheiro.
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  O homem me encarou imóvel por um minuto antes de soltar uma gargalhada. Maverick andou até o meu lado, agora nós três formando uma linha reta.
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  — Poderia ser um quilo de alimentos não perecíveis, e então, o que você faria? — ele riu com o sarcasmo, começando a se levantar.
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  Ele encarou os três, um a um, soltando a fumaça pesada da erva antes de voltar a falar.
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  — São estudantes? — os três concordaram — Vocês não parecem muito animados para participar dessa confusão, muito menos parecem judeus. Não tem lugar melhor pra irem?
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  — Ele está animado — estendeu a mão para mim, desatando uma risada engasgada e nervosa quando virei a cabeça pra ele — Digo, todos nós estamos, mas esse cara aqui, rapaz… Ele está doido pra beber e bater a cabeça fazendo aquele sinalzinho com os dedos, sabe? Aquele sinal do diabo… — ele riu novamente e tive de me controlar pra não chutar sua bunda ali mesmo — Não vê o estilo dele? É totalmente rock’n roll…
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  — Vai nos deixar entrar ou não? — Maverick interrompeu, e nunca quis tanto agradecer a alguém. O homem nos encarou desconfiado mais uma vez enquanto me olhava como se dissesse “eu tentei”.
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  Ele levou o tempo de uma tragada até terminar de vasculhar nossos rostos. Se ele de repente arrancasse um distintivo dos bolsos da calça preta e se revelasse como um policial disfarçado à postos na caçada contra os menores de idade que se embriagavam na véspera de natal, eu não ficaria surpreso.
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  — Não vão causar confusão, não é? — perguntou, cauteloso. Novamente, as cabeças o responderam — Não quero problemas por aqui, ainda mais nessa época do ano. Também não garanto que vão encontrar bebida boa, muito menos bom cigarro — ele olhou diretamente pra mim na última frase. Sustentei o olhar, impassível, não entendendo de imediato.
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   deixou sair mais uma risada, desta vez espontânea.
  — Ele não se importa com essas coisas — disse ele — As roupas só enganam, garanto que ele aceita um Derby sem pestanejar.
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  Olhei pra ele em dúvida, mas não questionei. O cara coçou a garganta e deu um passo à frente.
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  — Dez dólares de cada e nem pensem em chamar uma ambulância caso dê alguma merda. Muito menos a polícia — ele falou baixo e não me controlei em revirar os olhos.
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  Puxei três notas.
  — Agora chega pro lado.
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  Ele pegou o dinheiro com brilho nos olhos e de repente senti que fui assaltado, mas não importava. Ele prontamente se afastou da entrada e comecei a ir em frente.
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  — É a última porta, garoto. A banda é um lixo, mas se está procurando uma boa onda, veio ao lugar certo.
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  Não respondi e continuei descendo as escadas de pedra, sendo engolido pela escuridão a cada passo que dava. Ouvi os passos de e Maverick bem atrás de mim, mas não por muito tempo. Um acorde extremamente alto arranhou meus ouvidos, e finalmente vi a última porta meio aberta, da onde escapava luzes brancas e roxas, o que não consegui relacionar.
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  Antes que eu encostasse nela, a porta foi escancarada em minha direção e quase fui atingido pelo metal no rosto. Uma dupla de garotas saíram gritando aos tropeços, ancorando-se uma na outra até que um barulho grotesco de vômito acontecesse bem ao nosso lado, e olhei automaticamente para os pés.
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  — Meu deus… — murmurou Maverick, com voz anasalada.
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  — Argh — foi a vez de colocar as mãos na boca.
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  — Vamos logo! — Senti o empurrão em minhas costas até que Maverick nos passasse pela porta.
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  Eu não sabia dizer se aquele era exatamente o que chamavam de punk moderno.
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  O frio não existia mais. O lugar não estava exatamente lotado, mas as paredes de pedra do subsolo pareciam ter feito um bom trabalho em reter cada centímetro quente de vários sóis. A grande maioria massiva de pessoas vestiam preto e preto-porém-couro, mas pude avistar alguns vestidos brilhantes e as luzes que não conseguia enxergar lá de fora estavam mais fortes do lado de dentro. Uma spotlight imensa brilhava no centro do porão, e algumas lâmpadas confeccionadas com garrafas de cerveja rodeavam as pilastras grossas espalhadas pelo lugar. O cheiro forte de álcool dominava o lugar, e duvido muito que a produção tivesse se preocupado em organizar efeitos de gelo seco. A fumaça dos outros já fazia grande parte do trabalho.
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  — Sinistro — murmurou, ou pelo menos seu grito foi muito abafado pelo som. Ele encarava o lugar inteiro em panorâmica, observando por mais alguns longos minutos uma garota vestindo uma saia curta e chapéu de papai noel. Atrás dela, visualizei um balcão feito de tijolos, com um armário recheado de caixas de papelão e placas de venda de garagem. Algo me dizia que eu não encontraria carrinhos de segunda mão ou roupas usadas dentro delas.
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  O vocalista berrava algum cover de Sex Pistols como se fosse o Mick Jagger, e a plateia vibrava sem grande interesse em conhecer a música ou não. Enfiei as mãos nos bolsos, pegando o celular por um momento. Já passava da meia noite e não havia me ligado de novo. Uma ansiedade começou a tomar meu peito outra vez.
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  Virei-me para Maverick e , que ainda olhava o local com certa estranheza.
  — Vou procurá-la pela esquerda, vocês dois podem verificar no bar — olhei para trás — Bem, eu acho que aquilo é um bar.
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  — Tem certeza que ela tá aqui, ? — fez uma careta — O lugar não concorda em nada com .
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  — Ela tem que estar — disse hesitante, mais para mim mesmo. Se ela não estivesse aqui, eu começaria a ficar seriamente desesperado — Prometo que não vamos demorar, só preciso encontrar…
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  — Não vamos mesmo demorar — interrompeu Maverick, inclinando a cabeça para trás de meus ombros com um sorriso sacana no rosto.
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  Juntei as sobrancelhas e segui seu olhar. Uma massa de pessoas no centro do porão gritou ensandecida entre si, gritos não necessariamente direcionados ao palco. Um ponto de brilho atravessou meus olhos e sumiu, apareceu novamente e depois foi soterrado pelos casacos pretos de novo. Apertei o olhar até ver um cabelo conhecido se movendo no ar, acima do brilho de um vestido curto que servia como um globo espelhado de uma boate qualquer.
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  Trinquei o maxilar na mesma hora.
  — Acho que vou pegar uma bebida — Maverick colocou uma das mãos no meu ombro — Não quero ser a única a não me divertir.
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  Com uma risada, ela se retirou e passou para o meu lado, olhando a cena com os olhos arregalados. Ele se virou para dizer alguma coisa mas, assim como eu, também não sabia o que falar. Olhei para ele e fiz um gesto para que acompanhasse Maverick em seja lá o que quisesse fazer e andei a passos largos para o centro, me embrenhando na multidão avassaladora que se comprimia cada vez mais perto do palco.
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  Eu não sabia como ela estava conseguindo dançar ao som de I Wanna Be Sedated, mas ninguém parecia muito interessado nisso. Duas garotas dançavam ao seu lado, e aqueles movimentos com a cintura nada casavam com a agressão na bateria, mas ela parecia sorrir e sorrir muito. Gritei seu nome uma vez, sem sucesso nenhum. Um cara alto e careca mexia o corpo como um espantalho atrás dela, mirando especialmente em seu rosto e dando passos certeiros para a frente. Eu ainda a enxergava por uma fresta de corpos que impediam que eu seguisse adiante, o que me deixava ainda mais irritado. Perdi as contas de quantos ombros esbarrei e quantas bebidas devo ter acidentalmente derrubado sem me desculpar, mas eu só conseguia focar à frente. Ela estava bem na minha frente.
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   jogou a cabeça para trás e se preparava para receber uma dose de alguma bebida vermelha engarrafada que um dos outros caras se preparava para virar em sua boca quando finalmente cheguei na borda do círculo. Algumas gotas conseguiram atingir sua língua antes que eu, em um movimento só, puxasse seus ombros para perto de mim, fazendo o resto do líquido se derramar no chão até que o sujeito se desse conta do sumiço.
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  — Ei, o que tá fazendo? — ele gritou, me encarando com raiva. Eu não sabia se era pela bebida derrubada ou se eu acabei com seus planos de embebedar uma garota.
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   riu grogue em meus braços, erguendo a cabeça para cima e parecendo radiante ao me ver.
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  — , você veio mesmo — ela passou os braços em volta do meu pescoço, descansando a cabeça no meu peito como se eu fosse claramente algum tipo de alucinação. Nunca havia notado nossa diferença de altura, mas também não me lembro de ficar tão perto dela por tanto tempo pra perceber.
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  — Você está bem? — perguntei alto. Ela apenas assentiu forte com a cabeça, como uma criança — Vou te levar pra casa — procurei falar em um tom que ela entendesse, perto de seu ouvido, começando a conduzi-la para fora da multidão, mas senti seus pés travarem no chão.
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  — Não, eu não quero ir pra casa! — ela se afastou de meus braços, me olhando com aversão — Não quero…
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  — , não…
  — Eu te chamei pra me divertir, , não pra me buscar. Faz um esforço, vai…
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  — Prometo te oferecer outra diversão longe daqui, agora…
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  — Oh idiota, não vê que ela não quer ir? — o careca de casaco de couro disse, a voz alta e grossa como a de um monstro. Encarei seu sorriso meia boca e triunfante, tentando conter a raiva que se apossou de mim ao imaginar o que ele pretendia com ela, o que todos eles pretendiam.
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  Lembrei do aviso claro do velho chapado da entrada sobre polícias e ambulâncias, mas quando percebi eu já havia dado um passo à frente.
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  — Acredito que ela também não queira ficar no meio de neandertais fodidos como você que deveriam andar por aí usando uma focinheira — arranhei as palavras sem piscar, percebendo que havia me aproximado demais. Brigas em pubs aleatórios nunca foram a minha, ainda mais quando não envolviam um fantasma sentado no palco, mas naquele dia eu não parecia disposto a segurar meu gênio detestável. E poderia atribuir a culpa fácil ao outro idiota master que havia encontrado na festa anterior. Uma mão no meu ombro puxou meu corpo para mais perto, desta vez do cara que havia tido a bebida em mãos esparramada pelo chão.
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  — Amigo, você está fazendo errado… — ele também tinha um olhar brilhando em raiva, e percebi que o ar circulou mais ao redor, fruto do afastamento das pessoas ao notarem o clima estranho — Não sabe o significado de ordem de chegada?
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  — E você não sabe o significado de cadeia, seu babaca do caralho? É pra onde você e seus gorilas iriam se continuassem o que pretendiam fazer com ela nesse exato momento.
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  Então era isso, eu faria exatamente tudo que não pretendia fazer quando saí de casa hoje.
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  Lembrei do ferimento já quase totalmente cicatrizado na testa e no braço sem o gesso e quis rir. Já comecei a pensar nas desculpas bem trabalhadas que teria de dar pra família inteira ao chegar com o olho roxo pra ceia de natal, mas nem isso me fez deixar de sustentar aquele olhar agressivo e nojento dos dois caras e, pra minha preocupação, de mais alguns que estavam atrás dele.
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  Por sorte – ou não –, senti o corpo de passar à minha frente, tirando as mãos do cara do meu ombro, que já teria a marca de seus dedos, não fosse a jaqueta.
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  — Rapazes… — ela levantou as mãos em rendição, olhando para os dois da frente, claramente enxergando mais do que isso. Sua voz estava mais firme, mas percebi o esforço que colocava para formar as frases — Vão querer bater em um cara sozinho e desarmado como naqueles filmes do Tarantino? Que coisa feia. Não sabem que ele acabou de sofrer um acidente?
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  — Ele parece procurar bastante por acidentes — o careca respondeu, torcendo o punho. Inconscientemente, fiz a mesma coisa — Melhor dar licença do caminho, princesa…
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  Ele esticou os dedos para tocar no rosto de e, em um impulso do meu cérebro, afastei sua mão em um tapa violento. Não deu tempo de pensar muito no que eu tinha feito. Ele me olhou chocado por alguns instantes até que torcesse a feição em fúria assassina, vindo pra cima de mim.
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  — Ei, ei! — meteu as mãos no peito largo do homem, e só naquela hora percebi que as outras garotas fizeram o mesmo, olhando um tanto chocadas para a expressão furiosa da montanha de músculos — Qual é!? Vocês não respeitam a pista de dança!? — ela revirou os olhos e senti suas mãos nas minhas — Vamos dançar, .
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  Deixei que ela me conduzisse pela multidão, ainda com o rosto virado e travado no cara que ficava para trás, que também tentou dar um passo à frente, sendo impedido logo em seguida. Algo naquele sorriso tosco e a língua que passou pelos lábios enquanto encarava as costas dela fez meu sangue ferver como o inferno, e agradeci internamente por ela ter adquirido alguma força para me conduzir para longe dali.
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  Era impossível achar um lugar vazio, mas o longe parecia realmente longe demais daquele círculo detestável. Ela parecia se mover sem rumo e, agora mais longe do pessoal, puxei sua mão e o corpo juntos para que se virasse para me olhar.
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  Ela pareceu assustada por um segundo, ainda mais porque a puxei pra bem perto. Abriu um sorriso devasso, que foi inteligente em me fazer perder as palavras por um tempo. A luz branca e amarelada misturada com a fumaça atravessava seu rosto em um brilho intimista, inevitável de se olhar. Eu a observaria daquele jeito por horas a fio, e sinto que não me cansaria.
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  — O que está fazendo aqui? — perguntei quando achei minha voz, e percebi que toda a agitação dela, que esteve presente em todos os momentos até que eu chegasse aqui, havia sumido. A mesma agitação agora se encontrava dentro do meu peito, e ela nos meus braços não ajudava em nada.
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  — Conhecer novos ares — respondeu, simplesmente. Um berro do vocalista a fez olhar para o palco — O seu tipo de lugar, pelo visto.
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  — Quem está com você? — perguntei rápido, olhando para os lados como se fosse enxergar alguém brotando do nada que também estivesse procurando por ela. juntou as sobrancelhas, confusa, e percebi que talvez não tenha escutado nada — Esquece, eu acho que você realmente deveria…
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  — Não! — ela se afastou de novo, com a voz manhosa — Eu quero curtir a festa, pelo menos essa festa, a única festa que não teria ninguém…
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  — Quer parar de agir como criança e se tocar da onde você decidiu curtir uma festa? O que eles te deram pra beber? Você sabe que não pode…
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  Travei, passando a mão pelo cabelo, torcendo pra ter passado despercebido. Ela me encarou sem mostrar nada, como se imaginasse que eu soubesse, mesmo que eu nunca tenha dito. Devia achar que eu sabia desde o flagrante no hospital.
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  — Não pude fazer muitas coisas por muito tempo, — ela respirou fundo, diminuindo o sorriso até que ele quase desaparecesse — Por um mísero dia, me deixa fazer o que eu quero! — ela se esquivou levemente e voltou a andar, mas puxei seu pulso novamente.
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  — Eu só não quero que você vá parar no hospital de novo, dá pra entender isso?
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  — Argh, você é um saco… — ela levantou os braços para afastar o cabelo dos ombros e um homem de ombros largos, tão largos quanto o outro, esbarrou em seus cotovelos, derramando o copo de plástico cheio de uma cerveja misturada com alguma outra coisa nos ombros e no colo de . Em um passo rápido, puxei-a para o meu lado, enquanto ela fungava em choque com a bebida gelada em sua pele.
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  — Aí, presta mais atenção! — ele gritou enquanto seguia em frente, e fiquei grato por isso. Pela minha experiência, um cara que perde a bebida em um lugar desses é comparável a alguém que teve o carro estraçalhado.
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  — Droga… — ela murmurou enquanto passava a mão molhada pelo vestido brilhante. Ameacei tirar a jaqueta no mesmo momento, mas ela me parou — Não precisa, vou ao banheiro.
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  Ela já estava se mexendo antes que eu dissesse alguma coisa. Bufei enquanto seguia suas costas, que costuravam a multidão como se já conhecesse o caminho. Ela não parecia sentir os ombros trombando contra os dela e um novo potencial de receber outra enxurrada de bebida, ou ainda pior, parecia não se importar com isso. Comecei a pensar que ela pudesse estar seriamente nervosa ou chateada, e nada tinha a ver com os grandalhões que acabamos de deixar lá atrás.
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  Tinha a ver com o cara irritante que a seguia nesse exato momento.
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  Tive certeza disso quando dobramos em um espaço estreito e sem fim, onde uma fila mediana se estendia até uma pequena porta baixa e com tantas pichações sobrepostas que era impossível adivinhar sua cor original. A fumaça ali era pesada, e a espera para entrar havia se transformado em um motivo para casais adiantarem o que poderiam fazer no banco de trás de um carro. parou por um instante, encostando-se do outro lado da parede, fechando os olhos por um segundo. Eu podia visualizar sua cabeça girando e a tontura característica que devia estar sentindo.
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  Me aproximei dela, apoiando-me em um dos cotovelos na parede ao lado de seu rosto.
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  — Quanto você bebeu? — perguntei, calmo. Não precisei aumentar tanto o tom nesta parte do térreo; as paredes grossas de cimento detinham grande parte do barulho.
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  — Não importa — ela murmurou, ainda de olhos fechados. Sua feição serena de repente me irritou.
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  — Você sabe que importa! Se não queria que eu viesse, por que discou os números? — falei de forma furiosa, os dentes se juntando enquanto eu tentava não falar alto demais. Mas o silêncio dela, assim como suas atitudes esquivas, não me deixavam exatamente disposto a ser legal — Sabia perfeitamente que eu ficaria desse jeito, mas me ligou mesmo assim. Por que não fez esse esforço para atender as minhas ligações esse tempo todo?
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  Ela abriu os olhos, me encarando de canto, repuxando os lábios como se segurasse a resposta. Na verdade, ela já havia me dado uma. E pensar que o comportamento dela naquela noite estava sendo direcionado daquela maneira atípica por causa de um cara que não merecia nada além de uma boa surra me enchia de frustração. E ódio, principalmente isso.
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  — Eu não… — ela bufou, desencostando-se da parede — Eu não quero falar sobre isso.
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  Porra.
  Umedeci os lábios, acenando com a cabeça sem olhá-la. Se olhasse, eu insistiria. Eu gritaria. Mas não deveria ceder à minha chuva de emoções hoje, pelo menos não perto dela.
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  — Vou pegar uma água pra você… — disse e virei para andar rapidamente até o balcão que vi mais cedo, certo de que alguns minutos longe dela seriam o suficiente para que eu voltasse a ficar racional.
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  — Será que dá pra você parar com isso? — ela falou em minhas costas, exasperada. Virei novamente e a encontrei com o mesmo olhar raivoso, beirando à indignação — Dá pra parar de fazer isso? — ela balançou uma palma no ar, apontando dela para mim — É tão… Tão…
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  Não entendi nada. Um barulho alto e agudo de ferrugem surgiu mais à frente, onde a porta do banheiro estava finalmente se abrindo, porém ninguém entrou de imediato. Me perguntei qual era o nível crônico que essa galera se encontrava para não notarem um banheiro desocupado, vendo que a fila estava mais do que cheia.
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   pareceu ter se atentado à mesma coisa que eu e, sem nem me dar tempo de pensar, começou a caminhar a passos largos para a porta aberta, ultrapassando todas as demais pessoas para trás, que não começaram a gritar.
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  Xinguei baixo, indo atrás dela de imediato. A gritaria se iniciou assim que a alcancei, mas parecia ser tarde demais para tentar convencê-la a não furar uma fila daquelas em um lugar daqueles. Ela já estava lá dentro e entrei em uma pisada só, fechando a porta atrás de mim como um raio, trancando-a e bufando ao ver o golpe posterior, que fez a porta velha estremecer e me fazer desconfiar da capacidade da tranca.
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  — Você não tinha que me seguir até aqui — ela disse em tom seco enquanto caminhava até a pia suja e o espelho desfalcado. Uma forte luz vermelha soterrava o pequeno ponto de luz amarelada acima do espelho, concedendo uma visão grotesca às várias pichações e adesivos de caveira, junto com o cheiro forte de álcool e de outras coisas que prefiro não nomear. não parecia se importar com nada disso, e duvido muito que já estivesse em um lugar daqueles na vida.
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  O jeito como ela abriu a torneira e começou a lavar as mãos de forma descontraída, porém fria, me rendeu mais uma série de irritação.
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  — É, eu realmente não deveria te seguir por aí — disse entre dentes, passando a mão pelo cabelo de novo. Foi como se me tocasse pela primeira vez onde eu havia ido parar naquela noite maluca, e onde eu me encontrava naquele exato momento: preso com em um banheiro imundo de porão, banhados por uma luz vermelha bizarra e me irritando pelo fato de ter feito tudo isso sem nem piscar.
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  Porque, ao que parecia, eu estava preocupado como um louco pelo seu estado e não conseguia tirar da cabeça todas as coisas que deveria ter sentido quando estava sozinha, mas ela ao menos conversava comigo. Ah, oras, qual era o meu problema? Caralho.
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  Ela virou a cabeça como um jato, e mandei pro inferno toda a tentativa de disfarce do meu ressentimento. Eu estava com raiva, estava preocupado, e odiava seu silêncio mais do que tudo naquele dia, e não me importei se ela percebesse isso ou não.
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  — Também não sei porque te chamei — ela respondeu, rude, procurando algum papel toalha em que pudesse secar as mãos.
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  — Ah, jura? Percebeu que não sou uma boa companhia agora? Depois de dois dias?
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  — Está contando os dias agora?
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  — Por que não me atendeu? — perguntei novamente, deixando a manivela de palavras liberada para que saíssem sem o menor filtro.
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  Ela me encarou com o olhar duro, impenetrável. Eu não fazia ideia do que ela estava pensando.
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  — Por que deveria te atender, ?
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  — Porque estávamos juntos. Eu vi tudo, assim como você. Não consigo entender porque, de todas as pessoas, você decidiu não falar comigo.
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  — Então estava preocupado? — ela ergueu uma sobrancelha, querendo soltar uma risada, mas algo a impediu — Achei que seu negócio fosse escalar sacadas ao invés de pegar um telefone.
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  — Eu poderia escalar — dei um passo à frente, sentindo o peito arder. Ela estava sendo intratável de novo — Poderia até mesmo bater na sua porta da frente, ou sentar do seu lado na sua cama. Era isso que você queria?
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  O corpo dela ficou rijo. Seus olhos pareciam diferentes demais de quando os encontrei mais cedo. Ela parecia olhar para algo que não queria olhar.
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  Talvez ela não estivesse tão bêbada assim.
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  Um golpe leve, porém surpreendente, atingiu meu abdômen. Uma bola de papel marrom rolou pelo chão sórdido enquanto dava um passo para trás. Agora ela parecia com raiva, frustrada.
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  — Não quero nada disso — ela sussurrou furiosamente, desviando os olhos dos meus, caminhando até a porta novamente.
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  Segurei a curva de seu cotovelo, virando-a pra mim em um movimento só. Ela arfou, sendo pega de surpresa no primeiro segundo, assumindo uma expressão insegura logo depois. Eu fervi de raiva de novo. O que diabos ela estava fazendo e por que estava me dando meias palavras? Eu não aguentava mais porra de meias palavras e frases inacabadas e joguinhos sem sentido!
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  — Então me diz o que você quer! — rugi, me aproximando de seu rosto sem perceber, querendo desesperadamente que ela escutasse, e escutasse de verdade — E diga a verdade.
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  — Quero que você vá embora…
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  — Porra, … — resmunguei — Amigos, foi o que você disse! Então você pode me dizer…
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  — Tem certeza, ? — ela se soltou em um solavanco, me empurrando com o máximo de força que conseguiu, que não era muita. Sua respiração estava pesada e ela hesitava, ativando as palavras sem refletir sobre elas — Quer saber a droga da verdade? Ela é vergonhosa e garanto que vai se arrepender de ouvir. É uma verdade tão ridícula e insana que se alojou na minha cabeça e não sai por nada nesse mundo. Os sonhos, meu deus… — ela levou as mãos ao cabelo, como se tentasse organizar os pensamentos sem sucesso. Seus pés se moveram em um semicírculo, e ela com certeza estava mordendo a língua pra não falar demais.
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  Trinquei os dentes novamente, ouvindo mais batidas violentas na porta. A fúria de fora parecia me atingir, fazendo meu peito continuar queimando pelo final de seu discurso.
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  — Do que diabos está falando? — perguntei novamente, dando mais um passo à frente. Ela parecia lutar contra a minha aproximação, mas não conseguia me sentir disposto a uma trégua — Fala logo,
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  — Você! — ela gritou com raiva, porém com os ombros baixos — Eu não sei quando aconteceu, mas você… De repente eu estava sonhando com você. Um sonho maluco, sem sentido algum, porque é impossível, não tem como… Não tem como nós… — ela travou, olhando para mim com os lábios trêmulos, despejando a verdade naquele olhar.
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  Toda a raiva se dissipou por sobre meus ombros. Ela não disse, mas eu vi. Pude ver as imagens como um filme na minha cabeça, um filme que jamais esqueci. Minha corrida até Woodlawn. Minha luta contra Elena, sua voz na cabeça de , suas acusações dolorosas que a machucaram também fisicamente. A fuga, o beijo. A conversa posterior, a conversa maldita onde desmenti absolutamente tudo e a tratei com a maior indiferença que conhecia.
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  Esse dia. A situação específica que corria em seus olhos ali, na minha frente. Sonhar era o jeito menos doentio que ela poderia me dizer que não fosse lembrar. Lembrar de algo que ela não havia vivido, não podia ter vivido, não podia ter esquecido algo como aquilo. De repente entendi toda a sua raiva, e não consegui manter a minha de pé.
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  — … — disse quando achei minha voz, sem saber o que falar a seguir. Um branco infindável havia pousado em minha mente, e não havia nada, absolutamente nada. Por mais que eu achasse que estava pronto para aquele momento, percebi que não estava. Que nunca mais iria estar pronto pra mentir daquele jeito — Olha…
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  — É. — ela soltou uma risada seca, desconcertada — Não queria a verdade, ? Pois aí está. Acho que estou maluca e não paro de pensar em você. Não consigo ler um maldito livro, ouvir qualquer maldita música ou tomar a droga de um banho sem parar de lembrar daquele sonho bizarro e real, tão real quanto você está na minha frente agora. Era isso que queria ouvir?
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  Eu parecia ter milímetros de altura. havia crescido com suas palavras e elas me encolhiam a um nível covarde da discussão, tão covarde quanto a conversa do carro naquele dia. Quando ela havia despejado mais verdades, verdades dolorosas, ou desejosas, eu não sabia como classificar. Verdades que eram um gatilho para as minhas próprias, e isso me causava mais medo do que pensei.
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  Eu estava desarmado. Eu sabia que deveria estar fazendo um milhão de perguntas em meu olhar, mesmo que minha boca não pudesse proferir palavra alguma. E as principais delas se embolaram na ponta da língua, variações da frase: o que exatamente você se lembra?
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  Para o meu azar inesperado, ela pareceu ter sucesso em interpretar todo o meu caos interior.
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  — E é exatamente por isso — ela se aproximou de mim, vários passos à frente — que você não deveria escalar a minha sacada.
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  Engoli em seco. Agora eu sentia sua respiração em meu nariz e sabia que estava fodido. Meu coração martelava como um louco, os golpes sendo sentidos em minha garganta, acumulando um suor estranho na palma de minhas mãos. Ela encarou meus lábios com interesse bruto, curioso, como se quisesse confirmar as mesmas sensações que tivera durante a lembrança disfarçada de sonho.
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  Não conseguia me mexer. O olhar dela me paralisava e eu não conseguia proferir uma única frase. Mesmo sabendo que não, aquilo não, definitivamente não devia acontecer. Não naquele momento.
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  Mas por que não deveria…
  — O que aconteceu nesse sonho? — perguntei, buscando alternativas para que ela falasse e não se aproximasse mais. Minha voz era focada em não despencar com sua presença, em não ceder àquilo tudo.
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  Mas porra, seria muito mais fácil se ela parasse de me olhar desse jeito.
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  — Não consegue adivinhar? — seu tom de voz era baixo e grave e eu juro que estava difícil. Tentei raciocinar, ter esperanças de que suas lembranças voltariam de forma gradativa e, pelo visto, aleatórias. Se ela tivesse visto exatamente tudo que aconteceu naquela noite, não estaria agindo como se só se lembrasse de uma coisa. E logo dessa coisa, pelo amor de deus!
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  — Não faz isso… — minha voz saiu em um sussurro sôfrego, contido. Eu nem sei como consegui dizer tal coisa. — Não podemos fazer isso…
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  — Não estamos fazendo nada — ela respondeu, em uma voz igualmente baixa e abafada, ruidosa, fazendo cócegas em meus ouvidos. O barulho alto do rock do lado de fora havia sumido. Existia uma nova redoma ali, naquele lugar inusitado, que me prendia àquela garota e aos olhos penetrantes que tanto insisti em fugir.
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  Senti nossos narizes se encostando e uma mão tímida dela ir para cima do meu ombro. Ah, deus, eu não sabia mais o que fazer…
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  — … — trinquei o maxilar, fechando os olhos com força. Meus pés estavam cravados no chão e fiquei com raiva, mais uma vez a raiva.
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  — O que…
  — Prometi que nunca mais ia te beijar.
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  Ela inclinou a cabeça para o lado, tentando se lembrar do momento exato em que fiz isso. Não funcionou como um teste, mas de repente me mostrou o quanto exatamente ela se lembrava. Suas memórias não voltaram em uma sequência cronológica, e muito menos progressiva, e talvez eu ainda pudesse ter esperanças de conseguir inventar alguma coisa antes que ela chegasse nessa parte.
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  Mas o que eu estava dizendo? Eu não conseguia pensar em absolutamente nada além daqueles lábios agora. Muito menos se sua mente ainda estava nebulosa ou não.
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  — Não é hora de dizer coisas sem sentido, .
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  Seus lábios roçaram nos meus e foi o fim de tudo.
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  Ataquei sua boca com força, estrangulando os avisos da lógica, puxando-a para tão perto de mim que refuta qualquer lei da física sobre dois corpos. Ela tomou meu cabelo entre seus dedos, e senti meu corpo inteiro arder em chamas. Não conseguia me lembrar do dia de hoje, como havia ido parar ali, desconfio que me esqueci por meio segundo até mesmo onde estava. A sensação de tê-la tão perto explodiu minha mente de uma forma violenta, e foi como se eu nunca tivesse dúvidas, como se estivesse brincando de gato e rato com todos os sentimentos entulhados em meu coração e finalmente tivesse dado um basta e tudo isso. Era ela. De repente eu sabia, e era simples, mais simples do que imaginei.
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  Não vi quando meus pés se mexeram, nem quando exatamente as costas dela bateram na parede, nem me interessava. Um fogo de outro mundo dominou toda minha cabeça e de repente pareceu uma ideia ridícula que estivesse nevando lá fora, quando tinha tanto calor infestando aquele lugar, aquela onda maluca de frio e quente que dominava meu estômago, o desejo irradiando por cada célula do meu corpo e piorando tudo ao sentir a mesma sensação vinda dela. Tudo era uma tremenda loucura, eu não sabia descrever.
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  De repente eu queria mais, e aquilo parecia pouco demais. Eu não era louco, mas não estava no juízo perfeito, tinha certeza. Transportei os beijos para o queixo delicado logo abaixo, o pescoço que já havia sido alvo dos meus pensamentos insanos e secretos e senti seu corpo se contorcer em meus braços. Minha imaginação navegou em águas tão distantes que tive certeza que precisava parar. Seus lábios voltaram aos meus, mais violentos, mais ansiosos. Eu poderia morar ali, poderia beijá-la pelo resto da noite, mas tinha de convocar a fagulha de consciência novamente, precisava voltar à maldita realidade que era minha maior inimiga no momento. Mas precisava me mexer, precisava disso como nunca.
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  Agarrei seu queixo em uma das mãos, mordendo seu lábio inferior com desejo velado, com vontade esmagadora. Uma massa negra e disforme de sanidade me fez afastá-la com dor, com sofrimento. Nunca pensei que eu desejasse tanto sua boca, que desejasse ela por inteiro.
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  Encostei minha testa na sua e tive que recuperar o fôlego, baixando os olhos para que ela não visse a cara de maluco que eu com certeza deveria estar fazendo. Maluco, completamente doido por ela. A luz vermelha tornava sua boca e seus olhos ainda mais pecaminosos. Pareciam gritar que eu não deveria chegar perto, ignorando totalmente minha indiferença ao inferno.
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  — Não tem gosto de cigarro — ela disse com a voz entre cortada, levando um dedo ao meu lábio inferior. Uma risadinha escapou de sua garganta — Sempre me perguntei qual gosto teria…
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  Trinquei os dentes novamente, fechando a mão em punho na parede. Caralho! O que ela estava fazendo? O que nós estávamos fazendo?
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  — … — ela murmurou de novo, falando por cima de meus lábios, e senti que era capaz de nunca mais ir embora — Então já fizemos isso antes?
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  Um soco brutal, mais violento do que o outro, veio da porta de metal decadente. O som foi o estopim para que eu me afastasse de vez dela, misturado com suas palavras confusas. Era a realidade me atingindo com uma pancada. Ela me olhou surpresa, um tanto chocada pela distância de vários passos que agora nos afastavam, mas me toquei do quanto eu era doido. Do que tinha acabado de acontecer. E, por mais que a sensação prazerosa e louca ainda estivesse queimando dentro de mim, agora eu me via tentando sufocá-la de uma vez por todas.
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  — Temos que sair daqui — falei rápido, encarando a porta, torcendo para que rolasse apenas alguns gritos indignados e não golpes indignados.
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  — Mas…
  — Podemos conversar depois. Aqui não é o lugar certo pra isso — disse sem olhar para ela, e sem esperar sua resposta. Abri a porta em um rompante, dando de cara com uma mulher loira e tatuada que me olhava com fúria venenosa. Ao reparar em meu cabelo claramente bagunçado e a jaqueta escapando nos ombros, pareceu ter ficado com mais raiva ainda.
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  — Malditos coelhos do caralho! Não podiam trepar em outro lugar?! — ela berrou e eu encarei . Rapidamente, ela pegou em minha mão e nós dois seguimos pelo lado contrário da fila, ignorando as outras palavras pronunciadas e não compreendidas pelas outras pessoas atrás.
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  Ela entrelaçou os dedos nos meus e guiou o caminho. Senti minhas mãos queimarem por um instante, e que aquilo não seja por todo o delírio que aconteceu há poucos segundos. O vento do lado de fora começava, aos poucos, a clarear a minha mente, e eu precisava urgentemente voltar a focar no que havia ido fazer ali.
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  Andei pela direção que me lembrava ser o bar. Precisava achar e Maverick e sair daqui o quanto antes. Constatei que precisava urgentemente de ar fresco, e que ele clareasse a minha mente e me fizesse retroceder imediatamente. Puxei para as minhas costas enquanto tomava à frente, curvando através dos corpos agitados até finalmente visualizar as caixas de papelão na prateleira, onde o barman agora começava uma tentativa de formar uma fileira de shots que pegavam fogo.
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  Parei no meio do caminho ao notar que havia freado os pés de repente. Olhei pra ela, confuso. Ela olhou para mim com uma expressão hesitante, e aproximou-se há muitos centímetros.
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  — Para onde estamos indo? — ela perguntou, e graças à Should I Stay or Should I Go estar soando como uma balada, fui capaz de ouvi-la sem problemas.
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  — Vou te levar pra casa — respondi de imediato, e esperava não ter dado brecha para que ela protestasse — Só precisamos achar o…
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  — Não quero ir pra casa — ela me interrompeu, e o cansaço de mais uma série de argumentos já começava a tomar conta de mim, mas então ela continuou: — Pra minha casa.
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  Seu tom de voz saiu mais baixo na última frase, mas ela estava perto demais para que eu não ouvisse, e como eu queria não ter ouvido aquilo! Serviu apenas para que qualquer resposta minha desaparecesse. Ela pressionou nossas mãos ainda juntas, fitando meus olhos com certeza absoluta do que dizia, e com outra coisa que eu não me atrevia a imaginar naquela hora. Porra…
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  O formigamento no meu peito voltou com força total. Minha mente virou uma grande geleia e tudo que eu conseguia pensar era em tirá-la dali agora mesmo, colocá-la no meu carro e dirigir até a West End Avenue e deixar que o mundo ao nosso redor se explodisse, que a tentação me conduzisse e que eu fingisse por uma noite inteira que tudo aquilo não teria consequências.
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  O sim estava na ponta da minha língua, mas ele também estava no reforço que dei ao aperto de suas mãos. Ela levantou o canto dos lábios em um sorriso de canto, consentido, o sorriso que quebrou minha estrutura por completo. Senti que ela me queria tanto quanto eu, e que estava com mais certeza do que estava fazendo do que eu, mesmo que eu não quisesse acreditar nisso. Aquilo me deixava maluco e patético. O maldito dilema começou a se formar como uma parede na minha cabeça e, por mais que tudo que eu quisesse naquele momento fosse levar essa mulher pra minha cama, também sabia que eu não podia. Não hoje, não agora. Não depois de todas as meias palavras, das lembranças cabulosas e disformes que poderiam resultar em desastre para ambos os lados, não quando eu não entendia realmente o que ela estava sentindo.
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  Abri a boca para tentar forçar o não, ou algum adiamento daquela conversa convidativa, quando meu ombro foi atingido por uma massa de dedos que o seguraram com tanta força que tive que soltar a mão dela.
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  — , finalmente te achei! — a voz de era tão embolada quanto seus pés. Os olhos dele estavam pequenos e a gargalhada escapou de sua garganta ligeiramente solta. Ele estava completamente bêbado.
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  — Caralho, — peguei em seus ombros, virando-o para meu rosto — Ei, olha pra mim. O que você bebeu? Cadê a Maverick?
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  — Maverick? — ele juntou as sobrancelhas e me encarou com estranhamento — Quem é Maverick, ? Não está na hora de me falar sobre essas pessoas que só você conhece, viu… Ei, essa é a ? — ele tratou de se desvencilhar de minhas mãos, olhando para — Como sempre, uma gata. Se o meu amigo aqui me permitir dizer, é claro…
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  Ele riu novamente e revirei os olhos. acompanhou , agradecendo logo em seguida.
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  — Mas é sério, eu nunca, jamais, jamais… Imaginei ver você aqui — ele continuou, piscando os olhos devagar — Nós estávamos na festa da Alanna e te procurou por todos os lados, debaixo de cada tábua do piso, ele até mesmo quase brigou com…
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  — ! — falei entre dentes, olhando-o com fúria para que ele calasse a porra da boca — Cadê a Clarissa?
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  Fiquei aliviado por ter me lembrado do nome dela no último minuto, e também estava aliviado por ter chegado bem na hora antes que eu cometesse uma loucura, mas ele estava além de chapado. O que havia acontecido enquanto eu sumi?
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  — Clarissa, aquela filha da…
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  — Estou bem aqui!
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  A voz dela surgiu de alguma direção amontoada que não captei e de repente Maverick estava se juntando à nós, segurando um copo vermelho com um líquido verde e as mangas do suéter puxadas até os cotovelos.
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  — Ah, então achou ela — disse sorridente, encarando à minha frente — Belo vestido, .
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   sorriu e agradeceu, olhando para mim no momento seguinte, mas eu não podia lhe ceder explicações no momento. se ancorava em mim novamente, inconsequentemente sequelado.
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  — , essa é Mav… Clarissa — falei, percebendo o olhar desgostoso de Maverick ao me ver pronunciando seu nome — É uma amiga do .
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  — Me xingar ofenderia menos.
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  — O que aconteceu com ele? — perguntei à ela, que encarou como quem olha para uma faixa de pedestres.
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  — Nós bebemos — respondeu, simplesmente.
  — O que você deu pra ele? — cerrei os dentes.
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  — Eu não dei nada. Só achamos que seria falta de educação recusar as bebidas personalizadas de uma galera naquele canto ali — ela apontou para a direção contrária ao bar, onde um grupo de cabeças impossibilitaram minha visão para enxergar o que estava no meio deles, mas uma fumaça suspeita que serpenteava acima de seus ombros já me diziam tudo.
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  Estalei a língua, tentando manter de pé.
  — Ah! A erva deles é horrível, mas seu amigo parece ter gostado.
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  Bufei, olhando o sorriso bobo de novamente. Bêbado e chapado, era tudo que eu precisava.
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  — Que ótimo — tateei os bolsos quando o rosto de recaiu sobre meus ombros mais uma vez, e eu sabia que teria que tirá-lo dali — Essa é uma forma de vingança? Devo pensar duas vezes antes de deixar vocês dois ficarem sozinhos de novo?
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  Ela me encarou irritada, como se eu tivesse insinuado algo que a desagradava. Tive vontade de perguntar, finalmente, por que ela havia decidido nos acompanhar naquela noite até aquele show insano que igualmente não parecia combinar com ela. Mas isso teria que ser feito em outra ocasião.
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  Olhei para de novo, que encarava meu amigo debilitado com certo tom de preocupação. Mesmo tendo o conhecido em um momento estranho e desagradável, ela acompanhava seus movimentos como se estivesse pronta a direcionar seu corpo para longe de mim assim que ele ameaçasse jogar tudo pra fora.
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  — Tenho que levá-lo pra casa — falei com ela, que assentiu imediatamente. A encarei por mais alguns segundos, como se deixasse a mensagem subliminar no ar: não vou esquecer. E não ia mesmo — Vamos lá, seu idiota — murmurei enquanto passava um braço dele sobre meu ombro, ao mesmo tempo em que ele soltava palavras desconexas sobre alguma tentativa de dança durante a música que não conhecia e Clarissa tinha visto tudo.
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  Fui surpreendido pelo outro braço de ser segurado e orientado por do outro lado. Ele não sabia onde pisava e agradeci internamente pela ajuda. Clarissa resmungou em suas costas o quanto ele não era digno da tolerância do departamento e que bebia como uma freira, o que acarretou uma nova discussão entre os dois até que atravessássemos a porta de metal, e não quero nem comentar sobre a dificuldade de subi-lo pelas escadas, mesmo que não estivesse mais se segurando e agora ria abertamente com os argumentos de e de como ele agora a usava de conselheira para a próxima enxurrada de justificativas contra Maverick.
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  Quando chegamos ao carro, deixei que ele se sentasse no meio fio enquanto procurava as chaves nos bolsos. Ele afundou a cabeça entre as pernas e finalmente começou a sentir o mal estar chegando, e um pensamento do pior acontecer com meu carro em movimento me fez sentir uma ânsia antecipada. Vi se abaixando logo à frente dele, falando em voz baixa como sairia na frente de metade da Columbia se conseguisse aguentar firme e chegar em casa sem causar nenhum estrago. A alegação o fez rir, e os observei por alguns segundos antes de abrir a porta de trás.
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  Inclinei a cabeça para , que entendeu o recado. Prontamente, ela trocou algumas palavras baixas com , que deu risadinhas e se levantou de bom grado, jogando-se no banco de trás enquanto balbuciava como eu era um ótimo amigo. Revirei os olhos e fechei a porta, abrindo a do carona desta vez, olhando pra .
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  Ela me encarou confusa, e com um leve tom de surpresa.
  — Já disse pra não descontar na boa educação que ganhei dos meus pais — eu disse e sorrimos ao mesmo tempo com a lembrança. Uma pontada aguda de fascínio me tomou, e agradeci quando ela entrou rapidamente.
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  Fechei a porta dela e indiquei a outra para Maverick. Ela pareceu pensar bem na proposta mas, por fim, abriu a porta de trás e se sentou ao lado de um curvado com as bochechas pressionadas à janela, os olhos fechados como se dormisse.
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  Entrei a tempo de ver colocando o cinto e dei a partida, saindo sem dificuldades da rua ainda mais vazia do que antes.
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  Maverick não demorou muito a descer. Na verdade, ela apenas pediu que eu parasse o carro em um cruzamento perto do Brooklyn e agradeceu pela aventura da noite, olhando para com um pouco mais de insistência e em seguida retirando o sorriso ao ver . Esperei para ver alguma coisa, mas ela sumiu por uma esquina barulhenta com o tráfego e apenas segui adiante, em direção ao Queens.
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  Um silêncio morto tomou o carro quando havia finalmente parado de grunhir palavras sem sentido e pareceu ter dormido de vez. A noite antes da véspera parecia bastante movimentada e não foi difícil topar com um trânsito na Cross Bay Boulevard. Inúmeros papais noéis faziam piruetas no sinal vermelho, que mudou para verde pelo menos três vezes enquanto não saímos do lugar.
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  E daí comecei a pensar. Não foi a escolha certa. As lembranças tomaram minha mente com força e não me atrevi a olhar para o lado. Movi os dedos para o aparelho de som, deixando que qualquer voz invadisse o ambiente e esvaísse as da minha cabeça, só não esperava que essa voz fosse ser a de Paul McCartney quando Something começou a tocar.
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  Virei a cabeça ao mesmo tempo que ela. Sustentei aquele olhar emblemático porque já era tarde demais para fingir que eu também não lembrei. Assim como senti a mesma coisa daquela noite, quando percebi pela primeira vez que aqueles olhos iriam mexer comigo de alguma forma.
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  Fiquei aliviado ao notar que ela riu primeiro. O brilho vermelho do semáforo atingia as pedras brilhantes de seu vestido, espalhando a cor carmesim por todo o painel.