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Sem curiosidades para essa história no momento!

A Dualidade de Murphy

08 – Embaraço

  Alguém podia ter me avisado da superlotação, mesmo na área VIP.
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  Também podiam ter falado do choro e da gritaria, dos empurrões e xingamentos, e que tudo isso viria de adolescentes de 15 anos que não estavam dispostas a se lembrarem da lei básica da Física de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
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  Eu repensaria a oferta. Mesmo que aquilo que recebi do senhor Biscayart não pudesse ser considerado como uma alternativa.
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  Meus pés já estavam me matando com míseras 3 horas de evento. Depois do anoitecer, aquela arena podia muito bem ser o mundo particular de ladrõezinhos em formação, mesmo que fosse um show privado. Eu nunca acreditei na eficácia de nenhuma segurança quando se lidava com tanta gente, era impossível.
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  Felicity não aguentou nem a metade da segunda apresentação sem beber, pedindo logo uma cerveja enquanto HIT do Mamamoo estava no auge. Tentei fazer cara feia e dizer que a colocaria atrás de uma cerca de madeira se não se comportasse e lembrasse que estávamos acompanhadas, mas a garotinha, Audrey, nem se deu ao trabalho de virar o rosto. Sean estava certo, ela estava ali única e exclusivamente para o show, e era mais tranquila do que pensei que seria.
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  Bem, é claro, se eu a mantesse seguramente abastecida com chocolate e refrigerante. Ah, e pilhas para suas 10 lightsticks.
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  Eu queria muito estar brincando sobre essa parte.
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  Ainda assim, os lugares escolhidos por Sean eram melhores do que a maioria. Dava para se movimentar sem muito esforço e não seríamos obrigadas a dividir o espaço com garotas vestindo chapéus cobertos por uma madressilva bagunçada, o que achei confuso desde o início, mas Audrey explicou ser um protesto de fandom qualquer. E eu não saber sobre essas coisas me deixava ainda mais estupefata. As gerações de fãs mudavam em algumas particularidades, mas no fim eram sempre as mesmas, não importava a época.
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  Um grande defeito de se estar na área VIP é que não existia a opção de bloquear as luzes do palco. Quando elas recaíam sobre o público, você recebia o maior golpe e não existia nada que pudesse fazer sobre isso. Parecia realmente uma estratégia de vendas de um lugar privilegiado: os artistas olhariam primeiro para você, interagiriam primeiro com você e, caso a euforia da performance batesse de repente, jogariam pertences primeiro para você. Se alguém me contasse isso em casa, eu começaria a rir porque não era bem assim. Mas ali, na Gocheok Sky Dome, isso foi mais real do que pensei.
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  Principalmente quando os grupos dos meus queridos amigos da 97 line começaram a se apresentar.
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  Não sei como aconteceu, porque aquele palco era tão enorme e com tantas câmeras, holofotes e mais dezenas de coisas acontecendo para a transmissão na TV, e a estrutura era tão inescrutável que impedia até mesmo a passagem da luz do luar, e só me deixou saber que era noite depois de uma verificação minuciosa do céu quando as luzes superiores se apagaram para se preparar para a chegada de um novo grupo. Mas então, quando ASTRO entrou no palco e terminava o toque de ONE para passar para a próxima música, Eunwoo me avistou e deu um tchau descarado para mim e Felicity.
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  Eu também gostaria de estar brincando sobre isso.
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  Normalmente, não se contava por aí que você era amiga de idols. Claro, se você quisesse perder sua vida normal e ter sasaengs no seu pé como carrapatos, então sim, a escolha era toda sua. Eu gostava da minha vida e da minha privacidade, Felicity igualmente, já que namorava um deles, então quando Eunwoo fez o favor de dar um tchau daquele jeito, torci para que fosse interpretado como uma reação involuntária de um artista cumprimentando seu público, mas suas sobrancelhas eram tão arqueadas e seus olhos tão direcionados que temi o pior.
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  Foi desse ponto em diante que entendi completamente que o senhor Biscayart tinha aberto a boca pra valer com Audrey.
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  — Então era verdade! — ela me sacudiu quase instantaneamente — Você conhece mesmo eles! É amiga deles, vocês duas! Não acredito! Como eles são? O que gostam de comer? Vão me levar pra vê-los, não vão?!
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  E finalmente conheci o significado de não ter mais paz.
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  De qualquer forma, eu sabia que não teria como fugir daquilo.
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  E gostaria de dizer que eu teria o máximo de apoio para guiar uma garotinha ao backstage, mas quando Felicity saiu para, aparentemente, resolver as burocracias sobre nossa entrada e sumiu pra sempre lá dentro um pouco depois da apresentação do Seventeen, eu sabia que ela estava tirando todas as casquinhas possíveis de Mingyu e se esqueceria de mim e meu trabalho de babá. Tudo bem, afinal. Se Audrey prometesse não arrancar nenhum dos meus membros, eu poderia aguentá-la até a última apresentação.
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  Quando as luzes se acenderam novamente, precisei de vários longos minutos para que meus olhos se ajustassem ao novo cenário sem escuridão. A noite já havia caído, e com o outono cada vez mais perto, era melhor ter trago pelo menos um casaquinho, mas não naquela noite. Duvido muito que algum fio de vento gelado penetrasse naquela multidão, mas mesmo assim, senti um arrepio profundo. E nada teve a ver com o clima em geral.
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  O NCT 127 surgiu em sua entrada tipicamente colossal, forçando os olhos de todos a encararem. Era impossível não sentir algo maluco quando tantos efeitos pirotécnicos e luzes ficavam perfeitamente equilibrados na sua frente. Não demorou muito para os garotos se colocarem em paralelo no palco e a multidão ir à loucura quando Kick It começou a tocar.
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  Naquela noite, Jaehyun estava mais bonito do que quando me lembrava da viagem.
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  Bem, ele sempre foi bonito, é claro. Mas ali, debaixo daquela luz estranha, incerta, bruxuleando em seu rosto e nos demais, não consegui me manter normal e imparcial perto de Audrey. Em minha defesa, tenho certeza de que ela nem estava lembrando da minha existência desde que viu o Seventeen cantar Left & Right, mas meu coração bateu tão rápido e minhas pernas hesitaram tanto que tive medo de chamar a atenção de algum segurança da arena perguntando se eu estava passando bem.
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  Isso não aconteceu entre Kick It e Lemonade, mas quando os garotos pararam para cumprimentar e dar um boa noite, e quando a luz crepitante fez aquele efeito odioso de sair de cima deles e se deslocar até a área VIP, tenho certeza que desmaiaria de nervoso. Porque tenho certeza que Jaehyun olhou para mim. E mais do que isso: tenho certeza que ele parou de sorrir a partir do momento em que isso aconteceu.
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  Fiquei pálida, tenho certeza. Merda.
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  Senti Audrey colocar as mãos na lateral dos meus ombros, me balançando até não querer mais em completo surto. As palavras que ela dizia eram desconexas, já que a multidão inteira parecia estar em um estado tosco de delírio enquanto eu só queria me enfiar em um buraco e não sair mais.
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  Eu estava me descobrindo como uma completa covarde nos últimos dias e não sei se gosto muito disso.
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  Quando enfim, os garotos se apresentaram mais uma vez e deixaram o palco logo em seguida, o silêncio que se seguiu era um adianto para o maior êxtase da noite. Vinha coisa pesada por aí e, é claro, todo mundo sabia do que se tratava. O BTS fecharia a noite com chave de ouro.
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  Quando a luz ínfima e roxa apareceu no telão, o calor do dia tinha sido determinadamente transportado para toda a noite. Eu tive certeza.
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  Não tenho o que dizer porque foi uma loucura. Ainda mais porque em b-sides, o BTS simplesmente se dispersava pelo palco a Deus dará, e tudo virava um caos. Jungkook com certeza me viu e acenou umas 3 vezes, mas nem eu mesma reparei, quanto mais os outros, que jurei estarem mesmo passando mal. Me inclinei pra frente quando alguém das grades de trás não estava conseguindo se conter e precisou ser barrada pelos seguranças imediatos, que nesse caso estavam recebendo muito bem pelo ótimo trabalho imediatista. Dali, a visão era realmente magnífica, e Audrey devia ser um pouco louca de reclamar dessas coisas com o Sean, mas como eu poderia julgá-la? Ver idols de perto é realmente outra coisa.
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  E o momento que tanto corri tinha finalmente chegado.
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  Quando algum apresentador falava aos montes sobre patrocinadores e gritava agradecimentos, Audrey estava muito ocupada gritando em voz aguda sobre ser o melhor dia de sua vida e que soltaria velas quando chegasse em casa, enquanto eu tentava estupidamente ligar para Felicity, que tinha literalmente me abandonado para adicionar mais um lugar à lista sórdida dela e Mingyu.
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  — O que aconteceu? — disse ela quando me atendeu, a voz explícitamente enrolada.
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  — Onde você está, cacete? Não podia esperar pra sumir? — não quis parecer tão grossa ou louca, mas Audrey começava a se acalmar, e isso significava que me faria a pergunta de novo, e eu já tinha sido avisada de que, se tivesse mentido para o seu pai sobre minhas amizades, as consequências seriam providenciadas.
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  É isso que se ganha quando a ganância fala mais alto.
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  Ouvi a respiração alta de Felicity ao mesmo tempo em que sua voz aumentou de volume.
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  — Pois estou exatamente aqui, darling — e então, dedos longos cutucaram meus ombros e virei, dando de cara com ela ao mesmo tempo em que alguém da produção teve a brilhante ideia de soltar fogos, o que deixou o ar carregado de fumaça trêmula. Sorri aliviada com sua chegada, e ela estendeu os três crachás em verde neon, gritando animada: — Temos as entradas!
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  Audrey não deixou o aparecimento de Felicity passar despercebido. Vi sua boca abrir e fechar, aumentar e diminuir várias vezes. Olhando para os lados, Felicity se aproximou e passou a corda por sua cabeça, abaixando-se até sua altura para dizer:
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  — Entendeu, fofinha? Pronta pra conhecer uns idols?
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🙂🙃🙂

  — Eu não sei quanto meu pai está te pagando, mas dessa vez ele arrasou, é sério! Espero que não estejamos falidos depois disso!
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  Audrey apertou ainda mais o meu pulso, e fiquei preocupada de encontrar a marca de suas unhas em mim depois. Ela era o próprio significado de êxtase e não conseguia conter os murmúrios e o queixo caído desde que deu o primeiro passo no pátio de tijolos avermelhados a caminho dos camarins.
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  Era louco pensar que outro ano se passava e eu fazia aquele mesmo trajeto que muita gente nem sequer tinha ideia: da plateia para os bastidores. Passar na frente dos seguranças sem ser barrada era uma sensação inigualável de autoridade, mesmo que eu ainda olhasse para trás de relance e escondesse um pouco o rosto para não ser pega por nenhum flash.
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  — Ele pagou o suficiente — respondi com um sorriso amarelo, porque aquilo com certeza seria pago de algum jeito.
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  — Alguém nos observou quando entramos? Será que preciso trancar o meu perfil do twitter? Mas ainda não postei nenhuma foto, o que meus seguidores irão pensar? Eu disse que estaria aqui, mas não tenho material! — ela gemeu, freando os passos por um segundo para se virar em minha direção — Não posso decepcionar os fandoms, você me entende, não é?
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  Desviei os olhos direto para Felicity em um pedido de socorro. Ela me encarou de volta, levantando os ombros como quem dizia: “de quem foi a ideia de aceitar esse projeto-promoção mesmo?”.
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  Soltei uma risadinha aguda, passando uma das mãos para suas costas e voltando a guiá-la pelo corredor que não demoraria muito a ficar congestionado pelo fim do evento.
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  — Não se preocupe, Audrey. Você vai poder tirar quantas fotos quiser. Já preparou tudo? — apontei para seu outro braço, onde uma bolsa estava pendurada na curva de seu cotovelo e guardava um emaranhado de lightsticks, faixas e cartazes que tomariam metros de tamanho. Ela apenas fez que sim com a cabeça com força — Então, só tenta se manter de pé até lá.
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  Felicity riu alto e, em pouco tempo, estávamos curvando em um corredor um pouco mais estreito, com menos portas de cada lado e araras de roupas escuras passeando junto com pessoas carregando caixas com garrafas de água sem se preocupar com três garotas estranhas parecendo perdidas no espaço.
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  Bom, pelo menos duas garotas, porque Felicity se apressou para uma das portas, abrindo-a e dando passagem para que entrássemos, totalmente familiarizada com o lugar.
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  — ! — o grito de Eunwoo atravessou o saguão inteiro. Em um segundo, eu tinha o corpo erguido para cima em um abraço de urso, e o mesmo acontecia com Felicity logo depois. Nunca estive tão agradecida por estar com minha calça de tecido — Eu sabia que era você na plateia, nem acreditei. Por que não assistiu o show daqui de dentro, como sempre? E você também, Felicity!
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  Houve uma pausa entre o momento em que Felicity deu de ombros e andou livremente até uma das dezenas de garrafas de água paradas em cima da penteadeira, que refletiam a luz das lâmpadas esbranquiçadas ao lado do espelho e entre o momento em que Eunwoo percebe a terceira presença que nos acompanha.
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  — Hoje eu não estava exatamente de folga — expliquei, limpando a garganta, e puxei a garotinha para mais perto de mim de novo — Audrey, esse é o…
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  — Cha Eunwoo! Minha nossa, minha nossa! — ela explodiu de repente, fazendo Eunwoo tremer os ombros de susto e Felicity se virar de repente. Escapando de minhas mãos, Audrey se aproximou dele, esticando os braços para tocá-lo, mas recuando logo em seguida — Não acredito! É a superfície de Cha Eunwoo, oh meu deus! Você é tão mais lindo pessoalmente, como é possível?
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  Felicity segurou uma respiração pesada, que se pareceu muito com uma risada, enquanto dava passos para perto de nós.
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  — E é por isso que viramos pessoas comuns — disse, apontando para a adolescente eufórica de blusão solto e saia longa e rodada em nossa frente.
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  Subitamente, tive medo que ela se ajoelhasse ou qualquer coisa próxima disso.
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  Mas quem se abaixou foi Eunwoo, flexionando os joelhos para ficar na mesma altura que ela, acariciando levemente seus ombros.
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  — Ei, e aí? Quem é nossa nova amiga?
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  Esperei dois segundos e me apressei em responder antes que ela não conseguisse.
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  — Essa é a Audrey, filha do meu chefe. Tô tentando conseguir um aumento, você entende? — estreitei os olhos direto para ele, que arqueou as sobrancelhas e levantou os belos dedos em formato de OK.
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  — Claro. E eu deveria te ajudar sendo muito simpático com a nossa amiga, não é? — ironizou, mas fez Felicity rir. Eu apenas levantei um ombro, pedindo implicitamente que fizesse seu trabalho — Então, Audrey, o que achou do show? O oppa dançou bem?
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  — Sim! Sim, sim! — os pés de Audrey se chacoalharam com rapidez, o que me assustou de novo, porque antes parecia tão imóvel quanto aquela arara de roupas e tão pálida quanto aquelas luzes — Vocês foram absolutamente incríveis, principalmente em ONE, tão talentosos e maravilhosos! Por favor, diga ao Moonbin que ele fica ótimo naquela roupa preta!
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  — É claro, vou dizer. Mas e eu…
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  — E diga ao Sanha que sempre amamos vê-lo de center! Ele é tão alto como parece de longe? E tem aquelas covinhas de verdade? Aish, ele parece tão bem nas coreografias, e canta como um anjo… — ela parou de novo, perdendo deliberadamente o fôlego ao falar de Sanha. Felicity sufocou uma gargalhada. Eunwoo entortou o sorriso, fechando ainda mais os dentes e então disse:
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  — Claro, Sanha é incrível, lindinha. Mas e o oppa…
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  — E diga ao Rocky que seus raps são totalmente eletrizantes, ele melhora a cada dia, leva a multidão à loucura! Ele e o Jinjin…
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  — Claro, vou dizer tudo isso, eles vão adorar, mas eu…
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  — Que tal uma foto? — interrompi a conversa antes que Eunwoo começasse a chorar. Ele ergueu os olhos para o meu rosto de um jeito indistinto e indiquei com as sobrancelhas para que ele desistisse — Temos mais camarins pra passar, então podemos adiantar essa parte?
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  Sem objeções – pelo menos ditas –, Eunwoo se levantou e se posicionou ao lado de Audrey, colocando um sorriso no rosto como se não estivesse no ponto de aborrecimento tristonho há poucos segundos atrás.
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  Quando Audrey pegou o celular da minha mão para verificar a foto, o fôlego lhe faltou novamente, e ela lutou mais uma vez para não pular e abraçar a cintura de Eunwoo. Para uma garotinha de 14 anos totalmente alucinada, até que ela estava conseguindo se segurar muito bem.
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  — Obrigada! Eu vou ganhar milhares de seguidores depois disso — ela encarou o telefone, estupefata, e dei um sorriso singelo pela situação, porque oras, é um estado realmente muito especial do ser humano.
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  Não demorou muito para algum staff surgir na porta e gesticular alguma coisa que fez Eunwoo prontamente se despedir e deixar a sala, deixando Audrey ainda suspirando, como se a surpresa por tê-lo visto de perto se renovasse a cada segundo.
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  Mas o assombro de Audrey não pararia apenas por aí.
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  Antes que eu ou ela disséssemos qualquer outra coisa, mais um cara vestido com roupas brilhantes e in-ears nos ouvidos entrou pela porta, distraído com os olhos no celular e o cabelo ainda grudando na testa pela última apresentação.
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  — Felicity, que mensagens são…
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  Ele parou ao me ver. E se existisse algo mais forte e cortante do que gelo passeando pela espinha, com certeza era o que eu senti naquele momento.
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  — Oh — ouvi o sussurro petrificado de Audrey antes que eu fosse esmagada por mais um abraço corpulento daquele dia.
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  — ! Que surpresa! — Jungkook falou na curva de meu pescoço, o que era um erro, principalmente da forma como o gesto se parecia para quem olhava de fora. Meu corpo inteiro estava preso naqueles braços, e, mesmo que eu estivesse abraçando-o de volta, ainda me senti um pouco constrangida pelo enlace nada convencional, e principalmente por tudo que ele escondia: minha vergonha, minha covardia e muitas palavras não ditas.
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  Quando se afastou, ele deu um sorrisinho tímido e limpou a garganta, vendo meu estado de completo embaraço.
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  — Desculpe. Eu não sabia que você viria hoje, tentei mandar mensagens mas você não me respondeu.
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  Sua voz também era tomada de acanhamento, e eu não soube o que responder. Não soube nem se iria responder, não ali, não agora. E dei graças a Deus porque, antes que eu pudesse emitir qualquer ruído, outra pessoa falou na frente. Ou melhor, gaguejou:
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  — Minha nossa! Meu. Deus! É o J-J-J-Jungk…
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  — Ah, lá vamos nós — Felicity revirou os olhos, e tenho certeza que pensou o mesmo que eu: espero que não precise usar essa água para reanimar Audrey caso caísse dura no chão.
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  Quando ele se virou na direção do som e olhou mais de perto, viu uma garotinha se aproximando aos tropeços, o dedo indicador trêmulo apontado para nós dois enquanto dizia em voz aguda:
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  — Jeon Jungkook acabou de dizer que mandou uma mensagem pra você?!
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  Pois é. Acredito que ela não tinha conhecimento nenhum de que Jeon Jungkook também era um cliente de seu pai, e eu não posso nem julgar o sr. Biscayart. Audrey tinha todos os requisitos para se tornar uma sasaeng: rica e obcecada.
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  Vi Jungkook engolir em seco, mas colocando o sorriso profissional no rosto, e me apressei em puxar a garota para mais perto novamente. Acho que ela não conseguiria fazer isso com os olhos tão fora de foco.
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  — Jungkook, essa é Audrey, uma fã muito especial. É a filha do senhor Sean Biscayart lá do escritório, lembra? Meu chefe. — Frisei a palavra com as sobrancelhas erguidas, o tipo de comunicação que ele entendia muito bem. Quase não suportei ver seu olhar de dúvida até que entendesse o que eu dizia: a promoção, lembra? O aumento! Meus tênis novos e meu novo papel de parede do apartamento, sei que você se lembra…
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  — Ah, sim! — ele finalmente entendeu, sorrindo lindamente enquanto imitava a pose de Eunwoo: joelhos flexionados na altura da menininha — E aí, Audrey? Gostou do show?
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  Audrey respirou fundo de um modo estranho, mas logo se recuperou a tempo de detonar as cordas vocais de novo.
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  — Sim! Mas é claro! Vocês são sempre tão fabulosos, tão marcantes, é como se mandassem em tudo! Por favor, diga ao Namjoon o quanto ele é extraordinário, e ao Suga que o cabelo dele estava maravilhoso, e diga ao Jimin que cantou tão bem, e Hobi estava tão radiante! Minha nossa, será que eles poderiam curtir uma foto minha no instagram?
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  Cocei a garganta quando percebi que ela avançava para perto dele a ponto de tocar em seus ombros, e eu não tinha certeza como ele deveria lidar com isso, mas Jungkook apenas riu, e riu de verdade, sem toda aquela pose ofendida de Eunwoo que o deixava sem expressão ao não receber toda a atenção do ambiente.
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  — É claro, vou garantir que todos eles fiquem sabendo. Mas além de uma curtida, posso te oferecer uma foto também? — seus ombros se levantaram em divertimento. A cabeça de Audrey assentiu com tanta força que fiquei preocupada em ter de pegá-la de volta caso rolasse por aí.
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  — S-sim, claro! ! — ela estendeu o celular para qualquer direção, sem exatamente me olhar. Estava tão agitada que quase o deixou cair. Peguei o aparelho enquanto ela se colocava ao lado de Jungkook, agora curvando apenas as costas enquanto fazia o sinal de coração com os dois dedos, totalmente espontâneo ou demonstrando isso ao máximo.
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  E ele era exatamente assim até mesmo quando os flashes se desligavam. Sempre admirei isso em Jungkook com todas as forças. A maioria dos idols, depois que observei bastante o meio, adquiriam um olhar vazio e sobrancelhas sem forma assim que saíam dos holofotes. Na maioria das vezes, eu não julgava. Eles deviam passar por tantas coisas não contadas ou mostradas que se tornavam cada vez mais humanos e humanos ao meu ver, cheios de problemas internos que a mídia não estava interessada em saber.
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  Tirei várias fotos porque Audrey não conseguia fazer uma cara menos assustada ou chocada, e quando finalmente a entreguei o celular de novo, ouvi mais um grito.
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  — Daebak! Você é mesmo tão bonito — ela abraçou o celular contra o peito, olhando pra ele com os olhos brilhando. Jungkook deu um sorriso de canto, acariciando levemente sua cabeça.
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  — Obrigado, você é muito fofa, Audrey. Espero que nos encontremos de novo.
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  Ela paralisou totalmente com aquelas mãos e se virou para mim, a boca totalmente aberta em um susto.
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  — Acho que vou desmaiar — murmurou. Soltei uma risada descontraída. Felicity bufou do canto, largando a garrafa na penteadeira.
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  — Por favor, Jeon, não a faça desmaiar, precisamos levá-la pra casa.
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  Jungkook riu alto quando seu telefone apitou mais uma vez, e ele leu a mensagem por dois segundos antes de guardá-lo de volta no bolso.
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  — Então… Acho que preciso ir. Precisamos chegar na Hybe antes das nove — explicou, e eu apenas assenti com um singelo sorriso, verdadeiramente agradecida por toda sua simpatia com Audrey.
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  Ele continuou parado, me olhando, como se estivesse esperando por informações, ou qualquer coisa que explicasse o meu sumiço repentino da última semana, ou como se tentasse apenas ler os meus olhos, adivinhar o que eu estava pensando. Engoli em seco, procurando quebrar aquele clima o mais rápido possível.
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  — Claro, vai lá. Foi bom te ver — o tom saiu mais formal do que o costume, mas eu não conseguia fingir. As coisas não estavam normais. Pelo menos não por enquanto.
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  — Tudo bem, eu… Eu te ligo — foi um aviso. Um comunicado. Algo que soava também como um pedido, como um ‘vou te ligar, então seja gentil e atenda desta vez, ok? Precisamos conversar e você sabe disso’. Eu sabia, eu sabia! Mas no momento, era como se eu e Jungkook fôssemos duas linhas neutras e retas, paralelas um ao outro, e não duas linhas que se entrelaçavam e não se desgrudavam como antes. Sendo bem sincera, sabia que não era só por causa do beijo, e nem de sua recente declaração. Era mais, muito mais, era uma confusão e uma trava que nada tinha a ver com ele.
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  Por fim, ele se virou para Audrey, dando um último sorriso.
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  — Foi um prazer te conhecer, Audrey. Espero que faça uma boa propaganda da minha amiga aqui pro seu pai. Ela é uma garota e tanto — e então, com um último aceno de cabeça, ele virou e se retirou rapidamente.
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  Olhei para Felicity. Meu primeiro pensamento foi de certa maneira clínico – não havia situações de choque em que a pessoa simplesmente agia normalmente como se nada tivesse acontecido? Ou que permanecesse imóvel, sem conseguir processar? Bom, não sei. Não queria que Jungkook pensasse que eu estava tão traumatizada pelo beijo e pela confissão que não conseguia mais agir como antes, mas genuinamente, ali, eu não conseguia me importar com isso.
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  Ainda mais quando Felicity descolou as costas da parede e disse:
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  — Próxima parada, madames! — disse, pegando na mão de uma Audrey ainda trêmula e suspirando e levando-a para fora, me deixando para trás alguns minutos enquanto eu me decidia se ainda tinha todo o discurso pronto na ponta da língua ou se precisaria de alguém para traduzi-lo para mim, porque meu coração já começava a saltar pela boca e eu precisava dela para falar.
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  Eu só esperava conseguir dizer o que precisava dizer.
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🙂🙃🙂

  Mingyu ofereceu suco de uva e cranberry depois de 5 minutos em que se apresentou para Audrey.
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  Aparentemente, os outros membros do Seventeen entravam em um estado imerso de meditação depois das apresentações. Mingyu foi o que mais ficou e jogou conversa fora, mas pra quem conhecia, aquela era sua personalidade de sempre. Pelo menos foi por isso que Felicity tinha se apaixonado por ele, porque se fosse por todas as palavras ácidas e os palavrões que soltava sem perceber…
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  De qualquer forma, não ficamos muito tempo ali, mesmo que eu quisesse muito porque sabia perfeitamente do próximo destino. Não parecia que Felicity estava se lembrando disso, ou simplesmente fingia não saber pra não me deixar mais nervosa, mas a verdade é que eu não ligaria de continuar ali e interromper mais sessões de meditação só para adiar o próximo encontro.
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  É claro que não deu certo e ela já me arrastava pro outro camarim.
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  Esse em questão era mais longe, quase no fim do corredor. Não se parecia muito com o dos outros, o que me surpreendeu porque jurei que a única cabine diferentona que veria naquele lugar fosse do BTS, mas o NCT 127 também tinha uma boa distribuição. Eles eram mais silenciosos do que me lembrava, e menos bagunceiros depois de uma grande apresentação, em relação aos outros. Não se ouvia nenhum ruído quando Felicity bateu na porta levemente e quando gritaram que poderíamos entrar, demos de cara com um rapaz muito alto que me lembrava ser Johnny e fui obrigada a sentir de novo as unhas enormes de Audrey se cravarem na palma da minha mão.
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  Agora ela parecia mais do que pálida, parecia roxa.
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  Eu precisaria fazer um ritual de ressuscitação pra essa garota até o fim dessa tour.
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  Com algumas palavras rápidas pra ele, Felicity se adiantou para dentro enquanto o cara simplesmente saiu pelos corredores como um foguete depois de um aceno simpático de cabeça. Quando entramos, entendi o silêncio repentino: estava praticamente vazio, com alguns poucos staffs sussurrando entre si, mexendo em araras e com um cara ainda com as roupas da apresentação, um conjunto preto e couro se olhando no espelho enquanto retirava fones e bebia um grande gole de água.
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  Um cara que estava debaixo das luzes fortes e me deu uma visão tão completa de seu rosto que senti que Audrey teria de fazer o processo de reanimação em mim. E não sei como aquela sala podia estar em tamanho silêncio quando meu coração batia tão forte como um sino de igreja.
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  — Pff. Fala sério, nem minha mãe tem rituais de beleza tão demorados assim — Felicity comentou com uma piada, forçando o olhar de Jaehyun para a porta. Ele nos encarou imediatamente através do espelho. E quando me olhou, senti todo o meu joelho tremer, e minha pressão desabar em alguns números.
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  Não sei interpretar o que vi naquele olhar. Surpresa? Frustração? Irritação? Não faço ideia. E, se eu ainda pudesse ter esse direito, gostaria muito que ele não estivesse me considerando como uma bruxa terrível ou algo parecido.
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  Certa vez, disse a Felicity que eu odiava conflitos e tinha tendência a fugir dos meus problemas, mas isso não me tornava uma pessoa má. Não me fazia uma bruxa, não é? Pelo menos não queria que fizesse. Eu só era covarde, e estava tentando consertar isso.
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  Mas depois daquele olhar, talvez fosse melhor deixar pra outro dia.
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  De qualquer forma, eu não poderia correr nem se quisesse. Quando Jaehyun se virou, ele deu um sorriso tão sincero e bonito que por um minuto eu estava de volta a Jeju com aquele cara que sorria todos os dias pra mim, e me fazia sentir nas nuvens com pequenos gestos. Sentir isso não te dava vontade de ir embora para lugar nenhum.
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  — Sua imagem não está à venda, Hamilton, então por que iria se preocupar com isso? — ele disse afiado, mas em um tom divertido que arrancou uma risada de Felicity. Quando se virou pra mim, vi sua glote descer e subir quando engoliu em seco e murmurou, numa voz baixa e pesada: — .
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  Assenti levemente com a cabeça, dando um sorriso de canto. Não estava certa de quais eram as regras nessa situação. Estava pronta para puxar Audrey de novo e acabar logo com isso, quando ela falou primeiro:
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  — Me belisque — sua voz era distante, completamente petrificada, mais petrificada do que os outros — Oh Deus, por favor, me diga que estou sonhando…
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  Franzi o cenho diante da reação. A mão dela estava suando contra a minha e Jaehyun acompanhou o movimento, encarando a garotinha com confusão cômica. Felicity estalou a língua, balançando os cachos loiros.
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  — Acho que agora ela pifou de vez — e então, andou até a mesa grande de comida e bebida e afanou alguns petiscos que ainda não tinham sido afanados, é claro — Melhor pegar um livro em latim e perguntar quem está dentro desse corpo agora, porque estou preocupada.
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  Estreitei os olhos na direção dela. Jaehyun, como sempre, pareceu entender o recado bem rápido e se aproximou, abaixando-se na altura da garota, como todos os outros, curvando menos o pescoço do que Mingyu.
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  — A quem devo a honra da visita? — perguntou ele de um jeito formal, mas muito, muito natural. Audrey abriu a boca para responder, mas nada saiu, e comecei a me preocupar seriamente de ela estar tendo um troço dessa vez.
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  Depois de quase um minuto sem resposta, me abaixei também, passando o braço por seus ombros nas laterais e falando só pra ela:
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  — Audrey, ele perguntou o seu nome. Vai deixar que ele pense que você não tem nenhum? Ele quer ouvir a sua voz — disse em seu ouvido, mas de um modo que todos escutassem. Quando olhei para ele na mesma direção, percebi que a ponta de nossos joelhos se tocaram e senti as bochechas corarem imediatamente.
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  — M-meu nome… Sou a Audrey! Audrey Biscayart — ela respondeu, mas não era a voz dela. Era algo mais profundo e distante, totalmente impactado.
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  Jaehyun assentiu, passando uma língua levemente nos lábios quando desviou o rosto para arrumar o cabelo e aquilo foi tão legal que precisei me concentrar para não ficar igual Audrey. Me levantei rapidamente, sentindo um pequeno calafrio desagradável subir pelos meus braços, aquele tipo de coisa que me faria passar uma vergonha desnecessária na frente dele.
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  — Audrey. Bonito nome. O que achou do festival?
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  Finalmente, algo estalou em algum lugar da cabeça de Audrey e ela voltou a ficar elétrica quando respondeu:
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  — Maravilhoso! Tremendamente espetacular! Não consigo explicar o quanto você estava bonito, e dançou tão, mas tão bem… Não consegui tirar a coreografia da cabeça. Suas partes em Bring the Noize e Focus são impecáveis, não sei dizer qual delas é a minha favorita. E tem Kick It, e o clássico Firetruck, me senti em 2017 de novo…
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  Felicity deu um silvo, mastigando alto o que parecia ser salgadinhos apimentados. Não me virei para saber que ela devia estar rindo, ou se segurando muito para isso.
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  — É mesmo? Que bom, fico feliz, todos os meninos trabalham duro pra ter esse resultado que você diz. Então obrigado por reconhecer e me deixar saber. Tem alguma coisa que você queira que eles…
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  — Tenho todos os álbuns desde 2016 e coleciono todos os seus cards, Jaehyun! — Audrey o interrompeu em um impulso, as duas mãos voltadas para o meio do peito — Tenho 6 pôsteres onde destaco seu rosto e minha nossa, vou em todos os shows e fansings, mas ver você de perto… Aish, vou começar a chorar — e ela realmente começou a fazer uma careta de choro, me desesperando por um momento, mas logo se recompôs quando Jaehyun acariciou a lateral de seus ombros. Ele parecia muito calmo e tranquilo diante de surtos iminentes, ou pelo menos parecia isso.
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  — Obrigado, Audrey, isso me deixa muito feliz…
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  — Posso te dar um abraço? — ela o interrompeu de novo, e agora eu mesma girei o corpo para olhá-la com surpresa. Gritei com meus olhos “venha para a luz, Audrey, não diga uma coisa dessas, vai deixá-lo constrangido, pelo amor de Deus!”, mas só consegui mesmo dizer entre os dentes:
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  — Audrey…
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  — Claro — Jaehyun respondeu imediatamente, se movendo para mais perto — Não tem problema.
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  Audrey parou por alguns longos segundos até conseguir andar mais um passo e passar os braços pelos ombros de Jaehyun, recebendo um aperto delicado em volta de suas costas. Por um momento, tive certeza de que a veria chorando se estivesse na minha frente, ou não passaria meramente de um reflexo de movimento.
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  Quando se afastaram, Jaehyun logo perguntou:
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  — Aceita tirar uma selfie comigo?
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  — Por favor! — ela bateu palminhas e eu já estava em prontidão. Peguei o celular enquanto ela se posicionava ao lado dele e bati várias fotos, entregando-a logo em seguida, que encarou a tela por mais tempo e suspirou explicitamente por mais tempo ainda. Pelo menos eu estava disfarçando — Essa eu não vou postar. Vou enquadrar! Vou guardar só pra mim! Pode autografar minha lightstick?
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  — É pra já.
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  Ela puxou o objeto de dentro da bolsa nos braços, já junto com uma caneta, que não sabia que estava ali até agora. Jaehyun assinou em um ponto apertado que quase escapava do meu campo de visão e voltou a devolvê-la para Audrey, que deu mais alguns pulinhos de alegria.
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  — Tem mais alguma coisa que posso fazer por você?
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  Ela se surpreendeu com a pergunta e, pela forma como abriu e fechou a boca várias vezes, não sabia o que responder. Quando finalmente falou, seu sorrisinho foi meigo e sua cabeça balançou em negação.
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  — Acho que não quero mais nada. Só tenho uma pergunta… Você disse no fansign do mês passado que estava preparando uma música autoral nova, um solo. Quando pretende lançá-la?
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  A leveza em torno dos olhos de Jaehyun de repente se tornaram duras, e jurei ter recebido um olhar de relance rápido, tão rápido que achei que estava delirando e, no momento seguinte, ele estava de pé, rindo pesadamente com uma rouquidão que não estava ali antes.
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  — Acho que ela ainda não está pronta. E também não é o momento certo de lançá-la, mas espero que seja em breve. Você vai esperar por isso, Audrey?
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  Ela se colocou na ponta dos pés, agarrando a lightstick enquanto abria um enorme sorriso:
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  — Vou! Claro que vou! Vai ser incrível, oppa, por isso sou a maior das Valentines!
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  Jaehyun riu, e desviei os olhos para a outra extremidade da sala, direto para Felicity, que agora fazia uma careta enquanto bebia um líquido que parecia uma poça de água escura.
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  — Eu que agradeço, Audrey. Na próxima live faça um comentário, vou fazer questão de dar um olá só pra você.
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  O rosto de Audrey apagou e acendeu em um recorde de tempo e, em seguida, eu tinha a cintura agarrada por aqueles braços e uma garota fungando no meu quadril, travando o queixo na minha barriga enquanto me olhava de baixo.
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  — Obrigada por isso, ! Vou mandar meu pai te dar quantos aumentos quiser! Tudo que você quiser! Hoje é o dia mais feliz da minha vida até o show do mês que vem!
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  Olhei para Jaehyun com uma risada contida enquanto fazia um mísero carinho nos cabelos de Audrey, que eu ainda não acreditava que estava em prantos de verdade. Ele me lançou um olhar simpático, e menos vazio do que antes.
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  — Não precisa agradecer, Audrey. Agora…
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  — Tudo bem, garotinha, tá na hora da gente começar a ir embora — a voz de Felicity rasgou a minha, e seus saltos bateram com força no piso até nos alcançar, puxando Audrey para perto dela, que secava os olhos com força — Mas antes posso te levar ao camarim pra roubarmos um calendário do evento, que tal?
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  — Mas e o Yugyeom… — Audrey choramingou, e eu tinha até me esquecido que era a quarta vez que ela perguntava dele. Felicity deu um sorriso amarelo e começou a guiá-la para fora.
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  — O grupo dele saiu da empresa, não se lembra? Longa história, podemos falar disso no caminho se preferir… — ela arqueou as costas por um momento perto do batente e se virou para mim, fazendo um sinal de OK com os dedos na cara dura e finalmente se retirou, me deixando sozinha com Jaehyun.
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  A sensação do gelo na espinha voltou com tudo.
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  Talvez eu poderia inventar uma emergência e sair correndo?
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  Não seja covarde, não seja covarde, não seja covarde, caramba!
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  Ao me virar, pude ver os olhos dele brilhando em minha direção, tão agitados como os meus, mas eu poderia estar equivocada. Sua agitação não se tratava do mesmo motivo que o meu. Nem sei como ele reagiria ao meu motivo.
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  O silêncio constrangedor que se instalou por um minuto pareceram horas, e me dei conta de que precisava falar, nem que fosse a primeira coisa que vinha à minha cabeça.
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  E a primeira coisa era:
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  — Oi.
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09 – Investida

JAEHYUN

  Eu devia estar me ocupando em sair por aquela porta do camarim agora mesmo.
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  Fazia parte de um princípio. Não tente ter conversas importantes quando você claramente não está pronto para dar respostas eficientes. E eu até que era bom em seguir minhas próprias diretrizes. Jungwoo observou certa vez que eu não tinha animais de estimação porque cuidar dos meus princípios já consumia tempo demais.
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  Mas sempre dava um jeito de me fazer esquecer das minhas próprias regras.
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  O silêncio que ficou era esmagador. Felicity se dedicava a muitas coisas, principalmente quando era para plantar algum constrangimento, e soube imediatamente que tudo aquilo era mais um dos seus planos.
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  Eu só esperava que meu coração respeitasse minha privacidade e não batesse tão forte, ou tão alto como sempre fazia quando ela chegava perto. Que, pelo menos, ele não me fizesse trocar as pernas quando eu decidisse me mexer.
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  — É… Desculpa por ela. Acho que deixou bem claro que você é o ultimate bias finalmente falou, referindo-se à Kate. Sorri com simpatia. É claro que eu faria isso.
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  — Tudo bem, não tem problema. Gosto de conhecer a galera do fandom assim, sem tanta burocracia. — Respondo sem rodeios. Quando mais uma onda de silêncio voltou a tomar o espaço, deixo sair a primeira coisa das muitas que abarrotavam minha cabeça: — Não sabia que você viria.
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  Ela abre e fecha a boca algumas vezes antes de conseguir responder.
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  — Eu não ia. Quer dizer, meu chefe me designou esse trabalho de babá e confesso que eu diria não, mas… Tive um bom motivo. É isso. Vou ficar sabendo de vários elogios no trabalho na segunda, pelo menos assim espero. Não foi uma desculpa nem nada.
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  — Não pensei que fosse — disse, e era sério. Não gostaria de saber que se desdobrou em cima de sua agenda para achar o melhor horário para entrar por aquela porta depois de uma apresentação que assistiu da plateia. Fazer coisas que não faria antes só pra conseguir falar comigo. Ela não precisava de nada disso.
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  — Mas acho que poderia ser — ela cortou o silêncio mais uma vez e franzi o cenho, confuso — É, digo… Você… Como você está? Faz um tempo.
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  Umedeci os lábios, sabendo que não era a hora certa de lembrar da viagem e dos motivos reais, mesmo que fosse inevitável.
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  — É, acho que faz. Trabalhei muito desde que cheguei e com a preparação do novo álbum acho que vai ser a mesma coisa.
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  — Ah, entendo. Você… Desde que foi embora muito cedo, você sumiu. Tentei… Enfim, tentei falar com você.
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  Não repliquei de imediato. Não sei o que diria. Mentir ainda mais era me colocar em um beco sem saída onde ela claramente me pegaria, e isso era a última coisa que eu queria agora. Com um riso fraco, passo os dedos no cabelo, desfazendo toda a arrumação de antes.
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  — É, eu vi. Desculpa não dar respostas melhores. Era o que eu podia fazer no momento — falei. Sem perguntas, sem explicações, sem nada que pudesse estender o assunto — Então, acho que daqui a pouco vão começar a me ligar pra chegar na van e no estúdio, você sabe. Acho que eles a estacionaram no fim da calçada, então…
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  — Eu sei o que aconteceu no primeiro dia, Jaehyun.
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  As palavras cortaram as minhas no exato momento em que fixei o olhar no adesivo na porta à minha frente. CAMARIM 36! A frase veio e passou pelos meus ouvidos como se fossem vento, irreal o bastante, puxando minha atenção total e completa para o rosto de sob aquela luz. Ela se remexeu no próprio lugar por dois minutos antes de se aproximar a um passo.
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  — No início foi bizarro, mas sei que você estava naquele quarto naquele dia. E sei que foi você que eu beijei, e não o Jungkook.
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  Continuei parado, olhando-a de cima como se ainda esperasse que um beliscão me acordasse para a realidade. Ela sabia? Sabia mesmo? Como sabia?
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  Eu também achava que sabia antes, mas a última cena do feriado ainda voltava à cabeça, vez ou outra. Meu rosto não tinha nenhuma expressão significativa. Encaro sua franja, que sempre foi grande e fofa, e seus olhos, que não exibiam um pingo de confusão ou mentira, e implorei para que meu coração permanecesse no lugar.
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  — E quando exatamente você descobriu isso? — pergunto, sentindo a garganta imediatamente seca.
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  O semblante dela se apagou por um momento. É difícil encontrar situações em que perdia o brilho nos olhos. Não gostei que esse momento fosse aqui e agora.
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  — Acho que você sabe quando — sussurrou, baixando os olhos por um instante — Você viu, não é? Viu ele me beijando na praia naquele dia.
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  O embrulho característico no estômago me tomou de novo. O mesmo que senti naquela noite, o mesmo que vim sentindo por todo o caminho, o que me fez ter vontade de exclamar: Sim, eu vi! Vi com um ótimo ângulo, com minha perfeita visão, em todos os detalhes! Mas meus dentes trincavam automaticamente com a imagem e apenas consegui responder:
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  — Vi.
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   apertou os lábios. Outra torrente de mudez ameaçava começar e tomar ainda mais tempo, o que me deixou ainda mais ansioso para sair por aquela porta. Eu não nutria um ódio puro e irascível por qualquer coisa que pudesse ser classificada como conversa fiada, mas estava começando a sentir que não queria participar daquela. Não queria avançar em um papo que serviria apenas como esclarecimento; um esclarecimento claramente doloroso, porque tinha certeza que eu não estava conseguindo esconder a verdade no meu rosto.
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  — Eu sabia — ela finalmente estalou a língua, agora erguendo o queixo para me encarar com certa ferocidade — Tentei ir ao seu quarto depois, tentei… Achei a lanterna. Aquela que ia me dar.
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  Mais silêncio. Seus braços eram agitados. Assenti levemente, juntando as sobrancelhas logo depois porque algo dentro de mim queria entender o que era tudo isso.
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  — Onde exatamente você quer chegar com isso?
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  — Por que não me contou antes? — perguntou — Fiquei o tempo todo pensando que tinha beijado ele, que você nunca…
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  — Isso não importa agora, não é? Suas palavras foram pra ele, não pra mim — respondi com rapidez, como se as possibilidades do que poderia ter acontecido fossem filhotinhos indesejados; ninguém precisava disso — Não entenda mal, não quero cobrar alguma coisa. Tudo foi muito confuso e eu devia ter pensado no fato de você estar bêbada e não saber de toda a confusão da distribuição dos quartos, mas preferi acreditar… — parei e suspirei, desviando os olhos para a porta por um momento, voltando logo em seguida — Enfim. Acho que meti os pés pelas mãos, e tá tudo bem. Você não precisa explicar nada.
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  — Não. Você não entende — respondeu ela, atrapalhada, dando mais um passo para a frente — Preciso explicar que aquele dia na praia, ele me beijou. Foi quando eu me lembrei de tudo, me toquei da confusão, e depois descobri sobre o combinado, foi isso. Eu soube que era você e bati na sua porta, mas você não estava mais lá… — ela parou com a voz fraca, à procura do que diria em seguida — Jamais imaginei que fosse você naquele quarto.
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  Minha cabeça anuiu automaticamente, e tudo tomou um teor cansativo. Ela queria me pedir desculpas. Apenas isso.
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  — Eu imagino que sim — coloquei uma das mãos nos bolsos e tentei abrir um sorriso, que sumiu na metade do caminho — Mas não precisa se preocupar com isso, é sério. Já passou, não precisa me pedir desculpas…
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  — Acha que vim aqui te pedir desculpas? — ela disse sugestiva, como se tentasse adivinhar minha postura rígida — Não quero isso. Eu não sabia que era você naquele quarto, mas isso não impediu que eu não parasse de pensar naquele beijo. E depois, desejei que fosse mesmo você. Será que dá pra entender isso?
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  Tive certeza que minha consciência foi e voltou duas vezes antes que eu conseguisse falar, tentando parecer coerente:
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  — O que você quer dizer com isso?
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  Ela se aproximou ainda mais de mim, de um jeito que senti claramente o cheiro do seu cabelo, visualizei o formato de seus cílios, a curva de seu nariz, cada pequeno detalhe já gravado na minha mente que me faziam ter certeza que sempre recebia flores de homens apaixonados.
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  — Que eu quero tentar, Jeong Jaehyun. Pensei muito pra dizer isso porque você não me respondia e eu tinha certeza que tinha te magoado, mas é isso. Acho que podemos tentar.
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  Me concentrei totalmente em seu rosto. As palavras pareciam estar vindo de outros lugares, lugares muito distantes de Seul, e isso me deixou tonto por um instante. Era um estado de euforia interna que não me permitia formar uma única palavra.
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  Em um futuro imaginário, não receberia apenas flores de mim. Minhas intenções sempre foram tão secretas e bregas que era melhor não pensar e muito menos falar sobre elas. Envolviam pacotes de spa, jantares românticos, outras viagens, cestas de frutas, pinturas terríveis e memoráveis à óleo que faríamos com algum artista de rua e beijos, declarações, e ainda mais beijos…
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  Ela continuava se aproximando de mim, e não sei em que exato momento comecei a me inclinar em sua direção da mesma forma que fiz no aquário, visualizando seu perfil ficar cada vez mais perto e mais perto…
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  Ergui o tronco, dando dois passos para trás de uma só vez. Ela se assustou com o afastamento repentino, me observando com um olhar confuso, e tentei limpar a garganta da forma mais elegante possível, que não deixasse tão óbvio o quanto eu estava desorientado.
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  — Espera. Você… Você tem certeza disso?
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  As maçãs de seu rosto coraram levemente.
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  — Como assim?
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  — E o Jungkook? Tem certeza que não sente mais nada por ele?
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  Seu lábio tremeu instantaneamente. Os olhos, que sempre achei amendoados e românticos, fugiram para todas direções até retornarem, agora com as pálpebras pesadas e titubeantes. Era uma resposta clara, sem voltas. Uma resposta enorme.
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  — Você não entendeu…
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  — Estou louco por você agora, . Completamente alucinado. E não tenho mais porque esconder isso — falei com a voz mais firme e decidida, um traço que normalmente não gostava muito, mas agora eu precisava, mais do que nunca, sair dali — Mas se você ainda hesita desse jeito quando toco no nome dele, não posso avançar. Sinto muito.
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  Rompi com todas as barreiras que prendiam minhas pernas imediatamente e comecei a caminhar para a porta.
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  — Jaehyun, não é assim. — Sua voz soou entre os dentes, e parei de novo — Eu sei o que eu sinto. Talvez não saiba expressar porque as coisas ainda estão loucas, e me perguntei várias vezes se teríamos mais de 3 minutos de conversa, mas sei o que eu quero agora. Sei o que podemos fazer agora.
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  Em um primeiro momento, passei a palma da mão pelo rosto, visualizando a porta como o único lugar em que eu deveria prosseguir agora, mas me virei para ela de novo, sem sair do lugar, tentando soar compreensivo e ao mesmo tempo encerrando o assunto.
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  — Podemos ser amigos, como sempre fomos ou como estávamos sendo, mas… Faz muito tempo que sinto isso por você, . Mais tempo do que eu mesmo imagino. E exatamente por isso que não posso aceitar você pela metade, ou com qualquer parte faltando. Espero que entenda.
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  — Jaehyun…
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  — Quando você tiver certeza do que quer, aí podemos falar sobre isso de novo. Mesmo. Agora eu preciso ir.
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  Ela abriu a boca para dizer algo, mas me empurrei na direção da saída, pegando de volta todos os cacos do meu coração que queriam correr para ela, aceitar o seu discurso, se entregar completamente sem nenhum bloqueio, mas não podia fazer isso.
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  Eu amava , mas amava ainda mais a ideia de que ela me amasse de volta.
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🙂🙃🙂

  Eu não sabia que 2 semanas podiam durar tanto.
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  Quando Felicity voltou para o carro, tudo que eu via era o teto estofado e a paisagem melancólica do estacionamento dos fundos do Mc Donald’s. Tinha um cara lá na frente com um arranjo de flores nas mãos, o que me embrulhou o estômago na mesma hora, e juro que dessa vez não tinha a ver com as oito doses de soju que eu tinha tomado há uma hora atrás. Era apenas um ramo de cravos-de-amor em torno de um cravo branco; umas flores que eram mais cheirosas do que bonitas, mas muito, muito parecidas com os crisântemos brancos que eu tinha pago hoje.
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  — Aqui — Felicity depositou a caixa com dois lanches, duas batatas e dois refrigerantes no meio do câmbio, fechando a porta logo em seguida — Como é o nome daquela expressão que você vive dizendo? Saco vazio não para em pé, é isso? Muito estranho, mas muito coerente. Anda, come.
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  Quis comentar alguma coisa mais coerente do que isso, mas meus olhos continuavam no cara lá na frente, que agora sorria enquanto falava no telefone antes de entrar no seu próprio carro.
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  — Eu até mandei flores pra ele — falei debilmente com o rosto colado no vidro — Achei que não tivesse problema. Foi tão simples, sabe? A entrega custou mais do que as flores, mas… Eu mandei flores pra ele. Tem noção disso?
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  Felicity mastigou uma batata frita enquanto tateava pelo painel em busca do aparelho de som, aparentemente distraída, mas eu sabia que tinha me escutado. Na verdade, tinha escutado aquilo a noite toda, e por isso apenas suspirou e deu de ombros, antes de infestar o carro com 2NE1.
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  — Acho que Mingyu me mataria se eu mandasse flores pra ele.
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  — Ele é machista?
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  — Não, só é pão duro mesmo. Flores às portas do inverno? Uma fortuna. Com cartão ainda por cima? — ela fez um barulho de “pff” com os lábios — Não sei se eles superfaturam os produtos ou papel vagabundo na Coreia vira artigo de luxo nessa época.
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  Mandei uma batata para dentro, agora apoiando a cabeça no encosto do banco logo depois que o cenário aparentemente feliz do cara das flores sumiu do estacionamento. Até mesmo se ele estivesse levando aquilo pra amante seria mais condizente do que eu e meu pedido de crisântemos com um pequeno cartão e meu garrancho feminino quando escrevi: Espero que você ainda queira que eu ligue – .
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  Ei, o pequeno ramo de crisântemos brancos fazia sentido. Elas combinavam com o ar misterioso e elegante de Jaehyun, fora que simbolizavam minha sinceridade. Um ar minimalista que era chique ao mesmo tempo, não minimalista de avareza. Enfim, foi o que eu li no Google. E o Google sempre sabe de tudo.
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  Devia ter lido também qual era o timing correto para se presentear um cara que estava sendo inflexível sobre seus sentimentos, mas acho que até o senhor Google ficaria me devendo dessa vez.
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  — Você está corando — disse Felicity de um jeito desaprovador — Está corando porque CL está cantando sobre sentir saudades de um cara gato ou porque sabe que fez besteira?
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  — Qual você acha? — estendi as mãos para pegar mais uma batata, mas Felicity a afastou com uma palmada.
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  — Não desconta nas minhas batatas — frisou, trocando os pacotes de lugar. Com sarcasmo, ela acrescentou: — E essa foi só mais uma besteira que você fez desde que chegou aqui, mas agora com um cara diferente.
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  Estreitei os olhos e mastiguei uma batata devagar, olhando de novo pela janela.
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  — Pra quem quer que tenha sido, acho que agora eu consegui chegar no ponto em que ele me ignora de vez e passa a atravessar a rua quando me vê. Como fui chegar nessa situação, Felicity?
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  — Você descobriu que tá apaixonada por um cara depois de beijar outro. Isso se chama cilada, e pode ser resolvida, é normal, você não é a primeira nem a última a passar por isso — ela deu de ombros, fazendo barulho ao sugar o refrigerante pelo canudo — Se bem que agora você realmente se esforçou, não é mesmo?
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  Toquei uma das batatas na ponta do meu queixo em uma atitude completamente mórbida, mas que explicavam o teor da bagunça na minha cabeça, que ia de bêbada até uma tentativa de não estar mais bêbada.
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  — Em todas essas situações, eu tenho certeza que o cara acreditava quando a garota dizia que estava apaixonada — mordi metade daquela coisa crocante e salgada; estava tão leve que nem parecia que meus dentes estavam tocando em alguma coisa.
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  Felicity bufou, girando o corpo em minha direção do banco do motorista.
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  — , eu já disse: não importa quantas flores, retratos, cestas de frutas ou coisas dramáticas que você enviar, não é essa a questão. Não é que o Jaehyun não acredite em você. Ele só não quer pular de cabeça em algo que parece muito incerto para ele. As pessoas têm direito de duvidar das intenções das outras depois de verem uma cena daquelas, é normal — concluiu ela, afundando no banco enquanto dava uma mordida generosa no hambúrguer — Mas confesso que não pensei que ele fosse estar se fazendo tão de difícil assim, fala sério. Aquelas flores eram tão pequenas e simples, o que custava ligar?
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  Sim. Pequenas, simples e frugais, assim como ele. Eu não era boa de timing, mas podia ser boa com flores, ao que parecia.
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  — Eu não sei mais o que fazer — suspirei, segurando agora o refrigerante — Eu gosto dele, Felicity. Droga, gosto de verdade. E talvez eu queira sim conhecê-lo melhor e ir devagar, como manda a situação. Confesso que chegar e dizer que queria tentar ficar junto foi inusitado e precipitado, mas isso não muda o fato de que quero ficar com ele. Isso vale, não vale?
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  Ela arqueou as sobrancelhas para concordar enquanto a boca estava ocupada com a mastigação do hambúrguer. Seus olhos grandes e azuis ficavam ainda mais em evidência assim, e eu particularmente achava Felicity Hamilton muito bonita quando fazia essas caretas desengonçadas.
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  — Sim, vale, e eu acredito em você! Mas o que você tem feito para mostrar que o Jungkook é carta fora do baralho?
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  — Ai, fala sério! — bufei, erguendo as costas como se tivesse levado uma picada de mosquito. Tive que morder o lábio para evitar gaguejar mais do que já estava — O Jungkook, ele… Sabe, eu pedi um tempo, disse pra gente se concentrar em ser amigos, falei pra esquecer aquela história, falei mesmo… — pontuei, mas imaginei logo de cara que eu devia estar parecendo tão ridícula quanto meu reflexo naquele copo molhado de Felicity. E isso estava me deixando tão maluca, tão frustrada comigo mesma que eu só queria abraçar aquela grande garrafa de soju que largamos no restaurante e sair dançando com ela por aí, porque era o meu destino; dançar com uma garrafa, não com o cara que eu gosto.
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  — Você saiu pra jantar com ele ontem!
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  — Ei, espera aí, eu não saí exatamente, ele foi até o meu apartamento com pés de galinha, Felicity, pés de galinha, caramba! Empanadas ainda por cima. Queria que eu o mandasse embora? — disse em um tom óbvio, porque mandar alguém embora depois de trazer pés de galinha era no mínimo uma atitude insensata.
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  — Queria que você mandasse a real pra ele!
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  — Eu disse que não teríamos nada e que ele sofreria as consequências no meio das pernas caso me beijasse de novo, isso não conta?
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  — E quem é ele? Um cara que segue regras? Ah, por favor — ela revirou os olhos, mordendo mais uma vez o hambúrguer, falando em seguida com a boca cheia: — E por acaso contou pra ele porque ele sofreria as consequências? — perguntou, e eu simplesmente puxei o meu lanche e permaneci calada.
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  Todas as soluções temporárias em um tempo de minutos estavam entre aquela carne e aquele cheddar, mesmo que Felicity tenha simplesmente grunhido e entendido tudo sem eu dizer uma palavra sequer.
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  — Pois então, . Você está ferrada porque por mais que saiba que não sente isso pelo Jungkook, não consegue dar um chega pra lá definitivo porque tem medo de perder ele. Não é isso?
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  — Prefiro não dizer — estreitei os olhos, ainda comendo.
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  — Anda, diz. E tome as suas batatas, ficam mais gostosas dentro do pão — ela empurrou o outro pacote de papelão jogado no nosso meio, o que tinha dito antes que era dela.
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  — Ele é meu melhor amigo, Felicity.
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  — Sei disso, mas ele é um melhor amigo que do nada diz que te ama e que quer ficar com você depois de te ver se divertindo com outro? E todos os anos desde que você chegou e que não se desgrudavam nenhum minuto? Toda aquela sua cara de pamonha que ficava cada vez mais pamonha a cada dia que passava? — ela revirou os olhos e estendeu o braço de maneira que, agora, todas as batatas se juntaram e viraram uma porção única — Por favor, ele não é tão lerdo assim, ele só não tinha motivos pra dizer nada porque você estava sempre ali, revestida dentro de uma lona, disponível a hora que ele bem quisesse.
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  — Isso foi tão vulgar — estendi os dedos para pedir o refrigerante. Ela escorregou seu corpo para minha mão.
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  — Antigamente você não negaria nenhuma vulgaridade com ele.
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  Não falei nada. Apenas balancei a cabeça e suguei a bebida de uva que normalmente acharia horrível, mas era uma das poucas opções de frutas que eram boas o bastante para substituir a coca-cola. Felicity era uma das únicas pessoas que me conheciam que não parecia incomodada com a chance iminente de que meus dedos perdessem o equilíbrio ou tivessem espasmos estranhos que deixariam todo aquele líquido cair em cima de seus bancos de couro, e por isso ela merecia estar no meu top 3 de pessoas favoritas no mundo.
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  Um toque de mensagem soou bem no fundo dos meus pés. Devagar, tateei o chão abaixo do porta-luvas para sentir o aparelho ali jogado, que não faço ideia de como foi parar lá, e entreguei a bebida para Felicity, pegando o celular com certa ansiedade porque só depois me toquei de quem poderia ser.
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  Mas meu lado romântico foi bruscamente frustrado com o nome que apareceu no visor.
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  — Yugyeom tá mandando mensagem sobre a festa de lançamento de novo.
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  — Nem me fala. Vamos ser obrigadas a frequentar aquela pouca vergonha, não é mesmo? — Felicity perguntou com outra de suas caretas — Você acha que eu conto pra nova peguete dele o caminho pro quarto principal do apartamento? Vou morrer de rir se ela entrar lá e ver outra já esperando. Fora isso, preciso de motivos mais fortes para largar meu momento de paz com minhas pinturas.
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  Fitei ela por tanto tempo quanto um olhar da Monalisa fake que ela tinha na parede, e estalei um dedo na sua direção, lembrando do principal.
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  — Pelo menos vamos conhecer o Jay Park. Não é motivo o suficiente?
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  Ela arregalou os olhos e disse:
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  — Ô se é, bebê! Não vejo a hora de observar aquelas tatuagens de perto, e aquele sorriso… E claro, tudo isso ao lado do meu namorado mais lindo e perfeito.
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  — Gosto da sua queda por rappers, isso diz que nunca vamos nos interessar pelos mesmos caras.
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  — Isso aí — ela ergue a palma da mão e batemos um hi-five — Sabe que o querido Jeong vai estar lá, não sabe?
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  — O que faz você pensar que eu não saberia disso? — grunhi, perdendo o interesse em morder meu hambúrguer — Argh. Estava tentando não lembrar disso.
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  — Ei, você é adulta. Essa é sua chance — respondeu Felicity, batendo com um ombro no meu — Não importa que você diga que está cansada e que ele está sendo esquivo e minimamente simpático, você vai conversar com ele. Essa é uma das coisas que a gente aprende até chegar na fase adulta: conversar de verdade, sem insistências e sem colocar o pobre homem contra a parede. Você precisa sondar o cara pra saber seus próximos passos.
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  — Não acha que ele vai perceber se eu começar a fazer perguntas estranhas?
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  — Que perceba! Jeong Jaehyun não pode ser tão frio e não valorizar uma garota que está se mostrando interessada o suficiente, ainda mais quando ele disse que também está. Fala sério, ele é educado demais pra isso — ela moveu os dedos para pedir agora um pedaço do meu lanche, que só tinha o diferencial de ter o dobro de picles — E espero que ele se decida logo, antes que eu precise usar minha tática de te arrumar um fake dating para as coisas andarem.
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  Baixei os olhos. Alguém tinha respondido a Yugyeom no grupo, confirmando sua presença para amanhã. Alguém que eu já sabia, mas queria adiar esse pensamento até o fim.
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  — Jungkook também vai estar lá — disse em um sussurro cansado.
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  Não posso dizer que não via Jungkook com frequência, mesmo depois do festival, mas era algo tão… formal. Não formal de sério, era um formal de limites, de aceitação de amigos, de ter uma linha muito clara passando entre nós dois, dividindo as coisas muito bem. Ele não era mais o motivo do meu coração bater tão forte, mesmo que continuasse aparecendo de surpresa na minha casa, mas agora eu ficava acordada à noite por causa das palavras de Jaehyun e pela sugestão de escolha que ele me deu quanto à Jungkook. Quando você tiver certeza do que quer, vamos conversar. Puta merda. Eu tinha certeza que queria pular em cima dele, não era o suficiente?
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  — Mais um motivo — continuou Felicity, terminando de engolir um enorme pedaço de picles — Talvez te ver longe do pivete dê a ele um motivo a mais pra acreditar que vocês são só amigos e não gêmeos siameses. Você me entendeu?
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  — Claro. Vou cortar o cordão umbilical com meu BFF.
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  — Pois muito bem, é assim que se fala. Talvez eu o assedie com a ideia de que possa ter enchiladas em algum canto daquela casa, mesmo que Yugyeom deteste qualquer coisa com pimenta. Talvez o Jungkook aceite. Só talvez, ele não é tão burro quanto eu gostaria — Felicity largou o hambúrguer pela metade dentro da caixa e colocou os pés na direção — Agora vamos sair desse estacionamento e abrir as janelas antes que a gordura dessas batatas penetre na minha roupa. Deus do céu, minha nutricionista não pode nem sonhar que estou fazendo isso.
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  Assenti com a cabeça, continuando na mesma posição, olhando de novo na direção do cara das flores desaparecido e pensando que eu estava ficando sem opções para fazer aquele coração secular dentro do peito de Jaehyun bater mais rápido de novo, mas poderia deixá-lo saber que eu queria. Acima de tudo, deixá-lo saber que eu queria aquela lanterna que nunca recebi.
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🙂🙃🙂

  Quando alguém perguntar como deve ser uma festa entre jovens adultos em Seul, e rirem logo depois porque de jeito nenhum uma coisa nesse país pode ser no estilo American Pie, acabe com esse mito imediatamente.
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  Se Yugyeom morasse em uma grande casa com piscina, isso aqui com certeza teria virado um Spring Break. Mas com toda a galera reunida, bebendo e falando alto, misturadas com a fumaça que vinha de cigarro ou de erva criminosa, eu realmente agradeci por ele só morar em um apartamento perto de Gangnam.
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  Perto de Gangnam já soava bastante caro. Tipo, bem caro.
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  Mais importante do que qualquer uma dessas coisas era o motivo da festa. Yugyeom recentemente tinha lançado seu trabalho solo pela nova empresa, AOMG, e devo dizer que seu nível de popularidade arrebentou todas as barreiras que qualquer um ali imaginou. Acho que no fim, seria mesmo muito engraçado se Felicity fizesse sua piada em fazer as várias peguetes de Yugyeom se reunirem em um só lugar. O rosto dele com certeza ficaria igual àquele cara da pintura de Edvard Munch, O Grito, mas eu não pararia de rir, com certeza.
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  Quando passei pelo batente da porta com Felicity, os ombros de um garoto salpicado pela chuva que caía no centro esbarrou no meu de um jeito nada delicado, e quase recebi a primeira enxurrada de cerveja nos sapatos, que pelo menos eram meus amáveis tênis Converse que já estavam acostumados com aquele tipo de coisa.
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  — Aish! Foi mal aí — ele disse em sua melhor voz de bêbado, e me olhou de cima a baixo quando estendeu a mão — Patrick Jones. Você é…?
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  — Visita. É só isso — respondi rápido, puxando Felicity para longe, me embrenhando na multidão o mais rápido que os outros ombros me permitiam.
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  — Quer fazer o bolão de quantos babacas vamos encontrar hoje? — Felicity murmurou, espichando o olhar à procura de um certo cara de 1,86 que tinha chegado desde à tarde para ajudar nos preparativos.
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  — A resposta vai ser muitos, mas não quero calcular esse número exato.
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  Assim que vimos o cara super alto, é claro que ele já estava andando em nossa direção. Mingyu cruzou a sala através da fumaça, abraçando Felicity daquele jeito fofo que me deixava depressiva ou apaixonada, não sabia bem ao certo, e a soltou logo depois, entendendo o meu lado de ser uma solteira real e ainda não fazer parte disso.
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  — ! Bonita roupa. Amor? — ele perguntou sugestivo para a minha amiga loira, que apenas deu de ombros, atestando o fato. Sim, Felicity Hamilton não me deixaria sair por aí usando minhas jardineiras e não havia a menor possibilidade de que eu fizesse alguma coisa pra mudar isso.
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  — Não conta pra minha mãe que estou usando uma blusa que deixa meu umbigo à mostra — falei, usando o sarcasmo para arrancar uma risada dos dois.
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  — Você é gostosa, devia ter aceitado a saia que mostrei e não ter colocado esses jeans que escondem a melhor parte.
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  — Já conversamos sobre a maneira de falar sobre mim como se eu fosse uma cabeça de gado — suspirei. Mingyu segurou uma risada.
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  — Que tipo de gado ela seria? — perguntou para Felicity. Ela deu de ombros.
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  — Um cabritinho covarde, eu acho.
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  Estreitei os olhos. Com um resmungo evasivo, gesticulei:
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  — Onde estão as bebidas desse lugar? E sim, vou surtar se alguém começar a me oferecer narguilé. Isso é coisa de adolescente.
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  Mingyu riu alto e apontou para o outro lado do cômodo, onde um tambor enorme e totalmente gourmetizado guardava o balde de cerveja. Outro ao lado tinha as opções de bebidas destiladas engarrafadas para quem tivesse coragem suficiente de misturá-las no mesmo copo.
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  A porta abriu subitamente, e pelo menos 6 cabeças de uma vez estavam entrando. Apontei o tambor para Felicity, que gritou um “te vejo depois” e eu assenti, sabendo que se não saísse dali seria atropelada por um dos novos convidados.
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  E um deles era Jackson Wang, o que fiz o possível pra fingir que não vi e ir logo atrás da bebida. Ainda não sabia fingir costume o suficiente para não dar uma de fã.
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  Quando cheguei ao destino, vi que uma pequena escada em espiral estava abarrotada um pouco na frente com dezenas de buquês e cartões vermelhos de parabéns, o que foi impressionante. Uma mistura e tanto de culturas, e Deus do céu, mais flores.
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  Mal tinha colocado algo pra pesar no meu copo quando escutei a voz gritar do meu lado:
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  — Como você demorou! — Jungkook surgiu de algum lugar do meio daquela multidão, e eu pensei que podia ser uma boa fingir um susto e manchar aquela camiseta branca do Michael Jordan com ponche, mas me mantive com meu olho aberto em surpresa — Te liguei 5 vezes pra dizer que ia te buscar. Onde você colocou seu telefone?
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  — Os eletrônicos ultimamente estão acabando com a minha visão e rendimento, então tô fazendo um detox. Você devia experimentar qualquer dia desses — dei um sorriso sarcástico, bebendo um gole do líquido vermelho. Para Jungkook, pareceu a pior piada do universo.
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  — Aham, claro. Qual foi o documentário que você viu na Netflix dessa vez? E sem mim, ainda por cima.
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  — Nenhum, Jeon. E o que você faz aqui? Achei que você e os outros precisavam ir às Filipinas, ou ensaiar a nova coreografia, esse tipo de coisa que você faz numa quinta-feira à noite.
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  — É bonitinho você ser irônica em relação à minha falta de rotina, tenho que admitir. Mas não, hoje é um dia de mudanças, um muito importante pro Yug então todo mundo tinha que estar aqui.
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  Fiquei comovida com a forma como ele disse “hoje é um dia muito importante pro Yug” e virou a cabeça para observar nosso amigo lá do outro lado, cercado pelos seus companheiros antigos e pelos novos, sorrindo abertamente em felicidade plena.
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  — Também acho, mas não diz isso pra ele — falei, na verdade pensei alto, o que fez Jungkook franzir o cenho — Para todos os efeitos, vim por causa do Gray.
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  — Você não curte rappers.
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  — Mas curto caras bonitos — dei de ombros, em um tom óbvio — E Felicity diz que no futuro, os rappers vão ficar cada vez mais populares e mais bonitos ainda. Então, vou parar de ouvir essas previsões e vivê-las imediatamente.
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  Soltei uma risada antes de mais um gole. Jungkook apertou os lábios, revirando os olhos de um jeito nada convencional. Não era divertido, era irritado. Se eu não o conhecesse tão bem, diria que ele parecia com…
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  — Sabe como é doloroso elogiar outros caras na frente de um pobre rapaz que tá apaixonado por você, não sabe? — ele deu um passo à frente, e a música ao redor não foi capaz de dispersar nenhuma de suas palavras; todas elas me atingiram muito claras, muito coesas.
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  Ah, não. Ciúmes, não. Que ele não começasse com essas coisas, e que não começasse a se aproximar assim como se fosse aceitável.
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  Antes que eu dissesse alguma coisa para afastá-lo, um grito característico de Eunwoo surgiu a poucos passos da entrada, onde mais um convidado entrava. A visita mais requisitada desse dia caótico.
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  Afastei Jungkook na mesma hora, não me virando para verificar se Jaehyun tinha me visto, ou visto Jungkook, ou até mesmo virado a cabeça para fugir do aperto de Eunwoo. Não tinha coragem de olhar pra ele ainda e Jungkook não percebeu meu estado de agitação repentino. Ele ainda não sabia que eu estava apaixonada pelo cara de camisa gola alta, casaco escuro e todo montado em preto que certamente acabou de sair de uma sessão de fotos na porta.
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  — Já falei pra não voltar a dizer essas coisas, não falei? — sussurrei. Ele passou uma das mãos no cabelo, assentindo.
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  — Desculpa, é automático. Ainda é estranho ter que desligar esse botão, entende?
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  — Então é melhor desligar e proteger seu bendito coração, tá legal? Não quero machucar ele mais vezes — falei com um levantar de ombros, vendo que ele soltou uma risada engasgada e, com alguma coragem, voltei a olhar para o lado.
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  Queria dizer que eu estava louca, mas juro que vi Jaehyun olhando para mim. E ele continuou olhando mesmo depois de eu também começar a encarar, e nenhum dos dois desviou os olhos por nenhum momento. Não sabia interpretar o que aquela expressão queria dizer, mas vi quando suas pálpebras baixaram tão depressa pra me olhar de corpo todo e logo depois retornaram ao que Eunwoo e mais 3 pessoas ao redor diziam.
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  — Posso pelo menos dizer que você tá muito linda hoje, não posso? — a voz de Jungkook me trouxe de volta. Demorei alguns segundos pra me livrar da distração anterior e assenti, dando um sorriso simpático. Era louco como Jungkook dizia que eu estava bonita, enquanto Jaehyun mostrava isso só na forma de me olhar.
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  E talvez isso tenha sido um sinal verde para que eu não perdesse tempo.
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  — Claro, valeu. Eu vou ali rapidinho, tudo bem? Já já eu volto. Não se esqueça de maneirar na bebida porque não vou te levar pra vomitar.
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  — Ei, calma aí, eu ia te chamar pra dançar…
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  — Dançar?! Por favor, me deixa passar só um vexame por ano. Mas aposto que Eunwoo está doido por isso. Até mais.
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  Pousei o copo em cima de qualquer superfície e me embrenhei na multidão.
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10 – Festa

  A sensação era de que eu nunca o alcançaria.
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  A cada passo para a frente, alguém corria ou simplesmente esbarrava no meu ombro, me distraindo do caminho. Perdi as contas de quantas vezes precisei erguer os pés para enxergá-lo do outro lado. Quando finalmente me desvencilhei da aglomeração, ouvi uma voz direcionada há alguns metros:
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  — Você vem com a gente? — um cara de uns 1,85 que não era Mingyu gritou do outro lado da sala para Jaehyun, que balançou a cabeça e gesticulou com as mãos, respondendo qualquer que fosse o assunto.
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  Eu ainda não tinha chegado perto dele. E só conseguia torcer para conseguir fazer isso antes que mais alguém o chamasse e ele se locomovesse e se perdesse para sempre no ambiente.
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  Assim como em Jeju, todo lugar onde aqueles garotos estavam, era motivo para uma aglomeração pesada. Quando eu digo muito, é realmente muito! E, geralmente, não é nada decente ou convencional.
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  A começar por aquela bebida barateada e misturada que fazia eu me sentir como se eles quisessem testar os limites dos amigos e se divertir às custas dos estômagos embrulhados, e não porque realmente não queriam gastar. Essa coisa de cervejas artesanais só era legal pra curtir sozinho, aparentemente. Ninguém queria apreciar essas coisas boas em grupo – e em uma festa, o objetivo principal era a diversão, nada mais.
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  A fumaça também era um obstáculo difícil de driblar. Estava em toda parte, dificultava minha visão e, às vezes, a respiração também, dependendo de quem estava por perto, mas, por fim, dobrei o corpo para passar por um cara muito alto e muito magrelo e praticamente tropecei até chegar em Jaehyun, que tinha acabado de murmurar algo para Bambam enquanto este deixava a mesa meio torta com os petiscos. Não foi uma primeira visão muito agradável. Como eu disse: eu tropecei.
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  O olhar dele demonstrou mínima surpresa, mas eu já esperava essa reação.
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  — Oi — murmurei, sentindo-me pequena e estúpida por alguns segundos apenas por estar na presença dele. Apenas por me lembrar de todas as atitudes que vinha tomando nas últimas duas semanas e de como não cheguei a pensar se ele realmente queria falar comigo.
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  Mas, em suma, podando suas vogais de garoto de Seul da melhor forma possível, ele respondeu:
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  — Oi, .
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  Vi um mínimo sorriso brotar do canto de seus lábios e relaxei os ombros.
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  — Então… Você chegou. Bela roupa — falei meio atrapalhada, me inclinando sobre a mesa para pegar uma bebida nova à disposição, mesmo que tenha deixado a minha quase intocada na outra extremidade da casa. Ergui uma mão, apontando-a para todo o seu corpo, como se só o reparasse agora. A atuação de centavos, é isso — Deve ser o cara mais arrumado da festa.
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  Ele pareceu achar o elogio divertido, olhando brevemente para o próprio ombro de algodão polido e sorrindo vagarosamente.
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  — É, tive um trabalho antes daqui, mas não deixaria de vir. É um dia muito especial para o Yug.
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  Aquela frase de novo. Desta vez, vinda de Jaehyun, era acompanhada por seu sorriso cortês e generoso, igualmente feliz e orgulhoso da conquista do amigo. Até o momento, aquela forma de agir me deixava estranhamente desconcertada; era sutil e adequado. Como se nossa conversa recente do camarim nunca tivesse existido, ou como se aquela grande confusão e decepção na viagem fosse algo do passado.
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  Eu não queria pensar nisso agora. É claro que Jaehyun era educado demais para demonstrar qualquer apatia, mágoa ou até uma cara feia na frente de tanta gente.
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  — Claro, claro — concordei, absolutamente contida, mesmo que meus olhos focados no ponche tenham parecido um pouco rudes. Terminei de colocar o líquido no copo, endireitando o corpo agora para firmá-lo de vez de frente para ele e percebi seus olhos atentos em um ponto de mim.
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  Estavam direcionados para o meu pulso, onde a pulseirinha de conchas estava amarrada de um jeito meio débil, mas consistente. A pulseira que eu tinha encontrado jogada no meu quarto em Jeju. Um presente feito por ele. Feito para mim.
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  Mas seu olhar denunciava algo ruim – o primeiro e único sentimento ruim que deixou transparecer naquela noite.
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  Atrás dele, o mesmo cara da entrada o cutucou e cumprimentou. O silêncio reinou logo depois. Fora a música eletrônica terrível que trotava nas caixas de som enormes no chão, aquela pulseira parecia ter saído do meu braço e virado uma pessoa, um edifício de 500 metros, algo muito grande que pairava ali no meio, que o fez comprimir os lábios e se perder no personagem indiferente por alguns segundos, me deixando imóvel e bebericando aquele drink horrível enquanto tentava controlar as borboletas estabanadas no meu estômago.
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  Eu não sabia o que falar. Se ele dissesse algo, eu diria de volta. Se falasse sobre a pulseira, eu seria capaz de dizer porque guardei. Eu seria capaz de abrir o jogo de novo, mesmo que isso o deixasse um pouco embaraçado. Jaehyun parecia mais do tipo que ficava calado e se retirava caso algo o incomodasse, mas que se dane. Ele saberia pelo menos que não estou mais com tanta paciência para decifrar seus critérios de confiança pelas minhas palavras.
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  Quando estendi uma das mãos, pronta para falar, ele também começou e as duas coisas saíram juntas:
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  — Então…
  — Você…
  Paramos também juntos. Soltei uma risadinha surpresa, dizendo logo em seguida:
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  — Você primeiro.
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  — Recebi suas flores. São muito bonitas. Desculpa não ter agradecido antes.
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  Apenas um pouquinho da minha compostura cedeu, e balancei a mão no ar, como se fosse irrelevante. Bem, era irrelevante agora, que eu já tinha me embebedado e me martirizado o suficiente sobre o assunto ontem.
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  — Ah. Que nada. Recebi sua mensagem depois — aquela mensagem automática de ‘muito obrigado’ que poderia ter sido escrita pelo seu gato, mas sim, recebi.
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  Ele abaixou a cabeça rapidamente, umedecendo os lábios enquanto trocava o copo de uma mão à outra em busca do que dizer.
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  — Eu queria ter ligado, mas… — e parou de novo. Seus olhos vacilaram em minha direção, o que foi o suficiente para eu ver mais uma vez que aquela indiferença era parte de sua máscara de sou cortês demais para isso. Me fez ficar ainda mais curiosa sobre Jeong Jaehyun no geral, e quantas coisas ele deveria guardar para si apenas para satisfazer essa imagem pacífica para todo um público em geral. Ou talvez só soubesse ser desse jeito, mesmo que detestasse às vezes.
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  Bem, ele poderia surtar comigo. Sobre qualquer coisa. Poderia me contar suas frustrações e pensamentos, assim como fez no camarim, quando agiu da forma mais nervosa e impulsiva que já vi, mas claramente descarregava algo importante que não tinha sido descarregado antes. Eu não ligaria se ele fizesse de novo, mesmo que fosse pra me afastar.
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  Mesmo assim, deixaria aquele meu lado ansioso por querer vê-lo sendo mais sincero bem onde estava. Tudo que eu menos precisava agora era deixá-lo desconfortável sem dar motivo suficiente pra isso, e então, apenas balancei a cabeça para dispersar o assunto.
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  — Tá tudo bem, Jeong Jaehyun. Eu li a notícia do repackage. Eu sigo uma conta no twitter especializada em multifandom, sabia? Sei tudo sobre o que vocês estão aprontando.
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  Ele riu ao mesmo tempo em que alguém berrou muito perto dali, e vi agora Yugyeom ser esmagado por um abraço de Jaebum. O cara na minha frente pareceu tão relaxado quanto o anfitrião e seus parceiros de grupo, o que era um alívio. Eu ainda não tinha estragado tudo.
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  — Existe alguma conta dessas sobre assistentes de contabilidade?
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  — Ei, eu não sou mais uma assistente, sabia? — tive que gritar a última palavra porque, aparentemente, tremer as paredes com o som alto não parecia estar sendo o suficiente para a galera, porque o volume foi subitamente aumentado. Instintivamente, me aproximei para falar melhor — Esqueceu da minha boa ação no festival da quinzena passada? Aquela garotinha era minha galinha de ovos de ouro, ainda bem que você a tratou bem, salvou uma garota chantageada.
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  A risada dele cortava qualquer música terrível. Era gostosa, instigante, contagiosa. Precisava me esforçar para não olhar tanto antes que minha cabeça começasse a girar sem álcool o suficiente pra isso.
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  — E o pai dela te deu a promoção?
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  — Aham. De assistente para supervisora de tributos indiretos. Um marco na minha vida, se quer saber.
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  As batidas da música praticavam vociferavam. Elas batiam contra os meus ouvidos, mais como um sentimento do que como um som. Ele também se aproximou.
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  — Jura? O que é isso?
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  — Basicamente, eu faço cálculos o dia todo pra traçar umas estratégias pro escritório gastar menos em médio prazo e ganhar mais a curto prazo. Essa coisa de contabilizar e visar o lucro. Coisa simples.
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  — Hum. Ambiciosos.
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  Dei de ombros, apontando para mim mesma teatralmente.
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  — Obrigada. Eu gosto um pouco de dinheiro, você sabe.
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  Jaehyun riu mais uma vez, enquanto Jackson agora gritava de volta para Mark Tuan – puta merda, Mark Tuan! – que acabava de entrar pela porta.
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  — E o que seria antes das contábeis? — perguntou ele, e não parecia uma pergunta vazia, sem propósito, só para preencher um silêncio. Pareceu uma curiosidade genuína, mesmo que eu não quisesse me agarrar a isso e começar a imaginar coisas demais.
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  — Seria trapezista, é óbvio — respondi em um tom sério, mas ele percebeu rápido demais e gargalhou na frente. Eu o acompanhei. Fiquei feliz por ele retomar, gradativamente, aquela informalidade poderosa quando se despia de toda a delicadeza que regia seus passos. Era só o Jaehyun. O mesmo de Jeju, o mesmo que ficava junto com os amigos — O que? Quer uma profissão mais foda pra desenvolver a síndrome de Murphy? É um princípio simples: vá de encontro à toda merda que já vem pra cima de você. Dizem que uma hora ela cansa ou você consegue espantá-la, sei lá. Podia fazer isso como forma de tratamento qualquer dia desses.
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  Ele ainda estava me observando, agora com menos graça e com mais curiosidade.
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  — Tá bom, e agora a resposta séria.
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  Suspirei, perdendo um pouco o sorriso. A pergunta era razoável e, caso toda a merda não tivesse acontecido naquele último dia, sinto que Jaehyun teria me feito ela antes. Talvez minha expressão tenha se tornado um pouco mais fechada, e ele continuou impassível à minha frente, seguindo minhas deixas para saber como reagir. Na verdade, eu fazia a mesma coisa, estava fazendo desde que ele tinha entrado por aquela porta, e não me importaria em permanecer parada aqui, só observando a forma como ele me observava, debaixo daquela luz escura e de toda a fumaça incômoda impregnada.
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  Mas aquele era um segredo que ele já tinha contado pra mim. Nada mais justo. Anui uma vez, brevemente, e disse:
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  — Acho que eu sempre quis fazer isso. Mas com a palavra empreendedora na frente. Ou chefe. Sabe? Abrir a própria empresa de investimentos, ser a versão fêmea do Jordan Belfort, sem toda a parte da cocaína e prostitutas, é claro.
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  — E sem o FBI e as mulas de aeroporto, eu suponho — ele riu mais uma vez, bebendo um gole farto da cerveja. Sua máscara de desconforto escorregou um pouco mais, o que me fez sorrir mais abertamente. Sua conduta de Valentine chegava a sumir completamente quando ele estava com os amigos, o que, naquela hora, me fez sentir parte deles e, consequentemente, mais tranquila em relação a tudo que tinha se passado.
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  Talvez o Jaehyun que tenha me mostrado em Jeju era o que se encontrava no seu íntimo, e minha nossa, isso me deixava ainda mais encantada!
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  — Seria interessante, mas não. Eu só acho muito emocionante toda essa adrenalina de investir com base em 1 minuto de alta que chega a gelar o sangue. Você não sabe o que vai acontecer depois, entende? — respondi, um pouco animada demais — Eles podem cair de uma hora pra outra. Podem dar uma caída leve ou colapsar totalmente como na queda de 2008. A gente nunca sabe. Não importa os especialistas e a nova área que criaram de Econofísica para tentarem prever isso, simplesmente não tem como saber.
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  — Mas talvez eles apliquem um pouco da Lei de Murphy nesse cálculo, você não acha? — perguntou ele, bebendo mais um gole.
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  — Ou você aplica ou você não é gente, isso é fato — declarei com as sobrancelhas erguidas. Arranquei mais uma risada sua — Sempre pode dar ruim. Na verdade, a possibilidade de dar errado é sempre maior do que de dar certo. É um pensamento desalentador. A pessoa já entra preparada pra isso.
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  — Igual sua tão amada concepção da lei de Murphy? — sua voz se tornou mais intensa. Parei e o olhei. O ar rugia à nossa volta, assim como a música, e aquele sorrisinho era sacana demais para quem não queria uma conversa informal.
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  Achei que meu coração sairia voando pra longe porque era uma sacanagem a forma como esse homem sorria desse jeitinho e eu ter que ser obrigada a permanecer emocionalmente estável.
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  — Ultimamente percebi que a gente pode se confundir um pouco nessa concepção — respondi meio engasgada, sentindo aquele olhar em todos os poros da pele, mas não desviando os meus de jeito nenhum — Quando dá errado, dá muito errado. Mas quando dá certo, é muito certo também. E a gente não tá no controle de nada. Só acontece.
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  Ele umedeceu os lábios e ficou quieto, baixando os olhos por um instante. Quando voltou a me olhar, senti toda a intensidade daquele contato como se fosse físico. Como todo o contato que eu desejava ter com ele desde que me toquei de toda essa loucura, ou antes mesmo dela. Era como se, novamente, aquele edifício estivesse bem ali, abafando todo o som da festa e da gritaria, e a tensão sexual ou emocional ou simplesmente passional emanasse de cada parte da parede. Mas que porra, era muito óbvio que era um clima, era muito óbvio que ele me queria e era ainda mais óbvio que eu queria a mesma coisa, então por que estávamos ainda há tantos centímetros longe um do outro?
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   Ah, por favor, , se controla. Agora não. Agora não é a hora de perder a compostura, você está indo bem.
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  — É, acho que você tem razão — ele disse, um pouco mais baixo, retornando um pouco à formalidade. Então perguntou: — Como você anda?
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  Ansiosa. Louca. Apaixonada por você.
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  — Eu ando bem — optei pela resposta mais segura — Me preparando psicologicamente para um outono gelado e um inverno mais ainda. E você?
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  — Ando… Trabalhando. É, acho que só isso — ele fez uma careta logo depois, expirando pelo nariz — Jesus, eu ando fazendo isso mesmo. Acho que deixei todo o resto da minha vida social naquela praia.
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  — Por trabalho você quer dizer a sua música inacabada descaradamente cobrada por uma garotinha de 14 anos?
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  — É. — ele respondeu com uma risada gostosa — Eu fiquei um pouco surpreso porque definitivamente ser cobrado por algo pessoalmente é muito diferente do que ver isso nos comentários do instagram. Fez eu me sentir atrasado, de certa forma. Mas foi interessante, gostei da experiência — ele levantou os ombros com divertimento, bebendo mais um pouco, e me aproximei mais sem perceber — Me fez tirar a partitura da gaveta, pelo menos. Tentar de novo, eu acho.
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  — Achei que escrever músicas comerciais era fácil. Só sentar, escrever algumas coisas que encaixem em um ritmo milimetricamente chiclete e voilá, temos um hit — ironizei. Ele riu pelo nariz, passando uma mão pela nuca.
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  — Acontece que essa música não é comercial. Ela é minha, e… Sei lá, só é minha mesmo. — Balançou os ombros, comprimindo os lábios — Sem intervenções de empresa, profissionais e todas essas coisas que transformam uma composição em hit.
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  Mais um silêncio pairou ali. E esse veio do nada, sem aviso, sem precedentes. Foi o mais estranho de todos porque foi o único que eu não conseguia ler os olhos de Jaehyun. Ainda eram intensos, ainda eram extremamente honestos, mas agora eles falavam alguma coisae eu não entendia. Ele disse todas as palavras com eles fixados em mim e eu não sabia interpretar.
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  Se ele iria vir com parágrafos codificados pra me deixar ainda mais louca, eu precisava estar um pouco mais bêbada pra ter coragem de ser direta.
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  Mas na hora da dúvida, eu procurava dizer coisas muito inteligentes como:
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  — Uh. Profundo, Jeong — e bebi um grande gole daquela coisa vermelha pra tentar amenizar o quanto aqueles olhos me desestabilizaram por um instante — Vou encontrar umas palavras bonitas na sua próxima música?
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  — Depende do que você considera bonito.
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  — Você é bonito — soltei sem perceber. Por um segundo, minha concentração estava em franzir o rosto para dispersar o gosto forte daquela coisa que não acabava nunca, e, quando percebi o que saiu da minha boca, tentei automaticamente me corrigir: — Quer dizer, você tá bonito hoje. É isso que quis dizer.
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  Quis rir, mas um soluço escapou da minha garganta em vez disso. Prepara-se e vamos nessa, , pensei com desgosto, imaginando que uma sessão daquele inferno começaria justo agora para afundar minha dignidade de vez. Mas Jaehyun sorriu de uma forma terna e satisfeita, confessando logo depois:
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  — Você tá bonita sempre.
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  Eu estava cansada de constatar que muitos intervalos de silêncio estavam acontecendo entre a gente porque, bem, não tinha literalmente um silêncio – era um festa, caramba! Mas nenhum dos dois disse nada por um tempo. De um lado, eu apertei o copo com um pouco mais de força e tentei respirar normalmente enquanto ele permaneceu na mesma posição, sem desviar os olhos.
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  Me abaixei um pouco quando me aproximei mais da mesa e coloquei o copo quase vazio por cima do tampo, engolindo em seco duas vezes antes de perguntar:
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  — Você quer dançar?
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  Vi seu lábio inferior tremular. Ele parecia preso em um dilema por um milésimo de segundo, e quando abriu a boca para responder, outro grito surgiu no espaço, mais alto do que os outros, perfurando a minha bolha imaginária romântica:
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  — Jeong! Cara, você demorou! — Jungkook chegou subitamente, ancorando os braços nos ombros de Jaehyun — Achei que ia deixar a Prada te aliciar até amanhã.
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  — A palavra certa é fotografar, mas por que esperar termos certos de você, não é mesmo?
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  — Não enche — Jungkook revirou os olhos, voltando-se para mim — E você, , sai do nada e some. A gente não tá num barzinho de Itaewon, não.
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  — Acha que eu não notei? Lá as bebidas são menos duvidosas — meu sorriso não foi do mais verdadeiro, mas o sarcasmo servia bem para esconder o quanto eu tinha ficado um pouco nervosa com a vinda de Jungkook. Bem na hora errada, pra variar.
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  — É porque lá não tem o Yug — Jaehyun respondeu, dando de ombros.
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  — Então esse é meu novo critério de qualidade pra essa cidade inteira: sem Yugyeom, sem bebida de merda.
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  Os dois riram da minha piada péssima, e pareciam tão felizes juntos que, subitamente, me senti um pouco assustada. Não assustada, exatamente, mas era louco o quanto eu, hoje, conseguia identificar exatamente o que sentia por cada um deles sem todo aquele drama e sofrimento que tinha passado quando a viagem acabou. Ver as coisas virando de pernas para o ar me deixou sem certeza de coisa alguma, me fazendo repassar quase uma vida inteira de afirmações.
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  Eu não estava preparada psicologicamente para ver todas as minhas convicções irem ao chão com um monte de garotos de 97 quando aceitei o convite de Jungkook para a viagem. Pra mim, o plano do feriado consistia em acabar com aquela tormenta de gostar de alguém e não fazer ideia da reciprocidade da outra pessoa. Minha vida girava em torno de trabalho, barzinhos com Felicity e encontros simplórios e fora de hora com Jungkook, eu não tinha tempo nem disposição para pensar em refazer esse diagrama, refletindo sobre a organização dele e sobre adicionar mais pessoas. Quando pensava que, quando cheguei perto de fazer isso, acabei conhecendo Jaehyun e, muito provavelmente, tenha sentido algo por ele antes mesmo de descobrir sobre o beijo, tinha vontade de entrar em um helicóptero e me isolar no ponto mais alto das Maldivas.
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  Mas queria fazer isso com ele. E era aí que morava o problema.
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  Porque agora meu melhor amigo insistia que estava apaixonado por mim e não entendia porque eu, aparentemente, não parecia estar mais apaixonada por ele. Porque eu não tinha coragem de contar a verdade. Porque tinha medo do que poderia acontecer.
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  Covarde. Eu era a droga de uma medrosa.
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  — Ele sempre disse que queria ganhar uma homenagem — Jaehyun continuou rindo ao dizer, e pude ouvir bem, apesar de todo o ruído musical da festa, que agora tocava as próprias músicas do anfitrião.
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  — Se a homenagem dele não for um olho roxo assim que a Carrie chegar, ele já tá no lucro. Vai preferir muito mais as piadas depreciativas da .
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  — Carrie é a ficante número 2? — perguntei, não confiando na minha memória extremamente frágil.
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  — 3. — Respondeu Jungkook.
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  — 1. — Respondeu Jaehyun, ao mesmo tempo. Jungkook franziu o cenho e se virou para o amigo na mesma hora.
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  — 1?! Você tá sabendo de alguma coisa que eu não tô?
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  — Carrie é a modelo, esqueceu? Tava na Espanha há uns dois meses, por isso é fácil esquecer. E fala sério, todo mundo sabe, JK. Só quem não sabe são elas.
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  — Tontas — reviro os olhos e volto a pegar meu copo de cima da mesa. A situação atual implorava que eu bebesse. Mesmo que eu tenha feito uma cara estranha de quem não se agradou em nada com aquela coisa vermelha, estava feliz pelo efeito futuro que ela traria.
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  — Tonta vai ficar você se continuar virando desse jeito como se não houvesse amanhã. Não acabou de reclamar da bebida?
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  — Já ouviu o ditado: ‘fazer o quê?’. Tô usando ele agora mesmo — sorri sem mostrar os dentes. Agora, era indispensável que eu conseguisse outra bebida, de preferência uma cerveja, mas meu estômago reclamou só pelo pensamento.
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  Jungkook bufa em descontentamento, estreitando os olhos na minha direção. Sei exatamente o que ele está pensando, mas não ligo de tirar um dia para desobedecer nosso código da amizade em festas: só fique bêbado se seu amigo ficar sóbrio. Bem, não teve sequer um par ou ímpar hoje, então eu interpretaria como noite livre.
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  — Tudo bem, . Se você acabar passando mal, vai sobrar pra mim mesmo — ele se aproxima e passa os braços pelos meus ombros em uma atitude tecnicamente natural, mas bem mais perto do que antes era — Jae, você precisava ver o estado em que ela ficou há uns 4 meses, quando estava triste porque errou 3 palavras com um cara da Alemanha em uma reunião importante. Bebeu até não poder mais naquela barraquinha do rio Han, tive que carregá-la nas costas e tudo — ele confessou para Jaehyun com um sorriso sacana nos lábios.
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  Tento me afastar dele instintivamente, mesmo que tê-lo ali, aparentemente, não fosse nada demais, e Jaehyun só pareceu mover os olhos com um pouco mais de rapidez; talvez um bom disfarce ou apenas reflexo de uma reação involuntária, eu não sei dizer. Solto uma risada contida, movendo os ombros para que o braço dele caísse para o lado, querendo gritar para que ele não fizesse isso de novo – um grito sem sentido, que sairia alto o suficiente para sobrepujar o lamento de Falling in Love pela voz de Yug.
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  — Menos, Jungkook. Quer acabar com a minha reputação agora?
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  — Que reputação? Você não tem nenhuma, igual a dignidade da Felicity — seu tom foi explicitamente óbvio — Também teve o dia em que ela apagou no meu sofá depois de beber dois copinhos de makgeolli, foi uma vergonha, tive que colocá-la na cama…
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  Nunca quis tanto dar um desmaio espontâneo.
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  Olho rapidamente para Jaehyun, totalmente apreensiva. O rosto dele estava normal, tranquilo. Mais do que isso: parecia se divertir com o relato impróprio de Jungkook sobre a construção da minha tolerância alcoólica. Ele vira o olhar para mim e os meus gritam de volta para ele: você está ouvindo as datas, não está? Isso faz dois anos, e essa outra história faz 8 meses, ele é meu melhor amigo, dá pra entender, não dá? Não quer dizer que eu ainda sinta alguma coisa por ele.
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  Balanço a cabeça repentinamente. É claro que eu sentia algo por Jungkook. Ele era meu melhor amigo e não existia nenhuma possibilidade de que eu não o amasse. E amor engloba muitas coisas intensas, como abraços, presentes, saudade e companheirismo, mas não queria dizer paixão. Tinha total certeza de que não me derreteria se ele colocasse a boca no meu ouvido para dizer besteiras como sempre fazia.
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  Porém, ouvindo meu querido amigo contar sobre nossas aventuras em par, pude entender o ponto de Jaehyun pela primeira vez, entender de verdade. Era totalmente compreensível imaginar que a chama do meu sentimento por Jungkook ainda estaria ali, um pouco reclusa e desgastada pelo terremoto que se apossou da minha cabeça nos últimos dias, mas ainda ali. Era coisa pra caramba pra se ouvir sobre a gente, tantas que eu nem mesmo me lembrava.
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  Suspiro, virando a cabeça para Jungkook de maneira que eu pudesse ouvi-lo com toda a atenção. O jeito como contava as situações, baseadas apenas em sua visão, me deixaram afoita em pensamentos por um instante. Como na vez em que, durante o verão, chamei ele pra me acompanhar em uma loja de conveniência em Sokcho só pra comprar um xampu barato. Minha ideia de verdade era enrolar na cidade até o último segundo para esperar o show de luzes no parque Seoraksan, mas ele contara a situação em plenas gargalhadas, dizendo que tivemos que voltar mais cedo porque eu não tinha achado a marca que eu queria – quando, na verdade, voltamos antes do previsto porque ele achava a proposta das luzes sem graça e inferior à da ponte do rio Han. Mas a apresentação do rio Han não tinha a crença de que casais que assistiam ao espetáculo juntos tinham a tendência de ficar juntos, e toda essa baboseira oriental que me peguei acreditando naquela época. Ele nem se tocou!
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  Ou quando comprei uma pizza para nós em formato de coração e disse que tinha sido um engano do restaurante, quando claramente ninguém em parte alguma do mundo faz pizzas em formato em coração por engano e ele agora ria à beça como se fosse a maior piada do ano, falando sobre a textura da massa e a falta do queijo extra. Ou quando disse a ele que sentia cócegas do umbigo aos pés em uma indireta parecida com: “faça cócegas em mim”, e ele nunca mais chegou a cinco centímetros de mim porque cócegas podem matar, não leu aquela matéria do Google?
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  Jungkook contava todas essas fábulas com risadas e um grande sorriso no rosto, como se literalmente não tivesse se atentado. Como se eu fosse mesmo sua amiga engraçadinha que simplesmente estava presa em um looping infinito de desgraças cômicas. Sem nenhuma segunda intenção, nunca. Ele falava e ria como se realmente estivesse alheio a tudo isso.
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  Foi quando eu percebi. E Felicity tinha toda a razão. Eu voei na maionese se algum dia cheguei a acreditar que ela estava louca.
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  Jungkook não gostava de mim, caramba! É humanamente impossível alguém não ter notado que eu estava caída por esse cara nos últimos dois anos, ou que eu estava caída por alguém, e eu o invejava por pensar que era apenas amizade, mas era exatamente isso que ele estava querendo dizer ali, com suas risadas e respostas ácidas. Jungkook não sentia o que dizia sentir por mim porque essas coisas não se descobrem em um estalo repentino; elas incomodam por um tempo, crescem aos poucos e explodem, mas você sabe que já estavam ali. E ele claramente não tinha parado para pensar sobre o assunto.
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  Ri de repente, fazendo-o apontar pra mim e rir mais ainda, como se eu estivesse participando da conversa. É claro. Jungkook devia ter tanto ou mais medo do que eu de que tudo entre nós ruísse e acabasse, e achou que sentir vontade de me beijar me taxasse como a garota certa.
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  Minha nossa, essa merda não parava de crescer.
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  Olho pra Jaehyun de novo. Ele desviou na mesma hora, como se já estivesse fazendo isso. Eu esperava que ele estivesse captando a mesma coisa que eu. Que ele estivesse percebendo a diferença de perspectivas que eu pensava estar vendo agora mesmo.
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  Finalmente, uma batida muito característica e muito semelhante a algo que me deixava eufórica começou a tocar e já senti a mão de Jungkook tocar o meu braço, virando-me para ele de súbito.
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  — Puta merda, é Twice! Twice, cacete, , é nossa hora! — ele gritou bem perto do meu nariz, e sua respiração era quente na minha pele. Afastei-o levemente, mas imediatamente.
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  — O que? Mas…
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  — Vem! Eu te ensinei a coreografia naquele dia! Só se joga! — e tive as mãos roubadas por ele, que já começava a me puxar para o centro da pista. Ou da sala, o que quer que fosse aquele espaço.
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  — Mas… — tentei, totalmente paralisada. Olhei para Jaehyun automaticamente, que parecia igualmente sem reação. Mas, por fim, apenas sorriu em cumprimento e ergueu o queixo para que eu fosse. Que estava tudo bem se eu o deixasse ali.
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  Tudo que eu conseguia pensar era: isso é tão próximo de um voto de confiança quanto deve ser. Parecia tão glorioso quanto eu esperava, mas confesso que eu ainda queria conversar. Falar, entender, instigar, perguntar, observar. Queria guardar as palavras dele na memória, queria saber mais, queria reiterar o pedido da dança. Acrescentar, novamente, como ele estava bonito hoje.
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  Aborrecida, não vi a hora em que esbarrei levemente em Yugyeom, ainda cercado por outros tantos caras, e seu sorriso abriu de imediato.
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  — ! Você não perde tempo! O que achou do ponche?
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  — Odiei — dei um sorriso forçado, e bati de leve em seu ombro — Mas gostei da música, parabéns, Yug. A número 3 vai adorar.
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  Ele arregalou os olhos e olhou para a porta na mesma hora, girando o corpo inteiro. Quando me olhou de novo, dei um tchauzinho e voltei a ser arrastada por Jungkook.
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🙂🙃🙂

  Um momento se passou depois da quinta música seguida do Twice em que eu e Jungkook finalmente paramos e rimos, imóveis.
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  Foi mais divertido do que pensei. Era louco notar que eu perdia grande parte da inibição quando me misturava com ele, seja em qual ambiente fosse, sem precisar encher o organismo com soju e cerveja como era de se esperar. Na verdade, eu estava ofegante, suando pela nuca e sorrindo abertamente sem precisar de mais nenhuma gota da bebida ruim. Ele ainda estava terminando o passo principal de TT quando finalmente parou, bagunçando o cabelo para arrumar os fios colados na testa.
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  — Você errou o refrão! — gritei, fechando o punho debilmente em seu ombro. Ele gargalhou, agarrando minha mão no mesmo lugar.
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  — Foi de propósito, pra ver se você reparava. Viu? Deu certo. Pelo menos agora eu sei que você aprendeu.
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  Revirei os olhos na mesma hora em que a tão temida batida lenta começou. Era algo parecido com Jeremy Zucker, ou até mesmo LANY, eu não fazia ideia. Instintivamente, olhei para o lado. Jaehyun não estava no mesmo lugar e, mesmo se estivesse, dificilmente eu o acharia no meio de tanta gente. Porém, cachos loiros e médios balançavam há alguns metros de onde eu estava, perto da primeira mesa de bebidas, e julguei ser uma salvação mais do que pertinente no momento.
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  Quando me virei para avisar à Jungkook que nosso momento de covers vergonhosos tinha acabado, meus cotovelos foram puxados para a frente junto com o corpo, e então ele estava próximo de novo, mais próximo do que no início da festa.
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  — O que ‘tá fazendo? — perguntei apressada, juntando as sobrancelhas pelo susto.
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  — Dançando com você — sua resposta veio simples, com um levantar de ombros, mas senti a conotação clara de sua verdadeira intenção quando passou as mãos para as minhas costas — Esse é o jeito certo de se dançar Malibu Nights.
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  Abri a boca para responder, mas seus olhos focavam exatamente no ponto entre meu queixo e o lábio inferior e uma onda de pânico me tomou. Precisava lhe dizer que ele não podia me beijar – de novo, como já tinha dito antes, mas agora de um jeito desesperadamente sério. Dei um passo para trás, vasculhando o loiro de Felicity novamente, e ri com nervosismo quando tirei seus braços devagar de mim, me preparando para dizer que ia encontrar minha amiga quando ele franziu a testa de repente e tateou os bolsos de trás, puxando seu telefone aceso e encarando a tela por um tempo.
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  — O que foi? — perguntei. Ele suspirou alto e voltou a guardar o celular.
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  — Não sei, parece que o Namjoon quer acertar um detalhe da música nova agora — ele respondeu confuso, e um tanto aborrecido — Parece que vai ser rápido. Você se importa?
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  Levei um tempo até me tocar do que ele pedia e respondi:
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  — Não, claro que não. Vai lá.
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  Ele bagunçou rapidamente o meu cabelo e saiu, me deixando meio confusa pela mudança repentina, mas estava tudo bem. Era sempre satisfatório ver Jungkook correndo de encontro ao seu verdadeiro amor.
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  Me voltei para a rota de Felicity, preparada para dar uma descansada e aproveitar para destilar o relatório completo das tentativas falhas que tinha feito até então, mas outra imagem chamou minha atenção antes que eu chegasse até ela.
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  Há alguns metros da minha amiga, perto da varanda de trás, Jaehyun ria e conversava com uma garota alta e belíssima. Eu normalmente não rotulo mulheres aleatórias desse jeito porque acredito fielmente nesse papo de que uma beleza não anula a outra, mas aquela beleza específica era facilmente a maior da festa. Era linda, com tranças, pele negra e vestido branco brilhante. Ela poderia facilmente ter saído de uma capa da Vogue, ou de um desfile da Dior.
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  E eles pareciam entretidos o bastante no assunto, como se já se conhecessem, talvez até mesmo dos desfiles da Prada, isso se toda a minha rápida adivinhação de que ela era uma modelo estivesse correta. Mas não tinha como pensar outra coisa. E não tinha como supor que Jaehyun não gostasse de modelos. Quem não gosta de modelos, caramba?
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  Murchei instantaneamente, sem motivo. Ou por um motivo muito do estúpido. Rivalidade feminina era uma imbecilidade, mas ciúmes era natural, mesmo que controlável. Era o que eu estava sentindo naquela hora, e tive mais certeza quando tive o ombro balançado, tirando minha atenção da visão que tinha levado uma parte da minha animação.
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  — ? Tá tudo bem? — Felicity tinha a testa enrugada de preocupação. Eu não disse nada, mas também não precisei; em um segundo, ela já seguia o meu olhar direto para os dois — Uau. Quem é aquela deusa?
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  Estreito os olhos. Deusa?! Ela tá de brincadeira?
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  — Desculpa — se corrigiu, abrindo um sorrisinho amarelo — Mas sério, não conheço ela, parece uma modelo. Será a número 3?
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  — Não faço a mínima ideia. E parece que é a 1 que está vindo.
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  — Hum… Ele pode estar distraindo ela para o amigo — ela tentou me convencer, ou melhorar a situação. Creio que minha cara não mudou em nada — Ah, por Deus, não fica assim, eles só estão conversando. E rindo a beça, mas e daí, ele ri de tudo, você sabe. Não quer dizer que ele vai beijá-la.
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  — Eu não gostaria disso — falei sem perceber, me achando tremendamente ridícula logo depois. O que eu tinha que gostar? Nada! Como eu poderia dizer isso sobre um cara sem nem saber se ele ainda queria realmente me beijar de volta?
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  Bem, doeria um pouco se acontecesse. E eu me veria novamente na situação deplorável de juntar os caquinhos do meu coração e seguir em frente, mas olha só, não era uma experiência tão traumática assim. Não morri da primeira vez e não seria agora que morreria.
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  Mas dói, não é? E sentir dor é uma merda.
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  Senti Felicity pegar em minha mão, chamando minha atenção de novo. Minha palma estava suada, mas ela não parecia se importar.
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  — É só chegar e falar com ele. Já não fez isso hoje?
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  — Você viu? — a pergunta não precisava exatamente de resposta, que veio com sua cabeça assentindo devagar. Era óbvio que Felicity e Mingyu devem ter cochichado pelos cantos quando bateram os olhos na interação do início. E pelos seus olhos esperançosos, eu estava indo tão bem quanto imaginei. Mas agora, apenas repuxo os lábios e baixo os ombros, suspirando para dizer: — Acho que preciso de uma bebida primeiro. Talvez duas.
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  Vendo que era um pedido razoável, já que eu não estava bêbada, Felicity apenas assentiu e passou um dos dedos nas minhas bochechas, afiando os olhos na permanência da minha maquiagem e mandei-lhe um beijo no ar, seguindo na direção contrária à Jaehyun, enxergando a primeira bancada móvel parada perto de um círculo na sala, onde tinham dois sofás e alguns pufes completando o ciclo.
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  Agarrei uma cerveja e despenquei no sofá de couro, tomando o líquido gelado com pressa. Odiava isso. Odeio voar nas minhas inseguranças, deixar que elas ditassem o que eu sinto – que, geralmente, não era nada que ajudasse. Felicity estava certa, eles estavam apenas conversando. Por que sentia que, a qualquer momento, os dois sairiam pela porta em direção a um helicóptero escrito felizes para sempre?
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  Deus do céu, a insegurança e o ciúmes juntos era uma conjugação extremamente catastrófica.
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  Encosto a cabeça para trás, deixando a cerveja pela metade na mesinha frágil e redonda de madeira ao lado do braço do móvel. Luto contra a vontade de olhar por sobre o ombro para eles. Ridículo, ridículo. Será que eu seria capaz de dar um sorriso confuso se os visse de mãos dadas?
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  Um barulho estranho de náusea me faz olhar para a frente. Um cara parado há alguns centímetros de mim coloca as mãos na boca, olhando desfocadamente para o chão, onde os meus pés estão bem ordenados em cima do tapete azul marinho.
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  Mais um barulho e o bolo sobe em sua garganta, mas não tive tempo de pensar ou de agir.
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  — Opa! Opa! Calma lá, amigão, aqui não — Perto do pior acontecer, o garoto some da minha visão panorâmica quando é empurrado para a frente, recebendo o tranco que precisava para tropeçar e sair correndo em direção a um banheiro – ou os pés de outra pobre coitada.
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  Quando olho para cima, encontro Eunwoo com os olhos semi abertos e se jogando ao meu lado do sofá imediatamente, recostando a cabeça como eu fazia antes.
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  — Aish. Odeio isso — ele gritou para si mesmo — É louco o que o álcool faz com o organismo de uma pessoa. Esse cara ia vomitar as tripas bem aqui no pé da senhorita… Ah, é você, !
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  — Meu deus, era só o que me faltava… O que você bebeu? — pergunto ao notar os sinais claros de sua embriaguez total. As bochechas estavam vermelhas como os olhos, e o cabelo parecia ter sido bagunçado e arrumado 40 vezes em um espaço de horas.
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  — Eu bebi umas cervejas. Aquela coisa vermelha tinha uma cara estranha… E Yugyeom me deu um cigarro… Que agora acho que não era bem um cigarro.
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  — Sei. Minha nossa. Tomara que nenhum vizinho chame a polícia, seria vergonhoso pra vocês.
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  — Qualquer coisa, o JK paga. Sabe, não é? Ele é rico e tudo mais — ele berrou uma gargalhada, e sufoquei minha própria risada para não cortar suas asas e dizer que o amigo milionário não estava mais aqui.
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  — Você não acha que é rico também? — levanto os ombros enquanto mando mais um pouco de bebida para dentro. Ficava quente a cada minuto que passava.
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  — Eu sou bonito, isso conta? — Eunwoo arqueou as sobrancelhas daquele jeito magicamente ordinário, que era mais engraçado do que sedutor — Ei, por que você tá aqui com essa cara triste e não tá dançando como todo mundo? Tem espaço o suficiente para todos os passageiros darem o seu show, ninguém vai ficar nos fundos.
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  — Desde quando sou boa em dançar como todo mundo, piloto? — ri, porque ouvi-lo dizer passageiros foi mais engraçado do que pareceu.
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  — Você dançou bem na viagem naquele dia.
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  — Você estava me conduzindo, lembra? Pisei no seu pé várias vezes.
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  — Ah, então é por isso que estavam doendo no outro dia — ele refletiu com os olhos ainda vagos. Bem, como ele poderia se lembrar disso se tinha voltado para casa deitado no banco de trás do carro enorme de Yugyeom preso pelos cintos de segurança de cinco pontas que pareciam pertencer a um caça de Guerra nas estrelas — Mas não tem problema, podemos dançar agora, eu posso te ensinar…
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  — Não, de jeito nenhum. Você sabe o que é não estar no clima de alguma coisa, Eunwoo? Essa sou eu agora, tudo bem? Sem-clima. Fora que sou uma passageira especial que precisa ser amarrada de maneira mais segura que o resto pra não cair nesse chão ensebado, me entende? Só me deixa sentar e sofrer em paz.
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  — Por que você quer sofrer em paz? Aliás, por que você quer sofrer? É uma festa, caramba! — ele escorregou para mais perto de mim, genuinamente indignado — E para de falar como se esperasse que as pessoas te joguem contra a parede caso você dê uma escorregada. É um dia muito importante pro Yug.
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  — Juro que se alguém repetir essa frase mais uma vez hoje, vou enlouquecer.
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  — O que? Que é uma festa? Mas o que você acha que isso é, ?
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  Ele estava seriamente confuso e desentendido. Olho para ele com uma expressão meio atônita, até revirar os olhos e desistir de explicar antes mesmo de começar. O álcool fazia Eunwoo se tornar mais lerdo do que todos os lerdos juntos.
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  — Eu acho que você tá chapado e que tem muitas coisas mais interessantes de se fazer chapado do que perder tempo com alguém infeliz que só quer se isolar num sofá. Então… — e ele começou a rir, afundando-se ainda mais no assento, balançando a cabeça de forma totalmente desorientada.
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  — Meu deus, acho que não entendi nada do que você falou, mas você ficou bonitinha falando.
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  Levantei uma sobrancelha, não sorrindo quando olhei para ele.
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  — Ah, que legal, obrigada?
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  — Eu sempre te achei bonitinha, na verdade. Mesmo que você fosse muito mais engraçadinha — rindo de novo, ele deu um soquinho no meu braço, me confundindo com um dos seus amigos de 1,82 — Mas é bonita, você é mesmo bonita.
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  Reviro os olhos de novo, tendo certeza de que, se não o desse a atenção que queria, ele logo se levantaria ou simplesmente dormiria naquele sofá. Olhei para o lado de novo, como uma última esperança, vendo Jaehyun no mesmo lugar, com a mesma pessoa. Quis levantar daquele assento e me enfiar no meio da massa humana, chamar Felicity para dançar na outra extremidade bem longe daquela visão e ficar bêbada de uma vez porque era o único jeito que me faria esquecer de Jeong Jaehyun por algum tempo.
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  — Posso fazer uma pergunta? — Eunwoo questionou de repente, com o restante de um sorriso enquanto brincava com as faixas amarradas no pulso.
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  — Vai fazer você sair daqui logo depois? — perguntei com um suspiro. Eunwoo juntou as sobrancelhas, claramente confuso, e revirei os olhos — Claro, fala. Não tô fazendo nada mesmo.
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  — Você tem algum namorado ou seu foco é mesmo o JK?
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  Giro o corpo subitamente, inclinando a cabeça para o lado em uma surpresa atrapalhada.
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  — Da onde você tirou isso?
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  — Qual parte?
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  — As duas, elas… Vocês… — tento, mas é claro que não ia dar certo explicar. Alguns minutos mais tarde, desisto completamente. Porque é claro que paixonites como as minhas não passavam batido, é claro que alguém perceberia de Jungkook, e me pergunto agora por quanto tempo já devem ter chegado àquela conclusão óbvia. Talvez desde que me conheceram, ou dois dias depois disso — Tá bom, esquece. A resposta é não. Para as duas perguntas — e fui totalmente sincera. Chego mais para a frente no assento do sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos, e Eunwoo acompanha o movimento.
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  Vi que ele sorriu largamente, e não soube interpretar aquilo de imediato.
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  — Sério? Sempre achei que você gostasse dele. E ele é meio pateta, mas sempre acaba descobrindo no fim, então se você desistiu pelo cansaço…
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  — Não tô apaixonada pelo JK, Eunwoo. Pode ficar sossegado e não forçar demais sua cabeça por causa disso — fui efusiva e sincera, de novo. Estava tudo bem pensarem que eu nutria uma paixão pelo meu melhor amigo; também estava tudo bem pensarem que isso durava há mais tempo do que imaginavam. Mas se Eunwoo decidiu perguntar agora, talvez algo tenha mudado na concepção de todos, e não sei o que pensar sobre isso.
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  Quanto tempo duraria até se tocarem do outro cara que eu gostava?
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  — Sério? Isso torna as coisas melhores, então — falou, virando-se para mim, incrivelmente animado com o que quer que estivesse planejando — Acho que tô muito doido, mas quero fazer uma coisa.
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  Espero para ver o que é mas, aparentemente, aqui as coisas precisam ser faladas para mostrar que estávamos escutando.
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  — O que você quer fazer, Eunwoo? — pergunto com a voz um pouco entediada. Ele, então, emite um sorriso lascivo, com olhos brilhando de empolgação quando salta para cima de mim.
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  Eu até tinha uma compostura minimamente refinada a alguns momentos atrás. Mas agora, ao ver e entender horrorizada o que Eunwoo pretendia, não pensei duas vezes antes de colocar os braços para a frente do corpo, empurrando seu peito para o lado e derrubando não só ele, mas a bebida no braço do sofá inteira em meu tronco, descendo perigosamente para o colo.
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  — Eunwoo! Você ficou maluco, seu idiota? — grito, já de pé. Ele gemia no chão, pondo uma das mãos no joelho, que não me lembro de ter chutado.
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  — Ai! ! Sem agressão, lembra? — ele geme mais uma vez, tentando agora se sentar. A esta altura, toda a alegria íntima que impregnava a festa tinha se esvaído e os pares de olhos observavam atentamente à pequena confusão, que consistia em uma garota de pé e encharcada com cerveja e um cara chapado resmungando no chão.
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  — Você pediu por isso, imbecil! Qual é a sua? — continuei grunhindo, sem dar atenção aos demais. Estava com raiva, com muita raiva. Esperava atitudes como aquela de uma hora para outra de qualquer babaca daquela festa, menos de Eunwoo, porque era Eunwoo, caramba!
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  — O que tá acontecendo aqui? — Mingyu costurou a rodinha junto com Felicity, encarando a mim e ao amigo sentado no chão com as sobrancelhas juntas. Felicity se colocou entre nós dois, olhando para o meu estado com uma feição nada animadora.
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  — Puta que pariu, isso era um Balenciaga!
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  Bufei. Me inclinei para ela como se estivesse prestes a dizer algo, que soaria como um “me tira daqui imediatamente, por favor”, mas, quando girei a cabeça, vi outra pessoa bem ao lado de Mingyu, encarando a situação com a mesma confusão, e com os olhos chamuscados de compreensão.
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  A modelo da Dior estava muito longe, lá no fim da outra parede. Sozinha.
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  — Era só um beijinho, , que horror… — Eunwoo continuou se lamentando. Antes que eu dissesse alguma coisa, outro grito saiu na minha frente:
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  — Você fez o quê?! — Jaehyun deu um passo à frente, as veias saltadas na têmpora de um jeito anormal.
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  Eunwoo apenas balançou a cabeça, ainda meio desorientado.
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  — Foi sem maldade, cara, eu juro. , foi mal…
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  — Caralho, seu…
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  Mingyu colocou uma mão nos ombros de Jaehyun, olhando para ele com a testa franzida, balançando a cabeça em negação logo depois. Jaehyun pareceu entender o que quer que fosse, e Mingyu puxou Eunwoo do chão pelo cotovelo, jogando-o no sofá.
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  — Da próxima vez, vai ser sem erva pra você — Ele murmurou, e percebi Felicity olhando para dois pontos: um era o rosto vermelho e sonolento de Eunwoo e o outro era a face também avermelhada de Jaehyun, mas com os lábios cerrados e expressão endurecida de raiva, que também focava em Eunwoo.
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  Vi Felicity sorrindo pelo canto do olho, mas ignorei. Não era engraçado, caramba. Mingyu também percebeu isso, porque abriu os braços e disse diretamente para o amigo:
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  — Ele tá doidão, como sempre. Não lembra da última vez que ele ficou assim, Jae, lá em Itaewon? É um idiota — Mingyu deu tapas nada afetivos nos ombros de Eunwoo, que balançaram seu corpo inteiro, como se ele fosse uma piada complicada demais para explicar.
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  — Tá, tá, ele foi um idiota, mas ele tá bêbado e chapado, tudo bem. Só ganhei um banho e uma decepção, é sério — Intervi, caminhando um pouco na frente, trazendo o olhar de Jaehyun até mim. Ele me encarou e revirou os olhos, agarrando um tufo de cabelos devagar, relaxando.
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  — Você precisa ir se limpar — Felicity chegou novamente do meu lado, e me virei pra ela.
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  — Pra ser honesta, eu preciso ir pra casa, Felicity. Se você não se importa.
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  — Mas…
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  — Eu pego um táxi, tá tranquilo. Cuidem do Eunwoo.
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  — Eu te levo pra casa — Jaehyun disse, a voz mais tranquila do que pensei, mas os olhos ainda mirando Eunwoo com seriedade, o que me surpreendeu um pouco. Eu precisava que ele parasse de olhá-lo antes que o atacasse como um animal selvagem.
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  — Tem certeza? — perguntei, trazendo seu rosto com o nariz incrivelmente reto em minha direção de novo.
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  — Claro. Faço questão.
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  E seu tom de voz era mais incisivo do que antes. Faço questão. Eu senti que ele fazia mesmo. Como se também estivesse doido para ir.
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  Bom, nisso queríamos a mesma coisa.
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  — Tudo bem. Vamos.
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11 – Beijo

  Minha sala era bela como um supercomputador.
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  À primeira vista, já se entendia o que ela mais entregava: luzes. Com um estilo elegante, mas utilitário, claro. As luminárias eram um conjunto de know-how de ponta, caro demais para a maioria das pessoas entender porque eram tão úteis.
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  Bom, era uma das poucas coisas que tinha comprado de acordo com minha própria cabeça, para ser sincera. Porque quando se tratava de dinheiro, eu não era facilmente influenciada.
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  Jaehyun pareceu impressionado. Quando falei aos quatro ventos para que as luzes principais se acendessem, um fundo falso na parede bem ao seu lado respondeu em uma voz extremamente real, e a lâmpada acima de sua cabeça piscou em várias cores diferentes até estacionar na alaranjada padrão.
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  Deixei meus sapatos na soleira, andando rapidamente até onde pudesse pegar o primeiro guardanapo de papel para melhorar o aspecto da minha roupa enquanto ele se manteve retraído na entrada, olhando para os lados como se entrasse em um beco desconhecido.
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  Bom, minha casa era, de certa forma, desconhecida pra ele, mas sua expressão demonstrava também um certo receio.
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  — Vai ficar parado aí até quando? — soltei uma risada divertida, apontando para dentro da casa — Relaxa, não tenho nenhuma vidraria cara o bastante. Eu protejo minha casa de mim mesma.
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  Ele deu um leve sorriso fraco. Minha mãe colecionava pratos decorativos raros com o mesmo fervor obsessivo que eu me mantinha longe deles, então morar sozinha era um espaço amplo, seguro e, de certa forma, simples. A ideia de que Jaehyun, agora, se libertava das amarras e retirava os sapatos enquanto olhava para todos os cantos completamente interessado no meu cantinho, me deixou muito feliz sem motivo aparente.
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  E, bom, quando pousou os olhos mais atentamente em cima dos porta-retratos enfileirados perto da TV, soube que fotos de família eram bem mais interessantes que pratos decorativos que custam uma fortuna. Eu tinha muita dificuldade em ver atração em um objeto roubado de sua finalidade original.
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  E a coleção dela ainda tinha aparecido em revistas e tinha um seguro bem maior que o do meu pai, então claramente ela não estava sozinha em sua paixão.
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  — Bonita casa — murmurou ele, com um leve suspiro — Parece bem a sua cara.
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  — Você acha? — ergui uma sobrancelha porque fui genuinamente pega de surpresa, mas o calorzinho no peito se seguiu como eu esperava. Ele disse isso porque reparava em mim, certo? Porque ainda fazia isso, independente de tudo que se passou.
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  Jaehyun estava sério. Provavelmente porque pensou a mesma coisa que eu, que tinha demonstrado o que não devia.
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  — Claro. Tudo se parece com você.
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  Assenti devagar, mordendo um lábio e desviando os olhos.
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  — É… Eu vou lá dentro trocar essa roupa, talvez tomar um banho porque acho que alguma coisa pegou no meu cabelo também, então… Você não precisa ir embora — me adiantei, dando alguns passos para trás em direção ao quarto — Na verdade, você pode ficar à vontade, eu não vou demorar. Se ouvir algum barulho estranho pela casa, é só o meu aspirador robô, ele anda ligando e desligando sozinho às vezes. Então…
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  — Você já comeu? — perguntou ele antes que eu dissesse mais alguma besteira.
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  — Não — balancei a cabeça em negação, sentindo uma onda de expectativa. Por favor, diga o que estou pensando, diga o que estou pensando…
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  — Tudo bem, você… Quer jantar ou algo assim?
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  Ah, Deus!
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  Prometo que esse ano vou comprar presentes de natal para todos os desabrigados de Seul.
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  — Quero! Claro que eu quero — ri de maneira nervosa, brincando com a barra suja da minha blusa — Tem alguns números de delivery na geladeira, se você quiser…
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  — Na verdade, vou ver o que tem pra cozinhar, se não se importa.
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  Meu estômago afundou. Abri a boca para dizer alguma coisa, mas eu não dizia nada. Tinha medo de que saísse um: minha nossa, você vai cozinhar? Tem como se segurar aí antes que meu coração exploda?
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  — Claro, claro. Como eu disse, fica à vontade. Eu não me importo — dei um grande sorriso, que acho que estava grande demais e comecei a caminhar de vez para o banheiro — Eu volto já.
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  Vi seu último sorriso pairar no ar antes de me virar e quase correr para a porta, encostando as costas nela assim que a fechei. Minha nossa, eu não acreditava que estava acontecendo. E talvez eu devesse me controlar e levar a situação como normal porque não queria dizer nada, absolutamente nada; eu devia me tornar as vidrarias da minha mãe e me manter parada sem quebrar, porque não queria confundir as coisas, não queria. Eu não precisava disso, mesmo que a euforia tomasse conta de mim como um tsunami.
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  Tomei um banho relativamente longo, mas não tinha a nada a ver com fazer charme. Meu cabelo estava com cheiro de cigarro e minhas pernas meladas com a bebida, igualmente minhas roupas e fora a maquiagem toda fora do lugar. Quando saí, penteei o cabelo, coloquei meu pijama, que consistia em uma blusa enorme de mangas com um shorts não tão enormes assim e respirei fundo antes de sair de novo.
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  O cheiro de cebola e molho de pimenta me pegou de jeito assim que coloquei os pés para fora. Senti a barriga roncar de um jeito tremendo e caminhei em direção à cozinha, vendo uma cena difícil de ser superada:
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  Jeong Jaehyun cozinhando. Jeong Jaehyun mexendo em uma panela. Jeong Jaehyun cozinhando e mexendo em uma panela de gola alta.
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  Quis perguntar ao universo o que, afinal, ele queria de mim.
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  Sanidade não era a resposta.
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  — Uau — comentei, me aproximando da bancada. Ele levantou os olhos imediatamente — Eu devia ter dito pra você cozinhar desde o início. Então ignora o que eu disse sobre os deliverys.
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  Ele deu uma risadinha e vi que ficou desconcertado por um momento. Olhou de mim para a panela várias vezes até limpar a garganta e se concentrar no molho vermelho que remexia, e vou colocar a culpa disso no cheiro do meu xampu e um pouco nos shorts.
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  — Pode sentar, já tá quase pronto.
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  — Tudo bem, chef — zombei, sentando-me na mesa redonda não muito longe dali, puxando um joelho para cima — E não se preocupe em procurar travessas, nem todas elas são de vidro, pelo menos não por aqui. Quer dizer, eu não compro nada de vidro, sabe.
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  Ele riu pelo nariz e depositou a comida já dentro do prato. De apenas um prato.
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  — Acho que sua mãe não ia gostar de travessas de plástico.
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  Meu rosto de repente passou de duro a muito duro. Olhei para o prato que ele depositou na minha frente e pra ele logo em seguida, ainda de pé.
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  — Não vai comer? — perguntei, soando ligeiramente magoada.
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  Ele desviou brevemente os olhos até responder.
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  — Eu…
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  — Quem faz o jantar pra não comer? — olhei carrancuda para o relógio brega na parede — Ainda é cedo, e ainda tem comida. Vamos.
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  Jaehyun coçou a nuca. Eu não queria pensar em quanto tempo ele tinha investido naquela receita de macarrão com molho, manjericão e tomates cereja, mas queria sua companhia ali. Queria mais do que tudo. Queria ele utilizando as únicas coisas de vidro que eu tinha na minha casa.
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  Ele assentiu depois de um tempo, sentando-se do outro lado à minha frente, colocando os antebraços na mesa.
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  — Tudo bem, vou te fazer companhia — disse, segurando um sorriso, e eu não parecia mais desapontada. Mas apenas concordei, sem demonstrar tanto a ponto de o deixar desconfortável e comecei a comer sua grande criação.
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  — Você é um homem de muitos talentos — estreitei os olhos, distraída enquanto enrolava alguns fios de macarrão no garfo — Teve a audácia de fazer um espaguete para mim à moda italiana.
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  — Já foi pra Itália?
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  Eu dei de ombros.
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  — Uma vez. Com 10 anos, eu acho. Mas tem coisa que fica gravada na memória, sabe.
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  — Se eu te dissesse que nem pensei nisso na hora de fazer e simplesmente coloquei o que tinha?
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  — Eu ia adorar. Juro. Conhecimento demais é mesquinho, arruina refeições perfeitamente saborosas.
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  Ele riu, e que sorriso. Acompanhei sua risada com gosto, até que o silêncio pairasse novamente no ar.
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  Ele dominou por um tempo, até que Jaehyun erguesse mais os ombros e saísse da postura de relaxado.
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  — Desculpa pelo Eunwoo hoje — disse quase em um sussurro — Quando ele fica bêbado é uma dor de cabeça, você sabe. Mas bêbado e chapado é realmente um combo complicado, então desculpa… Tenho certeza que ele vai se sentir mal amanhã.
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  Neguei com a cabeça. Não queria começar a pensar em Eunwoo. Eu estaria mais zangada se ele, por acaso, tivesse conseguido o que queria, mas não. E ver Jaehyun preocupado com o assunto só reforçou o que sempre pensei: aqueles garotos se matavam quando estavam juntos, mas se defendiam e cuidavam no primeiro dar de costas. Jaehyun, como o mais velho do grupo, parecia ter isso de sobra.
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  Algo sobre esse fato sempre me desconcertava. Desde antes de todas as minhas descobertas internas. Como se ele, de algum jeito, sempre teve meu respeito e admiração.
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  — Tudo bem, não precisa se preocupar. Eu poderia ter jogado algo mais pesado pra ele apagar de vez, Eunwoo não saberia dizer o que o atingiu no outro dia — dei mais uma garfada no macarrão. Ele fez o mesmo — Você está bem calmo pra quem parecia que estava prestes a dar um soco nele.
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  — Disse que ele errou, não disse que não merecia um soco.
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  — Ah, claro, ‘tá certo. Gosto dessa amizade — tirei uma folha de manjericão do prato, afastando-a até o canto. Jaehyun notou e ouvi sua risadinha — Desculpa, não sou muito fã de manjericão.
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  — Eu sei que não é. Por isso não coloquei — ele trouxe a folha para mais perto do meu prato de novo — Isso é folha de hortelã. A folha de manjericão tem um aspecto mais liso. Devem estar quase vencidas para não exalar tanto cheiro, mas as diferenças visuais são bem perceptíveis.
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  Dentro do recipiente onde tinha depositado a comida, havia várias. Ele pegou e colocou uma na boca, encarando pensativamente sem foco como quem aprecia e investiga a qualidade de um sabor, mesmo que provavelmente já tivesse feito isso antes. O jeito como os cantos de seus lábios se mexiam e seus cotovelos se mantinham parados e retos na mesa me trouxe uma imagem familiar; Jeju, céu azul, cafés da manhã e areia branca serpenteando abaixo de nós.
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  Queria sentir o gosto daquele hortelã. Queria sentir o gosto daquela boca.
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  Minha nossa, qual era o meu problema? Meu juízo estava fora do ar.
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  Limpei a garganta seca e voltei a comer, um pouco mais rápido dessa vez, torcendo para espantar todos os pensamentos afoitos que me fariam meter os pés pelas mãos.
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  — Sempre com informações legais e relevantes, Jeong — murmurei, engolindo a comida a ponto de quase finalizá-la — Como no dia dos caranguejos, lembra? Foi quando você pegou aquelas conchas e fez isso aqui… — trouxe o pulso para perto do peito, colocando-o no centro da luz do pendente em cima da mesa. A pulseira refletiu e se destacou.
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  Jaehyun desviou brevemente os olhos, mas ainda lançou um pequeno sorriso de canto.
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  — É. Fico feliz que gostou.
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  — Queria ter agradecido antes. Quando recebesse pessoalmente…
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  Ele se remexeu em seu lugar, e juro que quis me jogar pra debaixo da mesa porque não queria fazer uma curva tão perigosa no assunto, mas era mais forte do que eu. Minha voz exalava tristeza e arrependimento, mesmo que nenhum dos dois tivesse culpa de nada. Ele bateu com o polegar algumas vezes no tampo, franzindo os lábios por um momento antes de suspirar.
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  — Acho melhor eu ir.
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  E então, arrastando a cadeira para trás, ele simplesmente se levantou e começou a caminhar para a entrada.
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  Fechei os olhos com força, tomada pela frustração e pela raiva da minha própria burrice, mas também pelo descontentamento com sua atitude frígida em não conversar. Bufei, me levantando poucos segundos depois e indo ao seu encontro já no meio da sala.
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  — Essa é a hora que poderíamos falar sobre isso — soltei, agarrando em seu cotovelo, fazendo-o parar sem grande esforço, o que me mostrou que ele não queria realmente ir embora. Qual era o problema comigo? Qual era o problema com ele? — Falar de verdade, eu quero dizer.
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  — Você precisa de mais alguma coisa? — perguntou em um tom incisivo. Apenas sacudi a cabeça negativamente — Então podemos deixar isso pra outro dia?
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  Foi uma pergunta sincera, igualmente receosa. Seus olhos eram literalmente os olhos de um fugitivo. Eu suspeitava que ele estava escondendo mais do que mostrava, escondendo muitas coisas. Como se ele mesmo suspeitasse de todos os seus instintos, assim como eu fazia com os meus.
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  Mesmo assim, preferi apenas segurar o bolo na garganta e não ir em frente com toda a minha bravura que acabava de murchar.
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  — Tudo bem — concordei a contragosto. Ele esperou um momento até anuir e recomeçar seu trajeto.
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  Tinha algo naquela feição que me tirava a compostura. Tinha algo nas veias saltadas nos braços que chacoalhava minha mente. Tinha uma resposta que eu precisava saber para, finalmente, ficar mais calma e tranquila e que só Jaehyun poderia me dar.
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  Andei mais rápido, puxando-o novamente para trás antes que ele alcançasse a soleira. Tomei meus 5 segundos de coragem insana e perguntei:
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  — Você ainda pensa? — olhei fixamente em seus olhos confusos e continuei: — Ainda pensa naquele beijo tanto quanto eu?
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  Vi todo o seu maxilar trincar em um segundo. Os olhos saíram, rodaram pelo ambiente e voltaram para os meus, escurecidos. As pupilas se dilataram ainda mais do que antes.
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  — Não vamos falar sobre isso agora…
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  — Corta essa, Jeong Jaehyun, sei que você ‘tá apaixonado. E também ‘tá com medo, eu entendo. Descobrir que gosto de outro cara depois de achar que sempre gostaria de um também é um terreno estranho pra mim, é sério. Mas quer saber? É o que está acontecendo.
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  — … — disse ele, com uma das mãos na nuca.
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  — Você foge daquele beijo porque pensa que não foi pra você, então por que não me deixa te dar um beijo de verdade? Um beijo seu.
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  Levantei uma sobrancelha, chocada com a minha naturalidade. Não houve resposta por um tempo, mas Jaehyun não moveu um único músculo.
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  — , você…
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  Não deixei que ele falasse ou me impedisse; só fiz. E fiz rápido, antes que o medo me tomasse e eu voltasse atrás. Levantei os pés para agarrar sua nuca e beijar sua boca com força, com afinco, com todo o desejo que eu estava guardando desde o fim daquela viagem, toda vontade mínima e sorrateira que apareceu até antes dela.
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  Como imaginei, Jaehyun não mostrou resistência em nenhum instante.
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  Com as mãos em torno de seu pescoço, senti que o chão ali naquela sala tinha virado geleia e seu corpo era o único lugar que eu poderia segurar pra não ser levada. Ele estava inclinado na minha direção, agora espalmando os dedos em volta do meu quadril e me beijando com uma intensidade tão maluca que deixou minha mente em pane. Fui transportada para a primeira noite em Jeju imediatamente. Em cada detalhe e sensação.
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  Eu não tinha mais dúvidas que foi aquele cara que tirou meus pés do chão naquele dia. O cheiro, a língua, as mãos, os braços… Era genuinamente o mesmo, e torci para que meu coração ficasse onde estava, que eu pelo menos chegasse consciente ao fim daquilo tudo.
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  Não sei como minhas pernas foram movimentadas, mas senti a parede de encontro às minhas costas como um baque distante. O som de um objeto indo ao chão era como se tivesse acontecido do outro lado da rua. Minha blusa tinha subido e pude sentir aqueles dedos firmes delineando o longo e delgado triângulo das minhas coxas, junto com a outra que se mantinha parada na minha cintura porque tinha medo de avançar para qualquer lado.
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  Ah, pelo amor de Deus, já não tinha dado sinais suficientes de que ele tinha sinal verde? Eu estava pegando fogo!
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  A mão de Jaehyun estava retesada sobre o meu corpo, mas sua boca fazia um trabalho perfeitamente satisfatório, como eu nunca havia provado antes. Infelizmente, eu precisava respirar. E, infelizmente, isso fez com que eu me afastasse a alguns centímetros, puxando o cós de sua calça para que ele se colasse ainda mais em mim.
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  — , porra… — ouvi sua voz invadir minhas narinas, e estremeci instantaneamente porque Jaehyun não falava muito palavrão, e quase me vi pedindo para que fizesse de novo, mas balancei a cabeça rapidamente e falei em cima de sua boca ofegante:
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  — Fica aqui.
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  Tempo suficiente para recuperação de oxigênio finalizado. Voltei a beijá-lo, com a estranha sensação de que nunca era o suficiente, nunca seria o suficiente. Os nós de seus dedos ao redor de mim eram pálidos, presos em pavor de deixá-los perder o controle e tocar onde aparentemente não podia. Muito aparentemente, porque essa parede já tinha me cansado e queria começar a seguir para o outro cômodo, um que ficava no final do corredor com a minha cama queen.
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  — Não… Não, não posso… — ele soprou por entre os beijos, ainda de olhos fechados, totalmente imerso, enquanto suas mãos me apertavam mais uma vez, acompanhadas de mais um beijo intenso, ultrajante, selvagem antes que ele me soltasse de vez e desse vários passos para trás, bagunçando os cabelos.
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  — Jaehyun… — tentei dizer com a voz que me restava, atestando meu estado deplorável: o cabelo era uma moita bagunçada, a blusa levantada até o meio da barriga, as pernas meio curvadas uma na outra, a respiração totalmente descontrolada. Ele me encarou e seus olhos faiscaram. As íris se tornaram escuras e opacas.
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  Havia algo particularmente íntimo a respeito da maneira como Jaehyun me olhava. E isso me tocava de um jeito irracional.
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  — Eu não… Não quero fazer isso, não desse jeito, não… Desculpa — ele parecia seriamente desnorteado. Andando de costas, ele alcançou a maçaneta da porta e algo na cena fez com que eu me sentisse estranha, deixada, frustrada — Preciso ir.
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  E ele saiu, quase correndo, e eu não queria pensar que tinha feito algo desagradável e que ele torceria para esquecer as palavras e tudo isso depois, mesmo que, fala sério, olha o jeito que ele me deixou. E o jeito que eu o deixei, é claro, porque logicamente ele estava tão maluco quanto eu.
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  Não sei por quanto tempo permaneci parada, imóvel, ponderando se me arrastava pela parede ou terminava meu jantar, ignorando todo o pesar que o modo como Jaehyun me beijou tinha me deixado, mas não queria me sentir para baixo depois de um amasso daqueles, então apenas bufei de consternação e corri para o armário embaixo da pia.
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  Isso mesmo, o lugar onde o álcool salvador de crises era guardado.
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  Se eu ficasse realmente bêbada essa noite, poderia gritar pela minha janela todo o bolo que se acumulava na minha garganta nesse exato momento; todo o bolo que não pude despejar em sua presença para que ele não fosse embora, mesmo que, no fim de tudo, ainda tenha ido de qualquer jeito.
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  E pelo menos o vinho não tiraria seu gosto da minha boca. Não se eu não quisesse. Porque ele estava gravado muito mais forte em minha mente, no coração e tudo isso.
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  Quando enchi a primeira taça, a campainha soou.
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  Virei a cabeça de súbito, o coração martelando no peito em expectativa. Larguei o vidro em cima da bancada, que rodopiou minimamente pela minha pressa e corri até a entrada, abrindo a porta apressadamente, o rosto sobressaltado.
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  Porém, meu pico de energia foi desligado aos poucos quando vi quem era.
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  — Mas o que houve?
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🙂🙃🙂

JAEHYUN

  Eu não sabia para onde estava indo.
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  O prédio dela não era tão grande quanto parecia. Mesmo assim, tive dificuldade em me apressar para me colocar dentro de um elevador, apertando o primeiro botão do térreo, forçando todo o meu juízo a se rastejar de volta para o meu cérebro.
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  Soltei a respiração finalmente quando a porta dupla se fechou. Apertei os olhos com força, inclinando a cabeça para cima, ofegando como se tivesse saído de uma maratona.
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  Pense em idosas, minha voz seguia em um pedido. Pense em desastres naturais. Em filmes de terror. Em coisas ruins, asquerosas ou vergonhosas. Só não pense no gosto de , é sério, não pense, não pense!
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  E eu já estava pensando de novo. Merda!
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  Os pratos decorativos da mãe dela, isso. Eles certamente quebrariam toda a harmonia do espaço particular de , que tinha sua personalidade gravada nos mínimos detalhes nas paredes. E era divertido ouvi-la falar sobre o que não teria, ou conversar sobre suas paranóias, que eram um tanto adoráveis, ou conversar… Só conversar.
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  Eu estava totalmente fodido. Totalmente.
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  Aonde eu iria parar com todo esse auto controle de merda que minha parte racional tanto insistia em manter?
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  Mal ouvi quando a porta do elevador finalmente abriu, sugando o ar fresco do lado de fora e me dando um motivo para mover as pernas. Pernas que andavam sem um destino, totalmente desorientadas, confusas.
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  Quando finalmente achei meu carro, não arranquei de imediato. Na verdade, estando ali dentro, escondido das luzes e dos estímulos do ambiente daquela caixa de concreto, só consegui respirar fundo e relaxar a testa no volante, desejando mais do que tudo refazer o caminho até o andar de cima, até aquela sala de novo, até a garota que bagunçou todas as minhas estruturas.
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  A voz dela estava gravada na minha cabeça, repetitiva como um sino de igreja, abafada e ofegante quando dissera: Fica aqui. Ficar. Uma palavra que resumia toda a pressão interna que me sufocava, o desejo perturbador que atropelava meu próprio eu.
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  Ficar era tudo que eu mais queria. E ficar era tudo que eu não podia.
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  Era como se tivesse invadido o espaço onde minha lista de princípios estava muito bem estabelecida e simplesmente transformado-a em uma folha de papel amassada. Todas as soluções que se passavam pela minha cabeça em esperar a hora certa já não tinham mais tanta importância. Nada tinha. Eu só conseguia pensar em seu rosto, seu cheiro, o beijo intenso que me torturava, testando meus limites, alucinando todas as minhas células.
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  Respirei fundo, agora tombando a cabeça para trás, bagunçando o que ainda não estava bagunçado do meu cabelo. O dia tinha sido cheio, recheado de flashes e fundos brancos, conversas razoáveis sobre o futuro da coleção e outra conversa sobre projetos prometidos que eu insistia em atrasar.
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  Alisei o porta-luvas, abrindo-o e encontrando o amontoado de papéis com rabiscos onde existia as únicas evidências de que eu estava realmente criando alguma coisa. Ali, os registros dos meus devaneios sobre tomavam forma em frases como I’d be a fool not to love you. Tosco, sem graça, pobre. Nada que chegava aos pés dela. Nada que chegava aos pés do que eu estava sentindo agora.
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  Porque a ansiedade desequilibrada do momento não me deixava ficar parado. Não me deixava seguir o caminho mais seguro e confiável da razão. Afinal, o que é plausível quando se trata de paixão, caramba? Tinha uma garota há alguns andares acima, completamente louca pra ficar comigo e eu só conseguia pensar na cena da areia em Jeju, naquele beijo perverso que me desestruturou por completo.
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  Olhei para os papéis atentamente, pensando no aqui e no agora. E aqui e agora, eles importavam. Eles diziam exatamente o que eu sentia, mesmo que de um jeito desorganizado e ilírico, mas guardavam toda a sinceridade que jamais pude dizer. Mas que não significava que eu não podia dizer.
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  Fechei a entrada, abrindo a porta do motorista ao mesmo tempo. Que se foda a razão. Que se foda Jeju. Eu tinha algo a ganhar ao me desorientar, ao me deixar levar pelos impulsos, e se isso fosse tirar todas essas amarras ridículas e fazer o que eu quero, eu faria agora. Sem me esquivar das soluções, e muito menos me esquivar da felicidade.
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  Apertei o botão do andar, jogando todos os pensamentos pra longe. Voltei a posição original de bagunçar o cabelo, respirar fundo e trocar o peso de uma perna a outra, sentindo a eternidade dos segundos passando, a eternidade dos números subindo e subindo e subindo…
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  Os controles do painel pararam quando o elevador estacionou e abriu, e meus pés se moveram por conta própria, dispostos a chegar o mais rápido possível, assim como meus braços quando apertaram a campainha, assim como meu coração que se debatia desesperado em ansiedade maluca, e minha boca que não estava disposta a falar, só em beijá-la de novo, e beijá-la pelo resto da noite…
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  Não demorou muito para que a porta abrisse. Soltei uma respiração pesada pelo nariz e mantive os olhos meio bêbados para a frente, ansiosos para vê-la, ansioso para deixá-los explicar por conta própria porque voltei, mostrando que tinha, finalmente, deixado todas as minhas neuras para lá, em algum ponto do mar de Jeju, onde eu nunca mais as encontraria e que, finalmente, minha resposta era sim.
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  E quando abriu a porta, esboçou a surpresa inesperada em seus olhos arregalados.
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  — Jaehyun… — ela sussurrou por entre os lábios, genuinamente chocada, e me segurei no batente para não jogar tudo para o alto e simplesmente atacar o que meus olhos estavam focando de um jeito frenético: sua boca, seu cabelo, seu quadril…
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  Tentar segurar um frenesi era mais difícil do que se pensava.
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  — , eu pensei e não quero mais pensar. Eu só quero que nós…
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  — Jaehyun?
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  Fui pego atentamente por uma voz masculina soando no fundo do apartamento. Inclinei a cabeça para seguir na direção do som, mas os passos já se aproximavam do batente. Passos familiares, assim como os trejeitos e, claro, o rosto revelado na luz baixa do limiar da porta.
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  — Ei, cara — Jungkook apareceu atrás de , abrindo um sorriso forçado, enrugando a testa em confusão — O que tá fazendo aqui?
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  Agora direcionei o olhar para , e depois para Jungkook, voltando para ela, que engolia em seco constantemente e abria e fechava a boca em tentativa de dizer algo, mas nada saía. Toda a adrenalina queimando nos meus músculos se esvaíram como fumaça. Qualquer brilho no meu olhar se apagou como o desligar de uma lanterna.
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  E toda a razão, que trancafiei na mais profunda gaiola da inconsciência, voltou a tomar toda a minha percepção.
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  — Eu… Só vim ver se ela estava bem — pareceu que tinham se passado quarenta minutos até aquela resposta sair. ainda não conseguia dizer nada e, quando tentou, Jungkook falou na frente:
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  — Ah, entendi! Por causa daquela merda do Eunwoo, não é? Mingyu me contou tudo quando voltei pra lá, quase fui pra cima daquele imbecil, a sorte foi que ele já tava apagado em um dos quartos.
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  Assenti no automático, sem saber para onde encarar primeiro. Jungkook ainda me olhava com confusão, sem entender porque eu demonstraria tamanha solidariedade com a ponto de dirigir até seu apartamento de novo, mesmo depois de Jeju e toda a volta de rotina frenética da cidade.
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  — Ele veio fazer a mesma coisa — ela disse rápido, cortando o momento, olhando de um para o outro com certo desespero — Digo, Jungkook apareceu aqui do nada…
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  — Do nada porque você decidiu desaprender a atender um telefone. E como eu não viria depois daquilo? Esqueceu que prometi te proteger dos meus amigos?
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  Desviei os olhos para baixo, travando a próxima lufada de ar na garganta. Ele não sabia. É lógico que não sabia. Mas, olhando para a forma com que ele me encarou quando cheguei, eu não a julgaria por causa disso.
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  Mas também não me julgaria por querer fugir daquele lugar de helicóptero naquele momento. Era mais rápido, e mais efetivo no quesito de desaparecer.
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  — Tudo bem, então… Fico feliz que você esteja bem — disse, com a voz enclausurada, sentindo tudo em mim desabar — Eu vou nessa.
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  — Jaehyun — rangeu os dentes.
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  — A gente se vê.
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  Não ouvi o resto. Meus pés, automáticos de novo, já partiam de volta para o elevador, pensando agora apenas nos quinze minutos de carro que levavam até minha casa e que eu provavelmente os faria em sete.
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  Ou menos. Ou mais. Ou o tempo que levasse para que todas as minhas frustrações fossem descarregadas pela janela.
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12 – Verdade

  O corredor ficava mais largo à medida que Jaehyun ia desaparecendo por ele.
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  Sem uma discreta intervenção divina, jurei que poderia cair de joelhos ali mesmo, tomada de frustração e derrota, tentando entender como um corpo simples e frágil como o do ser humano era capaz de aguentar baques tão violentos como aquele de agora: um pico extremo de euforia e outro extremo de desespero. A transição entre as duas coisas aconteceu de um jeito tão rápido que eu provavelmente não teria visto, ou assimilado a tempo, o que não foi muito diferente do que aconteceu, já que, quando entendi e coloquei os pés no chão, a única coisa que consegui pronunciar foi: Jaehyun.
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  E nada. Mais nada. Ele tinha ido embora do mesmo jeito, pela segunda vez, e agora eu não podia nem julgá-lo por isso.
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  Com a ruína do meu emocional ainda intacta, suspirei e fechei a porta, pensando seriamente em como faria para resolver a situação, ou o teor da mensagem que eu digitaria fervorosamente dali há pouco e nunca o enviaria, porque o conselho de Felicity parecia certeiro quando disse que esses idols não olhavam muito o telefone, e que principalmente coisas assim não se resolviam por aparelhos eletrônicos. Então, novas soluções pra não me martirizar teriam que surgir, antes que eu…
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  — Não sabia que Jaehyun conhecia o seu apartamento — a voz de Jungkook interrompe meus pensamentos, antes que eu me deixasse sair daquela casa com pijama e chinelos e fosse atrás de uma nova série de explicações.
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  — Não moro em um lugar vazio e cheio de vegetação, não é tão difícil de se achar — resmunguei, com a voz repentinamente cansada, suspirando mais uma vez — Agora pode me dizer o que aconteceu?
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  Ele não pareceu entender de imediato.
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  — Como o que aconteceu?
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  — O que você tá fazendo aqui? — perguntei em tom óbvio. Era visível o quanto Jungkook estava tentando se manter ainda mais em torno de mim, e todas as minhas tentativas de mostrá-lo que não era necessário não estavam funcionando.
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  — Eu já não disse? Vim ver como você está.
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  — Eu sei, mas… Eu não ‘tô doente nem nada parecido, não bebi o suficiente pra passar mal e definitivamente não preciso de uma babá, então…
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  — E desde quando esses são motivos pra eu aparecer aqui? — ele franziu o cenho, claramente confuso. Molhei os lábios e não tentei justificar sua impressão errônea. Tudo era errôneo — Agora existe um adicional pra eu tocar aquela campainha? Achei que eu pudesse vir a qualquer hora.
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  Dei um sorriso de canto ao analisar sua expressão levemente magoada. Não adiantaria de nada brigar com ele. Essa não era a minha intenção.
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  — Você pode, claro que pode — suspirei, apertando ligeiramente seu ombro — Mas é que… Acho que hoje eu tô um pouco cansada. Só isso.
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  Os olhos dele me fitaram em curiosidade, com um pouco de compreensão. É isso que se resumia nossa amizade, na grande maioria das vezes: eu entendo o que você quer e está tudo bem. E então tínhamos o nosso espaço muito bem delimitado. Esperava que fosse isso que ele estivesse lendo no meu rosto agora: que eu precisava de um tempinho na minha antes de qualquer explicação, independente de qual fosse.
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  Mas hoje era um dia atípico, e a próxima reação dele certamente foi a mais anormal que eu já vi.
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  Primeiro, ele encarou algum ponto atrás dos meus ombros, e então, se desvencilhou do meu toque, trincando um pouco o maxilar.
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  — Você estava cansada mesmo ou saiu mais cedo para um encontro?
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  Juntei as sobrancelhas, virando-me para trás rapidamente na direção da cozinha.
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  — O que? Ah, aquilo… — encarei a comida que tinha sobrado na travessa, levantando uma sobrancelha — Não é exatamente isso…
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  — É por isso que você tá me ignorando ultimamente? Porque decidiu que as coisas vão ser assim agora?
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  Algo dentro de mim ficou imóvel e muito quieto. Jungkook percebeu, mas continuou com aquele olhar que esperava uma resposta.
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  — Não é isso…
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  — Então o que é? — perguntou, em um porte indignado — Sabe, no mês passado, em Jeju, você disse que gostava de mim. Mesmo com toda a história do beijo que ainda não entendo, você disse isso. E eu pensei muito, fui um idiota, mas depois disse que gostava de você também, e daí recebo uma proibição? Pensei que isso resolveria os problemas de comunicação entre nós dois, que voltaríamos a ser como antes, mas te vejo cada vez mais distante, me evitando, me tirando da jogada sem mais nem menos…
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  — Por favor, esse é o pior momento pra gente falar disso…
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  — O pior momento? Você anda dizendo muito isso ultimamente, — ele bufou, afastando-se um pouco pelo tapete até o outro lado. Prendi o lábio inferior entre os dentes, pensando loucamente em mandá-lo embora porque tudo já estava uma ruína, não precisávamos piorar a situação, não precisávamos — O que tá acontecendo de verdade, ? Somos amigos e nos gostamos, por que não podemos voltar ao que éramos antes? Sem as meias palavras, sem todo esse joguinho…
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  — Porque as coisas nunca poderiam voltar a ser como antes, Jungkook! — arregalei os olhos, notando o trincar dos meus dentes, minhas mãos paradas no ar e a impaciência estampada no acelerar do meu sangue.
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  Ele se calou, com a cabeça movendo-se devagar, como se tivesse levado um susto. Baguncei meu cabelo, já caótico o suficiente e liberei um respiro grande pelo nariz, desejando que o tempo parasse e eu tivesse tempo suficiente para fugir, mas o azar…
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  O azar me fazia querer descarregar ainda mais.
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  — Olha, você quer saber a verdade? Tudo bem, lá vai: eu realmente fui apaixonada por você. Por meses. Não, desde que te vi pela primeira vez. E passei muito tempo sem poder dizer isso ou coisa parecida, porque olá, você é Jeon Jungkook! Mas decidi me confessar em Jeju. Achei que só falar bastaria, que eu poderia até mesmo repetir vez ou outra, que eu não esperaria nada em troca, mas eu estava completamente errada porque é claro que se espera uma resposta quando se conta uma coisa dessas pra alguém — movi ainda mais as mãos, agora respirando pela boca. A pausa de três segundos foi o suficiente para que eu visse Jungkook apertar os nós dos dedos — Sinceramente, Jungkook, a partir do momento em que te deixei saber dos meus sentimentos, nós nunca poderíamos voltar a ser o que éramos.
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  Por favor, não me odeie por isso, não me odeie. Faça de novo aquele olhar de compreensão, aquele em que estamos acostumados…
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  Ou seria muita hipocrisia pedir para que ele apenas aceitasse?
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  — O que você tá dizendo? — ele finalmente disse, lançando um olhar confuso e perdido em minha direção — Quer dizer, tudo bem, eu entendo o seu lado, confessar os sentimentos sempre deixa um elefante no meio da sala, mas é exatamente por isso que tínhamos que conversar sobre isso, e não ignorarmos o assunto como se ele não existisse. Digo, não mais. O tapete, se lembra? Ele não aguenta tanta coisa mal resolvida por muito tempo — agora foi a vez de ele falar o óbvio e eu ficar parada, baixando os olhos imediatamente diante da declaração, tentando evitar um descontrole emocional que não deixaria minhas palavras em ordem. Droga, odiava quando ele estava certo — E não que importasse muito. Afinal, eu disse que gosto de você também, lembra?
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  Levantei a cabeça em um jato, vasculhando todo o seu rosto até dizer, com a voz assustadoramente baixa:
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  — Você não gosta de mim, Jungkook — dei de ombros levemente, um movimento tão lento e automático que mal percebi que tinha feito. A testa dele se contorceu em mais uma expressão de incompreensão — Você não gosta de mim do jeito que pensa. Só tá com medo de me perder, e eu entendo isso porque sinto a mesma coisa, o medo de que as coisas mudem. Foi por isso que guardei a verdade por tanto tempo, por isso achei melhor ficarmos nas mesmas posições…
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  — , corta essa. Eu lembro o que eu disse. E não saio dizendo essas palavras pra qualquer pessoa, se digo que gosto de você é porque…
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  — Será mesmo? Será que só não ficou desesperado e confuso com o beijo, e achou que falar de volta era o significado de que as coisas não ficariam estranhas? — suspirei, mantendo o mesmo tom firme e ao mesmo tempo cansado ao continuar — Eu sei que você não diz essas coisas por aí. Mas eu também não sou qualquer pessoa, então eu entendo você ter se precipitado. Sentir vontade de me beijar é muito diferente de estar apaixonado. Eu sei disso, na verdade senti isso, com o…
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  Parei, assustada com o rumo que eu mesma estava tomando. Jungkook juntou as sobrancelhas, procurando as mentiras e omissões na minha postura, como sempre, devo dizer. Ele tinha essa bendita mania. Então, nunca era só falar. Nunca era só isso. Se não fosse 100% sincera, ele notaria…
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  — Com quem? — perguntou, fazendo sinal para que eu continuasse — O que você tá me dizendo?
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  Engoli em seco. Nada, isso é tudo, podemos mudar de assunto? Era o que eu pensei em responder na mesma hora. Alguma resposta curta e simples que tirasse seu foco da verdade.
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  Mas Jungkook ainda era meu melhor amigo. E ele ainda sabia tudo ou boa parte do que eu teimaria em esconder, e deixar as coisas explodirem na sua cara em uma revelação arrasadora que viesse depois não estava nos planos.
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  Fora que mentir para ele daquele jeito tão descarado me incomodaria pelo resto da semana, ou do mês, ou do ano, até que eu decidisse mostrar alguma coragem e contar.
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  Esse momento parecia ser agora. Por isso, guardei uma porção de ar na garganta, fitei-o com o máximo de determinação, e soltei:
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  — Estou te dizendo que estou apaixonada por outra pessoa.
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  Eu sabia que ele tinha reconhecido a sinceridade na minha voz. Nada indicava o contrário naquele momento. Seus olhos atordoados disseram exatamente isso: o que você disse?
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  — Tá apaixonada por outro cara? — sua voz foi ligeiramente falha, denotando ainda mais seu sotaque de Busan — Do nada? Rápido assim? Para com essa brincadeira, .
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  — Não estou brincando, Jungkook — meu tom foi recheado de cadência, acompanhado talvez de um pouco de rispidez, mas ouvir seus julgamentos sobre tempo não me pareceu algo necessário no momento — Sei que foi estranho pesar as coisas entre a gente quando eu te beijei, e depois disse aquelas coisas no carro, e te peço desculpas por isso, mas…
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  — Quem é ele? — interrompeu, com um passo à frente.
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  — O quê?
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  — Quem é o cara? Não mereço saber disso, pelo menos? Se vai me rejeitar, pelo menos me dê nomes.
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  Coloquei duas mechas do cabelo para trás das orelhas nervosamente, movendo os olhos abalados para baixo, cima, esquerda e direita, como se procurassem uma saída paralela de alguma parede do cômodo. A voz covarde e medrosa dentro de mim gritava no pé dos meus ouvidos, desejando que o assunto fosse adiado mais uma vez, que seria uma opção mais viável gravar toda a confissão que eu guardava em um gravador e entregar para ele depois.
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  Que vergonha, . Que decepção. Não sabia que você podia ser tão molenga.
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  — Jungkook, sério…
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  — Isso não pode ser tudo, . Eu o conheço? Ou você o conheceu em Jeju? É alguém de tão longe assim? Ou ele já tava na jogada há um tempo e você só decidiu reparar agora?
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  Um nó se alojou na minha garganta. Senti minha cabeça querer concordar imediatamente. Sim, é isso, é só isso. Agora você aceita um chá?
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  Mas droga, eu não era feita de ferro. Só de pensar na culpa posterior, eu já tinha desistido de mentir há muito tempo. Não fazia mais sentido.
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  — Mais ou menos isso — respondi, baixando os olhos mais uma vez.
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  — … — ele insistiu, com um tom ainda firme, mais persistente. Fechei os olhos com força e bufei.
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  — É o Jaehyun — disparei, olhando para cima — O cara que eu gosto é o Jaehyun.
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  O silêncio foi maciço. Jungkook permaneceu parado na mesma posição por tanto tempo, me olhando como se estivesse esperando que eu dissesse logo o nome do cara, porque era impossível que o que ouviu antes fosse verdade. Eu não estava prestando atenção, pode repetir? Acho que me confundi e ouvi você dizer Jaehyun.
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  No entanto, eu também estava imóvel e agora até mesmo encolhida, esperando qualquer mínima reação humana dele, que veio da forma mais louca possível: uma risada.
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  Jungkook soltou uma risada tão alta que pensei que estivesse louco. Bom, talvez ele estivesse. Talvez eu também não demoraria muito pra ficar.
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  — Fala sério, … — ele sacudiu a cabeça, e vi que todo o escândalo vinha apenas de seus lábios, porque seus olhos pareciam abertos com descrença — Me diz que você tá brincando.
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  Agora eu quis rir. O que isso quer dizer? Ele achou mesmo que eu brincaria ao revelar que gostava de um dos seus melhores amigos? Apenas balancei a cabeça em negação, vendo o sorriso sumir definitivamente de seu rosto.
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  E, mais uma vez, ele deu um passo para trás, bagunçando um pouco os cabelos.
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  — Como isso é possível? Vocês mal trocavam 3 palavras antes daquela viagem! Como vocês dois… Meu deus!
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  — Eu não sei! — abri os braços em exasperação, sentindo a pressão da responsabilidade de me explicar, de dizer qualquer coisa que fizesse sentido pra ele — Fiquei tão confusa quanto você, não sabia o que fazer, mas é isso que tá acontecendo agora, tá legal? Nós nos beijamos em uma situação maluca, eu gostei, mas confundi…
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  — Ei, ei, ei. Espera aí. Ele é a pessoa que você beijou e pensou que fosse eu?
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  Prendi a respiração de novo, mas balancei a cabeça que sim, porque não tinha mais jeito. Eu podia venerar minha capacidade de soltar coisas sem perceber.
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  — Caralho, que tipo de maluquice é essa? — agora foi a vez de ele abrir os braços, transtornado por um momento ao perceber que a situação tinha se tornado maior do que ele.
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  — Eu sei, eu sei. Teve toda aquela coisa de troca de quartos, e eu não sabia, eu só…
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  — Então por isso você ficou daquele jeito quando te beijei? E quase desmaiou quando eu contei sobre isso, porque tinha entrado naquele quarto e beijado ele…
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  — É isso. Foi isso que aconteceu, Jungkook. Eu não queria te magoar, tá legal? — me adiantei, agora eu mesma me aproximando dele, e ficando aliviada quando ele não repeliu minha presença ou se afastou ainda mais para trás. Isso me deixou temerosa e esperançosa, e senti que tinha finalmente chegado ao assunto — Eu nunca quis dizer mentiras ou te julgar mal, eu só… Eu sinceramente não sabia. Mas sentia algo diferente quando pensava naquele beijo, e depois descobri sobre os sentimentos dele e tudo explodiu, foi a experiência mais confusa da minha vida.
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  — Espera aí, sentimentos dele? — Jungkook juntou as sobrancelhas em confusão, mas um momento depois já as erguia de volta para cima, como se uma lâmpada de compreensão acendesse em cima de sua cabeça — Ah, claro. É claro. Pensei que não era mesmo comum o jeito como ele ficava te olhando desde o dia que nos conhecemos. E na viagem, quando resolveu abrir a boca, deixou tudo ainda mais claro. Acho que eu sou o idiota da vez.
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  Balancei a cabeça em negativa rapidamente, desejando que ele não seguisse por esse linha de orientação, todas menos essa.
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  — Você não é idiota — afirmei, convicta.
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  — Não, mas sou devagar. Burro, até. Eu só… — ele abriu a boca para dar mais argumentos, mas logo a fechou. Abriu e fechou de novo. Por fim, suspirou e disse: — Acho que vou nessa, .
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  Então, começou a caminhar para a porta, sem mais perguntas, sem mais reclamações ou alegações, sem uma despedida.
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  — Jungkook, calma aí — pedi, fazendo-o se virar antes que chegasse à porta — Eu falei sério quando disse que nunca quis te machucar. E me perdoa não ter abrido o jogo antes, eu só… Eu não sabia o que fazer. Jaehyun viu a gente se beijando na praia naquele último dia e isso me fez mal. Também fez mal para ele, de certa forma. Talvez ele não esteja tão aberto a uma conversa assim.
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  Falei a última frase com toda a sinceridade e tristeza que eu esboçava automaticamente quando pensava no assunto. Não sabia como tinha saído, mas Jungkook pareceu relaxar os ombros e me olhar daquele jeito carinhoso de sempre, quando queria me consolar ou me via triste. Eu não sabia mensurar o quanto toda aquela situação pesava dentro de mim. E o quanto a verdade, sempre, era a melhor mas também a mais difícil das soluções.
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  — Eu… — ele começou, parecendo querer dar um passo à frente, mas desistindo na mesma hora — Eu não sei o que dizer agora, me desculpa.
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  — Tudo bem, não precisa dizer nada. — respondi, balançando a cabeça — Prefiro que você não diga, na verdade.
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  Preferia que não dissesse nada ali, agora. Nada que nos faria rever a nossa amizade. Nada que nos fizesse descartar os últimos dois anos, as risadas, os vinhos e os filmes ruins. Nada que o fizesse repensar as noites de apoio ao trabalho mútuo e me fizesse repensar se eu seria corajosa o bastante pra enviar alguma mensagem amanhã.
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  Não. Eu não queria repensar sobre o quanto o conceito de amigos e amor chegava a um limiar. Não queria que isso tivesse o poder de estragar alguma coisa. Não queria ter que assistir isso.
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  Jungkook colocou a mão na maçaneta e se virou em minha direção, abrindo a boca pela última vez, em uma última tentativa de dizer algo, mas nada disse. Apenas abriu a porta e saiu corredor afora.
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🙂🙃🙂

JAEHYUN

  Dois carvalhos se exibindo na TV não traziam inspiração nenhuma.
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  O único ponto interessante desse programa banal sobre turismo, era a enorme igreja no centro de um vilarejo. Fora toda a arquitetura deslumbrante e as duas facetas que expressavam tranquilidade durante o dia e obscuridade medonha à noite, o lugar que a rodeava merecia algumas olhadas a mais. A câmera não estava interessada o bastante em registrar todo o verde da parte de trás, o poço de pedra à esquerda, a forma como a luz do sol batia nos vitrais até formarem desenhos no chão.
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  As sombras do lugar pareciam trazer um acolhimento sinistro, algo que me faria querer ficar e querer correr ao mesmo tempo, mas definitivamente mexeria com alguma coisa aqui dentro. Traria o estímulo que eu tanto precisava. Bagunçaria o que já estava bagunçado, porém, de uma forma um tanto mais… Poética. Tanto de noite quanto de dia.
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  A imagem daquele arcabouço de pedra era a figura perfeita da dualidade de todas as coisas vivas e não vivas. A dualidade das situações — o lado bom e ruim que existe em cada elemento existente no mundo.
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  Rabisquei mais uma linha no papel, tachando uma frase inteira que provavelmente iria para o lixo.
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  Ser brega era muito diferente de ser poético, cara. Lógico que era.
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  Parecia que eu me encontrava no ponto bem entre essas duas coisas.
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  O violão pesava em cima do meu colo. Tinha perdido as contas de quantas horas se passaram em que ele estivera ali, no mesmo lugar. Eu dedilhava vez ou outra em movimentos soltos, sem propósito. Meu raciocínio não conseguia mais traçar uma linha reta entre dois pontos. As únicas coisas eram: Hmmm… Thank God I’m not a realistic… Hmmm…
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  A letra estava incompleta. A melodia era medíocre. Mas, de fato: aquele era o caminho. Ou ele estava ali, escondido naquelas linhas tortas e palavras incompreensíveis. Mas estava ali.
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  Olhei para o rabisco com impaciência. Não gostava de descartar totalmente alguma coisa. Sempre tive uma terrível impressão de que tudo poderia ser reaproveitado, mesmo que, naquele momento, ainda não conseguisse achar sentido para juntar uma frase na outra escritas avulsamente pelo caderno.
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  You smell so good, don’t need perfume… Heels over head in the bathroom…
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  Estalei a língua. O que isso queria dizer? Eu poderia deixar de pensar em por dois minutos para que as palavras que escrevi pra ela fizessem mais sentido?
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  Larguei a caneta, recostando-me novamente no sofá, tombando a cabeça para o teto. Já fazia 3 dias. 3 longos e tortuosos dias. 3 dias de silêncio e olhos inquietos vigiando o telefone, pensando se devia ou não, se podia ou não, se ainda dava tempo ou não…
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  Eu era pior nisso do que jamais pensei. Aos 25 anos, descobri que não sei lidar com emoções fora da rotina. Descobri que é uma merda, às vezes, ser uma pessoa de rotinas!
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  Não tenho certeza de quanto tempo passei me martirizando em cima daquele sofá, nem se aquele programa de turismo era realmente de turismo geral ou apenas de igrejas, já que outras começaram a passar repetidamente pela minha tela, variando em formas e tamanhos, soando muito mais interessantes do que eu e minha tentativa de colocar para fora minhas frustrações comigo mesmo e sobre minha incapacidade de mover as pernas, quando o barulho alto da porta da frente soou como um soco no nariz.
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  Antes que eu perguntasse, ou me movesse, ou fizesse qualquer coisa, a pessoa já estava ali dentro.
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  — E aí — Jungkook cumprimentou em um tom grave e baixo, muito diferente de sua voz normalmente enérgica de supercomputadores. Coloquei o violão ao lado, vendo-o não me dar tempo de retribuir e já caminhar para a cozinha conjugada a alguns metros.
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  — Você pode entrar, claro — resmunguei, abaixando o volume da TV.
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  — Já falei sobre essa sua mania de merda de deixar a porta destrancada. Acha que é um cara comum, Jeong? — ele abriu a geladeira, puxando de lá duas cervejas guardadas na porta. A expressão séria ainda estava ali, completamente anormal.
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  — Aconteceu alguma coisa? — questionei, sem olhar pra ele, o que consequentemente significava sem pressioná-lo a me dizer a verdade, se não quisesse. Olhei para o relógio de pulso e constatei que eu só tinha uma hora e meia antes de voltar ao trabalho.
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  — Aconteceu — foi a única coisa que respondeu enquanto abria uma das garrafas na bancada e entornava o líquido para dentro de um jeito que pareceu um pouco indignado.
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  Ergui uma sobrancelha, esperando por mais. Nada veio. Apenas seus grunhidos entre um gole e outro.
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  — E? É tão grave assim que precisa ficar bêbado às 3 da tarde pra conseguir falar?
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  — Na verdade, sim. Um pouco — ele respondeu incisivo, agora caminhando de volta para a sala até parar na minha frente, com aquela mesma fisionomia de quando chegou, a que já estava me deixando confuso.
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  Mas então, Jungkook puxou todo o ar em volta e esperou dois segundos antes de perguntar:
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  — Quando pretendia me contar que beijou a ?
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  Silêncio. A expressão de Jungkook era mais séria do que nunca. Sem contar o teor retórico da questão. Ele não teria dito nada disso se não tivesse certeza do que tinha acontecido.
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  Mas antes que eu pudesse falar, ele continuou:
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  — Aliás, não, não, vamos nos aprofundar: quando pretendia me contar que é apaixonado pela minha melhor amiga?
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  Mantive a boca entreaberta, sem qualquer resposta na ponta da língua. Tudo que consegui balbuciar, depois de cinco segundos de embaraço, foi:
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  — JK…
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  — Ah, esquece, você vai se embolar todo e no fim a resposta vai ser sempre a mesma: eu não quis te magoar. Ah, vão se foder — ele estalou a língua, de repente se jogando no sofá ao meu lado, despejando novamente a cerveja goela abaixo — Adivinhem só: vocês dois me magoaram. E enganaram também, mas acontece, não é?
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  Girei o corpo em sua direção, apoiando um cotovelo no encosto do sofá.
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  — Como você soube disso?
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  — Como você acha? Aquele dia que você me viu na casa dela. Ela ficou muito abalada depois que você saiu daquele jeito, toda aborrecida e perdida. Acabou me contando tudo quando eu insisti.
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  — Ah… Ela te contou, é?
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  — É. E me contou mais coisas também.
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  Ele se virou de lado igualmente para mim, rastreando todo o meu rosto agora em busca do que dizer e da melhor forma pra fazer isso. Levou pelo menos um minuto inteiro até que conseguisse articular alguma coisa na cabeça.
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  — Eu não fazia ideia, tudo bem? Mas, que seja, aquele dia na praia… Eu beijei ela. Me declarei e tudo. E ela saiu desesperada dizendo que não era eu, não era eu, mesmo que eu não fizesse ideia do que exatamente deveria ser eu e disse que ia te encontrar.
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  Mantive minha boca fechada. Olhei para além dele, desfocadamente, mirando a porta, o cabideiro, o tapete de plumas que tinha insistido ao meu pai que não precisava. Só depois, voltei a olhar para ele. E não sei o que tinha naquele olhar, ou o que tinha no meu, mas senti um leve desconforto ligeiro tomar conta do pequeno espaço entre nós dois e umedeci os lábios, virando-me novamente na direção da TV.
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  A voz de se fazia presente à medida que eu me lembrava de suas palavras. Jungkook a beijou. Jungkook também tinha se declarado. Mas ela estava me procurando.
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  Disse que não era ele.
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  Pela primeira vez, senti uma agitação tão forte no estômago mesmo sem estar ao lado dela que quis loucamente levantar dali e dirigir até o apartamento que deixei, zonzo, há 3 dias atrás. Todos os meus instintos imploravam por isso.
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  Mas até eles teriam que esperar, porque a falta de brilho no rosto do meu amigo indicava ainda mais explicações a serem dadas.
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  — E você? — finalmente perguntei depois do momento excruciante de silêncio — Como se sentiu com tudo isso?
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  Seu rosto se virou parcialmente para mim, para logo depois olharem para a frente, ou fingirem olhar alguma coisa na outra extremidade da sala. Sua cabeça estava aprumada de um jeito que eu reconhecia como perigosa – um jeito muito parecido como me olhou naquela noite do boliche.
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  — Não sei dizer. Enganado? Sufocado? Perdido? Foram muitas coisas — ele deu de ombros. Algo em seus olhos estava afiado quando voltou a me encarar, mas não durou por muito tempo — Fiquei desesperado com a ideia de que me amasse e se afastasse por causa disso. Porque eu não… — parou, desviando os olhos, desistindo da abordagem de última hora — Enfim. Eu a amo também. Muito. Você a ama?
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  Agora foi a vez de eu me virar, olhando-o com total indecisão; não da minha resposta, mas em como ele reagiria a ela.
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  — O que…
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  — É, você não ouviu errado, tô te perguntando: gosta dela ou não?
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  — Gosto — respondi imediatamente — Gosto muito. Já faz um tempo.
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  — Ah, claro — ele riu pelo nariz, ironicamente. Imagino o que ele estaria sentindo: já nos conhecíamos muito bem, e mesmo assim deixei passar — Sinto vontade de te socar toda vez que me toco disso, mas tá tudo bem.
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  Deixei que um pequeno sorriso fraco escapasse de mim. Jungkook devia estar facilmente juntando todas as peças agora, se ligando nos mínimos detalhes que até eu mesmo deixava passar despercebido. Todas as vezes que fiquei encostado contra o Volvo, esperando ela descer para que fôssemos em 3 ou 4 até a casa do amigo mais próximo, desejando que ela descesse daquele prédio para ir se encontrar comigo, apenas comigo, para realizarmos os vários planos de encontros que eu certamente já tinha em mente, rodando várias vezes na minha imaginação.
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  — Em minha defesa, não era minha intenção que você notasse alguma coisa — respondi, igualmente dando de ombros. Ele bufou, e pareceu defensivo diante da minha declaração plácida, dizendo relutantemente:
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  — Que seja. Eu também gosto dela, tá legal? — ele baixou os olhos, e não soube que nome dar para aquela expressão — É o que eu sinto agora, mas… Não sei. Talvez ela esteja certa, ou talvez não, quando disse sobre os meus sentimentos.
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  — O que ela disse?
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  Jungkook deu de ombros, terminando a bebida e colocando-a em cima da mesa de centro frouxamente, aproveitando para apoiar os cotovelos sobre os joelhos.
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  — Nada que eu entenda agora. De qualquer jeito, não quero me meter nisso, entende? Não quero insistir em algo que já tá falido para o meu lado, eu sou um pouco adulto sobre isso, sabe? Posso escolher as minhas lutas — Jungkook se inclinou para mais perto de mim, semicerrando os olhos — E se olhasse pro jeito que ela falou de você naquele dia, veria que seria muita burrice entrar nessa batalha.
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  As palavras foram ditas com tanta naturalidade que não consegui me intrometer entre o silêncio que se seguiu depois, mais um de tantos, e mais um que me deixava com a estranha sensação de que estava ficando mais próximo; tanto de Jungkook, da verdade, e dos meus próprios sentimentos; medos, crenças, certezas. Próximo o suficiente para confrontá-los sem temor.
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  — Tá falando sério?
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  — Acha mesmo que eu me deslocaria de Itaewon pra vir aqui e mentir? Aliás, não faço isso nem quando vou mentir — ele ergueu uma sobrancelha, e tentei dar uma risada seca, mas sem desviar os olhos dos seus, sem deixar de fazer a pergunta implícita que eles gritavam naquela hora: ‘e então? O que me diz? Vai me ameaçar por querer a mesma garota que você ou vamos passar por cima disso como adultos?’ — Eu só não quero ser o terceiro cara sobrando no fim, entendeu? Com aquela música triste e os olhares de pena. Uma merda. Por isso não gosto de triângulos, eles são muito injustos.
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  — Qual é, você nunca assistiu Hometown Cha-Cha-Cha? — falei o nome de um dos melhores dramas já criados naquele país e voltei a esticar a cabeça para cima, um pouco mais tranquilo do que antes — Triângulos só são injustos quando os dois caras são legais.
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  — Que seja, é o que tá acontecendo agora, gênio. Mesmo que eu seja muito mais legal do que você.
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  Desta vez, o silêncio não teve vez. Rimos juntos pela constatação, porque aquele era o jeito que Jungkook sabia ser: divertido e resiliente, inabalável por situações que não vinham com o selo de vida ou morte.
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  No entanto, as risadas foram perdendo força à medida que eu fitava o pé direito do teto, e senti a mesma coisa vindo dele. Ficamos nessa por um tempo. O silêncio também era legal, às vezes. Ele dizia mais do que as palavras. Revelava as verdades dentro das dúvidas. Tornava as coisas ainda mais reais. Quem temia o silêncio, não tinha certeza o suficiente sobre si ou sobre a outra pessoa.
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  Eu tinha certeza sobre Jungkook. Sempre tive. E ali, me senti ainda mais conectado com ele, de um jeito que já sabia ser, mas que era sempre bom reiterar.
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  — Acho que fiquei um pouco confuso — murmurei, com minha voz baixa passeando pela sala. Para o meu crédito, sabia que ele estava prestando atenção, então não recuei — Sempre desconfiei que ela fosse apaixonada por você, mas quando entrou no meu quarto e disse aquelas coisas… Por um momento, achei que era um sonho maluco. Que ela tinha começado a sentir a mesma coisa e então não existia mais nada que me impedisse. Mas o tempo, sabe, o tempo…
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  — O que tem a porra do tempo?
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  Suspirei. Senti minhas orelhas ficarem rosadas, mas disse:
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  — Você vai me chamar de pragmático, mas acho que sou estável demais. Esses dias em Jeju foram um misto de impulsos e novos sentimentos, e tudo isso serviria pra encurtar o objetivo que eu tinha desde muito tempo: dizer a ela o que eu sinto. É algo que não mudou e duvido que vai mudar. Mas fiquei pensando se o sentimento dela por você também não mudaria — minha voz era um silvo, um sopro. Deus, por que era tão difícil assim falar sobre as inseguranças em vez de simplesmente imaginá-las? — Ela está apaixonada há tanto tempo quanto eu, e não é por mim. É difícil se desfazer de algo assim, do nada.
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  Jungkook arqueou as costas, virando-se para mim com o corpo inteiro, saindo de seu lugar. Sua expressão agora era cansada, com os olhos revirando nas órbitas de puro tédio.
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  — E desde quando tempo define alguma coisa nessa merda? Acho que a intensidade falou mais alto quando o lance foi vocês dois. Sabe? Todo esse lance de conexão. Infelizmente, vocês têm tudo a ver.
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  Suspirei. Olhando pra ele, pude enxergar verdade. Muita verdade e sinceridade daquele cara que eu conhecia há bons anos. Um cara que eu quis ser por um tempo, porque conhecia a mulher que eu amava de uma forma que eu queria conhecer. Estava perto dela quando eu queria estar. Eu queria ser Jeon Jungkook várias vezes nos últimos dois anos. E ali estava ele, dizendo que , na verdade, não queria um Jungkook; queria um Jeong Jaehyun, mesmo que eu não me achasse páreo pra ocupar esse tipo de lugar.
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  — Eu ainda não sei — me vi dizendo de repente, olhando para o nada encontrado no chão. Não sabia o que pensar. A realidade parecia boa, e ao mesmo tempo, assustadora. Mas de uma coisa eu tinha certeza: não queria que mudasse de ideia, se aquilo fosse mesmo o que pensava. Não queria que aquele violão e aquelas folhas de papel, recheadas de palavras para ela, saíssem de perto de mim. Pelo contrário, queria preenchê-los com cada vez mais dela, para ela. Queria, finalmente, parar de tentar deduzir o que as outras pessoas sentiam ou deveriam, ou iriam sentir, baseados no que eu mesmo queria ou fazia para mim.
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  Queria dar as costas para o medo e acreditar. Só acreditar.
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  — E se eu não for bom o suficiente pra ela? — a pergunta saiu em um sussurro intenso, avoado. Foi mais para mim do que para ele.
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  — Jaehyun — disse Jungkook, trincando os dentes — Você fica bem assim? Hesitando? Se trancando em casa e no trabalho, se contentando em cantar a música que fez pra ela olhando pra TV? Sai dessa, caramba — vi seus olhos revirarem mais uma vez enquanto ele se recostava — É assim que se perde as coisas importantes: hesitando. Ficando parado, sem ter certeza, com medo. Até quando vai ficar dando seus malditos passos pra trás, vivendo com precaução? Sai. Dessa.
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  Jungkook agarrou a segunda cerveja em cima da mesa, colocando-se de pé na mesma hora. Sem dizer mais nada, começou simplesmente a caminhar para a porta da frente.
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  — Vou nessa, sou um cara muito ocupado, sabe? E felizmente, rico demais pra continuar tomando essa cerveja vagabunda — com uma piscadinha, ele colocou a mão na maçaneta e a girou, mas parou antes de sair e voltou o rosto para mim — Tá na hora de se jogar de cabeça, grandão. A felicidade te espera. Mas antes disso, tranca essa porta, tá bom?
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13 – Revés

JAEHYUN

  Gostaria de saber o que o clima de Seul tinha contra os meus planos, de modo geral.
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  O fim do outono sempre vinha acompanhado de um céu escuro e pesado, cobrando a conta de cada mísero fio de calor feito durante toda a estação. Não me importava com a chuva ou o tempo mais gelado. Na verdade, não estava nem mesmo reparando direito no que estava acontecendo lá fora, porque estava ocupado demais encarando meu telefone em cima da mesa grande do estúdio, esperando que ele tocasse magicamente ou que eu mesmo tomasse coragem e ligasse para ela.
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  Eu queria ligar para ela. Melhor dizendo: eu definitivamente ligaria pra ela. Mas agora, precisava saber o que diria quando fizesse isso.
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  Meu coração não parecia pesar o quanto estava pesando. Tinha participado do ensaio e da reunião com os outros normalmente. Comemos bulgogi e rimos dos perrengues de Johnny no MET Gala. Conversamos muito sobre as novas músicas. Mas era incontestável meu olhar espichado para o celular. E, quando finalmente fiquei sozinho, era indiscutível que precisariam reparar o piso em que eu andava de um lado para o outro.
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  Se eu aparecesse em vez de ligar, seria melhor? Ou pior? Ela estaria com raiva depois do jeito que saí de lá? Me beijaria de volta quando eu a beijasse de novo? Deveria pedir permissão para beijá-la outra vez?
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  Parei e olhei para baixo, segurando algumas camadas de incertezas que não me deixariam agir e jogando-as fora. Andei até o telefone, olhando para a tela de bloqueio sem notificações relevantes até abri-lo e agir sem pensar.
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  Mas, por fim, acabei não fazendo nada, mas não como de costume.
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  — Ei, Jae — disse Taeyong, colocando a cabeça para dentro da sala — Tá na sua hora.
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  Fiquei parado por um tempo, juntando as sobrancelhas sem entender.
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  — Hora de quê?
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  — Da sua live, gênio. É a sua semana — Taeyong ergueu uma sobrancelha. Suspirei. Tinha me esquecido completamente — As coisas já estão prontas na sala. E é justo que você faça mais do que 10 minutos, tá legal? Não seja tão anti-social.
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  — Claro, vou tentar — brinquei, com uma risada ácida. Taeyong voltou a sair e eu olhei do celular para a entrada, infelizmente sem escolha alguma a não ser guardá-lo e seguir para a outra sala vizinha.
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  Quando sentei na enorme poltrona, não sentia vontade nenhuma de sorrir. Ou não sentia vontade nenhuma de estender aquilo por mais de 10 minutos. Mesmo assim, gravar lives e encontrar pessoas que realmente admiravam seu trabalho era uma das maiores terapias e recompensas que poderiam acontecer para um cara como eu. Faziam mais bem do que mal, é claro. Quando liguei a câmera, os comentários fervorosos começaram a subir e subir. Em algum momento, pensei ter ouvido a chuva começar a cair lá fora. Apontei para a janela, indicando a mesma coisa.
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  Em resumo, eu tinha pouco a dizer. Antes do lançamento do repackage, tudo era sempre um grande mistério, o que limitava muito o que podia e não podia ser dito, mas era legal falar sobre o que fiz no dia e mostrar os últimos discos que adicionei na coleção e as músicas que eu mais andava escutando ultimamente.
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  Quando cheguei nesse assunto, um certo usuário começou a sair na frente de todos os outros comentários, dizendo repetidamente “oi, oi!”, “oppa!”, “se lembra de mim?”. Juntei as sobrancelhas, tentando me lembrar como conheceria alguém que se chamava “au-drey14”, quando um estalo da lembrança se tornou claro.
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  — Audrey? — perguntei, e as confirmações vieram em forma de vários emojis acompanhados de um grande sim — Oh, Audrey. Claro, me lembro de você. Como vai?
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  O chat virou um caos. Pessoalmente, não sabia se eu podia estar fazendo o que estava fazendo: reconhecendo um fã específico diante de tantos outros, que pareceram bravos de início, e logo a resposta de Audrey se perdeu no meio de tantos outros cumprimentos e perguntas.
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  Porém, ela pareceu ter dito algo que conseguiu puxar uma multidão, dizendo apenas uma coisa: “e a música autoral?”, “que música autoral?”, “a música já está pronta?”, “oppa! Não acredito que ainda não mostrou a música!”.
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  Mordi o lábio inferior. Aquela não era bem a forma certa de fazer com que eu respondesse a alguma coisa, mas suspirei, entendendo que fazia parte do trabalho: pressão. Insistência.
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  — Música autoral? Vocês não perdem tempo mesmo.
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  “Oppa, você me prometeu, lembra?”
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  — Eu sei o que eu prometi, mas ela infelizmente ainda não tá pronta.
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  “Pois então canta o que está pronto. Tenho certeza que vai te trazer uma nova inspiração e aí vai poder terminá-la.”
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  Falar daquele jeito me deixou flutuando no ar por um momento, absorvendo o que podia ser verdade, e o que podia ser apenas ansiedade de pessoas alheias. Eu normalmente não deixava nem a minha própria afobação sair na frente dos meus projetos, mas hoje eu estava precisando realmente estender os meus minutos que devia à empresa. E, vendo que o papo da música nova já não era mais segredo, bufei, esticando-me na direção do violão que sempre era deixado logo ao lado da mesa.
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  — Tudo bem, vou acreditar que eu posso encontrar esse final com a ajuda de vocês — emano um sorriso gentil, e dedilho algumas notas que já foram repetidas e repetidas tantas vezes que meus dedos se moviam por conta própria.
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  Uma repetição que eu, sinceramente, não esperava que fosse me trazer nada novo, ainda mais porque e toda a situação que estraguei não saíam da minha cabeça.
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The present is so unsatisfying
I wish I was materialistic
Excited for the future unfolding
Thank God I’m not realistic

  O material nunca me chamou a devida atenção. Ter um amor platônico foge totalmente da concepção de realidade. E, por mais que sustentar uma condição dessas pudesse ser perigoso e, claro, totalmente vazio, me fazia sentir vivo de algum jeito, tranquilo. Gostava de manter meu coração aquecido com a simples visão de , gostava de fazer planos de contá-la o que eu sentia, mesmo que sempre tivesse certeza que existia um outro alguém na jogada e que, provavelmente, chegaria antes de mim.
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  Gostava de pensar que iria beijá-la. Que vou beijá-la. Que um futuro com nossos nomes juntos existia ou existiria, de alguma forma.
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Heels over head in the bedroom
You smell so good, don’t need perfume
I’m a tulip, you’re the spring bloom
I’d be a fool not to love you

  Fazia dois anos que a abracei pela primeira vez. E foi uma das únicas, antes daquele outro abraço animado depois da vitória do boliche. Nas duas situações, me olhou daquela forma assustada, como se estivesse quebrando regras e difamando culturas, e talvez por isso não tenha percebido minha postura estática e por pouco não escutou meu coração fazendo um escândalo no peito. Ganhei um abraço depois de vencer o Music Bank com a title no ano passado. E, desde então, quis melhorar ainda mais no trabalho, mais do que já fazia por mim.
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  Nos abraços, desejei que seu cheiro fizesse parte do meu dia a dia, e por um momento, desejei que nunca tivesse sentido aquilo. Porque desejar também doía. A consequência do desejo era sempre a frustração.
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Headed down, I see green lights
Block after block, nearly sunrise
Rolling my way through stop signs

  Contei a ela que sabia o nome do seu escritório quando o bar em Itaewon, que juntou nós 7 juntos quase nos mandou embora depois de muitas horas extras de expediente, e ela me disse que contaria seu cargo se eu explicasse o que era aquele desenho que eu estava fazendo no guardanapo. Fazia 3 meses que nos conhecíamos. Inventei que estava fazendo rabiscos aleatórios. Na verdade, estava tentando desenhar o seu pingente de nuvens, azul-marinho, assim como seus brincos, me dizendo exatamente sua cor favorita nos mínimos detalhes.
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Pinned down by jealous minds
Heels over head in the bedroom
You smell so good, don’t need perfume
I’m a tulip, you’re the spring bloom
I’d be a fool not to love you

  Fiz um grande “hmmm” antes de terminar essa parte. Foi quando percebi que estava ferrado e totalmente entregue à garota nova do grupo. Quando um sentimento muito louco de querê-la a um nível intenso tomava conta de mim e travava totalmente minhas ações. Quando eu me vi negociando com meus pensamentos ciumentos, que se transformavam em um bando de terroristas que foram devidamente trancafiados no canto mais escuro do meu inconsciente. Quando me perguntei o que era mais importante: mantê-la por perto e estando longe, ou estragar tudo de uma vez com a verdade – que nem sempre era o melhor caminho.
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  O terrorismo também morava na parte seguinte. Ela simplesmente não existia. Meus dedos deslizavam pelas cordas do violão, repetindo as mesmas notas de antes, voltando em partes específicas e estagnando-se na falta de uma parte final. A história incompleta. Um fim que eu precisava demandar, precisava criá-lo, resolvê-lo.
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  O fim da história dependia única e exclusivamente de mim.
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  Diminuí o ritmo das notas. Instintivamente, olhei para o celular de novo, desejando que o nome dela aparecesse no visor, desejando que um sinal do além me dissesse as palavras certas para terminar, mas isso era uma besteira. Todos os sinais já tinham sido dados. A fantasia e o imaterial estavam cansados de me ajudar. Agora eu precisava me afundar de vez na realidade.
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  Mas a realidade era simples e brutal: me deu tudo o que eu queria e eu fui um idiota. Me deu um sorriso sincero, conversas agradáveis, autenticidade até os ossos, linda de um jeito único, divertida em um grau que nem todos eram capazes de ser. Conhecê-la de um jeito mais profundo em Jeju me trouxe mais certeza e desespero por não tê-la, por não falar, não abrir o jogo, um tipo de sentimento que eu não tinha há muito tempo – pressa. Eu, finalmente, tive pressa de contar. De viver.
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  Mas todos os meus medos me deteram. Todo o pensamento de que ela poderia estar confundindo as coisas e, no final, fizesse não só ela, mas os dois sofrerem, transformou minha mente em um vórtice e me deixou parado quando disse aquelas coisas no camarim. Eu estava assustado. Louco, medroso, adiantando um futuro muito incerto, e coisas incertas não soavam convincentes para mim. Pular de cabeça no escuro não fazia o meu estilo, mesmo que, daquela vez, tenha sido uma das decisões mais difíceis que já tomei.
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  E, afinal, por que a tomei? Hoje, tentando cantar e completar a parte final da música, me senti ainda mais idiota do que quando deixei aquele camarim. Percebi que estava largando uma oportunidade única e perfeita de vivenciar uma das fases mais fodas da minha vida, por pensar em um futuro que tinha tudo pra não ser como o que planejei desde sempre.
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  Futuros planejados. Imutáveis. Essas coisas não existiam!
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Yeah, don’t ever change

  Cantei, de repente, dizendo mais para mim mesmo, esquecendo por um instante de estar ao vivo para milhares de pessoas.
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Stay the same, stay the same
That’s the last thing I said
To you

  Repeti a parte mais uma, duas e três vezes, me convencendo de que aquela era a verdade: eu não queria que mudasse, mas estava fora do meu controle. Porém, queria que soubesse daquilo: ela não precisava mudar, não precisava mais se esforçar, agindo como se tivesse que me reconquistar, sendo que ela já tinha meu coração desde muito antes, bem antes do que imaginava. E eu precisava que soubesse disso. Precisava que ela soubesse que tudo que eu mais queria era que ela continuasse a mesma, e que fosse a mesma comigo. Juntos. Finalmente juntos.
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  Arfei com o final, percebendo que a plateia estava certa: eu tinha acabado. Ela estava pronta. A música estava pronta.
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  Os comentários surgiam como balas, rápidos e incompreensíveis. Ainda assim, sorri e suspirei, alegre e distraído, bagunçando um pouco os cabelos e encarando minha própria imagem no computador.
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  — Vocês sempre sabem o que dizer — murmurei, ainda rindo, descendo a paleta pela corda mais uma vez, extasiado por dentro — Espero que tenham gostado. Eu ficaria triste se não gostassem, mas ficaria ainda mais desconfortável com a ideia de que outra pessoa não goste — suspirei, esquecendo-me da decência das palavras, da filtragem de informações. Sinceramente, que se foda. Hoje, que se foda.
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  Larguei o violão no mesmo lugar, com o maior sorriso do mundo, aproximando o rosto da webcam.
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  — Agora, acho que 35 minutos foram o suficiente. Prometo voltar e mostrar aquele desenho que vocês tanto pediram no mês passado. Mas agora preciso fazer uma ligação urgente. Obrigado, nctzen! Até a próxima!
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  Desliguei a transmissão, estendendo a mão para o celular imediatamente.
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🙂🙃🙂

  Esperei por quase 3 minutos para que o senhor Biscayart repetisse.
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  Ele não me mostrou qualquer intenção de fazer isso. Apenas permaneceu ali, parado, me encarando do outro lado daquela mesa larga, o cenho relaxado e as sobrancelhas estáticas, sem qualquer dificuldade de permanecer sereno depois de dizer o que acabou de dizer.
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  Deixei que meus pulmões tomassem o devido fôlego de novo. Estar sem respirar era como entupir meus ouvidos para a tal palavra que passou voando por eles agora há pouco. Meus olhos imploravam com força para o meu chefe: repita o que disse. Repita para que eu possa ter certeza que entendi. Mas sinto que não adiantaria de alguma coisa.
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  Quando ele folheou uma página avulsamente na mesa, foi um sinal claro de que a vida estava acontecendo e eu precisava acordar porque sim, era exatamente aquilo que eu tinha escutado.
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  — De-demitida?! — sussurrei, paralisada como uma pilastra. Virei-me totalmente para o seu rosto para que pudesse ver se sua postura mudava um pouco pelas minhas palavras. Eu falei errado, não falei? Entendi errado o que você falou, senhor Biscayart, me perdoe, mas diga que não é isso.
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  Era como se ele estivesse ouvindo as últimas notícias de artefatos encontrados na Pensilvânia, algo repetitivo e sem relevância.
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  — É isso mesmo que eu disse, .
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  — Mas… o quê?! — tornei o tom de voz mais agudo, mais aflito — Como demitida?! Eu acabei de fazer mais de 12 horas extras nos últimos 3 dias! Achei rabiscos sem sentido nas pautas das reuniões que colocou para aqueles estagiários novos preencherem, planejei estratégias para os próximos 3 anos, calculei os ganhos diários com excelência…
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  — E conseguiu fazer todas essas coisas de forma errada — ele interrompe, repentinamente cansado. Com certeza estava esperando que eu surtasse, por mais que nem imaginasse o estado catastrófico que acontecia dentro de mim agora. Ouvi o som da chuva caindo lá fora e percebi que já era noite e eu deveria estar correndo para casa, mas adivinha onde eu estava? No escritório, tentando agregar algum valor para que aquele crápula reconhecesse. — Você catalogou todos os gastos nas planilhas como uma criança de cinco anos. Diferenças ridículas de décimos, falta de atenção em sinais, somatórios bagunçados. Perdemos 3 milhões na bolsa por causa da vírgula que você tirou de todos os saldos desse cliente. Tivemos um prejuízo de 5 milhões no total, você tem ideia disso? Tem alguma ideia? — disse ele, agora certamente nervoso.
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  Trinquei os dentes com força. Era inevitável sentir raiva de mim mesma, depois do choque das revelações. Durante 3 dias, trabalhei como uma condenada, pedindo as benditas horas extras porque precisava de distração. Precisava gastar minha energia fora de casa, fora das garrafas de vinho e fora do torpor de uma desilusão amorosa. Era isso, apenas isso. O plano não era trazer meus problemas pro trabalho, não era encarar números e continuar pensando onde eu errei com toda a bagunça da minha vida, não era errar vírgulas porque achei que estava tudo certo, Jaehyun, realmente achei que você podia ser mais flexível, não era esse, não era esse.
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  Mas pelo visto, os inevitáveis também estavam a postos para foder com tudo.
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  — Tenho certeza de que essa é uma medida muito radical — e apontei para os rabiscos de contas que havia feito nas últimas horas, entregues em uma folha de papel muito bem organizada em cima de sua mesa. Confesso que não conferi, mas não costumava errar tanto duas vezes.
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  Pelo menos, não costumava.
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  O senhor Biscayart apenas suspirou. Aquele era seu jeito padrão: entediado, impaciente, manipulador e aborrecido. Diversas linhas em jornais, artigos e revistas importantes o nomeavam como o grande orgulho de Seul na área da contabilidade e corretora, e por isso era importante para mim ser um pouco estimada por ele, o que tinha conseguido, pelo menos um pouco, desde que cheguei.
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  No entanto, eu sabia reconhecer os traços de alguém que estava com a decisão tomada. Biscayart respondia alto e nervoso, com têmporas escapando da testa quando estava incerto sobre alguma coisa. Mas quando permanecia sentado, manso enquanto estendia a mão para sua pasta, totalmente alheio aos olhos esbugalhados e indignação das pessoas, era porque não lhe restava dúvidas.
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  — Não quero que entenda errado, — suspirou e, por um momento estranho, pensei que reconsideraria, mas sua postura não mudou absolutamente nada — Você foi uma ótima funcionária desde o começo. Trouxe conhecimentos valiosos, agregou na parte linguística, cultural, matemática, fez ótimos pontos e não é à toa que mereceu a promoção. Mas ultimamente…
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  — O senhor quer me demitir por causa dos últimos 3 dias? Eles não irão se repetir, eu garanto — interrompi, totalmente hiperconsciente da situação. Meu coração martelava dentro do peito, e meu sangue latejava de nervosismo. De raiva.
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  — Foram 5 milhões, . Nosso maior bote do último trimestre foi por água abaixo por causa de um erro minúsculo. Um erro que nos tira muitas vantagens no caminho para nos tornarmos a maior corretora de valores da cidade. E você sabe que sou o chefe, mas existem milhares e milhares de pessoas ao redor, e também acima de mim, diretamente ou não. Sinto muito, mas não podemos continuar com a senhorita — ele levantou os ombros, agitando-se um pouco pela explicação repetitória, mas logo se recostou na cadeira, dando claramente sua sentença final — Mas não se preocupe, você vai receber uma ótima rescisão, junto com uma carta de recomendação assinada por mim e que vai te abrir portas em qualquer escritório dessa cidade, e até mesmo fora dela. Já visitou Busan? Eles fecham ótimos contratos com os chineses, é uma ótima opção.
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  Permaneci parada, os dentes fechados tão violentamente entre si que estavam a ponto de machucar minha gengiva. Aquele homem estava tão bem, tão relaxado, que quase colocava as pernas para cima da mesa, negando implicitamente qualquer tentativa de negociação. Qualquer discurso não o afetaria de modo algum.
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  Olhei atentamente para o piso, sentindo o bolo no estômago se transformar em uma massa dura que subia até a garganta. Quis urgentemente colocar a culpa no meu azar. Colocar a culpa em alguma coisa. Mas, assim como era ruim ser portadora da síndrome de Murphy, também era ruim remoer os seus efeitos quando não se tinha mais nada a se fazer sobre eles.
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  Não sabia direito o que deveria estar sentindo. Humilhada, descartada, substituível… Sempre me achei talentosa na minha área, uma pessoa que não passaria despercebida por nenhum chefe até que eu mesma me tornasse uma, mas nada que sentia agora parecia familiar a mim. Nada que me trouxesse algo bom. Nada…
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  A frustração era o pior tapa na cara que alguém podia receber.
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  — Claro, senhor Biscayart — soltei uma risada fraca, sem qualquer resquício de formalidade — Quero muito sair daqui e continuar vivendo à sua sombra, pra quem sabe assim consiga fazer três refeições por dia. É muita consideração da sua parte. Vai me dar cobertores e vales de sopas em preparo para o inverno também?
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  — Não seja assim, senho…
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  — Desculpe, Sean, mas já comecei a me sentir não-parte de toda essa fortaleza. E, se fizer as contas, 5 milhões perto dos 700 que já angariei pra esse lugar são nada menos do que nada — me virei para a porta, pronta para seguir em frente enquanto o ouvi bufar de ódio por chamá-lo pelo primeiro nome — Não esqueça de tomar cuidado com as vírgulas. Adeus, Sean!
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  — .
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  Andei para fora, quase correndo, querendo desesperadamente me ver livre daquela sala, daquele homem e de todo aquele edifício.
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  Uma ardência no nariz adiantava o que estava por vir, mas eu seguraria. Eu sabia exatamente quanta pressão aplicar para que um choro estarrecido e vergonhoso não escapasse na frente de todo mundo. Uma montanha de pensamentos, fruto de uma ansiedade invasiva, queriam travar meus pés e me fazer voltar atrás, implorar, ficar de joelhos e pedir para que meu nome ainda continuasse sendo vinculado ao melhor escritório de contábeis do país, mas minhas pernas já atravessavam toda a extensão do escritório, passando por baias e baias até chegar na minha, um pouco maior agora e separada das outras – todas vazias naquele horário, é claro, porque eu era a única estúpida o suficiente para estar ali de livre e espontânea vontade.
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  Com raiva, prendi a respiração e puxei a caixa de papelão debaixo da mesa, jogando tudo que encontrei pela frente: minhas fotos, canetas, funkos, até mesmo meus post-its grudados no monitor, preenchidos com avisos e lembretes do que eu precisava entregar. Bem, não precisava mais. Também não precisava mais daquela pauta de reuniões e anotações sobre meu novo cargo, mesmo que sentisse claramente que fazia parte dele há muito tempo. Foi parar na lixeira mais próxima.
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  E então, apagando a última luz, saí sem olhar para trás.
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🙂🙃🙂

  Confesso que tinha me esquecido da chuva.
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  Os pingos eram grossos e violentos, encharcando as margens da calçada e transformando a rua em um mar de guarda-chuvas. Queria ter me atentado melhor à previsão do tempo, como sempre fazia desde que peguei aquela tempestade tenebrosa na Grã-Bretanha há quatro anos, mas me martirizar agora não ajudaria em nada. Ainda mais quando já tive erros demais apontados em uma única tacada há menos de 30 minutos. Não, obrigada.
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  Nem a chuva me faria continuar parada dentro daquele prédio. Rapidamente, eu já apertava os passos para o lado de fora, agradecendo aos céus por ter a recepção vazia e não receber os olhares surpresos e intensos sobre mim durante minha caminhada da vergonha. Acho que foi um último ato de misericórdia do senhor Biscayart: sair sem ser notada. Ótimo. Foi legal da parte dele.
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  Mas não escapei do olhar tristonho de Gar Elliott, um senhorzinho de idade muito simpático da portaria, que realmente pareceu sentido quando viu a caixa de papelão nos meus braços.
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  — Oh, senhorita… — ele torceu os lábios com infelicidade. Balancei a cabeça imediatamente, demonstrando que estava tudo bem. Pelo menos ficaria. Consegui abrir um meio sorriso, cumprimentando-o com uma singela curvatura, a que ele aceitava e me ensinava corretamente, já que até nisso o sistema público coreano queria regrar. Não era tão ruim assim, no fim das contas; quanto mais baixo suas costas se curvavam, mais respeito queria demonstrar, e eu me ajoelharia de uma vez diante do senhor Elliott, se não fosse pela caixa tosca de papelão.
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  Com um último cumprimento, entrei na cortina de água, olhando exclusivamente para a frente. Não importava. O que era uma chuva perto de toda a água que estava por vir dos meus olhos, junto com o soluço que escapou da minha garganta, um fungar do nariz que só deixei sair assim que me vi longe o bastante, andando depressa no meio-fio, me perguntando loucamente para onde eu iria agora.
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  Meu ex-chefe havia conseguido me fazer ofendê-lo em centenas de línguas diferentes, e todas elas presas na minha laringe, presas por toda a minha insegurança, porque o susto repentino de me ver desempregada era muito maior do que a vontade de gritar. Meus olhos embaçaram sem esforço algum. A chuva me deixava estranha e patética, e eu precisava urgentemente ir embora, precisava urgentemente procurar um táxi.
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  Um táxi ou um Uber? Não sabia. Não fazia ideia de que horas eram. Não sabia onde estava meu celular. Não sabia se deveria ligar pra Felicity ou Jungkook. Não sabia o que fazer da minha vida daqui pra frente.
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  Me vi concordando, pela primeira vez, com a última frase da minha mãe assim que disse que pegaria um avião para o outro lado do oceano: Isso não é pra você. Deveria ter cursado Direito e ir ajudar na campanha do seu pai. Essa coisa de empresária de valores, certamente não é pra você. E sim, ela falou exatamente desse jeito. E isso me dava nos nervos. E aqui estava eu, concordando com ela.
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  E isso poderia ser considerado o fundo do poço que eu não esperava atingir.
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  Digo, eu sempre soube que não ficaria na Vostras & Co pra sempre. Nunca fez parte dos meus planos ser uma assistente ou diretora executiva por toda a minha vida. Mas a empresa comandada por aquele miserável formava linhas de contato muito poderosas. Era um lugar que colecionava relatos excelentes e tinha visões extraordinárias sobre o futuro e nas proximidades dele. Então sim, quando as coisas aconteceram de forma tão brusca e inesperada, fiquei ainda mais tonta do que pensei que ficaria quando finalmente saísse. Porque sempre esperei fazer isso por conta própria.
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  Eu ainda precisava fazer história ali, começar a montar uma carreira. Ainda não era influente o suficiente. Ainda não tinha conquistado uma patente que me abrisse portas para conhecer outros do ramo sem precisar estar acompanhada do senhor Biscayart e suas milhões de pastas e fazer meu próprio caminho. Ainda não tinha atingido um nível onde pudesse pedir para sair porque aquele lugar não me cabia mais.
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  Eu ainda não tinha chegado nisso. E agora dificilmente conseguiria alcançar isso sozinha.
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  Pelo menos era isso que o meu pessimismo me dizia agora. O mesmo que deixava minha cabeça tão confusa, com pensamentos tão fodidos sobre o futuro que me fazia querer andar mais rápido, andar para mais longe, quanto mais longe daquele lugar melhor. Segurei a caixa com força em um braço, já completamente ensopada, e puxei meu telefone para conseguir ligar pra um Uber, ou para Felicity, qualquer coisa que aparecesse primeiro. Porém, a junção de andar rápido e, de bônus, distraída, não fazia parte do sucesso para pessoas como eu.
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  Sem aviso, o paralelepípedo também fez seu ataque pessoal da noite. Com um tropeço, gemi quando tive o corpo impulsionado para a frente, caindo de joelhos junto com a caixa, que fez um bum intenso ao cair no chão, assim como meu telefone, que despencou primeiro do que nós dois e deslizou para longe, capotando dezenas de vezes até parar.
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  — Merda — resmunguei, me levantando rápido para tentar driblar os estragos. No entanto, com poucos passos em direção a ele, me desequilibrei de novo, conseguindo me manter em uma perna, desta vez sem nada a ver com as deformidades da rua. Quando olhei para baixo, vi o salto descolado da bota, totalmente inutilizado sem tempo de uso suficiente para isso.
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  Tirei o sapato, encarando aquilo com certo choque. Soava como uma conspiração paranormal de todo o azar depositado no mundo. Eu tinha acabado de comprar aquela bota. Ou melhor: tinha acabado de pagar a maior grana naquela bota de couro.
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  Bufei, jogando-a no chão com raiva, com ainda mais ódio e vontade de chorar. Desejei, por um instante, ser aquela garotinha do Poltergeist e me deixar levar por uma luz misteriosa de dentro do meu armário, mesmo que fosse para morrer no fim das contas, mas quem disse que não aproveitaria o passeio até lá?
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  No entanto, nenhuma aventura desagradável onde se encontraria homens-mariposa e cães negros se comparou quando terminei de mancar até o telefone e o virei, observando a tela toda trincada e sem qualquer chance de que ela ligasse novamente.
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  Senti de novo os olhos marejando e a ardência na garganta. Não era possível. As pessoas passavam por mim, distantes, correndo da chuva, não se dando ao trabalho de olhar uma mulher agachada no meio da calçada, encarando seu sapato estragado e o celular quebrado na outra, totalmente alheia à realidade porque a dela tinha se transformado em completa lama na última hora.
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  O choro começou baixo enquanto encarei meu reflexo no telefone quebrado, uma analogia à minha própria pessoa. Como cheguei nesse ponto? Como virei alguém despreparada, sem ter a menor ideia do que fazer daqui pra frente? Como virei alguém que chegaria no ponto de não saber o que fazer com a própria vida?
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  Hoje podia ser considerado, inegavelmente, como o pior dia da minha vida. O pico dos arremates da síndrome de Murphy.
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🙂🙃🙂

JAEHYUN

  Tentei o número pela quinta vez. Nada.
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  Apoiei o celular nos ombros enquanto tentava a sexta, guardando o violão e mais algumas folhas dentro do armário. A mensagem não chegava. A caixa postal indicava um telefone desligado. E comecei a me sentir ainda mais nervoso, a cada segundo que passava.
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  Mas minha hesitação estava sendo desnecessária. Tentei o número de Jungkook, mas ele também não dava retorno. Pelos meus cálculos, ou ele estava trabalhando ou dormindo, e preferi muito mais colocar minhas fichas na segunda opção.
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  Sem esperar muito, dirigi até o apartamento perto de Yongsan-gu, recebendo também a notícia: ela não estava. E a chuva caía de forma terrível.
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  No fim de tudo, disquei o número de Felicity. Ela atendeu com um grunhido depois de 4 toques.
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  — Não era pra mim que você devia estar ligando — disse, sem uma zombaria inicial, como sempre. Devia estar concentrada pintando as unhas ou pintando um de seus quadros.
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  — Eu sei, e é exatamente por isso que você foi o plano C. Cadê a ?
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  — Como assim cadê a ? Ela desapareceu? — Em um segundo, sua voz ficou mais aguda e perto do telefone, o que demonstrou que agora definitivamente tinha parado de traçar seus desenhos — O que você fez?
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  — Eu não fiz nada, Felicity. Não ainda — disse, revirando os olhos enquanto voltava para o carro estacionado do outro lado da rua — Quero ter a chance de fazer alguma coisa. Mas ela não atende o celular, ou melhor, a linha não completa. O porteiro diz que ela não está em casa, e vi que as luzes estão apagadas. Onde ela se meteu?
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  Felicity não me respondeu imediatamente. Fechei a porta rapidamente, bagunçando o cabelo e a camisa para me livrar dos poucos resquícios de água que peguei entre uma corrida e outra até a entrada. Quando pensei em pressionar a garota calada mais uma vez, ela soltou uma expiração antes de responder.
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  — Ah! Ela disse que estava fazendo umas horas extras. Mas isso foi ontem — respondeu, estalando a língua — E anteontem também. Não acredito que aquela garota está fazendo isso de novo.
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  — Hora extra? Mas são nove e meia da noite.
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  — Quando fala em hora extra, é praticamente um dia extra, Jeong. Ela não é como as outras mulheres.
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  Suspirei, impossibilitado de discordar.
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  — Tudo bem, vou ao escritório.
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  — Ah-ah. Muito cuidado, Jaehyun. Não complica a vida da minha amiga nessa altura do campeonato.
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  — O que? Eu jamais prejudicaria ela no trabalho.
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  — Não estou falando do trabalho, esperto. Acho que você entendeu — agora ela quem suspirou, e repuxei os lábios quando soube do que estava falando — Afinal, decidiu pensar melhor?
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  Deixei escapar uma risada fraca, levando uma das mãos para girar a chave.
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  — Decidi parar de pensar, Hamilton. E agora vou atrás do que realmente importa.
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  Desliguei antes que ela soltasse um grito. Foi por pouco.
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  Eu não sabia o que significava costurar o trânsito antes de realmente precisar fazer isso. Mas no momento, chegar até o bairro vizinho tinha uma importância magistral que nunca pensei que fosse sentir. Só queria saber se ela ainda estava lá, se aceitaria que eu a esperasse sair, se aceitaria a minha carona, se aceitaria um beijo e se me aceitaria por inteiro, no fim das contas.
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  No entanto, o edifício gigantesco e espelhado também estava apagado, denunciando um fim de expediente total. Franzi o cenho, pegando o guarda-chuva que tinha deixado preparado no banco de trás e estacionando bem em frente à entrada, passando pelas portas giratórias até a recepção.
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  Nada. As luzes amareladas do hall de entrada ainda estavam acesas, mas a movimentação era mínima, e atrás do balcão principal não tinha nada além de uma placa de fechado. Alguns poucos funcionários terceirizados finalizavam o serviço de limpeza do dia, e os seguranças se preparavam para um longo expediente noturno.
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  Mesmo assim, me aproximei de uma mulher que limpava as arestas do elevador, concentrada em algum som muito pesado nos fones de ouvido.
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  — Com licença, senhora — falei perto dos seus ouvidos, o que foi um alívio, porque ela logo se virou para o lado, arrancando os fones — O expediente do escritório já acabou?
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  — Aqui tem pelo menos 20 escritórios, filho, de qual exatamente você está falando agora? — respondeu, ligeiramente ríspida. Não sabia se era porque eu tinha interrompido seu trabalho ou seu metal pesado — Se bem que não importa, todos eles já fecharam uma hora dessas.
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  — A Vostras, ele fica em um dos últimos andares, eu acho. Ainda estão fazendo horas extras…
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  — Não, querido, todos os escritórios já fecharam, como eu disse. E sei da Vostras, aquele CEO Biscayart já saiu faz uns 20 minutos, e ele é sempre o último a deixar o lugar. Onde já se viu, até parece que não tem família… — disse ela, voltando a colocar os fones e resmungar sobre princípios familiares para a porta do elevador, dando fim ao assunto.
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  Baixei os ombros, perdendo qualquer tipo de empolgação por aqueles instantes de frustração. Depois, comecei a ser tomado por uma certa preocupação, porque agora não fazia ideia de onde poderia estar e ligar para Felicity só a deixaria em um pleno estado de alerta.
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  Antes que eu decidisse o que fazer, parei na porta do edifício, pronto para pegar o celular e tentar o número de de novo, quando ouvi uma voz baixa e ruminante ao meu lado:
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  — Ei. Garoto — virei a cabeça, dando de cara com um senhor de pé, segurando um corpo grande café — Está procurando a senhorita ?
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  — Sim, ela mesma — arfei, respondendo imediatamente, me aproximando dele por baixo da cobertura — O senhor a viu?
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  Ele assentiu com a cabeça, e vi um sorrisinho delicado desenhar suas bochechas.
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  — Ela saiu há uns 30 minutos. Pobrezinha, nessa chuva. Não acredito que não a verei mais — disse ele, em um muxoxo — Uma demissão é sempre muito ruim, rapaz. Ela vai precisar de uma companhia.
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  Olhei para ele por pelo menos dois minutos inteiros enquanto digeria a informação.
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  — O senhor disse demitida? — minha voz escapou em silvo, o choque ardendo nos meus olhos. O homem apenas concordou, sem nenhum sorriso dessa vez — Viu pra onde ela foi?
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  — Naquela direção, bem ali — apontou para a frente, em direção à bifurcação que levaria a avenida principal — Acho que você ainda consegue alcançá-la. Não vi nenhum táxi passar pra lá.
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  Sem pensar, comecei a descer o degrau, agora genuinamente agitado, com expectativa. Virei-me para ele, cumprimentando-o como manda a boa conduta patriótica, e tentei dar um sorriso, que saiu mais murcho que esperava.
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  — Obrigado, senhor. Tenha uma boa noite.
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  Então, abri o guarda-chuva e andei rápido de volta para o carro.
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14 – Término

  Às vezes, eu gostava de ficar sozinha.
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  Quando eu era mais nova, existia uma luta interna dentro de mim que me impedia de falar o que eu queria. Tanto por meus pais, autoritários e robóticos, quanto por meus amigos, que também tinham pais autoritários e robóticos, mas, diferente de mim, obedeciam cegamente suas ordens. Fazer isso nunca combinou muito comigo. A ideia de liberdade era muito mais intrigante do que colocar meu futuro inteiro na mão de terceiros.
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  Por isso, era bom me isolar no quarto, no terraço ou em qualquer outro lugar onde eu pudesse segurar minha agendinha dos sonhos e registrar minhas palavras em um espaço onde não me censurariam. Em uma zona onde elas ficariam marcadas com um selo de importância, e não ignoradas ou tachadas com um selo de inconveniência. Era pra isso que existia meus momentos solo: um período de reflexões importantes sobre a minha própria vida e o que eu estava fazendo dela.
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  Mesmo assim, o banco úmido e gelado de pedra na beira do rio Han e minha garrafa de soju quente não parecia ser o melhor ambiente para uma meditação profunda do próprio caminho. Eu não poderia nem usar meus fones de ouvido para imergir em outra realidade, já que meu celular estava em frangalhos, assim como os pés descalços e sujos de lama, e minha maquiagem arruinada pelo choro humilhante há algumas quadras atrás.
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  Olhei atentamente para a água escura do rio, sentindo o álcool esquentar meu sangue para que eu não morresse de frio com as roupas encharcadas. A chuva já tinha parado, e agora a beira do rio estava infestada de pequenos animais trazidos pela correnteza forte do vento anterior. Entre a imensidão de verde da beira, vi alguns pombos pousando e depois alçando voo novamente, garças e urubus, baratas e outros pequenos animais. O rio Han era o rio mais importante do país e desembocava em algum mar longínquo fora de Seul, então não me surpreendi quando algum serzinho minúsculo de aparatos ainda menores andou sobre a superfície de concreto, procurando areia no tampo, e voltando logo depois para baixo da água, aparecendo vez ou outra para cima.
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  Pequenos animaizinhos perdidos na água doce, parecendo de brinquedo naquela altura, graciosos como eu me lembrava. Funguei uma vez, bebendo mais um gole.
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  — Sabia que aprendi bastante coisa sobre vocês na praia um dia desses? — falei na direção dos caranguejinhos, mesmo que estivéssemos seguramente separados por uma grade — É, um cara bem legal me contou. Em cima de uma pedra, rodeada de um set de campos e árvores de brócolis. E claro, o mar, é óbvio. Soube que vocês tem essa carapaça que protege que é uma beleza, e também se afundam bem pra se esconder do sol. O sol pra mim é meio que vida, mas com tudo que anda acontecendo, eu entendo vocês fugirem da realidade. Seria legal, sabe? Fugir. Recomeçar. Mas é meio difícil saber o que fazer primeiro — suspirei, encarando a garrafa verde em mãos, sentindo que eu estava procurando algo, mas não sabia exatamente o que — Pra nós, humanos, é sempre mais complicado. Existe burocracia para tudo. E se desprender das coisas é difícil. Vocês conseguem se desprender das coisas? — perguntei, e vi o exato momento em que um deles caminhou lentamente de volta para a água que batia nas pedras e se deixou levar pela escuridão. Nenhum deles surgiu mais — Eu queria ser um caranguejo…
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  — Sério? Queria mesmo?
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  A voz masculina veio e passou por um instante de susto. Me virei para o lado, sabendo com toda certeza que estava sozinha naquele parque à beira rio, porque em hipótese alguma tinha encontrado outra alma tão louca a ponto de se expôr na chuva e na brisa gelada. Mas então, ouvi passos além da voz, e girando a cabeça para trás, pude vê-lo se aproximando rapidamente, com um sorrisinho tímido enquanto carregava um guarda-chuva fechado na mão.
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  — Jaehyun? — minha voz saiu em um sussurro, fruto da minha garganta repentinamente seca e o de sempre: nervosismo latente que acompanhava sua presença. Mas hoje, minha primeira reação foi estar genuinamente chocada.
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  — Com tantos artrópodes legais, queria ser logo um que se esconde? — ele disse, continuando sua fala anterior, chegando-se até se sentar ao meu lado no banco de pedra, sem se importar de molhar a roupa — Acho que você combina mais com aqueles que foram feitos pra voar.
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  Pisquei os olhos várias vezes, sem desviá-los dele. Não tinha como. Era impossível ter um repertório imediato diante de uma surpresa tão escancarada. O que era o meu “o de sempre”, então? Sei que ficava nervosa na presença dele, mas geralmente conseguia dizer alguma coisa.
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  — É… O que faz aqui? — perguntei, ainda em voz baixa — Quer dizer, como me achou?
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  Ele deu de ombros, descontraído.
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  — Foi fácil. Uma melhor amiga e um porteiro muito legal. Que, inclusive, vai sentir muito a sua falta.
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  — Ah. Você foi ao escritório — baixei os ombros, me lembrando da expressão tristonha do senhor Elliott e me sentindo ligeiramente mais afetada pela situação. O álcool tinha feito com que eu não lembrasse dela por 10 minutos, e agora a chegada de Jaehyun tinha transformado todo o dia de hoje em milhares de hectares de nada, mas meus problemas pessoais ainda se manteriam firmes e fortes pelo resto da noite, não importava quantas vezes eu tentasse fugir deles — É, também vou sentir saudades do senhor Elliott. Ele era um dos únicos que não ficava fazendo piadinhas sobre o meu cabelo ou tentando adivinhar de que país latino eu vinha. A maioria era bem idiota, mas eu gostava. Era o emprego dos sonhos.
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  As palavras saíram um pouco cabisbaixas, mas sinceras. Jaehyun me encarou com atenção, como quem compreendia, mas então disse:
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  — Ser assistente não era o emprego dos seus sonhos. Muito menos diretora executiva — pontuou. Ergui o queixo para encará-lo. Às vezes, me esquecia do quanto tinha compartilhado com esse cara. E do quanto, aparentemente, ele sempre se lembraria — E sinto muito pelo que aconteceu. De verdade. Era visível o quanto você era talentosa demais pra eles. As pessoas se sentem intimidadas.
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  Soltei uma risada fraca, baixando os olhos para os meus pés descalços.
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  — Mas acho que agora você precisa, primeiro, ir pra casa antes que pegue um resfriado.
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  Não soube o que responder. Ele olhava para os meus estragos com um estranho carinho: a caixa capenga com minhas coisas bagunçadas, minha calça social suja de terra, o cabelo em estado de calamidade, e os vários exemplos que posso dar para explicar como pegar uma chuva te deixava.
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  — E se livrar disso por enquanto — ele continuou, agora pegando a garrafa meio vazia da minha mão e colocando-a de pé no banco, puxando a caixa logo em seguida e pondo-se de pé — Vamos. A chuva vai estar de volta daqui a pouco. No caminho, você pode me contar como vai abrir a sua empresa e as linhas telefônicas que vai ter que conseguir com aquele povo do Reino Unido que adora usar a Lei de Murphy na bolsa de valores.
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  Pisquei os olhos novamente, confusa em todas as células do corpo. Jaehyun sorriu com complacência, e abri a boca para dizer algo, mas só me levantei, seguindo ao seu lado até o carro estacionado na calçada, sentindo que aquele convite e cuidado tinham aquecido meu peito com muito mais eficiência do que o soju.
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🙂🙃🙂

  Eu estivera em um avião pequeno com minha mãe na primeira vez que passei pela Coreia do Sul.
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  Era diferente de tudo que eu já tinha visto. Pequeno, organizado, tecnológico nos mínimos detalhes. Guardava tanta história em cada esquina, tanto simbolismo e respeito à própria trajetória que me tocou de certo modo. Parecia tão bonito de uma forma sublime, diferente das grandes esculturas antigas que eu via nas encostas de colinas de calcário na Inglaterra. Como tudo associado ao futuro, a Coreia conseguia domar meu coração por saber juntar as duas coisas em uma visão potente e perfeccionista.
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  Naquela noite, quando eu estava, pela primeira vez em muito tempo, sem pressa para chegar em casa ou no trabalho, ou sem pressa para trabalhar em casa, pude observar de novo essas nuances pela janela do banco do carona, fitando as luzes do templo budista, o festival iluminado da ponte, as árvores perfeitamente enfileiradas rente às calçadas, até mesmo a correria das pessoas me era atraente de uma forma encantadora. E me sentir relaxada em um dia catastrófico como aquele não era algo muito… Comum.
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  Quando Jaehyun estacionou em frente ao meu prédio, percebi que até ele era diferente dos outros, em certos pontos. Era estendido e estilizado, assim como o hall de entrada, os corredores e o próprio elevador. Lugares em que eu passava todos os dias, e que nunca tinha levantado a mínima questão de parecer diferente, parecer único.
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  Até minha porta, de número 511, parecia uma silhueta misteriosa e elegante, e me senti ainda mais sossegada por saber que estava indo para casa, e que poderia, por um dia, fazer o que eu quisesse antes de me tocar novamente que estava sem emprego e sem um futuro certo por um tempo.
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  Destranquei a porta devagar, virando-me para ele com a expressão abatida, mas sem me importar com isso no momento. Sinceramente, não fazia diferença. Eu tinha certos motivos pra isso.
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  — Obrigada pela carona. Foi muito gentil da sua parte — falei, com um sorriso de canto. Ele não pareceu muito feliz. Parecia mais a sugestão de um agradecimento, algo fraco e sem expectativa. Jaehyun me fitou com aqueles olhos e sorriso bonito, olhando para dentro com naturalidade.
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  — Não se preocupe. Melhor tomar um banho quente — e então, ele avançou para dentro, tirando os sapatos na entrada — Vou preparar o jantar.
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  Fiquei parada. Quando vi, ele já estava caminhando para a cozinha, depositando a caixa em cima de um móvel de madeira com um espelho grudado em fita 3M. Jeong Jaehyun tinha simplesmente entrado na minha casa sem um convite e isso mexeu em todos os meus estados de alerta.
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  — Mas… — falei para mim mesma, até perceber que continuava estática no corredor, entrando em seguida rapidamente e falando mais alto — Acho que não tenho nada para o jantar. Passei os últimos 3 dias fazendo horas extras.
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  — O que você tem? — perguntou ele, juntando algumas embalagens de plástico jogadas de qualquer jeito na pia e colocando-as em um saco de lixo.
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  — Lámen — respondi, envergonhada. Várias das embalagens eram lámen. Um pouco de chocolate e vinho também, mas primordialmente lámen e comida congelada. Jaehyun olhou de mim para elas com certo choque. Conte a ele sobre suas vírgulas erradas, a vozinha interior me disse, mas ignorei. Jaehyun não precisava saber do meu caos mental, não quando já tinha visto.
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  — Se importa? — murmurou ele, com um levantar de ombros.
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  — Claro que não… — respondi firmemente, mas travei um segundo depois, sentindo um peso estranho no ar, um peso que se assemelhava a uma crença popular que esse país tinha impregnado em mim. Ah, certo, você vai comer lámen com um cara, só vocês dois, sozinhos na sua casa, sabe o que isso significa por aqui, não sabe, ? Você sabe!
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  Bom, ele também sabia. E mesmo assim, deu um sorriso, bem maior do que o anterior, e respondeu:
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  — Eu também não me importo — e juro que escutei algo sugestivo quando disse, mas não tinha saúde e nem paciência para criar fantasias hoje. Seu braço indicou um pequeno sinal para que eu seguisse em direção ao banheiro e não questionei. Já bastava meu olhar de panda e meu cabelo desgrenhado, eu não poderia nem fingir que o banho não era uma melhor opção.
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  Apesar de eu ter lidado com boa parte de todos os pensamentos ansiosos de antes, foi só debaixo daquela água quente que senti que eles estavam se esvaindo de vez, indo pra bem longe, um lugar onde eu não tivesse que vê-los pelo restante da noite. Havia muitas preocupações no agora que exigiam minha atenção para que eu não surtasse diante de um futuro incerto, e isso incluía um cara gato cozinhando lámen pra nós dois e o fato de que eu gostava desse cara gato, e também o fato absurdo de que esse cara gato tinha ido me buscar no meio da chuva enquanto eu chorava pateticamente no parque.
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  Pensar na sequência dos acontecimentos me deixava com uma ligeira vontade de não sair mais daquele banheiro.
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  Mas, diferentemente da de algumas horas atrás, coloquei o mesmo conjunto dramático de ficar em casa: a blusa grande e o shorts de pijama e saí para a cozinha, sentindo o cheiro da carne e do caldo de legumes bem acentuado, passeando por todo o cômodo.
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  A cena parecia melhor do que da última vez que ele havia feito aquilo: Jeong Jaehyun mexendo em uma panela, concentrado no macarrão enquanto lia algo em outra embalagem e mexia no cabelo quando se afastava. Era bom para apenas parar e olhar. Satisfatório, até. Parecia algo de outro universo, e eu não tinha vivido naquele universo durante o último ano.
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  Uma pena. Eu realmente não queria sonhar hoje.
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  — Você tá se esforçando muito por um lámen simples — resmunguei em divertimento, apontando para a panela em cima do cooktop. Ele ergueu os olhos e me encarou de cima a baixo como da primeira vez. Com aquele mesmo olhar de querer, mas que hoje eu afastava tudo isso, toda essa fantasia. Ninguém merece uma rejeição duas vezes seguidas. Eu podia aceitar sua gentileza sem me iludir.
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  — Você diz que não tem nada, mas se parasse pra procurar e pensasse em algumas combinações, veria que tinha bastante coisa — ele deu de ombros, apontando para as embalagens ao lado — Ovos, broto de feijão, um pouco de kimchi, um queijo que consegui salvar… Parabéns, vai conseguir comer um belo lámen japonês.
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  Sorri com satisfação, arrancando outro dele. Era difícil explicar como Jaehyun parecia ficar animado com a ideia de explicar tudo pra mim. E era difícil não me deixar levar por isso. Se ele iria sorrir, bem, eu estava dentro. Totalmente dentro.
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  — Tudo bem, Jeong. Tenho preguiça de ir ao mercado, mas também tenho de fazer uma bela refeição, não tem como me defender — dei de ombros. Ele balançou a cabeça.
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  — Coloquei um cobertor no sofá. Pode esperar lá até que eu leve a comida, não vai demorar.
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  Abri os olhos repentinamente. Jaehyun não pareceu acanhado ou coisa parecida pelo fato de ter pegado um cobertor. Os cobertores que ficavam guardados no meu quarto. No meu armário. Puxa, o que estava acontecendo com esse cara?
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  No entanto, apenas limpei a garganta e assenti, fazendo o que ele pediu. Colocando todos os fatos na mesa, a história parecia bem plausível. Eu estava com frio e tinha pegado uma chuva, caramba. Era só isso.
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  Quando me sentei, não demorou nem 5 minutos para que ele fizesse o mesmo, trazendo dois bowls e apoiando-os na mesinha de centro. Pegou um deles, assoprando levemente e depois estendeu-o para mim, sentando-se ao meu lado logo em seguida.
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  Puxei o controle para ligar a TV, mas ele também fez isso primeiro. Foi direto em um daqueles canais antigos que passavam clipes musicais mais antigos ainda e me observou por um instante pelo canto do olho, avaliando se eu realmente estava comendo.
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  Dei uma risada pelo nariz e comecei, ouvindo clássicos de Panic! At the Disco tocar baixinho, enquanto ele também enrolava alguns feixes de macarrão no hashi.
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  — Como você se sente? — perguntou, continuando sua fixação em me encarar.
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  Dei de ombros enquanto terminava de mastigar.
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  — Bem, eu acho — ouvi minha própria voz soar baixa e seca. Ele levantou uma sobrancelha, nada convencido. Limpei a garganta e ajeitei as costas: — Ok, vou ficar. Tínhamos uma viagem marcada para o Peru no mês que vem, então talvez por isso eu demore um pouco para superar. Mas vou ficar bem, eu prometo.
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  — Eu sei que vai. Uma situação dessas nunca vai ser o fim pra você.
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  Existiam centenas de franzidos entalhados na minha testa quando perguntei:
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  — O que quer dizer com isso?
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  — Que agora nada mais te impede de começar o que você quer — ele deu de ombros, simplório, como se a resposta estivesse piscando na minha frente, no formato de pássaros, macacos, homens e criaturas mágicas — Você, finalmente, vai ser a chefe.
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  Eu quis rir. Quis rir, acima de tudo, com descrença, com impossibilidade. Quero dizer, ele falava com tanta confiança, com entusiasmo nos olhos, como se aquele fato já estivesse escrito há milhares de anos e eu não pudesse fugir dele, independente do que fizesse ou acreditasse.
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  — Não é bem assim… — tentei, mas Jaehyun continuava com a mesma expressão tranquila, do tipo: é assim, sim. Sinto muito, mas é. Você sabe que é.
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  E acho que, no fundo, eu sabia mesmo. Era o tipo de coisa que sempre fez sentido, mas fazia sentido somente do ar. De um avião. Fazia sentido como algo distante, grande demais para ser visto do chão, ou distante como escondido no coração, escondido até de você mesmo. A verdadeira vocação que é esmagada pela vida adulta, com as responsabilidades, por outros sonhos que deixamos implantarem na gente.
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  Vendo que eu não era capaz de dizer alguma coisa agora, Jaehyun se levantou de novo, deixando o bowl em cima da mesinha de centro e desaparecendo na direção da cozinha. Em dois minutos, ele voltou uma caneca, que cheirava ligeiramente muito bem – algo parecido com limão e outras ervas – e depositou-a também na mesinha, voltando-se para mim com um sorrisinho.
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  — E a versão fêmea do Jordan Belfort não pode se dar ao luxo de ficar doente.
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  Agora foi a minha vez de largar a minha comida. Olhei para ele, para o chá, para o lámen, a TV, a música, as luzes baixas, o cobertor e toda a atmosfera parada ao lado dele e, sinceramente, soltei uma expiração tão pesada que poderia ser claramente vista como aborrecimento, mesmo que não fosse.
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  — Por que tá fazendo tudo isso? — perguntei, agora parecendo explicitamente consumida pelo dia. Não era hora de escavar meu cérebro para confundi-lo, não hoje, Jaehyun, não hoje.
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  Ele não se encolheu com minha reação. Pelo contrário, parecia que eu tinha feito a pergunta premiada da noite.
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  — Você disse que eu sempre estava ali pra te salvar — levantou os ombros, descontraído — Acho que só tô fazendo meu trabalho.
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  — Não tô entendendo — fui incisiva, também usando meu melhor tom óbvio — Não é como se, pessoalmente, sempre fomos assim. Não é como se você não soubesse de nada. Você… Aquele dia… Arr. Não tô entendendo.
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  Isso era ridículo. Chegar ao ponto de dizer essas coisas era mais ainda. Mas sim, quando se tratava de Jeong Jaehyun, era responsável deixar claro que nutria certos sentimentos profundos por ele e, exatamente por isso, interpretava as coisas de uma forma errada.
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  Mas, depois de um segundo, percebi como essa atitude poderia parecer extremamente ingrata em primeira mão, então me apressei em me retratar:
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  — Quer dizer, eu sinto muito, eu não…
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  Foi quando ele simplesmente sorriu e se aproximou de mim, de um jeito abrupto e repentino, descansando suas mãos enormes em cima da minha bochecha carinhosamente.
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  — Desculpa ter assustado você — sussurrou, e senti seu hálito quente passear por toda a extensão do meu rosto — É que eu precisava dizer algumas coisas, mas quando vi, já estava agindo antes de falar. Agindo como eu queria. Mas queria que soubesse sinceramente: você sempre significou sorte pra mim, — ele se aproximou um pouco mais, mas sinto que não estava prestando atenção. Um bater de coração frenético, estranho e simétrico, bagunçava minha cabeça — Esse sorriso, essas marquinhas. Sinto que te observei de longe por tempo demais. Te amei de longe por tempo demais. Tô cansado disso.
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  Normalmente, era possível que eu estivesse totalmente trêmula e feliz, mas no momento, só conseguia me sentir confusa e um tanto desorientada. Claro, também trêmula, mas acima de tudo embaralhada, e por isso, não poderia desistir até entender.
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  — Você quer dizer que… — comecei, e minha garganta seca deixava minha voz grogue.
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  — É isso que você ouviu. Eu quero…
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  — Não, não! Não diga — falei em um ímpeto, afastando-me um pouco para trás no sofá, abrindo os olhos de choque quando entendi tudo, detalhe por detalhe.
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  Foi a vez de Jaehyun ficar confuso, levantando a mão que estava no meu rosto com preocupação se tinha feito algo errado.
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  — O que foi? — perguntou.
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  — Não diz! Espera! — arfei, agitando os braços enquanto respirava fundo. Não acredito que isso está acontecendo, não acredito… — Olha o meu estado! Como quer se declarar pra mim assim? Eu tô um caco.
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  Ele parou por alguns segundos antes de soltar uma gargalhada, a mesma que tinha me chamado a atenção da primeira vez, tão autêntica e serena. Meu coração já tinha esquecido de bater normalmente, e agora fui transportada para 48 horas de carnaval em Salvador.
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  — Pra mim você tá linda.
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  — Não, não! Preciso fazer isso direito.
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  Em um impulso, me aproximei dele, respirando fundo várias vezes e me certificando de estar olhando bem em seus olhos.
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  Centenas e centenas de imagens passavam diante de mim naquele momento. Não queria pensar no que estava fazendo, apenas me lembrar de que precisava fazer. Mesmo que não fosse dar em nada. Mesmo que ele estivesse brincando com a minha cara.
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  — Jeong Jaehyun, sei que sempre fui uma completa pateta na sua frente e sim, sei que era claramente apaixonada por outro cara, mas é isso, tô completamente apaixonada por você. Deitada, deitadíssima, como diria no meu país. Você aumenta e abaixa a minha pressão na mesma intensidade, e isso é perigoso, sabia? Muito perigoso. Ainda mais quando acabei de perder meu emprego — falei com uma careta. Ele me fitou com curiosidade — E, por mais que eu ainda esteja confusa com tudo isso, sei que podemos nos conhecer melhor. Eu quero te conhecer melhor. Saber cada detalhe que nunca soube e que sejam exclusivos pra mim. Quero saber tudo sobre você.
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  Ele pareceu abismado com a precisão. E em alguns instantes, pareceu também entender a atitude. Era uma forma tosca e simples de substituir aquele dia da viagem. Era uma forma de fazer uma declaração exclusivamente pra ele, com o nome dele, olhando diretamente em seus olhos. E daí ele sorriu, um sorriso matemático em sua perfeição.
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  — Eu vou adorar te contar.
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  E sem mais nenhuma falha de simetria, sem a terrível interferência de Murphy, ele colocou as mãos no meu rosto e se aproximou diretamente para me beijar, ativando os famosos fogos de artifício do inconsciente e dando um significado novo para todos os finais que considerei felizes durante toda a vida.
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  Mas a última coisa que eu esperava que me atingisse, além do impacto emocional, fosse a grande onda de irritação no nariz, que fez com que eu me afastasse de Jaehyun e espirrasse dentro de minhas mãos, fungando logo depois e sentindo a coriza enfraquecer os olhos e a testa.
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  — Que droga — murmurei, e quando o olhei, ele riu, me fazendo rir também, o que era melhor do que eu esperava. Jaehyun se aproximou, passando os braços ao redor de mim enquanto me dava um beijo delicado na testa, e afundei o rosto em seu peito, sentindo novamente a irritação para mais um espirro.
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  E ele veio outra vez, mas continuei rindo porque nem isso apagaria a aura surpreendente da situação. Não dissiparia o fato de que achei que o dia de hoje fosse o mais azarado de todos, mas acabou dando uma virada brusca no final, que ainda estava digerindo e aceitando como sendo um dos melhores.
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  E essa era a verdadeira lei de Murphy: tudo que tiver de acontecer, vai acontecer! Matthew McConaughey sempre soube melhor das coisas. Muito melhor.
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Epílogo

1 ano depois

  Em dois segundos, a fachada apareceu por cima dos pinheiros do quintal da frente.
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  Porque sim, agora existiam pinheiros, arbustos, um balanço em formato de pneu e todas essas coisas que foram propositalmente melhoradas depois de uma reunião misteriosa envolvendo a 97 line e um proprietário muito rico que tinha cedido aquela mesma casa no feriado do ano passado.
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  Olhei para Jaehyun ao volante no mesmo instante. Ele me respondeu com um sorriso de entendimento. Perto de uma moita grande, existia um canteiro de flores azuis e amarelas, e outros brotos coloridos que logo iriam desabrochar e deixar a frente ainda mais bonita. Flores de inverno, quem diria. Aposto que a ideia tinha sido de Yugyeom. Ele gostava de tudo ao contrário.
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  Por isso mesmo o encarei pelo retrovisor interno, vendo-o constatar o que eu já imaginava: sua ideia que tinha ganhado vida, a repaginação distinta para um feriado de primavera.
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  — São bonitas, não são? — ele deu de ombros, apontando para a direção das flores à medida que chegávamos mais perto.
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  — Aham, são lindas. Sabe que nunca vai vê-las pessoalmente se não vier pra cá em dezembro, não sabe?
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