{"id":9980,"date":"2026-03-16T11:18:34","date_gmt":"2026-03-16T14:18:34","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-16T11:25:39","modified_gmt":"2026-03-16T14:25:39","slug":"capitulo-05","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-05\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 05"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O rel\u00f3gio marcava 04:17<\/span> da manh\u00e3 quando Nick Fury chegou ao centro de intelig\u00eancia improvisado em uma base subterr\u00e2nea da S.H.I.E.L.D. nos arredores de Londres. N\u00e3o dormia h\u00e1 dois dias. O palet\u00f3 amarrotado, a postura carregada e o maxilar cerrado como quem mastiga pregos em sil\u00eancio. Os agentes sabiam o que aquilo significava. Ningu\u00e9m ousou interromper quando ele atravessou o corredor principal e entrou na sala de an\u00e1lise sem dizer palavra.<br>\u2003\u2003Na tela, uma proje\u00e7\u00e3o azulada girava devagar: rostos, nomes, datas. Um mosaico de cad\u00e1veres e pontos vermelhos espalhados pela Europa como queimaduras. Cada imagem detalhava as circunst\u00e2ncias de morte com mais brutalidade do que a anterior. At\u00e9 mesmo para algu\u00e9m como Fury, que j\u00e1 vira horrores demais para um homem s\u00f3, havia algo pessoal naquela sequ\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Senta. Me mostra do come\u00e7o \u2014 ordenou, a voz rouca, fria, lan\u00e7ada no ar como chumbo.<br>\u2003\u2003O agente ao lado do painel, jovem e nervoso, engoliu em seco antes de tocar os comandos.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor&#8230; n\u00f3s acredit\u00e1vamos que alguns casos eram isolados. Mortes executadas com per\u00edcia, mas, nas \u00faltimas setenta e duas horas, conseguimos cruzar dados que estavam em arquivos civis, relat\u00f3rios inconclusivos da Interpol e observa\u00e7\u00f5es independentes de seguran\u00e7a privada. As conex\u00f5es&#8230; s\u00e3o mais extensas do que imagin\u00e1vamos.<br>\u2003\u2003As imagens passaram uma a uma: Paris, Berlim, Bucareste, Dublin, Oslo, Viena. Cada uma mostrava um cad\u00e1ver em condi\u00e7\u00f5es que desafiavam qualquer protocolo t\u00e1tico conhecido. Algumas cenas pareciam crimes passionais e outras, execu\u00e7\u00f5es limpas com rastros falsos deixados de prop\u00f3sito. Mas em todas havia uma assinatura quase impercept\u00edvel que, agora, come\u00e7ava a emergir sob a luz certa.<br>\u2003\u2003\u2014 Quantas? \u2014 Fury perguntou sem tirar o olho do rosto de uma das v\u00edtimas, um homem de cinquenta e poucos anos, ex-oficial sovi\u00e9tico, com a garganta cortada de fora a fora no banheiro de um hotel luxuoso em Genebra.<br>\u2003\u2003\u2014 Onze, senhor. Talvez doze. Um corpo foi encontrado ontem \u00e0 noite em Budapeste, mas ainda estamos aguardando confirma\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o.<br>\u2003\u2003Fury apertou os punhos. A mand\u00edbula movia-se com lentid\u00e3o, como se ponderasse esmagar cada s\u00edlaba antes que escapasse da boca.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 caso isolado.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, senhor. H\u00e1 uma linha comum entre quase todos eles. Tr\u00eas t\u00eam hist\u00f3rico militar. Quatro trabalharam direta ou indiretamente com a KGB e cinco foram vinculados a organiza\u00e7\u00f5es de fachada da antiga Hydra. A maioria deles teve conex\u00f5es apagadas dos bancos de dados&#8230; algu\u00e9m est\u00e1 apagando essas pessoas em tempo recorde.<br>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 limpando a casa \u2014 completou Fury, como quem recita um epit\u00e1fio. \u2014 E est\u00e1 fazendo isso com inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 acerto de contas. Isso aqui \u00e9 um manifesto.<br>\u2003\u2003O agente assentiu com um movimento contido.<br>\u2003\u2003\u2014 E h\u00e1 mais uma coisa&#8230; conseguimos recuperar parte de uma transmiss\u00e3o privada entre dois dos alvos, semanas antes de suas mortes. Foi criptografada e mal decodificada, mas uma palavra apareceu tr\u00eas vezes.<br>\u2003\u2003Ele tocou o painel. A palavra se projetou em letras grandes e hostis:<br>\u2003\u2003<strong>&#8220;Invernal.&#8221;<\/strong><br>\u2003\u2003Fury fechou o \u00fanico olho com for\u00e7a por um instante. Invernal. Um nome que parecia arrastar a gravidade da sala com ele. N\u00e3o era um projeto t\u00e3o conhecido e n\u00e3o era uma sigla, mas era algo que mexia com ele e com a sua intui\u00e7\u00e3o. Aquela sensa\u00e7\u00e3o conhecida de que o ch\u00e3o come\u00e7ava a ceder por debaixo dos p\u00e9s.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 ouvi isso antes. H\u00e1 muito tempo \u2014 murmurou.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor?<br>\u2003\u2003\u2014 Esquece. Continuem rastreando&#8230; quero cada passo dessas doze mortes cruzado com as coordenadas dos Vingadores, movimenta\u00e7\u00f5es de grupos dissidentes, e tudo o que tiverem sobre ex-agentes da Sala Vermelha ou da Hydra que sumiram dos radares nos \u00faltimos vinte anos.<br>\u2003\u2003O jovem hesitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso vai dar uma lista enorme, senhor.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o encolhe. Comece pelos que n\u00e3o deveriam estar mortos e os nomes enterrados com corpos que ningu\u00e9m nunca achou. \u2014 Fury se levantou, pegou o casaco e ajeitou o coldre preso \u00e0s costas. \u2014 Se essa coisa continuar do jeito que t\u00e1, n\u00e3o vai sobrar ningu\u00e9m da velha guarda pra contar a hist\u00f3ria.<br>\u2003\u2003Quando ele saiu da sala, a tela ainda girava devagar, com os rostos dos mortos fundindo-se \u00e0 sombra de uma figura que ningu\u00e9m conseguia identificar. O nome &#8220;Invernal&#8221; cintilava sobre os arquivos como um epit\u00e1fio precoce.<br>\u2003\u2003E Nick Fury, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava um passo atr\u00e1s de um inimigo que n\u00e3o fazia exig\u00eancias, n\u00e3o deixava bilhetes, e n\u00e3o queria nada al\u00e9m de apagar tudo \u2014 e todos \u2014 que tivessem alguma culpa no cart\u00f3rio. N\u00e3o que todos tivessem sido algum dia inocentes.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O audit\u00f3rio seguia pulsando em tons de prata, hologramas e aplausos. A Stark Expo continuava em ritmo febril, com os visitantes ainda maravilhados pelos an\u00fancios de tecnologia limpa, intelig\u00eancia artificial aplicada \u00e0 medicina, e os primeiros prot\u00f3tipos da &#8220;Tomorrownet&#8221; \u2014 um projeto pessoal que Tony vinha desenvolvendo em sil\u00eancio, como se pudesse curar o mundo com conectividade. Mas Tony n\u00e3o via mais nada. O palco sumira e a plateia se desmanchava em vultos indistintos. Tudo o que restava era o rosto.<br>\u2003\u2003Ele permanecia parado ao lado do p\u00falpito iluminado, os olhos fixos em um ponto da multid\u00e3o, o sorriso apagado e o microfone ainda aberto, captando o som abafado de sua respira\u00e7\u00e3o. Por um segundo \u2014 n\u00e3o mais que isso \u2014 ele juraria ter visto Elena. N\u00e3o a mulher que enterrara d\u00e9cadas atr\u00e1s. N\u00e3o uma imagem velha do passado. Mas Elena ali, no agora. Com os mesmos olhos de safiras reluzentes e aquele ar reservado que ele aprendera a respeitar mais do que qualquer tecnologia ou arma que j\u00e1 criara.<br>\u2003\u2003A figura n\u00e3o estava mais l\u00e1. Talvez nunca tivesse estado.<br>\u2003\u2003Tony piscou, os m\u00fasculos do rosto se contra\u00edram involuntariamente, e uma pontada discreta se formou no fundo do cr\u00e2nio. Ele se virou para a lateral do palco, os olhos ainda varrendo o p\u00fablico como quem procura um erro de c\u00e1lculo num c\u00f3digo vital, mas n\u00e3o tinha nada. Apenas desconhecidos em trajes formais, crian\u00e7as segurando bal\u00f5es da Expo, investidores com seus sorrisos treinados, mas nenhuma mulher de olhos azulados.<br>\u2003\u2003Rhodey se aproximou, subindo discretamente o degrau do palco pela lateral. Vestia o blazer escuro da For\u00e7a A\u00e9rea com a mesma eleg\u00e2ncia pr\u00e1tica de sempre.<br>\u2003\u2003\u2014 Tony, t\u00e1 tudo certo? Voc\u00ea congelou ali por uns bons vinte segundos. Achei que ia dar tela azul.<br>\u2003\u2003Tony respirou fundo, virou-se devagar para o amigo, for\u00e7ando uma express\u00e3o casual.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu&#8230; achei que tinha visto algu\u00e9m, mas deve ter sido s\u00f3 a luz. Ou sono, ou culpa reprimida. Voc\u00ea escolhe.<br>\u2003\u2003Rhodey arqueou uma sobrancelha.<br>\u2003\u2003\u2014 A culpa geralmente n\u00e3o veste salto e encara voc\u00ea com aquele olhar de tribunal.<br>\u2003\u2003Tony soltou um sorriso breve, mas os olhos continuavam vazios. Ele olhou novamente para a plateia, agora sendo guiada pelos tel\u00f5es para a pr\u00f3xima atra\u00e7\u00e3o da feira, uma apresenta\u00e7\u00e3o interativa da nova divis\u00e3o de energia renov\u00e1vel das Ind\u00fastrias Stark.<br>\u2003\u2003\u2014 Deixa pra l\u00e1. Eu s\u00f3&#8230; achei que tinha visto a Elena.<br>\u2003\u2003Rhodey estreitou o olhar. O nome soou como uma nota fora da melodia. Poucos se lembravam de Elena, por\u00e9m menos ainda ousavam mencion\u00e1-la. Tony n\u00e3o falava sobre ela h\u00e1 anos.<br>\u2003\u2003\u2014 Sua falecida esposa?<br>\u2003\u2003Tony assentiu, o cenho ainda tenso.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o faz sentido, eu sei. Mas era ela, ou&#8230; algu\u00e9m muito parecida. Mesmo sorriso, mesmo jeito de olhar. Foi como levar um soco no est\u00f4mago com os olhos abertos.<br>\u2003\u2003Rhodey cruzou os bra\u00e7os, analisando-o.<br>\u2003\u2003\u2014 Tony, voc\u00ea dormiu quantas horas essa semana?<br>\u2003\u2003\u2014 Defina &#8220;<em>dormir<\/em>&#8221; \u2014 rebateu ele, jogando o microfone sobre a bancada e afastando-se do p\u00falpito. \u2014 N\u00e3o foi real, eu sei disso. Mas alguma coisa em mim&#8230; n\u00e3o acredita.<br>\u2003\u2003Ele caminhou at\u00e9 o camarim improvisado nos bastidores da Expo, ignorando os cumprimentos dos funcion\u00e1rios, os pedidos de selfie, as perguntas sobre o futuro da energia global. Estava em outro tempo agora, em outro tipo de espa\u00e7o. Um que n\u00e3o obedecia \u00e0s leis da f\u00edsica, mas sim \u00e0s da mem\u00f3ria.<br>\u2003\u2003Ao fechar a porta, Tony se permitiu encostar-se \u00e0 parede fria, os olhos no teto, os punhos cerrados. Era quase o fim de outubro e ela faria vinte e quatro anos.<br>\u2003\u2003Um borr\u00e3o de lembran\u00e7as fragmentadas o invadiu: a pequena caixa com o la\u00e7o dourado que havia preparado, anos atr\u00e1s, antes de tudo desmoronar; a imagem do ber\u00e7o vazio; o som que nunca veio. Nada havia sido poupado depois daquela noite; nenhuma certid\u00e3o e nenhuma l\u00e1pide p\u00fablica, apenas aquela \u00edntima e reservada. Apenas ele, Fury&#8230; e o tempo, que engolia as verdades como buracos negros.<br>\u2003\u2003Mas ver aquela mulher na plateia \u2014 mesmo que por um instante \u2014 tinha despertado algo que ele acreditava enterrado junto com o reator que um dia carregou no peito.<br>\u2003\u2003Se foi real&#8230; ent\u00e3o algu\u00e9m sabia. Algu\u00e9m quis que ele visse.<br>\u2003\u2003Tony respirou fundo, apoiou as m\u00e3os na mesa e ligou o monitor diante de si. Digitou uma senha curta, quase instintiva. As c\u00e2meras da plateia se abriram em m\u00faltiplos \u00e2ngulos, uma enxurrada de arquivos guardados em tempo real. Rostos, setores, passagens de calor, mas n\u00e3o havia sinal dela.<br>\u2003\u2003Era como se nunca tivesse existido.<br>\u2003\u2003\u2014 Paranoia \u2014 murmurou. \u2014 Ou provoca\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o sabia qual das op\u00e7\u00f5es o apavorava mais. Passou as m\u00e3os pelo rosto como se aquilo pudesse apagar o que tinha visto, mas n\u00e3o era apenas o rosto da Elena. Era o olhar, os olhos da Elena e o mesmo azul g\u00e9lido que ele via toda vez que fechava os pr\u00f3prios olhos, mesmo que ainda se recusasse a falar sobre ela.<br>\u2003\u2003O camarim estava silencioso, ou quase. Um dos monitores ainda exibia a transmiss\u00e3o atrasada da apresenta\u00e7\u00e3o, a voz de Tony ecoando no fundo como um lembrete inc\u00f4modo de que tudo havia sa\u00eddo perfeitamente \u2014 pelo menos, aos olhos do p\u00fablico.<br>\u2003\u2003Mas ele sabia a verdade.<br>\u2003\u2003Tony estava sentado na beira de uma bancada, os ombros ca\u00eddos, a respira\u00e7\u00e3o curta. Tirara o palet\u00f3 ainda no corredor, a gravata estava frouxa, e o colarinho da camisa se colava \u00e0 pele suada do pesco\u00e7o. O suor escorria pelas t\u00eamporas, apesar do ar-condicionado gelado. Sentia o batimento no fundo dos ouvidos e era uma pulsa\u00e7\u00e3o abafada, descompassada, insistente.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era f\u00edsico. Era outra coisa.<br>\u2003\u2003Ele levou a m\u00e3o ao peito \u2014 reflexo antigo, mesmo sem o reator ali. Aquilo o perseguia mais do que qualquer marca vis\u00edvel. Os dedos tremiam. Tentou controlar a respira\u00e7\u00e3o, focando no velho exerc\u00edcio que aprendera na terapia. Inspira por quatro segundos. Segura. Expira por seis.<br>\u2003\u2003Mas n\u00e3o adiantava.<br>\u2003\u2003A imagem ainda queimava atr\u00e1s das p\u00e1lpebras: o vulto na plateia. O rosto, os olhos. Aqueles malditos olhos azuis. Sabia que n\u00e3o era ela, sabia disso. Mas ver aquele olhar atravessando a multid\u00e3o o desarmou por dentro. E isso, somado \u00e0 press\u00e3o do evento, ao dossi\u00ea do Fury, \u00e0s imagens das v\u00edtimas estampadas nos jornais \u2014 como manchas em uma consci\u00eancia que ele n\u00e3o sabia mais se conseguia limpar \u2014 tudo aquilo estava se tornando insuport\u00e1vel.<br>\u2003\u2003E al\u00e9m de tudo&#8230; havia o calend\u00e1rio. Trinta e um de outubro se aproximava&#8230; o anivers\u00e1rio. %Mavis% teria vinte e quatro anos.<br>\u2003\u2003Vinte e quatro. Uma mulher feita. Uma vida inteira que ele nunca poderia acompanhar de perto, nem ver crescer. Um luto que ningu\u00e9m compartilhava e que ningu\u00e9m reconhecia, porque, para o mundo, ela sequer existira. N\u00e3o houve enterro oficial, nem not\u00edcias, nem condol\u00eancias p\u00fablicas. Apenas sil\u00eancio. O tipo de dor que ele enterrou junto com os documentos confidenciais. E Fury garantira isso. Prote\u00e7\u00e3o, ele dissera, discri\u00e7\u00e3o. Mas, no fundo, era s\u00f3 mais um segredo amargo acumulado no fundo da garganta.<br>\u2003\u2003Tony encarou o pr\u00f3prio reflexo na moldura met\u00e1lica da tela \u00e0 sua frente. As olheiras marcavam a pele, os olhos vermelhos de cansa\u00e7o e algo mais fundo \u2014 exaust\u00e3o emocional. Era como se o corpo inteiro gritasse por tr\u00e9gua, mas a mente se recusasse a parar.<br>\u2003\u2003Porque parar significava lembrar. E lembrar era o que do\u00eda mais.<br>\u2003\u2003Ele se levantou num impulso, cambaleando brevemente. Abriu a pequena geladeira embutida no canto da sala. S\u00f3 havia \u00e1gua. Pegou uma garrafa, abriu, bebeu de um gole s\u00f3. O gosto met\u00e1lico do lacre ainda no gargalo arranhava a garganta, mas n\u00e3o importava. Era apenas mais um est\u00edmulo tentando desvi\u00e1-lo do colapso iminente.<br>\u2003\u2003Passou a m\u00e3o no rosto, depois nos cabelos. O gesto autom\u00e1tico, desesperado, como se quisesse arrancar de si o peso do nome que carregava. Stark. G\u00eanio, bilion\u00e1rio, filantropo e pai ausente. Vi\u00favo de uma mulher que amara perdidamente e que havia perdido de forma precoce. Homem quebrado.<br>\u2003\u2003A Stark Expo deveria ser o ponto alto do ano, um recome\u00e7o. Progresso, inova\u00e7\u00e3o, legado.<br>\u2003\u2003Mas no fundo, era s\u00f3 distra\u00e7\u00e3o. Uma cortina de fuma\u00e7a para manter os olhos ocupados enquanto o peito afundava. Era o que fazia de melhor: ocultar a dor com luzes brilhantes e expectativas de futuro. Era isso que todos esperavam dele \u2014 que sorrisse, criasse, salvasse. Que nunca, jamais, parasse.<br>\u2003\u2003Mas ele estava parado agora. No meio de uma sala vazia, com o cora\u00e7\u00e3o disparado e a alma estilha\u00e7ada. Pensou em Elena e em como ela teria rido daquela apresenta\u00e7\u00e3o, com aquele jeito calmo e t\u00e3o ador\u00e1vel que ele amava. Ela teria chamado de &#8220;teatro&#8221;, dito que ele precisava dormir mais e salvar o mundo menos.<br>\u2003\u2003Pensou em %Mavis%, cujo nome que nunca dizia em voz alta. No beb\u00ea que segurou por t\u00e3o pouco tempo e perdeu antes mesmo de aprender a ser pai. No t\u00famulo onde deixava girass\u00f3is uma vez por ano, fingindo que aquilo bastava para manter a mem\u00f3ria viva.<br>\u2003\u2003Mas agora\u2026 havia algo no ar, algo que deixava tudo mais pesado. Ele sabia que estava \u00e0 beira. Do qu\u00ea, exatamente, ainda n\u00e3o conseguia nomear, mas sentia o corpo inteiro avisando. E ainda assim, n\u00e3o conseguia parar.<br>\u2003\u2003N\u00e3o podia.<br>\u2003\u2003A Stark Expo continuava. A plateia queria mais. O mundo exigia mais. E Tony Stark, como sempre, responderia, mesmo que estivesse ruindo por dentro.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003As luzes da Expo ainda piscavam em tons de vermelho e dourado quando ela atravessou a multid\u00e3o em retirada. Os \u00faltimos fogos de artif\u00edcio explodiam no c\u00e9u do Queens, refletindo nos arranha-c\u00e9us como rel\u00e2mpagos artificiais. Ela manteve o capuz baixo, os passos ligeiros, o ritmo constante. A maioria das pessoas a essa hora estava embriagada de euforia ou \u00e1lcool \u2014 ou ambos. Ningu\u00e9m reparou na mulher solit\u00e1ria que se afastava pelas ruas, j\u00e1 com outro destino em mente.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o olhou para tr\u00e1s. O rosto do homem ainda queimava atr\u00e1s dos olhos dela \u2014 aquele olhar perdido, estagnado, cheio de perguntas. Ela sabia que ele a reconheceria mesmo de longe. Mas ela tamb\u00e9m o viu e, por um segundo, o mundo pareceu hesitar, como se o pr\u00f3prio tempo tivesse engasgado.<br>\u2003\u2003Ela se afastou da \u00e1rea central da Expo e dobrou por um beco estreito, onde um carro preto a esperava, o motor roncando baixo. Entrou no banco de tr\u00e1s e passou instru\u00e7\u00f5es curtas para o motorista. O homem n\u00e3o disse uma palavra, apenas seguiu em dire\u00e7\u00e3o ao estado de Nova York. J\u00e1 passava da meia-noite e a estrada engolia o brilho da cidade at\u00e9 que tudo fosse trevas e far\u00f3is.<br>\u2003\u2003Ela passou as horas seguintes revisando os dados que havia coletado antes da Expo. Planos de constru\u00e7\u00e3o, esquemas el\u00e9tricos, rotas de seguran\u00e7a, hor\u00e1rios de vigil\u00e2ncia. O novo complexo dos Vingadores \u2014 afastado da agita\u00e7\u00e3o urbana, isolado o suficiente para parecer uma fortaleza, mas vulner\u00e1vel em detalhes que um olhar atento saberia explorar. Tony Stark sempre se cercou de tecnologia de ponta, mas os erros dele nunca estiveram nos fios ou nos sensores. Estavam nas pessoas.<br>\u2003\u2003Ela mapeou os pontos de entrada: a cerca de conten\u00e7\u00e3o que circundava o terreno, os sensores de movimento, a blindagem do hangar. Dois acessos subterr\u00e2neos usados para entregas, um corredor lateral que ficava desativado durante a madrugada, quando os suprimentos n\u00e3o chegavam. Aquilo bastava.<br>\u2003\u2003Num galp\u00e3o abandonado a poucos quil\u00f4metros do complexo, ela montou uma base improvisada. Havia armas desmontadas em cima da bancada, documentos espalhados, fotografias do local e dos principais membros ainda ativos \u2014 Tony Stark, James Rhodes, Wanda Maximoff, Sam Wilson. O restante&#8230; ou havia desaparecido ou se afastado. A equipe estava desmantelada, cansada, estilha\u00e7ada por dentro. A confian\u00e7a era fr\u00e1gil. Perfeita.<br>\u2003\u2003Ela estudava as c\u00e2meras de seguran\u00e7a quando a imagem pausou num frame espec\u00edfico: Stark caminhando sozinho por um corredor interno, com um copo na m\u00e3o. Ele olhava para o ch\u00e3o, a express\u00e3o ausente. O corpo carregava o peso de uma d\u00e9cada de batalhas, falhas e perdas. O homem por tr\u00e1s da armadura era fr\u00e1gil, humano. E, portanto, pass\u00edvel de cair.<br>\u2003\u2003Ela ampliou o rosto na tela e encarou os olhos dele como se procurasse algo \u2014 talvez culpa, talvez arrependimento. Talvez s\u00f3 uma justificativa. A resposta n\u00e3o veio, como sempre.<br>\u2003\u2003Desligou os monitores, ajeitou as luvas de couro e pegou um tubo de ensaio lacrado de dentro de uma maleta. A subst\u00e2ncia ali dentro era incolor, inodora, mas a quantidade exata bastava para apagar qualquer pessoa em segundos. A pr\u00f3xima etapa exigiria mais do que for\u00e7a. Exigia controle, c\u00e1lculo, sangue frio. Tr\u00eas ingredientes que ela havia aprendido a dominar cedo demais.<br>\u2003\u2003O rel\u00f3gio marcava 3h47 da manh\u00e3. Ela se levantou, alongou os ombros, pegou a jaqueta e escondeu o tubo sob o tecido. Na parede ao lado da porta, havia um mural com recortes de jornal. Alguns dos rostos j\u00e1 estavam riscados com tinta vermelha recente, enquanto outros j\u00e1 haviam sido riscados h\u00e1 muito tempo. Um novo nome seria riscado em breve.<br>\u2003\u2003Mas n\u00e3o ainda. Antes disso, ela precisava entrar na casa dele e ele nem sonhava com o que estava por vir.<br>\u2003\u2003O c\u00e9u pesava como chumbo quando as luzes da casa se apagaram. O velho chal\u00e9 afastado do centro urbano parecia respirar com dificuldade, como um corpo exaurido ap\u00f3s d\u00e9cadas de segredos enterrados. As janelas estavam fechadas, as cortinas puxadas, e ainda assim a sensa\u00e7\u00e3o de que algo espreitava do lado de fora fazia o ar tremer. O homem que vivia ali \u2014 um ex-instrutor da divis\u00e3o t\u00e1tica sovi\u00e9tica que depois vendera seus servi\u00e7os para a Hydra e outros grupos menos oficiais \u2014 n\u00e3o era estranho ao medo. Mas aquela noite, havia algo diferente. E ele sabia.<br>\u2003\u2003O ranger da madeira sob os pr\u00f3prios passos o irritava enquanto descia as escadas com uma garrafa de vodka pela metade numa m\u00e3o e um rev\u00f3lver velho na outra. Ele vivia sozinho desde os anos noventa, como todos os outros. As paredes da casa eram cobertas por livros empoeirados e lembran\u00e7as de guerras que ningu\u00e9m mais queria lembrar. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o queria, mas \u00e0s vezes elas vinham mesmo assim. Principalmente \u00e0 noite.<br>\u2003\u2003Quando passou pela sala principal, a televis\u00e3o estava ligada em est\u00e1tica. Ele n\u00e3o lembrava de t\u00ea-la ligado. Um chiado sutil preenchia o ambiente, e o copo que ele largara na mesa \u2014 cheio alguns minutos antes \u2014 agora estava derrubado, pingando devagar no tapete.<br>\u2003\u2003Foi quando ouviu o leve arrastar atr\u00e1s dele, n\u00e3o era apressado. Quase&#8230; proposital, como se a autora estivesse apenas o provocando psicologicamente, tal como um jogo s\u00e1dico. Ele se virou e n\u00e3o viu nada.<br>\u2003\u2003\u2014 Filha da puta \u2014 murmurou, apertando o cabo do rev\u00f3lver com os dedos tr\u00eamulos.<br>\u2003\u2003N\u00e3o teve tempo de apontar.<br>\u2003\u2003Algo o atingiu por tr\u00e1s, um golpe seco na base da coluna que o fez cair de joelhos. A arma caiu no ch\u00e3o antes que ele sequer gritasse. Uma bota o chutou para frente, fazendo-o bater com a cara no assoalho.<br>\u2003\u2003Sangue espirrou do nariz quebrado.<br>\u2003\u2003Ele tentou se virar, mas uma m\u00e3o forte o segurou pelo cabelo e o arrastou como se fosse um saco de ossos. Suas costas bateram contra a parede, os olhos arregalados tentando captar alguma coisa naquela figura coberta de preto, m\u00e1scara sobre o rosto, os olhos ocultos na penumbra. Era magra, baixa \u2014 mas se movia como uma m\u00e1quina de guerra, com uma frieza que o congelava por dentro.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea&#8230; voc\u00ea \u00e9 uma deles \u2014 ele gaguejou, cuspindo sangue.<br>\u2003\u2003A voz dela veio baixa, quase entediada:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Eu sou s\u00f3 o que sobrou.<br>\u2003\u2003A l\u00e2mina brilhou no escuro antes de perfurar a coxa dele com for\u00e7a. O grito ecoou pelas paredes grossas da casa, o sangue jorrou, quente, sujando a madeira, manchando a bainha da arma que ela segurava. Ela torceu a l\u00e2mina antes de pux\u00e1-la, arrancando um urro agudo, quase animal.<br>\u2003\u2003Ela o deixou cair. Ele tentou rastejar, mas ela pisou nas costas dele com for\u00e7a, cravando a bota entre as omoplatas. O som de costelas estalando fez o est\u00f4mago do homem virar, mas ela n\u00e3o parou. A l\u00e2mina veio de novo, agora rasgando-lhe o bra\u00e7o com um corte longo, destrutivo, abrindo pele e m\u00fasculo como papel velho.<br>\u2003\u2003\u2014 Por favor&#8230; \u2014 Ele chorou. \u2014 Eu n\u00e3o sabia&#8230; n\u00e3o sabia quem eram&#8230; eram ordens&#8230;<br>\u2003\u2003Ela se ajoelhou ao lado dele, limpou a l\u00e2mina na camisa dele, e ent\u00e3o aproximou os l\u00e1bios do ouvido ensanguentado.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabia o que fazia comigo, sabia o que ensinava e o que te mandavam fazer, porque voc\u00ea obedecia. O engra\u00e7ado \u00e9 que&#8230; desculpas n\u00e3o salvaram ningu\u00e9m.<br>\u2003\u2003Ele tentou falar mais uma vez, mas o golpe seguinte veio com brutalidade: a faca afundou no lado do pesco\u00e7o, cortando veias, cartilagem, cordas vocais. O sangue espirrou com for\u00e7a, tingindo o teto, os m\u00f3veis, o tapete. O corpo estremeceu por alguns segundos antes de se aquietar.<br>\u2003\u2003Ela ficou ali, ajoelhada, observando os olhos dele vidrarem. S\u00f3 ent\u00e3o retirou a faca e limpou o resto de sangue no rosto dele como se apagasse um nome de uma lista. Antes de sair, ela ligou a TV de novo, agora num canal de not\u00edcias. O som da rep\u00f3rter falava sobre um novo avan\u00e7o na Stark Expo.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2504],"class_list":["post-9980","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9980"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}