{"id":9869,"date":"2026-03-04T09:50:34","date_gmt":"2026-03-04T12:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-04T10:09:43","modified_gmt":"2026-03-04T13:09:43","slug":"capitulo-9","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/no-coracao-da-fazenda\/capitulo-9\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 9"},"content":{"rendered":"\r\n<p><span class=\"capitular1\">N<\/span>a manh\u00e3 seguinte, Nicole acordou cedo, embora tenha ido dormir tarde, e nem mesmo titia havia se levantado. O rel\u00f3gio marcava cinco horas da manh\u00e3, ent\u00e3o a mulher coou um caf\u00e9, preparou um bolo, e o colocou para assar. A manh\u00e3 estava fria como em um t\u00edpico dia mineiro. Aprontou-se se agasalhando, ap\u00f3s deixar o bolo no forno e subir ao pr\u00f3prio quarto. Carolina ainda dormia tranquilamente em sua cama. Depois que desceu, retornou \u00e0 cozinha e com a caneca de barro que tanto gostava serviu-se de caf\u00e9 forte, bebendo um pouco e diminuindo a intensidade do fogo para que a sua receita n\u00e3o queimasse.<br>\u2003\u2003Ela cal\u00e7ou as botinas indo a p\u00e9 tratar dos animais, viu que Canelinha ainda dormia, na varandinha dos fundos e ao p\u00e9 da porta da cozinha. Adiantando-se daquela tarefa, Nicole trocou sua \u00e1gua e serviu sua ra\u00e7\u00e3o matutina, depois caminhou rumo aos seus servi\u00e7os bra\u00e7ais de rotina. Recolheu os ovos do galinheiro e jogou milho \u00e0s aves, as criaturinhas j\u00e1 estavam acordadas h\u00e1 tempos, e os galos empoleirados no telhado do galinheiro bradavam o cacarejar da nova aurora.<br>\u2003\u2003Bernardo acordou um pouco depois de Nic e assim que se aprontou, passou no quarto da mulher abrindo uma fresta da porta, a fim de observar se as duas dormiam. Estranhou ao ver que apenas Carol estava dormindo, e ent\u00e3o, desceu pronto para encontrar aquela que, por parte da noite, n\u00e3o havia sa\u00eddo de sua mente. Mas, a cozinha estava vazia, com cheirinho de bolo que assava, e caf\u00e9 rec\u00e9m-coado. Serviu-se de um gole e sorriu ao sentir a familiaridade que o c\u00f4modo transpassava. N\u00e3o era o caf\u00e9 de sua m\u00e3e, o sabor era forte como ele gostava. Como o caf\u00e9 que ele mesmo fazia: pouco a\u00e7ucarado e certo para um dia de trabalho incessante.<br>\u2003\u2003Lembrou-se de seu pai, que lhe dizia quando ele ainda era um menino: <em>\u201cO caf\u00e9 que voc\u00ea faz, mostra um pouco da for\u00e7a que voc\u00ea tem\u201d&#8230;<\/em> O velho senhor Fabiano era um homem sens\u00edvel debaixo de toda aquela casca de homem bruto do campo, e Bernardo tornou-se um pouco como o pai. Aquele caf\u00e9, aquela simples caneca da bebida, aquecia ao cora\u00e7\u00e3o do fazendeiro por mem\u00f3rias t\u00e3o af\u00e1veis que lhe trouxera. Como se visse o pai em sua frente sorrindo e bebendo uma x\u00edcara com ele, Bernardo ouviu o sussurro imagin\u00e1rio de seu falecido velho lhe dizendo: <em>\u201cPelo caf\u00e9 dela, qual a for\u00e7a que ela tem?\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003Nicole. L\u00e1 estava novamente Bernardo pensando em Nicole e agora at\u00e9 mesmo um simples caf\u00e9 da manh\u00e3 era raz\u00e3o para a mulher invadir seus pensamentos. Virou a bebida de uma \u00fanica vez, e batendo a caneca na pia, Bernardo sacudiu a cabe\u00e7a a fim de esquecer tudo aquilo. Come\u00e7ara o dia j\u00e1 bufando e saiu pegando seu chap\u00e9u pendurado atr\u00e1s da porta dos fundos da cozinha.<br>\u2003\u2003Nicole observou seu rel\u00f3gio de punho e ao perceber que a hora j\u00e1 marcava cinco e trinta e cinco, acreditou que Bernardo j\u00e1 deveria estar acordado e logo mais chegaria ali. Enquanto ela jogava o milho das galinhas, os patinhos aproximavam-se do lado de fora do galinheiro, com um sorriso de quem a cada dia se tornava mais \u00edntima da natureza, ela os alimentou tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, o ranger da camionete aproximou-se e parou, Bernardo desceu do carro e caminhou na dire\u00e7\u00e3o dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, Bernardo. \u2014 falou-lhe meticulosa em observar como estaria o humor dele: \u2014 Eu passei um caf\u00e9.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 eu j\u00e1 bebi.<br>\u2003\u2003E l\u00e1 estava, um Bernardo r\u00edspido de novo. Nicole sabia que n\u00e3o demoraria muito com aquela quase serenidade da noite anterior. Por\u00e9m, apesar de parecer irritado, ele n\u00e3o a ignorou como sempre fazia ao sair logo trabalhando. Estava parado olhando as galinhas se espalharem no quintal, meio sem jeito em como trat\u00e1-la. Na verdade, ap\u00f3s presenciar a cena da mulher com sua filha, ele estava pensativo sobre as raz\u00f5es pelas quais, a tratava t\u00e3o mal! E ap\u00f3s cair acidentalmente sobre ela encarando, pela primeira vez bastante pr\u00f3ximo, aqueles olhos intensos, Bernardo custou dormir. Por isso, quando acordou e n\u00e3o a viu de p\u00e9, ficou um pouco aliviado, mas assim que percebeu o caf\u00e9 coado e todas aquelas sensa\u00e7\u00f5es retornando, ele soube que deveria se preparar para reagir a ela.<br>\u2003\u2003Estava parado, observando-a inerte enquanto ela terminava de jogar os alimentos para os bichinhos. Nicole notou a maneira como Bernardo estava estranho, calado e im\u00f3vel. Batendo no fundo do cesto de milho em sua m\u00e3o, para que os farelos ca\u00edssem no ch\u00e3o, ela lhe dirigiu a pergunta:<br>\u2003\u2003\u2014 Vou colocar os ovos na camionete. Importa-se se fizer tudo sozinho hoje? Eu quero arrumar a varanda, a frente da casa e estou com um bolo no forno.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode ir. \u2014 ele concordou e seguiu para seus afazeres.<br>\u2003\u2003Nicole deixou os ovos no carro, voltou para o casar\u00e3o, e tirou as botinas na porta dos fundos. Voltou ao fog\u00e3o aumentando levemente o fogar\u00e9u da lenha, enxugou as lou\u00e7as que havia acabado de lavar naquela manh\u00e3, varreu a cozinha e a sala e deixou para limpar melhor a casa, depois. O bolo assou e ela o retirou, colocando para esfriar. Dirigiu-se \u00e0 frente da casa e p\u00f4s-se a organizar a bagun\u00e7a das festividades de casamento, que ainda se encontrava ali. Limpou toda a varanda, rastelou e varreu o quintal da frente, logo o sol nascera e assim que ela o admirou, foi tomar banho. \u00c0quela altura o rel\u00f3gio marcava sete horas. Titia acordara e elas se esbarraram ao corredor superior.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, tia!<br>\u2003\u2003\u2014 Mas, j\u00e1 est\u00e1 de p\u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 H\u00e1 muito tempo!<br>\u2003\u2003\u2014 Que horas s\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 Deve passar um pouco mais das sete.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?! Perdi a hora!<br>\u2003\u2003\u2014 Relaxe, a senhora pode. Estava exausta, n\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 Um pouco, querida.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos tomar caf\u00e9! Assei um bolo.<br>\u2003\u2003\u2014 A que horas levantou?<br>\u2003\u2003\u2014 Cinco. \u2014 Nicole respondeu risonha.<br>\u2003\u2003\u2014 Por qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sei, apenas acordei. Preparei o bolo e o caf\u00e9. Fui tratar dos animais, a\u00ed o Bernardo apareceu e eu o deixei por l\u00e1. Vim arrumar a varanda e agora s\u00f3 falta limpar a parte debaixo da casa e fazer o almo\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Animada! E a Carol? N\u00e3o a vi no quarto dela!<br>\u2003\u2003\u2014 Ela dormiu comigo. Ei titia! Eu queria lhe perguntar j\u00e1 h\u00e1 algum tempo\u2026 \u2014 Nicole estava animada de fato, n\u00e3o sabia a raz\u00e3o, mas acordou disposta, e lembrou-se de algo que gostaria de perguntar desde que chegara ali: \u2014 O nome de Carol tem algo a ver com o seu \u201cCoralina\u201d?<br>\u2003\u2003\u2014 Tem sim! \u2014 A senhorinha sorriu nost\u00e1lgica: \u2014 Quando eu era crian\u00e7a, eu tive uma boneca a qual batizei assim porque eu sempre gostei do nome. Eu queria me chamar apenas Coralina. Com a chegada de Carol, tentei convencer, mas Bernardo preferiu Carolina.<br>\u2003\u2003\u2014 A m\u00e3e dela n\u00e3o optou no nome?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela nem mesmo olhou a beb\u00ea. Assim que Carolina nasceu, Bruna murmurou um \u201cfinalmente\u201d e virou o rosto. \u2014 A repulsa se fazia not\u00f3ria no tom de titia.<br>\u2003\u2003Assim que as duas terminaram de descer \u00e0 cozinha, Bernardo surgiu. Pediu ben\u00e7\u00e3o a m\u00e3e, beijou-a e subiu para tomar um banho. Nicole escapou um olhar para ele, vendo-o caminhar lento e suado para dentro de casa. Naquele momento ignorou a cena dos olhos dele t\u00e3o perto dos seus na noite anterior, que j\u00e1 retomava \u00e0 sua mente. Carolina desceu com o pai logo depois e todos juntos tomaram seu caf\u00e9. At\u00e9 ali, nada de alfinetadas e maus olhares. At\u00e9 ent\u00e3o, nenhum olhar entre Bernardo e Nicole, mas Carolina interrompeu a paz:<br>\u2003\u2003\u2014 Vov\u00f3! Papai ontem caiu de toalha em cima da tia Nic!<br>\u2003\u2003Carol lembrou-se gargalhando. Bernardo engasgou-se com o caf\u00e9 e olhou para a sua m\u00e3e, nervoso.<br>\u2003\u2003\u2014 Como foi isso, Nicole? \u2014 A senhora perguntou para a sobrinha sem tirar os olhos do filho, por cima dos \u00f3culos, como se estivesse pronta para repreend\u00ea-lo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, nada de mais, ele foi ao quarto saber da Carolina e trope\u00e7ou no meu chinelo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah sim! \u2014 Titia direcionou um olhar anal\u00edtico para o filho: \u2014 E voc\u00ea perdeu algum peda\u00e7o, Bernardo?<br>\u2003\u2003Havia um tom de ironia na voz da titia, e Nicole n\u00e3o entendeu ao certo o que ela queria dizer, mas Bernardo parecia entender muito bem.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. N\u00e3o foi nada, m\u00e3e. \u2014 desconversou ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem, tia&#8230; Quando Rosa e Marcelo partem para a viagem?<br>\u2003\u2003\u2014 Eles j\u00e1 devem estar chegando para se despedir.<br>\u2003\u2003Os tr\u00eas continuaram o seu caf\u00e9 da manh\u00e3, com Carolina contando do sonho que tivera pela noite. Um pouco depois, Rosa e Marcelo passaram no casar\u00e3o rapidamente, para despedirem-se da fam\u00edlia. Viajariam por algum tempo em lua de mel, e aproveitaram f\u00e9rias acumuladas para uma viagem mais longa. Titia, assim que todos terminaram de comer, se despediram do novo casal e Nicole se preparava para retirar a mesa, logo foi avisando:<br>\u2003\u2003\u2014 Nicole, se arrume. Hoje, j\u00e1 que nos atrasamos, iremos \u00e0 missa das dez, horas da manh\u00e3.<br>\u2003\u2003\u2014 Ser\u00e1 que ela tem o costume de rezar, m\u00e3e?<br>\u2003\u2003Bernardo at\u00e9 havia tentado n\u00e3o ser rude, mas estava irritadi\u00e7o pelo fato de n\u00e3o conseguir tirar a express\u00e3o de Nicole, da noite anterior de sua mente. Assim como n\u00e3o se esquecia dos sorrisos que ela alargava durante o dia, no casamento ao lado de Gabriel.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o tenho o costume de ir \u00e0 igreja, mas eu irei tia Laura. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar \u00e0 cidade, e j\u00e1 que a vida \u00e9 nova, os h\u00e1bitos tamb\u00e9m devem ser.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu vou te mostrar os meus coleguinhas da catequese Nic!<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, com certeza eu vou querer conhec\u00ea-los Carol.<br>\u2003\u2003Todos se arrumaram e seguiram \u00e0 igreja. No carro \u2014 que n\u00e3o era cabine dupla \u2014 tiveram que ir os tr\u00eas na frente, com Carol em um dos colos. Bernardo e a m\u00e3e discutiram para ver quem dirigiria. Ele n\u00e3o gostava que a m\u00e3e pegasse ao volante e, Nicole at\u00e9 preferia que titia n\u00e3o dirigisse mesmo. Titia era daquelas \u201cdevagar e sempre\u201d. Ent\u00e3o Bernardo ganhou a vez! Nicole sentou-se ao meio e titia ao seu lado com Carolina em seu colo.<br>\u2003\u2003Na missa, Nic avistou Gabriel, mas ele n\u00e3o a viu. Para ela, era estranho estar ali naquele tipo de situa\u00e7\u00e3o \u201cem fam\u00edlia\u201d, mas Nicole abria-se cada dia mais para as novas experi\u00eancias. Sentou-se no banco ao lado deles e enquanto escutava as palavras do padre, tudo o que Gabriel dissera para ela na festa de casamento, sobre novas perspectivas e outras maneiras de interagir positivamente com os problemas, martelavam em sua mente. Sem d\u00favidas fora uma \u00f3tima homilia do padre e Nicole renovou as suas esperan\u00e7as, decidindo confiar mais nas provid\u00eancias divinas.<br>\u2003\u2003Na hora da comunh\u00e3o, Nic n\u00e3o se mexeu. H\u00e1 muito tempo Nicole n\u00e3o comungava! Era demasiado estranho para ela realizar aquilo de novo, ent\u00e3o permaneceu sentada at\u00e9 que sua tia a indagou. Titia convenceu-a de que faria bem a ela ir comungar e que, se preferisse, Nicole poderia confessar-se depois. E assim, Nicole fez. Colocou-se diante da fila de crist\u00e3os, e seus p\u00e9s falhavam.<br>\u2003\u2003Ao contr\u00e1rio do primeiro dia onde em um piscar de olhos ela estava ajoelhada em frente ao altar, aquela peregrina\u00e7\u00e3o at\u00e9 o encontro de Deus demorou. Nicole ponderou voltar, mas j\u00e1 que estava ali iria em frente, ela precisava daquele momento. Precisava estar ali. Voltar n\u00e3o era op\u00e7\u00e3o at\u00e9 porque, atr\u00e1s de si, estava Bernardo e ela n\u00e3o ousaria atrapalhar e causar uma cena, no meio da fila da igreja!<br>\u2003\u2003\u00c0 medida que ela ia se aproximando, o seu cora\u00e7\u00e3o come\u00e7ava a explodir tudo o que ela sentia. Medo. \u00d3dio. Frustra\u00e7\u00e3o. Desconfian\u00e7a. Tristeza. Vergonha. Desesperan\u00e7a. Derrota. Tudo o que a incomodava veio at\u00e9 a sua garganta como se ela fosse vomitar todos os sentimentos ali. Nicole rezava em seu cora\u00e7\u00e3o, no caminho at\u00e9 o altar da igreja pedindo: <em>\u201cSenhor, te entrego o que venho sentindo. Me fa\u00e7a mais forte. Me fa\u00e7a nova. E me fa\u00e7a aceitar as suas vontades\u201d.<\/em> Assim que comungou, tamb\u00e9m desabou em l\u00e1grimas. Desde que chegara ali aquele fora o segundo grande passo daquela nova vida. Coincidentemente os dois tinham sido para Deus. Coincidentemente?<br>\u2003\u2003Bernardo a observava de modo discreto, Nicole estava chorando copiosamente ao seu lado e ele sentia que deveria abra\u00e7\u00e1-la. Mas, ao mesmo tempo, em que desejava aquilo, n\u00e3o sabia que consequ\u00eancias a sua atitude poderia gerar. Tia Laura, ao ver o modo como o filho encarava Nicole num claro impasse dentro de si, \u2014 com seus olhos urgentes sobre a mulher chorosa, e sua express\u00e3o t\u00e3o fechada \u2014 entendeu que ele n\u00e3o iria seguir ao seu cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ela mesma p\u00f4s-se a abra\u00e7ar a mulher e dizer-lhe palavras de conforto. Ap\u00f3s o fim da celebra\u00e7\u00e3o, Nicole conversou com o padre e saiu da igreja com uma coisa em mente: fazer tudo novo em sua vida. E dependeria apenas dela.<br>\u2003\u2003A sua \u201cfam\u00edlia\u201d aguardava na porta do santu\u00e1rio e conversavam com alguns conhecidos. Gabriel estava sentado no \u00faltimo banco da igreja que j\u00e1 estava vazia, quando Nicole sa\u00eda da sacristia. Ela seguiu at\u00e9 ele e o padre, que parou logo atr\u00e1s a conversar com outros fi\u00e9is, sorriu ao ver que a mulher j\u00e1 tinha um amigo.<br>\u2003\u2003Os dois conversavam amenos, dividindo a experi\u00eancia de paz ap\u00f3s uma missa. Gabriel olhava para Nicole com extrema ternura e o sacerdote os fitava de um modo que julgava discreto, mas que foi percebido pelos dois delegados: certamente, acreditando que ali havia algo mais. Logo que o padre se direcionou para fora da igreja, Gabriel e Nicole tamb\u00e9m seguiram.<br>\u2003\u2003Bernardo despediu-se de um conhecido, correu o olhar por Carolina que brincava com alguns amiguinhos e notou o amigo e a \u201cn\u00e3o-prima\u201d chegando pr\u00f3ximos a eles. Lan\u00e7ou um olhar direto para o delegado e a delegada, assim como o padre que repetiu o gesto, e titia. Gabriel cumprimentou a todos os presentes e desculpou-se pela pressa em n\u00e3o poder ficar proseando, despedindo-se em seguida. Nicole e ele sorriram, e a mulher ficou surpresa ao v\u00ea-lo pegar sua m\u00e3o e beij\u00e1-la como um cavalheiro. Em contrapartida, ela o abra\u00e7ou e s\u00f3 foi pensar no que fizera depois que j\u00e1 deixara a todos, surpresos. O rapaz correspondeu, um pouco comedido e saiu. Distanciava-se enquanto Nicole e sua \u201cfam\u00edlia\u201d seguiram em caminhada \u00e0 feira de rua que havia ao lado da igreja.<br>\u2003\u2003Na feira vendia-se de tudo o que fosse alimento, animais de fazenda e comidas t\u00edpicas, mas j\u00e1 estava no final e segundo titia, as mercadorias j\u00e1 n\u00e3o eram as melhores. Bernardo estaria l\u00e1 vendendo, se acordasse mais cedo aquela manh\u00e3. Carol, como disse que faria, apresentou seus coleguinhas da catequese para Nicole e, logo a matriarca e a neta seguiram para uma barraquinha de biscoitos \u201cda ro\u00e7a\u201d. Carol sempre comprava alguns suspiros, marias-moles e biscoitos ali.<br>\u2003\u2003\u2014 Bernardo, leve a Nicole para provar o caldo de costela! \u2014 pediu titia.<br>\u2003\u2003Ele ent\u00e3o foi andando e ela, o seguiu. Chegando a uma barraquinha fizeram os pedidos ao dono, que come\u00e7ou a puxar assunto. O que j\u00e1 era esperado, pois, Nicole era uma atra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Quem \u00e9 a mo\u00e7a, Bernardo?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 uma sobrinha da minha m\u00e3e. \u2014 Ele disse indiferente e Nicole sorriu simp\u00e1tica.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sabia que Cora tinha uma sobrinha t\u00e3o bonita!<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, muito obrigada. \u2014 agradeceu ela.<br>\u2003\u2003\u2014 \u2018<em>C\u00ea<\/em> tamb\u00e9m <em>num fala<\/em> nada de ter uma prima bonitona, n\u00e9, Z\u00e9 pirra\u00e7a?<br>\u2003\u2003O senhor falou para Bernardo, e pela segunda vez Nicole ouvira aquele, curioso, apelido.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela n\u00e3o \u00e9 minha prima, <em>seu<\/em> Tadeu. A minha m\u00e3e, que considera ela como parte da fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003\u2014 E ela num \u00e9, <em>uai<\/em>?<br>\u2003\u2003Nicole havia ficado sem gra\u00e7a com a negativa do homem, mas o senhor Tadeu olhou para Bernardo j\u00e1 conhecendo a atitude dele. Bernardo nada respondeu e o velho rindo concluiu:<br>\u2003\u2003\u2014 Esse Z\u00e9 Pirra\u00e7a! N\u00e3o muda!<br>\u2003\u2003Tentada pela curiosidade, Nicole n\u00e3o resistiu e perguntou ao dono da barraquinha o motivo pelo apelido. E o senhor Tadeu lhe contou. Disse que desde a inf\u00e2ncia Bernardo fora uma crian\u00e7a muito pirracenta, e que uma vez seu pai lhe castigou, ent\u00e3o ele parou com aquilo, mas ainda era da natureza do homem ser implicante. Dissera para Nicole que se Bernardo lhe implicasse muito, que ela soubesse: era pirra\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso era nos tempos de moleque <em>seu<\/em> Tadeu. Eu j\u00e1 sou homem. \u2014 Bernardo respondeu ap\u00f3s se sentir incomodado pela conversa.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah! Eu te conhe\u00e7o moleque. Eu num aposto dois <em>r\u00e9is<\/em> <em>n\u2019oc\u00ea<\/em>.<br>\u2003\u2003O velho gargalhou e os caldos chegaram quentinhos, e com um cheiro maravilhoso. Enquanto comiam em p\u00e9, em frente \u00e0 barraca, o casal nada falava um com o outro. Nicole procurava titia e Carol, que de repente desapareceram. E Bernardo parecia um c\u00e3o de guarda bravo, com uma carranca no rosto. Uma mulher loira de rosto redondo, l\u00e1bios rosados e olhos de profundo verde se aproximou dos dois, sorridente. Ela parou em frente ao Bernardo, que ficou a encarando sem falar nada, mas ela n\u00e3o havia notado Nicole at\u00e9 olhar para o lado se dando conta da sua presen\u00e7a. No mesmo instante que vislumbrou a delegada ao lado de Bernardo, e que lhe observava com um sorriso simp\u00e1tico, a loira ficou visivelmente assustada.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom\u2026 Dia. \u2014 Ela disse.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia.<br>\u2003\u2003Nicole respondeu e olhou para o Bernardo, de forma curiosa. Mas ele continuava comendo o caldo indiferente a elas. N\u00e3o seria muita burrice dela perder a chance de \u201cpirra\u00e7\u00e1-lo\u201d um pouco? Por isso, Nicole n\u00e3o se calou:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai me apresentar a sua amiga, Bernardo?<br>\u2003\u2003\u2014 Esta \u00e9 a L\u00facia. \u2014 disse sem o menor interesse.<br>\u2003\u2003\u2014 Prazer L\u00facia. Eu sou a Nicole.<br>\u2003\u2003Enquanto Nicole sorria simp\u00e1tica, a mulher ficou parada assustada a olhando da cabe\u00e7a aos p\u00e9s de boca aberta.<br>\u2003\u2003\u2014 Prazer\u2026 Voc\u00ea\u2026 \u00c9\u2026 Quem \u00e9 ela, Bernardo? \u2014 L\u00facia olhou assustada para ele, mas sendo simp\u00e1tica com Nicole.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 a Nicole. \u2014 Ele continuou frio.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sou sobrinha de considera\u00e7\u00e3o da dona Laura. \u2014 Nicole respondeu se deliciando com o caldo gostoso.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah! E voc\u00ea <em>t\u00e1<\/em> morando aqui?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. Por enquanto, pelo menos.<br>\u2003\u2003\u2014 Uai! Ent\u00e3o bem-vinda, <em>n\u00e9<\/em>?<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigada.<br>\u2003\u2003\u2014 Nada. \u2014 L\u00facia respondeu ainda sem gra\u00e7a: \u2014 Cad\u00ea Carol e dona Laura, Bernardo?<br>\u2003\u2003\u2014 Elas estavam na barraca dos biscoitos.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Hm<\/em>&#8230; Ent\u00e3o <em>t\u00e1<\/em>!<br>\u2003\u2003A perceber que o amigo permaneceria pouco falante e muito emburrado, L\u00facia sorriu para ele e despediu-se de Nicole, que observava aos dois de uma forma bem curiosa.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>\u00d4u<\/em>, aqui <em>s\u00f4<\/em>, foi um prazer viu?<br>\u2003\u2003\u2014 Ah obrigada! Espero poder lhe ver de novo.<br>\u2003\u2003\u2014 Igualmente&#8230;<br>\u2003\u2003L\u00facia despediu-se com aquelas poucas palavras, um aceno discreto de m\u00e3o, um sorriso fraco e saiu sem olhar para tr\u00e1s. Bernardo revirou os olhos depois que a mulher se afastou e terminando de comer, devolveu a tigela ao dono. Nicole olhou para o senhor Tadeu, que sorria com a situa\u00e7\u00e3o, e perguntou:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu fiz alguma coisa errada?<br>\u2003\u2003\u2014 Nada, a L\u00facia \u00e9 t\u00edmida mesmo, <em>s\u00f4<\/em>! \u2014 o senhor respondeu.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s devolver a tigela para ele, Bernardo foi pagar, mas Nicole foi mais r\u00e1pida e pagou o seu caldo. Ele tirou a nota da m\u00e3o do senhor e devolveu \u00e0 mulher dizendo: <em>\u201cdeve economizar para a sua mudan\u00e7a\u201d. <\/em>Nicole ficou calada e chateada. Guardou a nota em seu bolso e ele a observando contrariado, ajeitava o chap\u00e9u em sua cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Seu rosto est\u00e1 sujo. \u2014 disse indiferente para ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Onde? \u2014 Nicole come\u00e7ou a passar a m\u00e3o na testa e ele a olhou como se ela fosse uma idiota.<br>\u2003\u2003\u2014 Na sua boca, sua lerda!<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, voc\u00ea disse o rosto, seu burro! \u2014 Ela devolveu na mesma ignor\u00e2ncia e passou a m\u00e3o de um lado da boca.<br>\u2003\u2003\u2014 Do outro lado! \u2014 Ele continuou olhando para ela, como se ela fosse idiota.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu Deus! Voc\u00ea saiu mesmo da igreja agora h\u00e1 pouco? \u2014 perguntou irritada, enquanto pegava guardanapos da barraquinha.<br>\u2003\u2003Nicole tentou limpar o outro lado de sua boca, mas Bernardo perdeu a paci\u00eancia. Pegando outro guardanapo se aproximou de repente dela e segurando seu queixo, limpou a marca do caldo que respingou ali e manchado a boca da mulher. Aquilo deixou a mulher surpresa e enrubescida. O senhor Tadeu ria enquanto Nicole, disfar\u00e7ando a pr\u00f3pria estupefa\u00e7\u00e3o, repreendia ao Bernardo:<br>\u2003\u2003\u2014 Seu bronco! Olha essa m\u00e3o pesada! Eu posso fazer isso sozinha!<br>\u2003\u2003\u2014 Parece crian\u00e7a! \u2014 Bernardo brigou ainda mais irritado.<br>\u2003\u2003Titia e Carol chegaram sem entender nada do que viam: Bernardo t\u00e3o perto de Nicole segurando o queixo dela, e os dois discutindo enquanto ele amassava o papel e jogava fora se afastando. Neta e av\u00f3 se entreolharam confusas. Nic estava irritada pela vergonha que Bernardo a fazia passar, pelas grosserias e principalmente por n\u00e3o estar acostumada com aquela proximidade com ele. As m\u00ednimas aproxima\u00e7\u00f5es estavam deixando ela um tanto quanto inquieta, ultimamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Pronto.<br>\u2003\u2003Bernardo deu as costas e despediu-se de Tadeu com um aceno, saindo a caminhar. A mulher acenou em despedida para o vendedor, ainda massageando seu rosto por onde Bernardo havia limpado.<br>\u2003\u2003\u2014 Falta delicadeza neste homem, viu? \u2014 falou para sua tia, reclamando que <em>\u201co imbecil do Bernardo\u201d<\/em> deixara seu rosto marcado e avermelhado com aquela m\u00e3o pesada, e sua tia olhando falou que n\u00e3o dava para notar.<br>\u2003\u2003Enquanto seguiam o percurso da estrada, de volta para casa, Carol ligou o r\u00e1dio e can\u00e7\u00f5es t\u00edpicas das modinhas sertanejas tocaram. Nicole ficou observando a menina e recordando da fotografia de Bruna. Carol era t\u00e3o bonita quanto \u00e0 m\u00e3e, mas n\u00e3o tinha os mesmos tra\u00e7os finos. Tra\u00e7os de \u201csenhorita europeia\u201d. O rostinho de Carolina, embora delicado, recordava muito \u00e0 face do pai. Os olhos eram os da m\u00e3e, castanhos escuros como jabuticabas. At\u00e9 mais escuros que os da pr\u00f3pria Nic, que sempre escutou entre seus amigos que tinha <em>\u201cos olhos de Capitu\u201d.<\/em> Nicole pensou que, no lugar de Carolina, ficaria triste por n\u00e3o ter ganhado a heran\u00e7a das irises azuladas de Bernardo.<br>\u2003\u2003Depois de contemplar a crian\u00e7a, ela olhou discreta para ele, e de novo para a pequena, em seguida, refletiu sobre a imagem de Bruna. Uma fam\u00edlia que em outra ocasi\u00e3o, seria linda como em comercial de margarina. Bruna e Bernardo, al\u00e9m da linda coincid\u00eancia dos nomes, formavam um lindo casal. Uma pena n\u00e3o ter sido como nos contos de fada. Estes contos que muitas garotas como Carolina pensam existir, mas que na vida de garotas como Nicole, n\u00e3o passavam de contos.<br>\u2003\u2003A mulher acreditava que n\u00e3o havia um \u201cfeliz para sempre\u201d e se existisse, apostaria o m\u00e1ximo de que a vida seria totalmente desinteressante. Imagine s\u00f3: um momento em que voc\u00ea olha para os lados e v\u00ea a vida como voc\u00ea sonhou, v\u00ea que n\u00e3o falta nada, que est\u00e1 tudo pronto&#8230; Nicole n\u00e3o conseguiria conviver o tempo inteiro com esta total comodidade. O que fazer depois que j\u00e1 se tem tudo o que se sonha?<br>\u2003\u2003Pensando assim, ela come\u00e7ou a compreender melhor os caminhos tortos do seu destino. Ela iria mesmo se conformar apenas \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do seu sonho profissional, ao namoro dito \u201cperfeito\u201d com Lucas e fim? Porque ela tinha tudo o que queria! O resto seria consequ\u00eancia de muito trabalho. A partir daquele instante, Nicole viu o qu\u00e3o pr\u00f3xima do seu \u201cfeliz para sempre\u201d ela esteve e se alegrou por ele n\u00e3o acontecer. Seria tedioso passar a vida inteira apenas em prol da continua\u00e7\u00e3o de cap\u00edtulos vazios de um livro com t\u00e3o pouca hist\u00f3ria. Ainda mais agora, que ela sabia o qu\u00e3o pouco ela tinha.<br>\u2003\u2003A vida estava a desafiando e ela como boa competidora iria ganh\u00e1-la. E depois da vit\u00f3ria trilharia novas metas a se conquistar! Quem sabe, essas metas n\u00e3o estivessem ali ao seu lado? J\u00e1 amava Carolina, e n\u00e3o se imaginava sem aquele sorriso branco, de pequenos dentes afiados se formando para ela desde que a menina se tornou a sua maior alegria! Uma filha como Carolina\u2026 Nicole n\u00e3o sabia se seria capaz de formar um ser naturalmente t\u00e3o cheio de amor assim, mas sem d\u00favidas ela amaria um filho seu como amava Carol.<br>\u2003\u2003Quis rir quando se percebeu pensando aquilo tudo, afinal, quando \u00e9 que havia se tornado uma mulher t\u00e3o maternal? E observando o sorriso da garotinha, que cantarolava as modinhas no colo da av\u00f3, Nicole indagava-se: como pode? N\u00e3o conseguia entender, como uma m\u00e3e abandonava uma crian\u00e7a daquela. E como um pai t\u00e3o detest\u00e1vel como aquele, juntos, formaram uma coisinha pequena t\u00e3o cheia de ardil, intelig\u00eancia, solidariedade e amor! Tanto amor! Nicole poderia estar precipitando o seu julgamento sobre os pais dela, mas aquele era o julgamento que ela era capaz de fazer no momento, visto os fatos que conhecia de ambos.<br>\u2003\u2003Por que Bruna teria trocado a filha por uma vida t\u00e3o vazia? Algumas capas de revistas valiam mais do que aquela crian\u00e7a? Quais eram as motiva\u00e7\u00f5es reais de Bruna? Mesmo sabendo que ela jamais deveria julgar, que ela n\u00e3o tinha o direito de julgar, Nicole pensou: algumas mulheres t\u00eam a chance de serem m\u00e3es, mas ser\u00e1 que deveriam? Era o seu julgo primeiro sobre aquilo tudo, embora, no fundo, de seu cora\u00e7\u00e3o sabia que era errado pensar daquela forma sobre Bruna. Afinal, h\u00e1 muito mais do que um lado da hist\u00f3ria poderia ser capaz de dizer. E sendo ainda mais diretiva: o direito de ter um filho ou n\u00e3o, era de Bruna, certo? Por mais que ela, Nicole, achasse aquilo errado&#8230; O aborto desejado por Bruna era mesmo raz\u00e3o suficiente para condenarem-na daquela forma? E ainda, tendo Bruna, deixado a filha com o pai, ela era assim, t\u00e3o abomin\u00e1vel como titia fazia parecer? Ser\u00e1 que n\u00e3o havia dois pesos e duas medidas naquilo tudo?<br>\u2003\u2003Nicole estava perdida em seus pensamentos, analisando pai e filha, e sem disfar\u00e7ar. Bernardo lhe cravava um olhar esguelho, de maneira curiosa, se indagando porque a mulher olhava para ele e para Carolina tantas vezes. E Nicole apenas buscava as compara\u00e7\u00f5es. Queria realmente fazer uma leitura do pai compreendendo a filha. Queria ler Bernardo atrav\u00e9s das coisas que o rodeavam, j\u00e1 que de forma direta n\u00e3o lhe parecia poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003Pouco a pouco, sem perceber, Nicole estava buscando cada dia mais respostas sobre ele, estava investigando quem era o homem por tr\u00e1s da camada fria e dura de grosserias. N\u00e3o saberia ao menos justificar a raz\u00e3o para aquilo, mas Bernardo estava se tornando o novo objeto de estudo e an\u00e1lise de Nicole, e ela n\u00e3o iria parar at\u00e9 chegar \u00e0s verdades todas sobre aquela figura. Como se Bernardo fosse um complexo caso investigativo, Nicole embrenhava-se cada vez mais por ele.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2469],"class_list":["post-9869","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-no-coracao-da-fazenda"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}