{"id":9851,"date":"2026-03-01T23:42:05","date_gmt":"2026-03-02T02:42:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-01T23:42:05","modified_gmt":"2026-03-02T02:42:05","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/acordesecompassos\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"<p><strong>POV %D\u00e9bora%<\/strong> <strong>Quarto 402<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003O sil\u00eancio do quarto de hotel era quase ensurdecedor comparado ao barulho das \u00faltimas quatro horas. O ar-condicionado zumbia baixo, mantendo o ambiente num frio artificial e est\u00e9ril que %D\u00e9bora%, curiosamente, adorava. Era o som da ordem sendo restabelecida.<br \/>\n\u2003\u2003Ela fechou a porta e encostou a testa na madeira fria por um segundo. O corpo ainda vibrava com a tens\u00e3o residual do show, mas a mente girava em ritmo de balan\u00e7o t\u00e1tico.<br \/>\n\u2003\u2003- Miss\u00e3o cumprida &#8211; murmurou para si mesma, permitindo-se um sorriso satisfeito. O \u00fanico que ela daria naquela noite, longe dos olhares da equipe.<br \/>\n\u2003\u2003Ela caminhou at\u00e9 a poltrona de veludo cinza, chutando as botas de couro para longe com um gemido de al\u00edvio. Trabalhar com Gustavo Mioto n\u00e3o era apenas mais um contrato. Era o atestado de maioridade da <strong>D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas<\/strong>.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% e %Rayane% haviam constru\u00eddo a empresa \u00e0 base de suor, planilhas de log\u00edstica implac\u00e1veis e noites sem dormir. Nos bastidores, elas eram conhecidas como as &#8220;bombeiras&#8221; do mercado. Faziam trabalhos pontuais, cir\u00fargicos. Uma turn\u00ea desandando? Um lan\u00e7amento que precisava de pulso firme? A D&amp;R entrava, consertava a rota e sa\u00eda de cena com a reputa\u00e7\u00e3o intacta. Eram respeitadas. Temidas, \u00e0s vezes.<br \/>\n\u2003\u2003Mas estar ali, comandando a engrenagem de um show do Gustavo, significava encostar no Olimpo. Significava que a Miotinho Produ\u00e7\u00f5es &#8211; o imp\u00e9rio de Marcos Mioto, a maior inspira\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o de carreira para as duas &#8211; estava olhando para o trabalho delas.<br \/>\n\u2003\u2003Caminhou at\u00e9 o frigobar, pegou uma garrafa de \u00e1gua com g\u00e1s e se jogou na cama <em>king size<\/em>, ainda vestida. Eram quase duas da manh\u00e3. Havia mensagens da equipe t\u00e9cnica, mas a notifica\u00e7\u00e3o que ela escolheu abrir foi a do WhatsApp de &#8220;%Rayane% \u2665&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003Tocou no \u00edcone de video chamada. %Rayane% atendeu no segundo toque, a cara amassada no travesseiro e a insepar\u00e1vel touca de cetim na cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu juro por Deus, %D\u00e9bora%, se voc\u00ea me acordou pra dizer que a carreta de som tombou, eu desligo na sua cara. &#8211; A voz de %Rayane% era arrastada, mas o sorriso no canto da boca a entregava.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% riu, ajeitando o travesseiro nas costas. Relaxar com %Rayane% era seu \u00fanico luxo n\u00e3o planejado.<br \/>\n\u2003\u2003- Ningu\u00e9m tombou nada. Pelo contr\u00e1rio. Eu botei o trem nos trilhos. O show foi impec\u00e1vel, %Ray%. Voc\u00ea precisava ver, a equipe operou como um rel\u00f3gio.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, gl\u00f3ria! A General do sertanejo ataca novamente. &#8211; %Rayane% se sentou na cama, esfregando os olhos e despertando para a fofoca. &#8211; Mas chega de relat\u00f3rio t\u00e9cnico. Como \u00e9 trabalhar de perto com o Mioto? Ele \u00e9 chato? Tem chilique de estrela?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% revirou os olhos, mas n\u00e3o p\u00f4de evitar que a imagem de Gustavo no camarim invadisse sua mente. A forma calma como ele a ouviu, o olhar focado.<br \/>\n\u2003\u2003- Ele \u00e9&#8230; surpreendentemente profissional &#8211; %D\u00e9bora% respondeu, o tom de voz pragm\u00e1tico. &#8211; Trocou a <em>setlist<\/em> na hora porque eu pedi e argumentei. Sem ego ferido. \u00c9 inteligente.<br \/>\n\u2003\u2003- %D\u00e9bora%&#8230; &#8211; %Rayane% semicerrou os olhos na tela. &#8211; Eu te conhe\u00e7o desde a \u00e9poca que voc\u00ea usava aparelho fixo e franja. Para de me dar curr\u00edculo. Ele \u00e9 gato ao vivo?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% suspirou. Tirou os brincos pesados e os jogou na mesa de cabeceira.<br \/>\n\u2003\u2003- A televis\u00e3o n\u00e3o mostra um ter\u00e7o da presen\u00e7a dele, vou admitir. O cara tem um magnetismo absurdo no palco. Sabe prender o p\u00fablico. &#8211; Ela fez uma pausa, lembrando-se do momento em que ele se aproximou dela antes de subir as escadas do palco. &#8211; E ele tem um cheiro insuportavelmente bom. Madeira e alguma coisa c\u00edtrica. Quando ele passou por mim, tive que focar muito na prancheta pra n\u00e3o perder a postura.<br \/>\n\u2003\u2003%Rayane% soltou uma risada alta, batendo palmas baixinhas.<br \/>\n\u2003\u2003- Opa! A General notando o perfume da tropa? Milagres acontecem!<br \/>\n\u2003\u2003A express\u00e3o de %D\u00e9bora% fechou em uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, a divers\u00e3o evaporando.<br \/>\n\u2003\u2003- Palha\u00e7ada, %Rayane%. \u00c9 uma observa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Ele \u00e9 o meu maior cliente, e a imagem dele faz parte do pacote que eu administro.<br \/>\n\u2003\u2003- Ai, amiga, qual \u00e9? N\u00e3o tem problema achar o cliente bonito. O cara \u00e9 solteiro, canta olhando no olho&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- E eu sou paga para organizar a vida dele, n\u00e3o para suspirar por ela &#8211; cortou %D\u00e9bora%, firme, embora sem agressividade. &#8211; Voc\u00ea conhece a minha lei. Envolvimento com artista \u00e9 o jeito mais r\u00e1pido de ser tratada como f\u00e3 em vez de profissional. Minha cota de dor de cabe\u00e7a com homem j\u00e1 esgotou faz tempo. O Mioto \u00e9 um projeto de trinta dias. E eu vou entregar resultados, n\u00e3o roteiro de novela.<br \/>\n\u2003\u2003%Rayane% riu do outro lado da linha, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- T\u00e1 bom, t\u00e1 bom, General. Abaixa as armas. Eu s\u00f3 disse que ele \u00e9 bonito, n\u00e3o mandei voc\u00ea casar com o homem. Vai dormir que amanh\u00e3 voc\u00ea tem que comandar o ex\u00e9rcito.<br \/>\n\u2003\u2003- E um almo\u00e7o de alinhamento com ele, que vai exigir toda a minha paci\u00eancia t\u00e1tica. Beijo, %Ray%. Te amo.<br \/>\n\u2003\u2003- Tamb\u00e9m te amo, chefa. Boa sorte amanh\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003A chamada encerrou.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% jogou o celular na cama e come\u00e7ou a tirar a roupa para o banho. Enquanto a \u00e1gua quente ca\u00eda sobre seus ombros, lavando a poeira dos bastidores e a tens\u00e3o muscular, ela repetiu mentalmente seu mantra absoluto: <em>Profissionalismo. Foco. Autoridade.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ela era a General. E Generais n\u00e3o se desestabilizam por sorrisos f\u00e1ceis e perfumes caros.<br \/>\n\u2003\u2003Mas, ao fechar os olhos sob o chuveiro, a lembran\u00e7a do olhar curioso que ele lhe lan\u00e7ou no camarim piscou em sua mente. Um pequeno <em>glitch<\/em> no seu sistema perfeito.<br \/>\n\u2003\u2003Ela desligou o chuveiro com mais for\u00e7a do que o necess\u00e1rio. Seriam trinta dias longos.<\/p>\n<p><strong>POV %D\u00e9bora%<\/strong> <strong>Restaurante do Hotel<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003O restaurante do hotel era banhado por uma luz natural abundante que entrava pelas janelas do ch\u00e3o ao teto, revelando part\u00edculas de poeira dan\u00e7ando no ar e dando ao ambiente uma leveza que contrastava com a escurid\u00e3o ca\u00f3tica dos bastidores.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% chegou dez minutos adiantada. Dessa vez, a &#8220;General&#8221; tinha deixado a armadura preta de lona no quarto. Optou por uma cal\u00e7a jeans de corte reto, t\u00eanis branco e uma camisa de linho azul-marinho com as mangas dobradas at\u00e9 os cotovelos. O cabelo estava preso num rabo de cavalo frouxo, e a maquiagem era m\u00ednima.<br \/>\n\u2003\u2003Escolheu uma mesa no canto, longe do fluxo de h\u00f3spedes e do <em>buffet<\/em>, e transformou o espa\u00e7o em uma mini sala de controle. Abriu o notebook, alinhou o tablet ao lado com as planilhas da D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es e pediu um caf\u00e9 expresso duplo.<br \/>\n\u2003\u2003<em>Trinta dias<\/em>, repetiu mentalmente, revisando a aba de log\u00edstica de transportes. <em>Se a gente entregar uma turn\u00ea impec\u00e1vel, sem furos de cronograma e com o artista rendendo 100%, o relat\u00f3rio final vai direto para a mesa do Marcos Mioto. A D&amp;R n\u00e3o pode ter falhas.<\/em> A autodeprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazia parte do seu vocabul\u00e1rio; o foco absoluto, sim.<br \/>\n\u2003\u2003- Doze e vinte e oito. Voc\u00ea n\u00e3o relaxa nem pra almo\u00e7ar.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% levantou o olhar do monitor. Gustavo estava parado do outro lado da mesa. \u00c0 luz do dia e sem o figurino impec\u00e1vel do palco, ele parecia&#8230; normal. Usava uma camiseta cinza b\u00e1sica que j\u00e1 tinha visto dias melhores, uma cal\u00e7a de moletom preta e um bon\u00e9 virado para tr\u00e1s. Segurava apenas o celular e a chave do quarto.<br \/>\n\u2003\u2003- Pontualidade e antecipa\u00e7\u00e3o de riscos s\u00e3o as \u00fanicas coisas que separam uma turn\u00ea de sucesso de um desastre, Gustavo &#8211; disse ela, o tom profissional, indicando a cadeira \u00e0 frente. &#8211; Bom dia. Sobreviveu \u00e0 adrenalina p\u00f3s-show?<br \/>\n\u2003\u2003- Bom dia. &#8211; Ele puxou a cadeira e se sentou, soltando um suspiro pesado, mas satisfeito. &#8211; Capotei. O show ontem foi intenso, mas a sa\u00edda foi t\u00e3o r\u00e1pida que eu nem tive tempo de ficar pilhado no hotel. Ponto pra log\u00edstica de voc\u00eas.<br \/>\n\u2003\u2003O gar\u00e7om se aproximou. %D\u00e9bora% pediu um fil\u00e9 de frango com salada e legumes; Gustavo, para surpresa dela, n\u00e3o pediu a picanha ou o hamb\u00farguer gorduroso que noventa por cento dos artistas pediam na estrada para curar a ressaca de shows. Pediu um grelhado id\u00eantico ao dela, apenas adicionando arroz integral.<br \/>\n\u2003\u2003Quando o gar\u00e7om saiu, Gustavo apoiou os bra\u00e7os na mesa e deu uma olhada r\u00e1pida para o arsenal tecnol\u00f3gico na frente de %D\u00e9bora%. O olhar dele era anal\u00edtico.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe, sem aquele r\u00e1dio comunicador pendurado no pesco\u00e7o e a prancheta na m\u00e3o, voc\u00ea assusta bem menos &#8211; comentou ele, um sorriso de canto aparecendo.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% n\u00e3o riu, mas o canto dos l\u00e1bios subiu ligeiramente. Ela girou a caneta entre os dedos.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu tenho modos de opera\u00e7\u00e3o. O &#8220;Modo Guerra&#8221; \u00e9 para quando o som falha, a seguran\u00e7a \u00e9 furada ou a equipe est\u00e1 perdida. O &#8220;Modo Planejamento&#8221;, que \u00e9 este de agora, \u00e9 menos barulhento, mas igualmente rigoroso.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom saber. &#8211; Ele recostou-se na cadeira, a postura relaxada. &#8211; A galera da t\u00e9cnica comentou hoje no caf\u00e9 que estavam precisando de algu\u00e9m com o seu pulso. Eles s\u00e3o \u00f3timos, s\u00e3o como fam\u00edlia pra mim, mas desde que o Beto precisou se afastar pra cirurgia, a coisa nos bastidores estava ficando meio solta&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003E &#8220;solto&#8221; n\u00e3o sustenta o tamanho que o seu nome tem agora no mercado &#8211; %D\u00e9bora% pontuou, direta, virando a tela do tablet para ele. &#8211; E \u00e9 por isso que a D&amp;R assumiu a bronca. Eu redesenhei o cronograma da semana. D\u00e1 uma olhada.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo se inclinou. Nos vinte minutos seguintes, enquanto a comida chegava e eles come\u00e7avam a comer, o clima n\u00e3o foi de patr\u00e3o e funcion\u00e1ria, mas de uma reuni\u00e3o de diretoria incrivelmente fluida. Gustavo n\u00e3o era uma marionete; ele lia as planilhas, entendia de tempo de deslocamento e sabia exatamente o que funcionava ou n\u00e3o para a voz dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Espera a\u00ed&#8230; &#8211; Gustavo parou o garfo no ar, franzindo a testa para uma linha vermelha na tela do tablet. &#8211; Quinta-feira. Onde est\u00e1 o jantar com os contratantes da r\u00e1dio local? No cronograma original que o Beto deixou antes de ir pro hospital, ele tinha marcado como obrigat\u00f3rio.<br \/>\n\u2003\u2003- Era. N\u00e3o \u00e9 mais. Eu cortei &#8211; %D\u00e9bora% respondeu com naturalidade, tomando um gole de \u00e1gua com g\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo a encarou, os olhos levemente arregalados.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea cortou o jantar com os caras que est\u00e3o pagando o cach\u00ea? O Beto vai surtar se souber disso na recupera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- O Beto tem o jeito dele de fidelizar os contratantes, eu tenho o meu. Minha preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o ego da r\u00e1dio local, \u00e9 a m\u00e1quina principal, que \u00e9 voc\u00ea &#8211; ela explicou, a voz firme e did\u00e1tica. &#8211; Na quinta, voc\u00ea vai ter sa\u00eddo de uma grava\u00e7\u00e3o de TV de tr\u00eas horas, com ar-condicionado torando na sua cara e vai pegar duas horas de van. Se voc\u00ea for para esse jantar, vai ficar sorrindo, falando alto num restaurante barulhento e comendo fora de hora. Na sexta, voc\u00ea tem um show de duas horas em est\u00e1dio aberto. A conta n\u00e3o fecha.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo ficou em sil\u00eancio, processando a informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu vou no seu lugar &#8211; continuou %D\u00e9bora%, cruzando os bra\u00e7os sobre a mesa. &#8211; Alinho com o produtor local, levo os kits de produtos, fa\u00e7o as honras da casa, digo que voc\u00ea est\u00e1 em repouso vocal estrito por ordem m\u00e9dica e garanto que os contratantes se sintam os reis do camarote no show de sexta. Voc\u00ea vai pro hotel, pede servi\u00e7o de quarto e dorme.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio de Gustavo durou mais alguns segundos. Ele olhou para o prato, depois para %D\u00e9bora% e algo mudou na express\u00e3o dele. O artista pop deu lugar ao empres\u00e1rio de si mesmo, genuinamente impressionado.<br \/>\n\u2003\u2003- %D\u00e9bora%&#8230; voc\u00ea n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o de quantas vezes eu briguei pra tentar explicar exatamente essa matem\u00e1tica pra produtores antigos e a resposta era sempre &#8220;\u00e9 s\u00f3 um jantar, faz um esfor\u00e7o&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o trabalho com &#8220;faz um esfor\u00e7o&#8221; que compromete a entrega do show, Gustavo. Eu sou paga para ser a chata pragm\u00e1tica. Meu trabalho \u00e9 ser o seu escudo e a sua tesoura. O &#8220;n\u00e3o&#8221; sou eu quem digo. Voc\u00ea foca em manter a sanidade e a afina\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, soltando uma risada nasalada e voltou a comer.<br \/>\n\u2003\u2003- Acho que o meu pai estava certo quando disse que a D&amp;R ia botar a casa em ordem at\u00e9 o Beto voltar. Voc\u00eas n\u00e3o brincam em servi\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Ouvir que Marcos Mioto havia endossado a contrata\u00e7\u00e3o fez uma onda de orgulho aquecer o peito de %D\u00e9bora%. Ela manteve a express\u00e3o neutra, mas internamente, celebrou.<br \/>\n\u2003\u2003- A gente n\u00e3o gosta de perder tempo &#8211; ela resumiu.<br \/>\n\u2003\u2003O clima ficou confort\u00e1vel. O pacto profissional estava selado ali.<br \/>\n\u2003\u2003Quando o gar\u00e7om retirou os pratos e trouxe o caf\u00e9 expresso de %D\u00e9bora%, Gustavo apoiou o queixo na m\u00e3o, parecendo subitamente curioso.<br \/>\n\u2003\u2003- T\u00e1, cronograma aprovado, crise evitada, jantar cancelado. &#8211; Ele sorriu, um sorriso contido. &#8211; O que uma General faz para desligar o c\u00e9rebro quando n\u00e3o est\u00e1 coordenando a vida alheia com planilhas coloridas?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% fechou o notebook, o clique soando como um ponto final na reuni\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu durmo. Sou uma pessoa muito sem gra\u00e7a fora do hor\u00e1rio comercial. Assisto s\u00e9ries <em>true crime<\/em> ruins, arrumo minhas gavetas por cor e respondo mensagens da minha s\u00f3cia em S\u00e3o Paulo tentando me convencer a adotar um gato.<br \/>\n\u2003\u2003- Gatos s\u00e3o bons. N\u00e3o exigem que voc\u00ea crie planilhas pra eles &#8211; Gustavo brincou. &#8211; Eu jogo. \u00c9 meu ref\u00fagio. Coloco o fone, entro num lobby com meus amigos que n\u00e3o ligam se eu sou cantor ou n\u00e3o, e atiro em zumbis.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea tem cara de quem gasta dinheiro com roupinha virtual de personagem &#8211; ela provocou, uma quebra rara em sua formalidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Com certeza. Meu boneco \u00e9 o mais estiloso do servidor &#8211; ele admitiu, sem um pingo de vergonha. &#8211; Qualquer dia a gente joga. Se voc\u00ea tiver o mesmo instinto assassino no videogame que tem pra cortar jantares, eu t\u00f4 ferrado.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% deu uma risada baixa, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o jogo, Gustavo. E se jogasse, odiaria perder. Melhor evitarmos a fadiga.<br \/>\n\u2003\u2003Ele olhou para a tela do pr\u00f3prio celular que acendeu sobre a mesa e fez uma careta.<br \/>\n\u2003\u2003- Tenho que subir. Entrevista por telefone para uma r\u00e1dio em dez minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Eles se levantaram juntos. Gustavo n\u00e3o estendeu a m\u00e3o dessa vez, apenas deu um aceno respeitoso de cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigado pela franqueza de hoje, %D\u00e9bora%. De verdade. Tira um peso enorme das minhas costas saber que tem algu\u00e9m pensando no todo, e n\u00e3o s\u00f3 no palco.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 pra isso que me contrataram. Nos vemos na passagem de som. Quatro da tarde, pontualmente.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim, senhora.<br \/>\n\u2003\u2003Ele virou de costas e caminhou em dire\u00e7\u00e3o aos elevadores, digitando no celular, os ombros visivelmente mais leves do que quando havia chegado.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% ficou parada por um segundo, guardando os equipamentos na bolsa de couro. Ela n\u00e3o sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar, n\u00e3o suspirou pelo perfume dele e n\u00e3o fantasiou com o sorriso de covinhas.<br \/>\n\u2003\u2003O que ela sentiu foi um al\u00edvio imenso. Gustavo Mioto era profissional, inteligente e acima de tudo, tratava-a como uma igual, respeitando sua autoridade.<br \/>\n\u2003\u2003<em>Vai ser um bom m\u00eas de trabalho<\/em>, ela pensou, caminhando de volta para o quarto, j\u00e1 sacando o celular para mandar um \u00e1udio triunfante para %Rayane% sobre o jantar cancelado e a men\u00e7\u00e3o ao pai dele. O contrato da vida delas estava em boas m\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>POV %D\u00e9bora%<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003O almo\u00e7o tinha sido uma tr\u00e9gua, mas a tarde foi uma guerra silenciosa de log\u00edstica. Das 14h \u00e0s 18h, o quarto 402 virou o centro de comando avan\u00e7ado da D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% n\u00e3o parou. Coordenou por telefone a chegada da carreta de equipamentos na pr\u00f3xima cidade, discutiu com a seguradora sobre uma ap\u00f3lice da van e, o mais dif\u00edcil: blindou Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0s 16h, a recep\u00e7\u00e3o ligou avisando que um influenciador local, com meio milh\u00e3o de seguidores, havia descoberto o hotel e estava no sagu\u00e3o exigindo gravar &#8220;um conte\u00fado r\u00e1pido&#8221; com o cantor. O produtor local j\u00e1 estava suando frio, pronto para ceder. Gustavo, educado at\u00e9 demais e condicionado a nunca dizer n\u00e3o, estava literalmente cal\u00e7ando o t\u00eanis para descer.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% o interceptou no corredor.<br \/>\n\u2003\u2003- T\u00eanis fora dos p\u00e9s. Voc\u00ea n\u00e3o vai descer &#8211; ela ordenou, segurando a porta dele.<br \/>\n\u2003\u2003- %D\u00e9bora%, \u00e9 s\u00f3 um v\u00eddeo. Se eu disser n\u00e3o, o cara vai pro Instagram falar que eu sou arrogante. \u00c9 a cidade dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Deixa que eu sou a arrogante por voc\u00ea. Volta pro quarto e poupa a voz.<br \/>\n\u2003\u2003Ela desceu ao sagu\u00e3o, vestiu seu melhor sorriso diplom\u00e1tico &#8211; aquele que n\u00e3o alcan\u00e7ava os olhos &#8211; e abordou o rapaz. Explicou com uma firmeza irrefut\u00e1vel que Gustavo estava sob &#8220;repouso vocal estrito por ordens m\u00e9dicas&#8221;, recebeu os presentes em nome da equipe, gravou ela mesma um v\u00eddeo do influenciador mandando um abra\u00e7o para o cantor e o despachou. O cara saiu do hotel achando que tinha feito um \u00f3timo neg\u00f3cio de <em>networking<\/em>, sem ter chegado a dez metros de Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003Quando %D\u00e9bora% voltou para o quarto andar, encontrou Gustavo encostado no batente da porta, os bra\u00e7os cruzados e uma express\u00e3o que misturava al\u00edvio e incredulidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu ouvi o r\u00e1dio do seguran\u00e7a daqui- disse ele, a voz baixa. &#8211; &#8220;Repouso vocal estrito&#8221;? Eu estava cantando pagode no chuveiro agora mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% parou, ajeitando a prancheta sob o bra\u00e7o, sem perder a pose.<br \/>\n\u2003\u2003- O mundo l\u00e1 fora n\u00e3o precisa saber dos seus shows no chuveiro. Se voc\u00ea descesse, ia ficar uma hora gravando dancinha de TikTok, ia esgotar a bateria social antes da entrevista de r\u00e1dio das 17h e ia ficar estressado. Meu trabalho \u00e9 otimizar sua energia.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, soltando uma risada nasalada.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 uma barreira de concreto, %D\u00e9bora%.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sou eficaz. Agora entra, bebe \u00e1gua e se prepara pra r\u00e1dio.<br \/>\n\u2003\u2003Ele obedeceu, mas antes de fechar a porta, lan\u00e7ou um olhar para ela que n\u00e3o era o de um chefe. Era o de algu\u00e9m genuinamente grato por n\u00e3o ter sido jogado aos le\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003A noite caiu sobre Maring\u00e1, trazendo um vento fresco que aliviava o calor do interior paranaense. %D\u00e9bora% finalmente fechou o notebook \u00e0s 20h30. Seus olhos ardiam. Ela pediu um servi\u00e7o de quarto simples e estava pronta para vestir o pijama de flanela, quando o celular vibrou.<br \/>\n\u2003\u2003Era uma mensagem de um n\u00famero desconhecido. A foto de perfil era o personagem <em>Naruto<\/em>, o que a fez franzir a testa.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>N\u00famero Desconhecido:<\/strong> <em>A equipe pediu pizza e o Paulinho t\u00e1 com o viol\u00e3o na \u00e1rea da piscina. O hotel liberou um quiosque nos fundos s\u00f3 pra gente. Desce a\u00ed. Prometo que n\u00e3o tem planilha na roda. (\u00c9 o Gustavo, a prop\u00f3sito).<\/em><br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% encarou a tela. O instinto da &#8220;General&#8221; dizia: <em>Fique no quarto. Misturar-se com a equipe em momentos de lazer borra as linhas de autoridade.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Mas a gestora da D&amp;R sabia que o entrosamento com os m\u00fasicos era fundamental. Se a banda confiasse nela, o trabalho fluiria infinitamente melhor nos pr\u00f3ximos trinta dias.<br \/>\n\u2003\u2003<em>S\u00f3 uma hora<\/em>, ela negociou consigo mesma. <em>Para marcar presen\u00e7a e mostrar que n\u00e3o sou um rob\u00f4 corporativo.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Trocou a roupa formal por algo neutro e confort\u00e1vel: cal\u00e7a jeans reta, uma camiseta branca b\u00e1sica e t\u00eanis. Prendeu o cabelo num clipe e desceu.<br \/>\n\u2003\u2003A \u00e1rea da piscina estava iluminada por luzes amareladas. No quiosque mais afastado, cercado por palmeiras, o clima era de acampamento. Eram cerca de oito pessoas \u2014 m\u00fasicos da banda, dois t\u00e9cnicos de som e Gustavo. Ele estava largado numa cadeira de vime, de bermuda e chinelo, com uma fatia de pizza na m\u00e3o. Ao v\u00ea-la surgir, ele sorriu. N\u00e3o o sorriso ensaiado de fotos, mas um sorriso aberto, de menino.<br \/>\n\u2003\u2003- Olha s\u00f3! A Chefe desceu do quartel-general! &#8211; brincou Paulinho, o baterista, erguendo uma lata de refrigerante. &#8211; Escondam as cervejas que ela vai calcular o custo no border\u00f4 de amanh\u00e3!<br \/>\n\u2003\u2003A equipe riu, e %D\u00e9bora% sentiu a tens\u00e3o dos ombros se dissolver um pouco. Ela entrou no clima, mantendo a postura, mas suavizando o tom.<br \/>\n\u2003\u2003- Se n\u00e3o tiver atraso na passagem de som amanh\u00e3, o border\u00f4 perdoa as cervejas de hoje. Se algu\u00e9m chegar de ressaca, a multa vem.<br \/>\n\u2003\u2003Um coro de &#8220;A\u00ea\u00ea\u00ea!&#8221; respondeu. Gustavo puxou uma cadeira vazia para perto da mesa de centro.<br \/>\n\u2003\u2003- Senta a\u00ed &#8211; disse ele, indicando o lugar. &#8211; Sobrou calabresa e frango com catupiry.<br \/>\n\u2003\u2003Algu\u00e9m lhe entregou um peda\u00e7o num guardanapo e uma lata de refrigerante gelado. Durante a pr\u00f3xima hora, %D\u00e9bora% agiu como a ouvinte perfeita. Eles contaram hist\u00f3rias ca\u00f3ticas de estrada &#8211; o dia em que o \u00f4nibus quebrou no meio do mato no Par\u00e1, o show em que a energia da cidade inteira caiu. %D\u00e9bora% riu sinceramente, fazendo perguntas pontuais. Ela percebeu rapidamente que eles eram uma engrenagem familiar muito unida, e Gustavo era apenas &#8220;um dos caras&#8221; ali no meio.<br \/>\n\u2003\u2003Aos poucos, o cansa\u00e7o foi batendo e a conversa diminuiu. Gustavo, que estava mais quieto, apenas rindo e comendo, pegou o viol\u00e3o que estava encostado na mesa.<br \/>\n\u2003\u2003Ele come\u00e7ou a dedilhar acordes soltos, testando a afina\u00e7\u00e3o. Em seguida, engatou uma melodia suave. N\u00e3o era sertanejo, n\u00e3o era o hit estourado das r\u00e1dios. Era <em>Gravity<\/em>, do John Mayer.<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o cantou para a roda. Cantou baixo, para si mesmo, os olhos fixos nas pr\u00f3prias m\u00e3os. A voz rouca e aveludada se misturou ao som dos grilos e do vento nas folhas.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% parou de mastigar.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0 luz fraca do quiosque, sem microfone, sem banda de apoio, sem gritaria de f\u00e3s, o talento dele era irrefut\u00e1vel. Era cru. Havia uma emo\u00e7\u00e3o genu\u00edna na forma como ele tocava, uma t\u00e9cnica limpa e complexa.<br \/>\n\u2003\u2003A mente de %D\u00e9bora%, sempre anal\u00edtica, registrou a informa\u00e7\u00e3o: <em>Ele n\u00e3o \u00e9 um produto fabricado por produtores de est\u00fadio. Ele tem o dom. \u00c9 por isso que ele sustenta o sucesso.<\/em> O respeito profissional dela por ele subiu dois degraus de uma vez s\u00f3.<br \/>\n\u2003\u2003Quando a m\u00fasica acabou, n\u00e3o houve aplausos, apenas um murmurinho de aprova\u00e7\u00e3o da banda, acostumada com as <em>jam sessions<\/em> do chefe. Gustavo levantou os olhos e esbarrou no olhar atento de %D\u00e9bora%.<br \/>\n\u2003\u2003- T\u00e1 avaliando minha afina\u00e7\u00e3o, General? &#8211; ele perguntou, meio brincando.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00f3 constatando fatos &#8211; ela respondeu, o tom ameno, mas sincero. &#8211; Voc\u00ea toca muito bem. Muito al\u00e9m dos tr\u00eas acordes b\u00e1sicos que a r\u00e1dio exige.<br \/>\n\u2003\u2003- A r\u00e1dio paga as contas, mas o John Mayer salva a sanidade &#8211; ele riu soprado, apoiando o queixo no viol\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Os membros da equipe come\u00e7aram a se levantar, recolhendo as caixas de pizza. O cansa\u00e7o vencera a fome. Um a um, foram se despedindo. %D\u00e9bora% se levantou junto, limpando as m\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu tamb\u00e9m vou subir. O <em>check-out<\/em> amanh\u00e3 \u00e9 \u00e0s 10h em ponto, senhores \u2014 ela avisou, assumindo rapidamente a persona da D&amp;R.<br \/>\n\u2003\u2003- Pode deixar, chefe &#8211; Paulinho bateu contin\u00eancia e sumiu em dire\u00e7\u00e3o aos elevadores.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% se virou para sair, mas a voz de Gustavo a segurou.<br \/>\n\u2003\u2003- %D\u00e9bora%.<br \/>\n\u2003\u2003Ela parou. Ele ainda estava sentado, o viol\u00e3o no colo, o olhar mais s\u00e9rio agora.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigado por hoje \u00e0 tarde. Com o cara do TikTok no sagu\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 parte da gest\u00e3o de crise, Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei. Mas a maioria dos produtores com quem j\u00e1 trabalhei teria me mandado descer. <em>&#8220;Faz um esforcinho, Gustavo, \u00e9 bom pro engajamento. \u00c9 jogo r\u00e1pido&#8221;<\/em>. &#8211; Ele imitou a voz de um empres\u00e1rio gen\u00e9rico, fazendo %D\u00e9bora% dar um meio sorriso. &#8211; Ningu\u00e9m lembra que eu tenho que cantar por duas horas no dia seguinte. Voc\u00ea me tratou como algu\u00e9m que precisa poupar a voz, n\u00e3o como uma m\u00e1quina de <em>likes<\/em>. Isso \u00e9 raro.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% cruzou os bra\u00e7os, a postura firme, mas a voz emp\u00e1tica. Ela conhecia aquele esgotamento. Via isso em todos os artistas que a D&amp;R atendia.<br \/>\n\u2003\u2003- Engajamento de sagu\u00e3o de hotel n\u00e3o canta na sexta-feira \u00e0 noite para trinta mil pessoas. Voc\u00ea canta &#8211; ela pontuou, os olhos cravados nos dele. &#8211; Voc\u00ea \u00e9 o motor dessa engrenagem toda, Gustavo. Se voc\u00ea pifar porque foi legal com todo mundo, cem fam\u00edlias de t\u00e9cnicos e m\u00fasicos ficam sem trabalho. Meu papel n\u00e3o \u00e9 ser sua amiga, \u00e9 ser seu escudo.<br \/>\n\u2003\u2003Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a devagar, processando as palavras. Um sorriso de puro al\u00edvio e respeito genu\u00edno tomou conta do rosto dele.<br \/>\n\u2003\u2003- O Marcos Mioto acertou em cheio contratando voc\u00eas. O Beto vai ter trabalho pra retomar o ritmo quando voltar.<br \/>\n\u2003\u2003A men\u00e7\u00e3o ao reconhecimento do pai dele foi a melhor sobremesa que %D\u00e9bora% poderia ter naquela noite.<br \/>\n\u2003\u2003- A D&amp;R agradece o elogio. Agora sobe, que esse vento \u00famido n\u00e3o \u00e9 bom pra garganta e eu n\u00e3o vou reescrever o <em>setlist<\/em> de sexta porque voc\u00ea ficou resfriado tocando John Mayer na piscina.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu, levantando-se e guardando o viol\u00e3o no <em>case<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, %D\u00e9bora%.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela virou as costas e caminhou para o pr\u00e9dio do hotel com passos firmes. Quando entrou no elevador vazio, apertou o bot\u00e3o do quarto andar e soltou um longo e cansado suspiro.<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o era o clich\u00ea do astro arrogante. Era humano, talentoso, inteligente e incrivelmente decente com a pr\u00f3pria equipe.<br \/>\n\u2003\u2003<em>Droga<\/em>, ela pensou, um sorriso pragm\u00e1tico surgindo no canto dos l\u00e1bios. <em>Ele \u00e9 um cara legal de verdade. Isso vai deixar a turn\u00ea infinitamente mais f\u00e1cil de gerenciar.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003E, no fundo de sua mente blindada, uma constata\u00e7\u00e3o perigosa que ela fez quest\u00e3o de ignorar: e muito mais dif\u00edcil de n\u00e3o admirar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POV %D\u00e9bora% Quarto 402 POV %D\u00e9bora% Restaurante do Hotel POV %D\u00e9bora%<\/p>\n","protected":false},"author":155,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"template-historia-longa.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2539],"class_list":["post-9851","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-acordesecompassos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/155"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9851"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}