{"id":9833,"date":"2026-02-27T13:26:26","date_gmt":"2026-02-27T16:26:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-02-27T13:31:48","modified_gmt":"2026-02-27T16:31:48","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/wallscouldtalk\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<em><span class=\"versalete\">\u201cFazem uns tr\u00eas dias<\/span> e estou voltando, estou h\u00e1 quatro minutos de um ataque card\u00edaco. E acho que voc\u00ea me deixou man\u00edaca. Mas voc\u00ea n\u00e3o sabe.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os tremiam tanto que eu mal conseguia segurar o telefone perto do ouvido esquerdo. Meu cora\u00e7\u00e3o batia r\u00e1pido, inconstante, seco dentro do peito. Um vazio, um oco, que reverbera dentro de mim, eu conseguia ouvi-lo batendo dentro da minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003R\u00e1pido. Muito r\u00e1pido.<br>\u2003\u2003Minhas extremidades formigam e eu j\u00e1 n\u00e3o as sinto mais, e uma leve dor no bra\u00e7o esquerdo come\u00e7ava.<br>\u2003\u2003E %Haechan% em sil\u00eancio do outro lado da linha. A respira\u00e7\u00e3o dele \u00e9 calma, tranquila, leve.<br>\u2003\u2003Minha cabe\u00e7a gritava possibilidades que eu n\u00e3o conseguia calar.<br>\u2003\u2003Pensei que talvez aquilo fosse s\u00e9rio demais \u2014 ou talvez fosse s\u00f3 eu, exagerando, enlouquecendo.<br>\u2003\u2003<em>\u201cVoc\u00ea me ouve, %Haechan%?\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Um suspiro baixo, quase inaud\u00edvel.<br>\u2003\u2003<em>\u201cEm casa a gente conversa.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003<strong><em>Tu-tu-tu<\/em><\/strong> <br>\u2003\u2003Pisquei meus olhos algumas vezes, sem conseguir acreditar que ele havia desligado.<br>\u2003\u2003Pelo menos ir\u00edamos conversar e ele n\u00e3o me daria um <em>tratamento de sil\u00eancio<\/em> como quase sempre acontecia nas nossas in\u00fameras brigas.<br>\u2003\u2003Quando cheguei ao apartamento que ele chamava de nosso, o encontrei sentado no sof\u00e1 mexendo na TV com uma tranquilidade que me irritou profundamente.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea \u00e9 um imbecil! <\/em>Eu poderia ter morrido, sabia?<br>\u2003\u2003\u2014 Mas est\u00e1 mais viva do que nunca, %Sunmi%! Eu estava me preparando para ir ao hospital quando voc\u00ea avisou que j\u00e1 havia ganhado alta.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu quase dei um enfarte, por sua culpa. Eu estou ficando paran\u00f3ica, maluca!<br>\u2003\u2003%Haechan% bufou alto e ent\u00e3o se levantou do sof\u00e1. Os olhos pesados e quentes dele se encontraram com os meus e ele caminhou em minha dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea deve ter herdado alguma doen\u00e7a card\u00edaca da sua fam\u00edlia. Vamos esperar os resultados do restante dos exames para ver. \u2014 Suas m\u00e3os alcan\u00e7aram a minha bochecha. \u2014 Eu senti sua falta, <em>%caipirinha%<\/em>.<br>\u2003\u2003O apelido carinhoso que s\u00f3 ele me chamava misturado ao quente da m\u00e3o dele me tocando a bochecha, desmontou algo dentro de mim.<br>\u2003\u2003Nossos l\u00e1bios se encostaram sem pudor, o beijo se aprofundando. Arfei, soltando um gemido fraco quando sua l\u00edngua encostou-se na minha, lenta, como se estivesse testando meus limites. O beijo tinha gosto de saudade acumulada, de tudo que n\u00e3o foi dito nos \u00faltimos dias. Minhas m\u00e3os subiram quase por instinto, agarrando o tecido da camisa dele, como se eu precisasse de algo s\u00f3lido para n\u00e3o desabar ali mesmo.<br>\u2003\u2003%Haechan% me puxou mais para perto, o corpo dele encaixando no meu com uma familiaridade perigosa. O beijo se aprofundou, mas n\u00e3o era apressado \u2014 era carregado, pesado, como se cada movimento fosse uma pergunta silenciosa: <em>voc\u00ea ainda \u00e9 minha?<\/em> Meu cora\u00e7\u00e3o disparou outra vez, n\u00e3o de medo, mas daquele tipo de ansiedade que vem quando se quer ficar e fugir ao mesmo tempo.<br>\u2003\u2003Afastei os l\u00e1bios por um segundo, nossas respira\u00e7\u00f5es misturadas, a testa dele encostada na minha. O calor da m\u00e3o ainda na minha bochecha contrastava com o n\u00f3 que se formava no peito. Eu sabia que aquele beijo n\u00e3o era s\u00f3 desejo \u2014 era um pedido, uma tentativa desesperada de consertar algo que vinha rachando h\u00e1 tempo demais.<br>\u2003\u2003E, mesmo assim, eu correspondi.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83e\uddf1\ud83e\uddf1\ud83e\uddf1<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 Dois anos e uns quebrados. Mas n\u00f3s dois estamos aqui desde os dezessete. \u2014 Eu limpei algumas l\u00e1grimas que caiam quentes por minhas bochechas. \u2014 Aqui vamos n\u00f3s, <em>brigando numa limusine\u2026<\/em> Mas eles n\u00e3o sabem, n\u00e3o \u00e9 %Haechan%? Eles n\u00e3o sabem.<br>\u2003\u2003Minhas m\u00e3os agarraram o colarinho da camisa social branca que ele usava.<br>\u2003\u2003\u2014 Eles n\u00e3o sabem que voc\u00ea \u00e9 a<em> porra de um manipualdor <\/em>cruel. Um traidor, infiel! Voc\u00ea \u00e9 o pior ser humano que j\u00e1 conheci Lee %Haechan%, eu te odeio! \u2014 Vociferei com o rosto pr\u00f3ximo ao dele.<br>\u2003\u2003As l\u00e1grimas j\u00e1 desciam, desesperadas. Meus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar desde que sa\u00edmos do teatro.<br>\u2003\u2003A imagem de \u201c<em>idol perfeito\u201d<\/em> constru\u00edda por ele nunca ru\u00eda. Eu nunca deixava. Ele devia muito a mim.<br>\u2003\u2003Minhas palavras ainda ecoavam entre n\u00f3s quando ele segurou meus pulsos, n\u00e3o com for\u00e7a, mas com urg\u00eancia. O olhar dele oscilou por um segundo \u2014 foi r\u00e1pido, quase impercept\u00edvel \u2014 antes de descer para a minha boca. N\u00e3o houve pedido, nem aviso. Ele me beijou como quem tenta calar um inc\u00eandio com o pr\u00f3prio corpo.<br>\u2003\u2003O beijo foi duro no come\u00e7o, amargo. Nossos dentes se tocaram, desajeitados, como se nenhum dos dois soubesse mais a medida certa. Minhas l\u00e1grimas se misturaram ao gosto dele, e eu odiei o quanto meu corpo respondeu apesar de tudo. Apesar do \u00f3dio. Apesar da verdade.<br>\u2003\u2003Empurrei o peito dele uma vez, fraca demais para significar algo, e %Haechan% aproveitou a hesita\u00e7\u00e3o para me puxar de volta. O beijo perdeu a agressividade e ganhou peso \u2014 aquele tipo de peso que vem quando se beija algu\u00e9m que conhece cada uma das suas fraquezas. Minha respira\u00e7\u00e3o falhou entre um toque e outro, o cora\u00e7\u00e3o batendo r\u00e1pido demais, confuso demais.<br>\u2003\u2003Quando nos afastamos, foi s\u00f3 o suficiente para respirar. A testa dele encostou na minha, e por um segundo eu quase esqueci tudo o que tinha dito. Quase.<br>\u2003\u2003Mas o gosto do beijo ainda estava ali, lembrando que amar algu\u00e9m assim tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de se destruir.<br>\u2003\u2003O restante do caminho foi feito em sil\u00eancio, preenchido apenas pelos sons abafados que eu fazia quando o choro apertava demais o meu peito.<br>\u2003\u2003Ardia tudo em mim. Meu couro cabeludo, minhas t\u00eamporas, minha pele, meu corpo, meu cora\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Quando chegamos em casa eu j\u00e1 n\u00e3o chorava, mas a minha cabe\u00e7a doia como nunca pelo choro.<br>\u2003\u2003\u2014 E n\u00f3s dois esperamos que haja algo, mas n\u00f3s dois nos confrontamos.<br>\u2003\u2003Joguei minha clutch no sof\u00e1 e me joguei no mesmo, logo em seguida. Afundando meu corpo nele.<br>\u2003\u2003\u2014 E a discuss\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 encerrada, %Sunmi%. Vou me deitar, te espero.<br>\u2003\u2003E estou pensando: <em>Caramba, se essas paredes pudessem falar\u2026 bem, elas diriam, que coisa louca, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83e\uddf1\ud83e\uddf1\ud83e\uddf1<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 Tem umas duas semanas que voc\u00ea se foi\u2026 J\u00e1 bebi quase metade de um Cabernet. Aqui vou eu, desperdi\u00e7ando meu s\u00e1bado dentro de casa.<br>\u2003\u2003Eu estava destru\u00edda, definitivamente n\u00e3o havia palavra que me descrevesse melhor. %Haechan% havia entrado no meu apartamento depois de conseguir destrancar a porta com um grampo, habilidade que ele havia desenvolvido depois de eu ter me trancado no quarto com uma garrafa quebrada e amea\u00e7ado tirar minha pr\u00f3pria vida quando o peguei na cama com uma das minhas melhores amigas.<br>\u2003\u2003A dist\u00e2ncia entre n\u00f3s havia diminu\u00eddo drasticamente sem que eu me desse conta. Eu n\u00e3o tinha for\u00e7as para afast\u00e1-lo, e sinceramente eu nem queria.<br>\u2003\u2003\u2014 Falei pra minha nova colega de quarto n\u00e3o te deixar entrar, mas voc\u00ea tem habilidades com grampos. Agora vai me tocar como um violino, alcan\u00e7ando essas notas.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o respondeu. Apenas encurtou o \u00faltimo cent\u00edmetro entre n\u00f3s. O beijo veio pesado, inevit\u00e1vel, como se tivesse sido ensaiado pelo sil\u00eancio dos \u00faltimos dias. N\u00e3o houve delicadeza \u2014 houve reconhecimento. O tipo de beijo que sabe exatamente onde tocar porque j\u00e1 esteve ali antes.<br>\u2003\u2003Meus l\u00e1bios cederam mesmo enquanto minha mente gritava para n\u00e3o ceder. A boca dele se moveu devagar, mas firme, como quem testa at\u00e9 onde ainda tem permiss\u00e3o. Meu f\u00f4lego falhou no meio do beijo, o ar escapando num suspiro involunt\u00e1rio, e foi a\u00ed que tudo desmoronou de vez.<br>\u2003\u2003Era um beijo que misturava saudade, culpa e necessidade. Que n\u00e3o pedia desculpa. Que n\u00e3o prometia nada. S\u00f3 ficava ali, existindo, marcando territ\u00f3rio no lugar mais fr\u00e1gil de mim.<br>\u2003\u2003Quando ele se afastou, foi s\u00f3 o suficiente para me deixar sentindo falta.<br>\u2003\u2003E estou pensando: <em>Caramba, se essas paredes pudessem falar\u2026 bem, elas diriam, que coisa louca, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>FIM.<\/strong><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Tu-tu-tu \ud83e\uddf1\ud83e\uddf1\ud83e\uddf1 \ud83e\uddf1\ud83e\uddf1\ud83e\uddf1 FIM.<\/p>\n","protected":false},"author":152,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2555],"class_list":["post-9833","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-wallscouldtalk"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9833","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/152"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9833"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9833"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9833"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}