{"id":9760,"date":"2026-02-18T20:28:07","date_gmt":"2026-02-18T23:28:07","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-02-23T16:52:34","modified_gmt":"2026-02-23T19:52:34","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/acordesecompassos\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003O despertador do iPhone de %D\u00e9bora% %Albino% n\u00e3o tocava m\u00fasicas. Era um som de radar, persistente e irritante, programado para \u00e0s 05h30 da manh\u00e3. Naquele hor\u00e1rio, o bairro dos Jardins ainda estava mergulhado em um sil\u00eancio cinzento, interrompido apenas pelo som distante de algum carro de luxo cruzando a Oscar Freire.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% abriu os olhos e, em segundos, sua mente j\u00e1 estava operando em modo de execu\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o era do tipo que &#8220;precisava de cinco minutos&#8221;. Ela se levantou, cal\u00e7ou os chinelos alinhados ao lado da cama e caminhou pelo apartamento onde cada objeto tinha um lugar geom\u00e9trico. As paredes brancas, decoradas com quadros minimalistas, n\u00e3o davam pistas de que ali morava uma das produtoras mais respeitadas do mercado fonogr\u00e1fico. N\u00e3o havia discos de ouro expostos, nem fotos com celebridades. %D\u00e9bora% preferia que seu nome fosse lembrado pela compet\u00eancia, n\u00e3o pela proximidade com o brilho alheio.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto a cafeteira italiana soltava o aroma forte do caf\u00e9 sem a\u00e7\u00facar, ela revisava seu cronograma. Naquela manh\u00e3, sua rotina de &#8220;General&#8221; seria testada. Ela estava acostumada com grandes festivais, onde lidava com duzentas pessoas ao mesmo tempo sem alterar o tom de voz. Mas agora, o desafio era diferente: a turn\u00ea &#8220;Conex\u00e3o&#8221;. Trinta dias substituindo Beto. Trinta dias cuidando de Gustavo Mioto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Trinta dias \u2014 ela murmurou para si mesma, servindo o caf\u00e9 na caneca de cer\u00e2mica preta. \u2014 Entro, organizo a bagun\u00e7a, garanto que o show aconte\u00e7a e saio ilesa.<br \/>\n\u2003\u2003Ela olhou para sua planta suculenta no parapeito da janela. Era a \u00fanica coisa viva que ela permitia em seu espa\u00e7o, justamente por n\u00e3o exigir aten\u00e7\u00e3o constante ou grandes demonstra\u00e7\u00f5es de afeto. %D\u00e9bora% tinha um trauma bem guardado no fundo da gaveta, uma ferida causada por um artista que confundiu trabalho com paix\u00e3o e a deixou com a reputa\u00e7\u00e3o arranhada e o cora\u00e7\u00e3o c\u00e9tico. Desde ent\u00e3o, ela usava o crach\u00e1 no pesco\u00e7o como uma armadura.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0s 08h00, ela j\u00e1 estava no carro. O GPS marcava o destino: o escrit\u00f3rio da Miotinho Produ\u00e7\u00f5es. Enquanto dirigia, ela n\u00e3o ouvia r\u00e1dio. Ela ouvia o \u00faltimo \u00e1lbum de Gustavo, n\u00e3o como f\u00e3, mas como t\u00e9cnica. Analisava as transi\u00e7\u00f5es entre as faixas, imaginava onde os fogos de artif\u00edcio entrariam no palco e como a luz deveria cortar o cen\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Quando estacionou, o caos j\u00e1 a esperava. O telefone de Beto, que agora estava em suas m\u00e3os, n\u00e3o parava de vibrar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %D\u00e9bora%? \u00c9 o seguran\u00e7a do aeroporto. A van do Gustavo est\u00e1 atrasada e j\u00e1 tem f\u00e3 furando o bloqueio. O que a gente faz? \u2014 a voz do outro lado soava desesperada.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% respirou fundo, sentindo o cheiro de caf\u00e9 e o ar-condicionado do carro. Ela prendeu o cabelo em um rabo de cavalo impec\u00e1vel, ajustou a jaqueta corta-vento e desceu do ve\u00edculo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Respira \u2014 ela disse calmamente ao telefone, com a voz que j\u00e1 lhe rendera o apelido de General. \u2014 Eu estou chegando. Ningu\u00e9m fura o bloqueio hoje.<br \/>\n\u2003\u2003A rotina de sil\u00eancio do seu apartamento nos Jardins parecia agora uma mem\u00f3ria distante. %D\u00e9bora% %Albino% estava oficialmente em solo inimigo, pronta para domar o furac\u00e3o Mioto. Ela s\u00f3 n\u00e3o contava que, desta vez, o furac\u00e3o n\u00e3o queria ser domado, mas sim acompanhado.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% desligou o celular sem esperar a resposta do seguran\u00e7a. O sil\u00eancio que se seguiu no interior do carro por breves cinco segundos foi o \u00faltimo momento de paz que ela teria naquele m\u00eas. Ela olhou pelo retrovisor, conferindo se o crach\u00e1 da &#8220;Miotinho Produ\u00e7\u00f5es&#8221; estava devidamente posicionado sobre a jaqueta corta-vento preta. Aquela pe\u00e7a de pl\u00e1stico era seu escudo; o t\u00edtulo de &#8220;Produtora Geral&#8221; era sua espada.<br \/>\n\u2003\u2003Ao cruzar o port\u00e3o de embarque privativo do aeroporto, a cena era exatamente o que ela desprezava: desorganiza\u00e7\u00e3o. Duas vans brancas estavam cercadas por cerca de trinta adolescentes euf\u00f3ricas, enquanto tr\u00eas seguran\u00e7as tentavam, sem sucesso, manter uma linha de isolamento que parecia feita de papel. No centro do redemoinho, atrav\u00e9s do vidro fum\u00ea de um dos ve\u00edculos, ela p\u00f4de ver um vulto familiar ajustando um bon\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o caminhou at\u00e9 eles. Ela marchou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea, no port\u00e3o 4, agora \u2014 ordenou ela ao primeiro seguran\u00e7a que cruzou seu caminho, sem diminuir o passo. \u2014 Chame a escolta motorizada para o p\u00e1tio interno. Quero essas vans saindo por tr\u00e1s do hangar em tr\u00eas minutos.<br \/>\n\u2003\u2003O homem piscou, atordoado pela autoridade na voz daquela mulher que ele nunca tinha visto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Mas o Beto disse que&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O Beto est\u00e1 de licen\u00e7a. Eu sou a %D\u00e9bora%. E eu n\u00e3o dou sugest\u00f5es, eu dou ordens. Movimente-se.<br \/>\n\u2003\u2003O cheiro de laqu\u00ea, madeira compensada e adrenalina era o mesmo em qualquer lugar do Brasil, fosse em Barretos ou em uma casa de shows em S\u00e3o Paulo. Mas naquela noite, o ar parecia um pouco mais pesado nos corredores dos bastidores.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% caminhava com passos firmes, o som de suas botas ecoando no concreto e fazendo a equipe de apoio abrir caminho quase que instintivamente. Ela n\u00e3o precisava gritar; sua postura resolvia 90% dos problemas. No pesco\u00e7o, o crach\u00e1 All Access balan\u00e7ava sobre a blusa preta de seda. No r\u00e1dio comunicador preso \u00e0 cintura, a voz do assistente de palco chiava:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %D\u00e9bora%, o Beto deixou a lista de convidados do camarim uma bagun\u00e7a antes de sair de licen\u00e7a m\u00e9dica. A m\u00e3e do Gustavo t\u00e1 perguntando onde fica a sala dela.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% apertou o bot\u00e3o do r\u00e1dio sem parar de andar, os olhos varrendo o corredor em busca da porta com a estrela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Coloca a dona Jussara na sala 2, aquela com o catering de frutas que eu pedi para refor\u00e7ar. E avisa a seguran\u00e7a que ningu\u00e9m entra no corredor principal nos pr\u00f3ximos 15 minutos. Eu vou me apresentar ao chefe. \u2014 Ela soltou o bot\u00e3o e respirou fundo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela gostava de sertanejo. Gostava mesmo. Sabia cantar todas as m\u00fasicas do Mioto, do &#8220;Impressionando os Anjos&#8221; at\u00e9 os hits mais animados. Mas ali, naquele momento, ela n\u00e3o era f\u00e3. Era a profissional contratada a peso de ouro para cobrir uma licen\u00e7a de emerg\u00eancia e garantir que a turn\u00ea &#8220;Conex\u00e3o&#8221; n\u00e3o descarrilasse.<br \/>\n\u2003\u2003Ela parou em frente \u00e0 porta do camarim principal. Bateu duas vezes, secas, e entrou sem esperar muito convite.<br \/>\n\u2003\u2003O ambiente estava surpreendentemente silencioso em compara\u00e7\u00e3o ao caos l\u00e1 fora. Gustavo Mioto estava sentado em um sof\u00e1 de couro bege, dedilhando um viol\u00e3o distraidamente, com a cabe\u00e7a baixa. Ele parecia cansado, mas focado. Ao ouvir a porta, ele levantou o olhar, esperando ver seu produtor habitual.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Beto, voc\u00ea conseguiu ver o retorno do&#8230; \u2014 A frase morreu na boca dele quando viu a mulher parada \u00e0 sua frente.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo endireitou a postura. Ele sabia quem ela era. O meio sertanejo era pequeno para quem era competente, e a fama de %D\u00e9bora% corria solta: eficiente, implac\u00e1vel e criativa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O Beto est\u00e1 a caminho do hospital com uma apendicite, Gustavo \u2014 disse %D\u00e9bora%, o tom de voz calmo, mas que preenchia a sala. Ela estendeu a m\u00e3o, profissional. \u2014 Eu sou a %D\u00e9bora%. Vou assumir sua agenda e sua produ\u00e7\u00e3o pelos pr\u00f3ximos trinta dias.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo soltou o viol\u00e3o no suporte ao lado e se levantou. Ele era alto, e o perfume dele invadiu o espa\u00e7o pessoal de %D\u00e9bora% de forma perigosa, mas ela n\u00e3o recuou um mil\u00edmetro. Ele apertou a m\u00e3o dela. O toque era firme e quente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A famosa %D\u00e9bora% \u2014 ele disse, com um meio sorriso que formava aquelas covinhas caracter\u00edsticas. Os olhos dele a analisaram com uma curiosidade genu\u00edna. \u2014 J\u00e1 ouvi dizer que voc\u00ea salvou a grava\u00e7\u00e3o do Luan no ano passado quando o gerador pifou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Exageros \u2014 ela respondeu, permitindo-se um sorriso breve e contido. \u2014 Eu s\u00f3 fiz o gerador funcionar. Hoje, meu trabalho \u00e9 garantir que voc\u00ea suba naquele palco em 40 minutos com a cabe\u00e7a tranquila. Falando nisso&#8230; \u2014 Ela olhou para o viol\u00e3o e depois para ele. \u2014 O retorno do seu ouvido esquerdo estava chiando na passagem de som. J\u00e1 mandei trocar o <em>bodypack<\/em>. Era isso que ia perguntar pro Beto?<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo piscou, surpreso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Era. Como voc\u00ea sabia?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu estava na mesa de som ouvindo a passagem enquanto voc\u00ea cantava. Nada me passa despercebido. \u2014 Ela checou o rel\u00f3gio de pulso. \u2014 Voc\u00ea tem vinte minutos de descanso real. Quer que eu tire todo mundo daqui ou prefere que eu chame a banda para aquecer?<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo cruzou os bra\u00e7os, encostando-se na borda da mesa de centro. Ele parecia impressionado. Pela primeira vez no dia, a tens\u00e3o nos ombros dele relaxou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 r\u00e1pida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sou eficiente, Gustavo. \u2014 Ela o encarou nos olhos. \u2014 E sou f\u00e3 do seu trabalho, ent\u00e3o, por favor, n\u00e3o me fa\u00e7a passar vergonha com um show meia-boca hoje s\u00f3 porque seu produtor favorito est\u00e1 doente.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu, uma risada solta e rouca.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Combinado, chefe. Pode deixar a banda entrar em cinco minutos. Antes&#8230; aceita um caf\u00e9? Ou produtores lend\u00e1rios n\u00e3o bebem caf\u00e9 antes do show?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% hesitou por um mil\u00e9simo de segundo. A regra n\u00famero um do manual n\u00e3o escrito dos produtores era manter uma dist\u00e2ncia segura do &#8220;talento&#8221;. Mas recusar um caf\u00e9 oferecido pelo pr\u00f3prio artista soaria indelicado, talvez at\u00e9 arrogante.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Caf\u00e9 \u00e9 combust\u00edvel. Eu aceito \u2014 respondeu ela, descruzando os bra\u00e7os. \u2014 Mas puro e r\u00e1pido. Temos um cronograma.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo sorriu de canto e caminhou at\u00e9 a m\u00e1quina de expresso no canto da sala. Enquanto ele manipulava as c\u00e1psulas, %D\u00e9bora% aproveitou para escanear o ambiente com mais aten\u00e7\u00e3o. Havia v\u00e1rias folhas de papel espalhadas sobre a mesa de centro: o roteiro do show, algumas letras rabiscadas e a setlist da noite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A\u00e7\u00facar? Ado\u00e7ante? \u2014 perguntou ele, de costas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Nada. Do jeito que vier \u2014 disse ela, aproximando-se da mesa. Seus olhos focaram na lista de m\u00fasicas impressa. Ela franziu a testa levemente.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo voltou trazendo duas x\u00edcaras pequenas de cer\u00e2mica preta. Entregou uma a ela, tomando o cuidado de n\u00e3o encostar os dedos nos dela, mas mantendo o contato visual.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O que foi? \u2014 ele perguntou, notando a express\u00e3o dela ao olhar para os pap\u00e9is. \u2014 Esse franzido na testa a\u00ed. N\u00e3o gostou da ordem das m\u00fasicas?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% tomou um gole do caf\u00e9. Estava quente, forte, perfeito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste \u2014 come\u00e7ou ela, escolhendo as palavras. A f\u00e3 dentro dela queria gritar que qualquer coisa que ele cantasse seria \u00f3timo, mas a produtora precisava falar. \u2014 Mas vi que voc\u00ea tirou &#8220;Contram\u00e3o&#8221; do bloco ac\u00fastico e colocou no final, perto do encerramento.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo encostou-se novamente na bancada, bebericando seu caf\u00e9. Ele parecia genuinamente interessado na opini\u00e3o dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9. Eu senti que o show estava caindo um pouco no meio. Achei que jogar ela para o final ia dar um g\u00e1s. O Beto concordou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O Beto entende de log\u00edstica, Gustavo. Eu entendo de feeling de plateia \u2014 %D\u00e9bora% rebateu, com uma franqueza que surpreendeu a si mesma. Ela colocou a x\u00edcara na mesa e apontou para o papel. \u2014 &#8220;Contram\u00e3o&#8221; \u00e9 uma m\u00fasica de conex\u00e3o. Se voc\u00ea jogar para o final, quando a galera j\u00e1 t\u00e1 na euforia pra ir embora ou esperando os hits mais agitados pra pular, voc\u00ea perde a intimidade. Deixa-a no ac\u00fastico. \u00c9 o momento que as pessoas ligam a lanterna do celular. \u00c9 o momento que elas se apaixonam pelo show.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo ficou em sil\u00eancio por alguns segundos, observando-a. O olhar dele n\u00e3o era de desafio, mas de avalia\u00e7\u00e3o. Ele estava pesando a aud\u00e1cia daquela mulher que acabara de chegar contra a experi\u00eancia dele de anos de estrada.<br \/>\n\u2003\u2003Ele soltou uma respira\u00e7\u00e3o lenta e colocou sua x\u00edcara ao lado da dela. Ent\u00e3o, pegou uma caneta que estava sobre o sof\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 sempre assim? \u2014 ele perguntou, girando a caneta entre os dedos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Assim como?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Direta. Sem medo de contrariar o &#8220;chefe&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu fui contratada para fazer o show ser inesquec\u00edvel, n\u00e3o para concordar com voc\u00ea \u2014 %D\u00e9bora% sustentou o olhar, embora sentisse o cora\u00e7\u00e3o acelerar levemente. A presen\u00e7a dele era magn\u00e9tica, e t\u00ea-lo focado nela daquele jeito era desconcertante.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo riu baixo, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a negativamente, como se n\u00e3o acreditasse na sorte (ou no azar) que tinha. Ele se inclinou sobre a mesa e riscou a setlist, desenhando uma seta enorme trazendo a m\u00fasica de volta para o meio do show.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ok, %D\u00e9bora%. \u2014 Ele disse o nome dela testando a sonoridade, de um jeito mais suave. \u2014 Vamos fazer do seu jeito hoje. Mas se o meio do show ficar morno&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai ficar \u2014 ela o cortou, com um sorriso confiante e profissional. \u2014 Eu garanto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Gosto dessa confian\u00e7a \u2014 murmurou ele, largando a caneta.<br \/>\n\u2003\u2003O clima no ambiente mudou sutilmente. Deixou de ser apenas uma reuni\u00e3o de alinhamento e virou algo mais&#8230; denso. Havia uma curiosidade m\u00fatua pairando no ar. Gustavo parecia prestes a perguntar mais alguma coisa, talvez algo pessoal, quando batidas ritmadas e barulhentas soaram na porta.<br \/>\n\u2003\u2003A porta se abriu num estrondo e tr\u00eas m\u00fasicos entraram rindo, carregando instrumentos e quebrando instantaneamente a bolha de sil\u00eancio que havia se formado entre %D\u00e9bora% e Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E a\u00ed, Mioto! Bora que o povo t\u00e1 gritando l\u00e1 fora! \u2014 gritou o baterista, parando bruscamente ao ver %D\u00e9bora% parada ali, impec\u00e1vel, com a x\u00edcara de caf\u00e9 e a postura de general.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% virou-se para a banda, a m\u00e1scara de chefe voltando ao lugar instantaneamente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Boa noite, meninos \u2014 disse ela, a voz projetada. \u2014 Voc\u00eas t\u00eam tr\u00eas minutos para o aquecimento final aqui dentro. O palco est\u00e1 liberado em cinco. Vamos seguir a setlist original no bloco 2, com a altera\u00e7\u00e3o que acabei de fazer com o Gustavo. Sem questionamentos agora.<br \/>\n\u2003\u2003Ela olhou para Gustavo uma \u00faltima vez. Ele j\u00e1 estava pegando o viol\u00e3o novamente, mas piscou para ela \u2014 um gesto r\u00e1pido, c\u00famplice, quase impercept\u00edvel para os outros.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Bom show, Gustavo \u2014 disse ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Obrigado, %D\u00e9bora%. \u2014 Ele respondeu, e havia um tom diferente na voz dele agora. Um tom de respeito. \u2014 A gente se v\u00ea na sa\u00edda do palco.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% assentiu e saiu da sala, fechando a porta atr\u00e1s de si. No corredor frio, ela soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. Seria um longo m\u00eas.<\/p>\n<h2 align=\"center\"><br \/>O Palco (POV: Gustavo)<\/h2>\n<p>\u2003\u2003O palco \u00e9 um lugar curioso. Para quem v\u00ea de fora, \u00e9 s\u00f3 luz, gritaria e festa. Para mim, \u00e9 onde o tempo distorce. Uma hora e meia pode parecer cinco minutos ou cinco dias, dependendo da energia da noite.<br \/>\n\u2003\u2003E aquela noite estava&#8230; el\u00e9trica.<br \/>\n\u2003\u2003Eu j\u00e1 estava suando quando a banda diminuiu o ritmo. O baterista fez a contagem suave no chimbal e as luzes do palco baixaram, trocando os feixes fren\u00e9ticos de estrobo por um tom azul profundo e acolhedor. Era a hora do bloco ac\u00fastico. O momento da verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Puxei o banquinho para o centro, ajeitei o viol\u00e3o no colo e aproximei o microfone. Pelo canto do olho, vi a setlist colada no ch\u00e3o, iluminada por uma pequena luz de led. Ali estava a marca de caneta preta, grossa e decidida, que %D\u00e9bora% tinha feito trinta minutos atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003\u201cContram\u00e3o\u201d. Agora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Essa pr\u00f3xima&#8230; \u2014 comecei a falar, e minha voz reverberou no est\u00e1dio lotado. O simples som da minha respira\u00e7\u00e3o no microfone fez o grito da galera aumentar. \u2014 Essa a gente quase deixou para o final hoje. Mas uma pessoa nova na equipe me disse que esse era o momento exato pra gente se conectar. Vamos ver se ela estava certa.<br \/>\n\u2003\u2003Dedilhados iniciais. A melodia inconfund\u00edvel de &#8220;Contram\u00e3o&#8221; come\u00e7ou.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o levou nem cinco segundos. Antes mesmo de eu cantar a primeira frase (&#8220;me fala qual \u00e9 o seu perfume&#8230;&#8221;), o p\u00fablico reagiu. N\u00e3o foi com pulos ou empurra-empurra, foi com uma onda coletiva de emo\u00e7\u00e3o. Centenas, talvez milhares de lanternas de celulares se acenderam simultaneamente, transformando a escurid\u00e3o da plateia em um c\u00e9u estrelado artificial.<br \/>\n\u2003\u2003Eu cantei a primeira estrofe, mas quase n\u00e3o consegui me ouvir. A voz da multid\u00e3o cobriu o som dos meus fones <em>in-ear<\/em>. Eles cantavam cada palavra com uma intensidade que arrepiava.<br \/>\n\u2003\u2003Ela tinha raz\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003O pensamento veio claro e forte no meio do refr\u00e3o. Se eu tivesse deixado essa m\u00fasica para o final, com todo mundo cansado e b\u00eabado, esse momento m\u00e1gico teria se perdido na euforia da despedida. Aqui, no meio do show, funcionou como um abra\u00e7o coletivo. Renovou a energia de todo mundo.<br \/>\n\u2003\u2003Maldita produtora competente. Sorri internamente enquanto deixava a plateia cantar o refr\u00e3o sozinha.<br \/>\n\u2003\u2003Instintivamente, olhei para a lateral do palco, para a coxia esquerda, onde ficava a mesa de produ\u00e7\u00e3o. Geralmente, \u00e9 um lugar escuro e ca\u00f3tico, cheio de t\u00e9cnicos correndo. Mas meus olhos a encontraram imediatamente.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% estava parada perto do monitor de v\u00eddeo, os bra\u00e7os cruzados, o r\u00e1dio comunicador preso ao cinto brilhando com a luzinha vermelha de &#8220;ocupado&#8221;. Ela n\u00e3o estava pulando, nem filmando com o celular como a maioria das pessoas que ficavam ali. Ela estava im\u00f3vel, observando a plateia com um olhar cr\u00edtico e anal\u00edtico.<br \/>\n\u2003\u2003Ela estava trabalhando. E, caramba, como ela ficava bonita daquele jeito s\u00e9rio, iluminada apenas pelo reflexo azulado das luzes do palco. O cabelo, que antes parecia perfeitamente alinhado, agora tinha alguns fios soltos por causa do calor e da correria, o que a deixava estranhamente mais real.<br \/>\n\u2003\u2003Como se sentisse meu olhar, ela desviou a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e olhou para o centro do palco. Nossos olhares se cruzaram por um segundo. Mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia, vi a express\u00e3o dela.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o sorriu abertamente. Apenas ergueu o queixo levemente e assentiu com a cabe\u00e7a, um movimento curto e seguro. Eu te avisei, o gesto dizia. Eu sei o que estou fazendo.<br \/>\n\u2003\u2003Senti um sorriso bobo repuxar o canto da minha boca enquanto eu voltava para o microfone para finalizar a m\u00fasica. Aquele gesto de aprova\u00e7\u00e3o dela valeu mais do que eu gostaria de admitir. O Beto, meu produtor antigo, teria feito um &#8220;joinha&#8221; exagerado. %D\u00e9bora% manteve a classe.<br \/>\n\u2003\u2003Terminei a m\u00fasica sob aplausos ensurdecedores. A energia estava l\u00e1 em cima.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9&#8230; \u2014 falei no microfone, rindo soprado enquanto ajeitava a correia do viol\u00e3o. \u2014 Parece que ela estava certa mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003A banda atacou a pr\u00f3xima m\u00fasica, um hit animado, e eu me levantei, sentindo uma adrenalina nova. N\u00e3o era s\u00f3 pelo show. Era o desafio. Eu queria ver se conseguia impressionar aquela mulher do mesmo jeito que ela tinha acabado de me impressionar.<br \/>\n\u2003\u2003O caos p\u00f3s-show era uma entidade viva. Assim que Gustavo desceu os degraus finais da rampa lateral do palco, uma nuvem de pessoas o envolveu. Algu\u00e9m jogou uma toalha branca sobre seus ombros, outro enfiou uma garrafa de \u00e1gua em sua m\u00e3o, e o produtor de estrada gritava algo sobre &#8220;van na sa\u00edda B em 15 minutos&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003O barulho ainda zumbia nos ouvidos de Gustavo, e o suor escorria por suas t\u00eamporas, mas seus olhos buscavam um ponto fixo no meio daquela confus\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ele a encontrou encostada em um case de equipamentos preto, digitando algo no celular com agilidade. %D\u00e9bora% parecia a \u00fanica ilha de pragmatismo naquele oceano de euforia do p\u00f3s-show.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo se desvencilhou de um assistente que tentava tirar o ponto de retorno de sua orelha e caminhou at\u00e9 ela. A presen\u00e7a dele ainda irradiava o calor do palco, mas %D\u00e9bora% apenas levantou os olhos da tela quando ele parou \u00e0 sua frente.<br \/>\n\u2003\u2003Ela bloqueou o celular. Por um breve segundo ela o analisou \u2014 n\u00e3o como um f\u00e3, mas como um m\u00e9dico analisa um paciente: notou o cansa\u00e7o nos olhos dele e o esfor\u00e7o respirat\u00f3rio ainda acelerado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Parab\u00e9ns, Gustavo \u2014 disse ela, com um tom profissional e direto. \u2014 Foi um show s\u00f3lido. A banda estava afiada e voc\u00ea entregou o que o p\u00fablico esperava. \u00c9 uma performance consistente.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo passou a toalha pelo rosto, sentindo o peso do elogio. Ele percebeu que ela n\u00e3o era do tipo que distribu\u00eda adjetivos vazios.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Obrigado. \u2014 Ele deu um passo \u00e0 frente, tentando sair do fluxo de pessoas que passavam com instrumentos. \u2014 Eu estava falando s\u00e9rio l\u00e1 em cima. Aquela mudan\u00e7a na setlist que voc\u00ea sugeriu salvou o ritmo. A energia mudou na hora. Voc\u00ea tem uma leitura r\u00e1pida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 para isso que eu fui contratada \u2014 ela respondeu, mantendo a express\u00e3o neutra, embora houvesse um lampejo de satisfa\u00e7\u00e3o profissional no olhar. \u2014 Eu observo padr\u00f5es. E o seu ritmo estava caindo. Fico feliz que tenha tido o discernimento de aceitar a instru\u00e7\u00e3o, mesmo sem me conhecer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Digamos que eu sei identificar quem sabe o que est\u00e1 fazendo \u2014 ele rebateu.<br \/>\n\u2003\u2003Um t\u00e9cnico passou empurrando um amplificador entre eles, e %D\u00e9bora% imediatamente retomou o foco na planilha que brilhava no celular.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Bom, a adrenalina vai baixar e voc\u00ea vai precisar preservar a voz. O Beto me passou o b\u00e1sico, mas eu preciso entender as peculiaridades dessa turn\u00ea. N\u00e3o trabalho com suposi\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Concordo \u2014 Gustavo assentiu, bebendo um longo gole de \u00e1gua. \u2014 Tem muita coisa acontecendo. Grava\u00e7\u00e3o de clipe, log\u00edstica&#8230; Eu n\u00e3o quero que a gente se desencontre como hoje.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o trabalho com desencontros, Gustavo \u2014 ela disse, arqueando uma sobrancelha de forma resoluta. \u2014 Mas preciso alinhar o cronograma com voc\u00ea. Sem intermedi\u00e1rios para n\u00e3o perder informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo pensou por um segundo. A agenda do dia seguinte era cheia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Amanh\u00e3 de manh\u00e3? \u2014 sugeriu ele. \u2014 Podemos tomar caf\u00e9 no hotel.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% negou com a cabe\u00e7a sem hesitar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 De manh\u00e3 voc\u00ea dorme. Sua voz precisa de repouso absoluto depois de um setlist desse peso. Marcamos para o almo\u00e7o. Meio-dia e meia, no restaurante do hotel. \u00c9 um ambiente controlado e passamos a pauta dos pr\u00f3ximos trinta dias. Pode ser?<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo soltou um riso curto. Ela j\u00e1 estava ditando o ritmo, e o mais estranho era que ele n\u00e3o sentia vontade de contestar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Meio-dia e meia. Fechado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00d3timo. Agora v\u00e1 para a van, sua equipe j\u00e1 est\u00e1 cronometrada para a sa\u00edda \u2014 ela deu um passo para o lado, abrindo caminho para ele, sem nenhum toque, apenas um aceno de cabe\u00e7a profissional. \u2014 At\u00e9 amanh\u00e3, Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se virou e saiu andando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda de produ\u00e7\u00e3o. Gustavo ficou parado por um momento, observando a seguran\u00e7a com que ela comandava o espa\u00e7o ao redor, antes de sentir o produtor de estrada puxar seu bra\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vamos, Mioto! A van t\u00e1 ligada!<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo foi, mas a sensa\u00e7\u00e3o era de que, pela primeira vez em muito tempo, o caos da sua agenda tinha encontrado um obst\u00e1culo \u00e0 altura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Palco (POV: Gustavo)<\/p>\n","protected":false},"author":155,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"template-historia-longa.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2539],"class_list":["post-9760","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-acordesecompassos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/155"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9760"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}