{"id":9732,"date":"2026-02-13T14:10:34","date_gmt":"2026-02-13T17:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-02-13T14:20:37","modified_gmt":"2026-02-13T17:20:37","slug":"capitulo-02","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/nda\/capitulo-02\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 02"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<strong>N\u00c3O SEI DIZER O QUE \u00c9 MELHOR: PROVAR QUE ELE ESTAVA ERRADO, OU ASSISTIR EM TEMPO REAL %SEOJUN% \u00c0 BEIRA DE IMPLODIR<\/strong>.<br>\u2003\u2003Danny acompanha o ritmo marcado da m\u00fasica com mais intensidade do que deveria, uma vez que a inten\u00e7\u00e3o da performance \u00e9 justamente projetar aquela sensa\u00e7\u00e3o de estar <em>sem f\u00f4lego<\/em> e <em>sussurrando<\/em>, propositalmente projetado para criar uma atmosfera <em>\u00edntima<\/em>, convidativa, n\u00e3o o que quer que <em>Danny<\/em> estivesse querendo transformar aquilo. Seja para externar apenas seu pr\u00f3prio desprazer por ter que estar ali aquela noite tamb\u00e9m, ou talvez \u2014 <em>muito provavelmente<\/em> \u2014 estivesse apenas exasperada por ter que estar no <em>mesmo<\/em> palco que eu, para <em>variar<\/em>. Ainda assim, posso sempre contar com Jex e V para manter o ritmo de Storm sob controle \u2014 no m\u00e1ximo <em>que isso<\/em> significasse para ela. Aquilo estava saindo de controle, eu <em>teria<\/em> que eventualmente falar com ela, mas sinceramente, o problema \u00e9 <em>inteiramente<\/em> de <em>Danika<\/em> por ter <em>expectativas<\/em> onde n\u00e3o havia <em>absolutamente nada<\/em>. Se estava sendo corro\u00edda por si mesma agora, era problema dela. Pouco me importo de fato, ela pode lidar com isso sozinha; meu foco est\u00e1 fixo em outra pessoa, para variar, e puta merda se eu n\u00e3o estou tendo o momento da <em>minha vida<\/em> vendo <em>como<\/em> ele se contorce discretamente parcialmente sentado no banco alto do balc\u00e3o.<br>\u2003\u2003Fa\u00e7o quest\u00e3o de cantar <em>diretamente<\/em> para ele.<br>\u2003\u2003Sustento seu olhar, em desafio silencioso, provocando-o sem dizer <em>uma<\/em> palavra. Quero que ele acredite que cada palavra pronunciada da letra da m\u00fasica \u00e9 dita <em>para<\/em> ele, quero infiltrar-me em suas fantasias e <em>acabar<\/em> com aquela m\u00fasica para ele \u2014 se essa era sua m\u00fasica preferida ou n\u00e3o, pouco importa, estou colocando um show completo para ter a <em>certeza<\/em> de que ele n\u00e3o conseguiria mais <em>ouvi-la<\/em> sem pensar em mim, e pela express\u00e3o <em>dele<\/em>, consigo o que quero. Quero ver <em>at\u00e9 onde<\/em> seu autocontrole consegue chegar, quero ver <em>quando<\/em> ele vai quebrar. Foco, ent\u00e3o, em modular minha voz para soar como um ronronar \u00e1spero, tentando manter a m\u00fasica em um tom mais baixo e lento, sensual, diferente da original \u2014 que ele <em>sabia<\/em> que era mais alta do que <em>minha voz<\/em>; foi <em>deliberada<\/em> a escolha, e se era assim, ent\u00e3o faria <em>com prazer<\/em> ele se arrepender \u2014, a letra <em>expl\u00edcita<\/em>, o <em>convite<\/em> velado por tr\u00e1s das palavras, soam mais intensas; como dos v\u00e1rios sussurros perdidos em meio a uma noite de prazer, e <em>sei<\/em> que ele est\u00e1 pensando a <em>mesma<\/em> coisa. Sabia que poderia deix\u00e1-lo arrepiado, se ele estivesse prestando aten\u00e7\u00e3o em mim, e da forma que ele me encara de onde est\u00e1 parcialmente sentado no balc\u00e3o pr\u00f3ximo ao bar, <em>sei<\/em> que ele est\u00e1 fixo em mim sem sequer <em>piscar<\/em> direito, n\u00e3o tenho <em>d\u00favidas<\/em> que estou tendo o efeito que desejo.<br>\u2003\u2003Mantenho minha aten\u00e7\u00e3o fixa nele. Sem importar-me se isso ir\u00e1 gerar alguma especula\u00e7\u00e3o externa \u2014 sei que vai \u2014, se ir\u00e1 gerar burburinhos e <em>blind itens<\/em> na internet, se serei alvo de perguntas e debates em redes sociais que sequer entro, a <em>\u00fanica<\/em> coisa que me interessa \u00e9 atorment\u00e1-lo; quero faze-lo se arrepender por <em>cada<\/em> segundo que ele havia gastado aquela noite. Se para provar um ponto para Joel Massaro ou faz\u00ea-lo pagar por sua pr\u00f3pria petul\u00e2ncia, j\u00e1 n\u00e3o sou mais capaz de dizer, a \u00fanica coisa que me importa, todavia, \u00e9 v\u00ea-lo perder a cabe\u00e7a. Bem devagar, assistir seu controle come\u00e7ar a escapar de suas m\u00e3os como nada se n\u00e3o apenas <em>areia<\/em> por entre seus dedos. \u00c9 destruir aquela m\u00e1scara de superioridade que ele exibe com tanta facilidade, observar as rachaduras que sou capaz de criar, e assistir de <em>perto<\/em> quando entrasse por baixo de sua pele \u2014 porque eu <em>iria<\/em>. Mal consigo conter um sorriso, satisfeita, quando o observo se ajustar discretamente, trincando um pouco mais a mand\u00edbula perfeita e proporcional, um pequeno m\u00fasculo bem pronunciado em sua mand\u00edbula acentuando-a ainda mais, revelando uma for\u00e7a demasiada que me entret\u00e9m.<br>\u2003\u2003Retiro o microfone do apoio, liberando meu caminho ao chutar os fios para tr\u00e1s, tentando n\u00e3o revirar meus olhos com o fato de que a escolha havia sido <em>deliberada<\/em> por <em>Massaro<\/em>. N\u00e3o \u00e9 porque o equipamento \u00e9 ruim, \u00e9 porque ele queria mandar uma mensagem: <em>\u201ceu mando, voc\u00ea obedece\u201d<\/em>, posso sentir seu aperto em minhas cordas tornar-se cada vez mais sufocante, est\u00e1 rasgando-me de dentro para fora e n\u00e3o h\u00e1 montante de dinheiro ou gl\u00f3ria, ou fama, ou muito menos <em>drogas<\/em> que consiga apagar a sensa\u00e7\u00e3o de ter m\u00e3os coordenando meus movimentos. Uma perfeita marionete que teve seus cinco minutos de rebeldia, mas que voltaria a fazer seu trabalho como lhe era comandando: <em>animar a plateia<\/em>, prepar\u00e1-los para oferecer tudo o que tinham, seu dinheiro, sua devo\u00e7\u00e3o, tudo, aos p\u00e9s de Massaro como uma oferenda volunt\u00e1ria a um deus egoc\u00eantrico e narcisista. H\u00e1 um gosto amargo em minha boca, mas, bem, o que posso fazer? Usar o que tenho em m\u00e3os e fazer a merda do jeito que quero.<br>\u2003\u2003Uso a m\u00fasica sugestiva que ele havia escolhido para provoc\u00e1-lo, ignorando o riso nasalado de V, familiar com meu pr\u00f3prio jogo. Tenho a aten\u00e7\u00e3o de %SeoJun% fixa em mim, e tudo o que preciso \u00e9 <em>faz\u00ea-lo<\/em> <em>desejar<\/em> trocar de lugar com Jex ou V quando um deles me puxa em suas dire\u00e7\u00f5es ou me toca. Posso sentir a energia da plateia aumentar. Crepita como fagulhas por minha pele, a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 sufocante, mas igualmente se distorce com a adora\u00e7\u00e3o, a certeza de que n\u00e3o estou afetando <em>apenas<\/em> %SeoJun%, mas qualquer filho da puta que est\u00e1 se esfregando em outro no momento, movidos pelo som de minha voz, pelas car\u00edcias, pelos gemidos e notas mais longas sem f\u00f4lego.<br>\u2003\u2003N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ter a aten\u00e7\u00e3o de um p\u00fablico voltado para si, fa\u00e7a apenas algo estranho, e ter\u00e1 olhares sobre voc\u00ea, mas h\u00e1 algo de sublime em conseguir <em>dominar<\/em> uma <em>audi\u00eancia<\/em>, de os fazer desejar um local que jamais estar\u00e3o, de sentir aquele transe crescente percorrer por sua pele, arrepiando-a, como pura est\u00e1tica.<br>\u2003\u2003Ou\u00e7o a risada nasalada, baixa de V ao p\u00e9 de minha orelha, mantendo-me concentrada no tempo e na letra \u2014 fa\u00e7o uma nota mental de acert\u00e1-lo na virilha mais tarde \u2014 e ignoro o arrepio inconveniente que percorre aquele ponto sens\u00edvel de meu corpo. J\u00e1 conhece meu jogo, ent\u00e3o n\u00e3o tem muita cerim\u00f4nia de sua parte quando ele puxa-me em sua dire\u00e7\u00e3o, seu bra\u00e7o serpenteando por meu tronco, at\u00e9 repousar em minha coxa \u2014 um movimento que para os f\u00e3s, normalmente, os levavam a loucura, fazia-os questionar <em>qual<\/em> era nossa rela\u00e7\u00e3o, e criava uma expectativa do caralho; para n\u00f3s era s\u00f3 o que era, um <em>ato perform\u00e1tico<\/em> \u2014, os dedos \u00e1speros dele fincando-se em minha pele, as unhas rasgando a fina camada da meia-cal\u00e7a que uso, criando linhas paralelas e desfiadas, expondo a pele por baixo, enquanto acompanho o movimento dos quadris de V atr\u00e1s de mim, sem desviar os olhos de %SeoJun%.<br>\u2003\u2003Observo-o perder seu f\u00f4lego, a bebida esquecida em sua m\u00e3o esquerda. O movimento de seu pomo de ad\u00e3o torna-se vis\u00edvel, quase espasm\u00f3dico, revelando sua dificuldade para engolir sua pr\u00f3pria saliva, ou a bebida que outrora tomava. Os l\u00e1bios est\u00e3o entreabertos, enquanto os olhos dele escurecem, uma sensa\u00e7\u00e3o de triunfo percorre por meu corpo ao ver seu olhar acompanhar n\u00e3o minhas express\u00f5es, mas o movimento da m\u00e3o de V em meu corpo, fixo, <em>vidrado<\/em>, como se n\u00e3o desejasse perder <em>um segundo<\/em> do espet\u00e1culo, perdido <em>demais<\/em> em seus pr\u00f3prios pensamentos para que eu tenha <em>certeza<\/em> do que ele provavelmente est\u00e1 pensando. Seus olhos acompanham, em transe, a m\u00e3o de V percorrer meu corpo, deslizando por meu abd\u00f4men, e brincando com a linha inferior de meu suti\u00e3, provocando a plateia com o <em>acesso<\/em> que ele poderia ter ali se quiser, antes de sentir a m\u00e3o de V envolver, sugestivamente, meu pesco\u00e7o, jogo minha cabe\u00e7a para tr\u00e1s, em ritmo com o tempo da m\u00fasica, antes de empurrar V para tr\u00e1s, sorrindo, quando a m\u00fasica retorna para o refr\u00e3o. Tenho-o onde o quero.<br>\u2003\u2003A m\u00fasica est\u00e1 quase no final, a plateia pulando, alguns cantando conosco, um pouco mais desafinados, mas n\u00e3o menos animados, quando tenho o prazer de ver, %Lee% %SeoJun% se levantar abruptamente de onde est\u00e1, saindo em disparada pelas escadas, empurrando pessoas cegamente para fora de seu caminho, provavelmente em busca de ar. Abro um sorriso largo que faz minhas bochechas doerem, mas n\u00e3o consigo evitar. Volto meu olhar deliberadamente na dire\u00e7\u00e3o de Joel Massaro, jogando o microfone por meus ombros, quando a m\u00fasica termina e a plateia explode em excita\u00e7\u00e3o e antecipa\u00e7\u00e3o, palmas ecoam pelo espa\u00e7o, pessoas, at\u00e9 mesmo algumas conhecidas, pulam, animadas, ou\u00e7o Jex murmurar que \u201cagora a festa havia come\u00e7ado\u201d com um sorriso idiota no rosto que espelha o meu, mas pouco me importo. Sustento o olhar de <em>Joel<\/em> com um desafio silencioso. Posso ver em seu rosto decr\u00e9pito e envelhecido pelo tempo o inc\u00f4modo, h\u00e1 sim uma ponta de satisfa\u00e7\u00e3o ali, h\u00e1 aquele olhar de superioridade que fazia minhas entranhas se contorcerem e tudo em mim querer gritar at\u00e9 que minhas cordas vocais estivessem permanentemente machucadas, mas h\u00e1 tamb\u00e9m <em>raiva<\/em>. Pura e imprevis\u00edvel <em>raiva<\/em>.<br>\u2003\u2003Seu novo brinquedinho vinha com uma surpresa. Era <em>estupidez<\/em> de Joel <em>achar<\/em> que eu n\u00e3o iria tentar descobrir <em>mais<\/em> sobre a pessoa que <em>ele<\/em> est\u00e1 usando para me amea\u00e7ar. Como uma boa parte de grupos do mesmo g\u00eanero dos <strong>BEATBOIZ<\/strong>, ou seja l\u00e1 qual o nome deles fosse \u2014 n\u00e3o d\u00e1 para chamar todo mundo de <strong>BTS<\/strong> sem ser uma completa cuzona \u2014, era <em>comum<\/em> que seus empres\u00e1rios gostassem de ganhar em cima de f\u00e3s <em>desesperadas<\/em>; relacionamentos parassociais eram doentes, at\u00e9 mesmo <em>perigosos<\/em> \u2014 se voc\u00ea quiser <em>come\u00e7ar<\/em> a considerar <em>stalkers<\/em> \u2014, mas rendem <em>muito<\/em> dinheiro sobre. Uma pessoa disposta a vender sua casa inteira apenas por cinco minutos de aten\u00e7\u00e3o de seu \u00eddolo? N\u00e3o \u00e9 qualquer um que est\u00e1 disposto a faz\u00ea-lo, mas a necessidade primordial a se manter \u00e9: a <em>fantasia<\/em> de que <em>existe chance<\/em> de uma f\u00e3 qualquer conquistar os astros que eles est\u00e3o vendendo. \u00c9 por isso que, teoricamente, nos contratos que Joel Massaro recebeu da companhia que havia criado o grupo, enfatizava a cl\u00e1usula de que eles n\u00e3o eram liberados para <em>\u201crelacionar-se\u201d<\/em> publicamente ou criar-se boatos de que estavam envolvidos com algu\u00e9m, seja homem ou mulher, por pelo menos quatro anos, tempo este que seria necess\u00e1rio para se estabelecerem mais firmemente na ind\u00fastria mundial \u2014 n\u00e3o apenas a coreana. Ou %SeoJun% ca\u00eda na minha conversa, ou tornava-se imposs\u00edvel para ele ficar no mesmo espa\u00e7o que eu, e considerando que eu estou <em>sempre<\/em> na <em>Altas Records<\/em>, bem, <em>touch\u00e9, Massaro<\/em>.<br>\u2003\u2003Dois poderiam jogar aquela porra de jogo \u2014 e eu s\u00f3 entro quando <em>sei<\/em> que ganharia, ele deveria <em>saber<\/em> disso a essa altura.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Suor cobre meu corpo como uma segunda pele, grudando fios de cabelos em meu pesco\u00e7o, t\u00eamporas, obrigando-me a roubar a primeira coisa que encontro \u2014 um canudo de metal do bar, fedendo a cereja e licor \u2014 e us\u00e1-lo para prender meus cabelos no alto. Alguns fios ainda pendem pelo meu rosto, mas a sensa\u00e7\u00e3o de ar g\u00e9lido noturno, ainda que breve, \u00e9 um al\u00edvio para minha pele em chamas. A \u00e1gua ajuda a diminuir o inc\u00f4modo na garganta, mas ainda h\u00e1 um gosto met\u00e1lico em minha boca, e minha voz ainda parece mais rouca do que antes. Meu ouvido esquerdo est\u00e1 parcialmente zunindo, e sei que irei tomar alguma bronca de Jeff amanh\u00e3, quando aquela dor se tornar mais forte e ele me relembrar <em>por que<\/em> usar prote\u00e7\u00e3o auditiva \u00e9 necess\u00e1rio. Algum DJ havia subido no palco, enquanto tudo se desfaz aos poucos em borr\u00f5es e cores distorcidas. Vejo todos os rostos que empurro para fora do meu caminho, e pior, vejo mais do que s\u00f3 os rostos. Vejo o passado. Praguejo baixo, irritadi\u00e7a, conte <em>sempre<\/em> com <em>Danny<\/em> para lhe dar algo estragado e de proced\u00eancia duvidosa. Merda, talvez a LSD apenas tenha batido do jeito errado dessa vez.<br>\u2003\u2003Localizada mais afastada do centro de <em>Hollywood Hills<\/em>, o clube privado <em>The L\u00f3tus<\/em>, que curiosamente havia recebido o apelido popular de <em>Boca do Inferno<\/em> \u2014 <em>adivinha<\/em> o porqu\u00ea \u2014, fica afastado, perdido em meio a um pequeno deserto e algumas colinas mais pr\u00f3ximas das montanhas. \u00c9 propositalmente projetado para dar a privacidade \u00e0s pessoas que o frequentam, um espa\u00e7o que permite que essas figuras p\u00fablicas, de grande poder, pudessem permitir-se aproveitar em seus pr\u00f3prios desejos e fetiches. A estrutura \u00e9 discreta, composta por metal, madeira e vidro, n\u00e3o h\u00e1, todavia, <em>transpar\u00eancia<\/em> ali se n\u00e3o fosse em espa\u00e7os internos. As festas ali s\u00e3o <em>comuns<\/em> por poder oferecer a privacidade necess\u00e1ria para manter os assuntos que aconteciam ali enterrados. A maioria dos convidados precisa assinar <em>Acordo de N\u00e3o Divulga\u00e7\u00e3o<\/em> antes de entrar ali, quem j\u00e1 \u00e9 da casa ganha um espa\u00e7o para si em algum dos andares. \u00c9 um espa\u00e7o gigante, uma mistura entre boate, <em>strip club <\/em>e clube de <em>swing<\/em>. A calefa\u00e7\u00e3o sempre est\u00e1 ligada mais alto do que deveria, e h\u00e1 <em>sempre<\/em> o <em>desejo<\/em> de aproveitar com o que quer que estivesse \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para n\u00e3o lembrar da porra da noite. Acordar ao lado de um desconhecido n\u00e3o era o problema, o problema eram as conversas, em lugares privados, os avisos, os <em>olhares<\/em>. C\u00e9us, posso sentir o desconforto se espalhar por meu peito como <em>veneno<\/em>.<br>\u2003\u2003O arrepio que se espalha por meu corpo \u00e9 conduzido pela adrenalina. Tenciono minha mand\u00edbula, levando por instinto minha m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao meu pesco\u00e7o; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a performance que havia cansado minha garganta, era a maldita sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo prensada por duas paredes contr\u00e1rias at\u00e9 ser esmagada, \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o importa <em>aonde<\/em> esteja, <em>olhos<\/em>, arregalados e vidrados, estariam fixos em mim. Posso fechar os olhos, posso fingir que n\u00e3o estou ali, posso fingir que nada disso est\u00e1 acontecendo, mas estaria apenas mentindo para mim. Finco as unhas <em>stilettos<\/em> em meu pesco\u00e7o, arranhando-o como se <em>isso<\/em> pudesse me oferecer algum conforto, mas tudo o que deixa \u00e9 a maldita linha paralela de verg\u00f5es avermelhados sobre minha pele.<br>\u2003\u2003Empurro quase cegamente as portas que se formam em meu caminho. A <em>Boca do Inferno<\/em> \u00e9 gigante. H\u00e1 espa\u00e7os espec\u00edficos para tudo, mas n\u00e3o h\u00e1 <em>camarins<\/em>, ironicamente, as strippers que possu\u00edam contrato com a casa haviam improvisado uma coxia prec\u00e1ria pr\u00f3xima do banheiro feminino. Poderia ter seguido para l\u00e1 com Virgil e Danika, mas a verdade \u00e9 que conhe\u00e7o Virgil, ele est\u00e1 contando os minutos para sair dali e ir encontrar-se com um de seus amantes aquela noite \u2014 n\u00e3o para <em>transar<\/em> ou qualquer outra <em>baixaria<\/em> que aproveitamos, Virgil provavelmente queria apenas encontrar Johnny, ter um jantar calmo e tranquilo e o que quer que um rom\u00e2ntico como ele poderia fazer <em>sem<\/em> atrair a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia para si. T\u00ednhamos um acordo <em>muito<\/em> seguro de <em>nunca<\/em> mencionar a sexualidade de Virgil, <em>mesmo<\/em> que ele fosse corajoso e decidido o suficiente para enfrentar o que quer que lhe fosse jogado, o p\u00fablico que nos cerca, por <em>vezes<\/em>, n\u00e3o seriam <em>assim<\/em> t\u00e3o receptivos com a revela\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Alguns f\u00e3s mais sens\u00edveis <em>percebiam<\/em>, alguns idiotas <em>j\u00e1 faziam<\/em> piadas o suficiente para que ele temesse por sua vida. Se \u00e9 na obscuridade que lhe proporcionava seguran\u00e7a e o direito de viver como desejava? Poderia culp\u00e1-lo? Ao menos ele n\u00e3o mente para si mesmo. Questiono-me <em>at\u00e9 quando<\/em> ele conseguir\u00e1 fazer tal coisa, at\u00e9 quando conseguir\u00e1 viver naquela escurid\u00e3o sem poder se libertar das correntes que o prendiam e o sufocavam. Sei que <em>eu<\/em> n\u00e3o consigo por muito tempo, mas ent\u00e3o, novamente, n\u00e3o \u00e9 uma escolha <em>minha<\/em>. \u00c9 <em>dele<\/em>. Tudo o que eu posso fazer \u00e9 apoi\u00e1-lo com o que desejasse fazer, da forma que desejasse fazer e estar pronta para <em>roubar<\/em> os <em>holofotes<\/em> quando ele finalmente estivesse <em>pronto<\/em> para atac\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003Virgil, todavia, \u00e9 um completo filho da puta maldito, porque <em>sabe<\/em> que a <em>\u00faltima<\/em> pessoa que desejo conversar naquele momento \u00e9 Danika, e isso significa que <em>sem sombra<\/em> de d\u00favidas, ele me deixaria sozinha com ela. Tenho vontade de revirar os olhos, mas apenas fa\u00e7o uma careta de novo ao deparar-me com Jex, j\u00e1 esparramado em um div\u00e3, com uma <em>groupie<\/em> a tiracolo. <em>Quem<\/em> era aquela garota mesmo? Era Genny? Alisson? Alice? Porra, n\u00e3o, Alice \u00e9 a bonitinha de <em>bob cut<\/em> e cheiro de cigarro impregnado em sua pele. <em>Quem<\/em> \u00e9 aquela? Reviro os olhos, tentar descobrir com <em>quem<\/em> Jex se envolvia dessa vez era apenas perda de tempo, e n\u00e3o \u00e9 como se a garota quisesse <em>muito mais<\/em> do que a mem\u00f3ria sexual de ter dormido com um <em>rockstar<\/em>. Bem anos 70, mas pelo menos ela poderia validar-se com o pensamento de <em>\u201ccara, Jex Spade me comeu uma vez!\u201d<\/em> como se isso <em>fosse<\/em> significar alguma coisa. Talvez significasse, mas sinceramente, com os olhos vermelhos e o cheiro pungente de maconha vindo <em>dele<\/em>, eu duvido <em>muito<\/em> que <em>Jex<\/em> se lembre disso amanh\u00e3. <em>Quase<\/em> quero a <em>sensa\u00e7\u00e3o<\/em> que ele tem, mas a ideia de ficar <em>completamente<\/em> fora de mim \u00e9 mais assustadora do que o prospecto de me drogar. Usar algo para tentar diminuir minha ansiedade ou me auxiliar a desassociar por algumas horas? Tudo bem, eu poderia fazer isso, mas a ideia de estar <em>completamente <\/em>vulner\u00e1vel naquela porra de lugar? Em <em>qualquer<\/em> lugar? \u00c9 assustadora demais para <em>sequer<\/em> considerar o fazer.<br>\u2003\u2003N\u00e3o de novo. <em>Nunca mais<\/em>.<br>\u2003\u2003Tensiono minha mand\u00edbula atravessando o espa\u00e7o elegante reservado para n\u00f3s. A <em>Boca do Inferno<\/em> sempre oferece espa\u00e7os privados para seus clientes mais <em>\u201ct\u00edmidos\u201d<\/em> ou que apenas presam pela discri\u00e7\u00e3o. \u00c9 suficientemente espa\u00e7oso para lembrar um quarto de hotel cinco estrelas, mas com objetos sexuais o suficiente para que n\u00e3o fosse um. S\u00e3o sempre limpos, com pisos de m\u00e1rmore escuro, impec\u00e1vel e lustrados ao ponto de conseguir ver meu pr\u00f3prio reflexo contra o material.<br>\u2003\u2003O estalo de minhas botas ecoa em unens\u00edssimo com as risadinhas irritantes da groupie de Jex, e o que quer que ele diz a ela. Uma janela panor\u00e2mica d\u00e1 uma vis\u00e3o precisa do centro de Los Angeles \u00e0 dist\u00e2ncia, as luzes cintilando como pequenas estrelas vindas dos pr\u00e9dios e estabelecimentos do centro da cidade dos anjos.<br>\u2003\u2003Fa\u00e7o uma careta quando observo a marca de um corpo curvil\u00edneo contra o vidro. Lan\u00e7o um olhar, entre a profunda exaspera\u00e7\u00e3o e o crescente <em>horror<\/em> com a imagem mental que tenho, para Jex, e vejo-o apenas piscar em minha dire\u00e7\u00e3o, como se compartilh\u00e1ssemos um segredo \u2014 um <em>bem<\/em> nojento. Reviro meus olhos, parando na cabine com os licores de Joel, e al\u00e7o o primeiro, servindo-me um pouco. As luzes amareladas contra o espa\u00e7o contrastam com as estruturas de m\u00e1rmore e espelhos e metal. Um pouco mais \u00e0 frente do div\u00e3 em que Jex est\u00e1, h\u00e1 um sof\u00e1 largo e macio, que pode servir como cama, em frente a pole dance e um espelho que cobre a parede inteira. H\u00e1 um banheiro \u00e0 minha direita, mais aos fundos, e um pouco mais \u00e0 nordeste h\u00e1 uma cama <em>kingsize<\/em> confort\u00e1vel com cobertas limpas, intocadas. Alguns quartos possuem piscinas, outros possuem balan\u00e7os ou o que quer que seu <em>fetiche<\/em> necessite. H\u00e1 uma mesa com bebidas e comidas afrodis\u00edacas, e algumas gavetas com brinquedos sexuais.<br>\u2003\u2003Para um <em>hedonista<\/em>, o para\u00edso. V riu alto quando disse que minha meta era convencer algum l\u00edder religioso a participar daquela porcaria de lugar; acontece que j\u00e1 participava, s\u00f3 ficava do outro lado do pr\u00e9dio, onde h\u00e1 os <em>\u201cGlory holes\u201d<\/em>. Cada um com seus fetiches, para ser sincera, n\u00e3o \u00e9 da minha personalidade criticar algu\u00e9m assim. Levo o copo de cristal em dire\u00e7\u00e3o aos meus l\u00e1bios, quase desesperada pela sensa\u00e7\u00e3o de amortecimento que o \u00e1lcool oferece. Arrependo-me <em>imediatamente.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 parecendo que vai vomitar, Van Helsing. \u2014 Ou\u00e7o a voz arrastada e carregada com aquele sotaque irritante, brit\u00e2nico polido, enquanto a groupie deitada sobre ele, mordiscando seu mamilo, solta uma risadinha abafada. Lan\u00e7o um olhar c\u00e9tico na dire\u00e7\u00e3o de Jex. Fantasio acert\u00e1-lo com um tijolo, e estranhamente, a imagem mental me acalma mais do que deveria. N\u00e3o seria divertido o fazer? Certamente, <em>a coragem<\/em> eu tenho, ao inv\u00e9s disso, apenas for\u00e7o um sorriso sarc\u00e1stico para ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem esse efeito em mim. \u2014 Devo ter dito algo <em>hil\u00e1rio<\/em> porque Jex se desfaz em gargalhadas altas, gostosas. <em>Quase<\/em> me faz rir, <em>quase<\/em>. Paro \u00e0 frente da mesa de mogno com a variedade composta de bebidas que <em>Joel<\/em> gosta de manter em estoque para impressionar algum convidado, al\u00e7ando um copo de cristal. \u2014 Vai passar a noite aqui?<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez, a Lily aqui me pediu por uma demonstra\u00e7\u00e3o dos meus talentos, e voc\u00ea <em>sabe<\/em> que detesto recusar pedidos. \u2014 Jex lan\u00e7a-me uma piscadela travessa e eu o encaro, sem preocupar-me de fingir o falso interesse pelo t\u00f3pico com ele. Sei o que ele est\u00e1 fazendo, \u00e9 por <em>isso<\/em> que entre os <em>quatro<\/em>, e todos os outros que j\u00e1 haviam passado por aquela banda, \u00e9 justamente <em>Jex<\/em> com que me dou <em>melhor<\/em>. Talvez, sejamos apenas <em>muito<\/em> parecidos: ambos n\u00e3o temos um <em>pingo<\/em> de car\u00e1ter, nossa moralidade \u00e9, para dizer o m\u00ednimo, <em>question\u00e1vel<\/em> e temos a tend\u00eancia de apenas aceitar a situa\u00e7\u00e3o como \u00e9. N\u00e3o h\u00e1 subterf\u00fagios, nem expectativas, isso \u00e0s vezes se torna at\u00e9 divertido, mas n\u00e3o deixa de ser um golpe em meu ego. De todas as pessoas do <em>mundo<\/em> com quem me dou melhor, \u00e9 a porra de um lixo radioativo. Que fant\u00e1stico; <em>igual reconhece igual<\/em>. \u2014 Se quiser, pode participar tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Encaro-o, estupefata, j\u00e1 ele o faz com um sorriso animado.<br>\u2003\u2003\u2014 Prefiro morrer.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu duvido <em>muito<\/em> disso \u2014 Jex rebate, colocando-se sentado e ignorando o muxoxo que <em>Lily<\/em> havia soltado. Observo a groupie se deitar languidamente contra o div\u00e3, atr\u00e1s de Jex, e me encarar com um par de olhos com maquiagem borrada em um sorrisinho que est\u00e1 parecendo tentar <em>decidir<\/em> se eu sou alguma amea\u00e7a \u00e0 sua <em>\u201cconquista\u201d<\/em> ou se tornara-me <em>parte<\/em> de sua noite de deprava\u00e7\u00e3o e baixaria. Fico mais ofendida com o prospecto de Lily assumir que <em>Jex<\/em> era algum tipo de <em>conquista<\/em> do que qualquer outra coisa. <em>Quem<\/em> entrava no lixo e pegava papel higi\u00eanico usado como se fosse a porra de ouro? Mas ent\u00e3o, <em>eu<\/em> o conhe\u00e7o, Lily n\u00e3o. Fa\u00e7o uma careta, levando o copo em dire\u00e7\u00e3o aos meus l\u00e1bios e bebendo de uma vez o licor. Que merda, <em>tinha<\/em> que ser de <em>cereja<\/em>. Tenho vontade de cuspir aquela merda, mas obrigo-me a engolir. \u2014 Al\u00e9m disso, \u00e9 uma <em>boa<\/em> maneira de passar o tempo, sabe? Se est\u00e1 fugindo de Danny, no m\u00ednimo poderia estar se divertindo. Te dizer, se chamar o gal\u00e3zinho estrangeiro l\u00e1 tenho certeza que a gente consegue fazer um acordo interessante, hm?<br>\u2003\u2003Lan\u00e7o um olhar em forma de aviso para Jex, e isso apenas o faz sorrir mais como a porra de um gato. Ah, que merda, \u00e9 como olhar para a porra de um espelho\u2026 se eu tivesse um pau, fosse loiro, brit\u00e2nico, fedesse a maconha e pl\u00e1stico queimado, e minha pele tivesse a resist\u00eancia de um camar\u00e3o em pleno sol.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o estou fugindo de <em>ningu\u00e9m<\/em>, e <em>voc\u00ea\u2026<\/em> \u2014 Aponto o indicador na dire\u00e7\u00e3o de Jex, imperiosa. Se ele estivesse perto de mim, tenho <em>certeza<\/em> que teria mordido a porra do meu dedo, como est\u00e1 sentado no div\u00e3, ele apenas alarga seu sorriso, revelando o piercing em sua l\u00edngua, brincando com objeto met\u00e1lico, empurrando-o com os dentes para frente e para tr\u00e1s, fazendo a parte inferior do piercing, baixo de sua l\u00edngua, se movesse irritante. Considero o peso do copo em minhas m\u00e3os, e <em>quanto tempo<\/em> levaria para estra\u00e7alhar na cabe\u00e7a dele. \u2014 J\u00e1 tem distra\u00e7\u00e3o o suficiente para a noite. Foca primeiro no que voc\u00ea tem em m\u00e3os antes de <em>achar<\/em> que consegue engolir mais do que pode.<br>\u2003\u2003Jex n\u00e3o responde de imediato, mas seu olhar est\u00e1 preso ao meu rosto. <em>Detesto<\/em> que ele me encara por tanto tempo, detesto a possibilidade de que aquele maldito homem possa ter visto algo que eu <em>ainda<\/em> n\u00e3o percebi, ou n\u00e3o consegui ocultar a tempo o suficiente. Exalo por entre meus dentes cerrados, fechando os olhos e massageando minhas t\u00eamporas, praguejando baixo; meus sentidos est\u00e3o err\u00e1ticos, gra\u00e7as ao efeito let\u00e1rgico que a maldita bala de Danika havia causado. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo observada mesmo dentro daquela sala, e por algum motivo, mesmo que esteja apenas com a meia-cal\u00e7a e suti\u00e3, <em>ainda<\/em> parece que meu corpo est\u00e1 em chamas. Talvez esteja come\u00e7ando a ficar febril, talvez fosse come\u00e7ar a gripar em breve, levando que minha garganta parece mais sens\u00edvel, ou pode ser apenas <em>uma<\/em> das rea\u00e7\u00f5es que o lugar entupido de afrodis\u00edacos e algo que ainda <em>n\u00e3o fa\u00e7o ideia<\/em> do que seja fundido com a m\u00e1quina de fuma\u00e7a. Eu <em>odeio<\/em> aquele lugar, mas tampouco poderia <em>escapar<\/em> dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 bem, %Jean%\u2026? \u2014 Arremesso o copo na dire\u00e7\u00e3o dele antes que ele pronuncie a porra do nome. O grito assustado de Lily, desabando para tr\u00e1s quando o copo se conecta com a parede a alguns metros de dist\u00e2ncia de onde os dois est\u00e3o, desfazendo-se em pequenos fragmentos de vidro, acompanhado do barulho alto do impacto. Lily grita alguma coisa, est\u00e1 me xingando, talvez sobressaltada demais com a rea\u00e7\u00e3o agressiva de minha parte do que qualquer outra coisa. Jex permanece imperturb\u00e1vel, ainda me encarando. \u2014 Voc\u00ea t\u00e1 bem, <em>%Erin%?<\/em><br>\u2003\u2003Abro minha boca para respond\u00ea-lo, mas percebo naquele momento que n\u00e3o estou com a <em>menor<\/em> disposi\u00e7\u00e3o de <em>conversar<\/em>, e <em>muito menos<\/em> com Jex. De todos da banda, conversar com Jex era como entregar a porra da faca que seria fincada em suas costas \u2014 exceto por mim, eu costumava fazer <em>pior que ele<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Cai fora, Jex. \u2014 Solto um pigarro, tentando clarear minha voz, mas porra se n\u00e3o sai falhada, rouca demais. Ah, que merda, era s\u00f3 o que me faltava. \u2014 Por favor, Jex\u2026 \u2014 obrigo-me a pedir, e por um segundo, vejo-o franzir o cenho, parecendo surpreso. Sei que est\u00e1 surpreso com o <em>pedido<\/em> e n\u00e3o o <em>comando<\/em>; porra, mas que idiota de merda! Est\u00e1 surpreso porque pedi <em>por favor<\/em>, e n\u00e3o porque estou tentando chut\u00e1-lo para fora dali. Mas ent\u00e3o o segundo passa e os olhos dele voltam \u00e0quele desdenho caracter\u00edstico, quase divertido por me ouvir <em>pedir<\/em> por algo; <em>nunca<\/em> fazia isso. Tensiono minha mand\u00edbula, sustentando o olhar dele.<br>\u2003\u2003Jex n\u00e3o se move, apenas me encarando agora com um sorriso idiota no rosto. <em>Merda<\/em>. Sou poupada de respond\u00ea-lo ou ouvir sua resposta, porque uma Danika <em>furiosa<\/em> se projeta para frente ao abrir a porta abruptamente \u2014 como se em sua fantasia estivesse <em>prestes<\/em> a flagrar algo. J\u00e1 est\u00e1 vestida com suas roupas comuns, o couro abandonado por uma cal\u00e7a <em>baggy<\/em> jeans de lavagem clara e cintura baixa, revelando os ossos dos quadris acentuados e a barriga chapada, o <em>cropped<\/em> preto \u00e9 duas vezes maior que ela, e fica caindo por seu ombro direito. Os cabelos, agora, est\u00e3o soltos, as mechas pretas azuladas e rosa pink se misturando enquanto a maquiagem borrada revela <em>o qu\u00e3o<\/em> s\u00f3bria ela deve estar \u2014 n\u00e3o muito, mas ent\u00e3o, nenhum de <em>n\u00f3s<\/em> est\u00e1 realmente <em>s\u00f3brio<\/em>.<br>\u2003\u2003Leva alguns segundos para que ela registre a situa\u00e7\u00e3o em m\u00e3os. Lily semi nua atr\u00e1s de Jex com uma express\u00e3o irritada que apenas azeda ainda mais com sua presen\u00e7a. O sorriso largo de Jex esparramado no div\u00e3 como a porra de um deus pregui\u00e7oso, e eu, parada do outro lado da sala, com as m\u00e3os na cintura, considerando se devo me jogar da janela ou da porra da primeira sacada que encontrasse em meu caminho. Danny congela no lugar, engolindo em seco, e lan\u00e7ando um olhar confuso, <em>quase<\/em> decepcionado ao observar o que diabos est\u00e1 acontecendo ali, antes de fuzilar-me com o olhar. Tenho vontade de rir, porque aquilo \u00e9 <em>puro<\/em> absurdo, mas engulo o riso, e o gosto \u00e9 amargo o suficiente para fazer com que minhas entranhas se revirem.<br>\u2003\u2003\u2014 Oh, n\u00e3o, me pegou, Danny, em flagrante, e agora? \u2014 provoco antes que possa conter-me, fazendo um beicinho decepcionado, sarcasmo escorre por meus l\u00e1bios como veneno, e n\u00e3o sinto <em>nada<\/em> sen\u00e3o <em>raiva<\/em> quando ela encara-me ofendida, como se tivesse acabado de tocar em uma ferida.<br>\u2003\u2003Aperto meus l\u00e1bios, assentindo, mais para mim mesma do que qualquer outra pessoa, e ent\u00e3o me despe\u00e7o de Lily, a groupie com um aceno de cabe\u00e7a. <em>Aquela ali<\/em> iria ter algumas hist\u00f3rias <em>bem<\/em> interessantes para compartilhar na internet, <em>se<\/em> Jex quisesse <em>expor<\/em> seu car\u00e1ter real para a m\u00eddia, algo que eu duvidava muito, mas para todo acordo <em>sempre<\/em> havia uma <em>brecha<\/em>. Se Danny fazia quest\u00e3o de ficar ali, ent\u00e3o, <em>eu<\/em> me retiraria. Maldito seja Virgil e sua vida <em>perfeita<\/em> e <em>equilibrada<\/em>, malditos sejam Jex e Lily, a groupie da noite, maldito seja <em>Joel Massaro<\/em> e a porra de seus esquemas, mas acima de tudo, maldita seja <em>Danika<\/em> por n\u00e3o conseguir simplesmente aceitar a <em>realidade<\/em> como <em>\u00e9<\/em>. Preciso sair daqui antes que enlouque\u00e7a.<br>\u2003\u2003Tento for\u00e7ar meu caminho para fora do quarto privado, inspirando fundo, mas minha respira\u00e7\u00e3o est\u00e1 escapando mais r\u00e1pido do que consigo controlar. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de estar submersa, de ouvir a pulsa\u00e7\u00e3o do meu sangue martelar por meus ouvidos. N\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 o zunido em meu ouvido esquerdo, \u00e9 o composto de tudo. Segue o ritmo do meu cora\u00e7\u00e3o, que assola, como um p\u00e1ssaro selvagem recentemente capturado contra minha caixa tor\u00e1cica; faz-me considerar se irei vomitar, quando o fizer, vomitarei o \u00f3rg\u00e3o inteiro? Passo por Danny, puxando meu bra\u00e7o do aperto de sua m\u00e3o, e de <em>como<\/em> suas unhas fincam-se em minha pele; resulta em um arranhado bem mais fundo do que gostaria, antes de conseguir soltar meu bra\u00e7o.<br>\u2003\u2003De volta para o corredor iluminado apenas pelas luzes em neon vermelho, por um segundo sinto tudo girar ao meu redor. Aquela <em>maldita<\/em> fuma\u00e7a que se espalha pelo espa\u00e7o <em>apenas<\/em> para ser efeito <em>dram\u00e1tico<\/em> \u2014 se antes era uma suposi\u00e7\u00e3o, <em>agora<\/em> tenho quase certeza que h\u00e1 alguma droga nessa merda. Tento livrar-me da sensa\u00e7\u00e3o, focando em meus passos enquanto caminho mais para dentro do corredor, ouvindo Danika chiar atr\u00e1s de mim. Procuro por algum quarto dispon\u00edvel, aberto, qualquer um, mesmo que n\u00e3o seja no meu nome, <em>seria meu<\/em> essa noite. Qualquer lugar que estivesse <em>aberto<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o! Voc\u00ea n\u00e3o vai! \u2014 grita Danny atr\u00e1s de mim, apertando o passo e tentando segurar meus ombros. Consigo empurrar a primeira porta aberta que encontro, adentrando sem muita cerim\u00f4nia no espa\u00e7o, e giro o mais r\u00e1pido que consigo para fech\u00e1-la, mas Danny j\u00e1 havia projetado parte de seu corpo para dentro e bloqueia a porta. Tento for\u00e7ar, obrig\u00e1-la a sair daquele entremeio, mas Danny apenas chuta minha canela, e eu cambaleio para tr\u00e1s. Acabo caindo sentada contra o estofado macio pr\u00f3ximo da entrada do quarto privado. Fuzilo o rosto de Danny com frustra\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o digo nada. \u2014 N\u00e3o <em>se atreva <\/em>a <em>tentar <\/em>sair daqui \u2014 ela rosna, e eu tenho vontade de gritar com ela, apenas chegar perto de seu rosto e gritar at\u00e9 que minha voz desaparecesse, ao em vez disso, ergo minhas duas m\u00e3os para o alto, em um gesto de reden\u00e7\u00e3o. <em>No m\u00e1ximo<\/em> que essa palavra poderia ser aplicada a <em>mim<\/em>.<br>\u2003\u2003Danny fecha a porta atr\u00e1s de si com um clique suave, e por um segundo parece estar tentando decidir o que diabos quer fazer. Vejo-a hesitar e isso apenas me irrita. Todo esse show, essa persegui\u00e7\u00e3o para ela hesitar agora? Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inspirando fundo, e trincando meus dentes com for\u00e7a, sem desviar meus olhos de Danika, esperando pelo serm\u00e3o, pelas acusa\u00e7\u00f5es e dedos apontados para meu rosto, <em>para variar<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Que porra foi aquela, %Erin%? \u2014 A voz de Danny escapa mais baixa que o normal, estranha para os meus pr\u00f3prios ouvidos, quase\u2026 <em>tr\u00eamula<\/em>, mas <em>isso<\/em> \u00e9 imposs\u00edvel, porque Danika n\u00e3o \u00e9 o tipo de pessoa que se <em>magoa<\/em> facilmente.<br>\u2003\u2003Tensiono a minha mand\u00edbula um pouco mais, unindo minhas sobrancelhas e ent\u00e3o focando na porra das minhas unhas. O sotaque esquisito, aquela mistura entre sotaque do <em>Brooklyn<\/em> e agora aquele caracter\u00edstico alongar de <em>Valley Girl<\/em> normalmente <em>pede<\/em> para que se fa\u00e7a piada, mas agora soa estranho, quase afiado como faca. \u00d3timo, tudo o que eu <em>precisava.<\/em><br>\u2003\u2003Arranco uma pele no canto de minhas unhas, dando de ombros, indiferente.<br>\u2003\u2003\u2014 Uma apresenta\u00e7\u00e3o, o que mais seria? \u2014 Tento dizer o mais indiferente que consigo, mas soa como se eu tivesse cuspido as palavras. Arranco mais <em>uma<\/em> pele ao redor da minha unha, fazendo uma careta quando a dor aguda atinge-me, mas ignoro totalmente ao voltar minha aten\u00e7\u00e3o para Storm. <em>Merda<\/em>, quando pensava que cedo ou mais tarde teria que me resolver com ela, a minha decis\u00e3o <em>sempre<\/em> era <em>mais tarde<\/em>, nunca <em>mais cedo<\/em>. Especialmente, n\u00e3o agora. N\u00e3o <em>hoje<\/em>. Tensiono minha mand\u00edbula um pouco mais, a press\u00e3o \u00e9 o suficiente para fazer com que minhas t\u00eamporas fiquem doloridas, ainda assim, n\u00e3o digo nada, desvio meu olhar para o ch\u00e3o, observando os coturnos dela se aproximarem. O desenho idiota de tubar\u00e3o feito \u00e0 m\u00e3o nas pontas dos sapatos com <em>spikes<\/em> de caneta permanente, me faz revirar os olhos. Quero odiar aquilo, mas bem, \u00e9 puramente <em>ela<\/em>, no fim das contas, e por mais que tente, n\u00e3o consigo <em>odi\u00e1-la<\/em> <em>ainda<\/em>, n\u00e3o que ela n\u00e3o esteja <em>conseguindo<\/em> me dar motivos o <em>suficiente<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, certo, <em>todo mundo<\/em> sabe que foi s\u00f3 a <em>porra<\/em> de uma apresenta\u00e7\u00e3o \u2014 Danny cospe de volta e ergo a linha de meu olhar para a encarar com descren\u00e7a. S\u00e9rio? \u00c9 <em>s\u00e9rio<\/em> isso? Estreito meus olhos, silenciosamente tentando desafi\u00e1-la a dizer o que <em>realmente<\/em> queria, a expor as garras de uma vez, quando minha paci\u00eancia j\u00e1 havia sido extinguida. A adrenalina n\u00e3o baixa em minha corrente sangu\u00ednea, e isso apenas piora tudo. Estou cada vez no meu limite e n\u00e3o fa\u00e7o <em>ideia<\/em> do que vai acontecer: se <em>eu<\/em> irei quebrar, ou se irei <em>explodir<\/em>. Danny n\u00e3o desvia o olhar, as sobrancelhas grossas unidas, os cantos dos l\u00e1bios repuxados para baixo, fuzilando-me com o olhar. Ent\u00e3o, ela v\u00ea algo em meu rosto, e joga os bra\u00e7os para o alto, chutando a parede com a ponta de seu coturno antes de enterrar suas m\u00e3os em seu rosto. \u2014 Porra, voc\u00ea \u00e9 uma puta do caralho, %Erin%.<br>\u2003\u2003Atinge-me em cheio \u2014 <em>exatamente<\/em> como ela queria. Levanto-me antes que possa me controlar, sem conseguir conter uma risada amarga. Lan\u00e7o um olhar depreciativo e desdenhoso na dire\u00e7\u00e3o dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Uau \u2014 \u00e9 s\u00f3 o que consigo dizer. Danny trinca a mand\u00edbula, encarando-me com olhos verdes, brilhantes e furiosos, mas ela ao menos tem a dec\u00eancia de perceber o peso de suas palavras, especialmente <em>sendo<\/em> quem \u00e9. Se ela as compreende, todavia, n\u00e3o sou capaz de dizer. S\u00e3o olhos bonitos, \u00e9 claro, mas percebo, pela primeira vez desde que a conhe\u00e7o, que n\u00e3o estou <em>os admirando<\/em>, apenas parecem <em>distantes<\/em>, <em>desconhecidos<\/em>. \u2014 Terminou o discurso? J\u00e1 estou liberada do serm\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 Porra, qual \u00e9 a merda do seu problema %Jean%?! \u2014 Explode Danny. Algo perigoso corr\u00f3i meus pensamentos. Prendi minha respira\u00e7\u00e3o, instintivamente, voltando-me na dire\u00e7\u00e3o da outra mulher, dando um passo na dire\u00e7\u00e3o dela e agarrando seu rosto, minhas unhas fincam em seu rosto, mas ela n\u00e3o est\u00e1 assustada, est\u00e1 apenas com <em>mais raiva<\/em>. Ela me empurra para tr\u00e1s, e acerta meu rosto com um tapa alto o suficiente para ecoar pelo quarto vazio.<br>\u2003\u2003Dor explode por tr\u00e1s dos meus olhos, a lateral do meu rosto esquenta com o contato, e sinto o pequeno inc\u00f4modo no interior de minha bochecha; que porra, meus dentes devem ter batido contra a pele e cortado, porque posso sentir a ard\u00eancia familiar e o gosto salgado, ferroso do sangue escorrer por minha l\u00edngua. Cuspo no ch\u00e3o, fazendo uma careta, antes de me endireitar e voltar na dire\u00e7\u00e3o de Danny. N\u00e3o estou com raiva dela ter me empurrado, ela estava no direito dela, eu <em>n\u00e3o deveria<\/em> ter avan\u00e7ado ou cedido a tamanha rea\u00e7\u00e3o visceral, mas <em>estou<\/em> com raiva dela ter usado <em>meu nome<\/em>. A \u00fanica coisa que tenho que <em>repetir<\/em> para que n\u00e3o fa\u00e7am, e a \u00fanica coisa que <em>continua<\/em> a acontecer. Aponto o indicador na dire\u00e7\u00e3o dela, aproximando-me at\u00e9 que estivesse perto o suficiente para sentir o cheiro de seu suor e perfume misturados. N\u00e3o desvio meu olhar, encarando-a agora, realmente irritada.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me chame assim, entendeu?<br>\u2003\u2003Danny move a mand\u00edbula, engolindo em seco, e por um segundo tenho as esperan\u00e7as de que ela tenha compreendido meu aviso velado, mas \u00e9 claro, essas esperan\u00e7as morrem rapidamente quando ela bufa, desdenhosa.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Agora<\/em> eu tenho sua aten\u00e7\u00e3o, <em>%Jean%?<\/em> \u2014 Danny cospe em meu rosto, e fecho meus olhos, instintivamente. N\u00e3o mexe um m\u00fasculo para limpar a merda do cuspe dela do meu rosto, mesmo que seja <em>nojenta<\/em> a sensa\u00e7\u00e3o de t\u00ea-lo escorrendo por meu rosto. Obrigo-me a ficar parada. Conhe\u00e7o-a h\u00e1 tempo o suficiente para saber <em>quais<\/em> s\u00e3o suas t\u00e1ticas para tirar uma rea\u00e7\u00e3o de mim, e puta merda, eu a odeio por isso. Sei que vou me arrepender amanh\u00e3, mas agora? N\u00e3o poderia me importar menos. \u2014 Ah, que merda! Porra! \u2014 Dou um passo para tr\u00e1s quando o rosto dela se contorce em uma careta, e vejo as l\u00e1grimas se projetarem nos cantos de seus olhos. Ainda estou com meu sangue quente, mas a \u00faltima coisa que eu queria era que ela <em>chorasse<\/em>. <em>Sei<\/em> como lidar com algum desgra\u00e7ado gritando em meu rosto, eu <em>n\u00e3o sei<\/em> como consolar algu\u00e9m. Em nossa casa, sempre havia sido Niamh a respons\u00e1vel por consolar e oferecer palavras gentis; eu <em>sempre<\/em> fui, e <em>sempre<\/em> serei, s\u00f3 o <em>problema<\/em>. A <em>causa<\/em> do choro. \u2014 Por que voc\u00ea tem que ser assim? Por que tem que <em>me<\/em> tratar assim? Por que tem que fazer <em>isso<\/em> com a <em>gente<\/em>\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 A gente? \u2014 ecoei desacreditada.<br>\u2003\u2003\u00c9 por muito pouco que n\u00e3o come\u00e7o a rir. Lan\u00e7o um olhar ao meu redor, quase esperando a pegadinha em a\u00e7\u00e3o, mas estamos sozinhas ali, ou \u00e9 o que <em>acredito<\/em> quando minhas rea\u00e7\u00f5es e <em>sentidos<\/em> est\u00e3o amortecidos, distorcidos pela maldita bala dela que havia usado naquela noite. De todas as ideias que eu poderia ter tido, <em>aquela<\/em> havia sido a <em>mais idiota<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Porra, Danika, n\u00e3o pode estar falando s\u00e9rio, n\u00e9? \u2014 A encaro desacreditada, e fico ainda mais estupefata quando vejo o rosto dela se tornar mais magoado do que irritado. Vejo-a apertar os l\u00e1bios, os ombros se encolhendo um pouco, quase impercept\u00edvel, mas n\u00e3o escapa de meu olhar. \u2014 S\u00e9rio mesmo? Voc\u00ea <em>realmente<\/em> <em>quis<\/em> dizer isso? <em>A gente?<\/em> \u2014 Imito, por despeito, a voz dela, vendo-a se encolher quando digo <em>\u201ca gente\u201d<\/em>, trincando os dentes com for\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 %Jean%, eu n\u00e3o\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Para de me chamar assim! \u2014 As palavras escapam antes que eu possa me controlar. Danny pisca, prendendo a respira\u00e7\u00e3o, com for\u00e7a, os olhos fixos nos meus, sem <em>desviar<\/em> os olhos do meu rosto. \u2014 N\u00e3o <em>tem<\/em> a gente, Danika. Nem agora, nem <em>nunca<\/em>. Caralho, <em>quantas<\/em> vezes vou ter que dizer isso? \u2014 Merda, a culpa vai me matar amanh\u00e3 de manh\u00e3, mas agora? Agora eu n\u00e3o <em>poderia<\/em> me importar <em>menos<\/em>. Solto um riso baixo, descrente, mas soa afiado demais, cortante demais. \u2014 A gente <em>n\u00e3o tem<\/em> um relacionamento, Danika! Nem <em>amigas<\/em> a gente \u00e9! S\u00f3 trabalhamos juntas porque <em>algu\u00e9m<\/em> tinha que assumir a porra do lugar que ficou vago! A gente transou algumas vezes, e da\u00ed? N\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea tamb\u00e9m cobrasse Holly ou qualquer outra <em>idiota<\/em> com quem <em>voc\u00ea<\/em> j\u00e1 se envolveu, e <em>nem por<\/em> isso te chamo de <em>puta!<\/em><br>\u2003\u2003Danny estala os l\u00e1bios, parecendo no limite das l\u00e1grimas ou de uma explos\u00e3o, mas ela for\u00e7a um sorriso afiado, que parece <em>quase<\/em> com uma careta e n\u00e3o um sorriso.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, \u00e9 verdade, eu esqueci, \u2018c\u00ea t\u00e1 falando do Nolan, n\u00e3o \u00e9? \u2014 ela cospe as palavras dessa vez com uma raiva visceral, e n\u00e3o percebo que dou um passo para tr\u00e1s, instintiva, at\u00e9 que acerto o canto da mesa atr\u00e1s dos sof\u00e1s. Prendo minha respira\u00e7\u00e3o, tentando obrigar-me a manter minha express\u00e3o <em>neutra<\/em>. N\u00e3o importa que ela havia <em>conseguido<\/em> atingir-me exatamente onde do\u00eda, o que me importa \u00e9 n\u00e3o dar a ela a satisfa\u00e7\u00e3o. Seja l\u00e1 o que fa\u00e7o, devo ter falhado miseravelmente, porque a risada que se segue faz meu est\u00f4mago revirar, e tenho vontade apenas de tampar meus ouvidos. \u2014 O qu\u00ea? N\u00e3o era para eu ter descoberto isso? Voc\u00ea sabe, enquanto voc\u00ea t\u00e1 se divertindo por a\u00ed com o primeiro filho da puta que aparece como a <em>cadela f\u00e1cil<\/em> que \u00e9, eu tive <em>bons<\/em> momentos de conex\u00e3o com a Holly, sua assistente, sabe? \u2014 Danny abre um sorriso ir\u00f4nico e sinto algo se romper ao fundo da minha mente, n\u00e3o sou capaz de dizer, mas vejo vermelho. A raiva que se apossa de meu peito \u00e9 <em>visceral<\/em>, e por um segundo quero apenas jogar-me contra ela e arranhar seu rosto at\u00e9 que n\u00e3o passe de fatias ensanguentadas, mas o nome que ela conjura me congela. Joga-me em espiral antes que perceba <em>onde<\/em> estou caindo. N\u00e3o a respondo, porque <em>n\u00e3o consigo<\/em>, n\u00e3o porque n\u00e3o <em>quero<\/em>. \u2014 Ela me contou algumas coisas <em>bem<\/em> interessantes sobre voc\u00ea, <em>%Jean%<\/em>, realmente interessantes.<br>\u2003\u2003Que Holly faria alguma merda, isso eu j\u00e1 esperava, mas que <em>Danny<\/em> usaria isso contra mim, <em>a\u00ed<\/em> eram outros quinhentos. Ainda assim, obrigo-me a manter minha express\u00e3o g\u00e9lida, no m\u00e1ximo que consigo. Minha mand\u00edbula aperta, o suficiente para que uma dor de cabe\u00e7a nas minhas t\u00eamporas comece a se instalar.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 mesmo? \u2014 digo com um tom de voz baixo, surpreendentemente mais calmo do que eu <em>esperaria<\/em> que estivesse. Isso <em>quase<\/em> faz Danny hesitar, mas n\u00e3o \u00e9 o suficiente. \u2014 Se casem, ent\u00e3o. \u2014 For\u00e7o um sorriso falso de anima\u00e7\u00e3o, antes de deixar meu rosto retornar \u00e0quela m\u00e1scara de raiva controlada. Danny parece mais ofendida com meu coment\u00e1rio, congratulando-a pelo relacionamento do que pelo meu tom, e eu a encaro descrente. <em>Que merda<\/em> ela estava tentando provar ali?<br>\u2003\u2003\u2014 Me responde, %Jean%, voc\u00ea fez isso com o Nolan tamb\u00e9m, ou com <em>ele<\/em> foi diferente? \u2014 Danny d\u00e1 um passo em minha dire\u00e7\u00e3o, mas dessa vez, eu n\u00e3o me movi. Agarro seu pulso antes que ela possa <em>pensar<\/em> em me acertar de novo, minhas unhas pressionadas contra o interior de seu pulso. Ela at\u00e9 tenta puxar o bra\u00e7o de volta, mas n\u00e3o consegue, ou simplesmente desiste. \u2014 Voc\u00ea <em>tamb\u00e9m<\/em> usou ele e quando cansou o chutou? Esse \u00e9 seu <em>modus operandi<\/em>, n\u00e3o \u00e9? Puta merda, todo mundo <em>sempre<\/em> diz que voc\u00ea tem problemas, mas eu n\u00e3o sabia o <em>quanto <\/em>era! <em>Tem algo<\/em> que seja especial para voc\u00ea, %Jean%, ou tudo \u00e9 s\u00f3 uma <em>ferramenta<\/em> tempor\u00e1ria?!<br>\u2003\u2003\u2014 Oh, ent\u00e3o <em>isso<\/em> que voc\u00ea quer saber? Se <em>voc\u00ea<\/em> \u00e9 especial, Danny? \u2014 O riso que escapa de meus l\u00e1bios \u00e9 amargo, e Danny <em>percebe <\/em>isso. N\u00e3o fica muito feliz com minha rea\u00e7\u00e3o, percebo, ou talvez \u00e9 s\u00f3 a percep\u00e7\u00e3o da mentira que ela havia contado para si mesma sobre mim se partindo. N\u00e3o posso dizer que me sinto culpada <em>por isso<\/em>. \u2014 N\u00e3o \u00e9. Nunca foi. \u2014 Encaro-a com desd\u00e9m, talvez <em>mais<\/em> do que realmente sinto de fato. \u2014 Que porra fez <em>voc\u00ea<\/em> achar que <em>eu<\/em> poderia amar algu\u00e9m <em>como<\/em> voc\u00ea, Danny? \u2014 N\u00e3o consigo terminar a frase antes de levar outro tapa de Danika, merecido e dolorido. Cambaleio um pouco para tr\u00e1s, perdendo o equil\u00edbrio, percebendo tardiamente que ela <em>havia<\/em> conseguido acertar meu ouvido esquerdo no gesto, e por um segundo tudo o que consigo fazer \u00e9 encolher-me, segurando minha cabe\u00e7a com a desorienta\u00e7\u00e3o <em>inesperada<\/em>.<br>\u2003\u2003T\u00e1, eu <em>totalmente<\/em> mereci o tapa, mas a dor ainda n\u00e3o diminui o peso das acusa\u00e7\u00f5es, e tampouco minha <em>consci\u00eancia<\/em> \u2014 se \u00e9 que ainda a <em>tenho<\/em>. Inspiro fundo, com a sensa\u00e7\u00e3o estranha de que algo em meu nariz n\u00e3o estava certo, com a vaga impress\u00e3o de que posso sentir o cheiro pungente de ferrugem e <em>ferro<\/em> em minha narina esquerda, imaginando se estava sangrando, apenas para limp\u00e1-lo com as costas de minha m\u00e3o e descobrir que <em>n\u00e3o havia<\/em> nada ali. Deixo-me cair novamente no estofado macio que h\u00e1 na entrada do quarto, balan\u00e7ando minha cabe\u00e7a, tentando livrar-me do pulsar enlouquecedor em meu ouvido esquerdo. Posso ouvir um fungar baixinho de Danny, mas estou com raiva dela <em>demais<\/em> para me dar ao trabalho de pedir desculpas. N\u00e3o porque eu n\u00e3o devesse, mas porque minhas palavras, no fim das contas, <em>s\u00e3o<\/em> verdadeiras.<br>\u2003\u2003Chame-me do que for, mas eu <em>nunca<\/em> fui uma <em>mentirosa<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Se falar outra vez sobre\u2026 \u2014 Odeio que n\u00e3o consigo pronunciar o nome dele, odeio como as emo\u00e7\u00f5es me sufocam, e como toda aquela merda de situa\u00e7\u00e3o me coloca naquela posi\u00e7\u00e3o exposta a inquisi\u00e7\u00f5es. Inspiro fundo, passando as m\u00e3os por meus cabelos, co\u00e7ando com mais for\u00e7a meu couro cabelo do que deveria, antes de tensionar minha mand\u00edbula, ainda sem encar\u00e1-la. N\u00e3o consigo. \u2014 Se falar mais uma vez sobre esse assunto, eu <em>acabo<\/em> com voc\u00ea, entendeu, Danika? N\u00e3o estou dizendo isso apenas por dizer, eu vou <em>acabar<\/em> contigo, carreira, reputa\u00e7\u00e3o, <em>o que restar<\/em> \u2014 amea\u00e7o, ignorando como minha voz soa falha, ou como Danny se encolhe, ignorando o n\u00f3 que se forma em minha garganta, e como estou presa naquele precip\u00edcio entre o desejo de avan\u00e7ar no pesco\u00e7o de Danny, e apenas trancar-me no banheiro do quarto. Se rastejar para debaixo de uma das camas, ainda serei percebida?<br>\u2003\u2003Danny n\u00e3o responde a princ\u00edpio, fungando, n\u00e3o a encaro, foco em minhas unhas outra vez, arrancando as peles que se formam ao redor da tinta vermelha escura com mais for\u00e7a do que deveria. A sensa\u00e7\u00e3o de dor aguda que se espalha pelas pontas dos meus dedos \u00e9 um consolo <em>amargo<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Como voc\u00ea fez com o Nolan? \u2014 Danny provoca, e a fuzilo com o olhar.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Exatamente<\/em>. \u2014 Meu tom \u00e9 amargo, mas direto, e pela primeira vez em toda minha vida, ela finalmente <em>escuta<\/em>. Prendo minha respira\u00e7\u00e3o, vendo-a soltar aquele riso quebrado, realmente magoada. N\u00e3o vou conseguir consertar isso, tenho plena consci\u00eancia, mas <em>isso<\/em> \u00e9 o que fa\u00e7o. \u00c9 a <em>\u00fanica<\/em> coisa que sou <em>boa<\/em> em fazer; eu <em>quebro<\/em> as pessoas, as fa\u00e7o sentirem-se insignificantes, doentes. Vejo os olhos dela marejaram com l\u00e1grimas que ser\u00e1 orgulhosa demais para deixar cair em minha frente, mas n\u00e3o diminui o peso de minhas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Sinto meu queixo se contrair, e obrigo-me a inspirar fundo algumas vezes, tentando controlar as <em>minhas<\/em> emo\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003Sinto o gosto pungente e amargo do desprezo, mas n\u00e3o \u00e9 voltado para Danny.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, o rapper coreano, do grupo\u2026 \u2014 Danny parece se esfor\u00e7ar a falar e eu tenho vontade de apenas tapar meus ouvidos, tentar emudec\u00ea-la pelo resto da noite, ou pedir para algu\u00e9m me nocautear. N\u00e3o fa\u00e7o ou digo nada, deixo que ela tome seu tempo, e formule as frases da forma que se sentir mais confort\u00e1vel, escondendo a voz de choro. Ela funga, soltando um riso baixo e sem humor algum, e endireito os ombros, negando com a minha cabe\u00e7a, frustrada. Danika era incr\u00edvel, a melhor baterista que j\u00e1 tivemos, e uma puta mente criativa quando se <em>dava<\/em> ao trabalho de fazer alguma coisa, <em>\u00e9<\/em> uma artista, mas o maior problema dela? <em>Nunca<\/em> sabia <em>quando<\/em> parar. \u2014 Tudo aquilo mais cedo? \u00c9 s\u00f3 por que voc\u00ea quer usar ele?<br>\u2003\u2003Dou de ombros, desdenhosa.<br>\u2003\u2003\u2014 Por ora. \u2014 Apoio minhas duas m\u00e3os atr\u00e1s de mim, deixando-me inclinar para tr\u00e1s um pouco. Sinto algumas mechas rebeldes de meus cabelos deslizarem por meus ombros quando ergo meu queixo, desafiador, sustentando o olhar de Danny em sil\u00eancio. Puta merda, eu magoei ela feio.<br>\u2003\u2003Danny pisca, incr\u00e9dula, muito provavelmente com a facilidade com que digo tal coisa, com que <em>admito<\/em> meus pecados, ela desvia os olhos de meu rosto, encarando algum ponto invis\u00edvel atr\u00e1s de mim antes de mover a cabe\u00e7a em um sim lento; n\u00e3o o faz para mim, est\u00e1 fazendo para si mesma, obrigando-se a chegar a um acordo consigo mesma.<br>\u2003\u2003\u2014 O que\u2026 \u2014 A voz dela falha, e obrigo-me a manter-me inexpressiva, obrigo-me a n\u00e3o <em>perceber<\/em> a forma com que ela clareia a garganta com um pigarro, como inspira fundo, se esfor\u00e7ando para manter a voz firme, indiferente. \u2014 O que voc\u00ea ganha com isso, %Erin%? O que\u2026?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada que <em>ele<\/em> possa me oferecer \u2014 digo por fim, exasperada, se a verdade encerra essa conversa, ent\u00e3o que pelo menos ela esteja <em>ciente<\/em>. \u2014 \u00c9 o que faz com <em>Joel<\/em> que estou interessada. Eles s\u00e3o os novos queridinhos de Joel, a nova fonte de dinheiro se quiser chamar assim. Se acerto em %SeoJun%, acerto diretamente em Massaro. \u00c9 <em>isso<\/em> que me importa.<br>\u2003\u2003Danny parece estupefata demais com minhas palavras para sequer ficar assim t\u00e3o surpresa. Ou talvez seja a maneira com que cruza os bra\u00e7os sobre o peito, encolhendo-se um pouco como se estivesse tentando se proteger de minha presen\u00e7a. Ela vai me odiar ainda mais amanh\u00e3, mas agora que as emo\u00e7\u00f5es est\u00e3o \u00e0 flor da pele; puta merda, eu <em>sou<\/em> um monstro, huh? Mas ent\u00e3o, de novo, <em>quem<\/em> diabos havia colocado alguma expectativa em mim assim?<br>\u2003\u2003\u2014 E qual \u00e9 o plano? \u2014 Danny tenta questionar, mas lan\u00e7o um olhar irritado na dire\u00e7\u00e3o dela, mordendo minha l\u00edngua. J\u00e1 havia quebrado o suficiente essa noite, n\u00e3o preciso sambar em cima tamb\u00e9m. Inimigos, eu possu\u00eda in\u00fameros, mas n\u00e3o <em>homicidas<\/em> at\u00e9 o momento, embora uma parte de mim n\u00e3o descarte a possibilidade em um futuro pr\u00f3ximo.<br>\u2003\u2003\u2014 Pergunta para Holly \u2014 \u00e9 tudo o que respondo, talvez mais amarga e ressentida do que <em>gostaria<\/em> de expressar, mas ao menos d\u00e1 uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria para Danika a percep\u00e7\u00e3o de que ela <em>havia<\/em> me machucado, ainda que de forma pequena. Se \u00e9 isso que a ir\u00e1 fazer deixar-me em paz, ent\u00e3o, que acredite que conseguiu.<br>\u2003\u2003Observo-a em completo sil\u00eancio ao deixar o quarto, surpreendentemente sem bater \u00e0 porta dessa vez. Ela s\u00f3 encosta, o que acho esquisito, afinal, <em>desde quando<\/em> Danika n\u00e3o fechava a porta com viol\u00eancia na minha cara? Descarto o pensamento no segundo que sou deixada sozinha naquele quarto espa\u00e7oso e cheirando a algum tipo de perfume amadeirado. Inspiro fundo, apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e ent\u00e3o enterrando meu rosto em minhas m\u00e3os, fechando meus olhos. Tenho vontade de gritar, tenho vontade de chorar, mas como todas as vezes que o tentava fazer, <em>nada<\/em> sa\u00eda. A culpa \u00e9 sufocante, a auto avers\u00e3o me corr\u00f3i de dentro para fora, tenho vontade de usar minhas unhas para rasgar minha pele, de esfreg\u00e1-la at\u00e9 que estivesse em carne viva, sentindo-me nojenta, pegajosa, <em>estranha<\/em>. Deixo, por fim, minhas m\u00e3os ca\u00edrem de meu rosto, e escuto apenas o barulho distante da m\u00fasica eletr\u00f4nica por um longo momento, tensionando minha mand\u00edbula.<br>\u2003\u2003N\u00e3o <em>consigo<\/em> chorar, por mais que tente. N\u00e3o consigo livrar-me daquela maldita <em>apatia<\/em> enlouquecedora <em>mesmo<\/em> que o desejasse fazer, \u00e9 como se estivesse agarrada a minha pele tal qual um pl\u00e1stico. Enrosca-se por meus membros, prendendo-me no lugar, e ent\u00e3o h\u00e1 apenas aquele <em>vazio<\/em>. Um grande e insuport\u00e1vel <em>vazio<\/em> que cresce a cada dia mais, que faz com que tudo se torne cinzento e insuport\u00e1vel. E a pior parte? Sei que a culpa \u00e9 minha. Siobhan sempre dizia: <em>\u201cvoc\u00ea busca sua destrui\u00e7\u00e3o como um viciado busca a pr\u00f3xima dose\u201d<\/em>, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que ela est\u00e1 errada, mas sinceramente, o <em>que mais<\/em> eu tenho a oferecer sen\u00e3o isso? \u00c9 inevit\u00e1vel. Sempre que algu\u00e9m se aproxima, consigo encontrar uma forma de machuc\u00e1-los o suficiente para irem embora. Que merda, mas de novo, colocar alguma expectativa em mim \u00e9 estupidez pura, todo mundo <em>sabe<\/em> que n\u00e3o tenho nada a oferecer sen\u00e3o dores e irrita\u00e7\u00f5es, <em>para que<\/em> tentar?<br>\u2003\u2003O estofado ao meu lado afunda. Teria saltado para longe no segundo que o invasor se fez presente, mas minhas rea\u00e7\u00f5es nunca foram de luta, mas sim <em>congelar<\/em> diante de algum ataque inesperado. Ent\u00e3o, mesmo que queira gritar e pedir ajuda, congelo no lugar, meus olhos arregalados fixos na pessoa que havia se jogado pregui\u00e7osamente no sof\u00e1 ao meu lado. Meu cora\u00e7\u00e3o massacra minha caixa tor\u00e1cica, o suficiente para fazer meu peito doer, a pulsa\u00e7\u00e3o, ensurdecer meus ouvidos, e minha respira\u00e7\u00e3o escapa baixa e irregular, r\u00e1pida o suficiente para me deixar um pouco zonza. Minhas m\u00e3os tremem, fechadas em punhos, as unhas fincam-se em minhas palmas com mais for\u00e7a que o necess\u00e1rio, provavelmente as cortando, e levo alguns minutos para compreender <em>quem<\/em> havia se jogado ao meu lado. Meu est\u00f4mago se retorce quando o fa\u00e7o.<br>\u2003\u2003<em>Merda<\/em>\u2026<br>\u2003\u2003%SeoJun%, com os cabelos desalinhados, um sorriso petulante e afiado como navalha preso no rosto, os olhos intensos obscurecidos por uma raiva contida e algo mais, algo sombrio, dif\u00edcil de compreender \u00e0 primeira vista. Est\u00e1 completamente encharcado de alguma forma, a blusa social elegante agora gruda em seus m\u00fasculos como uma segunda pele \u2014 surpreendentemente ele est\u00e1 mais em forma do que a figura magricela que eu havia <em>imaginado<\/em> \u2014, as cal\u00e7as soltam pequenos estalidos com a movimenta\u00e7\u00e3o do tecido sobre suas coxas, os cabelos parecem mais escuros, pendem por seu rosto proporcional e atraente, desalinhados. Percebo, com um ponta de divertimento distante, que ele fica mais atraente <em>assim<\/em>, desalinhado, <em>relaxado<\/em>. Ou talvez seja apenas a falsa sensa\u00e7\u00e3o de acessibilidade que ele oferece que chama minha aten\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 fedendo a \u00e1lcool e questiono-me o <em>quanto<\/em> ele deveria ter bebido naquela noite.<br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o o suficiente para n\u00e3o ter ouvido minha conversa com Danny<\/em>, percebo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o. \u2014 %SeoJun% abre um sorriso largo, encarando-me com olhos imposs\u00edveis de desvendar, e um tom sarc\u00e1stico afiado como navalha. \u2014 Me conta mais sobre seu plano de me usar, eu vou adorar saber.<br>\u2003\u2003<em>Ah, nem foden<\/em><em>\u2026<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2394],"class_list":["post-9732","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-nda"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9732"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}