{"id":9682,"date":"2026-02-09T08:51:19","date_gmt":"2026-02-09T11:51:19","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-02-09T09:07:54","modified_gmt":"2026-02-09T12:07:54","slug":"capitulo-03","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-03\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 03"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<strong><em><span class=\"versalete\">Aos mortos que n\u00e3o<\/span> esquecem<\/em><\/strong><br>\u2003\u2003Aquela frase o perturbava h\u00e1 dias. Nick Fury n\u00e3o operava mais como antes. Desde a queda da S.H.I.E.L.D., seu nome fora varrido das planilhas oficiais. O mundo o considerava morto desde 2014, enterrado junto com os segredos da ag\u00eancia que ele mesmo comandava em sigilo. E, no entanto, ali estava ele, escondido nas margens do sistema, colhendo informa\u00e7\u00f5es como um velho corvo que sobrevive de restos em meio aos escombros.<br>\u2003\u2003Seu esconderijo atual era um abrigo subterr\u00e2neo na costa de Baltimore, camuflado sob um antigo farol desativado. N\u00e3o havia tecnologia de ponta nem pain\u00e9is reluzentes. Apenas caixas de arquivos, rastreadores anal\u00f3gicos e um terminal criptografado \u2014 suficiente para um homem como ele operar sem ser notado. Fury nunca precisou de muito. Bastava uma pista, um fio solto que ele puxava at\u00e9 o novelo inteiro cair no ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003Na tela diante dele, tr\u00eas nomes estavam destacados em vermelho, todos com hist\u00f3rico sujo. Todos ex-Hydra e todos mortos com uma brutalidade que ultrapassava o pragmatismo de um acerto de contas comum. N\u00e3o eram execu\u00e7\u00f5es simples, eram puni\u00e7\u00f5es. Castigos.<br>\u2003\u2003A pasta de investiga\u00e7\u00e3o \u2014 que ele n\u00e3o compartilhara nem com a Hill \u2014 j\u00e1 somava mais de duzentas p\u00e1ginas. Mapas com rotas de fuga, identidades falsas desmascaradas, h\u00e1bitos di\u00e1rios das v\u00edtimas, e o mais importante: datas. Cada assassinato fora calculado com semanas de dist\u00e2ncia. Havia m\u00e9todo, isso era ineg\u00e1vel. Mas tamb\u00e9m havia algo impulsivo. Os corpos n\u00e3o pareciam ter sido deixados com inten\u00e7\u00e3o de esconder, pelo contr\u00e1rio \u2014 cada cena parecia feita para ser encontrada, para ser estudada e lida como uma carta.<br>\u2003\u2003Fury se recostou na cadeira, os olhos desconfiados fixos numa imagem ampliada na tela. A v\u00edtima da \u00c1ustria, com parte do rosto arrancado, com perfura\u00e7\u00f5es por todo o corpo. A per\u00edcia local achou que era coisa de m\u00e1fia. Eles n\u00e3o sabiam de nada.<br>\u2003\u2003Aquela n\u00e3o era uma mensagem para os mortos, era um aviso para os vivos. E Fury sabia o suficiente sobre vingan\u00e7a para reconhecer quando ela ultrapassava os limites da l\u00f3gica. Ele j\u00e1 havia conversado com Tony, semanas antes, quando os corpos come\u00e7aram a aparecer. Stark, como sempre, estava ocupado demais com holofotes, suas cria\u00e7\u00f5es e a mais nova edi\u00e7\u00e3o da Expo Stark, mas Fury conhecia aquele olhar \u2014 mesmo sob a armadura, o g\u00eanio bilion\u00e1rio carregava culpa demais para ignorar completamente o que estava acontecendo. E a verdade era: eles n\u00e3o sabiam o tamanho daquilo ainda.<br>\u2003\u2003Desde ent\u00e3o, Fury permaneceu nas sombras, cavando. N\u00e3o era a primeira vez que via um padr\u00e3o assim emergir, mas sempre havia um nome, um rosto, um motivo evidente. Aqui, o rastro era mais profundo. Detalhes sutis que indicavam o n\u00edvel daquela atrocidade toda. Um indicativo claro que o autor daqueles crimes ainda n\u00e3o estava pronto para se revelar.<br>\u2003\u2003Atravessou o bunker at\u00e9 um arquivo met\u00e1lico e puxou uma gaveta com documentos classificados da antiga S.H.I.E.L.D. A maioria fora resgatada nos dias finais da ag\u00eancia, pouco antes do colapso completo. Fury os manteve longe de qualquer rede digital. S\u00f3 papel, tinta e sua pr\u00f3pria assinatura.<br>\u2003\u2003Puxou uma pasta marcada com o selo da Hydra. Nome do arquivo: <strong>FUGITIVOS CLASSIFICADOS \u2013 CASOS DORMENTES<\/strong>.<br>\u2003\u2003Folheou at\u00e9 encontrar uma p\u00e1gina em espec\u00edfico. Anotou mentalmente o nome riscado ali. Mais um morto recentemente e mais um nome que era imposs\u00edvel de localizar. Ele conhecia aquela rede de prote\u00e7\u00e3o \u2014 era imposs\u00edvel algu\u00e9m encontrar esses ex-agentes sem acesso direto aos arquivos internos da Hydra ou da S.H.I.E.L.D.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso aqui n\u00e3o \u00e9 trabalho de amador \u2014 murmurou, encostando os dedos no queixo. \u2014 E n\u00e3o \u00e9 por dinheiro.<br>\u2003\u2003O r\u00e1dio chiou baixinho atr\u00e1s dele. Era um dos contatos na Su\u00ed\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Outro corpo. Zurique, ontem \u00e0 noite. Ex-agente da Hydra, retirado da ativa desde 1994 e declarado morto h\u00e1 7 anos. Foi encontrado com os olhos aberto, alguns dentes faltando, costelas quebradas, abd\u00f4men brutalmente rasgado e v\u00e1rios dedos quebrados. Nenhum sinal de arrombamento.<br>\u2003\u2003Fury n\u00e3o respondeu de imediato. A caneta em sua m\u00e3o batia contra o tampo da mesa. Uma batida. Duas. Tr\u00eas. Parou e ent\u00e3o falou, firme:<br>\u2003\u2003\u2014 V\u00ea se algum nome nos registros de prote\u00e7\u00e3o cruzada bate com ele. Quero saber quem sabia que esse desgra\u00e7ado ainda estava vivo e rastreie qualquer pessoa que entrou no pa\u00eds nos \u00faltimos sete dias com passaporte limpo demais.<br>\u2003\u2003\u2014 Entendido, senhor.<br>\u2003\u2003O r\u00e1dio ficou mudo outra vez.<br>\u2003\u2003Fury cruzou os bra\u00e7os, encostando-se no canto do c\u00f4modo. Na parede, um quadro improvisado com os rostos das v\u00edtimas come\u00e7ava a formar um padr\u00e3o conectados por linhas vermelhas. Cada foto representava uma execu\u00e7\u00e3o. E no centro&#8230; um espa\u00e7o vazio, aguardando pelo preenchimento.<br>\u2003\u2003Ele sabia que estava lidando com algo grande, mas tamb\u00e9m sabia que n\u00e3o podia agir cedo demais, n\u00e3o t\u00e3o precipitado. Era um jogo de espera e Nick Fury era muito bom em esperar.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O metal gemeu sob o impacto do cotovelo. Mais uma vez. Outra. O saco de pancadas balan\u00e7ava pendurado por correntes presas ao teto de concreto, e a mulher diante dele n\u00e3o demonstrava cansa\u00e7o. O corpo suado, o cabelo grudado \u00e0 nuca, os n\u00f3s dos dedos marcados de vermelho escuro \u2014 ela seguia em sil\u00eancio, soco ap\u00f3s soco, chute ap\u00f3s chute, com um foco que n\u00e3o aceitava hesita\u00e7\u00e3o ou falhas. Cada movimento era seco, violento. N\u00e3o havia m\u00fasica e n\u00e3o havia distra\u00e7\u00e3o. Apenas o som abafado de golpes pesados contra o couro grosso.<br>\u2003\u2003Ela girou o corpo, aplicou uma joelhada que estalou o saco contra as correntes, depois caiu em posi\u00e7\u00e3o baixa, com a perna estendida. Uma varredura completa, um inimigo imagin\u00e1rio. Uma lembran\u00e7a muito real.<br>\u2003\u2003A l\u00e2mpada pendurada no teto tremeluzia. O esconderijo era apertado, com paredes descascadas e cheiro de mofo antigo. O ch\u00e3o era sujo de poeira e marcas de sangue seco \u2014 n\u00e3o dela, mas dos testes anteriores. Havia armas empilhadas num canto: facas, pistolas desmontadas, cordas de a\u00e7o, frascos. Cada objeto ali tinha uma hist\u00f3ria e todas terminavam em morte.<br>\u2003\u2003Ela voltou \u00e0 posi\u00e7\u00e3o ereta, respirando pela boca, os olhos fixos no vazio. Um pensamento atravessou o presente. E, como uma l\u00e2mina, o passado abriu caminho.<br>\u2003\u2003<em>\u201c\u2014 Malyshka, a postura est\u00e1 frouxa. Mantenha o calcanhar baixo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Sim, instrutora.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 De novo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>A menina tinha apenas nove anos. Os p\u00e9s descal\u00e7os tremiam sobre o cimento gelado. Os ossos do\u00edam, e o sangue seco na camiseta deixava a pele grudenta, mas n\u00e3o era permitido descansar. Cada erro era corrigido com dor e cada falha era uma senten\u00e7a.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Voc\u00ea quer viver? \u2014 Anya perguntava, a voz fina como uma navalha.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Quero.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Ent\u00e3o aja como se quisesse. De novo.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Ela sacudiu a cabe\u00e7a com um leve movimento, afastando a lembran\u00e7a como quem escorra\u00e7a um pensamento indesejado. Caminhou at\u00e9 a parede, onde havia desenhado linhas com carv\u00e3o e tinta vermelha. Um percurso de treino \u2014 obst\u00e1culos improvisados, marca\u00e7\u00f5es no ch\u00e3o. Era ali que ela praticava as fugas, os giros, as escaladas. Cada trajeto era decorado e podia ser feito at\u00e9 mesmo se estivesse de olhos fechados, uma d\u00e1diva for\u00e7ada depois de t\u00ea-lo feito por tantos anos.<br>\u2003\u2003Come\u00e7ou a correr em linha reta, os p\u00e9s ritmados contra o ch\u00e3o, o corpo abaixando, rolando, erguendo-se com a facilidade de quem j\u00e1 havia feito esse tipo de coisa antes. Subiu pelas prateleiras, saltou entre colunas de concreto como uma criatura moldada para sobreviver. E, no meio do trajeto, outra lembran\u00e7a cravou-se:<br>\u2003\u2003<em>\u201c\u2014 Mais r\u00e1pido, Malyshka. Voc\u00ea morreu tr\u00eas vezes antes de terminar o percurso.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Sim, instrutora.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 De novo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Uma queda que resultou em um corte na testa. Sangue escorrendo nos olhos.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 aqui para brincar de amadora.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Entendido.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 De novo.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Ela caiu no ch\u00e3o do presente com os joelhos juntos e as m\u00e3os abertas, como se tivesse preparado um golpe que n\u00e3o aconteceu. O peito arfava, mas n\u00e3o pelo esfor\u00e7o. Era raiva. Uma raiva enraizada, morna, constante.<br>\u2003\u2003Levantou-se devagar, caminhando at\u00e9 o espelho rachado na parede. Encostou os dedos nos pr\u00f3prios ombros, depois deslizou as m\u00e3os at\u00e9 o pesco\u00e7o. O olhar n\u00e3o era vaidoso \u2014 era c\u00e9tico e t\u00e1tico. Observava cada veia saltada, cada m\u00fasculo tensionado, cada cent\u00edmetro do pr\u00f3prio reflexo como se esperasse encontrar fraquezas. E ent\u00e3o sussurrou, sem emo\u00e7\u00e3o:<br>\u2003\u2003\u2014 De novo.<br>\u2003\u2003Fechou os punhos e come\u00e7ou tudo outra vez. Golpes. Sequ\u00eancias. Derrubadas. O corpo agia, mas a mente voltava para aquele mesmo lugar, grudado nela de uma forma permanente.<br>\u2003\u2003<em>\u201cHavia outras garotas na Sala Vermelha. Meninas com olhos vidrados, pequenas demais para segurar uma arma, mas perigosas e letais como serpentes. Algumas choravam \u00e0 noite, quando os instrutores sumiam. Outras apenas olhavam para o teto, em sil\u00eancio, como se j\u00e1 estivessem mortas. Ela aprendeu cedo que emo\u00e7\u00e3o era fraqueza. Chorou apenas uma vez, e pagou o pre\u00e7o.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 filha de ningu\u00e9m.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Eu sei.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um produto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Sim, instrutora.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Os nomes foram retirados, as lembran\u00e7as tamb\u00e9m. O que restava era o que se podia usar. Matar. Envenenar. Desaparecer.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003No presente, ela se agachou no canto do abrigo e puxou uma caixa met\u00e1lica. L\u00e1 dentro, pastas com anota\u00e7\u00f5es, esbo\u00e7os de plantas de edif\u00edcios, registros de vigil\u00e2ncia e\u2026 uma nova foto. Um novo rosto.<br>\u2003\u2003Mas ela n\u00e3o olhou de imediato.<br>\u2003\u2003Sentou-se no ch\u00e3o de concreto, limpando o suor com a manga da blusa escura e respirou fundo. Estava em paz \u2014 uma paz disfuncional, cruel, mas sua. Aquela quietude depois de matar algu\u00e9m, ou antes de matar algu\u00e9m. Havia pouca diferen\u00e7a.<br>\u2003\u2003Pegou a foto e observou-a. O pr\u00f3ximo da lista estava ali, mas ela ainda n\u00e3o decidiu se merecia uma faca, uma bala, ou veneno. Levantou-se, caminhando de volta ao centro do abrigo.<br>\u2003\u2003\u2014 De novo.<br>\u2003\u2003E come\u00e7ou a treinar outra vez.<br>\u2003\u2003O som seco dos impactos preenchia o galp\u00e3o abandonado. A cada soco no saco de areia, os n\u00f3s dos dedos dela se tingiam de vermelho. Luvas? N\u00e3o. Ela queria sentir a carne rachar, queria a dor como uma velha amiga. Cada golpe era como um grito sufocado \u2014 e nenhum deles escapava dos l\u00e1bios. O ar estava pesado, \u00famido, cheirando a ferrugem, suor e um leve tra\u00e7o de sangue. A luz tremeluzente da l\u00e2mpada pendurada acima dela balan\u00e7ava ao ritmo dos golpes, lan\u00e7ando sombras tortas nas paredes grafitadas do esconderijo.<br>\u2003\u2003Ela parou. O peito arfava, a cabe\u00e7a latejava. E ent\u00e3o, como um gatilho autom\u00e1tico, a lembran\u00e7a se imp\u00f4s.<br>\u2003\u2003<em>\u201c\u2014 Malyshka \u2014 a voz sibilante atravessou o sil\u00eancio como um chicote. A garota \u2014 ainda jovem, magra demais, os olhos grandes como far\u00f3is no escuro \u2014 manteve a postura reta. \u2014 Voc\u00ea hesitou de novo. Na vida real, isso te mata.<\/em><br>\u2003\u2003<em>A instrutora avan\u00e7ou, os saltos firmes contra o piso met\u00e1lico da sala de treinamento. Anya. A mulher que cheirava a perfume caro e p\u00f3lvora, seus dedos frios tocaram o queixo da garota, for\u00e7ando-a a erguer o rosto.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Olhe pra mim, Malyshka. Voc\u00ea acha que vai ter tempo de pensar antes de matar algu\u00e9m?<\/em><br>\u2003\u2003<em>A garota permaneceu em sil\u00eancio.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 O inimigo n\u00e3o espera. O mundo n\u00e3o espera. Ent\u00e3o por que diabos voc\u00ea ainda espera?<\/em><br>\u2003\u2003<em>E com um gesto brusco, a instrutora girou o rosto dela com um tapa r\u00e1pido. Sem for\u00e7a o suficiente para ferir de verdade. Mas era o suficiente para marcar. Para humilhar.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 De novo \u2014 disse Anya, recuando. \u2014 At\u00e9 que n\u00e3o pense mais. S\u00f3 aja.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003De volta ao presente, a mulher deixou o saco de areia balan\u00e7ar como um cad\u00e1ver suspenso. Os dedos latejavam. Ela os flexionou com lentid\u00e3o, o sangue escorrendo entre as juntas abertas. Sujou o ch\u00e3o, mas ela ignorou.<br>\u2003\u2003Respirou fundo, indo at\u00e9 a mesa improvisada no canto do galp\u00e3o. Mapas, foto, c\u00f3digos riscados \u00e0 caneta vermelha. O mural j\u00e1 n\u00e3o existia mais \u2014 destru\u00eddo antes que pudesse se tornar prova \u2014, mas o plano ainda vivia ali, em fragmentos, em instinto e em um \u00f3dio perigosamente mortal.<br>\u2003\u2003Acima de tudo, ela precisava estar pronta, porque Natasha Romanoff ainda respirava e isso a incomodava mais do que qualquer um dos dez cad\u00e1veres que deixou para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Ela pegou a faca de treinamento. O peso era familiar, quase reconfortante. No canto da sala, um boneco de teste improvisado esperava por ela. A mulher se moveu, os p\u00e9s descal\u00e7os silenciosos no ch\u00e3o frio. Um passo. Dois. Giro. A l\u00e2mina cortou o ar, enterrando-se na \u201cgarganta\u201d do boneco com for\u00e7a suficiente para derrubar a estrutura.<br>\u2003\u2003Ela ficou ali, encarando a figura ca\u00edda. E mais uma vez, a lembran\u00e7a veio.<br>\u2003\u2003<em>\u201c\u2014 Malyshka, qual \u00e9 o seu prop\u00f3sito?<\/em><br>\u2003\u2003<em>A resposta saiu sem hesita\u00e7\u00e3o, como o esperado.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Obedecer. Eliminar. Sobreviver.<\/em><br>\u2003\u2003<em>A instrutora sorriu. Era algo entre o frio e o mec\u00e2nico.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 E quem voc\u00ea \u00e9?<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Sou um instrumento. Ningu\u00e9m al\u00e9m disso.<\/em><br>\u2003\u2003<em>\u2014 Boa garota.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Mas agora, sozinha naquele galp\u00e3o, cercada por mem\u00f3rias que fediam a p\u00f3lvora e submiss\u00e3o, ela apertou os dedos ao redor do cabo da faca. O suficiente para que os n\u00f3s ficassem brancos. Aquela resposta j\u00e1 n\u00e3o servia, n\u00e3o depois de tudo.<br>\u2003\u2003Ela havia sido nada al\u00e9m de um instrumento. Agora, era a m\u00e3o que a empunhava a faca e, pela primeira vez, estava prestes a escolher o pr\u00f3ximo alvo n\u00e3o por ordens \u2014 mas por vontade pr\u00f3pria. Ela puxou o mapa, olhou as rotas, os hor\u00e1rios. O plano de seguran\u00e7a, os compromissos da Expo.<br>\u2003\u2003O pr\u00f3ximo movimento precisava ser calculado. Mas o fim\u2026 o fim sempre seria pessoal. E ela ainda n\u00e3o tinha terminado com Tony Stark.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O c\u00e9u estava opaco, de um cinza que parecia permanente, como se o mundo inteiro estivesse preso num filtro melanc\u00f3lico. Todas as vezes era assim, como se fosse um sinal divino. Tony n\u00e3o se importava. Havia algo de reconfortante na falta de cor \u2014 fazia o girassol em sua m\u00e3o parecer ainda mais deslocado. Ele o observou por um momento, os dedos girando o caule com lentid\u00e3o, como se o pr\u00f3prio ato de segur\u00e1-lo fosse uma afronta \u00e0 l\u00f3gica.<br>\u2003\u2003Ele caminhava devagar entre as fileiras alinhadas do cemit\u00e9rio particular, os passos afundando levemente na grama \u00famida. O vento balan\u00e7ava as folhas com indiferen\u00e7a, e cada ru\u00eddo parecia mais alto do que deveria. Quando chegou ao t\u00famulo, parou. N\u00e3o havia ningu\u00e9m por perto \u2014 n\u00e3o havia h\u00e1 anos. Era um dos poucos lugares onde ele conseguia respirar\u2026 mesmo que doesse.<br>\u2003\u2003A l\u00e1pide era simples, feita de m\u00e1rmore claro, sem adornos. Apenas um nome gravado com firmeza: <strong>%Mavis% Rose Stark.<\/strong> Abaixo, uma data de nascimento e uma data de morte. Duas datas separadas por menos de dois meses. Tony permaneceu ali, parado, encarando o nome que quase ningu\u00e9m jamais conheceu. Nem a imprensa, nem os Vingadores e nem o mundo.<br>\u2003\u2003Ele havia feito quest\u00e3o disso.<br>\u2003\u2003Tony se agachou com certa dificuldade. O joelho do\u00eda de um antigo impacto que ele nunca tratou direito. Deixou o girassol repousar na base da l\u00e1pide, o caule cruzado sobre a terra limpa.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei, n\u00e3o \u00e9 exatamente a flor mais comum pra um t\u00famulo \u2014 murmurou, ajustando o casaco contra o vento. \u2014 Mas dizem que girass\u00f3is seguem a luz, mesmo quando ela se apaga.<br>\u2003\u2003Ficou em sil\u00eancio por alguns segundos. Os olhos fixos no nome gravado, o nome que ele mal teve tempo de pronunciar em voz alta.<br>\u2003\u2003\u2014 A Expo t\u00e1 quase pronta \u2014 disse enfim. \u2014 Mais moderna, mais limpa, mais&#8230; Stark. Mas, se voc\u00ea visse, provavelmente acharia brega, se fosse adulta hoje. Ou chamaria de \u201cdesespero capitalista travestido de filantropia\u201d, igual sua m\u00e3e fazia. A Elena nunca tinha papas na l\u00edngua. E, honestamente? Foi uma das coisas que eu mais admirei nela.<br>\u2003\u2003O nome da mulher pesou no ar. Elena. Tony quase n\u00e3o falava sobre ela \u2014 nem com Pepper, nem com ningu\u00e9m. Mas ali, com %Mavis%, ele se permitia.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela era afiada e inteligente pra caramba. E te amava de um jeito que eu nunca entendi at\u00e9 tarde demais. \u00c0s vezes eu penso se eu teria conseguido te proteger melhor. E se tivesse ficado viva, talvez&#8230; talvez tudo fosse diferente.<br>\u2003\u2003O vento soprou com mais for\u00e7a. Um p\u00e1ssaro atravessou o c\u00e9u sem pressa.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea teria odiado Ultron, s\u00f3 pra constar. Toda aquela coisa de intelig\u00eancia artificial e controle global? Se voc\u00ea estivesse aqui, talvez teria sido um prato cheio pro seu sarcasmo. \u2014 Ele soltou um suspiro, e depois um sorriso curto. Triste. \u2014 Mas sei que teria resolvido metade das falhas do sistema em uma madrugada, se me desse uma chance.<br>\u2003\u2003Tony passou a m\u00e3o pelo rosto, cansado. Os olhos n\u00e3o estavam vermelhos \u2014 n\u00e3o havia l\u00e1grimas. Estavam secos demais pra isso. Havia anos demais pra isso.<br>\u2003\u2003\u2014 Os Vingadores est\u00e3o\u2026 diferentes. \u2014 A voz saiu baixa, arrastada. \u2014 A equipe t\u00e1 meio quebrada. Steve e eu\u2026 bom, teve uma \u00e9poca que a gente foi exatamente melhores amigos, mas agora parece que estamos jogando em lados opostos e ainda nem teve uma partida.<br>\u2003\u2003Ele ficou em sil\u00eancio, apenas encarando o t\u00famulo.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c0s vezes eu tento lembrar do seu rosto, mas era t\u00e3o pequeno. T\u00e3o&#8230; indefeso. Dois meses, foi tudo o que tive. Dois meses. \u2014 Fez uma pausa. \u2014 E o resto foi s\u00f3 aus\u00eancia. O ber\u00e7o vazio, o seu quarto vazio e as perguntas que eu n\u00e3o podia responder nem pra mim mesmo.<br>\u2003\u2003Ele inspirou fundo.<br>\u2003\u2003\u2014 A culpa \u00e9 minha. Se eu tivesse descoberto antes, se tivesse prestado aten\u00e7\u00e3o\u2026 mas n\u00e3o. Eu tava ocupado demais sendo o bilion\u00e1rio, o g\u00eanio, o cara que tinha acabado de perder os pais e tinha uma empresa pra assumir. Enquanto isso, voc\u00ea foi&#8230; o que, hein? Escondida. Queimada das fotos. Ocultada at\u00e9 do luto.<br>\u2003\u2003O som do vento voltou a preencher o sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu ainda sonho com voc\u00ea, \u00e0s vezes. N\u00e3o com voc\u00ea crescida, mas com o beb\u00ea. O que eu nunca segurei nos bra\u00e7os por tempo suficiente. \u2014 Ele passou a m\u00e3o pelos cabelos. \u2014 E a\u00ed eu acordo com a sensa\u00e7\u00e3o de que alguma coisa t\u00e1 errada, como se voc\u00ea nunca tivesse ido embora de verdade. Ser\u00e1 que eu t\u00f4 ficando louco?<br>\u2003\u2003Ficou de p\u00e9, respirando devagar. O girassol tremia levemente com a brisa.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o vim buscar perd\u00e3o e nem dar desculpas. S\u00f3 queria que voc\u00ea soubesse que&#8230; \u2014 engoliu seco. \u2014 Que eu tento&#8230; todos os dias. Tento fazer valer alguma coisa.<br>\u2003\u2003Olhou uma \u00faltima vez para a l\u00e1pide.<br>\u2003\u2003\u2014 Onde quer que esteja&#8230; se estiver&#8230; espero que saiba disso.<br>\u2003\u2003Deu meia-volta e come\u00e7ou a andar. O girassol permaneceu ali, vivo e amarelo, contrastando contra o m\u00e1rmore frio. E quando Tony j\u00e1 estava longe demais para ouvir, uma leve batida soou entre as \u00e1rvores. Um som quase humano.<br>\u2003\u2003Mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m l\u00e1.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Dias se passaram.<br>\u2003\u2003O frio crescente do outono se mesclava ao ru\u00eddo met\u00e1lico das estruturas sendo erguidas ao redor do novo pavilh\u00e3o da Stark Expo. Caminh\u00f5es passavam, guindastes giravam em seus eixos, e hologramas tempor\u00e1rios tremeluziam no c\u00e9u ainda nublado do estado de Nova York. No centro do caos produtivo, Tony caminhava com um tablet em m\u00e3os, concentrado demais para ouvir qualquer coisa al\u00e9m do pr\u00f3prio c\u00e9rebro cuspindo ideias a mil por hora. Sua barba por fazer era a prova de que havia esquecido mais uma vez de parar por um espelho. Estava exausto, mas em movimento \u2014 e isso era tudo o que ele precisava.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu disse que queria pain\u00e9is solares no telhado, n\u00e3o uma esta\u00e7\u00e3o de recarga do Tesla! \u2014 disparou, erguendo a voz para um engenheiro que o seguia, nervoso. \u2014 Eu sou o Stark. Eu penso grande e <em>bonito<\/em>.<br>\u2003\u2003Ele digitava algo fren\u00e9tico quando notou a figura parada na sombra de uma estrutura met\u00e1lica incompleta. O sobretudo escuro, os \u00f3culos, o leve inclinar de cabe\u00e7a. Tony respirou fundo, j\u00e1 esperando o serm\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 De novo n\u00e3o, Fury\u2026 \u2014 disse, sem sequer parar de caminhar. \u2014 Se for mais uma bronca por causa da Expo, voc\u00ea pode deixar na caixa de sugest\u00f5es. Eu ignoro todas elas.<br>\u2003\u2003Nick Fury caminhou ao lado dele, ignorando o tom \u00e1cido.<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea faria se eu dissesse que mais um corpo apareceu ontem \u00e0 noite, em Zurique?<br>\u2003\u2003Tony parou por um instante. O tablet caiu ao lado da perna, como se o peso da not\u00edcia tivesse feito seus bra\u00e7os cederem. Ele ergueu os olhos para Fury com um cansa\u00e7o genu\u00edno, mas tamb\u00e9m com algo mais pr\u00f3ximo da preocupa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso ainda tem a ver com aquela\u2026 sequ\u00eancia? \u2014 perguntou, escolhendo as palavras como quem anda sobre cacos de vidro.<br>\u2003\u2003\u2014 Mesmo modus operandi de antes: r\u00e1pido e violento. Sem testemunhas, \u00e9 claro. \u2014 Fury olhou ao redor, como se esperasse algu\u00e9m escutando. \u2014 Estamos lidando com algu\u00e9m treinado, Stark. Muito bem treinado e diria at\u00e9&#8230; condicionado. Eu suponho que \u00e9 pessoal. \u00c9 sistem\u00e1tico e tem m\u00e9todo&#8230; cada uma dessas mortes fazia parte de uma lista da Hydra.<br>\u2003\u2003Tony se virou, caminhando lentamente para longe da constru\u00e7\u00e3o e puxando o agente com ele.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1, digamos que essa pessoa tenha um plano. Que tipo de plano envolve estra\u00e7alhar meia d\u00fazia de ex-agentes da Hydra na surdina, em tr\u00eas pa\u00edses diferentes, sem reivindicar nada? N\u00e3o tem manifesto, n\u00e3o tem assinatura, n\u00e3o tem simbolozinho bonito na parede.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem sil\u00eancio e tem efici\u00eancia, o que \u00e9 pior.<br>\u2003\u2003Fury parou e encarou Tony por um momento, como se ainda estivesse escolhendo se devia ou n\u00e3o contar a pr\u00f3xima parte. Ent\u00e3o soltou:<br>\u2003\u2003\u2014 A mais recente foi diferente. O corpo foi encontrado envenenado, n\u00e3o despeda\u00e7ado, completamente im\u00f3vel, dentro da pr\u00f3pria casa. Dessa vez, foi uma mulher. Alta patente dentro da antiga Sala Vermelha. Usava o nome falso de Anna Volkov.<br>\u2003\u2003Tony ergueu uma sobrancelha, lentamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Sala Vermelha? Voc\u00ea t\u00e1 dizendo que algu\u00e9m t\u00e1 ca\u00e7ando <em>vi\u00favas<\/em> agora?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o qualquer vi\u00fava. Essa mulher treinava vi\u00favas, aquelas das antigas. Dessas que voc\u00ea n\u00e3o encontra nem no fundo de arquivo morto da KGB. E foi encontrada morta com um sorrisinho amargo nos l\u00e1bios. Literalmente.<br>\u2003\u2003Tony esfregou o rosto, exausto. N\u00e3o havia dormido direito havia dias. A constru\u00e7\u00e3o da Expo, os novos protocolos de seguran\u00e7a, as apresenta\u00e7\u00f5es. Agora isso. O velho aperto no peito, embora sem reator, ainda sabia muito bem como voltar.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1. O que voc\u00ea <em>quer<\/em>, Fury?<br>\u2003\u2003\u2014 Quero que voc\u00ea pare de fingir que esse problema n\u00e3o \u00e9 seu. \u2014 O tom do diretor endureceu, mesmo sem elevar a voz. \u2014 Porque eu sei que voc\u00ea tem rastros, alguma coisa ou algum sinal. E mesmo que n\u00e3o tenha&#8230; essa Expo que voc\u00ea tanto adora vai estar cheia de nomes importantes, gente visada. Voc\u00ea n\u00e3o acha que isso pode virar o pr\u00f3ximo alvo?<br>\u2003\u2003Tony suspirou. Encarou o c\u00e9u cinzento por um instante antes de responder:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sou mais o mesmo cara de anos atr\u00e1s. Eu n\u00e3o tenho mais o reator, n\u00e3o tenho armaduras empilhadas em galp\u00f5es como brinquedo. Eu t\u00f4 tentando\u2026 fazer certo agora. Criar algo positivo, algo que inspire.<br>\u2003\u2003\u2014 E por isso mesmo \u00e9 que voc\u00ea tem que abrir os olhos. \u2014 Fury deu um passo \u00e0 frente. \u2014 Porque voc\u00ea acha que t\u00e1 construindo um monumento, mas talvez esteja construindo um palco.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi denso. Tony n\u00e3o respondeu, apenas se virou, voltando para o canteiro de obras. Mas seus passos n\u00e3o tinham mais a mesma convic\u00e7\u00e3o de antes. E, pela primeira vez em dias, ele olhou para os andaimes altos da nova Stark Expo com um qu\u00ea de desconfian\u00e7a.<br>\u2003\u2003Fury n\u00e3o se moveu. Observava Stark de costas, como quem analisa o momento certo de dizer aquilo que vai doer. A hesita\u00e7\u00e3o n\u00e3o era t\u00edpica dele, mas havia um tipo de cuidado espec\u00edfico quando se tratava de Tony. N\u00e3o porque ele n\u00e3o pudesse suportar \u2014 mas porque, quando suportava, fazia isso da forma mais autodestrutiva poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem ido ao cemit\u00e9rio. \u2014 As palavras vieram em peso, ou uma constata\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Tony parou, como se tivesse escutado algo que n\u00e3o queria, mas n\u00e3o se virou.<br>\u2003\u2003\u2014 Manhattan \u00e9 cheia de t\u00famulos. Qual deles exatamente voc\u00ea quer discutir?<br>\u2003\u2003\u2014 %Mavis% Stark.<br>\u2003\u2003Tony fechou os olhos. O maxilar travado e a m\u00e3o direita se apertou ao redor do tablet at\u00e9 os n\u00f3s dos dedos ficarem brancos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea anda bem-informado.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu ando informado o bastante pra saber que a Stark Expo n\u00e3o \u00e9 sobre legado, \u00e9 uma cortina de fuma\u00e7a. Voc\u00ea faz isso todo ano. Mergulha em trabalho, se cerca de brilho, de metal, de esperan\u00e7a de um futuro melhor&#8230; justo na \u00e9poca do anivers\u00e1rio dela.<br>\u2003\u2003Tony se virou devagar. O olhar n\u00e3o tinha raiva, era bem pior do que isso: estava vazio.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 se escondendo \u2014 disse, direto, a voz firme como uma porta sendo trancada. \u2014 Debaixo de bilh\u00f5es em tecnologia, luzes de palco e discursos inspiradores, mas n\u00e3o vai funcionar pra sempre.<br>\u2003\u2003\u2014 Fury, se isso for mais uma tentativa de me convencer a largar tudo pra resolver o mist\u00e9rio do psicopata europeu, economiza o f\u00f4lego. Eu t\u00f4 ocupado tentando manter o mundo inteiro de p\u00e9 com fita adesiva e sarcasmo. Do jeito que eu sei fazer.<br>\u2003\u2003Fury se aproximou. Um, dois passos. Depois falou com um tom que rareava o ar ao redor.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei do que voc\u00ea t\u00e1 tentando fugir.<br>\u2003\u2003Tony se virou devagar, os olhos cerrados em desconfian\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, \u00e9? Ilumina meu dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei que daqui a poucos dias \u00e9 o anivers\u00e1rio dela e sei que, todo maldito ano, voc\u00ea arranja um jeito de n\u00e3o pensar nisso fingindo que t\u00e1 salvando o mundo com um show de fogos.<br>\u2003\u2003Tony n\u00e3o respondeu de imediato. O peito inflava devagar, como se estivesse processando cada palavra com cuidado, mas sem conseguir evitar a pontada que atravessava sua garganta.<br>\u2003\u2003\u2014 Cuidado com o que voc\u00ea diz \u2014 murmurou, com os olhos fixos nele.<br>\u2003\u2003Fury continuou, implac\u00e1vel:<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea acha que foi s\u00f3 voc\u00ea que perdeu, Stark? Eu tava l\u00e1. Fui o primeiro a chegar depois do enterro da %Mavis%. E fui o \u00fanico que ficou ao seu lado quando voc\u00ea tomou a decis\u00e3o mais dif\u00edcil da sua vida.<br>\u2003\u2003Tony cerrou os punhos, mas n\u00e3o falou. O nome da menina, mesmo tantos anos depois, ainda tinha o poder de arrancar o ar de seus pulm\u00f5es.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea lembra? \u2014 continuou Fury, a voz agora mais baixa. \u2014 Quando voc\u00ea olhou pra mim e disse: \u201c<em>Ela n\u00e3o vai ter nome, nem hist\u00f3ria. Quero que o mundo pense que ela nunca existiu.<\/em>\u201d E eu obedeci, fiz o que voc\u00ea pediu&#8230; apaguei cada tra\u00e7o da exist\u00eancia daquela crian\u00e7a dos registros, desde o nascimento at\u00e9 o desaparecimento. S\u00f3 eu fiquei sabendo. Nem a S.H.I.E.L.D. inteira sabia o que aconteceu de verdade.<br>\u2003\u2003Tony virou o rosto, como se estivesse levando um soco. Os olhos marejados, mas firmes. A mand\u00edbula travada, o orgulho ferido e a dor antiga convivendo no mesmo espa\u00e7o apertado dentro do peito.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tinha o direito de trazer isso \u00e0 tona \u2014 rosnou.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez n\u00e3o, mas a maneira como voc\u00ea t\u00e1 agindo? Como anda distra\u00eddo, irritado, dormindo menos ainda do que o habitual? Me diz que t\u00e1 tudo bem. Vai. Olha na minha cara e me convence de que essa expo n\u00e3o \u00e9 uma desculpa pra enterrar outra vez aquilo que nunca deixou de doer.<br>\u2003\u2003Tony mordeu a parte interna da bochecha, os olhos cravados no ch\u00e3o. Uma fissura atravessava o verniz da sua armadura emocional. Ele respirou fundo. Quando falou, foi num tom mais baixo:<br>\u2003\u2003\u2014 Ela teria vinte e quatro anos agora.<br>\u2003\u2003Fury assentiu. Um gesto sutil, mas pesado.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea ainda conversa com a l\u00e1pide dela como se ela pudesse ouvir. Leva um girassol, fala da Expo, do que deu errado em Sokovia, do que voc\u00ea faria diferente se tivesse tido tempo. Eu sei disso porque mandei algu\u00e9m te acompanhar. Discretamente.<br>\u2003\u2003Tony ergueu o olhar com um misto de raiva e surpresa.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me seguiu?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te protegi, Stark. Do mundo, de voc\u00ea mesmo e de qualquer filho da puta que tentasse usar a exist\u00eancia da sua filha como arma contra voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Houve um sil\u00eancio denso. Tony deu um passo atr\u00e1s, passando a m\u00e3o pelos cabelos com impaci\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 E por que agora? Por que t\u00e1 me falando isso tudo agora?<br>\u2003\u2003Fury estreitou os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque esses assassinatos est\u00e3o me tirando o sono. E porque, mesmo sem conex\u00e3o clara, tem algo neles que me faz lembrar de voc\u00ea. De tudo que voc\u00ea perdeu e de tudo que poderia ter tido.<br>\u2003\u2003Tony ficou quieto por longos segundos, depois voltou os olhos para a proje\u00e7\u00e3o da Stark Expo, que ainda girava lentamente sobre a mesa. T\u00e3o cheio de promessas e t\u00e3o ir\u00f4nico.<br>\u2003\u2003\u2014 A Expo \u00e9 tudo que eu tenho \u2014 disse, por fim. \u2014 Se eu perder isso\u2026 n\u00e3o sobra mais nada.<br>\u2003\u2003Fury respirou fundo. Depois assentiu.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o perca. Mas se algo\u2026 <em>algu\u00e9m<\/em>\u2026 vier \u00e0 tona nesse meio tempo, voc\u00ea vai precisar ser forte o bastante pra olhar no espelho e aguentar o que vir.<br>\u2003\u2003Tony encarou o amigo com uma express\u00e3o dura, mas derrotada.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela era s\u00f3 um beb\u00ea. \u2014 murmurou. \u2014 N\u00e3o sabia andar, n\u00e3o sabia falar.<br>\u2003\u2003Um sil\u00eancio que durou longos segundos, quase sufocante. Tony finalmente falou, a voz embargada:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu fui ao cemit\u00e9rio porque n\u00e3o sei mais como fazer isso sem ela, sem esquecer dela. Porque todo ano, no dia do anivers\u00e1rio dela, eu fico imaginando quem ela teria se tornado. Uma cientista, uma engenheira. Talvez ela odiasse tecnologia ou talvez fosse parecida com a m\u00e3e. Elena era boa com gente.<br>\u2003\u2003Fury abaixou a cabe\u00e7a por um instante, respeitoso, mas precisava traz\u00ea-lo de volta. Tony olhou para o ch\u00e3o, o mundo parecia ter se tornado menor, mais estreito.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sei o que \u00e9 pior. \u2014 disse, com a voz baixa. \u2014 Pensar que ela morreu\u2026<br>\u2003\u2003Fury assentiu uma \u00fanica vez.<br>\u2003\u2003\u2014 O anivers\u00e1rio dela \u00e9 semana que vem, n\u00e3o \u00e9?<br>\u2003\u2003Tony apenas assentiu de volta.<br>\u2003\u2003\u2014 E mesmo assim, ela mudou tudo.<br>\u2003\u2003E com isso, Fury se virou e saiu, deixando Tony sozinho com seus projetos, sua culpa \u2014 e a aus\u00eancia de uma menina que nunca teve chance de crescer.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2504],"class_list":["post-9682","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}