{"id":9566,"date":"2026-01-29T13:33:11","date_gmt":"2026-01-29T16:33:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-29T13:34:24","modified_gmt":"2026-01-29T16:34:24","slug":"capitulo-unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/v\/capitulo-unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00danico"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003A cidade nunca dormia quando a turn\u00ea passava por ela.<br \/>\n\u2003\u2003Havia luz demais, gente demais, vozes misturadas em l\u00ednguas que %Mira% n\u00e3o tentava identificar. O hotel era bonito, impessoal, feito para chegadas e partidas r\u00e1pidas. Ela estava ali h\u00e1 menos de doze horas e j\u00e1 sentia aquele peso conhecido no peito, a estranha intimidade de estar cercada por estranhos que sabiam exatamente quem ela era no palco, mas nada fora dele.<br \/>\n\u2003\u2003O camarim ainda cheirava a perfume caro e suor recente quando ela saiu, vestindo algo simples demais para quem tinha acabado de encerrar um show lotado. O cabelo solto, a maquiagem j\u00e1 levemente borrada nos olhos. Era sempre nesse momento que o corpo dela finalmente relaxava.<br \/>\n\u2003\u2003%Mira% n\u00e3o era apenas a voz que ecoava nos est\u00e1dios ou o rosto ampliado nos tel\u00f5es. Fora do palco, vivia nesse intervalo estranho entre ser desejada e ser desconhecida. A turn\u00ea a ensinara a medir o tempo em fusos hor\u00e1rios, a chamar qualquer quarto de hotel de casa e a guardar peda\u00e7os de si em malas pequenas demais. O palco a consumia inteira \u2014 corpo, respira\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a \u2014 mas, quando as luzes se apagavam, sobrava uma mulher que ainda queria ser tocada sem aplausos, olhada sem expectativa, desejada sem r\u00f3tulo. Viajar era liberdade. E tamb\u00e9m fuga.<br \/>\n\u2003\u2003Foi no corredor estreito, entre cases de equipamento e vozes apressadas da equipe, que ela o viu pela primeira vez.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% n\u00e3o parecia parte do caos. Alto, camiseta preta colada ao corpo, postura tranquila demais para algu\u00e9m nos bastidores de uma turn\u00ea internacional. Ele conversava com algu\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o, mas o olhar escapou \u2014 e pousou nela.<br \/>\n\u2003\u2003Sem pressa.<br \/>\n\u2003\u2003Sem surpresa exagerada.<br \/>\n\u2003\u2003Como se aquele instante fosse apenas um reconhecimento silencioso.<br \/>\n\u2003\u2003%Mira% sentiu primeiro no est\u00f4mago. Depois na pele.<br \/>\n\u2003\u2003Ela diminuiu o passo sem perceber. Ele fez o mesmo. Por um segundo, dividiram o mesmo espa\u00e7o estreito, o mesmo ar. Nada foi dito. Nada precisava ser. Segundos depois, a equipe a puxava de volta para o fluxo, e o momento se perdia no barulho.<br \/>\n\u2003\u2003Horas mais tarde, exausta e ainda com o corpo vibrando do show, %Mira% deixou o palco e seguiu para o camarim. O suor escorria pelas t\u00eamporas, a maquiagem j\u00e1 n\u00e3o era perfeita, o figurino parecia pesado demais agora que a adrenalina come\u00e7ava a ceder.<br \/>\n\u2003\u2003Foi quando o viu de novo.<br \/>\n\u2003\u2003No mesmo corredor.<br \/>\n\u2003\u2003Encostado na parede, como se estivesse esperando, ou fingindo que n\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Dessa vez, n\u00e3o desviaram o olhar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Bom show \u2014 ele disse, em ingl\u00eas cuidadoso, com um sotaque que ela n\u00e3o conseguiu identificar de imediato.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sorriu. N\u00e3o o sorriso treinado para f\u00e3s. Um mais lento, mais cansado, mais real.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Obrigada. Eu\u2026 preciso de cinco minutos e um copo d\u2019\u00e1gua antes de existir de novo.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu baixo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Justo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela deu dois passos, depois parou e voltou o rosto para ele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Qual \u00e9 o seu nome?<br \/>\n\u2003\u2003Ele piscou, como se n\u00e3o esperasse a pergunta t\u00e3o direta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Joon%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sou %Mira%. Mas voc\u00ea provavelmente j\u00e1 sabe. \u2014 Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Sim, eu sei quem voc\u00ea \u00e9 \u2014 ele respondeu. \u2014 Mas n\u00e3o sabia como voc\u00ea se chamava <em>fora do palco<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo a pegou de surpresa. E, por algum motivo, fez o peito dela apertar de leve.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o agora voc\u00ea sabe \u2014 disse, antes de seguir para o camarim, sentindo o olhar dele ainda preso em suas costas.<br \/>\n\u2003\u2003E, pela primeira vez naquela noite, a turn\u00ea pareceu menos autom\u00e1tica.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o houve convite formal. Nenhum <em>vamos beber algo<\/em>. Apenas a decis\u00e3o silenciosa de caminhar lado a lado quando o corredor terminou e a noite come\u00e7ou de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Foram a um bar discreto, indicado por algu\u00e9m que \u201cconhecia a galera da turn\u00ea\u201d. M\u00fasica baixa demais para dan\u00e7ar, alta demais para conversas longas. Perfeito.<br \/>\n\u2003\u2003Tentaram falar. Tentaram mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003Ele perguntava algo, ela respondia metade. Ela come\u00e7ava uma hist\u00f3ria, ele entendia o final errado. Riam. Pediam desculpa. Tentavam de novo. Em algum momento, %Mira% percebeu que ele come\u00e7ou a economizar palavras.<br \/>\n\u2003\u2003Falava menos. Olhava mais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 De onde voc\u00ea \u00e9? \u2014 ele perguntou, depois de um tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela levou o copo aos l\u00e1bios antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Essa \u00e9 uma pergunta longa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o\u2026 \u2014 ele inclinou o corpo para frente, apoiando o bra\u00e7o na mesa. \u2014 Qual a cor do seu passaporte?<br \/>\n\u2003\u2003Ela riu. Uma risada aberta, sincera.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Essa \u00e9 melhor.<br \/>\n\u2003\u2003Em algum momento, algu\u00e9m passou perto demais, esbarrou de leve na mesa, e %Mira% levantou os olhos instintivamente. Quando percebeu, fez o gesto autom\u00e1tico, dois dedos erguidos, formando um V ao lado do rosto, quase como reflexo.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% notou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre faz isso \u2014 ele comentou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso o qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003Ele imitou o gesto, meio torto, arrancando outra risada dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Nunca reparei \u2014 ela disse. \u2014 Acho que meu corpo faz sozinho.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ele parece saber exatamente o que quer \u2014 respondeu, antes de pensar demais.<br \/>\n\u2003\u2003O ar mudou. Sutil. Denso.<br \/>\n\u2003\u2003Quando sa\u00edram do bar, a noite estava quente demais para jaquetas. Caminharam sem rumo, passos pr\u00f3ximos, bra\u00e7os se tocando de vez em quando. N\u00e3o se afastavam. N\u00e3o pediam desculpa. Apenas deixavam acontecer.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0 beira do rio, %Joon% parou. Tirou a camisa com um movimento simples, como se n\u00e3o houvesse plateia. %Mira% observou. Sem pressa. Sem pudor. Como quem aprecia uma cena bem constru\u00edda.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 quente \u2014 ele disse, quase se justificando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 \u2014 ela respondeu, os olhos ainda nele.<br \/>\n\u2003\u2003Ficaram ali por alguns segundos, pr\u00f3ximos demais para ser casual, distantes demais para ser promessa. A cidade parecia existir em outro plano, como se tivesse decidido respeitar aquele intervalo.<br \/>\n\u2003\u2003Continuaram andando. Falaram de cidades que ele conhecia. De pa\u00edses que ela amava. De lugares onde nenhum dos dois tinha estado. Ele contou sobre a turn\u00ea, aeroportos, hot\u00e9is iguais, noites que se misturavam. Ela falou do palco como se fosse outro corpo, um que vestia e despia a cada show.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Deve ser solit\u00e1rio \u2014 ele comentou.<br \/>\n\u2003\u2003Ela pensou antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c0s vezes. Mas hoje\u2026 \u2014 olhou para ele, deixando a frase em aberto.<br \/>\n\u2003\u2003Ele entendeu.<br \/>\n\u2003\u2003Pararam diante da entrada do hotel sem muita pressa. O ar estava diferente ali, mais quieto, como se a noite tivesse diminu\u00eddo o passo para observar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu\u2026 \u2014 %Mira% come\u00e7ou, depois riu de si mesma. Pegou o celular da bolsa e desbloqueou a tela. \u2014 Isso funciona em qualquer idioma.<br \/>\n\u2003\u2003Estendeu o aparelho para ele.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% hesitou por um segundo, depois aceitou. Digitou o n\u00famero com cuidado, como se aquele gesto carregasse mais peso do que parecia. Quando devolveu o celular, ela conferiu a tela e guardou o aparelho de volta na bolsa.<br \/>\n\u2003\u2003Ficaram ali por mais um instante, pr\u00f3ximos demais para se despedirem r\u00e1pido demais.<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente se afastaram, n\u00e3o houve beijo. N\u00e3o ainda. Apenas aquele espa\u00e7o carregado de possibilidade.<br \/>\n\u2003\u2003Antes de entrar, %Mira% virou-se.<br \/>\n\u2003\u2003Sorriu.<br \/>\n\u2003\u2003Fez o V com os dedos.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% ficou ali, observando, com a estranha certeza de que aquela turn\u00ea acabava de come\u00e7ar de verdade.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003%Mira% acordou com a sensa\u00e7\u00e3o de que ainda estava em movimento.<br \/>\n\u2003\u2003O quarto do hotel estava silencioso demais, cortinas grossas bloqueando a cidade que, poucas horas antes, pulsava sob seus p\u00e9s. Por um segundo, n\u00e3o soube dizer em que pa\u00eds estava. Depois lembrou do show, do corredor estreito, do bar escondido\u2026<br \/>\n\u2003\u2003E dele.<br \/>\n\u2003\u2003O telefone vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem curta, enviada cedo demais para algu\u00e9m que n\u00e3o dormira direito.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Joon%:<\/strong> <em>Bom dia.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ela sorriu antes mesmo de responder.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Mira%:<\/strong> <em>Ainda \u00e9?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ele respondeu r\u00e1pido demais.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Joon%:<\/strong> <em>Para quem vive em turn\u00ea, acho que o dia come\u00e7a quando o corpo decide.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ela ficou alguns segundos encarando a frase. Depois digitou:<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Mira%:<\/strong> <em>Ent\u00e3o o meu come\u00e7ou agora.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Encontraram-se no caf\u00e9 do hotel. Nada de produ\u00e7\u00e3o, nada de plateia. %Joon% vestia algo simples, %Mira% usava \u00f3culos escuros grandes demais para um espa\u00e7o fechado. Quando se viram, houve um microsegundo de hesita\u00e7\u00e3o, aquele instante em que se confirma que a noite anterior n\u00e3o foi inven\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o foi.<br \/>\n\u2003\u2003Sentaram-se frente a frente. Tentaram conversar. De novo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela contou, aos peda\u00e7os, como odiava entrevistas matinais. Ele falou, em frases curtas, sobre aeroportos e planilhas. \u00c0s vezes, uma palavra escapava.<br \/>\n\u2003\u2003Em algum momento, %Joon% parou de insistir nas frases completas e passou a observar o jeito que %Mira% segurava a x\u00edcara, os dedos longos desenhando c\u00edrculos invis\u00edveis na porcelana. O jeito que ela inclinava o corpo para frente quando queria ser entendida. Como tocava o bra\u00e7o dele sem perceber, sempre que ria.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea fala muito com o corpo \u2014 ele comentou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 um v\u00edcio \u2014 ela respondeu. \u2014 No palco, se eu n\u00e3o fizer isso, ningu\u00e9m entende nada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E fora dele? \u2014 Ela pensou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Fora dele\u2026 \u2014 deu de ombros. \u2014 Acho que continuo fazendo. S\u00f3 que com menos luz.<br \/>\n\u2003\u2003Depois do caf\u00e9, %Mira% tinha passagem de som. %Joon% a acompanhou at\u00e9 a arena, caminhando por corredores que ele conhecia bem demais \u2014 rotas que fazia todos os dias, entre equipamentos, planilhas e ordens de \u00faltima hora. Para ele, aquele labirinto fazia parte da rotina; para ela, era apenas mais uma extens\u00e3o do palco que ainda n\u00e3o tinha sido ligado.<br \/>\n\u2003\u2003Alguns membros da equipe lan\u00e7aram olhares r\u00e1pidos na dire\u00e7\u00e3o deles, curiosos pela proximidade incomum. Ningu\u00e9m perguntou nada. Em turn\u00eas, quase tudo era passageiro demais para virar assunto.<br \/>\n\u2003\u2003No palco vazio, %Mira% se transformou.<br \/>\n\u2003\u2003A postura mudou. O olhar ganhou firmeza. A voz, mesmo sem microfone, ocupou o espa\u00e7o. %Joon% observava da lateral, sentindo algo apertar devagar no peito. N\u00e3o era apenas desejo, era admira\u00e7\u00e3o crua, quase desconfort\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Quando ela desceu, suada, respirando fundo, ele ofereceu a garrafa d\u2019\u00e1gua sem dizer nada. Os dedos se tocaram. Ficaram ali por meio segundo a mais do que o necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre fica assim depois? \u2014 ele perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Assim como?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Presente. \u2014 Ela sorriu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 quando eu mais desapare\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Sa\u00edram mais tarde. Andaram pela cidade como se fossem an\u00f4nimos, e eram, juntos. Tentaram usar um aplicativo para planejar o jantar. Falharam miseravelmente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Esquece \u2014 ela disse, desligando o celular. \u2014 Vamos escolher andando.<br \/>\n\u2003\u2003Comeram algo simples, sentados pr\u00f3ximos demais. O joelho dela encostava no dele sob a mesa. Nenhum dos dois se afastou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Joon%\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou, parou, suspirou. \u2014 Eu n\u00e3o sou boa com palavras fora do palco. \u2014 Ele inclinou a cabe\u00e7a, atento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu percebi \u2014 disse, com um meio sorriso. \u2014 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ela olhou para ele por alguns segundos. Depois falou, devagar, como se cada s\u00edlaba fosse escolhida com cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o vamos combinar uma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A gente economiza palavras. \u2014 Aproximou-se um pouco mais. \u2014 E fala do outro jeito. \u2014 Ele entendeu antes mesmo de responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Com o corpo? \u2014 Ela assentiu.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu n\u00e3o era vazio. Era cheio de expectativa, de proximidade, de tudo o que ainda n\u00e3o tinha acontecido.<br \/>\n\u2003\u2003Quando se despediram naquela noite, \u00e0 porta do hotel de novo, o espa\u00e7o entre eles parecia menor. Mais \u00edntimo. Carregado.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o se beijaram, e %Mira%, antes de entrar, fez o gesto outra vez, o V, lento, consciente agora. %Joon% sorriu.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003O dia passou r\u00e1pido demais.<br \/>\n\u2003\u2003Para %Mira%, sempre passava. Ensaios, entrevistas curtas, passagem de som, maquiagem refeita, figurino ajustado \u00e0s pressas. O corpo dela funcionava no autom\u00e1tico, treinado para responder \u00e0 m\u00fasica antes mesmo de pensar. Mas havia algo diferente naquela noite. Uma expectativa silenciosa, escondida entre batidas e luzes.<br \/>\n\u2003\u2003Ela pensava nele entre uma m\u00fasica e outra.<br \/>\n\u2003\u2003No jeito como %Joon% ficava parado, observando, como se estivesse sempre um passo atr\u00e1s do caos. Como se enxergasse coisas que ningu\u00e9m mais via. Pensava nele quando a multid\u00e3o gritava seu nome e, ainda assim, sentia falta de ser chamada apenas de <em>%Mira%<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Quando o show terminou, o corpo de %Mira% ainda vibrava, o ouvido zumbindo, a adrenalina se recusando a baixar. J\u00e1 no corredor que levava aos camarins, o celular vibrou na m\u00e3o dela.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Joon%:<\/strong> <em>J\u00e1 terminou a\u00ed?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ela sorriu ao ler.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Mira%:<\/strong> <em>Agora mesmo.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Joon%:<\/strong> <em>Te espero na sa\u00edda lateral, ent\u00e3o.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o combinaram mais nada. N\u00e3o precisaram.<br \/>\n\u2003\u2003Quando saiu, minutos depois, o barulho j\u00e1 tinha diminu\u00eddo e as luzes eram mais gentis. %Mira% usava um casaco largo, o capuz meio puxado, como se quisesse desaparecer no meio da pr\u00f3pria equipe. %Joon% a reconheceu de longe mesmo assim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea foi incr\u00edvel \u2014 ele disse.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sorriu, cansada. Aproximou-se mais do que o necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Hoje foi intenso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Deu pra ver \u2014 respondeu, os olhos percorrendo o rosto dela com calma demais para ser casual.<br \/>\n\u2003\u2003Andaram sem rumo. De novo. Como se a cidade existisse apenas para servir de fundo. %Mira% falava pouco naquela noite. O corpo ainda estava quente do show, os movimentos mais lentos, mais conscientes. %Joon% acompanhava o ritmo dela, respeitando os sil\u00eancios, os intervalos.<br \/>\n\u2003\u2003Pararam em frente a um espelho improvisado numa vitrine escura. Reflexos sobrepostos. Dois corpos que n\u00e3o combinavam e, ainda assim, encaixavam.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Selfie? \u2014 ela sugeriu, quase distra\u00edda.<br \/>\n\u2003\u2003Ele pegou o celular. Aproximou-se. %Mira% entrou no quadro naturalmente, a m\u00e3o apoiada no peito dele, como se aquilo fosse \u00f3bvio. O clique aconteceu r\u00e1pido. Mas o depois ficou suspenso.<br \/>\n\u2003\u2003Ela fez o V com os dedos, autom\u00e1tica. Ele baixou o celular devagar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o posta \u2014 pediu, baixo. N\u00e3o como ordem. Como cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003Ela encontrou o olhar dele no reflexo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sei.<br \/>\n\u2003\u2003Houve algo ali. Um acordo silencioso. A consci\u00eancia de que, se aquela imagem escapasse para o mundo, perderia parte do que era. N\u00e3o era segredo por vergonha. Era por prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Guardaram o telefone. Continuaram andando.<br \/>\n\u2003\u2003Sentaram-se num lugar afastado, \u00e0 beira do rio, onde a cidade parecia menos curiosa. %Mira% tirou os sapatos, apoiou os p\u00e9s no banco, o corpo finalmente permitindo-se parar. %Joon% sentou ao lado, pr\u00f3ximo o suficiente para dividir o calor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea se sente exposta o tempo todo? \u2014 ele perguntou. Ela demorou a responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 No palco, sim. \u2014 Respirou fundo. \u2014 Fora dele\u2026 eu escolho.<br \/>\n\u2003\u2003Ele assentiu. Entendia mais do que dizia.<br \/>\n\u2003\u2003O bra\u00e7o dele encostou no dela. N\u00e3o se afastaram. O toque permaneceu, cresceu, tornou-se consciente. O sil\u00eancio agora era carregado de inten\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Mira%\u2026 \u2014 ele come\u00e7ou, parou. \u2014 Se isso ficar complicado\u2014<br \/>\n\u2003\u2003Ela virou o rosto para ele, interrompendo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai ficar complicado \u2014 disse, firme. \u2014 S\u00f3 n\u00e3o vamos transformar em espet\u00e1culo. \u2014 Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos. Depois assentiu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 certo, prometo.<br \/>\n\u2003\u2003A proximidade era perigosa agora. O corpo dela se inclinou de leve, como se fosse cair, ou como se estivesse testando a gravidade. %Joon% n\u00e3o a tocou. Ainda. Mas estava pronto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A gente est\u00e1 falando demais \u2014 ela murmurou. Ele sorriu, baixo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Concordo.<br \/>\n\u2003\u2003Quando se despediram, o clima era outro. Mais denso. Mais pr\u00f3ximo do limite. As m\u00e3os se encontraram por um segundo a mais. Houve respira\u00e7\u00f5es desalinhadas. Houve vontade.<br \/>\n\u2003\u2003Antes de entrar no hotel, %Mira% se virou mais uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003Fez o V.<br \/>\n\u2003\u2003Mas agora n\u00e3o era distra\u00e7\u00e3o. Era escolha.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% ficou ali, com a certeza inc\u00f4moda e deliciosa de que o pr\u00f3ximo passo n\u00e3o seria t\u00e3o f\u00e1cil de evitar.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003A noite estava quieta demais para uma cidade acostumada ao excesso.<br \/>\n\u2003\u2003%Mira% sentiu isso antes mesmo de sair do hotel. Um sil\u00eancio estranho, quase respeitoso, como se o mundo tivesse decidido n\u00e3o atrapalhar. Ela desceu sem maquiagem, sem figurino, sem o peso do palco nos ombros. Apenas ela, e a expectativa que fazia o peito apertar de leve.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% a esperava do lado de fora, encostado na mureta, as m\u00e3os nos bolsos, o olhar atento como sempre. Quando a viu, endireitou o corpo sem perceber. %Mira% notou. Gostou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea parece diferente hoje \u2014 ele comentou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Hoje eu n\u00e3o subi no palco \u2014 respondeu. \u2014 Ainda.<br \/>\n\u2003\u2003Caminharam at\u00e9 a praia quase vazia. A areia estava fria sob os p\u00e9s dela, o vento brincava com o tecido fino da camisa que usava. %Mira% respirou fundo, deixando o cheiro do mar invadir tudo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Aqui \u2014 ela disse, parando. \u2014 \u00c9 bom aqui.<br \/>\n\u2003\u2003Sentaram-se pr\u00f3ximos, mais pr\u00f3ximos do que antes. O joelho dela tocava o dele agora sem disfarce. O bra\u00e7o dele descansava atr\u00e1s, criando um limite invis\u00edvel, ou talvez uma promessa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai embora depois do \u00faltimo show \u2014 ele disse, n\u00e3o como pergunta. Ela assentiu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vou sim.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu n\u00e3o era confort\u00e1vel. Era necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Joon%\u2026 \u2014 %Mira% come\u00e7ou, os olhos fixos no horizonte escuro. \u2014 Eu n\u00e3o sei fazer isso devagar quando sei que vai acabar. \u2014 Ele virou o rosto para ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea quer acabar antes de come\u00e7ar? \u2014 Ela hesitou. S\u00f3 um segundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se aproximou um pouco mais. %Mira% sentiu o calor do corpo dele, o cuidado no gesto, como se estivesse pedindo permiss\u00e3o sem palavras.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Se eu afundar \u2014 ela disse, a voz baixa, quase engolida pelo som do mar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu te salvo \u2014 ele respondeu, imediato. Ela virou o rosto para ele agora, os olhos brilhando de algo que n\u00e3o era medo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E se eu quiser me afundar?<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% n\u00e3o respondeu. Apenas levou a m\u00e3o at\u00e9 o rosto dela, com uma lentid\u00e3o calculada, como se desse tempo dizendo <em>pare<\/em> se ela quisesse. %Mira% n\u00e3o recuou. Inclinou-se, encontrando o toque, a respira\u00e7\u00e3o j\u00e1 desalinhada.<br \/>\n\u2003\u2003O beijo aconteceu assim.<br \/>\n\u2003\u2003Sem urg\u00eancia. Sem espet\u00e1culo.<br \/>\n\u2003\u2003Foi um encontro cuidadoso de bocas que j\u00e1 se reconheciam antes mesmo de se tocar. %Mira% suspirou contra os l\u00e1bios dele, a m\u00e3o subindo automaticamente para a nuca, como fazia no palco quando queria conduzir o ritmo.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% aprofundou o beijo devagar, como quem aprendia um idioma novo com respeito. Havia fome ali, mas tamb\u00e9m conten\u00e7\u00e3o. Desejo e medo dividindo o mesmo espa\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Quando se afastaram, a testa dela ainda encostada na dele, o mundo parecia menor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso muda as coisas \u2014 ele murmurou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sei \u2014 ela respondeu. \u2014 Mas fingir que n\u00e3o aconteceu seria pior. \u2014 Ele sorriu, um sorriso torto, honesto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o a gente muda junto.<br \/>\n\u2003\u2003Ficaram ali mais um tempo, trocando alguns beijos, sentindo. A m\u00e3o dele descansava na cintura dela agora, firme, presente. %Mira% apoiou a cabe\u00e7a no ombro dele, fechando os olhos como se aquele instante pudesse ser guardado no corpo.<br \/>\n\u2003\u2003Quando se levantaram para ir embora, o c\u00e9u j\u00e1 come\u00e7ava a clarear.<br \/>\n\u2003\u2003Antes de se afastar, %Mira% fez o gesto outra vez.<br \/>\n\u2003\u2003O V.<br \/>\n\u2003\u2003Mas agora n\u00e3o era marca de presen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Era promessa.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% observou enquanto ela se afastava, com a certeza de que, dali em diante, n\u00e3o haveria mais como fingir que aquilo era s\u00f3 passagem.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003O \u00faltimo dia de turn\u00ea sempre tinha um gosto estranho.<br \/>\n\u2003\u2003%Mira% acordou antes do despertador, o quarto ainda mergulhado naquela luz p\u00e1lida de hotel que nunca parecia pertencer a lugar nenhum. A mala estava aberta no ch\u00e3o, metade organizada, metade abandonada, como se refletisse exatamente o que ela sentia.<br \/>\n\u2003\u2003Gostava de partidas limpas. Chegar, cumprir, ir embora, era assim que sobrevivia. Mas daquela vez, o corpo n\u00e3o colaborava.<br \/>\n\u2003\u2003Tomou banho devagar, deixou a \u00e1gua quente correr mais do que o necess\u00e1rio. Vestiu-se sem figurino, sem maquiagem, como se precisasse lembrar quem era fora do palco antes de encarar o dia. O celular vibrou quando ela estava cal\u00e7ando os sapatos.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Joon%:<\/strong> <em>Bom dia.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ela demorou alguns segundos antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Mira%:<\/strong> <em>Bom\u2026 talvez.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Encontraram-se onde tudo come\u00e7ara a ficar s\u00e9rio demais: longe das luzes, perto demais da \u00e1gua. O c\u00e9u estava limpo, claro, como se o mundo insistisse em seguir normal apesar do que se acumulava entre eles.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% a observou se aproximar. Havia algo diferente nela, n\u00e3o mais expectativa, mas consci\u00eancia. Ela vinha inteira.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Hoje \u00e9 o \u00faltimo \u2014 ele disse, quebrando o sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sei.<br \/>\n\u2003\u2003Caminharam lado a lado, passos sincronizados, mas sem o cuidado exagerado dos dias anteriores. O toque agora existia sem desculpa: m\u00e3os que se encontravam, dedos que se entrela\u00e7avam por breves instantes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sou boa com despedidas \u2014 ela comentou, olhando para frente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o \u2014 ele respondeu. \u2014 Normalmente evito. \u2014 Ela sorriu de canto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o evitou isso.<br \/>\n\u2003\u2003Ele parou de andar. Puxou-a com suavidade, obrigando-a a encar\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o quis.<br \/>\n\u2003\u2003O beijo veio f\u00e1cil dessa vez. Familiar. Mais profundo. N\u00e3o havia a urg\u00eancia da primeira vez, mas havia algo mais perigoso: apego. %Mira% sentiu isso quando a m\u00e3o dele segurou sua cintura com firmeza, como se dissesse <em>fica<\/em>, mesmo sem dizer nada.<br \/>\n\u2003\u2003Quando se afastaram, ela apoiou a testa no peito dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 o tipo de coisa que eu costumo ir embora antes de sentir \u2014 confessou, a voz baixa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E agora? \u2014 ele perguntou. Ela respirou fundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Agora eu sinto. E vou embora mesmo assim.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o houve drama. N\u00e3o houve pedido. Apenas a verdade nua, dita com respeito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o vou te prometer nada imposs\u00edvel \u2014 ela continuou. \u2014 Mas tamb\u00e9m n\u00e3o vou fingir que isso foi s\u00f3 mais uma cidade.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% assentiu devagar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Nem eu.<br \/>\n\u2003\u2003Ficaram ali, em sil\u00eancio, guardando o peso exato do que tinham vivido. N\u00e3o era pouco. N\u00e3o era leve. Mas era honesto.<br \/>\n\u2003\u2003Mais tarde, no aeroporto, %Mira% ajustou a al\u00e7a da bolsa no ombro e puxou a mala. O alto-falante anunciou o embarque. Ela deu alguns passos antes de se virar.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% ainda estava ali. Ela sorriu. Fez o V com os dedos, mas agora n\u00e3o era gesto autom\u00e1tico, nem pose para foto. Era despedida consciente. Um s\u00edmbolo pequeno para algo que n\u00e3o precisava ser explicado.<br \/>\n\u2003\u2003%Joon% ergueu a m\u00e3o em resposta, imitando o gesto, ainda meio torto.<br \/>\n\u2003\u2003Ela partiu.<br \/>\n\u2003\u2003E enquanto o avi\u00e3o cortava o c\u00e9u, %Mira% fechou os olhos por um instante, sentindo no corpo a mem\u00f3ria daquele encontro \u2014 n\u00e3o como perda, mas como marca, porque algumas hist\u00f3rias n\u00e3o foram feitas para durar no tempo. Foram feitas para durar <strong>em quem passa por elas<\/strong>.<br \/>\n\u2003\u2003E aquela\u2026 aquela ficaria.<\/p>\n<h2 align=\"center\"><strong>EP\u00cdLOGO <\/strong><\/h2>\n<p>\u2003\u2003Meses depois, %Mira% estava em outra cidade.<br \/>\n\u2003\u2003Outro hotel. Outro palco. Outra l\u00edngua misturada no ar. O ritual era o mesmo \u2014 maquiagem, figurino, luzes, aplausos \u2014 e ainda assim, algo tinha mudado.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o fazia mais o gesto em V sem pensar.<br \/>\n\u2003\u2003Agora, vinha com consci\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003Depois do show, sentou sozinha na beira da cama, os p\u00e9s ainda descal\u00e7os, o corpo quente do palco. O celular vibrava com mensagens da equipe, da fam\u00edlia e de compromissos futuros. Ela ignorou quase todas.<br \/>\n\u2003\u2003Abriu a galeria por acaso.<br \/>\n\u2003\u2003A foto estava l\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o postada.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o explicada.<br \/>\n\u2003\u2003A selfie torta, a luz imperfeita, o ombro dele encostado no dela, o V discreto ao lado do rosto. Um instante que n\u00e3o pertencia a ningu\u00e9m al\u00e9m dos dois.<br \/>\n\u2003\u2003Sorriu.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o com saudade dolorida, mas com reconhecimento.<br \/>\n\u2003\u2003Em outra parte do mundo, %Joon% atravessava um aeroporto que j\u00e1 conhecia de cor. Mala pequena, fones de ouvido, passos calculados. A vida seguia no ritmo previs\u00edvel que ele sempre escolhera.<br \/>\n\u2003\u2003At\u00e9 o telefone vibrar. Uma notifica\u00e7\u00e3o simples.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Mira%:<\/strong> <em>Passei por um lugar hoje. Pensei em voc\u00ea.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ele parou no meio do sagu\u00e3o, o fluxo de gente seguindo sem ele por um segundo inteiro. Digitou de volta:<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Joon%:<\/strong> <em>Eu nunca deixei de pensar em voc\u00ea.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A resposta veio r\u00e1pido.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>%Mira%:<\/strong> <em>Eu sei.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Na pr\u00f3xima foto que tirou naquela noite, sozinha, diante do espelho do camarim, %Mira% ergueu os dedos.<br \/>\n\u2003\u2003O V.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o como promessa ou como despedida. Mas como mem\u00f3ria viva, porque algumas hist\u00f3rias n\u00e3o pedem continua\u00e7\u00e3o. Elas apenas ecoam.<\/p>\n<h2 align=\"center\">FIM<\/h2>\n<hr>\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da autora: <\/strong>Oi, meus amores.<br \/>\n\u2003\u2003Essa hist\u00f3ria nasceu de uma m\u00fasica que fala de encontros que n\u00e3o precisam de legenda, s\u00f3 de presen\u00e7a. Quis escrever sobre duas pessoas que se encontram no meio do caos, da turn\u00ea, das partidas constantes\u2026 e escolhem sentir, mesmo sabendo que talvez n\u00e3o fique.<br \/>\n\u2003\u2003Nem toda hist\u00f3ria de amor precisa de promessas pra ser real. Algumas s\u00f3 precisam de um gesto, um beijo na hora certa e uma mem\u00f3ria que acompanha a gente por onde for. \ud83e\udd0d<br \/>\n\u2003\u2003Com carinho,<br \/>\n\u2003\u2003Nyx \ud83d\udda4\u2728<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*** *** *** *** EP\u00cdLOGO FIM \u2003\u2003Nota da autora: Oi, meus amores. \u2003\u2003Essa hist\u00f3ria nasceu de uma m\u00fasica que fala de encontros que n\u00e3o precisam de legenda, s\u00f3 de presen\u00e7a. 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