{"id":9564,"date":"2026-01-29T11:38:27","date_gmt":"2026-01-29T14:38:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-29T12:08:01","modified_gmt":"2026-01-29T15:08:01","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/um-nome-comum\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Existe uma cidade no<\/span> interior da Inglaterra chamada Newbury, a uma hora de trem de Londres.<br>\u2003\u2003A dist\u00e2ncia real disso se media em zeros na conta banc\u00e1ria. Era o tipo de lugar que vendia sil\u00eancio e ar puro para quem podia pagar, com suas bibliotecas municipais de tijolo vermelho e escolas de gramado aparado. Mas se voc\u00ea seguisse o caminho dos postes de luz, notaria o momento exato em que a prefeitura parava de se importar.<br>\u2003\u2003O asfalto morria abruptamente, dando lugar a um cascalho solto que mastigava os pneus dos carros e os joelhos das crian\u00e7as. Ali terminava a Inglaterra de cart\u00e3o-postal e come\u00e7ava The Nightingales.<br>\u2003\u2003Era um amontoado de conjuntos habitacionais cercados por grades brancas que j\u00e1 n\u00e3o viam tinta h\u00e1 uma d\u00e9cada. O cheiro era uma mistura constante de esgoto mal resolvido e desesperan\u00e7a. Margot olhava para aqueles pr\u00e9dios e n\u00e3o via um lar. Via um dep\u00f3sito tempor\u00e1rio.<br>\u2003\u2003Juneau tinha ficado para tr\u00e1s, reduzida a uma transa\u00e7\u00e3o malfeita. N\u00e3o havia nostalgia pelo papel de parede amarelo ou pelas tardes no carpete gasto. O que Margot lembrava era da estupidez. Lembrava de como o fogo, aceso pela gan\u00e2ncia b\u00eabada e amadora do pai, consumiu a casa em minutos. Ele achou que estava sendo esperto, que sairia com algum lucro, mas a \u00fanica coisa que conseguiu foi transformar a macieira do quintal em carv\u00e3o e a vida delas em cinzas.<br>\u2003\u2003Na picape de fuga, olhando pelo retrovisor, Margot n\u00e3o chorou. N\u00e3o havia lucro no choro. Ela entendeu ali, vendo a fuma\u00e7a subir, que a incompet\u00eancia do pai tinha lhe custado a inf\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003Agora, a equa\u00e7\u00e3o era simples: zero dinheiro, zero contatos e um apartamento de dois quartos alugado gra\u00e7as \u00e0 penhora das \u00faltimas joias da av\u00f3. A m\u00e3e esfregava o ch\u00e3o de executivos em uma corpora\u00e7\u00e3o no centro enquanto Margot se preparava para o \u00faltimo ano em uma escola onde seu uniforme de segunda m\u00e3o seria um alvo nas costas.<br>\u2003\u2003Mas ela n\u00e3o estava ali para fazer amigos. Amigos eram distra\u00e7\u00f5es caras. O plano era sobreviver, acumular o suficiente para comer e garantir a vaga em Medicina. N\u00e3o por voca\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, mas porque m\u00e9dicos nunca ficavam desempregados e, mais importante, nunca moravam em lugares como Nightingales. O resto \u2014 bailes, garotos, despedidas \u2014 era lixo descart\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Pelo menos, era o que ela dizia para si mesma. Margot achava que tinha o controle, que sua frieza era uma armadura impenetr\u00e1vel. Mal sabia ela que a vida tem um jeito s\u00e1dico de rir de quem faz planos demais. E mesmo agora, dez anos depois, sentada em um consult\u00f3rio com ar-condicionado, ela ainda tentava calcular como foi que aqueles fantasmas de Newbury conseguiram atravessar a fronteira junto com ela.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>NEWBURY<\/strong><br><strong>CONDADO DE BERKSHIRE<\/strong><br><strong>1985<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O outono estava atrasado e o sol transformava o \u00f4nibus de uma linha s\u00f3 em uma estufa de metal e suor. Margot n\u00e3o se incomodava com o calor, incomodava-se com a falta de espa\u00e7o. Estava prensada contra um oper\u00e1rio que cheirava a \u00f3leo diesel e ouvia metal no volume m\u00e1ximo, os agudos vazando do fone barato. Atr\u00e1s dela, uma senhora folheava uma revista de fofocas com a placidez bovina de quem j\u00e1 aceitou o pr\u00f3prio destino.<br>\u2003\u2003Margot observou a mulher. Sapatos gastos, revista cara. As prioridades daquela gente eram uma piada.<br>\u2003\u2003Quando o \u00f4nibus cuspiu os passageiros na frente da Newbury High School, Margot desceu analisando o terreno. O pr\u00e9dio de concreto cinza tinha a arquitetura brutalista de uma penitenci\u00e1ria, mas aquilo n\u00e3o a assustava. Pris\u00f5es tinham hierarquias, e hierarquias podiam ser escaladas.<br>\u2003\u2003Ela alisou a saia. O tecido era uma porcaria e a costura amarela na lateral, feita por sua m\u00e3e, gritava improviso. Mas Margot n\u00e3o caminhou encolhida. Manteve a cabe\u00e7a erguida, os olhos varrendo a entrada. O uniforme n\u00e3o era um atestado de pobreza; era o disfarce necess\u00e1rio para entrar no clube. Ningu\u00e9m olhou duas vezes. Melhor assim. A invisibilidade era uma arma \u00fatil.<br>\u2003\u2003Foi o barulho que quebrou sua concentra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003N\u00e3o de risadas, mas o som agressivo de borracha contra o asfalto. Um bando de garotos surgiu da Rua Essex, cortando o tr\u00e2nsito como se fossem donos da cidade. Na lideran\u00e7a estava ele: Gerry Lewis.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o parecia estar se divertindo. Curvado sobre o guid\u00e3o de uma Monark cara, ele pedalava com uma viol\u00eancia desnecess\u00e1ria, como se a bicicleta fosse um animal que ele precisasse domar ou matar. Atr\u00e1s dele, o s\u00e9quito de bajuladores tentava acompanhar o ritmo, gritando coisas que o vento levava.<br>\u2003\u2003Para a escola, aquilo era a tradi\u00e7\u00e3o do &#8220;Garoto de Ouro&#8221;. Para Gerry, era a \u00fanica forma de silenciar o zumbido na cabe\u00e7a. Ele via os alunos se afastando, abrindo caminho com aquela rever\u00eancia pat\u00e9tica que dedicavam ao sobrenome dele. Odiava cada um deles. Odiava a encena\u00e7\u00e3o. Queria atropelar a hipocrisia daquele lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 Saiam da frente! \u2014 John gritou atr\u00e1s dele, tentando uma ultrapassagem idiota pela direita.<br>\u2003\u2003Gerry viu o movimento pelo canto do olho. John queria um show. Gerry queria sangue. Ele n\u00e3o diminuiu a velocidade ao entrar no p\u00e1tio. Pelo contr\u00e1rio, for\u00e7ou as pernas, sentindo o m\u00fasculo queimar, buscando aquele ponto de ruptura onde a dor f\u00edsica abafa a mental.<br>\u2003\u2003Mas John, desesperado por aten\u00e7\u00e3o, cortou a frente dele numa manobra suicida em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s escadas.<br>\u2003\u2003Gerry n\u00e3o teve tempo para estrat\u00e9gia. Ele travou a roda traseira, a bicicleta chicoteou de lado e o mundo virou um borr\u00e3o de cinza e azul. O impacto n\u00e3o foi cinematogr\u00e1fico. Foi seco. O som de metal batendo em osso.<br>\u2003\u2003Ele voou. O ch\u00e3o de pedra o recebeu sem miseric\u00f3rdia, o gosto de cobre encheu sua boca imediatamente. Ele ficou deitado por um segundo, olhando para o sol, a respira\u00e7\u00e3o presa, sentindo a pulsa\u00e7\u00e3o raivosa na t\u00eampora rasgada.<br>\u2003\u2003<em>Levanta<\/em>, a voz na cabe\u00e7a dele ordenou. <em>N\u00e3o d\u00ea a eles o prazer de te verem no ch\u00e3o.<\/em><br>\u2003\u2003Ele se apoiou nos cotovelos, pronto para xingar John at\u00e9 a d\u00e9cima gera\u00e7\u00e3o, mas seus olhos focaram em outra coisa.<br>\u2003\u2003Havia uma garota no ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o estava chorando. N\u00e3o estava gritando. Estava sentada no meio dos pedregulhos, tirando o cabelo do rosto com uma irrita\u00e7\u00e3o contida. O joelho dela estava aberto, o sangue descendo pela canela, manchando a meia branca.<br>\u2003\u2003Gerry limpou o sangue do pr\u00f3prio superc\u00edlio e engatinhou at\u00e9 ela. A multid\u00e3o come\u00e7ou a fechar o cerco, os abutres de sempre querendo ver o desastre.<br>\u2003\u2003\u2014 Ei. Quebrou alguma coisa? \u2014 ele perguntou. A voz saiu rouca, sem nenhuma gentileza.<br>\u2003\u2003A garota olhou para ele. O olhar dela n\u00e3o tinha medo. Tinha c\u00e1lculo. Ela olhou para a bicicleta retorcida, depois para o rosto dele, depois para o pr\u00f3prio joelho.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea rasgou a minha meia. \u2014 ela disse. N\u00e3o era uma acusa\u00e7\u00e3o chorosa. Era a constata\u00e7\u00e3o de um preju\u00edzo financeiro.<br>\u2003\u2003Gerry soltou uma risada curta, incr\u00e9dula. Ele estava sangrando, ela estava sangrando, e a preocupa\u00e7\u00e3o dela era o figurino.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu compro outra. \u2014 ele retrucou, estendendo a m\u00e3o. \u2014 Levanta.<br>\u2003\u2003Margot avaliou a m\u00e3o estendida. M\u00e3o de rico. Unhas limpas, rel\u00f3gio que valia mais que o aluguel dela. Ela aceitou, usando o impulso para ficar de p\u00e9 sem fazer careta, ignorando a dor aguda na perna.<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry! Meu Deus, cara! \u2014 John apareceu, p\u00e1lido, a encena\u00e7\u00e3o de divers\u00e3o substitu\u00edda pelo p\u00e2nico real.<br>\u2003\u2003\u2014 Cala a boca, Costner. \u2014 Gerry rosnou, sem olhar para o amigo. Ele n\u00e3o soltou o bra\u00e7o da garota, testando o equil\u00edbrio dela. \u2014 Consegue andar?<br>\u2003\u2003\u2014 Consigo. N\u00e3o sou de vidro.<br>\u2003\u2003Antes que pudessem sair dali, a figura napole\u00f4nica do senhor Reeves rompeu a multid\u00e3o, berrando ordens e distribuindo culpas.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sabia! Delinquentes! Lewis, dessa vez voc\u00ea passou dos limites! \u2014 o inspetor olhou para Margot, depois para a bicicleta destru\u00edda. \u2014 E voc\u00ea, menina? Est\u00e1 esperando um convite? Para a enfermaria, agora!<br>\u2003\u2003Margot viu a oportunidade. Enfermaria significava perder a primeira aula, evitar as apresenta\u00e7\u00f5es constrangedoras e sondar o terreno longe dos professores.<br>\u2003\u2003\u2014 Estou indo. \u2014 ela disse, soltando-se de Gerry.<br>\u2003\u2003Reeves agarrou o ombro de Gerry, empurrando-o na dire\u00e7\u00e3o oposta, para a diretoria. Gerry n\u00e3o resistiu, mas manteve os olhos na garota. Ela n\u00e3o olhou para tr\u00e1s. Nem uma vez. Mancava em dire\u00e7\u00e3o ao pr\u00e9dio com uma digna ferocidade, preocupada apenas em limpar a poeira da saia.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 fodido, Gerry. \u2014 algu\u00e9m sussurrou.<br>\u2003\u2003Gerry ignorou. Ele olhou para o ch\u00e3o, onde a colis\u00e3o tinha acontecido. No meio do cascalho, algo brilhou.<br>\u2003\u2003Ele se abaixou e pegou. Um chaveiro barato, enferrujado, com a imagem de uma catedral que parecia ter sobrevivido a uma guerra. N\u00e3o era bonito, era s\u00f3 um peda\u00e7o de lixo que algu\u00e9m se recusou a jogar fora.<br>\u2003\u2003Ele fechou o punho em torno do metal frio e \u00e1spero. Pela primeira vez no dia, a raiva diminuiu, substitu\u00edda por uma curiosidade perigosa. Aquela garota n\u00e3o tinha chorado. Em Newbury, todo mundo chorava ou fingia que estava tudo bem. Ela apenas cobrou o preju\u00edzo.<br>\u2003\u2003Ele guardou o chaveiro no bolso e caminhou para a diretoria, sentindo o sangue secar no rosto.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>NEWBURY<\/strong><br><strong>CONDADO DE BERKSHIRE<\/strong><br><strong>1995<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Gerry acordou antes de abrir os olhos. O cheiro de grama cortada e sil\u00eancio caro invadiu o quarto, confirmando que ele n\u00e3o estava em Londres. Estava na casa dos pais, o \u00fanico lugar no mundo onde o ar parecia ter menos oxig\u00eanio.<br>\u2003\u2003Ao lado dele, Trinity se mexeu. Ele abriu os olhos e a observou por um momento, sem afeto, apenas com o reconhecimento cl\u00ednico da presen\u00e7a dela. Ela era bonita, dispon\u00edvel e, o mais importante, n\u00e3o fazia perguntas sobre o passado. Tinha vindo de Londres atr\u00e1s dele como um animal de estima\u00e7\u00e3o carente, escalando a janela na noite anterior.<br>\u2003\u2003Ela abriu os olhos, sorrindo aquele sorriso f\u00e1cil de quem acha que sexo era a garantia de um anel de casamento.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia. \u2014 ela sussurrou, a m\u00e3o deslizando pelo peito dele. \u2014 Achei que voc\u00ea nunca fosse acordar.<br>\u2003\u2003Gerry segurou o pulso dela. N\u00e3o com for\u00e7a, mas com firmeza suficiente para parar o movimento.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea precisa ir.<br>\u2003\u2003O sorriso dela vacilou.<br>\u2003\u2003\u2014 O qu\u00ea? Mas ainda \u00e9 cedo, eu pensei que\u2026<br>\u2003\u2003Duas batidas secas na porta cortaram a frase. N\u00e3o eram batidas de pergunta; eram batidas de ordem.<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry? \u2014 a voz de Mary Lewis atravessou a madeira maci\u00e7a com a precis\u00e3o de um bisturi. \u2014 O caf\u00e9 est\u00e1 na mesa h\u00e1 quinze minutos.<br>\u2003\u2003Gerry sentiu o est\u00f4mago contrair. O velho reflexo pavloviano de culpa e raiva. Ele se sentou na cama, passando a m\u00e3o pelo rosto, tentando apagar a exaust\u00e3o que parecia tatuada nos ossos.<br>\u2003\u2003\u2014 Estou descendo. \u2014 ele respondeu. A voz saiu rouca, arranhada pelos cigarros da noite anterior. Ele se virou para Trinity, apontando para a janela com a cabe\u00e7a. \u2014 Agora.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 inacredit\u00e1vel. \u2014 ela sibilou, puxando o vestido do ch\u00e3o. A m\u00e1goa na voz dela era palp\u00e1vel, mas Gerry n\u00e3o tinha espa\u00e7o mental para lidar com sentimentos de terceiros.<br>\u2003\u2003\u2014 Te ligo em Londres.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o esperou ela responder. Assim que Trinity desapareceu pelo beiral, ele vestiu a primeira camisa que encontrou, ignorando os bot\u00f5es errados, e abriu a porta.<br>\u2003\u2003Mary estava l\u00e1. Impec\u00e1vel. Nem um fio de cabelo grisalho fora do lugar, o rosto blindado por uma camada de maquiagem que escondia qualquer vest\u00edgio de humanidade. Ela olhou para as roupas amassadas do filho com o desgosto de quem encontra uma mancha no tapete persa.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 cheirando a u\u00edsque barato. \u2014 ela disse, sem bom dia. \u2014 E a perfume de mulher.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 a nova col\u00f4nia da moda, m\u00e3e. <em>Decad\u00eancia<\/em>. Deveria experimentar.<br>\u2003\u2003Ele passou por ela, descendo as escadas sem esperar resposta. A casa era um mausol\u00e9u. Quadros de ancestrais que ele n\u00e3o conhecia, m\u00f3veis que ningu\u00e9m usava, tapetes onde era proibido pisar. Elliott Lewis estava na cabeceira da mesa, escondido atr\u00e1s do <em>Financial Times<\/em>, como fazia h\u00e1 trinta anos. Uma est\u00e1tua de covardia polida.<br>\u2003\u2003Gerry se sentou, servindo-se de caf\u00e9 preto. Mary ocupou seu lugar na outra ponta, a dist\u00e2ncia entre eles medida em metros e ressentimentos.<br>\u2003\u2003\u2014 Marquei um hor\u00e1rio com o senhor Day para voc\u00ea hoje \u00e0 tarde. \u2014 ela anunciou, cortando um peda\u00e7o min\u00fasculo de mel\u00e3o.<br>\u2003\u2003Gerry parou a x\u00edcara no meio do caminho.<br>\u2003\u2003\u2014 Day? O alfaiate?<br>\u2003\u2003\u2014 O jantar do prefeito \u00e9 hoje \u00e0 noite. A filha deles, Ellen Pfeiffer, voltou da Nova Zel\u00e2ndia. Mestrado em Direito. Uma mo\u00e7a brilhante.<br>\u2003\u2003Gerry soltou uma risada seca, sem humor.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah. Entendi. O leil\u00e3o de gado continua.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o seja vulgar, Gerry. \u2014 ela disse, a voz gelada. \u2014 Estou apenas tentando garantir que voc\u00ea apare\u00e7a apresent\u00e1vel, e n\u00e3o parecendo um mec\u00e2nico de beira de estrada. Voc\u00ea tem vinte e oito anos. J\u00e1 passou da hora de parar de brincar de rebelde e assumir seu lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu lugar \u00e9 em Londres, gerindo as empresas que pagam por essa fruta fresca que voc\u00ea est\u00e1 comendo.<br>\u2003\u2003\u2014 Seu lugar \u00e9 onde eu digo que \u00e9. \u2014 ela rebateu, pousando o garfo com um estalo. \u2014 Eu quero netos, Gerry. Quero um legado. N\u00e3o quero meu filho \u00fanico desperdi\u00e7ando a vida com&#8230; mulheres descart\u00e1veis e motos barulhentas. Voc\u00ea precisa de uma esposa. Algu\u00e9m da nossa classe. Algu\u00e9m que entenda o que significa ser um Lewis.<br>\u2003\u2003Gerry sentiu a press\u00e3o subir. Aquele discurso. Sempre o mesmo discurso. A obsess\u00e3o dela por controle, por manter as apar\u00eancias, por apagar qualquer mancha na reputa\u00e7\u00e3o imaculada da fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o vou me casar, m\u00e3e. J\u00e1 tivemos essa conversa.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai se casar porque \u00e9 teimoso. Porque insiste nessa fantasia adolescente de que pode viver sozinho. Ellen \u00e9 perfeita para voc\u00ea. Voc\u00eas namoraram no col\u00e9gio, n\u00e3o foi? Antes daquela&#8230; confus\u00e3o.<br>\u2003\u2003O ar na sala mudou. Ficou denso, el\u00e9trico. Elliott baixou o jornal lentamente, os olhos arregalados, o sinal universal de <em>pare agora<\/em>.<br>\u2003\u2003Mas Mary n\u00e3o parou.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea precisa esquecer aquela fase, Gerry. Esquecer os erros.<br>\u2003\u2003Gerry largou a x\u00edcara no pires com for\u00e7a. A porcelana trincou. O som ecoou na sala de jantar como um tiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Erros? \u2014 ele perguntou, a voz perigosamente baixa. \u2014 \u00c9 assim que voc\u00ea chama?<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry\u2026 \u2014 o pai tentou intervir, a voz fraca.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 Gerry se levantou, apoiando as m\u00e3os na mesa, inclinando-se na dire\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Os olhos dele, geralmente cansados, agora queimavam com uma intensidade man\u00edaca. \u2014 Vamos falar sobre erros, Mary. Vamos falar sobre como voc\u00ea limpou a minha vida dez anos atr\u00e1s como se estivesse demitindo uma empregada. Vamos falar sobre o que voc\u00ea fez.<br>\u2003\u2003O rosto de Mary empalideceu, a m\u00e1scara tremendo pela primeira vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu fiz o que era necess\u00e1rio. \u2014 ela sussurrou, mas havia medo nos olhos dela. Medo dele. \u2014 Eu protegi voc\u00ea. Ela ia destruir o seu futuro. Uma garota daquele lugar&#8230; do lixo\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Ela era a \u00fanica coisa real nessa maldita cidade! \u2014 Gerry gritou. A garganta ardeu. \u2014 E voc\u00ea a queimou. Do mesmo jeito que o pai dela queimou a casa. Voc\u00ea s\u00f3 n\u00e3o usou f\u00f3sforos.<br>\u2003\u2003Ele chutou a cadeira para tr\u00e1s. A madeira raspou no piso encerado, um grito agudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry, volte aqui!\u201d \u2014 o pai gritou, tentando recuperar alguma autoridade.<br>\u2003\u2003Gerry nem olhou para tr\u00e1s. Ele marchou para fora da sala de jantar, sentindo o gosto de bile na boca. O fantasma n\u00e3o estava apenas na mem\u00f3ria. Estava ali, sentado \u00e0 mesa com eles, respirando o mesmo ar viciado.<br>\u2003\u2003Ele subiu as escadas correndo, precisando sair daquela casa, precisando de ar, precisando dirigir at\u00e9 que o motor da moto gritasse mais alto do que as vozes na cabe\u00e7a dele. Dez anos. E ainda do\u00eda como se a pele estivesse em carne viva.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>NEWBURY<\/strong><br><strong>CONDADO DE BERKSHIRE<\/strong><br><strong>1985<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Gerry levou uma semana para encurral\u00e1-la.<br>\u2003\u2003N\u00e3o por timidez. A timidez era um luxo para quem tinha tempo a perder. Ele apenas observava. Via como ela se movia pelos corredores como se estivesse atravessando um campo minado, os olhos fixos no ch\u00e3o, ignorando os sussurros sobre &#8220;a garota de Nightingales&#8221;. Ele via como ela comia sozinha, mastigando r\u00e1pido, n\u00e3o por fome, mas por efici\u00eancia de tempo.<br>\u2003\u2003Ela era um mecanismo de sobreviv\u00eancia em funcionamento, e Gerry, obcecado por saber como as coisas funcionam, n\u00e3o conseguia desviar o olhar.<br>\u2003\u2003Para Margot, aquela semana foi apenas contabilidade. O acidente de bicicleta, o estigma de morar no bairro pobre, os olhares de nojo das garotas ricas&#8230; tudo entrava na coluna de &#8220;custos operacionais&#8221;. O lucro viria depois.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o perdeu tempo chorando pelo chaveiro perdido. Juneau e o pai b\u00eabado eram passado, e o passado n\u00e3o pagava contas. O presente exigia dinheiro. Na quarta-feira, ela encontrou a solu\u00e7\u00e3o no mural da escola: o Cinema Beirute precisava de ajuda. O dono, Hymie Fuchs, era um italiano sovina que cheirava a charuto barato. Margot n\u00e3o pediu o emprego; ela o convenceu. Viu que ele estava velho, cansado de lidar com a proje\u00e7\u00e3o e a bilheteria ao mesmo tempo. Negociou as horas extras e os finais de semana antes mesmo de assinar a ficha. O sal\u00e1rio era uma mis\u00e9ria, mas o acesso livre e as gorjetas dos velhos nost\u00e1lgicos das sextas-feiras compensavam. Era um come\u00e7o.<br>\u2003\u2003Na sexta-feira, ao som do \u00faltimo sinal, Margot disparou. O Beirute ficava longe, e a caminhada queimava solas de sapato que ela n\u00e3o podia se dar ao luxo de substituir.<br>\u2003\u2003Ela cruzou o port\u00e3o, a mente j\u00e1 calculando o trajeto mais r\u00e1pido, quando ouviu.<br>\u2003\u2003\u2014 Ei, McDonnell.<br>\u2003\u2003N\u00e3o foi uma pergunta. Foi uma intima\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Margot parou, girando nos calcanhares. Gerry Lewis vinha atr\u00e1s dela. Ele n\u00e3o corria afobado; ele avan\u00e7ava com passadas largas e decididas, as m\u00e3os enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro, o rosto fechado em uma express\u00e3o ileg\u00edvel.<br>\u2003\u2003Ele parou a um metro dela. Nada de sorrisos amarelos, nada de desculpas esfarrapadas sobre o calor ou o tr\u00e2nsito.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea anda r\u00e1pido. \u2014 ele constatou. A voz dele era grave, desprovida daquele tom agudo que os garotos usavam para tentar agradar.<br>\u2003\u2003\u2014 Tempo \u00e9 dinheiro, Lewis. \u2014 ela respondeu, cruzando os bra\u00e7os. \u2014 Veio terminar o servi\u00e7o com a bicicleta?<br>\u2003\u2003Gerry ignorou a provoca\u00e7\u00e3o. Ele tirou a m\u00e3o do bolso e estendeu o punho fechado.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea deixou cair. Naquele dia.<br>\u2003\u2003Ele abriu a m\u00e3o. O chaveiro estava l\u00e1. Mas n\u00e3o era o peda\u00e7o de metal enferrujado e triste que ela carregava desde o Alaska.<br>\u2003\u2003A catedral de St. Andrew brilhava. A ferrugem tinha sido removida quimicamente, o metal polido at\u00e9 refletir o sol da tarde. A argola torta tinha sido substitu\u00edda por uma nova, de a\u00e7o cir\u00fargico.<br>\u2003\u2003Margot olhou para o objeto, depois para os olhos de Gerry. Eram olhos escuros, profundos, com olheiras que sugeriam que ele dormia t\u00e3o mal quanto ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea limpou. \u2014 ela disse, desconfiada. Ningu\u00e9m fazia nada de gra\u00e7a. \u2014 Por qu\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 A ferrugem estava comendo o metal. \u2014 ele respondeu, dando de ombros, como se fosse a coisa mais \u00f3bvia do mundo. \u2014 Se voc\u00ea deixa a corros\u00e3o ficar, ela destr\u00f3i a estrutura. Eu tirei.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o disse &#8220;eu fiz isso porque gosto de voc\u00ea&#8221;. Ele disse que consertou um erro estrutural.<br>\u2003\u2003Margot pegou o chaveiro. O metal estava quente da m\u00e3o dele. Ela passou o polegar pelo relevo da catedral. Era um trabalho profissional. Ele devia ter gastado horas naquilo. Solventes, lixa, polimento.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigada. \u2014 ela disse, e a palavra saiu mais pesada do que pretendia. Ela guardou o chaveiro no bolso, sentindo o peso dele contra a coxa. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 bom com as m\u00e3os.<br>\u2003\u2003Gerry sustentou o olhar dela. N\u00e3o corou. Apenas assentiu, absorvendo a informa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho que ir. \u2014 Margot disse, quebrando a tens\u00e3o est\u00e1tica que come\u00e7ava a se formar entre eles. \u2014 O velho Fuchs n\u00e3o tolera atrasos.<br>\u2003\u2003\u2014 Cinema Beirute?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9. Algu\u00e9m tem que trabalhar nessa cidade.<br>\u2003\u2003Ela se virou para ir embora, mas parou. A curiosidade, aquele v\u00edcio maldito, a fez olhar para tr\u00e1s. Gerry continuava parado no mesmo lugar, im\u00f3vel como uma est\u00e1tua de vigil\u00e2ncia, observando-a se afastar.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu nome \u00e9 Gerry. \u2014 ele disse. N\u00e3o gritou, mas a voz chegou at\u00e9 ela clara como vidro.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei. \u2014 ela respondeu, voltando a andar. \u2014 Um nome comum.<br>\u2003\u2003Gerry ficou ali at\u00e9 ela virar a esquina da rua Essex. Ele sentiu o fantasma do metal nos dedos, o cheiro de \u00f3leo e solvente que tinha ficado impregnado na pele depois de passar duas noites acordado esfregando aquele chaveiro barato. Ele n\u00e3o sorriu. Apenas sentiu um al\u00edvio moment\u00e2neo, como se tivesse colocado uma pe\u00e7a de volta no lugar certo de uma engrenagem quebrada.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>LONDRES<\/strong><br><strong>1995<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A sala era um desperd\u00edcio de espa\u00e7o nobre em Paddington, mas Margot n\u00e3o ia reclamar. As paredes de pedra do St. Mary isolavam o barulho da avenida e a temperatura l\u00e1 fora. Era um bunker de privil\u00e9gio, e ela tinha lutado com unhas e dentes para ocup\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003Ela largou a caixa de papel\u00e3o na mesa de vidro. O jaleco estava pendurado na cadeira, imaculado. No bolso, bordado em linha azul-marinho: <em>Dra. Margot Moss<\/em>.<br>\u2003\u2003Ela passou o dedo pelo sobrenome. Moss. O nome do ex-marido que durou pouco, mas que serviu para enterrar o &#8220;McDonnell&#8221; e a garota de Nightingales num buraco fundo. Ela sorriu. N\u00e3o era um sorriso feliz, era o sorriso de quem enganou o sistema.<br>\u2003\u2003\u2014 Dra. Moss?<br>\u2003\u2003Margot se virou. Uma mulher pequena de uniforme azul estava parada na porta. Dottie Bennett, a enfermeira-chefe. Margot j\u00e1 tinha lido a ficha dela: eficiente, leal, n\u00e3o tolerava incompet\u00eancia. \u00d3timo.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode entrar, Dottie.<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpe a pressa, mas o St. Mary n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua para novatos. \u2014 Dottie estendeu uma prancheta. \u2014 Ala 3. Joshua Moscow. Anemia falciforme, hist\u00f3rico de crises frequentes e um talento especial para expulsar m\u00e9dicos. O Dr. Belfort pediu demiss\u00e3o ontem \u00e0 noite por causa dele.<br>\u2003\u2003Margot pegou a ficha, escaneando os dados vitais. Taquicardia, satura\u00e7\u00e3o baixa, hist\u00f3rico de opi\u00f3ides.<br>\u2003\u2003\u2014 Expulsou o m\u00e9dico? \u2014 Margot ergueu uma sobrancelha.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele \u00e9&#8230; dif\u00edcil. Recusa interna\u00e7\u00e3o, quer se tratar sozinho. Acha que o hospital \u00e9 um hotel ruim.<br>\u2003\u2003\u2014 Entendi. \u2014 Margot fechou a prancheta. \u2014 Vamos ver quem \u00e9 mais teimoso.<br>\u2003\u2003O corredor at\u00e9 o quarto particular era um labirinto branco que cheirava a antiss\u00e9ptico e l\u00e1tex. Margot caminhava r\u00e1pido, o som dos saltos ecoando com autoridade. Ela n\u00e3o era mais a menina que pedia desculpas por existir. Agora, ela dava as ordens.<br>\u2003\u2003No quarto 304, Joshua Moscow estava deitado, mas n\u00e3o parecia um paciente. Parecia um executivo entediado esperando um voo atrasado. Um acesso venoso no bra\u00e7o esquerdo, um laptop de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o no colo, digitando furiosamente com a m\u00e3o direita.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor Moscow? \u2014 Dottie anunciou.<br>\u2003\u2003Ele nem levantou a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Dottie, se for o capel\u00e3o, diga que eu sou ateu. Se for o nutricionista, diga que eu quero um bife.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 a sua nova m\u00e9dica.<br>\u2003\u2003Joshua parou de digitar. Ele olhou para cima, e a irrita\u00e7\u00e3o no rosto dele vacilou por um segundo ao ver Margot. Ele esperava um velho de mon\u00f3culo, n\u00e3o uma mulher que olhava para ele como se ele fosse um problema de matem\u00e1tica mal resolvido.<br>\u2003\u2003Dottie sorriu, sentindo o cheiro de sangue.<br>\u2003\u2003\u2014 Dra. Moss, cl\u00ednica geral. Boa sorte.<br>\u2003\u2003A enfermeira saiu, fechando a porta com um clique definitivo.<br>\u2003\u2003Joshua fechou o laptop devagar. Ele ajeitou a postura, ativando seu charme corporativo.<br>\u2003\u2003\u2014 Dra. Moss. Prazer. Olha, vamos pular a parte chata? Eu sei o que eu tenho, eu sei o que eu preciso. Me d\u00e1 uma dose de morfina pra viagem, assina minha alta e eu prometo n\u00e3o morrer no seu turno. Tenho uma reuni\u00e3o em duas horas.<br>\u2003\u2003Margot n\u00e3o respondeu. Ela puxou a cadeira de visitante, sentou-se e cruzou as pernas. Abriu a ficha e sacou uma caneta.<br>\u2003\u2003\u2014 Sua escala de dor. Um a dez.<br>\u2003\u2003Joshua suspirou, revirando os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 S\u00e9rio? Vamos brincar disso?<br>\u2003\u2003\u2014 Um a dez, Joshua.<br>\u2003\u2003\u2014 Sete. \u2014 ele respondeu r\u00e1pido demais.<br>\u2003\u2003Margot anotou algo na prancheta, sem olhar para ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Mentira.<br>\u2003\u2003Joshua piscou, pego de surpresa.<br>\u2003\u2003\u2014 Como \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Sete \u00e9 dor de dente. Sete \u00e9 pra quem bate o dedo na quina da mesa. Pela sua frequ\u00eancia card\u00edaca e pela palidez nas suas mucosas, voc\u00ea est\u00e1 operando num nove s\u00f3lido. Talvez nove e meio. S\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 gritando porque tem o ego maior que a dor.<br>\u2003\u2003Joshua abriu a boca para rebater, mas fechou. Ele olhou para ela com um novo interesse. Ela n\u00e3o estava jogando o jogo da empatia. Ela estava jogando p\u00f4quer.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem. \u2014 ele admitiu, a voz perdendo o tom de vendedor. \u2014 Nove. Mas eu aguento. Eu preciso sair daqui.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai a lugar nenhum. \u2014 Margot rabiscou uma prescri\u00e7\u00e3o. \u2014 Vou pedir um hemograma completo, radiografia de t\u00f3rax e, se voc\u00ea continuar me irritando, uma bi\u00f3psia de medula s\u00f3 pra garantir.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o pode me prender aqui.<br>\u2003\u2003\u2014 Posso. E vou. Se voc\u00ea sair por aquela porta com essa satura\u00e7\u00e3o, vai desmaiar no sagu\u00e3o. E a\u00ed eu vou ter que entubar voc\u00ea na frente da recep\u00e7\u00e3o, o que vai ser p\u00e9ssimo para a sua imagem de executivo de sucesso. \u2014 ela o encarou, os olhos frios e desafiadores. \u2014 Quer pagar pra ver?<br>\u2003\u2003Joshua sustentou o olhar dela. Ele estava acostumado a intimidar pessoas, a comprar sa\u00eddas, a negociar termos. Mas aquela mulher tinha uma barreira de concreto armado em volta dela. E, irritantemente, ele gostou disso.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 sempre assim ou hoje \u00e9 um dia especial? \u2014 ele perguntou, um sorriso de canto aparecendo.<br>\u2003\u2003\u2014 Sou pior \u00e0s segundas. \u2014 ela se levantou, colocando a prancheta aos p\u00e9s da cama. \u2014 Vou mudar seus analg\u00e9sicos. Avise quem tiver que avisar. Voc\u00ea fica.<br>\u2003\u2003Joshua bufou, derrotado, mas sem perder a pose.<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho um amigo vindo pra c\u00e1. Meu chefe. Ele vai ficar uma fera se eu n\u00e3o aparecer na reuni\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 O problema \u00e9 dele. E seu. \u2014 Margot j\u00e1 estava na porta. \u2014 Ele precisa assinar os formul\u00e1rios de responsabilidade financeira quando chegar. Mande-o para a minha sala.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele \u00e9 meio\u2026 babaca. \u2014 Joshua avisou. \u2014 Gerry. O nome dele \u00e9 Gerry.<br>\u2003\u2003Margot parou com a m\u00e3o na ma\u00e7aneta. O nome bateu nela como uma pedra. <em>Gerry<\/em>. Um nome comum. Londres tinha milhares de Gerrys. N\u00e3o havia motivo para o cora\u00e7\u00e3o dela falhar uma batida daquele jeito rid\u00edculo.<br>\u2003\u2003\u2014 Mande o senhor Gerry assinar os pap\u00e9is. \u2014 ela disse, sem se virar, for\u00e7ando a voz a sair neutra. \u2014 E tente n\u00e3o morrer nas pr\u00f3ximas duas horas, Joshua. Seria muita papelada para o meu primeiro dia.<br>\u2003\u2003Ela saiu antes que ele pudesse responder, o som do nome <em>Gerry<\/em> ecoando no corredor vazio da mente dela, abrindo portas que ela tinha trancado a sete chaves dez anos atr\u00e1s.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>NEWBURY<\/strong><br><strong>CONDADO DE BERKSHIRE<\/strong><br><strong>1985<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Os n\u00fameros na folha n\u00e3o eram apenas s\u00edmbolos; eram arame farpado. Margot encarava a equa\u00e7\u00e3o param\u00e9trica como se ela fosse um inimigo pessoal, um obst\u00e1culo deliberado entre ela e a faculdade de Medicina. Ela sabia que precisava da nota, mas seu c\u00e9rebro, geralmente afiado para sobreviver nas ruas, travava diante da abstra\u00e7\u00e3o in\u00fatil daquele X e daquele Y.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o chorou. Chorar era perda de tempo. Ela praguejou mentalmente contra Newton, Pit\u00e1goras e qualquer outro idiota que tivesse inventado formas de complicar a vida de quem j\u00e1 tinha problemas reais.<br>\u2003\u2003A tr\u00eas fileiras de dist\u00e2ncia, Gerry a observava.<br>\u2003\u2003Ele j\u00e1 tinha terminado a prova h\u00e1 vinte minutos. Para ele, n\u00fameros eram calmantes. Eram l\u00f3gicos, previs\u00edveis, n\u00e3o mentiam. Ver Margot lutar contra o papel o incomodava. N\u00e3o por pena, mas porque ele via a intelig\u00eancia nos olhos dela \u2014 a ast\u00facia de quem negociava com donos de cinema e sobrevivia a Nightingales. Ver aquela intelig\u00eancia desperdi\u00e7ada em um erro de c\u00e1lculo b\u00e1sico era ofensivo.<br>\u2003\u2003O sinal tocou. O som da liberdade para a maioria, o som da derrota para Margot.<br>\u2003\u2003John e George, os parasitas habituais, j\u00e1 estavam de p\u00e9, falando alto sobre fitas cassete e planos med\u00edocres para a tarde.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos pra garagem do Henry? \u2014 John perguntou, a voz cheia daquela empolga\u00e7\u00e3o vazia que Gerry detestava. \u2014 Led Zeppelin, pizza\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 Gerry cortou, seco. Ele nem olhou para eles. Continuou encarando as costas de Margot, que guardava o estojo com uma lentid\u00e3o irritante.<br>\u2003\u2003\u2014 Qual \u00e9, Gerry? Voc\u00ea disse que ia\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Eu disse <em>n\u00e3o<\/em>.<br>\u2003\u2003A palavra pairou no ar, pesada. John e George trocaram olhares confusos. Eles estavam acostumados com o Gerry que ria, que pagava a conta, que liderava. Esse novo Gerry, tenso e cortante, os assustava.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 bom, cara. Relaxa. A gente se v\u00ea amanh\u00e3?<br>\u2003\u2003Gerry apenas acenou com a cabe\u00e7a, um gesto m\u00ednimo para despach\u00e1-los. Eles sa\u00edram, levando o barulho com eles.<br>\u2003\u2003A sala ficou silenciosa. Apenas o som do z\u00edper da mochila de Margot sendo fechado.<br>\u2003\u2003Gerry se levantou. Ele pegou seu caderno de anota\u00e7\u00f5es \u2014 organizado, preciso, obsessivo \u2014 e caminhou at\u00e9 a mesa dela.<br>\u2003\u2003Margot sentiu a presen\u00e7a antes de v\u00ea-lo. O cheiro de sabonete caro e, curiosamente, de \u00f3leo de motor. Ela se virou, a guarda j\u00e1 levantada, pronta para rebater qualquer piadinha sobre sua performance med\u00edocre na prova.<br>\u2003\u2003Mas Gerry n\u00e3o fez piada. Ele jogou o caderno em cima da mesa dela. O som do impacto foi alto no sil\u00eancio da sala.<br>\u2003\u2003\u2014 O que \u00e9 isso? \u2014 ela perguntou, olhando para o objeto como se fosse uma bomba.<br>\u2003\u2003\u2014 O gabarito. E as minhas anota\u00e7\u00f5es. \u2014 Gerry encostou-se na mesa vizinha, cruzando os bra\u00e7os. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 burra, McDonnell. Eu vejo voc\u00ea negociando l\u00e1 fora. Vejo como voc\u00ea fica calculando suas moedinhas miser\u00e1veis pro sandu\u00edche de atum. Ent\u00e3o por que voc\u00ea age como uma idiota quando tem um n\u00famero na frente?<br>\u2003\u2003Margot estreitou os olhos. A ofensa estava ali, mas embrulhada em um elogio estranho.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o preciso da sua caridade, Lewis.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 caridade. \u00c9 corre\u00e7\u00e3o de erro. Me irrita ver potencial desperdi\u00e7ado. Voc\u00ea est\u00e1 tentando decorar a f\u00f3rmula. Matem\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 poesia, voc\u00ea n\u00e3o decora. Voc\u00ea desmonta, tipo um motor.<br>\u2003\u2003Margot olhou para o caderno, depois para ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Qual \u00e9 o pre\u00e7o? \u2014 ela perguntou, direta. \u2014 Ningu\u00e9m d\u00e1 o caderno de ouro de gra\u00e7a. Voc\u00ea quer que eu fa\u00e7a o seu dever de Hist\u00f3ria? Quer entrada livre no cinema?<br>\u2003\u2003Gerry riu. Foi uma risada curta, seca, mas genu\u00edna.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu quero que voc\u00ea pare de franzir a testa daquele jeito na aula. Faz barulho na minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Ele desencostou da mesa, pronto para sair.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu vou estar na biblioteca municipal hoje, antes do seu turno no Beirute. Se quiser aprender a desmontar o problema, apare\u00e7a. Se preferir continuar xingando o papel, o problema \u00e9 seu.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o esperou resposta. Virou as costas e saiu, deixando Margot sozinha com o caderno e com uma sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de que, pela primeira vez em muito tempo, algu\u00e9m tinha enxergado atrav\u00e9s da armadura dela. E, pior, aquele algu\u00e9m parecia t\u00e3o quebrado quanto ela.<br>\u2003\u2003Margot pegou o caderno. Abriu na primeira p\u00e1gina. A letra dele era meticulosa, quase agressiva na sua perfei\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Arrogante filho da m\u00e3e. \u2014 ela sussurrou, mas guardou o caderno na mochila.<br>\u2003\u2003O neg\u00f3cio tinha sido proposto. E Margot nunca recusava um bom neg\u00f3cio.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\ud801\ude81<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A biblioteca municipal cheirava a mofo e cera provinciana. Gerry escolheu a mesa mais afastada, longe dos olhares curiosos e perto o suficiente da se\u00e7\u00e3o de Engenharia, caso precisasse de uma desculpa.<br>\u2003\u2003Margot chegou dois minutos adiantada. Ela n\u00e3o corria, mas caminhava com urg\u00eancia econ\u00f4mica, sabendo que cada minuto tem um pre\u00e7o. Jogou a mochila na cadeira e sentou-se, encarando Gerry do outro lado da mesa.<br>\u2003\u2003\u2014 Trouxe os problemas? \u2014 ele perguntou, sem pre\u00e2mbulos.<br>\u2003\u2003\u2014 Trouxe a lista que o Mateen passou. \u2014 ela deslizou o papel pela mesa. \u2014 Se eu tirar menos que um B, meu plano de fuga vai pro ralo.<br>\u2003\u2003Gerry pegou a folha. Seus olhos varreram as equa\u00e7\u00f5es, dissecando a l\u00f3gica por tr\u00e1s dos n\u00fameros.<br>\u2003\u2003\u2014 Esque\u00e7a o B. Voc\u00ea vai tirar um A. Ou eu vou arrancar meu pr\u00f3prio c\u00e9rebro de t\u00e9dio.<br>\u2003\u2003As semanas seguintes n\u00e3o foram rom\u00e2nticas. Foram uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e1tica.<br>\u2003\u2003Eles se encontravam tr\u00eas vezes por semana. Gerry n\u00e3o explicava a mat\u00e9ria; ele a traduzia. Ele mostrava que a geometria n\u00e3o era sobre formas abstratas, mas sobre estrutura. <em>Se a base \u00e9 fraca, o pr\u00e9dio cai.<\/em> Margot entendia isso. Ela tinha visto casas queimarem. Ela sabia o valor de uma estrutura s\u00f3lida.<br>\u2003\u2003N\u00e3o havia borboletas no est\u00f4mago. O cara era bonito e tudo mais, mas o repositor da mercearia tamb\u00e9m era. A beleza n\u00e3o cativava Margot. Mas havia tens\u00e3o.<br>\u2003\u2003A tens\u00e3o de duas pessoas que reconhecem, no sil\u00eancio da biblioteca, que s\u00e3o os \u00fanicos acordados em uma cidade de son\u00e2mbulos. Margot via Gerry rabiscar f\u00f3rmulas com uma for\u00e7a que quase rasgava o papel, a mand\u00edbula trincada, como se estivesse tentando resolver o caos da pr\u00f3pria cabe\u00e7a atrav\u00e9s da matem\u00e1tica. Gerry via Margot absorver o conhecimento com uma fome predat\u00f3ria, n\u00e3o por amor ao saber, mas porque aquilo era uma ferramenta.<br>\u2003\u2003Quando a nota da prova saiu, n\u00e3o houve comemora\u00e7\u00e3o efusiva no corredor.<br>\u2003\u2003Gerry estava encostado no arm\u00e1rio, fingindo ler um livro, quando Margot passou. Ela parou, olhou para ele e ergueu o papel discretamente. A-.<br>\u2003\u2003Gerry assentiu, um movimento quase impercept\u00edvel. Um reconhecimento entre c\u00famplices. <em>Miss\u00e3o cumprida.<\/em><br>\u2003\u2003Mas o contrato tinha acabado. A d\u00edvida estava paga. E Gerry percebeu, com um p\u00e2nico frio que subiu pela espinha, que n\u00e3o tinha mais desculpas para estar perto dela.<br>\u2003\u2003Naquela tarde, ele esperou na frente do Cinema Beirute.<br>\u2003\u2003A CBX750 roncava baixo, uma besta de metal preto que parecia deslocada naquela rua de paralelep\u00edpedos. Gerry estava sentado nela, capacete no bra\u00e7o, fumando um cigarro com impaci\u00eancia, disfar\u00e7ando as senten\u00e7as que sua pr\u00f3pria mente produzia. <em>O que estou fazendo? Que porra estou fazendo?<\/em><br>\u2003\u2003Margot saiu pela porta lateral, limpando as m\u00e3os no jeans. Ela parou quando viu a moto. Seus olhos n\u00e3o brilharam de medo ou encanto rom\u00e2ntico. Eles s\u00f3 avaliaram a m\u00e1quina.<br>\u2003\u2003\u2014 Bonita. \u2014 ela disse, aproximando-se. \u2014 Deve custar mais que o pr\u00e9dio onde eu moro.<br>\u2003\u2003\u2014 Provavelmente. \u2014 Gerry admitiu, tragando o cigarro. \u2014 Mas \u00e9 mais r\u00e1pida.<br>\u2003\u2003\u2014 Veio cobrar juros pelas aulas?<br>\u2003\u2003Gerry jogou o cigarro no ch\u00e3o e pisou nele com a bota.<br>\u2003\u2003\u2014 Vim cobrar um jantar. Voc\u00ea passou na prova.<br>\u2003\u2003Margot cruzou os bra\u00e7os, um sorriso c\u00ednico aparecendo no canto da boca.<br>\u2003\u2003\u2014 O garoto rico quer me levar pra jantar. O que sua m\u00e3e diria sobre isso, Lewis?<br>\u2003\u2003\u2014 Minha m\u00e3e diria para eu escolher um restaurante franc\u00eas e usar talheres de prata. \u2014 ele estendeu o segundo capacete para ela. \u2014 Por isso vamos ao Poison. Hamb\u00farguer gorduroso e milk shake. Vamos?<br>\u2003\u2003Margot olhou para o capacete. Era preto, fosco, pesado. Ela sabia o que aquilo significava. Subir naquela moto era uma declara\u00e7\u00e3o de guerra contra a hierarquia de Newbury. Era dizer: <em>Eu n\u00e3o tenho medo.<\/em><br>\u2003\u2003Ela pegou o capacete.<br>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea me matar nessa coisa, eu volto pra te assombrar.<br>\u2003\u2003\u2014 Justo.<br>\u2003\u2003A viagem at\u00e9 o Poison foi um borr\u00e3o de vento gelado e adrenalina. Margot n\u00e3o abra\u00e7ou a cintura dele com timidez. Ela segurou-se firme, sentindo a vibra\u00e7\u00e3o do motor nas pernas, o corpo colado nas costas largas de Gerry. Ela gostou da velocidade. Gostou de ver a cidade virar um vulto irrelevante.<br>\u2003\u2003No Poison, sob as luzes neon baratas, eles pediram comida como se estivessem famintos h\u00e1 dias.<br>\u2003\u2003Gerry observou as m\u00e3os de Margot enquanto ela pegava o hamb\u00farguer. Havia manchas escuras sob as unhas, resqu\u00edcios da graxa do projetor antigo do Beirute. M\u00e3os de quem trabalha. M\u00e3os reais.<br>\u2003\u2003Ele estendeu a m\u00e3o e segurou o pulso dela. O movimento foi s\u00fabito, parando o hamb\u00farguer no meio do caminho.<br>\u2003\u2003\u2014 O que foi? \u2014 ela perguntou com a boca cheia.<br>\u2003\u2003\u2014 Suas m\u00e3os. \u2014 ele disse, passando o polegar sobre a mancha de graxa na pele dela. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o limpou direito.<br>\u2003\u2003\u2014 O velho Hymie n\u00e3o me d\u00e1 tempo pra manicure. Tenho que correr pra pegar o \u00faltimo \u00f4nibus.<br>\u2003\u2003Gerry n\u00e3o soltou o pulso dela. O toque dele era quente, firme, possessivo.<br>\u2003\u2003\u2014 Esque\u00e7a o \u00f4nibus.<br>\u2003\u2003\u2014 Como \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te levo. A partir de hoje. Eu tenho uma moto, voc\u00ea tem pressa. \u00c9 l\u00f3gico.<br>\u2003\u2003Margot parou de mastigar. Ela olhou para ele, procurando a piada, a pegadinha, a caridade disfar\u00e7ada. Mas os olhos de Gerry estavam s\u00e9rios, intensos, focados nela como se ela fosse a \u00fanica coisa consistente num mundo que estava desmoronando.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai me levar at\u00e9 Nightingales? \u2014 ela desafiou. \u2014 Sabe onde eu moro, Lewis. N\u00e3o \u00e9 lugar pra sua moto de luxo.<br>\u2003\u2003\u2014 A moto aguenta. \u2014 ele respondeu, soltando o pulso dela devagar. \u2014 A quest\u00e3o \u00e9 se voc\u00ea aguenta a carona.<br>\u2003\u2003Margot sorriu. N\u00e3o o sorriso educado que ela usava para os clientes do cinema. Era o sorriso de quem acabou de fechar o melhor neg\u00f3cio da vida.<br>\u2003\u2003\u2014 Termina logo esse hamb\u00farguer, Lewis. Quero chegar em casa antes da meia-noite.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\ud801\ude81<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A moto roncou alto quando eles entraram em Nightingales, um som estranho para um bairro acostumado com sil\u00eancio ou gritos. O sol j\u00e1 tinha morrido, deixando o c\u00e9u com aquela cor de hematoma roxo que precede a escurid\u00e3o total.<br>\u2003\u2003Margot desceu da moto antes mesmo que ela parasse completamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o devia estar aqui. \u2014 ela disse, olhando para as janelas onde cortinas encardidas se mexiam. \u2014 V\u00e3o roubar os pneus dessa coisa antes de voc\u00ea conseguir tirar o capacete.<br>\u2003\u2003Gerry desligou o motor. O sil\u00eancio caiu pesado. Ele ignorou o aviso sobre os pneus e apontou para a cerca no final da rua morta.<br>\u2003\u2003\u2014 O que tem l\u00e1 embaixo?<br>\u2003\u2003Margot seguiu o dedo dele.<br>\u2003\u2003\u2014 O esgoto. O canal antigo. Lixo, ratos e \u00e1gua congelada. Agora vai embora.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos descer.<br>\u2003\u2003Gerry n\u00e3o esperou. Saltou da moto e pulou a cerca com uma facilidade atl\u00e9tica irritante. Margot bufou, chutando uma pedrinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem um desejo de morte, Lewis?<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez.<br>\u2003\u2003Ela olhou para o pr\u00e9dio onde morava. Sua m\u00e3e s\u00f3 chegaria em uma hora. Ela podia entrar, trancar a porta e fingir que Gerry Lewis e sua moto de rico n\u00e3o existiam. Mas a curiosidade \u2014 e aquela atra\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica e est\u00fapida \u2014 a puxou para a cerca.<br>\u2003\u2003Ela escalou o metal enferrujado e desceu o barranco atr\u00e1s dele, escorregando na terra solta.<br>\u2003\u2003L\u00e1 embaixo, o cheiro n\u00e3o era t\u00e3o ruim quanto ela lembrava. Era frio. Cheiro de \u00e1gua parada e pedra molhada. O riacho corria estreito entre o lixo acumulado nas margens.<br>\u2003\u2003Gerry estava parado na beira da \u00e1gua, olhando para o fluxo escuro como se estivesse lendo o futuro.<br>\u2003\u2003\u2014 Eles dizem que esse lugar \u00e9 um inferno. \u2014 ele murmurou. \u2014 Parece tranquilo pra mim.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 porque voc\u00ea n\u00e3o mora aqui.<br>\u2003\u2003De repente, ele come\u00e7ou a tirar a jaqueta. Depois, as botas pesadas de couro.<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?\u201d \u2014 Margot perguntou, a voz subindo uma oitava.<br>\u2003\u2003\u2014 Tirando a sujeira.<br>\u2003\u2003Ele tirou a camisa. A pele dele era p\u00e1lida sob o luar fraco, os m\u00fasculos tensos pelo frio. Sem aviso, ele entrou na \u00e1gua.<br>\u2003\u2003Margot engasgou. Aquele c\u00f3rrego devia estar a dois graus. Era hipotermia garantida.<br>\u2003\u2003Gerry mergulhou a cabe\u00e7a e emergiu, sacudindo o cabelo molhado como um c\u00e3o selvagem. Ele n\u00e3o gritou de frio. Ele parecia&#8230; aliviado. Ele olhou para ela, a \u00e1gua escorrendo pelo peito nu.<br>\u2003\u2003\u2014 Vem!<br>\u2003\u2003Foi um desafio. <em>Voc\u00ea diz que \u00e9 durona? Prove.<\/em><br>\u2003\u2003Margot olhou para seus sapatos gastos. Olhou para a \u00e1gua preta. Ela pensou em Juneau, no fogo, na m\u00e3e esfregando ch\u00e3o, na humilha\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de ser a &#8220;garota pobre&#8221;. Ela sentiu uma raiva quente subir pelo peito. Queria limpar aquilo tudo tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Come\u00e7ou tirando os sapatos. Depois o rel\u00f3gio barato.<br>\u2003\u2003\u2014 Se eu pegar pneumonia, voc\u00ea paga meu tratamento. \u2014 ela avisou.<br>\u2003\u2003E pulou.<br>\u2003\u2003O choque t\u00e9rmico foi como um soco. O ar saiu dos pulm\u00f5es dela num grito mudo. A \u00e1gua era gelo l\u00edquido, agulhas perfurando a pele. Mas, segundos depois, o corpo reagiu. O sangue bombeou furioso para as extremidades, aquecendo-a de dentro para fora.<br>\u2003\u2003Gerry estava na frente dela. Ele n\u00e3o jogou \u00e1gua nela brincando. Ele segurou os bra\u00e7os dela, mantendo-a firme contra a correnteza.<br>\u2003\u2003Eles ficaram ali, tremendo, dois idiotas congelando num esgoto em Nightingales. E Margot come\u00e7ou a rir. Uma risada hist\u00e9rica, incontrol\u00e1vel, a risada de quem sobreviveu a um naufr\u00e1gio.<br>\u2003\u2003Gerry n\u00e3o riu. Ele a olhou com uma intensidade que fez o frio desaparecer.<br>\u2003\u2003Ele tocou o rosto dela com a m\u00e3o molhada e gelada. O polegar tra\u00e7ou a linha do maxilar, subiu at\u00e9 a bochecha corada pelo frio.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 real. \u2014 ele sussurrou, como se estivesse confirmando uma teoria cient\u00edfica. \u2014 Todo mundo l\u00e1 em cima \u00e9 feito de pl\u00e1stico. Mas voc\u00ea&#8230; voc\u00ea sangra. Voc\u00ea sente frio.<br>\u2003\u2003Margot parou de rir. O cora\u00e7\u00e3o batia t\u00e3o forte que do\u00eda as costelas.<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o fala nada. S\u00f3&#8230; fica aqui.<br>\u2003\u2003Ele se inclinou. O beijo n\u00e3o foi doce. Teve gosto de \u00e1gua de rio e desespero. Foi urgente, desajeitado, faminto. Os dentes bateram. As m\u00e3os dela agarraram os ombros nus dele, cravando as unhas na pele fria, puxando-o para mais perto, querendo fundir o calor dos dois para sobreviver \u00e0quele inverno.<br>\u2003\u2003Naquele momento, dentro da \u00e1gua suja, Margot esqueceu o plano. Esqueceu a faculdade de Medicina, o dinheiro, a sobreviv\u00eancia. Ela s\u00f3 queria aquilo. Aquele caos. Aquele garoto quebrado que a via como uma igual.<br>\u2003\u2003Eles sa\u00edram da \u00e1gua trope\u00e7ando, caindo nas pedras da margem, ofegantes. Gerry a envolveu na jaqueta de couro dele, o forro ainda quente. Eles ficaram sentados no escuro, ombro a ombro, ouvindo a respira\u00e7\u00e3o um do outro se acalmar.<br>\u2003\u2003Margot olhou para ele. O cabelo escuro do filho \u00fanico dos Lewis pingava, os l\u00e1bios roxos, os olhos fechados.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente vai morrer. \u2014 ela disse, tremendo.<br>\u2003\u2003\u2014 Provavelmente. \u2014 ele respondeu, abrindo um olho para encar\u00e1-la. \u2014 Mas pelo menos a gente acordou.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>DEZEMBRO<\/strong><br><strong>1985<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003N\u00e3o foi uma briga. Brigas exigem duas pessoas gritando, e Mary Lewis n\u00e3o gritava. Ela apenas manobrava a realidade at\u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o tivesse mais ar para respirar.<br>\u2003\u2003O carro dela, um Jaguar preto encerado como um caix\u00e3o de luxo, estava parado na esquina do Cinema Beirute. Margot o viu assim que saiu do turno, limpando a gordura da pipoca das m\u00e3os. O vidro desceu eletricamente, revelando o rosto de Mary protegido por \u00f3culos escuros, embora o sol j\u00e1 tivesse desistido de Newbury h\u00e1 horas.<br>\u2003\u2003\u2014 Entre, senhorita McDonnell.<br>\u2003\u2003Margot hesitou, mas entrou. O interior cheirava a couro novo e a um perfume floral enjoativo que tentava disfar\u00e7ar o cheiro de algo apodrecendo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 uma garota inteligente. \u2014 Mary come\u00e7ou, sem olhar para ela. As m\u00e3os enluvadas descansavam no volante. \u2014 Inteligente o suficiente para saber que o que voc\u00ea tem com meu filho \u00e9 uma infec\u00e7\u00e3o. E infec\u00e7\u00f5es precisam ser tratadas antes que matem o hospedeiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sou uma doen\u00e7a. \u2014 Margot respondeu, a voz firme, canalizando toda a sua frieza de sobrevivente. \u2014 Gerry gosta de mim. Talvez isso seja o que incomoda a senhora. Ele gosta de mim porque eu n\u00e3o minto para ele.<br>\u2003\u2003Mary riu. Um som seco, como vidro estalando.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea acha que isso \u00e9 sobre amor adolescente? Gerry \u00e9 doente, Margot. Ele sempre foi. H\u00e1 uma escurid\u00e3o dentro dele que voc\u00ea acha que \u00e9 charme ou rebeldia, mas \u00e9 instabilidade qu\u00edmica. Ele \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio. E voc\u00ea\u2026 \u2014 ela finalmente virou o rosto, e Margot viu o reflexo distorcido de si mesma nas lentes escuras. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 o f\u00f3sforo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei lidar com ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe lidar com a pobreza. Sabe lidar com a falta de op\u00e7\u00f5es. Mas voc\u00ea n\u00e3o sabe lidar com o poder.<br>\u2003\u2003Mary abriu a bolsa e tirou um envelope. N\u00e3o havia dinheiro ali. Havia pap\u00e9is.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei que voc\u00ea quer ser m\u00e9dica. Sei que suas notas s\u00e3o impec\u00e1veis, gra\u00e7as, ironicamente, ao meu filho. Mas medicina custa caro. E as melhores universidades&#8230; elas pedem refer\u00eancias.<br>\u2003\u2003Margot sentiu o est\u00f4mago gelar. Era isso. O golpe n\u00e3o era no cora\u00e7\u00e3o, era no futuro.<br>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea ficar \u2014 Mary continuou, a voz suave \u2014, eu garanto que nenhuma faculdade de medicina na Inglaterra aceitar\u00e1 sua matr\u00edcula. Eu vou usar cada conex\u00e3o, cada favor, cada centavo da fam\u00edlia Lewis para garantir que voc\u00ea termine sua vida limpando ch\u00e3o em Nightingales, exatamente como sua m\u00e3e.<br>\u2003\u2003Margot olhou para o envelope. Depois olhou para a rua suja l\u00e1 fora. No fundo, estava respeitando a jogada da bruxa. Era brutal, mas tamb\u00e9m pac\u00edfica.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas se voc\u00ea for embora\u2026 \u2014 Mary fez uma pausa. \u2014 Se voc\u00ea sumir hoje, sem dramas, sem cartas de despedida chorosas, e partir o cora\u00e7\u00e3o dele de uma vez por todas para que ele pare de procurar&#8230; ent\u00e3o, talvez, uma bolsa integral apare\u00e7a para voc\u00ea em Dublin. Ou em Manchester. Longe daqui.<br>\u2003\u2003Margot calculou. N\u00e3o foi uma escolha emocional. Foi matem\u00e1tica. Ficar significava destruir o pr\u00f3prio futuro e, eventualmente, ver Gerry ser destru\u00eddo pela guerra com a m\u00e3e. Ir significava sobreviver.<br>\u2003\u2003\u2014 O que eu tenho que fazer? \u2014 Margot perguntou.<br>\u2003\u2003\u2014 Fa\u00e7a ele te odiar. O \u00f3dio cura mais r\u00e1pido que a saudade.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\ud801\ude81<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz azulada da lua que entrava pela janela aberta \u2014 a mesma janela que ele deixava destrancada para ela.<br>\u2003\u2003Eles tinham acabado de fazer amor. Ou algo pr\u00f3ximo disso. Havia uma urg\u00eancia desesperada no toque de Gerry naquela noite, como se ele pudesse sentir o cheiro da despedida na pele dela. Ele estava deitado de costas, o peito subindo e descendo, o bra\u00e7o jogado sobre os olhos. Margot estava sentada na beira da cama, vestindo a blusa do uniforme pelo avesso, as m\u00e3os tremendo.<br>\u2003\u2003Ele tirou o bra\u00e7o do rosto e a olhou. Aqueles olhos. Aqueles malditos olhos anal\u00edticos que sempre viam tudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea gostou? \u2014 ele perguntou. A voz era baixa, vulner\u00e1vel, despida de toda a armadura paranoica que carregava na cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Margot parou de abotoar a camisa.<br>\u2003\u2003A resposta correta era sim. Ele sabia disso.<br>\u2003\u2003Mas a resposta real era que ele queria saber se tinha algo podre dentro dele que ela podia sentir. Ou se ela s\u00f3 estava fazendo aquilo por ele ter sido o primeiro a lhe oferecer um lugar no mundo onde ela n\u00e3o precisava pedir desculpas. Ou se tinha outro impedimento, um abismo invis\u00edvel entre a classe dele e a dela, que ele n\u00e3o estava considerando.<br>\u2003\u2003Ele queria saber se era suficiente. Se a escurid\u00e3o dele n\u00e3o tinha contaminado o momento. Se ele n\u00e3o era veneno.<br>\u2003\u2003Margot olhou para ele, e a mentira se formou na garganta dela como bile. Ela precisava ser o bisturi. Precisava cortar fundo para n\u00e3o ter que cortar duas vezes.<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou, e o tom da voz dela fez ele se sentar na cama imediatamente. A vulnerabilidade sumiu, substitu\u00edda pela tens\u00e3o muscular de quem espera um golpe.<br>\u2003\u2003\u2014 O que foi?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o posso mais fazer isso.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso o qu\u00ea? N\u00f3s? \u2014 ele tentou rir, mas saiu nervoso. \u2014 Margot, se \u00e9 pela minha m\u00e3e, eu j\u00e1 disse que n\u00e3o me importo. A gente sai daqui. Eu pego a moto, a gente vai pra Londres agora.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 sua m\u00e3e. \u2014 ela se levantou, cal\u00e7ando os sapatos. \u2014 Sou eu.<br>\u2003\u2003\u2014 Como assim \u00e9 voc\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu cansei, Gerry. \u2014 ela for\u00e7ou a voz a soar entediada, pragm\u00e1tica, a voz de algu\u00e9m que fez um c\u00e1lculo e n\u00e3o gostou do resultado. \u2014 Isso aqui&#8230; brincar de Bonnie e Clyde em Nightingales&#8230; foi divertido por um tempo. Mas eu preciso de mais.<br>\u2003\u2003Gerry levantou-se. Ele estava nu, mas n\u00e3o parecia se importar. A vergonha n\u00e3o existia quando o p\u00e2nico tomava conta.<br>\u2003\u2003\u2014 Do que voc\u00ea est\u00e1 falando? Eu te dou mais. Eu te dou tudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tem nada, Gerry. \u00c9 tudo dos seus pais. A moto, a casa, o dinheiro. Voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 um garoto rico brincando de ser problem\u00e1tico. E eu tenho planos reais.<br>\u2003\u2003As palavras atingiram ele fisicamente. Ele recuou um passo, como se tivesse levado um tapa.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou tomar uma ducha. \u2014 ele disse.<br>\u2003\u2003Foi uma frase desconexa. Uma tentativa est\u00fapida do c\u00e9rebro dele de pausar a conversa, de rebobinar a fita para cinco minutos atr\u00e1s, quando eles eram apenas dois corpos quentes no escuro.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 Margot disse. Ela caminhou at\u00e9 a janela. \u2014 Eu estou indo embora. De Newbury.<br>\u2003\u2003\u2014 Quando?<br>\u2003\u2003\u2014 Agora.<br>\u2003\u2003Gerry ficou parado no meio do quarto. A silhueta dele contra a luz da lua parecia quebrada. A m\u00e1goa vazava dele, misturada com uma incredulidade violenta.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 mentindo. \u2014 ele sussurrou. \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 mentindo porque ela falou com voc\u00ea. O que ela disse?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela n\u00e3o disse nada que eu j\u00e1 n\u00e3o soubesse. \u2014 Margot colocou uma perna para fora da janela. Ela precisava ir agora. Se olhasse para ele por mais um segundo, o plano desmoronaria. Ela pularia de volta para aquela cama e deixaria Mary Lewis queimar o mundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai estar aqui quando eu voltar? \u2014 ele perguntou, a voz embargada, ignorando que ela j\u00e1 estava saindo, ignorando a l\u00f3gica, agarrando-se a qualquer coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, Gerry.<br>\u2003\u2003\u2014 A que horas come\u00e7a o seu turno?\u201d \u2014 ele insistiu, delirante. \u2014 Amanh\u00e3. No cinema.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu me demiti.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou te esperar.<br>\u2003\u2003A frase pairou no ar frio da noite. Uma promessa e uma maldi\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Uma l\u00e1grima solit\u00e1ria, traidora, escorreu pelo rosto dela. Ela a limpou com raiva antes que ele pudesse ver.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o espere. \u2014 ela disse, e a voz dela foi o som de uma porta de cofre se fechando. \u2014 Eu nunca amei voc\u00ea, Gerry. Eu s\u00f3 queria ver como era o outro lado da cidade.<br>\u2003\u2003Ela pulou.<br>\u2003\u2003Os p\u00e9s dela atingiram a grama fofa do jardim dos Lewis. Ela n\u00e3o olhou para tr\u00e1s. N\u00e3o olhou para a janela onde sabia que ele estava parado, observando-a correr para a escurid\u00e3o, com o cora\u00e7\u00e3o dele nas m\u00e3os dela, esmagado e sangrando, exatamente como Mary Lewis havia encomendado.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>LONDRES<\/strong><br><strong>1995<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Gerry passou pela porta girat\u00f3ria do St. Mary como se fosse dono do pr\u00e9dio e estivesse ali para demoli-lo. As enfermeiras da recep\u00e7\u00e3o trocaram olhares nervosos. Ele n\u00e3o parecia um visitante; parecia um acidente prestes a acontecer. Botas pesadas, jaqueta de couro surrada e aquela aura de eletricidade est\u00e1tica que faz os pelos do bra\u00e7o arrepiarem.<br>\u2003\u2003Ele parou no balc\u00e3o central.<br>\u2003\u2003\u2014 Joshua Moscow. Ala 3.<br>\u2003\u2003A recepcionista, uma mulher que j\u00e1 tinha visto de tudo, hesitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Nome do visitante?<br>\u2003\u2003\u2014 Gerry Lewis.<br>\u2003\u2003Ela digitou o nome, os olhos indo da tela para ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Quarto 304. E senhor Lewis? Tente n\u00e3o acordar o andar inteiro.<br>\u2003\u2003Gerry n\u00e3o respondeu. Ele j\u00e1 estava marchando pelo corredor.<br>\u2003\u2003Quando abriu a porta do 304, a vis\u00e3o de Joshua \u2014 p\u00e1lido, cheio de tubos, mas sorrindo para a tela do laptop \u2014 fez o est\u00f4mago de Gerry dar um n\u00f3. N\u00e3o era raiva. Era medo. Medo puro e destilado, disfar\u00e7ado de f\u00faria.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um idiota suicida. \u2014 Gerry disse, fechando a porta. O som foi abafado, mas definitivo.<br>\u2003\u2003Joshua levantou os olhos, o sorriso vacilando.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi pra voc\u00ea tamb\u00e9m, chefe.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me venha com <em>oi<\/em>. \u2014 Gerry caminhou at\u00e9 a cama, apoiando as m\u00e3os na barra de metal. Os n\u00f3s dos dedos estavam brancos. \u2014 Voc\u00ea me liga dizendo que \u00e9 uma &#8220;crise leve&#8221;? Voc\u00ea est\u00e1 parecendo um cad\u00e1ver, Joshua. Se eu n\u00e3o tivesse vindo\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Eu estou bem, Gerry.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 bem! \u2014 Gerry baixou a voz, mas a intensidade aumentou. \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 morrendo aos poucos porque \u00e9 teimoso demais para admitir que precisa de ajuda. Eu devia te demitir. Devia te mandar de volta pra Am\u00e9rica numa caixa.<br>\u2003\u2003Joshua suspirou, fechando o laptop. Ele conhecia aquele tom. Era o tom de quando Gerry entrava naquela espiral de culpa e prote\u00e7\u00e3o obsessiva.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu j\u00e1 tenho uma m\u00e9dica nova. Ela me convenceu a ficar. Satisfeito?<br>\u2003\u2003Gerry parou. A informa\u00e7\u00e3o demorou a processar.<br>\u2003\u2003\u2014 Convenceu? Voc\u00ea? O homem que fugiu da UTI em Paris?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela \u00e9&#8230; competente. \u2014 Joshua escolheu a palavra com cuidado. \u2014 E assustadora. Acho que voc\u00ea vai gostar dela. O nome \u00e9 Moss. Dra. Moss.<br>\u2003\u2003\u2014 Moss. \u2014 Gerry repetiu o nome. N\u00e3o significava nada. \u2014 \u00d3timo. Se ela conseguiu te prender nessa cama, eu pago o dobro do sal\u00e1rio dela. Onde eu assino?<br>\u2003\u2003\u2014 Ela deixou a papelada na sala dela. Disse que o &#8220;benfeitor&#8221; precisava ir l\u00e1 pessoalmente.<br>\u2003\u2003Gerry bufou, pegando o cart\u00e3o de visitas que Joshua estendia.<br>\u2003\u2003\u2014 Benfeitor. Eu sou sua bab\u00e1, isso sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai logo. Antes que ela mude de ideia e me d\u00ea alta por mau comportamento.<br>\u2003\u2003Gerry saiu do quarto, sentindo a exaust\u00e3o bater. Ele precisava de um u\u00edsque. Precisava dormir. Mas, antes, precisava garantir que Joshua n\u00e3o morresse.<br>\u2003\u2003Ele encontrou a sala da Dra. Moss no final do corredor. A porta estava entreaberta.<br>\u2003\u2003A sala cheirava a poeira e mudan\u00e7a. Caixas de papel\u00e3o empilhadas, uma mesa de vidro limpa \u00e0s pressas. Ningu\u00e9m \u00e0 vista.<br>\u2003\u2003\u2014 Dra. Moss? \u2014 chamou. N\u00e3o teve nada al\u00e9m de sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003Gerry entrou. Ele n\u00e3o tinha paci\u00eancia para esperar. Queria assinar o maldito papel, garantir o tratamento de Joshua e ir para um bar. Ele viu o formul\u00e1rio na mesa e sacou a caneta.<br>\u2003\u2003Assinou r\u00e1pido. <em>Gerry Lewis.<\/em><br>\u2003\u2003Foi quando ele viu.<br>\u2003\u2003Havia uma caixa aberta ao lado do computador. Dentro, porta-retratos ainda n\u00e3o organizados. Um deles estava virado para cima.<br>\u2003\u2003Gerry congelou.<br>\u2003\u2003A foto era de uma formatura. Uma beca preta, um diploma. Mas n\u00e3o foi o rosto que parou o cora\u00e7\u00e3o dele. Foi o brilho met\u00e1lico no pesco\u00e7o da formanda.<br>\u2003\u2003Um colar improvisado. Uma corrente fina segurando um chaveiro. Uma catedral antiga de Juneau, no Alaska.<br>\u2003\u2003O mundo parou. O som do hospital, o tr\u00e2nsito l\u00e1 fora, o zumbido da l\u00e2mpada fluorescente&#8230; tudo sumiu. S\u00f3 existia aquele peda\u00e7o de metal barato que ele tinha polido obsessivamente em uma garagem em 1985.<br>\u2003\u2003Ele pegou a foto. A m\u00e3o tremia. Tremia de verdade, um tremor incontrol\u00e1vel que subia pelo bra\u00e7o.<br>\u2003\u2003Ele olhou para o rosto. Ela estava mais velha. O cabelo estava diferente. O sorriso era profissional, contido. Mas os olhos&#8230;<br>\u2003\u2003Eram os olhos de quem tinha pulado num rio gelado com ele. Eram os olhos de quem tinha sobrevivido.<br>\u2003\u2003\u2014 Posso ajudar?<br>\u2003\u2003A voz veio da porta.<br>\u2003\u2003Gerry n\u00e3o se virou imediatamente. Ele n\u00e3o conseguia. O ar tinha se transformado em concreto. Ele sentiu uma vertigem violenta, a sensa\u00e7\u00e3o de que o ch\u00e3o estava se abrindo.<br>\u2003\u2003<em>Moss. Margot Moss.<\/em><br>\u2003\u2003Ele respirou fundo. Uma, duas vezes. For\u00e7ando o ar a entrar nos pulm\u00f5es paralisados. Ele precisava encarar isso. Ele tinha passado dez anos fugindo daquele fantasma, e agora o fantasma o tinha encurralado numa sala em Paddington.<br>\u2003\u2003Ele se virou devagar.<br>\u2003\u2003Margot estava parada na porta, segurando uma pasta. O jaleco branco ca\u00eda nela como um uniforme de bal\u00e9. Ela parecia s\u00f3lida, real, intoc\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Ela olhou para ele. Primeiro com confus\u00e3o profissional. Depois, com reconhecimento.<br>\u2003\u2003Ele viu o momento exato em que a m\u00e1scara dela caiu. Os olhos arregalaram minimamente. A pasta escorregou um cent\u00edmetro nos dedos dela.<br>\u2003\u2003Eles ficaram parados, separados por tr\u00eas metros de carpete barato e uma d\u00e9cada de sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003Gerry sentiu a garganta fechar. Ele queria gritar. Queria perguntar por que ela tinha ido embora. Queria perguntar quem era <em>Moss<\/em>. Mas tudo o que saiu foi um sussurro rouco, a \u00fanica verdade que restava:<br>\u2003\u2003\u2014 Meu nome \u00e9 Gerry.<br>\u2003\u2003Margot olhou para ele. Para as botas sujas, para o rosto cansado, para os olhos que ainda a olhavam com aquela intensidade devastadora.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei. \u2014 ela respondeu, a voz falhando pela primeira vez em anos. \u2014 \u00c9 um nome comum.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NEWBURYCONDADO DE BERKSHIRE1985 NEWBURYCONDADO DE BERKSHIRE1995 NEWBURYCONDADO DE BERKSHIRE1985 LONDRES1995 NEWBURYCONDADO DE BERKSHIRE1985 \ud801\ude81 \ud801\ude81 DEZEMBRO1985 \ud801\ude81 LONDRES1995<\/p>\n","protected":false},"author":156,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2516],"class_list":["post-9564","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-um-nome-comum"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/156"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}