{"id":9510,"date":"2026-01-20T10:49:12","date_gmt":"2026-01-20T13:49:12","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-20T10:55:40","modified_gmt":"2026-01-20T13:55:40","slug":"capitulo-3","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/no-coracao-da-fazenda\/capitulo-3\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 3"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"capitular1\">E<\/span>la seguiu todo o caminho como o senhor Aguinaldo a ensinara. Por\u00e9m, ao chegar \u00e0s duas outras entradas n\u00e3o sabia qual seguir. Em uma, a placa com seta dizia <em>\u201cRancho das Flores\u201d<\/em> e na outra dizia <em>\u201cRancho do Riacho Doce\u201d. <\/em>Nicole lamentou-se por n\u00e3o perguntar se tinha nome na fazenda, ou prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao chegar de viagem. Acabou optando pela primeira seta, e aquele foi o seu mart\u00edrio.<br>\u2003\u2003O Sol se p\u00f4s e ela andava perdida no meio da estrada de cerrado denso. O desespero tamb\u00e9m come\u00e7ava a se apresentar e ela resolveu voltar pelo caminho antes percorrido. A sua sorte foi utilizar de intelig\u00eancia e marcar uma cerca com um len\u00e7o de cabelo vermelho, que ela havia colocado naquela manh\u00e3. Nicole tran\u00e7ou o len\u00e7o naquela cerca, pois, assim, reconheceria o percurso certo caso decidisse retornar. Finalmente conseguiu chegar \u00e0s duas placas e ent\u00e3o ao ler de novo <em>\u201cRancho do Riacho Doce\u201d<\/em>, um estalo em sua mente quase lhe fez se matar de raiva. Riacho Doce. Riacho. Um riacho era o que dividia as terras da fazenda! Como ela n\u00e3o pensou nisso? S\u00f3 poderia ser aquele caminho! Mas, e se a coincid\u00eancia n\u00e3o fosse aquela? Tentou repensar na porteira que abriu, a fim de relembrar qualquer poss\u00edvel escrito nela, mas nada \u00fatil vinha em sua mente. Nicole olhou para o c\u00e9u pedindo ajuda a algu\u00e9m por l\u00e1 e seguindo os seus instintos, foi pela intui\u00e7\u00e3o do riacho mesmo.<br>\u2003\u2003Na outra ponta da cidade, assim que Bernardo chegou em casa sem a companhia de Nicole, Laura logo estranhou. Aquilo gerou uma confus\u00e3o, quando mais tarde, ao Sol poente, a mulher ainda n\u00e3o havia aparecido.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea s\u00f3 pode estar louco! \u2014 A m\u00e3e bronqueou com ele, antes que o filho terminasse de afivelar o cinto em suas cal\u00e7as: \u2014 Como pode ter largado a mo\u00e7a na cidade?<br>\u2003\u2003\u2014 M\u00e3e, ela&#8230; Ela e eu discutimos e eu acabei saindo para espairecer e n\u00e3o pensei direito!<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 s\u00e3o tr\u00eas da tarde e nada dela chegar, Bernardo! Voc\u00ea j\u00e1 pensou se acontece algo com a Nicole?!<br>\u2003\u2003\u2014 Oras mam\u00e3e! Ela \u00e9 uma policial! Sabe se defender! \u2014 Dona Laura encarou ao filho com extrema impaci\u00eancia e reprova\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Bernardo fez sinal com as m\u00e3os para a m\u00e3e se acalmar e pegando sua camisa sobre a cama vestiu-se esclarecendo:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu irei agora procur\u00e1-la, passo na escola e pego as meninas, a Nicole vir\u00e1 conosco! Se acalme mam\u00e3e, Mato Alto \u00e9 um ovo!<br>\u2003\u2003Saiu apressado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 camionete e dirigiu atento \u00e0 estrada e \u00e0 cidade. N\u00e3o avistou Nicole no caminho de ida, nem nos caminhos pr\u00f3ximos da escola ou da pra\u00e7a onde a avistara pela \u00faltima vez. J\u00e1 estava apavorado quando foi buscar sua filha e irm\u00e3. Rosa sa\u00eda sorridente da escola, de m\u00e3os dadas \u00e0 Carolina e despedindo-se como sempre dos demais funcion\u00e1rios. Bernardo caminhava ansioso de um lado ao outro da cal\u00e7ada, com os bra\u00e7os cruzados e olhando atento ao seu redor.<br>\u2003\u2003\u2014 B\u00ea? O que houve? \u2014 A irm\u00e3 j\u00e1 perguntou assim que se aproximou entendendo a postura dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Rosa&#8230; Eu fiz merda!<br>\u2003\u2003\u2014 Papai xingou! \u2014 Carolina o repreendeu e Bernardo a pegou no colo.<br>\u2003\u2003Beijou a filha risonho e a ajudou a subir no carro, em seguida, ele e a irm\u00e3 se afastaram um pouco da menina para falar.<br>\u2003\u2003\u2014 Que merda voc\u00ea fez agora?<br>\u2003\u2003\u2014 Larguei a Nicole sozinha na cidade, depois que brigamos e&#8230; Ela ainda n\u00e3o voltou!<br>\u2003\u2003\u2014 Bernardo! \u2014 Rosa repreendeu preocupada batendo em seus ombros como a irm\u00e3 mais velha que era: \u2014 Voc\u00ea comeu o esterco da horta!?<br>\u2003\u2003\u2014 Ah! Rosa! N\u00e3o come\u00e7a! Eu preciso \u00e9 de ajuda! Eu n\u00e3o sei nem onde essa mulher pode ter se metido! Me ajude a pensar!<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea deveria ter pensado mais cedo, antes de larg\u00e1-la aqui! J\u00e1 pensou se ela decidiu voltar sozinha pela estrada?<br>\u2003\u2003Rosa percebeu que Carol, bem atenta, os observava de dentro do carro e aconselhou:<br>\u2003\u2003\u2014 Carolina est\u00e1 aqui, deixe-nos em casa e volte, eu vou telefonar a quem puder&#8230; Vamos reconstituir os passos que voc\u00eas fizeram.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o seria melhor avisar ao Gabriel? \u2014 perguntou preocupado.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! Se acalme! Ainda est\u00e1 cedo para acionar a pol\u00edcia.<br>\u2003\u2003Bernardo assentiu e retornou ao carro. Antes que os irm\u00e3os entrassem ele fez quest\u00e3o de reclamar \u00e0 irm\u00e3:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu avisei que esta mulher seria um grande problema!<br>\u2003\u2003\u2014 O problema aqui n\u00e3o \u00e9 a Nicole! \u00c9 voc\u00ea e este seu medo de se apaixonar! \u2014 Rosa esbravejou sem dar tempo para ele respond\u00ea-la.<br>\u2003\u2003Mesmo retornando para a cidade, com Rosa telefonando aos amigos, eles n\u00e3o conseguiram encontrar Nicole. Na verdade, ela havia se esquecido de Guino. N\u00e3o imaginou que o velhinho poderia saber do paradeiro da mulher, e tampouco sua m\u00e3e que estava extremamente nervosa, lembrou-se do senhorzinho que sempre falante passava as tardes na cal\u00e7ada de casa. Bernardo j\u00e1 estava euf\u00f3rico, quando o Sol havia se posto e ele n\u00e3o encontrava o menor vest\u00edgio de Nicole. Carolina, ao entender que Nic havia se perdido, ouvindo as conversas dos adultos come\u00e7ou um choror\u00f4 assustado! Bernardo pegou a filha ao colo tentando acalm\u00e1-la, sua m\u00e3e estava sentada \u00e0 sua poltrona da sala preocupada, ansiosa e col\u00e9rica pela atitude do filho. E Rosa retornava da cozinha com o telefone em m\u00e3os e uma x\u00edcara de ch\u00e1 para acalmar sua m\u00e3e.<br>\u2003\u2003\u2014 Pronto! J\u00e1 avisei ao Marcelo, ele ficar\u00e1 atento!<br>\u2003\u2003\u2014 Se nem eu vasculhando a estrada inteira a encontrei, como ele ir\u00e1 encontrar? \u2014 Bernardo alarmou-se.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu deveria te dar uma sova Bernardo! Um homem de trinta e tr\u00eas anos de idade, com atitudes de um moleque de doze anos! Por Deus Bernardo! E agora?<br>\u2003\u2003Cora vociferava e o filho mantinha a express\u00e3o culposa a encarar o ch\u00e3o, assim como sua filha afundava-se ainda mais em seus ombros, por medo da bronca que nem para ela se destinava. Dona Laura levou a m\u00e3o ao peito, e puxou uma grande quantidade de ar a fim de acalmar-se.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem, pode ser que voc\u00eas tenham se desencontrado na estrada, Bernardo&#8230; O Marcelo est\u00e1 sobre aviso, e se ele chegar aqui sem not\u00edcias, eu telefonarei ao Gabriel.<br>\u2003\u2003Rosa dissera por fim, na tentativa de ser a mais sensata no momento em que todos os adultos da casa estavam perdidos.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>~ \u2665 ~<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Nicole estava vestida com a mesma roupa que colocou ap\u00f3s o banho da manh\u00e3. Naquele fim de tarde, j\u00e1 desejava outro banho e ao se lembrar de que seria de \u00e1gua fria lamentou novamente por escurecer. Felicitou-se ao encarar seus p\u00e9s em ter cal\u00e7ado botas antes de sair. A realidade de mato, escurid\u00e3o e chinelos \u00e0 merc\u00ea de qualquer pe\u00e7onha, lhe espantavam ainda mais! Enquanto vagueava sempre \u00e0 frente, Nicole rezava tamb\u00e9m. N\u00e3o tinha lanterna, n\u00e3o conhecia o caminho e a escurid\u00e3o j\u00e1 dava \u201col\u00e1\u201d. Martirizava-se em como foi burra e orgulhosa em n\u00e3o aceitar a ajuda do afilhado do senhor Aguinaldo.<br>\u2003\u2003De repente uma luz surgiu atr\u00e1s dela, e ao olhar para tr\u00e1s percebeu um jipe que diminu\u00eda a velocidade \u00e0 medida que se aproximava.<br>\u2003\u2003\u2014 Boa noite. Vai para onde? \u2014 O homem que dirigia a perguntou.<br>\u2003\u2003\u2014 Boa noite. Estou procurando a fazenda da dona Laura Coralina. Poderia me indicar o caminho?<br>\u2003\u2003\u2014 Entra a\u00ed, estou indo para l\u00e1! Voc\u00ea \u00e9 a Nicole?<br>\u2003\u2003\u2014 Sou sim. E voc\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Marcelo. O noivo da Rosa!<br>\u2003\u2003\u2014 Ai, gra\u00e7as aos c\u00e9us!<br>\u2003\u2003Nicole entrou no jipe menos assustada, mais calma e at\u00e9 feliz.<br>\u2003\u2003\u2014 Rosa disse que eu gostaria de conhec\u00ea-lo, mas n\u00e3o imaginei que seria tanto! \u2014 dizia sorrindo com as m\u00e3os sobre o rosto.<br>\u2003\u2003Marcelo sorriu pela rea\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada dela, embora o medo tamb\u00e9m estivesse percept\u00edvel na face da mulher. Por mais que ela soubesse lidar com aquela situa\u00e7\u00e3o, ficar perdida no matagal nunca era algo tranquilo. E Marcelo tamb\u00e9m se aliviou por encontr\u00e1-la.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode ficar mais calma agora. Ela me ligou avisando que voc\u00ea sumiu pedindo para eu ficar de olho na estrada. Est\u00e3o todos desesperados atr\u00e1s de voc\u00ea! Bernardo est\u00e1 desde cedo te procurando na cidade, voltou para c\u00e1 e te procurou na floresta, depois voltou para buscar as meninas na escola e j\u00e1 est\u00e3o em casa.<br>\u2003\u2003\u2014 Idiota. Ele que me largou l\u00e1!<br>\u2003\u2003\u2014 Estou sabendo dos conflitos. N\u00e3o d\u00ea import\u00e2ncia Nicole. Bernardo est\u00e1 com o orgulho ferido, somente.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu n\u00e3o? Depois dessa ent\u00e3o\u2026<br>\u2003\u2003Nicole descobrira que Marcelo era arquiteto, nascido na capital, mas morava h\u00e1 alguns anos na cidade vizinha onde havia conhecido Rosa na faculdade. E estava se preparando para mudar-se \u00e0 Mato Alto, assim que se casasse com a professora. Ela reparou tamb\u00e9m que o rapaz, era bastante simp\u00e1tico e tinha uma aura divertida em torno de si. N\u00e3o era um modelo internacional do tipo exuberante, mas tinha um sorriso encantador e os olhos doces. Aquele olhar alerta, mas acolhedor, de um castanho brilhoso que lembrava ao olhar de seu melhor amigo \u00c2ngelo. E mesmo dentro da roupa social que vestia, Nicole p\u00f4de notar que n\u00e3o era um atleta, mas tinha bra\u00e7os fortes. Rosa parecia ter sido aben\u00e7oada n\u00e3o s\u00f3 pela personalidade do noivo, mas tamb\u00e9m, por se tratar de um homem belo dentro de uma apar\u00eancia real. Um conjunto perfeito seria aquele casal e a fam\u00edlia que formasse.<br>\u2003\u2003Quando os dois chegaram \u00e0 fazenda, j\u00e1 tinham se conhecido um pouco melhor. Eles olharam para o casar\u00e3o e puderam perceber sombras das pessoas pela janela andando de um lado ao outro, nervosas. Canelinha latiu ao ver o carro entrando na fazenda. Nicole e Marcelo desceram e foram at\u00e9 a varanda. Bernardo assim que viu o cunhado dando sinais, foi r\u00e1pido e desesperado para fora do casar\u00e3o, e assim que viu a mulher, ele ficou est\u00e1tico a encarando assustado. Olhava-a dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a buscando vest\u00edgios de algum ferimento,<em> n\u00e3o iria perdoar-se se, por culpa dele ela se machucasse.<\/em> Marcelo deu-lhe boa noite e entrou trocando um r\u00e1pido olhar de curiosidade entre os dois: Nicole e Bernardo, que ficaram ambos ali parados. Ela raivosa e ele desesperado.<br>\u2003\u2003\u2014 Nicole\u2026<br>\u2003\u2003Ao mencionar o nome dela, a raiva de Nicole aumentou e ela apenas se desviou dele entrando ao casar\u00e3o, deixando o homem sozinho na varanda. Laura estava sentada em uma poltrona visivelmente nervosa, Carol correu, e assim que viu Nicole a abra\u00e7ou, chorosa. Rosa tamb\u00e9m se aproximou dela abra\u00e7ando-a e perguntando se estava tudo bem. Mas, titia estava calada, observando anal\u00edtica \u00e0 sua sobrinha da cabe\u00e7a at\u00e9 os p\u00e9s. E preocupada com a rea\u00e7\u00e3o da senhora, Nicole caminhou at\u00e9 sua tia e abaixou-se a confortando:<br>\u2003\u2003\u2014 Titia, est\u00e1 tudo bem! N\u00e3o se preocupe, eu estou bem.<br>\u2003\u2003\u2014 A encontrei andando na estrada, j\u00e1 a caminho de casa. \u2014 disse Marcelo, o her\u00f3i da noite.<br>\u2003\u2003\u2014 O que aconteceu Nicole? \u2014 A tia perguntou s\u00e9ria.<br>\u2003\u2003Todos os presentes entreolharam entre Nicole, Bernardo e dona Laura Coralina. A sobrinha n\u00e3o queria estender o assunto e as preocupa\u00e7\u00f5es que se mostraram desnecess\u00e1rias, uma vez que ela havia chegado bem em casa.<br>\u2003\u2003\u2014 Nada de mais. Entrei em uma vendinha e fiquei por l\u00e1 conversando com dona Carlota, depois fui \u00e0 igreja e por \u00faltimo seu Aguinaldo me explicou como chegar aqui. A prop\u00f3sito, ele pediu para cobrar-lhe uma visita tia. N\u00e3o tive como avis\u00e1-los que eu estava bem e me perdi na volta, quando peguei outro caminho. Mas, retomei a estrada at\u00e9 a bifurca\u00e7\u00e3o das placas e segui pelo caminho certo. Foi a\u00ed que o Marcelo me encontrou.<br>\u2003\u2003\u2014 Bernardo! \u2014 gritou dona Laura.<br>\u2003\u2003Ela estava furiosa. Nicole n\u00e3o sabia que era poss\u00edvel v\u00ea-la daquele jeito, pois, a idosa sempre esbo\u00e7ava tranquilidade. O filho adulto que ouvia as palavras da falsa prima, apesar de atento, estava escorado \u00e0 porta de entrada, na varanda e de costas para a sala, e se virou lentamente ao ouvir o grito de sua m\u00e3e. Aproximou-se e olhando culpado para dona Laura, se dirigiu \u00e0 Nicole, desculpando-se:<br>\u2003\u2003\u2014 Desculpa pelo modo como agi Nicole. N\u00e3o deveria t\u00ea-la deixado, sozinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sou mais crian\u00e7a Bernardo. Sei me cuidar. N\u00e3o se preocupe comigo porque eu n\u00e3o espero isso de voc\u00ea!<br>\u2003\u2003Todos os olhavam como se tentassem entender o que haviam perdido para a situa\u00e7\u00e3o estar naquele p\u00e9. Ele abaixou a cabe\u00e7a, visivelmente contrariado e orgulhoso. Nicole, naquele momento, queria poder dar uma surra nele! Quanta raiva ela sentia! Bernardo em pouco tempo conseguia irrit\u00e1-la como poucas pessoas em sua vida. Faltavam-lhe palavras para definir a sensa\u00e7\u00e3o que Nicole tinha de revidar \u00e0s suas grosserias. Nunca havia se incomodado tanto com algu\u00e9m sendo indiferente a ela. A maneira como ele lhe parecia um enigma sem respostas, frustravam-na e Nicole detestava aquilo.<br>\u2003\u2003Tia Laura ent\u00e3o se levantou e a abra\u00e7ou pedindo desculpas e dizendo o quanto se preocupara, e em seguida, foi preparar um ch\u00e1 para acalmar os \u00e2nimos gerais. Marcelo e Rosa foram com ela, deixando apenas Bernardo, Nicole e Carolina na sala. O ioi\u00f4 que ela comprou caiu do seu bolso e Carol ficou animada ao ver. Disse-lhe que tinha v\u00e1rios e como que, instantaneamente, o medo que se percebia no rostinho dela quando viu a mulher mais velha chegando, desaparecera. Nicole permitiu que Carolina brincasse com o ioi\u00f4 e logo, a menina correu para mostrar a av\u00f3. Quando encarou sua frente de novo, o homem teimoso ainda estava parado a observando. Ela lhe lan\u00e7ou um julgo n\u00edtido em sua pr\u00f3pria face, e subiu as escadas para tomar banho, deixando-o onde estava, mas ele a seguiu.<br>\u2003\u2003Bernardo sentia-se culpado de verdade, sabia que havia extrapolado ao larg\u00e1-la na cidade, mas as cenas que vieram \u00e0 sua mente no momento da discuss\u00e3o eram dolorosas demais. Ele conseguia ver o seu primeiro amor, bem ali no centro daquela pra\u00e7a, numa das usuais discuss\u00f5es adolescentes que sempre acabavam com ele calando a boca dela com um beijo travesso. Quando se pegou diante da imponente Nicole apontando-lhe dedos e com um olhar t\u00e3o mand\u00e3o no rosto, sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerando. Ela lhe lembrava do passado, e naquele fulgor todo, o fazendeiro s\u00f3 tinha uma op\u00e7\u00e3o: sair de perto antes que fizesse qualquer outra coisa que n\u00e3o deveria.<br>\u2003\u2003O fazendeiro entrou naquela camionete, abandonando Nicole parada no meio da pra\u00e7a, raivosa pelas coisas que ouvira dele, contudo, n\u00e3o dirigiu direto para a est\u00e2ncia. Na estrada bem longe da sua porteira, Bernardo parou o carro e desceu. Chutou o pneu da camionete, quase machucando o pr\u00f3prio p\u00e9 e praguejou pela vinda daquela que todos insistiam afirmar que era <em>\u201cuma parte de sua fam\u00edlia\u201d. <\/em>Assim que percebeu a besteira feita e o modo como Nicole subia as escadas o tratando com tanto desprezo, o que era at\u00e9 entend\u00edvel, ele a seguiu e entrou no quarto dela. Quando Nicole percebeu, ele j\u00e1 estava l\u00e1 dentro atr\u00e1s de si, tentando justificar-se.<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui? Saia Bernardo!<br>\u2003\u2003\u2014 Nada justifica o que fiz. Voc\u00ea poderia ter\u2026 Algo poderia ter acontecido com voc\u00ea! Fui infantil em te deixar l\u00e1!<br>\u2003\u2003\u2014 Que bom que voc\u00ea reconhece isso. Agora saia!<br>\u2003\u2003\u2014 Espera! Voc\u00ea me deixou nervoso! Eu n\u00e3o podia ficar nem mais um minuto perto de voc\u00ea!<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o quero suas justificativas, Bernardo, s\u00f3 quero dist\u00e2ncia!<br>\u2003\u2003\u2014 Escuta! Eu vou te ajudar a encontrar um emprego. Voc\u00ea precisa mesmo se afastar daqui quanto antes! Viu o estado da minha filha? Minha m\u00e3e fica colocando ilus\u00f5es na cabe\u00e7a dela e eu n\u00e3o quero voc\u00ea muito perto dela! \u2014 disse ele em tom ansioso.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vejo necessidade disso! Isso s\u00f3 vai mago\u00e1-la ainda mais. Eu n\u00e3o pretendo ignorar a sua filha, Bernardo, eu pretendo ignorar voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2014 Somos dois! \u2014 respondeu convencido \u2014 Eu s\u00f3 n\u00e3o quero Carolina magoada por culpa sua. Eu vou vigiar voc\u00ea e qualquer coisa que possa dizer a ela.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vou mago\u00e1-la. N\u00e3o sou um monstro como voc\u00ea pensa.<br>\u2003\u2003\u2014 Assim que eu tiver qualquer novidade eu te aviso. Voc\u00ea j\u00e1 trouxe muitas perturba\u00e7\u00f5es para esta fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o! Eu n\u00e3o vou deixar voc\u00ea me transformar no problema!<br>\u2003\u2003Nicole disse se aproximando dele, impetuosa. E encarando-o bem nos olhos, continuou:<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 que perturba a sua fam\u00edlia! Caso n\u00e3o percebeu, voc\u00ea \u00e9 o \u00fanico que me odeia e que tem me desprezado, desde antes mesmo de eu chegar!<br>\u2003\u2003Bernardo a afastou, ligeiro. Ela estava perto demais de si com aquela postura petulante, que ele odiou mostrar-se na mulher. Sem responder mais nada, e com um \u00faltimo olhar irritado, ele saiu batendo a porta e deixou-a bufando em f\u00faria. Nicole jogou o seu su\u00e9ter longe, suspirou tentando se acalmar, e puxou roupas limpas do arm\u00e1rio. Acabou surpreendendo-se ao se deparar com um banho quente, enquanto esperava gelo. Ao voltar para seu quarto, j\u00e1 vestida, deparou-se outra vez com Bernardo sentado na cama dela com uma toalha nos ombros nus, descal\u00e7o e com o habitual <em>jeans<\/em> surrado. Foi a primeira vez, que Nicole reparou no quanto o seu \u201crival\u201d era um homem lindo. Insuportavelmente lindo e de um jeito muito inc\u00f4modo.<br>\u2003\u2003Era alto, forte como algu\u00e9m que a vida toda executou trabalhos bra\u00e7ais, mas n\u00e3o era um <em>Channing Tatum<\/em>. Tinha o corpo atl\u00e9tico que parecia convidativo a um aconchego, e mesmo com seus m\u00fasculos definidos, aparentava-se confort\u00e1vel. Sua barba quando n\u00e3o estava <em>\u201cpor fazer\u201d, <\/em>estava feita de forma impec\u00e1vel, e ela ainda n\u00e3o o vira com o rosto limpo de pelos. Os olhos dele eram azuis como os da m\u00e3e, os cabelos castanhos curtos, mas a express\u00e3o de seu olhar era sempre s\u00e9ria. Evidenciando as sobrancelhas grossas e naturais, sem nenhum tra\u00e7o de est\u00e9tica proposital. Seu rosto revelava seu maxilar quadrado, e m\u00e1sculo, as m\u00e3os eram calejadas e grandes e Nicole pensava que, decerto, eram m\u00e3os pesadas.<br>\u2003\u2003Bernardo era o t\u00edpico homem bruto e r\u00fastico, diamante n\u00e3o lapidado de um meio de mato qualquer. Mas em momentos onde estava sozinho ou concentrado no que fazia, em momentos \u00edntimos com a fam\u00edlia e que Nicole ainda n\u00e3o havia presenciado totalmente, ele era um homem doce e sutil. Carinhoso e protetor, e quanto mais \u00edntima a pessoa fosse a ele, mais ele mostrava seu aspecto moleque de uma maneira positiva.<br>\u2003\u2003\u2014 O que faz aqui?!<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3 queria dizer que voc\u00ea n\u00e3o <em>vai <\/em>conseguir o que voc\u00ea quer. Voc\u00ea se faz de boba dizendo que ir\u00e1 embora, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o que transformemos o seu drama em realidade! Voc\u00ea sair\u00e1 dessa casa quanto antes. Eu n\u00e3o posso suportar v\u00ea-la fazer cena.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah! Fa\u00e7a-me o favor! Eu quem n\u00e3o vou suportar aos seus surtos. Sai j\u00e1 daqui!<br>\u2003\u2003Nicole compreendeu que havia algo em torno de sua estadia na fazenda, que Bernardo soubesse e ela talvez n\u00e3o. Achou estranho o \u00f3dio repentino do homem, e as suas acusa\u00e7\u00f5es t\u00e3o sem sentido. Mas n\u00e3o achou que titia lhe esconderia alguma coisa, acabara de chegar \u00e0 cidade e certamente, logo ela passaria a compreender a situa\u00e7\u00e3o. Embora buscasse ser sensata, sua natureza justa n\u00e3o lhe permitia ouvir aqueles desaforos e fingir-se s\u00e3. Ao menos, n\u00e3o s\u00e3 o suficiente para ignorar uma boa briga. Acabava de perceber que brigar com Bernardo, era, ent\u00e3o, ainda mais dif\u00edcil de evitar.<br>\u2003\u2003Assim que ele saiu, contrariado, em postura metida como se desejasse mostrar que a \u00faltima palavra era dele, Rosa bateu \u00e0 porta do quarto de Nicole perguntando se estava tudo bem. Havia subido para cham\u00e1-la ao jantar, quando ouviu sua voz alterada. Imediatamente aproximou-se do quarto e n\u00e3o demorou a constatar a figura de seu irm\u00e3o, emburrado, a sair por aquela porta como quem havia escutado o que n\u00e3o queria. Bernardo nem mesmo trocou olhares com a irm\u00e3.<br>\u2003\u2003\u2014 O que ele veio fazer aqui no seu quarto?<br>\u2003\u2003\u2014 Me intimidar. Mas, est\u00e1 tudo bem, Rosa, n\u00e3o se preocupe.<br>\u2003\u2003\u2014 Certo&#8230; Eu vim avisar que o jantar est\u00e1 servido.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu j\u00e1 des\u00e7o, obrigada.<br>\u2003\u2003\u2014 Qualquer coisa me chame! E Nicole&#8230; O Bernardo \u00e9 impulsivo demais, mas ele \u00e9 uma boa pessoa. Ele s\u00f3 est\u00e1&#8230; Lidando com a sua presen\u00e7a entre n\u00f3s, de uma forma muito protetora. Ele n\u00e3o confia ainda em voc\u00ea, mas logo isso vai mudar.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu compreendo. \u2014 Nicole respondeu como se compreendesse.<br>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que n\u00e3o compreendia. N\u00e3o lhe cabia em pensamentos raz\u00f5es pelas quais, um homem, no auge de seus trinta e tr\u00eas anos, seria t\u00e3o imaturo daquela forma. N\u00e3o confiar em uma estranha sob o mesmo teto, era algo absolutamente normal para Nicole. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o confiava nas pessoas, vivia um instinto de vigil\u00e2ncia frequente, e nos \u00faltimos tempos, ainda mais. Mas, desconfiar n\u00e3o significava tratar com desprezo. Eles n\u00e3o eram inimigos e mais lhe parecia que era esta a vis\u00e3o que Bernardo tinha dela.<br>\u2003\u2003Rosa saiu e a mulher sentou-se \u00e0 pr\u00f3pria cama. De repente, as l\u00e1grimas desciam compulsivas, ela n\u00e3o conseguiu segurar os solu\u00e7os profundos de choro. Depois de tanta luta por sua posi\u00e7\u00e3o no trabalho, depois de perder os pais, depois de encarar o fim do seu noivado, depois de todas as descobertas&#8230; Por que tudo estava dando errado? Por que daquele jeito? Numa lista sucessiva de derradeiros problemas pelos quais a maioria, n\u00e3o estava em suas m\u00e3os.<br>\u2003\u2003Nicole n\u00e3o conseguia se lembrar de alguma vez travar uma onda de batalhas t\u00e3o cansativas como as \u00faltimas. At\u00e9 mesmo a luta contra o c\u00e2ncer de sua m\u00e3e, e em seguida a perda do pai, n\u00e3o lhe foram extenuantes por tanto tempo quanto estava sendo aquele momento. Nicole n\u00e3o sabia lidar com sua vida pessoal fora de seu controle, com a mesma toler\u00e2ncia que lidava como delegada. Viajar para Mato Alto foi um plano totalmente descabido, e mesmo que entre um dia ou outro, sentisse algum conforto longe dos seus problemas, de repente o pesadelo voltava duas vezes pior!<br>\u2003\u2003Cansada de lamentar-se, ela sentou-se em frente \u00e0 escrivaninha, puxou um espelho de mesa que ali estava e maquiou levemente o rosto para esconder o cansa\u00e7o e o choro. Foi de encontro \u00e0quela parte da fam\u00edlia que a esperava feliz, para o jantar. Marcelo foi muito legal e Rosa estava animada para falar das coisas de seu casamento. Carol era um recente raio de sol na sua atual escurid\u00e3o e titia lhe transmitia o afeto maternal que h\u00e1 dois anos ela havia perdido, ent\u00e3o Nicole precisava ser grata. Sentia-se na obriga\u00e7\u00e3o livre de conviver com aquelas pessoas, e ela tinha a certeza de que ao menos Carolina, teria algo muito doce a lhe dizer. Sempre.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>~ \u2665 ~<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2469],"class_list":["post-9510","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-no-coracao-da-fazenda"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9510"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}