{"id":9495,"date":"2026-01-18T12:25:40","date_gmt":"2026-01-18T15:25:40","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-18T12:34:02","modified_gmt":"2026-01-18T15:34:02","slug":"capitulo-01","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-01\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 01"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O rel\u00f3gio marcava quatro<\/span> e trinta e dois da manh\u00e3 quando Tony Stark finalmente afastou o tablet da mesa. Os olhos queimavam \u2014 mais de cansa\u00e7o do que de esfor\u00e7o \u2014 e os m\u00fasculos da mand\u00edbula denunciavam que ele havia passado tempo demais cerrando os dentes, perdido no pr\u00f3prio mundo. A sala de engenharia avan\u00e7ada, no subsolo do novo complexo dos Vingadores em Upstate New York, estava mergulhada num azul el\u00e9trico vindo de proje\u00e7\u00f5es tridimensionais, gr\u00e1ficos flutuando entre os dedos dele, f\u00f3rmulas se sobrepondo, linhas de c\u00f3digos fluindo com uma naturalidade quase irritante. N\u00e3o era apenas trabalho. Era v\u00edcio. Ref\u00fagio. Uma tentativa quase desesperada de manter o resto do mundo \u2014 e o que ele havia feito com esse mundo \u2014 em segundo plano.<br>\u2003\u2003Desde a batalha em Sokovia, Tony evitava discuss\u00f5es sobre prop\u00f3sito ou consequ\u00eancia. Deixava isso para Steve, que sempre tinha uma fala ensaiada sobre liberdade e responsabilidade. Ele preferia c\u00e1lculos. Microestruturas vibr\u00e1teis. Ajustes finos em armaduras que nunca pareciam suficientes. Se n\u00e3o estivesse revisando a compress\u00e3o das novas botas do modelo Mark XLVII, estava testando um campo de conten\u00e7\u00e3o de energia que pudesse proteger civis caso, mais uma vez, as coisas sa\u00edssem do controle, porque elas <em>sempre<\/em> sa\u00edam.<br>\u2003\u2003Rhodey tinha dito, algumas noites antes, que ele precisava dormir. Vis\u00e3o sugeriu medita\u00e7\u00e3o \u2014 como se uma mente como a de Tony Stark pudesse ser calada com respira\u00e7\u00e3o nasal e mantras. Steve, como sempre, n\u00e3o disse nada diretamente, mas o olhar dele carregava aquela cobran\u00e7a disfar\u00e7ada, aquele inc\u00f4modo que ele fazia quest\u00e3o de n\u00e3o verbalizar. Tony conhecia esse jogo. E, como um bom jogador, escolhia o pr\u00f3prio campo de batalha. A oficina, com suas mesas cobertas por componentes e impressoras 3D rugindo baixinho ao fundo, era o \u00fanico lugar onde ele ainda sentia que tinha algum senso de controle.<br>\u2003\u2003A ideia de reviver a Stark Expo surgiu como um lampejo no meio de uma madrugada insone. Ele estava mexendo em um prot\u00f3tipo de implante neural \u2014 que, se desse certo, jamais veria a luz do dia fora daquele laborat\u00f3rio, obviamente \u2014 quando se deu conta de que o mundo precisava de outra coisa. Esperan\u00e7a. Inova\u00e7\u00e3o. Uma pausa no ciclo intermin\u00e1vel de destrui\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o. A Expo seria um s\u00edmbolo. N\u00e3o dele, mas do que poderia ser feito quando c\u00e9rebros brilhantes n\u00e3o fossem usados para criar armas, mas solu\u00e7\u00f5es. O legado dele precisava de algo novo. Algo que n\u00e3o envolvesse destrui\u00e7\u00e3o ou justificativas.<br>\u2003\u2003Claro, a ideia foi recebida com ceticismo. Sam disse que era um risco expor tecnologia num evento p\u00fablico. Natasha permaneceu em sil\u00eancio, mas Tony percebeu o franzir sutil da testa dela. O \u00fanico que pareceu genuinamente interessado fora Clint, que soltou um \u201c<em>Isso seria muito interessante!<\/em>\u201d quando ouviu falar do projeto \u2014 mesmo que s\u00f3 tivesse entendido metade da explica\u00e7\u00e3o. Isso j\u00e1 bastava.<br>\u2003\u2003Ele deslizou o dedo sobre o painel da mesa, ativando a maquete digital do pavilh\u00e3o central. A nova Stark Expo aconteceria em Nova York. Uma escolha estrat\u00e9gica, segundo Sexta-Feira \u2014 distante do centro das aten\u00e7\u00f5es em Washington, mas ainda suficientemente simb\u00f3lica para causar impacto. Tony havia projetado a entrada principal com curvas futuristas e revestimento reflexivo, com pain\u00e9is solares integrados e sistemas inteligentes de refrigera\u00e7\u00e3o. Tecnologia limpa e completamente sustent\u00e1vel. O tipo de coisa que Howard Stark, em sua vis\u00e3o antiquada de progresso, provavelmente teria considerado se n\u00e3o fosse as limita\u00e7\u00f5es da sua \u00e9poca. E talvez fosse essa a verdadeira motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s de tudo: provar que era poss\u00edvel fazer diferente e que ele era diferente.<br>\u2003\u2003A proje\u00e7\u00e3o se expandiu. Salas de demonstra\u00e7\u00e3o, pain\u00e9is para jovens cientistas, \u00e1reas interativas para crian\u00e7as. Um museu dedicado \u00e0 hist\u00f3ria da engenharia \u2014 com destaque n\u00e3o para ele, mas para nomes esquecidos, mentes brilhantes que haviam contribu\u00eddo anonimamente para avan\u00e7os significativos. Tony deixou a pr\u00f3pria figura como uma nota de rodap\u00e9. \u201cFundador da Nova Era\u201d, talvez. Soava pretensioso, o que significava que era exatamente o tom certo.<br>\u2003\u2003Ele se recostou na cadeira, apoiando os cotovelos nos bra\u00e7os de metal e entrela\u00e7ando as m\u00e3os diante do rosto. Tinha esse h\u00e1bito quando se perdia em pensamentos \u2014 um gesto quase inconsciente, como se estivesse se preparando para ouvir uma pergunta dif\u00edcil. E ela sempre vinha. N\u00e3o em palavras, mas no olhar de uma crian\u00e7a em Sokovia. No sangue escorrendo do canto da boca de Pietro Maximoff. No olhar devastado de Wanda. No jeito como Steve o evitava nos corredores. Em tudo que ele tentou consertar \u2014 e acabou quebrando ainda mais.<br>\u2003\u2003Mas agora, talvez, pudesse fazer algo diferente. N\u00e3o para apagar o que houve. Isso era imposs\u00edvel. Mas para oferecer alguma esp\u00e9cie de balan\u00e7o. A Stark Expo seria isso. Um novo come\u00e7o, ou, no m\u00ednimo, uma distra\u00e7\u00e3o convincente.<br>\u2003\u2003Sexta-Feira interrompeu o fluxo dos pensamentos com sua voz gentil, mas sempre direta:<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor Stark, o diretor Fury est\u00e1 na entrada do hangar principal. Disse que \u00e9 importante.<br>\u2003\u2003Tony suspirou. Claro que era. Com Fury, sempre era.<br>\u2003\u2003Ele se levantou, estalando os dedos e alongando as costas como um homem que havia passado horas demais mergulhado em algo maior do que ele podia admitir. Talvez fosse isso que o mantinha de p\u00e9: a ilus\u00e3o de que, se constru\u00edsse o suficiente, se inventasse o suficiente, poderia um dia corrigir o desequil\u00edbrio que ajudou a causar. Ou, no m\u00ednimo, fazer o mundo acreditar que ele ainda estava tentando.<br>\u2003\u2003\u2014 Manda ele entrar \u2014 disse, ajustando o rel\u00f3gio no pulso e olhando para a proje\u00e7\u00e3o diante de si. O pavilh\u00e3o central ainda brilhava com seus planos. \u2014 Mas avisa que se ele vier com papo de \u201cestamos todos em perigo\u201d, vou cobrar ingresso pra entrada na Expo.<br>\u2003\u2003Tony n\u00e3o olhou imediatamente quando a porta do laborat\u00f3rio se abriu. Ele pensou que fosse outra pessoa voltando com algum coment\u00e1rio atrasado ou sugest\u00e3o log\u00edstica enfadonha, mas o som dos passos \u2014 pausados, seguros, mais pesados que o usual \u2014 o fez erguer os olhos com uma express\u00e3o j\u00e1 meio irritada. Assim que viu o sobretudo escuro, o andar quase militar e o tapa-olho inconfund\u00edvel, soltou um suspiro, como quem finalmente se rende ao inevit\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu achando que o laborat\u00f3rio estava livre de visitas teatrais hoje \u2014 comentou, sem disfar\u00e7ar o sarcasmo. \u2014 A Sexta j\u00e1 tinha me avisado, n\u00e3o se preocupe com entradas teatrais.<br>\u2003\u2003Nick Fury parou no meio do c\u00f4modo, como se o ambiente todo j\u00e1 estivesse sob sua leitura. A forma como ele se movia nunca era s\u00f3 deslocamento \u2014 era avalia\u00e7\u00e3o. Olho varrendo cada canto, cada detalhe, como se procurasse sinais de algo escondido at\u00e9 mesmo em cabos desconectados.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vim atr\u00e1s de teatro, Stark. Vim atr\u00e1s de bom senso.<br>\u2003\u2003Tony cruzou os bra\u00e7os e se encostou na bancada mais pr\u00f3xima, ainda segurando uma pe\u00e7a met\u00e1lica manchada de graxa. A express\u00e3o em seu rosto oscilava entre o desinteresse e o cansa\u00e7o mal disfar\u00e7ado. Ele j\u00e1 tinha ouvido esse tom antes. Quando Fury usava palavras como &#8220;bom senso&#8221;, era sinal de que algo muito ruim estava em andamento \u2014 ou prestes a cair no colo de algu\u00e9m, preferencialmente o dele. Ainda que n\u00e3o fosse mais um Vingador, ainda prestava consultoria.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre aparece quando tem alguma trag\u00e9dia no forno. Qual \u00e9 a da vez? Invas\u00e3o alien\u00edgena? Intelig\u00eancia artificial rebelde? Um clone malvado do Capit\u00e3o Am\u00e9rica?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea anda lendo relat\u00f3rios da S.H.I.E.L.D.? \u2014 Fury rebateu, seco.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o desde que descobri que a maioria deles envolvia gente tentando me matar ou usar meu DNA pra fabricar armas \u2014 Tony respondeu, largando a pe\u00e7a na bancada com mais for\u00e7a do que o necess\u00e1rio.<br>\u2003\u2003Fury avan\u00e7ou alguns passos, tirou um tablet de dentro do casaco e colocou sobre a mesa. A tela j\u00e1 exibia imagens perturbadoras: corpos, relat\u00f3rios preliminares, fotos desfocadas de cenas de crime com padr\u00f5es de ataque semelhantes. Tony n\u00e3o precisou tocar o dispositivo para entender o que Fury estava trazendo \u2014 ele conhecia aquele tipo de organiza\u00e7\u00e3o. Mortes aparentemente desconectadas, espalhadas por lugares diferentes da Europa e dos Estados Unidos, mas unidas por um tipo de brutalidade que n\u00e3o era algo visto todo dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 coisa da S.H.I.E.L.D. \u2014 Tony disse ap\u00f3s alguns segundos. \u2014 N\u00e3o \u00e9 opera\u00e7\u00e3o, nem contraespionagem. Isso me parece o tipo de coisa que a Hydra faria.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9, quase isso \u2014 Fury respondeu, sem rodeios. \u2014 Algu\u00e9m est\u00e1 limpando o tabuleiro. Nove mortes confirmadas, todas ligadas direta ou indiretamente a c\u00e9lulas remanescentes da Hydra. Todos mortos em circunst\u00e2ncias&#8230; consistentes. E a cada cena, a mesma assinatura dos assassinatos anteriores. Sem c\u00e2meras, sem testemunhas e zero rastros.<br>\u2003\u2003Tony analisou as imagens por mais um momento em sil\u00eancio. Os olhos passeando pelos rostos congelados nas telas, tentando puxar mem\u00f3rias, conex\u00f5es, qualquer coisa que fizesse sentido. Mas o padr\u00e3o era claro: algu\u00e9m com treinamento avan\u00e7ado, acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o sigilosa e, mais importante, uma motiva\u00e7\u00e3o que ia muito al\u00e9m de ordens recebidas.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que exatamente voc\u00ea quer de mim, Fury?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu quero saber se tem alguma coisa nos seus arquivos, na sua cabe\u00e7a, ou nas suas culpas que possa me dizer quem est\u00e1 fazendo isso.<br>\u2003\u2003Tony riu com uma nota amarga. Caminhou at\u00e9 a outra ponta da bancada, esfregando as m\u00e3os.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sou mais parte da S.H.I.E.L.D., se \u00e9 que algum dia fui. Eu me recusei a participar da nova divis\u00e3o que voc\u00eas est\u00e3o montando. E se algu\u00e9m a\u00ed fora decidiu fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os contra a Hydra, honestamente? N\u00e3o me surpreende. Mas n\u00e3o \u00e9 meu rastro que voc\u00ea t\u00e1 seguindo.<br>\u2003\u2003Fury ficou em sil\u00eancio por um momento. Seu olhar n\u00e3o desviava.<br>\u2003\u2003\u2014 E se esse algu\u00e9m n\u00e3o estiver s\u00f3 se vingando? E se estiver construindo algo em cima desses corpos? Uma rede ou um novo jogo. Uma nova Hydra, talvez. Ou algo pior?<br>\u2003\u2003Tony girou lentamente de volta para encar\u00e1-lo. As olheiras estavam mais fundas do que de costume. O cansa\u00e7o se manifestava em detalhes: no desalinho da barba, nos dedos sempre inquietos, nas respostas que pareciam vir com atraso. Mas os olhos ainda ardiam com aquela centelha antiga \u2014 a que acendia quando alguma coisa amea\u00e7ava escapar do controle dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Se for isso, voc\u00ea n\u00e3o devia estar falando comigo. Deveria estar ativando a equipe.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu estou tentando \u2014 Fury rebateu. \u2014 Mas metade da equipe est\u00e1 desmantelada, em suas casas ou ocupada limpando a bagun\u00e7a de Sokovia. E a outra metade est\u00e1&#8230; bem, voc\u00ea sabe. Pensando se vale a pena continuar chamando isso aqui de &#8220;time&#8221;.<br>\u2003\u2003Tony abaixou os olhos para o tablet novamente. Um dos rostos na tela o fez franzir o cenho. N\u00e3o porque conhecia a pessoa, mas pela sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de familiaridade com o modo como havia morrido. Tinha algo naquela morte \u2014 n\u00e3o no corpo, mas no jeito como foi deixado \u2014 que o incomodava mais do que ele gostaria de admitir.<br>\u2003\u2003\u2014 Quer que eu entre nesse jogo, Fury? \u2014 perguntou, a voz mais baixa. \u2014 Vai ter que ser sincero comigo. Voc\u00ea sabe alguma coisa que n\u00e3o t\u00e1 me dizendo?<br>\u2003\u2003Fury hesitou por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo apenas, mas Tony percebeu.<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda n\u00e3o. Mas estou come\u00e7ando a suspeitar que isso aqui \u00e9 mais do que parece. Algu\u00e9m est\u00e1 apagando nomes da Hydra, mas tamb\u00e9m est\u00e1 deixando um rastro para n\u00f3s. \u00c9 como se quisesse que not\u00e1ssemos, mas s\u00f3 depois da \u00faltima pe\u00e7a cair.<br>\u2003\u2003Tony encostou-se \u00e0 bancada de novo e cruzou os bra\u00e7os. O olhar perdido em algum ponto indefinido do laborat\u00f3rio. Havia algo no ar, algo que se movia entre os ru\u00eddos abafados do passado recente e o peso dos escombros deixados pela guerra com Ultron. Algo que ainda n\u00e3o tinha nome, mas que j\u00e1 estava em a\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 melhor voc\u00ea correr, Nick \u2014 murmurou. \u2014 Porque seja l\u00e1 quem est\u00e1 fazendo isso&#8230; n\u00e3o quer ser encontrado.<br>\u2003\u2003Fury assentiu uma vez. Em sil\u00eancio, recolheu o tablet, virou-se e foi embora, deixando apenas a porta se fechando atr\u00e1s dele e o som abafado dos motores da mesa reativando os hologramas.<br>\u2003\u2003Tony ficou ali, sozinho. Como sempre.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Em algum lugar da \u00c1ustria<\/strong><br>\u2003\u2003O quarto cheirava a mofo e v\u00edcio. Cortinas esfiapadas bloqueavam a luz da rua, mas deixavam passar o brilho alaranjado de um letreiro apagando e reacendendo ritmadamente, projetando sombras vacilantes nas paredes manchadas. Havia garrafas vazias espalhadas pelo ch\u00e3o, um cinzeiro transbordando de bitucas e jornais antigos empilhados em uma poltrona encardida. O \u00fanico som aud\u00edvel era o ronco entrecortado do homem deitado na cama \u2014 corpulento, suando mesmo com o frio cortante do lado de fora.<br>\u2003\u2003Quando os olhos dele se abriram, n\u00e3o foi porque o sono terminara. Foi instinto. Medo. A sensa\u00e7\u00e3o repentina de que algo estava errado.<br>\u2003\u2003A l\u00e2mpada da sala oscilou uma vez antes de se apagar completamente. Ele se ergueu com dificuldade, resmungando em alem\u00e3o, olhos vasculhando o breu. Pegou o rev\u00f3lver que estava escondido sob o travesseiro, carregado com pressa e mantido ali como um escudo in\u00fatil contra os fantasmas que sabia que um dia viriam. Sempre v\u00eam.<br>\u2003\u2003\u2014 Quem t\u00e1 a\u00ed? \u2014 A voz saiu pastosa, tensa. \u2014 Se veio me roubar, vai sair daqui com chumbo no peito.<br>\u2003\u2003Nada respondeu, mas o sil\u00eancio j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo de antes. Ele sabia. N\u00e3o era mais o sil\u00eancio de um quarto vazio, mas sim o de uma presen\u00e7a que n\u00e3o viera ali por acaso. A pausa no ar antes do colapso.<br>\u2003\u2003Um passo.<br>\u2003\u2003Ele girou o corpo para a esquerda, apontando a arma em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta do banheiro \u2014 mas ela j\u00e1 estava escancarada. Um segundo passo, desta vez, \u00e0 direita. Mas n\u00e3o vinha de onde esperava. A respira\u00e7\u00e3o acelerou, os dedos suavam contra a coronha da arma e o batimento card\u00edaco se tornou o som mais alto do c\u00f4modo.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o, a voz veio.<br>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 na hora, <em>Herr<\/em> Kraus.<br>\u2003\u2003Ele congelou.<br>\u2003\u2003N\u00e3o porque n\u00e3o reconhecesse a voz \u2014 pelo contr\u00e1rio. Reconhecia. Mas o que paralisou seu corpo foi o fato de que ela pertencia a algu\u00e9m que deveria estar morto h\u00e1 mais de vinte anos. Ou nunca ter sobrevivido \u00e0 primeira miss\u00e3o. A arma caiu com um baque surdo no ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 E ainda assim, aqui estou.<br>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que a figura surgiu atr\u00e1s dele, como se tivesse se materializado da pr\u00f3pria escurid\u00e3o. N\u00e3o havia m\u00e1scara, mas o rosto permanecia na sombra. O que se via era o brilho nos olhos \u2014 algo entre \u00f3dio e controle absoluto. Uma raiva fria, afiada, mantida viva tempo demais para que perdesse a for\u00e7a.<br>\u2003\u2003Kraus tentou recuar, mas o corpo n\u00e3o respondeu. Os joelhos tremeram, o peito arfava. N\u00e3o era um homem inocente, jamais fora. Carregava nas costas uma lista extensa de ordens dadas, execu\u00e7\u00f5es encobertas e crian\u00e7as transformadas em armas. Sabia que morreria assim, mas n\u00e3o esperava que o fim chegasse com tanta teatralidade.<br>\u2003\u2003Ou tanta crueldade.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o entende\u2026 n\u00f3s fizemos o que precis\u00e1vamos fazer. Era guerra. Guerra fria, guerra quente, guerra contra o tempo. Contra o futuro. Eu\u2026 eu s\u00f3 cumpri ordens.<br>\u2003\u2003A figura se aproximou devagar e sem pressa, exatamente como quem saboreia o medo da presa antes de mat\u00e1-la.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o faz diferen\u00e7a. N\u00e3o vim aqui pra ouvir voc\u00ea se lamentar.<br>\u2003\u2003O primeiro golpe veio com uma faca curva, curta, embebida em ferrugem. Rasgou o ombro de Kraus em um movimento seco, que o fez soltar um grito agudo, quase infantil. Tentou lutar, empurrar, mas foi derrubado contra a parede com for\u00e7a brutal. O corpo do homem se chocou contra o reboco podre e tombou de lado, engasgando com o pr\u00f3prio sangue.<br>\u2003\u2003A l\u00e2mina dan\u00e7ou pelo torso dele com crueldade. Rasgou pele, m\u00fasculos, costelas. Cada corte era deliberado, infligido n\u00e3o para matar, mas para ferir e fazer arder. As m\u00e3os de Kraus se ergueram em v\u00e3o, tentando conter a hemorragia que jorrava em pulsos vermelhos escuros.<br>\u2003\u2003\u2014 Por favor\u2026 por favor\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Pediu piedade? Quantas vezes eu pedi e voc\u00ea n\u00e3o ouviu?<br>\u2003\u2003Um novo corte, agora no rosto. Uma linha diagonal que dividiu a bochecha de cima a baixo, expondo dentes e ossos. Kraus gritava, engasgava, implorava por algo que nunca havia dado a ningu\u00e9m.<br>\u2003\u2003A figura ajoelhou-se diante dele, com o rosto ainda fora da luz. Sangue respingava no ch\u00e3o, formando po\u00e7as espessas que corriam para os cantos do quarto. Um som \u00famido e viscoso ecoava cada vez que a l\u00e2mina sa\u00eda da carne. E, mesmo assim, havia conhecimento. Havia controle. N\u00e3o era loucura, era c\u00e1lculo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea lembra da unidade de Kiev? \u2014 A voz dela soou mais baixa. \u2014 Lembra das meninas levadas? Lembra do que fez com elas?<br>\u2003\u2003Kraus chorava. O rosto inchado, o olho esquerdo virado para cima, a l\u00edngua tentando formar palavras.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu\u2026 eu\u2026 n\u00e3o fui eu. Foram os superiores. Eu s\u00f3 cuidava da triagem.<br>\u2003\u2003A resposta veio como um sussurro col\u00e9rico:<br>\u2003\u2003\u2014 Mentir n\u00e3o vai te poupar da morte, Kraus. Voc\u00ea \u00e9 um covarde at\u00e9 na hora de morrer&#8230; t\u00e3o pat\u00e9tico.<br>\u2003\u2003O \u00faltimo golpe foi direto no est\u00f4mago, uma perfura\u00e7\u00e3o certeira e funda, feita com for\u00e7a e inten\u00e7\u00e3o. Ela empurrou a l\u00e2mina at\u00e9 o cabo, torceu levemente e o deixou ali, pendurado, enquanto ele convulsionava.<br>\u2003\u2003Ela observou o corpo at\u00e9 os espasmos cessarem. At\u00e9 que o sangue se tornasse po\u00e7a e o ar no quarto cheirasse a ferro oxidado e fezes. Ent\u00e3o se ergueu, passou os dedos enluvados pelo queixo, limpou o rosto com um len\u00e7o de tecido branco \u2014 que logo ficou manchado de vermelho. Antes de sair, olhou para o cad\u00e1ver e murmurou com desd\u00e9m:<br>\u2003\u2003\u2014 O d\u00e9cimo foi pro inferno. Faltam quantos, mesmo?<br>\u2003\u2003A porta rangeu ao se fechar atr\u00e1s dela. E mais uma vez, ela desapareceu sem deixar rastros.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Bucareste, Rom\u00eania \u2013 Dois dias depois<\/strong> <br>\u2003\u2003O r\u00e1dio da padaria na esquina chiava em volume baixo, transmitindo uma esta\u00e7\u00e3o de not\u00edcias local em romeno com sotaque carregado. O padeiro nem prestava aten\u00e7\u00e3o \u2014 os dedos cobertos de farinha seguiam moldando a massa como fazia todas as manh\u00e3s. Mas do outro lado da rua, em uma pequena pens\u00e3o de fachada esverdeada e goteiras reincidentes, uma televis\u00e3o antiga transmitia a mesma not\u00edcia, s\u00f3 que desta vez com imagens. Estavam em todos os canais, em todos os idiomas.<br>\u2003\u2003Um homem aparecia deitado em um ch\u00e3o sujo, com o rosto borrado, mas o cen\u00e1rio era inconfund\u00edvel. Sangue. Sangue em abund\u00e2ncia, escorrendo pelas juntas do piso como tinta viva. Um rep\u00f3rter em voz alta e apressada falava em &#8220;execu\u00e7\u00e3o cruel&#8221;, \u201cliga\u00e7\u00e3o com casos anteriores\u201d, &#8220;modus operandi perturbador&#8221;.<br>\u2003\u2003Sentado \u00e0 mesa com uma tigela de mingau frio pela metade, Bucky Barnes observava. O vapor j\u00e1 havia desaparecido da comida havia tempo, mas ele n\u00e3o havia se dado ao trabalho de terminar. Os olhos estavam fixos no aparelho de tubo, emoldurados por olhares atentos e a barba por fazer. O cabelo, preso de qualquer jeito, pingava levemente da \u00e1gua do banho recente. Mas o olhar \u2014 o olhar estava seco e alerta. Parado como uma armadilha prestes a se fechar.<br>\u2003\u2003A c\u00e2mera mostrava imagens do pr\u00e9dio em Linz, cercado por fitas amarelas e carros da pol\u00edcia. Um policial, visivelmente abalado, dava uma declara\u00e7\u00e3o curta. \u201cNunca vi nada assim, nem em guerras. Nem em livros de horror.\u201d As legendas passavam devagar, como se quisessem garantir que ningu\u00e9m perdesse o impacto do que estava sendo dito.<br>\u2003\u2003<em>\u201c\u00c9 o d\u00e9cimo caso desde Praga.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Bucky inclinou-se para a frente, a mand\u00edbula tensa. Ele n\u00e3o precisava que dissessem em voz alta \u2014 ele sabia o que aquilo significava. Cada nova v\u00edtima era um uma pecinha removida. O tipo de morte\u2026 as marcas\u2026 a viol\u00eancia implac\u00e1vel \u2014 ele conhecia esse estilo. Conhecia bem demais.<br>\u2003\u2003A rep\u00f3rter continuava: \u201c<em>As autoridades suspeitam de um assassino com treinamento militar avan\u00e7ado, possivelmente ex-KGB, dada a natureza ritualizada das execu\u00e7\u00f5es e o hist\u00f3rico das v\u00edtimas, todas ligadas a atividades clandestinas durante a Guerra Fria.<\/em>\u201d<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o reagiu de imediato, mas a m\u00e3o esquerda tremia levemente sobre a mesa, a de carne e osso. A outra \u2014 fria, met\u00e1lica, im\u00f3vel como uma est\u00e1tua \u2014 repousava sobre a coxa, coberta pela luva que sempre usava. Sua respira\u00e7\u00e3o se tornou irregular, mas o rosto permaneceu impass\u00edvel, como se toda a tempestade estivesse trancada por tr\u00e1s de um vidro grosso.<br>\u2003\u2003Uma \u00faltima imagem surgiu na tela: a ficha de Franz Kraus, ex-diretor de opera\u00e7\u00f5es log\u00edsticas da Stasi, suspeito de colaborar com c\u00e9lulas da Hydra antes do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. &#8220;Considerado morto para o mundo desde 1993.&#8221; Agora, literalmente.<br>\u2003\u2003\u2014 Quem est\u00e1 fazendo isso\u2026? \u2014 ele murmurou para si mesmo, sem esperar resposta.<br>\u2003\u2003Porque parte dele j\u00e1 sabia.<br>\u2003\u2003Havia um padr\u00e3o nos alvos. Nomes que ele reconhecia, ou cujas hist\u00f3rias eram sussurradas pelos cantos escuros da Hydra. Gente que deveria estar enterrada no esquecimento, vivendo com nomes falsos, protegidos por anos de acordos sujos e corrup\u00e7\u00e3o internacional. Agora todos estavam sendo varridos, um a um.<br>\u2003\u2003Mas o que Bucky n\u00e3o compreendia, o que o corro\u00eda por dentro, era o <em>porqu\u00ea<\/em>.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era a S.H.I.E.L.D. \u2014 n\u00e3o operavam assim. N\u00e3o era Fury. Ele era impiedoso, mas n\u00e3o s\u00e1dico. Tamb\u00e9m n\u00e3o era a Natasha. Ela matava por necessidade, n\u00e3o por espet\u00e1culo. E, acima de tudo, havia algo nos detalhes \u2014 nos pequenos rituais ao redor das mortes \u2014 que trazia \u00e0 tona mem\u00f3rias antigas. Treinamento. Tortura. Controle.<br>\u2003\u2003Armas fabricadas, como ele fora um dia.<br>\u2003\u2003Desligou a televis\u00e3o com um estalo seco do controle remoto. A tela ficou preta, refletindo seu rosto cansado de forma distorcida. Ele se levantou, passou as m\u00e3os pelos cabelos e encarou a janela. A rua seguia tranquila, o sol filtrado pelas nuvens cinzentas. Mas havia uma urg\u00eancia no ar, algo invis\u00edvel se acumulando. Como eletricidade est\u00e1tica antes do trov\u00e3o.<br>\u2003\u2003Se aquilo estava acontecendo, ele precisava descobrir quem era. E mais importante: o que essa pessoa queria, porque algo lhe dizia que, mesmo n\u00e3o sendo o alvo agora\u2026 poderia ser em breve. E, de algum modo, aquele massacre em s\u00e9rie j\u00e1 tinha tudo a ver com ele.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u2003\u2003Em algum lugar da \u00c1ustria \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u2003\u2003Bucareste, Rom\u00eania \u2013 Dois dias depois<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2504],"class_list":["post-9495","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9495"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}