{"id":9491,"date":"2026-01-18T02:10:35","date_gmt":"2026-01-18T05:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-18T02:10:35","modified_gmt":"2026-01-18T05:10:35","slug":"capitulo-unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/perielio\/capitulo-unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00danico"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Jordan n\u00e3o piscou. Se o sol achava que podia encar\u00e1-lo de volta, ia perder.<br \/>\n\u2003\u2003Do alto da cobertura, Montgomery n\u00e3o parecia uma cidade; parecia um invent\u00e1rio. Pr\u00e9dios, ruas, pessoas \u2014 tudo l\u00e1 embaixo era min\u00fasculo, pe\u00e7as de um tabuleiro que ele j\u00e1 tinha virado de cabe\u00e7a para baixo e sacudido at\u00e9 os bolsos encherem. O horizonte sangrava em dourado, a cor exata das barras que ele mantinha no cofre em Zurique.<br \/>\n\u2003\u2003Ele levou o copo \u00e0 boca. O whisky de trinta anos desceu rasgando, sem gosto, apenas uma anestesia l\u00edquida e cara. Sua pele era uma constela\u00e7\u00e3o de termina\u00e7\u00f5es nervosas. Ele n\u00e3o bebia para apreciar o sabor, bebia para calar o barulho da pr\u00f3pria cabe\u00e7a, aquele zumbido constante de quem precisa da pr\u00f3xima vit\u00f3ria como um asm\u00e1tico precisa de ar.<br \/>\n\u2003\u2003A luz invadia a sala, batendo no vidro blindado. N\u00e3o era &#8220;magn\u00edfica&#8221;. Era insolente. Aquele clar\u00e3o todo entrava sem pedir licen\u00e7a, iluminando os cantos escuros que o dinheiro deveria ter mantido na sombra. Jordan odiava o sol pelo mesmo motivo que amava o dinheiro: o sol era a verdade crua, e a verdade era algo que ele tinha passado os \u00faltimos sete anos tentando comprar ou soterrar.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se viu no reflexo do vidro. O terno italiano cortado sob medida, o maxilar tenso, os olhos de um predador entediado. N\u00e3o havia nada de poeta ali. Nada de trovador inseguro. Havia apenas a fome. Uma fome que engolia empresas, cidades e mulheres, e que continuava roncando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Senhor?<br \/>\n\u2003\u2003Jordan n\u00e3o se virou. O reflexo no vidro mostrou o funcion\u00e1rio parado na porta, segurando uma caixa com as duas m\u00e3os, como se carregasse uma bomba ou uma oferenda. O garoto cheirava a medo e desodorante barato.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Chegou correspond\u00eancia. \u2014 o rapaz disse.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan girou o gelo no copo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Tem um remetente ou \u00e9 mais um da lista de convidados puxa-sacos?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9&#8230; \u00e9 um presente de casamento, senhor. Papel de seda. Parece caro.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan soltou uma risada curta, seca. O som de algo quebrando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Lixo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Senhor? Eu n\u00e3o entendo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 surdo ou s\u00f3 est\u00fapido? \u2014 Jordan girou o corpo, a cadeira de couro rangendo. \u2014 Eu disse: <em>lixo<\/em>. Se n\u00e3o for um contrato ou um cheque, eu n\u00e3o quero ver. Joga essa merda fora.<br \/>\n\u2003\u2003O garoto engoliu em seco, o pomo de ad\u00e3o subindo e descendo. Sem dizer palavra, caminhou at\u00e9 a lixeira de metal escovado e soltou a caixa. O baque surdo foi o \u00fanico som na sala.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Saia.<br \/>\n\u2003\u2003A porta se fechou. Jordan voltou para a janela. O sol tinha desistido e mergulhado no horizonte, deixando para tr\u00e1s um rastro roxo, hematoma no c\u00e9u. Montgomery come\u00e7ava a acender as luzes artificiais. Melhor assim. A luz el\u00e9trica ele podia controlar. A escurid\u00e3o ele podia comprar.<br \/>\n\u2003\u2003Virou o resto do copo num gole s\u00f3. O \u00e1lcool queimou, mas n\u00e3o foi o suficiente. Nunca era.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a><strong>\u2726\u2726\u2726<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u2003\u2003A porta de vidro se abriu, acionando um sino estridente, barato. Jordan fez uma careta. O som combinava com o lugar: pequeno, \u00famido, cheirando a terra molhada e fertilizante. Um cheiro org\u00e2nico que invadiu o nariz dele e brigou com o perfume importado de trezentos d\u00f3lares que ele usava.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o havia &#8220;outro sol&#8221; ali. Havia apenas trabalho bra\u00e7al.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 vai. \u2014 a voz veio dos fundos, sem pressa.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi surgiu atr\u00e1s de uma cortina de contas, limpando as m\u00e3os num avental manchado de verde e marrom. Ela n\u00e3o correu. N\u00e3o sorriu. Parou no meio do caminho quando o viu, e a express\u00e3o dela n\u00e3o mudou um mil\u00edmetro. N\u00e3o houve o &#8220;fraquejar&#8221; rom\u00e2ntico; houve apenas o reconhecimento frio de um problema que ela teria que resolver.<br \/>\n\u2003\u2003Ela segurava uma tesoura de poda como se fosse uma extens\u00e3o da m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A revis\u00e3o do or\u00e7amento \u00e9 amanh\u00e3, senhor Capri. \u2014 ela disse. Seca. Voltou a aten\u00e7\u00e3o para um ma\u00e7o de g\u00e9rberas sobre o balc\u00e3o e continuou a cortar os caules. <em>Tlec. Tlec.<\/em> O som era r\u00edtmico, indiferente \u00e0 presen\u00e7a dele.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan sentiu a irrita\u00e7\u00e3o subir. Ele estava acostumado a parar o tr\u00e2nsito quando entrava numa sala. Naomi nem sequer tinha parado de trabalhar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vim falar de flores. \u2014 ele disse, dando um passo \u00e0 frente, invadindo o espa\u00e7o pessoal do balc\u00e3o. Ele n\u00e3o pediu licen\u00e7a. \u2014 Tem um caf\u00e9 na esquina. O dono me deve um favor, vai fechar pra gente. Vamos.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi soltou a tesoura. O metal bateu na madeira gasta. Ela finalmente levantou os olhos. N\u00e3o eram olhos de quem estava intimidada; eram olhos de quem estava cansada de lidar com crian\u00e7as mimadas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu tenho encomendas para entregar. N\u00e3o tenho tempo para caf\u00e9s fechados e conversas sobre o passado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu estou pagando por esse tempo. \u2014 Jordan retrucou. A voz dele saiu mais agressiva do que planejava, o &#8220;Lobo&#8221; mostrando os dentes. Ele apoiou as m\u00e3os no balc\u00e3o, ignorando a poeira de p\u00f3len que sujaria o terno italiano. \u2014 O cheque que a Gareth assinou cobre o aluguel desse buraco por um ano. Eu te disse. Acho que voc\u00ea pode tirar dez minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi o encarou. Por um segundo, Jordan achou que ela fosse mand\u00e1-lo para o inferno. Ele queria que ela mandasse. Ele queria a briga.<br \/>\n\u2003\u2003Mas ela apenas suspirou, um som curto pelo nariz. Desamarrou o avental e o jogou sobre as flores, sem cerim\u00f4nia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Dez minutos. \u2014 ela disse. N\u00e3o era uma concord\u00e2ncia, era um ultimato.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o foi at\u00e9 a porta virar a placa para &#8220;Closed&#8221;. N\u00e3o pegou bolsa, n\u00e3o ajeitou o cabelo, n\u00e3o checou o batom. N\u00e3o tocou os l\u00e1bios como se eles tivessem sido beijados. Ela simplesmente contornou o balc\u00e3o e passou por ele, cheirando a chuva e esfor\u00e7o f\u00edsico, ignorando completamente o bra\u00e7o que ele estendeu para lhe dar passagem.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00e1 fora, o motorista j\u00e1 segurava a porta do Maybach aberta. Naomi parou, olhou para o carro de luxo estacionado em fila dupla, atrapalhando o tr\u00e2nsito, e depois olhou para Jordan. Havia um desprezo silencioso ali. Ela entrou no banco de tr\u00e1s sem cumprimentar o motorista, sem tocar no couro bege com admira\u00e7\u00e3o, sentando-se na ponta do banco como se estivesse num \u00f4nibus lotado, doida para descer.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan entrou logo depois, fechando a porta e o mundo real l\u00e1 fora. O ar-condicionado estava gelado, o isolamento ac\u00fastico era perfeito, mas o sil\u00eancio dela fazia mais barulho do que o tr\u00e2nsito de todo o Alabama.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a><strong>\u2726\u2726\u2726<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u2003\u2003O carro parou. O motorista abriu a porta, mas Jordan n\u00e3o esperou. Saiu ajeitando os punhos da camisa, marchando para dentro do caf\u00e9 como se fosse o dono do im\u00f3vel \u2014 e, pelos pr\u00f3ximos trinta minutos, tecnicamente era.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi veio logo atr\u00e1s. Ela n\u00e3o olhou para o ch\u00e3o, nem para o teto luxuoso. Olhou para as costas dele.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00e1 dentro, o sil\u00eancio era artificial. Jordan estalou os dedos. Um gar\u00e7om surgiu da sombra com uma garrafa de vinho que custava tr\u00eas meses de sal\u00e1rio de um trabalhador comum.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ch\u00e2teau Margaux. \u2014 Jordan anunciou, sentando-se sem puxar a cadeira para ela. \u2014 Safra de 95. O ano em que sa\u00ed daquela pocilga onde a gente morava. Achei po\u00e9tico.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi sentou-se. Ajeitou o casaco barato sobre o colo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o bebo em servi\u00e7o. \u00c1gua. Sem g\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan riu. O som bateu nas paredes vazias. Ele fez um sinal para o gar\u00e7om, que serviu o vinho para ele e a \u00e1gua para ela, tremendo levemente. Em seguida, os funcion\u00e1rios evaporaram, deixando os dois sozinhos com o zumbido do ar-condicionado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea continua teimosa. \u2014 Jordan girou a ta\u00e7a, observando o l\u00edquido vermelho manchar o cristal. \u2014 E continua vestindo roupas de liquida\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea continua achando que o pre\u00e7o da etiqueta muda quem est\u00e1 vestindo a roupa.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan parou a ta\u00e7a no ar. O sorriso dele n\u00e3o vacilou, mas os olhos ficaram frios.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O or\u00e7amento das flores est\u00e1 aprovado. Dobre o valor. Gareth n\u00e3o olha extratos banc\u00e1rios, e eu quero que voc\u00ea use o melhor. Nada daquelas margaridas de cemit\u00e9rio que voc\u00ea vendia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O or\u00e7amento est\u00e1 adequado ao pedido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o entendeu. Eu n\u00e3o estou pedindo. Estou mandando voc\u00ea lucrar. \u2014 ele se inclinou sobre a mesa, o cheiro de \u00e1lcool e perfume caro invadindo o espa\u00e7o dela. \u2014 Olhe em volta, Naomi. Eu fechei um estabelecimento na Old Cloverdale numa ter\u00e7a-feira \u00e0 tarde. Eu tenho homens na porta esperando minha ordem para respirar. E voc\u00ea quer falar de economia?<br \/>\n\u2003\u2003Naomi tomou um gole de \u00e1gua. Devagar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu quero falar sobre por que estou aqui. Se o or\u00e7amento est\u00e1 aprovado, eu vou embora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 aqui porque eu quero olhar para voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003A frase saiu crua. Jordan n\u00e3o sentia &#8220;euforia rom\u00e2ntica&#8221;. Ele sentia a fome de quem v\u00ea um objeto antigo numa vitrine e lembra que agora tem cr\u00e9dito para comprar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o mudou nada. \u2014 ele continuou, a voz baixando um tom, tornando-se perigosa. \u2014 Ainda tem esse olhar de quem sabe mais do que todo mundo. O mesmo olhar que voc\u00ea me deu quando eu disse que ia embora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea foi embora. \u2014 ela corrigiu, a voz mon\u00f3tona. \u2014 Voc\u00ea <em>fugiu<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu <em>venci<\/em>. \u2014 Jordan bateu a base da ta\u00e7a na mesa. O cristal tiniu. \u2014 Existe uma diferen\u00e7a. Eu sa\u00ed do buraco. Eu constru\u00ed um imp\u00e9rio. Eu vou me casar com uma mulher cujo sobrenome abre portas que voc\u00ea nem sabe que existem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o por que est\u00e1 tremendo, Jordan?<br \/>\n\u2003\u2003Ele travou. Olhou para a pr\u00f3pria m\u00e3o sobre a mesa. Estava firme, im\u00f3vel como uma est\u00e1tua. Mas a vibra\u00e7\u00e3o estava l\u00e1, no ar, no vidro, no peito. Queria saber se era ele quem estava tremendo, ou se era ela quem fazia a terra tremer.<br \/>\n\u2003\u2003Mas Naomi n\u00e3o olhava para a m\u00e3o dele. Olhava para o rosto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me trouxe aqui para se exibir. \u2014 ela disse. N\u00e3o era uma pergunta. \u2014 Para me mostrar o terno, o carro, o vinho. Voc\u00ea quer que eu me arrependa. Quer que eu olhe para isso tudo e pense: &#8220;Nossa, eu perdi um rei&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003Ele s\u00f3 queria uma resposta. Simples. Bin\u00e1ria. Sim, voc\u00ea venceu. N\u00e3o, eu errei. Mas Naomi n\u00e3o dava respostas, ela dava diagn\u00f3sticos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea perdeu. \u2014 ele rosnou. \u2014 Voc\u00ea ficou com a poeira e as d\u00edvidas. Eu tenho o mundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem um circo. \u2014 Naomi levantou-se. O movimento foi suave, sem o rompante dram\u00e1tico de novelas. Foi o movimento de algu\u00e9m que percebe que o filme \u00e9 ruim e decide sair do cinema. \u2014 Gareth Thompson n\u00e3o \u00e9 sua esposa, \u00e9 sua s\u00f3cia. Esse vinho n\u00e3o \u00e9 gostoso, \u00e9 caro. E voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um vencedor, Jordan. Voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 um menino assustado brincando de banco imobili\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan levantou-se tamb\u00e9m. A cadeira raspou no ch\u00e3o com viol\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vire as costas para mim. Eu posso comprar essa cidade inteira e demolir aquela sua loja amanh\u00e3 de manh\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi parou. Virou apenas o rosto. O sol da tarde batia na vitrine l\u00e1 fora, mas ali dentro, na sombra artificial que ele tinha comprado, ela parecia brilhar sozinha.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea pode comprar a loja, Jordan. Mas nunca vai conseguir comprar o que eu sinto quando coloco a cabe\u00e7a no travesseiro. \u2014 ela olhou para ele com uma pena devastadora. \u2014 Eu durmo. Voc\u00ea s\u00f3 desmaia.<br \/>\n\u2003\u2003Ela caminhou at\u00e9 a porta. O sino tocou novamente na sa\u00edda. <em>Trim.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Jordan ficou sozinho. O vinho na ta\u00e7a parecia sangue velho. Ele olhou para o lugar onde ela tinha sentado. O copo de \u00e1gua estava intocado, o vidro suando, a \u00fanica coisa real naquela mesa.<br \/>\n\u2003\u2003Ele virou o vinho na garganta. N\u00e3o desceu. Queimou.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a><strong>\u2726\u2726\u2726<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u2003\u2003A sala de espera cheirava a laqu\u00ea e um pouco de ansiedade. Jordan ajustou as abotoaduras de ouro. O motorista segurava o Rolex como quem segura uma granada sem pino, com medo de respirar errado perto do chefe. N\u00e3o havia &#8220;amizade&#8221; ali. Havia hierarquia. Jordan pagava, o motorista obedecia. Era a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o honesta que restava naquela sala.<br \/>\n\u2003\u2003Ele se olhou no espelho. O smoking preto n\u00e3o era s\u00f3 uma roupa; era uma armadura de combate. O tecido italiano escondia o homem e projetava o Deus. Se ele n\u00e3o soubesse que a gravata estava apertada, diria que eram as pr\u00f3prias m\u00e3os do destino em volta de seu pesco\u00e7o, garantindo que ele n\u00e3o fugisse.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan olhou para a entrada. As flores. <em>Malditas flores.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Gareth tinha pagado o triplo. Naomi tinha aceitado. Jordan sorriu com esc\u00e1rnio para os arranjos de l\u00edrios brancos. Naomi n\u00e3o era santa; ela era pr\u00e1tica. Ela tinha mandado as flores mais bonitas e mais caras do Alabama, n\u00e3o como um presente, mas como uma fatura. Cada p\u00e9tala branca gritava o pre\u00e7o que ele estava pagando para estar ali.<br \/>\n\u2003\u2003Ele caminhou para o corredor. O tapete vermelho se estendia como uma l\u00edngua.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0 medida que andava, Jordan n\u00e3o via convidados; via o PIB dos Estados Unidos sentado nos bancos de madeira. Banqueiros, pol\u00edticos, magnatas. Eles n\u00e3o estavam ali para celebrar o amor. Estavam ali para testemunhar uma fus\u00e3o. Gareth Thompson n\u00e3o era uma noiva; era um ativo estrat\u00e9gico. O casamento era a assinatura final do contrato que lhe daria a Europa.<br \/>\n\u2003\u2003<em>Meu dia. Minha esposa. Meu imp\u00e9rio.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Ele repetiu o mantra. Os flashes dos fot\u00f3grafos estouraram quando ele entrou na nave da igreja, cegando-o momentaneamente. Era isso. A dopamina. A droga. O mundo olhando para ele.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan chegou ao altar. Virou-se. E ent\u00e3o, o mundo parou.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00e1 no fundo, na \u00faltima fileira, onde a luz dos vitrais morria, estava a mancha vermelha. <em>Naomi<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o estava sorrindo. O rosto dela era uma m\u00e1scara de pedra. Ela n\u00e3o estava ali para impedir o casamento, nem para chorar, nem para torcer. Estava ali como quem assiste a um acidente de carro: com a curiosidade m\u00f3rbida de ver o estrago.<br \/>\n\u2003\u2003O olhar dela atravessou a igreja e acertou Jordan no peito. N\u00e3o havia amor naqueles olhos. Havia reconhecimento. Ela sabia exatamente o que ele era: um menino pobre fantasiado de rei. Ela estava ali para v\u00ea-lo fechar o caix\u00e3o por dentro.<br \/>\n\u2003\u2003A m\u00fasica mudou. Gareth entrou.<br \/>\n\u2003\u2003A multid\u00e3o suspirou. A noiva inglesa era uma vis\u00e3o de poder, seda e diamantes. Jordan olhou para ela e viu o futuro: jantares beneficentes, capas de revista, contas na Su\u00ed\u00e7a. Era a uni\u00e3o perfeita. A uni\u00e3o de dois predadores no topo da cadeia alimentar.<br \/>\n\u2003\u2003Gareth chegou ao lado dele. Sorriu. Um sorriso de s\u00f3cia majorit\u00e1ria.<br \/>\n\u2003\u2003O padre come\u00e7ou a falar. Palavras antigas, vazias, sobre &#8220;amor&#8221; e &#8220;fidelidade&#8221;. Jordan n\u00e3o ouvia. O zumbido na cabe\u00e7a dele era ensurdecedor. Ele olhou para o fundo da igreja novamente. Naomi ainda estava l\u00e1. Im\u00f3vel. O vestido vermelho era a \u00fanica coisa viva naquele mausol\u00e9u de pedra e dinheiro.<br \/>\n\u2003\u2003Ela era a sa\u00edda de emerg\u00eancia. A porta para o mundo real, onde as coisas do\u00edam, onde o caf\u00e9 era barato e o sono era tranquilo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Gareth Thompson, aceita Jordan Capri como seu leg\u00edtimo esposo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Aceito. \u2014 a resposta dela foi um disparo r\u00e1pido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Jordan Capri\u2026<br \/>\n\u2003\u2003O padre se virou para ele. O sil\u00eancio na igreja pesou toneladas.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan olhou para Naomi uma \u00faltima vez. Ela n\u00e3o desviou o olhar. Ela o desafiou. <em>Vai em frente<\/em>, os olhos dela diziam. <em>Termine o servi\u00e7o. Vire a coisa que voc\u00ea tanto queria ser.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003O ar faltou. O &#8220;Lobo&#8221; dentro dele uivou, faminto, desesperado pela ca\u00e7a, pelo topo, pelo ouro. Mas o menino que apanhava do pai queria correr. Queria descer aquele altar, pegar a mulher de vermelho e sumir na chuva. Queria saber se ela ainda o aceitaria de volta, mas ele n\u00e3o sabia como perguntar.<br \/>\n\u2003\u2003Gareth pigarreou. Um som discreto, afiado como uma navalha.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan olhou para a noiva. Viu a impaci\u00eancia nos olhos dela. Viu o contrato. Viu o poder.<br \/>\n\u2003\u2003Ele respirou fundo. O cheiro de l\u00edrios e dinheiro encheu seus pulm\u00f5es. Ele olhou para o fundo da igreja e, mentalmente, matou o menino pobre. Hesitou, mas o fez de qualquer jeito. Enterrou-o ali mesmo, debaixo do m\u00e1rmore frio.<br \/>\n\u2003\u2003Jordan Capri endireitou a postura. O sorriso que ele abriu n\u00e3o tinha alegria; tinha dentes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Aceito.<br \/>\n\u2003\u2003Naomi se levantou e saiu antes do beijo. E Jordan nunca mais viu o sol.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Fim<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2726\u2726\u2726 \u2726\u2726\u2726 \u2726\u2726\u2726 Fim<\/p>\n","protected":false},"author":156,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"template-historia-longa.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2502],"class_list":["post-9491","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-perielio"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9491","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/156"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9491"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}