{"id":9469,"date":"2026-01-13T10:26:41","date_gmt":"2026-01-13T13:26:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-13T12:20:11","modified_gmt":"2026-01-13T15:20:11","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/no-coracao-da-fazenda\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"capitular1\">O<\/span> Sol incidia fraco pela janela do quarto, Nicole abriu os olhos calmamente e percebeu qu\u00e3o cedo era. Levantou-se indo ao banheiro e fazendo o m\u00ednimo de barulho, se arrumou para descer. O banho da manh\u00e3, para seu espanto, era gelad\u00edssimo, a mulher batia o queixo ao sair do chuveiro e com isso, agasalhou-se ao voltar para o seu quarto. Abriu a janela, e saiu pela portinha da sacada, assim p\u00f4de assistir ao nascer do Sol ali, uma vista linda! Avistou um casar\u00e3o azul desbotado, algo parecido com um celeiro e um vasto campo verde. Montanhas ao fundo desenhavam o horizonte como um quadro, e n\u00e3o eram montanhas muito long\u00ednquas.<br>\u2003\u2003Bernardo sa\u00eda do celeiro naquele momento, e Nicole tentou n\u00e3o deixar aquela figura junto \u00e0 lembran\u00e7a da noite passada estragar o seu dia. Deu as costas para a sacada e desceu ao t\u00e9rreo, notando nenhum movimento. Timidamente caminhou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha e como o c\u00f4modo ainda dormia, ela mesma resolveu preparar o caf\u00e9. Procurou sem o menor vest\u00edgio de intimidade: o bule, o coador, o p\u00f3 de caf\u00e9 e outros utens\u00edlios. Um peda\u00e7o pequeno de bolo, que sobrara da tarde anterior, estava sobre a mesa. Havia biscoitos caseiros tamb\u00e9m em um pote, mas da forma como viu a pequenina Carolina com\u00ea-los, Nicole sup\u00f4s n\u00e3o terem sobrado muito mais do que aqueles que estavam ali. Ent\u00e3o ela procurou ingredientes para preparar outro bolo.<br>\u2003\u2003Encontrou fub\u00e1, queijo e erva-doce, e assim preparou um bolo de fub\u00e1 cremoso com queijo. Receita da sua saudosa m\u00e3e. Enquanto a \u00e1gua fervia e o fog\u00e3o \u00e0 lenha aquecia, Nicole batia a mistura homog\u00eanea sorrindo para um rel\u00f3gio engra\u00e7adinho que notou \u00e0 parede acima da pia. O rosto de uma vaquinha com os n\u00fameros e ponteiros que marcavam seis da manh\u00e3. Untou o tabuleiro que com muito vira e revira encontrou e o forno, pr\u00e9-aquecido, j\u00e1 pegava brasa. Coou o caf\u00e9 e aumentou a lenha a fim de que as chamas subissem e rapidamente o bolo assasse. Com uma canequinha de barro \u2014 dessas dos tempos de vov\u00f3 \u2014 serviu-se de caf\u00e9 e foi at\u00e9 a varanda da frente, e por um instante o seu mundo conturbado e de ponta-cabe\u00e7a desaparecera.<br>\u2003\u2003Que linda paisagem avistara! Um horizonte alaranjado, a enorme bola de fogo solar suspendendo no c\u00e9u, as galinhas cacarejando pelo quintal como se louvassem aquele amanhecer. Canelinha, o c\u00e3ozinho franzino da casa, era a imagem da pregui\u00e7a. Deitado sobre as patinhas cruzadas, \u00e0 beira da escada da varanda olhando ao Sol e ao festejar das galinhas, t\u00e3o indiferente\u2026 Para ele deveria ser mon\u00f3tono passar todos os dias pela mesma cena, mas para Nicole era novidade. Uma garota da selva de pedra, da grande cidade de S\u00e3o Paulo que estava diante \u00e0 vida aparente.<br>\u2003\u2003Ela ficou absorta naqueles novelos de natureza e magia da vida at\u00e9 Rosa se aproximar desejando-lhe um bom dia. Conversaram um pouco e Nicole a seguiu para a cozinha, Rosa tinha em seus bra\u00e7os alguns pap\u00e9is e na mesa apinhou-se a corrigi-los, explicou tratarem-se das \u00faltimas provas de uma turminha do ensino fundamental para quem ela dava aulas. Serviu-se de uma x\u00edcara de caf\u00e9 e ao ver as x\u00edcaras que Nicole pegava, riu.<br>\u2003\u2003\u2014 As x\u00edcaras novas est\u00e3o na prateleira superior do arm\u00e1rio branco, Nicole. N\u00e3o use estas velhas canequinhas!<br>\u2003\u2003\u2014 Eu prefiro essas velhas e tradicionais canecas de barro, Rosa. \u00c9 algo que n\u00e3o tenho muito de onde venho.<br>\u2003\u2003\u2014 Bernardo tamb\u00e9m s\u00f3 usa essas ou as preferidas dele: as esmaltadas. N\u00e3o sei como ele n\u00e3o perde os bei\u00e7os com aquilo! Diz que o gosto de tudo \u00e9 diferente nas canecas e nos pratos esmaltados. \u2014 Ela disse sorrindo.<br>\u2003\u2003Ao terminar com as pouquinhas provas, Rosa, que apenas bebeu uma x\u00edcara de caf\u00e9, subiu novamente para organizar suas coisas. Dona Laura desceu feliz e sorridente, abra\u00e7ando forte \u00e0 sobrinha que limpava a recente lou\u00e7a suja. Fazia frio e a senhora tinha os cabelos \u00famidos, o que fez Nicole a prevenir a sec\u00e1-los. Titia sorriu ao ouvir a recomenda\u00e7\u00e3o preocupada da sobrinha, afagou seu rosto ao responder-lhe, sob uma risada fina e estridente, de que iria subir para pedir \u00e0 Rosa o secador emprestado. Nicole sorriu a observando e retornou ao bolo que j\u00e1 estava pronto, retirando o tabuleiro do forno e o partindo nele mesmo, afinal, como sua m\u00e3e lhe ensinara: <em>\u201cbolo quente n\u00e3o se desenforma!\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003Bernardo adentrou pela porta da frente da casa, ap\u00f3s retirar as botinas cobertas de lama, as deixando ao p\u00e9 da varanda e pendurando o casaco grosso de l\u00e3 no suporte atr\u00e1s da porta. Foi at\u00e9 a cozinha e ao perceber Nicole ali, sua express\u00e3o, apontou que ele ainda estava mal-humorado. Na noite anterior Nicole deixou-se intimidar pela grosseria dele, mas n\u00e3o iria dar asas \u00e0quilo. O enfrentaria se preciso fosse porque n\u00e3o poderia ir contra a pr\u00f3pria natureza. Se ele tentasse, ela tamb\u00e9m lhe daria uns coices. Bernardo evitava a olhar enquanto lavava as m\u00e3os na pia, onde ela estava apoiada.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia. \u2014 falou.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia.<br>\u2003\u2003Embora n\u00e3o tenha sorrido, seu olhar demonstrou uma tr\u00e9gua. Ou talvez Nicole interpretou errado, mas independente disso, ela decidiu ser gentil. Quem sabe ele fosse gentil tamb\u00e9m? Pegou uma canequinha de barro e antes de servi-lo perguntou:<br>\u2003\u2003\u2014 Com a\u00e7\u00facar ou sem?<br>\u2003\u2003Bernardo a olhou surpreso e insistiu que ela n\u00e3o precisava se incomodar, mas a mulher tamb\u00e9m insistiu, gentilmente.<br>\u2003\u2003\u2014 Sem.<br>\u2003\u2003\u2014 Tamb\u00e9m o prefiro assim. \u2014 entregou-lhe a caneca e emendou: \u2014 O bolo est\u00e1 quentinho. N\u00e3o deve ser t\u00e3o bom quanto o de sua m\u00e3e, mas garanto que est\u00e1 gostoso.<br>\u2003\u2003Ele sorriu ir\u00f4nico e comeu, aproveitando a brecha para provocar:<br>\u2003\u2003\u2014 D\u00e1 para comer.<br>\u2003\u2003Bernardo n\u00e3o estava disposto a ser gentil e, diante desse fato, a sa\u00edda era ignor\u00e1-lo. Dona Laura e Rosa vieram \u00e0 cozinha caladas e os espionavam a espera de que o homem fosse um pouco mais delicado com Nicole. Mas, a atmosfera tensa entre os dois era not\u00e1vel. Carolina chegou um pouco depois, bem faminta, e todos se sentarem \u00e0 mesa juntos. Ap\u00f3s o caf\u00e9 da manh\u00e3, Nicole n\u00e3o mais viu Bernardo, ele saiu de casa e n\u00e3o havia voltado, at\u00e9 sua irm\u00e3 e sua m\u00e3e come\u00e7arem a pensar no almo\u00e7o. Carolina, que saltou \u00e0 cozinha animada, de repente puxou Nicole para dar uma volta na fazenda. A mulher insistiu em negar porque queria ajudar \u00e0 sua tia e prima nos afazeres dom\u00e9sticos. E a crian\u00e7a, mais do que prontamente, olhou para a Rosa e a av\u00f3 com olhos de piedade.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, Nicole, tudo bem. Mam\u00e3e e eu vamos adiantando as coisas aqui. At\u00e9 porque, Carol estuda \u00e0 tarde. Ela quer te mostrar a fazenda.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 querida! Aproveite e passe na horta! Traga-me umas folhas de couve!<br>\u2003\u2003Assim, seguiram as duas num passeio r\u00e1pido pela fazenda, aos arredores da casa. O dia parecia n\u00e3o mais t\u00e3o frio como ao amanhecer, por\u00e9m tamb\u00e9m n\u00e3o estava quente. Apenas ameno. Brisa suave das montanhas mineiras. O ventinho brincalh\u00e3o cortava o rosto de Nicole bagun\u00e7ando seus cabelos. As preocupa\u00e7\u00f5es, os fantasmas e tormentas em sua mente continuavam, por\u00e9m, quanto mais se entregava \u00e0queles ares sentia como se os monstros hibernassem, se escondessem ou at\u00e9 mesmo a esquecessem.<br>\u2003\u2003\u2014 Vov\u00f3 falou que voc\u00ea vai ficar para sempre! \u2014 De imediato a pequenina soltou.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem\u2026 Sabe Carol, eu ficarei apenas o tempo suficiente.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela tamb\u00e9m disse que voc\u00ea acha isso.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, \u00e9!? E estou errada?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sei. Mas, eu prefiro acreditar que sim. Papai me disse que quando a gente acredita com vontade, acontece.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele est\u00e1 certo.<br>\u2003\u2003Nicole sorria da inoc\u00eancia da pequenina que n\u00e3o sabia dos monstros da sua vida.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o a senhorita estuda \u00e0 tarde?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9! Na mesma escolinha que a minha titia trabalha!<br>\u2003\u2003\u2014 Sua m\u00e3e tamb\u00e9m trabalha l\u00e1?<br>\u2003\u2003\u2014 Minha mam\u00e3e? \u2014 Carolina perguntou confusa e assustada.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9\u2026 Ela estava corrigindo algumas provinhas hoje bem cedo.<br>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o, que a pequena menina estrondou uma risada gostosa e alta. Daquelas de doer \u00e0 barriga e tudo! Carolina percebeu o erro de Nicole, mas a mulher ainda n\u00e3o estava a entendendo:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu disse algo errado?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim! Voc\u00ea acha que a titia Rosa \u00e9 a minha mam\u00e3e!<br>\u2003\u2003Ela apontava o dedinho para a mulher gargalhando mais gostoso. Ent\u00e3o dando conta da pr\u00f3pria confus\u00e3o, Nicole riu bem divertida contagiada pela alegria da crian\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem! Mas o que eu poderia pensar?<br>\u2003\u2003\u2014 Que ela \u00e9 minha titia sua bobinha. \u2014 respondeu e continuou pulando, caminhando \u00e0 frente \u2014 A horta \u00e9 ali! Vem!<br>\u2003\u2003Carol gritou apontando uma pequena \u00e1rea cercada, e saiu correndo. Nicole se apressou e abriu a portinhola da horta, que por sinal tinha lindas e frondosas planta\u00e7\u00f5es. Enquanto colhia as couves, Carol colocava-as em um cesto e depois que sa\u00edram dali, as duas continuaram com o passeio. Carolina lhe mostrou o chiqueiro, o celeiro, os pastos com o gado, os cavalos, as ovelhas e o galinheiro. Havia um rio que passava ao fundo da propriedade, e ao atravess\u00e1-lo chegava-se ao outro lado da fazenda da fam\u00edlia. Por\u00e9m, por l\u00e1, nada mais tinha a n\u00e3o ser a verdejante campina onde os bois e vacas pastavam.<br>\u2003\u2003Depois que voltaram, auxiliaram a senhora Laura no preparo de um t\u00edpico almo\u00e7o mineiro, com direito a torresmo pururuca, polenta e couve refogada. Rosa preferiu lidar com a arruma\u00e7\u00e3o da casa, pois segundo ela era melhor, j\u00e1 que ap\u00f3s o almo\u00e7o teria que ir trabalhar. Carol organizou seu material escolar, assistiu os seus desenhos animados e almo\u00e7ou, indo tomar banho \u00e0 metade das onze horas. Pediu ajuda de Nicole para arrum\u00e1-la, e na hora de pentear os cabelos a pequenina pediu que ela os arrumasse como os pr\u00f3prios cabelos de Nicole estavam: em uma tran\u00e7a embutida. E tamb\u00e9m quis passar o mesmo batom que ela, era de um tom rosado muito fraquinho, que se assemelhava ao tom de boca, por\u00e9m brilhava. Ent\u00e3o, ao finalizar, as duas desceram as escadas como completas c\u00f3pias uma da outra. Carolina, de fato, era uma crian\u00e7a muito am\u00e1vel! Recebeu \u00e0 Nicole com muito carinho desde que ela chegou, e sem ao menos saber a fez se sentir extremamente acolhida. Ao aparecerem as duas no topo da escada, titia e Rosa elogiaram a menina, que fazia pose de princesa em resposta. Bernardo estava ao lado delas, rec\u00e9m-chegado ao c\u00f4modo e olhava para a crian\u00e7a, hipnotizado. Carol correu at\u00e9 ele pulando em seu colo e o abra\u00e7ando.<br>\u2003\u2003\u2014 O que achou papai? Estou bonita?<br>\u2003\u2003Naquele instante, Nicole estava esclarecida. Era Bernardo o pai de Carolina, e n\u00e3o Rosa a m\u00e3e, como ela pensou. E percebeu tamb\u00e9m que Carolina n\u00e3o tinha muito os tra\u00e7os do pai.<br>\u2003\u2003\u2014 Linda, minha filha.<br>\u2003\u2003\u2014 Igual \u00e0 Nicole?<br>\u2003\u2003\u2014 Mais bonita do que a Nicole.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o papai. Ela \u00e9 muito mais bonita!<br>\u2003\u2003A menina disse e descendo do colo dele direcionou-se \u00e0 mulher, agradecendo-a num abra\u00e7o carinhoso e com beijinhos no ar h\u00e1 poucos ensinados por Nicole, para que n\u00e3o borrasse o batom. Enquanto os adultos voltavam \u00e0 cozinha para o almo\u00e7o, Carolina ficou na sala assistindo ao fim de seus desenhos, e pediu para almo\u00e7ar ali.<br>\u2003\u2003\u2014 Nicole, hoje o meu noivo vem aqui para tratarmos dos \u00faltimos preparativos do nosso casamento. Voc\u00ea vai adorar conhec\u00ea-lo! \u2014 Rosa lhe contou \u00e0 mesa, empolgada.<br>\u2003\u2003\u2014 Ora, muitas felicidades. Eu n\u00e3o sabia!<br>\u2003\u2003\u2014 Ela iria te contar ontem no jantar. \u2014 Bernardo falou r\u00edspido como se julgasse a aus\u00eancia mal-educada de Nicole, em seu primeiro dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem, eu devo desculpas a todos por n\u00e3o vir jantar ontem. Eu estava exausta e precisava mesmo descansar. Eu n\u00e3o seria boa companhia no estado em que eu estava.<br>\u2003\u2003\u2014 E quando voc\u00ea \u00e9 boa companhia? \u2014 Novamente Bernardo alfinetou, desta vez sendo repreendido por titia.<br>\u2003\u2003Instaurou-se um clima desconfort\u00e1vel, at\u00e9 Rosa quebr\u00e1-lo:<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o Nicole&#8230; Logo eu irei me mudar.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 uma pena. Ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim, afinal, agora que estamos pr\u00f3ximas poderemos nos ver sempre, n\u00e3o \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Com certeza! E eu estarei tranquila sabendo que voc\u00ea estar\u00e1 aqui cuidando da mam\u00e3e, da Carol e do mais dif\u00edcil, o Bernardo.<br>\u2003\u2003Ela e titia riram, mas Bernardo e Nicole se olharam como rivais, num papel que ambos passaram a vestir sem perceber.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu agrade\u00e7o muito a considera\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, mas eu n\u00e3o pretendo ficar muito tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 o que a senhorita pensa. \u2014 disse titia.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o tome como uma desfeita, mas eu realmente preciso organizar minha vida, titia. Hoje mesmo se poss\u00edvel eu gostaria de ir aos correios saber se tem alguma carta para mim. E \u00e9 claro que, s\u00f3 andando pela cidade \u00e9 que eu saberei das oportunidades.<br>\u2003\u2003Bernardo se levantou e colocando seu prato na pia saiu silencioso. Depois que ele havia sa\u00eddo do campo de vis\u00e3o das mulheres, m\u00e3e e filha come\u00e7aram a justificar:<br>\u2003\u2003\u2014 Ele acha que n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel sua conviv\u00eancia com Carol, pois, se voc\u00ea realmente for embora, sabemos que ela vai ter se apegado a voc\u00ea. \u2014 disse Rosa.<br>\u2003\u2003\u2014 E ele n\u00e3o est\u00e1 errado. Hoje Carol falou que eu ficaria para sempre aqui e eu conversei com ela, mas ela \u00e9 firme e acredita muito nesta minha perman\u00eancia. Coisa que pelo que notei, titia colocou na cabe\u00e7a da menina.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai querer ir embora daqui querida. \u2014 Laura disse convicta e sorrindo para ela: \u2014 Voc\u00ea pode n\u00e3o acreditar, mas eu sei que n\u00e3o.<br>\u2003\u2003Depois de tudo aquilo, Nicole resolveu n\u00e3o tocar no assunto para n\u00e3o contrariar a titia. Rosa saiu para trabalhar, Carol para estudar e Bernardo as levaria.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai ao correio? \u2014 Bernardo perguntou ao se aproximar de Nicole que ajudava sua tia com a limpeza do almo\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos ent\u00e3o! N\u00e3o tem lota\u00e7\u00f5es por aqui.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>~ \u2665 ~<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A picape era cabine simples, mas os quatro foram nela para a cidade, Carol sentada no colo de Rosa e Nicole no meio do banco. Chegando ao centro, Rosa e Carolina foram para a escola que se localizava ao entorno da pracinha, e Bernardo guiou Nicole at\u00e9 o correio a explicando onde eram os com\u00e9rcios principais. N\u00e3o havia carta alguma para ela, nem telegrama, nem entregas, nem nada. Ent\u00e3o os dois voltaram silenciosos ao carro. E sem que ela percebesse, Bernardo dirigiu at\u00e9 a delegacia. Parou na frente do pequeno pr\u00e9dio simples de um andar, uma casa antiga, com o t\u00edtulo que indicava o n\u00famero do batalh\u00e3o, e pigarreou encarando Nicole, de modo grosseiro e desafiador:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o quer dar uma olhada por l\u00e1?<br>\u2003\u2003\u2014 Com certeza se houvesse alguma carta para mim na delegacia, seria de urg\u00eancia tanta que o pr\u00f3prio delegado entregaria.<br>\u2003\u2003A mulher respondeu, desconcertada com aquela atitude, pois, ele n\u00e3o pretendia fazer favor algum, apenas a provocar.<br>\u2003\u2003\u2014 Certo. E n\u00e3o quer entrar l\u00e1? Voc\u00ea \u00e9 delegada, n\u00e3o \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Se bem que, se voc\u00ea entrar, \u00e9 capaz de n\u00e3o voltar, n\u00e3o \u00e9? Foi por isso que veio para c\u00e1? Para se esconder?<br>\u2003\u2003Ele manteve o tom sarc\u00e1stico e desviou o olhar do rosto dela. Nicole encarou ao homem com fogo em seus olhos. Estava com raiva, n\u00e3o acreditava que ele usava os seus problemas pessoais para lhe afetar! Ele iria mencionar mais alguma coisa, por\u00e9m ela desceu do carro e o deixou falando sozinho. Saiu caminhando a esmo, enfurecida. Bernardo observou a mulher sair pisando fundo, e respirou arrependido. Qu\u00e3o imaturo ele havia sido? Expuls\u00e1-la pelo desconforto n\u00e3o precisaria chegar a tanto, precisaria? Ela chegou at\u00e9 o marco central da pra\u00e7a, e de repente parou de andar, nervosa. Olhou \u00e0 sua volta indignada consigo. Por que estava se rendendo a uma provoca\u00e7\u00e3o infantil? Que rid\u00edculo! Pronta a dizer umas verdades a ele, Nicole se direcionou novamente ao encontro do est\u00fapido Bernardo, e esse por sua vez vinha ao encontro dela para se desculpar pela provoca\u00e7\u00e3o in\u00fatil.<br>\u2003\u2003\u2014 Escuta aqui, quem voc\u00ea pensa que \u00e9?<br>\u2003\u2003Bernardo mal teve tempo de respond\u00ea-la. Nicole lhe apontava um dedo, e gesticulava indignada \u00e0 frente dele \u00e0 medida que falava. O homem olhava a pra\u00e7a vazia \u00e0 sua volta, e tentou dizer a Nicole que eles deveriam se acalmar e lhe pedir desculpas, mas a mulher tagarelou imp\u00e1vida.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem voc\u00ea n\u00e3o gostar de ter uma estranha sob o mesmo teto que o seu! Voc\u00ea n\u00e3o gostar de mim sem me conhecer \u00e9 injusto, mas at\u00e9 comum! Agora&#8230; Seja adulto e deixe as coisas bem claras! N\u00e3o venha utilizar os meus problemas pessoais para me afetar! Sinceramente, nem a sua filha teria atitude t\u00e3o infantil!<br>\u2003\u2003Aos poucos, pessoas come\u00e7avam a surgir paradas ali \u00e0 medida que caminhavam pelo local e notavam uma discuss\u00e3o que decidiam assistir. Bernardo come\u00e7ou a se sentir constrangido. Ele era conhecido na cidade e sempre muito discreto. Desde sua adolesc\u00eancia, quando brigava na porta da escola, n\u00e3o vinha sendo o centro de uma aten\u00e7\u00e3o como aquela.<br>\u2003\u2003\u2014 Bernardo, eu n\u00e3o pretendo ficar naquela casa por muito tempo, ent\u00e3o tenha caridade, por favor! Eu sou uma sem-teto agora e jamais planejei estas mudan\u00e7as todas na minha vida, <em>t\u00e1<\/em>? Ent\u00e3o seja inteligente e me ajude a encontrar um emprego, em vez de ficar me provocando! Eu n\u00e3o conhe\u00e7o nada por aqui e vou mesmo precisar de outras pessoas! Sem d\u00favida seria o melhor para n\u00f3s dois!<br>\u2003\u2003Farto de apenas ouvir, farto dos olhos curiosos que pelo visto, Nicole n\u00e3o havia percebido sobre eles, Bernardo se aproximou apressado em dar uma resposta e sair urgente dali:<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei exatamente o que voc\u00ea quer, e n\u00e3o estou de acordo com a sua presen\u00e7a! O que eu puder fazer para me livrar de voc\u00ea ser\u00e1 feito. \u2014 Ele disse entrando de novo no carro e olhando para Nicole pela janela concluiu: \u2014 N\u00e3o pense que as ideias infantis da minha m\u00e3e ser\u00e3o concretizadas!<br>\u2003\u2003Acelerou com o carro e foi embora. Ela ficou t\u00e3o indignada com a frieza e estupidez da rea\u00e7\u00e3o dele que se sentiu desnorteada. \u00c0quela altura a pracinha em peso a olhava. Nicole se percebeu compositora de um concerto p\u00fablico do mais alto escal\u00e3o. Um barraco, precisamente. Na porta da delegacia, o delegado, o escriv\u00e3o e um policial civil olhavam na dire\u00e7\u00e3o dela, estudando sua figura. Claro, por parecer uma pessoa sem classe que fica gritando pela rua, e o principal: por nunca ter sido vista. Cidade de interior, not\u00edcias corridas e o infeliz fato de todos saberem uns das vidas dos outros. E o engra\u00e7ado nisso tudo \u00e9 que a pr\u00f3pria Nicole havia espalhado a not\u00edcia.<br>\u2003\u2003Teria um lado bom naquilo, ela n\u00e3o explicitou a raiz de seus problemas mais s\u00e9rios e agora todos sabiam que ela procurava emprego. Nicole sorriu sem gra\u00e7a aos oficiais \u00e0 sua frente e dando-lhes as costas caminhou at\u00e9 uma vendinha t\u00edpica de interior, uma mistura de mercearia e bar. Puxou uns trocadinhos e comprou um guaran\u00e1, que para a sua doce surpresa, era daqueles refrigerantes antigos engarrafados em vasilhames de vidro, como as garrafas de cerveja. Retomou lembran\u00e7as da sua inf\u00e2ncia. Mesmo em S\u00e3o Paulo, quando seus pais residiram na tradicional cidade de Taubat\u00e9, ela p\u00f4de experimentar aquelas bebidas t\u00e3o doces e cheias de g\u00e1s. Sem d\u00favidas, aqueles refrigerantes sempre foram os mais saborosos, na concep\u00e7\u00e3o de Nicole.<br>\u2003\u2003A vendinha estava vazia e Nicole adentrou-a namorando a arquitetura do min\u00fasculo centro urbano e a decora\u00e7\u00e3o do botequim. Come\u00e7ou, avaliando onde estava, o balc\u00e3o em que se sentara tinha o tamp\u00e3o de ard\u00f3sia e as paredes eram de tijolinho vermelho. As banquetas de madeira esculpidas \u00e0 m\u00e3o, muito r\u00fastico e bonito. Nada r\u00fastico chique como se costuma ver nas cidades grandes montados propositalmente. Ali, refletia-se o simplismo. As mesinhas tinham em sua base, grandes tocos de troncos, tamp\u00e3o tamb\u00e9m em madeira e as cadeiras, com palha forradas e tran\u00e7adas. Humilde e aconchegante. Nas paredes decora\u00e7\u00f5es roceiras t\u00edpicas.<br>\u2003\u2003Partindo o olhar para fora do estabelecimento, os com\u00e9rcios circundavam a pra\u00e7a com banquinhos brancos, jardins e no centro dela uma igreja. Em volta, a delegacia, a escola de frente para a delegacia, o mercadinho onde ela estava e a farm\u00e1cia, a sorveteria, uma padaria, e por fim uma casa. Sim, apenas uma casa de frente \u00e0 igreja. Morador privilegiado, pois, era tudo muito bonitinho de se dar de cara todos os dias. E claro, como toda pra\u00e7a de interior que se preze, carrinhos de pipoca e algod\u00e3o-doce. Crian\u00e7as corriam, soltavam pipas, brincavam, pulavam corda, amarelinha, pulavam el\u00e1stico\u2026 Tudo isso, na pracinha que parecia um parque de divers\u00f5es.<br>\u2003\u2003Um garotinho entrou na vendinha e voltando-se \u00e0 senhora vendedora pediu:<br>\u2003\u2003\u2014 Saquinho de um real, de bolinhas de gude dona Carlota!<br>\u2003\u2003Olhou na dire\u00e7\u00e3o de Nicole como se a analisasse e enquanto ela sorria para ele, o menino espevitado agradeceu \u00e0 senhora. Sorriu para as duas e voltou \u00e0s brincadeiras. H\u00e1 quanto tempo Nicole n\u00e3o via bolinhas de gude! E ao lado das bolinhas, no balc\u00e3o avistou um pote com pi\u00f5es e outro com ioi\u00f4s! Os olhos da mulher cintilavam.<br>\u2003\u2003\u2014 Com licen\u00e7a, por favor, quanto custa o ioi\u00f4?<br>\u2003\u2003\u2014 Dois reais. Quer um?<br>\u2003\u2003A senhora dizia-lhe sorrindo. Sorria, certamente pelo espanto e maravilha da mulher, diante \u00e0quelas coisas.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, por favor.<br>\u2003\u2003Nicole mal esperou ela conferir o troco e j\u00e1 foi amarrando a linha, colocando o brinquedo no dedo e brincando. Pegou seu troco da mesma forma que o garotinho, que deu mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s bolinhas do que \u00e0 devolu\u00e7\u00e3o do seu dinheiro. A senhora Carlota come\u00e7ou a rir de mulher, enquanto ela brincava deliciosamente. Tentava se recordar daquelas manobras que fazia com o brinquedo na inf\u00e2ncia, mas n\u00e3o obteve muito sucesso. A sensa\u00e7\u00e3o de voltar no tempo era t\u00e3o inexplic\u00e1vel! Era tamb\u00e9m, um anestesiante de problemas incr\u00edvel!<br>\u2003\u2003\u2014 H\u00e1 anos eu n\u00e3o vejo um ioi\u00f4! \u2014 Nicole disse para a senhora.<br>\u2003\u2003\u2014 Chegou \u00e0 cidade h\u00e1 muito tempo? \u2014 Com a pergunta dirigida a ela, Nicole pensou que deveria mesmo demonstrar trejeitos de garota urbana.<br>\u2003\u2003\u2014 Ontem, na verdade. Muito prazer, meu nome \u00e9 Nicole.<br>\u2003\u2003Ela sorriu, e estendeu a m\u00e3o livre para cumprimentar a senhora, sem parar de brincar com o ioi\u00f4.<br>\u2003\u2003\u2014 Carlota. Seja bem-vinda Nicole.<br>\u2003\u2003\u2014 Muito obrigada! \u2014 respondeu sorridente e retornou ao banquinho que estava sentada, guardando o brinquedinho no bolso do moletom.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que est\u00e1 achando de Mato Alto?<br>\u2003\u2003\u2014 Estou maravilhada. \u00c9 tudo muito lindo por aqui, me lembra a minha inf\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003\u2014 Entendo. Eu tamb\u00e9m repenso na minha inf\u00e2ncia quando paro para admirar tudo em volta. Assim como esse garotinho eu corria at\u00e9 esse balc\u00e3o e pedia ao meu av\u00f4, os pi\u00f5es e ioi\u00f4s.<br>\u2003\u2003Dona Carlota olhava para o nada como se relembrasse as pr\u00f3prias narra\u00e7\u00f5es. Elas conversaram bastante, e entre um assunto e outro sem dar muita indica\u00e7\u00e3o da sua especialidade, Nicole perguntou \u00e0 senhora sobre oportunidades de emprego. E logo, dona Carlota lhe indicou algumas pouqu\u00edssimas possibilidades. Nicole agradeceu a ajuda e despediu-se prometendo voltar. Foi at\u00e9 a pra\u00e7a, e o padre que caminhava at\u00e9 a igreja a cumprimentou, ela respondeu-lhe com um sorriso, mas de repente sentiu uma m\u00e3o em seu ombro. Era o sacerdote que voltara para lhe fazer um convite:<br>\u2003\u2003\u2014 Boa tarde, senhorita. Por que n\u00e3o entra para conversar um pouco com Deus sobre a sua vida?<br>\u2003\u2003Poderia ser que as fofocas tivessem corrido mais do que carro de f\u00f3rmula um e chegado aos ouvidos do vig\u00e1rio, ou aquilo foi um sinal de Deus. Nicole nunca foi religiosa do tipo que sempre ia \u00e0 igreja. Ela tentou seguir dogmas crist\u00e3os algumas duas vezes, mas o seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se libertava de certos conceitos e sua cabe\u00e7a procurava raz\u00e3o para tudo. Sempre tivera f\u00e9 na exist\u00eancia de uma divindade, mas se prender \u00e0 religiosidade n\u00e3o era poss\u00edvel. Contudo, n\u00e3o poderia negar que aquela aproxima\u00e7\u00e3o a assustara, e muito sem gra\u00e7a em negar, Nicole aceitou. Como recusaria uma conversa com Deus? Apesar de sua n\u00e3o religiosidade, ela pensava que independente do lugar, Deus escuta e sempre est\u00e1 atento a se por ao nosso lado. Pensamento esse, herdado dos pais cat\u00f3licos. A delegada achava que n\u00e3o era preciso entrar naquele santu\u00e1rio para falar com Deus. Mas se Ele a convidara \u2014 pois, preferiu acreditar que o padre servira de instrumento divino para aquele apelo do que fofoqueiro \u2014, ela n\u00e3o recusaria.<br>\u2003\u2003A igreja era muito bonita e antiga. Arquitetura renascentista com pinturas que d\u00e3o vontade de chorar. O padre disse para ela ficar \u00e0 vontade e que se precisasse conversar com ele, apontou a sacristia onde estaria. As pernas de Nicole naquele momento demonstraram a necessidade da sua pr\u00f3pria f\u00e9. Sem perceber, ela se aproximou de imediato ao altar e quando deu por si, estava ajoelhada. Pausou todos os seus pensamentos. Esqueceu tudo ao seu redor. A sua mente ficou escura. Vazia. Ent\u00e3o as palavras sa\u00edam por sua boca, em sussurros como badalos do seu cora\u00e7\u00e3o. Coisas que ela pensava ter superado, como a descoberta da sua ado\u00e7\u00e3o e o fim do seu antigo relacionamento, vieram \u00e0 tona naquele esbo\u00e7o de ora\u00e7\u00e3o. E coisas que ela nem cogitaria partilhar com Deus no quesito \u201cpreocupa\u00e7\u00f5es\u201d tamb\u00e9m. Entre elas, a complica\u00e7\u00e3o de ter que abandonar titia e Carol naquela casa futuramente, e o medo que ela percebeu sentir de Bernardo. Medo, exatamente isso. Este sentimento irracional para aquela situa\u00e7\u00e3o, e um tanto quanto opressor que ela negava assumir sentir por ele.<br>\u2003\u2003Nicole percebeu tempos depois, que seus medos surgiram ap\u00f3s ter sido realmente tra\u00edda pela verdade de quem ela era. Tra\u00edda por quem julgava ser leal a ela, e tra\u00edda por seus pr\u00f3prios sentimentos. E quando fez aquela rec\u00e9m-descoberta, ela n\u00e3o a aceitava! Medo? Que absurdo! Sempre fora muito forte e decidida! Inadmiss\u00edvel um sentimento t\u00e3o covarde em si! Mas o tempo ensina, e Nicole aprendeu que para ser forte n\u00e3o se repele a covardia e que o medo n\u00e3o \u00e9 sinal de fraqueza. \u00c9 sinal de humanidade.<br>\u2003\u2003Sentiu-se renovada ap\u00f3s aquela ora\u00e7\u00e3o. Foi bom compartilhar seus inc\u00f4modos. Ainda que titia, Carol e Rosa fossem muito gentis e ador\u00e1veis com ela, Bernardo parecia que transformaria tudo em uma nuvem tempestuosa. E c\u00e1 entre n\u00f3s, quem consegue sentir-se confort\u00e1vel com uma tempestade prestes a cair sobre sua cabe\u00e7a a qualquer momento? Ela n\u00e3o tinha este dom. Despediu-se agradecida do padre e retornou para a pra\u00e7a. Perguntou as horas ao pipoqueiro e o tempo marcava uma e trinta da tarde. J\u00e1 estava na cidade h\u00e1 uma hora e meia, e sem d\u00favidas, o bronco que a deixara por l\u00e1, j\u00e1 estaria na fazenda. Avistou um senhor, aparentemente no auge de seus sessenta e poucos anos, sentado na cal\u00e7ada em frente \u00e0 ilustre casinha privilegiada da pra\u00e7a. Nicole se aproximou decidida a pedi-lo informa\u00e7\u00f5es sobre como poderia voltar \u00e0 fazenda.<br>\u2003\u2003\u2014 Boa tarde.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Tarde<\/em>! \u2014 respondeu ele com sotaque forte.<br>\u2003\u2003Escutava um r\u00e1dio de pilha antigo, tocando modas de viola muito boas, por sinal.<br>\u2003\u2003\u2014 Como vai o senhor?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu <em>t\u00f4<\/em>\u2019 bem, s\u00f3 tentando pegar um <em>Solzim<\/em> safado <em>pr\u00e1<\/em> <em>esquent\u00e1 e espant\u00e1<\/em> um pouco desse frio besta. \u2014 Ele disse e deu uma gargalhada muito simpl\u00f3ria, a perguntando: \u2014 E voc\u00ea minha <em>fia<\/em>?<br>\u2003\u2003\u2014 Estou bem tamb\u00e9m! Muito obrigada! Mas, estou tamb\u00e9m perdida por estas bandas.<br>\u2003\u2003Nicole sorria suplicante, e ele endireitando a coluna corcunda e com as sobrancelhas arqueadas em d\u00favida, a perguntou, surpreso:<br>\u2003\u2003\u2014 Uai! \u00c9?<br>\u2003\u2003\u2014 Estou morando com a dona Laura na fazenda dela. \u00c9 m\u00e3e de Rosa e Bernardo. O senhor a conhece?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00d4! Se, conhe\u00e7o! Laura Coralina! Amiga minha das antigas. Mas, eu n\u00e3o sabia que ela tinha uma neta <em>marmanjona<\/em>.<br>\u2003\u2003Nicole n\u00e3o s\u00f3 gostou de cara daquele senhor por seu bom humor, como tamb\u00e9m pela sinceridade nas suas palavras. Se aquela mo\u00e7a da cidade ficaria ofendida? O problema seria todo dela!<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, senhor, eu sou sobrinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah sim! Ela tem apenas a Carolzinha de neta, <em>n\u00e9<\/em>!<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. Pois, bem! Eu me perdi na cidade e n\u00e3o sei como voltar \u00e0 fazenda. O senhor saberia me ajudar?<br>\u2003\u2003\u2014 Mas, <em>oc\u00ea v\u00eai<\/em> sozinha?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, o Bernardo me trouxe s\u00f3 que nos separamos.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele <em>deve de ter<\/em> visto um boi, n\u00e3o \u00e9?<br>\u2003\u2003Nicole n\u00e3o entendeu a pergunta, encarava confusa ao velho senhor, que a sorria com olhos mi\u00fados, mas logo foi se explicando:<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Pra esquec\u00ea<\/em> <em>oc\u00ea<\/em>, <em>deve de ter avistado <\/em>um boi gordo <em>pra <\/em>fazenda.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah sim, pois \u00e9! \u2014 Ela afirmou sem gra\u00e7a por n\u00e3o entender o que aquele senhor queria dizer: \u2014 Eu n\u00e3o tenho certeza, apenas nos perdemos.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele <em>deve de t\u00e1<\/em> te procurando.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, eu disse a ele que resolveria algumas coisas, ent\u00e3o deve ter pensado <em>que eu dei no p\u00e9<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Uai! Eu <em>hein!<\/em> Esse <em>minino<\/em> tem umas ideias muito frouxas! Deixar uma <em>mo\u00e7ona<\/em> nova na cidade, perdida e solta assim? Na minha \u00e9poca <em>n\u00f3is<\/em> <em>cuidava<\/em> melhor das nossas mocinhas! \u2014 E novamente explodiu-se risada simpl\u00f3ria.<br>\u2003\u2003Nicole n\u00e3o resistiu \u00e0 risada dele, e riu tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Deve ter sido uma \u00e9poca boa, essa do senhor&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Aqui n\u00e3o tem lota\u00e7\u00e3o. Pelo menos, n\u00e3o <em>pras<\/em> bandas da fazenda! <em>Oc\u00ea<\/em> tem que <em>ir de a p\u00e9<\/em>. Eu at\u00e9 ajudaria, mas s\u00f3 se eu chamar o Carlinhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Carlinhos?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 meu afilhado. Ele trabalha l\u00e1 na farm\u00e1cia.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o precisa incomodar! Eu at\u00e9 vou gostar de ir andando!<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Oc\u00ea<\/em> conhece o caminho da estrada?<br>\u2003\u2003\u2014 Conhe\u00e7o, sim, eu s\u00f3 n\u00e3o sei como chegar at\u00e9 l\u00e1.<br>\u2003\u2003<em>Patavina<\/em> que Nicole conhecia coisa alguma! Mentiu para que ele n\u00e3o incomodasse o afilhado. E acreditava que seria melhor aprender a andar a p\u00e9 at\u00e9 a fazenda. Sem d\u00favidas andar no carro com o Bernardo, de novo, seria dif\u00edcil, se n\u00e3o, no m\u00ednimo arriscado.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o faz assim: <em>oc\u00ea<\/em> vai andando at\u00e9 a rodovi\u00e1ria. Sabe <em>donde<\/em> \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Pois \u00e9! \u00c9 l\u00e1! A\u00ed <em>oc\u00ea<\/em> caminha um <em>pouquim<\/em> mais pra frente, e vai ver uma escola. Continua andando, que uns\u2026 \u2014 Ele parou pra pensar \u2014 <em>Deiz<\/em> metro \u00e0 frente da escola, <em>oc\u00ea<\/em> vai ver o cemit\u00e9rio. A\u00ed continua andando, mas cuidado com os mortos!<br>\u2003\u2003Ele gargalhou a encarando, e ela sorriu confusa com aquela figura carism\u00e1tica e quase lhe beirando a caduquice.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 piada mo\u00e7a! \u2014 rindo continuou: \u2014 Ent\u00e3o mais ou menos outros <em>deiz<\/em> <em>metro<\/em> depois do cemit\u00e9rio, <em>oc\u00ea<\/em> vai ver uma rua cheia de casebres. O povo l\u00e1 \u00e9 <em>gente fina dimais da conta<\/em>! Tenho at\u00e9 um conhecido l\u00e1 que ficou de me visitar faz tempo! <em>T\u00f4\u2019<\/em> achando que ele at\u00e9 morreu. Ou enricou <em>n\u00e9<\/em>?<br>\u2003\u2003Os cortes de foco, nas conversas de interior, tamb\u00e9m eram muito divertidos, ao olhar de Nicole. \u00c9 o que puxa um desencadeamento de assuntos que fazem as pessoas at\u00e9 se perderem, nos <em>causos<\/em>, nas modas. Uma sequ\u00eancia de falas e contos em que uma simples conversa pode se tornar um cordel.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Oc\u00ea<\/em> entra nessa rua e <em>vai toda a vida<\/em>. No fim dela <em>oc\u00ea<\/em> vai <em>v\u00ea <\/em>uma placa que diz \u201c<em>Entrada da Estrada Cascalhosa\u201d e a\u00ed oc\u00ea <\/em>j\u00e1 chega \u00e0 estrada. Segue<em> toda a vida tam\u00e9m, <\/em>depois do terceiro mata-burro tem duas entradas, a\u00ed eu n\u00e3o lembro qual que \u00e9, mas <em>oc\u00ea<\/em> disse que sabe, <em>n\u00e9<\/em>?<br>\u2003\u2003\u2014 Sei sim!<br>\u2003\u2003Nicole apostava no <em>uni-duni-t\u00ea<\/em> mentalmente.<br>\u2003\u2003\u2014 Como \u00e9 o nome do senhor?<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 Aguinaldo! Mas, todo mundo me conhece como, Guino! E a vossa gra\u00e7a?<br>\u2003\u2003\u2014 Nicole.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00d4 Nicole! Ent\u00e3o faz isso que eu te falei minha <em>fia<\/em>. Mas \u00f3, <em>num<\/em> <em>demora <\/em>n\u00e3o porque \u00e9 muito ch\u00e3o <em>pra<\/em> andar e logo escurece! Quando a gente <em>t\u00e1<\/em> no mato, nem v\u00ea o tempo <em>passano<\/em>!<br>\u2003\u2003\u2014 Ah! Com certeza! Muito obrigada, Senhor Aguinaldo! Foi de muita ajuda!<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Da onde. Carece de<\/em> agradecer n\u00e3o. Depois <em>oc\u00ea<\/em> volta pra tomar um caf\u00e9 e prosear mais!<br>\u2003\u2003\u2014 Voltarei. \u2014 Ela sorriu agradecida.<br>\u2003\u2003\u2014 Diga pra Cora <em>vim<\/em> aqui. Ela <em>t\u00e1 sumida<\/em> e eu n\u00e3o <em>t\u00f4\u2019<\/em> <em>gostano<\/em> disso n\u00e3o!<br>\u2003\u2003\u2014 Pode deixar que eu mandarei o recado direitinho.<br>\u2003\u2003Novamente disse adeus e foi embora.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>~ \u2665 ~<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2469],"class_list":["post-9469","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-no-coracao-da-fazenda"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9469"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}