{"id":9433,"date":"2026-01-09T13:53:00","date_gmt":"2026-01-09T16:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-09T13:58:55","modified_gmt":"2026-01-09T16:58:55","slug":"capitulo-01","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/decay\/capitulo-01\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 01"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><em>Agora.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003As botas de combate com o couro desgastado pela passagem do tempo chapinhavam sem miseric\u00f3rdia as pequenas po\u00e7as que se formavam em fissuras pelo meio fio da cal\u00e7ada irregular. O caminhar era marcado como uma marcha; pesado e ritmado, tal qual o de um condenado direcionando-se para sua execu\u00e7\u00e3o. Acompanhado por in\u00fameros guarda-chuvas, alguns pretos, alguns coloridos que se destacavam entre o mar de pessoas apressadas para os mais variados prop\u00f3sitos, ele sequer se importou de ajustar o colarinho de seu casaco de trincheira para evitar o vento intenso da chuva outonal que assolava Nova York. Ao contr\u00e1rio, se por despeito ou por deprecia\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o apertou seus passos quando o temporal se tornou mais intenso, as gotas mais severas, atingindo-o como um carrasco, umedeceram seus cabelos, fazendo-os grudar em suas t\u00eamporas, ma\u00e7\u00e3s do rosto e em seu pesco\u00e7o, escorriam por sua pele, frias, quase cortantes, como uma piada desdenhosa a si mesmo, l\u00e1grimas que ele n\u00e3o <em>podia<\/em> deixar-se esvair; n\u00e3o porque n\u00e3o queria, mas simplesmente porque <em>deuses n\u00e3o choravam<\/em>, n\u00e3o <em>podiam<\/em>.<br>\u2003\u2003Deuses vingavam-se; eram os <em>mortais<\/em> que se desfaleciam em solu\u00e7os e tremores.<br>\u2003\u2003O inverno iria chegar mais cedo naquele ano; podia sentir em seus ossos a presen\u00e7a da entidade como algu\u00e9m que acompanhava uma <em>sombra<\/em> pelo canto de seu olho. Estava ali, ocultada pelo canto de seu olho, ocultada pelo ponto cego, invis\u00edvel, mas n\u00e3o <em>intang\u00edvel<\/em>. N\u00e3o saberia dizer, igualmente, se algo em seu cerne poderia se preocupar com isso no momento. Sua mente ainda estava presa no loop que se tornara reviver a conversar com seus irm\u00e3os; o gosto amargo ainda pairava por sua boca toda vez que recordava-se, pungente, sufocante, criava o n\u00f3 em sua garganta, tentava sufoc\u00e1-lo, e c\u00e9us, como ele gostaria de apenas <em>aceitar<\/em> a morte iminente se assim fosse seu destino. <em>Mas deuses eram cru\u00e9is<\/em>.<br>\u2003\u2003Buscar a ajuda de seus irm\u00e3os havia sido um <em>ato desesperado<\/em>, err\u00e1tico e, no m\u00ednimo, <em>est\u00fapido<\/em>. Recebera nada sen\u00e3o um convite vermelho escuro, de papel pesado e poroso \u2014 propositalmente caro \u2014 endere\u00e7ado a si mesmo como <em>puni\u00e7\u00e3o<\/em>. O remetente, ele n\u00e3o precisava de muito para adivinhar, j\u00e1 deveria estar esperando por sua convoca\u00e7\u00e3o desde que, de seu nariz, um filete vermelho havia escorrido. Manchara o porcelanato encardido do banheiro de sua academia, enviara uma sensa\u00e7\u00e3o sufocante de desorienta\u00e7\u00e3o, e fizera seus ouvidos ficarem mudos; <em>sangue<\/em>. Mas havia um por\u00e9m: <em>deuses n\u00e3o sangravam<\/em>. Ainda assim supusera que o sadismo e a inclina\u00e7\u00e3o a aprecia\u00e7\u00e3o ao espet\u00e1culo daqueles que um dia chamara de fam\u00edlia seria maior do que sua compaix\u00e3o, estava errado. A lei era a lei, e ele a havia quebrado h\u00e1 muito, <em>muito<\/em> tempo. Letras curvil\u00edneas, elegantes, eram igualmente t\u00e3o afiadas quanto uma navalha contra o papel, cortava-o com uma finalidade que enviara um arrepio pelo corpo dele, pressionadas ao papel at\u00e9 criar-se relevo, evidenciando a for\u00e7a desnecess\u00e1ria ao escrever sua senten\u00e7a, aquilo n\u00e3o havia sido um pedido, era uma <em>convoca\u00e7\u00e3o<\/em>.<br>\u2003\u2003%Sean% %Broderick% podia sentir o peso invis\u00edvel de sua pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o pairando sobre sua cabe\u00e7a. Podia sentir a press\u00e3o desconfort\u00e1vel que se tornava maior, e mais dolorosa, desconfort\u00e1vel o suficiente para o fazer desejar apenas abrir seu peito at\u00e9 que estivesse exposto o que havia dentro, e arrancasse o que desconfortavelmente batia ali, que o <em>atormentava<\/em>. Podia sentir a tens\u00e3o espalhar-se por seus m\u00fasculos como cobras, rastejando por entre os m\u00fasculos, fincando suas presas no tecido, causando espasmos involunt\u00e1rios. Ele podia <em>quase<\/em> ouvir o eco da risada deles ao fundo de sua mente; estavam assistindo porque eram cru\u00e9is tanto quanto poderosos. Porque <em>podiam<\/em>.<br>\u2003\u2003Engoliu o gosto amargo, unindo as sobrancelhas, enfiando as m\u00e3os dentro do bolso de seu casaco de trincheira pesado, ouviu meio aparte o tecido farfalhando suavemente com o movimento, estalando ao encontro do couro de suas luvas. Os olhos permaneceram fixos na cal\u00e7ada, como se de repente tivesse encontrado todas as respostas para suas d\u00favidas, como se estivesse ali o sentido de sua exist\u00eancia; o fazia n\u00e3o porque incomodava-se com a presen\u00e7a dos mortais ao seu redor, n\u00e3o porque o cheiro e a energia deles estivessem espalhados pelo espa\u00e7o como manchas, suas ang\u00fastias e obsess\u00f5es gravadas em suas almas como uma sombra, pressionando-os para mais e mais baixo, tampouco pelo cheiro familiar que a <em>autodestrui\u00e7\u00e3o<\/em> em andamento parecia exalar de seus poros, vibrando pelo ar como uma car\u00edcia perigosa, convidativa a ele, mas sim porque temia. Temia erguer seus olhos e deparar-se com <em>ela<\/em>. Temia virar o rosto, um gesto inesperado e instintivo, uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, e v\u00ea-la, com aqueles mesmos olhos marcantes que assombravam seus pensamentos, com os mesmos l\u00e1bios convidativos curvados suavemente nos cantos em um sorriso discreto, \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo provocativo, com a mesma pele suave, e aquela mesma express\u00e3o <em>inocente<\/em>.<br>\u2003\u2003%Sean% sabia que n\u00e3o conseguiria impedir-se se porventura a visse, sabia que seria atra\u00eddo a ela como uma maldita mariposa para as brasas de uma <em>pira<\/em> por vontade pr\u00f3pria. Sabia que algo dentro de seu peito, aos peda\u00e7os e fragmentos, se agitaria n\u00e3o com a dolorosa sensa\u00e7\u00e3o de ter sido quebrado muitos anos atr\u00e1s, mas sim com a possibilidade de reconstru\u00e7\u00e3o. Quantas vezes n\u00e3o havia ca\u00eddo espontaneamente naquela fal\u00e1cia? Quantas vezes se permitiu acreditar na mentira que contava para si mesmo apenas para poder agarrar-se a ef\u00eamera <em>possibilidade?<\/em> Quantas vezes n\u00e3o havia sido, voluntariamente, um pe\u00e3o nas m\u00e3os de seus irm\u00e3os apenas para ouvir seus risos desdenhosos e desgostosos por deleitar-se em sua mis\u00e9ria?<br>\u2003\u2003<em>Nunca mais<\/em>, pensou, amargo.<br>\u2003\u2003Trincou os dentes com for\u00e7a, um pequeno m\u00fasculo saltou em sua mand\u00edbula bem pronunciada, cortante como navalha, quebrada, unindo as sobrancelhas ao virar \u00e0 esquerda e observar a viela em <em>Chinatown<\/em> abrir-se para um centro pequeno comercial. Aromas variados de comida chinesa e at\u00e9 mesmo taiwanesas se espalharam pelo ar, o estalido cont\u00ednuo e insistente do \u00f3leo quente fritando algo, os resmungos em l\u00ednguas variadas murmurando acusa\u00e7\u00f5es, especula\u00e7\u00f5es ou apenas pedido para que fosse trago mais algum ingrediente ou outra remessa de produtos para repor suas vitrines. Mas os olhos dele n\u00e3o se focaram em nenhuma barraca, apenas no restaurante com o nome <em>\u201cH\u00f3ng L\u00f3ng\u201d<\/em> que se projetava \u00e0 direita, mais ao fundo da viela.<br>\u2003\u2003O letreiro pulsando em um vermelho neon, machucaria os olhos de qualquer mortal que o encarasse, mas em si, sentiu como uma pequena coceira, inc\u00f4moda, mas facilmente ignor\u00e1vel. Ele podia sentir o poder que o lugar possu\u00eda; um templo, disfar\u00e7ado em um utilit\u00e1rio humano. N\u00e3o era o lugar que tornava algo sagrado, mas os mortais que depositavam suas esperan\u00e7as e mis\u00e9rias que o <em>tornava<\/em> significativo. Era <em>por isso<\/em> que eles se moviam conforme os mortais <em>moviam-se<\/em>; todos, <em>exceto<\/em> %Sean%. O gosto amargo se tornou mais pungente em sua boca, e ele se questionou internamente onde diabos aquilo vinha, se era provindo do amargor que havia infestado seu peito ao ponto de corromper tudo o que ainda lhe restara, ou se era provinda do que quer que estivesse alterando seu corpo \u2014 lentamente, mas certamente.<br>\u2003\u2003Contas tilintaram, batendo umas nas outras quando ele empurrou a cortina que encobria a entrada do restaurante al\u00e9m da porta de vidro com a plaquinha de \u201caberto\u201d presa precariamente. O cheiro de variados temperos, <em>guiozas<\/em>, <em>bao<\/em> e outras comidas tradicionais aqueciam o ar que pairava, estagnado, pelo lugar, misturando-se, raramente com o ventilador torto que repousava sobre o balc\u00e3o de atendimento. Poucas mesas se espalhavam pelo restaurante, o piso de lin\u00f3leo fosco possu\u00eda um pequeno brilho provindo da cera, e ainda estava liso, fazendo as solas desgastadas das botas de combate de %Broderick% ecoarem mais alto do que ele desejava <em>ouvir<\/em>. Toalhas claras, levemente amareladas cobriam a superf\u00edcie das mesas, junto com arranjos florais discretos e os card\u00e1pios a disposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia muitas pessoas pelo local, mas as poucas que tinham ali, distra\u00edam-se com seus celulares ou estavam entretidas demais com seus pr\u00f3prios interesses para se importarem com sua presen\u00e7a ali. N\u00e3o por menos, sentia-se vigiado.<br>\u2003\u2003Prostrada atr\u00e1s do balc\u00e3o de atendimento, girando desinteressadamente o que parecia ser os resqu\u00edcios de um bolinho da sorte, ou apenas uma de suas unhas posti\u00e7as, a <em>Dama<\/em>, apenas estreitou os olhos quando o viu se aproximar. Longos cabelos meio ruivos, meio loiros deslizaram por seus ombros, pendendo ao redor de seus ombros delicados como um manto denso e encaracolado, os olhos cinzentos, quase prateados possu\u00edam aquele c\u00edrculo esbranqui\u00e7ado que poderia ler a qualquer um, mesmo <em>ele<\/em>, com tamanha facilidade. Cintilavam com uma mistura de divertimento sombrio e impassividade que apenas refletia suas outras duas contrapartes. Os olhos de %Broderick% desviaram-se por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos para vasculhar o restaurante, as cortinas vermelhas cuidadosamente amarradas nos cantos, presos para dar vaz\u00e3o \u00e0 luz do sol, as cadeiras de mogno desgastados, com o verniz come\u00e7ando a descascar nos cantos dispostas em cantos estrat\u00e9gicos vazias, os vasos de porcelana chinesa, originais e caros, expunham <em>beg\u00f4nias vermelhas<\/em>, que <em>quase<\/em> o fez sorrir, sarc\u00e1stico, com a vis\u00e3o.<br>\u2003\u2003Elas haviam preparado o espa\u00e7o para sua chegada; o aviso silencioso da escolha das flores n\u00e3o lhe passou despercebido, antes de voltar seu olhar para a <em>Dama<\/em>. N\u00e3o disse nada a princ\u00edpio, apenas a encarou. Houve uma \u00e9poca que apenas sua presen\u00e7a a teria feito se encolher, embora curiosa, ainda assim permaneceria <em>temerosa<\/em>. Houve uma \u00e9poca que ela, a ponta mais jovem daquela <em>trifecta, teria<\/em> lhe oferecido esc\u00e1rnio e desgosto por meramente entrar em seu caminho. Aquele que teria lhe roubado a juventude se assim desejasse, aquele que carregava a escurid\u00e3o dentro de si como uma extens\u00e3o de si, aquele que era <em>destrui\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>nada mais<\/em>. Mas agora? Agora olhava-o com o desd\u00e9m que o fazia para com os mortais que a cercavam. %Sean% sentiu o gosto amargo pairar por sua l\u00edngua, mas ignorou a rea\u00e7\u00e3o <em>mortal<\/em>, trincando os dentes com for\u00e7a. Talvez com mais demasiada intensidade do que necess\u00e1rio, quando um pequeno m\u00fasculo em sua mand\u00edbula se moveu com o gesto. Al\u00e7ou de dentro de seu casaco de trincheira pesado sua <em>convoca\u00e7\u00e3o<\/em>, estendendo para a <em>Dama<\/em>, que, desdenhosa que s\u00f3, n\u00e3o conseguiu conter um sorriso entretido.<br>\u2003\u2003A mais nova sempre havia sido mais impulsiva e propensa a insultar do que compreender o peso da presen\u00e7a das criaturas que recebia. N\u00e3o era algo que o fazia de prop\u00f3sito, na verdade, pertencia a sua natureza, afinal, a emp\u00e1fia rebelde do novo que acreditava que o mundo lhe pertencia.<br>\u2003\u2003\u2014 Apostamos se voc\u00ea iria aparecer aqui, <em>Seth<\/em> \u2014 murmurou a <em>Dama<\/em> com um sorrisinho discreto, quase torto, erguia-se somente em um lado de seus l\u00e1bios, tornando-o mais afiado do que deveria. %Sean% n\u00e3o se deu ao trabalho de reagir \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o envolta de docilidade da entidade \u00e0 sua frente. Desviou seu olhar para a televis\u00e3o plana que emoldurava a parede \u00e0 sua direita, observando, com uma ponta de desgosto e irrita\u00e7\u00e3o a reprise que assistiam. Observou seu pr\u00f3prio rosto, coberto de suor e com <em>sangue<\/em> escorrendo do nariz e canto da boca, em um ringue, sorrindo como um verdadeiro monstro, <em>invicto<\/em>. Planejado, \u00e9 claro, uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder: <em>aqui<\/em>, quem comandava eram <em>elas<\/em>, n\u00e3o ele, n\u00e3o importava o quanto <em>seu ego<\/em> pudesse lhe corroer. \u2014 Anci\u00e3 disse que voc\u00ea viria, mas eu e M\u00e3e t\u00ednhamos <em>quase<\/em> certeza de que n\u00e3o o faria. N\u00e3o posso deixar de me questionar se a motiva\u00e7\u00e3o se d\u00e1 ao desespero. Diga-me, <em>Seth<\/em>, acha que encontrar\u00e1 miseric\u00f3rdia aqui hoje?<br>\u2003\u2003%Sean% a encarou em sil\u00eancio por um longo momento. A crueldade n\u00e3o era expl\u00edcita, mas reverberava como ondas por seus olhos prateados, observava-o como um experimento, e por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, com o ego ferido e o desejo por sangue \u2014 t\u00e3o familiar a si a essa altura \u2014, considerou apenas arrancar as luvas que envolviam suas m\u00e3os e enterr\u00e1-la no peito da Dama. A trai\u00e7\u00e3o jamais seria perdoada, era demasiado profundo interferir nos assuntos de <em>terceiros<\/em>, n\u00e3o somente as leis lhe proibiam, como igualmente seu pr\u00f3prio c\u00f3digo de \u00e9tica. Destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o era uma linha paralela, mas uma c\u00edclica, tendia a repetir-se, e querendo ou n\u00e3o, se encontraria com a Dama no mesmo ponto quando <em>esta<\/em> encontrasse seu pr\u00f3prio caminho com a autodestrui\u00e7\u00e3o, t\u00e3o atrativa para um esp\u00edrito rebelde quanto necess\u00e1ria, mas mesmo que fosse parte do jogo daquele destino escrito, n\u00e3o significava que %Sean% tinha <em>direito<\/em> a anteced\u00ea-lo. Por mais que <em>tudo<\/em> entre si estivesse contorcendo-se para que o fizesse.<br>\u2003\u2003\u2014 Fala como se <em>soubesse<\/em> o que a palavra significa. \u2014 Sua voz \u00e1spera ecoou n\u00e3o menos cortante quando ele inclinou a cabe\u00e7a para o lado. Sentiu ainda assim suas m\u00e3os se fecharam em punhos firmes, o tecido das luvas estalando suavemente em seus bolsos, um barulho vago quase distante para si. Seus olhos n\u00e3o se desviaram dos da Dama, observando-a atentamente, como quem desejava gravar at\u00e9 mesmo <em>as menores<\/em> altera\u00e7\u00f5es poss\u00edveis.<br>\u2003\u2003Sabia que havia tocado em um t\u00f3pico sens\u00edvel, sabia que havia acertado o <em>ego<\/em> dela, e sabia perfeitamente que n\u00e3o havia algo <em>mais<\/em> perigoso do que machucar o ego de um <em>deus<\/em>, mas tampouco poderia dizer que se importava. Ele n\u00e3o era algu\u00e9m que <em>iniciava<\/em> um confronto, mas certamente era aquele que <em>sempre<\/em> terminava. Ao fundo, o eco de uma plateia inteira gritando seu nome vibrou por sua pele como ondas el\u00e9tricas, a adora\u00e7\u00e3o vibrando por seu ser como uma droga potente, perigosa, <em>convidativa<\/em>. Em uma outra \u00e9poca, teria se permitido perder-se naquela sensa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia algo melhor do que ser <em>adorado<\/em>; n\u00e3o havia algo mais <em>perigoso<\/em>, igualmente.<br>\u2003\u2003\u2014 Sabe como a lei funciona, Seth \u2014 a <em>Dama<\/em> retorquiu com um chiado baixo, endireitando-se o suficiente para abrir a convoca\u00e7\u00e3o e verificar o selo, antes de retir\u00e1-lo com um movimento econ\u00f4mico de suas unhas e jogar a carta no lixo sem um segundo olhar. Deliberadamente levou o selo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 boca, mastigando-o com uma express\u00e3o <em>quase<\/em> entretida, se n\u00e3o sombria o suficiente para deix\u00e1-lo em alerta. \u2014 Voc\u00ea quebrou uma regra, ciente ou n\u00e3o, voc\u00ea <em>paga<\/em>. \u00c9 assim que as coisas funcionam, <em>Seth<\/em>.<br>\u2003\u2003%Sean% bufou, amargo, mas n\u00e3o respondeu a ela.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 a encontrou desta vez? \u2014 a <em>Dama<\/em> especulou, com um tom de voz trai\u00e7oeiro, t\u00e3o curioso quanto cruel.<br>\u2003\u2003O estalo foi quase imediato na cabe\u00e7a dele. Em um segundo, ele estava parado, no outro, a havia agarrado pelo queixo, os dedos fincando-se contra a pele dela com mais for\u00e7a que o necess\u00e1rio. Os m\u00fasculos tensionados com tamanha intensidade que pareciam ao ponto de ruptura, ao ponto de sentir o inc\u00f4modo da dor se espalhar por baixo de sua pele, o tremor aumentando gradativamente, implorando-lhe para que movesse, para que acabasse com ela de uma vez. Mas mais do que isso, foi uma ponta de satisfa\u00e7\u00e3o sombria ao observar <em>medo<\/em> enredar-se nos olhos prateados dela. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, a <em>Dama<\/em>, em toda sua insol\u00eancia juvenil, pareceu se lembrar quem <em>ele<\/em> era.<br>\u2003\u2003\u2014 Um toque. \u2014 O rosnado que escapou por entre seus dentes chocou-se como uma lufada de ar contra o rosto da <em>Dama<\/em>, e ele a observou, com uma ponta de satisfa\u00e7\u00e3o sombria, <em>tremer<\/em>. \u2014 \u00c9 tudo o que eu precisaria e voc\u00ea n\u00e3o seria nada mais do que uma mem\u00f3ria. \u2014 Inclinou-se na dire\u00e7\u00e3o dela, at\u00e9 que estivessem a poucos cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia, sua respira\u00e7\u00e3o, c\u00e1lida, chocando-se contra o rosto dela, impass\u00edvel, os olhos, obscurecidos por sua pr\u00f3pria natureza, um pren\u00fancio de <em>perigo<\/em>. Um <em>convite<\/em> \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. \u2014 <em>Quer apostar?<\/em> \u2014 amea\u00e7ou, sem importar-se com a sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo assistido, sem importar-se com as prov\u00e1veis consequ\u00eancias que lhe acarretariam se ele seguisse adiante.<br>\u2003\u2003Ele a teria destru\u00eddo. Ele teria feito sem um pingo de remorso em sua consci\u00eancia, se n\u00e3o pelo ego ferido, pela mensagem que enviaria \u2014 ele <em>comandava<\/em> respeito, comandava que ao menos <em>se lembrassem<\/em> de quem ele era. Mas o pigarro projetando-se de algum ponto atr\u00e1s de si, de onde a cozinha ficava, parou.<br>\u2003\u2003\u2014 Solte-a, meu senhor. \u2014 A voz melodiosa de <em>M\u00e3e <\/em>ecoou de algum ponto vindo da cozinha, mas n\u00e3o menos severa quanto a carranca que %Sean% %Broderick% mantinha presa em seu rosto. Ele trincou os dentes com for\u00e7a, considerando suas alternativas. N\u00e3o precisava ser um g\u00eanio para ter certeza do que aconteceria se ele <em>ousasse<\/em> desobedec\u00ea-la. Sabia das consequ\u00eancias, e embora uma parte de si, desesperada e furiosa, manchada pelo ego machucado e a c\u00f3lera crescente, estivesse disposta a fazer o que desejava sem se importar com as consequ\u00eancias disso, uma mais sombria, experiente sabia que n\u00e3o valia a pena. Ent\u00e3o ele fez como lhe foi comandado.<br>\u2003\u2003Virou-se na dire\u00e7\u00e3o de <em>M\u00e3e<\/em>, observando os cabelos levemente grisalhos nos cantos, os fios espor\u00e1dicos criando um contraste gritante entre as mechas escuras como a noite, os olhos prateados, com aquele anel quase esbranqui\u00e7ado ao redor da \u00edris, todavia, embora severo, n\u00e3o era desprovido de compaix\u00e3o. %Sean% estreitou os olhos; era mais <em>desconfort\u00e1vel<\/em> ser recebido por uma palavra gentil e uma m\u00e3o estendida, do que uma provoca\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Venha, ela est\u00e1 esperando, voc\u00ea j\u00e1 evitou o confronto a suas a\u00e7\u00f5es por tempo suficiente. \u2014 <em>M\u00e3e <\/em>indicou com a cabe\u00e7a, retirando o avental de sua cintura, e ent\u00e3o caminhando de volta para a cozinha. %Sean% n\u00e3o voltou a encarar <em>Dama<\/em>, mesmo quando a jovem, petulante como sempre, resmungou abaixo de sua respira\u00e7\u00e3o alguma provoca\u00e7\u00e3o enviesada.<br>\u2003\u2003Acompanhado pela presen\u00e7a quase fantasmag\u00f3rica de <em>M\u00e3e<\/em>, %Sean% atravessou o espa\u00e7o da cozinha, desviando de alguns empregados atarefados, cegos demais para sequer perceb\u00ea-lo ali, e por um segundo, uniu as sobrancelhas, questionando-se o que diabos havia mudado consigo desde aquela manh\u00e3. Podia sentir que algo dentro de si mesmo estava errado, algo n\u00e3o mais condizia com sua pr\u00f3pria natureza, mas bem, um mil\u00eanio daquela maldi\u00e7\u00e3o o havia feito se acostumar com a sensa\u00e7\u00e3o de que algo estava faltando. Sabia que parte disso era o <em>chamado<\/em> por <em>ela<\/em>. Sabia que era a parte de sua alma que havia se dispersado junto com <em>ela<\/em>, tentando atra\u00ed-la de volta para si, apenas para que ele a assistisse desaparecer em meros segundos por algum ato est\u00fapido que ele pudesse tomar. Mas, naquele dia, parecia mais do que isso. Parecia que estava se desfazendo, como areia dentro de uma ampulheta, estava escorrendo, desaparecendo com uma velocidade alarmante. Desviou, ainda assim, de um gar\u00e7om antes de virar \u00e0 esquerda e descer as escadarias de madeira do restaurante em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>adega<\/em> do espa\u00e7o.<br>\u2003\u2003As solas de suas botas de combate guincharam sobre o assoalho de madeira ao descer degrau por degrau. Olhos estreitaram-se ao inclinar sua cabe\u00e7a para o lado, acompanhando a maneira com que a madeira n\u00e3o demorou a tornar-se terra batida, ent\u00e3o o cheiro pungente de umidade percorreu o espa\u00e7o, fazendo com que seus cabelos grudassem na lateral de suas t\u00eamporas e nuca, encaracolando levemente. A ilumina\u00e7\u00e3o, de fundo amarelado, oscilava, ora ligada, ora apagada, iluminando um espa\u00e7o maior do que o restaurante em <em>Chinatown<\/em> poderia comportar. Sabia que n\u00e3o estava em lugar algum, se n\u00e3o o pr\u00f3prio reino <em>dela<\/em>. Podia sentir a energia misturando-se com o poder, pairando por sua pele como um toque fantasma. E ao centro de tudo, encontrava-se a <em>Anci\u00e3<\/em>, sentada \u00e0 frente de uma mesa de madeira quadrada, com algumas garrafas de vinho abertas, enquanto abria mais um jogo \u00e0 sua frente.<br>\u2003\u2003Diferente da <em>Dama<\/em> e da <em>M\u00e3e<\/em>, a <em>Anci\u00e3<\/em> era uma criatura amea\u00e7adora. Os cabelos grisalhos, totalmente prateados, eram cuidadosamente entrela\u00e7ados para que se formasse uma coroa sobre seu cr\u00e2nio, algumas mechas enroscavam-se com espinhos e ra\u00edzes, os olhos n\u00e3o eram prateados como das outras duas, mas de um tom esbranqui\u00e7ado, vibrante que se destacava em sua pele, as rugas e linhas de express\u00e3o tornavam seu rosto outrora belo agora severo. Tra\u00e7os finos e elegantes, ainda presentes em toda sua palidez. N\u00e3o havia miseric\u00f3rdia ali, n\u00e3o havia negocia\u00e7\u00e3o, era o que era, e um arrepio percorreu pelo corpo dele, eri\u00e7ando os pelos dele com a est\u00e1tica que pairava ao seu redor. N\u00e3o o tratava como convidado, mas sim como um condenado, e talvez <em>este<\/em> pren\u00fancio fosse autoexplicativo por si s\u00f3.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea veio, como eu disse \u2014 a Anci\u00e3 murmurou, voz \u00e1spera e falhada, levemente carregada em sua respira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era menos r\u00edgida e firme. %Sean% lan\u00e7ou um breve olhar ao seu redor, sentindo uma ponta de amargor atingir seus pensamentos ao absorver o espa\u00e7o contemplativo. <em>M\u00e3e<\/em> indicou para que ele se sentasse na cadeira \u00e0 sua frente, mas %Broderick% n\u00e3o o fez. Embora elas pudessem ser as executoras da lei, ele <em>ainda<\/em> era um <em>deus<\/em>, e o fato de que elas pareciam agir como tivessem se esquecido desse fato era o suficiente n\u00e3o apenas para incomod\u00e1-lo, mas para envi\u00e1-lo em uma espiral de f\u00faria controlada, pois sabia que o ato n\u00e3o era deliberado.<br>\u2003\u2003Questionou se seus irm\u00e3os estariam se divertindo <em>tanto<\/em> com sua presen\u00e7a ali quanto ele <em>supunha<\/em> que o fazia. Questionou se a ironia amarga agradava-lhes ou se era sua pr\u00f3pria decad\u00eancia o fato chave em comum.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea chamou \u2014 desdenhou com um tom afiado, recebendo um olhar em forma de alerta. Em outra \u00e9poca, teria ao menos evidenciado algum tipo de rever\u00eancia diante daquelas entidades, passado, presente e futuro, embora fragmentadas, cada uma a sua forma, n\u00e3o deveriam ser provocadas. Eram severas em suas puni\u00e7\u00f5es, e mesmo deuses deveriam lembrar-se de que sua exist\u00eancia era, de certo, limitada. Mas a maneira com que a <em>Anci\u00e3<\/em> lhe retornava o olhar, era o suficiente para que %Sean% n\u00e3o conseguisse conter sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, o <em>clamor<\/em> pela destrui\u00e7\u00e3o, por menor que fosse.<br>\u2003\u2003\u2014 De fato, eu chamei. \u2014 Um sorriso afiado, perigoso, come\u00e7ou a surgir pelos cantos enrugados de seus l\u00e1bios, e %Sean% n\u00e3o p\u00f4de deixar de questionar-se <em>o que<\/em> diabos n\u00e3o estava enxergando dessa vez. Podia sentir os n\u00f3s e linhas que o prendiam n\u00e3o apenas naquela maldi\u00e7\u00e3o, mas naquela exist\u00eancia como um <em>pe\u00e3o<\/em>. Podia sentir cordas sendo puxadas, n\u00e3o todas, aquilo seria em demasia previs\u00edvel, mas algumas, discretas demais para que ele se desse ao trabalho de reconhec\u00ea-las, mas presentes o suficiente para coloc\u00e1-lo em movimenta\u00e7\u00e3o. Podia sentir as cordas se tensionarem e relaxarem, mas n\u00e3o conseguia identificar <em>quem<\/em> as segurava. \u2014 Sente-se, garoto, e justifique-se.<br>\u2003\u2003%Sean% trincou os dentes com for\u00e7a, encarando a <em>Anci\u00e3<\/em>. Cham\u00e1-lo de garoto era meramente uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder e desd\u00e9m, era uma maneira de apresent\u00e1-lo como inferior, como nada mais do que um rec\u00e9m-nascido diante de sua sabedoria. Um erro comum a ser cometido ao considerar que tempo por vezes poderia ser um bom professor e oferecer a d\u00e1diva de sabedoria para algu\u00e9m, quanto, igualmente, era um carrasco cruel que apenas enrijecia a pr\u00f3pria burrice abalizada. Havia uma fina linha entre tornar-se s\u00e1bio e <em>apenas<\/em> convencer-se de que era algo por ego; a <em>Anci\u00e3<\/em> parecia transitar por estas linhas como uma crian\u00e7a. Ainda assim, conquistar a f\u00faria dela n\u00e3o estava em sua lista de tarefas para o dia, ent\u00e3o, obrigou-se a engolir seu pr\u00f3prio ego machucado, seu egocentrismo e presun\u00e7\u00e3o, sentando-se contra a cadeira de madeira escura. O objeto estalou abaixo de seu peso, quando ele se recostou contra o mesmo, estreitando os olhos, observando a <em>Anci\u00e3<\/em> com aten\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o tenho defesa, n\u00e3o irei me justificar. Qualquer que seja a puni\u00e7\u00e3o, s\u00f3 o fa\u00e7a \u2014 pronunciou-se ap\u00f3s um longo momento em sil\u00eancio, desviando os olhos do rosto inquisit\u00f3rio da <em>Anci\u00e3<\/em>, permitindo-se apenas encarar o vazio que aquele espa\u00e7o parecia apresentar. Havia mudado com o tempo, como <em>todos<\/em> eles mudavam, independentemente de suas presen\u00e7as ou n\u00e3o, aqueles reinos de poder, onde suas magias coexistiam em forma prim\u00e1ria, mas alterava-se como algo vivo.<br>\u2003\u2003Por um segundo, uma fra\u00e7\u00e3o min\u00fascula e tentadora de tempo, seus pensamentos se extraviaram para um passado doloroso, onde <em>ele<\/em> possu\u00eda controle sobre seu pr\u00f3prio reino. Onde ele n\u00e3o havia sido expulso como nada mais do que um animal e n\u00e3o havia sido amaldi\u00e7oado. Quando seu nome ao menos o tornava algo a ser <em>temido<\/em> e n\u00e3o <em>domesticado<\/em>. Mas isso j\u00e1 fazia tempo o suficiente para que apenas o gosto amargo e as lembran\u00e7as desfocadas, com ru\u00eddos em sua mem\u00f3ria o assombrassem.<br>\u2003\u2003\u2014 Esteve vivendo entre os mortais a tempo suficiente para se tornar arrogante como eles? Para achar que sua import\u00e2ncia \u00e9 demasiada para ser <em>notada<\/em>? \u2014 Anci\u00e3 retorquiu com um chiado entre dentes, e %Sean% trincou os dentes com tamanha for\u00e7a que suas t\u00eamporas come\u00e7aram a latejar. Fechou as m\u00e3os em punhos firmes, sentindo o pequeno tremor espalhar-se pelos m\u00fasculos tensionados, os olhos queimaram, em um sil\u00eancio crescente, fundado por ressentimento e algo mais, algo sombrio que se contorcia pelo peito do deus, sufocante e <em>c\u00e1lido<\/em>, fixos no rosto da velha. Amargor pela maldi\u00e7\u00e3o que lhe fora posta como puni\u00e7\u00e3o, ressentimento por ser tratado n\u00e3o melhor do que um cachorro por aqueles que um dia o haviam servido como desejava, e algo sombrio, algo mais profundo e denso que estava enraizado em sua <em>alma<\/em>. <em>Destrui\u00e7\u00e3o<\/em>. \u2014 Olha-me com raiva, mesmo frustra\u00e7\u00e3o agora, mas esquece-se que foi <em>voc\u00ea<\/em> quem concordou com tudo isso. Acaso culpa-me agora por ter se deparado com um resultado que n\u00e3o lhe agradou? Como <em>isso<\/em> pode ser culpa minha, <em>Seth?<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o se esque\u00e7a de quem sou, <em>Arianrhod<\/em>. \u2014 O aviso baixo, adquirira uma nota mais perigosa do que ele tinha inten\u00e7\u00e3o de expor, mas n\u00e3o pediria desculpas por o fazer. Deuses n\u00e3o eram compassivos, deuses n\u00e3o pediam <em>desculpas<\/em> ou retornavam atr\u00e1s de suas palavras. N\u00e3o, a d\u00e1diva da flexibilidade era reservada aos mortais e apenas <em>estes<\/em>. \u2014 E do que <em>ainda<\/em> posso fazer.<br>\u2003\u2003\u2014 Por mais <em>quanto<\/em> tempo, Seth? \u2014 A <em>Anci\u00e3<\/em> abriu um sorriso afiado, todos os dentes afiados expostos, inclinando-se para frente, apoiou os cotovelos sobre a mesa, e o queixo nas costas das m\u00e3os enrugadas com veias azuladas expostas, os olhos cintilavam com uma promessa silenciosa de retribui\u00e7\u00e3o que o fez se silenciar. Percebeu, tardiamente, que as palavras dela n\u00e3o se referiam em si \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o que carregava dentro de si, mas a outra coisa completamente diferente. Sua boca ficou estranhamente seca, sua respira\u00e7\u00e3o perdeu-se em algum lugar de sua garganta, e %Sean% levantou-se com um movimento brusco, quase <em>selvagem<\/em>. A <em>Anci\u00e3<\/em> soltou um riso baixo, nasalado, desprovido de humor. \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 <em>morrendo<\/em>. \u2014 O sorriso afiado <em>dela<\/em> tornou-se mais cruel, decisivo. \u2014 Posso sentir mesmo <em>agora<\/em>, passou tanto tempo no mundo mortal que come\u00e7ou a tornar-se <em>um<\/em> deles. E <em>ainda<\/em> acredita que tem <em>algum<\/em> poder aqui? O que <em>acha<\/em> que ainda tem <em>direito<\/em> se n\u00e3o o esquecimento que buscou por si s\u00f3?<br>\u2003\u2003Raiva queimou por suas veias, aquecendo-as quando ele se inclinou na dire\u00e7\u00e3o de Arianrhod, seus olhos fixos nos prateados dela com intensidade. Um grito, fosse de f\u00faria contida ou dor, acabou morrendo em sua garganta enquanto sua respira\u00e7\u00e3o escapava como lufadas pesadas de ar. Havia sim \u00f3dio pairando por seu cerne, mas este \u00f3dio, vermelho e cegante, acabou por misturar-se com a culpa profunda, a completa compreens\u00e3o de que, de fato, em sua presun\u00e7\u00e3o exacerbada e atos impulsivos ele havia <em>buscado<\/em> por aquilo, a frustra\u00e7\u00e3o e ressentimento que sentia pela a maldi\u00e7\u00e3o distorcida que seus irm\u00e3os haviam lhe jogado sem hesitar, na armadilha que estava preso h\u00e1 um mil\u00eanio sem ter perspectiva de escapar ao peso que carregava de suas pr\u00f3prias responsabilidades e ent\u00e3o, sob tudo, em um limiar crepuscular dentro de si havia apenas o desespero. Profundo e sufocante desespero que crescia como vinha por seu peito, enroscando-se por seus m\u00fasculos, fincando-se profundamente at\u00e9 que tivesse se tornado um s\u00f3 com ele, impossibilitando-o de pensar, de mover-se. Estrangulando-o lentamente, sem perspectiva de fuga. Sem mais nada. E ent\u00e3o, ao fundo de sua mente, aquela parte sombria e trai\u00e7oeira que o acalentava, a pequena esperan\u00e7a, uma fagulha inst\u00e1vel em meio a um mar escuro e putrefato, sem vida; se morrer fosse o que lhe era necess\u00e1rio para <em>mant\u00ea-la<\/em> a salvo de si, se perd\u00ea-la era a garantia que, <em>desta<\/em> vez, n\u00e3o a perderia por suas pr\u00f3prias m\u00e3os, era assim um final t\u00e3o ruim para si? Seria assim t\u00e3o desolador perceber que tudo o que havia sido, tudo o que era agora desfazia-se por entre seus dedos como um mero amontoado de areia?<br>\u2003\u2003A <em>Anci\u00e3<\/em> permitiu-se recostar contra a cadeira, observando o rosto dele com aten\u00e7\u00e3o, antes de exalar lentamente. Abaixou os olhos para as cartas espalhadas sobre a mesa, al\u00e7ou uma, a <em>Imperatriz<\/em>, girando por entre os dedos ossudos e longos com uma express\u00e3o agora mais contemplativa do que acusat\u00f3ria.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada que eu possa fazer que poderia ser vigente em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea, Seth \u2014 murmurou contemplativa, a voz cruel agora encoberta por uma tonalidade mais baixa, controlada, distante. Estava perdida em seus pensamentos, percebeu, calculando e analisando as possibilidades das puni\u00e7\u00f5es em potencial que poderiam servir como exemplo por ele ter quebrado a <em>\u00fanica<\/em> regra que eles possu\u00edam, a <em>\u00fanica<\/em> regra que ele n\u00e3o deveria ter quebrado. \u2014 Como posso quebrar algu\u00e9m j\u00e1 em fragmentos? Como posso punir algu\u00e9m que ir\u00e1 sentir <em>al\u00edvio<\/em> e n\u00e3o <em>temor<\/em>? At\u00e9 onde quebrar algu\u00e9m prova um ponto, e at\u00e9 onde a quebra se torna conforto? \u2014 resmungou, exalando por fim, antes de recolher as cartas sobre a mesa, e levantar-se com um movimento econ\u00f4mico, elegante, a saia longa marrom escuro farfalhou por entre suas pernas, enroscando-se por entre as pernas dela quando ela se aproximou de um dos barris de vinho. Sabia que n\u00e3o deveriam ser barris de fato, mas tinha pouco interesse em averiguar a fundo o que poderia ser. Lan\u00e7ou as cartas ali, com desd\u00e9m, antes de retirar o que parecia ser ossos. %Sean% sentiu algo c\u00e1lido espalhar-se por seu peito, e ele <em>quase<\/em> sorriu ao reconhecer os ossos. Eram os que <em>ele<\/em> havia dado a ela, h\u00e1 muito, <em>muito<\/em> tempo. Pela primeira vez, quando encarou a <em>Anci\u00e3<\/em>, n\u00e3o havia f\u00faria contida, ressentimento corro\u00eddo ou acusa\u00e7\u00f5es, mas apenas um pesar; pelo que poderia ter sido e que <em>jamais<\/em> seria. Ainda assim, permaneceu em sil\u00eancio, observando-a com aten\u00e7\u00e3o. \u2014 Como posso puni-lo se n\u00e3o tem <em>mais nada<\/em> a perder?<br>\u2003\u2003%Sean% n\u00e3o respondeu; n\u00e3o tinha certeza se o deveria fazer. Ele <em>ainda<\/em> tinha <em>algu\u00e9m<\/em> a perder ali, algu\u00e9m que h\u00e1 anos podia sentir existindo, respirando ao fundo de sua mente, algu\u00e9m que ele havia jurado nunca mais encontrar. A <em>Anci\u00e3<\/em> ainda poderia <em>us\u00e1-la<\/em> contra ele, ainda poderia amea\u00e7\u00e1-la e at\u00e9 mesmo pedir sua alma como pagamento por seu d\u00e9bito. N\u00e3o seria a <em>primeira<\/em> vez que ela o fazia, tampouco seria a \u00faltima.<br>\u2003\u2003\u2014 Sabe o que ir\u00e1 acontecer agora, n\u00e3o sabe? \u2014 Anci\u00e3 resmungou, por fim, ap\u00f3s uma longa pausa. %Sean% sentiu algo melanc\u00f3lico envolv\u00ea-lo como um cobertor denso, desconfort\u00e1vel, desviou os olhos para os ossos que ela lan\u00e7ou sobre a superf\u00edcie lisa da mesa, observando o padr\u00e3o que os ossos formaram. A resposta <em>\u201cn\u00e3o\u201d<\/em> era gritante; sentiu vontade de rir, amargo com a rejei\u00e7\u00e3o, mas a essa altura era algo que estava <em>familiarizado<\/em>. Os olhos prateados fixaram-se no rosto dele, observando-o com aten\u00e7\u00e3o, parecendo buscar por quaisquer m\u00ednimas rea\u00e7\u00f5es, pesando as possibilidades, calculando a melhor forma de aplicar a puni\u00e7\u00e3o, mas %Sean% permaneceu inexpressivo, encarando-a em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003\u2014 Sei, e n\u00e3o vou pedir por perd\u00e3o \u2014 %Sean% pronunciou-se deliberadamente, os olhos queimando o rosto da <em>Anci\u00e3<\/em>, tentando memorizar o rosto da velha mulher. N\u00e3o sabia exatamente por que o tentara fazer, apenas sentiu aquele impulso, <em>mortal<\/em>, de grav\u00e1-la em sua mem\u00f3ria. Como algu\u00e9m que <em>sabia<\/em> que viria a esquecer no segundo que deixasse aquele lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 Sempre foi o mais insolente de todos. \u2014 A <em>Anci\u00e3<\/em> estalou os l\u00e1bios desaprovadora, e t\u00e3o desgostosa quanto. %Sean% <em>quase<\/em> sorriu com o desd\u00e9m que pairou de suas palavras, os olhos obscurecidos pelo ressentimento e pela f\u00faria contida pareceram suavizar por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos quando os cantos de seus l\u00e1bios se retorceram, antes de tensionar a mand\u00edbula outra vez. O sil\u00eancio pareceu se estender entre os dois, pesado com a finalidade que carregava antes dela murmurar, imponente: \u2014 Eu, por meio desta, pro\u00edbo que Seth, <em>Lorde da Guerra<\/em>, a pr\u00f3pria <em>Destrui\u00e7\u00e3o<\/em>, tenha seu acesso aos reinos irm\u00e3os que outrora o acolheram, permanentemente, sob puni\u00e7\u00e3o por ter quebrado sua palavra. Que n\u00e3o haja miseric\u00f3rdia em seu caminho. Que n\u00e3o haja paz \u00e0quele que agora torna-se <em>proscrito<\/em>. Que minhas palavras sejam lembradas at\u00e9 os fins dos tempos, que estejam marcadas n\u00e3o apenas em sua mem\u00f3ria, mas em sua carne, e que quaisquer desafiantes que tentem distorcer ou revogar minhas palavras enfrentem as puni\u00e7\u00f5es adequadas, pois <em>eu<\/em> sou a <em>lei<\/em>, e a <em>lei<\/em> jamais ser\u00e1 quebrada.<br>\u2003\u2003Quando %Sean% fechou os olhos, sabia o que encontraria quando os abrisse, mas n\u00e3o p\u00f4de deixar de sentir um profundo pesar pelo que havia acabado de acontecer. As leis dos deuses eram diferentes dos mortais; eram mesquinhas, severas e irrepar\u00e1veis. Uma vez ele havia, em toda sua presun\u00e7\u00e3o e inst\u00e1vel natureza, desafiado seus irm\u00e3os pela emp\u00e1fia de uma superioridade insolente e deslumbrada. Acreditara-se como maior e n\u00e3o apenas uma correla\u00e7\u00e3o estendida do <em>todo<\/em>, e por isso pagara ao ser amaldi\u00e7oado e relegado a viver entre os mortais. Agora, ele era nada mais do que apenas um <em>proscrito<\/em>, um p\u00e1ria, condenado a vagar pelo resto do tempo que ainda lhe sobrava entre as margens, um espectador distante, de um lugar que n\u00e3o mais poderia chamar de <em>casa<\/em>. Ele n\u00e3o voltaria ao seu <em>reino<\/em>, ele n\u00e3o veria as pessoas que um dia nutriu um certo amontoado de afeto e respeito, tampouco poderia levar aqueles que o seguiram para o mundo mortal, de volta para suas casas. Seu <em>ex\u00edlio<\/em> era absoluto e total, e condenava aquela exist\u00eancia med\u00edocre \u00e0queles tamb\u00e9m que o haviam seguido por lealdade.<br>\u2003\u2003E a pior parte? Sua puni\u00e7\u00e3o, ainda que amarga, soava mais como uma emancipa\u00e7\u00e3o de tudo o que havia carregado. Se n\u00e3o fosse <em>por ela<\/em>, ent\u00e3o ele teria encontrado a paz. Quando voltou a abrir seus olhos, n\u00e3o se surpreendeu em deparar-se com o letreiro familiar da academia que possu\u00eda, localizada no centro de Las Vegas, era discreta o suficiente para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria, mas convidativa o suficiente para atrair as pessoas <em>certas<\/em> para o lugar. Pessoas <em>violentas<\/em>, pessoas que buscavam por <em>sangue<\/em> e <em>destrui\u00e7\u00e3o<\/em>, fossem de outras ou de si mesmas, n\u00e3o importava, o convite sempre seria estendido. Empurrou a porta de vidro, estreitando os olhos, sentindo o aroma familiar de <em>decad\u00eancia<\/em> espalhado pelo lugar.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 T\u00f4 assumindo que foi horr\u00edvel pela cara que voc\u00ea est\u00e1 fazendo \u2014 Maeve murmurou com uma ponta de desd\u00e9m em seu tom de voz arrastado, quase pregui\u00e7oso, um sorriso torto surgiu por seus l\u00e1bios tingidos de vermelho, sem se dar ao trabalho de sair da cadeira <em>dele<\/em>, ou tampouco retirar as caixas de <em>delivery<\/em> de comida italiana que ela deveria ter comido com Jack no almo\u00e7o aquele dia.<br>\u2003\u2003%Sean% trincou os dentes com for\u00e7a, endireitando os ombros e lan\u00e7ando um olhar nem um pouco contente para a mulher, observando-a ter, ao menos, a dec\u00eancia de encar\u00e1-lo com um pouco de medo. Maeve engoliu em seco, deixando suas pernas ca\u00edrem da mesa que se apoiava, apertando os l\u00e1bios com o batom vermelho em uma linha r\u00edgida ao unir as sobrancelhas, parecendo estar considerando com cuidado suas pr\u00f3ximas palavras.<br>\u2003\u2003%Sean% sentiu a f\u00faria contorcer-se ao p\u00e9 de sua barriga, c\u00e1lida e convidativa, o desejo de permitir-se explodir, tentador, e ele se questionou de <em>onde<\/em> nascia aquele descontrole. Questionou de <em>onde<\/em> aquele impulso havia se enraizado, e n\u00e3o precisou de muito para saber que n\u00e3o era <em>somente ele<\/em>. Exalou, entre seus dentes, unindo as sobrancelhas observando suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Considerou as palavras da Anci\u00e3, considerou as palavras de seus irm\u00e3os, considerou sua pr\u00f3pria maldi\u00e7\u00e3o. Havia algo de errado ali, algo que havia se desfeito, uma linha que ele deveria ter atravessado sem perceber e que agora voltava para assombr\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003\u2014 O que a <em>Anci\u00e3<\/em> disse, afinal? Foi assim t\u00e3o ruim, %Sean%? \u2014 questionou, cautelosa, chamando-o por seu nome mortal como um ato de gentileza, um gesto de apaziguamento que %Broderick% n\u00e3o soube dizer se conseguia acreditar <em>muito<\/em>.<br>\u2003\u2003Umedeceu seus l\u00e1bios secos, voltando a endireitar-se antes de lan\u00e7ar um olhar breve na entrada da porta, e ent\u00e3o permitir-se desabar na cadeira \u00e0 frente de sua mesa, sem importar-se com os lugares em que estavam. Se fosse ser honesto, Maeve era mais dona daquela academia do que ele, mesmo que ele fizesse parte do administrativo, mesmo que fosse a fama de seu <em>passado<\/em> que tivesse atra\u00eddo lutadores e pessoas interessadas em treinar ali, mesmo que fosse de seu <em>bolso<\/em> que o dinheiro sa\u00eda todos os meses, e mesmo que fosse <em>sua<\/em> palavra a final, Maeve era a pessoa que <em>geria<\/em> aquele lugar. N\u00e3o s\u00f3 da parte da organiza\u00e7\u00e3o como a\u00e7\u00f5es efetivas de aquisi\u00e7\u00f5es, coordena\u00e7\u00f5es. Estranhamente, at\u00e9 onde sua consci\u00eancia lhe permitia sem censur\u00e1-lo com veem\u00eancia, at\u00e9 poderia se dizer que ele confiava em Maeve, mas n\u00e3o o suficiente para lhe confessar o que vinha lhe rondando a mente.<br>\u2003\u2003\u2014 Olha, voc\u00ea pode at\u00e9 tentar engolir tudo o que voc\u00ea t\u00e1 sentindo, mas mesmo <em>deuses<\/em> devem ter um limite, %Sean%, <em>n\u00e3o d\u00e1<\/em> para manter tudo dentro de si o <em>tempo todo<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Deuses n\u00e3o s\u00e3o como mortais, Maeve, eles n\u00e3o sentem como <em>voc\u00eas<\/em> \u2014 %Sean% retorquiu levando sua m\u00e3o esquerda em dire\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio rosto, massageando as t\u00eamporas doloridas. Desde quando ele sentia dor? E por que a letargia agora o incomodava com insist\u00eancia?<br>\u2003\u2003\u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais um deles, \u00e9 %Sean%? \u2014 Maeve pontuou e %Sean% deixou sua m\u00e3o desabar de seu rosto, inclinando sua cabe\u00e7a para a direita, recostando-se contra o encosto da cadeira, apoiando sua nuca na cabeceira, encarando a amiga de longa data com uma ponta gritante de impaci\u00eancia. Era inconveniente, talvez at\u00e9 mesmo irritante, que ela o pudesse ler com tamanha facilidade. Estava acostumado com mortais <em>acreditando<\/em> que possu\u00edam algum n\u00edvel de empatia para compreender suas emo\u00e7\u00f5es, para se <em>conectar<\/em> com ele, mas Maeve era uma das poucas que em momentos como aquele, momentos em que o desespero se tornava gritante o suficiente para consumir sua mente de uma s\u00f3 vez, que %Sean% questionava se <em>ela<\/em> realmente n\u00e3o o conseguia fazer. Apertou os l\u00e1bios em uma linha fina, desviando seu olhar do rosto de Maeve para o caderno de contas aberto.<br>\u2003\u2003Estreitou os olhos, encarando por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos o rosto cheio de \u00e2ngulos e gentil de Maeve, e ent\u00e3o repousaram sobre as folhas amareladas revelando uma caligrafia r\u00edspida, quase abstrata, forte, que marcava as p\u00e1ginas com tinta <em>vermelha<\/em> \u2014 aquilo <em>n\u00e3o era<\/em> tinta. A princ\u00edpio, o deus n\u00e3o havia dito nada, apenas observou atentamente a situa\u00e7\u00e3o em m\u00e3os: a express\u00e3o preocupada e distra\u00edda de Maeve ao concentrar em seus problemas pessoais, a postura agora, repousando os bra\u00e7os sobre a mesa, sem perceber que cobria a parte inferior das folhas \u2014 ou talvez <em>soubesse exatamente<\/em> o que estava fazendo. A posi\u00e7\u00e3o do caderno de contas, p\u00e1gina 652, o que deveria ser referente a algum <em>acordo<\/em> feito entre <em>maio<\/em> a <em>agosto<\/em> com algum mortal desesperado h\u00e1 quase 26 anos. Tentou buscar ao fundo de sua mem\u00f3ria quem poderia ser, os nomes reverberaram como ondas por sua mente, mas n\u00e3o proporcionaram nada se n\u00e3o uma mera familiaridade moment\u00e2nea.<br>\u2003\u2003\u2014 Onde est\u00e1 Jack? \u2014 %Sean% perguntou, mais categ\u00f3rico do que interessado em saber o que exatamente um de seus funcion\u00e1rios estavam fazendo. Verdade seja dita, Jack era uma pe\u00e7a imprevis\u00edvel sob seu dom\u00ednio. O homem que o havia enganado para conseguir vida eterna, havia prestado sua lealdade n\u00e3o por respeito, mas por interesse.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era incomum que %Sean% o pudesse sentir, em algum lugar abaixo da academia, em algum espa\u00e7o que %Sean% havia proibido entrada, ou nas c\u00e2maras que se interseccionavam a caminho de seu <em>pr\u00f3prio<\/em> reino tramando alguma coisa. Na maioria das vezes, eram apenas lutas ilegais, algo que %Sean% n\u00e3o era l\u00e1 assim t\u00e3o contr\u00e1rio, pois se algu\u00e9m buscava sua autodestrui\u00e7\u00e3o, certamente saberia <em>exatamente<\/em> o que estava fazendo quando entrava <em>naquele<\/em> ringue, mas algo estava estranho naquele dia. Algo insuport\u00e1vel que contorcia-se em suas entranhas, e projetava-se atr\u00e1s de si como uma sombra, um peso com garras g\u00e9lidas e afiadas que pulsava, atraindo sua aten\u00e7\u00e3o para um ponto invis\u00edvel, mas presente, que ele ainda n\u00e3o havia conseguido identificar direito. E ao centro de tudo, seus irm\u00e3os, observando-o com mais interesse do que o normal. Um arrepio <em>mortal<\/em> percorreu pela pele de %Sean%, ao encarar Maeve com mais seriedade dessa vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Qual deles voc\u00ea cobrou hoje, Maeve? \u2014 Sua pergunta n\u00e3o era aberta a hesita\u00e7\u00f5es ou manobras para despist\u00e1-lo, pelo contr\u00e1rio, sua voz projetou-se, firme e implac\u00e1vel pelo escrit\u00f3rio no segundo andar de sua academia, <em>comandando<\/em> uma resposta.<br>\u2003\u2003Maeve n\u00e3o respondeu, engoliu em seco, fechando o caderno de contas com um movimento r\u00e1pido de seu pulso, e levantou-se, graciosamente, ajustando sua saia longa. Unhas vermelhas escuras, longas e afiadas, esfregando a renda para desamass\u00e1-la. Os olhos de %Sean% a seguiram com intensidade, seu corpo pareceu tensionar-se ainda mais. Sua falta de resposta era, igualmente, <em>uma <\/em>\u2014 a <em>pior<\/em> que ele poderia esperar.<br>\u2003\u2003\u2014 O senhor n\u00e3o precisa se preocupar \u2014 Maeve come\u00e7ou a dizer, parando em frente a uma mesa de canto, igualmente de mogno, e mexendo nas garrafas de cristais com os variados tipos de bebida alco\u00f3lica que <em>eles<\/em> gostavam; %Sean% n\u00e3o bebia, n\u00e3o <em>podia<\/em>. N\u00e3o tinha efeito algum nele de qualquer forma. \u2014 Eu j\u00e1 lidei com a cobran\u00e7a, e o que tinha que ser feito, <em>foi<\/em> feito.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio reverberou entre os dois, carregado de eletricidade e uma amea\u00e7a velada. %Sean% colocou-se de p\u00e9, deliberadamente, os olhos fixos nas costas de Maeve, observando-a colocar uma quantidade consider\u00e1vel de bourbon e virar o copo de uma \u00fanica vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Perguntei o <em>nome<\/em>, Maeve, n\u00e3o o que <em>voc\u00ea<\/em> fez \u2014 cortou %Sean% mais brusco, perigoso. Esperou em sil\u00eancio, sem desviar seu olhar da mulher at\u00e9 que esta estivesse encarando-o de novo, agarrando-se ao copo de cristal em suas m\u00e3os. Sabia que ela deveria estar com medo de sua rea\u00e7\u00e3o, podia sentir o medo dela como uma onda de calor ao seu redor, sabia que deveria escolher suas palavras com cuidado, e considerar que a perfei\u00e7\u00e3o com que exigia de si, n\u00e3o era equipar\u00e1vel com a dela que de tudo ainda continuava a ser mortal, mas o desespero que aprofundava-se por suas veias, intoxicante, amortecendo parte de sua racionalidade, estava falando maior. Porque ele <em>sabia<\/em> qual seria a resposta dela, antes mesmo que deixasse seus l\u00e1bios tingidos de vermelho. Ele sabia, porque aquela era <em>sua<\/em> casa, nada que acontecia ali passava despercebido de seus olhos, <em>nem que entrava.<\/em> \u2014 Onde est\u00e1 Jack? \u2014 pressionou, mas n\u00e3o esperou pela resposta porque <em>sabia<\/em> onde o trapaceiro encontrava-se, sentia-o como uma sombra projetando-se por tr\u00e1s de sua cabe\u00e7a; um carniceiro oportunista, \u00e9 claro, e um do qual <em>ele<\/em> n\u00e3o havia considerado como fato imediato de aten\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Esteve t\u00e3o focado em seus pr\u00f3prios problemas e em sua pr\u00f3pria mis\u00e9ria que havia se esquecido que nada acontecia em seu caminho, convidado por externos, mas pessoas pr\u00f3ximas o suficiente para <em>saber<\/em> onde localizar os problemas necess\u00e1rios. Porque <em>deuses<\/em> n\u00e3o <em>podiam<\/em> quebrar suas promessas. Os olhos moveram-se agitados de Maeve para a porta e ent\u00e3o para Maeve, com a terr\u00edvel percep\u00e7\u00e3o de que, mesmo equivocada em suas a\u00e7\u00f5es, ela o havia tra\u00eddo \u2014 e n\u00e3o tinha sido a \u00fanica. Desespero cego nublou sua racionalidade, amorteceu sua percep\u00e7\u00e3o de nada que n\u00e3o fosse apenas a linha reta que estava fazendo. Venceu a dist\u00e2ncia entre a porta do escrit\u00f3rio e o corredor em poucos passos, ouvindo sua pulsa\u00e7\u00e3o martelar em seus ouvidos, abafando tudo ao seu redor como se as vinhas de seu desespero que floresciam conforme o tempo passava, enredando-se mais e mais em seus m\u00fasculos, finalmente o tivessem coberto por completo, e agora o puxavam para baixo. Se para dentro de um oceano obscuro ou se para uma bocarra no ch\u00e3o, pouco ele poderia saber identificar, mas sentia-se caindo, e <em>desta vez<\/em>, n\u00e3o tinha como <em>impedir<\/em> sua pr\u00f3pria queda.<br>\u2003\u2003Empurrou para fora de seu caminho alguns funcion\u00e1rios que trabalhavam na academia, mortais desavisados que acabavam em sua porta, fosse pelo desespero ao dinheiro ou por n\u00e3o ter outro lugar para ir, e aqueles que vinham pelo \u00fanico prop\u00f3sito de estar no mesmo lugar que <em>%Sean% %Broderick%<\/em> \u2014 n\u00e3o o deus, mas o antigo lutador <em>invicto<\/em>. Estava praticamente correndo quando desceu as escadarias para a parte subterr\u00e2nea do pr\u00e9dio, onde o estacionamento deveria ficar. Dividido por sess\u00f5es, n\u00e3o era preciso de <em>muito<\/em> para saber <em>onde<\/em> Jack planejava e escondia suas trapa\u00e7as. Portas duplas grossas de metal com os dizeres <em>\u201cn\u00e3o ultrapasse\u201d<\/em> e <em>\u201cacesso apenas para funcion\u00e1rios\u201d<\/em> demarcavam uma linha invis\u00edvel que muitos mortais ainda iriam especular, mas n\u00e3o fariam nada, assumindo que quaisquer detalhes como aqueles eram insignificantes, justificariam o mist\u00e9rio a sua forma sem mais perguntas. Ao menos os menos curiosos.<br>\u2003\u2003A mistura de odores espalhava-se de forma penetrante pelo ar denso e abafado do interior do espa\u00e7o, suas narinas ardiam sob seu toque implac\u00e1vel, fazendo-o reconhecer o aroma quase de imediato, o gosto de sangue pareceu espalhar-se por sua l\u00edngua como uma potente bebida, familiar como uma segunda natureza para si \u2014 embriagando-o. Suor e mofo se misturavam no ambiente com baixa ilumina\u00e7\u00e3o e concreto queimado denso. Opressor, obscuro, e estranhamente v\u00edvido de uma maneira amea\u00e7adora. N\u00e3o havia um ringue ali, era assim que Jack funcionava, apenas uma roda de corpos suados e gritos acalorados onde alguns comandavam por golpes mais precisos e outros balan\u00e7avam seus dinheiros no ar, gritando por nomes ou comemorando quando aquele lutador que apostaram finalmente conseguia acertar algum golpe preciso. Sangue manchava o ch\u00e3o, e os ossos eram quebrados. Podia sentir a vibra\u00e7\u00e3o dos ru\u00eddos de ossos se partindo e da dor espalhando-se pelo lugar como uma car\u00edcia, convidativa e perigosa, percorrendo por seu corpo como eletricidade pura. Lembrou-se por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo de <em>quem<\/em> era, e sentiu o poder pulsar por suas veias como fogo puro.<br>\u2003\u2003Mas ent\u00e3o seus olhos repousaram na figura ao centro do c\u00edrculo, e o gelo que o consumiu aplacou tudo o que havia restado do deus que um dia havia sido, do condenado que agora era. Sua garganta se contraiu, os olhos queimaram, e o deus da destrui\u00e7\u00e3o e da guerra pela primeira vez em <em>muito tempo<\/em> havia congelado no lugar, sem palavras, despido de todas as muralhas que havia constru\u00eddo para proteger-se, vulner\u00e1vel como um mero mortal deparando-se com a certeza de que o <em>ciclo<\/em> ao qual estava preso <em>voltara<\/em> ao come\u00e7o. Havia se <em>reiniciado<\/em>, e com isso, o riso de seus irm\u00e3os acompanhando-o, como fantasmas, assombrando-o ao fundo de sua mente.<br>\u2003\u2003Os cabelos dela estavam presos em duas tran\u00e7as firmes embutidas que repousavam na altura de suas omoplatas estavam frouxas pela movimenta\u00e7\u00e3o, uma delas parecia estar mais torta que a outra evidenciando que seu oponente a havia puxado. Mechas rebeldes pendiam por seu rosto, grudando ao redor das t\u00eamporas e das ma\u00e7\u00e3s do rosto, ao redor do pesco\u00e7o devido ao suor, a pouca maquiagem que usava estava borrada, manchava as ma\u00e7\u00e3s do rosto altas e angulosas, e os cantos dos olhos. Sangue escorria de sua narina esquerda e o l\u00e1bio inferior estava cortado, uma mancha roxa come\u00e7ava a surgir na lateral de sua mand\u00edbula, e ela havia descartado a blusa em algum lugar pelo caminho, porque estava apenas envolta do suti\u00e3 esportivo, e a cal\u00e7a compress\u00e3o justa ao corpo. Os p\u00e9s descal\u00e7os estavam avermelhados, manchados pelo sangue que se espalhava sob o concreto queimado, escorregadio, mas ainda assim, ela continuava em p\u00e9. N\u00e3o era o mesmo que ele poderia dizer para seu oponente, agora, no ch\u00e3o, gemendo com dor, uma m\u00e3o repousando em sua costela com for\u00e7a como se tivesse quebrado alguma coisa \u2014 n\u00e3o parecia ser <em>apenas<\/em> um osso que ele havia quebrado. As faixas de prote\u00e7\u00e3o que ela tinha enrolado em seus punhos estavam manchadas de vermelho, e ele podia ver onde pequenos cortes haviam surgido.<br>\u2003\u2003Um pouco atr\u00e1s de onde ela estava, os olhos de %Sean% se encontraram com os castanhos claros, quase dourados, de Jack, sua express\u00e3o tornando-se mais sombria ao observar o sorriso divertido, <em>torto<\/em> que se espalhou por seu rosto repleto de cicatrizes. %Broderick% come\u00e7ou a mover-se, marchando na dire\u00e7\u00e3o de Jack, mas ent\u00e3o a <em>\u00faltima<\/em> coisa que ele desejava que ocorresse, aconteceu, %Eva% o encarou. Tudo pareceu desaparecer ao seu redor quando aqueles olhos marcantes e terrivelmente familiares se prenderam em seu rosto como um feiti\u00e7o convidativo, os gritos e comandos se silenciaram, mesmo sua pulsa\u00e7\u00e3o pareceu diminuir, acompanhados somente pelo eco de seu cora\u00e7\u00e3o \u2014 se \u00e9 que possu\u00eda algum. As m\u00e3os fechadas em punhos relaxaram, pendendo ao redor de seu corpo, sem ousar se mover.<br>\u2003\u2003Essa era a <em>pior<\/em> parte.<br>\u2003\u2003Quando seus olhares se encontraram, e por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos ele buscaria, mesmo contra tudo que j\u00e1 sabia, ainda movido por aquela pequena e ef\u00eamera fagulha de esperan\u00e7as que recusava-se a desvanecer-se permanentemente, se ela o <em>reconheceria<\/em>. Torceria para que <em>desta<\/em> vez houvesse miseric\u00f3rdia, para que <em>desta<\/em> vez fosse diferente apenas para deparar-se com aquele olhar distante, indiferente e frio de algu\u00e9m que o encarava como um completo desconhecido. Os cacos amontoados em seu peito do que pudera vir ser seu cerne no passado se agitaria, fincando-se fundo, de forma dolorosa. Se arrastaria a cada respira\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que a dor e o pesar se tornassem insuport\u00e1veis, seu primeiro impulso foi o de desviar os olhos do rosto dela, de escapar antes que pudesse se perder completamente. Mas ent\u00e3o algo cruzaria seu rosto, mesmo que <em>inconscientemente<\/em>, estaria gravado no cerne dela, como a maldi\u00e7\u00e3o que ele carregava.<br>\u2003\u2003Ela o iria encarar com <em>\u00f3dio<\/em>. Puro, inquestion\u00e1vel, <em>latente<\/em>.<br>\u2003\u2003Porque mesmo que ele a <em>amasse<\/em> h\u00e1 tanto tempo, ela <em>nunca<\/em> havia retribu\u00eddo aquele sentimento. Nem uma <em>\u00fanica<\/em> vez.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> ksksks te peguei n\u00e9? Obrigada por ter lido at\u00e9 aqui! E para a <strong>Calliope<\/strong>, pela indica\u00e7\u00e3o no site que voc\u00ea fez, ganhei meu dia viu? \u2665\ufe0f (imposs\u00edvel escrever \u201cpira\u201d e n\u00e3o lembrar da <strong>Pyra<\/strong> de <strong>Greek<\/strong>, da <strong>Bleme<\/strong>, que alugou um triplex e uma mans\u00e3o vitoriana na minha cabe\u00e7a desde o momento que foi postada, <strong>VAI LER GREEK, JURO, VOC\u00ca N\u00c3O VAI SE ARREPENDER, MELHOR HIST\u00d3RIA QUE J\u00c1 LI!!<\/strong> Eu vivo pra criar desculpas para trazer o nome dessa fic em qualquer conversa, s\u00e9rio, Bleme escreve bem pra caralho, e as hist\u00f3rias dela s\u00e3o uma del\u00edcia, mas Greek, essa tem todo meu carinho, recomendo demais!)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora. \u2022\u2022\u2022 \u2003\u2003Nota da Autora: ksksks te peguei n\u00e9? Obrigada por ter lido at\u00e9 aqui! 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