{"id":9423,"date":"2026-01-06T12:19:02","date_gmt":"2026-01-06T15:19:02","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-06T12:19:02","modified_gmt":"2026-01-06T15:19:02","slug":"capitulo-5","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-5\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Naquela semana, me empenhei em bater duas metas.<br \/>\n\u2003\u2003Focar em meu trabalho e contar para meu chefe que eu n\u00e3o estava mais namorando ningu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Pode parecer estranho que o t\u00e9rmino do meu relacionamento estivesse na minha lista de metas profissionais, mas isso era s\u00f3 mais um dia comum na minha vida. Na verdade, senti at\u00e9 que o destino estava me dando uma ajudinha quando fui chamado \u00e0 sala de Davi Martinez logo depois do almo\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, fique \u00e0 vontade. \u2013 Davi disse, fazendo um gesto vago com a m\u00e3o, sem desgrudar os olhos da tela, naquele tom que nunca trazia qualquer sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio. \u2013 Voc\u00ea est\u00e1 dispensado pelo resto do dia.<br \/>\n\u2003\u2003Dispensado? Era isso? Eu estava sendo demitido?<br \/>\n\u2003\u2003Ele descobriu. Descobriu que eu n\u00e3o era namorado da %Anya% e agora estava me mandando embora por ser um mentiroso conveniente. \u00d3 c\u00e9us. E agora? Como eu ia pagar as contas? O aluguel? A faculdade da Nina? Eu ia ser processado? Preso?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S-senhor\u2026 posso saber o motivo? \u2013 Perguntei, a voz carregada de p\u00e2nico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o se fa\u00e7a de desentendido.<br \/>\n\u2003\u2003Pronto. Fim de linha. Eu estava oficialmente ferrado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Senhor, eu\u2026 eu queria conversar sobre isso, mas\u2026 eu posso explicar\u2026 \u2013 Comecei, trope\u00e7ando nas pr\u00f3prias palavras, tentando ganhar alguns segundos de vida, at\u00e9 ser interrompido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu j\u00e1 falei com a Anjali. Voc\u00ea est\u00e1 liberado. N\u00e3o sou louco de recusar um pedido daquela mulher. Ela \u00e9\u2026 assustadoramente persuasiva.<br \/>\n\u2003\u2003Anjali. A m\u00e3e da %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003Mas o que ela tinha a ver com aquilo? Por que estava falando com o Davi? E, mais importante ainda, o que exatamente ela queria comigo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 A Anjali %Bhasin% ligou? \u2013 Perguntei, ainda incr\u00e9dulo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ligou. Voc\u00eas t\u00eam um almo\u00e7o hoje, n\u00e3o t\u00eam? Tentei me convidar, mas ela foi bem direta: quer s\u00f3 voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu?!<br \/>\n\u2003\u2003E foi assim que acabei sentado sobre a tampa do vaso sanit\u00e1rio, trancado no banheiro, tentando escapar dos olhares ir\u00f4nicos e dos coment\u00e1rios atravessados que se espalhavam pelo escrit\u00f3rio. Em algum momento, algu\u00e9m resolveu divulgar que eu havia sido dispensado apenas para almo\u00e7ar com a minha sogra.<br \/>\n\u2003\u2003E eu tinha quase certeza de que o fofoqueiro oficial era o pr\u00f3prio Davi Martinez, um homem que adorava ostentar rela\u00e7\u00f5es que, no fim das contas, nem eram dele.<br \/>\n\u2003\u2003Eu encarava a tela do celular com uma intensidade quase obsessiva enquanto o som dos meus p\u00e9s batendo contra o ch\u00e3o ecoava no pequeno espa\u00e7o. J\u00e1 fazia quase uma hora desde que enviei mensagens para %Anya% \u2013 todas carregadas de urg\u00eancia \u2013, mas o sil\u00eancio dela permanecia absoluto, me deixando ainda mais inquieto.<br \/>\n\u2003\u2003Soltei um suspiro frustrado, a espera estava me consumindo e o isolamento do banheiro s\u00f3 parecia aumentar a tens\u00e3o. N\u00e3o adiantava nada ficar ali, ent\u00e3o decidi sair. Meus pensamentos estavam t\u00e3o dispersos que nem percebi Victor encostado na pia, me observando com aquele olhar carregado de julgamento e curiosidade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quase trinta minutos. \u2013 Disse, com os olhos semicerrados, como se tivesse calculado o tempo com precis\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o estava fazendo nada. \u2013 Expliquei, levantando a m\u00e3o em uma tentativa de justificar. \u2013 S\u00f3 estava&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se escondendo? \u2013 Completou, sarc\u00e1stico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9, estava tentando fugir de todo aquele alvoro\u00e7o l\u00e1 fora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Deixe de ser medroso e vamos. Tenho um trabalho pra voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Qualquer coisa. \u2013 Respondi, me levantando, mais por obriga\u00e7\u00e3o do que por vontade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00e9rio? Achei que voc\u00ea ia negar, j\u00e1 que foi dispensado para almo\u00e7ar com sua sogrinha. \u2013 Ele debochou, cruzando os bra\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea j\u00e1 sabia? Veio tripudiar? Quer me fazer me sentir ainda mais envergonhado? \u2013 Retruquei, puxando um peda\u00e7o de len\u00e7o de papel e jogando contra ele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Claro que sabia. Ver sua cara de sofrimento \u00e9 o que faz meu dia feliz. \u2013 Ele riu, desdenhando. \u2013 Qual o problema? Sua sogra \u00e9 um monstro?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Na verdade, eu&#8230; \u2013 Eu ia dizer que mal conhecia a mulher, mas fui interrompido pela porta do banheiro sendo aberta com for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Suzi, a secret\u00e1ria do andar em que fui lotado, entrou sem cerim\u00f4nias.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Campelli%, liga\u00e7\u00e3o para voc\u00ea no ramal cinco.<br \/>\n\u2003\u2003Eu queria que fosse algo relacionado ao trabalho. Algo complicado o suficiente para me ocupar o resto do dia, uma boa maneira de provar que essa hist\u00f3ria de &#8220;dispensa para o almo\u00e7o&#8221; era uma completa besteira. Mas n\u00e3o era trabalho.<br \/>\n\u2003\u2003Bem, era algo ligado ao meu emprego, sim, mas n\u00e3o exatamente ao papel de advogado que eu desempenhava.<br \/>\n\u2003\u2003Recebi a liga\u00e7\u00e3o com surpresa, especialmente quando ouvi a voz de Anjali %Bhasin% do outro lado. Minha mente imediatamente entrou em alerta e eu passei os olhos pelo ambiente ao redor, checando se algu\u00e9m estava prestando aten\u00e7\u00e3o na conversa. Ela falava com uma cordialidade que eu n\u00e3o esperava e que me deixou ainda mais desconfort\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003O convite para o almo\u00e7o veio direto, sem rodeios. Minha rea\u00e7\u00e3o foi uma mistura de espanto e constrangimento. Como eu poderia aceitar aquele convite sem antes entender o que estava acontecendo com %Ananya%? Ela ainda n\u00e3o havia respondido \u00e0s minhas mensagens e algo estava definitivamente fora do lugar. O comportamento de Anjali s\u00f3 refor\u00e7ava minha suspeita de que eu estava sendo levado a algo que n\u00e3o conseguia prever.<br \/>\n\u2003\u2003Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi tentar recusar educadamente, usando o trabalho como desculpa. Falei que estava envolvido em um processo complicado, na esperan\u00e7a de ganhar algum tempo para entender o que estava se passando. A sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo empurrado para uma situa\u00e7\u00e3o desconhecida pairava sobre mim, e eu sabia que precisava ser cuidadoso com cada palavra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu j\u00e1 falei com Martinez. Combine o local e hor\u00e1rio com %Ananya%. Vejo voc\u00ea logo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa. Encarei a tela do celular por alguns segundos, irritado, e apoiei a cabe\u00e7a na mesa, fechando os olhos com for\u00e7a. Esse n\u00e3o era o acordo que eu tinha feito. Minha miss\u00e3o era simples: fingir ser o namorado dela na ilha e durante o anivers\u00e1rio, nada mais. N\u00e3o tinha combinado nada que envolvesse almo\u00e7os e encontros com a fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003Se eu soubesse que isso ia gerar tanto estresse, teria ficado longe de %Anya%, Davi Martinez e toda essa confus\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Decidi tentar ligar novamente para %Anya%, mas, como antes, a liga\u00e7\u00e3o caiu direto na caixa postal. Sem resposta e sem op\u00e7\u00f5es imediatas, forcei-me a focar nos pap\u00e9is acumulados na minha mesa. Enquanto tentava avan\u00e7ar no trabalho, a voz do meu chefe ecoou, interrompendo meus pensamentos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que ainda est\u00e1 fazendo aqui? \u2013 O homem perguntou, desconfiado. \u2013 Eu j\u00e1 disse que voc\u00ea podia ir embora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sei, eu s\u00f3 estou&#8230; \u2013 O toque de meu celular soou como m\u00fasica em meus ouvidos. No identificador de chamadas, a pessoas que ele mais procurava estava o ligando. \u2013 Com licen\u00e7a, %Anya% est\u00e1 me ligando, eu posso&#8230;?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Mas \u00e9 claro, mande um abra\u00e7o para minha sobrinha. \u2013 Falou em voz alta enquanto se afastava, fazendo quase todos levantaram a cabe\u00e7a e olharem para a nossa intera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 %Anthony%?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Finalmente, %Anya%! Pode me explicar que porra est\u00e1 acontecendo? Martinez est\u00e1 em cima de mim como um gavi\u00e3o, proibindo a todos de me dar trabalho. Sua m\u00e3e ligou e agora tudo est\u00e1 uma confus\u00e3o aqui. \u2013 Procurei uma maneira de falar sem que ningu\u00e9m me escutasse.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 \u00c9&#8230; Eu preciso da sua ajuda.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que aconteceu?<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Minha m\u00e3e est\u00e1 me enlouquecendo com uma ideia maluca de ir comer algo mais tarde. Ent\u00e3o, a menos que voc\u00ea queira que ela apare\u00e7a a\u00ed no seu trabalho em trinta minutos, \u00e9 melhor concordar em ir ao restaurante Cirus.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quando?<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Agora.<\/em> \u2013 N\u00e3o me controlei e soltei um palavr\u00e3o. \u2013 <em>Eu juro que posso explicar melhor quando voc\u00ea chegar.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 bom mesmo, tive uma merda de dia por conta disso.<br \/>\n\u2003\u2003Logo em seguida, eu j\u00e1 estava na rua, bra\u00e7o erguido num gesto autom\u00e1tico para o primeiro t\u00e1xi que visse. O fato de eu estar estranhamente calmo para algu\u00e9m prestes a encenar a performance da sua vida para os pais da &#8220;namorada&#8221; era, em si, perturbador.<br \/>\n\u2003\u2003Eu me assustava com a facilidade com que a mentira agora se acomodava em mim, como um segundo casaco.<br \/>\n\u2003\u2003O t\u00e1xi parou na frente do restaurante. Um daqueles lugares com nome franc\u00eas e porta pesada de madeira, que anunciava pre\u00e7os proibitivos antes mesmo de voc\u00ea ver o card\u00e1pio. Anunciei meu nome \u00e0 recepcionista. Ela sorriu, um sorriso polido e vazio, e me conduziu com passos silenciosos pelo sal\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Caminhei atr\u00e1s dela, consciente de cada movimento, dos sussurros discretos, do tilintar de talheres. A mesa n\u00e3o estava num canto discreto, como eu secretamente esperava. Estava <strong>quase no centro da sala<\/strong>, um palco iluminado sob um lustre de cristal. Era um lugar para ser visto, n\u00e3o para conversar.<br \/>\n\u2003\u2003No caminho, meu rosto era uma m\u00e1scara de seriedade. A f\u00faria do dia ainda latejava nas minhas t\u00eamporas e nenhum v\u00e9u de cortesia conseguiria disfar\u00e7\u00e1-la completamente. A ideia de passar uma hora sequer na presen\u00e7a da mulher que criou %Anya% \u2013 com toda aquela altivez e poder de destrui\u00e7\u00e3o \u2013 me enchia de um desprezo t\u00e3o visceral que quase do\u00eda. Eu n\u00e3o estava nervoso. Estava <strong>furioso<\/strong>. E nada, absolutamente nada, naquele ambiente de falsa eleg\u00e2ncia, me deixava confort\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o tinha certeza se sabia como lidar com mulheres como Anjali. J\u00e1 tinha ouvido algumas hist\u00f3rias de Nina sobre a rela\u00e7\u00e3o complicada entre %Anya% e sua m\u00e3e. E, ao v\u00ea-las de perto, a tens\u00e3o era palp\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Logo as avistei. Sentadas com uma eleg\u00e2ncia que parecia gravada na espinha, cada uma em seu pr\u00f3prio planeta de desconforto silencioso. N\u00e3o trocavam palavras, nem olhares. As cabe\u00e7as, baixas sobre as telas dos celulares, formavam um quadro de tens\u00e3o contida. Meu est\u00f4mago embrulhou. Eu n\u00e3o estava caminhando at\u00e9 uma mesa; estava entrando num campo minado social.<br \/>\n\u2003\u2003Quando entrei no campo de vis\u00e3o delas, %Anya% ergueu os olhos. Seu sorriso foi contido, um reflexo r\u00e1pido e quase envergonhado. N\u00e3o consegui corresponder. Meus m\u00fasculos faciais estavam travados pelo cansa\u00e7o e pela desconfian\u00e7a. Limitei-me a um aceno seco de cabe\u00e7a, sentindo o ar ao redor da mesa ficar mais denso, mais pesado.<br \/>\n\u2003\u2003Antes mesmo que %Anya% dissesse qualquer coisa, senti o olhar da m\u00e3e. Ele percorreu cada cent\u00edmetro de mim sem pressa, sem disfarce, avaliando, medindo, decidindo. Anjali era uma mulher de presen\u00e7a incontest\u00e1vel. A semelhan\u00e7a com %Anya% era clara: o mesmo cabelo escuro, os mesmos tra\u00e7os precisos, a mesma beleza.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Oi, Ant. Desculpe essa\u2026 surpresa. A minha m\u00e3e tem uma rela\u00e7\u00e3o complicada com a palavra \u2018n\u00e3o\u2019. \u2013 %Anya% soltou uma risada curta, for\u00e7ada, tentando desarmar a bomba que ela mesma trouxera.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Infelizmente, parece que voc\u00ea aprendeu <em>muito<\/em> bem comigo a arte da insol\u00eancia. \u2013 A mulher apenas inclinou a cabe\u00e7a, um movimento estudado, e fixou em mim um sorriso que n\u00e3o chegava aos olhos. \u2013 Voc\u00ea deve ser %Anthony%. Faz muito tempo\u2026 voc\u00ea ainda usava uniforme escolar, n\u00e3o usava?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>Maa.<\/em> \u2013 %Anya% fez uma cara de reprova\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ou um olhar fulminante para a m\u00e3e. Ela parecia embara\u00e7ada, o que n\u00e3o ajudava a diminuir minha ansiedade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 totalmente certa. \u00c9 um prazer rev\u00ea-la, senhora %Bhasin%. \u2013 Cumprimentei, tentando ser simp\u00e1tico.<br \/>\n\u2003\u2003Ela fez uma pausa e, ent\u00e3o, com um movimento fluido, erguia a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao meu ombro e me tocou, com uma leveza quase condescendente: \u2013 Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o parecido com a nossa Nina. \u2013 O olhar dela era como um algoritmo em funcionamento, catalogando cada detalhe. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 id\u00eantico a Anamelia, querido.<br \/>\n\u2003\u2003A men\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e me fez sentir uma mistura de melancolia e gratid\u00e3o. Minha m\u00e3e tinha sido uma mulher admir\u00e1vel e ouvi-la ser mencionada por algu\u00e9m t\u00e3o distinto como Anjali foi, de certa forma, um elogio. Mesmo que fosse apenas uma observa\u00e7\u00e3o superficial.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 o melhor elogio que j\u00e1 recebi! \u2013 Respondi de maneira sincera. O simples fato de ser comparado \u00e0 minha m\u00e3e era uma honra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom, vamos nos sentar. O que v\u00e3o querer?<br \/>\n\u2003\u2003%Ananya% parecia t\u00e3o desconfort\u00e1vel quanto eu, mas por raz\u00f5es muito diferentes. Sua m\u00e3e estava sendo&#8230; bem, Anjali. E eu estava me sentindo como um peixinho fora d&#8217;\u00e1gua, tentando me encaixar nesse mundo que, apesar de me parecer familiar em algumas partes, era intimidante em outras.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o sei. J\u00e1 passou do hor\u00e1rio de almo\u00e7o e ainda \u00e9 cedo demais para jantar. \u2013 %Anya% retrucou, a impaci\u00eancia lapidando cada palavra. Soou como uma provoca\u00e7\u00e3o precisa, daquelas imposs\u00edveis de ignorar. Anjali captou o recado de imediato. O olhar que lan\u00e7ou \u00e0 filha era cortante como uma l\u00e2mina. \u2013 Onde est\u00e1 <em>appa<\/em>?<br \/>\n\u2003\u2003Anjali expirou devagar, um suspiro calculado, enquanto varria o restaurante com os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Adit n\u00e3o poder\u00e1 se juntar a n\u00f3s hoje, infelizmente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 claro que irei.<br \/>\n\u2003\u2003A voz chegou antes do dono. Grave, firme, atravessou a tens\u00e3o e a partiu ao meio. Todos nos viramos.<br \/>\n\u2003\u2003A presen\u00e7a de Adit %Bhasin% n\u00e3o permitia indiferen\u00e7a. Ele n\u00e3o apenas ocupava espa\u00e7o, ele o expandia. Alto, imponente, parecia deslocar o ambiente ao redor, como se o restaurante tivesse sido obrigado a se ajustar \u00e0 sua entrada.<br \/>\n\u2003\u2003Meu est\u00f4mago se contraiu violentamente. Tentei congelar minha express\u00e3o, travar cada m\u00fasculo do rosto. Ele se movia com a solenidade silenciosa de um patriarca.<br \/>\n\u2003\u2003Adit apareceu na cena como uma figura que parecia sair de uma hist\u00f3ria de m\u00e1fia. Sua presen\u00e7a, marcada por um olhar severo e um semblante de poucos amigos, era o oposto da suavidade de sua esposa. Ele parecia medir todos ao seu redor com uma frieza desconcertante. A \u00fanica coisa que me surpreendeu foi a forma como ele se dirigiu a mim, sem rodeios, mas com um toque de respeito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pe\u00e7o desculpas pelo atraso. Neg\u00f3cios. Mas n\u00e3o deixaria de conhec\u00ea-lo. %Anthony%, estou certo? \u2013 Ele se aproximou, e o aperto de m\u00e3o que se seguiu n\u00e3o pareceu um cumprimento, e sim, um teste.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim, senhor. \u00c9 um prazer, finalmente. \u2013 Minha voz soou mais est\u00e1vel do que eu esperava, mas a tens\u00e3o nos meus ombros era de a\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Anjali sorriu suavemente, tocando levemente no bra\u00e7o de seu esposo, como se quisesse atrair sua aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Querido, n\u00e3o sabia que viria.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Achei prudente conhecer o homem que est\u00e1 envolvido em um relacionamento t\u00e3o\u2026 <em>c\u00e9lere<\/em> com a minha filha \u00fanica. \u2013 Ele destacou a palavra com um sorriso enviesado, quase elegante demais para esconder a provoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% reagiu de imediato, visivelmente desconfort\u00e1vel com o modo como ele se referiu a n\u00f3s. A express\u00e3o fechou, os l\u00e1bios se comprimiram.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>C\u00e9lere<\/em>? \u2013 Repetiu, seca.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Com todo o respeito, senhor, \u2013 Comecei, escolhendo cada palavra com cuidado. \u2013 nos conhecemos h\u00e1 muito tempo. Para ser honesto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 verdade, querido. \u2013 Anjali interveio, num tom conciliador que soava mais estrat\u00e9gico do que gentil. \u2013 Eu me lembro do %Anthony% desde a \u00e9poca da escola.<br \/>\n\u2003\u2003Mas Adit n\u00e3o pareceu interessado em suaviza\u00e7\u00f5es ou mem\u00f3rias compartilhadas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Diferente da minha esposa, eu n\u00e3o me lembro de voc\u00ea, rapaz. \u2013 Fez uma pausa deliberada, sustentando meu olhar como um desafio aberto. O sil\u00eancio se esticou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 uma pena que tenhamos nos cruzado t\u00e3o pouco ao longo de todos esses anos em que voc\u00ea e %Anya% se conhecem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 mesmo. \u2013 Ele concluiu, com um meio sorriso c\u00ednico, como se tivesse aprovado meu jogo de cintura com as palavras. Ent\u00e3o acrescentou, casual demais para ser inocente: \u2013 Teremos um fim de semana inteiro para corrigir isso, n\u00e3o teremos?<br \/>\n\u2003\u2003Ele estava certo. Eu teria um fim de semana inteiro com a fam\u00edlia %Bhasin%. E poucas coisas na vida pareciam mais desconfort\u00e1veis do que essa certeza.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% permaneceu em sil\u00eancio por um momento, seus olhos fixos no prato \u00e0 sua frente, como se tentasse se proteger da conversa tensa que se desenrolava. Adit, por sua vez, n\u00e3o tirava os olhos de mim, como se estivesse me estudando, procurando alguma falha em meu comportamento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom, j\u00e1 que estamos todos aqui, que tal come\u00e7armos o almo\u00e7o? \u2013 Anjali sugeriu, tentando, talvez, aliviar a tens\u00e3o, mas seu olhar ainda era agu\u00e7ado, observando cada rea\u00e7\u00e3o de Adit, de %Anya% e de mim.<br \/>\n\u2003\u2003O gar\u00e7om chegou e come\u00e7ou a anotar os pedidos. %Anya% pediu algo simples, uma salada, claramente desconfort\u00e1vel com a situa\u00e7\u00e3o e eu segui seu exemplo, optando por algo leve.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto a conversa avan\u00e7ava, minha mente girava em torno de um \u00fanico pensamento:<em> que diabos eu estava fazendo ali?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A noite caiu \u2013 e passou \u2013 mais r\u00e1pido do que eu esperava. O clima esteve longe de ser confort\u00e1vel, mas todos \u00e0 mesa eram adultos bem treinados na arte da civilidade. Educados. Contidos. O jantar seguiu seu curso entre frases polidas e sil\u00eancios estrat\u00e9gicos.<br \/>\n\u2003\u2003Pela parede de vidro, notei como a noite l\u00e1 fora estava bonita. O c\u00e9u, salpicado de estrelas, parecia cuidadosamente composto, quase irreal. Caminhei at\u00e9 a sa\u00edda do restaurante com o olhar baixo, as m\u00e3os nos bolsos, pensando que, apesar da ta\u00e7a de vinho que custava o equivalente a um \u00f3rg\u00e3o vital, tudo o que eu realmente queria era a cerveja gelada me esperando na porta da geladeira.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bem, foi uma refei\u00e7\u00e3o deliciosa. Obrigada por terem conseguido um tempo para vir. \u2013 Anjali comentou com um sorriso caloroso enquanto segu\u00edamos em dire\u00e7\u00e3o ao estacionamento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea literalmente nos obrigou&#8230; \u2013 %Anya% murmurou, com leve descren\u00e7a na voz. O tom era casual, mas a provoca\u00e7\u00e3o estava ali, intacta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E valeu a pena. \u2013 Anjali respondeu sem perder o sorriso. Num gesto aparentemente afetuoso, levou a m\u00e3o ao cabelo da filha, recolhendo um fio rebelde e acomodando-o atr\u00e1s da orelha.<br \/>\n\u2003\u2003Um gesto simples, carregado de significado. Carinho, sim, mas tamb\u00e9m dom\u00ednio. Um lembrete silencioso de quem, no fim das contas, ainda ditava as regras naquela fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Obrigado pelo jantar, senhora. Foi muito agrad\u00e1vel. \u2013 Tentei manter o tom correto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 bom mesmo que tenham gostado. Faremos novamente logo. \u2013 Adit interveio, sua voz grave quebrando o sil\u00eancio enquanto olhava para o rel\u00f3gio em seu pulso com a precis\u00e3o de um homem que tem o controle de tudo ao seu redor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00eas ir\u00e3o em carros separados?<br \/>\n\u2003\u2003Olhei para %Anya% antes de responder. A verdade era simples, quase banal e, ainda assim, pesada demais para ser dita ali.<br \/>\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o tinha carro. Um detalhe pequeno, mas que parecia ganhar propor\u00e7\u00f5es estranhas quando pronunciado em voz alta, como se denunciasse mais do que apenas um meio de transporte.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o tenho carro.<br \/>\n\u2003\u2003Captei o instante exato em que Adit e Anjali trocaram olhares r\u00e1pidos. Um segundo apenas. Surpresa, talvez. Um tra\u00e7o de julgamento, dif\u00edcil de esconder. Mordi o l\u00e1bio, contendo a vontade de rir da ironia da situa\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que sentia o inc\u00f4modo se instalar.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% percebeu. E sorriu como quem reconhece a tens\u00e3o e decide se divertir com ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Algum problema? \u2013 Perguntou, com uma provoca\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa no tom, sem qualquer esfor\u00e7o para disfar\u00e7ar o prazer que aquilo lhe causava.<br \/>\n\u2003\u2003Os dois negaram com a cabe\u00e7a. Ainda assim, notei a falha m\u00ednima no sorriso contido de ambos, um deslize r\u00e1pido, quase impercept\u00edvel. A compostura vacilou por um segundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom, eu vou lev\u00e1-lo para casa. \u2013 %Anya% continuou, naturalmente \u2013 e passar o caminho inteiro pedindo desculpas pelo dia de hoje.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Ananya%. \u2013 Adit advertiu, sua voz carregada de autoridade, mas %Anya%, desafiadora como sempre, n\u00e3o se importou nem um pouco. Ela deu de ombros, descomplicada e respondeu com a mesma descontra\u00e7\u00e3o de antes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Certo, certo. Vejo voc\u00eas mais tarde. \u2013 Deu de ombros e acenou, leve, sem perder o sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003Foi um detalhe, quase perdido no cansa\u00e7o da despedida, que me prendeu. Apesar de ter passado o jantar inteiro cutucando os pais com uma ousadia que beirava a provoca\u00e7\u00e3o, no momento final, %Anya% inclinou levemente a cabe\u00e7a e os ombros num gesto r\u00e1pido, uma rever\u00eancia quase impercept\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003Aquela dualidade era interessante. A maneira como ela, ao mesmo tempo, desafiava e respeitava os limites que seus pais impunham sobre ela dizia muito sobre a din\u00e2mica dentro daquela casa.<br \/>\n\u2003\u2003Mentalmente, arquivei a cena. Perguntaria a %Anya% depois sobre aquele gesto espec\u00edfico. Talvez fosse algo que eu, como parte da farsa, tamb\u00e9m devesse reproduzir. O problema era o contexto.<br \/>\n\u2003\u2003A fam\u00edlia %Bhasin% claramente preservava uma teia de tradi\u00e7\u00f5es indianas com um zelo quase aristocr\u00e1tico e eu era um estrangeiro completo nesse territ\u00f3rio. N\u00e3o queria, de forma alguma, parecer grosseiro ou ignorante. Mas, ao mesmo tempo, for\u00e7ar uma rever\u00eancia que n\u00e3o me era natural poderia soar como uma s\u00e1tira vazia, um desrespeito ainda maior. O equil\u00edbrio era t\u00eanue: mostrar o respeito esperado, sem parecer que estava tentando <em>demais<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003A m\u00e3o de %Anya% se fechou em torno do meu bra\u00e7o, puxando-me suavemente. Ela andava mais r\u00e1pido, como se quisesse se afastar da situa\u00e7\u00e3o o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, o que fazia sentido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ant, eu nem sei por onde come\u00e7ar. \u2013 %Anya% soltou um suspiro frustrado, sua voz carregada de uma leve impaci\u00eancia enquanto se acomodava no banco do motorista.<br \/>\n\u2003\u2003Eu, por outro lado, estava apenas aliviado por finalmente estar dentro do carro dela. O jantar n\u00e3o fora exatamente terr\u00edvel, mas estar na presen\u00e7a dos pais de %Anya%, especialmente sabendo que o motivo pelo qual eu estava ali era t\u00e3o complicado, deixava a situa\u00e7\u00e3o desconfortante.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o que eu n\u00e3o soubesse lidar com pessoas dif\u00edceis ou influentes. J\u00e1 tinha aprendido a navegar esse tipo de ambiente. Ainda assim, a tens\u00e3o de ocupar o papel de <em>namorado da herdeira %Bhasin%<\/em> era um fardo espec\u00edfico, pesado de um jeito diferente. Eles carregavam poder, tradi\u00e7\u00e3o, uma presen\u00e7a que exigia rever\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003E eu n\u00e3o estava ali por amor. Estava ali por um jogo muito mais sujo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea pode come\u00e7ar indo para este endere\u00e7o. \u2013 Falei, tomando a liberdade de alcan\u00e7ar a tela do GPS e digitar rapidamente o endere\u00e7o do bar que eu costumava frequentar com Victor, antes mesmo que ela perguntasse.<br \/>\n\u2003\u2003Eu precisava daquele lugar. Do anonimato. Da cerveja barata. Do ru\u00eddo baixo o suficiente para abafar pensamentos. Um espa\u00e7o onde eu pudesse respirar sem performance, longe da formalidade sufocante daquela noite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai me dever uma boa quantidade de cerveja. \u2013 Acrescentei, com um meio sorriso, j\u00e1 antecipando como aquilo poderia salvar o resto da noite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vou? \u2013 %Anya% lan\u00e7ou um olhar de canto, arqueando a sobrancelha, curiosa, divertida, perfeitamente no controle.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vai. \u2013 Sustentei o olhar. \u2013 E sem reclamar. Deixei meus olhos acompanharem cada gesto dela ao volante, o foco calmo, a postura segura. Tentei ignorar o detalhe inconveniente de que ela ficava ainda mais atraente quando estava concentrada na estrada. \u2013 Nem por um segundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&nbsp;\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n<p>\u2003\u2003\u2013 E a\u00ed quando a reuni\u00e3o acabou, ela mandou mensagem, dizendo que iria at\u00e9 o seu escrit\u00f3rio sozinha caso a gente n\u00e3o aparecesse hoje. \u2013 %Anya% terminou de contar os acontecimentos do dia enquanto comia asinhas de frango frito.<br \/>\n\u2003\u2003Eu at\u00e9 me envergonhava de ter levado a mulher para um bar beira de esquina com cerveja e frango frito, depois de termos sa\u00eddo de um restaurante que devia ter sabe-se l\u00e1 quantas estrelas Michelin. Mas, para minha surpresa, %Anya% n\u00e3o parecia se incomodar. Pelo contr\u00e1rio, ela estava t\u00e3o \u00e0 vontade quanto se estivesse em casa.<br \/>\n\u2003\u2003Quando o gar\u00e7om trouxe o prato de frango frito, ela n\u00e3o hesitou e pediu logo o seu, enquanto eu me servia com uma caneca de cerveja gelada, sentindo o sabor reconfortante do l\u00edquido descer pela garganta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o, n\u00e3o fui eu que salvei voc\u00ea hoje. \u2013 Refleti, tentando dar uma leveza ao assunto enquanto levava o copo at\u00e9 a boca e sentia o al\u00edvio daquela cerveja simples e satisfat\u00f3ria. \u2013 Voc\u00ea que me salvou de passar pela experi\u00eancia de conhecer minha sogra no meu ambiente de trabalho.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 justificativa, Ant. Ela n\u00e3o tinha o direito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Achei que ela tentou nos ajudar diversas vezes hoje. Seu pai parecia mais irredut\u00edvel. \u2013 Observei, tentando dar uma vis\u00e3o mais positiva da situa\u00e7\u00e3o, mesmo sabendo que a din\u00e2mica familiar deles estava longe de ser simples.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ela tem seus momentos&#8230; \u2013 %Anya% suspirou, claramente inconformada. \u2013 Mas n\u00e3o pense que isso ir\u00e1 passar em branco. Ela ir\u00e1 encontrar um jeito de usar isso contra n\u00f3s dois em algum momento, eu tenho certeza.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pessoalmente, sua m\u00e3e n\u00e3o parece t\u00e3o aterrorizante quanto voc\u00ea fala. \u2013 Eu comentei, tentando aliviar a tens\u00e3o e, ao mesmo tempo, provocar um pouco de humor na conversa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Na frente de outras pessoas, ela n\u00e3o \u00e9 mesmo. \u2013 %Anya% revelou, agora falando com mais firmeza, a dureza de suas palavras n\u00e3o deixando espa\u00e7o para d\u00favidas. \u2013 Hoje mais cedo ela me perguntou quando eu iria \u201cdesistir dessa brincadeira sem gra\u00e7a\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se referindo a qu\u00ea? \u2013 Eu questionei, levantando uma sobrancelha, tentando entender melhor o contexto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu emprego. \u2013 Ela disse com uma ironia amarga, que deixou claro o quanto esse tipo de coment\u00e1rio a afetava. \u2013 Minha m\u00e3e n\u00e3o suporta a ideia de que eu goste de trabalhar e que prefira isso a ser uma herdeira em tempo integral.<br \/>\n\u2003\u2003Ponderei por um momento, refletindo sobre o que %Anya% acabara de dizer.<br \/>\n\u2003\u2003Como algu\u00e9m, especialmente uma m\u00e3e, poderia se opor ao desejo de um filho de seguir seus pr\u00f3prios sonhos e fazer algo de significativo, em vez de seguir um caminho predefinido?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 dif\u00edcil imaginar uma m\u00e3e que n\u00e3o quer ver o filho bem-sucedido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bem-sucedido, para ela, significa dinheiro e influ\u00eancia, s\u00f3 isso. \u2013 %Anya% falou, com uma dureza na voz que n\u00e3o deixava margem para d\u00favidas. \u2013 Dois mestrados em contabilidade, forma\u00e7\u00e3o com honras e pr\u00eamios de inova\u00e7\u00e3o empresarial n\u00e3o significam nada para Anjali %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003Senti o peso das palavras dela e lamentei, genuinamente penalizado: \u2013 Que merda, %Anya%. \u2013 Dinheiro nunca foi tudo para mim e ouvir aquilo s\u00f3 refor\u00e7ava a ideia. Uma lembran\u00e7a vaga passou pela minha mente. \u2013 Eu lembro da sua formatura, Nina comentou sobre algo que sua m\u00e3e fez, mas n\u00e3o recordo o que exatamente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o foi nada demais, ela apenas chegou atrasada e passou a cerim\u00f4nia inteira de bra\u00e7os cruzados e fei\u00e7\u00e3o entediada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como voc\u00ea se sentiu? \u2013 Perguntei, genuinamente interessado em entender mais sobre o impacto disso nela.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% hesitou, seu olhar se perdendo por um momento, enquanto eu aguardava a resposta. Finalmente, ela falou, a voz mais suave, quase como se estivesse revivendo aquele momento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 No in\u00edcio era dif\u00edcil, mas aos poucos eu consegui me livrar das amarras da minha m\u00e3e e seu jeito desagrad\u00e1vel quando se trata de mim. \u2013 Ela respirou fundo, pegando um copo de \u00e1gua rapidamente como se quisesse aliviar a sensa\u00e7\u00e3o de peso que aquelas palavras causavam. \u2013 O maior ensinamento que eu tive nessa vida foi h\u00e1 anos, quando uma mulher muito inteligente e querida por mim disse que eu n\u00e3o devia pedir permiss\u00f5es para fazer ou ser o que eu quisesse.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nina? \u2013 Sugeri, apoiando a cabe\u00e7a na m\u00e3o direita e brincando com a caneca, j\u00e1 adivinhando quem poderia ser essa mulher que ela tanto admirava.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Anamelia. \u2013 A resposta dela me pegou de surpresa. O nome da minha m\u00e3e sempre me fazia sorrir. Ouvir qualquer coisa sobre ela era sempre um acontecimento bom, e naquele momento, senti o calor das boas lembran\u00e7as invadindo meu peito. Ela continuou, sem perceber o efeito que suas palavras estavam tendo em mim. \u2013 Ela disse isso quando minha m\u00e3e me obrigou a cortar os cabelos de novo. Eu tinha dezoito anos e, desde ent\u00e3o, nunca mais cortei os cabelos quando minha m\u00e3e queria. S\u00f3 quando eu quis. Pode parecer bobo ou infantil, mas at\u00e9 aquele momento, ningu\u00e9m nunca tinha me dito isso com todas as letras.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Minha amada m\u00e3e&#8230; \u2013 Eu suspirei com a lembran\u00e7a. \u2013 Ela ainda me surpreende, incr\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% sorriu levemente ao ouvir isso, sua express\u00e3o suavizando, mas n\u00e3o totalmente livre de um tom de saudade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u201cVoc\u00ea n\u00e3o deve pedir permiss\u00e3o para fazer o que quer da vida, especialmente com o seu corpo. N\u00e3o corte seu cabelo, n\u00e3o d\u00ea \u00e0 sua m\u00e3e esse poder.\u201d \u2013 Ela repetiu as palavras de minha m\u00e3e com um tom de rever\u00eancia, como se ainda estivesse tentando absorver todo o impacto delas. \u2013 Dezoito anos, Ant. Minha cabe\u00e7a explodiu!<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% riu levemente, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a em um gesto de incredulidade, como se ainda n\u00e3o acreditasse na profundidade daquele momento. Eu, por outro lado, estava completamente encantado com a forma como ela falava sobre isso, compartilhando algo t\u00e3o pessoal e profundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Minha m\u00e3e gostava de voc\u00ea. Nunca entendi direito quando ela dizia que voc\u00ea tinha coragem. Agora\u2026 come\u00e7a a fazer sentido. \u2013 As palavras sa\u00edram enquanto eu tentava encaixar as pe\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% sorriu, um gesto suave e privado, e murmurou quase para o v\u00e1cuo: \u2013 Eu a amava tanto\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei observando enquanto ela se perdia nas mem\u00f3rias. A melancolia em seu rosto era palp\u00e1vel, aut\u00eantica. Cada lembran\u00e7a parecia trazer \u00e0 superf\u00edcie um peso que ela carregava consigo, vis\u00edvel na linha dos ombros, na suavidade desaparecida do olhar.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, me perdi tamb\u00e9m. A aus\u00eancia da minha m\u00e3e nunca foi leve. Foram anos de terapia para conseguir pronunciar o nome dela sem que as palavras se esfacelassem na garganta. Hoje, quando penso na mulher que foi o alicerce da minha vida, a dor deu lugar a algo mais sereno: uma saudade profunda e uma gratid\u00e3o sem medida.<br \/>\n\u2003\u2003Mas eu sabia que nem todos navegam a perda pelo mesmo mapa. Para alguns, lembrar \u00e9 reabrir a ferida. Talvez fosse isso que %Anya% sentia ao falar dela. A vontade de consolar foi um impulso f\u00edsico. Meu bra\u00e7o moveu-se sob a mesa, buscando a m\u00e3o dela\u2026 mas congelei no meio do caminho.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya%, entretanto, parecia ter canalizado toda aquela energia emocional para uma tarefa met\u00f3dica e, francamente, perturbadora. Diante dela, uma pilha de ossinhos de frango estava disposta com uma precis\u00e3o quase geom\u00e9trica, como os restos de algum ritual pag\u00e3o. A quantidade era absurda. Quantos frangos haviam sido sacrificados por aquelas asinhas? Cinco? Seis?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Ananya%. \u2013 Puxei o prato para perto com um misto de horror e admira\u00e7\u00e3o. \u2013 Voc\u00ea devorou tudo isso <em>agora<\/em>? A gente acabou de jantar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Est\u00e3o divinas. \u2013 Declarou, limpando o molho com o dorso da m\u00e3o num gesto que contradizia todos os anos de etiqueta car\u00edssima que os %Bhasin% certamente investiram nela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea literalmente acabou de comer um banquete de tr\u00eas pratos!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E agora estou comendo asinhas! \u2013 Ela espetou um \u00faltimo peda\u00e7o com o garfo.<br \/><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acabou de jantar!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu gosto de asinhas de frango! \u2013 %Anya% respondeu, defensiva, como se a resposta fosse \u00f3bvia e ela n\u00e3o tivesse que se justificar.<br \/>\n\u2003\u2003Eu j\u00e1 tinha bebido duas canecas de cerveja e isso entorpeceu minha censura, liberando a observa\u00e7\u00e3o que deveria ter ficado engasgada. E talvez fosse essa a raz\u00e3o pela qual, sem pensar muito, fiz um coment\u00e1rio que eu nem sabia ao certo de onde tinha vindo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Kiara odiava fritura, especialmente de frango. \u2013 Soltei, sem pensar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 claro que odiava. \u2013 %Anya% n\u00e3o pareceu se incomodar com a compara\u00e7\u00e3o, apenas revirou os olhos com uma leve risada. \u2013 Ela tenta negar, mas \u00e9 %Bhasin% at\u00e9 a medula. Tem gostos duvidosos e \u00f3dios verdadeiros como todos n\u00f3s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quais s\u00e3o os seus \u00f3dios verdadeiros?<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% pensou por um momento, mexendo no prato, mas n\u00e3o respondeu imediatamente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Homens.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E gostos duvidosos?<br \/>\n\u2003\u2003Senti um arrepio percorrer meu corpo, mas n\u00e3o era pela brisa fresca da noite que entrava no ambiente. O que realmente me afetou foi o modo como %Anya% me olhou, seus olhos deslizando meticulosamente pelo meu rosto antes da resposta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Alguns homens tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Sem saber muito bem o que fazer com aquela informa\u00e7\u00e3o, decidi tentar desviar a aten\u00e7\u00e3o para algo mais leve.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom, eu n\u00e3o sei muito sobre seus ex-namorados, mas&#8230; seu atual at\u00e9 que vale alguma coisa. \u2013 Falei, tentando brincar e ao mesmo tempo me proteger daquele olhar intenso dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O tempo dir\u00e1. \u2013 A resposta veio tranquila, mas a maneira como ela disse isso fez meu est\u00f4mago apertar. Por um segundo, desejei que ela nunca descobrisse que, no fundo, talvez eu n\u00e3o valesse grande coisa. \u2013 Por falar em ex&#8230; voc\u00ea tem algum problema com a Kiara? Tenho medo da minha m\u00e3e fazer o que ela faz de melhor e sair espalhando por a\u00ed que eu tenho um &#8220;novo namorado&#8221;. Vai que essa hist\u00f3ria chega nos ouvidos da princesa m\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Princesa m\u00e1? \u2013 Repeti, um pouco confuso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Kiara. \u2013 Ela respondeu, sorrindo com um toque malicioso. \u2013 O qu\u00ea? T\u00e1 achando que a princesa m\u00e1 sou eu?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o acho que ningu\u00e9m seja malvado, %Anya%. \u2013 Respondi, mais s\u00e9rio dessa vez. \u2013 Isso aqui n\u00e3o \u00e9 um conto de fadas, \u00e9 vida real. E&#8230; eu e Kiara terminamos tem alguns meses. A gente nunca mais se falou, mas, pelo menos da minha parte, n\u00e3o ficou nenhum ressentimento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Espero que n\u00e3o. \u2013 O canudo de pl\u00e1stico amassou-se entre seus dentes, v\u00edtima daquela tens\u00e3o que sempre surgia quando o assunto era Kiara. \u2013 A \u00faltima coisa que preciso \u00e9 mais drama com aquela maluca.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anya%&#8230; \u2013 Meu aviso veio acompanhado de um leve movimento negativo da cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se for pra abrir o &#8216;juridico Kiara&#8217;, me d\u00e1 um sinal agora. Pago suas bebidas e desapare\u00e7o antes que voc\u00ea termine de piscar. \u2013 Ela ergueu as m\u00e3os em rendi\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, os braceletes tilintando como pequenos sinos de advert\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 com ci\u00fames.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu tenho uma lista extensa de sentimentos pela Kiara, %Anthony%. \u00d3dio, raiva, desd\u00e9m, nojo puro\u2026 \u2013 Seu garfo espetou a \u00faltima batata-frita com uma viol\u00eancia que prometia vingan\u00e7a. \u2013 Mas ci\u00fames? Nem nas notas de rodap\u00e9. \u2013 O que ela murmurou em seguida, quase para o copo, quase me fez cuspir a cerveja: \u2013 A Kiara e aquele nariz perfeito do caralho.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O\u2026 nariz?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 perfeito demais. \u00c9 uma ofensa. \u2013 Ela declarou, com uma express\u00e3o que era um ter\u00e7o inveja, um ter\u00e7o resigna\u00e7\u00e3o e um ter\u00e7o pura f\u00faria est\u00e9tica.<br \/>\n\u2003\u2003E, de fato, era. Kiara tinha aquela beleza que funcionava como um \u00edm\u00e3 social. Rosto delicado, tra\u00e7os finos e definidos como uma gravura e uma cabeleira de cachos que parecia ter seu pr\u00f3prio campo gravitacional.<br \/>\n\u2003\u2003Por anos, eu a considerei a mulher mais bonita com quem j\u00e1 estive. Mas, sendo honesto \u2013 brutalmente honesto \u2013, se o que eu tinha com %Anya% fosse real, ela teria destronado a minha ex-namorada sem o menor problema.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Maldito nariz colonial. \u2013 %Anya% resmungou de novo, apoiando o queixo na m\u00e3o, os olhos fixos em algum ponto distante da parede.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Colonial?! \u2013 Eu gargalhei de verdade dessa vez, a cabe\u00e7a jogada para tr\u00e1s com a surpresa do improv\u00e1vel adjetivo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acha mesmo que aquele relevo veio do tio Kapur? Aquilo ali \u00e9 heran\u00e7a americana pura. Voc\u00ea conheceu a m\u00e3e dela?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Conheci. Era gentil, s\u00f3 que\u2026 sei l\u00e1. Sempre me pareceu uma mulher meio apagada. Triste.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pois \u00e9. Eu tamb\u00e9m sentia isso. Se eu fosse casada com aquele traste e tivesse uma filha como a Kiara, tamb\u00e9m andaria por a\u00ed com o brilho apagado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Falando nisso\u2026 onde est\u00e1 o pai dela agora? Nunca ouvi ningu\u00e9m falar dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele n\u00e3o comparece mais a nenhum evento, mesmo que seja convidado. Ela nunca contou o que aconteceu? \u2013 Neguei com a cabe\u00e7a. \u2013 Bom, vou te contar porque ele, tecnicamente, tamb\u00e9m \u00e9 <em>minha<\/em> fam\u00edlia. E porque \u00e9 um esc\u00e2ndalo que todo mundo finge que esqueceu. O tio Kapur torrou quase tudo o que tinha com a m\u00e3e da Kiara. Festas, iates, apartamentos em capitais\u2026 a conta fechou em algo perto de trezentos milh\u00f5es de d\u00f3lares.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>Trezentos milh\u00f5es<\/em>? \u2013 Meu c\u00e9rebro travou tentando visualizar uma pilha de dinheiro daquele tamanho, falhou e desistiu.<br \/>\n\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu ainda me pegava, em momentos como esse, tentando entender como aquela mulher \u00e0 minha frente, agora lambendo dedos gordurosos com um ar distra\u00eddo, existia no mesmo planeta onde quantias como essa eram mencionadas entre uma garfada e outra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O tio desapareceu do mapa quando a m\u00e3e dela engravidou. S\u00f3 ressurgiu quando Kiara j\u00e1 sabia andar e falar. Diz que foi por vergonha, mas ningu\u00e9m na fam\u00edlia comprou. Ele abandonou uma filha. Foi a fam\u00edlia inteira que segurou a barra da \u201cestrangeira\u201d e da crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E hoje\u2026 ele simplesmente sumiu de vez? \u2013 Perguntei, tentando processar o v\u00e1cuo deixado por um homem com um poder de destrui\u00e7\u00e3o financeira t\u00e3o colossal.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Talvez em Nova Delhi, talvez em Chicago. Ningu\u00e9m confirma, ningu\u00e9m pergunta. Os irm\u00e3os dele at\u00e9 devem saber, mas\u2026 \u00e9 mais conveniente fingir que n\u00e3o. Ele d\u00e1 menos trabalho sendo um fantasma.<br \/>\n\u2003\u2003Absorvi as informa\u00e7\u00f5es em sil\u00eancio. Havia uma hist\u00f3ria de dor ali, sim, mas tamb\u00e9m de covardia calculada e de um pragmatismo familiar gelado. Kiara surgia como uma v\u00edtima \u00f3bvia, mas tamb\u00e9m como um produto moldado por essa aus\u00eancia colossal e pelas expectativas silenciosas que a preencheram.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Kiara deve ter sofrido muito com isso&#8230; \u2013 Soltei, com um tom mais suave, sem querer invadir a privacidade dela, mas tentando entender o impacto dessa aus\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Definitivamente contribuiu para a raiva que ela sente de todos os ricos do mundo. \u2013 %Anya% respondeu, mais s\u00e9ria do que antes.<br \/>\n\u2003\u2003Eu sentia que, por um momento, a dist\u00e2ncia entre n\u00f3s diminuiu, mas tamb\u00e9m uma nova camada de complexidade surgiu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea\u2026 \u2013 Comecei, quebrando o sil\u00eancio. A palavra saiu mais baixa do que eu esperava. \u2013 Voc\u00ea realmente n\u00e3o gosta dela?<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% ergueu o olhar, como se a pergunta a tivesse alcan\u00e7ado de surpresa, ainda que n\u00e3o devesse. Demorou um segundo antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu tenho um certo\u2026 desgosto por hipocrisia. Todo mundo usa uma m\u00e1scara. A Kiara tem a dela, a minha m\u00e3e tem a dela\u2026 eu tamb\u00e9m tenho a minha. \u2013 Ela fez uma pausa, os dedos girando o copo vazio num movimento lento e hipn\u00f3tico. \u2013 A diferen\u00e7a \u00e9 que eu n\u00e3o gosto de usar a minha. A Kiara, por outro lado\u2026 ela ama a dela. A m\u00e1scara de boa menina.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% terminou o suco de morango e soltou um suspiro curto, quase impercept\u00edvel, como se carregasse o cansa\u00e7o de conhecer os outros t\u00e3o bem. Fiquei em sil\u00eancio, deixando aquela verdade amarga se depositar entre n\u00f3s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Kiara? Boa menina? \u2013 Soltei um sorriso torto, divertido com a ideia absurda.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o foi exatamente essa a vers\u00e3o que ela te apresentou, foi? \u2013 %Anya% soltou uma risada leve. Franzi o cenho, tentando decifrar o c\u00f3digo escondido na pergunta. Abri a boca para exigir uma explica\u00e7\u00e3o, mas ela j\u00e1 havia mudado de assunto com a agilidade de quem desarma uma bomba. \u2013 Ent\u00e3o\u2026 voc\u00ea realmente acha que vamos conseguir convencer todo mundo de que estamos\u2026 juntos?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Temos um grande plano? Voc\u00ea tem um roteiro, um cronograma, ou foi s\u00f3 um \u2018vamos ver no que d\u00e1\u2019? \u2013 Perguntei, a incredulidade vazando na minha voz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Olha pra mim, %Anthony% Voc\u00ea acha mesmo que eu sou do tipo que planeja essas coisas? Eu tive uma ideia. Uma ideia de merda, provavelmente. E eu fui com ela. Ponto. N\u00e3o fiquei remoendo.<br \/>\n\u2003\u2003Soltei um riso breve, mais por nervosismo do que qualquer outra coisa. A situa\u00e7\u00e3o era rid\u00edcula e n\u00f3s dois sab\u00edamos disso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom&#8230;Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sou exatamente o c\u00e9rebro das opera\u00e7\u00f5es. Nunca fui o cara dos planos.<br \/>\n\u2003\u2003Nenhum de n\u00f3s havia planejado o depois. O acordo era para ser simples, uma ponte tempor\u00e1ria sobre \u00e1guas turbulentas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o\u2026 estamos oficialmente ferrados, \u00e9 isso? \u2013 %Anya% suspirou, o garfo tra\u00e7ando c\u00edrculos let\u00e1rgicos no prato como se aquelas batatas fossem o \u00faltimo problema que lhe restava resolver no universo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Olha pelo lado positivo\u2026 se o navio vai afundar, que seja com um estoque generoso de asinhas de frango. Pelo menos um de n\u00f3s vai partir com o est\u00f4mago feliz.<br \/>\n\u2003\u2003Ela ergueu os olhos com uma lentid\u00e3o teatral, as sobrancelhas se arqueando no ritmo exato de quem est\u00e1 calculando se vale a pena cometer um homic\u00eddio ali mesmo ou simplesmente desistir da esp\u00e9cie humana.<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo inc\u00f4modo, tive certeza de que sairia dali coberto de ketchup. Ent\u00e3o ela riu. Um riso curto, inesperado, genu\u00edno o suficiente para desmontar a tens\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 pat\u00e9tico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Mas vamos combinar\u2026 \u2013 Inclinei levemente a cabe\u00e7a \u2013 um excelente namorado de mentira.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 exatamente isso que me preocupa.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu n\u00e3o foi desconfort\u00e1vel. Ao contr\u00e1rio. Nos encaramos por um instante e, apesar do caos, do improviso e da mentira crescendo r\u00e1pido demais\u2026 naquele segundo, tudo pareceu quase f\u00e1cil.<br \/>\n\u2003\u2003E isso, talvez, fosse o detalhe mais perigoso de todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"template-historia-longa.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2252],"class_list":["post-9423","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}