{"id":9401,"date":"2026-01-04T10:55:36","date_gmt":"2026-01-04T13:55:36","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-04T10:58:48","modified_gmt":"2026-01-04T13:58:48","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/o-decair-do-engenho\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O sol ainda se<\/span> espregui\u00e7ava por detr\u00e1s dos morros que se estendiam ao longe, tingindo o c\u00e9u de um tom violeta que se dissipava logo em seguida. Nas vastas terras do Engenho Santa Clara, na periferia de S\u00e3o Paulo, tudo despertava com o canto dos galos e o ranger suave das carro\u00e7as. O ano era 1870: um tempo de riquezas provenientes do a\u00e7\u00facar e da esperan\u00e7a de aboli\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 sussurrava pelos corredores da Corte.<br>\u2003\u2003\u00c0 porta da Casa Grande, o senhor Ant\u00f4nio de Moraes, propriet\u00e1rio de amplas planta\u00e7\u00f5es de cana, afagava o bigode sobranceiro. Ao seu lado, a senhora Isabel, elegante em seu vestido de chita azul, segurava com carinho a m\u00e3o do pequeno %Guiael%, seu \u00fanico filho de seis anos.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu rapaz, vede que o mundo l\u00e1 fora est\u00e1 mudando \u2014 disse a senhora Isabel, baixinho, para que apenas o menino ouvisse. \u2014 Os jornais falam em fim da escravid\u00e3o, e muitos mo\u00e7os na cidade estudam filosofia e Direitos Humanos.<br>\u2003\u2003%Guiael%, de olhar curioso e mechas loiras em desalinho, franziu a testa.<br>\u2003\u2003\u2014 M\u00e3e, escravid\u00e3o\u2026 \u00e9 quando algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 livre?<br>\u2003\u2003Ela sorriu, abatendo o olhar.<br>\u2003\u2003\u2014 Exatamente, meu bem. Mas aqui ainda somos regidos por leis antigas. Ainda h\u00e1 quem defenda que sem trabalho escravo as fazendas n\u00e3o prosperariam.<br>\u2003\u2003O menino ficou pensativo, prendendo o vestidinho entre os dedos. \u00c0quele momento uma voz gutural interrompeu a cena:<br>\u2003\u2003\u2014 Senhorita Isabel, o caf\u00e9 j\u00e1 espuma no fog\u00e3o, e os rapazes do engenho aguardam ordens.<br>\u2003\u2003Veio ao encontro deles Dandara, a cozinheira de origem africana, cujo rosto tranquilo exibia as cicatrizes que a vida lhe marcara. Trazia um poleiro de caf\u00e9 fumegante, lembrando a todos que a rotina agr\u00edcola seguia seu curso.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigada, minha filha \u2014 disse Isabel. \u2014 %Guiael%, vais tomar teu caf\u00e9 antes de irmos ao est\u00e1bulo.<br>\u2003\u2003Enquanto o menino se aproximava da mesa r\u00fastica, seu olhar cruzou-se com o de Mateus, o jovem escravo que conduzira a carro\u00e7a na viagem de suprimentos at\u00e9 a vila. Mateus fitava %Guiael% com afeto silencioso, ergueu o queixo num cumprimento sutil. %Guiael% respondeu com um aceno t\u00edmido.<br>\u2003\u2003\u2014 Mestre, o senhor quer que eu cuide dos potros hoje? \u2014 perguntou Mateus, em voz embargada pelo cansa\u00e7o das pernas que mal podiam se esticar.<br>\u2003\u2003O senhor Ant\u00f4nio ergueu-se, ajeitando o colete de linho:<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, Mateus. Precisamos desses animais fortes para o transporte do a\u00e7\u00facar at\u00e9 Santos. Cuida bem deles. Oriente o %Guiael% tamb\u00e9m, que aprenda o of\u00edcio.<br>\u2003\u2003O menino arregalou os olhos de excita\u00e7\u00e3o: cavalos eram seus companheiros favoritos.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, padre! \u2014 exclamou Mateus, incerto entre o \u201csenhor\u201d e o \u201cpadre\u201d que as crian\u00e7as \u00e0s vezes confundiam.<br>\u2003\u2003Na cena, havia cumplicidade e hierarquia. A m\u00e3o de Isabel pousou sobre o ombro de %Guiael%, lembrando-lhe que o mundo, diante de seus passos pequenos, estava dividido entre privil\u00e9gio e servid\u00e3o.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2014\u2014\u2014<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Logo depois, no est\u00e1bulo, o aroma r\u00fastico do feno misturava-se ao vapor das vieiras dos animais. Mateus conduziu o menino at\u00e9 um potro maltrapilho, de pelagem baia e olhos negros que tremeluziam de medo.<br>\u2003\u2003\u2014 Calma, menino \u2014 murmurou o escravo, enquanto %Guiael% colocava a m\u00e3o hesitante no pesco\u00e7o do animal. \u2014 Ele escapou de um corte violento ontem. Foi punido por ter triscado uma ferramenta.<br>\u2003\u2003%Guiael% perguntou:<br>\u2003\u2003\u2014 Por qu\u00ea? Ele n\u00e3o fez nada\u2026<br>\u2003\u2003Mateus suspirou, pousando a palha sobre a sela:<br>\u2003\u2003\u2014 Para que a ordem se mantenha, dizem. Alguns \u201cseus\u201d acreditam que o medo faz o trabalho andar.<br>\u2003\u2003O menino franziu o cenho e, num gesto infantil de bravura, apanhou uma escova e come\u00e7ou a cuidar do potro. Mateus sorriu, orgulhoso.<br>\u2003\u2003Ao cair da tarde, na varanda da Casa Grande, o senhor Ant\u00f4nio e alguns colonos reuniram-se em debate. Estes cochichavam sobre o movimento abolicionista que chegava de S\u00e3o Paulo, desafiando a pr\u00f3pria base de sua riqueza.<br>\u2003\u2003\u2014 Se perdermos a escravid\u00e3o, perderemos a for\u00e7a de trabalho \u2014 afirmava o major Silv\u00e9rio, afagando o bigode grisalho. \u2014 Como recolheremos nossa produ\u00e7\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 H\u00e1 fazendas que investem em m\u00e1quinas a vapor \u2014 contra-argumentou o doutor Lu\u00eds Barreto, m\u00e9dico e homem de letras. \u2014 Precisamos acompanhar a mudan\u00e7a. \u00c9 cruel, mas, aos poucos, a servid\u00e3o escrava ser\u00e1 banida.<br>\u2003\u2003O senhor Ant\u00f4nio bebeu o vinho com parcim\u00f4nia:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o nego a vossa raz\u00e3o, Barreto, mas s\u00e3o anos de tradi\u00e7\u00e3o. Muitos homens fi\u00e9is escreveram seu destino neste solo.<br>\u2003\u2003Isabel, que at\u00e9 ent\u00e3o ouvira em sil\u00eancio, ergueu-se:<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor, n\u00e3o podemos fechar os olhos ao sofrimento. Estou cansada de ver olhares esmorecidos e cicatrizes na carne dos que aqui vivem.<br>\u2003\u2003As palavras dela ca\u00edram como chuva de ver\u00e3o: impetuosas, mas fugazes. Os homens a fitaram, surpresos ante a ousadia feminil de criticar o sistema vigente.<br>\u2003\u2003\u2014 Minha querida \u2014 retrucou o marido, gentil, mas firme \u2014, mantenha-se na confid\u00eancia do lar. A pol\u00edtica pertence aos sal\u00f5es e aos homens de influ\u00eancia.<br>\u2003\u2003Ela cerrou os l\u00e1bios com dignidade e voltou-se para o horizonte. L\u00e1, o c\u00e9u inflamava-se de rubor e as tocas das senzalas surgiam como silhuetas escuras.<br>\u2003\u2003Quando a noite tomou posse da ch\u00e1cara, %Guiael% dormia tranquilo nos aposentos ricamente decorados. Dandara, que fazia a ronda noturna para verificar se tudo estava em ordem, deteve-se junto ao ber\u00e7o do menino.<br>\u2003\u2003\u2014 Dorme bem, meu filhinho \u2014 sussurrou ela, depositando um beijo na testinha do garoto. Em um gesto delicado, recitou uma can\u00e7\u00e3o africana que a pr\u00f3pria m\u00e3e cantara em tempos distantes.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cKi bando chele\u2026<\/em><br><em>sonho vem me achar\u2026\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O menino, numa premoni\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, murmurou:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o quero sonhar com correntes\u2026<br>\u2003\u2003Dandara afastou uma mecha de cabelo do rosto dele e sorriu com ternura mortal. Afinal, no sil\u00eancio das trevas, todos sonhavam com liberdade.<\/p>\r\n<p align=\"center\">************<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 B\u00e1h, ser\u00e1 que a escravid\u00e3o dos negros vai acabar um dia? \u2014 perguntou %Guiael% para sua preceptora.<br>\u2003\u2003\u2014 Quem sabe, um dia \u2014 disse a preceptora.<\/p>\r\n<p align=\"center\">*********<\/p>\r\n\u2003\u2003As ruas do Engenho estavam todas perfumadas, cada uma tinha um aroma de cafezal diferente. As fazendas, os engenhos aos poucos se conectavam com as mudan\u00e7as&#8230;\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014\u2014\u2014 \u201cKi bando chele\u2026sonho vem me achar\u2026\u201d ************ *********<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2478],"class_list":["post-9401","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-o-decair-do-engenho"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9401","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}