{"id":9398,"date":"2026-01-02T14:33:47","date_gmt":"2026-01-02T17:33:47","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-01-02T14:43:49","modified_gmt":"2026-01-02T17:43:49","slug":"capitulo-01","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/vicious\/capitulo-01\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 01"},"content":{"rendered":"\r\n<div style=\"width: 70%; margin: auto;\">\r\n<p>\u2003\u2003<em><span class=\"versalete\">Para minha %Lua%,<\/span><\/em><br>\u2003\u2003<em>Se acaso estiver a ler estas palavras, \u00e9 muito prov\u00e1vel que seja tarde demais para mim. Receio que tenha mentido, meu amor, ainda assim, mais uma vez, e embora esteja consciente de como posso ter partido teu cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso dizer que me arrependo de o fazer, pois, em minha err\u00f4nea concep\u00e7\u00e3o, o fiz tentando proteg\u00ea-la. Um dia, se porventura tiver filhos, espero que seja capaz de oferecer-me, ainda que m\u00edsera, gra\u00e7a por fazer de tudo ao meu alcance para proteg\u00ea-la. Sei que n\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o para o que fiz. Sei que dos erros que cometi, as puni\u00e7\u00f5es mais severas recaem sobre voc\u00ea, meu amor, minha garotinha. Tal qual sei que existem tamb\u00e9m muitas quest\u00f5es em aberto entre n\u00f3s que n\u00e3o lhe contei tudo, e que sempre seguir\u00e3o abertas. Arrependo-me dos ferimentos que posso ter aberto em teu cora\u00e7\u00e3o, meu amor, e se ressentir-se contra mim possa aplacar suas ang\u00fastias, o fa\u00e7a! Por favor, meu amor, jogue-me teu esc\u00e1rnio, teu desprezo, alivia-te ao colocar-me como teu monstro e esque\u00e7a-me ao fundo de um ba\u00fa lan\u00e7ado ao mar. Compreenderei seus motivos, eu prometo.<\/em><br>\u2003\u2003<em>S\u00f3 n\u00e3o te esque\u00e7as do quanto amo-lhe.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o te esque\u00e7as que se o mundo fosse diferente, e de alguma forma, pudesse usar um vira-tempo para consertar meus erros, <strong>eu faria a tudo outra vez<\/strong>. Sei que n\u00e3o poder\u00e1 compreender minhas palavras, sei que devo soar cruel contigo e para com o peso que carregas, mas voc\u00ea sempre foi, e sempre ser\u00e1, meu mundo, meu amor. Sinto muito se n\u00e3o me arrependo, sinto muito por dizer que faria tudo novamente, mas voc\u00ea \u00e9 minha crian\u00e7a, minha menina, e prefiro que antes de tudo o mundo sucumba a voc\u00ea. O que h\u00e1 para salvar neste mundo que valha mais do que um filho? N\u00e3o digas que a vida de cem pessoas, milhares, valha mais do que a tua, pois n\u00e3o vale. A mim, tal valor equivale-se ao jornal di\u00e1rio descartado ap\u00f3s sua leitura. N\u00e3o h\u00e1 um mundo para mim sem que exista voc\u00ea, meu amor, \u00e9 por isso que fiz o que fiz. \u00c9 por isso que te escrevo agora, implorando-lhe para que me esque\u00e7a. Esque\u00e7a-me como pessoa, esque\u00e7a-me como figura, mas n\u00e3o te esque\u00e7as do meu amor.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Durante minha vida inteira, viajei por cidades e lugares buscando algum significado que pudesse oferecer-me um desejo a mais para manter-me a este mundo. Sua m\u00e3e chamava-me de pessimista, e porventura talvez esta tenha sido apenas minha contribui\u00e7\u00e3o, mas pode chamar-me de equivocado quando digo que n\u00e3o h\u00e1 nada neste mundo que seja redim\u00edvel de salva\u00e7\u00e3o? H\u00e1 crueldade demais, meu amor, gan\u00e2ncia demais. Vejo homens deplor\u00e1veis conquistando o mundo apenas porque possuem o nome correto e a quantia correta. Vejo-os pelos fracassos que s\u00e3o, ditando palavras cru\u00e9is apenas para alimentarem seus egos. N\u00e3o oferecem nada se n\u00e3o esc\u00e1rnio, desalento. Como posso querer salvar isso? Que os deixem se destruir. Ao fim de tudo, sobre apenas destrui\u00e7\u00e3o, de qualquer forma. Mas entre o mundo e voc\u00ea, <strong>sempre escolhi, e sempre irei escolher<\/strong> <strong>voc\u00ea<\/strong>. Minha doce menina de teimosia incompar\u00e1vel e riso frouxo. Perdoe-me, minha %Lua%, pela sina que lhe confiei, ainda que sem inten\u00e7\u00e3o alguma.<\/em><br>\u2003\u2003<em>Encontro-me em paz.<\/em><br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o quero salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quero que perca seu tempo buscando uma forma de me salvar, pois sei que n\u00e3o a mere\u00e7o. Constru\u00ed o caminho que me guia para minha cova. N\u00e3o temo a morte, pois sei que h\u00e1 coisas piores por a\u00ed. Temo \u00e9 prejudicar a sua vida, meu amor. Temo que meus erros voltem a assombr\u00e1-la e que de mesmo destino sua vida siga a minha. \u00c9 por isso que lhe rogo para que apague minha exist\u00eancia de sua vida. Tome o nome de Sharp, se necess\u00e1rio, sua m\u00e3e e eu preparamos uma conta sob a alcunha de Marie Goldstein, use-a para comprar passagens, v\u00e1 para a Am\u00e9rica se assim desejar, ou para qualquer outro lugar no mundo que aclame por seu cora\u00e7\u00e3o. Confie em Sharp, ele ir\u00e1 lhe auxiliar, e nunca se esque\u00e7a, meu amor, que embora minhas falhas sejam em demasia, a <strong>\u00fanica<\/strong> coisa que nunca acreditei e que nunca <strong>foi<\/strong> um erro a mim: <strong>\u00e9 voc\u00ea<\/strong>.<\/em><\/p>\r\n<p align=\"right\"><em>Perdoe-me, meu amor, pelas falhas que nunca pude consertar. Por ter sido teu pai.<\/em><br><em>Com amor, Leon.<\/em><\/p>\r\n<\/div>\r\n<p>\u2003\u2003Sua garganta parecia estar inchada quando terminou a leitura do papel amassado e escrito \u00e0s pressas com sangue. At\u00e9 pensou em questionar Professor Sharp <em>como<\/em> ele havia conseguido aquela carta, mas reconsiderou no segundo que o olhar do professor austero e distante se tornou piedoso. Aesop Sharp poderia ser muitas coisas, mas raramente era sentimental para que seus olhos tivessem suavizado e sua express\u00e3o se contorcido com uma de pesar, %Luana% sabia perfeitamente a resposta que encontraria ali.<br>\u2003\u2003Tomou-lhe a carta das m\u00e3os e sem mais palavras emaranhou-se pelas escadas que se moviam dos corredores, perdeu-se antes que pudesse perceber, mas por sorte n\u00e3o estava assim t\u00e3o longe das masmorras para que encontrasse o quarto que dividia com mais duas amigas da Sonserina. N\u00e3o poderia dizer que eram assim t\u00e3o pr\u00f3ximas de si, mas certamente eram uma presen\u00e7a constante na vida de %Luana%.<br>\u2003\u2003Ivy Locke era uma garota de cabelos longos e ruivos, presos em um coque baixo cuidadosamente impec\u00e1vel. J\u00e1 Isolde Razor, possu\u00eda olhos grandes e expressivos, e um rosto sardento apesar dos cabelos escuros como a noite, tran\u00e7ados em uma \u00fanica tran\u00e7a que chegava \u00e0 altura de sua cintura. N\u00e3o eram pessoas ruins, na verdade, cuidavam de %Luana%, especialmente quando esta tinha algum pesadelo, e gostavam de passar tempo conversando com ela se %Luana% estivesse inclinada a faz\u00ea-lo, mas a mancha que <em>%Atlas% %Gaunt%<\/em> havia lhe deixado era o suficiente para que, mesmo em sua aus\u00eancia, fosse temido aproximar-se dela.<br>\u2003\u2003Para o al\u00edvio de %Monteiro%, seu quarto estava vazio. As meninas muito provavelmente j\u00e1 haviam se preparado para seguir para <em>Hogsmeade<\/em> aquela manh\u00e3, para comprar mais algumas pegadinhas para colocar dentro dos doces que ofereceriam mais tarde durante o jantar de Halloween, quando %Luana% adentrou o espa\u00e7o com a respira\u00e7\u00e3o entrecortada. Ficou ali por consider\u00e1veis horas, sentada \u00e0 frente da lareira, lutando contra as l\u00e1grimas ao observar a letra escrita por seu pai. O fizera com o pr\u00f3prio sangue, e isso fez com que %Luana% se questionasse <em>como<\/em> o pai havia conseguido esconder papel dentro da cela que estava, como havia encontrado tempo de escrever aquela carta e envi\u00e1-la para Sharp. Agora tudo o que a jovem conseguiu fazer foi rasg\u00e1-la, amassando-a e arremessando-a contra o fogo da lareira.<br>\u2003\u2003Apoiou os dois bra\u00e7os sobre os joelhos dobrados, a saia pesada escura do uniforme farfalhando quando ela puxou os joelhos mais contra o peito, escorando seu queixo sobre as costas da m\u00e3o. Assistiu sem ver quando o fogo consumiu as palavras gentis de seu pai, sentindo uma mistura insuport\u00e1vel de f\u00faria mal contida e tristeza profunda. Uma parte de si queria aceitar o pedido do pai, seria t\u00e3o mais f\u00e1cil se ela simplesmente se esquecesse completamente de quem ele havia sido. Seria t\u00e3o mais simples se ela apenas admitisse para si mesma que o pai era um maluco, e que os rumores que se espalhavam pelos corredores de Hogwarts, ou onde quer que ela fosse, eram verdadeiros\u2026 seria t\u00e3o mais f\u00e1cil se seu pai fosse o monstro que todos acreditavam ser. Mas ele n\u00e3o era.<br>\u2003\u2003Leon %Monteiro% era o melhor homem que %Luana% j\u00e1 havia conhecido. Por tr\u00e1s do rosto com uma barba grossa e pesada, com o bigode levemente curvado para cima porque adorava aquele estilo antiquado, e do olhar severo, que parecia enxergar at\u00e9 mesmo a alma de quem dirigia-se a ele, havia um grande homem carinhoso. Era o pai quem havia cuidado dela desde a morte prematura de sua m\u00e3e, era ele que cozinhava, que aprendeu a costurar os vestidos, que ensinara %Luana% a fazer tudo, e quem lia com um tom arrastado e quase sonolento seu livro preferido. Era o pai quem oferecia-lhe dinheiro para comprar la\u00e7os novos, e at\u00e9 mesmo levava-a para comprar vestidos novos quando seus antigos eram j\u00e1 pu\u00eddos. Ele fazia quest\u00e3o de lev\u00e1-la para caminhar, e de explicar que embora muitas pessoas pudessem dizer que era equivocado, especialmente sendo uma mulher, o pensamento de que a curiosidade poderia ser perigosa: a curiosidade era o que levava \u00e0 descoberta, e <em>toda<\/em> descoberta era um novo conhecimento. N\u00e3o havia como arrepender-se de conhecer algo. N\u00e3o havia arrependimento em <em>aprender<\/em> alguma coisa, boa ou ruim, n\u00e3o importava, aprendizado, em toda sua forma, era <em>bom<\/em>.<br>\u2003\u2003Era o pai que murmurava ritmos estranhos enquanto analisava alguma criatura com cuidado e fazia anota\u00e7\u00f5es em seus cadernos. Era o pai que recolhia as melhores ma\u00e7\u00e3s do pomar ao fundo da casa e oferecia-lhe as melhores. Era o pai que a havia guiado desde que ela se conhecia por gente, e era o pai que havia lhe prometido uma vida nova em um mundo desconhecido. Mas era igualmente, este mesmo homem, um monstro.<br>\u2003\u2003%Luana% havia passado muito tempo tentando conciliar as duas facetas do homem. O que ela conhecia, e o que via no <em>Profeta Di\u00e1rio<\/em> descrito com tamanho desprezo e desd\u00e9m. Um <em>Auror<\/em> maluco corro\u00eddo pelo pr\u00f3prio luto que fora capaz de transformar-se em um monstro para trazer a amada de volta. Seu pai era um homem de poucos amores, por\u00e9m profundos, %Luana% tinha o receio de que muito provavelmente havia herdado <em>esta<\/em> maldi\u00e7\u00e3o dele tamb\u00e9m, mas ele n\u00e3o era um assassino sem motivo. Era a <em>isso<\/em> que se apegava e talvez, por isso, ela estivesse desesperada para conseguir <em>provar<\/em> a verdade sobre seu pai para os outros. Provar que ele era <em>melhor<\/em> do que acreditavam, que todo aquele processo, que sua pris\u00e3o, havia sido na verdade injusta e vingativa. Mas ela n\u00e3o mais possu\u00eda provas o suficiente. N\u00e3o mais possu\u00eda <em>tempo<\/em>.<br>\u2003\u2003Trincando os dentes com um estalo alto, prendeu sua respira\u00e7\u00e3o ao alcan\u00e7ar o jornal daquele dia. A manchete principal, com a tinta preta gritante contrastando contra o material cinza tornava sua exclama\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel: <strong>JULGAMENTO DE BRUXO DAS TREVAS, LEON VAN DER LEYEN \u00c9 FINALIZADO. EXECU\u00c7\u00c3O IR\u00c1 ACONTECER AO FIM DO PR\u00d3XIMO M\u00caS! <\/strong>Ao centro da p\u00e1gina, a foto atualizada de seu pai, usada para a identifica\u00e7\u00e3o de Azkaban, movia-se de um lado para o outro. Virou o rosto para a esquerda, ent\u00e3o para frente, os olhos distantes, nebulosos, como ela lembrava-se de que ficavam ao perder-se em pensamentos no anivers\u00e1rio de morte de Clarice, sua m\u00e3e. A barba possu\u00eda um buraco na altura da mand\u00edbula, como se tivesse sido arrancada com viol\u00eancia, e o sangue parecia seco sobre a pele. Tatuagens que n\u00e3o lhe eram muito caracter\u00edsticas espalhavam-se por seu corpo, marcas enfeiti\u00e7adas e o que mais que poderiam fazer em Azkaban para manter os detentos presos. Seu pai era tormenta, era caos e destrui\u00e7\u00e3o, mas havia algo no olhar dele, uma resigna\u00e7\u00e3o que era quase <em>insuport\u00e1vel<\/em>. A fez ficar furiosa por perceber a <em>resigna\u00e7\u00e3o<\/em> ali.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era ele que dizia a ela para levantar-se quantas vezes necess\u00e1rio at\u00e9 conseguir chegar ao fim de algo? N\u00e3o era ele que dizia a ela para continuar caminhando mesmo quando seus p\u00e9s estivessem cobertos por calos e esfolados at\u00e9 a carne? Que diabos ent\u00e3o, aquele maldito homem poderia ter encontrado dentro de si para aceitar sua pr\u00f3pria morte? Por que ele n\u00e3o estava lutando?! Por que ele estava escolhendo <em>deix\u00e1-la<\/em> para tr\u00e1s?! A press\u00e3o das l\u00e1grimas por tr\u00e1s de seus olhos e a contra\u00e7\u00e3o em sua garganta, obrigou-a a rasgar o jornal o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e ent\u00e3o arremess\u00e1-lo tamb\u00e9m ao fogo. Com isso feito, abra\u00e7ou um pouco mais forte os joelhos antes de enterrar sua testa ali, segurando com m\u00e3os tr\u00eamulas as mechas que haviam se desalinhado de seu penteado padr\u00e3o.<br>\u2003\u2003Como %Luana% poderia salvar algu\u00e9m que <em>n\u00e3o desejava<\/em> ser salvo? E como, porventura, ela poderia aceitar tal destino sem lutar por ele? Como ele poderia dizer a ela para esquec\u00ea-lo quando era a primeira coisa que pensava ao acordar e a \u00faltima antes de dormir? Como poderia viver com uma consci\u00eancia limpa e tranquila, se a <em>\u00fanica<\/em> pessoa que a amava estivesse esvaindo-se por seus dedos como areia, desfazendo-se ao vazio, sem que ela ao menos pudesse segur\u00e1-lo por mais um segundo?<br>\u2003\u2003Um ru\u00eddo familiar ecoou pela janela de Isolde, sempre aberta. %Luana% n\u00e3o se virou na dire\u00e7\u00e3o de onde o ru\u00eddo ecoou. O grasnado de um corvo, \u00e9 claro, pairou pelo quarto, enquanto o animalzinho de pelagem escura repousou sobre sua mesa, tentando chamar-lhe a aten\u00e7\u00e3o. Ela sabia quem a criatura era antes mesmo que ele se destransformar, jogando-se em sua cama, o cheiro que misturava pinho e lim\u00e3o com algo mais fresco espalhou-se por sua esquerda, lhe invadindo as narinas sem muitos problemas, quando %Scorpius% %Gaunt% deitou-se em sua cama, como se esta lhe pertencesse. Os cabelos desalinhados revelavam que ele mal havia terminado de se arrumar antes de transfigurar-se em sua forma <em>animaga<\/em> e voar para o quarto de %Luana%.<br>\u2003\u2003As regras dos dormit\u00f3rios de Hogwarts eram claras: nenhum menino deveria ultrapassar as divis\u00f5es onde os dormit\u00f3rios femininos se iniciavam, e vice-versa; al\u00e9m de um completo indecoro e risco a destrui\u00e7\u00e3o completa da reputa\u00e7\u00e3o de uma dama, era igualmente relativo a expuls\u00e3o imediata se um destes alunos rebeldes o fizesse. Mas %Scorpius% nunca havia se importado com aquela regra. O garoto que dormia em um quarto isolado dos outros, pr\u00f3ximo do almoxarifado do que dos espa\u00e7os comunais da casa, conseguia esgueirar-se pelos buracos que se abriam entre as paredes de pedra do castelo, e us\u00e1-los para sobrevoar at\u00e9 as janelas. Empoleirava-se muitas vezes na mesa ou na janela de %Luana%, disfar\u00e7ado de um corvo, enquanto Ivy fazia piada, dizendo que, se %Luana% estivesse em <em>Durmstrang<\/em> ent\u00e3o ela seria vista como uma agourenta, ou uma bruxa em contato direto com <em>Odin<\/em>, o <em>Pai de Todos<\/em>. Corvos eram sempre sinais de previs\u00f5es futuras, na maioria das vezes, avisos de uma morte em potencial a aproximar-se, mas %Luana% sabia que era <em>apenas<\/em> %Scorpius% querendo fazer-lhe companhia. Posteriormente, quando estivessem caminhando pelos corredores, %Scorpius% soltava uma risada alta e gostosa, deleitando-se com a perip\u00e9cia.<br>\u2003\u2003%Luana%, na maioria das vezes, <em>gostava<\/em> da risada de %Scorpius%: era algo <em>raro<\/em> de se ouvir, especialmente no \u00faltimo ano, quando o <em>irm\u00e3o g\u00eameo<\/em> dele foi enviado para longe, mas quando o fazia, conseguia iluminar o lugar que estavam. Mas <em>hoje<\/em>, o som de seu riso suave, pouco tivera efeito para a brasileira que continuou encarando a lareira \u00e0 sua frente. Continuou lutando contra as pr\u00f3prias l\u00e1grimas com determina\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Soube que os Lufanos est\u00e3o preparando algum tipo de celebra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o toque de recolher na <em>Floresta Proibida<\/em> \u2014 confidenciou %Scorpius% com um sorriso torto, ajeitando-se na cama de %Luana% e ent\u00e3o al\u00e7ando um bichinho de pel\u00facia, uma cobra preta feita de pano que ela havia ganhado de presente do Professor Sharp como uma tentativa pat\u00e9tica de conex\u00e3o. A cobra era rid\u00edcula, faltava um olho, e era para uma crian\u00e7a de 6 anos, e n\u00e3o uma jovem de quase 18 anos agora, mas era o <em>gesto<\/em> de Aesop que a havia tornado sua preferida.<br>\u2003\u2003Ningu\u00e9m se lembrava mais de seu anivers\u00e1rio, com exce\u00e7\u00e3o do professor, e o fato de que ele tomara seu tempo para comprar-lhe uma lembran\u00e7a, a fizera sentir <em>tanta<\/em> falta de casa. %Scorpius% enrolou a cobra em seu pesco\u00e7o, como um cachecol e ent\u00e3o virou o rosto na dire\u00e7\u00e3o de %Luana%, os olhos cintilando com travessuras n\u00e3o ditas.<br>\u2003\u2003\u2014 De fato, Horatio me chamou para participar, est\u00e3o planejando roubar algumas comidas da cozinha, o que certamente far\u00e1 com que o Diretor Black tenha <em>mais uma<\/em> s\u00edncope, particularmente, estou interessado em ver esse desfecho. Horatio me disse que, se eu quiser, posso levar mais algu\u00e9m. \u2014 %Scorpius% conteve um sorriso para o rosto deformado da cobra, voltando-o para si mesmo antes de, movendo-a como um fantoche, apont\u00e1-lo para %Luana%. \u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea ir\u00e1 comigo. N\u00e3o \u00e9 um pedido, \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o. O que acha?<br>\u2003\u2003%Luana% n\u00e3o respondeu. N\u00e3o teve coragem, sabia que se abrisse a boca para dizer algo, %Scorpius% perceberia de imediato que ela estava <em>prestes<\/em> a debulhar-se em l\u00e1grimas. Seu sil\u00eancio, todavia, <em>foi<\/em> uma resposta para o jovem %Gaunt%, igualmente. %Scorpius% suspirou pesado, voltando o rosto de pano da cobra para si mesmo, arrancando uma linha perdida, mais pelo h\u00e1bito do que por qualquer coisa, antes de deixar de lado, arrastando-se para a lateral da cama e sentando-se ao ch\u00e3o ao lado de %Monteiro%. Assim t\u00e3o de perto, ele cheirava a pinho e sabonete de lim\u00e3o. Ela nunca havia entendido <em>por que<\/em> ele gostava de <em>lim\u00e3o<\/em> tanto assim, mas quando ele lhe respondia, dizia apenas: \u201c<em>as coisas mais amargas s\u00e3o as mais doces<\/em>\u201d como se isso fosse explicar <em>tudo<\/em>. Um poeta terr\u00edvel, mas n\u00e3o menos esfor\u00e7ado. %Scorpius% uniu as sobrancelhas, voltando seu olhar para a lareira em que o fogo crepitava.<br>\u2003\u2003\u2014 Soube o que aconteceu \u2014 %Scorpius% disse, sua voz envolta por uma compaix\u00e3o que, em outro momento, teria feito %Luana% rosnar com um severo \u201ceu n\u00e3o preciso da sua piedade\u201d, mas vindo de %Scorpius%, tudo o que fez foi engolir em seco, audivelmente, apertando os l\u00e1bios com for\u00e7a. \u2014 Sinto muito, %Lua%. \u2014 %Luana% voltou a linha de seu olhar para %Scorpius%, em um aviso silencioso, %Scorpius% n\u00e3o pareceu intimidado, apenas sustentou o olhar dela com pesar. \u2014 Quer falar sobre?<br>\u2003\u2003\u2014 Se disser mais alguma coisa, eu vou te socar \u2014 %Luana% avisou com a voz embargada, e %Scorpius% estreitou os olhos, mas ent\u00e3o deu de ombros.<br>\u2003\u2003\u2014 V\u00e1 em frente ent\u00e3o, se vai ajudar, me acerta, ser\u00e1 bom ter algum uso para mim afinal. \u2014 Al\u00e7ou os cabelos de %Luana% com um pequeno graveto, girando-o em seus dedos por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, antes de arremess\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o ao fogo.<br>\u2003\u2003%Luana% piscou, levando as m\u00e3os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s mechas desalinhadas de seus cabelos, verificando se teria mais uma vez folhas e gravetos por ter disparado pelos corredores externos de Hogwarts com uma mente <em>fixa<\/em> na tarefa em m\u00e3os para reparar no <em>que<\/em> esbarrava e trazia consigo, ou se %Scorpius%, sendo a criatura <em>insuport\u00e1vel<\/em> que era, havia escondido o galho na manga de sua blusa de linho branca at\u00e9 aproximar-se dela e fingir que estava preso em seus cabelos. O truque de m\u00e1gica era comum para <em>trouxas<\/em>, em sua maioria, os encantavam como a promessa de realiza\u00e7\u00e3o de seus desejos mais \u00edntimos, mas para bruxos, que estavam acostumados com a mais pura magia, tendia a ser apenas irritante, na maioria das vezes.<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que Pettigrew havia dito que a ajudaria a\u2026 \u2014 pausou por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, parecendo escolher suas palavras com cuidado. %Luana% o fuzilou com o olhar, mas %Scorpius%, novamente, parecia indiferente com o olhar mortal que recebera. \u2014 Ele n\u00e3o teria ao menos provas o suficiente para conseguir se atrasar\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Deveria \u2014 ela murmurou com um tom de voz baixo, inspirando fundo antes de deixar sua cabe\u00e7a pender para tr\u00e1s, escorando-se contra a estrutura de metal da cama atr\u00e1s de si, e unindo as sobrancelhas. Observou as pr\u00f3prias m\u00e3os com fadiga, os dedos ocultos pelas luvas de renda criavam uma textura desconfort\u00e1vel e familiar. O tradicionalismo brit\u00e2nico e sua propriedade em postura e vestimentas \u00e0s vezes a incomodava em demasia, afinal, ela precisava estar coberta da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, mas <em>%Scorpius%<\/em> podia andar por a\u00ed com uma camisa entreaberta, cabelos desalinhados, e sapatos sujos que, no m\u00e1ximo, seria considerado um <em>garoto<\/em> s\u00f3. Sentiu vontade de mord\u00ea-lo, ainda que n\u00e3o tivesse uma explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica para isso, ao em vez disso, revirou os olhos, quando o olhar dele se voltou para seu rosto. \u2014 Mas j\u00e1 deveria ter desconfiado que seria apenas um charlat\u00e3o qualquer, quer dizer, desapareceu h\u00e1 duas semanas, %Scorpius%, e mesmo que consiga encontr\u00e1-lo, j\u00e1 n\u00e3o faz mais diferen\u00e7a. O julgamento acabou, v\u00e3o execut\u00e1-lo de qualquer maneira.<br>\u2003\u2003%Scorpius% n\u00e3o respondeu, havia lido o jornal aquela manh\u00e3, n\u00e3o precisava que ela explicasse a situa\u00e7\u00e3o do pai dela para que ele <em>soubesse<\/em> o que estava acontecendo. Moveu a mand\u00edbula, unindo as sobrancelhas, arrancando distraidamente as peles que se erguiam ao redor de suas unhas, contemplativo. A dor aguda que se espalhou pelos dedos foi completamente ignorada enquanto sua mente parecia estar maquinando seus pr\u00f3prios interesses, seus pr\u00f3prios planos pessoais.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea ainda tem <em>um m\u00eas<\/em>, %Lua% \u2014 murmurou %Scorpius% com um tom de voz baixo e determinado. %Luana% uniu as sobrancelhas, voltando a encar\u00e1-lo com uma ponta de irrita\u00e7\u00e3o, e, por mais que n\u00e3o desejasse admitir, <em>interesse<\/em>.<br>\u2003\u2003%Scorpius% a encarou de volta, algo pairando em seus olhos intensos. Era sempre curioso observar o tom de suas \u00edris em contraste com a pele p\u00e1lida que o %Gaunt% possu\u00eda. Os g\u00eameos %Gaunt% tinham os mesmos cabelos p\u00e1lidos, mas os de %Scorpius% eram mais loiros do que os de <em>%Atlas%<\/em>, tinham o mesmo formato de rosto, embora os de %Scorpius% fossem mais delicados, finos e elegantes, como uma ave de rapina, mas eram os olhos que se diferenciavam em demasia, enquanto os de %Atlas% eram uma tonalidade escura como piche, os de %Scorpius% eram puxados para um esverdeado escuro, \u00e0s vezes, caramelo profundo. Eram olhos que ela havia se acostumado a ver com frequ\u00eancia, mas que n\u00e3o deixavam de incomod\u00e1-la por algum motivo que n\u00e3o desejava verificar a fundo.<br>\u2003\u2003\u2014 %Scorpius%, n\u00e3o come\u00e7a\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Estou falando s\u00e9rio \u2014 %Scorpius% cortou a amiga, inclinando-se em sua dire\u00e7\u00e3o e tomando em suas m\u00e3os a dela com um aperto firme. \u2014 Ainda <em>h\u00e1<\/em> um m\u00eas at\u00e9 a execu\u00e7\u00e3o do seu pai, h\u00e1 <em>tempo<\/em>.<br>\u2003\u2003%Luana% desejou acert\u00e1-lo com um soco no est\u00f4mago, mas n\u00e3o fez nada, pois uma parte de si <em>estava<\/em> seguindo a l\u00f3gica de %Scorpius%. Era falha, desesperada e rid\u00edcula, como agarrar-se com uma l\u00e2mina afiada em um abra\u00e7o mortal, a l\u00e2mina <em>sempre<\/em> iria cravar-se em sua pele, sempre deixaria um rastro de cortes e sangue a se limpar, e acreditar que aquilo a estava salvando. Era estupidez pura, mas igualmente, <em>tudo<\/em> o que lhe restava. Esperan\u00e7a, percebeu com afli\u00e7\u00e3o, era uma das piores coisas a se sentir; mesmo no desespero <em>havia<\/em> esperan\u00e7a, o desejo por encontrar uma sa\u00edda de uma situa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. Era inevit\u00e1vel a quebra de seu cora\u00e7\u00e3o, mas se ainda havia uma chance, por que n\u00e3o tentar? Custasse o que custasse!<br>\u2003\u2003\u2014 Ou\u00e7a, dane-se Pettigrew e suas falsas promessas. Vamos n\u00f3s dois! Mesmo que ele tenha desaparecido sem maiores informa\u00e7\u00f5es, sua casa <em>ainda<\/em> se encontra em Hogsmeade, n\u00e3o? Ainda h\u00e1 maneira de encontrar algo relevante! Podemos come\u00e7ar por l\u00e1, e seu pai n\u00e3o possu\u00eda outros contatos al\u00e9m de Sharp? Talvez, se n\u00f3s repassarmos de novo, possamos encontrar algo relevante, n\u00e3o custa nada ao menos tentar, certo?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vai funcionar, %Scorpius%, j\u00e1 tentamos fazer isso antes \u2014 ela retorquiu, pausou por um momento, antes de negar com a cabe\u00e7a veemente. Puxou sua m\u00e3o de volta, a renda delicada enroscou-se com os calos das m\u00e3os dele, acabando por ficar levemente entortada, obrigando-a a ajust\u00e1-la novamente. Uniu as sobrancelhas, trincando a mand\u00edbula com mais for\u00e7a do que deveria, os olhos fixos nos aspectos florais dos fios tran\u00e7ados delicadamente pela renda. \u2014 Um ano atr\u00e1s? N\u00f3s <em>tentamos<\/em>, %Scorpius%, e veja no que deu! Se %Atlas% n\u00e3o tivesse aparecido l\u00e1 talvez\u2026 talvez tivesse conseguido encontrar as respostas que procuro, mas ele quase destruiu <em>tudo!<\/em> O que acha que ir\u00e1 acontecer <em>desta<\/em> vez?<br>\u2003\u2003Algo atravessou a express\u00e3o de %Scorpius%, algo sombrio e ruim. Os olhos pareciam escurecer-se com uma profunda irrita\u00e7\u00e3o controlada, as narinas dilataram-se levemente, enquanto sua respira\u00e7\u00e3o tornava-se mais pesada e vagarosa. Os l\u00e1bios se apertaram em uma linha r\u00edgida, tensa, e a mand\u00edbula travou-se. Era uma express\u00e3o que %Luana% viera a perceber com mais frequ\u00eancia na express\u00e3o do amigo; sempre parecia adquirir uma nota sombria, para al\u00e9m de ressentida quando o nome do g\u00eameo era mencionado. %Luana% n\u00e3o poderia dizer que <em>compreendia<\/em> o que o amigo sentia, n\u00e3o poderia dizer que simpatizava completamente pela situa\u00e7\u00e3o, mas podia, devidamente, <em>entender<\/em> que a conex\u00e3o entre os dois irm\u00e3os era mais profunda do que qualquer outra coisa que %Scorpius% viria a sentir. Nunca houve um mundo em que %Atlas% n\u00e3o existisse junto com %Scorpius%, e vice-versa, talvez, <em>esse<\/em> fosse o problema, o fato de que um poderia ser considerado o espelho do outro. Que eram uma alma, ao mesmo tempo que eram duas pessoas completamente diferentes. Questionou-se novamente o <em>qu\u00e3o<\/em> profundo poderia ser a raiva que %Scorpius% possu\u00eda do g\u00eameo, e se %Atlas% teria capacidade de fazer algo definitivo contra o irm\u00e3o \u2014 %Luana% n\u00e3o tinha d\u00favidas que, para a \u00faltima, a resposta, certamente, era <em>sim<\/em>.<br>\u2003\u2003%Atlas% poderia destruir <em>qualquer<\/em> um que <em>desejasse<\/em> o fazer.<br>\u2003\u2003\u2014 %Atlas% n\u00e3o est\u00e1 aqui <em>agora<\/em> \u2014 murmurou com um tom de voz amargo, como sempre acontecia quando o g\u00eameo dele era mencionado. %Luana% estreitou os olhos, observando o rosto anguloso do rapaz por um longo momento. Os cabelos haviam crescido mais naquele \u00faltimo outono, adornavam seu rosto com mais seguran\u00e7a, quase o fazia parecer-se com um homem j\u00e1. Costeletas envolviam e acentuavam a mand\u00edbula bem definida, e ela <em>sabia<\/em> que ele estava tentando crescer um bigode fazia meses embora n\u00e3o fosse l\u00e1 essas coisas. A gola de sua camisa de linho estava erguida, projetando sombras pelo pesco\u00e7o p\u00e1lido. \u2014 E mesmo se estivesse, n\u00e3o vou deixar que se aproxime de voc\u00ea outra vez, ter\u00e1 que passar por meu cad\u00e1ver. \u2014 %Luana% abriu a boca para respond\u00ea-lo, mas o olhar que %Scorpius% lhe lan\u00e7ou a fez calar-se com um estalo. N\u00e3o havia como discutir com %Scorpius% quando os dois <em>sabiam exatamente<\/em> o que havia acontecido naquela maldita noite. \u2014 <em>Vou<\/em> proteger voc\u00ea, n\u00e3o h\u00e1 <em>por que<\/em> se preocupar com %Atlas%.<br>\u2003\u2003%Luana% moveu a mand\u00edbula sem ter certeza de que gostaria de dizer a %Scorpius% que, talvez, ele estivesse t\u00e3o equivocado quanto ela por acreditar que <em>algu\u00e9m<\/em> conseguiria colocar-se entre %Atlas% e o que sua crueldade era capaz de alcan\u00e7ar. Mesmo que ele n\u00e3o estivesse ali, a sombra dele ainda pairava como um fantasma pela mente dos alunos, mesmo os novatos, as crian\u00e7as do primeiro ano, pareciam ouvir burburinhos dos mais velhos e temer aproximar-se dos outrora amigos de %Atlas% %Gaunt%.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 arriscado \u2014 tentou argumentar, e %Scorpius% abriu um sorriso torto, lhe lan\u00e7ando um olhar. %Luana% revirou os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Desde quando <em>voc\u00ea<\/em> se importa com riscos? \u2014 Para esta pergunta ela n\u00e3o tinha contraponto, apenas aceita\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Quando faremos isso? \u2014 %Luana% exalou, desistente em argumentar com %Scorpius%, e apenas aceitando a ajuda do melhor amigo.<br>\u2003\u2003\u2014 O quanto antes! Essa noite? Vamos usar a festa da Lufa-lufa como desculpa para escapar do castelo. Eu duvido, de qualquer forma, que algu\u00e9m v\u00e1 perceber \u2014 %Scorpius% murmurou com um tom animado, e ela se questionou se ele sequer percebia <em>o que<\/em> poderia acontecer de errado naquela noite.<br>\u2003\u2003Primeiro que a Floresta Proibida possu\u00eda esse nome por um motivo, segundo porque embora o Diretor Black fosse amigo <em>pr\u00f3ximo<\/em> da fam\u00edlia de %Scorpius%, ele n\u00e3o hesitaria em expulsar <em>%Luana%<\/em>, e terceiro\u2026 n\u00e3o era justo que ele fosse t\u00e3o bom para ela\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, voc\u00ea quer que eu te empreste mais uma cal\u00e7a? Acho que usar saia para correr por sua vida no meio da floresta vai ser uma <em>p\u00e9ssima<\/em> ideia, mas eu posso usar uma se quiser, por\u2026 prop\u00f3sitos cient\u00edficos como\u2026 \u2014 %Scorpius% come\u00e7ou a dizer, antes de abruptamente se interromper, arregalando os olhos com o barulho da tranca da porta do quarto de %Luana% sendo aberta.<br>\u2003\u2003%Luana% arregalou os olhos, praguejando entredentes, levantando-se de supet\u00e3o. T\u00e3o r\u00e1pido que acabou derrubando um dos casti\u00e7ais que mantinha repousado em sua mesa. Inclinou-se para alcan\u00e7ar o objeto no momento que %Scorpius% se lan\u00e7ou em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o, derrubando-a consigo. %Luana% desabou no ch\u00e3o com um grunhido baixo sobre as pernas de %Scorpius%, levando uma joelhada dolorida no abd\u00f4men, enquanto o melhor amigo atrapalhou-se com suas saias. %Scorpius% soltou um ru\u00eddo intelig\u00edvel, talvez de surpresa ou at\u00e9 mesmo desespero por ter visto <em>mais<\/em> do que deveria das pernas da amiga, mas n\u00e3o teve tempo para registrar o que havia acabado de ver, porque %Luana% j\u00e1 estava empurrando-o para debaixo de sua cama. %Scorpius% sufocou um grunhido de dor, meio rindo de desespero, meio grunhido quando a cabe\u00e7a dele acertou a lateral da cama, um barulho oco escapou, que <em>quase<\/em> fez %Luana% rir \u2014 a cabe\u00e7a de %Scorpius% era <em>mesmo<\/em> oca, huh?<br>\u2003\u2003Puxando as cobertas de sua cama para baixo, em uma falha tentativa de ocultar %Scorpius% abaixo de sua cama, sentiu quando a m\u00e3o calejada do melhor amigo envolveu, por instinto, seu tornozelo, apertando-o em um silencioso aviso, prendendo-a no lugar. %Luana% prendeu a respira\u00e7\u00e3o por instinto. Ajustou as saias de seu vestido rapidamente, voltando-se na dire\u00e7\u00e3o da porta em que Celine, uma das monitoras da Sonserina, com rosto anguloso e nariz aquilino, encontrava-se, bra\u00e7os cruzados e olhar inquisidor, pouco amig\u00e1vel. Por um segundo, %Luana% considerou se Celine iria perceber como suas m\u00e3os haviam se fechado atr\u00e1s de suas costas, com mais for\u00e7a que o necess\u00e1rio, como havia prendido sua respira\u00e7\u00e3o com a tens\u00e3o montante que se espelhava por seu corpo. Perguntou-se se acaso ela perceberia que estava mentindo, se %Luana% n\u00e3o tivesse treinado por tanto tempo \u00e0 frente do espelho como controlar as emo\u00e7\u00f5es de seu rosto, como poderia <em>sentir<\/em> o medo sem que estivesse evidente em seu rosto. Para seu completo al\u00edvio, Celine n\u00e3o parecia nem um pouco interessada no que quer que se passasse na mente de %Luana%.<br>\u2003\u2003\u2014 %Monteiro%, Diretor Black quer falar com voc\u00ea \u2014 disse com um tom de voz esgani\u00e7ado familiar. %Luana% uniu as sobrancelhas, considerando question\u00e1-la o que diabos poderia ser, mas descartou a ideia de imediato. Assentiu para a outra garota, antes de v\u00ea-la fechar a porta atr\u00e1s de si, deixando-a novamente sozinha em seu quarto.<br>\u2003\u2003Foi somente quando tivera certeza de que Celine estava longe o suficiente que %Luana% ajudou %Scorpius% a arrastar-se para fora de sua cama. O rapaz estava uma completa bagun\u00e7a, os cabelos desalinhados pareciam ter desenvolvido uma pequena camada de poeira, e ele tinha um papel em sua m\u00e3o esquerda. Os olhos estavam cintilando como os de um gato que havia acabado de encontrar um novelo de l\u00e3 para brincar.<br>\u2003\u2003\u2014 Escreve poesia desde quando? \u2014 pontuou %Scorpius% com um sorriso torto, soltando um riso baixo quando %Luana% tentou alcan\u00e7ar o peda\u00e7o de papel. %Scorpius% estendeu o bra\u00e7o para longe da brasileira, mantendo-o no ar sobre a cabe\u00e7a dela, em uma altura que %Luana% n\u00e3o conseguiria pegar sem ter que, primeiro, derrub\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003%Scorpius% era apenas tr\u00eas cent\u00edmetros mais alto do que ela, considerada com uma altura mediana, era Ivy quem possu\u00eda a estatura apreciada pela sociedade, n\u00e3o %Luana%, mas esses tr\u00eas cent\u00edmetros de %Scorpius% era sempre algo que o fazia gabar-se. Se pudesse atormentar %Luana% de qualquer m\u00edsera forma, ent\u00e3o o faria de bom grado.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o! Essa aqui \u00e9 <em>minha<\/em>, n\u00e3o vou devolver! \u2014 %Scorpius% disse com um riso, guardando o papel dentro do bolso de sua cal\u00e7a, parecendo sentir-se satisfeito o suficiente em ver a amiga corada e com os olhos irritados. Com um suspiro pesado, passou a m\u00e3o esquerda pelos cabelos, tentando livrar-se da fina camada de poeira que pairava por seus ombros e cabelos. \u2014 O que diabos Black pode querer com voc\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Se eu soubesse, te falaria \u2014 %Luana% retorquiu sarc\u00e1stica, e %Scorpius% a encarou por um longo momento em sil\u00eancio. \u2014 Meu pai?<br>\u2003\u2003%Scorpius% estreitou os olhos, contemplativo.<br>\u2003\u2003\u2014 Duvido muito, ele teve quase <em>um ano<\/em> para sequer considerar te dizer alguma palavra de condol\u00eancia, mas seja o que for, \u00e9 melhor voc\u00ea tomar cuidado \u2014 %Scorpius% murmurou com um tom de voz mais pesado, pensativo, como se estivesse analisando muito de perto fragmentos de um quebra-cabe\u00e7a que %Luana% sequer havia come\u00e7ado a entender ainda. \u2014 N\u00e3o confie em Black. Ou no que quer que ele diga a voc\u00ea, tenho a sensa\u00e7\u00e3o que h\u00e1 algum dedo de meu pai nisso tudo. Vou esperar voc\u00ea do lado de fora, certo?<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O cheiro de ab\u00f3bora acompanhou-a como um fantasma brincalh\u00e3o pelos corredores de Hogwarts. As lanternas enfeitando as paredes e o ch\u00e3o criavam uma ambienta\u00e7\u00e3o quase festiva, algumas pairavam pelos ares, j\u00e1 acesas com seus sorrisos largos e olhos vazados, espiralando pelos ares, um pouco mais acima das velas dispostas em casti\u00e7ais espalhados por entre as armaduras enfeiti\u00e7adas. %Luana% podia ver alguns alunos da <em>Grifin\u00f3ria<\/em> escondendo alguns doces em seus bolsos e entregando discretamente para alunos mais novos; para um feriado considerado trouxa, havia consider\u00e1vel como\u00e7\u00e3o em comemor\u00e1-lo por ali. A verdade era que o feriado, visto apenas como uma data comemorativa para alguns trouxas, realmente possu\u00eda cunho m\u00e1gico, e realmente oferecia energia o suficiente para que fantasmas andassem por entre os corredores de Hogwarts. Ela sabia que, em algum lugar abaixo das masmorras um pouco al\u00e9m da cozinha e de onde a Lufa-Lufa dormia, havia um sal\u00e3o onde os fantasmas se encontravam para seu <em>\u201cbaile anual\u201d<\/em>. Se Diretor Black sabia ou n\u00e3o, %Luana% n\u00e3o poderia dizer, mas podia ouvir os espectros murmurando entre si sobre as prepara\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003Quando era mais nova, considerou convencer <em>Nick-Quase-Sem-Cabe\u00e7a<\/em> a contar-lhe para onde diabos estava indo, se o fizesse ela trocaria por um dos muitos segredos que sabia, mas, na \u00e9poca, como uma novata e sem ter ideia de como sobreviver sem a presen\u00e7a do pai, <em>Nick-Quase-Sem-Cabe\u00e7a<\/em> havia gentilmente dito-lhe que n\u00e3o contaria at\u00e9 o dia que ela estivesse preparada para saber. Seja l\u00e1 o que diabos fosse, ela provavelmente nunca conseguiu estar preparada o suficiente para descobrir o que acontecia no baile dos fantasmas, porque ele nunca mais lhe contou nada sobre. Tentou n\u00e3o revirar os olhos com as vozes animadas e os planejamentos para a noite. N\u00e3o era comum que comemorassem tradi\u00e7\u00f5es trouxas, mas era <em>comum<\/em> que os alunos dessem suas pr\u00f3prias formas para conseguir fazer o que queriam. E onde havia Lufanos, havia caos o suficiente para demolir parte de Hogwarts inteira, onde havia Grifin\u00f3rios ent\u00e3o, haveria a certeza de que destruiriam o restante.<br>\u2003\u2003For\u00e7ando um sorriso para Weasley quando este lhe estendeu uma barrinha de chocolate, %Luana% tentou lembrar qualquer desculpa poss\u00edvel para recusar o doce, mas no p\u00e2nico, acabou aceitando-o com um sorriso desconfort\u00e1vel. Levou o objeto em dire\u00e7\u00e3o ao nariz, inspirando seu cheiro, tentando se certificar de que n\u00e3o haveria nada ali, mais pela preocupa\u00e7\u00e3o e paranoia que havia nascido com a presen\u00e7a de %Atlas% %Gaunt% do que qualquer outra coisa, antes de puxar as saias de seu vestido para cima, junto com as an\u00e1guas, e subir as escadas o mais r\u00e1pido que conseguia. N\u00e3o era que o salto fosse desconfort\u00e1vel: seus sapatos estavam velhos demais, e ela n\u00e3o tinha previs\u00e3o alguma de comprar novos assim t\u00e3o cedo. Virou \u00e0 esquerda, e ent\u00e3o \u00e0 direita, subindo mais um lance de escadas em caracol, alcan\u00e7ando uma das torres de Hogwarts, onde a sala do Diretor encontrava-se. Os olhos de %Luana% percorreram por instinto os rostos que estavam ali.<br>\u2003\u2003Alguns professores, \u00e9 claro, incluindo Professor Fig com suas costeletas desalinhadas e levemente eri\u00e7adas, cabelos brancos como fios de prata, olhos profundos e sorriso amig\u00e1vel, por\u00e9m sempre pensativo. Era um bom homem, gentil at\u00e9 que havia lhe estendido uma compreens\u00e3o que %Luana% n\u00e3o havia encontrado em muitas outras pessoas. Talvez, <em>ainda<\/em> reservado e perdido em seus pr\u00f3prios pensamentos para que %Luana% se sentisse confort\u00e1vel em questionar-lhe algo que poderia atrapalh\u00e1-lo, mas cuja presen\u00e7a conseguia ser surpreendentemente <em>apaziguadora<\/em>. %Luana% tensionou a mand\u00edbula, parando \u00e0 frente da porta dupla de carvalho antigo, a tranca grossa formava um c\u00edrculo de vinhas e espinhos se conectando entre si, com o desenho entranhado cuidadoso de uma trifecta. %Luana% havia ouvido falar do s\u00edmbolo em um outro momento, algo distante que n\u00e3o lhe cobraria na mem\u00f3ria agora, mas sabia que deveria significar algo entre equil\u00edbrio e a conex\u00e3o de um deus com um humano. Achou curioso que logo o Diretor<em> Black<\/em> poderia apegar-se a este tipo de simbologia.<br>\u2003\u2003Se havia algo que seu pai havia lhe ensinado era que quando desprovido de algo que n\u00e3o poderia ser ter, dois resultados surgiam, ou a obsess\u00e3o inerente de conquistar o que lhe foi negado, ou o completo desprezo e rep\u00fadio pelo que n\u00e3o possu\u00eda. %Luana% costumava pensar que pessoas n\u00e3o-m\u00e1gicas possu\u00edam este certo rep\u00fadio para tudo o que lhe era diferente puramente porque <em>n\u00e3o poderiam<\/em> ser como; e aqueles que eram obcecados com esoterismo, bem, era percept\u00edvel o desejo de conectar-se com a magia como os bruxos o faziam.<br>\u2003\u2003Tantas regras incorporando aquele mundo, tantas linhas a serem seguidas sem hesita\u00e7\u00e3o para que a gan\u00e2ncia e o desejo de superioridade de homens como <em>Black<\/em> fossem os respons\u00e1veis por ditar quem permanecia vivo e quem era executado ap\u00f3s anos de um julgamento injusto. %Luana% engoliu em seco, balan\u00e7ando sua cabe\u00e7a, tentando afastar de sua mente o sentimento de revolta que come\u00e7ava a aflorar-se em seu peito. N\u00e3o poderia deixar-se influenciar por suas emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o quando estava prestes a enfrentar o Diretor Black, e o que quer que o homem desejava tratar com ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Diretor Black, fui informada que o senhor queria falar comigo\u2026 \u2014 %Luana% come\u00e7ou a dizer ap\u00f3s adentrar ao escrit\u00f3rio do direito, hesitante. Os olhos desviaram-se da porta, e sua tranca viva, observando-a deslizar pela estrutura de carvalho maci\u00e7a, de volta a sua posi\u00e7\u00e3o inicial com cliques mec\u00e2nicos, antes de voltar sua aten\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o onde a mesa de mogno do diretor encontrava-se.<br>\u2003\u2003Das quinquilharias que exibia, poucas poderiam ser dignas de nota: livros antigos, jaulas esvaziadas, alguns materiais de Professor Fig para as pr\u00f3ximas aulas dos alunos menores, e at\u00e9 mesmo uma lista de afazeres riscados por uma caneta enfeiti\u00e7ada. Um tabuleiro de xadrez bruxo encontrava-se apoiado em uma pequena mesa de centro pr\u00f3ximo da lareira larga e uma janela adornada vitoriana, dava uma vis\u00e3o ampla para os campos de <em>Quadribol<\/em> onde ao longe %Luana% <em>quase<\/em> podia ver sem muita dificuldade alguns alunos preparando-se para jogar; Moriarty e Dorian estavam l\u00e1. Eram batedores, o que fazia com que o <em>clich\u00ea<\/em> de suas hist\u00f3rias se tornassem mais entediantes. Ela se questionou <em>como<\/em> eles deveriam se sentir <em>agora<\/em>, ap\u00f3s um ano, sem a companhia do l\u00edder para proteg\u00ea-los. Sabia com perfeita consci\u00eancia que <em>ainda<\/em> se escondiam na sombra de %Atlas%, mas certamente j\u00e1 n\u00e3o deveria ser mais assim t\u00e3o relevante para\u2026<br>\u2003\u2003Um cheiro familiar atingiu seu nariz, congelando-a no lugar. O aroma era permeado por s\u00e2ndalo, terra molhada e algo pungente como ferro, levou um momento para que ela percebesse <em>o que<\/em> era: <em>sangue<\/em>. Seus olhos desviaram-se das parafernalhas de Diretor Black para repousar na figura inclinada \u00e0 esquerda, sentada na cadeira \u00e0 frente da mesa do Diretor, encarando-a em um sil\u00eancio gritante. Gelo percorreu como lascas grossas e afiadas pela corrente sangu\u00ednea dela, o tremor cresceu por seus bra\u00e7os, percorrendo como descargas el\u00e9tricas sua corrente sangu\u00ednea enquanto os dedos apertavam com mais for\u00e7a as saias de seu vestido. O espartilho que adornava seu tronco, pareceu apertar <em>ainda mais<\/em> seu tronco, os arames fincando-se contra a pele, mesmo que fossem confort\u00e1veis.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi voc\u00ea\u2026? \u2014 ela come\u00e7ou a dizer em uma acusa\u00e7\u00e3o silenciosa, tentando compreender <em>como<\/em> ela poderia ter ca\u00eddo em mais uma das armadilhas dele. O \u00fanico olho bom do rapaz cintilou com algo quente, terrivelmente familiar, raiva <em>pura<\/em>, mas algo mais pareceu encobrir sua express\u00e3o, algo perigoso, mais latente.<br>\u2003\u2003\u2014 A chamei aqui? \u2014 %Atlas% %Gaunt% retorquiu com um tom de voz trai\u00e7oeiro, venenoso.<br>\u2003\u2003%Luana% trincou os dentes com for\u00e7a, erguendo o queixo de forma desafiadora embora houvesse uma nota de incerteza pairando por seus olhos. Ela prendeu a respira\u00e7\u00e3o, engolindo em seco, dando um passo instintivo para tr\u00e1s quando o rapaz colocou-se de p\u00e9.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque diabos a <em>primeira<\/em> pessoa que desejaria ver seria <em>justamente<\/em> uma traidora t\u00e3o baixa quanto voc\u00ea, <em>%Monteiro%?<\/em> \u2014 Na boca dele, seu nome havia tomado uma conota\u00e7\u00e3o quase ofensiva. %Luana% teve vontade de rir. \u2014 Voc\u00ea superestima seu valor, sabe? Seria <em>quase<\/em> engra\u00e7ado, se n\u00e3o fosse pat\u00e9tico.<br>\u2003\u2003%Luana% soltou um chiado entre dentes, obrigando-se a ficar parada quando viu %Atlas% dar um passo em sua dire\u00e7\u00e3o. O garoto havia mudado consideravelmente da imagem que ela tinha dele de um ano atr\u00e1s na mente; ou talvez ela tivesse apenas convenientemente se obrigado a esquecer-se. Estava bem mais alto, talvez maior do que %Scorpius%, os cabelos bem aparados, penteados para tr\u00e1s embora as mechas na altura de sua ma\u00e7\u00e3 do rosto ainda pendesse por seu rosto dolorosamente cruel e bonito. As cicatrizes que envolviam a pele p\u00e1lida haviam se curado para linhas discretas prateadas profundas, o olho leitoso movia-se estranhamente acompanhando o outro olho bom, mas ela duvidava que ele pudesse enxergar corretamente. A mand\u00edbula bem pronunciada parecia estar mais afiada. Estava mais magro, esguio, mas n\u00e3o era menos forte. O colete escuro como a \u00edris de piche dele estava impec\u00e1vel, um rel\u00f3gio de bolso cuidadosamente repousado dentro do bolso interno, e as mangas de sua camisa branca de linho arrega\u00e7adas at\u00e9 os cotovelos, revelando antebra\u00e7os fortes e firmes, mais cicatrizes condecoravam a pele delicada. %Luana% engoliu em seco, seu olhar repousando na varinha presa na lateral do quadril dele. Sob alcance da m\u00e3o.<br>\u2003\u2003Uniu as sobrancelhas, tardiamente reconhecendo a postura, <em>o gesto<\/em>. %Atlas% %Gaunt% havia se tornado um<em> duelista<\/em>. Medo pareceu corroer suas entranhas quando ela deu mais um passo para tr\u00e1s, os olhos arregalaram-se ao encarar o sorriso torto, <em>quase<\/em> satisfeito que pairou pelo semblante do rapaz.<br>\u2003\u2003\u2014 Posso ver que est\u00e1 tensa, <em>%Lua%<\/em>. \u2014 %Luana% trincou os dentes com for\u00e7a para n\u00e3o retorquir a ele que n\u00e3o <em>ousasse<\/em> cham\u00e1-la, mas suas palavras fugiram de sua garganta quando ele deu mais um passo em sua dire\u00e7\u00e3o. Sentiu o impulso de virar-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e correr, mas ele a alcan\u00e7aria antes que ela conseguisse alcan\u00e7ar a tranca. Levou sua m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao cabelo, onde sua varinha permanecia como um adere\u00e7o improvisado de cabelo, prendendo a respira\u00e7\u00e3o. \u2014 O qu\u00ea? Estou assustando voc\u00ea? \u2014 %Atlas% murmurou, a voz arrastada n\u00e3o ocultava a satisfa\u00e7\u00e3o que pairou em sua express\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea? \u2014 %Luana% desdenhou, tentando conter o tremor que percorreu seu corpo. Para lan\u00e7ar-se da janela era ter a certeza de que acabaria alcan\u00e7ando o ch\u00e3o antes que pudesse dizer <em>accio<\/em> para qualquer porcaria de muro. Engoliu em seco, praguejando mentalmente Celine por t\u00ea-la atra\u00eddo \u00e0quela merda de armadilha. Quando %Luana% sa\u00edsse daquela porcaria de sala, <em>se<\/em> sa\u00edsse, Celine seria a <em>primeira<\/em> a quem responderia a ela. \u2014 O que h\u00e1 para temer em voc\u00ea, %Gaunt%? Se n\u00e3o sua pr\u00f3pria mediocridade? \u2014 For\u00e7ou um sorriso, vendo que ao menos havia acertado onde lhe do\u00eda mais, seu <em>ego<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou matar voc\u00ea \u2014 %Atlas% pronunciou calmamente, frio como o metal de uma adaga. %Luana% engoliu em seco, arregalando os olhos. N\u00e3o era uma amea\u00e7a, %Atlas% %Gaunt% <em>nunca<\/em> fazia amea\u00e7as; era uma <em>promessa<\/em>. Fria e calculada, um <em>aviso<\/em> do que ele <em>iria<\/em> fazer eventualmente, n\u00e3o do que ele <em>queria<\/em> fazer. Ela tremeu sem conseguir conter-se, e o sorriso de %Atlas% tornou-se mais afiado. \u2014 Vou aproveitar <em>cada<\/em> segundo.<br>\u2003\u2003%Luana% estava prestes a desafi\u00e1-lo, prestes a retorquir suas palavras quando um pigarro ecoou atr\u00e1s de si, e ela saltou para o lado, sobressaltada. Levou a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria garganta, como se buscasse por prote\u00e7\u00e3o, apenas para deparar-se com os olhos estreitos do Diretor Phineas Black. Tratou-se de endireitar-se imediatamente, tentando manter o m\u00e1ximo de dignidade poss\u00edvel, tentando compreender o que <em>diabos<\/em> estava acontecendo ali. Por que ela havia sido convocada pelo Diretor de Hogwarts e por que diabos <em>%Atlas% %Gaunt%<\/em> estava ali.<br>\u2003\u2003\u2014 Muito bem, se j\u00e1 terminaram com os disparates infantis, sugiro que tomem seus lugares de uma vez, pois n\u00e3o tenho muito tempo, e h\u00e1 <em>outros<\/em> assuntos urgentes que demandam minha aten\u00e7\u00e3o. Senhorita %Monteiro%, por favor \u2014 Diretor Black disse com um tom de voz firme e impaciente, antes de estender o bra\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o da cadeira ao lado de %Atlas%, silenciosamente obrigando-a a mover-se logo. Sendo a criatura teimosa que era, %Luana% n\u00e3o moveu um m\u00fasculo. Estreitou os olhos, encarando por um longo momento em sil\u00eancio o semblante do diretor antes de tencionar sua mand\u00edbula, tentando manter sua voz o mais firme que conseguia.<br>\u2003\u2003\u2014 Primeiro diga por que nos convocou aqui!<br>\u2003\u2003Diretor Phineas Black pausou por um breve momento, avaliando-a com uma mistura de intensidade e desd\u00e9m; %Luana% sentiu o desconforto rastejar por sua pele como vermes. O suficiente para que ela tivesse que conter a urg\u00eancia de sacudir-se.<br>\u2003\u2003\u2014 Receio que de todos aqui, <em>voc\u00ea<\/em>, Senhorita %Monteiro%, seja a \u00faltima que tenha direito a fazer <em>demandas<\/em> \u2014 Diretor Black retorquiu mais severo do que <em>nunca<\/em> havia se referido a %Luana%.<br>\u2003\u2003A jovem estreitou os olhos, n\u00e3o era facilmente intimidada por palavras grosseiras, e hierarquias de poder soavam-lhe mais pat\u00e9ticas e in\u00fateis do que qualquer outra coisa, mas ela era, igualmente, inteligente o suficiente para <em>escolher<\/em> seus oponentes. Ficar do lado ruim de Diretor Black, era dar a <em>%Atlas%<\/em> quaisquer vantagens poss\u00edveis. E se ela <em>desejava<\/em> continuar viva, ent\u00e3o era melhor que ela n\u00e3o oferecesse nenhuma <em>brecha<\/em> para o maldito %Gaunt%. Mantendo o queixo erguido, quase desafiador, %Luana% puxou suas saias um pouco mais para cima, marchando em dire\u00e7\u00e3o a cadeira ao lado de %Atlas%, ignorando-o estrategicamente, ao sentar-se \u00e0 frente da mesa de Diretor Black.<br>\u2003\u2003\u2014 Como j\u00e1 deve ter visto, o julgamento do <em>seu<\/em> pai foi encerrado esta manh\u00e3. Sinto muito por isso, senhorita %Monteiro%, sei que esta situa\u00e7\u00e3o\u2026 \u2014 Diretor Black pausou por um momento, parecendo tentar buscar as palavras corretas e %Luana% obrigou-se a manter neutra, os olhos fixos no mais velho, observando passar ao lado da mesa at\u00e9 que estivesse sentado na cadeira estofada de couro curtido e confort\u00e1vel \u00e0 frente dos dois alunos. Black inclinou-se para frente, repousando os cotovelos sobre as mesas e livros de contas, unindo as duas m\u00e3os a frente de seu rosto enquanto sustentava o olhar de %Luana% com <em>falsa<\/em> simpatia. \u2014 Pode ser um tanto quanto <em>delicada<\/em> a se navegar, mas a justi\u00e7a, como um todo, deve <em>sempre<\/em> prevalecer.<br>\u2003\u2003%Atlas% bufou baixo ao lado de %Luana%, mas a jovem ignorou completamente a provoca\u00e7\u00e3o velada. Manteve o olhar firme em Diretor Black, unindo as sobrancelhas. Se ele esperava uma resposta da brasileira, n\u00e3o a recebeu.<br>\u2003\u2003\u2014 Muito bem, que sejamos diretos ent\u00e3o. Sua situa\u00e7\u00e3o, embora complexa, \u00e9 atestada em seu favor pelo Professor Sharp, e a palavra dele vale mais do que qualquer investiga\u00e7\u00e3o feita pelo Minist\u00e9rio \u2014 Diretor Black disse parecendo desistir de sua falsa simpatia e simplesmente indo direto ao ponto. %Luana% quase suspirou em al\u00edvio, <em>odiava<\/em> meias palavras, odiava essa <em>maldita<\/em> necessidade de tratar a tudo e a todos como se fossem de vidro; se havia algo a ser dito, que o fosse, consequ\u00eancias para o inferno. Ela poderia ser muita coisa, mas fraca para dor, n\u00e3o era, devido a isso, n\u00e3o precisava que parassem sua queda. \u2014 No entanto, com o julgamento de seu pai encerrado, o Minist\u00e9rio precisa seguir o <em>protocolo<\/em> de a\u00e7\u00e3o, e isso <em>inclui<\/em> colocar voc\u00ea sob inquisi\u00e7\u00e3o oficial ao menos pelo m\u00eas que se seguir\u00e1.<br>\u2003\u2003%Luana% piscou, sentindo o inc\u00f4modo misturado com frustra\u00e7\u00e3o corromper sua express\u00e3o neutra. Abriu os l\u00e1bios para protestar, mas percebeu o erro que cometeria ao dizer alguma coisa, ao deixar-se levar por suas emo\u00e7\u00f5es <em>ao lado<\/em> de %Atlas%. N\u00e3o, ela n\u00e3o poderia!&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Isso significa?<br>\u2003\u2003\u2014 Significa que ser\u00e1\u2026 <em>investigada<\/em> pelo pr\u00f3ximo m\u00eas, at\u00e9 que tudo tenha sido devidamente <em>finalizado<\/em>. \u2014 Diretor Black pareceu escolher suas palavras com cuidado antes de deixar-se recostar contra a cadeira estofada, apoiando o queixo sobre a palma da m\u00e3o, e o cotovelo dobrado da mesma m\u00e3o sobre o encosto de bra\u00e7o do objeto. %Luana% tensionou a mand\u00edbula, sentindo a presen\u00e7a de %Atlas% %Gaunt% como uma sombra projetada sobre si.<br>\u2003\u2003\u2014 Assumo que ser\u00e1 um dos alunos do \u00faltimo ano que far\u00e1 essa supervis\u00e3o, n\u00e3o? \u2014 Embora fosse uma pergunta, seu tom amargo e irritadi\u00e7o tornou sua frase em uma afirma\u00e7\u00e3o. De repente, as pe\u00e7as come\u00e7aram a fazer mais sentido no tabuleiro que se estendia \u00e0 sua frente. Na presen\u00e7a de <em>%Atlas%<\/em> ali. Diretor Black pareceu considerar por um longo momento as palavras de %Luana% antes de assentir lentamente.<br>\u2003\u2003\u2014 O Senhor %Gaunt% realmente fez um trabalho excelente em Durmstrang sob a supervis\u00e3o de Dragomir Lazar. \u00c9 gra\u00e7as a indica\u00e7\u00e3o de Lazar que o Minist\u00e9rio lhe entregou a tarefa. \u2014 Diretor Black fez uma pausa, longa demais para que fosse confort\u00e1vel entre os dois estudantes da Sonserina. O ar pareceu pesar ao seu redor, como se tomado pela umidade de uma tempestade se aproximando. Quando voltou a falar, sua voz era mais baixa, cautelosa, estranhamente deferente a <em>%Atlas%:<\/em> \u2014 Como voc\u00eas dois possuem um hist\u00f3rico, gostaria de lembr\u00e1-los que quaisquer atos que violem a conduta de Hogwarts ser\u00e3o tratados com a severidade de suas puni\u00e7\u00f5es. Mas tomem isso como uma nova oportunidade para deixar o passado para tr\u00e1s, e ficarem em seus futuros. Seria demasiado desnecess\u00e1rio expulsar um dos dois meramente por intrigas infantis. Estamos conversados, ent\u00e3o?<br>\u2003\u2003%Atlas% abriu um sorriso discreto, elegante, <em>destoante<\/em> de toda sua postura, assentindo satisfeito com o Diretor antes de voltar-se na dire\u00e7\u00e3o de %Luana%, estendendo-lhe a m\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Espero que n\u00e3o leve para o lado pessoal, senhorita %Monteiro%. \u2014 Trai\u00e7oeiro como uma maldita cobra, o \u00fanico olho bom dele pareceu cintilar com veneno puro. %Luana% encarou a m\u00e3o estendida dele sentindo seu est\u00f4mago contorcer-se e a bile alcan\u00e7ar a ponta de sua l\u00edngua. Os m\u00fasculos de seu corpo se tensionaram, como se feitos de ferro, e ela s\u00f3 conseguiu encarar os dedos estendidos. Algo talhado na pele de %Gaunt% pareceu reluzir no interior de seu pulso, algo que lembrava as palavras, mas que ela n\u00e3o conseguiu entender de imediato. %Luana% n\u00e3o moveu um m\u00fasculo, e isso apenas fez o sorriso perigoso de %Gaunt% aumentar. \u2014 N\u00e3o precisa temer, senhorita %Monteiro%, afinal, voc\u00ea n\u00e3o tem <em>nada<\/em> a esconder, certo?<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>NOTA DA AUTORA:<\/strong> os enemies aqui s\u00e3o bem enemies t\u00e1? Ent\u00e3o prepara que vai ser t\u00f3xico (a diferen\u00e7a aqui \u00e9 que a PP n\u00e3o \u00e9 songamonga e responde o Bully como uma boa brasileira que \u00e9 fazendo MAIS Bully de volta ent\u00e3o tecnicamente \u00e9 um pior que o outro) vale salientar que SIM, os dois PPs t\u00eam medo um do outro, por isso a agressividade. Leia essa fic como uma original ok? Embora precise associar essa fic no universo \u201cinspirado\u201d (eu s\u00f3 queria escrever uma Dark Academia, mas n\u00e3o quero nunca mais escrever fics originais), porque acabaria sendo pl\u00e1gio se n\u00e3o fizesse, pe\u00e7o que desassocie essa obra dos livros e especialmente da desgra\u00e7a de ser humano que \u201cescreveu\u201d os livros (que ela receba exatamente o que ela deseja as mulheres que ajudou financiar a destrui\u00e7\u00e3o). N\u00e3o pretendo seguir canons, n\u00e3o pretendo respeitar a obra original.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perdoe-me, meu amor, pelas falhas que nunca pude consertar. Por ter sido teu pai.Com amor, Leon. \u2022\u2022\u2022 \u2003\u2003NOTA DA AUTORA: os enemies aqui s\u00e3o bem enemies t\u00e1? 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