{"id":9287,"date":"2025-12-23T20:38:39","date_gmt":"2025-12-23T23:38:39","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-23T20:55:00","modified_gmt":"2025-12-23T23:55:00","slug":"capitulo-04","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/na-hora-certa\/capitulo-04\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 04"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<em>Pov Charles Leclerc<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Comecei o dia suando<\/span>, n\u00e3o porque quis, mas porque precisava. A academia do hotel ainda estava vazia quando cheguei. Os primeiros raios de sol entravam pelas janelas altas, tingindo tudo de um dourado calmo, o tipo de calma que eu n\u00e3o sentia h\u00e1 dias.<br>\u2003\u2003Coloquei os fones, escolhi uma playlist aleat\u00f3ria e aumentei o volume no m\u00e1ximo. Subi na esteira e corri. Quil\u00f4metro ap\u00f3s quil\u00f4metro. Como se cada passo fosse capaz de esmagar a irrita\u00e7\u00e3o que crescia no peito.<br>\u2003\u2003Mas n\u00e3o funcionava.<br>\u2003\u2003Porque toda vez que meu corpo queria entrar em autom\u00e1tico, minha cabe\u00e7a fazia quest\u00e3o de lembrar. O jeito que ela olhou pra mim. Firme, sem recuar, como se eu n\u00e3o fosse ningu\u00e9m especial.<br>\u2003\u2003Como se eu fosse s\u00f3 mais um problema na prancheta dela. Eu passei a vida sendo observado. Mas ela? Ela olhava como quem dizia \u201ceu n\u00e3o t\u00f4 aqui pra te agradar\u201d. E isso\u2026 isso me desconcertava mais do que eu gostaria de admitir.<br>\u2003\u2003Aumentei a velocidade da esteira.<br>\u2003\u2003O suor escorria pelo rosto, grudando na camiseta da equipe. Minhas pernas come\u00e7avam a pesar. Mas a cabe\u00e7a? Ainda no box. Na frase dela.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;Voc\u00ea est\u00e1 nas minhas m\u00e3os. Quer goste disso ou n\u00e3o.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Sa\u00ed da esteira, respirei fundo e fui direto pras barras.<br>\u2003\u2003Treino de for\u00e7a.<br>\u2003\u2003Carga alta.<br>\u2003\u2003Movimentos precisos.<br>\u2003\u2003Se eu focasse s\u00f3 nos m\u00fasculos, talvez parasse de pensar nela, mas era imposs\u00edvel. Porque ela n\u00e3o se impunha com gritos. Nem com carisma, ela se impunha com sil\u00eancio. Com olhar. Com resultados.<br>\u2003\u2003E isso me irritava. Porque n\u00e3o era s\u00f3 respeito que ela estava arrancando \u2014 era territ\u00f3rio. Eu puxava o ferro com mais for\u00e7a do que devia, at\u00e9 os bra\u00e7os tremerem.<br>\u2003\u2003Tentei me convencer de que era s\u00f3 orgulho ferido, mas era mais do que isso. Era uma curiosidade desconfort\u00e1vel. Ela n\u00e3o se encaixava nas categorias que eu costumava usar, e talvez por isso\u2026 eu n\u00e3o soubesse onde coloc\u00e1-la. Ainda.<br>\u2003\u2003Tomei um banho r\u00e1pido, deixando a \u00e1gua quente cair direto na nuca. Como se pudesse derreter a raiva ali, mas ela n\u00e3o derreteu. Ao sair, ouvi um barulho vindo do quarto. N\u00e3o esperava ningu\u00e9m. E, certamente, n\u00e3o esperava ela.<br>\u2003\u2003Alix estava encostada na bancada, o celular nas m\u00e3os, como se n\u00e3o tivesse acabado de entrar sem pedir.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o parece feliz em me ver \u2014 disse, baixo, quase um suspiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque eu n\u00e3o esperava voc\u00ea aqui.<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que a gente podia conversar.<br>\u2003\u2003\u2014 Conversar? Depois de dias sem se falar, voc\u00ea aparece no meu quarto sem avisar? \u2014 Ela deu um meio sorriso cansado.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai dizer que n\u00e3o pensou em mim nenhuma vez?<br>\u2003\u2003\u2014 A gente terminou, Alix.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei. \u2014 Ela deu de ombros, mas a voz embargou. \u2014 Eu s\u00f3 n\u00e3o aprendi a lidar com isso ainda.<br>\u2003\u2003Suspirei, esfregando a nuca.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o veio aqui pra qu\u00ea? Pra gente se machucar mais?<br>\u2003\u2003\u2014 Pra te ver. Pra lembrar que ainda sei quando voc\u00ea t\u00e1 prestes a desabar. \u2014 O olhar dela se estreitou. \u2014 E\u2026 pra perguntar se essa engenheira nova tem alguma coisa a ver com o jeito que voc\u00ea anda.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o faz ideia do que t\u00e1 falando.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez n\u00e3o, mas eu sei de uma coisa que voc\u00ea vai gostar\u2026<br>\u2003\u2003Quando as m\u00e3os dela tocaram meus ombros, eu n\u00e3o recuei. Pelo contr\u00e1rio. O corpo respondeu antes da cabe\u00e7a, como sempre. O beijo foi r\u00e1pido, urgente, e dessa vez eu correspondi sem pensar muito. Talvez porque fosse mais f\u00e1cil sentir do que pensar.<br>\u2003\u2003A gente caiu na cama com pressa, sem medir, sem freio. E no meio do calor, eu deixei acontecer. Cada toque, cada gemido, cada segundo me distra\u00eda da bagun\u00e7a na minha cabe\u00e7a. Por alguns minutos, parecia bom. Parecia simples. Parecia suficiente.<br>\u2003\u2003Mas quando tudo terminou, o sil\u00eancio voltou mais pesado do que antes. Ela virou pro lado, como se ainda tivesse espa\u00e7o ali. Eu fiquei olhando pro teto, com o peito subindo e descendo devagar, e a sensa\u00e7\u00e3o me atingiu como um acidente em curva seca: n\u00e3o era saudade, n\u00e3o era amor. Era s\u00f3 instinto.<br>\u2003\u2003E junto dele, o arrependimento. As rachaduras que acabaram com a gente nunca deixaram de existir \u2014 e agora estavam mais vis\u00edveis do que nunca. Eu podia at\u00e9 ter cedido no corpo, mas a cabe\u00e7a sabia a verdade: o que sobrou entre n\u00f3s era vazio.<br>\u2003\u2003Fechei os olhos, mas o sono n\u00e3o veio. S\u00f3 uma pergunta insistente: por que eu ainda deixava essa porta entreaberta?<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\ud83c\udfc1\ud83d\udee0<\/strong>\ufe0f<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O box j\u00e1 estava pulsando. Engenheiros andando r\u00e1pido, Matteo dando instru\u00e7\u00f5es, o barulho de parafusadeiras se misturando ao chiado dos pneus frios sendo montados.<br>\u2003\u2003Era um s\u00e1bado comum, ou deveria ser, mas meu olhar foi puxado por uma cena que n\u00e3o combinava com a rotina cronometrada da equipe: uma crian\u00e7a.<br>\u2003\u2003Pequeno, devia ter uns quatro anos. Tinha o moletom vermelho da Ferrari amassado nos cotovelos e uma mini prancheta de brinquedo nas m\u00e3os. O cabelo castanho cacheado ca\u00eda desordenado sobre a testa, e os olhos? Os olhos brilhavam.<br>\u2003\u2003Ele estava de p\u00e9 ao lado da %Isla%, falando baixo, encantado com o carro. Sorri de canto. Pensei que fosse filho de algu\u00e9m da equipe, mas ent\u00e3o ele falou, com toda naturalidade do mundo:<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Mam\u00e3e, posso tocar no volante?<\/em><br>\u2003\u2003Parei.<br>\u2003\u2003O sorriso sumiu.<br>\u2003\u2003Mam\u00e3e.<br>\u2003\u2003Ele chamou <em>ela <\/em>de mam\u00e3e.<br>\u2003\u2003Demorei um segundo para associar. N\u00e3o fazia sentido na minha cabe\u00e7a. A %Isla% que eu conhecia \u2014 ou achava que conhecia \u2014 era obstinada, fria, completamente entregue ao trabalho.<br>\u2003\u2003E agora\u2026 aquilo?<br>\u2003\u2003Olhei de novo para o menino. A curvatura do sorriso, o formato dos olhos, at\u00e9 o jeito atento de observar\u2026 havia algo ali que lembrava muito a %Isla%. Era sutil, mas imposs\u00edvel de ignorar. Ela abaixou um pouco pra falar com o menino, apontando alguma coisa no carro. Estava sorrindo. Um sorriso t\u00e3o leve que parecia quase\u2026 improv\u00e1vel vindo dela.<br>\u2003\u2003O menino assentiu, animado, e logo depois foi conduzido por uma mulher com uniforme de staff, uma assistente da equipe de apoio que provavelmente tinha recebido instru\u00e7\u00f5es claras da pr\u00f3pria %Isla%.<br>\u2003\u2003Era \u00f3bvio que ela tinha se virado sozinha. Tinha providenciado tudo. Organizado cada detalhe para que o filho ficasse em seguran\u00e7a, mesmo enquanto o mundo ao redor exigia que ela estivesse cem por cento concentrada em sensores, dados e desempenho.<br>\u2003\u2003E eu continuei olhando.<br>\u2003\u2003Atordoado.<br>\u2003\u2003Como se tivesse descoberto uma vari\u00e1vel nova que mudava toda a equa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Esperei alguns minutos, depois me aproximei. Ela estava de p\u00e9 em frente \u00e0 bancada, digitando no monitor de an\u00e1lise com a precis\u00e3o de sempre. Mas as m\u00e3os dela\u2026 pareciam mais firmes do que nunca.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o&#8230; \u2014 comecei, tentando parecer casual \u2014 voc\u00ea tem um filho. \u2014 Ela n\u00e3o se virou, nem hesitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho. \u2014 Fiquei em sil\u00eancio por dois segundos. Depois soltei, sem pensar:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o parece.<br>\u2003\u2003Dessa vez, ela parou de digitar.<br>\u2003\u2003Devagar.<br>\u2003\u2003Virou o rosto na minha dire\u00e7\u00e3o. O olhar era diferente, mais fundo. Mais duro.<br>\u2003\u2003\u2014 O que exatamente n\u00e3o parece, Leclerc? \u2014 a voz dela veio baixa, mas firme. \u2014 Que algu\u00e9m como eu pode ser m\u00e3e? Ou que uma m\u00e3e pode estar aqui?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o foi isso que eu quis dizer \u2014 recuei, tentando desfazer o tom.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o reformula, porque do jeito que voc\u00ea falou, pareceu exatamente isso.<br>\u2003\u2003Engoli seco.<br>\u2003\u2003Ela cruzou os bra\u00e7os, como se j\u00e1 tivesse vivido essa conversa mil vezes antes, e soubesse exatamente onde ela ia terminar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 surpreso, n\u00e9? Achou que sabia quem eu era. A engenheira que trabalha em sil\u00eancio, que n\u00e3o sorri, ou n\u00e3o erra. Mas eu tenho um filho, Leclerc. Um filho que dorme com um carrinho vermelho na m\u00e3o e pergunta todo dia quando vai me ver de novo.<br>\u2003\u2003\u2014 %Isla%, eu s\u00f3\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea s\u00f3 pensou o que todo mundo pensa. Que eu devo ter largado alguma coisa pra estar aqui, que eu n\u00e3o dou conta, ou que tem algo errado comigo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o disse isso.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas pensou, t\u00e1 no seu olhar.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio entre a gente ficou espesso. Ela soltou um suspiro pesado, e o tom mudou. Menos raiva. Mais verdade.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sou uma vari\u00e1vel, Leclerc. E o %Liam% n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo, ele \u00e9 o motivo de tudo.<br>\u2003\u2003Fiquei ali. Sem saber o que responder. Porque naquele momento\u2026 ela n\u00e3o era s\u00f3 uma engenheira. Ela era m\u00e3e e era tamb\u00e9m profissional. E era as duas coisas com a mesma for\u00e7a.<br>\u2003\u2003E isso\u2026 isso me desmontou.<br>\u2003\u2003Entrei no carro com a cabe\u00e7a longe do tra\u00e7ado. Ainda conseguia ver os olhos do menino brilhando diante do volante. Ainda ouvia a forma natural como ele a chamou de \u201cmam\u00e3e\u201d. Ainda sentia o impacto da resposta dela: <em>&#8220;ele \u00e9 o motivo de tudo.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Tentei sacudir aquilo como se fosse s\u00f3 poeira emocional, mas n\u00e3o era. A %Isla% tinha me desmontado sem levantar a voz. Sem fazer cena. Apenas sendo tudo o que disseram que ela n\u00e3o podia ser, ali, naquele lugar.<br>\u2003\u2003Agora eu precisava focar e entregar, porque no fim das contas, era isso que me restava: ser impec\u00e1vel na pista.<br>\u2003\u2003Pisei fundo.<br>\u2003\u2003O treino classificat\u00f3rio come\u00e7ou e o carro\u2026 respondeu.<br>\u2003\u2003Pisei fundo.<br>\u2003\u2003As primeiras voltas foram de aquecimento. Levei o carro com cautela, sentindo cada ponto de contato com o asfalto, mas logo, o instinto assumiu o comando.<br>\u2003\u2003Na curva tr\u00eas, segurei firme. Na curva quatro, testei o limite de frenagem.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o veio ela.<br>\u2003\u2003<em>Curva cinco.<\/em><br>\u2003\u2003A mesma que vinha me tirando segundos nas \u00faltimas tr\u00eas etapas. A mesma que parecia devorar estabilidade, arrancar a traseira do carro e cuspir o tempo no cron\u00f4metro. Mas n\u00e3o hoje.<br>\u2003\u2003Hoje, ela veio lisa.<br>\u2003\u2003Suave.<br>\u2003\u2003Precisa.<br>\u2003\u2003Como se, pela primeira vez em muito tempo, o carro estivesse&#8230; do meu lado.<br>\u2003\u2003Respirei fundo, voltei pros boxes, ouvi a an\u00e1lise, fiz ajustes e voltei pra pista.<br>\u2003\u2003A cada volta, o tempo baixava. A cada volta, o carro confirmava o que eu j\u00e1 sabia, mas ainda n\u00e3o queria admitir: <em>%Isla% acertou<\/em>.<br>\u2003\u2003Do lado de fora, a vi de relance. De p\u00e9, ao lado da bancada de an\u00e1lise. Fones no ouvido, prancheta na m\u00e3o, olhar fixo nos dados. Inabal\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o me olhou, mas eu sabia que ela sabia.<br>\u2003\u2003\u00daltima volta.<br>\u2003\u2003Tudo encaixado. As engrenagens, os sensores, meu corpo, minha raiva contida. Quando cruzei a linha, o tempo piscou na tela.<br>\u2003\u2003P2.<br>\u2003\u2003Max na pole, mas eu estava colado. Tr\u00eas d\u00e9cimos.<br>\u2003\u2003A equipe comemorou.<br>\u2003\u2003Tapas nas costas, sorrisos, anota\u00e7\u00f5es fren\u00e9ticas. E %Isla%? Ela s\u00f3 assentiu. N\u00e3o sorriu, n\u00e3o buscou reconhecimento, s\u00f3 registrou o tempo com a frieza de quem sabia exatamente o que fez, e o que ainda vai fazer. Sa\u00ed do carro sentindo o suor escorrer pelas costas. Mas o peito? Carregado de outra coisa.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era s\u00f3 al\u00edvio, ou adrenalina.<br>\u2003\u2003Era respeito.<br>\u2003\u2003E talvez\u2026 um pouco de d\u00edvida.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\ud83c\udfc1\ud83d\udee0<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Mais tarde, depois da reuni\u00e3o t\u00e9cnica, sa\u00ed por uns minutos, fingindo que precisava respirar, quando, na verdade, s\u00f3 queria silenciar o mundo por meia hora. E foi a\u00ed que vi os dois. %Isla%, andando com passos curtos, prancheta em uma m\u00e3o, mochila infantil na outra. E ao lado dela, o garotinho de moletom vermelho e t\u00eanis com luzinha nas solas.<br>\u2003\u2003Ele pulava a cada tr\u00eas passos, como se o paddock fosse um parque de divers\u00f5es gigante. Com o suquinho na m\u00e3o e os olhos escaneando tudo com aten\u00e7\u00e3o, parecia em miss\u00e3o secreta.<br>\u2003\u2003N\u00e3o percebi que tinha parado at\u00e9 o menino me ver. Ele me apontou com o canudo ainda na boca, sem filtro algum:<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 o cara do carro vermelho! \u2014 gritou, orgulhoso da pr\u00f3pria descoberta. \u2014 Mam\u00e3e disse que voc\u00ea grita muito no r\u00e1dio!<br>\u2003\u2003Travei.<br>\u2003\u2003S\u00e9rio, engasguei no ar. %Isla% parou como se algu\u00e9m tivesse puxado o freio de m\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 %Liam%! \u2014 ela sussurrou, os olhos arregalados. \u2014 N\u00e3o fala assim com os outros, <em>cari\u00f1o<\/em>\u2026<br>\u2003\u2003Mas o menino j\u00e1 estava vindo na minha dire\u00e7\u00e3o. A curiosidade era mais forte que qualquer tentativa materna de controle.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem bot\u00e3o de turbo? \u2014 ele perguntou, agora a dois passos de mim. Pisquei.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o exatamente, mas gostaria de ter \u2014 respondi, tentando manter a seriedade.<br>\u2003\u2003\u2014 O carro da mam\u00e3e \u00e9 muito barulhento? \u2014 ele encostou no meu bra\u00e7o com a naturalidade de quem n\u00e3o entendia de limites sociais, s\u00f3 de interesse genu\u00edno.<br>\u2003\u2003\u2014 O carro da sua m\u00e3e \u00e9 uma m\u00e1quina de precis\u00e3o. Eu s\u00f3 grito mais.<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que fosse um videogame gigante! \u2014 ele disse, j\u00e1 olhando pro meu rel\u00f3gio. \u2014 Esse bot\u00e3o \u00e9 pra lan\u00e7ar banana, igual no Mario Kart?<br>\u2003\u2003Tive que rir. Mais do que isso: eu quis rir.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, esse \u00e9 s\u00f3 pra ver as horas mesmo. Mas se eu tivesse um bot\u00e3o de banana, prometo que usava na largada.<br>\u2003\u2003\u2014 Mam\u00e3e ia descobrir e dizer que \u00e9 falta de \u00e9tica. \u2014 Ele deu de ombros com a sabedoria de um velho de 70 anos. \u2014 Ela \u00e9 brava com isso.<br>\u2003\u2003Olhei pra %Isla%. Ela estava a dois metros, os bra\u00e7os cruzados, a express\u00e3o tensa\u2026 Mas os olhos? Estavam cheios de algo que n\u00e3o era raiva, era cuidado, aten\u00e7\u00e3o, algo parecido com orgulho.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai ganhar amanh\u00e3? \u2014 %Liam% perguntou. Me abaixei um pouco, ficando na altura dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou tentar, mas s\u00f3 se voc\u00ea torcer por mim. \u2014 Ele estendeu a m\u00e3o como se selasse um acordo.<br>\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 se voc\u00ea parar de gritar no r\u00e1dio. \u2014 Toquei a m\u00e3o dele, rindo de novo.<br>\u2003\u2003\u2014 Neg\u00f3cio fechado.<br>\u2003\u2003Ele correu de volta pra %Isla%, satisfeito. E quando ela se virou pra mim, pronta pra se desculpar, eu fui mais r\u00e1pido:<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o precisa dizer nada. Ele \u00e9 \u00f3timo. \u2014 Ela hesitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele \u00e9 tudo.<br>\u2003\u2003E naquele instante, eu soube. N\u00e3o era s\u00f3 ela que me desconcertava. Era o mundo inteiro que ela carregava com uma m\u00e3o, enquanto apertava parafusos com a outra.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83c\udfc1\ud83d\udee0\ufe0f<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O despertador tocou antes da luz do sol entrar.<br>\u2003\u2003Domingo.<br>\u2003\u2003O dia da corrida sempre come\u00e7ava com sil\u00eancio, mas n\u00e3o o sil\u00eancio calmo, o outro. O carregado. O que vem antes de algo que p\u00f4de mudar tudo ou reafirmar o que voc\u00ea j\u00e1 temia.<br>\u2003\u2003Me vesti no autom\u00e1tico, roupa t\u00e9rmica, t\u00eanis, rel\u00f3gio. Me olhei no espelho por um segundo a mais. N\u00e3o sei se era pra me reconhecer ou pra lembrar que j\u00e1 estive ali antes. Mil vezes.<br>\u2003\u2003Mas aquela manh\u00e3 parecia diferente.<br>\u2003\u2003E eu sabia o motivo.<br>\u2003\u2003Desci para o paddock mais cedo. Os boxes ainda estavam meio vazios, gente ajustando os \u00faltimos detalhes, algumas c\u00e2meras espiando comedidas. E foi ali, no canto, encostada em um dos containers, que eu a vi.<br>\u2003\u2003%Isla%.<br>\u2003\u2003Ajoelhada no ch\u00e3o, com o joelho apoiado numa toalha dobrada. Colocava fones de ouvido infantis na cabe\u00e7a do %Liam%, que tentava fugir das m\u00e3os dela como um peixinho escorregadio.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea vai usar sim, %Liam%. Vai ter barulho demais l\u00e1 embaixo.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas eu quero ouvir o grito do seu carro! \u2014 ele protestou, com a convic\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 \u00e9 f\u00e3 da m\u00e3e e da m\u00e1quina.<br>\u2003\u2003Ela riu.<br>\u2003\u2003De verdade.<br>\u2003\u2003Uma risada leve, desprevenida e bonita.<br>\u2003\u2003%Liam% finalmente cedeu e levantou os bra\u00e7os, permitindo que ela ajustasse os fones. Os cachinhos dele estavam rebeldes, escapando pela lateral do arco, como se tivessem vida pr\u00f3pria.<br>\u2003\u2003%Isla% passou a m\u00e3o com cuidado, ajeitando a franja enroladinha com aquele gesto autom\u00e1tico de quem j\u00e1 fez aquilo mil vezes. Depois, beijou o topo da cabe\u00e7a dele, com um carinho que parecia t\u00e3o \u00edntimo quanto poderoso.<br>\u2003\u2003Aquela cena\u2026 A %Isla% que parecia feita de a\u00e7o, agora ali, de joelhos diante do filho.<br>\u2003\u2003E pela primeira vez, entendi: ela n\u00e3o dividia a vida entre o box e a maternidade, vivia as duas ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e firmeza. E isso\u2026 Era mais do que qualquer vit\u00f3ria.<br>\u2003\u2003Matteo apareceu pouco depois, os passos r\u00e1pidos, a prancheta sob o bra\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00daltimo briefing. Setores dois e tr\u00eas est\u00e3o respondendo bem, mas cuidado na largada. A Red Bull Racing pode jogar o Verstappen pra cima de voc\u00ea logo na primeira curva.<br>\u2003\u2003Assenti com a cabe\u00e7a. Ele falou mais \u2014 n\u00fameros, estrat\u00e9gias, combust\u00edvel \u2014 mas parte de mim j\u00e1 tinha sa\u00eddo da sala.<br>\u2003\u2003Meu corpo estava ali, mas a cabe\u00e7a\u2026 j\u00e1 estava no cockpit.<br>\u2003\u2003Sentei no carro como quem voltava para uma vers\u00e3o de si que s\u00f3 existia ali. Capacete, luvas, r\u00e1dio no ouvido. Fechei os olhos por um segundo. S\u00f3 um.<br>\u2003\u2003Vi tudo.<br>\u2003\u2003Todos.<br>\u2003\u2003Jornalistas esperando o erro, engenheiros esperando explica\u00e7\u00f5es e torcedores esperando m\u00e1gica. Vi at\u00e9 %Isla%, com os bra\u00e7os cruzados, o olhar cl\u00ednico e um menino de fones gigantes assistindo ao mundo com a inoc\u00eancia de quem ainda achava que tudo terminava bem.<br>\u2003\u2003Respirei fundo.<br>\u2003\u2003Pisei na embreagem.<br>\u2003\u2003Luzes vermelhas e sil\u00eancio absoluto.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o: verde.<br>\u2003\u2003A largada foi limpa.<br>\u2003\u2003Verstappen tomou a ponta, eu fui atr\u00e1s. As voltas se sucederam em ritmo alucinante. O r\u00e1dio falava, mas eu s\u00f3 escutava o motor. O carro respondia.<br>\u2003\u2003Na curva cinco \u2014 a maldita curva cinco \u2014 a traseira se manteve firme. Nada de vibra\u00e7\u00e3o. Nada de instabilidade. Ela funcionava. O ajuste dela funcionava. No setor dois, a aproxima\u00e7\u00e3o. No setor tr\u00eas, a tens\u00e3o. \u00daltimas voltas. Max defendia com agressividade, mas eu conhecia o tra\u00e7ado. Conhecia o carro. E, dessa vez\u2026 o carro me conhecia de volta.<br>\u2003\u2003Ultrapassei.<br>\u2003\u2003Justo na curva cinco.<br>\u2003\u2003Justo onde o erro costumava morar.<br>\u2003\u2003Pisei fundo na sa\u00edda, retas finais. O barulho ensurdecedor, bandeira quadriculada. Primeiro lugar. A adrenalina me rasgava por dentro. O suor grudava nas costelas, mas eu s\u00f3 conseguia pensar em uma coisa.<br>\u2003\u2003Apertei o bot\u00e3o do r\u00e1dio.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Bom trabalho.<\/em> \u2014 falei, sem pensar. \u2014 <em>O carro estava perfeito.<\/em><br>\u2003\u2003Sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o:<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Diz isso pra %Torres%.<\/em><br>\u2003\u2003As palavras ainda ecoavam na minha cabe\u00e7a quando os flashes come\u00e7aram a disparar. O p\u00f3dio parecia ainda mais alto naquele dia. N\u00e3o porque era o topo, mas porque eu sabia exatamente o que me custou chegar ali.<br>\u2003\u2003Max em segundo.<br>\u2003\u2003Norris em terceiro.<br>\u2003\u2003Os tr\u00eas de p\u00e9, bra\u00e7os erguidos. Champagne voando, flashs disparando como uma rajada de vento. Gritos da torcida, fogos subindo no c\u00e9u do circuito. O hino da vit\u00f3ria ecoava, mas eu n\u00e3o conseguia focar no som, s\u00f3 no que havia por tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003A curva cinco.<br>\u2003\u2003O ajuste.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio dela.<br>\u2003\u2003Desci do p\u00f3dio com o macac\u00e3o encharcado e o rosto dividido entre exaust\u00e3o e \u00eaxtase. No meio da aglomera\u00e7\u00e3o atr\u00e1s da barreira de seguran\u00e7as, um rosto conhecido me fez travar o passo. Alix. N\u00e3o deveria estar ali. Mas estava, com um sorriso que parecia mais um pedido de espa\u00e7o do que uma celebra\u00e7\u00e3o, cercada por fot\u00f3grafos prontos para capturar qualquer gesto.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sabia que voc\u00ea ia ganhar\u2026 \u2014 ela disse, alto o bastante para que todos ouvissem, avan\u00e7ando antes que eu pudesse pensar em recuar. Estendeu os bra\u00e7os e, por reflexo, segurei o trof\u00e9u mais firme, inclinando o corpo para o lado numa tentativa de evitar o contato.<br>\u2003\u2003N\u00e3o adiantou. Ela se aproximou r\u00e1pido e puxou meu rosto para um beijo. Foi breve, mas o suficiente para os flashes dispararem em sequ\u00eancia. Um retrato perfeito para os jornais, e o pior retrato poss\u00edvel daquilo que n\u00f3s \u00e9ramos agora.<br>\u2003\u2003Os aplausos e gritos ao redor eram barulho de fundo. E, enquanto tudo isso acontecia, parte de mim\u2026 ainda estava no box.<br>\u2003\u2003Assim que desci da \u00e1rea do p\u00f3dio e consegui escapar da multid\u00e3o, segurei no bra\u00e7o da Alix, firme, sem dar espa\u00e7o pra resist\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 Vem. \u2014 minha voz saiu seca, quase dura.<br>\u2003\u2003Ela arqueou a sobrancelha, surpresa, mas deixou que eu a conduzisse at\u00e9 um corredor lateral, longe dos fot\u00f3grafos e do barulho da celebra\u00e7\u00e3o. Quando a porta se fechou atr\u00e1s de n\u00f3s, o sil\u00eancio caiu pesado.<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea t\u00e1 fazendo aqui, Alix? \u2014 perguntei, ainda segurando o trof\u00e9u como se fosse um escudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Vim te ver. Te parabenizar. E porque\u2026 \u2014 ela respirou fundo, a voz embargada. \u2014 Porque eu ainda sinto sua falta, Charles. A gente podia tentar de novo.<br>\u2003\u2003Balancei a cabe\u00e7a, frustrado, sem conseguir esconder a exaust\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, Alix. A gente j\u00e1 tentou. E n\u00e3o funcionou.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas eu sei que ainda existe algo entre n\u00f3s. Eu vi como voc\u00ea n\u00e3o me afastou l\u00e1 fora\u2026 \u2014 ela deu um passo \u00e0 frente, buscando o m\u00ednimo de abertura. \u2014 S\u00f3 mais uma chance.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 minha resposta foi firme, sem espa\u00e7o pra discuss\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ela desviou o olhar, mordendo o l\u00e1bio, como quem buscava outra sa\u00edda.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o\u2026 talvez a gente n\u00e3o precise de r\u00f3tulos. Sem compromisso, sem cobran\u00e7a. S\u00f3 n\u00f3s dois, quando voc\u00ea quiser, quando precisar.<br>\u2003\u2003Suspirei, fechando os olhos por um instante. A ideia poderia ser tentadora, mas s\u00f3 porque era f\u00e1cil.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o merece isso. \u2014 falei, devagar, olhando direto nos olhos dela. \u2014 Eu n\u00e3o vou te usar pra tapar um vazio que eu n\u00e3o sei preencher.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o seria usar, Charles. Seria escolha. Minha tamb\u00e9m. \u2014 a voz dela soava quase suplicante.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 repeti, mais baixo dessa vez. \u2014 O que voc\u00ea precisa \u00e9 se amar mais do que me ama. Se dar mais valor do que d\u00e1 pra essa ideia de n\u00f3s dois que j\u00e1 n\u00e3o existe.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio ficou entre n\u00f3s, carregado. Ela engoliu em seco, tentando manter a postura, mas os olhos marejados a entregavam.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea fala como se fosse t\u00e3o simples.<br>\u2003\u2003\u2014 Nunca foi simples. Esse \u00e9 o problema.<br>\u2003\u2003Ela respirou fundo, virou-se sem mais nada dizer, e saiu. A porta se fechou atr\u00e1s dela com um clique seco.<br>\u2003\u2003Fiquei ali, sozinho no corredor, ainda com o trof\u00e9u na m\u00e3o e uma sensa\u00e7\u00e3o amarga no peito. Vencer naquela pista deveria bastar\u2026 mas, de repente, tudo parecia menos do que suficiente.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\ud83c\udfc1\ud83d\udee0\ufe0f<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Voltei aos bastidores quando a equipe j\u00e1 estava dispersando.<br>\u2003\u2003Foi ali que a vi.<br>\u2003\u2003%Isla%.<br>\u2003\u2003No canto, encostada perto da bancada de an\u00e1lise, sem prancheta, fone, ou pose. Ela s\u00f3 me olhou por um segundo.<br>\u2003\u2003R\u00e1pido.<br>\u2003\u2003Mas o suficiente pra saber que tinha visto tudo. Me aproximei devagar, ainda com o zumbido da corrida dentro da cabe\u00e7a. Ela n\u00e3o se mexeu.<br>\u2003\u2003\u2014 Aquela curva&#8230; \u2014 comecei, a voz mais baixa do que eu queria admitir. \u2014 Foi sua.<br>\u2003\u2003Ela ergueu uma sobrancelha, sem ironia.<br>\u2003\u2003\u2014 Foi do carro. Eu s\u00f3 ouvi o que ele tava dizendo.<br>\u2003\u2003Assenti, quase sorrindo.<br>\u2003\u2003Olhei pro lado e l\u00e1 estava ele, o garotinho de fones gigantes, dan\u00e7ando em volta da caixa de ferramentas como se tamb\u00e9m tivesse vencido.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele tem sorte. \u2014 comentei, sem pensar. %Isla% n\u00e3o hesitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele tem m\u00e3e.<br>\u2003\u2003E aquilo\u2026 Aquilo pesou mais que o trof\u00e9u nas minhas m\u00e3os.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da autora:<\/strong> E a\u00ed, gente, o que foi esse cap\u00edtulo, hein? \ud83c\udfce\ufe0f Charles at\u00e9 levou a vit\u00f3ria, mas d\u00e1 pra ver que nem p\u00f3dio salva a bagun\u00e7a que ele carrega por dentro. O %Liam% apareceu e roubou a cena do jeitinho dele (porque claro, n\u00e9, crian\u00e7a fofa sempre ganha da corrida \ud83d\ude02), e a Alix\u2026 ah, a Alix. A rela\u00e7\u00e3o deles \u00e9 aquela ferida que j\u00e1 devia ter cicatrizado, mas insiste em arder. A gente sente o peso do que eles j\u00e1 foram, e o inc\u00f4modo de ainda n\u00e3o ter um ponto final definitivo. Me contem a\u00ed: voc\u00eas acham que essa porta vai continuar entreaberta ou o Charles finalmente vai trancar de vez?<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Pov Charles Leclerc \ud83c\udfc1\ud83d\udee0\ufe0f \ud83c\udfc1\ud83d\udee0 \ud83c\udfc1\ud83d\udee0\ufe0f \ud83c\udfc1\ud83d\udee0\ufe0f \u2003\u2003Nota da autora: E a\u00ed, gente, o que foi esse cap\u00edtulo, hein? \ud83c\udfce\ufe0f Charles at\u00e9 levou a vit\u00f3ria, mas d\u00e1 pra ver que nem p\u00f3dio salva a bagun\u00e7a que ele carrega por dentro. 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