{"id":9249,"date":"2025-12-21T18:55:33","date_gmt":"2025-12-21T21:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-21T18:55:33","modified_gmt":"2025-12-21T21:55:33","slug":"capitulo-18","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/segredo-de-escritorio\/capitulo-18\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 18"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003A gente mal tinha descido do avi\u00e3o e j\u00e1 estava rindo. Entre a fila da locadora e as piadas internas sobre o calor do Tocantins ser um portal direto pro inferno, a viagem j\u00e1 prometia.<br \/>\n\u2003\u2003Alugamos um carro no aeroporto de Palmas \u2014 um sed\u00e3 prata com ar-condicionado decente, gra\u00e7as aos c\u00e9us \u2014 e seguimos estrada adentro rumo \u00e0 cidade onde eu e Clara crescemos. Uma daquelas cidades pequenas do interior onde todo mundo conhece todo mundo, onde o tempo passa devagar e a comida tem gosto de inf\u00e2ncia.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% ajeitou o cinto no banco da frente enquanto eu programava o GPS. Estava em sil\u00eancio, o que n\u00e3o era incomum\u2026 mas havia algo diferente. Ela passou a m\u00e3o pelos cabelos, prendeu e soltou o coque umas tr\u00eas vezes, e mordeu o canto da unha \u2014 um tique raro, que eu s\u00f3 via quando ela estava nervosa de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 tudo bem? \u2014 perguntei baixinho, virando de leve o rosto pra ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Uhum. \u2014 assentiu r\u00e1pido demais. \u2014 S\u00f3\u2026 conhecendo o territ\u00f3rio.<br \/>\n\u2003\u2003Clara jogou a mochila no porta-malas com a habilidade de quem j\u00e1 tinha feito isso mil vezes, enquanto Marcos, do outro lado, guardava o celular como quem se despedia mentalmente da internet \u2014 e talvez da civiliza\u00e7\u00e3o moderna por alguns dias.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Preparados pra tr\u00eas dias de arroz de v\u00f3, perguntas indiscretas e cochilos na rede? \u2014 Clara perguntou, empolgada, j\u00e1 ligando o bluetooth para assumir a trilha sonora da viagem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E pra ouvir sua m\u00e3e tentando disfar\u00e7ar que t\u00e1 me avaliando o tempo todo? \u2014 Marcos brincou, se afundando no banco traseiro com um sorriso nervoso. \u2014 Primeira vez a gente nunca esquece, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003Clara virou pra ele com um olhar afetuoso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Relaxa. Se ela te servir cuscuz com manteiga e fizer perguntas sobre sua inf\u00e2ncia, \u00e9 porque j\u00e1 te aprovou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00d3timo. Se ela perguntar meu signo, eu fujo. \u2014 respondeu ele, arrancando risadas de todo mundo no carro.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% sorriu, mais contida, e lan\u00e7ou um olhar c\u00famplice para ele pelo retrovisor. Eles estavam no mesmo barco. Ent\u00e3o cruzou os bra\u00e7os, virou pra mim e lan\u00e7ou um olhar entre provoca\u00e7\u00e3o e disfarce:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea? Preparado pra apresentar sua namorada oficialmente?<br \/>\n\u2003\u2003Soltei o ar num riso meio nervoso, meio feliz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Preparado \u00e9 uma palavra forte\u2026 Mas animado, sim.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sorriu, mas os dedos tamborilavam discretamente no joelho. %Alice% %Dias%, CEO, mulher que j\u00e1 encarou salas de diretoria e plateias de investidores&#8230; estava tensa pra conhecer minha fam\u00edlia. E, de algum jeito, aquilo me fez am\u00e1-la ainda mais.<br \/>\n\u2003\u2003O Tocantins se estendia \u00e0 nossa frente, com suas paisagens secas, c\u00e9u escancarado e ret\u00f5es infinitos de estrada. Clara e Marcos no banco de tr\u00e1s, entre risadas e travesseiros. %Alice% ao meu lado, de \u00f3culos escuros e a m\u00e3o repousada na minha perna, como quem dizia <em>t\u00f4 aqui<\/em>, mesmo quando tudo dentro dela dizia <em>isso \u00e9 novo<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Era a nossa roadtrip e eu sentia, no fundo do peito, que ela ia mudar tudo.<br \/>\n\u2003\u2003Nos \u00faltimos quil\u00f4metros, a estrada virou ch\u00e3o batido. O GPS j\u00e1 tinha desistido, mas eu n\u00e3o precisava dele. Cada curva, cada \u00e1rvore torta, cada placa desbotada \u2014 tudo era mem\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso aqui ainda existe? \u2014 Clara perguntou, rindo, ao passar por uma casinha de madeira que a gente jurava que teria ca\u00eddo com o tempo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Estamos em Lizarda. Aqui nada cai, s\u00f3 sobrevive. \u2014 respondi, com a voz levemente embargada.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% observava tudo pela janela com os olhos de quem queria guardar cada detalhe. Os p\u00e9s descal\u00e7os das crian\u00e7as correndo na rua de terra, os cachorros dormindo na sombra, a vendinha da esquina com os refrigerantes empilhados na porta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Aqui parece um mundo \u00e0 parte. \u2014 ela disse, quase num sussurro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9. E foi aqui que eu cresci. \u2014 respondi, apertando de leve a m\u00e3o dela no c\u00e2mbio. Ela apertou de volta. Um gesto pequeno, mas cheio de significado.<br \/>\n\u2003\u2003Quando viramos na \u00faltima rua de terra, a casa apareceu. Simples, mas acolhedora, com paredes claras, telhado de cer\u00e2mica e um quintal cheio de plantas e cadeiras espalhadas. Tinha cheiro de caf\u00e9 fresco no ar \u2014 e de bolo tamb\u00e9m. Sempre tinha bolo.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% soltou um longo suspiro. Eu percebi. Ela endireitou a postura e olhou pra mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 pra confirmar\u2026 sua m\u00e3e gosta de vinho?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ela ama. Mas vai gostar mais ainda de voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sorriu, mais aliviada. Mas ainda havia nervosismo escondido naquele sorriso e era compreens\u00edvel. Porque, \u00e0s vezes, conhecer o mundo do outro \u00e9 tamb\u00e9m aprender a se enraizar nele e ela estava disposta.<br \/>\n\u2003\u2003Eu sabia.<br \/>\n\u2003\u2003E isso era tudo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Chegamos. \u2014 falei, engolindo seco.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% respirou fundo ao meu lado. Estava com as m\u00e3os entrela\u00e7adas no colo, tentando esconder o nervosismo que eu conhecia bem demais. O maxilar dela estava travado, um sinal claro de que a CEO estava dando lugar \u00e0 mulher que s\u00f3 queria causar uma boa impress\u00e3o na casa do namorado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Pronta? \u2014 perguntei, apertando de leve sua m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Acho que sim. \u2014 ela respondeu, for\u00e7ando um sorriso. \u2014 Ou pelo menos\u2026 o mais pronta que d\u00e1 pra estar.<br \/>\n\u2003\u2003Clara, por outro lado, desceu do carro com a pressa de quem voltava pro pr\u00f3prio ninho. Mal esperou desligar o motor e ela j\u00e1 corria pro port\u00e3o com um sorriso que n\u00e3o cabia no rosto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 <em>M\u00e3eeeeeee<\/em>! \u2014 gritou, feito crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Minha m\u00e3e surgiu na porta com o avental florido, os bra\u00e7os abertos e os olhos marejados. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Clara correu e se jogou nos bra\u00e7os dela com for\u00e7a, como se quisesse matar toda a saudade de uma vez s\u00f3.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Minha menina\u2026 \u2014 murmurou minha m\u00e3e, apertando-a contra o peito, a voz embargada de emo\u00e7\u00e3o. \u2014 Voc\u00ea t\u00e1 magrinha, Clara. T\u00e1 se alimentando direito, filha?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00f4, m\u00e3e. Mas a saudade pesa mais que kilo. \u2014 ela respondeu, rindo com os olhos brilhando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Meus meninos! Minhas meninas! \u2014 exclamou ent\u00e3o, olhando pra mim e pros outros, rindo e chorando ao mesmo tempo. \u2014 Entrem! Voc\u00eas devem estar mortos de fome! Olha o calor que t\u00e1 isso aqui! \u2014 Minha m\u00e3e foi entrando junto com Clara.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% hesitou um segundo antes de sair do carro. Seus olhos passearam pela fachada simples da casa, pela varanda com samambaias e a cadeira de balan\u00e7o, como se tentassem mapear o terreno emocional daquele novo mundo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vem. \u2014 murmurei, entrela\u00e7ando nossos dedos. \u2014 Eles v\u00e3o amar voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Ela assentiu. E sorriu. Um sorriso contido, nervoso, mas real.<br \/>\n\u2003\u2003A porta da frente rangeu um pouco quando empurrei. O cheiro de caf\u00e9 passado na hora e bolo de fub\u00e1 rec\u00e9m-sa\u00eddo do forno invadiu o ar, misturado com algo familiar, lembran\u00e7a, talvez. Mem\u00f3ria em estado bruto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Pode entrar. \u2014 falei pra %Alice%, ainda de m\u00e3o dada com ela. \u2014 Fica \u00e0 vontade.<br \/>\n\u2003\u2003Ela entrou devagar, como se o ch\u00e3o simples e bem varrido fosse feito de vidro. Olhava ao redor com aten\u00e7\u00e3o: os retratos antigos pendurados tortos na parede, o sof\u00e1 com manta de croch\u00ea da minha av\u00f3, o r\u00e1dio velho apoiado sobre uma estante baixa, a cortina de tecido florido balan\u00e7ando com a brisa.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% parecia absorver cada detalhe como se estivesse tentando se encaixar. Como se quisesse entender de onde eu vinha antes de fazer parte do meu presente.<br \/>\n\u2003\u2003E ent\u00e3o, minha m\u00e3e surgiu do corredor. O sorriso largo, o cabelo preso no coque frouxo, e o mesmo avental florido de sempre, agora com uma nova manchinha de farinha.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E essa aqui \u00e9 a tal da %Alice%, n\u00e9? \u2014 disse, indo direto abra\u00e7\u00e1-la. %Alice% arregalou os olhos, surpresa, mas se deixou envolver.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Sou eu, sim. \u00c9 um prazer conhecer a senhora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Senhora nada, menina. Me chama de Dora. Aqui ningu\u00e9m tem tempo pra formalidade. \u2014 ela respondeu, com um olhar curioso que escondia, mal disfar\u00e7ado, uma avalia\u00e7\u00e3o silenciosa. \u2014 Bonita, viu? E simp\u00e1tica. Fez bem, meu filho.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei vermelho. Literalmente. E antes que eu pudesse me recuperar, ela emendou:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E esse mo\u00e7o bonito aqui \u2014 apontou pro Marcos, que se aproximava \u2014 \u00e9 o namorado da minha menina, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso mesmo, dona Dora. \u2014 Marcos respondeu, estendendo a m\u00e3o com respeito. \u2014 Finalmente tive a honra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Menino educado. Clara escolheu bem tamb\u00e9m. \u2014 ela disse, puxando ele pra um abra\u00e7o apertado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Cad\u00ea o pai? \u2014 perguntei, olhando ao redor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Foi comprar carv\u00e3o pra assar uma carninha pra amanh\u00e3. Disse que queria agradar as visitas. Mas deve t\u00e1 chegando.<br \/>\n\u2003\u2003Como se fosse combinado, ouvimos o port\u00e3o rangendo. Meu pai apareceu, camiseta surrada, chap\u00e9u de palha e um sorriso que sempre foi maior do que ele pr\u00f3prio. Ele olhou pra todo mundo, viu as malas encostadas, a filha, o genro novo, a nora desconhecida. E ent\u00e3o veio me abra\u00e7ar com for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eita, meu filho\u2026 Tava com saudade, viu? \u2014 disse, me dando tr\u00eas tapinhas nas costas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m, pai.<br \/>\n\u2003\u2003Depois ele se virou pra %Alice%, ajeitando o chap\u00e9u como quem quer causar boa impress\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Oi, mo\u00e7a. Eu sou o Silv\u00e9rio. Pai do %Arthur%. \u00c9 um prazer ter voc\u00ea aqui.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 O prazer \u00e9 meu, seu Silv\u00e9rio. \u2014 ela disse, estendendo a m\u00e3o. Mas ele, claro, puxou pra um abra\u00e7o tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Aqui a gente \u00e9 de abra\u00e7o. \u2014 ele brincou.<br \/>\n\u2003\u2003Em seguida, olhou pra Clara com os olhos j\u00e1 marejando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Minha menina\u2026 \u2014 disse, emocionado, abrindo os bra\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003Clara correu pra ele, rindo, e se jogou no abra\u00e7o como quem se reencontra com um peda\u00e7o de casa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Tava morrendo de saudade, pai. \u2014 ela falou, escondendo o rosto no ombro dele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m, minha filha. Sua falta \u00e9 barulhenta aqui em casa, viu?<br \/>\n\u2003\u2003Depois, ele olhou para o Marcos com curiosidade calorosa e estendeu a m\u00e3o, mas com aquele brilho travesso no olhar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea \u00e9 o rapaz que t\u00e1 fazendo minha filha rir pelos cantos?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Marcos. Muito prazer. \u2014 ele respondeu, sem jeito, apertando a m\u00e3o do meu pai.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Muito prazer nada, venha c\u00e1, rapaz. \u2014 E puxou Marcos pra um abra\u00e7o desajeitado, mas sincero. \u2014 Se vai fazer parte dessa bagun\u00e7a, tem que se acostumar com abra\u00e7o tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Todo mundo riu. At\u00e9 o sil\u00eancio pareceu sorrir naquele instante.<br \/>\n\u2003\u2003A mesa da cozinha estava posta com generosidade. P\u00e3o caseiro ainda morno, bolo de fub\u00e1 cortado em quadrados grandes, biscoitinhos amanteigados num prato de vidro e caf\u00e9 preto passado na hora, fumegando na garrafa t\u00e9rmica azul.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Senta a\u00ed, minha gente. \u2014 disse dona Dora, j\u00e1 puxando cadeiras. \u2014 Aqui a gente conversa melhor comendo.<br \/>\n\u2003\u2003Nos sentamos os seis \u00e0 mesa \u2014 eu, %Alice%, Clara, Marcos, meu pai e minha m\u00e3e. A luz da manh\u00e3 entrava suave pela janela, iluminando a toalha de mesa xadrez e dando um tom quase nost\u00e1lgico \u00e0 cena.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o\u2026 \u2014 Marcos come\u00e7ou, com aquele jeito leve de sempre. \u2014 A gente quer saber de tudo. Como era o %Arthur% e a Clara pequenos? Quem era mais levado?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Os dois eram levados. \u2014 riu Silv\u00e9rio, servindo o caf\u00e9. \u2014 Mas o %Arthur% era mais calado. Vivia desenhando nos cadernos, nos guardanapos, nas paredes do quarto. Teve uma \u00e9poca que a gente n\u00e3o podia ver uma caneta fora do lugar que ele j\u00e1 pegava e sumia.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% sorriu, olhando pra mim com ternura.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 fazia arte desde pequeno, ent\u00e3o?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Fazia, menina. \u2014 confirmou dona Dora. \u2014 E quando a gente ia chamar ele pra almo\u00e7ar, ele dizia que tava \u201cterminando uma ideia\u201d. Eu ficava doida! Tinha dias que era preciso desligar o disjuntor pra ele parar e vir comer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E a Clara? \u2014 %Alice% perguntou, curiosa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A Clara era falante, esperta, metida a mandar em tudo. \u2014 disse Silv\u00e9rio, rindo. \u2014 Organizava teatrinho, fazia os vizinhos de figurante, escrevia falas no caderno, queria que todo mundo decorasse.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Um terror. \u2014 completou Dora, rindo tamb\u00e9m. \u2014 Mas tudo com bom cora\u00e7\u00e3o. Sempre quis ser a protagonista de tudo, sempre sendo a \u201cirm\u00e3 mais velha\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 U\u00e9\u2026 mas eu sou dois anos mais nova! \u2014 Clara rebateu, rindo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Pois \u00e9. \u2014 disse o pai. \u2014 E mesmo assim, achava que mandava no irm\u00e3o mais velho desde que aprendeu a falar.<br \/>\n\u2003\u2003A mesa caiu na gargalhada, e at\u00e9 eu tive que rir. Porque era verdade. Clara podia ser a mais nova\u2026 mas sempre teve alma de general de quintal.<br \/>\n\u2003\u2003O papo seguiu leve, cheio de hist\u00f3rias da inf\u00e2ncia: a vez que roubamos goiaba do vizinho e nos escondemos embaixo da cama, o dia que eu levei bronca na escola por desenhar a professora como uma bruxa, a primeira vez que Clara ficou de castigo por \u201cemprestar\u201d as ferramentas do nosso pai pra montar uma cabana no quintal.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% ouvia tudo com os olhos brilhando, rindo alto, \u00e0s vezes segurando minha m\u00e3o debaixo da mesa. E eu? Eu s\u00f3 observava. Aquilo. Ela ali. Como se fosse parte desde sempre.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00eas, meus filhos? \u2014 perguntou Dora depois, olhando pra %Alice% e Marcos. \u2014 O que voc\u00eas fazem da vida?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu curso Engenharia com a Clara. \u2014 respondeu Marcos, ajeitando os \u00f3culos. \u2014 Quero seguir na \u00e1rea aeroespacial, mas por enquanto t\u00f4 estagiando numa empresa de engenharia civil.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Olha que bonito. \u2014 disse Silv\u00e9rio, sincero. \u2014 Isso \u00e9 importante demais, rapaz. Boa sorte nesse caminho.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Obrigado, senhor. \u2014 Marcos sorriu, um pouco t\u00edmido, mas com aquele brilho de quem acredita no que t\u00e1 construindo.<br \/>\n\u2003\u2003Os olhos da minha m\u00e3e ent\u00e3o se voltaram para %Alice%. Curiosa. Atenta. N\u00e3o de forma dura, mas com aquele jeito de quem ainda t\u00e1 tentando entender o que une mundos t\u00e3o diferentes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea, minha filha?<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% limpou a boca com o guardanapo de pano e respondeu com um sorriso sereno:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sou CEO da Domus Enterprises. \u2014 respondeu %Alice% com naturalidade. \u2014 \u00c9 uma holding especializada em marketing e publicidade. A gente desenvolve campanhas estrat\u00e9gicas e posicionamento de marca para grandes empresas. Trabalhamos com v\u00e1rios setores, desde tecnologia at\u00e9 incorpora\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<br \/>\n\u2003\u2003Sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003Um breve sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003At\u00e9 meu pai colocar a x\u00edcara na mesa com um <em>toc<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Rapaz\u2026<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eita. \u2014 murmurou Clara, escondendo o riso. Dora piscou algumas vezes.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E\u2026 \u00e9 tipo\u2026 chefe mesmo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Tipo isso. \u2014 %Alice% respondeu, mantendo o tom humilde. \u2014 Tenho uma equipe muito boa comigo, mas sim, estou \u00e0 frente da empresa desde os 28.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Oxente. \u2014 disse meu pai, com os olhos arregalados. \u2014 Eu achei que voc\u00ea trabalhava em banco. Ou sei l\u00e1, na parte administrativa de uma firma.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 mais ou menos isso. S\u00f3 que a firma \u00e9 dela. \u2014 Marcos completou, divertido.<br \/>\n\u2003\u2003Eu j\u00e1 ia intervir, dizer algo, amenizar, quando vi minha m\u00e3e balan\u00e7ar a cabe\u00e7a, com um sorriso entre encantado e surpreso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu nunca imaginei que o %Arthur% fosse namorar uma mulher t\u00e3o decidida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Nem eu. \u2014 disse meu pai, honesto. \u2014 Mas olha\u2026 deu gosto de ver como voc\u00ea fala com firmeza. Tem brilho no olho. A gente v\u00ea quando a pessoa gosta do que faz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Gosto mesmo. \u2014 %Alice% respondeu, olhando de canto pra mim. \u2014 Mas mais do que tudo\u2026 gosto dele.<br \/>\n\u2003\u2003Eu corei. Minha m\u00e3e sorriu.<br \/>\n\u2003\u2003E ali, com caf\u00e9 quente e bolo partilhado, eu soube que ela tinha ganhado espa\u00e7o. N\u00e3o s\u00f3 no meu cora\u00e7\u00e3o, mas naquela casa tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Depois do caf\u00e9 refor\u00e7ado, minha m\u00e3e empurrou mais uma fatia de bolo pro Marcos, disse que a %Alice% tava \u201cmuito fina\u201d pra comer t\u00e3o pouco e j\u00e1 avisou que o almo\u00e7o seria galinhada no fog\u00e3o a lenha.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto ela recolhia as x\u00edcaras, meu pai se levantou e olhou pra mim com aquele ar de quem j\u00e1 tinha um plano em mente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00f4 indo ali na fazenda do seu Zeca ver o pasto novo&#8230; Se quiserem, posso levar voc\u00eas pra conhecer. T\u00e1 bonito demais depois da chuva. E tem uns cavalos mansos l\u00e1 que voc\u00eas podem montar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Cavalos? \u2014 %Alice% perguntou, com um sorriso contido e as sobrancelhas arqueadas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Tem medo, mo\u00e7a? \u2014 meu pai respondeu com um brilho divertido nos olhos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Mas nunca montei. No m\u00e1ximo, cavalo de carrossel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Pois vai gostar. A vista de cima muda tudo.<br \/>\n\u2003\u2003E foi assim que, meia hora depois, a gente tava a caminho da fazenda. Marcos parecia levemente arrependido da decis\u00e3o e Clara j\u00e1 tinha colocado um chap\u00e9u de palha emprestado da m\u00e3e. %Alice% segurava firme minha m\u00e3o no banco de tr\u00e1s da caminhonete, tentando disfar\u00e7ar a ansiedade.<br \/>\n\u2003\u2003A fazenda era um espet\u00e1culo \u00e0 parte. Cercas de madeira, galinhas soltas perto da casa principal, uma porteira que rangia e aquele cheiro bom de mato e terra molhada. Seu Zeca, um senhor magro e simp\u00e1tico, recebeu a gente com sorriso largo e dois cavalos j\u00e1 selados nos esperando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Esses dois s\u00e3o mansinhos. O branquelo \u00e9 o Lua, e o mais escuro ali \u00e9 o Carv\u00e3o. Podem confiar. \u2014 garantiu.<br \/>\n\u2003\u2003Ajudamos %Alice% e Marcos a montarem primeiro. Marcos quase caiu tentando subir de um pulo s\u00f3, e Clara n\u00e3o perdeu a chance de rir alto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Achei que o atleta aqui era voc\u00ea, amor. \u2014 ela provocou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00f4 economizando energia pro casamento. \u2014 ele rebateu, ajeitando o chap\u00e9u torto na cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice%, por outro lado, surpreendeu. Segurou firme nas r\u00e9deas, ouviu as instru\u00e7\u00f5es com aten\u00e7\u00e3o e, aos poucos, foi se acostumando com o movimento do animal sob ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ok&#8230; isso \u00e9 oficialmente mais legal do que eu esperava. \u2014 ela disse, sorrindo. \u2014 Tipo filme de faroeste. S\u00f3 falta a trilha sonora dram\u00e1tica.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Cuidado que aqui em Lizarda, filme de faroeste vira document\u00e1rio rapidinho. \u2014 brinquei, cavalgando ao lado dela.<br \/>\n\u2003\u2003Seguimos os quatro por uma trilha de terra batida que contornava um campo aberto e depois se afunilava entre \u00e1rvores altas. O sol forte refletia no ch\u00e3o seco, mas a sombra das \u00e1rvores e o vento leve tornavam o passeio agrad\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Foi no meio desse sil\u00eancio tranquilo, quebrado s\u00f3 pelo trote dos cavalos e os sons da natureza ao redor, que %Alice% olhou pra mim e disse:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Seus pais&#8230; s\u00e3o incr\u00edveis.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eles gostaram de voc\u00ea. J\u00e1 te adotaram, acho. \u2014 Ela sorriu, abaixando um pouco a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu tava com medo, sabe? De n\u00e3o caber nesse mundo. De parecer&#8230; artificial demais, mas foi tudo t\u00e3o natural.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Porque voc\u00ea pertence. N\u00e3o \u00e9 sobre de onde a gente vem. \u00c9 sobre pra onde a gente quer ir.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% esticou a m\u00e3o at\u00e9 alcan\u00e7ar a minha. E ali, em cima de um cavalo emprestado, no meio do mato, com cheiro de terra e cora\u00e7\u00e3o batendo tranquilo, eu soube que aquela mulher \u2014 com toda sua for\u00e7a, seu mundo sofisticado, seus medos e a coragem de super\u00e1-los \u2014 cabia em qualquer lugar que eu chamasse de lar.<br \/>\n\u2003\u2003Voltamos da fazenda no fim da tarde, cheios de poeira, risadas e hist\u00f3rias novas. O c\u00e9u j\u00e1 tingia o horizonte de laranja queimado quando chegamos em casa, e o cheiro da galinhada no fog\u00e3o a lenha nos recebeu como um abra\u00e7o quente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vai todo mundo direto pro banho! \u2014 gritou dona Dora da cozinha, j\u00e1 mexendo a panela com a colher de pau como se regesse uma orquestra.<br \/>\n\u2003\u2003No almo\u00e7o-jantar, a mesa estava ainda mais cheia. Meus tios tinham passado por l\u00e1, um vizinho apareceu \u201cs\u00f3 pra dar um oi\u201d, e logo a cozinha virou aquela bagun\u00e7a boa: vozes sobrepostas, piadas internas, pratos sendo repostos antes mesmo de esvaziar.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% foi elogiada pela compostura, pelo apetite e at\u00e9 pelo jeito de segurar o copo \u2014 minha tia disse que \u201cessa menina tem modos de princesa, mas sorriso de mulher de verdade\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003Depois, j\u00e1 quase meia-noite, minha m\u00e3e levantou com um bocejo teatral:<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vamos ajeitar os quartos, n\u00e9? Meninas num, meninos noutro. Aqui a casa pode ser moderna no wi-fi, mas continua tradicional no resto.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% engasgou levemente com o ch\u00e1. Marcos soltou um \u201cvish\u201d abafado. E eu&#8230; apenas engoli a frustra\u00e7\u00e3o com o p\u00e3o de queijo.<br \/>\n\u2003\u2003Mais tarde, o sil\u00eancio da casa caiu como um cobertor pesado. No meu quarto, Marcos j\u00e1 dormia roncando baixo, de barriga cheia e alma em paz. Eu, por outro lado, s\u00f3 virava de um lado pro outro, olhos presos no teto e o corpo inquieto.<br \/>\n\u2003\u2003At\u00e9 ouvir tr\u00eas batidas secas e leves na janela.<br \/>\n\u2003\u2003Levantei sem fazer barulho, empurrei a vidra\u00e7a e l\u00e1 estava ela. %Alice%, de moletom e p\u00e9s descal\u00e7os, com aquele sorriso de canto que s\u00f3 aparecia quando ela tava tramando alguma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vem pro quintal. \u2014 sussurrou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea quer me matar, \u00e9 isso?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Quero\u2026 mas de outro jeito.<br \/>\n\u2003\u2003Desci pelas escadas da cozinha como um ladr\u00e3o em miss\u00e3o secreta e a encontrei encostada no p\u00e9 de acerola, os cachos soltos, bagun\u00e7ados de sono, e o rosto meio iluminado pela lua e pelo abajur velho da varanda que insistia em piscar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 linda. \u2014 falei, antes mesmo de pensar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea t\u00e1 me devendo beijos desde a estrada.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o precisei de mais convite. Me aproximei, peguei o rosto dela entre as m\u00e3os e a beijei devagar, com a calma de quem queria saborear cada segundo. Mas ela n\u00e3o estava com pressa, estava faminta.<br \/>\n\u2003\u2003O beijo come\u00e7ou lento, mas logo virou outra coisa. Urgente. Quente. A respira\u00e7\u00e3o dela contra a minha, os dedos puxando minha camiseta, as m\u00e3os me prendendo pela nuca. A boca dela tinha gosto de saudade e lavanda. E tudo nela pedia mais.<br \/>\n\u2003\u2003Encostamos no tronco da \u00e1rvore, os corpos se pressionando num ritmo familiar, desesperado e contido ao mesmo tempo. Um aperto aqui, um gemido baixo ali. Ela mordeu meu l\u00e1bio de leve e puxou meu quadril mais perto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 me deixando louca. \u2014 sussurrou, com a voz rouca de desejo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me deixou assim faz tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Beijei o pesco\u00e7o dela, sentindo a pele arrepiar. Os dedos dela se afundaram no meu cabelo e as pernas ro\u00e7aram nas minhas com precis\u00e3o. Era dif\u00edcil lembrar que a casa estava cheia, que est\u00e1vamos a poucos metros da minha m\u00e3e, que um galo podia cantar a qualquer momento.<br \/>\n\u2003\u2003E ent\u00e3o\u2026 um estalo.<br \/>\n\u2003\u2003Algu\u00e9m chutou um balde, ou uma telha caiu. Sei l\u00e1. Mas o barulho veio de perto, e nos fez congelar.<br \/>\n\u2003\u2003Ela me empurrou com as m\u00e3os no peito, rindo entre o susto e o nervoso, ainda com os l\u00e1bios inchados do beijo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Meu Deus\u2026 \u2014 sussurrou, tentando recuperar o f\u00f4lego. \u2014 Voc\u00ea me deixa igual adolescente. Daqueles que fogem pra se pegar atr\u00e1s do galinheiro.<br \/>\n\u2003\u2003Ri baixinho, encostando minha testa na dela e dando um selinho demorado, s\u00f3 pra n\u00e3o deixar a vontade acabar ali.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea me deixa burro. Burro o suficiente pra achar que isso aqui \u00e9 uma boa ideia. \u2014 falei, beijando de novo o canto da boca dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 a melhor ideia. \u2014 respondeu, colando nossos corpos de novo.<br \/>\n\u2003\u2003Ficamos ali mais alguns minutos, s\u00f3 nos tocando, respirando perto demais, rindo do absurdo que era precisar se esconder como dois moleques apaixonados no quintal da casa dos meus pais.<br \/>\n\u2003\u2003Mas era isso. A gente era isso.<br \/>\n\u2003\u2003E mesmo que fosse loucura, era a nossa loucura favorita.<\/p>\n<p align=\"center\">\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\n<p>\u2003\u2003Acordei com o cheiro de alho e cebola dourando na manteiga. O som do r\u00e1dio velho tocando mod\u00e3o baixo e o tilintar de talheres na panela denunciavam que a cozinha j\u00e1 estava em movimento. Levantei devagar, me espreguicei e fui at\u00e9 o corredor, guiado mais pelo instinto do que pelos p\u00e9s. Me escondi discretamente na porta entreaberta e vi a cena que quase me fez voltar a sonhar s\u00f3 pra viver aquilo de novo.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% estava ali. De avental emprestado, cabelo preso em um coque torto e rindo de algo que minha m\u00e3e dizia. Cortava tomate com cuidado, precis\u00e3o e foco. Mas sorria como quem sabia que ali, naquele ambiente simples e cheio de calor, ela era bem-vinda.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Esse tempero a\u00ed \u00e9 segredo de fam\u00edlia, viu? \u2014 Minha m\u00e3e dizia, apontando com uma colher de pau. \u2014 Se contar pra algu\u00e9m, ele desanda.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Pode deixar. Confidencial. NDA assinado. \u2014 %Alice% respondeu, com aquele humor de canto de boca que me fazia apaixonar por ela de novo todo dia.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei s\u00f3 observando por alguns minutos, com o cora\u00e7\u00e3o leve e um sorriso besta no rosto. Ver a mulher que eu amo se encaixando ali \u2014 entre panelas, cheiro de comida e afeto \u2014 era mais do que um sonho realizado. Era casa. Em todos os sentidos poss\u00edveis.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 na mesa, minha gente!<br \/>\n\u2003\u2003Nos sentamos todos juntos, eu, %Alice%, Clara, Marcos, minha m\u00e3e e meu pai. A mesa estava farta: arroz soltinho, feij\u00e3o com caldo grosso, carne de panela que desmanchava s\u00f3 de olhar, salada fresquinha, farinha torrada com alho e, claro, suco de caju gelado na jarra grande.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Olha esse cheiro, meu Deus do c\u00e9u\u2026 \u2014 Marcos comentou, puxando a cadeira ao lado da Clara. \u2014 Se eu comer demais, voc\u00eas me carregam pra rede depois?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Rede n\u00e3o, meu filho \u2014 disse dona Dora, j\u00e1 se sentando com o pano de prato no ombro. \u2014 Aqui quem come muito ajuda a lavar a lou\u00e7a depois!<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ih, se prepara ent\u00e3o, Marcos \u2014 Clara riu \u2014 Voc\u00ea vai lavar at\u00e9 a panela da carne.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Com esse tempero aqui? Vale o sacrif\u00edcio. \u2014&nbsp; ele caprichou no prato, enquanto se servia.<br \/>\n\u2003\u2003O almo\u00e7o correu do jeito que s\u00f3 um almo\u00e7o em casa de m\u00e3e sabe correr: conversas atravessadas, gargalhadas altas, disputas por quem pegava o \u00faltimo peda\u00e7o da carne.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E esse feij\u00e3o, dona Dora? \u2014 %Alice% elogiou, com a voz embargada entre a timidez e a satisfa\u00e7\u00e3o. \u2014 Nunca comi um igual.<br \/>\n\u2003\u2003Minha m\u00e3e deu um sorrisinho de canto, limpando as m\u00e3os no pano de prato com aquele olhar de quem j\u00e1 tinha sido cativada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 U\u00e9, mas voc\u00ea ajudou a fazer, menina! \u2014 disse, com afeto. \u2014 Foi voc\u00ea quem cortou o alho e ficou mexendo a panela enquanto eu ajeitava a carne.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Mas o tempero \u00e9 seu. Eu s\u00f3 segui ordens. \u2014 %Alice% respondeu, com um riso leve, olhando para ela com carinho.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ah, menina\u2026 se voc\u00ea quiser mesmo a receita, tem que vir aqui pegar pessoalmente \u2014 disse Dora, piscando, com orgulho na medida certa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Se tiver bolo de fub\u00e1 envolvido, eu venho quantas vezes for preciso. \u2014 %Alice% brincou, e todo mundo riu.<br \/>\n\u2003\u2003Meu pai, por sua vez, passou metade do tempo contando hist\u00f3rias da inf\u00e2ncia que eu jurei que estavam enterradas para sempre. E a outra metade&#8230; olhando pra %Alice% com aquele brilho de quem j\u00e1 tinha adotado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Lembro como se fosse ontem do %Arthur% escondendo goiaba no colch\u00e3o pra comer de madrugada. Apodreceu tudo. A Dora quase teve um tro\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Silv\u00e9rio! \u2014 minha m\u00e3e reclamou, rindo. \u2014 Vai ficar queimando o menino na frente da namorada?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 U\u00e9, ela tem que saber no que t\u00e1 se metendo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Olha, eu j\u00e1 t\u00f4 colecionando material pra chantagem \u2014 disse %Alice%, divertida. \u2014 Toda CEO precisa de um bom arquivo secreto. \u2014 Clara gargalhou com a boca cheia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ihhh, %Arthur%, voc\u00ea vai ter que se explicar agora. \u2014 Fiz uma careta e levantei o copo de suco em protesto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Difama\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio lar. \u00c9 isso que eu ganho por voltar pra casa?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Vai dar trabalho pra voc\u00ea, viu, %Arthur%? \u2014 emendou meu pai, servindo mais suco no copo da %Alice%. \u2014 Mulher decidida \u00e9 bicho arretado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu gosto de trabalho. \u2014 respondi, sem pensar, olhando para ela. %Alice% sorriu com os olhos, daquele jeito que s\u00f3 eu entendia.<br \/>\n\u2003\u2003Minha m\u00e3e aproveitou o momento e apontou o garfo pra gente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Mas olha\u2026 fiquei feliz demais de ver voc\u00eas dois aqui. De verdade. \u00c9 bom quando a gente v\u00ea que o filho da gente t\u00e1 sendo amado de um jeito bonito. E voc\u00ea tamb\u00e9m, Clara \u2014 ela olhou pra filha, depois pro Marcos. \u2014 Esse mo\u00e7o a\u00ed \u00e9 doce. Tem jeito de quem cuida.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos ficou vermelho at\u00e9 a orelha.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Obrigado, dona Dora. T\u00f4 me sentindo em casa mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003Depois do almo\u00e7o, meus pais foram descansar no sof\u00e1, embalados pelo som da novela baixinha na TV. Clara e Marcos sa\u00edram pra caminhar, alegando \u201cdigest\u00e3o ativa\u201d.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Na verdade a gente quer ver se a vendinha da esquina ainda vende aquele picol\u00e9 de milho \u2014 Clara confessou, pegando a m\u00e3o do namorado. \u2014 E dar uma volta, claro. Matar saudade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Boa sorte \u2014 disse %Alice%, rindo. \u2014 E tragam um pra mim se acharem.<br \/>\n\u2003\u2003Depois do almo\u00e7o, quando o sol come\u00e7ou a baixar e o vento ficou mais fresco, a gente escapou pra varanda. Meus pais ainda estavam na sala, embalados pelo som da novela, e Clara e Marcos tinham sa\u00eddo de novo, agora pra visitar um antigo vizinho. S\u00f3 restamos n\u00f3s dois \u2014 sentados numa rede meio frouxa, lado a lado, os p\u00e9s balan\u00e7ando no ar, os dedos entrela\u00e7ados devagar, como se o tempo tivesse desacelerado s\u00f3 pra deixar a gente respirar.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% encostou a cabe\u00e7a no meu ombro e ficou em sil\u00eancio por um tempo, os olhos no c\u00e9u que come\u00e7ava a ganhar tons cor-de-rosa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Se a gente tivesse filhos, voc\u00ea acha que eles iam puxar mais a quem? \u2014 ela perguntou de repente, com a voz mansa, quase sonolenta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A voc\u00ea, com certeza. \u2014 respondi, rindo baixinho. \u2014 Imagina uma crian\u00e7a com o meu jeitinho met\u00f3dico e&#8230; socialmente inapto? Ia ser um mini-sistema de planilhas ambulante.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E a minha teimosia? \u2014 ela provocou, com um sorrisinho pregui\u00e7oso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Perfeito. Uma pequena CEO de fraldas, exigindo relat\u00f3rios \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3 e recusando colo porque quer fazer tudo sozinha.<br \/>\n\u2003\u2003Ela riu alto, com aquele riso que eu amava \u2014 e que, honestamente, me desmontava inteiro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E se eu largasse tudo e virasse sua secret\u00e1ria? \u2014 ela perguntou, como quem jogava uma ideia no vento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu pediria um aumento. \u2014 disse, s\u00e9rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 A gente \u00e9 o RH, %Arthur%. \u2014 ela rebateu, divertida.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o eu aceitaria. Com algumas cl\u00e1usulas, claro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Quais?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Beijos obrigat\u00f3rios a cada meia hora. Direito \u00e0 rede compartilhada. Caf\u00e9 na cama uma vez por m\u00eas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 uma?<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sou um chefe ponderado. Mas podemos renegociar no segundo trimestre do namoro.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se afastou um pouco s\u00f3 pra me olhar de perto. O cabelo bagun\u00e7ado ca\u00eda num lado do rosto, e os olhos dela brilhavam de um jeito t\u00e3o calmo e bonito que eu quase esqueci como se respirava.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea ainda tem medo? \u2014 ela perguntou, mais baixo.<br \/>\n\u2003\u2003Demorei um segundo. N\u00e3o por d\u00favida, mas por respeito ao peso daquela pergunta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 respondi, firme. \u2014 N\u00e3o quando voc\u00ea t\u00e1 aqui. \u00c9 como se&#8230; tudo finalmente tivesse encontrado seu lugar.<br \/>\n\u2003\u2003%Alice% n\u00e3o disse nada. S\u00f3 voltou a encostar a cabe\u00e7a no meu ombro, os olhos fechando aos poucos, o corpo se rendendo ao embalo lento da rede, como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003E talvez fosse.<br \/>\n\u2003\u2003Entre o cheiro de terra molhada, o som das \u00e1rvores balan\u00e7ando devagar e o calor morno da presen\u00e7a dela colada na minha, n\u00e3o existia mais pressa. Nem medo. Nem passado.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 a certeza silenciosa de que amar \u2014 mesmo com todos os ru\u00eddos, diferen\u00e7as e trope\u00e7os \u2014 era isso. Ficar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\ud83d\udcbb\ud83d\udc60<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":5457,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"template-historia-longa.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1860],"class_list":["post-9249","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","historias-segredo-de-escritorio"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9249"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5457"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}