{"id":9214,"date":"2025-12-17T16:09:43","date_gmt":"2025-12-17T19:09:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-17T16:21:55","modified_gmt":"2025-12-17T19:21:55","slug":"capitulo-06","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/starfall\/capitulo-06\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 06"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><strong>EMHYR \u2022 CORTE NOTURNA<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Suor, c\u00e1lido e pegajoso<\/span>, escorreu pela lateral de seu rosto, deslizando pela pele retalhada, misturando-se com o sangue de seus ferimentos abertos. O sal no l\u00edquido tornou a machucar a pele sens\u00edvel, os ferimentos abertos retumbando em ritmo similar ao de seu cora\u00e7\u00e3o, irregular, doloroso, vagarosamente pingando de seu queixo, da ponta de seu nariz, tornando a manchar o ch\u00e3o abaixo de si. Contorceu-se ao deslizar por entre os entremeios do assoalho de madeira, criando padr\u00f5es abstratos; nem espesso como sangue, nem invis\u00edvel com a \u00e1gua de seu suor. Emhyr tampouco parecia registrar qualquer coisa que n\u00e3o fosse a mem\u00f3ria vivida, entalhada em sua mente de poucas horas atr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Em seu peito, vazio causticante formava-se como um devaneio; ora real, ora distante, surrealista demais para que compreendesse de certo a extens\u00e3o do problema que havia acabado de presenciar. Seu cora\u00e7\u00e3o parecia estar inchado, martelando contra a caixa tor\u00e1cica, violentamente, uma presa enjaulada sem escapat\u00f3ria. Os m\u00fasculos, doloridos, tremiam, espasm\u00f3dicos, congelados no momento. As m\u00e3os agarravam seus cabelos com tamanha firmeza que empalidecia os n\u00f3s dos dedos, a respira\u00e7\u00e3o soava pesada para o pr\u00f3prio ouvido, os olhos permaneciam fixos no vazio. Tremores aumentaram, mas sua mente ainda estava presa nas Montanhas Illyrianas. Abafado, como se de repente, debaixo d\u2019\u00e1gua, Emhyr podia ouvir o eco silencioso de botas contra o assoalho, movendo-se em sua dire\u00e7\u00e3o. Sua traqueia contraiu-se, como se um n\u00f3 come\u00e7asse a se formar ali, crescendo exponencialmente. J\u00e1 n\u00e3o mais sentiu quando as pesadas l\u00e1grimas que inundavam seus olhos ca\u00edram de sua face.<br>\u2003\u2003N\u00e3o ouviu nada, n\u00e3o percebeu ningu\u00e9m. Tudo o que conseguia pensar naquele momento, era na figura aterrorizante que projetou-se para fora das \u00e1rvores; precipitou-se para frente, o tronco alongado, espasm\u00f3dico, a cabe\u00e7a estalando com cada movimento, como galhos sendo quebrados no m\u00ednimo peso colocado, empunhando chifres como os de um cervo. Cheirava a flores silvestres e petrichor, e quando seus p\u00e9s descal\u00e7os encobertos pelo que parecia ser lama e sangue, talvez at\u00e9 mesmo uma mistura de piche, tocavam o ch\u00e3o, n\u00e3o importava sobre superf\u00edcie que fosse, flores silvestres e relva pareciam nascer, desabrochando por entre os dedos de seus p\u00e9s, as garras afiadas como as de lobos enterrando-se com mais for\u00e7a sobre o solo abaixo de si, para que, imediatamente morressem no segundo seguinte em que seus p\u00e9s deixassem de tocar a terra abaixo.<br>\u2003\u2003As flores se entortaram, a relva murchou at\u00e9 que estivesse completamente apodrecida; apenas uma mancha que marcara sua presen\u00e7a ali. Mas a parte mais aterrorizante era o rosto da criatura: por baixo do cr\u00e2nio que adornava a parte superior de sua face, exposto e esbranqui\u00e7ado, havia olhos p\u00e1lidos intensos, a tonalidade cinza era substitu\u00edda por um brilho intenso, uma luz que parecia ser culminada de dentro de si, escapando por seus poros como energia pura. Uma estrela, queimando dentro de seu corpo, contida, mas n\u00e3o menos mortal. Os cabelos, longos e esvoa\u00e7antes, pendiam por suas costas at\u00e9 a altura de sua cintura, com fios de luz enroscando-se por entre as mechas, contas antigas e enferrujadas permaneciam presas em pequenas tran\u00e7as que se enroscavam por entre as orelhas pontudas e pelos chifres. Uma aljava pesada pendia por seu ombro esquerdo, e a m\u00e3o direita, cujas garras permaneciam retorcidas, enroscava-se em um arco longo e escuro, como se o material usado para sua cria\u00e7\u00e3o tivesse sido a pr\u00f3pria escurid\u00e3o.<br>\u2003\u2003Lembraram vagamente ao m\u00e1rmore que permeava as paredes da Cidade Escavada; o lar dos pesadelos. Ainda que fosse algo imposs\u00edvel, Emhyr havia considerado, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, movido pelo desespero enlouquecido da morte iminente projetando-se \u00e0 sua frente, que talvez algo pior estivesse ocultado debaixo das montanhas. Que talvez aquele monstro que havia surgido por entre as \u00e1rvores tivesse muito mais rela\u00e7\u00e3o com os monstros que vagavam <em>Sob a Montanha<\/em> e por entre as <em>Montanhas Illyrianas<\/em>, em algum ponto abaixo da terra, do que qualquer criatura natural daquelas terras. Mas quaisquer que fossem seus pensamentos, estes desapareceram por completo quando a criatura <em>gritou<\/em>. Ru\u00eddo visceral escapara de sua garganta, n\u00e3o como um brado de guerra, mas como o agonizar de um <em>espectro<\/em>. Reverberou por seus ossos, como um toque fantasma, enredou-se, afiado tal qual espinhos em sua pele, penetrando-a e deformando-a, fizera os m\u00fasculos se contra\u00edrem como ferro, a dor espalhar-se, amortecida, com a promessa silenciosa que apenas sangue e viol\u00eancia eram capazes de compreender. Presas afiadas projetavam-se para fora de seus l\u00e1bios retorcidos e ressecados, como um monstro aprisionado em um corpo humanoide pronto para ser libertado; levara a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao rosto, puxou a corda do arco para tr\u00e1s, a madeira de freixo empalidecida, cintilando sob a penumbra da luz noturna, voltada em dire\u00e7\u00e3o aos dois Illyrianos.<br>\u2003\u2003N\u00e3o houve tempo para reagir. Quando Emhyr de fato percebeu a ponta afiada de ferro do objeto voltado em sua dire\u00e7\u00e3o, pouco pudera fazer se n\u00e3o recepcionar o golpe com viol\u00eancia. A flecha atravessou o ar com um zunido alto, um flash de colora\u00e7\u00f5es abstratas que n\u00e3o tardou a enterrar-se com viol\u00eancia na falange da asa esquerda de Emhyr. O golpe rasgara a membrana sens\u00edvel de sua asa, criando um buraco. O rapaz desabou com viol\u00eancia no ch\u00e3o, o grito abafado pelo chamado de Cassian. O pai gritou por seu nome, com um rugido visceral, antes de al\u00e7ar sua espada. Girou-a no ar com um arco elegante, preciso, deixando-se pousar com for\u00e7a contra o solo irregular, seus <em>sif\u00f5es<\/em> acionados. Emhyr, por sua vez, atingiu com viol\u00eancia o ch\u00e3o; rolou por um pequeno desfiladeiro entre as \u00e1rvores e pedregulhos soltos que compunham o solo est\u00e9ril das montanhas, antes de chocar-se contra um tronco morto. A princ\u00edpio apenas desorienta\u00e7\u00e3o lhe fez companhia.<br>\u2003\u2003Dor espalhou-se de forma let\u00e1rgica, pulsando por seu corpo, amortecendo o que ainda estava em funcionamento. Sangue escorreu por entre as membranas e ossos de sua asa ferida, os m\u00fasculos tremeram, contraindo-se, esticando sob a pele por instinto, tentando encontrar uma forma de normalizar-se, ao menos estabilizar-se, com o equil\u00edbrio prejudicado, mas de nada adiantou. Sentiu como se parte de suas asas estivessem em chamas, enquanto pedregulhos do solo est\u00e9ril das montanhas fincavam-se em sua pele, cortando superficialmente o rosto, grudando ao uniforme. Piscou algumas vezes, tentando recobrar seu foco, mas seus olhos estavam enevoados. Obrigou-se a colocar-se de p\u00e9 al\u00e7ando as duas espadas curvas que tinha presas em suas costas, a <em>tempo<\/em> de observar seu pai ser bloqueado pela criatura.<br>\u2003\u2003O tempo pareceu desacelerar ao redor de si, estendendo-se como uma malha flex\u00edvel igualmente grossa, pairando sobre seus ombros como chumbo, empurrando-o para baixo em queda livre. Um estalo ecoou por seu ouvido esquerdo, e ent\u00e3o, de repente, parecia estar debaixo d\u2019\u00e1gua; o som parecia chegar atrasado, abafado em seus ouvidos, desconexo, acompanhados apenas pelo martelar fren\u00e9tico de sua pulsa\u00e7\u00e3o, sua car\u00f3tida latejava contra a pele de seu pesco\u00e7o, mais acentuado do que deveria, sentiu os cascalhos presos em sua pele, deslocando-se e desabando ao ch\u00e3o ao seu redor, o calor do sangue escorrendo pela lateral de seu rosto, empapando seus cabelos, grudando-os contra a pele umedecida pelo ar g\u00e9lido das montanhas; podia sentir o cheiro pungente e met\u00e1lico do pr\u00f3prio sangue, mesmo o sabor amargo e levemente \u00e1rido da terra que lhe invadira os l\u00e1bios. Um tremor percorreu seu corpo, o cora\u00e7\u00e3o martelando, intenso contra seu peito, pareceu congelar no lugar quando seus olhos se encontraram brevemente com a criatura. Um grito irrompeu por seu peito, o desespero para alcan\u00e7ar o pai tornou-o err\u00e1tico.<br>\u2003\u2003Foi o <em>pior<\/em> erro que poderia ter cometido.<br>\u2003\u2003De repente as li\u00e7\u00f5es do pai, dos tios, e de in\u00fameros outros mestres na arte de combate que havia passado tempo ensinando-lhe as t\u00e1ticas, corrigindo sua postura, ensinando-o a como estudar os golpes e como impedi-los de feri-lo seriamente, assegurando-se da efetividade em combate que Emhyr passara <em>anos<\/em> treinando e melhorando para ter, foi completamente abandonada. Esquecida, como poeira arrastada ao vento. Nunca estivera sequer ali.<br>\u2003\u2003Do buraco que jazia ao centro de seu peito, formou-se a tempestade que engoliu quaisquer resqu\u00edcios de racionalidade. Desabrochou com o desespero latente, a necessidade de alcan\u00e7ar Cassian antes que a criatura pudesse encontrar um ponto fraco para destru\u00ed-lo; n\u00e3o percebeu o qu\u00e3o mais lento era, o qu\u00e3o mais despreparado e vulner\u00e1vel encontrava-se. N\u00e3o percebeu sequer <em>como<\/em> o movimento que fizera, avan\u00e7ando para alcan\u00e7ar o pai, o havia tirado do foco instintivo com o combate em m\u00e3os. O foco de Cassian desapareceu, permeado pelo medo e a preocupa\u00e7\u00e3o, desvirtuou-se da criatura que avan\u00e7ava em sua dire\u00e7\u00e3o para voltar-se na dire\u00e7\u00e3o do filho adotivo.<br>\u2003\u2003O grito borbulhou por seu peito projetando-se por sua garganta, mas nunca deixou seus l\u00e1bios. A criatura acertou um golpe preciso na altura do peito de Cassian, lan\u00e7ando-o para tr\u00e1s com viol\u00eancia. Emhyr gritou, o rosnado enfurecido, quase enlouquecido, err\u00e1tico pelo medo e a amea\u00e7a iminente, reverberou por sua garganta, como o bradar de uma guerra, cortante, ao girar sua espada e desenhar um arco pelo ar, tentando acertar de forma precisa o bra\u00e7o do monstro. Mas Emhyr era mais lento. A criatura com chifres de cervo, lan\u00e7ou-se graciosamente para a esquerda, girando como uma brisa suave de inverno, carregada pelo aroma de terra molhada e floresta, desviando do golpe de Emhyr, ao mesmo tempo que retirava outra flecha de sua aljava, preparando-se para enrosca-la em seu arco.<br>\u2003\u2003A espada de Emhyr atravessou o bra\u00e7o da criatura com um choque met\u00e1lico que reverberou pelo espa\u00e7o. Um grito animalesco, monstruoso, escapou por entre os dentes cerrados da criatura e com um espasmo muscular, lan\u00e7ou a cabe\u00e7a para a esquerda, tentando acertar Emhyr. As galhadas, afiadas, cortaram o rosto, fincaram-se em seu flanco direito, profundo o suficiente para arrancar sangue, mas n\u00e3o o suficiente para mat\u00e1-lo de fato. Arrastou-se para tr\u00e1s, tentando soltar-se da carne que estava presa, aumentando o ferimento, e fazendo Emhyr ser cegado pela dor lancinante que percorreu seu corpo.<br>\u2003\u2003Emhyr agarrou com for\u00e7a a ossada, tentando empurr\u00e1-la para tr\u00e1s. Agitou as asas, os cascalhos da terra est\u00e9ril abaixo de si agitaram-se com a desloca\u00e7\u00e3o abrupta de vento, tentando al\u00e7ar-se um pouco para cima, antes de chutar o peito da criatura com toda a for\u00e7a que tinha. Emhyr desabou no ch\u00e3o com um grunhido de dor, enquanto o monstro cambaleou para tr\u00e1s. Os olhos fissurados em Emhyr; uma promessa violenta pairando por eles. O rapaz lan\u00e7ou-se para a esquerda, tentando obrigar-se a ficar de p\u00e9, com tempo o suficiente para apenas bloquear uma nova investida da criatura. Emhyr usou seu antebra\u00e7o esquerdo no momento que a criatura tentou fincar uma de suas flechas no olho do illyriano. A madeira de freixo queimou a pele do jovem, o sangue escorreu por entre os m\u00fasculos tensionados revestidos por sua armadura, a dor explodiu por sua mente amortecendo tudo. Mas foram os <em>olhos<\/em> da criatura que o fizera pausar.<br>\u2003\u2003Lembravam os de <em>Nyx<\/em>.<br>\u2003\u2003Escuros como a noite, obscurecendo toda a \u00f3rbita at\u00e9 que apenas restasse-lhe um buraco vazio encarando-o de volta. Eram os mesmos olhos que Nyx tinha na noite em que ele havia matado Mav, quando o tocara por instinto e o menino desapareceu como poeira; quando os dois perceberam <em>o que<\/em> Nyx havia se tornado. O mesmo semblante p\u00e9treo e violento, silencioso como o de um predador. Emhyr havia engolido em seco, em choque com a percep\u00e7\u00e3o que se apresentava agora, questionando-se o que diabos eles haviam encontrado, quando, sem mesmo perceber, deixou sua guarda baixar. Choque foi tamanho que Emhyr n\u00e3o percebeu que o pai estava em cima da criatura at\u00e9 t\u00ea-lo visto enterrar a espada no peito do monstro com galhadas. Cassian rugiu alguma coisa que Emhyr n\u00e3o conseguiu entender na hora, mas que, <em>agora<\/em>, percebera o que era: \u201c<em>corra\u201d<\/em>; o pai chutou-o com a perna esquerda, tentando lan\u00e7\u00e1-lo para longe do confronto, quando a criatura se voltou novamente para Cassian.<br>\u2003\u2003Emhyr trope\u00e7ou em suas pernas, desabando bruscamente contra o ch\u00e3o, o grito, preso na garganta, morreu abruptamente quando os olhos registraram as garras do monstro fincarem-se no rosto de Cassian. Cassian rugiu outra vez, como um animal selvagem enlouquecido pelo pr\u00f3prio instinto, mas o que aconteceu depois foi apenas um borr\u00e3o intelig\u00edvel de movimentos. Cassian decepou a mand\u00edbula da criatura, que desabou no ch\u00e3o em uma po\u00e7a sangrenta, nojenta, chutou o abd\u00f4men do monstro que cambaleou um pouco para tr\u00e1s, arrancando por consequ\u00eancia a espada enterrada no peito, e ent\u00e3o, girou preparando-se para cortar o tronco ao meio. A m\u00e3o da criatura enterrou-se no peito de Cassian.<br>\u2003\u2003Por um momento Emhyr teve certeza de que <em>aquele<\/em> seria o fim. O choque transcrito em sua face pareceu apenas empalidecer ainda mais sob a penumbra da lua, os olhos arregalados fixos na cena, ao tentar for\u00e7ar-se a mover outra vez; Emhyr estava congelado. A princ\u00edpio, Cassian n\u00e3o pareceu perceber o ferimento, tentando manter o aperto na base da espada, ainda a girando na dire\u00e7\u00e3o da criatura, mas ent\u00e3o, suas m\u00e3os fraquejaram. O tilintar da l\u00e2mina atingindo o ch\u00e3o havia sido alto, perigosamente perturbador quando atingiu os ouvidos de Emhyr que a tudo apenas assistiu. As garras da criatura envolveram o cora\u00e7\u00e3o de Cassian, o olhar mortal fixo no semblante contorcido pela dor e pelo choque do General da Corte Noturna. Presas afiadas projetavam-se para fora de seu cr\u00e2nio agora pela metade, como um monstro aprisionado em um corpo humanoide cuja nem mesmo morte parecia aceitar de fato. Ent\u00e3o, com um pux\u00e3o abrupto, arrasou do peito de Cassian seu cora\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Emhyr gritou, ou ao menos, tivera a sensa\u00e7\u00e3o de que havia gritado, mas n\u00e3o sentiu nada, n\u00e3o ouviu nada. Tudo pareceu estar amortecido, envolto por uma penumbra sufocante focalizada apenas no corpo do pai desabando para tr\u00e1s. N\u00e3o houve sangue, todavia, o buraco que se abriu no peito de Cassian era apenas um amontoado de sombras que corro\u00eda a armadura, a pele abaixo do tecido protetor de seu pai, como uma mancha profunda; nas m\u00e3os do monstro, o cora\u00e7\u00e3o de seu pai <em>ainda batia<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong><em><abbr data-title=\"a frase 'Am fear a bhios air dheireadh beiridh a' bhiast air' \u00e9 um ditado ga\u00e9lico popular que se traduz para o ingl\u00eas grosseiro como 'Him that\u2019s last the beast will catch' que traduzindo para o literal ficaria algo como 'aquele que fica por \u00faltimo a fera pega', um ditado popular equivalente aqui \u00e9 o 'se correr o bicho pega, se ficar o bicho come'.\">Am fear a bhios air dheireadh beiridh a\u2019 bhiast air<\/abbr><\/em><\/strong> \u2014 a criatura havia rosnado, o sussurro do monstro ecoou pelos ouvidos de Emhyr mesmo ap\u00f3s ter se percebido de volta em casa. Mesmo naquele maldito quarto apertado, sufocante.<br>\u2003\u2003Cassian n\u00e3o havia tido sequer uma chance.<br>\u2003\u2003Ainda mais nojento era a percep\u00e7\u00e3o de que Emhyr havia cometido o maior erro de sua vida ao perder o controle de si. Sentiu a inutilidade de todos aqueles anos, treinando, preparando-se para enfrentar um inimigo invis\u00edvel, cultivando a frieza que lhe fora ensinada durante um combate havia sido completamente esquecida no momento em que Emhyr viu o pai tornar-se alvo. <em>Isso<\/em> havia lhe custado tudo. Emhyr ainda n\u00e3o havia falado com Nestha; n\u00e3o tinha <em>coragem<\/em> de encarar a mulher que o havia aceitado em sua mesa, tratando-o como filho e um dos seus e contar a ela que se Cassian agora estava em algum tipo de estado entre a vida e a morte, com tia Amren analisando o ferimento ao ponto da exaust\u00e3o, era culpa inteiramente <em>dele<\/em>. Como poderia encarar a m\u00e3e e pedir-lhe perd\u00e3o? Emhyr sabia que o la\u00e7o de parceria tendia a criar uma conex\u00e3o para al\u00e9m da compreens\u00e3o comum, eram como uma alma dividida em <em>dois corpos<\/em>; n\u00e3o era apenas para reprodu\u00e7\u00e3o. Sabia que ela provavelmente deveria ter sentido algo no momento que a criatura arrancou o cora\u00e7\u00e3o do pai, sabia que aquilo a assombraria pelo resto da vida; certamente assombraria <em>a ele<\/em>. A \u00fanica coisa que ele conseguiu fazer foi arrastar-se at\u00e9 seu quarto, e lutar contra as l\u00e1grimas, tentando compreender a extens\u00e3o do problema em que eles se encontravam agora.<br>\u2003\u2003<em>O que<\/em> era aquela criatura, e <em>qual<\/em> sua conex\u00e3o com Nyx? Nyx <em>havia<\/em> se tornado como eles? Demoraria mais <em>quanto<\/em> tempo at\u00e9 que fosse a mesma coisa? E o <em>que<\/em> quisera dizer para Emhyr? Um arrepio percorreu por sua coluna, enviando uma onda nauseante de adrenalina e terror por baixo da pele ferida do illyriano.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o precisa falar se n\u00e3o conseguir. \u2014 A voz de Rhysand alcan\u00e7ou seus ouvidos mais gentil do que jamais lembrara de ter ouvido. Emhyr n\u00e3o respondeu, mas as l\u00e1grimas que se acumularam em seus olhos amea\u00e7avam escorrer por sua face, queimaram, presas, em sua garganta, como se de repente, vinhas que amea\u00e7avam sufoc\u00e1-lo, amortecidas demais para percep\u00e7\u00e3o imediata; desistente demais para importar-se. Os passos do tio ecoaram pelo quarto, vago e distante, mesmo para os ouvidos de Emhyr que n\u00e3o moveu um m\u00fasculo sequer para encar\u00e1-lo. A vergonha era mais forte do que o desespero pelo consolo oferecido. \u2014 Mas estou <em>aqui<\/em>, caso queira. <em>Quando<\/em> quiser falar.<br>\u2003\u2003Emhyr fez uma careta, engasgando-se com sua pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o. Fechou os olhos, escolhendo ocultar qualquer vis\u00e3o que pudesse ter a encarar o tio. Rhysand exalou baixo, parando ao lado de Emhyr, e ent\u00e3o sentando-se ali. Por um longo momento, o sil\u00eancio se estendeu ao redor deles, permeado apenas pelo pequeno tilintar distante dos galhos batendo contra o vidro da janela de seu quarto. Sentiu a m\u00e3o c\u00e1lida de seu tio repousar em seu ombro esquerdo, uma pequena press\u00e3o que pareceu apenas aumentar o peso que o puxava para baixo, que o sufocava t\u00e3o facilmente.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 minha\u2026 \u2014 Emhyr solu\u00e7ou ap\u00f3s um longo momento em sil\u00eancio. Engasgou-se com o peso das palavras, solu\u00e7ou alto, tremeu sob o frio do vazio que agora o consumia, encolheu-se como quem desejava apenas desaparecer. Pesado manto era a culpa que t\u00e3o deliberadamente vestiu. As l\u00e1grimas escorreram por sua face, esvaindo-se com mais fluidez do que suas palavras. \u2014 \u00c9 minha\u2026 <em>culpa<\/em>\u2026 se\u2026<br>\u2003\u2003Rhysand n\u00e3o respondeu de imediato, parecendo estar escolhendo as palavras certas, mas quando o fez, encarava diretamente o rosto de Emhyr, buscando seu olhar.<br>\u2003\u2003\u2014 Acredita mesmo que possui culpa nisso? \u2014 Rhysand questionou com um tom categ\u00f3rico, cauteloso demais para ser reconfortante, c\u00ednico demais para lhe revelar o que de fato estava pensando. Ent\u00e3o, com um suspiro pesado, Rhysand soltou o ombro de Emhyr, se permitindo recostar-se contra a lateral da cama que outrora pertencera ao rapaz. \u2014 Sempre achei estranho como voc\u00eas dois se parecem, mas sendo quem somos n\u00e3o posso dizer que \u00e9 uma surpresa. \u00c0s vezes, n\u00f3s mesmos encontramos nossas fam\u00edlias, nossas pe\u00e7as complementares \u2014 Rhysand resmungou com um tom de voz baixo, grave, parecendo perdido entre seus pr\u00f3prios pensamentos e uma tentativa envergonhada de consolar o rapaz inconsol\u00e1vel. Emhyr engoliu em seco, obrigando-se a controlar o choro, tentando parecer t\u00e3o imponente quanto via o pai e os tios apresentarem-se, tentando dominar a dor e a culpa que o sufocavam, antes de lan\u00e7ar um olhar de soslaio para o tio, incapaz de dizer alguma coisa. \u2014 Voc\u00ea j\u00e1 era filho deles antes mesmo de o encontrarmos, <em>por que<\/em> escolher <em>justamente<\/em> agora carregar a culpa de algo que Cassian teria feito com ou sem voc\u00ea l\u00e1? Se \u00e9 para punir a si mesmo, Emhyr, <em>no que<\/em> isso ir\u00e1 ajud\u00e1-lo?<br>\u2003\u2003Emhyr n\u00e3o respondeu, apenas encarou o tio por um momento.<br>\u2003\u2003Rhysand sempre havia sido considerado um dos machos mais bonitos de Prythian. Emhyr costumava fazer piada e debochar de Nyx por isso, porque ambos eram parecidos e apelidar Nyx nunca fora algo dif\u00edcil \u2014 especialmente quando Nyx ficava com raiva, o apelido acabava por gerar ainda mais r\u00e1pido. Mas agora, parecia estranhamente mais velho, mais <em>cansado<\/em>. Linhas se formavam nos cantos de seus olhos e sobre o cenho, Emhyr se questionou se era de tanto franzi-lo com preocupa\u00e7\u00e3o pelo filho pr\u00f3digo que havia ficado assim. Os cantos dos l\u00e1bios pareciam ter uma propens\u00e3o para repuxarem para baixo e os olhos violetas pareciam estar sempre cobertos com uma sombra; algo o assombrava, algo que ningu\u00e9m parecia saber se n\u00e3o tia Feyre. Emhyr perguntou-se o que diabos seria, e se isso <em>ainda<\/em> era sobre Nyx, ou se havia se tornado <em>algo mais<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o estava l\u00e1\u2026 voc\u00ea n\u00e3o viu\u2026 \u2014 Emhyr tentou argumentar, justificar seu pr\u00f3prio desprezo por si mesmo, a pr\u00f3pria vergonha de uma forma que o fizesse compreender sua indignidade, mas Rhysand apenas o silenciou com um olhar. Emhyr moveu sua mand\u00edbula, tentando engolir seus argumentos. Uniu as sobrancelhas e voltou a encarar suas m\u00e3os com uma ponta de temor que n\u00e3o lhe era caracter\u00edstica desde que havia se tornado um rapaz. \u2014 O que diabos era aquilo, tio?<br>\u2003\u2003Rhysand n\u00e3o respondeu. Emhyr percebeu de imediato que Rhysand sabia <em>exatamente<\/em> o que aquela criatura era, mas n\u00e3o lhe contaria. Ao menos, <em>n\u00e3o ainda<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu pai\u2026 ele vai\u2026? \u2014 Emhyr for\u00e7ou-se a perguntar, sentindo seu cora\u00e7\u00e3o ficar do tamanho de uma noz, contra\u00eddo e dolorido, enquanto, por um momento, prendia a respira\u00e7\u00e3o, esperando pela resposta. Os olhos queimaram com um desespero crescente, permeado pela culpa e desalento. \u2014 Aurora j\u00e1 sabe\u2026?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sabemos, eu sinto muito, Emhyr \u2014 Rhysand respondeu com um tom de voz mais baixo, cauteloso, encarando Emhyr por um longo momento antes de suspirar pesado. \u2014 Amren acabou de enviar uma mensagem para Azriel, ir\u00e1 pedir para que retornem assim que conseguirem, um assunto urgente. Uma vez que todos estiverem aqui, n\u00f3s iremos encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para esse problema, <em>isso<\/em> eu posso prometer a voc\u00ea, mas por ora, Nestha gostaria que voc\u00ea fosse ficar com ela, quer ter certeza de que <em>voc\u00ea<\/em> est\u00e1 seguro tamb\u00e9m\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Temos problemas, Rhysand! \u2014 A voz de Amren interrompeu abruptamente. Ecoou baixa, mas ainda assim comandou aten\u00e7\u00e3o, como sempre.<br>\u2003\u2003Os olhos prateados da fe\u00e9rica pequena desviaram-se por um momento, repousando em Emhyr, e o rapaz sentiu-se envergonhado pelo estado que se encontrava; o rosto manchado pelas l\u00e1grimas e a culpa, o corpo encurvado como uma crian\u00e7a em desalento, quando a ver\u00f5es j\u00e1 era um adulto, altivo e capaz. Agradeceu mentalmente por Amren ao menos n\u00e3o o encarar como se ele fosse um coitado, por ela n\u00e3o tentar consol\u00e1-lo, n\u00e3o se sentia mais digno de tal d\u00e1diva; havia ainda assim compreens\u00e3o nos olhos da f\u00eamea, mas n\u00e3o era envolto por autoindulg\u00eancia ou pesar, era o olhar de um comandante ao reconhecer a quebra de seu guerreiro, mas que ainda assim comandava a for\u00e7a necess\u00e1ria para continuar seguindo em frente. Desejou sair como uma tempestade para fora de seu quarto, mas conteve-se; n\u00e3o por seu ego fragmentado, por sua culpa e pesar, mas pela maneira com que Amren havia desviado os olhos, encarando Rhysand diretamente.<br>\u2003\u2003Emhyr nunca havia entendido com exatid\u00e3o como funcionavam os poderes de <em>Daemati<\/em> do tio, sabia que ele, Feyre e mesmo <em>Nyx<\/em> os possu\u00edam. Uma habilidade perigosa e poderosa que poderia <em>quebrar<\/em> algu\u00e9m completamente se eles assim desejassem, \u00e9 claro, exigia pr\u00e1tica, mas a ideia de uma comunica\u00e7\u00e3o vinda inteiramente de sua mente, era suficientemente desconfort\u00e1vel para Emhyr sentir-se estranhamente vulner\u00e1vel. Viu Amren estreitar os olhos, em sil\u00eancio, e o rosto de Rhysand contorcer-se; onde outrora havia aquela compreens\u00e3o e gentileza quase ensaiada para consolar Emhyr, agora havia o princ\u00edpio de uma f\u00faria c\u00e1lida e perigosa. Era como observar uma pequena fagulha <em>come\u00e7ando<\/em> a incendiar a lenha, ainda era pequena, mas n\u00e3o demoraria muito para que se tornasse um fogar\u00e9u. A sombra que se projetava nos olhos violetas do tio pareceram aumentar, a mand\u00edbula dele se tencionou com um estalo.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Tragam-no para casa, <strong>agora!<\/strong><\/em> \u2014 praguejou Rhysand de s\u00fabito, e Emhyr n\u00e3o teve que se esfor\u00e7ar muito para adivinhar a <em>quem<\/em> seu tio referia-se. <em>Nyx<\/em>, \u00e9 claro. Quem mais poderia ser? O tom de Rhysand assumia aquele tom de frustra\u00e7\u00e3o, permeado por dor, culpa e preocupa\u00e7\u00e3o profunda <em>sempre<\/em> que se referia ao filho, e <em>somente<\/em> quando era algo sobre o filho. Emhyr sentiu a tens\u00e3o voltar a espalhar-se por seu corpo, colocando-se de p\u00e9 em um momento. As sobrancelhas unidas, indo para o tio e ent\u00e3o para Amren e ent\u00e3o de volta para o tio.<br>\u2003\u2003\u2014 O que aconteceu? O que Nyx fez dessa vez? \u2014 perguntou Emhyr com um pequeno pesar em sua consci\u00eancia. Fizera tudo t\u00e3o errado assim? Quando Nyx havia pedido para trocar de lugar na incurs\u00e3o, Emhyr havia acreditado que o fizera apenas pelo despeito de ficar longe da fam\u00edlia ou de ter que elaborar o que realmente estava se passando em sua mente com Cassian. De todos ali, era <em>Cassian<\/em> quem sempre conseguia quebrar Nyx, mesmo que precisasse usar for\u00e7a bruta para isso, Emhyr n\u00e3o havia pensado que poderia ter <em>algo<\/em> por tr\u00e1s. Mas ent\u00e3o, lembrou-se da express\u00e3o do melhor amigo, a maneira com que seu rosto pareceu perder-se em pensamentos e ent\u00e3o, subitamente iluminou-se com aquela ideia. Pela m\u00e3e, o que ele havia feito? Se algo tivesse acontecido, se <em>Aurora<\/em> estivesse em perigo\u2026 \u2014 Responda! \u2014 Apertou Emhyr, quase desesperado, sem ocultar a impaci\u00eancia que come\u00e7ava a crescer em seu peito.<br>\u2003\u2003\u2014 Houve um incidente na Corte Invernal \u2014 foi Amren quem disse, sua voz mais fria e irritadi\u00e7a do que Emhyr j\u00e1 havia a visto expressar. Aquilo n\u00e3o era bom. Nem um pouco bom. Emhyr uniu as sobrancelhas, questionando-se o qu\u00e3o idiota poderia ter sido por confiar em Nyx, o qu\u00e3o est\u00fapido era por ter aceitado a troca; teria ele condenado n\u00e3o apenas o pai, mas igualmente a jovem que\u2026? \u2014 Nyx pode ter <em>acabado<\/em> de come\u00e7ar uma guerra entre nossas cortes.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>NYX<\/strong> \u2022 <strong>CORTE INVERNAL<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Nyx ofegou. Os dedos apertaram-se com um pouco mais de for\u00e7a ao redor da frente da roupa umedecida e manchada de sangue de %LaFay%; olhos arregalados voltavam-se na dire\u00e7\u00e3o das criaturas que se projetavam por entre as \u00e1rvores congeladas, arrastando-se como espectros, aproximando-se mais e mais de onde estava para ent\u00e3o fixar no rosto empalidecido da jovem. Em algum momento, ela havia parado de responder, sequer parecia estar respirando; isso piorou tudo. Ele sabia que deveria estar satisfeito, e uma parte de si gritava para que ele simplesmente a deixasse para tr\u00e1s. Gritava para que corresse para longe, seguiria pela margem do lago at\u00e9 conseguir encontrar um espa\u00e7o para limpar o sangue de suas m\u00e3os, de suas roupas, e ent\u00e3o, deveria seguir de volta para casa. Poderia criar uma desculpa qualquer, justificar sua aus\u00eancia, poderia dizer a tio Azriel que ele havia se perdido da garota, que depois que havia ca\u00eddo na \u00e1gua foram separados pela brutalidade da correnteza e pouco poderia saber o que havia acontecido com ela. Poderia encontrar uma forma convincente para manter sua palavra, projetar falsas provas, poderia at\u00e9 mesmo usar de seus poderes como <em>Daemati<\/em> para distorcer mem\u00f3rias se fosse necess\u00e1rio. Nyx <em>podia<\/em> escapar daquilo ileso, e talvez o tivesse feito; %Cerci% %LaFay% era nada mais do que um verme, a precursora da maldi\u00e7\u00e3o que o havia aprisionado naquela forma, que o havia feito perder tudo e condenado a lidar com monstros que os cercavam pelas sombras. Ela <em>merecia<\/em> a morte! Merecia <em>morrer<\/em> e ainda n\u00e3o pagaria sequer por metade de tudo que havia lhe feito passar.<br>\u2003\u2003<em>Ele<\/em> a queria <em>morta<\/em>. A quisera morta por tanto tempo que a mem\u00f3ria havia se tornado difusa e distante, um sopro invis\u00edvel por tr\u00e1s da mente em tormento. Mas <em>ele<\/em> n\u00e3o era um assassino. N\u00e3o sem uma raz\u00e3o, n\u00e3o sem uma motiva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sem ser a <em>\u00faltima<\/em> escolha, o \u00faltimo recurso. Ele nunca havia <em>matado<\/em> de fato algu\u00e9m; lutara, \u00e9 claro, e at\u00e9 mesmo ca\u00e7ara criaturas ao lado dos membros da <em>Ca\u00e7ada Selvagem<\/em> de <em>Arwan<\/em>, mas ele nunca havia assistido a efemeridade da vida de um desconhecido lentamente desaparecer de seus olhos, nunca havia visto de perto a palidez grotesca da pele come\u00e7ar a aumentar, e nunca havia sido banhado em tanto sangue. Sequer pudera imaginar que algu\u00e9m do tamanho dela, de sua forma, poderia ter <em>tanto<\/em> sangue assim.<br>\u2003\u2003Talvez, percebeu com uma ponta de assombro, ele n\u00e3o a <em>quisesse<\/em> matar; talvez, ele desejasse que fosse morta, mas que seu sangue n\u00e3o lhe manchasse as m\u00e3os. Ou talvez, fosse aquele maldito impulso doloroso que se espalhava agora por seu peito, como uma linha sendo tensionada ao ponto de ruptura. Enroscava-se ao redor de seu cora\u00e7\u00e3o, o esmagando, como se estivesse sendo arrastado para longe, e de alguma forma, podia senti-lo preso a <em>ela<\/em>; dourado, desvanecendo. E Nyx odiou o sentimento, a conex\u00e3o, mas mais do que isso, desesperou-se por perd\u00ea-la. Porque em algum momento, a corda se partiu, e tudo o que ele sentiu foi apenas um vazio desesperador consumindo o que restara de sua alma. Seu cora\u00e7\u00e3o martelou de forma furiosa contra seu peito, os dedos, tr\u00eamulos, agarraram a frente da blusa dela, rasgando para expor o tronco, com um \u00fanico prop\u00f3sito de fechar o ferimento. Seus ouvidos pareciam amortecidos ao som de seu pr\u00f3prio pulsar, e sua respira\u00e7\u00e3o, err\u00e1tica, o fizera engasgar-se, ainda tentando compreender a dimens\u00e3o do que havia feito.<br>\u2003\u2003Fuja, praguejava para si mesmo, fuja antes que descubram, antes que a encontrem. Destrua o corpo, finja que ela se afogou e que as criaturas daquele lugar a devoraram; n\u00e3o conseguia. Em um gesto desesperado, levou o punho da camisa em dire\u00e7\u00e3o a boca, ignorando o gosto pungente do sangue dela quando sua l\u00edngua <em>quase<\/em> tocou o tecido, a repulsa imediata amortecida pelo senso de urg\u00eancia. Fincou os dentes no material e o rasgou com um puxar de sua cabe\u00e7a; n\u00e3o percebeu o erro que havia cometido at\u00e9 que seus dedos se enroscaram no tecido, desesperado para enrol\u00e1-lo e us\u00e1-lo como um curativo improvisado que obrigaria o sangue estancar pela press\u00e3o. Uma fra\u00e7\u00e3o de segundos foi o que bastou para que o tecido se desfizesse em poeira; quando Nyx estendeu o tecido na dire\u00e7\u00e3o do ferimento, j\u00e1 havia desaparecido por completo. Nyx grunhiu entre dentes, percebendo tardiamente que n\u00e3o conseguia tocar em nada sem que o desintegrasse. Sua pulsa\u00e7\u00e3o aumentou drasticamente, o martelar tornou-se visceral, espalhando-se como ondas de choque cont\u00ednuo por seu corpo, enquanto a urg\u00eancia lentamente transformava-se em uma contri\u00e7\u00e3o em seu peito.<br>\u2003\u2003A respira\u00e7\u00e3o tornou-se mais irregular, a garganta parecia ficar mais e mais seca, a cada vez que sua respira\u00e7\u00e3o escapava por entre seus l\u00e1bios entreabertos, aud\u00edvel, uma lufada de ar \u00e1spero que mal poderia controlar velocidade. Os olhos lacrimejavam com a fuma\u00e7a esbranqui\u00e7ada que seu h\u00e1lito se tornava, a pele ardia com o vento g\u00e9lido que o tocava. A press\u00e3o esmagadora em seu peito pareceu aumentar, dolorosa, visceral, projetava-se sobre si como um amontoado de pedras, esmagando-o contra o ch\u00e3o; voltou-se ao redor, buscando por pedras, algo que pudesse dar in\u00edcio a um fogar\u00e9u, ainda que fosse apenas para manter a criaturas que se aproximavam de onde estavam, mas os dedos mal tocavam nas pedras, nos galhos, nos filetes de grama congelado, e tudo tornava-se cinzas. Seu est\u00f4mago contorceu-se ao perceber que n\u00e3o poderia tocar em nada. Voltou a linha de seu olhar na dire\u00e7\u00e3o do rosto empalidecido da jovem, e por impulso tocou na face dela, esperando que esta dissolvesse-se nas cinzas como Mav havia feito muito tempo atr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Uma onda el\u00e9trica percorreu por seu bra\u00e7o como est\u00e1tica, pareceu queimar estalando sob a pele, arrepiando os pelos de seus bra\u00e7os. Seu f\u00f4lego lhe foi tomado, os olhos, arregalados, permaneceram fixos no rosto dela, ao perceber tardiamente, que nada havia acontecido. Algo sombrio cruzou por sua face, uma f\u00faria mal contida causada pela injusti\u00e7a de toda a situa\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo, o amargor pungente da percep\u00e7\u00e3o do que se apresentava \u00e0 sua frente; suas entranhas contorcer-se com o peso da c\u00f3lera crescente. Ele podia toc\u00e1-la; sua maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha sequer efeito <em>nela<\/em>. As pontas dos dedos encontraram com a pele macia de seu rosto, sentindo o calor que se esva\u00eda rapidamente de seu corpo. Pressionou com for\u00e7a os dedos contra a pele dela, sem conseguir conter o impulso.<br>\u2003\u2003Por tantos anos sentiu-se preso a um limbo de desespero e frustra\u00e7\u00e3o, desejando poder ser capaz de tocar algu\u00e9m, de sentir o contato da pele de outra pessoa, de outra coisa, um <em>objeto<\/em> que fosse, com as pontas dos dedos; desejava ao menos poder segurar um talher sem que este se desfizesse em cinzas. H\u00e1 tanto tempo que convivia com aquela maldi\u00e7\u00e3o, que havia deixado de lembrar-se da sensa\u00e7\u00e3o das coisas: como era tocar o tecido de linho das t\u00fanicas e do couro dos uniformes illyrianos, a sensa\u00e7\u00e3o fria do metal abaixo de sua pele, a sensa\u00e7\u00e3o do vento passando por entre seus dedos sem que o tecido das luvas atrapalhasse ou causasse desconforto. Pela M\u00e3e, a sensa\u00e7\u00e3o de poder tocar a <em>pele<\/em> de algu\u00e9m, de sentir a maciez e o relevo de pequenas cicatrizes, <em>qualquer coisa<\/em>. E o qu\u00e3o ir\u00f4nico era que, no fim, a \u00fanica pessoa que sua maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o possu\u00eda efeito algum, era justamente aquela que ele <em>desejava<\/em> profundamente que o tivesse.<br>\u2003\u2003Suas unhas fincaram-se ao redor do rosto dela, sentindo a pele macia e delicada ceder um pouco com o movimento, e Nyx sentiu vontade de gritar. Pela primeira vez, em muito tempo, seus olhos queimaram com l\u00e1grimas duramente contidas. N\u00e3o choraria, n\u00e3o conseguia, mas n\u00e3o do\u00eda menos. Porque de todos tinha que ser <em>ela<\/em>\u2026 um grunhido partiu alto das criaturas, violento, retumbando pelo zunido do vento invernal, capturando a aten\u00e7\u00e3o dele outra vez. Am\u00e1lgama amargo, vil, escapou de seus l\u00e1bios entreabertos em algo que nem era um rosnado, nem um solu\u00e7o, permeado pela frustra\u00e7\u00e3o, acompanhado pela respira\u00e7\u00e3o irregular, escapando em lufadas fortes e r\u00e1pidas demais enquanto o c\u00e9rebro tentava decodificar tamanha revela\u00e7\u00e3o \u2014 <em>tamanha trai\u00e7\u00e3o<\/em> conferira o universo a <em>ele<\/em>. Soltou-a como um desavisado que ousara tocar em uma chama por curiosidade apenas para, no tardar de seu gesto impulsivo, perceber a queimadura que se espalhava em sua pele. Algo dentro de seu peito, podre e viscoso, fugitivo perverso, pareceu apertar-se, doloroso. Os olhos, marejados, queimaram com frustra\u00e7\u00e3o e f\u00faria as fei\u00e7\u00f5es p\u00e1lidas da jovem que ele havia acabado de tomar a vida.<br>\u2003\u2003As palavras que queria permitir-lhe rasgar a garganta n\u00e3o sa\u00edram, mas continuavam a repetir-se em sua mente como um mantra permeado por desalento: n\u00e3o era justo, n\u00e3o era justo que <em>ela<\/em> fosse sua exce\u00e7\u00e3o. Por que ela? Por que a garota que havia lhe roubado tudo? Por que n\u00e3o qualquer um? Por que <em>ele<\/em> estava condenado \u00e0quilo?<br>\u2003\u2003Dedos esquel\u00e9ticos, encurvados e g\u00e9lidos como a neve abaixo de seus joelhos agarraram-lhe os ombros, puxando-o com for\u00e7a para tr\u00e1s, rasgando a fina membrana de suas asas j\u00e1 defeituosas. Nyx voltou a si como quem quebrava a superf\u00edcie d\u2019\u00e1gua ap\u00f3s muito tempo submerso. O ar que lhe invadiu os pulm\u00f5es fora doloroso, lhe rasgou, comandando a entrada, mas foi o suficiente para ao menos tir\u00e1-lo daquele torpor sufocante. A neve agitou-se ao seu redor, flocos que pairavam pelo ar, carregados pelo vento, pareceram espiralar desnorteados, instinto cegou-o por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, e seus dedos fincaram-se na carne apodrecida, sentindo-a desfazer-se sob seu toque, enquanto um gorgolejo meio gritado, meio rosnado, escapava da boca da criatura. Seus olhos azuis fixaram-se no monstro, finalmente tendo uma clara vis\u00e3o do que o <em>sangue<\/em> de %LaFay% havia atra\u00eddo.<br>\u2003\u2003Monstros curvados, parcialmente congelados, parcialmente feitos de ossos. Alguns tinham as cabe\u00e7as decepadas pendiam para o lado ou para a frente, desabaram no ch\u00e3o, esquecidas, rolando pela neve com ru\u00eddos molhados, nauseantes. Outros possu\u00edam cascos, asas quebradas, garras amea\u00e7adoras tal qual predadores, presas que se contorciam para fora de seus cr\u00e2nios, sobressalentes, e mesmo <em>flores<\/em> e <em>espinhos<\/em> nascendo por baixo da pele como uma potente infec\u00e7\u00e3o, enroscando-se a carne fr\u00edgida, morta, em um emaranhado de n\u00f3s imposs\u00edveis congelados. Pareciam respirar como as criaturas, como se fosse <em>uma \u00fanica<\/em> coisa. Um <em>\u00fanico<\/em> ser. Olhos leitosos, vagos e vidrados, moviam-se cegamente pela beira do lago, reconhecendo-o como a amea\u00e7a que era, algo ruim, mas hesitando ao repousar em <em>%LaFay%<\/em>. Nyx arregalou os olhos, prendendo a respira\u00e7\u00e3o, os dentes, for\u00e7ados a trincar, pareciam mesmo assim tremer com o profundo alarde que tornava ref\u00e9m, rangendo. Poeira da criatura que havia se desfeito pareceu grudar em sua pele molhada como uma fina camada sobreposta aos flocos que derretiam-se com a temperatura de sua pele, os cabelos, igualmente agitados pelo vento, desfaziam-se em mechas, algumas grudando pela lateral de seu rosto, fazendo os cortes e arranh\u00f5es latejarem com maior intensidade, congelando o sangue que decorava as pontas de seus dedos.<br>\u2003\u2003As criaturas n\u00e3o haviam atacado %LaFay% como <em>ele<\/em> havia esperado que o fizessem. N\u00e3o haviam se deleitado com o banquete proporcionado, sequer arranhado; elas, como um \u00fanico sopro, colocaram-se de joelhos ao v\u00ea-la. Como suas <em>servas<\/em>. Foi somente <em>ent\u00e3o<\/em> que Nyx come\u00e7ou a compreender algo que h\u00e1 muito viera lutando para tentar ignorar. Seus olhos moveram-se entre as criaturas que avan\u00e7avam em sua dire\u00e7\u00e3o, garras afiadas tentando lhe cortar a garganta, rasgar a carne, puni-lo da forma que bem compreendiam para a jovem im\u00f3vel que largara no ch\u00e3o. Reconheciam-na como um deles, porventura, a viam como uma extens\u00e3o de si; sen\u00e3o muito, talvez apenas um espectro do que outrora fora. Ela n\u00e3o era como <em>Nyx<\/em>. N\u00e3o era uma <em>Gr\u00e3-Fe\u00e9rica<\/em> como Mav sup\u00f4s acalentado pela quietude das sombras da biblioteca da Casa do Vento; ela era uma <em>outra<\/em> coisa. Nyx sempre soubera que havia algo de errado, que ela deveria ser algum tipo de monstro ocultado por um rosto pequeno, franzino e assustado; a viu desaparecer e retornar como uma fagulha de luz. Ela <em>era<\/em> luz. N\u00e3o uma <em>gr\u00e3-fe\u00e9rica<\/em>, nem mesmo ninfa poderia ser considerada, ela sempre havia sido aquela <em>coisa<\/em>, a confirma\u00e7\u00e3o nauseante dos monstros que rastejavam do <em>Outro Lado<\/em>.<br>\u2003\u2003Ela <em>realmente<\/em> era uma <em>deles<\/em>. Uma <em>Tylwyth Teg<\/em>.<br>\u2003\u2003E aquela terra <em>sabia<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Bem? Suponho que finalmente finalizou seu espet\u00e1culo? \u2014 A voz calma, coesa, enviou uma onda g\u00e9lida de medo pela espinha de Nyx. Ele congelou no lugar, encarando com os olhos arregalados as criaturas mortas vivas, observando-as pararem, inclinando seus rostos distorcidos e brutalizados para vislumbrar algo que se encontrava <em>atr\u00e1s<\/em> dele. Um arrepio g\u00e9lido percorreu por sua pele, eri\u00e7ando os pelos de seu corpo, enviando uma onda de pura eletricidade por sua corrente sangu\u00ednea, seu cora\u00e7\u00e3o pareceu contorcer-se dentro da caixa tor\u00e1cica, martelando-a com viol\u00eancia.<br>\u2003\u2003Embora indiferente, havia uma conota\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora por baixo da seda das palavras que <em>Arwan<\/em> havia usado. Nyx engoliu em seco, um estalo percorrendo seus ouvidos abafados, o ar g\u00e9lido pareceu o corroer um pouco mais, roubando-lhe a voz. Prendeu a respira\u00e7\u00e3o ao passo que o tremor aumentou por seu corpo. Fechou suas m\u00e3os em punhos firmes, que tampouco fizeram algo para ocultar seu nervosismo. Os passos espectrais da criatura n\u00e3o possu\u00edam eco sobre o solo coberto pela neve, mas o cheiro pungente de petrichor, flores silvestres e algo primal, inteiramente e unicamente <em>daquelas<\/em> criaturas, agora era carregado com algo mais met\u00e1lico, profuso: <em>sangue<\/em>.<br>\u2003\u2003Nyx obrigou-se a voltar o pesco\u00e7o r\u00edgido para acompanhar com o olhar o rei dos Tylwyth Tegs. N\u00e3o havia quaisquer tra\u00e7os de pacifismo nos olhos de Arwan, mas seu rosto permaneceu p\u00e9treo, imposs\u00edvel de ser decifrado; ocultado por tr\u00e1s de uma m\u00e1scara acobreada no formato de um cr\u00e2nio pela metade, sem mand\u00edbula e arcada dent\u00e1ria inferior, com dois chifres de carneiro perigosamente afiados, Arwan n\u00e3o usava as roupas que <em>Nyx<\/em> havia se acostumado a ver; vestia-se para a <em>Ca\u00e7ada<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 ao menos digno de apre\u00e7o a vergonha que estampa seu rosto pela trai\u00e7\u00e3o que cometeu, filho de Archeron, mas ofende-me em demasia por <em>acreditar<\/em> que <em>voc\u00ea<\/em> poderia enganar-me. N\u00e3o achou mesmo que <em>voc\u00ea<\/em> conseguiria tal feito, achou?<br>\u2003\u2003Nyx estreitou os olhos, encarando a criatura com uma ponta de confus\u00e3o e tens\u00e3o. Tentou for\u00e7ar as palavras para fora de seus l\u00e1bios, mas n\u00e3o o poderia fazer mesmo se tentasse. Sua garganta parecia inchada, impossibilitando sequer a absor\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio, a boca estava seca, e o sangue de %LaFay% pareceu ser tudo o que sua <em>mente<\/em> percebia. Trincou os dentes com for\u00e7a, tentando obrigar-se a dar um passo para tr\u00e1s, mas cometeu o erro de acreditar que conseguira escapar de <em>Arwan<\/em>. O l\u00edder da Ca\u00e7ada Selvagem n\u00e3o era uma criatura da qual se poderia escapar, e se estava ali para acertar as contas, se estava ali para comandar respostas pela <em>maldita<\/em> monstruosidade que Nyx havia matado, ent\u00e3o o faria, e n\u00e3o haveria lugar algum, fosse em Prythian ou para al\u00e9m do continente, que Nyx poderia ir, que Arwan, o rei dos Tylwyth Tegs, <em>n\u00e3o<\/em> o encontraria. Deu mais um passo para tr\u00e1s, e desta vez, quando as solas cobertas pela neve de seus sapatos chocaram-se no ch\u00e3o, repousou sobre o m\u00e1rmore escuro, <em>liso<\/em> da sala do trono de Arwan; havia atravessado, sem mesmo <em>perceber<\/em> que o fizera para o <em>Outro Lado<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o comandei para que seguisse <em>apenas<\/em> as ordens de meu Arauto, filho de Archeron? \u2014 Arwan questionou, calmamente, mas o tom de voz comedido e sereno era nada <em>sen\u00e3o<\/em> amea\u00e7ador.<br>\u2003\u2003Nyx obrigou-se a dar mais um passo para tr\u00e1s, de repente, percebendo-se perigosamente <em>vulner\u00e1vel<\/em>. Os \u00e2ngulos afiados do rosto do rei dos Tylwyth Tegs, encobertos pelas sombras que o grande sal\u00e3o encurvado de seu trono esculpido em uma \u00e1rvore viva, o acentuava ainda mais, agora como navalhas. A beleza repugnante parecia distorcer-se ao crepitar de uma f\u00faria permeada pela satisfa\u00e7\u00e3o que a criatura parecia exibir conforme a lateral esquerda de seu rosto desfazia-se. Desmanchava-se abaixo da m\u00e1scara em formato de cr\u00e2nio an\u00f4malo, revelando o osso de <em>seu<\/em> cr\u00e2nio putrefato e com buracos de onde vermes deslizavam pelos tend\u00f5es mortos. Um de seus olhos permaneceu com aquele tom prateado perturbador, como a luz de uma estrela, queimando em intensidade, j\u00e1 o outro, pareceu dissolver-se em apenas um buraco, vazio. N\u00e3o havia nervos expostos ali, n\u00e3o havia nada sen\u00e3o um profundo abismo pintado como piche pela \u00f3rbita inteira; tal qual apto a engolir Nyx se ele n\u00e3o fosse cuidadoso. O olhar do <em>ca\u00e7ador<\/em>. Um estalo quase similar ao de madeira ecoou quando a criatura ergueu, desafiadoramente, o queixo, silenciosamente desafiando Nyx a dizer alguma coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que achou que ao trapacear conseguiria ocultar seus passos de mim, filho de Archeron? \u2014 Arwan <em>quase<\/em> pareceu sorrir com o tom trai\u00e7oeiro que pulsou por sua voz, a cabe\u00e7a inclinou-se para o lado, novamente, com aquele estalo similar a madeira ecoando outra vez. \u2014 Se <em>eu<\/em> enxergo tudo?<br>\u2003\u2003Nyx trincou os dentes com for\u00e7a, lan\u00e7ando um olhar ao seu redor, buscando por uma maneira de escapar daquele maldito buraco de terra, escapar das m\u00e3os de Arwan, mas n\u00e3o encontrou nada. Os olhos azuis queimaram o rosto da criatura, dando mais um passo para tr\u00e1s, tentando espelhar os movimentos da criatura, mas enquanto Arwan era como um fauno, familiarizado por seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, Nyx sentiu-se novamente como apenas um garoto, de oito anos, aterrorizado, envolto pela completa escurid\u00e3o do <em>Po\u00e7o<\/em>, sem ideia de como escapar daquele maldito destino que parecia apenas pux\u00e1-lo mais e mais em dire\u00e7\u00e3o a sua morte iminente.<br>\u2003\u2003\u2014 Se enxerga a tudo \u2014 Nyx obrigou-se a cuspir as palavras, mesmo que sua voz tivesse soado estranhamente mais vulner\u00e1vel, permeada por um tremor crescente, carregado pelo peso de suas a\u00e7\u00f5es precipitadas e pelo ressentimento com seu pr\u00f3prio destino \u2014, <em>por que<\/em> n\u00e3o me impediu?<br>\u2003\u2003\u2014 Por que o faria? Se era exatamente o que desejava que voc\u00ea fizesse? \u2014 Arwan resmungou indiferente, frio como a neve que outrora envolvia sua pele.<br>\u2003\u2003Nyx piscou, pego desprevenido com as palavras da criatura, e em sua confus\u00e3o, o sorriso que se espalhou no semblante p\u00e9treo de Arwan era nada sen\u00e3o cruel. Afiado, as presas um pouco maiores do que o normal se projetando pelos l\u00e1bios ressecados completamente exposta pela lateral de seu rosto dissolvido.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me julgue pela previsibilidade de seus atos, estes s\u00e3o <em>teus<\/em> pecados, n\u00e3o meus \u2014 Arwan pontuou, dando um passo para a direita, e ent\u00e3o mais um. Esticou o bra\u00e7o esquerdo para frente, deixando a l\u00e2mina escura como a noite deslizar pelos m\u00fasculos apodrecidos e atrofiados da lateral de seu corpo que estava morta e desfazendo-se at\u00e9 que apenas os tend\u00f5es apodrecidos e ossos estivessem expostos. Nyx ofegou baixo, arregalando os olhos com a lenta compreens\u00e3o da confirma\u00e7\u00e3o de Arwan. \u2014 Mas devo agradecer-lhe por isso, deu-me <em>exatamente<\/em> o que esperava que faria. Cumpriu seu papel perfeitamente, <em>filho de Archeron<\/em>.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o ele percebeu, os papeis dispostos sobre a mesa, a indica\u00e7\u00e3o direta para a Corte Invernal, o aviso para que <em>n\u00e3o seguisse<\/em> para l\u00e1. Sua garganta dolorida parecia perigosamente \u00e1rida, como um deserto, o ar escapou de seus l\u00e1bios, \u00e1spero e for\u00e7ado, ao cambalear um pouco para tr\u00e1s. <em>Ao mesmo tempo que vejo a raz\u00e3o pela qual o encontrei. <strong>Ir\u00e1 trazer minha crian\u00e7a de volta, em breve, mas para isso, preciso que fique longe da Corte Invernal.<\/strong><\/em> Arwan <em>sempre<\/em> soube que Nyx n\u00e3o aceitaria ouvir um n\u00e3o, sempre soube que, ref\u00e9m de sua pr\u00f3pria curiosidade, encontraria uma brecha no comando para <em>ir<\/em> exatamente onde havia lhe sido comandado n\u00e3o ir.<br>\u2003\u2003O tremor em seu corpo pareceu aumentar, o gelo que corro\u00eda suas veias pareceu mais pungente, mais grosso, transportando-se como lascas grossas, sufocantes. A percep\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio temperamento e de seus erros atingindo-o com a iminente certeza de que, o que quer que ele havia acabado de fazer, cego por seu pr\u00f3prio desejo de retribui\u00e7\u00e3o e por fazer <em>%LaFay%<\/em> pagar por t\u00ea-lo aprisionado\u2026 Nyx exalou, levando sua m\u00e3o esquerda em dire\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio colarinho, tentando arranc\u00e1-lo de seu pesco\u00e7o, ao encarar Arwan com horror, as pe\u00e7as naquele maldito tabuleiro <em>come\u00e7ando<\/em> a fazer mais e mais sentido.<br>\u2003\u2003\u2014 O prisioneiro\u2026 \u2014 Nyx exalou, os olhos azuis cintilando com uma intensidade quase febril ao voltar-se para o rei dos Tylwyth Tegs, seus pensamentos pareciam estar acelerados demais para acompanhar com cuidado, mas ele podia <em>sentir<\/em> o exato momento que tudo havia se encaixado. Um riso desacreditado, permeado pela ferida terr\u00edvel e infeccionada de seu pr\u00f3prio ressentimento pairou, aberto e ainda sangrando por seu peito, ao dar mais um passo para tr\u00e1s. Trincou os dentes com for\u00e7a, como se isso pudesse o impedir de rosnar ou gritar, n\u00e3o pela f\u00faria que outrora o alimentara, mas pelo desespero; pela percep\u00e7\u00e3o nauseante de que, dentro daquele jogo, Nyx havia sido nada sen\u00e3o apenas <em>um<\/em> pe\u00e3o. Uma pe\u00e7a <em>facilmente<\/em> descart\u00e1vel naquele maldito jogo.<br>\u2003\u2003Seus olhos moveram-se agitados, tentando compreender, com uma perspectiva para al\u00e9m da que reduzira com seu \u00f3dio e ressentimento, o que <em>tudo<\/em> aquilo significava. E ent\u00e3o, abaixo de tudo, havia o cheiro pungente met\u00e1lico do sangue de %LaFay% que parecia agora persegui-lo como um espectro; cruel, visceral, <em>real<\/em> demais para que ele conseguisse escapar intacto de sua pr\u00f3pria culpa. Nyx pensou <em>nela<\/em>; nos olhos estelares, na maneira com que as sardas que pontilhavam sua face delicada sempre lhe lembraram as constela\u00e7\u00f5es, na forma com que ele vira aquela luz desaparecer apenas para voltar quando as pixies tentaram atac\u00e1-la. Por muito tempo, Nyx acreditou que <em>ela<\/em> deveria ter assumido a posi\u00e7\u00e3o que <em>ele<\/em> fora obrigado a ocupar, por tanto tempo, <em>Nyx<\/em> a havia culpado por algo que, <em>agora<\/em>, come\u00e7ava a perceber, havia sido fabricado inteiramente por <em>Arwan<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Era voc\u00ea n\u00e3o era? \u2014 O sorriso frio de Arwan se expandiu um pouco mais, inclinando sua cabe\u00e7a para frente, em uma <em>quase<\/em> mesura, e Nyx sentiu algo em seu est\u00f4mago se contorcer. O gosto amargo da bile pungente espalhou-se por sua l\u00edngua seca, ao cambalear mais uma vez para tr\u00e1s, uma raiz da \u00e1rvore que formava o trono do Tylwyth Teg quase o fazendo trope\u00e7ar. Nyx negou com a cabe\u00e7a, desacreditado, tentando apegar-se \u00e0 \u00fanica certeza que lhe restava, <em>precisava<\/em> acreditar que n\u00e3o era o que lhe era confirmado, porque, se o fosse, ent\u00e3o ele teria <em>acabado<\/em> de fazer uma <em>grande<\/em> merda.<br>\u2003\u2003O mundo pareceu estremecer quando ele deu mais um passo para tr\u00e1s, tentando escapar das garras de Arwan, seus p\u00e9s afundaram n\u00e3o no m\u00e1rmore escuro de sua sala do trono, mas na neve fofa e macia da Corte Invernal. O cheiro putrefato das criaturas que os cercava, o aroma do sangue de %LaFay% agora completamente im\u00f3vel. As l\u00e1grimas que queimavam ao fundo dos olhos de Nyx, outrora oriundas de sua f\u00faria e ressentimento, agora eram permeadas pelo desalento e desesperan\u00e7a. Pensou na <em>garotinha<\/em> que %LaFay% havia sido, nos olhos arregalados e assustados, nas cicatrizes que se espalhavam pelo corpo, e sentiu o ressentimento borbulhar em seu peito, mas era mais que isso, era a terr\u00edvel percep\u00e7\u00e3o do que ele n\u00e3o havia <em>considerado<\/em> at\u00e9 o momento.<br>\u2003\u2003<em>Por que achou que ao trapacear conseguiria ocultar seus passos de mim, filho de Archeron? Se <strong>eu <\/strong>enxergo tudo?<\/em> Disse Arwan, e Nyx percebeu o qu\u00e3o est\u00fapido havia sido. Seus olhos azuis, febris, encontraram-se n\u00e3o com o olho prateado, esquisito de Arwan, mas com o vazio, tingido completamente de preto que costumava refletir seu pr\u00f3prio rosto por vezes durante a Ca\u00e7ada. Nyx lembrou do rosto retorcido da criatura que havia encontrado no <em>Po\u00e7o <\/em>com %LaFay%, no vazio daqueles malditos olhos leitosos, em como arrastava-se, observou as criaturas congeladas, mortas-vivas que se moveram at\u00e9 onde ele havia deixado o corpo de %LaFay%, como pairavam ao redor dela, com veem\u00eancia quase ensaiada. Moviam-se como se fizessem parte de um \u00fanico comando, um c\u00e9rebro compartilhado; <em>uma colmeia<\/em>. Eram apenas <em>extens\u00f5es<\/em> de <em>Arwan<\/em>. Ele sempre esteve l\u00e1, em todo lugar, sempre havia sido <em>ele<\/em>.<br>\u2003\u2003Arwan <em>era<\/em> a <em>morte<\/em>. E %LaFay% <em>sua crian\u00e7a <\/em>roubada.<br>\u2003\u2003\u2014 Era <em>ela<\/em>, n\u00e3o \u00e9? \u2014 A voz de Nyx escapou entrecortada, permeada pela frustra\u00e7\u00e3o do engano, o desalento do erro. Oscilou entre os dois mundos, ora na Corte Invernal, ora de volta a sala do trono de Arwan, e sequer poderia fazer algo para impedir. Tudo pareceu come\u00e7ar a girar mais r\u00e1pido do que sua mente poderia acompanhar; \u00fanica coisa fixa em seu mundo, agora, era Arwan e a l\u00e2mina afiada da espada que empunhava. Um riso sufocado, engasgado, <em>quase<\/em> escapou pela garganta do herdeiro da Corte Noturna. \u2014 <em>%LaFay%<\/em> \u00e9 sua crian\u00e7a perdida, n\u00e3o \u00e9? <em>Voc\u00ea disse<\/em> que eu a traria de volta, <em>por que<\/em> n\u00e3o agiu antes? Por que queria que eu a matasse?<br>\u2003\u2003Arwan estreitou os olhos, observando o semblante de Nyx, inexpressivo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 deve ter percebido a resposta para essa pergunta \u2014 Arwan respondeu vagarosamente, frio e distante. \u2014 Sou a morte, filho de Archeron. <abbr data-title=\"frase retirada do filme: Gato de Botas: O \u00daltimo Pedido.\">E n\u00e3o digo isso metaforicamente, ou retoricamente, ou poeticamente, ou teoricamente, ou qualquer outra forma sofisticada<\/abbr> de dizer. Sou o que sou, comando o que pertence por direito a <em>mim<\/em>. Nada mais, nada menos. \u2014 Nyx trincou os dentes com for\u00e7a, tentando evitar que estes se chocassem um contra o outro quando o tremor em seu corpo aumentou. \u2014 N\u00e3o posso tocar os vivos, mais do que posso mudar meu des\u00edgnio. Se quero minha filha ao meu alcance, preciso que sua alma perten\u00e7a a <em>mim<\/em>, e <em>voc\u00ea<\/em>, Nyx Archeron, a entregou-me com perfei\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o <em>este<\/em> era o prop\u00f3sito de Arwan? Durante aquele tempo todo? Era <em>apenas para isso<\/em> que estava guiando Nyx? Uma lufada de ar escapou por entre os dentes cerrados de Nyx, um exalar que <em>quase<\/em> soou como um sibilo.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o pode manter a <em>alma<\/em> de algu\u00e9m por muito tempo, cedo ou mais tarde ter\u00e1 que atravess\u00e1-la, ent\u00e3o estar\u00e1 <em>longe<\/em> de seu <em>alcance<\/em> \u2014 Nyx rosnou entre dentes, tentando enxergar a \u00faltima pe\u00e7a naquele tabuleiro ainda oculta para si, mas n\u00e3o tardou a aparecer quando Nyx <em>lembrou-se<\/em> exatamente <em>o que<\/em> ele era, e a <em>maldi\u00e7\u00e3o<\/em> que carregava.<br>\u2003\u2003A Ca\u00e7ada Selvagem buscava pelas almas errantes e pela morte, guiava-os para o outro lado. A <em>\u00fanica<\/em> const\u00e2ncia ali, os <em>\u00fanicos<\/em> que atravessavam entre os mundos <em>eram eles<\/em>. Com uma sensa\u00e7\u00e3o sufocante, Nyx exalou mais uma vez, um riso descrente ao entender, tardiamente, <em>qual<\/em> havia sido seu papel naquele maldito teatro todo: n\u00e3o apenas o respons\u00e1vel por matar a crian\u00e7a que pertencia a Arwan, Nyx era o peso sobre o lugar, o ocupante do espa\u00e7o vazio que <em>pertenceria<\/em> a %LaFay%.<br>\u2003\u2003\u2014 Qual \u00e9 seu movimento agora?<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o era isso? Estava fadado a <em>este<\/em> destino desde o in\u00edcio? Quando ca\u00edra no Po\u00e7o junto com %LaFay%, era <em>ele<\/em> quem deveria ter sa\u00eddo ou ele era s\u00f3 um meio para o resultado do que Arwan queria? Sempre acabaria daquela mesma forma? Nyx afastando-se no momento que %LaFay% retirava a maldita chave do pesco\u00e7o do ca\u00e7ador? Deu mais um passo para tr\u00e1s, homem e <em>Morte <\/em>circulando como dois gatos \u00e0 espera do primeiro golpe. Observando ao outro como um reflexo de si mesmos.<br>\u2003\u2003\u2014 Agora, troco a <em>sua<\/em> vida pela <em>dela<\/em> \u2014 Arwan disse com um tom de voz pr\u00e1tico, preciso, empunhando a espada, e ent\u00e3o voltando-a na dire\u00e7\u00e3o de Nyx. O herdeiro da Corte Noturna trincou os dentes, parcialmente paralisado pelo pr\u00f3prio medo, parcialmente desesperado para encontrar uma maneira de escapar daquele pesadelo, uma forma de escapar do alcance de Arwan, mesmo que fosse apenas uma v\u00e3 esperan\u00e7a fadada ao fracasso. \u2014 N\u00e3o se preocupe, filho de Archeron, irei oferecer-lhe uma morte r\u00e1pida como forma de <em>agradecimento<\/em>.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> ainda sobre a frase que o Lyall diz, ela \u00e9 uma premoni\u00e7\u00e3o ruim, ou seja, tem conota\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora ao ser dita. Agora, vou segurar sua m\u00e3o quando digo isso: se prepara, daqui para frente, \u00e9 s\u00f3 para tr\u00e1s. Prometo que no fim ofere\u00e7o abra\u00e7os quentinhos. I pra Bleme, MULHER QUE CE T\u00c1 FAZENDO AQUI?! KSKSSKSKSK meu deus, vou me enfiar num buraco de vergonha KSKSKSSKS n\u00e3o era pra voc\u00ea t\u00e1 lendo o que escrevo! O esquema \u00e9 o contr\u00e1rio!<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EMHYR \u2022 CORTE NOTURNA \u2022\u2022\u2022 NYX \u2022 CORTE INVERNAL \u2003\u2003Nota da Autora: ainda sobre a frase que o Lyall diz, ela \u00e9 uma premoni\u00e7\u00e3o ruim, ou seja, tem conota\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora ao ser dita. Agora, vou segurar sua m\u00e3o quando digo isso: se prepara, daqui para frente, \u00e9 s\u00f3 para tr\u00e1s. 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