{"id":9199,"date":"2025-12-16T16:04:11","date_gmt":"2025-12-16T19:04:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-16T16:04:11","modified_gmt":"2025-12-16T19:04:11","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/howbaddoyouwantme\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Eu nunca fui a mulher que homens como %Lucas% escolhem \u00e0 luz do dia. Nunca fui a que eles levam pela m\u00e3o, apresentam com orgulho, encaixam na moldura certa da pr\u00f3pria vida. Eu era a mulher que eles desejavam quando o mundo dormia, quando o sil\u00eancio ficava grande demais para ser ignorado e a consci\u00eancia cansava de fingir que bastava.<br \/>\n\u2003\u2003Meu est\u00fadio ficava numa rua estreita, longe dos pr\u00e9dios espelhados onde ele trabalhava, longe da ordem, da reputa\u00e7\u00e3o, da est\u00e9tica limpa que ele defendia todos os dias no escrit\u00f3rio. O lugar cheirava a tinta, metal limpo, caf\u00e9 esquecido no fundo da caneca. Era um espa\u00e7o vivo, imperfeito, pulsando \u2014 e %Lucas% sentiu isso antes mesmo de atravessar a porta. Ele ficou parado do lado de fora por alguns segundos. Eu vi pelo reflexo do vidro. Homens que n\u00e3o pretendem errar sempre hesitam antes de entrar. Eles sabem, em algum n\u00edvel, que cruzar aquela linha muda tudo.<br \/>\n\u2003\u2003Quando entrou, trouxe consigo um sil\u00eancio diferente. N\u00e3o era aus\u00eancia de som \u2014 era conten\u00e7\u00e3o. Educa\u00e7\u00e3o demais. Cuidado demais. O tipo de homem que mede as palavras porque passa a vida inteira defendendo vers\u00f5es da verdade, n\u00e3o a verdade em si.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Boa noite \u2014 disse, com a voz baixa, quase ensaiada.<br \/>\n\u2003\u2003Levantei os olhos devagar. N\u00e3o sorri. Nunca sorrio para homens que ainda acham que est\u00e3o no controle.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Posso ajudar?<br \/>\n\u2003\u2003Ele olhou ao redor, fingindo interesse nos quadros, nos flashes de tinta, na est\u00e9tica crua do est\u00fadio. Mas os olhos sempre voltavam para mim. Para o cabelo solto, para as m\u00e3os manchadas, para a pele que n\u00e3o pedia aprova\u00e7\u00e3o nem desculpa por existir.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 S\u00f3 estava\u2026 olhando.<br \/>\n\u2003\u2003Inclinei a cabe\u00e7a, sentindo o peso da palavra.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Olhar \u00e9 f\u00e1cil \u2014 respondi. \u2014 Dif\u00edcil \u00e9 decidir.<br \/>\n\u2003\u2003Ele engoliu em seco. Um gesto pequeno, quase impercept\u00edvel. Foi ali que eu soube: j\u00e1 estava perdido. Ainda n\u00e3o admitia, mas o corpo sempre entrega antes da moral.<br \/>\n\u2003\u2003%Lucas% voltou na semana seguinte. E na outra. E depois disso, parou de fingir que era acaso. O olhar demorava mais, o corpo ficava mais solto, a gravata come\u00e7ava a afrouxar antes mesmo de ele se sentar. Ele nunca falou o nome dela no come\u00e7o, mas eu sentia a presen\u00e7a como se ocupasse o espa\u00e7o entre n\u00f3s. Mulheres como Clara n\u00e3o precisam estar ali para existir. Elas vivem nos sil\u00eancios, nas pausas, na forma como um homem evita certas palavras.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Sou casado \u2014 ele disse um dia, tarde demais para ser um aviso, cedo demais para ser uma confiss\u00e3o honesta.<br \/>\n\u2003\u2003Eu estava limpando a agulha. Continuei, como se aquilo n\u00e3o tivesse peso algum.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu sei.<br \/>\n\u2003\u2003Ele pareceu surpreso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 simples.<br \/>\n\u2003\u2003Ergui o olhar, deixando que ele sentisse o impacto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Nada que vale a pena \u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu nervoso, o riso de quem ainda acredita que pode controlar o jogo, que pode tocar o fogo sem se queimar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea gosta de provocar.<br \/>\n\u2003\u2003Aproximei-me devagar, reduzindo o espa\u00e7o entre n\u00f3s at\u00e9 que fosse imposs\u00edvel fingir neutralidade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Eu gosto de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003%Lucas% fechou os olhos por um segundo. Um gesto m\u00ednimo. Uma rendi\u00e7\u00e3o silenciosa que ele nunca verbalizou, mas que passou a repetir com o corpo.<br \/>\n\u2003\u2003Com o tempo, ele come\u00e7ou a chegar diferente. A gravata sempre frouxa demais. A camisa aberta al\u00e9m do aceit\u00e1vel. O olhar cansado de quem passa o dia inteiro sendo quem esperam que ele seja e s\u00f3 consegue respirar quando entra no meu espa\u00e7o. Uma noite, enquanto eu desenhava algo novo na pele de outra pessoa, senti o peso do olhar dele queimando minhas costas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o sai da minha cabe\u00e7a \u2014 confessou, quase num sussurro.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o respondi de imediato. Continuei trabalhando, deixando o sil\u00eancio fazer o que precisava ser feito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 um elogio \u2014 disse, por fim. \u2014 \u00c9 um aviso.<br \/>\n\u2003\u2003Ele me observava como se eu fosse uma linha que ele n\u00e3o deveria cruzar\u2026 e cruzava todos os dias, com uma mistura perigosa de medo e desejo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Quando estou com ela, penso em voc\u00ea \u2014 disse, sem me encarar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 E quando est\u00e1 comigo? \u2014 perguntei.<br \/>\n\u2003\u2003Ele demorou. Sempre demorava quando a verdade n\u00e3o combinava com a imagem que tinha de si mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Sorri, sem alegria.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea nunca est\u00e1 inteiro em lugar nenhum.<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo doeu. Eu vi no jeito como ele respirou fundo, como desviou o olhar, como ficou pequeno por um segundo. At\u00e9 os bons garotos sangram. S\u00f3 n\u00e3o admitem.<br \/>\n\u2003\u2003O sexo nunca foi rom\u00e2ntico. Nunca teve promessa, nem delicadeza ensaiada. Era urgente, carregado de pausas no meio, como se ele precisasse lembrar quem era antes de continuar, como se cada toque fosse um risco calculado. \u00c0s vezes ele parava, o rosto enterrado no meu pesco\u00e7o, a respira\u00e7\u00e3o descompassada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 errado \u2014 murmurava.<br \/>\n\u2003\u2003Eu segurava o cabelo dele, firme.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o para.<br \/>\n\u2003\u2003Ele nunca parou.<br \/>\n\u2003\u2003Depois, deitado ao meu lado, encarava o teto como se estivesse prestes a cair dentro de si mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me deixa fraco \u2014 disse uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003Passei o dedo pelo peito dele, sentindo o cora\u00e7\u00e3o acelerado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Eu te deixo honesto.<br \/>\n\u2003\u2003Ele tinha terrores noturnos. Acordava assustado, dizendo o nome dela, como se a culpa o puxasse de volta. Mas era a mim que procurava no escuro, como se meu corpo fosse o \u00fanico lugar onde n\u00e3o precisava fingir.<br \/>\n\u2003\u2003A tatuagem n\u00e3o foi impulso. Foi decis\u00e3o. Uma chama atravessando um cora\u00e7\u00e3o rachado. N\u00e3o era sobre ele. Nunca foi. Era sobre mim. Sobre n\u00e3o apagar o que me atravessava, sobre marcar na pele aquilo que eu me recusava a negar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea enlouqueceu \u2014 ele disse, a m\u00e3o tremendo quando tocou minha pele rec\u00e9m-marcada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3 n\u00e3o finjo que n\u00e3o sinto.<br \/>\n\u2003\u2003Ele me beijou como se quisesse me apagar, como se pudesse apagar o que j\u00e1 estava gravado. N\u00e3o conseguiu.<br \/>\n\u2003\u2003A tentativa de me reduzir veio depois, disfar\u00e7ada de cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Podemos\u2026 desacelerar \u2014 disse. \u2014 S\u00f3 at\u00e9 eu resolver algumas coisas.<br \/>\n\u2003\u2003Cruzei os bra\u00e7os, sentindo algo endurecer dentro de mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea quer me encaixar na sua culpa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 \u00c9 sim. \u2014 Me aproximei, baixa, firme. \u2014 Voc\u00ea me quer no escuro e ela na luz.<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o respondeu. E naquele sil\u00eancio, eu entendi tudo.<br \/>\n\u2003\u2003A noite da cena n\u00e3o foi raiva, nem impulso, nem descontrole. Foi clareza. Uma clareza rara, quase assustadora, daquela que n\u00e3o treme, n\u00e3o hesita e n\u00e3o pede permiss\u00e3o. Eu cheguei ao bar sabendo exatamente o que faria, e essa certeza me acompanhava no corpo inteiro \u2014 n\u00e3o havia nervosismo, nem pressa, apenas aquela sensa\u00e7\u00e3o perigosa de quando mente e instinto finalmente caminham na mesma dire\u00e7\u00e3o. O lugar estava cheio demais, barulhento demais, vivo demais: risadas altas demais para serem verdadeiras, copos tilintando sem ritmo, uma m\u00fasica qualquer tentando ser importante. E ainda assim, tudo ficou pequeno no instante em que eu a vi.<br \/>\n\u2003\u2003Clara estava linda. Sempre estava. O tipo de mulher que parece pronta para qualquer fotografia, qualquer ocasi\u00e3o, qualquer futuro cuidadosamente planejado. Vestido claro, postura impec\u00e1vel, o sorriso certo no momento certo. Havia algo nela que o mundo aplaudia sem fazer perguntas, sem querer saber o custo daquele encaixe perfeito, sem investigar o sil\u00eancio que sustentava aquela imagem. Ela pertencia \u00e0quela cena de um jeito org\u00e2nico, como se o bar tivesse sido desenhado para receb\u00ea-la.<br \/>\n\u2003\u2003%Lucas% estava ao lado dela, levemente inclinado em sua dire\u00e7\u00e3o, o corpo desenhando um pertencimento que ele sempre soube encenar muito bem. Quando nossos olhares se cruzaram, eu vi o exato momento em que ele entendeu. N\u00e3o foi surpresa. Foi p\u00e2nico. Um p\u00e2nico cru, imediato, que atravessou o rosto dele antes que qualquer m\u00e1scara tivesse tempo de se recompor. O sorriso morreu, a cor sumiu, o corpo enrijeceu como se tivesse sido arrancado de uma realidade confort\u00e1vel e empurrado para outra, sem aviso, sem preparo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Raven%\u2026 \u2014 murmurou, quase sem voz, como se meu nome ainda pudesse conter aquilo, como se pronunci\u00e1-lo fosse suficiente para me fazer desaparecer.<br \/>\n\u2003\u2003Ouvir meu nome ali, naquele tom, teve algo de quase ir\u00f4nico. Havia naquela tentativa de sussurro uma esperan\u00e7a infantil de controle, como se ele ainda acreditasse que podia segurar o que vinha apenas diminuindo o volume. Levantei-me devagar, sentindo cada m\u00fasculo responder com uma calma que n\u00e3o admitia recuo. Cada passo at\u00e9 eles foi consciente, pesado de inten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia pressa porque n\u00e3o havia d\u00favida. \u00c0 medida que eu caminhava, o bar parecia se afastar, como se tudo ao redor tivesse se tornado plateia, suspenso num sil\u00eancio que ningu\u00e9m combinou, mas todos obedeceram.<br \/>\n\u2003\u2003Parei diante deles. Primeiro olhei para %Lucas%, deixando que ele sentisse o peso de ser visto sem fuga poss\u00edvel. Depois, voltei o olhar para Clara. Ela me observava com aten\u00e7\u00e3o crescente, tentando montar um quebra-cabe\u00e7a para o qual ningu\u00e9m havia lhe dado todas as pe\u00e7as. Havia confus\u00e3o ali, mas tamb\u00e9m uma percep\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de que algo essencial lhe escapava h\u00e1 mais tempo do que gostaria de admitir.<br \/>\n\u2003\u2003Inclinei-me um pouco na dire\u00e7\u00e3o de %Lucas%, o suficiente para que apenas ele me ouvisse, para que aquelas palavras fossem um fio direto entre n\u00f3s dois.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Beija ela \u2014 sussurrei, sem elevar a voz. \u2014 Ou me beija.<br \/>\n\u2003\u2003O ar entre n\u00f3s ficou espesso, quase palp\u00e1vel. %Lucas% piscou, como se tivesse sido arrancado de um transe, e a resposta veio r\u00e1pida demais, desesperada demais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o aqui \u2014 disse. \u2014 %Raven%, n\u00e3o aqui.<br \/>\n\u2003\u2003Sorri. N\u00e3o por provoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por prazer. Sorri por constata\u00e7\u00e3o, por reconhecer o padr\u00e3o que ele repetia sempre que precisava ganhar tempo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o decide.<br \/>\n\u2003\u2003Ele olhou ao redor como quem procura uma sa\u00edda invis\u00edvel, um desvio que o salvasse sem exigir escolha alguma. N\u00e3o encontrou. Clara franziu o cenho, sentindo o peso daquela tens\u00e3o crescer sem compreender completamente a origem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Lucas%\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou, a voz cautelosa, como quem percebe que est\u00e1 prestes a atravessar um terreno inst\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o respondeu. O sil\u00eancio dele foi alto demais.<br \/>\n\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que Clara finalmente me encarou de verdade. N\u00e3o com raiva, n\u00e3o com hostilidade, mas com confus\u00e3o genu\u00edna, com o olhar de quem percebe, tarde demais, que h\u00e1 uma hist\u00f3ria acontecendo paralela \u00e0 sua.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Quem \u00e9 ela? \u2014 perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003A pergunta atravessou o espa\u00e7o com mais for\u00e7a do que a m\u00fasica. Olhei para Clara com calma, sem crueldade e sem do\u00e7ura, apenas com a honestidade que nunca tentei disfar\u00e7ar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Essa \u00e9 a pergunta errada \u2014 respondi. \u2014 A certa \u00e9: o quanto voc\u00ea me quer?<br \/>\n\u2003\u2003%Lucas% fechou os olhos por um segundo. O mesmo gesto de sempre, a mesma fuga m\u00ednima, quase autom\u00e1tica. Ele nunca respondeu quando a verdade exigia coragem. Nunca.<br \/>\n\u2003\u2003Ent\u00e3o eu fiz por ele.<br \/>\n\u2003\u2003Segurei o rosto dele entre as m\u00e3os e o beijei. N\u00e3o houve pressa, nem culpa, nem espet\u00e1culo calculado \u2014 e, ainda assim, foi completamente p\u00fablico. Um beijo real. N\u00e3o a vers\u00e3o mental, n\u00e3o a desculpa noturna, n\u00e3o o pensamento abafado pela consci\u00eancia. Real, inteiro, imposs\u00edvel de ser negado depois. Eu senti o impacto imediato no corpo dele, o tremor involunt\u00e1rio, o instante exato em que a fantasia morreu e a realidade se imp\u00f4s. O bar inteiro pareceu prender a respira\u00e7\u00e3o. Eu senti.<br \/>\n\u2003\u2003Quando me afastei, n\u00e3o esperei rea\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisava. Eu j\u00e1 tinha tudo. Virei as costas e fui embora sem olhar para tr\u00e1s, porque n\u00e3o havia mais nada a ser dito naquele espa\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003O mundo dele caiu exatamente como eu sabia que cairia. As mensagens come\u00e7aram longas demais, confusas demais, escritas \u00e0s pressas, cheias de explica\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m tinha pedido. Pedidos, tentativas de reorganizar o caos chamando aquilo de amor tardio. Eu li tudo em sil\u00eancio, j\u00e1 distante, como quem observa um inc\u00eandio do lado de fora, consciente de que n\u00e3o h\u00e1 mais nada a salvar.<br \/>\n\u2003\u2003Dias depois, ele apareceu no est\u00fadio. N\u00e3o era mais o mesmo homem. Estava menor, n\u00e3o fisicamente, mas por dentro, como algu\u00e9m que finalmente entende o tamanho do que perdeu quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais negocia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Eu perdi tudo \u2014 disse, a voz falha, quebrada.<br \/>\n\u2003\u2003Peguei minha bolsa com calma, sem pressa, sem peso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u2014 respondi, olhando nos olhos dele sem raiva e sem prazer. \u2014 Voc\u00ea s\u00f3 perdeu o controle.<br \/>\n\u2003\u2003Ele deu um passo \u00e0 frente, estendeu a m\u00e3o, como se ainda pudesse me alcan\u00e7ar daquele jeito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 %Raven%, eu\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Afastei-me antes que tocasse.<br \/>\n\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea nunca quis me escolher \u2014 continuei. \u2014 S\u00f3 me quis o suficiente pra sangrar.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras ficaram no ar, pesadas, irrevers\u00edveis. Sa\u00ed sem olhar para tr\u00e1s, levando comigo a certeza de que eu nunca fui a garota dos sonhos dele. Eu fui o despertar. A quebra. A verdade que ele n\u00e3o conseguiu sustentar.<br \/>\n\u2003\u2003E isso\u2026 isso ningu\u00e9m esquece.<\/p>\n<p><center>Fim<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2442],"class_list":["post-9199","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-howbaddoyouwantme"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}