{"id":9194,"date":"2025-12-16T16:56:59","date_gmt":"2025-12-16T19:56:59","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-16T16:56:11","modified_gmt":"2025-12-16T19:56:11","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/iceburn\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003<strong>UM EXALO TR\u00caMULO ESCAPOU POR ENTRE SEUS L\u00c1BIOS, AO FECHAR SEUS OLHOS, TRATOU DE ABRI-LOS UM SEGUNDO DEPOIS, ATERRORIZADO<\/strong>.<br \/>\n\u2003\u2003O vento g\u00e9lido fez pouco para aplacar a crescente ansiedade que tornava-o ref\u00e9m de seu pr\u00f3prio corpo. A sensa\u00e7\u00e3o de hipersensibilidade em sua pele era inc\u00f4moda, quase desconfort\u00e1vel, fazia com que arrepios descoordenados se espalhassem por sua pele, que estivesse consciente do toque \u00e1spero da jaqueta sobre seus ombros e bra\u00e7os, da maneira com que a blusa parecia agarrar-se contra seus m\u00fasculos com mais intensidade do que deveria. Considerou fechar os olhos, o desespero para desligar aquela parte de sua mente, outrora iniciada como um pequeno desconforto, uma coceira insignificante, agora era tudo o que conseguia pensar, mas n\u00e3o queria ousar fechar os olhos. Se o fizesse, o que encontraria ali, outra vez, esperando-o se n\u00e3o os fantasmas que ainda o assombravam? Tivera trabalho o suficiente para compreender o tamanho da destrui\u00e7\u00e3o que a Hydra havia feito consigo. Tivera tempo o suficiente para analisar e entender que suas a\u00e7\u00f5es, ainda que fosse ele a empunhar o gatilho, n\u00e3o lhe convinha culpa; como poderia? Ele n\u00e3o tinha autonomia, seu corpo era controlado como uma marionete, suas mem\u00f3rias foram apagadas com a viol\u00eancia necess\u00e1ria para que a \u00fanica coisa que restasse fosse apenas o instinto e a viol\u00eancia. Ele havia sido treinado, de novo e de novo para acreditar que era apenas uma m\u00e1quina, uma arma, e por vinte anos ele havia tentado lutar contra a programa\u00e7\u00e3o. A lavagem cerebral que a Hydra o fez passar apenas funcionou em uma madrugada, quando Bucky estava cansado. Quando percebeu que n\u00e3o haveria como escapar, quando percebeu que j\u00e1 havia passado tempo o suficiente para ter certeza de que havia perdido tudo. Ele havia lutado, com todas suas for\u00e7as, mas ningu\u00e9m consegue lutar por tanto tempo. Nem mesmo Steve.<br \/>\n\u2003\u2003Inspirando fundo mais uma vez, o ar g\u00e9lido nova-iorquino pareceu queimar o interior de suas narinas. O aroma \u00e1cido que misturava carbono queimado, sujeira a c\u00e9u aberto, urina e at\u00e9 mesmo suor parecia espalhar-se por seus pulm\u00f5es com uma vaga lembran\u00e7a do que outrora fora. Ele lembrava-se da d\u00e9cada de 40, mesmo que o carbono queimado fosse mais intenso ao escapar dos escapamentos dos carros que cruzavam as ruas com uma velocidade mediana, mesmo que a sujeira continuasse a mesma, e mesmo que a urina os acompanhasse como um fantasma projetando-se sobre seus ombros, deliberadamente, parecia mais limpo. Parecia nost\u00e1lgico. Ou talvez, fosse apenas a \u00e9poca de festas aproximando-se outra vez. Suspirou pesado outra vez, apoiando as duas m\u00e3os contra o balc\u00e3o de seu apartamento. Era pequeno, apertado, e inconveniente na maior parte do tempo, dava direto para seu vizinho, mas considerando que a maioria das pessoas que viviam naquele pr\u00e9dio eram pessoas com idades pr\u00f3ximas a sua \u2013 talvez por vinte ou dez anos mais novos \u2013, Bucky n\u00e3o poderia dizer que se incomodava. De certa forma, eram como um respiro moment\u00e2neo para um mundo que ele certamente apreciava, mas que ainda tinha dificuldade em acompanhar.<br \/>\n\u2003\u2003As sess\u00f5es de terapia com Dr Raynor eram \u00fateis, um incentivo para o caminho certo. Ele havia se dedicado nos \u00faltimos quatro meses sem perder uma sess\u00e3o, estava cumprindo o acordo judicial com cuidado, estava determinado a n\u00e3o perder aquele voto de confian\u00e7a de Steve, mas c\u00e9us sabiam a dificuldade que era encarar aquele mundo sem a sombra dos pecados que carregava. Como era encarar o rosto daquelas pessoas sem ter a certeza de que a mancha de sangue que cobria suas m\u00e3os era maior e mais profunda do que suas unhas conseguiam arrancar. Considerava, por vezes, que apenas deveria aceitar seu destino como era. Se deveria desistir de tudo, e aceitar que daquele lugar sombrio n\u00e3o teria escapat\u00f3ria. Escorou os antebra\u00e7os sobre o metal g\u00e9lido, levemente umedecido pelo toque da chuva outonal que estava presa na calha do pr\u00e9dio e escorria para baixo quando chovia, levando seu bra\u00e7o normal em dire\u00e7\u00e3o ao rosto, co\u00e7ou, perdido em pensamentos, a barba por fazer que havia cultivado naquelas \u00faltimas semanas. N\u00e3o por descuido, mas simplesmente porque n\u00e3o conseguia encontrar coragem o suficiente para encarar-se \u00e0 frente do espelho. Estava fazendo o m\u00ednimo, cuidando de sua apar\u00eancia para ficar apresent\u00e1vel para as sess\u00f5es de terapia, mas nada al\u00e9m disso. Talvez estivesse realmente depressivo, considerou ligar para Steve, considerou pedir para que se encontrassem em algum lugar da cidade, certamente ele poderia contar com o melhor amigo, mas Steve Rogers ainda era o N\u00f4made, e permaneceu como fugitivo por escolha pr\u00f3pria.<br \/>\n\u2003\u2003Uma parte de Bucky, estava desesperada para juntar-se com o melhor amigo. Tornar-se parte do pequeno time de foragidos e agir por baixo dos panos; a outra, sabia que para come\u00e7ar a pensar em fazer qualquer coisa, primeiro, precisava certificar-se de que teria o perd\u00e3o da corte americana, que seu passado como arma da Hydra estaria, ao menos, judicialmente controlado. E bem ali, ao fundo de sua mente, onde o nome familiar que ele se recusava a reconhecer, era a corrente necess\u00e1ria que o impedia de tomar quaisquer decis\u00f5es dr\u00e1sticas. Afinal, ele havia sido o respons\u00e1vel por destruir a vida dela, havia sido o respons\u00e1vel por prend\u00ea-la, por tortur\u00e1-la, e tentou in\u00fameras vezes mat\u00e1-la. O proj\u00e9til nunca pareceu encontrar o alvo, Bucky sabia disso, sabia que uma parte de si mesmo havia lutado para n\u00e3o o fazer, mas ainda assim, n\u00e3o era como se ela lembrasse tamb\u00e9m. A Hydra havia feito um excelente trabalho em coloc\u00e1-la contra ele, e torn\u00e1-lo o monstro de sua hist\u00f3ria, e por mais que Bucky sentisse uma necessidade desesperada de convenc\u00ea-la de que ele n\u00e3o era, era pouco prov\u00e1vel que %Anya% fosse escut\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya%\u2026 sua %Anya%. Houve uma \u00e9poca, em meio \u00e0s mem\u00f3rias esfuma\u00e7adas e distorcidas que a Hydra deixara para tr\u00e1s, como um cavalo de tr\u00f3ia para sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, que ela havia sido algo pr\u00f3ximo a isso para ele. Um porto-seguro. Uma \u00e2ncora e uma boia, quando Barnes estivera a muito, muito tempo, \u00e0 deriva. Talvez fosse por isso que se agarrasse t\u00e3o desesperadamente aquela v\u00e3 ideia. Aquela v\u00e3 lembran\u00e7a do que outrora fora. Sentia para al\u00e9m da tristeza e culpa, uma sensa\u00e7\u00e3o de dever com ela. Ele a tinha matado, tentado matar in\u00fameras vezes, havia sido ele a agarr\u00e1-la pelos cabelos e arrast\u00e1-la de volta para a cela que a mantinham cativa. A Hydra havia tornado-a um objeto, pior, sabe-se l\u00e1 o que fizeram, mas Bucky tinha certeza de que n\u00e3o era algo bom, se n\u00e3o, ela n\u00e3o o olharia com tanto \u00f3dio quanto o fazia. Em v\u00e3s esperan\u00e7osas noites, Barnes deixava-se acreditar que talvez fosse algum aspecto da programa\u00e7\u00e3o dela que tivesse distorcido suas mem\u00f3rias. Sabia que ela as tinha, tanto quanto ele tivera no passado; tentava convencer-se de que, uma vez que ela pudesse v\u00ea-lo realmente, que pudesse entender a culpa e a inevitabilidade de suas a\u00e7\u00f5es, como mesmo lutando n\u00e3o havia tido controle sobre nada de si para impedir-se das agress\u00f5es que havia cometido contra ela, talvez, apenas talvez, pudesse convenc\u00ea-la de dar uma chance a Shuri, uma chance para reprogramar e desfazer o estrago em sua mente.<br \/>\n\u2003\u2003Era estupidez, \u00e9 claro, ele sabia, mas n\u00e3o conseguia deixar de esperar\u2026 mesmo que fosse completamente em v\u00e3o. Ainda estava perdido em seus pr\u00f3prios pensamentos quando o miado caracter\u00edstico de Alpine ecoou pela sua direita. Bucky bufou baixo, uma lufada de ar esbranqui\u00e7ado erguendo-se por seu rosto obscurecido pela pr\u00f3pria culpa e pesar pelo passado, ao voltar seus olhos azuis esverdeados na dire\u00e7\u00e3o da gata. Era uma coisinha min\u00fascula quando ele a encontrou, um m\u00eas atr\u00e1s, enroscada entre os sacos de lixo e roendo com desespero o resto de uma coxa de frango descartada. Bucky n\u00e3o teria a trazido para seu apartamento. Considerando o inferno que abrangia sua mente e o peso dos pecados que carregava, tinha quase certeza de que seria uma p\u00e9ssima ideia trazer o filhote para dentro de casa; Alpine o seguiu mesmo assim. Era uma coisinha irritante e cabe\u00e7a dura, Bucky tentou por dias tir\u00e1-la da soleira de sua porta, mas toda vez que preparava-se para sair do apartamento, Alpine se esgueirava pela abertura da porta e fazia-se confort\u00e1vel em seu tapete pu\u00eddo do escudo de Rogers \u2013 um presente enviesado que Sam Wilson havia lhe dado por despeito, e, por despeito, Bucky o mantivera da melhor forma poss\u00edvel. Ou ent\u00e3o, esgueirava-se pela janela ao lado de sua sacada, e fazia sua cama improvisada entre uma caixa de sapato e um cobertor velho que Bucky sempre tentava lembrar-se de lavar, mas esquecia com frequ\u00eancia. Agora, o cobertor era um amontoado de pelos brancos e rasgos de unhas afiadas, era de Alpine, e ponto.<br \/>\n\u2003\u2003Foi Shuri quem disse a ele que talvez fosse uma boa ideia. Em uma de suas breves visitas, fosse apenas para atormentar ou apenas jogar conversa fora entre canecas de caf\u00e9 forte demais para serem saud\u00e1veis, que Bucky ouviu com uma carranca ranzinza a jovem dizer que havia muitas pessoas que adotavam animais de apoio quando necess\u00e1rio. N\u00e3o havia vergonha nenhuma naquilo; Bucky n\u00e3o havia respondido, n\u00e3o queria ter que dizer a jovem, de olhos brilhantes e risada contagiosa, que seu maior medo n\u00e3o era ter que lidar com o animalzinho, mas a probabilidade de que seria culpa dele caso o animal morresse. Bucky j\u00e1 carregava tantos corpos, n\u00e3o poderia carregar mais um, especialmente um t\u00e3o fr\u00e1gil e inocente quanto a gatinha. Foi somente ap\u00f3s uma noite de pesadelos, em meio a uma tempestade, que Bucky cedeu, ao perceber que a \u00fanica coisa capaz de o tirar do torpor causado pelas mem\u00f3rias vividas que ressurgiram como espinhos afiados em sua pele, rasgando-a deliberadamente, mas certamente, que Bucky acolheu Alpine. Agora, a gata de pelagem fofa, branca, rostinho amassado, e olhos azuis, era uma bola de pelos gorda e mimada, que costumava sair pela manh\u00e3 para uma volta pelo quarteir\u00e3o, e ent\u00e3o, retornava para casa, apenas para passar parte do dia destruindo as meias de Bucky, sapato, ou ent\u00e3o dormindo em cima de sua cama como se lhe bem pertencesse.<br \/>\n\u2003\u2003Era um bom uso, no fim, j\u00e1 que ele ainda estava dormindo no ch\u00e3o, incapaz de aceitar a sensa\u00e7\u00e3o de deitar-se sobre o colch\u00e3o macio, sem ter a falsa impress\u00e3o de que estava sendo suspenso pelos fios outra vez, dentro da c\u00e2mara criog\u00eanica. Os olhos azuis esverdeados de Bucky acompanharam com uma ponta de preocupa\u00e7\u00e3o, Alpine saltar de grade em grade at\u00e9 conseguir chegar a balaustrada da sacada de seu apartamento, caminhando com o rabo oscilando de um lado para o outro, parecendo satisfeita. Tinha algumas penas em sua pelagem, mas Bucky sabia perfeitamente que, sendo a criatura mimada que era, Alpine nunca ca\u00e7aria comida, ela gostava de sach\u00eas caros que encontrava na 15th Avenue e peixe fresco \u2013 somente se fosse macio e Bucky retirasse as espinhas do peixe antes de entregar para ela. Era muito prov\u00e1vel que Alpine s\u00f3 tivesse ficado na garagem do pr\u00e9dio, correndo atr\u00e1s dos pombos, antes de decidir que era hora de voltar para casa, para comer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 J\u00e1 estava considerando ligar, pensei que fosse comer fora \u2013 Bucky murmurou, ranzinza como sempre, seu humor ainda suscet\u00edvel ao pr\u00f3prio tormento pessoal, mas com uma nota mais gentil, doce ao observar os olhos grande e azuis da gata fixarem-se em seu rosto. Era quase como se ela pudesse entender que Bucky n\u00e3o estava tendo um bom momento. O focinho rosado agitou-se um pouco, como se captasse a fragr\u00e2ncia de seu pr\u00f3prio medo antes de, manhosa, inclinar a cabe\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao bra\u00e7o bi\u00f4nico, coberto pelas mangas longas de sua blusa de gola alta, buscando por carinho e aten\u00e7\u00e3o. Bucky bufou, um quase sorriso surgindo por seus l\u00e1bios, ao al\u00e7ar com cuidado a gata. Ele a segurou a frente de seu rosto, sentindo o rabo dela agitar-se de um lado para o outro antes de enroscar-se em seu pulso direito. Alpine boceja, deixando as presinhas expostas antes de lamber a ponta do nariz de Barnes, ronronando. Bucky estreitou os olhos, conhecia-a bem o suficiente para saber o que significava aquele gesto. \u2013 Sem peixe hoje, ordens do veterin\u00e1rio, interesseira \u2013 murmurou, antes de gentilmente alinh\u00e1-la contra seu peito, acariciando atr\u00e1s da orelha penugenta, e as costas. Alpine pareceu satisfeita em ficar ali, o rostinho apoiado contra o antebra\u00e7o de Bucky, fazendo-lhe companhia.<br \/>\n\u2003\u2003Era uma boa forma de controlar sua pulsa\u00e7\u00e3o, o p\u00e2nico crescente que o atingia todas as madrugadas mesmo quando tinha certeza de que tudo estava bem, de que estava seguro. Tenciona a mand\u00edbula com um estalo, um pequeno m\u00fasculo projetando-se por sua mand\u00edbula angulosa, tentando focar apenas no ronronar da gata e no sil\u00eancio acelerado da rua. Podia ver os carros indo e vindo, sem parar, flashes de luzes avermelhadas e empalidecidas, podia ouvir conversas em algum ponto abaixo do pr\u00e9dio, risos de jovens b\u00eabados voltando para casa, casais tendo finais de encontro e at\u00e9 mesmo uma ou outra crian\u00e7a tentando fugir da cama para brincar sem que seus pais percebessem \u2013 \u00e9 claro que o fariam. A sensa\u00e7\u00e3o de normalidade lhe ca\u00eda mal, tinha um gosto amargo e sentia-se como n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o merecedor daquilo, como um estrangeiro. Bucky n\u00e3o se lembrava direito do que era ter uma vida normal. Do que era ter uma rotina, tarefas cotidianas b\u00e1sicas, e a preocupa\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria de mant\u00ea-la. Ele havia se acostumado com o estado de alerta, com a certeza de que algu\u00e9m iria vir atr\u00e1s dele, com o alvo em suas costas, que agora, tornava-se sua pr\u00f3pria algema, prendendo-o no lugar, impossibilitando-o de caminhar para frente ou retornar para o passado. Alpine era a \u00fanica coisa que poderia apoiar-se, mesmo que s\u00f3 estivesse assim t\u00e3o carinhosa, porque desejasse comida.<br \/>\n\u2003\u2003Com um suspiro, Bucky soltou Alpine no assoalho de madeira quando a gata se empertigou, dois minutos depois, com o excesso de carinho, e ent\u00e3o, caminhou para dentro. Fechou a sacada, puxou as cortinas, acendeu as luzes da sala de estar que dava diretamente para a cozinha, e ent\u00e3o, tratou logo de abrir a lata com o atum que Alpine gostava de comer, junto com o sach\u00ea de comida para gato. Ignorou o miado imperativo, revirando os olhos, e se questionando como a gata poderia ser mimada daquele jeito \u2013 n\u00e3o que fosse assumir culpa alguma, ele n\u00e3o a mimara tanto assim. Estava na metade do processo quando sentiu seu celular vibrar no bolso de sua cal\u00e7a de moletom cinza escura. A princ\u00edpio julgou que deveria ser apenas notifica\u00e7\u00e3o de algum aplicativo que ele havia baixado pela curiosidade e ent\u00e3o esquecido que estava ali, talvez fosse algum dos jogos que Shuri havia sugerido que ele tentasse, e que Bucky havia sequer passado do tutorial. Terminou de colocar a comida no potinho de metal de Alpine, misturando-a, ciente de que Alpine tinha a tend\u00eancia de comer apenas o atum e ignorar o sach\u00ea se ele n\u00e3o misturasse a comida dela e a enganasse. Mas quando o celular continuou a vibrar, em uma clara indica\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00e3o, Bucky uniu as sobrancelhas, repousando o pote \u00e0 frente de Alpine, e ent\u00e3o retirando seu celular do bolso, para verificar o que diabos poderia ter acontecido.<br \/>\n\u2003\u2003Uma liga\u00e7\u00e3o. O nome de Sam Wilson piscou na tela de seu aparelho, o fez apertar os l\u00e1bios em uma linha r\u00edgida. N\u00e3o atendeu, \u00e9 claro, ele nunca atendia as liga\u00e7\u00f5es que eram feitas, ficou apenas ali, segurando o aparelho, esperando-o desligar para ent\u00e3o puxar a barra de notifica\u00e7\u00f5es para ler a mensagem. N\u00e3o o fazia por mal, fazia por covardia, porventura, mesmo desespero. A ideia de oferecer espa\u00e7o para algu\u00e9m entrar nunca lhe soara segura, n\u00e3o depois de tudo o que havia passado. As chances de isso acabar mal, eram in\u00fameras. Um minuto depois, Bucky encontrou a notifica\u00e7\u00e3o que procurava. N\u00e3o s\u00e3o muitas, apenas duas mensagens; uma pergunta do porqu\u00ea ele n\u00e3o havia atendido, e ent\u00e3o, logo abaixo, algo que fez seu sangue gelar.<br \/>\n\u2003\u2003SAM WILSON: 8th Avenue com 44th Street. De novo. Vem r\u00e1pido.<br \/>\n\u2003\u2003Praguejou entre dentes, o ru\u00eddo afiado o suficiente para fazer com que Alpine saltasse no lugar, surpresa com a altera\u00e7\u00e3o de humor do dono, enfiou meio \u00e0s pressas o aparelho de volta para o bolso de sua cal\u00e7a moletom, impaciente, disparando em dire\u00e7\u00e3o a sala. N\u00e3o precisou de muito tempo para localizar a jaqueta, seu bon\u00e9 preto e suas chaves, mesmo as botas que enfiou de qualquer jeito nos p\u00e9s, eram de seu antigo uniforme militar, da Segunda Guerra Mundial. Um memento que Steve havia guardado para ele \u2013 a promessa de que um dia Bucky poderia voltar a ser quem era, mesmo que a vaga mem\u00f3ria de quem fora, agora, n\u00e3o passasse disso. Mal deu-se ao trabalho de amarrar os cadar\u00e7os, ou de verificar se os cabelos estavam no lugar. Havia os cortado no dia anterior, em um \u00edmpeto desesperado para sentir-se mais como Bucky Barnes, do que Soldado Invernal, mas agora, com a certeza de que a veria, um desconforto come\u00e7ou a surgir em seu peito; e se ela o estranhar? E se o odiasse ainda mais porque havia cortado o cabelo? Ela s\u00f3 conhecia seu rosto como o Soldado Invernal, n\u00e3o como Bucky, e se isso fosse exatamente a gota d\u2019\u00e1gua que faltava para que ela fosse embora de vez? E se ele a perdesse\u2026?<br \/>\n\u2003\u2003Ajustou o bon\u00e9 outra vez em sua cabe\u00e7a, disparando, encoberto pela noite, pelas ruas fr\u00edgidas e umedecidas do outono de Nova York, ignorando a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica amena. A blusa de gola alta, de compress\u00e3o ajudava-o a reter o calor, mas as cal\u00e7as de moletom haviam sido um erro rid\u00edculo para se cometer, mas n\u00e3o era igualmente como se Barnes estivesse <em>esperando<\/em> uma liga\u00e7\u00e3o no meio da madrugada de Sam; muito menos ter a ideia de que %Petrovych% estava com problemas, <em>de novo<\/em>. Ele n\u00e3o poderia abandon\u00e1-la, n\u00e3o como j\u00e1 havia feito anteriormente. Ent\u00e3o ele focou em correr, saltando e desviando de alguns pedestres, latas de lixo e desviando de alguns carros at\u00e9 que finalmente chegasse ao local. <em>Clube do Inferno\u00b9<\/em>, Bucky praguejou entre dentes, o ru\u00eddo baixo, inaud\u00edvel, mas vis\u00edvel com a lufada de ar que se projetou para fora de seus l\u00e1bios ressecados, espiralando por seus olhos; considerou o que deveria fazer. Havia uma pequena chance de esbarrar com algu\u00e9m que n\u00e3o deveria ali dentro, n\u00e3o eram apenas idiotas que se aventuravam pelo lugar, alguns <em>mutantes<\/em> tamb\u00e9m o frequentavam, mutantes estes que n\u00e3o possu\u00edam uma ficha criminal <em>limpa<\/em> \u2013 considerando que ele <em>ainda<\/em> estava lutando pelo perd\u00e3o judicial, era para <em>al\u00e9m<\/em> de um risco sua presen\u00e7a ali. Mas ele n\u00e3o iria dar as costas e deixar o lugar <em>sem<\/em> %Petrovych%. O que quer que tivesse acontecido, era <em>sua<\/em> responsabilidade.<br \/>\n\u2003\u2003Percebeu, com uma clareza certa, que estava fodido de qualquer forma. Sua hesita\u00e7\u00e3o n\u00e3o vinha pela possibilidade de violar o <em>acordo<\/em> que T\u2019Challa havia conseguido para ele ap\u00f3s todo o processo de quebra do c\u00f3digo do Soldado Invernal, mas simplesmente porque n\u00e3o tinha certeza se queria ouvir o que <em>%Petrovych%<\/em> teria a dizer a ele desta vez. N\u00e3o <em>nesta<\/em> noite; nunca acabava bem, nunca eram palavras simpl\u00f3rias, de ao menos d\u00favidas. Eram <em>sempre<\/em> acusa\u00e7\u00f5es. E embora ele n\u00e3o a julgasse por as fazer, embora estivesse <em>certo<\/em> de que as merecia, a um certo limite, era igualmente, insuport\u00e1vel ouvi-la. %Anya% era a \u00fanica que conseguia erguer o espelho que refletia o monstro que Bucky tentava fugir. Era <em>sua<\/em> v\u00edtima, afinal. Uma <em>viva<\/em>, a <em>\u00fanica<\/em> que n\u00e3o havia afundado com o mar de corpos que carregava. Endireitou os ombros, movendo a mand\u00edbula, impaciente. Empurrou o seguran\u00e7a para fora de seu caminho, sem meias palavras, n\u00e3o havia nada naquele lugar que iria impedi-lo de entrar, <em>isto<\/em>, era certo.<br \/>\n\u2003\u2003Teve certeza de que o seguran\u00e7a o xingou. Ouviu o comando para que ele voltasse antes que fosse obrigado a retir\u00e1-lo de l\u00e1, imperioso, retumbar pela entrada claustrof\u00f3bica, cheia de corpos se movendo e pessoas fedendo a desodorante vencido, suor e bebida alco\u00f3lica, atraindo a aten\u00e7\u00e3o alheia na dire\u00e7\u00e3o de Barnes. Bucky inspirou fundo uma vez, tentando conter a frustra\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o, com uma express\u00e3o amea\u00e7adora, voltou-se na dire\u00e7\u00e3o do seguran\u00e7a, bastou um aperto de sua m\u00e3o bi\u00f4nica no cano da arma do seguran\u00e7a, entortando-a, para silenci\u00e1-lo. Olhos arregalados, a percep\u00e7\u00e3o imediata de com quem estava lidando. Bucky voltou a andar, a mistura de aromas desconfort\u00e1veis, dissonantes o suficiente para parecerem grudar em sua pr\u00f3pria pele, e por baixo de tudo isso, havia aquele familiar aroma met\u00e1lico, pungente de sangue. O cen\u00e1rio ca\u00f3tico era insuport\u00e1vel. A no\u00e7\u00e3o de que o espa\u00e7o que se encontrava poderia ocultar um ataque imediato, colocava-o em alerta; assim como fora treinado para ser invis\u00edvel, sabia que n\u00e3o havia sido <em>o \u00fanico<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Um suspiro de al\u00edvio escapou por seus l\u00e1bios entreabertos, sua respira\u00e7\u00e3o controlada, ainda pesada pela corrida, e pelo tormento que havia sido deixado ao fundo de sua mente. Retirou o celular do bolso de sua cal\u00e7a de moletom, esquecendo-se de que havia pegado o aparelho com seu bra\u00e7o bi\u00f4nico, e, quase acidentalmente, quebrou a tela do celular, antes de pass\u00e1-lo para sua m\u00e3o normal. Desbloqueou a tela, e ent\u00e3o puxou outra vez a notifica\u00e7\u00e3o de Sam, tentando retornar-lhe a liga\u00e7\u00e3o. Buscou com o olhar, preso em uma mistura de ansiedade crescente e frustra\u00e7\u00e3o, pelo rosto do colega, mas n\u00e3o encontrou ningu\u00e9m. Foi somente na segunda tentativa de retornar a liga\u00e7\u00e3o perdida de Sam, que seus olhos repousaram no segundo andar do lugar, para onde uma escadaria de metal tingida de preto levava em dire\u00e7\u00e3o a \u00e1rea privada, reservada para os clientes que fumavam. Bucky apertou os l\u00e1bios, guardando o aparelho novamente em seu bolso, antes de seguir em dire\u00e7\u00e3o onde o amigo de Steve encontrava-se.<br \/>\n\u2003\u2003Subiu os degraus o mais r\u00e1pido que conseguia, quase correndo at\u00e9 deparar-se com Wilson. Observou-o com os bra\u00e7os cruzados, havia olheiras profundas manchando sua express\u00e3o exausta, e uma carranca t\u00e3o ranzinza quanto Bucky exibia. As sobrancelhas grossas unidas, e um olhar de preocupa\u00e7\u00e3o fixo na figura encolhida no banco um pouco mais ao fundo; Bucky travou a mand\u00edbula com um pouco mais de for\u00e7a, sabia que n\u00e3o deveria incomodar-se com a presen\u00e7a de Sam ali, mas enquanto tentava entender o plano geral de toda a situa\u00e7\u00e3o, foi somente naquele momento, ao encarar o olhar preocupado de Sam, que Bucky percebeu algo que pareceu servir como combust\u00edvel para inflamar sua frustra\u00e7\u00e3o e seu pr\u00f3prio inc\u00f4modo pessoal. Sam havia chegado ali antes dele, fosse porque <em>j\u00e1<\/em> estava <em>junto<\/em> com <em>ela<\/em> ou porque <em>ela<\/em> escolheu ligar <em>primeiro<\/em> para ele, n\u00e3o saberia dizer, mas essa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o aliviou o aperto crescente em seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que aconteceu? \u2013 Bucky questionou, tentando passar por Sam e dirigir-se na dire\u00e7\u00e3o de onde %Petrovych% encontrava-se. Estava com raiva, sim, isso era n\u00edtido pela maneira com que os m\u00fasculos de suas costas e ombros se tencionavam, mas era mais que isso, estava <em>preocupado<\/em>, aterrorizado at\u00e9 mesmo, pelo o <em>que<\/em> ela poderia ter feito <em>consigo mesma<\/em> dessa vez. Antes que Bucky pudesse dar um passo, todavia, Sam o impediu com um aperto firme. Bucky voltou-se, capturado pelo pr\u00f3prio instinto e alerta, confundindo-se com a realidade da situa\u00e7\u00e3o e encontrando um inimigo no rosto do colega. O que restou do Soldado Invernal, dentro de si, gritou para que ele atacasse; o instinto programado, <em>ainda<\/em> vivo o suficiente para que compreendesse qualquer um que impedisse seus movimentos como uma amea\u00e7a. J\u00e1 <em>ele<\/em> sentiu o gosto amargo da percep\u00e7\u00e3o traidora, que, mais uma vez, roubara-lhe o foco principal. Por mais que se esfor\u00e7asse, Bucky tinha a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o estava melhorando, parecia estar estagnado no lugar, pior, <em>regredindo<\/em>. \u2013 Sam\u2026 \u2013 ele come\u00e7ou a dizer, tentando encontrar palavras para justificar sua rea\u00e7\u00e3o, mas Sam apenas negou com a cabe\u00e7a, firme, n\u00e3o parecendo importar-se o suficiente para lidar com <em>aquilo<\/em> naquele momento, embora os olhos escuros estreitados do homem, revelassem <em>muito<\/em> de seu pr\u00f3prio inc\u00f4modo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, s\u00f3 me escuta, cara \u2013 Sam cortou Bucky com um gesto de cabe\u00e7a antes que ele pudesse dizer alguma coisa. A press\u00e3o em sua mand\u00edbula travada aumentou um pouco mais, fazendo um pequeno m\u00fasculo projetar-se com o gesto, mas ele n\u00e3o ousou dizer nada. Os l\u00e1bios apertaram-se em uma linha fina, r\u00edgida, sem desviar do olhar do negro, sustentando-o com intensidade, e irrita\u00e7\u00e3o crescente. N\u00e3o saberia dizer se o negro o odiava, ou se o tolerava por causa de Steve, mas havia algo quase gentil e compreensivo no semblante de Sam. Wilson engoliu em seco, assentindo, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa, ao dizer: \u2013 N\u00e3o \u00e9 o melhor momento. Para voc\u00eas dois\u2026 \u2013 Sam pausou, parecendo tentar encontrar as palavras corretas para usar. Bucky estreitou os olhos, sua frustra\u00e7\u00e3o aumentando um pouco mais. \u2013 Liguei para voc\u00ea para que me ajudasse com o endere\u00e7o dela, quando n\u00e3o atendeu, fui buscar uma outra forma de descobrir, questionar algum dos bartenders ou gerentes, n\u00e3o percebi que <em>ela<\/em> havia mandado a mensagem para voc\u00ea at\u00e9 alguns minutos atr\u00e1s, se o tivesse feito teria avisado para voc\u00ea ficar\u2026 <em>na sua<\/em>\u2026 \u2013 Sam lan\u00e7ou um olhar significativo para Bucky, que puxou seu bra\u00e7o para tr\u00e1s. Dor pareceu surgir nos olhos de Bucky, que o obrigou a desvi\u00e1-los imediatamente do semblante de Sam. A rejei\u00e7\u00e3o era mais dolorosa do que ele queria admitir, mas a frustra\u00e7\u00e3o falava mais alto. <br \/>Porque diabos ent\u00e3o <em>%Anya%<\/em> havia mandado aquela mensagem? A troco do que? \u2013 Desculpa, cara, ela n\u00e3o parece\u2026 <em>bem<\/em>\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Piscou algumas vezes, tentando clarear seus pr\u00f3prios pensamentos e manter o foco, sem muita surpresa com as palavras de Sam. Ele n\u00e3o era a <em>primeira<\/em> pessoa a quem ela aparentemente <em>recorria<\/em>, e, ainda que fosse esperado, n\u00e3o pode deixar de sentir, em algum lugar dos peda\u00e7os fragmentados que restava em seu peito, do que outrora fora, uma pontada dolorosa ressurgir. Uma press\u00e3o formou-se por tr\u00e1s de seus olhos, a garganta pareceu arder, e os dentes cerraram-se com um pouco mais de for\u00e7a. Apoiou as duas m\u00e3os sobre seus quadris, as pontas dos dedos fincando-se na pele, lutando contra o impulso de deixar sua express\u00e3o desmoronar. N\u00e3o soube dizer ao certo se era o vento outonal que entrava pelo espa\u00e7o aberto, ou se era suas pr\u00f3prias dicotomias de emo\u00e7\u00f5es avassalando seu peito, mas sentiu-se, de repente, como se estivesse congelando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Por que <em>voc\u00ea?<\/em> \u2013 Bucky perguntou de s\u00fabito, sem conseguir conter o impulso. Algo ruim pareceu desenrolar-se pelos fragmentos espalhados no centro do peito de Barnes, algo quente e viscoso que parecia amortecer um pouco de sua racionalidade; <em>ci\u00fames<\/em>, porventura, ainda que n\u00e3o pudesse ser capaz de categoriz\u00e1-lo com certeza. Ele lan\u00e7ou um olhar na dire\u00e7\u00e3o de %Anast\u00e1cia%, buscando pela resposta a sua pergunta silenciosa, mas deparou-se, como sempre, com a parede impenetr\u00e1vel de gelo e dist\u00e2ncia que ela sempre exibia quando estava perto dele, quando o <em>via<\/em>. Voltou ent\u00e3o sua aten\u00e7\u00e3o para Sam, esperando que, ao menos, lhe oferecesse a d\u00e1diva de uma mentira.<br \/>\n\u2003\u2003Mas \u00e9 claro que Sam jamais faria isso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o complica as coisas cara \u2013 Sam tentou desviar do assunto, mas Bucky j\u00e1 havia perdido a paci\u00eancia fazia um tempo. A express\u00e3o do moreno endureceu, os olhos pareceram escurecer com a raiva cuidadosamente controlada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>Por que voc\u00ea, Sam?<\/em> \u2013 pressionou, um tom de voz baixo, controlado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sou o n\u00famero de emerg\u00eancia dela, Bucky. Desde que Rogers passou o escudo \u2013 Sam respondeu por fim, com um suspiro pesado. Bucky inspirou fundo, sentindo a frustra\u00e7\u00e3o aumentar. Steve havia decidido aquilo sem ao menos <em>avis\u00e1-lo?<\/em> \u2013 Olha, \u00e9 tempor\u00e1rio, s\u00f3 at\u00e9 voc\u00ea se resolver, e voc\u00eas dois resolverem\u2026 o que quer que seja <em>isso<\/em> \u2013 Sam tentou esclarecer, mas Bucky n\u00e3o estava ouvindo. Estava com raiva de Steve, por n\u00e3o ter lhe contado o que havia feito e por n\u00e3o <em>confiar<\/em> <em>nele<\/em> quando se tratava de %Petrovych%. Por ter escolhido Sam, um <em>desconhecido<\/em>, e n\u00e3o Bucky que a conhecia a tempo suficiente.<br \/>\n\u2003\u2003Ignorando Sam, voltou a linha de seu olhar para %Anya%, encarando-a com descren\u00e7a. Ela havia deixado os bra\u00e7os ca\u00edrem a frente de seus joelhos, os dedos estavam ensanguentados, a mand\u00edbula delicada, tensionada com for\u00e7a, os olhos %prateados% queimando o rosto de Bucky. Havia tanto <em>\u00f3dio<\/em> ali, naquele mero olhar, que fez algo dentro do peito dele romper-se e contorcer-se, algo que Barnes ignorou. Se a ferida sequer havia sido cicatrizada, era mais uma vez exposta pela teimosia dos dois. Ela tinha cortes o suficiente por sua pele para evidenciar suas inten\u00e7\u00f5es ali; questionou-se qual teria sido sua inten\u00e7\u00e3o para mandar aquela mensagem. Ele desejou poder gritar com ela, exigir uma explica\u00e7\u00e3o, mas ao mesmo tempo, uma parte de si desejou apenas abra\u00e7\u00e1-la.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Barnes, fica de fora dessa, desta vez, o que quer que voc\u00ea queira fazer, agora n\u00e3o \u00e9 o momento, ela est\u00e1 inst\u00e1vel, e voc\u00ea n\u00e3o parece estar muito melhor, d\u00e1 um tempo, cara\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Mas Bucky ignorou. Sam praguejou baixo, voltando-se em dire\u00e7\u00e3o de %Anya%, e como sal em uma ferida infeccionada, aberta a tempo demais, Bucky viu os dois se encararem, trocando um olhar silencioso, comunicando alguma coisa que Bucky n\u00e3o fazia parte. Mesmo que fosse injusto, era imposs\u00edvel para ele n\u00e3o sentir uma ponta de trai\u00e7\u00e3o vinda de %Anast\u00e1cia%. Que o odiasse, que o desprezasse, mas mant\u00ea-lo fora? <em>Isso<\/em> era cruel, mesmo para ela. %Anya% agitou a cabe\u00e7a, silenciosa como um gato, e Sam suspirou pesado, frustrado, mas compreensivo. Quando Bucky for\u00e7ou-se a andar na dire\u00e7\u00e3o dela, Sam, desta vez, n\u00e3o o impediu, apenas deu as costas, jogando m\u00e3os para o ar, e murmurando alguma coisa sobre malucos e estar acabando com a cabe\u00e7a dele.<br \/>\n\u2003\u2003Ele aproximou-se dela, cauteloso. Observou os p\u00e9s descal\u00e7os, ensanguentados, os olhos avermelhados, as pupilas dilatadas, as marcas do choro que ela parecia sempre tentar esconder com veem\u00eancia. Tentar alcan\u00e7\u00e1-la era como tentar tocar em um animal selvagem, ferido a muito tempo, ela iria morder no segundo que ele encostasse seus dedos em sua pele; que o fizesse, Bucky carregava cicatrizes o suficiente para n\u00e3o mais importar-se com ganhar uma nova.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <strong>Veio me matar?<\/strong> \u2013 N\u00e3o era o tom de acusa\u00e7\u00e3o dela que o machucou, foram as palavras. Uma parte de Bucky quis gritar que n\u00e3o era ele, que n\u00e3o era sua culpa, mas tudo o que escapou de sua garganta foi um exalo tr\u00eamulo, quase fr\u00e1gil. %Anya% soltou um riso baixo, desprovido de quaisquer tra\u00e7os de humor, soou seco, distante, quase embargado, como se porventura estivesse \u00e0 beira das l\u00e1grimas. Mas %Anya% %Petrovych%, sua %Anya%, n\u00e3o chorava. Era orgulhosa demais para isso. Os olhos %prateados%, acusadores, demoraram-se por um momento na m\u00e3o bi\u00f4nica de Bucky, o que o fez escond\u00ea-la atr\u00e1s de si por instinto, antes de voltar a encar\u00e1-lo em seus olhos. Havia raiva ali, \u00e9 claro, mas por tr\u00e1s de todo aquele ardor insuport\u00e1vel, por tr\u00e1s de toda a acusa\u00e7\u00e3o direcionada a ele, havia tamb\u00e9m algo que estava quebrado para al\u00e9m do concerto. Algo que ele havia quebrado.<br \/>\n\u2003\u2003Por um longo momento, Bucky permaneceu preso em seu pr\u00f3prio sil\u00eancio, sem saber o que dizer.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <strong>N\u00e3o hoje<\/strong> \u2013 sussurrou por fim, as palavras em russo pareceram crescer em sua boca, estrangeiras demais para que se sentisse confort\u00e1vel, familiares demais para que pudesse esquecer-se de seu significado. Bucky hesitou, observando o tremor nas m\u00e3os delas, no quase riso que n\u00e3o tardou em transformar-se em uma careta silenciosa, de dor. \u2013 <strong>Aqui<\/strong> \u2013 foi tudo o que conseguiu dizer, retirando a jaqueta de seus ombros e ent\u00e3o estendendo para ela. %Anya% encarou o gesto por um tempo, meio oscilante. Tinha certeza de que ela n\u00e3o iria aceitar o gesto, mas por fim, com certo al\u00edvio, ele a viu fechar os dedos sobre o couro resistente da pe\u00e7a, puxando-a em sua dire\u00e7\u00e3o. Levou mais tempo do que deveria para vestir-se, mas quando o fez, Bucky indicou com o queixo na dire\u00e7\u00e3o de seus p\u00e9s descal\u00e7os, considerando as possibilidades. \u2013 <strong>Consegue andar? <\/strong>\u2013 %Anya% assentiu, mas ele a conhecia bem o suficiente para saber que, quando entrava em algum estado propenso de crise, quando parecia vagar para longe de sua pr\u00f3pria mente e perdia o controle de seu corpo, ela tendia a ficar travada, \u00e0s vezes por horas, sem mover-se. Ent\u00e3o sem mais palavras, sem avisos e ignorando a voz repleta de advert\u00eancia de Sam, ele fez a \u00fanica coisa que pensou ser adequada fazer; tomou-lhe em seus bra\u00e7os, com o cuidado de quem maneja uma pe\u00e7a de cristal, concentrando-se apenas em colocar um p\u00e9 \u00e0 frente do outro. Concentrando-se em tir\u00e1-la daquele lugar, como se, porventura, salv\u00e1-la, fosse a chave para salvar a si mesmo. As mentiras que contava para si mesmo, estavam come\u00e7ando a se tornarem mais e mais f\u00e1ceis de acreditar, mas eram somente isso, mentiras.<\/p>\n<p align=\"center\">\u2022\u2022<\/p>\n<p>\u2003\u2003Sil\u00eancio projetou-se sobre os dois como um manto sufocante e inescap\u00e1vel. O tecido outrora esbranqui\u00e7ado que Bucky havia encontrado em seu banheiro, acabara avermelhado, com o sangue dela. O cheiro potente de \u00e1lcool misturava-se com o aroma met\u00e1lico do sangue. Bucky sentiu o peso em seus ombros triplicar, sentiu o medo de erguer seus olhos e encontraram-se com o ressentimento que se tornava t\u00e3o familiar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que estava planejando fazer, %Anya%? \u2013 Bucky sussurrou por fim, desesperado para quebrar o sil\u00eancio, para alcan\u00e7\u00e1-la, por menor que fosse. Mesmo um cent\u00edmetro seria melhor do que a dist\u00e2ncia que ela continuava a colocar entre os dois. Ela era a \u00fanica que podia compreend\u00ea-lo, era a \u00fanica que sabia exatamente o que havia acontecido, que havia vivido o mesmo. Os c\u00e9us sabiam o qu\u00e3o corrosivo era aquele desespero, e, mesmo assim, Bucky n\u00e3o podia evitar. Se ela ao menos o escolhesse\u2026 %Anya% n\u00e3o o respondeu. \u2013 Qual era o objetivo? Morrer? O que ganha com isso?<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% bufou, mas sua voz pareceu, pela primeira vez a trair, ao revelar-se surpreendentemente embargada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea se importa agora, Barnes? \u2013 Ela questiona deliberadamente, o sotaque russo, pesado, distorce um pouco suas palavras, mas ela era clara, precisa, como uma navalha. Dolorosamente sincera. Bucky a encarou, seus olhos, marejados, queimando o rosto dela com ressentimento.<br \/>\n\u2003\u2003Por um longo momento, os dois apenas se encararam. Inj\u00farias, feridas abertas, dor e acusa\u00e7\u00f5es silenciosas pareceram pairar entre si. Mas nenhum ousou afastar o olhar. Pela primeira vez, encararam-se sem importar-se com mais nada. E Bucky percebeu, com um aperto aos fragmentos em seu peito, que ela continuava t\u00e3o bela quanto suas mem\u00f3rias, esburacadas e enevoadas, a tinham gravado. Ela continuava sendo %Anya%, por baixo de todas aquelas cicatrizes, e dores, continuava sendo sua brilhante %Anya%. O porto seguro que ele ousara acreditar que havia encontrado enquanto a Hydra destru\u00eda aos poucos tudo o que lhe restava.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 justo, %Anya%, voc\u00ea sabe que eu n\u00e3o\u2026 \u2013 Bucky come\u00e7ou a dizer, defensivo, sem ousar desviar seus olhos do dela. Petrovich o encarou, descrente, e a frustra\u00e7\u00e3o de Bucky pareceu aumentar. Era simplesmente imposs\u00edvel n\u00e3o a machucar, c\u00e9us sabiam o quanto ele estava tentando, mas era imposs\u00edvel! Quaisquer palavras que ousasse lhe dizer parecia apenas servir de motivo para afast\u00e1-la de si! Estava come\u00e7ando a ficar desesperado. \u2013 Me diz\u2026 \u2013 Bucky come\u00e7ou a dizer, err\u00e1tico, desesperado. As palavras morreram em sua garganta por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, aprisionadas pela press\u00e3o das l\u00e1grimas que amea\u00e7avam escorrer por sua face. Mas ent\u00e3o, ele a encarou, quase febril. \u2013 Me diga como consertar isso, %Anya%, qualquer coisa! Farei! S\u00f3 me diga! O que preciso fazer para que pare de me olhar assim\u2026<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <strong><em>Me devolve minha vida!<\/em><\/strong> \u2013 Ela rosnou entre dentes, os olhos %prateados% incandescentes com as l\u00e1grimas que ela se recusava a deixar cair. Agora, escorriam livremente pelas ma\u00e7\u00e3s do rosto altas, enrubescendo a pele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>N\u00e3o era eu, %Anast\u00e1cia%! Nunca fui eu! Eu tentei! Deus sabe como tentei escapar deles, mas n\u00e3o consegui!<\/em> \u2013 As palavras explodiram pelos l\u00e1bios de Bucky, carregadas por uma mistura gritante de emo\u00e7\u00f5es que se restringiam a uma \u00fanica origem: desespero. Uma s\u00faplica bruta por compreens\u00e3o. Algo que %Anya%, aparentemente, jamais poderia lhe oferecer. Do\u00eda-lhe mais. \u2013 <em>%Anya%, voc\u00ea precisa entender\u2026 por favor\u2026!<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>Entender?!<\/em> \u2013 Ela ecoou as palavras dele, desacreditada, e Bucky fechou os olhos, encolhendo-se com a explos\u00e3o que se seguiu. N\u00e3o era o tom alto reverberando pelas paredes de seu apartamento que o incomodava, era a verdade inquestion\u00e1vel nas palavras dela que mais machucou. \u2013<em> Voc\u00ea me abandonou! Me traiu! Entender?! Voc\u00ea me destruiu, Barnes! <\/em>\u2013 Bucky a encarou, uma s\u00faplica pairando por seus olhos azuis esverdeados, \u201cpare, por favor pare\u201d parecia querer dizer, mas ele n\u00e3o ousou interromp\u00ea-la, n\u00e3o desta vez. %Anya% solu\u00e7ou, uma mistura de riso e desespero, antes de levar o antebra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o aos l\u00e1bios, a fim de tentar se silenciar. Seus olhos %prateados% desviaram-se do rosto de Barnes. \u2013 E <em>sabe <\/em>o que \u00e9 <em>pior<\/em>? <strong><em>Voc\u00ea foi salvo! Voc\u00ea est\u00e1 bem!<\/em><\/strong> Mas eu\u2026 James, eu\u2026 <strong><em>eu n\u00e3o tenho nada! Voc\u00ea tirou tudo<\/em><\/strong> de mim e <strong><em>est\u00e1 bem! Voc\u00ea<\/em><\/strong> foi <strong><em>salvo<\/em><\/strong>! Mas n\u00e3o tem <strong><em>ningu\u00e9m\u2026<\/em><\/strong> n\u00e3o tenho mais <strong><em>ningu\u00e9m<\/em><\/strong> para <strong><em>me<\/em><\/strong> salvar\u2026 \u2013 Ela for\u00e7ou um riso, mas com o choro mal contido, soa apenas um solu\u00e7o embargado. E foi ali que Bucky a viu quebrar pela primeira vez. Sua garganta ardeu, como se estivesse descamada em carne viva, mas n\u00e3o houve palavra alguma que pudesse dizer para aliviar a situa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o Bucky apenas fez o que podia, ele a ouviu. \u2013 Odeio voc\u00ea, James. Eu te <em>odeio tanto\u2026<\/em> \u2013 ela sussurrou, enterrando o rosto em suas m\u00e3os, e Bucky engoliu em seco, ainda sem saber o que dizer para ela. Ainda escolhendo apenas ouvi-la, por mais que lhe machucasse as palavras. \u2013 Mas odeio <em>mais<\/em> n\u00e3o conseguir te perdoar\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Bucky pigarrou, desviando os olhos e endireitando-se. Obrigou-se a afastar-se das l\u00e1grimas que projetavam-se ao redor de seus olhos, usando sua m\u00e3o normal para limpar bruscamente o rosto antes que ela pudesse v\u00ea-las. Aquele n\u00e3o era seu momento, mas o dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sei \u2013 Bucky sussurrou, os cantos de seus l\u00e1bios retorcidos para baixo, assentindo apenas para enfatizar sua compreens\u00e3o. Pigarreou, tentando clarear sua voz, tentando deix\u00e1-la menos tr\u00eamula, mas firme e compreens\u00edvel. \u2013 Vou deixar voc\u00ea\u2026 \u2013 Antes que Bucky pudesse terminar a frase, %Anya% agarrou seu pulso, dedos tr\u00eamulos e delicados fincando-se em sua pele, em um aperto de ferro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o\u2026 \u2013 ela come\u00e7ou a dizer, mas em meio ao desespero, e a necessidade de expelir suas palavras o mais r\u00e1pido que conseguia, sua l\u00edngua enrola, desajeitada, engasga-se com as palavras. Bucky a encarou, sem saber como reagir ao gesto. Uma parte de si estava desesperada para tomar aquilo como uma pequena fagulha de esperan\u00e7a, j\u00e1 a outra, estava ciente de que era um desejo em v\u00e3o; n\u00e3o havia ela acabado de dizer que n\u00e3o conseguia perdo\u00e1-lo? \u2013 N\u00e3o consigo\u2026 \u2013 ela tentou dizer, mas as palavras faltaram-lhe como as dele. Bucky n\u00e3o precisava ouvir uma frase completa para entend\u00ea-la. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o conseguia ficar sozinho, n\u00e3o naquela noite.<br \/>\n\u2003\u2003Por um longo momento, ele a encarou outra vez, apenas observando-a de fato. A fragilidade que a pele dela parecia adquirir sob a penumbra da lua e da meia luz acesa do corredor, a maneira com que os olhos %prateados% cintilavam, avermelhados e repletos de l\u00e1grimas, a solid\u00e3o intr\u00ednseca ali, o desespero e a m\u00e1goa, e como ele, por um momento, desejou apenas tom\u00e1-la em seus bra\u00e7os e mant\u00ea-la ali. Bufou, amargo, tamanha ousadia entretida. Mas foi a s\u00faplica dela que o fez simplesmente aceitar. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o queria ficar sozinho. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o queria perder aquela \u00faltima conex\u00e3o com quem um dia havia sido, mesmo que fosse mera fabrica\u00e7\u00e3o da Hydra para mant\u00ea-lo sob controle. Engoliu em seco, antes de balan\u00e7ar a cabe\u00e7a deliberadamente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ainda tenho uma garrafa de vodca na geladeira \u2013 Bucky disse por fim, indicando com a cabe\u00e7a para que ela o seguisse de volta para a cozinha. \u2013 Se quiser, pelo menos quebra o gelo \u2013 Complementa, sem acrescentar ou retirar mais nada, deixando a escolha nas m\u00e3os dela. Desta vez, todavia, %Anya% o seguiu, envolta por um sil\u00eancio menos desconfort\u00e1vel. Era o suficiente, por hora.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Fim<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque diabos ent\u00e3o %Anya% havia mandado aquela mensagem? 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