{"id":9157,"date":"2025-12-08T20:53:00","date_gmt":"2025-12-08T23:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-08T20:54:05","modified_gmt":"2025-12-08T23:54:05","slug":"capitulo-15","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chame-por-cigana\/capitulo-15\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 15"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Rafael demorou a se acostumar em ser seguido. Os dois policiais estavam em todos os lugares onde frequentava \u2013 faculdade, o sal\u00e3o de beleza, os caminhos onde percorria&#8230; Apesar de ser necess\u00e1rio, o incomodava porque gostava de se sentir livre, n\u00e3o preso como um p\u00e1ssaro numa gaiola. Detestava o excesso de olhos sobre si.<br \/>\n\u2003\u2003Micaela e Mia n\u00e3o foram avisadas da situa\u00e7\u00e3o por n\u00e3o querer gerar preocupa\u00e7\u00f5es excessivas nelas. Afinal, o alvo era ele, n\u00e3o as duas.<br \/>\n\u2003\u2003- Ser\u00e1 que s\u00e3o moradores novos? \u2013 a m\u00e3e o questionava no mercado \u2013 N\u00e3o paro de v\u00ea-los pelos arredores.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c9 claro que as figuras dos homens de porte grande n\u00e3o passariam despercebida pela mulher.<br \/>\n\u2003\u2003- Talvez. Vamos, vamos ver outras coisas.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Tentava a todo custo redirecionar a aten\u00e7\u00e3o da m\u00e3e quando ela tocava no assunto.<br \/>\n\u2003\u2003Nem mesmo escapou deles numa ia ao cinema com Kalisto.<br \/>\n\u2003\u2003A sess\u00e3o come\u00e7ava \u00e0s nove da noite de um s\u00e1bado. Foram assistir a uma com\u00e9dia para dissipar um pouco daquela tens\u00e3o. Os policiais estavam com uma express\u00e3o t\u00e3o tediosa na fileira abaixo da deles que o ruivo n\u00e3o conteve a risada.<br \/>\n\u2003\u2003Como o pudor era a menor preocupa\u00e7\u00e3o do casal, o advogado aproveitou que a fileira estava vazia \u2013 e a escolha pelos lugares no canto n\u00e3o foi coincid\u00eancia. N\u00e3o demorou para aproveitarem o momento para se beijarem, passeando as m\u00e3os pelo corpo um do outro desejosos.<br \/>\n\u2003\u2003Por querer assistir ao filme, dividia a aten\u00e7\u00e3o \u2013 adorando os toques do moreno e sem recusar os beijos, \u00e9 claro. Tomava cuidado para n\u00e3o fazer nenhum barulho, ent\u00e3o os \u00fanicos sinais de prazer eram as rea\u00e7\u00f5es corporais e as express\u00f5es faciais. Agarrado a Kalisto pela pele do pesco\u00e7o ser castigada com a l\u00edngua macia, enxergou quando um dos policiais levantou. Provavelmente iria ao banheiro, por\u00e9m, ap\u00f3s se dar conta sem querer das atividades na fileira superior por virar a cabe\u00e7a objetivando supervision\u00e1-los, achou mais prudente manter-se sentado.<br \/>\n\u2003\u2003Rafael segurou o riso quando o companheiro fez men\u00e7\u00e3o de levantar, mas foi impedido pelo outro, quem, estrategicamente, o segurou pela nuca para evitar ver o que acontecia atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Quando as m\u00e3os deslizaram at\u00e9 encontrar o c\u00f3s do short e desabotoa-lo, sussurrou:<br \/>\n\u2003\u2003- Estamos em p\u00fablico, amor.<br \/>\n\u2003\u2003- Foda-se.<br \/>\n\u2003\u2003Foi a resposta antes de toma-lo em sua boca \u2013 n\u00e3o foi a \u00fanica vez naquelas duas horas e meia a gozar e nem o \u00fanico, j\u00e1 que o advogado tamb\u00e9m atingiria o cl\u00edmax em poucos minutos na sua m\u00e3o com os l\u00e1bios rosados sugando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Jonathan n\u00e3o estava bem desde o acontecimento com o primo.<br \/>\n\u2003\u2003Quando viu o epis\u00f3dio do sequestro compreendeu que aquele era o objetivo de Andr\u00e9 ao pedir para encontrar com o primo, especificando algumas vezes o hor\u00e1rio e o local exatos.<br \/>\n\u2003\u2003Ligara para o homem pedindo por explica\u00e7\u00f5es, preocupado com a vida do familiar. N\u00e3o obteve nenhuma resposta relevante al\u00e9m do \u201cFoi pro bem dele. N\u00e3o posso explicar nada agora. Se serve de consolo, voc\u00ea fez uma boa a\u00e7\u00e3o para protege-lo, mesmo que n\u00e3o compreenda essa situa\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\n\u2003\u2003Faltando menos de duas semanas para entregar a mala cujo conte\u00fado n\u00e3o se atrevia a conhecer no aeroporto, agindo devido ao medo de se afundar como o outro se afundava, ligara para o primo, marcando um encontro com ele. Avisou que n\u00e3o poderia conversar pelo telefone pelo assunto se referir a Andr\u00e9. S\u00f3 n\u00e3o esperava que o endere\u00e7o enviado pelo ruivo fosse numa delegacia.<br \/>\n\u2003\u2003Ao adentrar no lugar foi direcionado para o gabinete de Miguel, onde encontraria Rafael, Kalisto, Cau\u00e3 e o delegado.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi! \u2013 correu para abra\u00e7a-lo aliviado por n\u00e3o detectar nada de diferente \u2013 Voc\u00ea est\u00e1 bem? Fizeram alguma coisa contigo? \u2013 se separou para averigu\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o. Estou bem, sim. Eu consegui fugir.<br \/>\n\u2003\u2003- Como? Rafa, eram quatro caras naquele carro! Como&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Digamos que a hist\u00f3ria seja longa demais. \u2013 Kalisto se p\u00f4s ao lado do ruivo o segurando pela cintura \u2013 O importante \u00e9 que n\u00e3o lhe aconteceu nada de ruim.<br \/>\n\u2003\u2003- Temos algumas coisas para tratar contigo. \u2013 Cau\u00e3 se aproximou com a m\u00e3o estendida num comprimento \u2013 Cau\u00e3. Sou primo do Bruno.<br \/>\n\u2003\u2003- Jonathan. \u2013 n\u00e3o compreendeu porque sentiu-se acuado ali \u2013 Ol\u00e1. \u2013 apertou a m\u00e3o estendida.<br \/>\n\u2003\u2003- Miguel. \u2013 o advogado pontou para o amigo estava atr\u00e1s de sua mesa observando a cena \u2013 Agora com todos devidamente apresentados, podemos, por favor, conversar sobre o tema principal?<br \/>\n\u2003\u2003- Primeiro, gostaria de te ouvir, Jonathan. Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com Andr\u00e9? \u2013 o delegado tinha olheiras n\u00e3o muito profundas, sinais do cansa\u00e7o por causa do caso.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 um colega. Nunca fomos t\u00e3o pr\u00f3ximos.<br \/>\n\u2003\u2003- Pelo o que descobri na minha investiga\u00e7\u00e3o, te entrega uma mala pra ser guardada por voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras o empalideceram.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Nem tenta mentir. Descobri essa informa\u00e7\u00e3o por meio do celular do Andr\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003- Como \u00e9 que&#8230; \u2013 n\u00e3o conseguia entender a situa\u00e7\u00e3o com as pe\u00e7as faltando.<br \/>\n\u2003\u2003- Da \u00faltima vez que esteve l\u00e1 em casa, o Andr\u00e9 acabou esquecendo o celular. \u2013 Rafael tratou de lhe sanar a d\u00favida.<br \/>\n\u2003\u2003- Ningu\u00e9m esquece um celular assim hoje em dia.<br \/>\n\u2003\u2003- Depois de tentar me desfigurar com uma faca e do Kalisto o surrar em consequ\u00eancia o impedindo, v\u00e1 por mim, d\u00e1 pra esquecer.<br \/>\n\u2003\u2003O advogado tratou de abra\u00e7a por tr\u00e1s. Se a lembran\u00e7a o incomodava, sem d\u00favida gerava ang\u00fastia maior no outro, quem fora v\u00edtima das atrocidades.<br \/>\n\u2003\u2003- O qu\u00ea? Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003- O cara n\u00e3o \u00e9 uma boa pessoa. \u2013 contou Kalisto sem afastar-se de Rafael, quem encarava o ch\u00e3o tomado pelas mem\u00f3rias \u2013 E um namorado pior ainda, se \u00e9 que d\u00e1 pra chama-lo assim devido \u00e0s merdas que o Rafa sofreu nas m\u00e3os daquele filho da puta.<br \/>\n\u2003\u2003- Andr\u00e9 est\u00e1 envolvido com algumas coisas digamos&#8230; N\u00e3o muito corretas.<br \/>\n\u2003\u2003- O Bruno est\u00e1 envolvido nisso? \u00c9 por isso que me chamaram? \u2013 Cau\u00e3 n\u00e3o poderia soar mais apreensivo.<br \/>\n\u2003\u2003- De certa forma, sim. Jonathan, sabemos sobre as malas entregues pelo h\u00e1 um pouco mais de um ano. O que faz com a maconha que recebe?<br \/>\n\u2003\u2003Durante a fala, os joelhos do rapaz fraquejaram. Pararia facilmente na cadeia \u2013 inclusive por ser um homem negro num contexto como aquele. Sabia que se fosse branco, loiro, de olhos azuis e endinheirado n\u00e3o teria tantos problemas \u2013 e n\u00e3o era a sua realidade.<br \/>\n\u2003\u2003Notando a fragilidade, o mais novo o encaminhou para a cadeira, onde se sentou com as m\u00e3os tr\u00eamulas. Amedrontado, buscou pelo olhar dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 tudo bem. Confia em mim. Nada de ruim acontecer\u00e1 contigo. \u2013 assegurou o segurando pelos ombros para lhe transmitir for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 pro meu filho. O menino \u00e9 autista e tem uma s\u00e9rie de comorbidades. Quando era mais novo tinha v\u00e1rias crises. Era horr\u00edvel. A gente n\u00e3o dormia por v\u00e1rias madrugadas, a minha esposa precisou desistir do trabalho pra cuidar dele, quando sai de casa \u00e9 s\u00f3 pra leva-lo pra fazer os tratamentos, eu s\u00f3 chego em casa pra dormir de tanto trabalhar&#8230; A situa\u00e7\u00e3o era insustent\u00e1vel. O coloquei para fazer uso de forma medicinal. S\u00f3 assim as crises pararam. Ele fez grandes avan\u00e7os depois disso.<br \/>\n\u2003\u2003Por detr\u00e1s da fachada s\u00e9ria, Miguel escondia a compaix\u00e3o ao ouvir o discurso. Numa troca de olhares r\u00e1pida com Kalisto, o amigo notou. A profiss\u00e3o do delegado era bem desgastante, lhe exigindo uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas desafiantes, al\u00e9m de esconder outras n\u00e3o muito apreciadas no trabalho \u2013 e uma delas definitivamente se apresentou ali, como a compaix\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe qual \u00e9 o conte\u00fado das malas?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o. Nunca me atrevi a abrir ou sequer perguntar. O trato era pra mim guarda-las em troca da maconha. Nada al\u00e9m disso.<br \/>\n\u2003\u2003- O que acha de nos ajudar a sair dessa enrascada ileso, sem passagem pela pol\u00edcia e sem voltar ter contato o Andr\u00e9 de forma segura para n\u00e3o te atormentar?<br \/>\n\u2003\u2003- O meu filho&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Posso ajudar com isso. \u2013 Kalisto se prontificou ao interrompendo \u2013 N\u00e3o \u00e9 bem a minha \u00e1rea, mas consigo a autoriza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o menino continuar o tratamento com a cannabis. Posso conversar com uns colegas os quais n\u00e3o far\u00e3o obje\u00e7\u00e3o alguma em lhe prestar esse aux\u00edlio.<br \/>\n\u2003\u2003- Tamb\u00e9m conhe\u00e7o alguns profissionais s\u00e9rios que atuam aqui no Rio de Janeiro com crian\u00e7as autistas. \u2013 Cau\u00e3 avisou de bra\u00e7os cruzados \u2013 N\u00e3o sei qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o financeira de voc\u00eas, mas eles costumam fazer um trabalho voltado para o p\u00fablico de baixa renda. Talvez seja uma proposta interessante para avaliar com a m\u00e3e da crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Acho que todas as suas d\u00favidas foram sanadas, primo. \u2013 o ruivo tinha um sorriso de agradecimento no rosto para os dois ao encostar a cabe\u00e7a no ombro do moreno.<br \/>\n\u2003\u2003- Podemos contar com a sua ajuda, ent\u00e3o?<br \/>\n\u2003\u2003- Podem, sim.<br \/>\n\u2003\u2003Com algumas informa\u00e7\u00f5es recolhidas sobre Andr\u00e9 ap\u00f3s explicarem a real dimens\u00e3o do caso para Jonathan, quem quase caiu da cadeira com a not\u00edcia, o delegado n\u00e3o demoraria a planejar um meio de fazer uma emboscada no aeroporto quando a mala com drogas fosse entregue antes de ser enviada pro exterior.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00f3 me responde uma coisa, Jonathan. \u2013 solicitou o advogado quando foram dispensados, impedindo a sa\u00edda dos demais pela sua fala \u2013 Por que n\u00e3o avisou para Micaela sobre o sequestro? Afinal, se viu tudo, era de se esperar contar para ela.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor&#8230; \u2013 Rafael lhe segurou o bra\u00e7o preocupado com o que aconteceria a seguir dependendo da resposta.<br \/>\n\u2003\u2003- Rafa&#8230; \u2013 a culpa era tamanha que os olhos encheram de l\u00e1grimas emba\u00e7ando a vis\u00e3o \u2013 Me desculpa. O Andr\u00e9 me chantageou dizendo que, caso eu n\u00e3o me encontrasse contigo naquele endere\u00e7o, iria parar de me entregar a cannabis.<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto se obrigou a conter sua ira. O mais puro \u00f3dio o tomou, confirmando suas suspeitas. Cau\u00e3 se p\u00f4s atr\u00e1s dele apenas por precau\u00e7\u00e3o ao acompanhar a mudan\u00e7a no semblante do outro. Rafael aumentou a press\u00e3o exercida do aperto no bra\u00e7o numa tentativa de cont\u00ea-lo caso avan\u00e7asse sobre o primo.<br \/>\n\u2003\u2003Diferente do que os demais esperavam, foi furioso at\u00e9 a mesa do amigo. O movimento foi brusco ao ponto de carregar o menor consigo aos trope\u00e7os. Apanhou a caneca de porcelana do amigo sobre a mesa, se virou para os outros e a arremessou contra a parede. Cau\u00e3 precisou se abaixar para n\u00e3o ser atingido.<br \/>\n\u2003\u2003- Porra, Kalisto! \u2013 gritou revoltado, j\u00e1 que a havia ganhado de presente.<br \/>\n\u2003\u2003- Desconta em mim, n\u00e3o. \u2013 reclamou Cau\u00e3, quem sentiu a pe\u00e7a atravessar os cabelos de t\u00e3o rente \u2013 Tenho porra nenhuma a ver com a hist\u00f3ria, cacete!<br \/>\n\u2003\u2003 \u2013 Ai, cara&#8230; Minha caneca favorita. \u2013 frustrado, o delegado foi na outra extremidade da sala para catar os peda\u00e7os de porcelana no ch\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Ou era isso ou eu tacava nele. \u2013 apontou para o outro.<br \/>\n\u2003\u2003- Querido, calma. \u2013 parou na frente dele o segurando pelo rosto \u2013 Aquilo j\u00e1 passou. Acabou. Al\u00e9m do mais, o Jonathan n\u00e3o tem culpa de nada. Eu acho.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o sabia o que iria acontecer. \u2013 soava quase hist\u00e9rico \u2013 Primo, por favor, me desculpa. \u2013 cruzou as m\u00e3os rente o queixo \u2013 Eu juro, juro que n\u00e3o sabia.<br \/>\n\u2003\u2003O moreno puxou o ar para solt\u00e1-lo pelas narinas devagar. Com a voz grave pelo esfor\u00e7o em controlar o temperamento, se dirigiu ao depoente:<br \/>\n\u2003\u2003- A sua sorte \u00e9 que sou um homem justo e ponderado. Reconhe\u00e7o que \u00e9 t\u00e3o v\u00edtima quanto o Rafael. Embora eu quisesse demais, n\u00e3o vou bater em voc\u00ea. \u2013 o tom era g\u00e9lido \u2013 At\u00e9 porque os tr\u00eas n\u00e3o seriam suficientes para te arrancar das minhas m\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003E era verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Uma vez, na companhia dos amigos, fora v\u00edtima de homofobia. S\u00e9rgio, Gustavo e Miguel precisaram da assist\u00eancia de uma outra pessoa para cont\u00ea-lo, o afastando do homof\u00f3bico, quem j\u00e1 tinha o queixo quebrado, assim como o nariz \u2013 e mesmo assim n\u00e3o foi um processo simples, j\u00e1 que tinham as faces roxas de tanto esfor\u00e7o f\u00edsico.<br \/>\n\u2003\u2003- Ser\u00e1 que adianta colar? \u2013 desolado, Miguel colocava os fragmentos na mesa.<br \/>\n\u2003\u2003- Ih&#8230; Acho que foi perda total. \u2013 por estarem pr\u00f3ximos a mesa, o ruivo averiguou \u2013 Desculpa.<br \/>\n\u2003\u2003- Me fala o valor por mensagem, Mike. Depois te mando o Pix pra comprar uma nova.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Faltando menos de quinze dias para a opera\u00e7\u00e3o ser efetuada pela equipe de S\u00e9rgio, Bruno passou pela porta do quarto de hotel onde aconteciam os encontros em estado de palidez.<br \/>\n\u2003\u2003- O que foi? Machucaram voc\u00ea? \u2013 o sentou na cama tomado pela inquieta\u00e7\u00e3o por v\u00ea-lo abalado.<br \/>\n\u2003\u2003- V\u00e3o. Ou melhor, uma pessoa vai. \u2013 cruzara as pernas sobre o colch\u00e3o amedrontado.<br \/>\n\u2003\u2003- Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003- Acabei de ser avisado que aquele empres\u00e1rio man\u00edaco quer me ver de novo. \u2013 estava aterrorizado.<br \/>\n\u2003\u2003As marcas no corpo j\u00e1 come\u00e7avam a melhorar e detestava a ideia de se deparar com elas v\u00edvidas em sua pele novamente. Cada arranh\u00e3o, cada golpe, cada tapa, cada choque fora registrado pela sua alma. Ao ouvir que n\u00e3o tardaria em se reencontrar com o cliente, a not\u00edcia o fez vomitar tamanho o seu rep\u00fadio pela figura do empres\u00e1rio cuja m\u00e1scara de cidad\u00e3o de bem escondia o ser desprez\u00edvel, s\u00e1dico e doentio quem realmente era.<br \/>\n\u2003\u2003- Quando vai ser isso?<br \/>\n\u2003\u2003- No final do m\u00eas. N\u00e3o posso ficar com ele de novo. N\u00e3o posso. \u2013 dizia desesperado balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, molhando a face com o choro.<br \/>\n\u2003\u2003O policial, compadecido, o abra\u00e7ou importando-se somente em consol\u00e1-lo. O rapaz deixou sair parte das l\u00e1grimas as quais guardava desde a sua chegada ao Egito. O medo, o desespero, a sensa\u00e7\u00e3o de perda de tudo o que conhecia e quem amava, e o temor pela seguran\u00e7a de sua pr\u00f3pria vida eram expressas ali sem elaborar uma \u00fanica palavra nos bra\u00e7os do \u00fanico capaz de acolh\u00ea-lo genuinamente no pa\u00eds cuja cultura, sociedade, culin\u00e1ria, comportamento e idioma destoavam de sua identidade e real realidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o vou deixar isso acontecer. \u2013 se separou apenas para encar\u00e1-lo o segurando pelo rosto.<br \/>\n\u2003\u2003- Como? Voc\u00ea n\u00e3o pode impedir. \u2013 nem soube como o outro foi capaz de compreender de tanto que solu\u00e7ava.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 s\u00f3 me passar seus dados. Sabe de cabe\u00e7a seu RG e CPF?<br \/>\n\u2003\u2003- Sim.<br \/>\n\u2003\u2003Foi at\u00e9 o arm\u00e1rio de onde retirou seu celular. Se sentando na cama, entrou no bloco de notas.<br \/>\n\u2003\u2003- Digita pra mim junto com o seu nome completo.<br \/>\n\u2003\u2003Teve certa dificuldade para digitar devido \u00e0s destras tr\u00eamulas.<br \/>\n\u2003\u2003- Pra que isso?<br \/>\n\u2003\u2003- Vou mandar fazerem um passaporte pra voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003- Gato, vai demorar.<br \/>\n\u2003\u2003- Hey. \u2013 beijou ao testa \u2013 Sou policial. Acredite, tenho meios para o seu passaporte chegar rapidinho at\u00e9 mim. \u2013 o segurava pela nuca.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem certeza?<br \/>\n\u2003\u2003- Totalmente. Eu n\u00e3o vou permitir o filho da puta de chegar perto de voc\u00ea. \u00c9 uma promessa.<br \/>\n\u2003\u2003Horas mais tarde se reuniria com sua equipe numa chamada de v\u00eddeo com Miguel para anteciparem a opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o revelaria o motivo da altera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m ela daria \u00f3timos resultados, inclusive o retorno de Bruno para o Brasil simultaneamente com a pris\u00e3o de Andr\u00e9.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Por ler as informa\u00e7\u00f5es no celular do traficante e aliciador, al\u00e9m de grampear o n\u00famero novo, Miguel j\u00e1 conhecia como funcionava o esquema.<br \/>\n\u2003\u2003Havia um homem dentre os funcion\u00e1rios do aeroporto quem facilitava o processo de envio das drogas para o exterior ao trocar rapidamente as malas. A vazia retornava com Andr\u00e9 para casa enquanto a outra era exportada. J\u00e1 tinha os dados necess\u00e1rios, assim como fotos e \u00e1udios para comprovar o envolvimento deles no esquema.<br \/>\n\u2003\u2003Apenas n\u00e3o esperava que Andr\u00e9 continuava em busca de Rafael, o encontrando no aeroporto.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Nunca agradeceu tanto por ser ator.<br \/>\n\u2003\u2003Jamais pensou que o seu talento no campo art\u00edstico salvaria a sua vida.<br \/>\n\u2003\u2003Bruno caminhava na rua movimentada em companhia de um dos homens respons\u00e1veis por levar os traficados para se prostitu\u00edrem evitando, assim, a fuga. Na cal\u00e7ada do hotel avistava metros \u00e0 frente um carro preto estacionado com apenas o motorista quem retirou os \u00f3culos \u2013 o sinal que precisava segundo o combinado com S\u00e9rgio.<br \/>\n\u2003\u2003Ao nota-lo cambaleando \u00e0 beira de perder a consci\u00eancia, o criminoso o segurou pelo pulso:<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea est\u00e1 bem?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sei. \u2013 puxava o ar com dificuldade, aparentemente sem foca-lo como deveria enquanto envolvia o pulso magro com os dedos \u2013 Eu acho que&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003O puxou com for\u00e7a para si dando um passo para o lado abrindo espa\u00e7o para correr. Como o loiro n\u00e3o esperava pela a\u00e7\u00e3o, caiu no ch\u00e3o \u00famido pela chuva de poucos minutos antes. Bruno desviou das pessoas com agilidade at\u00e9 chegar ao ve\u00edculo, onde abriu a porta e se jogou no interior.<br \/>\n\u2003\u2003Quando o bandido se levantou, j\u00e1 o havia perdido de vista, assim como o carro j\u00e1 havia sa\u00eddo.<br \/>\n\u2003\u2003- Bruno \u00e9 o seu nome, n\u00e9? \u2013 o motorista indagou.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim. \u2013 ofegante pela adrenalina, estava at\u00e9 com a boca seca.<br \/>\n\u2003\u2003- Nessa mochila h\u00e1 algumas mudas de roupas, assim como o seu passaporte e dinheiro suficiente para chegar ao Brasil.<br \/>\n\u2003\u2003Durante as instru\u00e7\u00f5es, o ator aproveitou para abrir a mochila preta e avaliar o conte\u00fado.<br \/>\n\u2003\u2003- Fui instru\u00eddo para leva-lo para o aeroporto. Tudo o que precisa para a viagem est\u00e1 a\u00ed.<br \/>\n\u2003\u2003Ao agarrar o passaporte, chegou a beij\u00e1-lo por ser a porta de sa\u00edda daquele inferno, assim como o seu documento de identidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Indico aproveitar para trocar de roupa durante o caminho. \u00c9 mais seguro.<br \/>\n\u2003\u2003Antes de descer com a mochila nas costas quando o carro parou no aeroporto, pediu:<br \/>\n\u2003\u2003- Por favor, agrade\u00e7a ao S\u00e9rgio por mim. N\u00e3o sei se conseguirei falar com ele novamente, ent\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Se quiser, vai, sim. \u2013 estendeu um peda\u00e7o de papel \u2013 O S\u00e9rgio me pediu tamb\u00e9m para lhe entregar isso. \u00c9 o n\u00famero de telefone dele. Quando chegar no Brasil, lhe envie uma mensagem. S\u00f3 n\u00e3o demora porque ele mudou planos importantes para um senhor caralho pra sua fuga.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Rafael estava muito animado caminhando pelo aeroporto do Rio de Janeiro.<br \/>\n\u2003\u2003Acompanhava D\u00e9bora e Ant\u00f4nio porque iriam juntos para S\u00e3o Paulo passar as f\u00e9rias com a fam\u00edlia dela.<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto estava junto, quem segurava a pequena m\u00e3o na sua. O casal recente estava extremamente feliz quando se despediram a caminho de entrarem no avi\u00e3o \u2013 ent\u00e3o n\u00e3o presenciaram a cena de minutos depois.<br \/>\n\u2003\u2003Rafael e Kalisto aproveitaram o hor\u00e1rio para lanchar num clima agrad\u00e1vel enquanto Bruno descia pelas escadas rolantes. Ao avist\u00e1-los, sua primeira atitude foi de se aproximar. Por\u00e9m, em seguida se deparou com o loiro quem o aliciou. Retirou o bon\u00e9 do c\u00f3s da cal\u00e7a para coloc\u00e1-lo com a aba mais baixa, tampando parte do rosto.<br \/>\n\u2003\u2003Apesar da dist\u00e2ncia, foi capaz de ver o exato momento onde o aliciador se encontrou com uma futura v\u00edtima \u2013 uma mulher de vinte e seis anos. Se sentiu um pouco mais aliviado quando um funcion\u00e1rio os abordou, os encaminhando para uma sala em outro andar onde a pris\u00e3o seria efetuada.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Andr\u00e9 j\u00e1 havia trocado a mala com o funcion\u00e1rio quem facilitava o processo de tr\u00e1fico humano e de drogas. Por dar as costas e ir para outra dire\u00e7\u00e3o, n\u00e3o veria o comparsa ser interceptado por dois policiais, o encaminhando para uma sala diferente da do aliciador loiro.<br \/>\n\u2003\u2003Ao retornar, se deparou com Rafael e Kalisto juntos na fila do McDonald\u2019s. N\u00e3o perderia a oportunidade, ent\u00e3o se dirigiu para eles.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Bruno n\u00e3o compreendeu a express\u00e3o t\u00e3o obstinada e raivosa de Andr\u00e9 enquanto se aproximava do casal, mas seus instintos lhe avisavam que boa coisa n\u00e3o era. Tentava se desviar das pessoas da melhor forma como poderia para alcan\u00e7a-los, entretanto n\u00e3o conseguiria ser mais r\u00e1pido que o outro. O fluxo intenso o atrapalhava de avan\u00e7ar, atrasando seus indispens\u00e1veis segundos os quais fariam a diferen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Rafael!<br \/>\n\u2003\u2003Lhe restou apenas gritar pela falta de alternativa melhor. Infelizmente, o tiro saiu pela culatra.<br \/>\n\u2003\u2003Como ambos se viraram para a origem do grito, o ex aproveitara a oportunidade para agarrar o bra\u00e7o do ruivo quando passou por tr\u00e1s do pequeno corpo. O arrastou consigo rapidamente em passadas largas.<br \/>\n\u2003\u2003Preciosos instantes mais tarde Kalisto deu-se conta do desaparecimento de Rafael, vasculhando o lugar ao redor com os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003- Kalisto!<br \/>\n\u2003\u2003Ao se deparar com Bruno no campo de vis\u00e3o, n\u00e3o poderia parecer mais atordoado.<br \/>\n\u2003\u2003- Bruno?! O que est\u00e1 fazendo aqui?<br \/>\n\u2003\u2003Sem cerim\u00f4nia, o agarrou pela pulso o puxando em outra dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Vem, vamos!<br \/>\n\u2003\u2003Saiu trope\u00e7ando nos pr\u00f3prios p\u00e9s aos solavancos sem compreender a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Pra onde? O que est\u00e1 acontecendo? O Rafa&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Andr\u00e9 o pegou.<br \/>\n\u2003\u2003- Qu\u00ea?!<br \/>\n\u2003\u2003- Tentei avisar, mas passou por detr\u00e1s de voc\u00eas e o levou. Vem comigo porque vi por onde passaram.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 havia uma possibilidade para o rival estar no aeroporto \u2013 o tr\u00e1fico de drogas ou o tr\u00e1fico de pessoas.<br \/>\n\u2003\u2003Miguel lhe dera a data quando ocorreria a opera\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o seria naquele dia em espec\u00edfico. Portanto, o cora\u00e7\u00e3o apertou pela sensa\u00e7\u00e3o ruim de apreens\u00e3o devido ao andamento dos acontecimentos dos \u00faltimos minutos.<br \/>\n\u2003\u2003- A gente precisa correr. \u2013 o avisou passando ao seu lado no mesmo ritmo de caminhada.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o h\u00e1 necessidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem, sim!<br \/>\n\u2003\u2003Bruno n\u00e3o gostou do olhar carregado lan\u00e7ado por Kalisto.<br \/>\n\u2003\u2003- Corre. Agora!<br \/>\n\u2003\u2003Atravessaram o aeroporto correndo com o advogado seguindo o antigo traficado, quem sabia o caminho percorrido pelo outro. Notaram que havia algo de errado quando pessoas andavam apressadas e totalmente assustadas para o lugar de onde a dupla estava at\u00e9 ent\u00e3o, se afastando de algo. O cora\u00e7\u00e3o apertou ao detectar uma movimenta\u00e7\u00e3o at\u00edpica mais \u00e0 frente, com policiais portando armas.<br \/>\n\u2003\u2003Correu ainda mais r\u00e1pido at\u00e9 ser barrado por um dos membros da equipe de Miguel, quem tentou impedi-los de ultrapassar aquele ponto. O cora\u00e7\u00e3o batia forte, a tens\u00e3o aumentava e, ao ver a cena, foi capaz de se desvencilhar por causa da adrenalina, puxando Bruno consigo para se aproximarem.<br \/>\n\u2003\u2003Andr\u00e9 usava Rafael, quem estava aterrorizado, como escudo humano para evitar dos policiais o prenderem ou atirarem. Agarrava o ruivo abra\u00e7ado com um bra\u00e7o e segurava uma l\u00e2mina afiada na outra, cuja press\u00e3o exercida sobre o pesco\u00e7o j\u00e1 come\u00e7ava a deixar a pele avermelhada.<br \/>\n\u2003\u2003- Solta ele. Isso n\u00e3o vai adiantar de nada. \u2013 Miguel tentava dialogar com uma arma nas m\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o! Do que adianta ele continuar por a\u00ed se v\u00e3o peg\u00e1-lo? \u2013 visivelmente estava drogado.<br \/>\n\u2003\u2003- Que droga, Miguel! Atira logo! \u2013 exigiu a v\u00edtima entredentes.<br \/>\n\u2003\u2003- Amorzinho, ele n\u00e3o vai correr o risco de ferir o amado do amiguinho dele. \u2013 beijou a t\u00eampora.<br \/>\n\u2003\u2003- Foda-se se for isso, Miguel! Quanto mais tempo passo com o Andr\u00e9 aqui pior \u00e9 porque corro mais risco. Larga de ser frouxo e atira!<br \/>\n\u2003\u2003- Diz oi pro seu amorzinho. \u2013 murmurou o ex com globos dilatados no advogado \u2013 Ele est\u00e1 ali, olha.<br \/>\n\u2003\u2003Apontou com o queixo para onde o homem estava ao lado de Bruno.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor&#8230; \u2013 formou o apelido nos l\u00e1bios sem som com os olhos marejados por n\u00e3o querer que fosse visto daquela maneira.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor, calma. \u2013 pediu tentando lhe passar tranquilidade \u2013 Vai ficar tudo bem.<br \/>\n\u2003\u2003Apreensivo, Bruno tampara a boca com as palmas temendo pela vida do seu melhor amigo.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00d3 VAI FICAR TUDO BEM QUANDO ATIRAREM NELE, CARALHO! COLOCA JU\u00cdZO NA CABE\u00c7A DA PORRA DO SEU AMIGO!<br \/>\n\u2003\u2003- Se atirar levo o Rafaelzinho junto. \u2013 pressionou a l\u00e2mina ainda mais contra a pele alva, causando um leve corte para enfatizar a veracidade de suas palavras.<br \/>\n\u2003\u2003Encolheu os ombros pela s\u00fabita dor.<br \/>\n\u2003\u2003- Andr\u00e9! \u2013 Bruno deu alguns passos \u00e0 frente \u2013 N\u00e3o vai acontecer nada com o Rafa. Essa merda toda j\u00e1 est\u00e1 acabando. Do contr\u00e1rio, eu n\u00e3o estaria aqui.<br \/>\n\u2003\u2003Alterado, balan\u00e7ava a cabe\u00e7a de um lado pro outro com o olhar injetado.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. \u2013 nervoso, esfregou o rosto no bra\u00e7o \u2013 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?<br \/>\n\u2003\u2003- Eu fugi. Por favor, por favor, n\u00e3o fa\u00e7a nada com o meu amigo. \u2013 suplicou.<br \/>\n\u2003\u2003- Cala a boca! Est\u00e3o tentando me enganar, mas n\u00e3o v\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Deixa de ser burro, seu desgra\u00e7ado de merda! \u2013 o advogado deu um passo \u00e0 frente \u2013 Se fizer qualquer coisa com o Rafael vai ser pior pra voc\u00ea. Usa a sua cabe\u00e7a pelo menos uma vez na vida. Pense nas consequ\u00eancias dos seus atos. S\u00f3 vai se ferrar se continuar o usando como ref\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Durante a discuss\u00e3o, se lembrou da navalha guardada no bolso a pedido da respons\u00e1vel quem a entregou, conhecida como Maria Navalha. Aproveitou a oportunidade da distra\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 conversando com os policiais, Bruno e Kalisto para apanh\u00e1-la devagar torcendo intimamente n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o do outro sobre si. Num \u00fanico movimento, a cravou na m\u00e3o cuja l\u00e2mina pressionava a garganta. Como foi pego de surpresa, afrouxou o aperto e, em consequ\u00eancia do ferimento, a deixou cair no ch\u00e3o. E, ent\u00e3o, p\u00f4de fugir para os bra\u00e7os de Kalisto enquanto Andr\u00e9 era algemado para ser preso.<br \/>\n\u2003\u2003- Gra\u00e7as a Deus! \u2013 o advogado o apertava num abra\u00e7ado carregado de al\u00edvio \u2013 Gra\u00e7as a Deus voc\u00ea est\u00e1 bem. \u2013 beijava os cabelos contendo as l\u00e1grimas.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor&#8230; \u2013 puxou o ar com os olhos fechados sentindo o seu perfume caracter\u00edstico \u2013 Nossa, como \u00e9 bom estar contigo agora.<br \/>\n\u2003\u2003Se separou do rapaz para averiguar a t\u00eanue ferida no pesco\u00e7o. Bruno estendeu o bon\u00e9 para o estancar o sangue do corte superficial, o qual logo foi apanhado por Rafael.<br \/>\n\u2003\u2003- Meu Deus! Bruno! \u2013 gritou se jogando nos bra\u00e7os dele \u2013 Como voc\u00ea veio parar aqui?!<br \/>\n\u2003\u2003- Amigo&#8230; A hist\u00f3ria \u00e9 longa, mas s\u00f3 digo uma coisa. Nada como estar de volta na minha terra. \u2013 chorava de tanta emo\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Cuidado pra n\u00e3o se sufocarem, gente. \u2013 Kalisto falou em meio a risos pelas faces tornarem-se arroxeadas.<br \/>\n\u2003\u2003O momento seria bem mais bonito caso n\u00e3o fossem os gritos cheios de amea\u00e7as proferidas por Andr\u00e9 ao fundo, quem se debatia dificultando o policial de leva-lo. Sem um pingo de paci\u00eancia, o moreno foi at\u00e9 o delegado, de quem retirou a arma na cintura. Parou rente ao criminoso e, sem pestanejar, atirou no p\u00e9, causando um susto em todos. N\u00e3o faria grandes estragos, mas facilitaria o processo da pris\u00e3o \u2013 al\u00e9m de descontar um pouco da raiva que sentia por ter sido enganado por ele h\u00e1 quatro anos e as agress\u00f5es num sentido completo da palavra feitas tendo seu menino como v\u00edtima, \u00e9 claro.<br \/>\n\u2003\u2003Andr\u00e9 imprecou senten\u00e7as desconexas sendo arrasto pelo policial, deixando um rastro de sangue pelo piso.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 louco, cacete?! \u2013 Miguel apanhou a arma de volta.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu s\u00f3 fui sensato. Dei um motivo real pro filho da puta reclamar e ainda facilitei o seu trabalho. N\u00e3o sei porque est\u00e1 reclamando. Deveria me agradecer.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Em quest\u00e3o de horas S\u00e9rgio invadiria os lugares espalhados pelo Oriente M\u00e9dio e a Espanha envolvidos naquele esquema de tr\u00e1fico, libertando as v\u00edtimas e prendendo os criminosos.<br \/>\n\u2003\u2003Andr\u00e9 viveria seu inferno pessoal a partir daquele momento. Em sua primeira audi\u00eancia, ap\u00f3s os policiais descobrirem seus atos, deixaria o lugar alguns minutos atrasado depois de passar no banheiro. Entrara intacto e sa\u00edra de l\u00e1 cambaleando com diversos ferimentos, inclusive faltando dois dentes.<br \/>\n\u2003\u2003- Que houve com o meu cliente?! \u2013 questionaria o advogado ao ver seu estado deplor\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003- Caiu vindo pra c\u00e1. \u2013 contou um dos amigos de Miguel limpando a farda de uma sujeira escura. Encarava o moribundo com desprezo.<br \/>\n\u2003\u2003- Ele s\u00f3 foi ao banheiro! \u2013 reclamou o advogado.<br \/>\n\u2003\u2003- Ele caiu muitas vezes pelo caminho. \u2013 outro policial cujos punhos estavam avermelhados refor\u00e7ou a mensagem.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Rafael apenas contou para a fam\u00edlia sobre os \u00faltimos acontecimentos envolvendo Andr\u00e9 e Bruno passados exatos sete dias. Imaginava os mais diversos cen\u00e1rios sobre como seria a rea\u00e7\u00e3o da m\u00e3e ao tomar conhecimento da hist\u00f3ria. Entretanto, infelizmente, sua imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de elucidar sobre o que realmente aconteceria.<br \/>\n\u2003\u2003Enfurecida, Micaela tentava perseguir o filho pela casa mancando. Rafael desviava de algumas almofadas arremessadas por ela ao chegarem na cozinha, onde a irm\u00e3 assistia \u00e0 cena segurando o riso saboreando um doce de leite preparado horas antes ainda na lata de alum\u00ednio.<br \/>\n\u2003\u2003- M\u00e3e, eu estava te protegendo! \u2013 colocou uma cadeira entre eles formando um obst\u00e1culo.<br \/>\n\u2003\u2003- Protegendo \u00e9 uma ova! \u2013 tacou mais uma almofada, dessa vez acertando o alvo no rosto \u2013 Acha que fico feliz em saber dessas coisas s\u00f3 agora, Rafael Siqueira?!<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o queria te preocupar. Al\u00e9m do mais, a senhora n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o nova assim&#8230; Pode afetar o cora\u00e7\u00e3o e&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Se interrompeu ao ver a fei\u00e7\u00e3o irada da m\u00e3e. Definitivamente fez a escolha errada de palavras.<br \/>\n\u2003\u2003- Espera, calma! N\u00e3o estou te chamando de velha! \u00c9&#8230; S\u00f3&#8230; O o s-seu co-r-ra\u00e7\u00e3o pode ficar fragilizado, m\u00e3ezinha.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 me chamando de velha, menino?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o!<br \/>\n\u2003\u2003- Sim.<br \/>\n\u2003\u2003Os irm\u00e3os responderam simultaneamente.<br \/>\n\u2003\u2003- Mia. \u2013 estendeu a outra almofada pra filha \u2013 Toma. Eu posso n\u00e3o correr atr\u00e1s do seu irm\u00e3o, mas as suas pernas est\u00e3o em \u00f3timo estado.<br \/>\n\u2003\u2003- M\u00e3e, eu n\u00e3o posso bater no Rafa, tadinho.<br \/>\n\u2003\u2003- Ou \u00e9 isso ou a deixou sem celular por tr\u00eas meses.<br \/>\n\u2003\u2003Cedendo ao comando da m\u00e3e sem alternativa, tomou a \u00faltima colherada do doce antes de segurar a almofada redonda.<br \/>\n\u2003\u2003- Desculpa, Rafa.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o hesitou em bater nele, quem se desvencilhava at\u00e9 correr pela casa fugindo da pequena.<br \/>\n\u2003\u2003A m\u00e3e se acomodou no sof\u00e1 aguardando o momento prop\u00edcio. Quando o rapaz passou em frente a genitora, jogou o chinelo segurado estrategicamente na m\u00e3o direita.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 quando o cal\u00e7ado o atingiu nas costas, pediu:<br \/>\n\u2003\u2003- J\u00e1 chega.<br \/>\n\u2003\u2003A menina foi at\u00e9 Micaela ao mesmo tempo que o irm\u00e3o tentava massagear a \u00e1rea dolorida.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 uma boa filha, Mia.<br \/>\n\u2003\u2003- Estou sempre aqui pra te dar orgulho. \u2013 beijou a testa da m\u00e3e em meio a risinhos pela careta de dor do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2003\u2003\u00c0s nove horas da noite de s\u00e1bado, Rafael fora puxado pela m\u00e3o para uma \u00e1rea mais vazia pela morena com vestido vermelho.<br \/>\n\u2003\u2003- Vai deixar mais quanto tempo aquele perna de cal\u00e7a esperando por voc\u00ea? \u2013 apontou pro moreno com o queixo, quem pegava alguns peda\u00e7os de churrasco para comer.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, mo\u00e7a&#8230; N\u00e3o sei. Fico com medo de tomar a decis\u00e3o errada.<br \/>\n\u2003\u2003O avaliou com um sorriso de quem tinha as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para alterar o rumo das coisas, embora jamais fosse revela-las.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe o que ele e o traste tinham em comum? \u2013 retirou o ma\u00e7o de cigarro entre os seios apanhando um.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Poder e dinheiro. \u2013 o p\u00f4s nos l\u00e1bios guardando o ma\u00e7o no seu lugar de origem.<br \/>\n\u2003\u2003- Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003O acendeu com o isqueiro guardado no mesmo lugar e deu um trago em seguida.<br \/>\n\u2003\u2003- Os dois tiveram poder e dinheiro. \u2013 soltou a fuma\u00e7a pelas narinas o prendendo entre os dedos \u2013 O mo\u00e7o quem voc\u00ea ama faz uso de forma devida. \u00c9 justo. N\u00e3o prejudica ningu\u00e9m. O outro? Apenas trouxe desgra\u00e7a pra ele e respingou em voc\u00ea. O Kalisto n\u00e3o mudou em nada de sua personalidade, diferente do traste, quem se revelou, inclusive te descendo o cacete. Um quase foi o respons\u00e1vel pela sua ru\u00edna. O outro, pela sua vit\u00f3ria. N\u00f3s dois j\u00e1 sabemos que retornou para os bra\u00e7os daquele perna de cal\u00e7a quem carrega no cora\u00e7\u00e3o h\u00e1 anos. N\u00e3o demore pra decidir tornar p\u00fablica a uni\u00e3o dos dois. N\u00e3o h\u00e1 mais nada os separando. Quer ser feliz, filho?<br \/>\n\u2003\u2003- Sim.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o se permita. N\u00e3o vai demorar pra chegar aos seus ouvidos algumas coisas feitas pelo mo\u00e7o na surdina. Voc\u00ea ainda n\u00e3o sabe de tudo.<br \/>\n\u2003\u2003Minutos mais tarde, uma mo\u00e7a de saia branca longa, camisa vermelha e um chap\u00e9u do t\u00edpico malandro carioca, parou ao seu lado.<br \/>\n\u2003\u2003- Se est\u00e1 aqui hoje \u00e9 sinal de que me deu ouvidos e fez bom uso da minha navalha. \u2013 estendeu m\u00e3o com a palma pra cima num pedido velado para devolv\u00ea-la \u00e0 sua dona.<br \/>\n\u2003\u2003- Olha, nem sei como agradecer. \u2013 entregou a navalha com um sorriso t\u00edmido \u2013 N\u00e3o sabe como me ajudou.<br \/>\n\u2003\u2003- Realmente, eu n\u00e3o sei, mas ele estava l\u00e1. \u2013 apontou para o homem de trajes do malandro carioca, quem dan\u00e7ava com a bengala \u2013 Me contou os detalhes mais importantes. N\u00e3o imagina o orgulho que sentimos de voc\u00ea pela sua bravura, filho. \u2013 guardou o objeto cortante no c\u00f3s do suti\u00e3 \u2013 E tem uma maneira de me agradecer, sim.<br \/>\n\u2003\u2003- Como?<br \/>\n\u2003\u2003- Sendo feliz. \u2013 acariciou a bochecha macia com um sorriso gentil \u2013 Estando bem. Cercado de quem te ama. Curado aqui. \u2013 pousou a m\u00e3o no peitoral sentindo o cora\u00e7\u00e3o bater \u2013 \u00c9 o suficiente para n\u00f3s. E se quiser trazer uma cachacinha pra eu tomar n\u00e3o irei negar.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Nas f\u00e9rias de julho, Rafael p\u00f4de, finalmente, descansar. Ou melhor, foi obrigado a isso.<br \/>\n\u2003\u2003A fam\u00edlia n\u00e3o o permitia estudar durante aquele per\u00edodo. At\u00e9 mesmo Nichole foi a respons\u00e1vel por esconder os livros do amigo em seu apartamento a pedido de Micaela, quem seria capaz disso, sim, com orgulho para o filho descansar durante aquele per\u00edodo. Portanto, quando n\u00e3o estava no sal\u00e3o, cuja carga hor\u00e1ria diminuiu durante aquele per\u00edodo, estava ou descansando ou desfrutando de momentos relaxantes na companhia de quem amava.<br \/>\n\u2003\u2003Ao chegar no in\u00edcio da noite ap\u00f3s passar a tarde na casa de uma amiga assistindo filme, a irm\u00e3 ouviu a parte final uma conversa do irm\u00e3o com Victor, Morgana e Nichole pela v\u00eddeo-chamada. Comentava sobre Kalisto e que ainda estava receoso sobre o retorno do relacionamento, ent\u00e3o ainda n\u00e3o se decidira se reataria. O medo o travava de tomar uma decis\u00e3o, embora o advogado n\u00e3o o pressionasse. Por conseguinte, devido a algumas informa\u00e7\u00f5es as quais o irm\u00e3o ainda n\u00e3o tinha acesso, decidiu n\u00e3o manter tudo o que sabia no sigilo.<br \/>\n\u2003\u2003- Rafa&#8230; \u2013 insegura, abriu a porta quando o escutou se despedir deles \u2013 Posso falar contigo rapidinho?<br \/>\n\u2003\u2003- Claro. \u2013 acenou para ela entrar.<br \/>\n\u2003\u2003Se acomodou na cama de pernas cruzadas.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o deveria te contar isso porque prometi a mam\u00e3e, mas \u00e9 melhor saber de uma vez.<br \/>\n\u2003\u2003- Aconteceu alguma coisa, Mia? \u2013 preocupado pela seriedade incomum, se ajoelhou em frente a ela \u2013 Fizeram algo com voc\u00eas?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o. \u00c9 que&#8230; Se n\u00f3s ainda temos uma casa, \u00e9 por causa do Kalisto. E se voltou pra faculdade \u00e9 tamb\u00e9m por causa dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Como? \u2013 realmente achou ter ouvido errado.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o, no in\u00edcio do ano fui com a mam\u00e3e no mercado. L\u00e1 passou mal depois de ler uma mensagem no celular. Por sorte o Kalisto nos encontrou. Foi ele quem a socorreu e nos levou pra almo\u00e7ar em seguida num restaurante bem chique. Nos tratou super bem, ali\u00e1s. Foi t\u00e3o bonzinho que pagou a nossa comida com direito a sobremesa. Achei bem estranha essa hist\u00f3ria do desmaio justamente depois de mexer no celular, ent\u00e3o aproveitei uns dias depois pra descobrir. Vasculhando o cel dela, li algumas mensagens com o propriet\u00e1rio da casa e com o Kalisto. Est\u00e1vamos devendo mais de tr\u00eas meses de aluguel. Ser\u00edamos despejados. Esse foi o motivo do desmaio. Quem pagou esse valor foi o Kalisto. Fez a transfer\u00eancia sem a nossa m\u00e3e pedir. Li tamb\u00e9m que foi ele quem deu um jeito de te colocar de volta pra estudar Direito. Mam\u00e3e me pediu pra n\u00e3o te contar nada, mas&#8230; Acho melhor voc\u00ea saber porque estou cansada de guardar esse segredo.<br \/>\n\u2003\u2003Jamais se passaria pela cabe\u00e7a do advogado o quanto aquela tarde quando encontrou Micaela e Mia seria fat\u00eddica, capaz de mudar completamente o rumo de sua vida e da vida da fam\u00edlia Siqueira. Os ajudou sem segundas inten\u00e7\u00f5es. N\u00e3o havia interesse por detr\u00e1s das suas a\u00e7\u00f5es. Apenas n\u00e3o suportava a ideia de que eles ficassem desamparados sem ter pra onde ir \u2013 mesmo e apesar dos problemas envolvendo a origem obscura da separa\u00e7\u00e3o do casal na \u00e9poca.<br \/>\n\u2003\u2003Para o rapaz aquilo foi bem mais significativo, principalmente o esfor\u00e7o de manter a situa\u00e7\u00e3o velada. A ideia de o homem preocupar-se consigo ao ponto de ajuda-lo para retomar os estudos e socorrer a sua min\u00fascula fam\u00edlia foi a chave que faltava para retornarem oficialmente o relacionamento. Foi o respons\u00e1vel por salv\u00e1-los de um problema o qual, talvez, n\u00e3o seria solucionado caso fossem despejados.<br \/>\n\u2003\u2003E foi assim, numa decis\u00e3o caridosa de meses anteriores, ainda movido pelas boas lembran\u00e7as com aquelas pessoas, utilizando de seu poder aquisitivo e influ\u00eancia perante os professores e coordenadores do curso de Direito em prol de quem ainda amava sem lhe contar, independente do mal-entendido com o ruivo, movido pelo seu bom cora\u00e7\u00e3o, que, sem imaginar, ganharia o \u201csim\u201d de Rafael para reatarem.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Ao ter o conhecimento sobre esses detalhes, foi de imediato para o apartamento de Kalisto ap\u00f3s avis\u00e1-lo por uma mensagem de texto. N\u00e3o o confrontaria com o assunto, mas nada o impediria de dar ouvidos ao seu cora\u00e7\u00e3o. Permaneceria o restante da noite em sua companhia.<br \/>\n\u2003\u2003Sentado em seu colo e sentindo plenamente a derme um do outro por n\u00e3o estarem vestidos, compreendeu a exist\u00eancia de algo escondido pelo ruivo por aparentar mais alegria e afei\u00e7\u00e3o que o normal. Al\u00e9m de adorar v\u00ea-lo naquele estado \u2013 sorriso bobo nos l\u00e1bios junto aos olhos brilhantes era uma combina\u00e7\u00e3o ador\u00e1vel \u2013 se alegrava por n\u00e3o haver mais nenhuma sombra da presen\u00e7a de Andr\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003- Menino curioso. \u2013 num clima leve mordiscava a pele coberta pela barba rala quando o advogado lhe questionou se escondia algo \u2013 Na hora certa voc\u00ea vai saber. E vai gostar bastante da descoberta. \u2013 murmurou antes de beij\u00e1-lo suavemente.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Dias depois viajou com sua equipe e Kalisto para S\u00e3o Paulo. Gravaria um clip com Alya, outra drag amiga sua, durante a madrugada de sexta-feira. Na manh\u00e3 de domingo, tamb\u00e9m em terras paulistas, teria o ensaio de uma sess\u00e3o de fotos.<br \/>\n\u2003\u2003A grava\u00e7\u00e3o era pra ser tranquila, mas foi o total oposto. O caos se instaurou porque ca\u00edra uma chuva torrencial a noite inteira. Alteraram diversos planos, j\u00e1 que, inicialmente, teriam v\u00e1rias externas, ent\u00e3o adaptaram v\u00e1rios trechos. Al\u00e9m disso, um dos bailarinos estava no hospital com intoxica\u00e7\u00e3o alimentar.<br \/>\n\u2003\u2003Em s\u00edntese? N\u00e3o restara quase nada da ideia original al\u00e9m do tema inspirado nos anos 80.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto Nichole, Victor e Morgana debatiam sobre a situa\u00e7\u00e3o, Alya e Princess observavam Kalisto indo buscar algo para tomar.<br \/>\n\u2003\u2003- Amiga&#8230; \u2013 Princess cruzava os bra\u00e7os com um olhar cl\u00ednico \u2013 Qual \u00e9 a altura do bailarino, mesmo?<br \/>\n\u2003\u2003- Um e oitenta e cinco.<br \/>\n\u2003\u2003- Hum&#8230; Interessante esse detalhe. \u2013 batia o indicador no queixo pensativa \u2013 A diferen\u00e7a de altura \u00e9 de dois cent\u00edmetros.<br \/>\n\u2003\u2003- O seu boy sabe dan\u00e7ar?<br \/>\n\u2003\u2003- Tem uma certa malemol\u00eancia. O gingado existe. \u2013 gesticulava com as m\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003- Coordena\u00e7\u00e3o motora?<br \/>\n\u2003\u2003- \u00d3tima.<br \/>\n\u2003\u2003Trocaram um olhar c\u00famplice.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 pensando o mesmo que eu? \u2013 afastou as mechas loiras dos olhos com as lentes.<br \/>\n\u2003\u2003- Definitivamente, sim.<br \/>\n\u2003\u2003Princess se dirigiu para a equipe.<br \/>\n\u2003\u2003- Meninos, solu\u00e7\u00e3o encontrada. Situa\u00e7\u00f5es desesperadas exigem medidas desesperadas.<br \/>\n\u2003\u2003- Victor, querido, pode emprestar isso da\u00ed? \u2013 pediu a ruiva.<br \/>\n\u2003\u2003O rapaz de \u00f3culos lhe entregou o megafone.<br \/>\n\u2003\u2003- Amiga, o boy \u00e9 seu. \u00c9 contigo.<br \/>\n\u2003\u2003O estendeu para Princess, quem o p\u00f4s rente aos l\u00e1bios.<br \/>\n\u2003\u2003- Kalisto! Vem pra c\u00e1!<br \/>\n\u2003\u2003O grito foi estridente ao ponto de tomar um susto, derrubando parte do caf\u00e9 que havia despejado no copo de isopor para continuar acordado.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto retornava, Alya chamou Lucas, o primeiro bailarino que estava nas suas vistas.<br \/>\n\u2003\u2003- Lu, vou te dar tr\u00eas op\u00e7\u00f5es e s\u00f3 pode escolher uma. \u2013 o avisou assim que ele parou em sua frente \u2013 A primeira \u00e9 sim, a segunda \u00e9 sim e a terceira \u00e9 sim. Qual a sua resposta?<br \/>\n\u2003\u2003- Sim. \u2013 desconfiado pela situa\u00e7\u00e3o inusitada, co\u00e7ava a cabe\u00e7a confuso.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigada!<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto se p\u00f4s ao lado da cantora.<br \/>\n\u2003\u2003- Kalisto, Lucas. Lucas, Kalisto. \u2013 Alya os apresentou.<br \/>\n\u2003\u2003- Pronto. Temos o novo bailarino quem vai substituir o Gabriel. \u2013 avisou a loira.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem \u00e9? \u2013 os dois indagaram.<br \/>\n\u2003\u2003- O Kalisto. \u2013 apontou para o amado.<br \/>\n\u2003\u2003- Como \u00e9?!<br \/>\n\u2003\u2003- Amor, \u00e9 contigo. Vai ser o jeito. \u2013 dava tapinhas no ombro para incentiv\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- Lucas, passe as sequ\u00eancias para ele e o ensine o que precisa fazer. \u2013 pediu a de longa lace ruiva.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem vai fazer o qu\u00ea? \u2013 o advogado n\u00e3o poderia estar mais perdido.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea dan\u00e7a? \u2013 questionou o bailarino.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 claro.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003As cantoras e o mais velho responderam juntos.<br \/>\n\u2003\u2003- Ele aprende r\u00e1pido. \u2013 o empurrou para Lucas \u2013 Vai!<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto n\u00e3o sabia se ria ou se chorava com a substitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto pegava a coreografia com Lucas \u2013 sempre em p\u00fablico e nas vistas de Princess, \u00e9 claro \u2013 Nichole dava os \u00faltimos ajustes na roupa, j\u00e1 que haviam algumas medidas corporais as quais n\u00e3o batiam com o novo integrante do corpo de baile.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 s\u00f3 esse trecho, n\u00e9? \u2013 secava o suor na testa ao passar pela terceira vez a sequ\u00eancia coreogr\u00e1fica do refr\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Piada boa. \u2013 Lucas conseguiu dizer em meio a risos carregados de desespero.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem mais?<br \/>\n\u2003\u2003- Tem.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 devagar, lenta e pequena como essa, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003Nichole, quem se aproximava com o figurino ajustado, ouviu o trecho da conversa. Junto com Lucas os dois ca\u00edram em estrondosas gargalhadas.<br \/>\n\u2003\u2003A experi\u00eancia em si n\u00e3o foi ruim. Na verdade, acabou se tornando o momento alto da noite de maneira positiva em meio ao caos.<br \/>\n\u2003\u2003Por ser advogado, n\u00e3o poderia mostrar o seu rosto. Assim, Victor tomou os devidos cuidados para esconder a face \u2013 e isso foi motivo de piada interna entre a equipe por dias, inclusive por manter a cabe\u00e7a baixa em diversos momentos, arrancando diversas gargalhadas genu\u00ednas do advogado e das cantoras pelo cen\u00e1rio c\u00f4mico.<br \/>\n\u2003\u2003At\u00e9 pra Victor sobrou.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto Kalisto ensaiava com Lucas, a drag gravava um trecho sentada num banco usando collant e patins. O amigo ficou escondido numa posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel abaixado junto com a cantora para ela n\u00e3o desiquilibrar por n\u00e3o haver apoio e o banco estar bambo.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem foi a pessoa surtada quem teve essa ideia de merda? \u2013 Victor massageava a lombar dolorida.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea. \u2013 a amiga respondeu rindo por v\u00ea-lo reproduzir caretas desgostosas.<br \/>\n\u2003\u2003- Da pr\u00f3xima vez que eu tiver uma ideia de merda como essa, me avisa.<br \/>\n\u2003\u2003- Nem adianta porque s\u00e3o as melhores. Fiquei uma grande gostosa com uma raba enorme.<br \/>\n\u2003\u2003- Se a raba fosse a do Osvaldo Enrustido de Igreja, eu ficaria mais feliz.<br \/>\n\u2003\u2003Depois daquelas horas Victor precisaria fazer algumas sess\u00f5es de pilates.<br \/>\n\u2003\u2003Princess n\u00e3o poderia estar mais orgulhosa pelo esfor\u00e7o exercido por Kalisto para ajud\u00e1-la, principalmente porque n\u00e3o existia a possibilidade de gravarem outro dia. Se n\u00e3o finalizassem naquela noite, n\u00e3o havia outra oportunidade.<br \/>\n\u2003\u2003Encerraram as grava\u00e7\u00f5es \u00e0s sete da manh\u00e3. N\u00e3o registrou um segundo sequer a sua identidade, sempre montada e maquiada.<br \/>\n\u2003\u2003Na \u00fanica vez quando aparecia como Rafael, a c\u00e2mera focava somente na silhueta e no tronco. Jamais na face.<\/p>\n\u2003\u2003No per\u00edodo antes da sess\u00e3o de fotos o casal aproveitou para passear. Por ser a primeira viagem para fora do Rio de Janeiro, desfrutou de cada segundo da melhor forma com Kalisto \u2013 tanto em p\u00fablico quanto \u00e0 s\u00f3s. Batiam fotos, riam e aproveitavam da melhor maneira.\n<p>\u2003\u2003Na manh\u00e3 da sess\u00e3o de fotos, acordou mais cedo para se montar. Ap\u00f3s tomado banho, apanhou todo o necess\u00e1rio para se maquiar na sala. Nichole chegou quando j\u00e1 finalizava o batom, ajudando a artista com a roupa.<br \/>\n\u2003\u2003Deu um beijinho na testa do moreno adormecido antes de sair.<\/p>\n<p>\u2003\u2003No meado da sess\u00e3o, Kalisto chegou apressado no pr\u00e9dio onde elas aconteciam. Havia pedido para ser avisado para acompanha-las, mas acabou demorado para acordar por terem ido descansar durante a madrugada \u2013 a cantora o achou t\u00e3o ador\u00e1vel adormecido que n\u00e3o se atreveu a chama-lo.<br \/>\n\u2003\u2003Ao adentrar no espa\u00e7o, agradeceu pela escolha da cal\u00e7a jeans mais larga. Princess estava divina. A lace loira ornava com o conjunto preto. As tiras finas tampavam parcialmente o dorso. A saia justa que ia at\u00e9 os joelhos modelando as pernas permitia ser erguida para explorar a sensualidade. A maquiagem, a luva e os acess\u00f3rios? N\u00e3o poderia estar mais excitado.<br \/>\n\u2003\u2003- Toma. \u2013 Nichole, quem se colocara ao seu lado comendo alguns salgadinhos, lhe estendera um guardanapo \u2013 \u00c9 pra baba. J\u00e1 est\u00e1 escorrendo.<br \/>\n\u2003\u2003Durante a sua perman\u00eancia ali acompanhou o ensaio com orgulho pela cantora, quem j\u00e1 havia lhe explicado sua trajet\u00f3ria na noite passada. Aproveitou para lanchar acomodado em um confort\u00e1vel sof\u00e1 bem em frente onde ela posava. N\u00e3o poderia haver mais amor no semblante.<br \/>\n\u2003\u2003Ao final, Princess conversava com Kalisto. A brisa balan\u00e7ava os cabelos e, mesmo sem perceberem, trocavam frequentes toques. O fot\u00f3grafo, devido principalmente \u00e0 qu\u00edmica harmoniosa entre os dois, aproveitou para tirar fotos extras, as quais seriam enviadas por e-mail sem cobrar nada com uma mensagem.<br \/>\n\u2003\u2003\u201cSou um amante da arte. Fotos posadas explorando o cen\u00e1rio com photoshop e \u00e2ngulos certos envolvem minha profiss\u00e3o. Aqui? S\u00f3 enxerguei o perfeito equil\u00edbrio entre sentimentos m\u00fatuos, cad\u00eancia e respeito. Essa, sim, \u00e9 a verdadeira arte \u2013 e n\u00e3o cobro por isso. Apenas proporciono quando a encontro \u2013 v\u00e1 por mim, \u00e9 dif\u00edcil de ser registrada t\u00e3o bem quanto foi com voc\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>\u2003\u2003Ao chegarem no quarto do hotel onde se hospedaram, de m\u00e3os dadas, permitiu que caminhasse na sua frente enquanto permaneceu no lugar. S\u00f3 quando os bra\u00e7os estavam esticados, a puxou para si para beij\u00e1-la.<br \/>\n\u2003\u2003- Pensei que ir\u00edamos sair pra almo\u00e7ar. \u2013 o segurando pela nuca, murmurou quando os l\u00e1bios dele se dirigiram para seu pesco\u00e7o<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto deslizou as palmas pelas costas at\u00e9 alcan\u00e7ar a bunda, onde segurou para pression\u00e1-la contra si. Por sorte estava de luvas, ent\u00e3o a pele n\u00e3o seria castigada.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo o que quero comer agora est\u00e1 bem na minha frente.<br \/>\n\u2003\u2003Gemeu, tanto pelo tes\u00e3o quanto pela calcinha ter se tornado t\u00e3o apertada, gerando um aperto inc\u00f4modo.<br \/>\n\u2003\u2003A pegou no colo, quem circulara as pernas na cintura, para irem para a cama de casal. A drag se assegurava de lhe causar arrepios por deslizar a l\u00edngua macia pela orelha durante o caminho. A deitou na cama com cuidado. Em seguida, j\u00e1 bagun\u00e7ando os len\u00e7\u00f3is antes arrumados por Kalisto, com a cabe\u00e7a no travesseiro, o acompanhou com o olhar ao percorrer com os l\u00e1bios o tronco at\u00e9 afastar a tira do tecido do mamilo rosado. O tomou na boca com suavidade, dando total aten\u00e7\u00e3o a \u00e1rea.<br \/>\n\u2003\u2003Sens\u00edvel \u00e0s car\u00edcias, se remexia na cama agarrada nele de olhos fechados. Quando a fitou, havia um discreto sorriso na boca delineada. Apenas para tortura-la, passou a ponta do dedo pelo mamilo enrijecido pela excita\u00e7\u00e3o, aproveitando da pr\u00f3pria saliva para desliz\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sabe como fiquei com vontade de fazer isso desde que a vi posando ainda pouco. \u2013 quebrou o sil\u00eancio com as \u00edris escuras. Ou melhor, o seu sil\u00eancio, j\u00e1 que ela gemia baixinho.<br \/>\n\u2003\u2003O puxou para mais um beijo s\u00f4frego sem o outro cessar o toque.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o mata a sua vontade, amor. \u2013 pediu contra a boca dele \u2013 Continua.<br \/>\n\u2003\u2003De fato, prosseguiu \u2013 por incans\u00e1veis longos minutos, os quais o som predominante no quarto eram os sons produzidos ao dar total aten\u00e7\u00e3o \u00e0quele pequeno peda\u00e7o da carne rosada junto \u00e0s lam\u00farias dela.<br \/>\n\u2003\u2003Ofegante, o viu explorar seu corpo com devo\u00e7\u00e3o descendo cada vez mais, demorando-se nos lugares onde lhe geravam alguma rea\u00e7\u00e3o. Ao alcan\u00e7ar as pernas, primeiro retirou as botas de cano alto para, em seguida, percorrer as pernas com a ponta dos dedos at\u00e9 adentrar na saia. Subindo um pouco mais pelas coxas torneadas, encontrou a calcinha preta, a livrando do aperto desnecess\u00e1rio nas atuais circunst\u00e2ncias da pe\u00e7a rendada.<br \/>\n\u2003\u2003A cantora continuou com as pernas entreabertas. Pela saia ter sido suspensa, revelava boa parte das pernas lisas, deixando a parte pulsante entre elas escondida. Sem cortar o contato visual, retirou as luvas, as deixando cair no ch\u00e3o ao lado da cama.<br \/>\n\u2003\u2003Ajoelhado, se livrou da blusa para, em seguida, abrir a cal\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003A admirou num suspiro, se deparando com um sorriso doce. Se deitou sobre ela afagando a bochecha.<br \/>\n\u2003\u2003- Minha princesa. \u2013 sussurrou admirado, absorto pela beleza dela \u2013 Linda. \u2013 deu um selinho r\u00e1pido a sentindo percorrer as costas com as pequenas m\u00e3os. Como adorava o toque dela \u2013 T\u00e3o linda.<br \/>\n\u2003\u2003Aquela foi uma das raras vezes onde Princess n\u00e3o o dominou. Pelo contr\u00e1rio. N\u00e3o existia domina\u00e7\u00e3o ali. Apenas duas pessoas se entregando ao amor compartilhado sem t\u00edtulos ou r\u00f3tulos. Exploravam os corpos um do outro carregados de afeto. Sussurravam declara\u00e7\u00f5es, demonstravam a paix\u00e3o por meio do prazer, atentos em proporcion\u00e1-lo da forma devida, com intensidade e dedica\u00e7\u00e3o. Trocavam sorrisos meigos, abra\u00e7os doces e diversos carinhos em meio a vol\u00fapia, transformando o momento em algo al\u00e9m de simples orgasmos. Havia uma sensualidade velada que ultrapassava o erotismo, ati\u00e7ada pelos gestos carinhosos, como o simples entrela\u00e7ar de m\u00e3os ou os beijinhos espalhados pela face.<br \/>\n\u2003\u2003Sentada de costas pro advogado, quem direcionava o tronco para o lado de modo a assisti-la, Princess subia e descia movendo somente os quadris. Estava apoiada com os p\u00e9s no colch\u00e3o. Como o tronco estava inclinado para tr\u00e1s, apoiara tamb\u00e9m as m\u00e3os no colch\u00e3o. Aos poucos Kalisto a ajeitou at\u00e9 coloca-la ajoelhada em seu colo a abra\u00e7ando, onde ou rebolava ou mexia os quadris num vai e vem delicioso pelo pau atingir sua pr\u00f3stata.<br \/>\n\u2003\u2003Castigava a pele branca com sua l\u00edngua, adorando ouvi-la soltar gritinhos agudos ao receber car\u00edcias no pesco\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Um pequeno O se formava em sua boca \u00e0 medida que o cl\u00edmax se aproximava. Com as p\u00e1lpebras baixas e as v\u00e1rias marcas de express\u00f5es no rosto, se entregava ao prazer m\u00fatuo de maneira genu\u00edna cujas sensa\u00e7\u00f5es eram potencializadas pela seguran\u00e7a emocional transmitida pelo moreno tanto na cama quanto fora dela, assim como os sentimentos compartilhados.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 perto, n\u00e9, princesa? \u2013 murmurou numa voz grave mordiscando o l\u00f3bulo.<br \/>\n\u2003\u2003- Estou. \u2013 sem controle do corpo, apoiou a cabe\u00e7a no ombro largo rebolando no seu local preferido.<br \/>\n\u2003\u2003- Continua assim, rebolando bem gostoso no pau do seu homem. \u2013 o h\u00e1lito tocava a pele sens\u00edvel enquanto jogava as mechas loiras pra um lado, abrindo espa\u00e7o para beijar o pesco\u00e7o convidativo \u2013 Eu quero a minha pequena gozando bem gostoso no meu pau.<br \/>\n\u2003\u2003Bastou mais alguns movimentos para Kalisto sentir os primeiros tremores dela.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso. \u2013 a incentivou quando viu os primeira jatos \u2013 Isso, minha menina.<br \/>\n\u2003\u2003A cantora continuou at\u00e9 o advogado se desfazer dentro de si a imobilizando num abra\u00e7o possessivo.<br \/>\n\u2003\u2003Ainda ofegante, se acomodou virada para ele para beij\u00e1-lo at\u00e9 as respira\u00e7\u00f5es voltarem ao normal.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor&#8230; Posso te pedir uma coisa? \u2013 a cantora pediu com um brilho diferente no olhar.<br \/>\n\u2003\u2003- O que quiser.<br \/>\n\u2003\u2003- Fecha os olhos e s\u00f3 os abra quando eu pedir.<br \/>\n\u2003\u2003Apesar da curiosidade acentuada pela express\u00e3o travessa dela, acatou ao pedido.<br \/>\n\u2003\u2003A drag foi at\u00e9 sua mala rapidamente com o vestido curto tampando o sexo. Ao abri-la, retirou de l\u00e1 duas embalagens pequenas. Uma delas p\u00f4s o conte\u00fado em si no caminho de volta para cama, carregando a outra entre os dentes. Sentou atr\u00e1s do moreno, quem sentiu uma textura fina envolver seu pesco\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003- O que \u00e9 isso?<br \/>\n\u2003\u2003Ia levar a m\u00e3o para a regi\u00e3o, mas foi impedido por ela, a abaixando com gentileza.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 uma surpresa.<br \/>\n\u2003\u2003Dando pulinhos de felicidade, parou na frente do outro. O segurou por ambas as m\u00e3os para guia-lo pelo aposento at\u00e9 ficarem de frente para o espelho.<br \/>\n\u2003\u2003- Pronto. Pode abrir.<br \/>\n\u2003\u2003Pestanejou por ver sua imagem refletida, assim como a dela. Havia apenas uma diferen\u00e7a: tinham colares dourados no pesco\u00e7o. O pingente de Princess era da letra K e de Kaisto da letra R.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor&#8230; \u2013 come\u00e7ou se sentindo t\u00edmida o encarando pelo espelho, mesmo estando radiante \u2013 Eu acho que a gente merece essa oportunidade porque&#8230; \u2013 pestanejou afastando as l\u00e1grimas. Mexia as m\u00e3os uma na outra, parecendo inocente mesmo ap\u00f3s terem transado h\u00e1 minutos \u2013 A gente se ama. Quero recome\u00e7ar contigo. Volta pra mim.<br \/>\n\u2003\u2003Sem avis\u00e1-la, Kalisto a segurou pela parte detr\u00e1s das coxas e a p\u00f4s em seu colo com um enorme sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu vou continuar contigo de onde paramos, beb\u00ea. N\u00e3o deixei de te amar um dia sequer.<br \/>\n\u2003\u2003O beijo n\u00e3o poderia estar carregado de maior felicidade.<br \/>\n\u2003\u2003Minutos mais tarde, por alterarem os status de relacionamento nas redes sociais, receberiam in\u00fameras mensagens de amigos e parentes pelos celulares. Entretanto, estariam ocupados demais aproveitando o retorno do relacionamento de maneira oficial da melhor forma como poderiam: juntos.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Na \u00faltima semana de f\u00e9rias, Rafael chamou Bruno para passar na sua casa.<br \/>\n\u2003\u2003O rapaz estava meio abalado pelo ocorrido, por\u00e9m ingressara de imediato no tratamento psicol\u00f3gico para se recuperar logo.<br \/>\n\u2003\u2003Foram passar a tarde de sexta-feira numa resenha na casa de D\u00e9bora, quem j\u00e1 retornara da viagem com o namorado \u2013 inclusive, carregando consigo um deck de Baralho Cigano.<br \/>\n\u2003\u2003- Amigo&#8230; Sabe se ela chamou algum amigo do Kalisto? \u2013 perguntou para Rafael deitado no colch\u00e3o do ch\u00e3o ao lado da cama do ruivo antes de dormir assim que soube do convite.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Hum&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Apesar da voz baixa, notou a exist\u00eancia de certo desapontamento.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que est\u00e1 t\u00e3o interessado nos amigos dele?<br \/>\n\u2003\u2003- Por nada. Mas&#8230; Assim&#8230; Eu quase n\u00e3o tenho contato com o seu boy e nem com a D\u00e9bora. Acha que ele levaria um amigo em particular a pedido seu, \u00e9 claro, sem meu nome ser citado na conversa? Ela se chatearia caso uma pessoa quem n\u00e3o fosse convidada ou sequer conhecesse aparecesse do nada?<br \/>\n\u2003\u2003- Me d\u00e1 o nome pra eu desenrolar isso.<br \/>\n\u2003\u2003E foi gra\u00e7as \u00e0quela conversa que S\u00e9rgio chegou desacompanhado na casa de uma pessoa quem nunca vira na vida para passar a tarde na companhia de quem nem sabia da exist\u00eancia, exceto o amigo e talvez um certo rapaz mais novo de olhos azuis \u2013 n\u00e3o que havia ficado interessado quando Kalisto comentou que Bruno tamb\u00e9m estaria presente, \u00e9 claro.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 porque se atrasou ao demorar pra escolher a roupa mais adequada para reencontr\u00e1-lo n\u00e3o significava nada. Tamb\u00e9m era insignificante o fato de n\u00e3o parar de pensar nele desde a \u00faltima vez que se viram. Eram fatos de pouca relev\u00e2ncia \u2013 pelo menos era isso no que tentava acreditar.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 se sentindo bem?<br \/>\n\u2003\u2003Rafael lhe tocou o bra\u00e7o o despertando dos devaneios. Na sacada com os amigos, incluindo Luana, h\u00e1 minutos encarava o policial perdido em seus pensamentos, quem estava de costas para ele.<br \/>\n\u2003\u2003Desde a sua chegada, n\u00e3o havia se aproximado. Apenas lhe acenou com a cabe\u00e7a num comprimento discreto. Isso o angustiara porque imaginava que talvez pudesse haver mais emo\u00e7\u00e3o ali.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim, estou sim. S\u00f3 tenho um assunto pra resolver primeiro.<br \/>\n\u2003\u2003Entregou a latinha de cerveja pra Rafael antes de se aproximar do mais velho de maneira decidida.<br \/>\n\u2003\u2003Ao enterrar os dedos nos cabelos teve a resposta esperada. O homem se virou para ele.<br \/>\n\u2003\u2003- Pensei que conhecidos se falavam. N\u00e3o estou no Egito e voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 trabalhando. Ent\u00e3o&#8230; \u2013 deu de ombros com um sorrisinho.<br \/>\n\u2003\u2003 &#8211; Bruno. Oi. Eu n\u00e3o quis atrapalhar.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o atrapalha, gato. Tirando, \u00e9 claro, nos \u00faltimos minutos.<br \/>\n\u2003\u2003- Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003- Desde a hora que passou por aquela porta n\u00e3o chegou perto de mim. Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Bruno&#8230; \u2013 por um momento fechou os olhos umedecendo os l\u00e1bios \u2013 Gostei de te conhecer. Mais do que deveria, pra ser sincero. Mas n\u00e3o sei se&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o pensa. \u2013 o interrompeu soando meigo \u2013 Eu sei que ficou interessado por mim. Eu tamb\u00e9m estou afim de voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003- Escuta, eu sou mais velho. Tenho uma cabe\u00e7a diferente da sua. Nem moramos no mesmo Estado.<br \/>\n\u2003\u2003- E da\u00ed? Eu quero te conhecer. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado nisso. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o havia nenhum motivo para aceitar o convite de hoje, j\u00e1 que eu e o Kalisto s\u00e3o as duas \u00fanicas pessoas quem conhece daqui. Veio por causa do seu amigo?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Veio pra me ver, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003Soltou um risinho pelo quanto o rapaz era direto.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim. Vim por sua causa.<br \/>\n\u2003\u2003- Hum&#8230; \u2013 o avaliou satisfeito pela resposta \u2013 Por que ao inv\u00e9s de ignorar as minhas mensagens passa a conversar comigo? E principalmente. \u2013 estendeu a m\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do outro \u2013 Me acompanha com uns amigos aqui na sacada. A vista \u00e9 linda.<br \/>\n\u2003\u2003Trocaram um sorriso c\u00famplice quando S\u00e9rgio aceitou entrela\u00e7ando as m\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003Ambos ainda n\u00e3o sabiam, por\u00e9m, em dois meses Bruno receberia uma proposta de trabalho no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde trabalharia com certa frequ\u00eancia, o obrigando a se mudar definitivamente. Em seguida, firmaria um relacionamento com S\u00e9rgio, onde moraria com ele num apartamento pequeno e muito acolhedor.<br \/>\n\u2003\u2003Pela primeira vez teria uma fam\u00edlia, j\u00e1 que o \u00fanico componente da sua quem se importava consigo era Cau\u00e3, o respons\u00e1vel por indica-lo para a terapeuta. Diferente dos membros de sua fam\u00edlia, os de S\u00e9rgio n\u00e3o apenas aceitavam o policial gay, mas tamb\u00e9m ficaram encantados com Bruno ao conhece-lo num almo\u00e7o de domingo na casa da matriarca.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Meses mais tarde Princess estava na casa de Nichole com Kalisto, Morgana e Victor. J\u00e1 pronta, aguardava os amigos terminarem de se arrumar enquanto abria uma live para responder perguntas dos seguidores. O namorado mantinha-se longe da c\u00e2mera. Apesar de evitar expor sua identidade, alguns questionamentos eram direcionados a ele.<br \/>\n\u2003\u2003- Rola a gente ficar depois do seu show? \u2013 a drag ria, se divertindo imensamente \u2013 Meu bem, infelizmente, pra voc\u00ea, \u00e9 claro, n\u00e3o vai rolar. Essa gostosa quem vos fala est\u00e1 comprometid\u00edssima! N\u00e3o fique triste, n\u00e3o, porque s\u00f3 de me enviar a mensagem \u00e9 sinal de que \u00e9 um cara corajoso e tem um puta de um bom gosto.<br \/>\n\u2003\u2003Sentado na cadeira ao lado, Kalisto respondeu com a voz de um personagem criado que se mantinha no arm\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003- Os tempos de solteira dessa linda aqui acabaram. Larguei os contatinhos tudo com quem ficava na surdina pra desfilar com essa maravilhosa. \u2013 acariciou o ombro desnudo dela ao inv\u00e9s do rosto para n\u00e3o borrar a maquiagem.<br \/>\n\u2003\u2003Aquela foi a maneira como encontrou de participar da vida da artista. Como n\u00e3o apareceria nos v\u00eddeos, aproveitou das habilidades vocais de reproduzir diferentes vozes para criar alguns personagens. Dessa forma, era capaz de interagir nos v\u00eddeos dela sem riscos \u2013 al\u00e9m de se fazer presente, \u00e9 claro.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que eu e o boy n\u00e3o mostramos nossos rostos? \u2013 leu em voz alta \u2013 Voc\u00eas s\u00e3o muito curiosos, meus queridos! Basta a m\u00e3e aqui, n\u00e3o, e o pai ao meu lado? \u2013 gesticulava com v\u00e1rias caras e bocas \u2013 Ent\u00e3o, vamos l\u00e1. O boy aqui atua numa \u00e1rea a qual n\u00e3o \u00e9 vinculada com as artes. Eu pretendo segui-la tamb\u00e9m porque simplesmente amo. Em consequ\u00eancia, nem com reza podemos nos revelar. Adoraria viver num mundo sem preconceitos, onde poderia rebolar a raba de noite e durante o dia trabalhar no meu segundo emprego. N\u00e3o rola. A\u00ed preferimos evitar problemas.<br \/>\n\u2003\u2003- Tia, \u00e9 que aquele pessoal chato do trabalho n\u00e3o aceita a gente rebolar at\u00e9 o ch\u00e3o ou eu sarrando nela. \u2013 completou com a voz a voz de uma crian\u00e7a arteira.<br \/>\n\u2003\u2003- Binho, est\u00e3o perguntando aqui se voc\u00ea est\u00e1 solteiro ou n\u00e3o. \u2013 avisou Princess dando a l\u00edngua pra tela do celular.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu era solteiro, cheio de meninas atr\u00e1s de mim. Poxa, hoje elas ficam tristes quando digo que n\u00e3o. S\u00f3 tem uma menina na minha vida, que \u00e9 essa princesinha aqui. E eu sou um menino muito fiel.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 terr\u00edvel. \u2013 implicou a drag segurando a riso.<br \/>\n\u2003\u2003- Gostosa.<br \/>\n\u2003\u2003Gargalharam alto com as brincadeiras antes dela fechar a live para ir com sua equipe e seu namorado para o show.<\/p>\n<p>\u2003\u2003O tempo n\u00e3o favoreceu Andr\u00e9 em nada.<br \/>\n\u2003\u2003O castigo por ser o respons\u00e1vel por mortes, tr\u00e1fico e tudo o que engloba as viol\u00eancias sofridas pelas v\u00edtimas de tr\u00e1fico humano era sentido em cada c\u00e9lula de seu corpo. Perdera o brilho de outrora. Agora, ao inv\u00e9s do tom bronzeado naturalmente pelo sol, a derme era acinzentada e macilenta. O sorriso branco dera lugar a dentes amarelados. A coluna ereta transformou-se, tomando uma postura voltada para baixo de tanta culpa. O cabelo era ralo e opaco. Perdera tr\u00eas dentes quando recebeu uma surra combinada entre os presos ao descobrirem o motivo de estar na cadeia.<br \/>\n\u2003\u2003Estava sozinho no mundo e destru\u00eddo emocionalmente. Num per\u00edodo de oito meses parecia ser outra pessoa pelo seu estado t\u00e3o deplor\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Uma noite em particular tivera um sonho um tanto quanto peculiar.<br \/>\n\u2003\u2003Estava trancado em sua cela abarrotada de homens \u2013 o normal. Sentado encolhido no ch\u00e3o com as costas apoiadas na parede, ouviu uma can\u00e7\u00e3o entoada por uma melodiosa voz feminina a qual jamais ouvira a letra antes acompanhada do som de algo como madeira batendo no ch\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cBem que eu lhe avisei<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Que voc\u00ea n\u00e3o jogasse essa cartada comigo<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Voc\u00ea parou no valete<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003E eu parei na dama<\/em><\/p>\n<p><em>\u2003\u2003Amigo, voc\u00ea n\u00e3o me engana<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Pombo-Gira \u00e9 Cigana<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Mas \u00e9 Ex\u00fa de fama\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003Uma linda mulher com vestes vermelhas atravessava o corredor da pris\u00e3o acompanhada por um homem com trajes de malandro carioca, transmitindo eleg\u00e2ncia com seu terno impec\u00e1vel, chap\u00e9u e bengala de madeira. Diferente dele, quem usava sapatos pretos lustrosos, estava descal\u00e7a. Os cabelos desciam em cascata pelas costas e carregava um cigarro aceso preso entre os dedos.<br \/>\n\u2003\u2003Iam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cela onde Andr\u00e9 se encontrava. O canto, assim como a postura imponente, afastava os demais criminosos dali os quais abriam caminho sem incomod\u00e1-los.<br \/>\n\u2003\u2003Ao entrarem os homens presentes sa\u00edram perante o olhar frio de Z\u00e9 Pilintra.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 satisfeito com as consequ\u00eancias dos seus atos, mo\u00e7o?<br \/>\n\u2003\u2003Ergueu a cabe\u00e7a se deparando com os dois na sua frente ao escut\u00e1-la.<br \/>\n\u2003\u2003- E nem adianta choramingar pro nosso lado porque avisado voc\u00ea foi.<br \/>\n\u2003\u2003E era verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Iniciou o relacionamento com Rafael quando j\u00e1 come\u00e7ava a frequentar o outro lugar. Uma noite, de tanto exercer coment\u00e1rios positivos acerca do ambiente agrad\u00e1vel, aceitou acompanha-lo.<br \/>\n\u2003\u2003A conversa com seu Z\u00e9 n\u00e3o foi agrad\u00e1vel. O malandro sabia no que se envolvera. O alertara sobre as consequ\u00eancias daquilo, principalmente sobre a import\u00e2ncia de reparar a arma\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela separa\u00e7\u00e3o do casal. Infelizmente, os atos do antigo namorado do advogado foram o total oposto do aconselhado por pelo malandro. Por teimosia, ego, mau-caratismo e um toque de desespero porque os boletos se acumulavam sem efetuar o pagamento, se afundara cada vez mais no mundo obscuro de tr\u00e1fico humano, golpes, tr\u00e1fico de drogas e de \u00f3rg\u00e3os at\u00e9 ser preso.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu tentei protege-lo. \u2013 falou como se aquilo fosse amenizar suas a\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003- O sequestrando? \u2013 Z\u00e9 Pilintra rebateu \u2013 Isso s\u00f3 traria mais problemas. Sabe o que fariam com ele caso n\u00e3o fosse pela nossa interfer\u00eancia?<br \/>\n\u2003\u2003- Fiz o melhor que pude pra&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003O calou estendendo a bengala na dire\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9, a deixando a cent\u00edmetros do rosto.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o mente pra mim. \u2013 a abaixou no ch\u00e3o \u2013 Se servisse de alguma coisa, jamais teria destratado o rapaz e pisado nele como fez. O seu melhor n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel em lugar nenhum porque aqui \u2013 bateu no pr\u00f3prio peito \u2013 voc\u00ea \u00e9 podre. Ao inv\u00e9s de cuidar de si como deveria, se preocupou em arranjar algu\u00e9m pra comer e tirar vantagem. Por isso nunca deu certo com ningu\u00e9m. Se n\u00e3o consegue ser bom pra si, como vai ser pra quem estiver ao seu lado?<br \/>\n\u2003\u2003- No fundo sabe que n\u00e3o o merece. \u2013 completou a mo\u00e7a com uma m\u00e3o na cintura soltando a fuma\u00e7a pela boca com as palavras \u2013 Sempre se sentiu inferior, o invejou por ter tudo aquilo o que voc\u00ea era incapaz de construir porque n\u00e3o se acha merecedor.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu o amava! \u2013 gritou tr\u00eamulo por ser confrontado com o que n\u00e3o queria enxergar \u2013 S\u00f3 queria uma oportunidade com o Rafael, mas&#8230; Mas as coisas sa\u00edram dos trilhos. Eu n\u00e3o era ruim pro Rafa no come\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003- O seu amor \u00e9 um amor doente. Doente porque voc\u00ea o \u00e9. \u2013 rebateu Z\u00e9 \u2013 Quantas pessoas j\u00e1 destruiu o cora\u00e7\u00e3o? Hoje est\u00e1 descobrindo o quanto \u00e9 bom virar um trapo humano, assim como deixava os pernas de cal\u00e7a e as pernas de saia quando entravam na sua vida.<br \/>\n\u2003\u2003 &#8211; Se realmente o amasse, n\u00e3o seria o piv\u00f4 daquela separa\u00e7\u00e3o. \u2013 argumentou a mo\u00e7a com a voz serena \u2013 Talvez descubra o real significado de amar numa pr\u00f3xima vida. \u00c9 claro, se tiverem miseric\u00f3rdia da sua alma. Agora? \u00c9 hora de pagar pelos seus crimes. E isso vai demorar muito tempo, mo\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Antes de sa\u00edrem, aos prantos e quase em estado de choque, os parou com uma pergunta:<br \/>\n\u2003\u2003- Eu j\u00e1 estou pagando pelos meus crimes. Por que se deram ao trabalho de virem at\u00e9 aqui?<br \/>\n\u2003\u2003- Porque est\u00e1 fodido. E se tiver um pingo de ju\u00edzo na cabe\u00e7a, ao inv\u00e9s de se martirizar, vai considerar essa prosa como uma aprendizagem. Do contr\u00e1rio, acredite, esse lugar \u00e9 bonito comparado pra onde vai caso siga com esse orgulho in\u00fatil.<br \/>\n\u2003\u2003A frase foi capaz de faz\u00ea-lo sentir frio na coluna por saber a veracidade por detr\u00e1s das palavras de Z\u00e9 Pilintra.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Definitivamente, Kalisto estava cansado.<br \/>\n\u2003\u2003Nunca na vida pensou que poderia se cansar tanto numa festa de Dia das Crian\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003Aceitara ajudar junto com Rafael na comemora\u00e7\u00e3o. Levaram alguns doces para colaborar, dentre eles balas, pa\u00e7ocas, brigadeiros e um bolo de chocolate para o lugar respons\u00e1vel pelo restabelecimento do ruivo \u2013 e tamb\u00e9m o reencontro dos dois, al\u00e9m de influenciarem de maneira indireta para a uni\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi, tio! \u2013 uma menina com a boca suja de bolo de chocolate parou na frente dele, quem, inocentemente, pensou que poderia sentar por m\u00edseros dez segundos para descansar.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi. \u2013 abriu um sorriso com o semblante cansado.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei um segredo seu, sabia? \u2013 tomou um gole do refrigerante de guaran\u00e1 na caneca que levava consigo.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, \u00e9? E qual seria?<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei que voc\u00ea e o outro tio querem uma coisa, mas n\u00e3o sabem como falar isso. Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003Era verdade. Depois de tr\u00eas anos de casados, aos poucos emergia cada vez mais em si a vontade de ser pai. Entretanto, sabia que o mundo n\u00e3o era um conto de fadas. Princess estava no auge da carreira, onde corria com grava\u00e7\u00f5es, ensaios, entrevistas e apresenta\u00e7\u00f5es. Fora no seu trabalho na firma, onde atuava em casos de agress\u00f5es dentro do seio familiar. Era comum tamb\u00e9m se deparar com casos de viol\u00eancia matrimonial ou oriundos de um relacionamento abusivo, quando a mulher estava em vulnerabilidade social, j\u00e1 que dependia do \u201ccompanheiro\u201d para sobreviver. E, sem d\u00favida, era excelente em seu trabalho. Logo, a agenda era igualmente cheia.<br \/>\n\u2003\u2003Filho exigia in\u00fameras demandas, dentre elas aten\u00e7\u00e3o \u2013 uma das mais importantes. Como daria a dedica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para uma crian\u00e7a com uma carga hor\u00e1ria t\u00e3o pesada de ambas as partes?<br \/>\n\u2003\u2003- Pergunta dif\u00edcil, menina. \u2013 tomou um pouco do guaran\u00e1 oferecido por ela antes de entregar a caneca \u2013 Bem, n\u00e3o sei se teremos como cuidar devidamente.<br \/>\n\u2003\u2003- Hum&#8230; \u2013 pensativa, bebericou mais do refrigerante \u2013 Aceita, ent\u00e3o, eu dar um presente pra voc\u00eas?<br \/>\n\u2003\u2003- Qual?<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 segredo, tio. Voc\u00eas n\u00e3o podem saber.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo bem. Aceitamos.<br \/>\n\u2003\u2003A menina deu diversos pulinhos em comemora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Tio, os presentes s\u00e3o muito legais! V\u00e3o gostar bastante!<br \/>\n\u2003\u2003Desconfiou do ar travesso da menina, quem saiu saltitando pra brincar com um grupo de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2003\u200315 dias mais tarde, Kalisto e Rafael estavam naquele mesmo lugar onde fora seu ref\u00fagio nos tempos mais dif\u00edceis.<br \/>\n\u2003\u2003Nunca pensou de a vida mudar tanto.<br \/>\n\u2003\u2003Com o aux\u00edlio da terapia, conseguira curar e sarar todas as feridas deixadas por Andr\u00e9 \u2013 \u00e9 claro, n\u00e3o sem a ajuda da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2003\u2003- Por que n\u00e3o vai naquelas putas com quem voc\u00eas v\u00e3o conversar pra tratar desses assuntos? \u2013 disse numa madrugada pouco depois de voltar a namorar com Kalisto.<br \/>\n\u2003\u2003- Psic\u00f3loga?<br \/>\n\u2003\u2003- Como \u00e9? \u2013 a mo\u00e7a de vestido vermelho fez uma careta.<br \/>\n\u2003\u2003- Psic\u00f3loga.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s alguns segundos de sil\u00eancio, rebateu:<br \/>\n\u2003\u2003- Vou continuar chamando de puta porque \u00e9 mais f\u00e1cil de falar. \u2013 soltou a fuma\u00e7a do cigarro pela boca \u2013 Por que n\u00e3o vai numa pra resolver essas pendengas de uma vez?<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, mo\u00e7a&#8230; N\u00e3o sei se \u00e9 necess\u00e1rio&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 o caralho! Eu n\u00e3o passei esse tempo todo trabalhando igual uma filha da puta pra voc\u00ea n\u00e3o querer resolver essas pendengas, n\u00e3o. Se n\u00e3o procurar uma dessas putas por bem, vai procurar por mal.<br \/>\n\u2003\u2003Rafael parou na terapia menos de 30 dias mais tarde porque as crises de ansiedade aumentaram absurdamente de frequ\u00eancia. De fato, assim como a mo\u00e7a falou, ele iria \u2013 independente da vontade do rapaz, \u00e9 claro.<br \/>\n\u2003\u2003Em consequ\u00eancia, retomou a sua autoconfian\u00e7a de antes, se curando e se fortalecendo cada vez mais. Num per\u00edodo de dois anos recebeu alta, j\u00e1 sem nenhuma sequela do passado em seu \u00edntimo para assombr\u00e1-lo ou gerar gatilhos.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Naquela noite especificamente descansava um pouco escorado na parede. Estava ofegante de tanto dan\u00e7ar com as pessoas dali. Kalisto dialogava ao longe com o homem quem travejava as t\u00edpicas vestes do malandro carioca. O semblante de ambos era tranquilo, estampando sorrisos discretos porque era elogiado pela paci\u00eancia e pela postura tida com Rafael, o auxiliando quando a vida do rapaz ainda era meio inst\u00e1vel e tamb\u00e9m por adotar um comportamento irrepreens\u00edvel com o rapaz, facilitando, mesmo de maneira inconsciente, a sua recupera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, mo\u00e7o. \u2013 a morena parou ao seu lado com um m\u00e3o na cintura.<br \/>\n\u2003\u2003Diferente das outras vezes quando conversaram, havia um ar de divertimento e at\u00e9 certa travessura ao seu redor.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi.<br \/>\n\u2003\u2003- Chegou aos meus ouvidos que o seu perna de cal\u00e7a aceitou o presente de uma crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9. Comentou comigo, mas ainda n\u00e3o nos chegou nada.<br \/>\n\u2003\u2003- Vai chegar. E n\u00e3o demora. S\u00f3 me deixa confirmar uma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003Fez um gesto silencioso pedindo para o ruivo estender a destra. A apanhou para, em seguida, vir\u00e1-la para vasculhar a palma. A gargalhada feminina transmitia pura alegria.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o vai ser s\u00f3 um presente, n\u00e3o. Ser\u00e3o dois. \u2013 contou batendo o indicador na palma.<br \/>\n\u2003\u2003- O que \u00e9, afinal?<br \/>\n\u2003\u2003- J\u00e1, j\u00e1 v\u00e3o descobrir.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Na primeira sexta-feira ap\u00f3s aquela conversa, sa\u00eda de um hospital p\u00fablico onde fora para conversar com uma de suas clientes. Se recuperava de uma tentativa de feminic\u00eddio do marido, mas n\u00e3o desistia em hip\u00f3tese alguma de se divorciar dele.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto sa\u00eda com os documentos necess\u00e1rios do hospital para usar como prova, uma moradora de rua adentrava no local. Foi v\u00edtima de uma brutal viol\u00eancia. De t\u00e3o agredida, mal se aguentava em p\u00e9. Carregava consigo uma beb\u00ea de tr\u00eas anos, quem n\u00e3o deixou de segurar a m\u00e3o enquanto ambas caminhavam para chegar at\u00e9 a institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. Se apoiava nas paredes tr\u00eamula e, como a vista era turva e Rafael ajeitava a papelada na pasta preta sem prestar aten\u00e7\u00e3o no que acontecia ao redor, esbarrou nele.<br \/>\n\u2003\u2003- Mo\u00e7a, voc\u00ea&#8230; \u2013 ao ver o estado da desconhecida cujo rosto estava desfigurado, se espantou \u2013 Socorro! Por favor, algu\u00e9m ajuda! \u2013 gritou sobre o ombro a segurando para n\u00e3o cair.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual&#8230; Qual o seu nome? \u2013 balbuciou com a voz enrolada.<br \/>\n\u2003\u2003- Sou Rafael.<br \/>\n\u2003\u2003- O senhor \u00e9 uma pessoa boa? \u2013 se agarrou ao palet\u00f3 sentindo-se fraca na tentativa de equilibrar o corpo.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim.<br \/>\n\u2003\u2003- Me promete uma coisa. \u2013 l\u00e1grimas desciam pela face antes de gemer devido a contra\u00e7\u00e3o, levando uma das m\u00e3os para a barriga \u2013 Por favor.<br \/>\n\u2003\u2003Uma equipe de enfermeiros chegou com uma cadeira de rodas, onde a colocaram sentada.<br \/>\n\u2003\u2003- Por favor, me promete.<br \/>\n\u2003\u2003Foi agredida demais. Sabia que seu corpo n\u00e3o suportaria mais tempo, mas n\u00e3o deixava de pensar nas crian\u00e7as. N\u00e3o desperdi\u00e7aria um segundo sequer. N\u00e3o se importava com a dor. As les\u00f5es n\u00e3o a afetavam. A sua preocupa\u00e7\u00e3o era direcionada apenas para as duas crian\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003- Promete que vai cuidar dos meus filhos. \u2013 pedia aos prantos o encarando com as p\u00e1lpebras baixas incapaz de focar nele \u2013 Por favor. N\u00e3o os deixe desamparados. Eu&#8230; N\u00e3o&#8230; N\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003O desmaio a tomou.<br \/>\n\u2003\u2003A equipe composta, inclusive, por uma amiga de Rafael quem ouviu a conversa, correu com a mulher para a sala de cirurgia, j\u00e1 que a moradora de rua estava em trabalho de parto.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu posso ir com a mam\u00e3e?<br \/>\n\u2003\u2003A voz infantil o sobressaltou. Sequer notou a presen\u00e7a da menina. Usava roupas sujas e grandes para o seu tamanho. Indefesa, estava rente \u00e0 parede, o olhando com medo.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi, meu amor. \u2013 sentou no ch\u00e3o de pernas cruzadas colocando a pasta ao lado para ficar na altura dela \u2013 Qual o seu nome?<br \/>\n\u2003\u2003- Luciana.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi, Luciana. Meu nome \u00e9 Rafael.<br \/>\n\u2003\u2003- Quelo ir com a mam\u00e3e, tio. \u2013 falou com fei\u00e7\u00e3o triste de cabe\u00e7a baixa.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o, Luciana&#8230; Agora voc\u00ea n\u00e3o pode ficar com a mam\u00e3e.<br \/>\n\u2003\u2003- Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Bem, a sua m\u00e3e est\u00e1 machucada. A\u00ed est\u00e3o cuidando dela pra melhorar. Voc\u00ea viu o que houve?<br \/>\n\u2003\u2003A menina loira acenou um sim.<br \/>\n\u2003\u2003- Batelam nela. \u2013 murmurou segurando o choro com as laterais dos l\u00e1bios ca\u00eddas.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei, Luciana&#8230; \u2013 secou uma l\u00e1grima do rostinho bochechudo \u2013 Quer um abra\u00e7o?<br \/>\n\u2003\u2003Co\u00e7ando o olho, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em afirmativa enquanto jogava o pequeno corpo magro no tronco de Rafael, quem a envolveu num abra\u00e7o acolhedor.<br \/>\n\u2003\u2003Passou a \u00faltima hora cuidando dela. Por presenciar uma cena t\u00e3o dolorosa, mantinha-se quietinha sem se afastar.<br \/>\n\u2003\u2003Levantou mantendo Luciana em suas vistas quando a amiga, B\u00e1rbara, se aproximou. N\u00e3o precisou questionar nada. A not\u00edcia estava estampada no rosto da enfermeira.<br \/>\n\u2003\u2003- Tia, e a mam\u00e3e? \u2013 a pequena se escondera atr\u00e1s das pernas do advogado.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9&#8230; Luciana&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Num movimento flu\u00eddo a tomou no colo se esfor\u00e7ando para n\u00e3o transmitir tanta tristeza pela perda da crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o&#8230; Luciana, a&#8230; A sua m\u00e3e&#8230; \u2013 respirou fundo para se controlar \u2013 Deus, como vou dar essa not\u00edcia? \u2013 sussurrou para si \u2013 Beb\u00ea. \u2013 engoliu em seco antes de fita-la \u2013 A sua m\u00e3e n\u00e3o vai poder voltar.<br \/>\n\u2003\u2003- Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Porque ela est\u00e1 l\u00e1 no c\u00e9u agora.<br \/>\n\u2003\u2003- A mam\u00e3e me deixou?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, querida. Nunca. \u00c9 que machucaram muito o corpinho dela. A\u00ed ele n\u00e3o aguentou, mas ela continua aqui. \u2013 tocou o peito onde o pequeno cora\u00e7\u00e3o batia \u2013 E aqui tamb\u00e9m. \u2013 tocou a testa \u2013 Sabe por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Porque voc\u00ea, Luciana, veio dela. Por causa disso a carrega dentro de voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Pela primeira vez um sorriso discreto se formou nos l\u00e1bios da crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Amigo. \u2013 B\u00e1rbara o tocou no ombro para ele se virar \u2013 Tenho uma not\u00edcia.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual?<br \/>\n\u2003\u2003- A m\u00e3e dela estava gr\u00e1vida. O beb\u00ea est\u00e1 descansando na ala infantil.<br \/>\n\u2003\u2003- A gente pode ir l\u00e1 v\u00ea-lo?<br \/>\n\u2003\u2003- Claro.<br \/>\n\u2003\u2003Foram para a maternidade, onde pararam podendo visualizar o menino pelo vidro, profundamente adormecido.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que est\u00e1 sem nome na plaquinha dele? \u2013 o ruivo indagou, ainda com a beb\u00ea no colo.<br \/>\n\u2003\u2003- A m\u00e3e n\u00e3o teve tempo de dar o nome escolhido.<br \/>\n\u2003\u2003Ao ouvir a frase, a menina sussurrou na orelha dele como se contasse um segredo:<br \/>\n\u2003\u2003- A mam\u00e3e ia chamar o meu irm\u00e3ozinho de Gabriel.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9? \u2013 perguntou se direcionando para ela, quem afirmou com a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- B\u00e1rbara, a m\u00e3e ia chama-lo de Gabriel. A Luciana me contou.<br \/>\n\u2003\u2003- J\u00e1 escrevo na plaquinha dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o, Luciana. Conhe\u00e7a o seu irm\u00e3ozinho. Gabriel.<br \/>\n\u2003\u2003Balan\u00e7ou a m\u00e3ozinha para ele dando um tchau.<br \/>\n\u2003\u2003- B\u00e1rbara, me tira uma d\u00favida. O que vai acontecer com eles?<br \/>\n\u2003\u2003- Bem, geralmente s\u00e3o enviados pra uma institui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o temos nenhuma informa\u00e7\u00e3o acerca da identidade da m\u00e3e, qui\u00e7\u00e1 da fam\u00edlia. O rec\u00e9m-nascido ficar\u00e1 essa noite por precau\u00e7\u00e3o por ter nascido um pouquinho s\u00f3 antes da hora.<br \/>\n\u2003\u2003- Correm o risco de serem separados?<br \/>\n\u2003\u2003- Sem d\u00favida. Dificilmente irm\u00e3os s\u00e3o adotados juntos.<br \/>\n\u2003\u2003Mesmo contra a sua sensatez, dando ouvidos ao seu cora\u00e7\u00e3o, questionou:<br \/>\n\u2003\u2003- E se eu ficar com eles enquanto voc\u00ea recolhe essas informa\u00e7\u00f5es? Perderam a m\u00e3e agora e essa menina sofreu um trauma terr\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso n\u00e3o est\u00e1 no protocolo, mas eu autorizo por conhece-los. Primeiro pegarei a autoriza\u00e7\u00e3o. Depois pode leva-los.<\/p>\n<p>\u2003\u2003No caminho de casa Rafael passou numa loja para comprar roupas novas. Assim que chegou, deu um banho nela. Separou as vestes antigas numa sacola para jogar no lixo em seguida.<br \/>\n\u2003\u2003- Pronto. \u2013 terminou de passar a toalha nos fatos cabelos ondulados \u2013 Melhor?<br \/>\n\u2003\u2003- Eu t\u00f4 cheirosa, tio. \u2013 comentou sorrindo.<br \/>\n\u2003\u2003Rafael a vestira com um macac\u00e3o confort\u00e1vel por estarem no come\u00e7o de julho, quando o inverno adentrava. A cal\u00e7ou com chinelos ao inv\u00e9s de meias para evitar de escorregar.<br \/>\n\u2003\u2003- O que acha de lancharmos? Est\u00e1 com fome?<br \/>\n\u2003\u2003- T\u00f4, sim.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o, vem. \u2013 estendeu a m\u00e3e pra ela, quem logo a apanhou para sa\u00edrem do banheiro \u2013 Vou preparar alguma coisa pra gente.<br \/>\n\u2003\u2003Aquele apartamento era maravilhoso, mas era pra pessoas solteiras \u2013 e a cozinha n\u00e3o era segura pra uma beb\u00ea de tr\u00eas anos.<br \/>\n\u2003\u2003Recolheu todas as almofadas do sof\u00e1 para acomod\u00e1-la no ch\u00e3o enquanto preparava o mais r\u00e1pido que podia uma salada de frutas com as encontradas na geladeira \u2013 ma\u00e7\u00e3, uvas, caldo da laranja, manga e mam\u00e3o \u2013 sem tir\u00e1-la de suas vistas. A \u00fanica que n\u00e3o era gelada era a banana. Ado\u00e7ou com um pouco de a\u00e7\u00facar sem adicionar mais nada por n\u00e3o saber se crian\u00e7as da idade dela poderiam ingerir produtos industrializadas como creme de leite. Portanto, optou pelo mais natural poss\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003Despejou o conte\u00fado em duas tigelas de pl\u00e1stico antes de irem para a sala. Fez duas viagens para levar as almofadas consigo.<br \/>\n\u2003\u2003- J\u00e1 viu algum desenho?<br \/>\n\u2003\u2003Se sentaram no sof\u00e1. Colocara uma almofada nas pernas dela para apoiar a tigela e um pano de prato pra evitar manchar o tecido preto.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o. \u2013 falou de boca cheia segurando a colher vazia.<br \/>\n\u2003\u2003- Vou colocar um pra assistirmos. Tudo bem?<\/p>\n<p>\u2003\u2003Quando chegou no apartamento Kalisto se perguntou se havia aberto a porta correta.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0s oito da noite havia uma menina pulando no seu sof\u00e1. Por sua vez, o marido se divertia dan\u00e7ando com ela m\u00fasicas de samba enredo da d\u00e9cada de 90 e in\u00edcio dos anos 2000. Vestia o macac\u00e3o do Stich de anos atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Ao v\u00ea-lo parado, com o queixo ca\u00eddo, a cabe\u00e7a pendendo pro lado direito e o cenho franzido, foi at\u00e9 o advogado.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor! \u2013 se pendurou no pesco\u00e7o para lhe dar um selinho.<br \/>\n\u2003\u2003- Oi, tio!<br \/>\n\u2003\u2003Retribuiu quase em c\u00e2mera lenta o tchau dado pela pequena, quem continuava pulando.<br \/>\n\u2003\u2003- Meu amor&#8230;. \u2013 o segurando pela cintura com uma das m\u00e3os, pestanejava atordoado \u2013 Assim, longe de mim querer estragar o clima, mas&#8230; \u2013 a ironia contida na voz arrancou uma risada divertida do ruivo \u2013 Tem alguma coisa importante que esqueceu de me contar hoje? Sei l\u00e1, um detalhe que deve ter uns tr\u00eas ou quatro anos de idade, talvez? E que eu nunca vi na vida.<br \/>\n\u2003\u2003- A hist\u00f3ria \u00e9 longa. Prometo contar quando a colocarmos pra dormir.<br \/>\n\u2003\u2003Era onze da noite quando a crian\u00e7a pegou no sono na cama deles. O casal fez o que p\u00f4de para deixar o ch\u00e3o confort\u00e1vel com o colch\u00e3o infl\u00e1vel. N\u00e3o iriam deixa-la passar a noite em um local indevido \u2013 a cama seria toda pra ela.<br \/>\n\u2003\u2003- Calma a\u00ed. \u2013 sussurrava Kalisto com Rafael deitado sobre si \u2013 Por que prometeu isso pra mo\u00e7a?<br \/>\n\u2003\u2003- Amor, \u00e9 dif\u00edcil de explicar. \u2013 pousou a bochecha no peito \u2013 Fiquei morrendo de pena. A m\u00e3e da Lulu estava&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Quem?<br \/>\n\u2003\u2003- A Luciana. \u2013 nem percebeu como a chamara por um apelido. Nem notara a tamanha amabilidade na voz.<br \/>\n\u2003\u2003- Beb\u00ea, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 dando apelido.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual o problema disso?<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 capaz de estar se apegando.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah&#8230; \u2013 deu de ombros enquanto era apertado pelo outro \u2013 Quem n\u00e3o se apegaria? Ela \u00e9 ador\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003- Pois \u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003Olhou para o lado, se deparando com um bracinho solto fora da cama.<br \/>\n\u2003\u2003Deslizou no colch\u00e3o, ent\u00e3o o moreno p\u00f4de levantar para ajeit\u00e1-la. J\u00e1 no centro da cama grande demais para o seu pequeno porte \u2013 e com todas as almofadas da sala ao redor para evitar acidentes graves caso ca\u00edsse \u2013 a cobriu at\u00e9 os ombros. Estava deitada de bru\u00e7os, com a boquinha entreaberta num sono pesado.<br \/>\n\u2003\u2003Quando abriu um sorriso, descobriu que n\u00e3o era o \u00fanico quem talvez come\u00e7asse a se apegar \u00e0 menina.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9. A Lulu \u00e9 ador\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Se deitou novamente no ch\u00e3o, recebendo o marido aconchegado sobre si para dormirem.<\/p>\n<p>\u2003\u2003\u00c0s quatro e meia da manh\u00e3, Kiara desferia diversos golpes no rosto ao miar. Deu mordidas nos queixos para, finalmente, despert\u00e1-los. S\u00f3 quando ouviram a voz infantil os chamando notaram a cama vazia.<br \/>\n\u2003\u2003- Tio!<br \/>\n\u2003\u2003Correram para a origem do som. Ao chegarem no banheiro, n\u00e3o acreditaram nos pr\u00f3prios olhos.<br \/>\n\u2003\u2003A menina havia ca\u00eddo no vaso. Se segurava nas bordas do vaso sanit\u00e1rio enquanto o quadril afundara no interior, a molhando por toda a regi\u00e3o. As perninhas balan\u00e7avam no ar com o short do pijama nos tornozelos. Aguardava o resgate por n\u00e3o ter conseguido sair dali sozinha \u2013 e n\u00e3o foi por falta de tentativa.<br \/>\n\u2003\u2003- O que houve aqui, meu Deus? \u2013 a tirou de l\u00e1 enquanto Rafael apenas tampava a boca com a m\u00e3o segurando o riso enquanto ia para o quarto.<br \/>\n\u2003\u2003O mais velho se manteve agachado para conversar.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu queria fazer xixi. \u2013 contou num bocejo.<br \/>\n\u2003\u2003- Ai, minha linda. \u2013 beijou o topo da cabe\u00e7a \u2013 Quando quiser fazer xixi, fala pra gente. Est\u00e1 bem?<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 bem.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor. \u2013 retornava com uma muda de roupas \u2013 Ela vai precisar tomar banho agora.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei.<br \/>\n\u2003\u2003Se apressaram em banh\u00e1-la para voltarem a dormir.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Ap\u00f3s o almo\u00e7o de s\u00e1bado o trio foi para o hospital para ter not\u00edcias sobre Gabriel.<br \/>\n\u2003\u2003Na maternidade, Kalisto estava sentado numa cadeira acolchoada com o beb\u00ea nos bra\u00e7os. Era moreno num tom de pele mais intenso de Kalisto com cabelos crespos. O colocaram numa roupinha azul.<br \/>\n\u2003\u2003Dialogavam com B\u00e1rbara sobre o estado dele, quem havia se recuperado. N\u00e3o havia fam\u00edlia al\u00e9m da irm\u00e3, eles estavam sozinhos no mundo e sem nenhum respons\u00e1vel. A situa\u00e7\u00e3o o compadeceu enquanto ouvia sobre o que lhes aconteceria ao serem enviados para o orfanato. Luciana se distra\u00eda sentada no ch\u00e3o com alguns brinquedos proporcionados pela enfermeira.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o era justo para as figuras indefesas onde sequer sabia se receberiam os devidos cuidados, aten\u00e7\u00e3o e afeto ter um destino incerto. Elucidava observando ou a menina brincando ou o beb\u00ea nos seus bra\u00e7os. O olhar era s\u00e9rio, tomado pelos seus devaneios.<br \/>\n\u2003\u2003Seu lado paternal, assim como o do marido, aflorava cada vez mais devido ao tempo passado com os \u00f3rf\u00e3os. Talvez tivessem horas reduzidas de sono, precisassem abastecer a geladeira com uma maior quantidade de comida, preencher uma parte dos arm\u00e1rios com roupas infantis. Al\u00e9m de existir a forte possibilidade de lidar com brinquedos espalhados pela casa. Em resumo? Nada que n\u00e3o pudesse lidar bem, com responsabilidade e amorosidade.<br \/>\n\u2003\u2003A experi\u00eancia de ter uma crian\u00e7a no apartamento n\u00e3o fora ruim. Pelo contr\u00e1rio. Trouxe mais vida pro lugar, al\u00e9m de um brilho diferente surgir nos olhos do marido. \u00c9 claro, o apartamento n\u00e3o era o adequado para crian\u00e7as pequenas por ser constru\u00eddo pensando em somente moradores adultos serem os inquilinos.<br \/>\n\u2003\u2003Havia a probabilidade de passarem por uma mudan\u00e7a? Sim.<br \/>\n\u2003\u2003Seria um problema? N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Al\u00e9m disso, o amor compartilhado com Rafael era grande o suficiente para ser estendido at\u00e9 atingirem futuros filhos. Eram independentes financeiramente, bem-resolvidos, mel\u00e1veis, carinhosos, flex\u00edveis, pacientes para lidar com menores de idade e saud\u00e1veis \u2013 tanto emocional quanto fisicamente. Portanto&#8230; Qual problema haveria?<br \/>\n\u2003\u2003- E se ficarmos com eles?<br \/>\n\u2003\u2003Antes de se dar conta, a frase saiu da boca em voz alta. O detalhe mais relevante n\u00e3o foi necessariamente a frase, mas sim a certeza embutida nas palavras, como se, de fato, se tornassem os pais adotivos dos irm\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003Tr\u00eas rostos se viraram para ele e dois deles se calaram por cinco segundos o encarando.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Estou falando s\u00e9rio. \u2013 o fitou num semblante onde n\u00e3o existia sombras de d\u00favidas \u2013 Somos capazes de cria-las. Temos estabilidade financeira, as nossas fam\u00edlias s\u00e3o funcionais, n\u00e3o somos mais estranhos pra Lulu, j\u00e1 pensamos em ter filhos&#8230; Por que n\u00e3o?<br \/>\n\u2003\u2003- Amiga, a gente s\u00f3 precisa conversar sobre isso primeiro. Amanh\u00e3 sem falta te damos a resposta.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Retornaram pra casa com as duas crian\u00e7as. Rafael carregava Gabriel nos bra\u00e7os no banco traseiro, quem fora enrolado numa manta macia. Dormia profundamente num sono tranquilo. Luciana se acomodara ao seu lado com as m\u00e3os no seu bra\u00e7o. Kalisto dirigia de volta pro apartamento tomando cuidado para n\u00e3o balan\u00e7ar demais o carro visando n\u00e3o atrapalhar o sono do beb\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003A enfermeira os ensinou na maternidade a como trocar fraldas, preparar o leite devido para o rec\u00e9m-nascido, banha-lo e outras coisas importantes.<br \/>\n\u2003\u2003Sa\u00edram de l\u00e1 para comprarem todo o material para os cuidados de um beb\u00ea, como len\u00e7os umedecidos, sabonete, roupas e outros materiais. Luciana estava muito satisfeita com a presen\u00e7a do irm\u00e3o. Demonstrou isso com os diversos carinhos delicados e beijinhos espalhados pelo rosto.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Os quatro se acomodaram no ch\u00e3o para dormir durante a noite.<br \/>\n\u2003\u2003O mais velho arrastara a cama at\u00e9 encost\u00e1-la na parede enquanto o outro segurava Gabriel nos bra\u00e7os, quem adormecera h\u00e1 alguns minutos. Retiravam o colch\u00e3o para as crian\u00e7as se acomodarem com eles, ambos ficando nas laterais com os pequenos no meio. Em qualquer eventualidade poderiam despertar rapidamente \u2013 e evitar de encontrar, por exemplo, a menina literalmente dentro do vaso sanit\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003- Ser\u00e1 que a gente n\u00e3o est\u00e1 se precipitando, amor? \u2013 se observavam na escurid\u00e3o, atentos a qualquer movimento dos irm\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003- Talvez, mas s\u00f3 digo isso porque ningu\u00e9m est\u00e1 preparado totalmente pra ser pai. Estou em paz em assumir esse papel de paternidade nas atuais circunst\u00e2ncias. Afinal, qual \u00e9 o seu medo? \u2013 estava deitado de lado, com o tronco erguido para v\u00ea-lo \u2013 Eu sei que quer ser pai assim tanto quanto eu apesar de nunca termos nos aprofundado no assunto. Se abre comigo.<br \/>\n\u2003\u2003- Fico preocupado porque a nossa rotina \u00e9 bem corrida. Ainda tenho os shows em alguns finais de semana durante a madrugada. Ser\u00e1 que daremos conta de uma menina de tr\u00eas anos e um rec\u00e9m-nascido? Ao mesmo tempo&#8230; Poxa&#8230; Olha pra eles. \u2013 os encarou com encanto.<br \/>\n\u2003\u2003Com a ponta do dedo Kalisto acariciou o tecido da roupa do menino de bru\u00e7os. N\u00e3o queria lhe interromper o sono.<br \/>\n\u2003\u2003- Bem, nossas fam\u00edlias de origem s\u00e3o funcionais e saud\u00e1veis. Tirando minha irm\u00e3, ningu\u00e9m traz s\u00e9rios problemas.<br \/>\n\u2003\u2003- Minha m\u00e3e j\u00e1 me perguntou se pens\u00e1vamos em ter filhos. \u2013 comentou o ruivo com um sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003- A minha adora crian\u00e7as e \u00e9 doida pra ser av\u00f3.<br \/>\n\u2003\u2003- Minha m\u00e3e diz que na fam\u00edlia dela tem um bom tempo que n\u00e3o nasce nenhuma crian\u00e7a e que sente falta disso. Segundo ela, seria interessante come\u00e7ar a renovar com uma nova gera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Mia tem alguns tempos livres e se sai bem nos estudos, certo?<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o isso \u00e9&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Um \u201csim\u201d pra n\u00f3s dois sermos pais? \u2013 ergueu as sobrancelhas alegre pelo consenso.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim.<br \/>\n\u2003\u2003Deram as m\u00e3os com os bra\u00e7os esticados para se alcan\u00e7arem selando o acordo. Pela escurid\u00e3o n\u00e3o viram os olhos marejados. Antes de pegarem no sono, n\u00e3o se surpreenderam ao sentir o cheiro de perfume feminino.<\/p>\n<p>\u2003\u2003No dia seguinte Rafael enviou uma mensagem de \u00e1udio para sua m\u00e3e e Kalisto conversava com a dele pelo celular numa chamada de voz.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u201cM\u00e3e, deixa eu te perguntar. Se&#8230; Vamos supor o seguinte cen\u00e1rio. Eu e o Kalisto adotamos duas crian\u00e7as. Pensou nele? Ent\u00e3o. Eu poderia contar contigo e com a Mia para ficarem com elas durante o dia enquanto trabalhamos?\u201d<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Fora a mensagem de \u00e1udio deixada por Rafael.<br \/>\n<em>\u2003\u2003\u201cOi, m\u00e3e! Qual a sua opini\u00e3o sobre se tornar av\u00f3?\u201d<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Fora uma das frases de Kalisto.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 n\u00e3o esperavam receber visitas delas j\u00e1 que ouviram, ao fundo, a risada infantil de Luciana correndo pela casa de fralda com Rafael atr\u00e1s dela segurando um celular com uma m\u00e3o e uma blusa rosa estampada para vesti-la, preocupado de se resfriar devido ao clima mais frio.<br \/>\n\u2003\u2003Foi a cozinha preparar uma vitamina de banana pra Luciana enquanto Kalisto ficava com o beb\u00ea sentado no ch\u00e3o. Varreram o piso antes, estendendo um cobertor para se acomodarem, protegendo a menina de n\u00e3o ter contato com a friagem. Finalmente aceitara se agasalhar \u2013 pelo menos no dorso. Retirou a cal\u00e7a menos de cinco minutos depois de vestir, reclamando de calor. Kalisto inicialmente insistiu para estar agasalhada, por\u00e9m, ao notar as got\u00edculas de suor na testa, desistiu.<br \/>\n\u2003\u2003As primeiras a chegar foram Micaela e Mia.<br \/>\n\u2003\u2003Entregou a vitamina pra menina na mamadeira pra atender as visitantes inesperadas ao ouvir a campainha.<br \/>\n\u2003\u2003- Cad\u00ea meus netos? \u2013 a senhora entrou na sala sem cerim\u00f4nia carregando a sua bolsa marrom no pulso.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 s\u00e9rio que serei tia, Rafa?!<br \/>\n\u2003\u2003Se jogou nos bra\u00e7os do irm\u00e3o num abra\u00e7o capaz de faz\u00ea-lo cambalear. Apesar dela ser mais nova, j\u00e1 o ultrapassara no quesito altura.<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto estava sentado no ch\u00e3o dando mamadeira pro nen\u00e9m com Luciana brincando distra\u00edda com uma boneca a meio metro de si tomando vitamina na mamadeira rosa.<br \/>\n\u2003\u2003- E quem \u00e9 essa princesinha?<br \/>\n\u2003\u2003Deixou a bolsa na mesa, se dirigindo a crian\u00e7a com um enorme sorriso. Virou o rosto para Micaela quando foi pega no colo.<br \/>\n\u2003\u2003- Luciana. \u2013 murmurou com o bico da mamadeira na boca.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 um lindo nome, sabia? \u2013 Mia, agora com dezesseis anos, fez cosquinha no pesco\u00e7o lhe arrancando gostosas gargalhadas.<br \/>\n\u2003\u2003Lisandra chegou minutos depois com sacolas de alimentos como frutas, doces, leite e p\u00e3es.<br \/>\n\u2003\u2003- Bem, eu n\u00e3o sabia a idade das crian\u00e7as, ent\u00e3o foquei em trazer comida. A geladeira vai come\u00e7ar a esvaziar rapidamente.<br \/>\n\u2003\u2003Avisou da cozinha, j\u00e1 guardando as compras. Em seguida, se juntou aos demais, encantada pelos novos membros da fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003- Vou pedir pro seu pai comprar fraldas para rec\u00e9m-nascido. \u2013 retirou o celular preso na al\u00e7a do suti\u00e3 \u2013 Ficou no mercado terminando de comprar alguns itens indicados por mim.<br \/>\n\u2003\u2003- O beb\u00ea j\u00e1 tem nome, filho?<br \/>\n\u2003\u2003Micaela se acomodara no sof\u00e1 com o beb\u00ea no colo enquanto a av\u00f3 paterna batia fotos, fazendo os primeiros registros em diversos \u00e2ngulos.<br \/>\n\u2003\u2003- Gabriel. \u2013 se ajoelhou para acariciar a bochecha do menino, quem despertara e, de olhos arregalados, observava o redor.<br \/>\n\u2003\u2003- Gente, junta a\u00ed pra bater uma foto. \u2013 pediu a adolescente e sorriu ap\u00f3s ver a linda selfie pelo celular.<br \/>\n\u2003\u2003O marido de Lisandra chegou com sacolas enormes de roupas e v\u00e1rias outras coisas de uso para beb\u00eas. Foi necess\u00e1rio fazer quatro viagens para esvaziar o carro.<br \/>\n\u2003\u2003- Nem acredito que serei a tia quem ensina as coisas erradas pros sobrinhos! \u2013 Mia n\u00e3o poderia estar mais empolgada brincando de correr com Luciana \u2013 Mal posso esperar pra te ensinar a sambar.<br \/>\n\u2003\u2003De fato, quando o casal precisasse trabalhar, teria \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o suas m\u00e3es, o pai de Kalisto e a irm\u00e3 de Rafael sem pestanejar para ficarem com seus filhos.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Meses mais tarde Luciana teve um curioso sonho durante a madrugada o qual jamais esqueceu.<br \/>\n\u2003\u2003Brincava num campo florido com outras crian\u00e7as. Corriam sentindo o vento balan\u00e7ar os cabelos e o Sol estava numa temperatura agrad\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Ao longe, uma figura feminina a observava carregada de emo\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00facia morrera no trabalho de parto. Teve uma vida muito dif\u00edcil para quem apenas completara seus dezoito anos dias antes de falecer.<br \/>\n\u2003\u2003Foi v\u00edtima dos mais diversos abusos do pai durante o per\u00edodo de inf\u00e2ncia. A m\u00e3e, uma pessoa desprez\u00edvel com tra\u00e7os de psicopatia, sentia ci\u00fames da filha por causa disso, ent\u00e3o a castigava e agredia, a responsabilizando pelos abusos. Aos quinze anos foi expulsa de casa depois de dar \u00e0 luz por ter engravidado de um dos amantes da m\u00e3e \u2013 n\u00e3o de forma consensual.<br \/>\n\u2003\u2003Na rua deu o seu melhor para cuidar da filha, Luciana. A liberta\u00e7\u00e3o de seu sofrimento veria naquela tarde fat\u00eddica, onde encontraria Rafael no hospital. Em seu \u00edntimo a certeza da morte era ineg\u00e1vel, ent\u00e3o buscou, mesmo t\u00e3o machucada, encaminhar os filhos para terem uma vida melhor comparada \u00e0quela capaz de proporcionar.<br \/>\n\u2003\u2003Ainda n\u00e3o estava completamente reestabelecida. Quando o estivesse, trabalharia para ajudar as meninas v\u00edtimas daquilo tudo que a pr\u00f3pria passou ainda em vida. Atuaria, principalmente, no lugar onde se tornara o ref\u00fagio do ruivo. Chegaria quando come\u00e7assem a cantar um canto que contava parte de sua tr\u00e1gica hist\u00f3ria. Receberia o nome Menina da Estrada para ocultar a sua verdadeira da identidade \u2013 inclusive, porque, durante um tempo, fora obrigada a se prostituir em troca de dinheiro para alimentar filha.<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cEu sei que ainda sou menina<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003E nunca quero ser mulher<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Comigo s\u00f3 brincava crian\u00e7a<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003E eu, sozinha, fui pro cabar\u00e9<\/em><\/p>\n<p><em>\u2003\u2003Meu pai me usou quando era menina<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Minha m\u00e3e na minha palavra n\u00e3o creu<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003E hoje vou perambulando<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Na rua da amargura e voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003De t\u00e3o absorta, nem percebeu quem parou ao seu lado.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que n\u00e3o vai falar com a sua filha?<br \/>\n\u2003\u2003A morena de vestido vermelho indagara com um olhar gentil.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, mo\u00e7a&#8230; N\u00e3o acho que seja necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003- Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Vai ser melhor pra ela. \u00c9 melhor n\u00e3o carregar nenhuma mem\u00f3ria minha. Ela viu uma cena horr\u00edvel. N\u00e3o quero que se lembre.<br \/>\n\u2003\u2003- A menina n\u00e3o precisa se lembrar daquilo. \u2013 a tocou no ombro num aperto reconfortante \u2013 A culpa n\u00e3o foi sua.<br \/>\n\u2003\u2003Deu uma risada amarga mordendo o l\u00e1bio inferior e segurando o pranto. Afinal, nada mudaria o impacto causado nela ao assistir a m\u00e3e sofrer tamanha brutalidade.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sei que problema \u00e9 esse de voc\u00eas teimarem em se responsabilizarem pelos erros dos outros. Manda o \u201ce se\u201d pra puta que pariu. Voc\u00ea fez o seu melhor pra protege-la. Aqueles malditos n\u00e3o t\u00eam cora\u00e7\u00e3o e a hora deles de pagar pelo seu sofrimento j\u00e1 chegou.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem certeza de que ela n\u00e3o se lembrar\u00e1 de nada de ruim? \u2013 incerta, afastou os cabelos do rosto.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o. S\u00f3 se recordar\u00e1 do mais importante. O seu amor de m\u00e3e. O deixe chegar nela, mo\u00e7a. N\u00e3o perca a oportunidade de proteger a sua fam\u00edlia da mesma forma como eu e Z\u00e9 n\u00e3o deixamos de proteger os novos pais dela. Assim como voc\u00ea tem liga\u00e7\u00e3o com a sua menina, n\u00f3s temos liga\u00e7\u00e3o os perna de cal\u00e7a, mesmo que eles n\u00e3o se lembrem de n\u00f3s.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00facia tomou coragem ao puxar o ar com for\u00e7a pela mensagem reconfortante antes de come\u00e7ar a caminhar para o grupo de crian\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003Correndo, Luciana a avistou. Parou de supet\u00e3o com o cenho franzido, como se duvidasse de seus olhos. Ent\u00e3o, ao notar quem era, abriu um enorme sorriso. De imediato correu o mais r\u00e1pido que suas perninhas eram capazes de se movimentar para os bra\u00e7os da m\u00e3e, quem se abaixou para recebe-la.<br \/>\n\u2003\u2003- Mam\u00e3e! \u2013 a abra\u00e7ou com for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Minha menina linda. \u2013 chorava de emo\u00e7\u00e3o sem conseguir se conter \u2013 Que saudade de voc\u00ea. Muita, muita, muita! \u2013 beijou o topo da cabe\u00e7a diversas vezes.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea vai voltar?<br \/>\n\u2003\u2003A filha se acomodou em seu colo, quem se sentara de pernas cruzadas, com espa\u00e7o no meio perfeito para o corpinho caber.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o vou poder, nen\u00e9m. \u2013 acariciou o rosto inocente \u2013 Escuta, preciso que me prometa umas coisinhas, tudo bem?<br \/>\n\u2003\u2003Acenou um \u201csim\u201d com a cabe\u00e7a v\u00e1rias vezes.<br \/>\n\u2003\u2003- Me promete que vai ser boa com os tios com quem est\u00e1 agora. V\u00e3o ser seus novos papais.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o vai deixar de ser minha mam\u00e3e?<br \/><br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o, meu anjinho. \u2013 beijou a testa \u2013 Acontece que como a mam\u00e3e n\u00e3o pode estar por perto, eles v\u00e3o cuidar de voc\u00ea e do seu irm\u00e3o pra mim. Esses dois amam voc\u00eas demais. Agora ter\u00e1 dois papais.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 bem.<br \/>\n\u2003\u2003- A outra coisa \u00e9 que&#8230; \u2013 olhou para o c\u00e9u para a voz n\u00e3o sair embargada \u2013 Promete que n\u00e3o vai esquecer da mam\u00e3e, t\u00e1? Eu te amo, meu anjinho. Voc\u00ea e seu irm\u00e3o s\u00e3o quem mais amo nesse mundo. Se precisarem de qualquer coisa, por menor que seja, podem conversar comigo. Onde quer que estejam estarei ouvindo. Tudo bem?<br \/>\n\u2003\u2003- T\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o imagina como os amo, meu anjinho.<br \/>\n\u2003\u2003Segurou a m\u00e3o da genitora a puxando para acompanha-la.<br \/>\n\u2003\u2003- Brinca comigo, mam\u00e3e. \u2013 pediu animada.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00facia encontrou o olhar da mo\u00e7a, quem acenou um sim em aprova\u00e7\u00e3o. Em seguida, se levantou para brincar com a filha.<\/p>\n<p>\u2003\u2003No dia seguinte ao sonho de Luciana, Rafael e Kalisto foram para o lugar respons\u00e1vel por uni-los novamente, al\u00e9m de salvar suas respectivas vidas, restaurar o relacionamento e formar sua fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003- Gostaram dos presentes, filhos? \u2013 Z\u00e9 falou atr\u00e1s deles segurando a sua bengala.<br \/>\n\u2003\u2003O casal se virou ao sentir a baforada de charuto.<br \/>\n\u2003\u2003- Quais presentes? \u2013 Rafael n\u00e3o poderia estar mais confuso.<br \/>\n\u2003\u2003A figura elegante soltou uma risada com charuto na boca.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o tem dois pequenos dormindo agora nas suas camas? \u2013 se dirigiu para o moreno \u2013 A av\u00f3 e a tia v\u00e3o cuidar bem deles. N\u00e3o se preocupe.<br \/>\n\u2003\u2003- Foi voc\u00ea, ent\u00e3o, quem nos entregou eles?<br \/>\n\u2003\u2003- Quem aceitou presente de crian\u00e7a aqui foi voc\u00ea, filho. \u2013 segurou o charuto com dos dedos o retirando dos l\u00e1bios \u2013 N\u00e3o deixem esse medo do futuro atrapalhar nada, n\u00e3o. O par de cal\u00e7a e a par de saia vai ficar com voc\u00eas, sim. Qualquer problema, sabem com quem conversar pra pedir ajuda.<br \/>\n\u2003\u2003Como se fosse uma deixa, a mulher de vestes vermelhas come\u00e7ou a cantar ao som do atabaque os fitando:<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cT\u00fa chamou por mim numa madrugada<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Eu te respondi numa encruzilhada<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003T\u00fa chamou por mim numa madrugada<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Eu te respondi numa encruzilhada<\/em><\/p>\n<p><em>\u2003\u2003Eu te dei conselho<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Filho, n\u00e3o te engana<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003N\u00e3o ande sozinho<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Chame por Cigana<\/em><\/p>\n<p><em>\u2003\u2003Eu te dei conselho<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Filho, n\u00e3o te engana<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003N\u00e3o ande sozinho<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Chame por Cigana\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003\u201cBem que eu lhe avisei \u2003\u2003Que voc\u00ea n\u00e3o jogasse essa cartada comigo \u2003\u2003Voc\u00ea parou no valete \u2003\u2003E eu parei na dama \u2003\u2003Amigo, voc\u00ea n\u00e3o me engana \u2003\u2003Pombo-Gira \u00e9 Cigana \u2003\u2003Mas \u00e9 Ex\u00fa de fama\u201d \u2003\u2003\u201cEu sei que ainda sou menina \u2003\u2003E nunca quero ser mulher \u2003\u2003Comigo s\u00f3 brincava crian\u00e7a \u2003\u2003E eu, sozinha, fui pro cabar\u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2247],"class_list":["post-9157","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chame-por-cigana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9157","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9157"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}