{"id":9156,"date":"2025-12-08T19:22:49","date_gmt":"2025-12-08T22:22:49","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-08T19:22:49","modified_gmt":"2025-12-08T22:22:49","slug":"capitulo-14","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chame-por-cigana\/capitulo-14\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 14"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Bruno se fechou emocionalmente como forma de se proteger desde quando fora v\u00edtima de tr\u00e1fico humano.<br \/>\n\u2003\u2003O contato que tinha al\u00e9m dos clientes era com as outras meninas e os meninos que moravam na boate. Rapidamente aprendeu a suprimir suas emo\u00e7\u00f5es para se guiar pela l\u00f3gica objetivando sobreviver. E por ser guiado pelo modo sobreviv\u00eancia, aceitava se prostituir para permanecer vivo.<br \/>\n\u2003\u2003Portanto, n\u00e3o relaxava em momento nenhum e as noites costumavam ser movimentadas. Exceto, \u00e9 claro, quando ia de encontro com S\u00e9rgio nos hot\u00e9is. O policial usava de identidades falsas para n\u00e3o levantar suspeitas e usava de diferentes n\u00fameros de celular. Afinal, por qual motivo o cliente de Bruno solicitaria tantas vezes a presen\u00e7a do ator?<br \/>\n\u2003\u2003A princ\u00edpio os temas centrais eram as informa\u00e7\u00f5es dadas sobre quem estaria por detr\u00e1s da quadrilha. Descobriu agirem por meio da Internet, geralmente por sites de idiomas ou aplicativos de relacionamento. Quando percebiam conquistar as v\u00edtimas, as levavam para viagens no pa\u00eds onde seriam traficadas \u2013 os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio eram o destino mais comuns. Dava nomes ao profissional, assim como revelou o desaparecimento de algumas \u2013 para, dessa vez, seus \u00f3rg\u00e3os serem vendidos.<br \/>\n\u2003\u2003Entretanto, algo de diferente acontecia. Crescia entre eles algo al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o entre a v\u00edtima e seu salvador. Eles n\u00e3o imaginavam que aguardariam ansiosos para se verem. Isso aconteceu aos poucos, \u00e0 medida que conversavam temas aleat\u00f3rios pelas horas permanecidas no quarto at\u00e9 come\u00e7arem a falar de suas vidas.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00e9rgio, quem se mantinha sempre sentado no sof\u00e1, gostava de ouvi-lo contar sobre as suas hist\u00f3rias da profiss\u00e3o art\u00edstica. Os olhos azuis brilhavam lindamente enquanto transformava em palavras as suas recorda\u00e7\u00f5es. Ali, naquele espa\u00e7o, conseguia ser ele mesmo: falava em seu idioma com outro brasileiro, ria sem fingir, n\u00e3o precisava usar de trejeitos sedutores para ganhar um b\u00f4nus. Era apenas Bruno, quem, sentado na cama ou deitado, conseguia relaxar naquelas horas.<br \/>\n\u2003\u2003Descobriu apreciar o som do riso do mais velho e at\u00e9 a se perguntar o qu\u00e3o calorosos eram aqueles bra\u00e7os. Provavelmente se sentiria bem seguro neles.<br \/>\n\u2003\u2003Por sua vez, se encantava com o rapaz.<br \/>\n\u2003\u2003A simpatia, o humor e a alegria eram contagiantes. Mais de uma vez se pegou gargalhando com as encena\u00e7\u00f5es do mais novo, quem lhe contava suas hist\u00f3rias do teatro: hist\u00f3rias de coisas que deram errado, improvisos e de como eram as pe\u00e7as infantis \u2013 um verdadeiro caos.<br \/>\n\u2003\u2003Se admiravam em segredo \u2013 o amigo de Rafael o achando belo e o amigo de Kalisto se fascinando.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00e9rgio, inicialmente, se mantinha no sof\u00e1 enquanto o outro intercalava entre o ch\u00e3o e a cama. Respeitava esse espa\u00e7o porque imaginava como era dif\u00edcil a realidade. Queria lhe deixar confort\u00e1vel, n\u00e3o faz\u00ea-lo pensar que o via apenas como um peda\u00e7o de carne para ser usado assim como vinha acontecendo.<br \/>\n\u2003\u2003- Gato, me explica uma coisa? \u2013 deitado de bru\u00e7os, apoiou o queixo sobre as m\u00e3os cruzadas no colch\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Claro.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que sempre senta a\u00ed nesse sof\u00e1?<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o quero te deixar desconfort\u00e1vel. \u2013 deu de ombros com o tronco inclinado \u2013 Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 passando por uma situa\u00e7\u00e3o bem complicada&#8230; N\u00e3o quero piorar.<br \/>\n\u2003\u2003Um pequeno sorriso se formou lentamente nos l\u00e1bios.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 doce da sua parte, sabia? \u2013 comentou num murm\u00fario acabrunhado desviando o olhar.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea ficou t\u00edmido? \u2013 se surpreendeu.<br \/>\n\u2003\u2003- Fiquei, nada. \u2013 ralhou jogando um travesseiro nele, que caiu no colo.<br \/>\n\u2003\u2003- Ficou, sim. Est\u00e1 todo vermelho.<br \/>\n\u2003\u2003Se apressou a correr para o espelho constatando o \u00f3bvio. A pele alva denunciava a timidez.<br \/>\n\u2003\u2003- A culpa n\u00e3o \u00e9 minha! \u2013 virou para ele se divertindo.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 de quem, ent\u00e3o?<br \/>\n\u2003\u2003- Sua! Voc\u00ea foi todo meigo falando daquele jeito comigo. Sou um rapaz sens\u00edvel, inocente e de bom cora\u00e7\u00e3o. Fico mexido com essas coisas.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, \u00e9? E quanto aquelas hist\u00f3rias sobre o tes\u00e3o te levar para lugares onde n\u00e3o entraria nem armado quando estava no Brasil?<br \/>\n\u2003\u2003- Todo mundo tem um passado obscuro. \u2013 replicou ainda sem acreditar que contou alguns dos seus feitos mais picantes.<br \/>\n\u2003\u2003Ainda n\u00e3o sabiam, entretanto, futuramente S\u00e9rgio seria o \u00fanico protagonista deles por longos anos quando retornassem para ao pa\u00eds natal.<br \/>\n\u2003\u2003A conversa prosseguiu de maneira leve, alheios dos sentimentos que afloravam.<br \/>\n\u2003\u2003Antes de irem embora, Bruno quebrou o protocolo estabelecido por S\u00e9rgio. O abra\u00e7ou para se despedir.<br \/>\n\u2003\u2003Ficaram assim por alguns segundos, apreciando o toque um do outro. Ao se afastarem, o policial compreendeu como o encaixe fora perfeito e o outro confirmou o quanto se sentiu seguro nos bra\u00e7os do mais velho.<br \/>\n\u2003\u2003Minutos mais tarde sa\u00edra tamb\u00e9m do quarto, ainda com a sensa\u00e7\u00e3o do abra\u00e7o de Bruno em si.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso n\u00e3o \u00e9 nada de demais.<br \/>\n\u2003\u2003Tentava se convencer.<\/p>\n<p>\u2003\u2003A apar\u00eancia de Andr\u00e9 piorara ainda mais. As olheiras estavam mais profundas, a pele acinzentada e n\u00e3o conseguia dormir. Os pesadelos com as v\u00edtimas eram constantes, um pior que o outro. Acordava de madrugada molhado de suor com palpita\u00e7\u00f5es devido ao medo das afirmativas dos homens gays e das mulheres traficados por ele. As frases lhe causavam calafrios, ent\u00e3o, naquele contexto, temia cair no sono e reencontr\u00e1-los nos sonhos \u2013 que n\u00e3o eram simples sonhos.<br \/>\n\u2003\u2003Logo ap\u00f3s a tentativa de sequestro de Rafael Siqueira, recebera a liga\u00e7\u00e3o da \u00fanica pessoa quem podia chamar de amigo daquela quadrilha e era de sua extrema confian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o posso demorar. Passando pra avisar que quase levaram o seu ex.<br \/>\n\u2003\u2003- O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- A troca com o amigo deu certo por um tempo. Agora querem levar o outro. E isso quase aconteceu por esses dias.<br \/>\n\u2003\u2003- Valeu por avisar. Acredite, vai receber uma boa recompensa pela informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Desligou o celular para tomar as devidas provid\u00eancias sobre os pr\u00f3ximos passos para protege-lo. Em quest\u00e3o de minutos o plano tomou forma. Precisaria apenas de um carro, quatro homens, uma subst\u00e2ncia para desmaia-lo e a ajuda de Jonathan.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Rafael voltava da casa de Nichole. Escolheu caminhar para encontrar com o primo, Jonathan. Lancharam em meio a um di\u00e1logo onde contavam as novidades das respectivas vidas, j\u00e1 que n\u00e3o eram t\u00e3o pr\u00f3ximos assim. Foi um momento \u00f3timo na companhia do parente. Antes de sair, comprou algumas coisas para a fam\u00edlia comer mais tarde.<br \/>\n\u2003\u2003Portanto, no meio da tarde, chamava o Uber com as sacolas com p\u00e3es, bolos e outros quitutes t\u00edpicos do estabelecimento. Por sorte encontrou sonho de doce de leite, o preferido da m\u00e3e. Por ganhar um valor extra naquele m\u00eas devido \u00e0 rentabilidade do lan\u00e7amento da nova m\u00fasica, se deu ao luxo de gastar um pouco para terem uma alimenta\u00e7\u00e3o at\u00edpica.<br \/>\n\u2003\u2003Entretanto, Micaela e Mia, naquela noite em espec\u00edfico, n\u00e3o teriam contato com ele \u2013 mas os alimentos chegariam mais tarde por um t\u00e1xi para ser entregue a pedido do rapaz, quem estaria quase em estado de choque ao implorar para Kalisto solicitar o t\u00e1xi apenas para realizar a entrega.<br \/>\n\u2003\u2003Aconteceu tudo muito r\u00e1pido. A rua era meio deserta naquele hor\u00e1rio, ent\u00e3o ningu\u00e9m percebeu quando um carro preto de vidros esfumados parou por segundos na frente deles enquanto dois homens encapuzados saltavam. O seguraram sem lhe dar sequer a oportunidade de lutar ao entrarem novamente com o ruivo. O primo nem conseguiu impedir. Fora empurrado na cal\u00e7ada perdendo valiosos segundos.<br \/>\n\u2003\u2003No fundo da mente se lembrava de que n\u00e3o tinha muito dinheiro, ent\u00e3o cada centavo contava. Aquele luxo era apenas a exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. Portanto, n\u00e3o poderia desperdi\u00e7ar o conte\u00fado das sacolas. Se agarrou a elas se debatendo numa tentativa de chegar \u00e0 porta para sair, mesmo sentado entre os dois desconhecidos. O branco cujo bra\u00e7o era tatuado p\u00f4s um pano cinza \u00famido com uma substancia para faz\u00ea-lo dormir ao inalar \u2013 entretanto, n\u00e3o foi isso o que aconteceu.<br \/>\n\u2003\u2003Rafael sentiu cheiro de perfume feminino ao inv\u00e9s do l\u00edquido original. Rapidamente percebeu a inten\u00e7\u00e3o deles, ent\u00e3o fingiu adormecer \u2013 tomando as devidas provid\u00eancias de manter as sacolas nos pulsos.<br \/>\n\u2003\u2003Apesar de apavorado, obrigou-se a continuar quieto por tempo indeterminado enquanto o carro ia veloz pela estrada. N\u00e3o sabia para onde iria, n\u00e3o sabia o que acontecia, nem o motivo do sequestro. A impot\u00eancia era desesperadora lhe trazendo um sabor amargo na boca.<br \/>\n\u2003\u2003O \u00fanico consolo veio por meio das vozes como num sinal de que n\u00e3o estava desemparado naquela enrascada.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00eas est\u00e3o sentindo esse cheiro?<br \/>\n\u2003\u2003- Qual?<br \/>\n\u2003\u2003- Perfume feminino e cigarro.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 claro que n\u00e3o. Ningu\u00e9m fuma. S\u00f3 tem homem aqui.<br \/>\n\u2003\u2003As m\u00e3os de quem iniciou o assunto come\u00e7aram a tremer em virtude da preocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Al\u00e9m de ser o mais novo dentre os sequestradores, era o \u00fanico ali quem n\u00e3o tinha um cora\u00e7\u00e3o ruim. Fora recrutado para fazer o servi\u00e7o, n\u00e3o imaginando que seria aquilo. A culpa lhe corro\u00eda a cada segundo passado. A imagem do rapaz adormecido lhe causava n\u00e1useas e sabia que suas impress\u00f5es sensoriais n\u00e3o eram sua imagina\u00e7\u00e3o. Pressentia muito bem o significado \u2013 al\u00e9m disso, trouxe certo al\u00edvio por sinalizar a possibilidade de voltar a ter a sua antiga vida.<br \/>\n\u2003\u2003Quase uma hora depois o motorista encarou o retrovisor. O que viu lhe sobressaltou.<br \/>\n\u2003\u2003Havia uma outra pessoa com eles no ve\u00edculo cuja identidade n\u00e3o conhecia, as vestes distinguindo das dos demais. Ao lado da v\u00edtima, levantou a cabe\u00e7a escondida pelo chap\u00e9u branco, lhe desferindo um olhar g\u00e9lido e carregado de ira quando o rosto magro foi revelado.<br \/>\n\u2003\u2003P\u00e1lido, virou a cabe\u00e7a para tr\u00e1s para verificar se o estranho realmente estava ali. Got\u00edculas de suor na testa confirmaram que n\u00e3o por n\u00e3o ver mais ningu\u00e9m al\u00e9m do trio.<br \/>\n\u2003\u2003Com o cora\u00e7\u00e3o acelerado, notou a boca seca. Provavelmente n\u00e3o se sentia bem por n\u00e3o ter almo\u00e7ado, lhe causando uma alucina\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 claro, se fosse uma alucina\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Escutem, eu vou parar pra comprar um lanche. \u2013 o motorista cujo cabelo era de corte militar avisou.<br \/>\n\u2003\u2003- A gente vai chegar atrasado. \u2013 reclamou o tatuado interessado no dinheiro que cairia na sua conta banc\u00e1ria.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00e3o s\u00f3 alguns minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Estacionou num Mac Donald\u2019s. Era claro o quanto estavam longe. Nas extremidades da estrada era s\u00f3 mato, existindo apenas um ou outro estabelecimento para lanches r\u00e1pidos ou ambulantes vendendo suas mercadorias a metros de dist\u00e2ncia um do outro.<br \/>\n\u2003\u2003Tr\u00eas sa\u00edram para acompanha-lo, deixando Rafael com o tatuado.<br \/>\n\u2003\u2003Quando ficaram sozinhos, o maior o encarava com curiosidade.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sei porque faz tanta quest\u00e3o de te proteger, viu? \u2013 com o corpo virado na dire\u00e7\u00e3o dele, mexeu a cabe\u00e7a torpe de um lado pro outro \u2013 O dinheiro que conseguiria contigo seria bem valioso.<br \/>\n\u2003\u2003- Agora, n\u00e3o. Ainda n\u00e3o. \u2013 a voz feminina ecoava na mente de Rafael.<br \/>\n\u2003\u2003De maneira furtiva, aproveitando que a sacola escondia sua m\u00e3o direita, movia lentamente os dedos para o interior do bolso direito at\u00e9 tocar a l\u00e2mina afiada.<br \/>\n\u2003\u2003O avaliou melhor notando a maciez da pele, as ondas macias, os l\u00e1bios rosados e bem desenhos.<br \/>\n\u2003\u2003- At\u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 de se jogar fora. \u2013 o tocou na face \u2013 \u00c9 uma pena que n\u00e3o posso fazer nada contigo. Preciso te entregar intacto.<br \/>\n\u2003\u2003Os dois movimentos aconteceram simultaneamente o pegando desprevenido. O segurou pelo pulso enquanto, com a outra m\u00e3o, rasgava o ombro do sequestrador at\u00e9 um pouco abaixo do cotovelo com a navalha. O sangue escorreu de imediato enquanto o grito de dor saiu das cordas vocais. Sem desperdi\u00e7ar um segundo sequer, conseguiu fugir se embrenhando no meio do mato. Alguns galhos menores arranharam o rosto, mas, devido \u00e0 adrenalina, sequer se atinou.<br \/>\n\u2003\u2003Os outros ouviram o comparsa ao longe e, ao se virarem, viram o ruivo entrando na mata.<br \/>\n\u2003\u2003Escondido entre as folhagens, os observou se juntarem ao outro, quem continuava sangrando no carro. Tr\u00eas sa\u00edram para lhe buscarem entrando aos poucos na mata silenciosamente, entretanto, n\u00e3o poderia se mover. Seria facilmente detectado. Encurralado, n\u00e3o tinha pra onde ir.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 n\u00e3o imaginava que um moreno vestindo um terno branco e uma mulher de vestido vermelho rendado se aproximavam passo a passo. O malandro come\u00e7ou a cantar uma cantiga que seria ouvida apenas pelos criminosos \u00e0 medida que quatro c\u00e3es vira-latas iam na dire\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cN\u00e3o mexa com meu filho, pois t\u00fa a de me pagar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003O mundo aqui d\u00e1 volta<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003E na minha m\u00e3o t\u00fa vai sambar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Toma cuidado, mo\u00e7o<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Olha o que vou lhe falar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Na rua tem malandro<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Mas tem quem sabe enganar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003N\u00e3o se preocupe, n\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Pois t\u00fa es meu protegido<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Eu sou seu Z\u00e9 Pilintra e te livro dos inimigos\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003- O que \u00e9 isso? \u2013 indagou o mais novo deles reconhecendo a letra, parando subitamente ao ouvir a voz.<br \/>\n\u2003\u2003Os outros sentiram o mesmo frio na coluna, se arrepiando mesmo estando calor e n\u00e3o tendo nenhum vento.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem est\u00e1 a\u00ed? \u2013 gritou o loiro.<br \/>\n\u2003\u2003- Vamos embora. Eu n\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003A gargalhada feminina os assustou. Era estridente, alta, aumentando a sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia e perigo.<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cO meu punhal eu afio<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Na l\u00edngua de falador<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Quem muito fala, pouco faz<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003S\u00f3 que ot\u00e1rio eu n\u00e3o sou\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003Um vira-lata de cor negra passou entre as duas figuras, indo na dire\u00e7\u00e3o dos sequestradores arreganhando os dentes num rosnado animalesco. Se colocou a um metro de dist\u00e2ncia, se tornando um obst\u00e1culo para alcan\u00e7arem Rafael.<br \/>\n\u2003\u2003O animal agressivo era um potente obst\u00e1culo capaz de lhes tirar sangue, mas n\u00e3o viram grandes problemas em tentar agredi-lo para alcan\u00e7ar o objetivo \u2013 e o de corte militar ganhou mordidas na perna que o impediram de prosseguir sem o animal se afastar.<br \/>\n\u2003\u2003- Cara, esquece isso. \u2013 o mais novo suplicou ouvindo o latido de advert\u00eancia quando o motorista deu um passo para frente.<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cN\u00e3o mexa com meu filho, pois t\u00fa a de me pagar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003O mundo aqui d\u00e1 volta<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003E na minha m\u00e3o t\u00fa vai sambar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Toma cuidado, mo\u00e7o<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Olha o que vou lhe falar\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003- Quem est\u00e1 a\u00ed, porra!? \u2013 o loiro gritou demonstrando o qu\u00e3o desesperado estava com o cen\u00e1rio incomum.<br \/>\n\u2003\u2003Tr\u00eamulo, pegou a arma na cintura e usou todas as balas ao disparar ao redor sem um alvo fixo.<br \/>\n\u2003\u2003- Se mostra! Sai da\u00ed!<br \/>\n\u2003\u2003- Isso n\u00e3o vai adiantar! \u2013 replicou o mais novo \u2013 Cara, vamos sair daqui.<br \/>\n\u2003\u2003 &#8211; Eu n\u00e3o saio daqui sem o&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003 O som de galhos junto com outra gargalhada feminina lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o, empalidecendo os rostos amedrontados. Outros cachorros se juntaram \u00e0quele, t\u00e3o agressivos quanto.<\/p>\n<p><em>\u2003\u2003\u201cNa rua tem malandro<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Mas tem quem sabe enganar<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003N\u00e3o se preocupe, n\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Pois t\u00fa es meu protegido<\/em><br \/>\n<em>\u2003\u2003Eu sou seu Z\u00e9 Pilintra e te livro dos inimigos\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u2003\u2003- Esquece. Eu n\u00e3o vou me arriscar assim. \u2013 o que efetuou os tiros guardou a arma.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00eas s\u00e3o muito medrosos. Eu \u00e9 que n\u00e3o vou perder a oportunidade de receber o dinheiro.<br \/>\n\u2003\u2003Mesmo mancando, o de corte militar ousou dar dois passos. Espumando, os animais avan\u00e7aram nele em conjunto. Todos receberam mordidas nos calcanhares e nas pernas, lhes causando feridas abertas. Correram para o carro, onde adentraram fugidos, saindo em disparada com o ve\u00edculo.<br \/>\n\u2003\u2003O outro foi abandonado para tr\u00e1s, se obrigando a se virar para retornar para casa.<br \/>\n\u2003\u2003Na semana seguinte iria a um lugar, onde seria recebido por um homem de terno preto, ch\u00e1peu preto e gravata roxa chamado Z\u00e9 Miguel. O olharia com extrema ira indo at\u00e9 o rapaz de imediato.<br \/>\n\u2003\u2003- Cansou de tentar destruir a sua vida, mo\u00e7o? \u2013 o indagaria com \u00f3dio antes do outro receber o maior esporro que receberia na vida por exatos trinta minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Tr\u00eamulo, Rafael saiu do estado catat\u00f4nico lentamente, recebendo lambidas carinhosas do c\u00e3o de cor caramelo. Segundos depois olhou para baixo meio a\u00e9reo, se deparando com o bicho, outrora raivoso, agora manso e at\u00e9 bondoso. Abocanhou com leveza a barra da blusa larga, o encaminhando junto com os outros para a lanchonete.<br \/>\n\u2003\u2003O ruivo adentrou no lugar agarrado \u00e0s sacolas, indo at\u00e9 a atendente pedindo ajuda com os olhos vidrados.<br \/>\n\u2003\u2003- Mo\u00e7o, me explica o que aconteceu? \u2013 a mulher o colocou sentado na mesa com um copo de \u00e1gua.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o tomou nem uma gota. De t\u00e3o tr\u00eamulo, era incapaz de segurar algo sem derrubar.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu fui sequestrado. \u2013 conseguiu dizer sentindo as primeiras palpita\u00e7\u00f5es \u2013 Liga pro meu namorado. \u2013 puxava o ar com dificuldade de respirar \u2013 O nome dele \u00e9 Kalisto. O tele&#8230; O tel&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Mo\u00e7o? Mo\u00e7o? Qual o problema?!<br \/>\n\u2003\u2003- O&#8230; Kalisto&#8230; \u2013 balbuciou em meio \u00e0 crise de ansiedade.<br \/>\n\u2003\u2003A mulher conseguiu encontrar o telefone no bolso da cal\u00e7a, achando rapidamente o n\u00famero necess\u00e1rio enquanto Rafael passava por uma forte crise de ansiedade sem as pessoas saberem exatamente como socorr\u00ea-lo.<br \/>\n\u2003\u2003O encaminhou para uma sala menor a qual era de uso exclusivo para os funcion\u00e1rios, onde o ajudou a se recuperar. A irm\u00e3o sofria com ansiedade tamb\u00e9m, ent\u00e3o conhecia alguns m\u00e9todos para socorre-lo.<br \/>\n\u2003\u2003O rapaz fez quest\u00e3o de deixar as sacolas em frente ao sof\u00e1 onde se acomodou.<br \/>\n\u2003\u2003Do lado de fora os c\u00e3es permaneceram.<br \/>\n\u2003\u2003O preto de pelo liso balan\u00e7ou o rabo perante o homem com terno acompanhado pela morena, de imediato recebendo um carinho na cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom menino.<br \/>\n\u2003\u2003Ao longo do dia, cada um seria levado por uma fam\u00edlia diferente.<\/p>\n<p>\u2003\u2003O advogado chegou esbaforido ao endere\u00e7o ap\u00f3s quase uma hora.<br \/>\n\u2003\u2003- Cad\u00ea ele? Cad\u00ea ele? \u2013 gritava passando os olhos pelas pessoas \u00e0 procura de quem amava.<br \/>\n\u2003\u2003Uma atendente de cabelos cacheados imediatamente o levou para uma pequena sala, onde Rafael se recuperava deitado num sof\u00e1. Estava levemente tr\u00eamulo, com a pele \u00famida pelo suor, os olhos avermelhados e sentindo-se cansado.<br \/>\n\u2003\u2003Foi at\u00e9 o rapaz se agachando.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor! \u2013 se jogou nos bra\u00e7os do moreno de forma desengon\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea est\u00e1 bem? \u2013 indagou urgente \u2013 Est\u00e1 tudo bem contigo? \u2013 separou-se para averiguar se, pelo menos fisicamente, estava bem \u2013 Eles te machucaram?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o. Eu estou bem, sim. \u2013 sentou no sof\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003Sa\u00edram de l\u00e1 ap\u00f3s uma breve conversa com a atendente onde agradeceram pela aten\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 claro, o ruivo carregava as sacolas consigo quase abra\u00e7ado a elas sob o toque de Kalisto, quem o ajudava a caminhar pelas pernas ainda estarem bambas em virtude da tentativa de sequestro.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Apesar de estar a salvo, continuava bem abalado. A express\u00e3o ainda era meio assustada e, para quem gesticulava bastante ao falar, estava estranhamente parado e quieto na viagem de retorno.<br \/>\n\u2003\u2003Entraram no apartamento.<br \/>\n\u2003\u2003O al\u00edvio lhe tomou por estar num lugar que lhe transmitia seguran\u00e7a. Soltou o ar pela boca, agradecendo intimamente por aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor, voc\u00ea&#8230; Voc\u00ea pode mandar isso l\u00e1 pra casa?<br \/>\n\u2003\u2003Colocou as sacolas na mesa da sala com cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003- Claro, mas&#8230; Que, diabos, \u00e9 isso? \u2013 averiguou o conte\u00fado.<br \/>\n\u2003\u2003A pequena figura virada para o advogado pareceu menor quando cruzou os bra\u00e7os, assemelhando-se a uma indefesa crian\u00e7a assustada.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 pra minha m\u00e3e e pra minha irm\u00e3 lancharem. \u2013 contou em voz baixa \u2013 Comprei pra fazer uma surpresa pra elas, mas acho que n\u00e3o terei condi\u00e7\u00f5es de ficar na companhia das duas agora sem lhes apavorar pelo que aconteceu.<br \/>\n\u2003\u2003- Calma a\u00ed. Deixa eu ver se entendi. \u2013 pela primeira vez na vida, duvidara do seu racioc\u00ednio \u2013 Est\u00e1 me dizendo que passou esse tempo todo preocupado em deixar isso daqui intacto ao inv\u00e9s de pensar somente em si?<br \/>\n\u2003\u2003Com o l\u00e1bio inferior tr\u00eamulo denunciando o choro, acenou que sim com a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003 &#8211; Meu Deus. \u2013 quebrou a dist\u00e2ncia o puxando para um abra\u00e7o afetuoso \u2013 S\u00f3 voc\u00ea pra pensar nisso numa hora dessas. \u2013 murmurou.<br \/>\n\u2003\u2003A informa\u00e7\u00e3o apertou seu cora\u00e7\u00e3o porque, apesar das dificuldades enfrentadas nos \u00faltimos anos, era tocante o fato de querer, sim, agradar e querer trazer facilidade para a vida de sua fam\u00edlia \u2013 mesmo estando em total desvantagem, num cen\u00e1rio onde sua vida corria risco.<br \/>\n\u2003\u2003- A gente n\u00e3o tem muito dinheiro. N\u00e3o posso desperdi\u00e7ar. Por favor, entrega l\u00e1 pra mim. Eu te transfiro o Pix&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Parou de falar porque foi pego no colo sem aviso, circulando a cintura alheia com as pernas automaticamente. Kalisto sentou no sof\u00e1 com o rapaz no colo, quem p\u00f4s os joelhos no m\u00f3vel.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Chamo aqui um motorista pra levar pra elas. N\u00e3o se preocupe com isso.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigado. \u2013 fungou secando os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003O fitou com amorosidade, o tocando com leveza para n\u00e3o assust\u00e1-lo ap\u00f3s o epis\u00f3dio traumatizante.<br \/>\n\u2003\u2003- Como voc\u00ea est\u00e1, beb\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Um trapo. \u2013 os cantos dos l\u00e1bios ca\u00edram discretamente \u2013 Nunca me passou pela cabe\u00e7a que seria sequestrado. Foi um pesadelo. \u2013 finalizou se deitando nele.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei. \u2013 acariciava as costas lhe trazendo conforto \u2013 Do que est\u00e1 precisando agora?<br \/>\n\u2003\u2003- Ficar deitado. Estou cansado, estranho&#8230; N\u00e3o sei se vou me recuperar assim t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Quase meia-noite foi para o quarto.<br \/>\n\u2003\u2003Deixou Rafael l\u00e1 h\u00e1 poucas horas para se descansar. Apenas pediu para o rapaz, de banho tomado e vestido numa boxer preta, beber um ch\u00e1 de camomila. Esperava daquilo tranquilizar os nervos, mesmo que minimamente.<br \/>\n\u2003\u2003Ao fechar a porta, se surpreendeu ao v\u00ea-lo no escuro sentado na cama sob a luz do luar.<br \/>\n\u2003\u2003- Pensei que estivesse dormindo.<br \/>\n\u2003\u2003Ao se deitar de barriga pra cima, o outro se aninhou sobre si.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o consegui. \u2013 recebia afagos nos cabelos \u2013 Pra ser sincero, nem sei se pegarei no sono assim t\u00e3o cedo.<br \/>\n\u2003\u2003- Quer conversar sobre o que aconteceu?<br \/>\n\u2003\u2003Contou sobre o acontecimento. Desabafou acerca do medo de n\u00e3o ver quem amava nunca mais, da impot\u00eancia pela incapacidade de impedir o epis\u00f3dio, da sua fraqueza imagin\u00e1ria&#8230;.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. \u2013 foi o \u00fanico ponto contestado pelo advogado \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o foi fraco.<br \/>\n\u2003\u2003- Como n\u00e3o? N\u00e3o tive como me defender ou fugir quando o carro parou na minha frente.<br \/>\n\u2003\u2003- Eles te pegaram desprevenido. Como iria imaginar que algo assim aconteceria?<br \/>\n\u2003\u2003- Eu poderia ter corrido, gritado por ajuda&#8230; Sei l\u00e1!<br \/>\n\u2003\u2003- Beb\u00ea, como n\u00e3o enxerga o quanto foi forte?! \u2013 mesmo sussurrando, o assombro era vis\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003- Forte como?! \u2013 apoiou o queixo no peitoral para fita-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- Meu bem, voc\u00ea \u00e9 inacredit\u00e1vel. \u2013 apertou a cintura com uma das m\u00e3os \u2013 Sozinho e numa vulnerabilidade absurda, n\u00e3o se deixou mover pelo desespero. Aguardou a oportunidade certa para fugir porque manteve a navalha que lhe foi entregue guardada. Acha isso pouco?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, mas&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003P\u00f4s um dedo nos l\u00e1bios o calando.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, mas \u00e9 o caralho. Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil perceber o quanto foi forte hoje? Isso sem falar da \u00faltima vez com Andr\u00e9, quando o enfrentou. Voc\u00ea, meu amor, s\u00f3 est\u00e1 dando orgulho. N\u00e3o imagina o quanto.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras ressoaram em seu \u00edntimo quase como um carinho. Talvez estivesse, sim, sendo forte.<br \/>\n\u2003\u2003Forte por suportar tantos baques.<br \/>\n\u2003\u2003Forte por n\u00e3o sucumbir perante o relacionamento com Andr\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003Forte por lutar contra a ansiedade.<br \/>\n\u2003\u2003Forte por buscar sempre cuidar de sua fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003Forte por aceitar Kalisto em sua vida.<br \/>\n\u2003\u2003Forte por ter tantas responsabilidades em prol de seu crescimento e dar conta de tudo.<br \/>\n\u2003\u2003Talvez, apenas talvez, fosse necess\u00e1rio ser um pouco mais amoroso consigo porque dava o seu melhor pelo bem de sua fam\u00edlia dia ap\u00f3s dia \u2013 mesmo quando estava completamente quebrado ou sendo v\u00edtima de um sequestro.<br \/>\n\u2003\u2003- Valeu! \u2013 deu um sorrisinho com os olhos brilhantes antes de retornar para a posi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil se reconhecer forte? \u2013 ro\u00e7ou o nariz nas mechas macias \u2013 Hum?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sei. Sinceramente n\u00e3o sei.<br \/>\n\u2003\u2003- Talvez tenha chegado a hora de come\u00e7ar a reconhecer seus feitos. At\u00e9 porque merece isso. Deixar essa inferioridade pra tr\u00e1s e permitir essa for\u00e7a que carrega crescer. \u2013 completou num pedido sorridente \u2013 Voc\u00ea \u00e9 meu baixinho favorito, mas com uma for\u00e7a enorme. A deixe vir \u00e0 tona.<br \/>\n\u2003\u2003O agradeceu lhe enchendo de selinhos estalados.<br \/>\n\u2003\u2003- O que foi? \u2013 indagou contra os l\u00e1bios do homem, o vendo abrir um largo sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu acho fofo quando faz isso. \u2013 deslizava as costas dos dedos na bochecha o olhando com amabilidade \u2013 Voc\u00ea \u00e9 um homem doce. \u00c9 de se esperar esquecer \u00e0s vezes o qu\u00e3o forte \u00e9, mas relaxa. Eu sempre vou estar aqui pra te lembrar.<br \/>\n\u2003\u2003Acariciou o maxilar sentindo a barba rala.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 se sentindo melhor agora depois de falar?<br \/>\n\u2003\u2003- Um pouco. Eu s\u00f3&#8230; Sei l\u00e1. \u2013 deu de ombros \u2013 Queria esquecer.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu posso te ajudar nisso.<br \/>\n\u2003\u2003- Como?<br \/>\n\u2003\u2003- Vem c\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003Como os rostos estavam bem pr\u00f3ximos, foi f\u00e1cil para Kalisto beij\u00e1-lo de maneira meiga. Sem quebrar a uni\u00e3o dos l\u00e1bios, inverteu as posi\u00e7\u00f5es devagar at\u00e9 coloc\u00e1-lo deitado no colch\u00e3o macio. Apesar da lentid\u00e3o do beijo carregado de carinho, n\u00e3o havia timidez ali. O cuidado abria espa\u00e7o para v\u00e1rias outras sensa\u00e7\u00f5es serem transmitidas \u2013 paci\u00eancia, zelo, amor, entrega, ternura, seguran\u00e7a, pertencimento.<br \/>\n\u2003\u2003Seu objetivo era deixar todas essas impress\u00f5es chegarem ao outro, quem tanto precisava desse acalento.<br \/>\n\u2003\u2003Desceu os l\u00e1bios \u00famidos at\u00e9 chegar ao pesco\u00e7o lhe gerando arrepios pela l\u00edngua macia em seus pontos sens\u00edveis.<br \/>\n\u2003\u2003- O que est\u00e1 fazendo, meu amor? \u2013 de olhos fechados e o cenho franzido, o tocava nas costas com as m\u00e3os espalmadas.<br \/>\n\u2003\u2003- Te fazendo esquecer. \u2013 o h\u00e1lito quente aumentou a temperatura da pele ao entrar em contato com a epiderme num murm\u00fario rouco. Passou a ponta da l\u00edngua pelo l\u00f3bulo da orelha, lhe arrancando um arfar \u2013 Voc\u00ea deixa?<br \/>\n\u2003\u2003Prosseguiu depois do aceno de cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Palavras n\u00e3o foram necess\u00e1rias quando explorou o pequeno corpo. O ver se agarrar em si, o tronco se contorcendo ao ser tocado com tamanha devo\u00e7\u00e3o, os gemidos de prazer e o seu sabor eram o suficiente para saber do qu\u00e3o desejoso Rafael estava. Se concentrava exclusivamente no prazer do ruivo para a mem\u00f3ria daquela tarde ser apagada de sua mente, nem que fosse pelos pr\u00f3ximos momentos.<br \/>\n\u2003\u2003Ao abaixar a boxer preta n\u00e3o o abocanhou de imediato. Primeiro o instigou ao explorar a \u00e1rea interna das coxas. Em aprova\u00e7\u00e3o, separava ainda mais as pernas, um sinal claro do quanto apreciava o gesto. De vez em quando gemia frustrado quando, ao inv\u00e9s do moreno finalmente toc\u00e1-lo onde mais queria, faltando um m\u00edsero cent\u00edmetro para chegar ao destino mais almejado, mudava a rota numa express\u00e3o travessa, gostando de deixa-lo ao ponto de implorar para&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Ah.<br \/>\n\u2003\u2003A lam\u00faria veio em resposta por, finalmente, Kalisto se concentrar na cabe\u00e7a do pau.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o o tomou de uma vez. Come\u00e7ou aos poucos em diferentes regi\u00f5es. Se atentou primeiro na glande rosada por longos minutos o levando \u00e0 beira da loucura e s\u00f3 continuou quando lhe foi pedido pela terceira vez num fio de voz para avan\u00e7ar nas car\u00edcias.<br \/>\n\u2003\u2003Ao envolve-lo completamente na boca em movimentos primorosos apesar de vagarosos, os gemidos se intensificaram enquanto se agarrava \u00e0s cobertas e ao travesseiro. Arqueava o abd\u00f4men o observando. Com a ajuda da pr\u00f3pria saliva abundante, aproveitou para penetr\u00e1-lo com o dedo, o estimulando duplamente numa deliciosa tortura lenta. Rafael j\u00e1 havia perdido o controle de suas articula\u00e7\u00f5es. Apenas reagia \u00e0s investidas com cada c\u00e9lula carregada de lux\u00faria e seus poros exalando um apetite er\u00f3tico, se deleitando do qu\u00e3o dedicado o seu advogado poderia ser ao manuse\u00e1-lo t\u00e3o bem, o estimulando nos seus pontos er\u00f3genos de maneiras que sabia, sim, que seriam aprovadas pelo ruivo.<br \/>\n\u2003\u2003Gozou j\u00e1 sem ter a menor percep\u00e7\u00e3o de onde come\u00e7ava o seu corpo e onde terminava. Em seguida, Kalisto n\u00e3o parou. Desceu a l\u00edngua cada vez mais, se demorando no per\u00edneo at\u00e9 encontrar a entrada, onde se aproveitou em movimentos circulares.<br \/>\n\u2003\u2003Adorava v\u00ea-lo daquela maneira, ao ponto de sequer conseguir elaborar uma \u00fanica palavra coerente. Os olhos de Rafael escureceram pelo deleite, principalmente ap\u00f3s os jatos quentes atingirem a garganta do outro, quem era um amante devotado \u2013 e completamente enfeiti\u00e7ado pelo seu menino.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s longos minutos Rafael o puxou para um beijo s\u00f4frego, desejoso daquele contato pele com pele.<br \/>\n\u2003\u2003Passeou as m\u00e3os pelo homem musculoso at\u00e9 onde alcan\u00e7ava. Segurou a bunda para pression\u00e1-lo contra si uma vez \u2013 e precisou se afastar em busca de ar tamanha a intensidade da onda que os tomou com a press\u00e3o deliciosa sobre os membros.<br \/>\n\u2003\u2003Kalisto o virou pelo ombro com delicadeza at\u00e9 coloc\u00e1-lo de costas. Apanhou o lubrificante guardado na mesa de cabeceira ao lado, o penetrando logo depois de preenche-lo com o conte\u00fado pela extens\u00e3o do membro.<br \/>\n\u2003\u2003Com uma perna dobrada e a outra esticada, gemia a cada investida de Kalisto, quem se dedicava a lhe encher cada vez mais das sensa\u00e7\u00f5es maravilhosas. Aproveitava para explorar a nuca, o pesco\u00e7o e o l\u00f3bulo da orelha atento ao rapaz, cuja express\u00e3o era carregada de deleite. Suspirava quando o moreno deitava por completo sobre ele mexendo apenas os quadris ou ao receber carinhos por meio de pequenos gestos, como apenas ro\u00e7ar a testa ou mordiscar a \u00e1rea perto dos ombros.<br \/>\n\u2003\u2003Ao posicionar os bra\u00e7os ao lado dos dele, manteve-se deslizando pela entrada num ritmo moderado, nem lento demais, nem r\u00e1pido demais, nem forte demais. O prazer do ruivo sobrepujava ao seu, ent\u00e3o a vontade era prolongar ao m\u00e1ximo a excita\u00e7\u00e3o do homem da sua vida.<br \/>\n\u2003\u2003J\u00e1 com as got\u00edculas de suor colando alguns fios na testa, o mais novo tomou uma das destras morenas na sua, lhe beijando as costas antes de a conservar contigo perto do rosto.<br \/>\n\u2003\u2003J\u00e1 sentindo o cl\u00edmax perto de acontecer por reconhecer os sinais dados por Rafael, aproveitou para sussurrar com os l\u00e1bios encostando na pequena orelha:<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea est\u00e1 seguro comigo, amor. N\u00e3o deixarei nada acontecer contigo. Nunca. Eu te amo. Te amo demais.<br \/>\n\u2003\u2003Continuou at\u00e9 gozarem, o sentindo estremecer abaixo de si. S\u00f3 ent\u00e3o permitiu-se tamb\u00e9m ser tomado pelo orgasmo, gozando abra\u00e7ado ao ruivo.<br \/>\n\u2003\u2003Saiu de seu interior deslizando pela cama ainda ofegante. Um Rafael relaxado gra\u00e7as a intensidade do prazer e das emo\u00e7\u00f5es, se aninhou no peito largo.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu te amo. Obrigado \u2013 beijou a pele antes de adormecer.<\/p>\n<p>\u2003\u2003\u00c0s cinco horas da manh\u00e3 Kalisto continuava acordado.<br \/>\n\u2003\u2003Diferente de Rafael, quem logo adormecera ap\u00f3s transarem, conjecturava sobre os \u00faltimos acontecimentos envolvendo as falas de Andr\u00e9, o epis\u00f3dio de poucas noites atr\u00e1s onde um estranho quase o levou, o sequestro, o desaparecimento de Bruno e o celular entregue com informa\u00e7\u00f5es sobre um caso de Miguel. Eram situa\u00e7\u00f5es demais entorno do rapaz para serem meras coincid\u00eancias.<br \/>\n\u2003\u2003Adormecera tranquilo ao seu lado num sono profundo. A imagem de tamanha serenidade aliada \u00e0 sua preocupa\u00e7\u00e3o o motivou a sair da cama, se vestir e ir atr\u00e1s de respostas.<br \/>\n\u2003\u2003Ao passar pelo porteiro, lhe pediu rapidamente:<br \/>\n\u2003\u2003- Me faz um favor? Ou melhor, dois. Se chegar algu\u00e9m que n\u00e3o more aqui antes de eu voltar, por favor, n\u00e3o o deixe subir. Caso o Rafael des\u00e7a \u00e0 minha procura, o avise que n\u00e3o demoro.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Miguel o atendeu cambaleando \u00e0s cinco e quarenta e cinco da manh\u00e3 descal\u00e7o e enrolado numa coberta. Ap\u00f3s tantas buzinas, liga\u00e7\u00f5es e gritos foi imposs\u00edvel n\u00e3o despertar contra a sua vontade.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso l\u00e1 \u00e9 hora de visitar os amigos?<br \/>\n\u2003\u2003Reclamou bocejando enquanto ia com o visitante para a cozinha. Trope\u00e7ou no caminho de t\u00e3o sonolento.<br \/>\n\u2003\u2003- Mike, foi mal por te acordar, mas eu n\u00e3o vou sair daqui sem sanar as minhas d\u00favidas. \u2013 n\u00e3o se importou em sentar numa cadeira. Afinal, planejava n\u00e3o se demorar.<br \/>\n\u2003\u2003- O que quer saber?<br \/>\n\u2003\u2003Na cozinha, arrastou os p\u00e9s at\u00e9 o fog\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual a liga\u00e7\u00e3o de Il Dio com Andr\u00e9 e quem, caralhos, \u00e9 esse?<br \/>\n\u2003\u2003Apesar do sono, a men\u00e7\u00e3o ao nome foi capaz de lhe causar uma dor de cabe\u00e7a devido ao estresse enquanto acendia o fogo para esquentar a chaleira pro caf\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003Il Dio era a raz\u00e3o porque n\u00e3o dormia bem nas \u00faltimas semanas e o foco do seu trabalho.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o posso&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- O cacete que n\u00e3o pode! \u2013 quase gritou \u2013 Estou farto dessa hist\u00f3ria, Miguel! Tem alguma merda acontecendo e voc\u00ea n\u00e3o quer me contar. Quanto menos eu sei, menos posso proteger o Rafael. E n\u00e3o vou aceitar ficar nas sombras sem informa\u00e7\u00f5es relevantes.<br \/>\n\u2003\u2003- Aconteceu alguma coisa com ele? \u2013 estranhamente tranquilo, se virou para o homem.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 claro! Ontem sofreu um sequestro. Ou melhor, uma tentativa. Por sorte conseguiu fugir. Sem contar da outra vez que quase foi levado por um desconhecido. N\u00e3o pode ser simplesmente azar.<br \/>\n\u2003\u2003- Cara, relaxa. O caso j\u00e1 est\u00e1 sendo solucionado e&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Sem um pingo de paci\u00eancia, com uma m\u00e3o na cintura e a outra gesticulando, disparou aos berros:<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o vou esperar enterrar o Rafael para tomar a devida atitude!<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio prevaleceu gra\u00e7as ao peso das palavras. O delegado conhecia o amigo, ent\u00e3o apenas retirou duas latinhas de cerveja da geladeira ap\u00f3s desligar o fogo.<br \/>\n\u2003\u2003- Caf\u00e9 \u00e9 para assuntos tranquilos. N\u00e3o seria a bebida adequada para tratar especificamente desse tema.<br \/>\n\u2003\u2003Ambos acomodados nas cadeiras com o delegado de olhos quase totalmente fechados, come\u00e7ou:<br \/>\n\u2003\u2003- Il Dio \u00e9 uma quadrilha respons\u00e1vel por tr\u00e1fico humano. Aliciam as v\u00edtimas pela Internet, ent\u00e3o pode imaginar o qu\u00e3o dif\u00edcil foi contat\u00e1-los.<br \/>\n\u2003\u2003A cerveja n\u00e3o foi o suficiente para acalma-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- E qual \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o com o Rafael?<br \/>\n\u2003\u2003- Se eu fosse voc\u00ea n\u00e3o fazia perguntas cujas respostas lhe deixariam com ins\u00f4nia.<br \/>\n\u2003\u2003- Se eu fosse voc\u00ea parava de enrola\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o sairei daqui sem as respostas para cada uma das minhas perguntas. \u2013 rebateu s\u00e9rio.<br \/>\n\u2003\u2003- Filho da puta teimoso. \u2013 havia uma certa aprova\u00e7\u00e3o no tom de voz apesar de lhe dar informa\u00e7\u00f5es confidenciais \u2013 Bem, gra\u00e7as ao celular, descobrimos que Andr\u00e9 trabalha pra eles. Algumas v\u00edtimas s\u00e3o mandadas para pa\u00edses ocidentais, mas, em sua grande maioria, s\u00e3o enviadas para o Egito, Tail\u00e2ndia e pa\u00edses orientais. E da\u00ed t\u00eam de um tudo. Tr\u00e1fico de drogas, de \u00f3rg\u00e3os&#8230; Vi algumas fotos que s\u00f3 de lembrar me causam mal-estar. \u00c9 por causa dessa merda que n\u00e3o durmo direito h\u00e1 dias. A\u00ed, justo hoje, quando consigo ter o meu justo sono, voc\u00ea me acorda. Obrigado pela considera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o se deu conta da profundidade do cansa\u00e7o do amigo por causa das falas, mas sim o gesto. Errou por cent\u00edmetros a dire\u00e7\u00e3o da latinha, deixando o l\u00edquido despejar no ch\u00e3o ao escorrer pela bochecha. Em circunst\u00e2ncias normais se sentiria at\u00e9 culpado por tirar a chance do outro de descansar, por\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o era maior, principalmente em virtude dos dois atentados onde facilmente poderia jamais voltar a v\u00ea-lo \u2013 e isso n\u00e3o permitiria de acontecer.<br \/>\n\u2003\u2003- Ainda n\u00e3o entendi onde Rafael se encaixa nessa hist\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom, meu caro Watson, o seu Rafael est\u00e1 na mira deles. \u2013 limpava a pele \u00famida pela cerveja com a toalha de mesa.<br \/>\n\u2003\u2003Quase cuspiu a cerveja.<br \/>\n\u2003\u2003- Como \u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003- Exatamente. Pelo o que entendemos nas mensagens, Andr\u00e9 tem uma certa influ\u00eancia no esquema. Conseguia desviar a aten\u00e7\u00e3o de Rafael, um dos alvos principais. Um rapaz gay, branquinho, pele lisa, boa arcada dent\u00e1ria, ruivo, bom porte f\u00edsico e bil\u00edngue como ele vale uma nota. Enquanto namoravam, Andr\u00e9 conseguia protege-lo. Agora? N\u00e3o mais.<br \/>\n\u2003\u2003- E por que, caralhos, n\u00e3o me contou nada antes? Era pra eu ter conhecimento de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave ao ponto da vida de Rafael estar em jogo!<br \/>\n\u2003\u2003- Porque \u00e9 meu trabalho e eu n\u00e3o sabia que tentariam e nem que tentaram sequestra-lo.<br \/>\n\u2003\u2003Carregado de ang\u00fastia, quis saber:<br \/>\n\u2003\u2003- Demora pra pegar os caras?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o tanto. Acho que em quest\u00e3o de trinta dias, no m\u00e1ximo. Tenho uma equipe l\u00e1 sob o comando do S\u00e9rgio e outra aqui. Essa galera n\u00e3o demora para pagar pelos crimes.<br \/>\n\u2003\u2003- Mais uma coisa. \u2013 pegou o celular no bolso a procura de uma foto \u2013 Descubra com o S\u00e9rgio se essa pessoa est\u00e1 por l\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem?<br \/>\n\u2003\u2003- Estou te mandando pelo Whatsapp. Se chama Bruno. Preciso saber se o Bruno est\u00e1 entre os traficados.<br \/>\n\u2003\u2003- O conhece? \u2013 franziu o cenho com a curiosidade inesperada do amigo sobre o rapaz quem ainda n\u00e3o conhecia.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 amigo do Rafael. Descobri esses dias por meio de um primo dele quem impediu de Rafael ser levado que est\u00e1 desaparecido.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo bem.<br \/>\n\u2003\u2003- Mais uma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003- J\u00e1 sei. Vou colocar dois homens para guardarem a casa do seu namorado e outros dois para vigi\u00e1-lo. N\u00e3o vai acontecer nada com o garoto.<br \/>\n\u2003\u2003- A gente n\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Nem adianta mentir porque \u00e9 claro que est\u00e3o juntos. Apenas ainda n\u00e3o oficializaram. S\u00f3 me promete nunca mais me acordar nesse hor\u00e1rio. Isso \u00e9 quase um crime comigo. \u2013 choramingou.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00f3 se me jurar me levar junto quando efetuar a pris\u00e3o do Andr\u00e9. Quero assistir a cena de camarote.<br \/>\n\u2003\u2003- Feito. \u2013 respondeu num meio sorriso \u2013 Agora mete o p\u00e9 daqui pra eu dormir. Tranca a porta pra mim e a jogue pelo port\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Ao retornar pro apartamento com alguns alimentos para tomarem caf\u00e9 da manh\u00e3, depositou as sacolas na mesa da cozinha antes de se banhar e voltar para o quarto.<br \/>\n\u2003\u2003Rafael acordou \u00e0s nove horas sentindo ainda o cheiro de sabonete na pele de Kalisto, quem, apesar das palavras meigas, tinha uma \u00e1urea de afli\u00e7\u00e3o sobre si.<br \/>\n\u2003\u2003Tentou disfar\u00e7ar com sorrisos e piadas, por\u00e9m o outro era perspicaz. Notou que os sorrisos n\u00e3o chegavam aos olhos e o quanto o semblante era diferente comparado de quando acordaram juntos das outras vezes, quando n\u00e3o havia nada de errado, podendo apenas usufruir da companhia um do outro em harmonia.<br \/>\n\u2003\u2003O observando de costas lavar a lou\u00e7a, foi surpreendido por uma frase a qual serviu para comprovar as suas impress\u00f5es:<br \/>\n\u2003\u2003- Por que n\u00e3o vem morar comigo por uns trinta dias?<br \/>\n\u2003\u2003O questionamento apenas refor\u00e7ou a sua suspeita de que havia algo de errado. Kalisto n\u00e3o o pressionava sobre retornarem, ent\u00e3o por qual motivo lhe pediria aquilo?<br \/>\n\u2003\u2003- Vai me fazer perguntar o que te incomoda ou voc\u00ea vai me contar por livre e espont\u00e2nea vontade? \u2013 ajeitou o tecido do moletom erguendo as mangas.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o tem nada me incomodando, amor.<br \/>\n\u2003\u2003Nem um pouco convencido por n\u00e3o acreditar na mentira, baixou a cabe\u00e7a com certa indigna\u00e7\u00e3o. Descal\u00e7o, caminhou para abra\u00e7a-lo pela cintura. Encostou a bochecha nas costas para dizer carregado de sinceridade:<br \/>\n\u2003\u2003- Da \u00faltima vez que escondemos algo, voc\u00ea achou que eu havia te tra\u00eddo, teve um mau entendido do caralho e passamos quatro anos separados carregando m\u00e1goas. Era pra termos aprendido com essa experi\u00eancia, n\u00e3o acha?<br \/>\n\u2003\u2003Usou o tempo de finalizar o servi\u00e7o dom\u00e9stico para refletir.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu s\u00f3 quero te proteger. \u2013 secou as m\u00e3os no pano de prato.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu tamb\u00e9m segui esse racioc\u00ednio l\u00e1 atr\u00e1s. \u2013 distribu\u00eda beijinhos pelas costas nuas \u2013 N\u00e3o serviu de nada. Apenas atrapalhou.<br \/>\n\u2003\u2003- Droga.<br \/>\n\u2003\u2003Segurando a pequena m\u00e3o, o encaminhou para a sala, onde se acomodou no sof\u00e1 com o ruivo no seu colo.<br \/>\n\u2003\u2003- A not\u00edcia n\u00e3o \u00e9 das melhores.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o me deixa saber.<br \/>\n\u2003\u2003Contou toda a situa\u00e7\u00e3o com Andr\u00e9 demonstrando a sua fragilidade por Rafael n\u00e3o estar completamente seguro enquanto a quadrilha n\u00e3o fosse presa. O medo era genu\u00edno \u2013 e poucas eram as coisas capazes de assust\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003Encostou a testa na do advogado, ambos de olhos fechados. A informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe agradou, por\u00e9m era necess\u00e1rio saber para tomar os devidos cuidados, evitando se colocar em risco. As a\u00e7\u00f5es poderiam ser pequenas por n\u00e3o ter um conhecimento mais profundo sobre o assunto. Entretanto, se preservaria da forma como podia.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o vai acontecer nada comigo, meu amor. \u2013 murmurou antes de beijar a ponta do nariz.<br \/>\n\u2003\u2003- Era o que eu achava at\u00e9 sofrer duas tentativas de sequestro.<br \/>\n\u2003\u2003- Agora com essas informa\u00e7\u00f5es posso me proteger melhor. Est\u00e1 tudo bem.<br \/>\n\u2003\u2003- Meu menino&#8230; \u2013 ao abrir os olhos eles carregavam melancolia devido ao medo \u2013 Eu n\u00e3o posso te perder. Se fizerem alguma coisa contigo, por menor que seja, serei incapaz de responder por mim. N\u00e3o quero correr o risco de voc\u00ea desaparecer ou ser ferido.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o vou.<br \/>\n\u2003\u2003- E se algo acontecer contigo?<br \/>\n\u2003\u2003- E se n\u00e3o acontecer? N\u00e3o d\u00e1 pra estar sempre no controle. Tamb\u00e9m estou com medo e assustado porque n\u00e3o imaginava um cen\u00e1rio como esse, mas n\u00e3o adianta sofrer por antecipa\u00e7\u00e3o. Podemos lidar com a realidade, n\u00e3o com as armadilhas da nossa mente.<br \/>\n\u2003\u2003Desviou o olhar por n\u00e3o estar t\u00e3o convicto.<br \/>\n\u2003\u2003- Amor, me escuta. \u2013 o segurou pelas laterais do rosto para se encararem \u2013 Nada de ruim vai acontecer comigo. Durante e depois desse per\u00edodo de um m\u00eas, estarei assim contigo. Sentado no seu colo e nos seus bra\u00e7os. \u2013 o abra\u00e7ou para lhe acalmar \u2013 Seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 batendo muito r\u00e1pido. Tenta se concentrar nesse contato que temos aqui.<br \/>\n\u2003\u2003- Vou tentar. S\u00f3 pe\u00e7o uma coisa.<br \/>\n\u2003\u2003- O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Passa os finais de semana aqui. \u2013 pediu retribuindo o carinho \u2013 Me deixa te dar carona pra voltar pra casa da faculdade ao inv\u00e9s de chamar Uber tarde da noite. N\u00e3o sou capaz de te deixar em vulnerabilidade nesse per\u00edodo enquanto esse assunto n\u00e3o for solucionado pela equipe do Miguel.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo bem.<br \/>\n\u2003\u2003Na parte da tarde almo\u00e7aram uma lasanha de frango preparada pela dupla com arroz e salada. Apesar da ang\u00fastia, conseguiu se controlar mais com a presen\u00e7a de Rafael \u2013 e pelo rapaz aceitar o seu pedido. Enquanto degustavam de uma torta de banana com chocolate feita pelo ruivo de sobremesa, o advogado recebeu uma mensagem de \u00e1udio do amigo, a escutando de imediato com o outro.<br \/>\n\u2003\u2003- Depois de recuperar o meu justo sono de beleza interrompido por voc\u00ea essa manh\u00e3, diga-se de passagem, tenho algumas atualiza\u00e7\u00f5es. Mandei a foto pro S\u00e9rgio e a resposta \u00e9 sim. O Bruno est\u00e1 por l\u00e1. Inclusive, ironicamente \u00e9 o informante. Caso veja o seu namorado sendo seguido por um dos homens das fotos abaixo, n\u00e3o se preocupe. S\u00e3o policiais os quais selecionei para a prote\u00e7\u00e3o do Rafael e da fam\u00edlia dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que o Bruno foi citado nessa conversa? \u2013 sentiu um frio na barriga por temer a resposta.<br \/>\n\u2003\u2003- Porque ele tamb\u00e9m foi traficado. Est\u00e1 no Egito h\u00e1 um tempo.<br \/>\n\u2003\u2003- Como \u00e9?! \u2013 gritou tamanho o choque.<br \/>\n\u2003\u2003- Infelizmente. Eu j\u00e1 te explico essa hist\u00f3ria, mas me conta primeiro o seguinte. O seu amigo j\u00e1 comentou sobre um parente chamado Cau\u00e3?<br \/>\n\u2003\u2003- Sim. Apesar de n\u00e3o serem t\u00e3o pr\u00f3ximos tem uma boa rela\u00e7\u00e3o com ele. S\u00e3o primos, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha. Por que?<br \/>\n\u2003\u2003- Foi esse Cau\u00e3 quem te impediu de ser levado. Provavelmente o filho da puta te drogou para coagi-lo mais facilmente. O cara est\u00e1 procurando pelo Bruno.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 melhor entrarmos em contato com ele. Pelo menos pra n\u00e3o deixa-lo sem informa\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 o que farei agora.<br \/>\n\u2003\u2003Por sorte guardara o guardanapo com o n\u00famero de contato do, agora, conhecido.<\/p>\n<p>\u2003\u2003Horas mais tarde, no Oriente M\u00e9dio, S\u00e9rgio constataria o \u00f3bvio.<br \/>\n\u2003\u2003Estava fodido.<br \/>\n\u2003\u2003O infort\u00fanio estava no estresse do trabalho nos \u00faltimos tempos? Na viagem para um lugar onde n\u00e3o desejava estar? No fuso-hor\u00e1rio respons\u00e1vel por mexer com o seu organismo e demorar para se acostumar? Na culin\u00e1ria a qual n\u00e3o conseguia se adequar por ser o total oposto ao que passou se alimentando a vida inteira? Foi por precisar se monitorar constantemente, j\u00e1 que estava inserido numa sociedade cultural onde os significados dos gestos n\u00e3o se assemelhavam em nada aos que conhecia? O idioma o qual sequer sabia pronunciar as s\u00edlabas adequadamente?<br \/>\n\u2003\u2003Nada disso.<br \/>\n\u2003\u2003O seu problema tinha lindos olhos azuis, documentos roubados para impedir a sua fuga do cativeiro e se chamava Bruno, o seu informante \u2013 e tamb\u00e9m v\u00edtima de tr\u00e1fico humano.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 se deu conta da amplitude da enrascada quando o rapaz passou pela porta do quarto de hotel com uma s\u00e9rie de escoria\u00e7\u00f5es pelo corpo.<br \/>\n\u2003\u2003O seu estado n\u00e3o era bom. N\u00e3o estava ruim ao ponto de perder a consci\u00eancia ou n\u00e3o suportar o pr\u00f3prio peso. Por outro lado, se locomovia com certa lentid\u00e3o, movimentando-se o menos poss\u00edvel para evitar qualquer tipo de dor extra. Havia alguns hematomas pelo dorso e verg\u00f5es pelas costas, al\u00e9m de arranh\u00f5es e mordidas.<br \/>\n\u2003\u2003Apenas descobriu as les\u00f5es pela insist\u00eancia em lhe contar, j\u00e1 que o mais novo resistia para n\u00e3o entrar no assunto. Sem energia para discutir, apenas retirou a camisa, revelando a derme castigada pelas agress\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem fez isso contigo?<br \/>\n\u2003\u2003Deitado na cama de bru\u00e7os, era cuidado pelo policial, quem, ajoelhado no ch\u00e3o, passava um creme \u2013 solicitado pela farm\u00e1cia mais pr\u00f3xima ap\u00f3s pedir na recep\u00e7\u00e3o do hotel \u2013 nas feridas.<br \/>\n\u2003\u2003- Um empres\u00e1rio. \u2013 contou cabisbaixo com o queixo deitado sobre as m\u00e3os \u2013 O cara \u00e9 um s\u00e1dico. N\u00e3o chegou a transar comigo porque o tes\u00e3o do desgra\u00e7ado \u00e9 em infligir dor em outras pessoas.<br \/>\n\u2003\u2003- O filho da puta nunca ouviu falar sobre lugares adequados para as pr\u00e1ticas do BDSM?<br \/>\n\u2003\u2003- Gato, no BDSM precisa de consentimento, palavra chave para n\u00e3o ultrapassar os limites f\u00edsicos do submisso e respeito m\u00fatuos. Qualquer coisa que fuja disso \u00e9 um ato criminoso digno de ser resolvido na justi\u00e7a. O escroto com quem passei cinco horas \u00e9 um doente quem deveria ser preso.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o lutou contra a vontade de acariciar os cabelos lisos numa tentativa de lhe trazer conforto. Bruno fechou os olhos aproveitando o carinho oriundo daquele toque.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o era pra voc\u00ea estar aqui. \u2013 S\u00e9rgio murmurou mais para si.<br \/>\n\u2003\u2003- Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003- Eu queria t\u00ea-lo conhecido em outras condi\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea parece ser uma pessoa boa. N\u00e3o merecia estar nessa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Deitou-se de lado para observ\u00e1-lo melhor. Pelo policial ter deixado a destra no colch\u00e3o devido a mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o, o rapaz arriscou em encostar a ponta dos dedos nos dele, ambos apreciando a sensa\u00e7\u00e3o e a imagem formada.<br \/>\n\u2003\u2003- Nenhum de n\u00f3s merecia, seu lindo. Eu vi umas coisas, ouvi algumas hist\u00f3rias&#8230; Tenebrosas. Vai ser dif\u00edcil esquecer. \u2013 desabafou usando a face para enfatizar o qu\u00e3o desagrad\u00e1vel era o conte\u00fado do relato.<br \/>\n\u2003\u2003- Com o tempo voc\u00ea esquece e consegue se recuperar.<br \/>\n\u2003\u2003- A parte ruim quero esquecer, sim. N\u00e3o de ter te conhecido. Essa foi a \u00fanica coisa boa dessa merda onde me enfiei. \u2013 a express\u00e3o suavizou.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o esperava ouvir a escolha de palavras. Por alguns segundos se perdeu no azul daqueles olhos perspicazes, atento a qualquer sinal de desconforto ou tentativa do outro de se afastar. N\u00e3o notou nada disso. Parecia t\u00e3o confort\u00e1vel pelo excesso de proximidade quanto o mesmo igualmente o estava.<br \/>\n\u2003\u2003Temendo as a\u00e7\u00f5es seguintes devido ao sil\u00eancio que os tomou enquanto apenas se encaravam ansiando por algo que n\u00e3o saberiam muito bem distinguir o que seria, fez a men\u00e7\u00e3o de se afastar. Por n\u00e3o desejar novamente a dist\u00e2ncia, o segurou pela destra por \u00ednfimos instantes.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que se afasta de mim? \u2013 tinha um sorriso cheio de curiosidade nos l\u00e1bios.<br \/>\n\u2003\u2003- Bruno&#8230; \u2013 j\u00e1 de p\u00e9, pressionou a regi\u00e3o do topo do nariz com o indicador e o polegar \u2013 H\u00e1 certos protocolos os quais n\u00e3o posso quebrar.<br \/>\n\u2003\u2003- Quais?<br \/>\n\u2003\u2003- Essa&#8230; \u2013 gesticulava \u2013 Essa proximidade entre a gente. Teoricamente n\u00e3o deveria acontecer.<br \/>\n\u2003\u2003- Bem, n\u00e3o estou reclamando de nada. T\u00eam c\u00e2meras escondidas, por acaso? \u2013 brincou rindo.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o. \u2013 o acompanhou na risada mordendo o l\u00e1bio inferior \u2013 Eu seria repreendido ou at\u00e9 mesmo punido pelo meu comportamento indevido contigo perante o caso.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem mais algu\u00e9m por aqui? Estamos sendo gravados por imagens ou \u00e1udios?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o e n\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o n\u00e3o tem problema nenhum em ficar perto de mim. \u2013 estendeu a m\u00e3o para o policial.<br \/>\n\u2003\u2003A destra ficou estendida enquanto o outro refletia. N\u00e3o deveria, por\u00e9m queria e podia \u2013 de certa maneira.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual foi, gato? Eu n\u00e3o mordo. E o bra\u00e7o da fadinha aqui est\u00e1 come\u00e7ando a pesar.<br \/>\n\u2003\u2003Rendido, pendeu a cabe\u00e7a para o ch\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Tecnicamente eu n\u00e3o deveria, mas&#8230; \u2013 a segurou, logo se acomodando a cent\u00edmetros do ator \u2013 Foda-se.<br \/>\n\u2003\u2003Passaram as horas seguintes deitados lado a lado. Conversaram sobre in\u00fameros temas at\u00e9 serem tomados pelo cansa\u00e7o. Adormeceram frente a frente num abra\u00e7o reconfortante com as luzes apagadas. O respons\u00e1vel por agendar os encontros j\u00e1 havia sido avisado para busca-lo \u00e0s dez da manh\u00e3 no dia seguinte. Pontual, o aguardava na entrada do hotel para leva-lo de volta.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00e9rgio acordou quase no hor\u00e1rio do outro de ir embora. Confuso e sem reconhecer bem o ambiente, mexeu minimamente a cabe\u00e7a com a vis\u00e3o turva e acabou encostando os l\u00e1bios nos de Bruno. N\u00e3o era exatamente um beijo. Acontecera ao acaso, sem nenhum planejamento. Entretanto, descobriu que a textura dos l\u00e1bios eram macias e se encaixavam perfeitamente nos seus.<br \/>\n\u2003\u2003O ator despertou poucos minutos depois \u2013 ou, pelo menos, o evidenciou, j\u00e1 que acordara pouco antes de S\u00e9rgio, preferindo manter-se quieto por apreciar a sensa\u00e7\u00e3o corporal.<br \/>\n\u2003\u2003- Acredita que tive um sonho fofinho essa noite? \u2013 guardava os pertences na bolsa.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual? \u2013 em frente ao espelho, ajeitava a roupa meio amassada.<br \/>\n\u2003\u2003- Sonhei que era beijado por algu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Apesar do ch\u00e3o ser liso e sem nenhum obst\u00e1culo, a frase foi capaz de faz\u00ea-lo trope\u00e7ar enquanto ia desligar o ar-condicionado.<br \/>\n\u2003\u2003- Jura? \u2013 fingiu n\u00e3o saber como mexer no aparelho de costas para Bruno \u2013 E&#8230; Por acaso lembra quem era? \u2013 pigarreou.<br \/>\n\u2003\u2003- Juro, gato. Foi bom porque, desde que cheguei aqui, pude beijar a pessoa quem realmente queria. Por isso gostei do sonho. \u2013 sorria travesso caminhando at\u00e9 a porta \u2013 Espero que possamos repetir isso um dia.<br \/>\n\u2003\u2003- Dormirmos juntos ou virarmos a noite conversando? \u2013 arriscou se virando para ele.<br \/>\n\u2003\u2003Com a m\u00e3o na ma\u00e7aneta, respondeu abrindo a porta.<br \/>\n\u2003\u2003- Se acha que estou me referindo a isso&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003A atravessou sem olhar para tr\u00e1s deixando o outro perplexo, sem saber se fora descoberto ou n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003\u201cN\u00e3o mexa com meu filho, pois t\u00fa a de me pagar \u2003\u2003O mundo aqui d\u00e1 volta \u2003\u2003E na minha m\u00e3o t\u00fa vai sambar \u2003\u2003Toma cuidado, mo\u00e7o \u2003\u2003Olha o que vou lhe falar \u2003\u2003Na rua tem malandro \u2003\u2003Mas tem quem sabe enganar \u2003\u2003N\u00e3o se preocupe, n\u00e3o \u2003\u2003Pois t\u00fa es meu protegido \u2003\u2003Eu sou seu Z\u00e9 Pilintra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2247],"class_list":["post-9156","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chame-por-cigana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9156"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}