{"id":9119,"date":"2025-12-04T17:46:56","date_gmt":"2025-12-04T20:46:56","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-04T17:51:02","modified_gmt":"2025-12-04T20:51:02","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/vicious\/prologo\/","title":{"rendered":"PR\u00d3LOGO"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Havia algo de errado<\/span> com %Atlas% %Gaunt%, algo <em>quebrado<\/em>.<br>\u2003\u2003Desde o momento que havia nascido, algo parecia ter se enredado por suas pequenas entranhas e o corrompido. Talvez fosse o peso do legado da <em>Casa dos %Gaunt%<\/em> que recaiu aos ombros do menino, uma vez que ele era, de fato, o herdeiro daquele lugar, ou talvez, fosse apenas a m\u00e1 sorte de uma leitura equivocada de uma profecia que o colocava como um <em>inimigo<\/em> ao em vez de uma esperan\u00e7a para a fam\u00edlia. Entre os ossos dispostos sobre a mesa coberta por veludo vermelho, permeada por velas coloridas em variadas formas, cartas de tar\u00f4, e mesmo borras de caf\u00e9 usadas e descartadas aleatoriamente sobre lugares que n\u00e3o deveriam, revelou-se uma preocupante verdade sobre ele: <em>\u201cSob as escamas da Serpente, criar-se-ia sua destrui\u00e7\u00e3o, seria pela m\u00e3o daquele com sangue que a construiu, o respons\u00e1vel por destruir permanentemente a grande Casa dos %Gaunt%\u201d<\/em>. Nigel rebelou-se com a previs\u00e3o, tamanha ousadia de mera clarivid\u00eancia descuidada, proferia palavras insensatas, e de sua postura, reconhecia o charlatanismo, al\u00e9m disso, era evidente que sua parte <em>trouxa<\/em> o tornou mais fraco em sua leitura; fez o que tinha que ser feito. Sangue ainda pingava ritmicamente contra o assoalho de madeira do pequeno consult\u00f3rio, revelando uma mancha consider\u00e1vel absorvida pelo tecido quando ele deixou o lugar, sem um \u00fanico olhar para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Homem de tradi\u00e7\u00f5es antiquadas, Nigel %Gaunt% n\u00e3o tardou em consultar outros demais clarividentes a fim de compreender melhor como seria a vida de seu herdeiro. N\u00e3o poderia simplesmente <em>aceitar<\/em> que a prole que tanto esperava viria a tornar-se a destrui\u00e7\u00e3o de seu imp\u00e9rio; a resposta foi un\u00e2nime: o que havia come\u00e7ado pelas m\u00e3os dos %Gaunt%, seria <em>finalizado<\/em> pelo mesmo.<br>\u2003\u2003Quando desmontou de seu cavalo naquela noite, Nigel %Gaunt% era um homem transtornado. Os cabelos loiros p\u00e1lidos, estavam desalinhados de seu cuidadoso penteado, os olhos, arregalados, estavam avermelhados, e as veias projetavam-se ao redor de seu pesco\u00e7o e testa com um pulsar intenso; estava sendo consumido pela f\u00faria, n\u00e3o pelo desespero.<br>\u2003\u2003Quando adentrou no casar\u00e3o, agiu como sempre, n\u00e3o cumprimentou ningu\u00e9m, sequer os reconheceu em sua presen\u00e7a, mas ent\u00e3o, novamente, isso era <em>h\u00e1bito<\/em> para um <em>%Gaunt%<\/em>. Como os herdeiros de <em>Salazar Slytherin<\/em>, diretamente por sangue, a pureza que carregava dentro de si trazia consigo o peso da dinastia e a heran\u00e7a de uma magia pura e latente ancestral. Era por isso que se viam como superiores, era <em>isso<\/em> que os tornavam superiores; eles tinham muito cuidado para n\u00e3o se misturar com pessoas erradas ou manchar a reputa\u00e7\u00e3o, e muito mais o <em>sangue<\/em> que possu\u00edam.<br>\u2003\u2003Lufadas de ar escapavam por entre suas narinas dilatadas, r\u00e1pidas, severas e c\u00e1lidas contra o l\u00e1bio superior retorcido, os dentes estavam \u00e0 mostra em um impulso mal contido repleto de c\u00f3lera, o grito, encurralado, preso na garganta. A irregularidade com a frequ\u00eancia de sua respira\u00e7\u00e3o evidenciava a intensidade de seu tormento; marchou assim, em dire\u00e7\u00e3o de onde, pudera identificar, vinha o chorinho.<br>\u2003\u2003Encontrou-o nos bra\u00e7os de sua esposa, como deveria. Pela primeira vez, todavia, desde seu \u00e1rduo nascimento meses atr\u00e1s, durante uma noite l\u00edmpida estrelada, Nigel %Gaunt% n\u00e3o sentiu <em>nada<\/em> pela crian\u00e7a que em tudo era a sua <em>pr\u00f3pria<\/em> imagem. A frieza h\u00e1 muito o corroeu, isso era fato, quando se casou com Ast\u00f3ria, o fizera porque precisava consolidar seu <em>status<\/em> socialmente, e seu pai jamais aceitaria, mesmo em morte, que ele se tornasse seu herdeiro sem ao menos ter se certificado de ter uma fam\u00edlia para que o futuro dos %Gaunt% fosse garantido. Tampouco importava-se com a mulher, desde que fosse submissa e obediente, Nigel tinha poucos problemas; Ast\u00f3ria era isso, e, certamente, muito bonita tamb\u00e9m, logo n\u00e3o hesitou em tom\u00e1-la para si. A disparidade de idade entre os dois acabou construindo n\u00e3o apenas um relacionamento, mas um ambiente desprovido de afei\u00e7\u00e3o, embora muitos viessem a dizer posteriormente que nem mesmo Ast\u00f3ria ou Nigel havia conhecido o significado da palavra. De certo modo, n\u00e3o sabia mesmo, mas houve um tempo que Nigel considerou-a como o mais pr\u00f3ximo do que era capaz de oferecer-lhe n\u00e3o apenas conforto, mas, igualmente, afeto. Seria equivocado, todavia, fingir que isso possu\u00eda alguma profundidade.<br>\u2003\u2003Assemelhava-se com um lago cristalino, a \u00e1gua t\u00e3o corrente e pr\u00f3xima ao ch\u00e3o que se transformava transparente. Era <em>essa<\/em> a profundidade de seus sentimentos pela esposa; n\u00e3o havia outras mulheres que chamavam sua aten\u00e7\u00e3o, tampouco poderia dizer-se que se importava em procurar algum parceiro por fora de seu casamento para cuidar de suas necessidades. A \u00fanica e verdadeira amante que Nigel sempre havia tido, e sempre teria, era sua pr\u00f3pria ambi\u00e7\u00e3o, seu desejo por poder e gl\u00f3ria para o nome de sua casa. Nigel era um <em>%Gaunt%<\/em>, e um <em>%Gaunt%<\/em> estava <em>destinado<\/em> a ser <em>grande<\/em> n\u00e3o importava a forma de seu nascimento. E era por isso que quando seu pequeno espelho foi expelido para fora do corpo da esposa, ousara ter, ainda que de maneira deturpada, <em>esperan\u00e7as<\/em>. Aquela pequena figurinha, de berros fortes e bracinhos gorduchos, t\u00e3o parecida consigo mesmo, esperneando-se em seus bra\u00e7os, havia, mesmo que por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, aquecido seu cora\u00e7\u00e3o g\u00e9lido, com a certeza de que o faria melhor do que Nigel era. O tornaria melhor e maior; um futuro promissor.<br>\u2003\u2003Nigel deveria ter amado o filho, mas seu amor era condicional, e desapareceu com a profecia. Seu \u00f3dio transbordou pelos olhos ao deparar com a express\u00e3o irritada e incomodada de Ast\u00f3ria. Viu-a encolher-se, tentando proteger o monstro que havia parido, e pedir-lhe para que n\u00e3o fizesse. Debulhou-se em l\u00e1grimas, e foi <em>ali<\/em> que Nigel percebeu a fraqueza com que permitiu-se unir, n\u00e3o era surpresa que a crian\u00e7a fosse ser um problema futuro.<br>\u2003\u2003Nigel %Gaunt% teria matado o filho naquela noite, mas <em>algo<\/em> o impediu.<br>\u2003\u2003N\u00e3o foi o chorinho sentido por ter sido tomado dos bra\u00e7os da m\u00e3e que pareceu o fazer hesitar, foi a <em>resposta<\/em> ao desconforto. O bebezinho, ainda jovem demais para compreender sua situa\u00e7\u00e3o, deveria ter sido movido pela frustra\u00e7\u00e3o, porque, ainda que suas gengivas fossem macias e desprovidas de quaisquer dentinhos, mordeu com toda sua for\u00e7a o dedo do pai. As m\u00e3ozinhas esmagando o membro como se pudesse estour\u00e1-lo. Nigel tivera o trabalho para arrancar da boca do menino, mas um pequeno plano come\u00e7ava a se formar por sua mente. Talvez ele n\u00e3o pudesse impedir a destrui\u00e7\u00e3o de sua casa, talvez aquela criatura fosse um monstro desde sua concep\u00e7\u00e3o que encontrara ref\u00fagio no ventre de sua esposa, n\u00e3o havia como saber, n\u00e3o havia igualmente como calcular o que <em>o futuro<\/em> iria revelar, mas certamente ele poderia <em>segurar<\/em> a coleira do monstro. Ent\u00e3o, Nigel entregou a crian\u00e7a com ordens expressas para os dois elfos dom\u00e9sticos para que estes o criassem.<br>\u2003\u2003O menino foi deixado aos cuidados dos elfos, dormia nos est\u00e1bulos, coberto por uma pequena e fr\u00e1gil manta de tecido pu\u00eddo que Kranky remendou. Em noites mais frias, Kranky e Fiende ajeitavam-se ao lado da crian\u00e7a para proteg\u00ea-la do frio com o calor de seus corpos. Nigel %Gaunt% tivera ainda mais tr\u00eas outros filhos depois de %Atlas%: %Scorpius%, g\u00eameo franzino e fr\u00e1gil de %Atlas%, Astra e Celeste, embora as duas meninas mais novas n\u00e3o fossem relevantes para o pai. Tomou ent\u00e3o %Scorpius% como seu projeto pessoal de herdeiro. Enquanto %Atlas% crescera largado pelos cantos da casa, usando-se de sua pr\u00f3pria crueldade para ganhar um resqu\u00edcio de aten\u00e7\u00e3o dos pais que os rejeitaram, %Scorpius% cresceu com o peso da aten\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel do pai e da responsabilidade de ser o que lhe fora comandado, o herdeiro da Casa dos %Gaunt%, e, acima de tudo, a melhor vers\u00e3o que Nigel %Gaunt% jamais poderia vir a ser.<br>\u2003\u2003Mas %Scorpius% n\u00e3o era como o pai; ele era como a <em>m\u00e3e<\/em>. Ou o fantasma do que Ast\u00f3ria um dia havia sido, antes de ser for\u00e7ada a casar com Nigel \u2014 era uma crian\u00e7a doce, gentil, de cora\u00e7\u00e3o facilmente partido. Diferia-se entre os irm\u00e3os como um dedo podre, se acaso %Atlas% tomava a iniciativa de atormentar uma pobre criatura apenas para dar risada de seu sofrimento, %Scorpius% ficaria para tr\u00e1s, tomaria a criaturinha ferida em suas m\u00e3os, e o levaria at\u00e9 o por\u00e3o da casa, onde cuidaria do animalzinho \u2014 deparou-se por vezes, com tentativas que resultaram apenas na morte das mesmas, e a culpa, mesmo em tenra idade, tornou-se uma grande companheira. O garoto melanc\u00f3lico escondia-se entre os c\u00f4modos, evitava as festas para as fam\u00edlias poderosas de bruxos que acompanhavam o pai, e as reuni\u00f5es de Conselhos Secretos. Preferia esconder-se na biblioteca, abaixo das mesas, e \u00e0s vezes, raramente, fazia companhia para %Atlas%.<br>\u2003\u2003%Atlas% era uma criatura esquisita, era cruel e violenta, e \u00e0s vezes atormentava criaturas mais fracas e fr\u00e1geis apenas pelo prazer e o poder de o fazer. Arrancou as asas de um grupo de fadinhas que viviam na floresta uma vez, apenas para obrig\u00e1-las a andar, e ver quanto tempo levava at\u00e9 que come\u00e7assem a chorar. Jogava pedras em dois <em>Amassos<\/em> que pertenciam ao vizinho carrancudo do casar\u00e3o que viviam, at\u00e9 que um deles se tornasse t\u00e3o arisco que acabou perdendo-se na floresta. E em certa vez, revelou a %Scorpius% que conseguiu ver os <em>Testr\u00e1lios<\/em> nos est\u00e1bulos do pai, era por isso que cuidava deles \u2014 mesmo que colocasse sal a mais em suas comidas para incomod\u00e1-los. %Scorpius% percebeu, em algum momento, algo curioso, embora a fachada que %Atlas% apresentava fosse, de fato, a de uma crueldade intr\u00ednseca quase inquestion\u00e1vel, havia in\u00fameras cicatrizes espalhadas por seu corpo, talvez at\u00e9 mesmo em sua alma, a ponta de seu dedo anelar esquerdo era bem menor que os outros \u2014 algo, ou algu\u00e9m, parecia t\u00ea-lo <em>arrancado<\/em> \u2014, e %Atlas% tinha um olhar triste. Mesmo que n\u00e3o gostasse da crueldade do irm\u00e3o, %Scorpius% n\u00e3o p\u00f4de deixar de se questionar se, de fato, n\u00e3o era a aus\u00eancia de um amigo que o tornava assim, ent\u00e3o o menino fez de sua miss\u00e3o pessoal tentar conectar-se com o irm\u00e3o g\u00eameo, e por um tempo, at\u00e9 conseguiu. At\u00e9 o dia que %Atlas% o desafiou a torturar um casal de trouxas.<br>\u2003\u2003Escaparam em meio a madrugada, a fam\u00edlia j\u00e1 h\u00e1 muito colocou-se a dormir, com exce\u00e7\u00e3o dos pais que estavam sempre envoltos por uma grossa camada de discuss\u00f5es sussurradas e acusa\u00e7\u00f5es agressivas. N\u00e3o perceberam quando os meninos se espreitaram pelos corredores e correram para os est\u00e1bulos. Foi %Atlas% quem ofereceu-se para levar a culpa caso fossem pegos, e %Scorpius%, por um momento, havia acreditado que o irm\u00e3o g\u00eameo havia sido sincero em suas palavras, havia acreditado que iriam apenas aprontar uma pe\u00e7a em <em>Hogsmeade<\/em>, logo, que mal teria? Mas o que diferenciava as travessuras de %Scorpius% e %Atlas% era simples: o <em>alvo<\/em>.<br>\u2003\u2003%Scorpius% gostava de pregar pe\u00e7as nas irm\u00e3s mais novas, ouvi-las gritar de medo ou xing\u00e1-lo o fazia rir por horas a fio. Observar a m\u00e3e chiar entre dentes e mand\u00e1-lo buscar alguma outra coisa para fazer acabava por aquecer seu cora\u00e7\u00e3o por horas a fio at\u00e9 que ele se arrependesse da atitude e trouxesse alguma das frutas que sabia que suas irm\u00e3zinhas gostavam. N\u00e3o entregaria a elas diretamente, deixaria em um pratinho, devidamente cortadas com a ajuda de Fiende e sem as cascas, com um pouco de mel no canto, ele iria deixar \u00e0 porta delas, chutar a madeira e sair em disparada para se esconder \u2014 que os c\u00e9us proibissem que elas <em>sequer<\/em> pensassem que %Scorpius% gostava delas, e que sua inven\u00e7\u00e3o de que elas haviam sido deixadas em cestas na frente da casa era mentira. Para %Atlas%, pregar uma pe\u00e7a sempre acabava com algu\u00e9m<em> sangrando<\/em>.<br>\u2003\u2003E naquela noite n\u00e3o havia sido diferente. Quando <em>Crucio<\/em> foi expelido pela boca de %Atlas%, que andava a investigar as magias que o pai e seus amigos debatiam e discutiam utilidades, algo se partiu entre os irm\u00e3os. N\u00e3o foi uma quebra \u2014 ao menos, n\u00e3o imediatamente \u2014, mas foi o suficiente para que uma fissura come\u00e7asse a surgir entre a liga\u00e7\u00e3o dos dois. Algo se alterou na mente de %Scorpius% que nunca havia ouvido tamanho desespero escapar da boca de trouxas, que nunca os havia visto debater-se com tamanha dor at\u00e9 que simplesmente pararam de mover-se. Mas havia sido o sorriso que surgiu nos l\u00e1bios de %Atlas% que mais o apavorou \u2014 vagaroso, lentamente revelando-se como se uma m\u00e1scara tivesse sido puxada para fora de seu rosto. Pela primeira vez em muito tempo, %Scorpius% temeu o irm\u00e3o g\u00eameo, e a crueldade que havia sido instaurada dentro de si.<br>\u2003\u2003Quando um dos trouxas havia parado de gritar, aparentemente a viol\u00eancia da dor que lhe era infligida foi o suficiente para sobrecarreg\u00e1-lo e faz\u00ea-lo encontrar sua pr\u00f3pria morte mais r\u00e1pido e inegavelmente, %Scorpius% n\u00e3o conseguiu conter-se, avan\u00e7ou na dire\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o g\u00eameo. Lan\u00e7ou-se de surpresa, usando toda sua for\u00e7a para derrub\u00e1-lo contra o ch\u00e3o. O que era uma risada, transformou-se em uma briga descoordenada de socos, chutes e gritos entrecortados de duas crian\u00e7as rolando pela lama. Morderam-se e debateram-se, l\u00e1grimas grossas escorreram dos olhos de %Scorpius%, manchando as bochechas p\u00e1lidas, o tremor cresceu dentro de si como um pulsar sufocante, enquanto f\u00faria, em seu intr\u00ednseco \u00e2mago, explodia por tr\u00e1s dos olhos de %Atlas%, que, tal qual um animal selvagem atacado, viu vermelho.<br>\u2003\u2003A briga somente acabou quando Kranky e Fiende, enviados por Ast\u00f3ria, os localizou e os separou usando sua magia. Foram carregados de volta para a casa pelos elfos dom\u00e9sticos com um sil\u00eancio sufocante estendendo-se sobre seus ombros. O ressentimento no olhar de %Scorpius% era palp\u00e1vel, quase t\u00e3o tang\u00edvel quanto sua pele ou o tecido arruinado pelas m\u00e3os do g\u00eameo e a lama que os envolviam. %Scorpius% havia levado a pior, \u00e9 claro, um galo na cabe\u00e7a, um olho roxo inchado, um l\u00e1bio cortado, mas o olhar de %Atlas% parecia <em>pior<\/em>; ressentido, irritado, como se a pequena amizade que os dois meninos haviam desenvolvido ao longo de sua inf\u00e2ncia tivesse ido por \u00e1gua abaixo no segundo que %Scorpius% reagiu. %Scorpius% n\u00e3o se encrencou, o pai, ainda que severo, conhecia a natureza do filho, e sabia que ele era <em>fraco<\/em>.<br>\u2003\u2003Palavras duras foram ditas; palavras que n\u00e3o poderiam mais ser retiradas. E havia uma estranha aprova\u00e7\u00e3o pairando pelos olhos de Nigel %Gaunt% quando voltou seu rosto severo para %Atlas%. Talvez tenha sido isso que cimentara a putrefa\u00e7\u00e3o do primog\u00eanito. Foi que, naquele pequeno instante de sil\u00eancio que se estendeu entre o homem e o menino, houvera um reconhecimento, um <em>reconhecimento positivo<\/em>. Foi o que bastou. Naquela noite, igualmente, %Scorpius% descobriu <em>quem<\/em> havia sido o respons\u00e1vel pelas cicatrizes no corpo de %Atlas%.<br>\u2003\u2003Quando mais se formaram ao longo da pele p\u00e1lida de suas costas, %Scorpius% viu o <em>cinto<\/em> do pai, acertando a pele do irm\u00e3o com viol\u00eancia, criando verg\u00f5es vermelhos, e cortes profundos na pele, mas %Atlas% n\u00e3o dizia nada, sequer um ru\u00eddo soltava. Como se em seu sil\u00eancio petulante recusava-se a dar a satisfa\u00e7\u00e3o de seu grito ao mais velho. %Scorpius% esperou pelo momento que o irm\u00e3o g\u00eameo iria explodir, o momento em que, em meio aos gritos de sua pr\u00f3pria loucura e crueldade, avan\u00e7aria no pai e lhe tomaria o cinto, %Scorpius% <em>sabia<\/em> que %Atlas% provavelmente fantasiava com isso, mas se %Atlas% era o que era, ent\u00e3o, talvez, a culpa fosse de <em>seu<\/em> pai, por torn\u00e1-lo aquilo. A imagem acompanhou-o como um fantasma vagante, assombrou-o por um momento, na solid\u00e3o de seu pr\u00f3prio quarto, mas ent\u00e3o, entre solu\u00e7os abafados, dedos agarrados \u00e0s mechas p\u00e1lidas de seus cabelos, e a culpa sufocante que o fizera encarar por um longo tempo o <em>ati\u00e7ador<\/em> da lareira e sua ponta <em>avermelhada<\/em> pelo fogo que o envolvia, %Scorpius% foi acompanhado pelos gritos de desespero dos dois trouxas que %Atlas% torturou aquela noite, pelo gorgolejo do sangue que escorria pela boca de um, e pela respira\u00e7\u00e3o falha acompanhada de engasgo que o outro soltara quando seu cora\u00e7\u00e3o explodiu dentro do peito tamanha dor deveria estar sentindo. Foi <em>ali<\/em> que %Scorpius% percebeu que, porventura, %Atlas% <em>merecia<\/em> tal tratamento do pai.<br>\u2003\u2003Selvagem como era, %Atlas% n\u00e3o passava de um monstro, uma criatura maldita que merecia adestramento e uma morda\u00e7a. Que abaixar a cabe\u00e7a cabia-lhe tal como um animal selvagem, malcriado. Que deveria ser mantido no por\u00e3o da casa, trancado e que aquele que possu\u00edsse a chave o esquecesse. Poderia sentir a dor do irm\u00e3o g\u00eameo como sua, mas n\u00e3o havia como negar que, no fim das contas: %<em>Atlas% %Gaunt% n\u00e3o possu\u00eda uma alma<\/em>.<br>\u2003\u2003Quando os g\u00eameos completaram 11 anos, %Atlas% foi autorizado a retornar a viver no casar\u00e3o dos %Gaunt%. O pai fez acomoda\u00e7\u00f5es, indagou suas prefer\u00eancias e o menino pediu apenas por uma janela, sem ter ideia do que era a mordomia que os outros irm\u00e3os recebiam. Um tratamento estrito e severo o tornou surpreendentemente civilizado, o suficiente para que fosse visto como um bom representante da fam\u00edlia %Gaunt% antes de ser preparado para seu primeiro ano em <em>Hogwarts<\/em>. Fora dos corredores largos e obscuros do casar\u00e3o, e longe dos olhos severos do pai, %Atlas% era um monstro \u00e0 deriva, caminhando por entre os colegas de sala como um predador, encantador o suficiente para atrair e fazer amigos, cruel o suficiente para tirar de seu caminho qualquer pobre coitado que interviesse sem que lhe fosse chamada a aten\u00e7\u00e3o de imediato. Inteligente o suficiente para ocultar seus passos para que a neglig\u00eancia do Diretor Black n\u00e3o lhe atra\u00edsse resposta imediata.<br>\u2003\u2003N\u00e3o houve surpresa que ambos os g\u00eameos fossem selecionados para a <em>Sonserina<\/em>, por motivos particulares e tradi\u00e7\u00e3o, a surpresa se deu a escolha de %Scorpius%, que recusou-se a dividir um mesmo quarto com %Atlas% e os dois amigos que havia feito de imediato \u2014 Moriarty Grimstone e Dorian Buchanan \u2014, optando por ocupar os aposentos mais afastados das masmorras, quase um <em>dep\u00f3sito<\/em> de tralhas, a ter que conviver mais do que o necess\u00e1rio com o irm\u00e3o g\u00eameo. E por um tempo, tudo pareceu ficar bem. A viol\u00eancia de %Atlas% parecia ter-se tornado meramente uma crueldade enviesada, satisfat\u00f3ria apenas na a\u00e7\u00e3o de suas palavras, quando n\u00e3o muito, alguma humilha\u00e7\u00e3o significativa que faria outra crian\u00e7a solu\u00e7ar em um canto escuro.<br>\u2003\u2003Foi somente no <em>quinto<\/em> ano dos g\u00eameos em Hogwarts que as coisas mudaram. Uma estudante de interc\u00e2mbio atravessou os port\u00f5es de Hogwarts causando certo burburinho. Era acompanhada pelo renomado professor de <em>Po\u00e7\u00f5es<\/em>, outrora <em>Auror<\/em>, Aesop Sharp. Taciturno e com uma intelig\u00eancia afiada, a figura do homem contrastava com a da jovem como polaridades diferentes: a pele p\u00e1lida envelhecida de Sharp era envolta por um cabelo escuro e longo, na altura de seus ombros, mas era a <em>cicatriz<\/em> que atravessava seu rosto, da lateral esquerda da mand\u00edbula ao centro esquerdo de sua testa, que tornava-o mais severo e ap\u00e1tico do que talvez tenha vindo ser. J\u00e1 a jovem, era visivelmente estrangeira, contava-se que uma <em>brasileira<\/em> de algum lugar entre S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. Irrevogavelmente bonita, a pele parecia macia sob o toque, os cabelos volumosos formavam-se em duas tran\u00e7as que se uniam abaixo de sua nuca, transformando-se em um rabo de cavalo baixo, preso com la\u00e7o de fita lil\u00e1s, firme, embora alguns cachos pendessem a frente de seu rosto, emoldurando-o. Olhos marcantes e afiados pareciam ser levemente repuxados nos cantos, e os l\u00e1bios pareciam repuxar-se para baixo, em uma carranca de poucos amigos. Luvas de renda branca envolviam suas m\u00e3os, enquanto o uniforme de Hogwarts destacava-se contra seu tom de pele mais quente. A saia parecia ter sido um pouco mais encurtada, para o choque de algumas professoras da escola, mas levando em considera\u00e7\u00e3o o qu\u00e3o r\u00e1pido caminhava, n\u00e3o era surpresa que ela tivesse adaptado a pr\u00f3pria saia para mover-se mais r\u00e1pido.<br>\u2003\u2003Chamavam-na de %Luana% %Monteiro%. Apenas <em>%Lua%<\/em> \u2014 como o sat\u00e9lite que girava ao redor da Terra, em sua l\u00edngua materna.<br>\u2003\u2003Botas desgastadas de couro curtido chapinhavam as po\u00e7as que se acumulavam entre as pedras do castelo, ao usar um jornal do dia anterior para proteger-se da chuva. Especula\u00e7\u00f5es acompanhavam-na como uma sombra, mas duas delas destacavam-se: contava-se que o pai da jovem fora condenado pelo Minist\u00e9rio da Magia ap\u00f3s tentar <em>ressuscitar<\/em> a esposa morta, m\u00e3e de %Luana%, usando magia das trevas. Enlouquecido por seu luto, fora enviado para a <em>Ilha da Queimada Grande<\/em>, igualmente conhecida por <em>Ilha das Cobras<\/em>, e de l\u00e1, transferido para <em>Azkaban<\/em>. O renomado pesquisador de <em>Defesa Contra as Trevas<\/em>, Virgulino %Monteiro%, entrara com um pedido para que o velho colega de pesquisa e amigo de longa data, Aesop Sharp, se tornasse o tutor da filha, enquanto seu julgamento arrastava-se com lam\u00faria.<br>\u2003\u2003Assim o fez, foi o que disseram. J\u00e1 outros, um tanto mais desconfiados, gostavam de dizer que Virgulino %Monteiro%, outrora fora conhecido como Leon Van Der Leyen: um trai\u00e7oeiro, por\u00e9m habilidoso <em>Bruxo das Trevas<\/em> que aliara-se a um grupo de <em>errantes<\/em> buscando n\u00e3o apenas mais poder, mas <em>Magia Ancestral<\/em>. Este Bruxo das Trevas havia sido capturado ainda em sua juventude, e aprisionado em Azkaban, de alguma forma, em algum momento, conseguiu escapar e desapareceu em uma balsa para o Brasil. L\u00e1, assentou-se com uma jovem n\u00e3o-m\u00e1gica, com quem tivera cinco filhos, destes cinco, apenas <em>uma<\/em> havia sobrevivido ao nascimento: %Luana%. Diziam que ele havia sido capturado novamente pelos <em>Dementadores<\/em> em uma for\u00e7a tarefa do Minist\u00e9rio da Magia Brit\u00e2nico e Brasileiro, e mandado de volta para Azkaban sem hesita\u00e7\u00e3o. Alguns <em>ainda<\/em> especulavam que Virgulino %Monteiro% \u2014 ou Leon Van Der Leyen \u2014 havia feito <em>diversos<\/em> experimentos em seus filhos, por isso todos esses, com exce\u00e7\u00e3o de %Luana%, haviam morrido durante ou antes do parto.<br>\u2003\u2003Seja qual fosse a verdade sobre a natureza dos pais de %Luana% %Monteiro% e a motiva\u00e7\u00e3o para que ela tivesse sido transferida de <em>CasteloBruxo <\/em>para Hogwarts, uma coisa era <em>certa<\/em>: ela n\u00e3o era uma bruxa <em>puro sangue<\/em>. E para a m\u00e1 sorte da estrangeira, realocada na casa da <em>Sonserina<\/em>, destacando-se como um dedo podre em uma m\u00e3o perfeitamente saud\u00e1vel, ela atraiu a aten\u00e7\u00e3o da <em>\u00faltima<\/em> pessoa que deveria ter atra\u00eddo: <em>%Atlas% %Gaunt%<\/em>.<br>\u2003\u2003Inicialmente ele n\u00e3o havia feito nada, apenas a observou de longe com um olhar intenso, capaz de atravessar as paredes de pedra em tamanho escrut\u00ednio. Tinha uma express\u00e3o dif\u00edcil de ser lida, mas certamente n\u00e3o ocultava o desprezo, o desgosto pessoal e a irrita\u00e7\u00e3o a cada vez que ela respondia alguma pergunta certa, a cada vez que ouvia o som de sua voz carregado com aquele sotaque insuport\u00e1vel brasileiro. Normalmente %Atlas% n\u00e3o atacaria algu\u00e9m da Sonserina. Ele poderia ser um monstro, ele poderia ter se tornado conhecido por ser a <em>V\u00edbora<\/em> da casa verde e prateada, mas n\u00e3o era desprovido de sua pr\u00f3pria vers\u00e3o pessoal de \u00e9tica: jamais usava de seus pr\u00f3prios artif\u00edcios contra aqueles que conviviam com <em>ele<\/em>. Usava as cores de sua casa com orgulho, e mesmo que desprezasse abertamente <em>nascidos trouxas<\/em> \u2014 para a satisfa\u00e7\u00e3o pessoal de Nigel %Gaunt% \u2014, %Atlas%, igualmente, n\u00e3o era gentil com <em>bruxos sangue puro<\/em>. Seu c\u00f3digo pessoal de honra era simples: ele odiava a <em>todos<\/em> sem exce\u00e7\u00e3o. E se voc\u00ea fosse est\u00fapido o suficiente para desafi\u00e1-lo, ent\u00e3o ele se tornaria seu <em>pior<\/em> inimigo.<br>\u2003\u2003%Atlas% n\u00e3o se importava com nomenclaturas, com especifica\u00e7\u00f5es e muito menos a ideia <em>rid\u00edcula<\/em> de que um poderia ser superior ao outro: ele se importava com a <em>dor<\/em>. Com a dor que ele poderia <em>causar<\/em> em outro. Mas certa noite, durante o jantar, %Atlas% viu %Luana% %Monteiro% sentar-se \u00e0 frente de %Scorpius%; n\u00e3o foi a escolha dela de onde sentar-se que o incomodou, foi a maneira com que, pela primeira vez em <em>muito<\/em> tempo, %Scorpius% pareceu mais interessado na presen\u00e7a de outra pessoa que n\u00e3o fosse <em>seu livro<\/em>. O irm\u00e3o havia se tornado um recluso desde que come\u00e7aram seus anos em Hogwarts, ainda que tivesse amigos leais, um Lufano de ideias est\u00fapidas e fur\u00e3o branco sempre enroscado nos cabelos ou no pesco\u00e7o chamado Horatio Lovegood, e uma Corvina chamada apenas de Amelie Davenport, %Atlas% havia feito quest\u00e3o de coloc\u00e1-los em seus lugares por tempo o suficiente para que %Scorpius% n\u00e3o se incomodasse de sentar ao lado deles, ou conversar com os mesmos quando estava por perto. Evitavam-no como se %Scorpius% %Gaunt% fosse um veneno em a\u00e7\u00e3o tardia, temiam aproximar-se de %Scorpius% por causa de <em>%Atlas%<\/em>, e havia uma sensa\u00e7\u00e3o sombria de poder que se enredava pela mente de %Atlas%. Uma satisfa\u00e7\u00e3o de observar o garoto de ouro de seu pai tornar-se um desajustado, um rejeitado enquanto sua casa parecia ao menos respeit\u00e1-lo com certa defer\u00eancia \u2014 mesmo que fosse baseada em <em>medo<\/em>.<br>\u2003\u2003Mas %Luana% %Monteiro% era uma <em>praga<\/em> que se esgueirava por entre as catacumbas do castelo, enredando-se mais e mais na vida de %Scorpius%, e %Atlas% tomou como um trabalho pessoal para si mesmo <em>destruir<\/em> a jovem. N\u00e3o era que %Atlas% tivesse ficado obcecado em atormentar a jovem brasileira; era que ela <em>respondia<\/em> suas provoca\u00e7\u00f5es \u00e0 altura<em>.<\/em><br>\u2003\u2003Iniciou-se de forma branda, coment\u00e1rios enviesados, rumores relacionados a sua postura arrogante e desdenhosa, at\u00e9 mesmo sobre as condi\u00e7\u00f5es de seus pais, sobre a inutilidade de sua presen\u00e7a para a Casa, e como ela era uma mancha que a Sonserina deveria <em>expulsar<\/em> antes que se tornasse pior. Uma doen\u00e7a que %Atlas% parecia ser o \u00fanico a enxergar tal amea\u00e7a. Mas ent\u00e3o os coment\u00e1rios se tornaram mais agressivos, mesmo que ela simplesmente os ignorasse com um olhar petulante, de desafio \u2014 era como se ela estivesse tentando convir silenciosamente que <em>ele<\/em> era exatamente o que dizia, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, e se isto n\u00e3o alimentou as chamas de seu \u00f3dio crescente, certamente, havia machucado em demasia o ego do primog\u00eanito %Gaunt%. Ent\u00e3o, em uma certa manh\u00e3 de inverno, %Atlas% fez um coment\u00e1rio particularmente cruel sobre ela ser apenas uma estrangeira qualquer que n\u00e3o passava de uma inutilidade e um projeto de laborat\u00f3rio de um maluco, sequer deveria ser vista como um potencial para casa quando animais teriam mais valor; ele havia <em>desejado<\/em> atingi-la de tal forma. Ele havia se sentido particularmente satisfeito quando os olhos dela se arregalaram e o queixo se contraiu com um pequeno tremor, ele havia gostado de <em>ver<\/em> como ela havia lutado contra as l\u00e1grimas que se acumularam ao redor de seus olhos, recusando-se a deix\u00e1-las cair, embora ela as tivesse sentindo como a ponta afiada de uma navalha atravessando-lhe o corpo.<br>\u2003\u2003%Atlas% tinha certeza de que havia ganhado aquela guerra fria. Tivera certeza que depois dessas palavras, ela n\u00e3o iria mais esgueirar-se por entre os corredores para acompanhar %Scorpius%, que n\u00e3o riria de suas piadas, e nem mesmo iria se voluntariar a estudar ou fazer quaisquer projetos juntos com o irm\u00e3o g\u00eameo dele. Tinha certeza de que %Scorpius% permaneceria isolado, condenado por sua pr\u00f3pria fraqueza, e a praga que %Monteiro% havia se tornado, os espinhos que se enroscavam em sua pele e lhe cortavam apenas por <em>existir<\/em> viria a desaparecer. Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu. Em frente a seus amigos, e ao restante de sua casa, %Luana% encontrou dentro de si coragem o suficiente para cham\u00e1-lo de <em>\u201cParasita covarde\u201d<\/em> e, n\u00e3o satisfeita, atingiu-lhe em cheio um soco que reverberou pelo osso de sua face. A dor foi imediata e explodiu por tr\u00e1s de seus olhos, o grunhido que escapou por entre seus l\u00e1bios foi acompanhado por um filete de sangue de quando seus dentes atingiram a pele macia de seus pr\u00f3prios l\u00e1bios, cortando-os. %Atlas% grunhiu, cambaleando para tr\u00e1s, voltando seu olhar na dire\u00e7\u00e3o da jovem estrangeira com uma mistura de emo\u00e7\u00f5es gritantes.<br>\u2003\u2003N\u00e3o soube dizer o que sentiu naquele momento, mas n\u00e3o poderia negar que n\u00e3o havia considerado pela primeira vez <em>destru\u00ed-la<\/em>. Por alguns minutos ele apenas a encarou, estupefato, mas ent\u00e3o, <em>%Scorpius%<\/em> bufou, um riso disfar\u00e7ado de desdenho que corroeu suas veias como veneno. Os olhos dos dois g\u00eameos encontraram-se, e foi ali que %Atlas% fizera a promessa a si mesmo que n\u00e3o importava o que <em>ele<\/em> tivesse que fazer, ele iria <em>destruir<\/em> %Luana%. Porque se o conseguisse fazer, ent\u00e3o destruiria %Scorpius% junto.<br>\u2003\u2003Dizer que a raiva o cegou seria uma compara\u00e7\u00e3o emp\u00edrica e repleta de lacunas; %Atlas% estava completamente <em>transtornado<\/em>, o estado col\u00e9rico o fez ver <em>vermelho<\/em>. Amorteceu sua realidade e diluiu quaisquer outros epicentros de sua crueldade para aquele <em>\u00fanico<\/em> ponto: <em>%Luana% %Monteiro%<\/em>. Pelos meses que se seguiram, as agress\u00f5es agressivas come\u00e7aram a aumentar. Tornaram-se mais diretas, mais expl\u00edcitas, menos calculadas. N\u00e3o importava se o fazia mesmo em frente a um professor, tudo o que importava era ter a <em>certeza<\/em> de que %Luana% estaria destru\u00edda ao final do dia. Mas <em>este<\/em> era o problema; t\u00e3o teimosa quanto, n\u00e3o importava o <em>quanto<\/em> ele tentasse reduzi-la a fragmentos de si, ela ficava <em>pior<\/em>. Mais determinada, mais agressiva. Era como se ele estivesse lutando contra um espelho de si mesmo, e embora isso lhe cobrasse o ju\u00edzo, em algum momento, encontrou tamb\u00e9m um prazer <em>m\u00f3rbido<\/em> e deturpado com as cont\u00ednuas tentativas de destru\u00ed-la. Tanto que passou a ficar mais e mais descuidado, at\u00e9 que, um dia, aconteceu.<br>\u2003\u2003Na \u00e9poca, %Atlas% havia sido selecionado por Professor Fig para compartilhar da turma seleta de alunos em que ensinaria a arte do <em>Animagus<\/em>. Embora fosse cruel, e talvez, monstruoso demais para que fizesse mesmo os alunos mais velhos de Hogwarts desviaram seus olhares e baixaram o tom de suas vozes com receio, %Atlas% <em>ainda<\/em> era um <em>excelente<\/em> aluno, especialmente se isso significava ofuscar %Luana% %Monteiro% em seu <em>habitat natural<\/em>. Aprendera o feiti\u00e7o, e percebeu com uma ponta de satisfa\u00e7\u00e3o de que podia transformar-se em uma <em>Mamba Negra<\/em>. Foi a vantagem que precisava para <em>finalmente<\/em> enviar a maldita estudante de volta para sua terra miser\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Naquela noite, esgueirando-se por entre as paredes e buracos dos calabou\u00e7os at\u00e9 que tivesse a encurralado entre o fundo dos corredores dos calabou\u00e7os do castelo, %Atlas%, t\u00e3o focado em finalmente conseguir faz\u00ea-la pagar pelas cicatrizes em seu ego, n\u00e3o percebeu que a jovem talvez tivesse um interesse em particular para estar ali. Talvez a jovem Sonserina possu\u00edsse seus pr\u00f3prios interesses e n\u00e3o tivesse abaixado sua cabe\u00e7a enquanto n\u00e3o o localizasse. Talvez, os terrores noturnos que possu\u00eda simplesmente n\u00e3o a tivessem deixado dormir. Seja o que for, cego por seus pr\u00f3prios desejos e f\u00farias mal controladas, o tormento dos %Gaunt% a localizou, e n\u00e3o tardou a encurralar a jovem.<br>\u2003\u2003Nunca se soube o que aconteceu naquela noite de fato, se n\u00e3o os dois. As hist\u00f3rias divergem-se em demasia, contadas por in\u00fameras bocas que ouviram relatos dos fantasmas, dos elfos dom\u00e9sticos ou at\u00e9 mesmo de professores a fim de encerrar discuss\u00f5es. Tudo o que se sabe, \u00e9 que Professor Fig e a Vice-diretora Weasley encontraram %Luana% \u00e0 beira da morte, deitada sobre o pr\u00f3prio sangue, desacordada, e com marcas de corte por toda a pele, e um %Atlas% %Gaunt% coberto pelo sangue da jovem, com olhos arregalados ferais e hiperventilando. N\u00e3o foi preciso muito para <em>compreender<\/em> exatamente o que havia acontecido.<br>\u2003\u2003Atacar um colega era digno de expuls\u00e3o. Talvez, um destino at\u00e9 <em>pior<\/em>. Mas para a sorte de %Atlas% %Gaunt%, o Diretor de Hogwarts <em>ainda<\/em> era Phineas Black, um antigo amigo pessoal da fam\u00edlia %Gaunt%, e especialmente de Nigel. Quando o rapaz adentrou na sala do Diretor naquela noite, conta-se que estava sorrindo como uma fera sem r\u00e9deas. Iluminado pelas chamas tremeluzentes das velas, a colora\u00e7\u00e3o amarelada da luz acentuava o sangue que carregava em suas m\u00e3os. Contou-se posteriormente que %Atlas% n\u00e3o estava arrependido, e que, o pai, Nigel, tivera que oferecer muito dinheiro e favores ao Diretor para que ele fosse mantido na escola. Como um acordo feito diretamente com o tutor de %Luana%, Sharp exigiu ao menos que %Atlas% reconhecesse o problema que havia se tornado e que tivesse severas li\u00e7\u00f5es para ajustar seu comportamento naquela escola. Como puni\u00e7\u00e3o, Nigel %Gaunt% decidiu que o filho seria enviado para <em>Durmstrang<\/em> imediatamente, e l\u00e1 passaria um ano inteiro, sob o r\u00edgido regime militar da escola de magia, ante a supervis\u00e3o do frio e severo Dragomir Lazar, %Atlas% %Gaunt% ficaria isolado e ali permaneceria at\u00e9 que seu comportamento fosse exemplar. Tamanho erro cometeram e sequer perceberam.<br>\u2003\u2003No outro dia, ao preparar-se para embarcar na nau que o levaria at\u00e9 as terras fr\u00edgidas de Durmstrang, %Atlas% estava diferente, agora tinha uma cicatriz grotesca atravessando a lateral direita de seu rosto, lhe cortava a pele fundo, desfigurava-o, da altura de sua ma\u00e7\u00e3 do rosto ao centro da testa, cegando seu olho direito permanentemente. Outra cicatriz se projetava abaixo de seu queixo, da lateral esquerda de sua mand\u00edbula bem pronunciada, ao canto do l\u00e1bio inferior esquerdo. N\u00e3o disse nada. N\u00e3o se despediu de ningu\u00e9m, n\u00e3o esperou que ningu\u00e9m viesse <em>falar<\/em> com ele, mas n\u00e3o se surpreendeu por deparar-se com %Scorpius% ali, esperando-o.<br>\u2003\u2003Sobrancelhas unidas em uma carranca defensiva, olhos tempestuosos, atormentados pelas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es. %Atlas% parou \u00e0 sua frente sem conseguir conter um sorriso torto de espalhar-se por seu rosto desfigurado, sentindo a press\u00e3o da dor dos pontos nos ferimentos latejar como brasas sobre sua pele, mas n\u00e3o parou. Observou o rosto do irm\u00e3o g\u00eameo com desprezo, t\u00e3o pr\u00f3ximo de si como um reflexo, mas sem d\u00favidas, o espelho da pr\u00f3pria m\u00e3e dos dois. N\u00e3o hesitou em proferir palavras que <em>sabia<\/em> que iria cortar o g\u00eameo, n\u00e3o hesitou em explicitar seu desprezo pelo qu\u00e3o fraco e <em>pat\u00e9tico<\/em> %Scorpius% era, e soltou um riso afiado, como uma navalha quando o g\u00eameo, cedendo ao pr\u00f3prio temperamento, agarrou-lhe pelo colarinho, ficando a cent\u00edmetros de seu rosto, bufando como um boi enfurecido. Os dentes trincados expostos em uma careta com a promessa de viol\u00eancia velada. Mas %Atlas% o conhecia <em>bem<\/em> demais para saber que aquilo n\u00e3o passava de apenas mais um de seus latidos.<br>\u2003\u2003\u2014 A pr\u00f3xima vez que tocar em algu\u00e9m que amo, serei <em>eu<\/em> quem ir\u00e1 resolver com voc\u00ea \u2014 havia rosnado %Scorpius% com um tom de f\u00faria visceral que distorcia sua voz, mal o fazia compreensivo.<br>\u2003\u2003Algo sombrio pareceu pairar pela express\u00e3o de %Atlas%, talvez a surpresa pelas palavras do irm\u00e3o, ou a f\u00faria que acompanhava a trai\u00e7\u00e3o de seu sangue contra si mesmo. <em>Outra vez<\/em>. A fraqueza que havia tornado o g\u00eameo naquela criatura pat\u00e9tica que seus pais <em>sempre<\/em> insistiram em proteger.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou mat\u00e1-lo, e n\u00e3o vou me arrepender nem um segundo disso! \u2014 amea\u00e7ou %Scorpius%, os olhos queimando seu rosto, mas tudo o que %Atlas% conseguiu fazer foi rir. Um ru\u00eddo frio, desprovido de alma ou pesar, um desafio velado em seus olhos, ao empurrar o g\u00eameo para longe de si.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o vai. \u2014 E a certeza em sua voz apenas transpareceu na express\u00e3o do g\u00eameo gentil, fazendo a careta de %Atlas% aumentar com o sorriso afiado. %Scorpius% <em>sempre<\/em> seria uma criatura fraca, n\u00e3o importava o <em>quanto<\/em> tentasse provar que n\u00e3o era.<br>\u2003\u2003Empurrou o ombro do g\u00eameo para fora do caminho quando atravessou o p\u00eder em dire\u00e7\u00e3o ao navio, sem gastar mais um olhar para tr\u00e1s, mesmo que pudesse sentir o peso do ressentimento de %Scorpius% em suas costas. Bom, muito bom, que ele o odiasse, faria com que tudo fosse mais simples, mais r\u00e1pido. Caminhou pela proa, sem permitir-se intimidar com o semblante austero de Lazar e seu assistente ao qual o nome n\u00e3o recebera de imediato. Entregou a mala para o assistente de Lazar antes de apoiar os bra\u00e7os contra a balaustrada de madeira escura esculpida, lan\u00e7ando um \u00faltimo olhar para o lugar que se tornara um inferno. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, considerou jamais retornar para aquele lugar outra vez, mas quando Dragomir o arrastou para dentro das cabines, ao passo que o navio come\u00e7ou a ser engolido pelas as \u00e1guas do rio que se dirigia ao oceano, %Atlas% tinha certeza do que queria fazer. Se vingaria. De todos eles.<br>\u2003\u2003Come\u00e7ando por %Luana% %Monteiro%.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2410],"class_list":["post-9119","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-vicious"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9119"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}