{"id":9117,"date":"2025-12-04T11:25:16","date_gmt":"2025-12-04T14:25:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-04T11:31:02","modified_gmt":"2025-12-04T14:31:02","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/decay\/prologo\/","title":{"rendered":"Pr\u00f3logo"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><em>Treze anos antes.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>Deuses<\/em> possu\u00edam apenas <em>uma<\/em> regra: um <em>acordo<\/em> feito, <em>jamais<\/em> poderia ser <em>quebrado<\/em>. E ele havia <em>acabado<\/em> de quebrar <em>o seu<\/em>.<br>\u2003\u2003Podia senti-los espiralando ao seu redor, observando-o com aquele maldito interesse quase corrosivo. Estavam em todas as partes e em nenhuma ao mesmo tempo. Podia ouvir o eco de suas risadas ao fundo de sua mente, presentes, mas fantasmag\u00f3ricas; arranharam sua mente, corrompendo seus pensamentos. Sentiu um pulsar familiar percorrer por seu corpo, instintivo, tentando afastar a influ\u00eancia deles de si, mas era dif\u00edcil. Estava no territ\u00f3rio <em>deles<\/em>, n\u00e3o no seu; era vulner\u00e1vel, uma presa f\u00e1cil. <em>Pior<\/em>, uma oferenda volunt\u00e1ria, jogando no exato tabuleiro que h\u00e1 muito, <em>muito tempo<\/em>, recusou-se fazer parte. Se por arrog\u00e2ncia, ego ou culpa, jamais saberia dizer, mas n\u00e3o tardava para que o arrependimento voltasse a sufoc\u00e1-lo. Correntes \u00e1speras contra seu pesco\u00e7o, pulsos e tornozelos, tornavam-no prisioneiro. Engoliu em seco, exalando por entre seus dentes cerrados, tentando descomprimir a press\u00e3o familiar da f\u00faria, e do ressentimento que borbulhava por seu peito. Ajeitou seu casaco, agora de um vermelho profundo e escuro que lembravam a <em>sangue<\/em>, ignorando o olhar que recebera dos dois <em>guardas<\/em> na entrada da casa <em>deles<\/em>.<br>\u2003\u2003Mediram-no com o olhar parecendo desconfiados, mas ainda havia defer\u00eancia em seu olhar. Um respeito, \u00e9 claro, forjado pelo que ele representava, n\u00e3o pelo que havia sido. H\u00e1 muito tempo convivendo com os mortais, eles poderiam sentir a m\u00e1cula humana pairando ao redor dele como um v\u00e9u; condenat\u00f3rio, <em>perverso<\/em>. Ainda assim, n\u00e3o o impediram de entrar. Eles o estavam esperando, percebeu amargo, \u00e9 claro que estavam.<br>\u2003\u2003A atmosfera pareceu alterar-se conforme ele seguia pelo corredor estreito, descendo vagarosamente, degrau por degrau, para baixo. As escadarias em formato caracol que se iniciavam como pedras irregulares se alteravam lentamente, transmutando-se para vidro maci\u00e7o, o eco de suas botas militares de combate, esfoladas e sujas com sangue seco, abafados, mas ainda presentes conforme abaixava sua cabe\u00e7a ao atravessar o portal que se abria at\u00e9 onde <em>eles<\/em> o esperavam. A ilumina\u00e7\u00e3o tremeluziu com seus movimentos, acompanhando-o como uma sombra, as velas que se espalhavam pelo corredor, metamorfoseando-se para luzes vermelhas, de <em>n\u00e9on<\/em>, oscilando, ora acesa, ora apagada, pulsando ao ritmo da m\u00fasica marcada e sensual que se espalhava pelas paredes, acompanhadas pelos suspiros e gemidos que se espalhavam pelo ar.<br>\u2003\u2003Ele trincou os dentes com for\u00e7a, sentindo o <em>anseio<\/em> vibrar por sua pele, arrepiando os pelos de seu corpo, dilatando suas pupilas, o desejo queimando por suas veias, convidativo, perigoso e imposs\u00edvel de recusar. Sua garganta ficou estranhamente seca, sua respira\u00e7\u00e3o perdeu-se em algum lugar dentro de seu peito, escapando curtos e acelerados. N\u00e3o sabia dizer se eram <em>eles<\/em> o afetando como sempre o faziam por entretenimento pr\u00f3prio, ou se era o ambiente, a <em>energia<\/em> que se espalhava ao seu redor; tudo o que ele sabia era que o estava afetando tanto quanto qualquer outra criatura naquele lugar e isso o perturbava em demasia. Frustrava-o porque percebia, agora, que algo estava errado. Algo estava se transformando dentro de si, ou algo j\u00e1 <em>havia<\/em> se alterado; por mil\u00eanios ele acostumou-se com a d\u00e1diva que era para as realidades que se abriam \u00e0 sua frente. Por mil\u00eanios fora imbat\u00edvel, imposs\u00edvel de conter, <em>caos puro<\/em>, <em>vivo<\/em>, fazendo o que queria e conseguindo o que desejava sem o menor esfor\u00e7o; porque era seu <em>direito<\/em>, porque era o respons\u00e1vel pela <em>destrui\u00e7\u00e3o,<\/em> pela <em>guerra<\/em>, pelo <em>sangue<\/em>. Mas agora? Agora podia sentir-se afetado pela energia que se espalhava pelo espa\u00e7o como a porra de um mortal, t\u00e3o vulner\u00e1vel quanto.<br>\u2003\u2003Em outra \u00e9poca, ele at\u00e9 mesmo teria aproveitado; j\u00e1 n\u00e3o era mais assim h\u00e1 500 anos.<br>\u2003\u2003Mas seu corpo reagia de igual forma. A eletricidade da tens\u00e3o percorria por sua pele, arrepiando-a, as m\u00e3os espasm\u00f3dicas, se contra\u00edam com o desejo de <em>tocar<\/em>, de sentir o <em>calor<\/em> pelas palmas, de fincar os dedos na pele macia e volunt\u00e1ria, convidativa. Os m\u00fasculos se tencionavam, como se estivessem no limite de ceder ao anseio que agora queimava por seu peito, como se os sussurros <em>deles<\/em> em seus ouvidos, incentivando-o a apenas ceder \u00e0quela parte selvagem e animal que reconhecia sua pr\u00f3pria necessidade, fossem uma silenciosa <em>autoriza\u00e7\u00e3o<\/em>. O calor espalhando-se por seu corpo, seguindo para o centro de seu corpo, amontoando-se e crescendo na parte inferior de seu abd\u00f4men, familiar, exigindo aten\u00e7\u00e3o; eletricidade percorreu sua espinha, deixando-o alerta e, ao mesmo tempo, <em>intoxicado<\/em>. A press\u00e3o familiar no c\u00f3s de suas cal\u00e7as militares, um pequeno ind\u00edcio do quanto estava sendo afetado, obrigou-o a ajustar-se discretamente, de repente, suas cal\u00e7as parecendo mais apertadas do que deveriam. Podia sentir seu pau endurecendo em suas cal\u00e7as, podia sentir o <em>interesse<\/em> desperto e que escapava de seu controle, e podia sentir igualmente que n\u00e3o passava de <em>mais um<\/em> dos truques <em>deles<\/em>.<br>\u2003\u2003Sempre havia um truque com seus irm\u00e3os.<br>\u2003\u2003Obrigou-se a lembrar do <em>porqu\u00ea<\/em> estava ali. Obrigou-se a focar na tarefa em m\u00e3os, recusando-se a cair no truque barato deles. N\u00e3o seria outra pe\u00e7a naquele maldito jogo, mesmo que seu <em>corpo<\/em> pulsasse com a necessidade de entregar-se ao convite que se abria \u00e0 sua frente. Fuma\u00e7a espalhava-se ao redor, dando a falsa impress\u00e3o que deveria ser gelo seco, quando na verdade era apenas <em>vapor<\/em>, serpenteando pelo ar, criando formas abstratas \u00e0 frente de seus olhos, tocando sua pele febril como uma car\u00edcia distante.<br>\u2003\u2003Estavam o provocando. Deixando-o desconfort\u00e1vel, determinados a tortur\u00e1-lo at\u00e9 conseguirem o que desejava, <em>uma explos\u00e3o<\/em>. Ele fechou suas m\u00e3os em punhos firmes, aproximando-se do grande sal\u00e3o que se abria \u00e0 sua frente. As luzes de n\u00e9on pareceram tornarem-se ainda mais inst\u00e1veis, aumentando a velocidade que se acendiam e apagavam, tornando-se mais desorientadoras do que instigantes. Sombras se projetaram pelos cantos dos olhos dele, o fazendo encolher-se por instinto, e virar-se na dire\u00e7\u00e3o de onde os movimentos surgiam apenas para se deparar com corpos se movendo em sincronia, bocas explorando corpos e outras bocas, e nada mais. Ainda assim, a adrenalina&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; infestou seu corpo, as pupilas dilatadas se contraindo enquanto o gelo da tens\u00e3o percorria por suas veias, seus ouvidos zunindo com o alerta crescente. Sua respira\u00e7\u00e3o pesada tornou-se mais calculada. Buscou instintivamente por sua espada, normalmente presa em suas costas, apenas para deparar-se com o colarinho de seu casaco pesado vermelho escuro como sangue, em pura frustra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ele havia perdido direito a sua espada h\u00e1 muito tempo; perdido o direito sobre quem era e o <em>que fazia<\/em>, por causa daquele maldito acordo com <em>eles<\/em>. Ainda assim a mem\u00f3ria muscular era sempre mais forte.<br>\u2003\u2003Inspirando fundo, tentando concentrar-se na tarefa em m\u00e3os, voltando a mover-se, ignorando a parte de sua mente que o alertava que a qualquer momento alguma coisa o iria atacar pelas costas, que a qualquer momento algo avan\u00e7aria em sua dire\u00e7\u00e3o como h\u00e1 tanto havia se acostumado. Ignorou a forma com que seu corpo, ainda afetado pelo truque deles, parecia pulsar, desesperado por al\u00edvio. Seus p\u00e9s afundaram na pequena piscina que se estendia pelo sal\u00e3o, a \u00e1gua engolindo-o at\u00e9 a altura de seus joelhos, escaldante. Os arfares e os suspiros que se espalhavam pelo sal\u00e3o e pilares arredondados greco-romanos, como uma can\u00e7\u00e3o dissonante, o perseguiam como f\u00farias; determinados a atorment\u00e1-lo, a tent\u00e1-lo. Possu\u00edam diferentes n\u00edveis de intensidade, destoavam em variadas nuances de volumes, mas ritmados, acompanhavam quase o mesmo ritmo, como se fossem um. Sussurravam o nome dele. E puta merda se uma parte dele, a parte velha e exausta daqueles jogos, n\u00e3o estava apenas considerando entregar-se. Admitir derrota. Ainda assim, fosse por ego ou orgulho soberbo, ele recusava-se, e talvez fosse por <em>isso<\/em> que a tortura soasse ainda mais divertida para seus irm\u00e3os. Ele podia sentir a energia percorrendo pelo espa\u00e7o inteiro, acariciando sua pele, envolvendo-o por todos os lados. Estava come\u00e7ando a sobrecarreg\u00e1-lo. Ele podia sentir o cheiro intoxicante, uma mistura de afrodis\u00edacos, pimentas e flores queimadas, acompanhado com o suor e flu\u00eddos corporais. Mesmo ele podia sentir o suor come\u00e7ar a umedecer as laterais de suas t\u00eamporas, a fazer a blusa de compress\u00e3o escura que usava por baixo de seu casaco grudar como uma segunda pele nos m\u00fasculos tensos de suas costas. Os cabelos um pouco mais longos do que deveriam, grudando em sua nuca, enquanto ele continuava a andar, afundando mais e mais na \u00e1gua escaldante que o acompanhavam.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 chega, voc\u00ea teve o entretenimento que desejava. \u2014 A voz dele retumbou pelo espa\u00e7o, baixa, rouca, \u00e1spera, mas ainda assim profunda com os vest\u00edgios que sempre carregava das batalhas que trazia consigo. O rei das guerras e da viol\u00eancia preferia observar, assistir, analisar, mas sempre que se pronunciava, fazia-se ouvir. Sua voz exigia o respeito do que outrora fora, n\u00e3o do que <em>era<\/em> agora. \u2014 Apare\u00e7a de uma vez, Freya! Chega de jogos\u2026<br>\u2003\u2003Ao p\u00e9 de seu ouvido direito, ele sentiu a respira\u00e7\u00e3o deles. O h\u00e1lito que deveria ser c\u00e1lido contra sua pele, na verdade era <em>g\u00e9lido<\/em>, e um arrepio trai\u00e7oeiro percorreu por seu corpo em resposta; cheirava a ambrosia, morangos e <em>sangue<\/em>. Ele inclinou sua cabe\u00e7a para o lado contr\u00e1rio, abruptamente. Seu cora\u00e7\u00e3o martelou contra seu peito, acelerado, irregular, sua respira\u00e7\u00e3o se prendeu abruptamente em sua garganta, e o tremor percorreu seu corpo. Ele quis odi\u00e1-los por isso, pelo efeito que lhe causava, mas n\u00e3o era culpa deles, a essa altura, ele precisava admitir que trouxera isso a si mesmo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, irm\u00e3o, mas assim n\u00e3o \u00e9 mais divertido\u2026? \u2014 provocou com um sussurro arrastado, quase pregui\u00e7oso, sua voz rouca soando <em>quase<\/em> como um ronronar, sensual e terrivelmente familiar. Os olhos dele percorreram os tetos abobadados, espelhados, buscando por algum sinal de onde eles estariam, mas \u00e9 claro, eles nunca fariam aquilo ser f\u00e1cil para ele. \u2014 T\u00e3o s\u00e9rio, t\u00e3o frio\u2026 por que s\u00f3 n\u00e3o relaxa e aproveita? Eu tenho certeza que posso achar algo que voc\u00ea <em>realmente<\/em> <em>queira<\/em>.<br>\u2003\u2003Os olhos dele cintilavam dourados, quase animalescos enquanto trincava os dentes com for\u00e7a. Suas presas, um pouco maiores do que o normal, cortaram o l\u00e1bio inferior, enquanto virava-se na dire\u00e7\u00e3o de onde a voz deles havia partido, o grunhido vibrando por seu peito largo, subindo e descendo, pesado, tremendo. Ele teria avan\u00e7ado sem hesitar, teria arrancado a cabe\u00e7a deles com suas pr\u00f3prias m\u00e3os, cedendo a parte mais animalesca de seu c\u00e9rebro, mas deparou-se apenas com o vazio \u00e0 sua frente. Os olhos buscaram por entre os corpos que se moviam em sincronia, buscando por <em>eles<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vou pedir outra vez, Freya, apare\u00e7a, <em>agora <\/em>\u2014 comandou ele sem paci\u00eancia. F\u00faria contida emendando de seus m\u00fasculos tensionados, fazendo o ar tremer ao seu redor, unhas fincadas nas palmas de suas m\u00e3os, o suficiente para conseguir tirar <em>sangue<\/em>. Mas a risada que se perpetuou pelo ar evidenciou apenas a <em>zombaria<\/em> deles. As palavras dele, mais uma vez, haviam reca\u00eddo em ouvidos surdos. Ele n\u00e3o seria atendido, n\u00e3o seria respeitado como um <em>deles<\/em>, mas como uma mera pe\u00e7a em um tabuleiro maior e pessoal. Ele n\u00e3o teria escolha sen\u00e3o entret\u00ea-los at\u00e9 que estivessem satisfeitos.<br>\u2003\u2003O desrespeito foi um golpe excruciante em seu ego, mas um dos quais ele se obrigou a engolir. Que outra escolha teria, afinal? Portanto, voltou a caminhar, fincando seus p\u00e9s com mais for\u00e7a no m\u00e1rmore vermelho como sangue que envolvia a piscina, a \u00e1gua escaldante agora chegava na altura de seus quadris, encharcando sua cal\u00e7a cargo, e deixando-a pesada contra seu corpo, mas n\u00e3o o parou. Continuou a caminhar por entre o labirinto de corpos, em busca <em>deles<\/em>. As luzes oscilaram outra vez, com maior intensidade, fazendo tudo girar. Sentiu quando pisou em falso, o m\u00e1rmore do ch\u00e3o da piscina alterando-se lentamente a pedra solta do antigo riacho que ele conhecia. Seu corpo, pesado, projetou-se para frente, e ele <em>quase<\/em> desabou. Piscou, tentando afastar o atordoamento, erguendo sua cabe\u00e7a para encontrar com os olhos deles, um vermelho p\u00farpura, o outro preto como carv\u00e3o, cintilando como os de um gato, enquanto o sorriso pregui\u00e7oso se espalhou por seus l\u00e1bios cheios. Ele grunhiu baixo, frustra\u00e7\u00e3o, a raiva agora pulsando por si como ondas, cont\u00ednuas e mais violentas. Obrigou-se a caminhar outra vez, a \u00e1gua outrora escaldante, come\u00e7ando a ficar mais e mais gelada enquanto ele adentrava mais e mais para dentro da merda daquela piscina gigante.<br>\u2003\u2003M\u00e3os projetaram-se debaixo da \u00e1gua, enroscando-se pelo corpo dele com anseio, desejo. Unhas se fincaram por sobre o tecido grosso e encharcado de sua cal\u00e7a cargo, alastrando por sua pele, marcando-a mesmo que n\u00e3o fizessem contato direto. Agarrando-o, acariciando-o, puxando-o para baixo. Ele tentou se desvencilhar, mas o aperto era mais forte, a distra\u00e7\u00e3o e o desejo tornando-se mais e mais dif\u00edceis de ignorar. As luzes oscilaram de novo, e ele se debateu, usando unhas e dentes para arrancar as m\u00e3os que percorriam por seu corpo, projetando-se para frente e quase afundando na \u00e1gua.<br>\u2003\u2003De joelhos, e ofegante, agora encharcado por completo, os olhos dele, viscerais, incandescentes com aquele dourado intenso que come\u00e7ava a ser manchado pelo vermelho do sangue que carregava em seu dom\u00ednio, cintilavam com intensidade em meio a penumbra do espa\u00e7o, amea\u00e7adores, <em>vorazes<\/em>. \u00c1gua g\u00e9lida escorria por seu rosto, gotas escorriam da lateral de sua mand\u00edbula bem definida e cortante, pingando contra a camisa t\u00e9rmica que se agarrava aos m\u00fasculos de seu corpo como uma segunda pele. O tremor pareceu aumentar, uma mistura perigosa entre o efeito que o desejo ainda lhe causava, com a f\u00faria que agora o dominava. Percebeu tardiamente que havia, \u00e9 claro, perdido seu casaco \u2014 sua \u00fanica passagem para fora daquele lugar \u2014 e que talvez eles haviam conseguido o que queriam. <em>Aprision\u00e1-lo<\/em> sob seu <em>dom\u00ednio<\/em> ainda que por alguns longos minutos a mais.<br>\u2003\u2003F\u00faria c\u00e1ustica e corrosiva inundou seu peito, tomando-lhe por direito como sempre fazia. As m\u00e3os fechadas em punhos imploraram para conectarem-se com qualquer superf\u00edcie volunt\u00e1ria que estivesse pelo caminho. Seu <em>cerne<\/em> exigiu por viol\u00eancia, por <em>vingan\u00e7a<\/em>, mas sua mente, nublada ainda pelos efeitos dos truques de seus irm\u00e3os, perdia-se em crescente confus\u00e3o e desespero; descendia mais e mais na decad\u00eancia de sua pr\u00f3pria vulnerabilidade. Sua respira\u00e7\u00e3o entrecortada escapou aud\u00edvel pelos dentes cerrados, as m\u00e3os, espasm\u00f3dicas, pulsando com a f\u00faria contida, ficaram-se com for\u00e7a, determinadas a arrancar sangue, nos pulsos que se projetavam para fora d\u2019\u00e1gua, trilhando os m\u00fasculos tensos de seus antebra\u00e7os e ombros, at\u00e9 uma m\u00e3o enroscar-se em seu pesco\u00e7o, unhas cravando na pele febril, cortando seu ar por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos. As luzes oscilaram outra vez, obscurecendo tudo ao seu redor, e ent\u00e3o, quando se acenderam outra vez, ele estava sozinho.<br>\u2003\u2003Ele piscou, desorientado, ainda sentindo os toques fantasmas explorando seu corpo, percorrendo seu abd\u00f4men e apertando seu pesco\u00e7o, voltando a colocar-se de p\u00e9, deliberado e devagar, seu peito largo subindo e descendo de maneira irregular, embora sua respira\u00e7\u00e3o fosse superficial, mal estivesse l\u00e1. Sua garganta, \u00e1spera e seca, pareceu doer ao engolir em seco, os olhos com as \u00edris alteradas entre o dourado e o vermelho cintilando com frustra\u00e7\u00e3o e raiva mal contida, buscando pelo rosto de seus irm\u00e3os. Ele girou no lugar, got\u00edculas de \u00e1gua deslizando por seus antebra\u00e7os, pingando da ponta de seus dedos, a cal\u00e7a cargo encharcada e pesada soltando pequenos estalos conforme ele se movia para frente. Continuaria a andar at\u00e9 que os encontrasse, at\u00e9 que aquele maldito jogo tivesse acabado e eles o encarassem. Ele n\u00e3o desistiria at\u00e9 que tivesse n\u00e3o apenas as respostas, mas igualmente a reuni\u00e3o que havia vindo procurar. Ele n\u00e3o pararia at\u00e9 que aquela maldi\u00e7\u00e3o infernal estivesse completamente quebrad\u2026<br>\u2003\u2003<em>Ela<\/em> estava ali. A poucos metros de dist\u00e2ncia dele.<br>\u2003\u2003%Eva% \u2026 <em>sua %Eva%<\/em>.<br>\u2003\u2003Tudo desapareceu ao seu redor; tudo perdeu sua import\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003O mundo ao seu redor desacelerou, silenciou-se gradativamente at\u00e9 que a \u00fanica coisa que o alcan\u00e7asse fosse apenas sua pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o, pesada, presa no torpor febril que seus irm\u00e3os estavam lhe causando. Mas pela primeira vez desde que havia chegado ali, ele n\u00e3o havia se importado em ser <em>controlado<\/em>, de ser uma <em>mera pe\u00e7a<\/em> no jogo <em>deles<\/em>. N\u00e3o quando ela estava ali, n\u00e3o quando <em>sua<\/em> %Eva% o encarava daquela forma. Era rid\u00edculo, ele sabia, era <em>pat\u00e9tico<\/em>, e, todavia, o que ele poderia fazer para impedir-se? Tudo o que conseguia pensar naquele momento, era unicamente e <em>somente<\/em> nela. O tom intenso dourado de suas \u00edris se apagou; voltou para o tom castanho-claro, meio esverdeado, meio \u00e2mbar que ele possu\u00eda, as pupilas dilatadas o suficiente para que suas \u00edris se tornassem meros finos an\u00e9is ao redor. Os l\u00e1bios secos, entreabertos, por onde sua respira\u00e7\u00e3o escapava, baixa e arfada. Os m\u00fasculos se tensionaram, as m\u00e3os fechadas em punhos firmes, apertando-se um pouco mais, fazendo as luvas que as envolviam estalarem em protesto pela tens\u00e3o que tentavam suportar. Seu corpo inteiro parecia formigar com o desejo de avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o dela, de jogar a cautela de vez para o alto, e simplesmente permitir-se perder-se nela, e tom\u00e1-la para si como desejava fazer desde o momento que a viu pela primeira vez h\u00e1 muito, <em>muito<\/em> tempo. C\u00e9us e infernos <em>sabiam<\/em> o quanto ele queria tom\u00e1-la em seus bra\u00e7os e esquecer-se de tudo; n\u00e3o moveu <em>um m\u00fasculo<\/em>.<br>\u2003\u2003N\u00e3o podia, por mais que desejasse. Mas igualmente n\u00e3o a afastou quando ela se aproximou dele. O cheiro dela invadiu seus pulm\u00f5es, familiar e ao mesmo tempo estrangeiro. Sabia que n\u00e3o passava de um fragmento de sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria trai\u00e7oeira, mas ainda assim, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, ele se permitiu perder-se ali. Aquela mistura familiar de <em>licor de cereja<\/em> e <em>canela<\/em>, intoxicante, tentador, mas n\u00e3o mais perigoso que seus <em>olhos<\/em>. T\u00e3o <em>v\u00edvidos<\/em>. T\u00e3o\u2026 <em>ela<\/em>. Tornavam-no prisioneiro, <em>volunt\u00e1rio<\/em>. Ela poderia pedir-lhe qualquer coisa, e ele entregaria de bom grado \u2014 n\u00e3o fora o que fizera um mil\u00eanio atr\u00e1s? E veja aonde <em>isso<\/em> o havia guiado.<br>\u2003\u2003Ainda assim, sua %Eva% n\u00e3o era apenas seu maior ponto fraco; era sua maior tenta\u00e7\u00e3o. <em>Ela<\/em> era tentadora, diab\u00f3lica, at\u00e9 mesmo perversa. E n\u00e3o havia nada dentro de si que o convencesse de <em>escapar<\/em> dela. %Eva% era o calor a algu\u00e9m congelado. O abra\u00e7o apertado ao saudoso. O banquete real ao mero esfomeado. A \u00e1gua ao sedento. Um sonho inalcan\u00e7\u00e1vel. A promessa que ele desvairadamente tentava provar real; o apelo dissimulado que estava desesperado a aceitar \u2014 mesmo com todas as consequ\u00eancias que poderiam acarretar. Sabia qual era o pre\u00e7o de seus pr\u00f3prios desejos, sabia o <em>que<\/em> acabaria por custar, e a risada fantasmag\u00f3rica deles, ao p\u00e9 de seu ouvido, era a provoca\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o lembrar <em>o porqu\u00ea<\/em> estava ali.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 aqui \u2014 ele sussurrou, a voz mais baixa, a rouquid\u00e3o vibrando por sua garganta. O pomo de ad\u00e3o moveu-se quando ele engoliu em seco, sentindo a m\u00e3o dela repousar sobre seu peito. Levou toda sua for\u00e7a e concentra\u00e7\u00e3o para simplesmente n\u00e3o se permitir derreter sob o toque dela. C\u00e9us e infernos sabiam o quanto ele queria; fechou os olhos com for\u00e7a, tentando livrar-se daquele tormento. Mas %Eva% n\u00e3o desapareceu como ele desejava que ela fizesse, ela n\u00e3o se afastou. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 real, %Evie%\u2026 \u2014 As palavras for\u00e7adas por sua boca em um quase cuspe, n\u00e3o eram para %Eva%, mas sim para si mesmo. Precisava convencer-se que aquela tortura tinha o <em>\u00fanico<\/em> prop\u00f3sito de desnorte\u00e1-lo, de torn\u00e1-lo um <em>brinquedo<\/em> para <em>eles<\/em>, porque, mesmo que por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, ele se permitisse acreditar que aquela fantasia era real, ele se permitisse <em>aceitar<\/em> a ideia de que era ela <em>tudo<\/em> o que ele <em>sempre<\/em> havia desejado, ali, t\u00e3o perto de si, t\u00e3o perto de seu alcance\u2026<br>\u2003\u2003Os olhos dele se abriram, encontrando-se com os dela.<br>\u2003\u2003Ainda eram os mesmos olhos que o haviam feito perder tudo. Os mesmos olhos que o amaldi\u00e7oaram e o condenaram \u00e0quela vida prec\u00e1ria, afastado de tudo o que mais gostava, exilado e amaldi\u00e7oado. Os mesmos olhos que o atormentavam em seus pesadelos, e que o assombravam diariamente ao caminhar entre tantos <em>mortais<\/em>, questionando-se <em>onde<\/em> estariam. Porque ele <em>sabia<\/em> que ela estaria em algum lugar daquele mundo; ele podia senti-la <em>cravada<\/em> em sua pele, em sua <em>ess\u00eancia<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Importa? \u2014 %Eva% sussurrou contra seu ouvido, e o som da voz dela percorreu o corpo dele como uma l\u00e2mina em brasas. Calor percorreu por suas veias como um inc\u00eandio, e seu corpo pareceu latejar, exigindo que ele cedesse. Seus m\u00fasculos se tensionaram mais, sua cabe\u00e7a se inclinou instintivamente na dire\u00e7\u00e3o dela, como se a buscasse mesmo em seu inconsciente, sentindo o calor do corpo dela naquela <em>maldita<\/em> camisola curta, o tecido, uma mistura de seda e renda, farfalhando suavemente conforme ela se aproximava um pouco mais de si, o corpo pressionado contra a lateral do seu. \u2014 Se tivermos aqui a chance que nunca tivemos antes, importa se \u00e9 real ou n\u00e3o? Faz diferen\u00e7a se o resultado \u00e9 o esperado? Se eu puder toc\u00e1-lo ainda que por um\u2026<br>\u2003\u2003O impulso, a esta altura, gravado em sua mem\u00f3ria muscular, entra em a\u00e7\u00e3o antes que ele sequer perceba o que est\u00e1 fazendo. Sua m\u00e3o esquerda envolveu quase imediatamente o pulso dela, impedindo-a de deslizar as pontas de seus dedos para dentro do c\u00f3s da cal\u00e7a dele. N\u00e3o a empurrou bruscamente, o gesto, mais gentil do que sua estrutura e postura eram capazes de permitir, mas ainda assim, obrigou-se a afastar-se dela. Sua respira\u00e7\u00e3o, outrora pesada e irregular, come\u00e7ou a acelerar, os olhos arregalaram-se e o tremor misturou-se com a adrenalina, deixando para tr\u00e1s em sua boca um gosto amargo e met\u00e1lico que n\u00e3o lhe era familiar, mas que come\u00e7ava a ser algo frequente.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Voc\u00ea sabe<\/em> o que acontece se voc\u00ea me tocar\u2026 \u2014 ele sussurrou impaciente, dando mais um passo para tr\u00e1s, ainda segurando o pulso dela com for\u00e7a, os dedos, cobertos pelas luvas, pressionando a pele macia em um aviso silencioso. Havia, todavia, uma nota de incredulidade que beirava ao desespero. Os olhos queimaram o rosto dela, buscando por alguma fa\u00edsca, algum m\u00ednimo resqu\u00edcio de compreens\u00e3o da seriedade da situa\u00e7\u00e3o, mas foi como ser acertado por \u00e1gua fria. %Eva% n\u00e3o era real, aquela miragem, sedutora e t\u00e3o <em>parecida<\/em> com <em>sua<\/em> %Eva%, n\u00e3o <em>era<\/em> sua %Eva%. Era uma estranha completa, porque ao menos a <em>%Eva%<\/em> que ele conhecia e que perdia com frequ\u00eancia, o teria <em>ouvido<\/em>.<br>\u2003\u2003Esta, <em>avan\u00e7ou<\/em> em sua dire\u00e7\u00e3o outra vez.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>J\u00c1 CHEGA! <\/strong>\u2014 comandou ele, desta vez, com raiva.<br>\u2003\u2003Foi como se uma n\u00e9voa o tivesse atravessado, e ent\u00e3o, com um piscar de seus olhos, ele estava na sala de estar de seus irm\u00e3os. O espa\u00e7o era massivo, elegante, e possu\u00eda uma arquitetura moderna, repleta de vidros, espelhos e <em>metal<\/em>. Obras de arte se espalhavam pela galeria como se fossem uma esp\u00e9cie de museu pessoal, cheio de cores e <em>intensidade<\/em>. Uma f\u00faria passional que reverberava pela pele dele, familiar. N\u00e3o eram, afinal, assim t\u00e3o opositores uns aos outros, e isso tornava tudo apenas ainda mais <em>frustrante<\/em>. Suas m\u00e3os ainda pulsavam com a necessidade de agarrar alguma coisa, de <em>destruir<\/em>, mas <em>conteve-se<\/em>.<br>\u2003\u2003Eles estavam deitados pregui\u00e7osamente sobre um sof\u00e1 largo e branco como neve, impec\u00e1vel, mesmo que estivesse com uma ta\u00e7a de vinho em suas m\u00e3os. Freya mantinha os cabelos longos e loiros, soltos, repousando por sobre seus ombros angulosos e p\u00e1lidos, os olhos azuis, eram claros, quase acinzentados sob determinadas ilumina\u00e7\u00f5es, por vezes gentis e intensos, agora revelavam apenas uma <em>satisfa\u00e7\u00e3o<\/em> pessoal e <em>vingativa<\/em>, quase <em>cruel<\/em>. O rosto oval bem proporcionado revelava ma\u00e7\u00e3s do rosto altas e definidas, e uma mand\u00edbula quadrada delineada e firme, retesada com sua pr\u00f3pria impaci\u00eancia. Os olhos dele acompanharam a movimenta\u00e7\u00e3o deles quando se levantaram do sof\u00e1 elegante, caminhando descal\u00e7os sobre o tapete antiquado e fora do estilo restante do espa\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Irm\u00e3o \u2014 Freya murmurou com uma risada baixa, depreciativa. Um passo e ent\u00e3o sua apar\u00eancia se alterou, alta, com a pele escura como a noite, e os cabelos tran\u00e7ados reluzindo pela ilumina\u00e7\u00e3o de fundo c\u00e1lido, com os pequenos an\u00e9is enroscados por entre as mechas cacheadas e tran\u00e7adas. \u2014 Magoei seus sentimentos? Mesmo os seres mais poderosos <em>ainda<\/em> desejam por algo, \u00e9 <em>natural<\/em>, por que me olha com ressentimento?<br>\u2003\u2003Outro piscar e Freya assumiu a forma masculina. N\u00e3o era <em>bin\u00e1ria<\/em>, como nenhum sentimento de amor ou desejo era; transmutava, a cada passo, livre e male\u00e1vel como <em>\u00e1gua<\/em>. E t\u00e3o cruel <em>quanto<\/em> doce. Ele conteve um grunhido, furioso, o som escapando por sua garganta mais animalesco e violento do que desejava; seus olhos queimaram as costas de seus irm\u00e3os, tremendo com a frustra\u00e7\u00e3o <em>crescente<\/em>, a f\u00faria contida, derretida como lava percorrendo por sua corrente sangu\u00ednea. Mas ele n\u00e3o fez nada; n\u00e3o podia.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, vai me dizer por que veio me visitar? Ou estava apenas com <em>saudades?<\/em> \u2014 soltou com sarcasmo, colocando em uma segunda ta\u00e7a, vinho. Ele engoliu em seco, tentando conter seu pr\u00f3prio orgulho, exalou entre seus dentes cerrados, permitindo-se sentar nos degraus da entrada da sala de estar dela. Ele exalou baixo, abaixando a linha de seu olhar enquanto apoiava os cotovelos sobre os joelhos, tensionando sua mand\u00edbula com for\u00e7a. \u2014 <em>Jeesh<\/em>, voc\u00ea est\u00e1 horr\u00edvel, irm\u00e3o.<br>\u2003\u2003N\u00e3o respondeu o coment\u00e1rio. Na verdade, por um longo momento, apenas ficou em sil\u00eancio encarando suas m\u00e3os. Uma parte de si mesmo, uma parte antiga e que se recusava a desaparecer, ansiava por simplesmente encerrar tudo aquilo da forma que <em>sabia<\/em>: atrav\u00e9s de sua l\u00e2mina, da viol\u00eancia e do <em>sangue<\/em>. Ele poderia mat\u00e1-los com um gesto de seu pulso, poderia os fazer <em>pagar<\/em> por toda aquela merda, e por brincar com ele como a porra de um pe\u00e3o dispon\u00edvel em seu tabuleiro pessoal. Ele poderia conseguir a vingan\u00e7a que desejava, e ent\u00e3o\u2026 haveria apenas vazio. Mas ele estava cansado; ver %Eva% outra vez, ainda que n\u00e3o passasse de uma mera fantasia para conseguir tir\u00e1-lo do s\u00e9rio \u2014 e <em>conseguido<\/em> com <em>\u00eaxito<\/em> a tentativa \u2014, ainda funcionava como um <em>potente<\/em> veneno para si. Um lembrete amargo para si mesmo de que ele <em>sempre<\/em> iria <em>querer<\/em> aquilo que n\u00e3o poderia <em>ter<\/em>. Um lembrete para si mesmo que, <em>mesmo<\/em> sendo quem era, mesmo sendo que <em>havia<\/em> sido no passado, ele <em>ainda<\/em> era t\u00e3o prisioneiro de Freya e seus caprichos, quanto qualquer outro mortal.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 basta isso tudo, Freya \u2014 ele resmungou por fim, quebrando seu sil\u00eancio, sua voz rouca e baixa, quebradi\u00e7a. N\u00e3o olhou para seus irm\u00e3os, mas sim para suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Agora envoltas com luvas, era uma escolha estrat\u00e9gica, pessoal, seu toque afetava apenas <em>um<\/em> mortal, e a ideia de encontr\u00e1-la outra vez, de v\u00ea-la desfazer-se em sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o&#8230; Ele j\u00e1 havia visto o suficiente, por um <em>mil\u00eanio<\/em>, assistira sem poder fazer nada. Era de se assumir que ao menos seus outros irm\u00e3os estivessem <em>satisfeitos<\/em> com a puni\u00e7\u00e3o de sua arrog\u00e2ncia e egocentrismo; mas algo lhe dizia, ao fundo de sua mente que, assim como a vida para eles era longa, seu ressentimento poderia seguir pelo mesmo caminho. \u2014 J\u00e1 n\u00e3o teve o suficiente? J\u00e1 n\u00e3o se deleitou com minha mis\u00e9ria o bastante? Admita, Frey\u2026 este jogo est\u00e1 cansativo, mesmo para voc\u00ea. Vamos acabar com tudo. De uma vez. Estou cansado.<br>\u2003\u2003\u2014 Ora, ora, veja s\u00f3, para algu\u00e9m que era grande e poderoso, e fazia tudo da forma que bem entendia \u2014 Freya ronronou em provoca\u00e7\u00e3o, inclinando sua cabe\u00e7a para o lado, ao aproximar-se de onde ele permanecia sentado. Os dois copos em m\u00e3o, enquanto sua apar\u00eancia se alterava novamente, parte a figura com os cabelos loiros e olhos azuis, parte uma figura nova, com o olho escuro como a noite, olho levemente repuxado para cima no canto, e cabelos lisos de um preto que parecia absorver a luz de sua sala de estar \u2014, essa \u00e9 uma mudan\u00e7a <em>muito<\/em> grande de opini\u00e3o, huh? Me diga, irm\u00e3o, o que aconteceu para que finalmente desistisse de sua teimosia? O que foi que te quebrou t\u00e3o profundamente que voc\u00ea se atreveu a quebrar a <em>sua promessa<\/em>, e buscar por minha ajuda? At\u00e9 onde eu lembro, voc\u00ea havia jurado que jamais voltaria a me ver novamente.<br>\u2003\u2003Ele tensionou a mand\u00edbula com for\u00e7a, suas t\u00eamporas pulsaram com a dor que se espalhou pelo m\u00fasculo. Seu pomo de ad\u00e3o se moveu outra vez, o gosto amargo da saliva que se obrigou a engolir, inc\u00f4moda e pungente, pareceu sufoc\u00e1-lo. Os olhos cintilavam outra vez com aquele brilho dourado, e embora revelassem o <em>ressentimento<\/em>, n\u00e3o ocultava tamb\u00e9m o cansa\u00e7o que carregava dentro de si h\u00e1 tanto tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Em um mil\u00eanio, n\u00e3o mudou nada? \u2014 ele retorquiu, franzindo o cenho, c\u00ednico, mas igualmente frustrado. Freya n\u00e3o respondeu.<br>\u2003\u2003Outra vez, o sil\u00eancio opressor recaiu sobre as duas entidades que se encaravam como gatos ariscos, uma, exausta do ciclo que havia colocado em si mesmo, a outra, observando com curiosidade e divers\u00e3o a obra que havia criado. N\u00e3o era que qualquer uma delas fosse cruel, ou existisse uma linha entre o bem e o mal clara e simpl\u00f3ria para ser seguida ali; ambos eram <em>entidades<\/em>, ambos representavam e eram respons\u00e1veis por seus des\u00edgnios, ambos tinham seu pr\u00f3prio modo de ver as coisas. <em>E a promessa de um deus, <strong>nunca<\/strong> era quebrada.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Meu irm\u00e3o\u2026 \u2014 Freya suspirou pesado, por fim, colocando-se sentada a frente dele, estendendo o copo de vinho, sem surpresa alguma quando o g\u00eameo se recusou a pegar o cristal delicadamente moldado. Repousou-a no ch\u00e3o, com um gesto alongado, desinteressado, levando sua ta\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o aos l\u00e1bios tingidos de vermelho profundo. \u2014 Viera a ju\u00edzo, em demasiado atraso, huh? Ao menos posso dizer que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o arrogante monstro que se portava, mas se est\u00e1 aqui, diante de mim, implorando por miseric\u00f3rdia, n\u00e3o posso deixar de supor que n\u00e3o <em>compreendeu nada<\/em> de nosso acordo.<br>\u2003\u2003Os olhos dourados dele, puros com energia violenta e raiva, cintilavam como os de um gato, e seus irm\u00e3os reviraram os olhos, permitindo-se deixar-se pender para tr\u00e1s, escorando-se em sua m\u00e3o esquerda ao analisar o vinho tinto na ta\u00e7a que empunha com sua m\u00e3o direita. O l\u00edquido refletiu na ilumina\u00e7\u00e3o c\u00e1lida e amena da sala de estar, parecendo adquirir uma tonalidade profunda e viscosa, lembrando vagamente a <em>sangue<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00f3s n\u00e3o podemos quebrar nossos juramentos, meu irm\u00e3o, a regra sempre foi clara, tanto para mim quanto para voc\u00ea \u2014 Freya pontuou, indicando com sua ta\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o dele, antes de suspirar, afastando com um gesto econ\u00f4mico os cabelos longos de seus ombros. \u2014 O que uma vez foi prometido, permanece, at\u00e9 ser cumprido.<br>\u2003\u2003Ele tentou conter o grunhido, mas a risada baixa, rouca que escapou por seus l\u00e1bios, n\u00e3o era menos amig\u00e1vel do que as garras e presas que se fincavam em sua pr\u00f3pria pele.<br>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o cumpri seu des\u00edgnio? N\u00e3o est\u00e1 satisfeita com o resultado de mil anos? \u2014 ele rosnou baixo, impaciente, mas Freya permaneceu imperturb\u00e1vel, observando-o com divertimento, o pequeno sorriso espiralando por seus l\u00e1bios indicativo de sua pr\u00f3pria crueldade, e, ao mesmo tempo, a dicotomia de sua gentileza. \u2014 Queria que eu admitisse que estava certa, pois bem, eis- me aqui, em tua frente, dizendo-lhe: <em>voc\u00ea estava certa<\/em>.<br>\u2003\u2003Freya soltou uma gargalhada alta, que ressoou pelo espa\u00e7o como sinos suaves. N\u00e3o havia humor em sua voz.<br>\u2003\u2003\u2014 Seth, por favor, ignor\u00e2ncia <em>nunca<\/em> lhe caiu bem, n\u00e3o tem por que fingir agora que a aprecia \u2014 Freya recriminou, e os olhos dourados dele cintilavam em uma amea\u00e7a velada por ter seu nome invocado. Estreitou os olhos quando ela ergueu uma sobrancelha, parecendo entretida, e algo mais. Algo sombrio e perigoso, analisando-o melhor do que a si mesma por um longo momento. \u2014 Ent\u00e3o os rumores s\u00e3o verdadeiros? Bem, isso significa que tudo eventualmente precisa mudar, seguir em frente, n\u00e3o? Est\u00e1 se tornando <em>mortal, afinal<\/em>, e \u00e9 por isso que est\u00e1 desesperado?<br>\u2003\u2003Ele bufou, desdenhoso das palavras de seus irm\u00e3os, mas n\u00e3o respondeu. Por alguns minutos, considerou as palavras deles. Era verdade que estava sentindo-se enfraquecer h\u00e1 pelo menos 500 anos, podia sentir que algo estava saindo de controle dentro de seu dom\u00ednio, e ele estava espiralando para dentro de um buraco negro que a tudo consumia e nada devolvia. Podia sentir que j\u00e1 n\u00e3o era mais o mesmo. Mas aquilo n\u00e3o era sobre poder; c\u00e9us, n\u00e3o estava nem perto de seu <em>verdadeiro<\/em> desespero, e Freya <em>sabia<\/em>, podia v\u00ea-lo com tanta clareza quanto ele mesmo.<br>\u2003\u2003\u2014 Acredite em mim quando digo que se tornar-me mortal ir\u00e1 me prevenir de ter que lidar com qualquer um de voc\u00eas outra vez pelo resto da eternidade, eu <em>aceitaria<\/em> de <em>bom grado<\/em> \u2014 cuspiu as palavras com mais f\u00faria do que deveria ter exposto, mas as palavras duras n\u00e3o pareceram incomodar Freya. Eles j\u00e1 deveriam esperar por esse tipo de sentimento vindo dele, ap\u00f3s tanto tempo lidando com aquele <em>ciclo<\/em> vicioso que o havia colocado. Os olhos dele se estreitaram, a mand\u00edbula se contraiu novamente, as m\u00e3os se fecharam em punhos, os m\u00fasculos se tensionaram. \u2014 N\u00e3o posso passar por isso outra vez\u2026 n\u00e3o <em>consigo<\/em> assisti-la morrer outra vez, n\u00e3o por minha culpa, por minha <em>causa<\/em>\u2026 \u2014 confessou, e detestou o qu\u00e3o pat\u00e9tico havia soado para seus pr\u00f3prios ouvidos, mas havia apenas verdades em suas palavras. Uma honestidade visceral causada pela exaust\u00e3o mental de uma tortura cont\u00ednua, um desolar cansado da entidade que a tudo vira, e a tudo corroera. \u2014 Admito que estava errado, que voc\u00ea estava certa. N\u00e3o h\u00e1 poder maior do que o teu, meus irm\u00e3os, me curvo diante de sua grandeza. \u2014 Torceu para que, com aquela admiss\u00e3o, sua puni\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o estivesse acabada, mas ele sabia melhor do que alimentar apenas v\u00e3s esperan\u00e7as.<br>\u2003\u2003Os deuses n\u00e3o possu\u00edam miseric\u00f3rdia; nem mesmo pelos <em>seus<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Aprecio que finalmente tenha visto a raz\u00e3o, meu irm\u00e3o \u2014 ela ronronou, parecendo satisfeita com a admiss\u00e3o, mas o pesar em sua voz suave e convidativa revelava o que n\u00e3o havia sido dito. <em>N\u00e3o mudava nada<\/em>. Ele ainda estava preso naquela maldi\u00e7\u00e3o, ele ainda estava condenado. \u2014 Mas <em>n\u00f3s<\/em> n\u00e3o <em>podemos<\/em> quebrar acordos. A regra sempre foi clara e un\u00e2nime. Eu sinto muito.<br>\u2003\u2003Ele ergueu a linha de seu olhar, e por um longo momento, apenas encarou seus irm\u00e3os em sil\u00eancio, observando-os oscilar entre as apar\u00eancias que vestiam. Percebeu naquele momento o que anos atr\u00e1s havia se recusado por sua arrog\u00e2ncia e ego: eles eram <em>tudo<\/em>. O complemento e a promessa. Estavam no ar e na busca dos mortais porque era o que oferecia <em>sentido<\/em> para eles, e sem eles, n\u00e3o haveria sequer <em>seu<\/em> dom\u00ednio. O gosto amargo de sua pr\u00f3pria humilha\u00e7\u00e3o ao menos o mantinha p\u00e9 no ch\u00e3o. Estava condenado, sabia disso j\u00e1 fazia um bom tempo, mas ao menos agora, <em>decairia<\/em> de forma diferente. N\u00e3o desta vez, desta vez ele n\u00e3o seria a condena\u00e7\u00e3o de %Eva%. Ele n\u00e3o assistiria sua morte <em>outra vez<\/em>. A manteria longe, e a esqueceria \u2014 como deveria t\u00ea-lo feito h\u00e1 muito tempo.<br>\u2003\u2003\u2014 Se serve de algo, estou feliz que finalmente tenha compreendido parte da li\u00e7\u00e3o, mas se ainda est\u00e1 aqui, meu irm\u00e3o, significa que n\u00e3o compreendeu o todo ainda. Encontre a resposta voc\u00ea mesmo, ou apenas aceite seu destino, isto eu deixo com voc\u00ea, mas n\u00e3o vou mais ajud\u00e1-lo ou aceit\u00e1-lo aqui, eu n\u00e3o posso. \u2014 Ele n\u00e3o ergueu seu olhar desta vez, apenas absorveu as palavras, ainda que gentis, definitivas de seus irm\u00e3os, tensionou sua mand\u00edbula com for\u00e7a, observando as luvas, sem enxerg\u00e1-las. Estavam desgastadas, as pontas dos dedos come\u00e7avam a descosturar, um indicativo que em breve teria que troc\u00e1-las por novas. Sentiu quando a magia atravessou ao seu redor, quando o cheiro intoxicante <em>de %Eva%<\/em> desapareceu, e em seu lugar havia apenas o familiar aroma de carbono queimado, gasolina, lixo a c\u00e9u aberto, suor e urina das ruas de Nova York.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u2014 resmungou ele, baixo, ainda sem desviar os olhos de suas luvas. \u2014 N\u00e3o serve de <em>nada<\/em>. \u2014 Se ele havia dito para seus irm\u00e3os ou para si, <em>isso<\/em> ele n\u00e3o saberia dizer. N\u00e3o houve mais resposta do outro lado. Ele estava, outra vez, <em>sozinho<\/em>.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Treze anos antes.<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2403],"class_list":["post-9117","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-decay"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9117"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}