{"id":9108,"date":"2025-12-02T13:57:30","date_gmt":"2025-12-02T16:57:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-12-02T14:01:05","modified_gmt":"2025-12-02T17:01:05","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/nda\/prologo\/","title":{"rendered":"PR\u00d3LOGO"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<strong>QUEM \u00c9 A PORRA DE %ERIN% %VANHELSING%?<\/strong><br>\u2003\u2003Se ganhasse uma moeda para cada vez que ouvi essa pergunta, estaria agora deitada em um montante de dinheiro t\u00e3o grande que facilmente poderia me afogar \u2014 talvez eu gostasse disso. Mais fascinante que isso, eram apenas as perguntas nada discretas de esquisit\u00f5es e fofoqueiros para saber <em>quem<\/em> era o novo filho da puta que estaria enfiando a l\u00edngua, dedos ou o pau na minha boceta \u2014 <em>essa<\/em> era uma resposta f\u00e1cil, <em>nunca<\/em> a mesma pessoa por muito tempo. Preciso admitir que j\u00e1 a ouvi tantas vezes que tenho decorado vividamente <em>quem<\/em> muito provavelmente a ir\u00e1 fazer: apresentadores sem carisma algum tentando entrar em assuntos desconfort\u00e1veis para engajar alguma revela\u00e7\u00e3o que ir\u00e1 fazer seus n\u00fameros crescerem, ou apenas alguma criatura aleat\u00f3ria querendo expressar algum falso intelectualismo ao deixar-me sem palavras; n\u00e3o faz, mas \u00e9 divertido v\u00ea-los <em>tentar<\/em>. A resposta, todavia, varia dependendo do meu humor. \u00c0s vezes, quando desejo manter a discri\u00e7\u00e3o e escapar da pergunta o mais elegantemente que consigo, direi simplesmente: <em>\u201cAinda estou descobrindo\u201d<\/em>, quando estou querendo ser doce, encaro a c\u00e2mera com um sorriso meigo e digo, at\u00e9 mesmo quase timidamente: <em>\u201cuma garota com sonhos muito grandes, e um temperamento bem ruim\u201d<\/em>, quando quero ser sarc\u00e1stica, apenas murmuro <em>\u201cN\u00e3o tenho ideia, deixo para que os outros digam\u201d,<\/em> mas a minha resposta preferida? Quando <em>realmente<\/em> estou querendo escandaliza-los ou apenas roubar-lhe as palavras, compartilhando do desconforto imposto a mim, simplesmente direi a mais pura verdade, o mais c\u00ednica e doce poss\u00edvel que consigo.<br>\u2003\u2003<em>%Erin% %VanHelsing% \u00e9 uma vadia sem cora\u00e7\u00e3o<\/em>.<br>\u2003\u2003Agora, veja s\u00f3, essa descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi uma conclus\u00e3o pessoal minha. Na verdade, viera de um ator de cinema estrangeiro, do qual o nome sequer posso dizer que me lembro de fato. Alegava que havia se apaixonado por mim durante alguma grava\u00e7\u00e3o de um filme de a\u00e7\u00e3o em Lyon, na Fran\u00e7a. O filme, lembro-me do nome, era <em>Copenhagen<\/em>, ou algo do tipo. Lembro-me que ele era o protagonista ao lado de uma atriz gen\u00e9rica, mas graciosa e at\u00e9 mesmo divertida. Lembro-me de ter visto o rosto dele em algum lugar, talvez uma cafeteria em Marselha, ou em meio ao <em>Mercado de Pulgas<\/em> em Paris, nas ruas, disfar\u00e7ado e a salvo de olhares alheio; conversamos, acho que devo ter flertado com ele tamb\u00e9m, porque ele ficava facilmente corado com algo que dizia, mas se hav\u00edamos tido um caso ou n\u00e3o, <em>isso<\/em>, eu n\u00e3o saberia dizer ao certo. N\u00e3o era como se eu estivesse <em>preocupada<\/em> em <em>lembrar-me<\/em> de algo daquele dia, muito menos <em>dele<\/em>. At\u00e9 onde sei, ele poderia estar apenas mentindo para ganhar visibilidade \u2014 e \u00e9 claro, ganhou no fim das contas, todo mundo <em>adora<\/em> vilanizar uma mulher sem motivo algum, apenas pelo <em>prazer<\/em> de dizer <em>\u201ceu sempre soube que ela era ruim\u201d<\/em> \u2014, ou ele poderia estar dizendo a verdade; conhe\u00e7o-me bem o suficiente para n\u00e3o <em>duvidar<\/em> da possibilidade. Uma noite qualquer, em um quarto de hotel qualquer, entediada? A resposta n\u00e3o \u00e9 muito mais do que \u201cquando no inferno, se entregue ao diabo\u201d, e acredite, eu o faria <em>apenas<\/em> pelo despeito de tudo. Acontece que o ator em quest\u00e3o, na verdade estava <em>bem<\/em> certo em descrever-me assim.<br>\u2003\u2003No fim das contas, <em>sou mesmo<\/em> uma vadia sem cora\u00e7\u00e3o; mas uma puta vadia rica e gostosa, sendo assim, <em>qual<\/em> seria a necessidade de possuir um cora\u00e7\u00e3o? Aonde isso iria levar-nos?<br>\u2003\u2003Sei que devo ter destru\u00eddo o ego dele de alguma forma, ainda ou\u00e7o pelos corredores e at\u00e9 mesmo de amigos em comum de que o dito cujo <em>me detesta<\/em>. N\u00e3o perde a chance de me xingar sempre que me encontra, mas tamb\u00e9m <em>sei<\/em> que se lhe desse <em>mais<\/em> uma chance, ele igualmente n\u00e3o hesitaria em pular na minha cama o mais r\u00e1pido que conseguisse. Acho que sua maior frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 que, ao menos para mim, tenho <em>muitas<\/em> op\u00e7\u00f5es melhores do que algu\u00e9m t\u00e3o med\u00edocre, que a coisa mais impactante que poderia ter, \u00e9 justamente um personagem que contrasta com sua personalidade real. Mas se quiser <em>realmente<\/em> entender quem %Erin% %VanHelsing% \u00e9, preciso entrar em um t\u00f3pico desconfort\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Quando as pessoas me questionam quem diabos eu sou? Ou ao menos, quem <em>%Erin% %VanHelsing%<\/em> \u00e9, eles querem ouvir algo que lhes agrade: a confirma\u00e7\u00e3o de um preconceito relacionado ao meu nome, apenas para poder enfatizar como eles <em>\u201csabiam\u201d<\/em> disso, ou a pura e inerente motiva\u00e7\u00e3o de me constranger da melhor forma poss\u00edvel. \u00c0s vezes, ofere\u00e7o a d\u00e1diva da d\u00favida, apenas pelo prazer pessoal de faz\u00ea-los andar em c\u00edrculos. Mas qualquer pessoa <em>realmente<\/em> interessada em compreender-me, vai perceber, muito r\u00e1pido, que n\u00e3o h\u00e1 como <em>saber<\/em> quem \u00e9 <em>%Erin% %VanHelsing%<\/em> sem entender <em>quem<\/em>, primeiro, foi a <em>porra<\/em> de Patrick Rooney.<br>\u2003\u2003Um ex? Amante? Stalker? Ah, n\u00e3o, n\u00e3o, Patrick Rooney, ou como os amigos de bar dele o chamavam: <em>Paddy<\/em>, \u00e9 algo <em>bem<\/em> pior do que um ex relacionamento. Ele \u00e9 <em>meu pai<\/em>. Patrick Rooney era um homem de classe social m\u00e9dia alta, o pai era um neurologista, trabalhava em um hospital p\u00fablico, mas ficou <em>bem<\/em> conhecido na ind\u00fastria pelo caso extraconjugal que havia tido com uma das estagi\u00e1rias de enfermagem, na \u00e9poca com 20 anos; anos depois, a mesma enfermeira o processou e venceu um caso de aliciamento contra ele \u2014 quer dizer, bom para ela \u2014,&nbsp; com uma professora de ensinos religiosos do ensino m\u00e9dio, curiosamente, devota ferrenha da religi\u00e3o cat\u00f3lica romana, que acreditava piamente que at\u00e9 mesmo o ato de respirar poderia ser considerado pecado \u2014 n\u00e3o h\u00e1 nada mais sadomasoquista do que um cat\u00f3lico desesperado por puni\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Apesar de seus problemas internos, constru\u00edram uma imagem s\u00f3lida de uma fam\u00edlia perfeita, com um filho perfeito \u2014 veja s\u00f3, o erro que cometeram, deixaram Patrick <em>acreditar<\/em> que era <em>alguma coisa<\/em>. Patrick cresceu assim, um garoto cercado do bom e do melhor, com a certeza de que todos ao seu redor o amavam, enganado pelos pais e amigos, quando na realidade n\u00e3o passava de um garoto <em>med\u00edocre<\/em>, com uma personalidade narcisista, terrivelmente inseguro e com aspira\u00e7\u00f5es de grandeza que nunca condizem com seus <em>\u201ctalentos\u201d<\/em> pessoais. Cresceu no interior de Galway, mas teve que se mudar com seu pai e sua nova fam\u00edlia para Dublin quando tinha 12 anos, ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo do caso empestear a cidade. \u00c9 claro que Patrick escolheu seguir o pai, e n\u00e3o ficar com a m\u00e3e, afinal, <em>quem<\/em> diabos poderia oferecer a ele a vida que desejava se n\u00e3o o pai neurologista? Aos 15 anos, Patrick achava que era o cara <em>mais gostoso<\/em> da escola \u2014 n\u00e3o era, de acordo com fotografias, na verdade era Cormac Murphy, com olhos intensos e sorriso torto cativante \u2014, mas na verdade era s\u00f3 um zero \u00e0 esquerda t\u00e3o f\u00e1cil que bastava soprar em seu ouvido da maneira certa que mancharia suas cal\u00e7as em segundos.<br>\u2003\u2003Para a sorte de Patrick, e completo azar dela, ele conheceu Siobhan \u2014 se pronuncia <em>Shivawn<\/em> \u2014 O\u2019Hara, a garota que se sentava na frente de sua mesa durante as aulas de biologia e hist\u00f3ria. Opinada, destemida, com um olhar intenso como fogo, e um riso capaz de iluminar uma sala inteira, Siobhan tinha suas prioridades <em>bem<\/em> estabelecidas: iria se formar com honra no ensino m\u00e9dio em Dublin, de l\u00e1 partiria ent\u00e3o para Londres, com o \u00fanico prop\u00f3sito de se tornar a <em>melhor<\/em> no curso de Psicologia, e ent\u00e3o iniciaria sua carreira como uma terapeuta de casal, em pouco tempo conseguiria estabelecer seu nome com esfor\u00e7o, suor e sagacidade se tornaria um exemplo para a comunidade terap\u00eautica, voltaria para Oxford, \u00e9 claro, mas desta vez como Mestre, aos 30 anos teria se tornado finalmente Doutora, e com 35, seria PhD, aos 40 anos? Tinha certeza de que o <em>pr\u00eamio Nobel<\/em> lhe era garantido. Siobhan O\u2019Hara possu\u00eda toda sua vida <em>scriptada<\/em> e estava determinada a conquist\u00e1-la, custasse o que custasse, mas ent\u00e3o, ela derrubou sua caneta preferida no ch\u00e3o. E <em>esse<\/em> foi seu erro.<br>\u2003\u2003Quando se levantou para peg\u00e1-la, Patrick Rooney j\u00e1 a havia encontrado, com seu sorriso caracter\u00edstico e uma piada ensaiada na ponta da l\u00edngua. Pode dizer o que quiser sobre Patrick, mas uma coisa era ineg\u00e1vel sobre ele: al\u00e9m de ser uma figura pat\u00e9tica, miser\u00e1vel em seu cerne e com a profundidade de um pires, o cara <em>sempre<\/em> havia sido <em>carism\u00e1tico<\/em> ao menos. \u00c9 algo comum, se quer saber, as piores pessoas que voc\u00ea ir\u00e1 encontrar, muito provavelmente v\u00e3o tentar compensar com charme e carisma para agradar-lhe, afinal, quem gostaria de ter por perto algu\u00e9m ruim, se n\u00e3o h\u00e1 nenhum retorno positivo? De qualquer forma, foi naquele momento que tudo deu errado para Siobhan, mas <em>muito<\/em> certo para Patrick. Em menos de tr\u00eas meses, come\u00e7aram a namorar, e os planos de Siobhan passaram a ser <em>\u201cnossos planos\u201d<\/em>, Patrick, como uma doen\u00e7a contagiosa, se infiltrou na vida de Siobhan contaminando tudo ao seu redor, de repente, ela n\u00e3o era mais a estudante modelo, a melhor da turma, mas a namorada do incr\u00edvel Patrick Rooney, o garoto de ouro do col\u00e9gio.<br>\u2003\u2003Siobhan descobriu que estava gr\u00e1vida no dia de envio para as aplica\u00e7\u00f5es para as universidades do pa\u00eds. O choque foi tamanho, que a jovem s\u00f3 conseguiu curvar-se em posi\u00e7\u00e3o fetal no banheiro de seu quarto. Patrick, por sua vez, estava recebendo o boquete de sua vida na casa da \u00e1rvore de uma das melhores amigas de Siobhan \u2014 n\u00e3o sabia naquela \u00e9poca, mas essa amiga na verdade s\u00f3 queria ter certeza de sua sexualidade; na verdade, era apaixonada mesmo por Siobhan. A not\u00edcia foi recebida com um choque, mas uma vez que a merda j\u00e1 estava feita, o prospecto de uma fam\u00edlia tradicional, e o sonho <em>\u201camericano\u201d<\/em> havia se tornado muito <em>mais forte<\/em> do que a percep\u00e7\u00e3o <em>\u00f3bvia<\/em> da realidade que lhes cabia. N\u00e3o demorou muito para que Patrick fosse morar com Siobhan; arrumou um emprego que pagava um montante decente com a ajuda do pai, e alugou um apartamento bem ruim no centro da cidade. J\u00e1 Siobhan trabalhava meio per\u00edodo de casa, revisora de textos para uma editora de livros did\u00e1ticos na \u00e1rea de <em>tanatopraxia<\/em>, e atendente.<br>\u2003\u2003O nascimento do beb\u00ea estava marcado para o final de Maio, mas por uma tentativa de interven\u00e7\u00e3o do destino, talvez por Siobhan ser melhor do que Patrick jamais mereceria, acabou perdendo-o em uma noite chuvosa de Setembro. Estava sozinha quando aconteceu, e levou uma semana inteira para conseguir ter a coragem necess\u00e1ria para dizer a Patrick o ocorrido. Patrick, \u00e9 claro, fez a situa\u00e7\u00e3o toda ser sobre ele, mas ao fim de tudo, percebendo que Siobhan poderia abandon\u00e1-lo, fez o que jamais seria capaz de comprometer-se, <em>a pediu em casamento<\/em>.<br>\u2003\u2003Agora, veja, Siobhan <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> a minha m\u00e3e biol\u00f3gica, mas foi, de certa forma, a <em>\u00fanica<\/em> que tive em minha vida. N\u00e3o \u00e9 culpa dela, todavia, que eu seja do jeito que sou. Siobhan havia tentado seu melhor comigo, o problema \u00e9 que, talvez, eu seja <em>muito<\/em> filha dos meus pais para valorizar algo assim t\u00e3o bom \u2014 para variar; mas funcionou com Niamh, minha meia-irm\u00e3. Quando Siobhan engravidou novamente, alguns anos depois, deu \u00e0 luz a uma garotinha ador\u00e1vel, uma mistura perfeita de tudo o que havia de bom em Siobhan, sua intelig\u00eancia, apar\u00eancia e at\u00e9 mesmo docilidade, e o nariz de Patrick. O que Siobhan n\u00e3o sabia era que, enquanto chegava aos est\u00e1gios finais de sua gravidez, Patrick havia ouvido um de seus colegas no trabalho dizer que ele possu\u00eda uma voz muito boa e que deveria tornar-se cantor \u2014 era uma piada, mas Patrick <em>nunca<\/em> foi assim t\u00e3o inteligente para entender <em>sarcasmo<\/em> direcionado a si mesmo \u2014, e sem pensar duas vezes, havia deixado o emprego est\u00e1vel para cantar em pubs e alguns bares da cidade, onde conheceu a <em>Cherry<\/em>.<br>\u2003\u2003Isso a\u00ed, minha m\u00e3e biol\u00f3gica? \u00c9 a porra de uma <em>stripper<\/em> de uma boate de luxo que se chamava <em>Cherry<\/em>. Como ela ganhou o apelido? Passava cereja nos l\u00e1bios toda vez antes de subir ao palco, e ent\u00e3o dizia aos homens, e \u00e0s vezes algumas mulheres, que era apenas o gosto que ela <em>tinha<\/em> \u2014 alguns idiotas acreditavam, e sim, estou totalmente falando de Patrick aqui. De qualquer forma, os dois acabaram se envolvendo quando ele se apresentou na boate que ela dan\u00e7ava, o caso acabou tornando-se algo frequente, Patrick, sendo a criatura pat\u00e9tica que era, gostava da sensa\u00e7\u00e3o de aventura, do poder e do <em>segredo<\/em> que um relacionamento <em>extraconjugal<\/em> lhe dava. Sua inseguran\u00e7a \u2014 bem fundamentada, na verdade \u2014 era t\u00e3o grande que a valida\u00e7\u00e3o de uma stripper se tornou, para ele, <em>um v\u00edcio<\/em>. E quanto a Cherry? Bem, dinheiro era dinheiro, ela estava ali a trabalho, e nada mais \u2014 n\u00e3o d\u00e1 para julg\u00e1-la s\u00f3 por fazer seu trabalho. Acontece que Patrick <em>tinha<\/em> um <em>modus operandi<\/em>, e sempre que encontrava algu\u00e9m que considerava <em>\u201cbom o suficiente\u201d<\/em> tratava de dar um jeito de furar a camisinha. Precoce como era, ele j\u00e1 teria terminado <em>antes<\/em> que a mulher em quest\u00e3o sequer pudesse <em>pensar<\/em> em sentir algum prazer \u2014 j\u00e1 disse que era pat\u00e9tico, n\u00e3o? \u2014, e com <em>Cherry<\/em> n\u00e3o foi diferente.<br>\u2003\u2003Acontece que ter um filho <em>acabaria<\/em> com a <em>carreira<\/em> de Cherry, e ela n\u00e3o estava nem um pouco disposta a continuar a gravidez \u2014 \u00e0s vezes imagino que ela <em>deveria<\/em> ter prosseguido com sua decis\u00e3o, teria sido mais f\u00e1cil para todos, mas, novamente, a escolha n\u00e3o era de ningu\u00e9m sen\u00e3o dela a ser feita \u2014, mas desesperado para n\u00e3o perder seu dep\u00f3sito de endorfina, Patrick conseguiu convencer sua m\u00e3e a conversar com Cherry. No fim, Cherry deu \u00e0 luz em um curto espa\u00e7o de <em>meses<\/em> a Siobhan, que n\u00e3o demorou muito a receber a conta em sua porta. <em>Eu<\/em>, enrolada em um manto, nos bra\u00e7os de uma mulher desconhecida, a perfeita imagem feminina de <em>Patrick<\/em>. Dizer que o mundo de Siobhan foi destru\u00eddo em quest\u00f5es de segundos, seria amenizar sua dor, \u00e9 algo que n\u00e3o desejo sob hip\u00f3tese alguma ser\u00e1 falar por ela, mas quando Cherry se apresentou e explicou sua situa\u00e7\u00e3o, Siobhan percebeu o que <em>nunca<\/em> havia tido; o que havia sacrificado em troca de uma fantasia med\u00edocre de uma desculpa pat\u00e9tica de <em>homem<\/em>.<br>\u2003\u2003Patrick, sendo o covarde que era, apenas escolheu desaparecer de sua vida. Fez as malas \u00e0s pressas, entrou na primeira balsa que encontrou e desapareceu em algum lugar da Esc\u00f3cia. Fui abandonada aos 3 meses, na porta de uma desconhecida que havia acabado de descobrir que o marido, n\u00e3o s\u00f3 havia mantido um caso extraconjugal por quase um ano inteiro, como, igualmente, a abandonado com todas as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es para lidar. Cherry n\u00e3o queria uma filha, e Patrick, bem, deste n\u00e3o preciso dizer nada, coube a Siobhan decidir o que fazer com a intrusa em sua vida perfeita e a mem\u00f3ria <em>fixa<\/em> da trai\u00e7\u00e3o que sofrera. Suponho que a maioria das pessoas teria apenas entregado a crian\u00e7a para os av\u00f3s paternos e deixado que <em>estes<\/em> lidassem com a situa\u00e7\u00e3o, mas Siobhan, n\u00e3o. Siobhan <em>sempre<\/em> foi a melhor pessoa que poderia <em>respirar<\/em> nesse mundo, e com uma express\u00e3o determinada, e um desejo por <em>evidenciar<\/em> a todos que a conheciam que <em>Patrick<\/em> n\u00e3o era <em>nada<\/em> sen\u00e3o uma barata, arrumou suas malas e as de Niamh, e com n\u00f3s duas nos bra\u00e7os, mudou-se para Londres <em>desperdi\u00e7ar um<\/em> olhar para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Nos estabelecemos em <em>SoHo<\/em>, o lar dos artistas, bo\u00eamios e forasteiros. Embora meu registro ainda estivesse conectado a Patrick, legalmente, sempre fui filha de Siobhan, e puta merda, se ela n\u00e3o fosse a melhor m\u00e3e do mundo. Criou a mim e Niamh em p\u00e9 de igualdade, sem <em>jamais<\/em> favorecer uma das duas, era justa \u2014 mesmo quando <em>eu<\/em> acreditava que ela estivesse sendo injusta \u2014, e apenas se envolvia em nossas vidas quando era necess\u00e1rio um conselho ou um ultimato para melhorar nossas atitudes question\u00e1veis. Quando t\u00ednhamos 10, Siobhan se casou novamente, com um colega professor chamado Liam, um pai divorciado, com riso f\u00e1cil e olhar carinhoso que nos chamava por apelidos com a facilidade que respirava \u2014 Niamh era <em>docinho<\/em>, e eu, <em>amendoim<\/em> \u2014, seu filho, Virgil passava apenas os finais de semanas e f\u00e9rias de ver\u00e3o conosco, no restante do tempo morava com sua m\u00e3e e o padrasto em S\u00e3o Francisco, na Calif\u00f3rnia.<br>\u2003\u2003<em>Agora<\/em>, as coisas mudam um pouco. N\u00e3o, eu n\u00e3o tive nada com Virgil, na verdade sempre o achei meio esquisito, at\u00e9 mesmo <em>nojento<\/em>, cheirava a perfume caro e bala de caf\u00e9 \u2014 odeio caf\u00e9. Al\u00e9m disso, fui <em>eu<\/em> que ensinou ele como chupar um pau, e o cara era mais bra\u00e7os do que qualquer outra coisa. Acontece que enquanto Niamh seguia os passos de sua m\u00e3e, focando em seu futuro e esfor\u00e7ando-se para ter uma carreira impec\u00e1vel escolar que lhe rendesse a carta perfeita de aceita\u00e7\u00e3o por uma das <em>grandes elites<\/em>, Virgil e eu n\u00e3o \u00e9ramos assim t\u00e3o ambiciosos, t\u00ednhamos uma aposta pessoal de ver o quanto de maconha poder\u00edamos fumar no por\u00e3o sem que nossos pais percebessem que est\u00e1vamos chapados para porra, e na maioria das vezes, ele acabava envolvido em uma briga e sobrava para mim ving\u00e1-lo. Formamos uma <em>boa<\/em> dupla; o que n\u00e3o era bom para ningu\u00e9m.<br>\u2003\u2003No segundo ano, ele foi expulso do col\u00e9gio, para n\u00e3o ficar atr\u00e1s, tive a brilhante ideia de vandalizar o carro do diretor do col\u00e9gio, o que me rendeu tr\u00eas dias em uma pris\u00e3o e um aviso de que, em uma pr\u00f3xima vez, haveria consequ\u00eancias mais severas. Meus privil\u00e9gios de sair e me divertir com coisas est\u00fapidas foram revogados imediatamente por Liam, e tive que passar por pelo menos seis meses de terapia, porque Siobhan <em>sabia<\/em> que havia algo de errado comigo. Virgil conseguiu para mim uma carta dispensando a necessidade de terapia, ent\u00e3o, por uns bons quatro meses, apenas fingia que frequentava a terapia enquanto, na verdade, vagava pelas ruas sem rumo com Virgil, buscando alguma coisa que fosse me oferecer alguma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, ainda que momentaneamente \u2014 nunca deu.<br>\u2003\u2003Acabamos em um centro comunit\u00e1rio, do conhecido de um conhecido de um ex-namorado de Virgil. L\u00e1, percebi, n\u00e3o era um porto seguro, mas talvez servisse de algo; foi <em>assim<\/em> que aprendi a tocar instrumentos. A professora de m\u00fasica, Senhora Martinez, era severa, mas do tipo que era capaz de inspirar qualquer um a tentar ser o <em>melhor<\/em> que podia. Foi <em>ela<\/em> que havia despertado <em>aquele<\/em> desejo em mim. O desejo de ser <em>algo<\/em>; para o bem ou mal, posteriormente, nunca soube dizer se ela foi um anjo em minha vida, ou o dem\u00f4nio que a condenou, mas \u00e9 ineg\u00e1vel o efeito que ela <em>teve<\/em> um impacto irrevers\u00edvel em minha vida. Entre bandas de quintal adolescentes e apenas passatempos, comecei a entender a atra\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel ao palco, pude compreender <em>por que<\/em> Patrick gostava daquele lugar, e talvez <em>por isso<\/em> eu odiasse <em>mais ainda<\/em>; eu <em>tamb\u00e9m<\/em> havia gostado.<br>\u2003\u2003Tocar <em>covers<\/em> de m\u00fasicas antigas, fazer piadas e encantar a plateia havia se tornado um v\u00edcio delicioso por minha pele, toda a aten\u00e7\u00e3o, os olhares, os sorrisos, as cabe\u00e7as e corpos se movendo, faz com que voc\u00ea se sinta uma deusa entre meros mortais \u2014 mal sabia eu o que viria. Voc\u00ea n\u00e3o precisa ser extremamente talentoso para conseguir a aten\u00e7\u00e3o dos outros, voc\u00ea s\u00f3 precisa ser seguro o suficiente, e um pouco de um bastardo charmoso, e <em>isso<\/em>, eu havia herdado de Patrick como uma doen\u00e7a cr\u00f4nica. Ajuda tamb\u00e9m que minha apar\u00eancia seja <em>muito<\/em> pr\u00f3xima da de Patrick, tenho os mesmos cabelos que ele, o mesmo tom, e cachos grossos e desalinhados, a diferen\u00e7a \u00e9 que os meus eram maiores e mais bagun\u00e7ados, tenho o mesmo tom de pele, os mesmos olhos e nariz, mas a fisionomia, o corpo e os l\u00e1bios s\u00e3o de <em>Cherry<\/em> \u2014 uma fedelha com um corpo de stripper e atitude petulante? Fa\u00e7a as contas do <em>porqu\u00ea<\/em> eu recebia tanta aten\u00e7\u00e3o assim.<br>\u2003\u2003Seja como for, quando Niamh terminou o col\u00e9gio, e Liam ofereceu-se para nos acompanhar com uma viagem para as universidades, neguei r\u00e1pido demais, r\u00e1pido o suficiente para receber uma sobrancelha erguida e um olhar desconfiado. Verdade seja dita, a \u00fanica que <em>sempre<\/em> havia tido um futuro entre n\u00f3s tr\u00eas era Niamh, ent\u00e3o, quando a oportunidade surgiu, Virgil foi obrigado a me arrastar com ele para S\u00e3o Francisco passar um tempo com sua m\u00e3e e seu padrasto. Foi durante um desses finais de semana, sem prop\u00f3sito al\u00e9m do desejo de apenas perder-se nas exce\u00e7\u00f5es que, ao subir no karaok\u00ea para cantar <em>minha pior<\/em> vers\u00e3o de alguma m\u00fasica, Virgil e eu percebemos que n\u00e3o est\u00e1vamos <em>sozinhos<\/em>. <em>Joel Massaro<\/em> estava ali, e havia visto tudo \u2014 havia <em>gostado<\/em>.<br>\u2003\u2003Agora, quem diabos \u00e9 Joel Massaro, voc\u00ea deve se questionar? Um filho da puta desgra\u00e7ado, podre por dentro que n\u00e3o possui nenhum resqu\u00edcio de humanidade dentro de si; e tamb\u00e9m a porra do <em>melhor<\/em> empres\u00e1rio que j\u00e1 havia andado por Los Angeles. O apelido entre os <em>shareholders<\/em> e <em>investidores<\/em> para ele \u00e9 <em>Midas<\/em>, porque atrav\u00e9s de sua orienta\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 capaz de esculpir e moldar em <em>ouro<\/em> qualquer um <em>que ele desejar<\/em>. Joel Massaro <em>\u00e9 o cara<\/em>. Sabe exatamente o que funciona para o p\u00fablico, como atra\u00ed-lo, como criar controv\u00e9rsias, como jogar aquele jogo e faturar <em>milh\u00f5es<\/em>. Ent\u00e3o mesmo que ele seja um desgra\u00e7ado, desumano e depravado do caralho, t\u00ea-lo do seu lado \u00e9 bom o suficiente para que voc\u00ea tenha o <em>mundo<\/em> em suas m\u00e3os. E foi o que ele nos entregou: <em>o mundo<\/em>, aos nossos p\u00e9s, a adora\u00e7\u00e3o, os est\u00e1dios lotados e a <em>porra<\/em> da endorfina de estar em cima de um palco ouvindo uma multid\u00e3o gritar por seu nome.<br>\u2003\u2003Agora, quem \u00e9 %Erin% %VanHelsing%? Eu lhe digo: <em>tudo o que Patrick Rooney jamais foi, e <strong>mais<\/strong>.<\/em><br>\u2003\u2003E a melhor parte? \u00c9 que eu n\u00e3o fa\u00e7o ideia de <em>quem<\/em> ele seja, de <em>como<\/em> ele seja, ou tenho o menor <em>interesse <\/em>por saber. A \u00fanica coisa que sei \u00e9 que <em>ele<\/em> pode me ver, que ele <em>me acompanha<\/em>, querendo ou n\u00e3o, que <em>n\u00e3o pode<\/em> fugir do meu rosto, n\u00e3o importa para onde tente desviar o olhar, n\u00e3o importa o que <em>tente<\/em> fazer. Eu <em>sou<\/em> o que ele queria ser, e que <em>jamais<\/em> ir\u00e1 conseguir. Mas \u00e9 Siobhan quem mora em um casar\u00e3o confort\u00e1vel no interior de Killarney, \u00e9 Niamh quem desfila ao meu lado em carpetes vermelhos e premia\u00e7\u00f5es. \u00c9 Virgil quem berra comigo, at\u00e9 a voz ficar rouca, banhando-se na adora\u00e7\u00e3o cega de uma multid\u00e3o de rostos maravilhados e desesperados por nossa aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o Cherry. N\u00e3o <em>ele<\/em>. Ent\u00e3o sim, eu <em>sou<\/em> uma vadia sem cora\u00e7\u00e3o, e t\u00e3o rancorosa <em>quanto<\/em>. Acredite em mim quando digo, n\u00e3o me contento com a mediocridade, se farei algo, ent\u00e3o serei <em>a melhor<\/em> a fazer, independentemente do que seja.<br>\u2003\u2003<em>Agora<\/em> que voc\u00ea <em>sabe<\/em> exatamente quem sou, permita-me levar <em>voc\u00ea<\/em> para o maldito problema em m\u00e3os. Tudo nos leva para a maldita <em>after party<\/em> da gravadora <em>Altas Records.<\/em> Este \u00e9 o momento em que, ap\u00f3s longas horas de sorrisos for\u00e7ados, elogios disfar\u00e7ados de amea\u00e7as veladas, olhares sugestivos e maneirismos calculados para impressionar os lobos em terno e gravada disfar\u00e7ados sob a pele de cordeiros, falsamente preocupados com seus artistas, nos observando como peda\u00e7os de carne a disposi\u00e7\u00e3o, nos era oferecido como <em>\u201crecompensa\u201d<\/em>; uma forma enviesada de render mais algumas hist\u00f3rias para impulsionar ou destruir uma carreira. Para mim, sempre foram uma forma de exposi\u00e7\u00e3o indireta para continuar o trabalho, uma vitrine para os produtores, empres\u00e1rios e at\u00e9 mesmo interessados. Mais do que o dinheiro que ganhava, Joel Massaro <em>gosta<\/em> de exibir seus trof\u00e9us como o garotinho mimado que \u00e9. E na maioria das noites, seu trof\u00e9u sou <em>eu<\/em>.<br>\u2003\u2003N\u00e3o nesta noite, todavia. Esta noite todas as aten\u00e7\u00f5es est\u00e3o voltadas para os malditos <em>novatos<\/em>. Embora sejam estrangeiros, j\u00e1 se destacavam h\u00e1 um tempo nas listas de mais ouvidos mundiais, s\u00e3o experientes com o <em>showbiz<\/em>, sabem como se portar e encantar, mas somente <em>agora<\/em> haviam conseguido uma parceria deturpada com uma grande gravadora americana \u2014 \u00e9 quase <em>not\u00f3rio<\/em> que, para se conquistar o n\u00edvel internacional de artista, \u00e9 necess\u00e1rio conquistar o p\u00fablico <em>americano<\/em> completamente, e quando digo <em>americano<\/em>, digo <em>o continente<\/em> americano. Movem-se por entre as pessoas com familiaridade, trocam olhares divertidos, curiosos e at\u00e9 mesmo flertam com alguns para manter o encanto. Alguns julgam disfar\u00e7adamente, n\u00e3o parecem estar acostumados com a <em>\u201cpromiscuidade ocidental\u201d<\/em> e sem d\u00favidas, isso me faz <em>quase<\/em> rir.<br>\u2003\u2003Eles j\u00e1 eram um fen\u00f4meno fazia um ano inteiro \u2014 eles j\u00e1 deveriam ter se envolvido em <em>muita merda<\/em> oculta das c\u00e2meras e aten\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, era <em>apenas teatro<\/em>. Quase todo mundo havia ouvido falar neles a essa altura; os <strong><em>BEATBOIZ<\/em><\/strong>, ou coisa do tipo, mesmo a pequena Grace, filha de 2 anos de Niamh, estava obcecada pelas m\u00fasicas grudentas e irritantes deles. N\u00e3o \u00e9 como se fossem composi\u00e7\u00f5es elaboradas, liricamente complexas e at\u00e9 mesmo dram\u00e1ticas, tampouco protestos acalorados, ou inovadoras, s\u00e3o <em>fabricadas<\/em> para serem grudentas, repetitivas e viciantes. Isso com a apar\u00eancia impec\u00e1vel, devastadoramente atraente, era <em>exatamente<\/em> o que <em>Joel Massaro<\/em> gosta. <em>Vende<\/em>.<br>\u2003\u2003E \u00e9 por isso que <em>estou<\/em> aqui. Sou a <em>puta<\/em> dessa noite. Joel quer exibir suas melhores cria\u00e7\u00f5es para os novatos, apresentar a eles o que eles podem se tornar: <em>lendas<\/em>, realmente <em>algu\u00e9m<\/em> naquela ind\u00fastria; e quer lembrar-me <em>quem<\/em> estava no controle de <em>tudo<\/em>, <em>quem<\/em> havia sido o respons\u00e1vel por entregar o mundo em uma bandeja para minhas m\u00e3os sujas e <em>quem<\/em> poderia retir\u00e1-lo <em>facilmente<\/em>. Ent\u00e3o, se quero ficar no lado bom de Joel, o que, para ser sincera, \u00e9 um esfor\u00e7o demasiado, pelo bem do contrato e dos outros membros da banda, pelo bem do que est\u00e1 em risco, preciso entregar a ele <em>exatamente<\/em> o que deseja: a putinha obediente que lhe rende <em>dinheiro<\/em>.<br>\u2003\u2003Posso fazer isso, mas isso n\u00e3o significa que <em>preciso<\/em> aceitar <em>calada<\/em>. Se Joel espera que eu interprete aquele papel, <em>irei<\/em> o fazer da <em>melhor<\/em> forma que <em>sei<\/em>. Serei a <em>melhor<\/em>; darei a Joel <em>motivo<\/em> para se lembrar <em>quem<\/em> ele havia criado, e <em>por que<\/em> aquilo <em>sempre<\/em> voltaria a morder seu rabo murcho e branquelo. E come\u00e7aria pelo <em>novo<\/em> brinquedinho de Joel.<br>\u2003\u2003<em>%Lee% %SeoJun%<\/em>.<br>\u2003\u2003Tenho que admitir, o l\u00edder do grupo \u2014 embora suponho que n\u00e3o seja o <em>cantor principal<\/em> \u2014 \u00e9 <em>realmente<\/em> bonito. Os cabelos escuros como a noite est\u00e3o desalinhados a essa altura, talvez pelas tantas vezes que ele os havia ajeitado durante a noite, ainda assim, permanecem no <em>slideback<\/em> elegante, algumas mechas pendem por seus olhos, algo que faria com que qualquer um parecesse <em>cansado<\/em>, mas nele, <em>estranhamente<\/em>, apenas faz parecer <em>relaxado<\/em>, confort\u00e1vel, at\u00e9 <em>demais<\/em> em sua pr\u00f3pria pele. Os olhos intensos, percorrem as pessoas com um desinteresse aparente, quase <em>palp\u00e1vel<\/em>, o rosto proporcional e harmonioso \u00e9 <em>quase<\/em> inexpressivo, uma postura falsa de desinteresse que se mistura com uma neutralidade programada. Age como se fosse <em>superior<\/em> a tudo aquilo. A m\u00e1scara \u00e9 bem <em>\u00f3bvia<\/em>, <em>f\u00e1cil<\/em> de quebrar, o protege e assegurava sua carreira, \u00e9 claro, mas \u00e9 treinada para ocultar suas reais inten\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es diante de situa\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis. A curva do sorriso torto, charmoso, \u00e9 calculada para desviar a aten\u00e7\u00e3o de si para outra pessoa, o flerte, planejado para distrair do t\u00f3pico de interesse e dar margem para uma fuga estrat\u00e9gica. Fazemos isso o tempo todo em entrevistas ou intera\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis. Questiono-me se o <em>pr\u00edncipe encantado<\/em> est\u00e1 t\u00e3o desesperado para rastejar de sua pr\u00f3pria pele e sair dali quanto <em>eu me sinto<\/em>. Mas h\u00e1 algo na postura dele que me faz ter <em>certeza<\/em> de que ele, na verdade, <em>gosta<\/em> da aten\u00e7\u00e3o. Gosta de receber os olhares interessados, admirando-o, at\u00e9 mesmo <em>desejando-o<\/em>, gosta do <em>poder<\/em> que lhe d\u00e1 ao dizer <em>n\u00e3o<\/em>. Gosta de ser <em>inalcan\u00e7\u00e1vel<\/em>, <em>impenetr\u00e1vel<\/em>.<br>\u2003\u2003Vou quebr\u00e1-lo. E vou faz\u00ea-lo se arrepender <em>de cada<\/em> <em>segundo <\/em>dessa noite.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2394],"class_list":["post-9108","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-nda"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/9108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=9108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}