{"id":8990,"date":"2025-11-24T11:38:23","date_gmt":"2025-11-24T14:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-24T11:52:44","modified_gmt":"2025-11-24T14:52:44","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/love-on-the-brain\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cAnd you got me like, oh \u2026 What you want from me? And I tried to buy your pretty heart, but the price too high.\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Berlim chovia como se<\/span> o c\u00e9u se desfizesse em cinza. As luzes dos bares refletiam no asfalto molhado, transformando cada po\u00e7a em um espelho turvo de n\u00e9on e sil\u00eancio. Camila atravessou a rua com o casaco colado ao corpo, o vento cortando as pernas cobertas por meia-cal\u00e7a. O n\u00famero 37 piscava em azul na porta do pr\u00e9dio dele, e ela observava o pisca-pisca daquela fachada, pensando: \u201cquantas vezes prometera n\u00e3o voltar ali?\u201d.<br>\u2003\u2003Subiu sem pensar. Tocou o interfone e, por um segundo, desejou que ele n\u00e3o atendesse. Mas a voz dele veio, arrastada, num ingl\u00eas rouco que ela conhecia demais.<br>\u2003\u2003\u2014 Camila?<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu. O som do \u201cbip\u201d abriu a porta.<br>\u2003\u2003O corredor tinha cheiro de cigarro e caf\u00e9 velho. Quando ele abriu a porta do apartamento, o ar quente a envolveu, junto com aquele olhar que misturava curiosidade e culpa.<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea quer de mim? \u2014 Ele perguntou, meio rindo, meio cansado.<br>\u2003\u2003Camila soltou um suspiro, pendendo a cabe\u00e7a de lado.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sabe o que eu quero, Lukas. S\u00f3 finge que n\u00e3o entende.<br>\u2003\u2003Ele se aproximou, devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tenta comprar tudo, Camila. Tempo, perd\u00e3o&#8230; amor.<br>\u2003\u2003Ela arqueou as sobrancelhas, ferida.<br>\u2003\u2003\u2014 E o seu pre\u00e7o \u00e9 sempre alto demais. \u2014 respondeu para ele.<br>\u2003\u2003Um sil\u00eancio denso se instalou entre os dois. O som da chuva contra a janela parecia ecoar dentro deles, como se o mundo inteiro respirasse junto. Ela queria gritar. Queria virar as costas e desaparecer naquela cidade que nunca a acolhera de verdade. Mas ficou. Porque ele estava ali, e bastava um olhar para que todo o orgulho se desfizesse.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cYou love when I fall apart \/ So you can put me together and throw me against the wall.\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Dentro do apartamento dele, Lukas acendeu outro cigarro, encostado em uma bancada min\u00fascula demais para ser chamada de \u201cilha\u201d, do que seria uma cozinha em conceito aberto. Era um loft pequeno, afinal. A fuma\u00e7a formava espirais lentas, misturando-se ao cheiro de chuva que ela trouxera do lado de fora. Camila o observava em sil\u00eancio. Havia algo na maneira como ele a olhava, uma calma perigosa, como quem sabe exatamente o que causa.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea gosta disso, n\u00e3o \u00e9? \u2014 Ela disse, num tom quase sussurrado. \u2014 Gosta de me ver despeda\u00e7ar.<br>\u2003\u2003Ele deu um meio sorriso, tragando devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez. Mas s\u00f3 porque sei como te juntar de novo.<br>\u2003\u2003Camila se aproximou, parando a poucos cent\u00edmetros dele.<br>\u2003\u2003\u2014 E depois me joga contra a parede \u2014 murmurou.<br>\u2003\u2003Lukas soltou a fuma\u00e7a perto do rosto dela. O ar entre os dois ficou denso, quase palp\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre volta, Camila.<br>\u2003\u2003Ela desviou o olhar, mas a voz saiu firme.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque ainda acho que, dessa vez, voc\u00ea vai me segurar.<br>\u2003\u2003Ele bateu as cinzas queimadas de meio cigarro, sem pressa, no cinzeiro e a m\u00e3o dele encontrou a dela sobre a bancada. O toque era simples, mas tinha a for\u00e7a de um v\u00edcio antigo. Por um instante, Camila quis acreditar que aquele gesto significava algo e que n\u00e3o era s\u00f3 o prel\u00fadio de mais uma queda. Entretanto, os olhos de Lukas sempre meio ausentes, meio fascinantes, diziam outra coisa. Diziam <em>\u201cn\u00e3o v\u00e1\u201d,<\/em> e ao mesmo tempo <em>\u201ceu n\u00e3o sei ficar\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003A chuva intensificou-se l\u00e1 fora. O som preencheu o sil\u00eancio deles, fazendo parecer que a cidade inteira escutava o que n\u00e3o era dito. E, sem saber por qu\u00ea, Camila sorriu. Um sorriso leve, cansado, como quem finalmente entende que ama o que a destr\u00f3i.<br>\u2003\u2003Lukas morava no mesmo apartamento desde que ela o conhecera, dois invernos atr\u00e1s. Um quarto e sala, \u2014 que Camila chamava de loft, e ele, de \u201ccasulo\u201d \u2014 de paredes brancas e janelas largas, onde a cidade parecia respirar l\u00e1 dentro. Camila lembrava bem da primeira vez que entrara ali, o ch\u00e3o coberto de discos, o cheiro de tinta e caf\u00e9 queimado, a m\u00fasica alta demais para um domingo de manh\u00e3. Ela era nova em Berlim, e ele fora o primeiro rosto que a fizera sentir menos estrangeira. Um artista que falava pouco, mas olhava como se entendesse tudo. Por um tempo, isso bastou.<br>\u2003\u2003Agora, o apartamento era o mesmo, mas tudo parecia ligeiramente deslocado. A caneca rachada no balc\u00e3o, o quadro inacabado na parede, o mesmo vinil rodando em um toca-discos antigo. S\u00f3 o sil\u00eancio entre eles era outro, mais espesso, mais cansado.<br>\u2003\u2003Camila se distanciou da bancada e sentou no sof\u00e1 pequeno, as m\u00e3os enfiadas nas mangas do casaco.<br>\u2003\u2003\u2014 Faz quanto tempo desde a \u00faltima vez? \u2014 Ele perguntou.<br>\u2003\u2003Ela deu um meio sorriso.<br>\u2003\u2003\u2014 Tr\u00eas semanas, acho. Ou tr\u00eas meses. Perdi a conta.<br>\u2003\u2003Ele riu, baixo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre volta. \u2014 Lukas repetiu quase como se estivesse tentando entender se ela realmente estava ali, de verdade, ou se era um dejav\u00fa maldito, ou k\u00e1rmico de sua vida.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea sempre me deixa ir \u2014 retrucou.<br>\u2003\u2003O som da chuva batendo nas janelas pareceu preencher o vazio da resposta que ele n\u00e3o deu. Lukas tragou devagar, olhando para ela como se tentasse decifrar um idioma que j\u00e1 conhecia, mas fingia ter esquecido. Camila desviou o olhar para o quadro na parede. Eram tra\u00e7os de um rosto feminino, metade apagado.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea nunca terminou esse retrato.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque ela nunca ficou tempo suficiente \u2014 Ele respondeu.<br>\u2003\u2003A frase a cortou por dentro, mas o tom dele era calmo demais para ser cruel. Camila se levantou, foi at\u00e9 ele.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu ainda estou tentando entender onde termina o que somos e onde come\u00e7a o que voc\u00ea quer.<br>\u2003\u2003Lukas deu de ombros, apagando o cotoco de cigarro no cinzeiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu quero ver voc\u00ea por aqui, mesmo que para isso, voc\u00ea tenha que ir para voltar.<br>\u2003\u2003Ela riu, um riso pequeno, sem humor.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 mesmo isso: voc\u00ea ama quando eu desmorono.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque \u00e9 o \u00fanico momento em que voc\u00ea deixa eu te tocar, de verdade Camila. \u2014 ele respondeu, quase num sussurro.<br>\u2003\u2003Houve um instante de sil\u00eancio em que tudo pareceu suspenso. O ar, a chuva, o som distante de um bonde passando na rua. Camila o encarou, e nos olhos dele havia algo como ternura, mas uma ternura que do\u00eda. E ent\u00e3o ela entendeu: por ela, Lukas nunca a teria de verdade, mas por ele, tamb\u00e9m nunca a deixaria ir por completo. E era exatamente isso que a prendia.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cDon\u2019t you stop loving me (loving me). Don\u2019t quit loving me (loving me). Just start loving me, ooh (loving me)\u201d.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Camila caminhou at\u00e9 a janela. A cidade parecia se dissolver sob a chuva \u2014 postes borrados, t\u00e1xis passando lentos, o som distante de um saxofone vindo de algum bar. Berlim sempre lhe parecera um lugar onde as coisas n\u00e3o se fixavam. As pessoas chegavam e partiam, o calor durava pouco, e at\u00e9 o amor tinha sotaque. Lukas se aproximou por tr\u00e1s, o corpo dele refletido no vidro junto ao dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o devia ter vindo, se pretende fugir outra vez&#8230; \u2014 disse, num tom baixo, quase um aviso.<br>\u2003\u2003Ela manteve o olhar na rua.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o por que veio?<br>\u2003\u2003Camila respirou fundo, sentindo o cheiro familiar de fuma\u00e7a e tinta.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque voc\u00ea nunca para de me amar \u2014 respondeu, sem ironia. \u2014 S\u00f3 muda a forma.<br>\u2003\u2003Lukas encostou o queixo no ombro dela. O toque foi leve, mas bastou para o cora\u00e7\u00e3o dela bater descompassado.<br>\u2003\u2003\u2014 E se um dia eu parar? \u2014 ele perguntou.<br>\u2003\u2003Ela virou o rosto devagar, at\u00e9 que as bocas ficassem a poucos cent\u00edmetros.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, a gente come\u00e7a de novo.<br>\u2003\u2003A resposta ficou suspensa no ar, e por um momento parecia haver apenas o som da respira\u00e7\u00e3o deles. N\u00e3o havia pressa, nem promessa, apenas aquele desejo cansado de quem j\u00e1 se conhece demais para fingir inoc\u00eancia. Lukas passou os dedos pelo cabelo de Camila e o gesto foi quase terno, mas havia uma sombra por tr\u00e1s: a consci\u00eancia de que, depois daquilo, tudo voltaria a ruir. Camila fechou os olhos. Queria esquecer o quanto o amava, mas o corpo parecia lembrar sozinho. Ela sabia que, ao amanhecer, eles provavelmente voltariam ao sil\u00eancio, ao cinismo, \u00e0s paredes brancas e frias, mas naquela noite, bastava o que existia entre um toque e outro. O amor, ali, era algo que queimava devagar e do\u00eda, mas tamb\u00e9m aquecia.<br>\u2003\u2003Camila encostou a testa no vidro frio. Ela lembrou novamente da primeira vez que Lukas a levara ali, o jeito como ele falava devagar, arrastando as palavras em alem\u00e3o e ingl\u00eas, e como ela tentava decifr\u00e1-lo, n\u00e3o apenas pela l\u00edngua, mas pelo corpo, pelo olhar. Ele sempre falava menos do que sentia, e talvez fosse isso que a intrigava tanto. Quando o sentiu se aproximar mais, colando o corpo dele ao dela, n\u00e3o precisou virar. Reconheceria a presen\u00e7a dele at\u00e9 de olhos fechados, o calor exato que se aproximava do seu corpo, o cheiro de tabaco misturado a tinta e inverno. Sentiu o toque leve dos dedos dele percorrendo o contorno de seu bra\u00e7o, subindo at\u00e9 a nuca, e o arrepio que se espalhou foi antigo, o mesmo de sempre, o mesmo que ela jurara n\u00e3o sentir mais.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos ser sempre esse amontoado de peda\u00e7os estilha\u00e7ados, Lukas? \u2014 Ela perguntou. A frase ficou pairando no ar, sem som, apenas a vibra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Sem aguardar mais de dois minutos por uma resposta, Camila o beijou. N\u00e3o por impulso, mas por exaust\u00e3o. O beijo n\u00e3o pedia nada, n\u00e3o prometia nada. Era s\u00f3 o reconhecimento de que, entre o que ela queria e o que ele podia dar, havia um abismo. E mesmo assim, ela saltava. Quando se afastaram, Lukas passou os dedos pelo rosto dela, como quem tenta guardar um contorno. Camila sorriu, um sorriso que era meio dor, meio rendi\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 o meu erro favorito \u2014 murmurou.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o a respondeu. Apenas encostou a testa na dela, e por um instante, Berlim desapareceu. S\u00f3 restava o som da chuva e o amor deles, doendo em sil\u00eancio.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cI\u2019m fist-fighting with fire, just to get close to you. Can we burn something, babe? And I\u2019d run for miles just to get a taste\u2026\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A chuva cessara, mas o ar ainda trazia o cheiro met\u00e1lico do frio e das escadas externas do pr\u00e9dio. O quarto estava quase escuro, iluminado apenas pela l\u00e2mpada do abajur sobre o ch\u00e3o. As roupas espalhadas contavam a hist\u00f3ria que os dois fingiam esquecer toda vez que se tocavam. Camila acordou primeiro. Virou-se de lado e o observou dormindo. Lukas parecia em paz, a respira\u00e7\u00e3o lenta, o bra\u00e7o pendendo fora do len\u00e7ol, a boca entreaberta.<br>\u2003\u2003Ela sentiu uma pontada estranha, como se a calma dele fosse uma l\u00edngua que ela n\u00e3o soubesse mais falar. Pegou o cigarro que ele deixara sobre a mesinha e acendeu. A fuma\u00e7a subiu lenta, cortando o ar espesso. No espelho da parede, ela se viu: o cabelo bagun\u00e7ado, a pele marcada, o olhar cansado. Tinha a impress\u00e3o de que aquele quarto era sempre o mesmo, mesmo quando o tempo passava.<br>\u2003\u2003Lukas despertou quando o som do isqueiro estalou pela segunda vez.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea ainda fuma no meu quarto \u2014 murmurou, a voz rouca.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea ainda me chama de \u201cvoc\u00ea\u201d \u2014 respondeu ela, sem olhar.<br>\u2003\u2003Ele se esticou, apoiando o corpo sobre o cotovelo.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que eu deveria te chamar?<br>\u2003\u2003Camila soltou a fuma\u00e7a devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 De qualquer coisa que soe como perman\u00eancia.<br>\u2003\u2003Ele riu, mas o riso veio baixo, amargo.<br>\u2003\u2003\u2014 Perman\u00eancia \u00e9 um luxo que eu nunca soube dar.<br>\u2003\u2003Ela apagou o cigarro, levantou-se e vestiu a camisa dele, grande demais nos ombros.<br>\u2003\u2003\u2014 Engra\u00e7ado \u2014 disse, caminhando at\u00e9 a janela \u2014, voc\u00ea fala como se isso te absolvesse.<br>\u2003\u2003Lukas passou as m\u00e3os no rosto.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 desculpa, \u00e9 fato. Voc\u00ea sempre soube quem ou como eu era.<br>\u2003\u2003Ela se virou, com os olhos firmes.<br>\u2003\u2003\u2014 E mesmo assim, lutei pra ficar. \u00c9 isso que o amor faz, n\u00e3o \u00e9? Faz a gente lutar contra o fogo s\u00f3 pra sentir o calor.<br>\u2003\u2003Ele se levantou, se aproximando devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 E valeu a pena?<br>\u2003\u2003Camila demorou a responder. Observou o rosto dele t\u00e3o familiar, t\u00e3o estranho.<br>\u2003\u2003\u2014 Depende do dia \u2014 disse, por fim. \u2014 Hoje\u2026 talvez sim. Amanh\u00e3, n\u00e3o sei.<br>\u2003\u2003Lukas tocou o rosto dela com o dorso dos dedos, um gesto breve, quase inocente.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre fala como se amanh\u00e3 fosse outra pessoa.<br>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o \u00e9? Te amar \u00e9 como encarar um homem de dupla personalidade\u2026 \u2014 Ela sorriu, mas havia tristeza no canto dos l\u00e1bios. \u2014 Cada vez que eu vou embora, deixo uma parte minha aqui. Acho que por isso voc\u00ea nunca me pinta inteira.<br>\u2003\u2003Ele ficou em sil\u00eancio. O rel\u00f3gio marcava quase tr\u00eas da manh\u00e3. L\u00e1 fora, um bonde passou cortando o som da noite. Camila suspirou, encostando a cabe\u00e7a no vidro.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente \u00e9 t\u00e3o bom juntos\u2026 E toda vez que percebo isso, \u00e9 quando nosso momento est\u00e1 acabando.<br>\u2003\u2003Lukas olhou para ela, e por um instante pareceu querer dizer algo. Mas desistiu. Apenas assentiu, como quem reconhece uma verdade antiga. O quarto voltou a ficar quieto. Ela n\u00e3o sabia se ficaria mais uma hora, um dia, ou uma vida, mas sabia que, se ele pedisse, ela ficaria. E essa consci\u00eancia do\u00eda mais do que qualquer despedida.<br>\u2003\u2003\u2014 O seu sil\u00eancio \u00e9 pior do que qualquer coisa, sabia? \u2014 Camila falou notando que Lukas engoliu as palavras. \u2014 Voc\u00ea sequer ouviu eu dizer, eu confessar que te amo?<br>\u2003\u2003\u2014 Camila\u2026 \u2014 Ele suspirou \u2014 Isso\u2026 N\u00e3o \u00e9 algo para se apegar. N\u00f3s n\u00e3o temos futuro e voc\u00ea sabe.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cMust be love on the brain, that\u2019s got me feeling this way. It beats me black and blue, but it fucks me so good, and I can\u2019t get enough\u2026\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O rel\u00f3gio marcava 4h12 quando Camila percebeu que j\u00e1 n\u00e3o sentia sono ou vontade de continuar ali. A madrugada em Berlim tinha aquela cor azulada que antecede o amanhecer, quando tudo parece suspenso, como se o mundo inteiro esperasse por um gesto que n\u00e3o vem. Lukas ainda estava encostado na cabeceira, o olhar perdido em algum ponto do teto. Camila ainda vestida com a camisa dele, as pernas dobradas sob o len\u00e7ol, o cigarro entre os dedos, pensava em uma maneira de dizer adeus. Havia algo pat\u00e9tico e bonito naquela cena: dois corpos exaustos tentando traduzir em gestos o que as palavras n\u00e3o davam conta.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 engra\u00e7ado \u2014 ela disse, quebrando o sil\u00eancio. \u2014 Quando estou com voc\u00ea, sinto como se o tempo parasse. Mas, quando voc\u00ea fala, ele volta a correr\u2026 e me atropela.<br>\u2003\u2003Lukas desviou o olhar para ela, e havia um cansa\u00e7o humano, quase terno.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sei amar do jeito que voc\u00ea quer. Desculpa.<br>\u2003\u2003Camila tragou devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu n\u00e3o sei deixar de amar voc\u00ea desse jeito cheio de migalhas que voc\u00ea me d\u00e1, mas estou cansada Lukas.&nbsp; \u2014 as l\u00e1grimas come\u00e7aram a cair como se autom\u00e1tico na face dela.<br>\u2003\u2003Lukas&nbsp; respirou fundo, massageando as t\u00eamporas, como quem procura algo para segurar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea merece um amor que n\u00e3o doa. Eu n\u00e3o acho que d\u00ea para continuar tentando furar um muro de concreto \u00e0 m\u00e3o, Camila.<br>\u2003\u2003Ela riu \u2014 um riso curto, rasgado.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que \u00e9 o amor, ent\u00e3o, se n\u00e3o essa dor que a gente insiste em chamar de outra coisa? Voc\u00ea conhece algu\u00e9m que passou pelo amor sem dor? Ou em algum momento, voc\u00ea j\u00e1 foi at\u00e9 ele com uma retroescavadeira? N\u00e3o \u00e9 o certo: que para amar de um jeito s\u00f3lido e bonito, o trabalho de quebrar os muros precise ser artesanal?<br>\u2003\u2003Lukas ficou calado, mas o sil\u00eancio dele dizia tudo. Camila apagou o cigarro, levantou-se e foi at\u00e9 a janela. L\u00e1 fora, o c\u00e9u come\u00e7ava a clarear. As nuvens ainda pesavam, mas havia um fio de luz, aquele tipo de luz que n\u00e3o aquece, apenas anuncia o dia.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea me destr\u00f3i, Lukas \u2014 ela disse, sem raiva. \u2014 Mas de um jeito que parece cura. S\u00f3 que toda vez que eu tento te mostrar que essas suas barreiras n\u00e3o podem ser invadidas de grosso modo, voc\u00ea me responde com uma certeza burra de que \u00e9 inabal\u00e1vel. Lukas\u2026 O amor n\u00e3o \u00e9 assim\u2026 Ele n\u00e3o destr\u00f3i tudo em volta para ficar. Ele se acomoda gentilmente, com o que tiver ao redor. Mas, eu n\u00e3o posso mais\u2026 O que parecia cura, est\u00e1 me adoecendo.<br>\u2003\u2003Ele se levantou tamb\u00e9m, ficando atr\u00e1s dela, a poucos cent\u00edmetros.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o quero te machucar. Me desculpa se eu n\u00e3o sou o que voc\u00ea pensa, ou se eu n\u00e3o sei fazer o que voc\u00ca quer.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o por que me deixa voltar? Por que me prende quando eu fraquejo? Me joga contra a parede! Me despeda\u00e7a de vez para eu n\u00e3o voltar! \u2014 ela perguntou nervosa, virando-se para encar\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003Lukas hesitou.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque&nbsp; apesar de n\u00e3o ver um futuro bonito pra n\u00f3s, eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei ficar sem voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Camila sentiu o peito apertar, uma mistura de raiva e ternura. Aproximou-se at\u00e9 que os rostos quase se tocassem.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 isso que me mata \u2014 sussurrou. \u2014 A gente n\u00e3o se basta, mas n\u00e3o consegue ir embora.<br>\u2003\u2003O beijo veio depois, lento, cansado, quase um adeus. Era um beijo que reconhecia o fim, mas ainda o adiava. Quando se afastaram, ela manteve a testa encostada na dele.<br>\u2003\u2003\u2014 Deve ser teimosia para al\u00e9m do cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 loucura no c\u00e9rebro \u2014 murmurou. \u2014 Essa coisa que me faz ficar, mesmo sabendo que j\u00e1 acabou.<br>\u2003\u2003Lukas fechou os olhos. N\u00e3o havia resposta poss\u00edvel. O som distante dos p\u00e1ssaros anunciava o dia, e a luz da manh\u00e3 desenhava no ch\u00e3o o contorno deles, dois vultos presos entre o que sentem e o que sabem. Camila, por fim, se afastou. Foi at\u00e9 a mesa, pegou sua chave reserva do apartamento e a colocou ao lado do cinzeiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Se algum dia quiser me ver de novo, vai ter que bater na minha porta. \u2014 Sua voz era firme, quase serena. \u2014 Hoje, eu saio me despedindo. Mas n\u00e3o fujo.<br>\u2003\u2003Lukas observou, sem tentar det\u00ea-la. A porta se fechou devagar, e o sil\u00eancio que ficou foi o mais doloroso que eles j\u00e1 tiveram.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cIt keeps cursing my name. No matter what I do, I\u2019m no good without you\u201d.<\/em><\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>FIM.<\/strong><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAnd you got me like, oh \u2026 What you want from me? And I tried to buy your pretty heart, but the price too high.\u201d \u201cYou love when I fall apart \/ So you can put me together and throw me against the wall.\u201d \u201cDon\u2019t you stop loving me (loving me). Don\u2019t quit loving me [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2348],"class_list":["post-8990","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-love-on-the-brain"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/8990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=8990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}