{"id":7886,"date":"2015-11-11T11:42:00","date_gmt":"2015-11-11T14:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-11T11:49:04","modified_gmt":"2025-11-11T14:49:04","slug":"chapter-xvi","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/forest-on-fire\/chapter-xvi\/","title":{"rendered":"Chapter XVI"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\">Todos os m\u00fasculos do meu corpo estavam confusos. Desde os estriados at\u00e9 os lisos. Minha biologia inteira estava errada.<br>A boca seca demais.<br>O cora\u00e7\u00e3o r\u00e1pido de menos.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Alguma coisa estava errada. O magnetismo da terra parecia estar anormal. As for\u00e7as c\u00f3smicas n\u00e3o estavam do meu lado. O caminho para o p\u00falpito nunca me pareceu t\u00e3o longo, t\u00e3o vagaroso. Cada pessoa sentada me parecia um vulto negro demon\u00edaco. Por um momento eu senti que Deus n\u00e3o estava comigo.<br>\u2003\u2003 Eu o amaldi\u00e7oei e logo depois pedi seu perd\u00e3o. A confus\u00e3o estava impregnada na minha alma de uma forma sombria. Subi ao p\u00falpito e vi todas aquelas pessoas \u00e0 minha frente. Cada olho, cada nariz, cada orelha, cada peda\u00e7o de exist\u00eancia parecia me julgar.<br>\u2003\u2003 Ent\u00e3o eu voltei a me lembrar que era uma missa de homenagem. Era um ritual simb\u00f3lico de velas para reviver cada pessoa morta naquele tr\u00e1gico incidente. Alguns j\u00e1 deixavam as l\u00e1grimas correrem e outros continuavam com a express\u00e3o desdenhosa de quem s\u00f3 estava ali para n\u00e3o fazer feio perante \u00e0 sociedade.<br>\u2003\u2003 Respirei mais fundo. Mais e mais fundo. Fui at\u00e9 o po\u00e7o do desconhecido procurar por ar e for\u00e7a. Nunca precisei de tanta coragem na vida.<br>\u2003\u2003 &#8211; Queridos irm\u00e3os e presentes. A missa de hoje n\u00e3o \u00e9 uma missa normal. Estamos todos aqui, neste dia hoje, para que possamos lembrar e homenagear a vida daqueles que foram inocentemente. Muitos deles n\u00e3o deixaram familiares, amigos ou qualquer pessoa que pudesse sentir sua falta. Isso me faz pensar em como o pecado \u00e9 uma praga injusta em nosso mundo. Quantas pessoas inocentes j\u00e1 morreram em acidentes? Em trag\u00e9dias sem fim? Morreram por m\u00e3os de outras pessoas. \u2013 o olhar de todos pairava de forma congelada em mim. Todas as aten\u00e7\u00f5es voltadas para mim. Era um show dos horrores e eu sentia que poderia vomitar \u00e0 qualquer momento. \u2013 Irm\u00e3os, lembrem-se nesse momento porque \u00e9 que precisamos daquele que habita as Santas alturas dos c\u00e9us. N\u00f3s n\u00e3o somos nada al\u00e9m de pequeninas criaturas. Pequeninas criaturas vivendo na imensid\u00e3o desse mundo. E esse mundo \u00e9 cruel, sujo e violento. Se jogados aqui somos presas da morte, da tristeza. Se nosso Deus existe \u00e9 para nos livrar desses males. E mesmo quando, irm\u00e3os, Deus parecer distante, parecer ter esquecido de v\u00f3s, jamais esque\u00e7am que ele sempre est\u00e1 \u00e0 nossa volta. At\u00e9 mesmo no sofrimento, at\u00e9 mesmo quando n\u00e3o parece poss\u00edvel. Quando queridos se v\u00e3o n\u00f3s pensamos no nosso sofrimento e talvez esque\u00e7amos de pensar que fosse a hora certa. Mas, n\u00e3o a hora certa para n\u00f3s e sim a hora certa para eles. Tudo na vida possui um prop\u00f3sito e quando chegamos ao fim da caminhada n\u00f3s conseguimos perceber que apesar do sofrimento e da dor, coisas boas aconteceram. \u00c9 por essas coisas boas que devemos agradecer todo o minuto. \u2013 minha voz estava engasgada. Um pressentimento horr\u00edvel ca\u00eda sobre mim. Manterfos procurava meu olhar \u00e0 todo minuto. Ele parecia querer dizer algo, me alertar. Ent\u00e3o eu desisti de lutar. Nada poderia impedir o futuro breve.<br>\u2003\u2003 Eu me levantei e fui at\u00e9 ele. Manterfos era o coroinha que me acompanhava em toda santa missa com as h\u00f3stias. Em qualquer outra Igreja seriam os ministros, mas eu sentia algo especial por ele e gostava de sua companhia. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Gustav%&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Manterfos, sei que quer me dizer algo. Eu consigo sentir, ent\u00e3o me fa\u00e7a um favor. N\u00e3o tente impedir, tudo bem? <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas, padre&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Sem mas, \u00e9 a \u00fanica coisa que te pe\u00e7o. Voc\u00ea sabe que pode confiar em mim, n\u00e3o sabe? <br>\u2003\u2003 &#8211; Sim, mas&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Pois confie, Manterfos. Por favor. \u2013 ele relutaria mais se desse espa\u00e7o. Ent\u00e3o quebrei o protocolo. Tomei a h\u00f3stia em minha m\u00e3o e o c\u00e1lice. Se alguma coisa poderia me acalmar naquele momento, seria vinho. Caminhei novamente at\u00e9 o p\u00falpito. Os olhares continuavam pregados em mim. Eu podia ouvir o burburinho das pessoas. Elas estavam confusas com minha a\u00e7\u00e3o. O bispo do outro lado pareceu me deixar em meu ritual particular. Chielline ao seu lado olhava com curiosidade e do outro lado, totalmente isolado, Armand sorria para mim. <br>\u2003\u2003 &#8211; A h\u00f3stia e o suco de uva. As lembran\u00e7as do sacrif\u00edcio do filho de Deus. \u2013 eu n\u00e3o conseguia olhar para meus fi\u00e9is; ent\u00e3o vi %Carl% l\u00e1 no fundo sorrindo para mim. Retribui o sorriso e prossegui, ele me daria for\u00e7as. \u2013 Em Jo\u00e3o 3:16 temos que <em>Deus deu seu filho unig\u00eanito para que todo que Nel\u00ea cr\u00ea n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna<\/em>. Todos aqueles homens, mulheres e crian\u00e7as est\u00e3o em um lugar melhor, todos eles vivendo para sempre na gl\u00f3ria de Deus. <br>\u2003\u2003 Tomei a h\u00f3stia em minhas m\u00e3os. %Carl% ainda sorria. Com muita tranquilidade a coloquei em minha boca. Senti a textura derreter. O p\u00e3o sem fermento e sem gosto. Minha garganta estava travada. Segurei o c\u00e1lice com for\u00e7a. Com pressa o coloquei em meus l\u00e1bios. O l\u00edquido me refrescou, todas as gotas molhando minha l\u00edngua e lavando minha alma. \u2013 Assim como Deus nos disse em Apocalipse 2:10 &#8230; \u2013 senti meu corpo amolecer. cada c\u00e9lula atrofiando-se aos poucos. Meus olhos vacilaram e minha voz parecia querer me abandonar. <em>S\u00ea fiel at\u00e9 a morte e dar-te-ei<\/em> &#8230; \u2013 eu n\u00e3o mais conseguia ver pessoas, apenas luzes e manchas coloridas. Meu p\u00e9 vacilou para tr\u00e1s e me escorei no p\u00falpito para manter o equil\u00edbrio. Manterfos me chamou e veio at\u00e9 mim, com os bra\u00e7os fracos pedi para que se afastasse. -&#8230; <em>a coroa da vida.<\/em> &#8211; Minha traqueia travou, o oxig\u00eanio pareceu se esquecer de mim. Pelo o pouco que ainda podia sentir, percebi %Carl% correndo at\u00e9 mim. N\u00e3o sei exatamente como, eram os reflexos do instinto de sobreviv\u00eancia. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Gustav%&#8230; %Gustav%&#8230; o que houve? Respire, for\u00e7a! \u2013 %Carl% me segurou e deitou-me no ch\u00e3o. Sua voz era aflita. \u2013 Algu\u00e9m chame uma ambul\u00e2ncia, urgente! Pelo amor de Deus, <strong>chamem uma ambul\u00e2ncia<\/strong>. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Carl%&#8230; n\u00e3o se preocupe.<br>\u2003\u2003 &#8211; Cale a boca, padre, guarde energia. \u2013 %Carl% n\u00e3o entendia, minha vida j\u00e1 havia ido. Cada vez mais eu me sentia deslocado do plano terreno. Minha exist\u00eancia ia pouco a pouco se descolando dos meus ossos. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Carl%, me ou\u00e7a, por favor. \u2013 o gosto de sangue atingiu meu paladar. Comecei a tossir, assim como os pobres mortos dias atr\u00e1s. <br>\u2003\u2003 &#8211; Fale, %Gustav%, fale &#8230; \u2013 o a\u00e7ougueiro tinha a voz chorosa. As l\u00e1grimas dele escorreram no meu rosto. <br>\u2003\u2003 &#8211; Foi bom ter te conhecido. \u2013 sorri do jeito que podia \u2013 Voc\u00ea \u00e9 uma pessoa maravilhosa, um anjo do Senhor. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o fale assim, seu infeliz, se voc\u00ea morrer eu te mato. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Carl%, n\u00e3o seja tonto. \u2013 minha voz era cada vez mais fraca e rouca. Abri meus olhos e por um minuto o vi na minha frente. \u2013 Ora, %Carl%, n\u00e3o chore. Eu ainda preciso que cuide daquele lenhador pra mim. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o vai morrer, me ouviu? N\u00e3o vai. Aguenta firme. \u2013 tentei respond\u00ea-lo, mas n\u00e3o pude. O sangue tornou-se mais viscoso e cont\u00ednuo na minha boca. Por um momento me afoguei naquele mar de saliva avermelhada. \u2013 %Gustav%! %Gustav%! Fica comigo! \u2013 %Carl% j\u00e1 gritava. Ele come\u00e7ou uma massagem card\u00edaca tentando me recuperar. A partir da\u00ed tudo tornou-se uma lembran\u00e7a confusa. %Carl% gritava, Manterfos tamb\u00e9m. Ouvi a voz do bispo se aproximar pedindo para as pessoas sa\u00edrem da frente. O barulho da ambul\u00e2ncia, os enfermeiros. Me puseram na maca e algu\u00e9m segurou minha m\u00e3o. N\u00e3o era mais %Carl%. <br>\u2003\u2003 &#8211; Vou com voc\u00ea. \u2013 era a voz de Chielline \u2013 Eu vou com voc\u00ea. \u2013 ouvi o barulho das portas da ambul\u00e2ncia se fechando. Abri os olhos mais uma vez resgatando o fim das for\u00e7as e vi Girgio na minha frente. Tudo ent\u00e3o fez sentido. A casa dos pobres&#8230; e agora era a minha vez, n\u00e3o? Teria que aceitar isso pelo bem de todos. \u2013 Eu estou com voc\u00ea. \u2013 foi a \u00faltima coisa que ouvi naquele dia. E para sempre.<\/p>\r\n<p align=\"\"><strong>\u2003\u2003 Eu n\u00e3o iria chorar, n\u00e3o ali.<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Estava eu segurando a al\u00e7a de metal na parte da frente. %Carl% ao meu lado direito e Viktor, pai de %Gustav%, \u00e0 esquerda. Atr\u00e1s estava Manterfos se acabando em l\u00e1grimas. Eu mal sentia o peso do caix\u00e3o negro.<br>\u2003\u2003 O caix\u00e3o estava repleto de rosas brancas na parte superior. Acho que era o cheio das flores que foi capaz de me entorpecer e me dar for\u00e7as para fazer aquele trajeto. O bispo rezava alguma coisa enquanto a m\u00e3e de %Gustav%, Katja, era acudida por outras pessoas por desmaiar novamente.<\/p>\r\n<p align=\"center\">Mas &#8230; eu n\u00e3o consegui.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ao ver o caix\u00e3o descendo ao solo&#8230; Ao ver a terra sendo jogada&#8230; Ao ver as flores sendo lan\u00e7adas&#8230; Eu desabei. N\u00e3o havia porte f\u00edsico, orgulho ou masculinidade no mundo que pudesse impedir meus olhos de derrubar aquela \u00e1gua salgada.<br>\u2003\u2003 %Carl% veio do meu lado. Sem me importar com nada eu o abracei. Ele devolveu o abra\u00e7o e n\u00f3s ficamos ali&#8230; sentindo. Eu me sentia culpado, mesmo sem ter culpa. Deveria ter feito algo. Prometi a mim mesmo que cuidaria de cada um dos meus amigos. O fel do fracasso preenchia meu paladar. Al\u00e9m do mais, %Gustav% s\u00f3 voltou \u00e0 cidade porque eu o chamei. Sua volta o colocou em um fogo cruzado, no meio de uma confus\u00e3o misteriosa. Sabia no meu interior que a morte dele tinha algo a ver com todo aquele problema.<br>\u2003\u2003 Os pais de %Gustav% vieram ao nosso lado. Katja grudou meu rosto com suas m\u00e3os enrugadas. Os olhos verdes dela, tal quais o de %Gustav%, mostravam uma dor imensur\u00e1vel. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, o nosso menino &#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu sei, Katja, eu sei. N\u00e3o precisa dizer nada. \u2013 logo Viktor se aproximou tomando a esposa para si. Limpou as l\u00e1grimas da amada e sorriu para mim. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ele n\u00e3o iria querer nos ver chorando. %Gustav% era t\u00e3o feliz &#8230; ele estava t\u00e3o feliz depois de ter voltado para c\u00e1. Ele citou voc\u00ea e citou %Carl%, o novo amigo que tinha feito. Obrigado, %Fitzroy%, obrigada por fazer meu menino feliz enquanto ele estava aqui. <br>\u2003\u2003 &#8211; Viktor, voc\u00ea n\u00e3o precisa me agradecer e voc\u00ea sabe disso. \u2013 o homem juntou-se a mim e a esposa. Ficamos ali em sil\u00eancio, um compartilhando da dor dos outros. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, menino, eu preciso ir descansar. \u2013 Katja limpou os olhos com o mil\u00e9simo len\u00e7o de papel \u2013 Viktor, por favor&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Nos vemos antes de irmos. \u2013 Viktor despediu-se e partiu com a mulher apoiada em seus bra\u00e7os. <br>\u2003\u2003 Fiquei parado olhando para o horizonte. O tempo estava cinzento, como se a pr\u00f3pria natureza estivesse de luto. Minha carne inteira estava se remoendo, sangrando em tristeza. N\u00e3o era justo, eu nunca conseguiria aceitar.<br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%. \u2013 %Carl% me chamou pegando em minha m\u00e3o e nos distanciando da multid\u00e3o \u2013 Sei que n\u00e3o \u00e9 hora, mas devido a isso &#8230; \u2013 apontou com os olhos para a cova rec\u00e9m coberta -&#8230; precisamos ir \u00e0 sua casa conversar. Aconteceu algo muito perturbador e \u00e9 por isso que disse que eu, voc\u00ea e <strong>ele<\/strong> precis\u00e1vamos conversar. \u2013 se poss\u00edvel eu gostaria de guardar dias de luto. Me trancafiar em casa e esquecer o mundo. Eu poderia? N\u00e3o. A morte da %Gustav% tinha sido uma trag\u00e9dia inexplic\u00e1vel e que mais parecia arma\u00e7\u00e3o do qualquer coisa. Precisava por meus dem\u00f4nios para fora e apenas %Carl% poderia me ouvir.<\/p>\r\n<p align=\"center\">x<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Liguei a televis\u00e3o e deixei em um canal qualquer. Queria ouvir um barulho que pudesse me abster da realidade um pouco. %Carl% nem pediu autoriza\u00e7\u00e3o, enfiou a m\u00e3o na porta da geladeira e pegou duas garrafas de cerveja. As duas para ele porque eu tomaria vinho, uma porra de uma garrafa inteira de vinho.<br>\u2003\u2003 &#8211; Vai, %Carl%, conta logo. Estou cansado e n\u00e3o quero que isso dure a noite toda. &#8211; nem me dei o trabalho de sentar por achar que depois n\u00e3o teria as for\u00e7as necess\u00e1rias para levantar. <br>\u2003\u2003 &#8211; Tudo bem. \u2013 %Carl% respirou fundo procurando inspira\u00e7\u00e3o. A boca de todo mundo estava sofrendo de dem\u00eancia tempor\u00e1ria, era dif\u00edcil processar as palavras. &#8211; O neg\u00f3cio \u00e9 o seguinte, resumidamente, um cara chamado Dolph Lundgren foi at\u00e9 o a\u00e7ougue perguntar por um homem chamado <em>Nikolai.<\/em> &#8211; cuspi o vinho que estava na minha boca. A mancha bord\u00f4 sujou minha toalha de mesa e eu ficaria bravo sobre isso depois. <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas que porra anda acontecendo nessa cidade? \u2013 chutei o p\u00e9 da mesa como se tivesse chutando a cara do meu pior inimigo. Estava t\u00e3o emputecido com a vida, com o destino, com tudo. \u2013 Uma pessoa acha Nikolai que \u00e9 o melhor jogador de esconde-esconde do mundo, %Gustav% morre da maneira mais misteriosa e sem no\u00e7\u00e3o&#8230; %Carl%, mas que merda \u00e9 essa? \u2013 meu maior desejo naquele momento \u00e9 que algu\u00e9m fosse capaz de aparecer na minha frente e dizer, <em>%Fitzroy%, sente-se, vou te explicar tudo.<\/em><br>\u2003\u2003 &#8211; E voc\u00ea acha que eu tamb\u00e9m n\u00e3o gostaria de saber? Olha para tr\u00e1s. Se lembre de todas as coisas que a gente conversou aqui. N\u00e3o chegamos \u00e0 uma conclus\u00e3o sequer e tudo saiu dos eixos. Agora %Gustav% est\u00e1 morto e o que \u00e9 que n\u00f3s sabemos? Nada! \u2013 como eu queria ser um cavaleiro do apocalipse naquele momento. Acabaria com a exist\u00eancia humana e o pr\u00f3prio cosmos em dois palitos. <br>\u2003\u2003 &#8211; O que voc\u00ea disse \u00e0 ele, %Carl%? <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas ora, o que acha? Disse que n\u00e3o sabia quem era o sujeito. Voc\u00ea acha que eu iria entregar o esconderijo do Nikolai assim de bandeja? <br>\u2003\u2003 &#8211; S\u00f3 sei de uma coisa, meu querido a\u00e7ougueiro. \u2013 comecei a fazer uma retrospectiva. Juntei os cacos dos meus neur\u00f4nios e os coloquei para funcionar. Analisei fato por fato e cheguei \u00e0 uma l\u00f3gica e clara conclus\u00e3o. \u2013 %Gustav% caiu no meio do tornado de paraquedas. Se ele morreu dessa forma t\u00e3o <em>nojenta<\/em> \u00e9 porque n\u00f3s realmente estamos por perto. E se h\u00e1 justi\u00e7a nesse mundo, n\u00f3s vamos chegar mais perto ainda. N\u00e3o vai ser agora que eu vou desistir. \u2013 %Carl% se levantou me fitando s\u00e9rio. Levantou o bra\u00e7o na altura de seu tronco e me estendeu a m\u00e3o. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ent\u00e3o estamos juntos nessa, <em>lenhador de araque?<\/em> Cavando at\u00e9 o fim do universo para resolver esse caralho? \u2013 sua voz era contundente, estridente. Os olhos brilhavam emanando a sede por vingan\u00e7a e justi\u00e7a. <br>\u2003\u2003 &#8211; Estamos, minha <em>carni\u00e7a<\/em>. \u2013 alcancei sua m\u00e3o. Demos um aperto forte, devastador. Puxei %Carl% pela gola da camisa e beijei sua testa. Queria ter feito isso em %Gustav% antes que ele tivesse ido. Ele tinha o direito de saber o quanto eu o admirava e amava, o quanto ele tinha sido importante para mim. <br>\u2003\u2003 &#8211; Antes que voc\u00ea morra, <em>praga dos infernos<\/em>, saiba que eu te amo. \u2013 finalmente aquelas bochecha raivosas se abriram para que a boca dele pudesse sorrir. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu tamb\u00e9m te amo, <em>z\u00e9 caralho<\/em>. \u2013 %Carl% deu uns tapinhas do lado esquerdo da minha face e se afastou procurando pelo resto da cerveja. <br>\u2003\u2003 &#8211; Agora, %Carl%, v\u00e1 pra casa e fica com as suas meninas e Ana. Elas devem estar assustadas. Vou at\u00e9 a casa de Nikolai para contar toda essa merda. <br>\u2003\u2003 &#8211; Vou mesmo, antes que eu beba demais e esque\u00e7a o caminho de casa. \u2013 chegamos juntos \u00e0 porta e aquele sentimento horr\u00edvel de abandono tomou conta de mim, pela primeira vez em anos eu n\u00e3o sentia mais aquela vontade arrebatadora de ficar na solid\u00e3o.<br>\u2003\u2003 &#8211; Se acalme que a gente vai resolver tudo. \u2013 %Carl% me olhou uma \u00faltima vez antes de apertar minha m\u00e3o novamente. Assim que o vi sumir entre as \u00e1rvores escorei-me na porta. <br>\u2003\u2003 <em>Vamos seu <\/em><strong>bosta<\/strong><em>, reaja.<\/em><br>\u2003\u2003 Dei a volta na casa e cheguei \u00e0 minha \u00e1rea de trabalho. Avistei meu machado cravado em um peda\u00e7o de madeira. Em virtude dos \u00faltimos acontecimentos me parecia plaus\u00edvel andar armado. Me lembrei do dia em que %Carl% me perguntou se eu ainda andava armado pela cidade, ele me alertou sobre pessoas estranhas rondando a floresta. Por um momento tomei precau\u00e7\u00e3o. Tentei ser cuidadoso e cuidar das coisas direito. N\u00e3o durou muito tempo. Acabei deixando a chama da revolta apagar.<br>\u2003\u2003 Veja s\u00f3, minha falta de cuidado, minha falta de foco e comprometimento resultaram em cat\u00e1strofe. O que eu havia feito de errado? Me preocupei em cuidar de %Louise%, me preocupei em faz\u00ea-la gozar. O que eu ganhei com isso? Tantas coisas que eu nem ao mesmo poderia contar nos dedos. O problema era que eu havia perdido %Gustav% na brincadeira e seria quase imposs\u00edvel tirar o peso disso das minhas costas.<br>\u2003\u2003 Rumei em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa de Nikolai. Tinha gente procurando por ele e a \u00faltima coisa que n\u00f3s precis\u00e1vamos naquele momento era de outra pessoa morta. Quando me aproximava de sua pequena clareira tive que me perturbar. Fora uma rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica ao que via.<br>\u2003\u2003 &#8211; Nikolai? \u2013 meu chamado tinha sido muito mais um pedido de explica\u00e7\u00e3o que simplesmente chamar seu nome. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%. \u2013 o olhar do meu velho companheiro de floresta estava estampando o amargo da derrota. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea ficou sabendo? \u2013 me aproximei e o ajudei a por um pesado pacote envolto em couro na capota de sua caminhonete. <br>\u2003\u2003 &#8211; Do padre? Sim. \u2013 colocou a m\u00e3o em sua n\u00e3o definida cintura e mirou o ch\u00e3o. \u2013 Uma merda, n\u00e3o? Uma porra de uma merda, %Fitzroy%. Uma porra de uma merda injusta do caralho. V\u00ea, eu estou puto. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ei, ei. Calma. Eu te conhe\u00e7o bem o suficiente para saber que n\u00e3o desmontaria acampamento s\u00f3 pela morte do padre, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Eu sei o que aconteceu. <br>\u2003\u2003 &#8211; Me acharam, lenhador. Depois de todos esses anos, depois de tudo&#8230; alguns filhos da puta foram capazes de me achar. \u2013 enquanto eu exalava a mais pura depress\u00e3o, Nikolai exalava a mais pura f\u00faria. <br>\u2003\u2003 &#8211; Exatamente isso que vim te falar, perguntaram por voc\u00ea no a\u00e7ougue. Vejo que foi tarde demais. <br>\u2003\u2003 &#8211; O cara bateu na minha porta, %Fitzroy%. Na minha porta. Fui pego de surpresa, sem nenhum plano de escape. Estou t\u00e3o puto e me julgue pelo meu ego\u00edsmo, mas a morte de %Gustav% mal mexeu comigo. Me pegaram de cal\u00e7as curtas aqui. E sabe o que mais? Me perguntando sobre o tesouro. \u2013 sua risada nasalada n\u00e3o possu\u00eda o m\u00ednimo teor de gra\u00e7a, era puro esc\u00e1rnio. \u2013 E sabe qual \u00e9 a maior piada? Um filho de uma vadia chamado <em>Dolph Lundgren<\/em>, loiro, alto feito o diabo e com o sotaque sueco mais natural que j\u00e1 vi na minha vida, aparece na minha porta me oferecendo uma porra de uma maleta cheia de euros. Cheia de <strong>1 milh\u00e3o de euros<\/strong>. Consegue acreditar nisso? \u2013 eram informa\u00e7\u00f5es demais para que eu pudesse processar. <br>\u2003\u2003 &#8211; Nikolai, meu c\u00e9rebro ficou mais travado do que estava. Me ajude a achar a l\u00f3gica disso. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o tem l\u00f3gica. Eu mal sabia o que responder. Nunca tinha pensando em o qu\u00ea responder quando batessem na minha porta porque&#8230; eu nunca pensei que fossem bater na minha porta. <br>\u2003\u2003 &#8211; E ent\u00e3o? <br>\u2003\u2003 &#8211; O que voc\u00ea acha? \u2013 apontou para sua caminhonete. S\u00f3 ent\u00e3o percebi o quanto a caminhonete estava cheia de malas, pacotes, utens\u00edlios e tranqueiras. \u2013 Estou picando a mula, lenhador. <br>\u2003\u2003 &#8211; Niko&#8230; \u2013 minha voz trepidou. Outra perda? Um dia depois? Meus melhores amigos simplesmente&#8230; indo? E para longe de mim? <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, eu sei. Me desculpe. \u2013 Nikolai n\u00e3o era de abra\u00e7ar, de demonstrar carinho. Ele era daquele jeito grosseiro, mas extremamente bondoso. \u2013 Mas, eu n\u00e3o posso. Se me acharam tamb\u00e9m v\u00e3o achar minha mulher e meu filho. N\u00e3o me perdoaria se algo acontecesse \u00e0 eles, preciso partir. \u2013 estava t\u00e3o fraco e perturbado. Mas n\u00e3o seria ali que eu desabaria. Retomei as r\u00e9deas do meu emocional. <br>\u2003\u2003 &#8211; Resolve de l\u00e1 que eu resolvo daqui? \u2013 ele sabia do que eu estava falando. <br>\u2003\u2003 &#8211; \u00c9 claro que sim. Disse ao loiro que eu n\u00e3o sabia onde a porra estava, o que \u00e9 verdade. \u2013 ele pareceu n\u00e3o acreditar e eu n\u00e3o entrei em detalhes. O infeliz agradeceu a vazou fora. Duvido que ele fica sem aparecer por muito tempo. Agora vem aqui. \u2013 pegou um pacote que estava no ch\u00e3o e entregou nas minhas m\u00e3os. \u2013 Esses s\u00e3o todos os pap\u00e9is, documentos e porcarias que eu tenho sobre esse tesouro. Pelo jeito, o tal cardeal n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico procurando por ele. E n\u00f3s temos que garantir que isso n\u00e3o caia em m\u00e3os erradas. E tome cuidado, eu pretendo voltar em breve para uma visita. \u2013 mais uma tonelada de responsabilidade se despejava nas minhas costas. \u00d3timo n\u00e3o? \u2013 E tem outro favor que eu preciso te pedir, n\u00e3o questione, tudo bem? <br>\u2003\u2003 &#8211; Manda bala, nada vai me surpreender, n\u00e3o hoje. <br>\u2003\u2003 &#8211; Deixei alguns litros de diesel no por\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 entrar l\u00e1 pelos fundos. Se eu n\u00e3o vier em sete dias, me ou\u00e7a bem, ateie fogo na casa. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ok, disse que nada iria me surpreender, mas pelo visto eu me enganei. Que porra voc\u00ea est\u00e1 pensando, viado? \u2013 atear fogo na casa? Simplesmente riscar um f\u00f3sforo e fazer uma fogueira gigante? Mas que raios! <br>\u2003\u2003 &#8211; Essa casa tem hist\u00f3ria. Tentei tirar tudo que fosse importante da\u00ed de dentro, mas nunca se sabe. N\u00e3o quero deixar rastros. Preciso de um plano <strong>B<\/strong> e esse \u00e9 o meu. Sem questionamentos, pelo amor de Odin. <br>\u2003\u2003 &#8211; Fogo na casa? Certo, eu posso lidar com mais isso. \u2013 minha massa encef\u00e1lica estava derretendo. Como Nikolai mesmo havia dito, a porra tinhaa fodido de um jeito filho da puta. <br>\u2003\u2003 &#8211; Agora eu preciso ir, confio em voc\u00ea. Se acharem esse tesouro, fa\u00e7a o que quiser com ele. N\u00e3o me importo com essa coisa, quem eu queria foder eu j\u00e1 fodi. <br>\u2003\u2003 Me despedi de Nikolai, do nosso jeito. Do nosso <em>estranho<\/em> jeito.<br>\u2003\u2003 Vi sua caminhonete partir. Ficando cada vez mais e mais longe. Ent\u00e3o ela sumiu do meu horizonte. E eu me vi sozinho, justo no \u00fanico dia em todo aquele tempo em que eu estava morrendo por uma companhia. <br>\u2003\u2003 Uma mistura meio incompreens\u00edvel de dor, revolta, raiva e tristeza preencheu meu ser. Tudo se concentrou na minha m\u00e3o direita. Lancei o machado ao ar. O vi em c\u00e2mera lenta rotacionar at\u00e9 cravar-se em uma \u00e1rvore. Caminhei at\u00e9 l\u00e1, retirei o machado e o enfiei de volta. <br>\u2003\u2003 <strong>De novo e de novo.<\/strong><br>\u2003\u2003 At\u00e9 minhas m\u00e3os quase sangrarem. Castiguei aquela \u00e1rvore com minha ferramenta de corte como um bode expiat\u00f3rio. Eu n\u00e3o funcionava muito bem quando estava com raiva e infelizmente, precisaria de uma mente limpa e de um racioc\u00ednio cristalino para lidar com todos os problemas.<br>\u2003\u2003 Por isso eu precisava descarregar todo resqu\u00edcio de raiva. Quase derrubei a \u00e1rvore, parei os movimentos quando o machado caiu ao ch\u00e3o. Me abaixei para peg\u00e1-lo e s\u00f3 ent\u00e3o percebi que n\u00e3o teria for\u00e7as para levantar.<br>\u2003\u2003 Minhas for\u00e7as resolveram descansar. Fiquei jogado feito um cervo morto no ch\u00e3o. A respira\u00e7\u00e3o perdida e os olhos cedendo. Senti o salgado da l\u00e1grima na minha boca rachada. Ardeu. Ardeu ainda mais quando esfreguei a m\u00e3o suja em minhas p\u00e1lpebras em uma tentativa pat\u00e9tica de estancar o choro.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>Chore, %Fitzroy%. Chore agora porque voc\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 chorar amanh\u00e3.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Desmontei na grama rala. Soltei o urro mais perturbador que poderia tirar de mim. A garganta vibrava enquanto eu gritava em alto e bom som. Que todo o mundo pudesse me ouvir. Tomei o machado em minhas m\u00e3os e o levantei em dire\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us. Foi a\u00ed que em deixei desabar.<br>\u2003\u2003 J\u00e1 chorava como uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida. J\u00e1 me debulhava em l\u00e1grimas como uma esposa abandonada no altar. Que se fodesse. %Gustav% merecia meus mais puros sentimentos. Estava exorcizando minha agonia e todos os dem\u00f4nios que poderiam me enfraquecer. Me deixei derrotar.<br>\u2003\u2003 Ent\u00e3o cessei o choro.<br>\u2003\u2003 &#8211; %Gustav%, n\u00e3o importa onde voc\u00ea esteja, n\u00e3o vou te deixar sozinho. E eu vou matar o filho da puta que fez isso a voc\u00ea com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os. \u2013 minha voz era uma ode \u00e0 coragem. Abaixei o machado e me coloquei de p\u00e9. Olhei para todas aquelas \u00e1rvores. Mirei cada uma daquelas folhas e jurei a cada peda\u00e7o de mim que eu iria at\u00e9 o inferno se fosse preciso.<br>\u2003\u2003 Recolhi os pap\u00e9is e parti em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 minha casa. Sem pressa alguma. Tentei afastar os pensamentos ruins que me culpavam da morte do padre. A culpa por n\u00e3o t\u00ea-lo protegido, por n\u00e3o estar l\u00e1 em seu fim. Eu me lembraria dos momentos alegres e felizes. Guardaria para mim suas virtudes, sua moral e seus conselhos.<br>\u2003\u2003 J\u00e1 estava bem pr\u00f3ximo de casa quando vi %Louise% sentada \u00e0 escada da minha varanda. Em qualquer dia normal eu a xingaria por ter sa\u00eddo de casa e por estar l\u00e1. Daria bronca por sua irresponsabilidade e a faria se sentir uma menina mimada. Mas n\u00e3o naquele dia. Tudo que eu precisava era de um carinho, de um abra\u00e7o, de um ombro. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ei. \u2013 timidamente ela levantou os bra\u00e7os. Me sentei ao lado dela deixando o machado como peso para que os pap\u00e9is n\u00e3o voassem. <br>\u2003\u2003 &#8211; Fico feliz que tenha vindo. \u2013 a puxei para mim, abra\u00e7ando-a pelos bra\u00e7os. <br>\u2003\u2003 &#8211; Pensei que pelo menos hoje voc\u00ea entenderia minha visita. \u2013 seu sorriso era o mais t\u00edmido de todos. Muito provavelmente queria dizer algo para me confortar e n\u00e3o sabia como. <br>\u2003\u2003 &#8211; Obrigado por ter vindo, n\u00e3o imagina o bem que isso est\u00e1 me fazendo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu sinto muito. \u2013 os olhinhos que costumavam ser tarados agora carregavam uma \u00e1urea de compaix\u00e3o. <br>\u2003\u2003 &#8211; Todos n\u00f3s sentimos, %Louise%. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu quase fui \u00e0quela missa, mas voc\u00ea sabe, o encamento. \u2013 parece que ali tamb\u00e9m morava um sentimento de culpa. <br>\u2003\u2003 &#8211; Garota, a culpa n\u00e3o \u00e9 sua. Nem ouse pensar nisso. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu sei, eu sei. Mas fica aquele vazio, voc\u00ea deve saber. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ah, tenha certeza que eu sei. Agora vem, vamos entrar. \u2013 a ajudei a se levantar. %Louise% pegou os pap\u00e9is e machado para mim e entramos em casa. &#8211; Fome? <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o, mas fique \u00e0 vontade. \u2013 fomos \u00e0 cozinha e eu me servi do sandu\u00edche mais mal feito e frio do universo. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, essa comida t\u00e1 com uma apar\u00eancia horr\u00edvel. O tomate est\u00e1 caindo fora do p\u00e3o. \u2013 ela tinha aquele poder de me ajudar abstrair de tudo. Com %Louise% do meu lado eu via um novo mundo onde nem tudo precisava ser ruim. <br>\u2003\u2003 &#8211; Agora voc\u00ea entende quando eu digo que n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel andar pela cidade \u00e0 esmo? Quando n\u00e3o \u00e9 seguro vir at\u00e9 aqui sozinha? <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu sempre soube, mas agora eu sei mais. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Gustav% morreu dentro da pr\u00f3pria Igreja, imagine o que pode haver fora? \u2013 a express\u00e3o facial dela mudou. O modo t\u00edmido e at\u00e9 mesmo medroso passou a ser preocupado de um jeito que n\u00e3o me agradava. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea acha que foi assassinato? \u2013 a boca abriu-se em surpresa. A garota realmente se chocou com a possibilidade, inocente alma. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o agora, %Louise%, por favor. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Louise%, por favor. \u2013 aquela carinha que odiava ser contradita se fez presente. Minha voz sa\u00edra demasiadamente grosseira.<br>\u2003\u2003 &#8211; Tudo bem, s\u00f3 queria saber se voc\u00ea estava bem. \u2013 ela se levantou em clima de despidida. <br>\u2003\u2003 &#8211; Garota, nem ouse me deixar aqui sozinho. \u2013 virou-se de frente para mim com um sorriso vitorioso no rosto. Teria que aguentar crise de ego adolescente justo naquele dia. <br>\u2003\u2003 &#8211; Precisa de mim? &#8211; os dedinhos foram enrolar o cabelo, vi uma risada danada tomar forma. %Louise% sabia fazer charme e manha quando queria. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o quero ficar sozinho. \u2013 as sementes de tomate escorriam na minha barba e minha cara de z\u00e9 man\u00e9 deveriam entregar meu esp\u00edrito perdedor. <br>\u2003\u2003 &#8211; O <strong>Senhor Solid\u00e3o<\/strong> n\u00e3o quer ficar sozinho? Isso \u00e9 interessante. \u2013 garota abusada, assim que me recuperasse eu daria um jeito naquela l\u00edngua afiada. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Louise%, n\u00e3o hoje &#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Tudo bem, me desculpe. E sim eu fico, j\u00e1 sai de casa com essa inten\u00e7\u00e3o. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ent\u00e3o <em>isso aqui<\/em> foi s\u00f3 um teatrinho pra me fazer implorar? \u2013 a fitei de cara fechada. Estava triste por ter perdido %Gustav%, mas feliz por ter ganhado %Louise%. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o seja dram\u00e1tico. \u2013 ela voltou a mim e tirou o sandu\u00edche da minha m\u00e3o. Puxou a cadeira dando espa\u00e7o para que se sentasse no meu colo. As m\u00e3os macias e cheirosas foram as minhas bochechas geladas. Fechei meus olhos com aquele toque doce que n\u00e3o era o que costumava ter de nenhuma mulher. \u2013 Obrigada por me deixar por perto. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o precisa me agradecer, sua tonta. Se quiser pagar pela hospedagem \u00e9 s\u00f3 lavar a lou\u00e7a. \u2013 senti o estalo na testa. <br>\u2003\u2003 &#8211; Seu abusado! \u2013 %Louise% meteu um tapa desajeitado em mim que nem ao menos chegou doer. <br>\u2003\u2003 &#8211; Agora vem, preciso de um banho e preciso de ajuda. \u2013 dei um jeito de peg\u00e1-la e meu colo e me levantei. A garota ria percebendo mina ideia pervertida. A levei direto para o banheiro. As m\u00e3o delicadas foram prontamente me despir. Vagarosamente e de um jeito t\u00e3o gostoso&#8230; Mas eu n\u00e3o estava exatamente o ser mais tarado do universo.<br>\u2003\u2003 &#8211; Preciso de mais carinho que putaria hoje. <br>\u2003\u2003 &#8211; Deixa comigo. \u2013 a boca se aproximou da minha e me deu um selinho leve, totalmente doce. Os l\u00e1bios passaram a correr pelo meu rosto. Sexo pesado, a inflama\u00e7\u00e3o do tes\u00e3o eram coisas simplesmente incr\u00edveis. Mas aquele toque t\u00e3o angelical havia conquistado um espa\u00e7o entre os meus desejos.<br>\u2003\u2003 Me vi no box. %Louise% me aquecia mais que \u00e1gua. Ela estava \u00e0 minha frente ensaboando meu peitoral. A garota parecia se divertir com a fortaleza muscular do lugar. Eu adorava deix\u00e1-la sem sentidos com o meu corpo. %Louise% descia as m\u00e3os, cada vez mais minha respira\u00e7\u00e3o se intensificava. Ela estava indo em dire\u00e7\u00e3o <strong>dele<\/strong>. &#8211; Ei mocinha. Cuidado. \u2013 alertei levantando seu queixo para cima. Fiz com que olhasse para mim e a encarei sugestivo. <br>\u2003\u2003 &#8211; S\u00f3 uma punhetinha para voc\u00ea dormir relaxado. \u2013 %Louise% piscou sapeca. Seria idioticesse e das grandes da minha parte negar. <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas vai te que ser gostasa, hm? <br>\u2003\u2003 &#8211; Est\u00e1 duvidando de mim? \u2013 p\u00f4s-se na ponta dos p\u00e9s para alcan\u00e7ar minha boca. Ela mordeu meu l\u00e1bio superior impedindo minha resposta. Quando dei por mim as m\u00e3os j\u00e1 acariciavam minhas bolas. <br>\u2003\u2003 &#8211; Isso, gatinha, <strong>desse<\/strong> jeito. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea gosta do meu <strong>jeito?<\/strong> &#8211; o toque subiu para minha virilha. Percebi que ela ficaria enrolando, me provocando. Normalmente eu preferia assim, mas tendo em vista meu dia&#8230; eu queria gozar e apenas gozar naquela m\u00e3o gostosa. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 quase melhor que eu, sabia? <br>\u2003\u2003 &#8211; Ah \u00e9? E o que falta pra ficar melhor? \u2013 puxei seu rosto pro meu. Peguei naqueles cabelos com vontade e grudei com for\u00e7a. <br>\u2003\u2003 &#8211; Me fazer gozar logo. \u2013 soltei um sorriso pervertido que foi recebido com anima\u00e7\u00e3o. Teria dito qualquer besteira a mais se n\u00e3o tivesse desaprendido a falar no momento surreal e majestoso em que aquela putinha manhosa de nome %Louise% pegou com toda a vontade do mundo no meu pau. Aquela porra tinha que ser s\u00f3 minha, ela tinha que fazer aquilo s\u00f3 para mim. <br>\u2003\u2003 A coisa foi. %Louise% batendo a punheta mais deliciosa de todos os tempos enquanto mordia meu pesco\u00e7o. Pedi para que fosse mais r\u00e1pido e ela foi. Certeira como eu com meu machado. Joguei a cabe\u00e7a para tr\u00e1s e escorei na parede. A outra m\u00e3o dela foi meus test\u00edculos e o est\u00edmulo duplo fora a fa\u00edsca que faltara. Estava eu ali, gozando nas m\u00e3os da minha menina.<br>\u2003\u2003 &#8211; Eu adoro seu gosto. \u2013 %Louise% lambeu dedinho por dedinho. A puxei pelos cabelos ainda presos em mim e beijei sua boca da forma mais carinhosa e sincera que eu podia. <br>\u2003\u2003 &#8211; E eu adoro voc\u00ea. \u2013 ela sorriu sem total gra\u00e7a e eu beijei o sorriso que eu mais queria do meu lado para o resto da minha vida.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os m\u00fasculos do meu corpo estavam confusos. Desde os estriados at\u00e9 os lisos. Minha biologia inteira estava errada.A boca seca demais.O cora\u00e7\u00e3o r\u00e1pido de menos. \u2003\u2003Alguma coisa estava errada. O magnetismo da terra parecia estar anormal. As for\u00e7as c\u00f3smicas n\u00e3o estavam do meu lado. 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