{"id":7880,"date":"2015-11-11T11:00:00","date_gmt":"2015-11-11T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-11T11:31:38","modified_gmt":"2025-11-11T14:31:38","slug":"chapter-xiii","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/forest-on-fire\/chapter-xiii\/","title":{"rendered":"Chapter XIII"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003O desespero pairava a cidade. A trag\u00e9dia era o novo hino do local. Deus pareceu esquecer-se daquela cantinho da Su\u00e9cia naquela manh\u00e3. Quando os primeiros engasgaram, o padre se assustou. Quando os primeiros cuspiram sangue, o padre clamou pelo Senhor em transtorno. Quando os primeiros agonizaram, o padre saiu correndo pedindo por socorro. Quando os primeiros morreram, o padre praticamente morrera junto.<br>\u2003\u2003 O caos alastrou-se. Mas, aqueles pobres seres de alma e dinheiro n\u00e3o tinham a quem deixar. Eram sozinhos, sem fam\u00edlia ou expectativa. Seu \u00fanico clamor ao amanhecer era que pudessem subir a colina e ir desfrutar das refei\u00e7\u00f5es de %Gustav%. A Su\u00e9cia era um pa\u00eds rico, mas, por brigas religiosas alguns cat\u00f3licos perderam suas posses e acabaram ali. Acabaram no \u00fanico reduto do Vaticano naquele g\u00e9lido pa\u00eds. <br>\u2003\u2003 Assim que %Gustav% chegou e modificou suas vidas, elas pareciam ter alcan\u00e7ado um peda\u00e7o do c\u00e9u. Peda\u00e7o do c\u00e9u o qual iriam ter agora, seus corpos estavam jogados ao ch\u00e3o. O sangue que cuspiram ao beber o leite lhes pintou a pele, por\u00e9m, sua alma santa e pura subia aos c\u00e9us para o encontro do pai celestial. Infelizmente o para\u00edso era apenas para os mortos.<\/p>\r\n<p align=\"center\">Para os vivos, o inferno subia \u00e0 terra.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003H\u00e1 40 anos eu morava ali e h\u00e1 40 anos eu ainda achava irritantemente perturbador o sol nascer \u00e0s 3 da manh\u00e3 no ver\u00e3o. Por uma falha acabei deixando uma fresta na janela que permitiu a entrada de luz cedo demais. Quando olhei no rel\u00f3gio e me dei conta que ainda eram 5 da manh\u00e3 eu quis matar algu\u00e9m, odiava acordar cedo. <br>\u2003\u2003 Joguei os ovos na frigideira e fui procurar por vinho. Sei que o normal seria beber leite, ch\u00e1 ou at\u00e9 mesmo um suco, mas eu preferia tomar vinho, principalmente nos momentos de mau humor. O vinho me aquecia, embora estiv\u00e9ssemos no ver\u00e3o e o ver\u00e3o ao sul fosse o mais quente do pa\u00eds gra\u00e7as \u00e0 corrente do Golfo. As gemas foram lambuzadas com sal e embrulhadas com p\u00e3o. Por mais simples que fosse, se eu precisasse apenas comer p\u00e3o com ovo at\u00e9 o fim dos tempos n\u00e3o seria de todo ruim, apesar de n\u00e3o conseguir viver sem carne. <br>\u2003\u2003 O sol estava um pouco mais forte naquele dia, a paisagem do lado de fora era mais amarelada com alguns tons de vermelho. Eu sentia falta da neve, gostava de olhar pela janela da cozinha e ver meu quintal todo coberto pela cor branca. Meu sandu\u00edche estava pela metade quando m\u00e3os grosseiras martelaram minha porta. Olhei no rel\u00f3gio em cima da geladeira e ele me dizia que mal havia passado das 7 horas da manh\u00e3, mas que diabos? <br>\u2003\u2003 Muitas coisas tinham mudado nos \u00faltimos tempos. Eu com meus bem vividos 40 anos estava envolvido com uma garotinha de 17. %Gustav% estava de volta \u00e0 cidade, assim como Ana, e %Carl% era o mais novo corno separado do momento. Al\u00e9m do fato de eu receber mais visitas do que estava acostumado. Aquilo n\u00e3o era comum, pessoas batendo \u00e0 minha porta com tanta frequ\u00eancia era realmente algo fora da rotina. <br>\u2003\u2003 Deixei o sandu\u00edche de ovo jogado em cima do prato e limpei minhas m\u00e3os na camiseta preta que tinha sido meu pijama naquela noite. A porra da m\u00e3o n\u00e3o parava de bater na porta freneticamente. De repente, quando ainda estava cruzando a porta da cozinha reconheci a voz de %Gustav% desesperada, alta e atordoada. Corri at\u00e9 a porta, envolto por aquele clima tr\u00e1gico e ao abrir a mesma vi meu amigo padre de uma maneira que nunca me passou pela cabe\u00e7a poder ser real. <br>\u2003\u2003 Seus olhos mal pareciam verdes naquele mar vermelho que tomava conta de seus gl\u00f3bulos oculares. As m\u00e3os que outrora batiam na madeira de entrada da minha casa tremiam como o ch\u00e3o no romper de um terremoto. N\u00e3o h\u00e1 como descrever a situa\u00e7\u00e3o dele sen\u00e3o dizer que %Gustav% estava tomado pelo p\u00e2nico, sua alma estava fodida. Em um momento inesperado o padre se jogou nos meus bra\u00e7os chorando. N\u00e3o sabia o que fazer, como reagir. Nenhum manual humano tinha instru\u00e7\u00f5es para aquela situa\u00e7\u00e3o. <br>\u2003\u2003 Com minha for\u00e7a que mal havia acordado o coloquei para dentro de casa fechando a porta. %Gustav% n\u00e3o se desgrudava de mim. As l\u00e1grimas dele molhavam meu ombro e seus solu\u00e7os me arrepiavam por inteiro. Eu mal possu\u00eda f\u00f4lego para perguntar o que havia acontecido, para entender qual o motivo daquele desespero. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Gustav%, senta aqui, se acalma, tenta me explicar. \u2013 o coloquei sentado em meu sof\u00e1 e o padre mal se movera. Ele parecia querer entrar em posi\u00e7\u00e3o fetal. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu&#8230; eu&#8230; eu n\u00e3o consigo. \u2013 eu j\u00e1 tinha visto %Gustav% chorar. Chorar de dor, pela namorada, por futebol e at\u00e9 mesmo de rir. Mas daquela maneira, com aquela intensidade, jamais. Me ajoelhei na frente dele e o fiz olhar para mim. Meus olhos marejaram, eu devo admitir. Ele estava sofrendo e ver meu amigo sofrer daquela maneira n\u00e3o era suport\u00e1vel para o meu ser. Por mais babaca filho da puta que eu fosse, eu era um ser humano com carinho e amor rondando meu peito. <br>\u2003\u2003 &#8211; Respira fundo. N\u00e3o sei o qu\u00ea raios houve, mas n\u00e3o adianta deixar o p\u00e2nico alastrar no seu corpo. Eu sou amigo, eu sou seu irm\u00e3o, eu vou te ajudar. \u2013 %Gustav% segurou minhas m\u00e3os e as mesmas come\u00e7aram a tremer no ritmo das dele. Ele n\u00e3o tinha toque ou firmeza em seus gestos. Agora era eu quem queria acabar em posi\u00e7\u00e3o fetal. <br>\u2003\u2003 %Gustav% fechou os olhos. Talvez ele estive rezando, orando, clamando piedade. Eu estava bufando, socando minha pr\u00f3pria perna em nervosismo, aquele clima de mist\u00e9rio iria me matar a qualquer minuto. <br>\u2003\u2003 &#8211; A casa dos pobres. \u2013 %Gustav% soltou, ainda de olhos fechados. Eu ia interromp\u00ea-lo, mas ele levantou a m\u00e3o me impedindo. \u2013 A casa dos pobres foi invadida. As pessoas morreram, quem foi comer l\u00e1 hoje morreu. Elas cuspiram sangue depois de beber o leite. Crian\u00e7as ca\u00edram duras no ch\u00e3o sujas de sangue. Eu n\u00e3o pude fazer nada, nada. \u2013 o golpe foi fundo no meu est\u00f4mago. Pessoas morreram? Sangue? Foi uma chacina? <br>\u2003\u2003 &#8211; Algu\u00e9m assassinou os pobres? Como assim? \u2013 perguntei em v\u00e3o, meu amigo ainda de olhos fechados parecia querer sumir da realidade. \u2013 %Gustav%! \u2013 berrei o sacudindo. Ele pareceu finalmente acordar. Os olhos que choravam de tristeza agora pareciam inundados de raiva. <br>\u2003\u2003 &#8211; Assassinato, %Fitzroy%. \u2013 %Moore% se p\u00f4s de p\u00e9 andando pela sala. \u2013 Foi aquele maldito Armand. Eu sei que foi, envenenaram a porra do leite. Sei que fizeram isso, n\u00e3o sei como, quando e nem com o qu\u00ea. Mas envenenaram o caralho do leite dos meus pobres. Eu amava aquela gente, eles eram parte de mim. Sangue do meu sangue e eles os tiraram de mim. N\u00e3o foram todos que morreram, assim que os primeiros ca\u00edram ningu\u00e9m mais bebeu ou comeu algo. Mas nada podia ser feito, em minutos todos estavam mortos e sujos de sangue no ch\u00e3o. \u2013 %Gustav% n\u00e3o deu pausa entre as palavras, ele falava e falava e falava e eu resolvi deix\u00e1-lo falar, o garoto precisava desabafar. \u2013 E quer saber a maior? Eu estava l\u00e1 jogado no ch\u00e3o totalmente perdido e desesperado. As cozinhas estavam chorando, Manterfos saiu correndo pra pedir ajuda e os outros que estavam l\u00e1 mal conseguiam se mexer tamanho o p\u00e2nico. Ent\u00e3o o bispo chegou acompanhado de Armand. Depois de muito trabalho, de tirar os corpos de l\u00e1, de chegar os bombeiros, a pol\u00edcia e o diabo \u00e0 4 o bispo me chamou para uma reuni\u00e3o. Ele n\u00e3o estava normal, seu tom de voz era diferente. \u2013 ele deu uma pausa para soltar um sorriso escarnecido. \u2013 Armand jogou minhoca na cabe\u00e7a dele, o bispo estava meio inerte. Ele disse que Armand o instruiu a me suspender da minha miss\u00e3o por uma semana. Que faria mal para mim ficar ali, que eu precisava de paz e sossego por alguns dias. Ele me tocou da igreja, disse que era o melhor pra mim, mas n\u00e3o. Esse n\u00e3o \u00e9 o melhor pra mim, \u00e9 o melhor praquele cardeal maldito. Armand deve estar morrendo de medo de que eu consiga provas contra ele e por isso ele me afastou, para deixar o caminho livro. Devo admitir, o cara \u00e9 realmente brilhante. <br>\u2003\u2003 &#8211; \u00c9 assim que eu gosto de voc\u00ea, puto e falante. Mas vai com calma que voc\u00ea me deixou tonto falando tanta coisa sem dar espa\u00e7o pra respirar. \u2013 pela primeira vez naquele momento conturbado ele riu. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, envenenaram o leite daquela merda eu estou muito puto. E pra ajudar me tiraram de l\u00e1, n\u00e3o posso nem ao menos passar perto da igreja. E pra ajudar mais ainda, o bispo disse que me poria bem longe das investiga\u00e7\u00f5es para n\u00e3o fazer mal a mim mesmo. S\u00e9rio, voc\u00ea acha que a pol\u00edcia local vai ter algum poder com Armand por perto? <br>\u2003\u2003 &#8211; O que Armand tem a ver com a pol\u00edcia? \u2013 se tinha uma coisa que eu estava naquele momento, era confuso. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, o Estado sueco \u00e9 laico, mas n\u00f3s sabemos que a maioria \u00e9 protestante. Voc\u00ea sabe da hist\u00f3ria de guerra civil religiosa envolvendo nossa regi\u00e3o. Voc\u00ea sabe que as autoridades de fora t\u00e3o pouco se fodendo se um cat\u00f3lico morreu de c\u00e2ncer ou assassinato por aqui. A pol\u00edcia local vai com toda for\u00e7a querer justi\u00e7a para isso, mas eu duvido muito, mas muito mesmo, que o Armand vai deixar a <em>Riks Krimina lPolisen<\/em> sequer chegar perto daqui. O homem tem poder, o poder do Vaticano, que \u00e9 uma baita duma influ\u00eancia.- %Gustav% parecia estar tremendamente incomodado com toda a situa\u00e7\u00e3o. Qualquer um falaria \u201cfoda-se, s\u00e3o s\u00f3 sem-teto que ningu\u00e9m se importa\u201d. Mas o meu amigo, o meu padre n\u00e3o era qualquer um, ele era %Gustav% %Moore%. Uma santa pessoa a qual me inspirava nos meus momentos de \u00f3dio mortal pelo mundo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ningu\u00e9m vai sentir falta dos que morreram, v\u00e3o jogar os corpos em qualquer buraco e Armand vai usar de sua influ\u00eancia para afastar pol\u00edcia. Essa parte eu entendi, mas, e o povo daqui? E os cat\u00f3licos daqui, o que v\u00e3o fazer com eles? <br>\u2003\u2003 &#8211; V\u00e3o por todos dentro da Igreja, celebrar uma missa, falar um blah blah qualquer e pronto. Armand consegue manipular qualquer um. \u2013 odiava me sentir impotente, com todo meu tamanho e for\u00e7a, era uma bosta n\u00e3o poder fazer nada para resolver. <br>\u2003\u2003 &#8211; E voc\u00ea, vai fazer o qu\u00ea? \u2013 %Moore% se sentou novamente, seu sorriso de nervosismo estava cortando a porra do meu cora\u00e7\u00e3o. <br>\u2003\u2003 &#8211; Fui tocado da Igreja, mal tive tempo de pegar minhas coisas. Ser\u00e1 que posso ficar por aqui? Sei que odeia visitas, mas&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Nenhum \u201cmas\u201d. Cale a boca, o que voc\u00ea acha que eu sou pra recusar teto \u00e0 voc\u00ea, seu merda? <br>\u2003\u2003 &#8211; O %Fitzroy%? \u2013 os dois riram. Me sentei ao lado dele e o abracei. %Gustav% e %Carl% eram meus meninos e ningu\u00e9m faria mal \u00e0 eles e se veria longe da minha vingativa f\u00faria.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>xx<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Finalmente o padrezinho de merda estava longe da minha batina. Por um momento pensei que seria dif\u00edcil tirar o infeliz de dentro da Igreja, mas, nada que um bom servi\u00e7al e poucos gramas de <em>la cantarella<\/em> n\u00e3o resolvessem. <br>\u2003\u2003 Quando ainda era menino a maldade n\u00e3o havia possu\u00eddo meu peito. Eu esperava um mundo de justi\u00e7a, paz e igualdade. Entretanto, a experi\u00eancia me ensinou que h\u00e1 aqueles que devem morrer para que os certos possam viver em paz. Em todos os anos de Vaticano eu aprendi o que os homens de Deus deveriam ser capazes de fazer o poss\u00edvel e imposs\u00edvel para manter a integridade da nossa Santa M\u00e3e Igreja. <br>\u2003\u2003 Estudei por muitos anos a hist\u00f3ria de nossa Igreja e escolhi meu lado. Poder ser o homem mais importante do Justice for Saint Mary me mostrou que eu deveria ser capaz de pisar nos fracos para um futuro pr\u00f3spero. Sacrificar os miser\u00e1veis para que A Virgem Maria e seu filho estivessem sempre no controle e respeitados na terra. <br>\u2003\u2003 Rodrigo Borgia, o Papa Alexander VI. Sua fam\u00edlia era condenada por lux\u00faria, usura e outros crimes. Seu sangue espanhol era desdenhado pelas fam\u00edlias italianas mais tradicionais. Ele chegou \u00e0 Roma com sua mulher e seus filhos bastardos para receber o escarro da sociedade dali. Eu era um estrangeiro em terras sagradas como ele. Mas, Rodrigo fez o que fora preciso para manter o controle e a Igreja. <em>La Bella Farnese<\/em>, uma de suas amantes comandou por algum tempo as finan\u00e7as do Vaticano para impedir que os cardeais desviassem dinheiro. Seu filho, <em>Cesare<\/em>, o pr\u00edncipe de Maquiavel, lutou com unhas, dentes, punhais, facas e seu fiel escudeiro <em>Michelleto<\/em>. Fora nesse ritmo incr\u00e9dulo que a fam\u00edlia conheceu o poder de <em>la cantarella<\/em>.<br>\u2003\u2003 <em>La Cantarella<\/em>, uma varia\u00e7\u00e3o mais efetiva do ars\u00eanico. Um veneno que na dose certa traz a maior certeza da vida, a morte. A fam\u00edlia Borgia sabia muito bem do poder do veneno. Fora com eles que ganhei apre\u00e7o pelo mesmo e seria com ele que eu resolveria meus problemas. Um passo havia sido dado, %Gustav% n\u00e3o seria mais um empecilho e finalmente eu teria livre acesso \u00e0 Igreja para vasculh\u00e1-la atr\u00e1s do meu precioso tesouro. <br>\u2003\u2003 Embora tesouro fosse uma forma errada de se tratar do conte\u00fado do ba\u00fa, cham\u00e1-lo assim era uma maneira de demonstrar carinho. Aquele ba\u00fa talvez fosse um dos mais antigos de posse do Vaticano, fora conseguido em uma Cruzada no ano de 1096. Era uma pe\u00e7a talhada em madeira trancada com um enorme cadeado dourado. Na parte superior jazia um crucifixo banhado em ouro branco e alguns dizeres escritos em hebraico na cor vermelha. <br>\u2003\u2003 Quando os documentos chegaram em minhas m\u00e3os n\u00e3o tive d\u00favida que por seu teor extremamente exorbitante, deveriam ser guardados naquele ba\u00fa. Assim passei a miss\u00e3o aos soldados do Justice, que deveriam p\u00f4-los em seguran\u00e7a onde fosse melhor. Por\u00e9m, por uma lei do grupo, de que os Cardeais de maior influ\u00eancia da Igreja n\u00e3o devem saber onde guardar os pertences para que se evitasse conflitos de interesses, nunca ficara sabendo onde haviam sido guardados. <br>\u2003\u2003 At\u00e9 que um homem, que trabalhava para outro homem de sangue nobre e ex\u00edmia riqueza veio at\u00e9 mim oferecer seu pre\u00e7o pelo ba\u00fa. Em um primeiro momento eu sorri em descaso, mas, com o passar das horas e de nossa conversa a proposta feita n\u00e3o poderia ser recusada. Eu venderia o ba\u00fa, para o bem da Santa Igreja e ningu\u00e9m ousaria ficar em meu caminho, nem ao menos, O Justice for Saint Mary. Com %Gustav% fora eu poderia revirar a Igreja e finalmente achar meu ba\u00fa.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>xx<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003N\u00e3o era a primeira vez e com toda a certeza poss\u00edvel de ser medida, n\u00e3o seria a \u00faltima. Matar n\u00e3o era mais uma aberra\u00e7\u00e3o, um absurdo transcendental. Acontece com qualquer um quando \u00e9 colocado em situa\u00e7\u00f5es extremas. Voc\u00ea se acostuma e nem perde tempo remoendo aquilo. Faz parte do passado e o passado fica no passado. <br>\u2003\u2003 Armand mal havia falado comigo naquele dia, mas seu humor estava incontrolavelmente, bom. O homem estava alegre, irremediavelmente feliz. Por um lado eu at\u00e9 me sentia bem por ele, felicidade seria algo bem vindo naquela Igreja. Se Armand sorria como uma besta, o bispo s\u00f3 faltava chorar como uma crian\u00e7a chateada. %Gustav% tamb\u00e9m parecia fazer falta, de um jeito estranho ele alegrava o lugar. <br>\u2003\u2003 Eu o \u00fanico ali que tinha uma vis\u00e3o diferente dos fatos. Armand estava completamente radiante pelo padre %Gustav% %Moore% estar bem longe dali e eu sabia muito bem o que aquilo queria dizer, o cardeal infernal teria todo a liberdade necess\u00e1ria para por a Igreja abaixo atr\u00e1s do tesouro. O que era uma vergonha tamanha. Segundo os regulamentos do Justice, uma das faltas mais graves era a de trair o grupo para qualquer tipo de benef\u00edcio pr\u00f3prio. Somada \u00e0 essa, Armand parecia descumprir outra regra principal, a de agir pelas costas dos outros para encontrar qualquer objeto guardado pelos soldados. <br>\u2003\u2003 Eu era um dos soldados do Justice, Cardeais mais novos e de menos influ\u00eancia que faziam o servi\u00e7o bra\u00e7al. \u00c9ramos n\u00f3s que cobr\u00edamos as sujeiras da Igreja. \u00c9ramos n\u00f3s que organiz\u00e1vamos os pertences preciosos do Vaticano e os guard\u00e1vamos. Era de Armand e homens como ele a responsabilidade de resolver problemas administrativos, merdas burocr\u00e1ticas e coisas do g\u00eanero. Como bom soldado que era, n\u00e3o deixaria Armand completar seu plano e faria de tudo para cumprir o meu, encontrar Nikolai. <br>\u2003\u2003 Nikolai, o \u00fanico desertor do <em>Justice for Saint Mary<\/em> a ficar vivo por mais de 24 horas. Tinha se tornado uma lenda entre n\u00f3s soldados, havia criado um chamariz de heroicidade em outros soldados que desejavam fazer o mesmo. Todos falharam miseravelmente. Conhec\u00ea-lo era at\u00e9 mesmo realizar um sonho quase adolescente de conhecer um s\u00edmbolo de rebeldia. Entretanto, n\u00f3s podemos at\u00e9 conseguir sair do Justice, o problema \u00e9 que o Justice nunca sair\u00e1 de n\u00f3s. S\u00e3o lembran\u00e7as demais e um s\u00edmbolo que literalmente n\u00e3o sairia nunca de nossas peles. Uma enorme tatuagem nas costas. \u00c9 at\u00e9 mesmo ir\u00f4nico tratar de tatuagens na Igreja Cat\u00f3lica, mas em seu \u00e2mago, a religi\u00e3o cat\u00f3lica ainda carregava muito de seu antigo paganismo. <br>\u2003\u2003 Decidi que queria dar uma voltar. Conhecer a cidade, matar o t\u00e9dio e cobi\u00e7ar mulheres. Para n\u00e3o assustar a popula\u00e7\u00e3o resolvi me despir das vestes sagradas, fiz o melhor que pude com o que havia trazido. Um sapato social, cal\u00e7a preta tamb\u00e9m social, camisa preta e um enorme casado. O frio dali sabia ser pior que o da It\u00e1lia. <br>\u2003\u2003 Nem me preocupei em avisar Armand, sabia que ele estaria se divertindo por l\u00e1 e n\u00e3o sentiria minha falta. Era uma sexta feira, ao descer a colina via o movimento de pessoas bem vestidas em clima de festa e a alegria, elas beberiam, trepariam e acordariam felizes no outro dia. Eu, teria que arrumar algo que minha religi\u00e3o permitisse. <br>\u2003\u2003 Vi um casal se despedir com um nada discreto beijo e l\u00edngua. A ruiva sorria e o homem claro de cabelos castanhos tamb\u00e9m. Era bom em analisar pessoas e inventar hist\u00f3rias para suas vidas e me distrair com isso. Continuei meu caminho que acabou se cruzando com o do homem claro de cabelos castanhos. Seus olhos pararam sobre mim um momento, ele pareceu n\u00e3o me reconhecer. <br>\u2003\u2003 &#8211; Forasteiro? \u2013 perguntou, tinha um sorriso receptivo em seus l\u00e1bios. <br>\u2003\u2003 &#8211; Foi t\u00e3o f\u00e1cil perceber? <br>\u2003\u2003 &#8211; A cidade \u00e9 pequena, \u00e9 f\u00e1cil reconhecer um rosto desconhecido. %Carl% %Lindemann%. \u2013 seus olhos brilhavam de um jeito t\u00e3o, doce. Estendeu sua m\u00e3o com o mesmo sorriso de antes. <br>\u2003\u2003 &#8211; Giorgio Chielline. Um italiano curtindo uns dias de f\u00e9rias do trabalho. \u2013 n\u00e3o seria naquele momento que iria revelar ser um cardeal. <br>\u2003\u2003 &#8211; Italiano? Nunca conheci sua terra, dizem ser uma maravilha, cheia de hist\u00f3ria, monumentos e belas mulheres. Tudo isso confere? <br>\u2003\u2003 &#8211; Tudo isso e mais um pouco, temperado com a t\u00edpica latinidade quente de todo italiano. A gente realmente n\u00e3o presta. Tamb\u00e9m nunca tinha vindo para essas terras, o frio anda me assustando e o dia longo de mais tamb\u00e9m. Esperava mais frieza, ainda bem que encontrei um sueco mais <em>caldo<\/em>.<br>\u2003\u2003 &#8211; <em>Caldo?<\/em> \u2013 %Carl% n\u00e3o parecia entender muito bem a l\u00edngua italiana. <br>\u2003\u2003 &#8211; Perd\u00e3o, quente. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ah sim, quente. Isso quer dizer que sou simp\u00e1tico? Espero que sim. <br>\u2003\u2003 &#8211; \u00c9 exatamente isso. O que tem de bom para se fazer em uma sexta-feira por aqui? <br>\u2003\u2003 &#8211; Depende do que voc\u00ea procura. \u2013 na real eu gostaria muito de foder algu\u00e9m, mas n\u00e3o era o dia ideal. Talvez beber algo e comer um frango frito seria razo\u00e1vel. <br>\u2003\u2003 &#8211; Comer, beber? Me surpreenda. <br>\u2003\u2003 &#8211; Bem, h\u00e1 um restaurante t\u00edpico por aqui perto da praia, acho que possa te agradar e te ajudar a conhecer a cidade. Te acompanharia se pudesse, mas tenho um amigo me esperando. <br>\u2003\u2003 &#8211; Tudo bem, n\u00e3o se preocupe. S\u00f3 me passe as coordenados, ficaria grato. <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas claro. N\u00e3o \u00e9 nada muito complicado. Pode continuar reto por aqui e virar \u00e0 esquerda. Voc\u00ea vai ver dois hot\u00e9is de luxo, passe por eles e vire \u00e0 direita, \u00e9 s\u00f3 se guiar pelo som das ondas batendo nas rochas. Ele fica logo \u00e0 frente ao reflexo da luz do farol. \u2013 certo, luz do farol. Que a pequena aventura valesse a pena. <br>\u2003\u2003 &#8211; Certo, obrigada, %Carl%. Foi bom conhecer voc\u00ea, que possamos nos encontrar mais vezes. \u2013 fora minha vez de estender a m\u00e3o. <br>\u2003\u2003 &#8211; Tamb\u00e9m espero, bom passeio. \u2013 assim que soltamos as m\u00e3os, seguimos nossos caminhos.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>xx<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Sexta-feira \u00e0 noite. Meus pais estavam se arrumando e falando alto demais. Os dois tinham muito mais vida social que eu, o que poderia ser bem frustrante \u00e0s vezes. Todo final de semana eram jantares, bailes beneficentes, casamentos e mais eventos sociais. Quando pequena eu ia em todos eles. Os vestidos bufantes, tiaras de <em>swarovski<\/em> e outros apetrechos que me faziam parecer uma princesa. Ent\u00e3o eu cresci e me tornei um pouco mais \u201crebelde\u201d, por falta de termo melhor. Aos poucos aquelas festas se tornaram s\u00edmbolo de comida boa gr\u00e1tis e j\u00e1 fazia algum tempo que eu resolvi abandonar tudo e deixar pra l\u00e1. Meus pais iam \u00e0 todos sem mim e parecia melhor assim. <br>\u2003\u2003 &#8211; Filha, estamos indo. Se cuide viu? \u2013 meu pai surgiu na porta me assustando de leve. <br>\u2003\u2003 &#8211; Pai, j\u00e1 falei 20 vezes pra n\u00e3o chegar falando assim, me assusto toda santa vez. \u2013 ele riu da minha cara. Velho abusado. <br>\u2003\u2003 &#8211; Perd\u00e3o, mas o jeito que voc\u00ea pula da cadeira \u00e9 engra\u00e7ado. \u2013 eu o olhei com uma express\u00e3o de t\u00e9dio mostrando a l\u00edngua. \u2013 Sua m\u00e3e e eu voltamos amanh\u00e3, deixei dinheiro pra pizza em cima do aparador do corredor. Ju\u00edzo hein. <br>\u2003\u2003 &#8211; Pode ficar tranquilo, n\u00e3o vou trazer nenhum stripper pra casa. \u2013 meu pai iria falar mais algo, mas, minha m\u00e3e chegou na porta chamando a aten\u00e7\u00e3o com seu decot\u00e3o. <br>\u2003\u2003 &#8211; Traga algu\u00e9m sim, seu pai com ci\u00fames de voc\u00ea \u00e9 bem mais engra\u00e7ado que seus sustos. <br>\u2003\u2003 &#8211; Irina&#8230; \u2013 mam\u00e3e levantou os bra\u00e7os fingindo inoc\u00eancia. <br>\u2003\u2003 &#8211; Beijos, filha, boa pizza. \u2013 os dois entraram no quarto e me espremeram em um abra\u00e7o. Me senti at\u00e9 mesmo sufocada pelos peitos da minha m\u00e3e. Por mais crian\u00e7a que eu me sentisse naqueles momentos, tenho que admitir que aquela merda de abra\u00e7o era bom demais. <br>\u2003\u2003 Ligar para a pizzaria ou ir buscar? Coloquei um moletom, cal\u00e7a jeans e t\u00eanis e desci as escadas correndo, queria tomar um ar. Eu realmente gostava daquela cidade. Tudo bem que em toda viagem para Estocolmo ou outras capitais europeias eu surtava e enchi o saco do meu pai para que mud\u00e1ssemos. Todo aquele movimento, luzes, carros importados e pessoas vestindo as roupas mais caras do mundo me deixavam tentada e de acesa para a vida na capital. Mas, eu havia vivido bons momentos ali. Apesar de pequena e meio isolada do mundo, tudo de mais moderno era encontrado, todas as minhas vontade eram supridas. <br>\u2003\u2003 As pessoas andavam de l\u00e1 para c\u00e1, tinham que curtir a noite antes que a mesma acabasse, o que aconteceria por volta das 3 da manh\u00e3. Era bem estranho entrar na boate \u00e0 meia noite e sair dali quatro horas com o sol iluminando tudo. Excentricidades da Su\u00e9cia. <br>\u2003\u2003 Finalmente cheguei \u00e0 pizzaria e fui pra fila que se formava no balc\u00e3o. O local estava mais cheio que o de costume, me senti sufocada por um momento. Encontrei um povo conhecido, uns meninos da minha sala, uns amigos dos meus pais. Foi ent\u00e3o quando ouvi um assobio, olhei para tr\u00e1s e vi %Fitzroy% acenando. Fiquei incr\u00e9dula por um tempo e reforcei o olhar para garantir que estava vendo demais. Uns segundos depois %Carl% entrou pela porta, uma ironia muito desnecess\u00e1ria do destino. Ele foi at\u00e9 mim sem dizer um \u201ce a\u00ed?\u201d sequer e me arrastou pelo bra\u00e7o. \u00d3timo, eu fazia parte da gangue deles agora. <br>\u2003\u2003 &#8211; Come com a gente. \u00c9 triste comer pizza na solid\u00e3o em casa, vai por mim, j\u00e1 fiz muito isso. \u2013 %Carl% era um doce, um lindo, um fofo. Diferente do amigo que puxou a cadeira ao seu lado para eu me sentar. <br>\u2003\u2003 &#8211; Seus pais foram para aqueles programas aristocratas? \u2013 %Fitzroy% ficava t\u00e3o lindo e sensual de cachecol e sorrindo. <br>\u2003\u2003 &#8211; E quando eles n\u00e3o v\u00e3o? S\u00f3 me resta torrar o dinheiro deles mesmo. \u2013 %Carl% come\u00e7ou a rir e %Fitzroy% me olhou, se fazendo de incr\u00e9dulo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas \u00e9 uma filhinha de papai mesmo. \u2013 eu poderia ter levado como ofensa e at\u00e9 levaria se logo depois ele n\u00e3o tivesse passado o bra\u00e7o pelo meu ombro. Quando dei por mim j\u00e1 estava tremendo em nervosismo. <br>\u2003\u2003 &#8211; E a\u00ed, o que vamos pedir? \u2013 %Carl% segurava o card\u00e1pio muito bem concentrado. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu voto em calabresa. \u2013 aquela seria minha pizza preferida at\u00e9 o fim do universo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Queijo e bacon. &#8211; respondeu o lenhador. <br>\u2003\u2003 &#8211; Certo. \u2013 %Carl% chamou o gar\u00e7om, fez o pedido e n\u00f3s ficamos ali, jogando conversa sem sentido fora. N\u00e3o demorou muito para a pizza chegar e eu simplesmente me jogar feito uma louca desvairada em cima da mesa. <br>\u2003\u2003 &#8211; Por que Ana n\u00e3o veio? \u2013 lembrar de Ana me dava uma certa agonia. Ouvir %Fitzroy% falando no nome dela me deixava meio surtada. <br>\u2003\u2003 &#8211; Os pais iam dar uma festa e ela n\u00e3o podia faltar. \u2013 foi s\u00f3 %Fitzroy% pronunciar o nome da ruiva que %Carl% se iluminou. Parecia haver uma fuma\u00e7a rosa cintilantes em volta dele. A mulher tinha realmente conquistado o a\u00e7ougueiro. Eu meio que fechei a cara, a conversa n\u00e3o estava me agradando. %Fitzroy% encheu a boca de pizza e um peda\u00e7o de queijo escorreu pela boca dele. Por mais nojento que fosse, eu queria voar ali, lamber o queijo e beijar a boca dele. Ele estava mais gostoso que o normal, o homem cheirava \u00e0 bacon. <br>\u2003\u2003 &#8211; Falando nela, isso me lembra algo engra\u00e7ado. \u2013 ele come\u00e7ou a rir. %Carl% e eu ficamos meio sem entender. O que ele estava pensando eu n\u00e3o sabia, s\u00f3 poderia afirmar que era alguma merda safada. <br>\u2003\u2003 &#8211; Essa daqui. \u2013 apontou para mim. \u2013 Me viu com a Ana e achou que n\u00f3s \u00e9ramos namorados. \u2013 oh, que \u00f3timo, agora ele iria espalhar isso para o mundo todo. <br>\u2003\u2003 &#8211; O qu\u00ea? S\u00e9rio? \u2013 %Carl% olhou para mim e caiu numa longa gargalhada. Malditos. <br>\u2003\u2003 &#8211; U\u00e9, %Carl%, vi os dois grudados e ele disse pra mim que eram namorados. Queria que eu pensasse o qu\u00ea? <br>\u2003\u2003 &#8211; Mas, eu te disse na sua casa que&#8230; ah, foi por isso ent\u00e3o. \u2013 %Carl% tamb\u00e9m come\u00e7ou a sorrir daquela forma irritante. Eu estava aos poucos perdendo o controle. <br>\u2003\u2003 &#8211; Foi por isso ent\u00e3o o qu\u00ea? \u2013 %Fitzroy%, cale a boca e pare de ser curioso. Que inferno! <br>\u2003\u2003 &#8211; Esses dias fui na casa dela preparar o jantar e comentei que estava saindo com a Ana. Ela fez uma cara meio estranha e pareceu ficar de mau-humor. <br>\u2003\u2003 &#8211; Que sensacional. \u2013 %Fitzroy% e %Carl% estavam curtindo com a minha cara. De repente a pizza se tornou ruim. Senti vontade de vomitar o que havia comido, por que os dois n\u00e3o iam \u00e0 merda? <br>\u2003\u2003 &#8211; Claro, voc\u00ea me fala que t\u00e1 saindo com a Ana e o %Fitzroy% tamb\u00e9m me fala a mesma coisa, voc\u00eas acham que eu sou retardada para achar que isso \u00e9 normal? \u00c9 no m\u00ednimo rid\u00edculo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Rid\u00edcula foi voc\u00ea morrendo de ci\u00fames. \u2013 %Fitzroy% me puxou mais para perto e sorriu convencido. Homem do diabo, tinha inventado aquela desculpinha. Um plano maquiav\u00e9lico sustentado por uma mentira imbecil para me enciumar. Muito maduro da parte dele. Por Deus, como eu estava irritada. Quase peguei minha faca e taquei na testa dele. <br>\u2003\u2003 &#8211; Rid\u00edculo \u00e9 voc\u00ea arrumando esses joguinhos para brincar com a minha cara. Bem infantil da sua parte, seu ot\u00e1rio. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o fica bravinha, foi divertido. Voc\u00ea realmente caiu feito uma patinha na hist\u00f3ria. Voc\u00ea precisava ver, %Carl%, ela ficou maluca. \u2013 respirei fundo. Eu n\u00e3o queria brigar, mas realmente estava tentada \u00e0 encher a cara dele de tapas. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ci\u00fames \u00e9 sin\u00f4nimo de paix\u00e3o, han? <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu n\u00e3o fiquei com ci\u00fames, %Carl%. \u2013 ah t\u00e1 que eu realmente iria assumir aquilo ali publicamente. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ficou sim, n\u00e3o se fa\u00e7a de desentendida. &#8211; eu havia ficado com muito ci\u00fames. Qualquer um na mesma situa\u00e7\u00e3o que eu tamb\u00e9m ficaria. O que estava me deixando emputecida era o fato de %Fitzroy% sempre dar um jeito de me fazer de idiota. Ele jogava sua masculinidade sobre mim como se fosse um poder heroico e se achava no direito de controlar minhas emo\u00e7\u00f5es. Ah n\u00e3o, eu n\u00e3o permitira que ele me usasse como quisesse, n\u00e3o para manipular meus pensamentos. Dar meu corpo \u00e0 ele j\u00e1 era o suficiente, n\u00e3o daria minha alma. <br>\u2003\u2003 &#8211; Do mesmo jeito que voc\u00ea ficou de ci\u00fames de mim com o Manterfos? \u2013 o sorriso da vit\u00f3ria ocupou meus l\u00e1bios e o %Fitzroy% abusado deixou lugar para o %Fitzroy% ofendido. <br>\u2003\u2003 &#8211; Ui, mandou bem, %Louise%. \u2013 %Carl% estava assistindo o show de camarote e estava se divertindo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Aquele coroinha? Ci\u00fames? S\u00e9rio? \u2013 eu conhecia aquela express\u00e3o, ele estava puto. Isso, lenhador, fique puto. <br>\u2003\u2003 &#8211; Sim, ci\u00fames daquele coroinha. Voc\u00ea sabe que ficou. <br>\u2003\u2003 &#8211; Na verdade achei engra\u00e7ado, voc\u00ea n\u00e3o soube escolher muito bem. Ele \u00e9 um molecote que n\u00e3o sabe nada da vida. \u2013 ah sim, a conversa de sempre. %Fitzroy% sempre dava um jeito de insinuar que ele era o melhor homem do universo, que ningu\u00e9m chegava aos seus p\u00e9s. Eu ainda provaria para mim mesma que algum homem estava ao alcance dele. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Fitzroy%, isso realmente me parece ci\u00fames. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Carl%, simplesmente cale a boca. &#8211; o a\u00e7ougueiro assumiu uma posi\u00e7\u00e3o defensiva e se calou. Ele sabia que o amigo ficava bem mais mal educado quando nervoso. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o vai assumir mesmo, n\u00e9? \u2013 eu o encarei e %Fitzroy% entendeu aquilo como um desafio. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea vai assumir o ci\u00fames pela Ana? <br>\u2003\u2003 &#8211; Vou e voc\u00ea? \u2013 tinha pegado ele de surpresa. %Fitzroy% chegou a engasgar com a pr\u00f3pria comida. Eu n\u00e3o iria levar aquele desaforo para casa. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Louise%, n\u00e3o me provoque &#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Vai assumir ou n\u00e3o, frangote? \u2013 ok, n\u00f3s parec\u00edamos duas crian\u00e7as de sete anos discutindo, mas convenhamos que n\u00e3o seria poss\u00edvel evitar aquilo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Fiquei. Pronto, fiquei. Satisfeita? \u2013 ele jogou os talheres em cima da mesa, visivelmente fora de si. Os objetos prateados fizeram barulho demais e as mesas do lado olharam. %Carl% se assustou e pediu calma. Parecia que a conversa tinha ido longe demais. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu sei que ficou, discuss\u00e3o encerrada. Se bem que voc\u00ea \u00e9 um babaca, pode assumir isso agora tamb\u00e9m. <br>\u2003\u2003 &#8211; S\u00f3 se voc\u00ea tamb\u00e9m assumir que \u00e9 uma filhinha de papai arrogante e irrespons\u00e1vel, que tal? Que vai pra floresta se meter onde n\u00e3o foi chamada, que faz um monte de burradas, que age como se tivesse sete anos. E a\u00ed, se voc\u00ea assumir isso, eu assumo que sou babaca. \u2013 filho de uma puta. Tudo tinha ido longe demais. %Fitzroy% n\u00e3o tinha direito algum de me dizer aquilo, ele havia se aproveitado \u2013 e muito bem \u2013 de cada \u201cburrada\u201d minha. Se ele achava aquilo t\u00e3o errado, o qu\u00e3o errado era o que ele fazia comigo? Comecei a raciocinar de um jeito desiquilibrado. N\u00e3o queria sair por baixo e ainda ser humilhada e tratada com uma coisinha infantil na frente do %Carl% . Eu teria que apelar para alguma coisa, ele tamb\u00e9m tinha que ser desvalorizado. <br>\u2003\u2003 &#8211; S\u00f3 se voc\u00ea assumir que deu uns pegas na minha m\u00e3e. \u2013 a frase saiu r\u00e1pida demais, \u00e1cida demais. %Carl% pela primeira vez na noite parecia chocado de um jeito ruim. Vomitei aquela merda, sem pensar nas consequ\u00eancias. Havia prometido para mim mesma que n\u00e3o tocaria naquele assunto cm ele, que manteria no passado. Entretanto n\u00e3o consegui controlar minha raiva, a revolta por ouvir aquelas palavras t\u00e3o injustas. %Fitzroy% pareceu ficar sem rea\u00e7\u00e3o. As palavras teimavam em n\u00e3o sair de sua boca e um semblante de culpa e mal entendimento fizeram-se presente no homem. <br>\u2003\u2003 &#8211; %Louise%&#8230; eu&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu vi, %Fitzroy%. Primeiro dia na minha casa, voc\u00eas passaram pela sala onde eu estava, mas n\u00e3o me viram. Ent\u00e3o eu segui voc\u00eas e vi o beijo que deram na adega. O barulho que os fez voltar \u00e0 realidade foi feito por mim. Quem \u00e9 o irrespons\u00e1vel agora? \u2013 a testa enrugada transparecia o sentimento de impot\u00eancia que ele parecia sentir. Eu o fiz sentir culpado e errado e era exatamente o que eu queria provocar. Ele n\u00e3o era um santo, um exemplo de perfei\u00e7\u00e3o e eu teria que provar para mim mesma que n\u00e3o poderia e deveria ser uma escrava do charme dele. <br>\u2003\u2003 &#8211; Cara, isso ultrapassou os limites e voc\u00ea nunca me disse nada. \u2013 %Carl% parecia&#8230; n\u00e3o sei definir. %Fitzroy% continuava calado, sem o dom\u00ednio das palavras e por mais ego\u00edsta que aquilo poderia parecer, sai enquanto estava por cima.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>xx<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Uma s\u00fabita vontade exc\u00eantrica tomou conta do meu corpo. O jantar fora \u00f3timo, teria que encontrar o tal %Carl% e agradec\u00ea-lo pela dica, realmente espetacular. Percebi as pessoas indo em dire\u00e7\u00e3o ao centro e aquele litoral mal recortado tornar-se cada vez mais vazio e frio. <br>\u2003\u2003 As ondas estavam cada vez mais altas, o vento uivando e balan\u00e7ando meus cabelos. Tirei meus sapatos e os deixei em um canto. Sentir a areia escura molhada e g\u00e9lida fizera bem para os meus p\u00e9s. Estava tentando sentir minha alma e nada melhor que me por em extremo contato com a natureza. Enquanto caminhava algo dentro de mim pediu que tirasse meu casaco e o fiz prontamente. A mesma sensa\u00e7\u00e3o dizia \u00e0 minha mente que eu deveria sentir o vento rasgar meu t\u00f3rax e por isso fiz minha camisa voar carregada pela revolta forma do ar. <br>\u2003\u2003 Abri os bra\u00e7os e soltei um grito enfurecido. Porra, eu me sentia vivo. <br>\u2003\u2003 Muitas vezes minha miss\u00e3o fazia com que eu me esquecesse do sentido da vida. Eu sempre me recusei a perder minha alma animalesca e sempre fazia o poss\u00edvel para que Deus n\u00e3o roubasse a ess\u00eancia pag\u00e3 de dentro de mim. <br>\u2003\u2003 Logo o frio j\u00e1 n\u00e3o me incomodava mais e a necessidade de algo mais voraz fazia-se presente. Parece que ao perceber isso, as divindades resolveram agir colocando algo no meu caminho. A garota da boca suculenta.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>xx<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003AAAH! Como aquele homem me irritava. Com a mesma facilidade que ele me fazia gozar, ele tamb\u00e9m me dava nos nervos. Juro que n\u00e3o queria ter falado aquilo, n\u00e3o foi realmente a minha inten\u00e7\u00e3o. Mas, ele me provocou. N\u00e3o era nenhuma santa que ficava engolindo desaforo ao Deus dar\u00e1. E afinal, n\u00e3o disse nenhuma mentira. Ele tinha beijado minha m\u00e3e, n\u00e3o tinha? Por que todo esse stress maluco? Talvez tenha realmente sido uma sacanagem eu berrar isso na frente do %Carl%, mas, eles eram carne e unha. Como eu iria adivinhar que os dois n\u00e3o sabiam? Ah, que se foda. Estava cansada de gente que muda a personalidade de uma hora para outra. <br>\u2003\u2003 N\u00e3o queria voltar para casa, nem queria ir at\u00e9 \u00e0 casa de alguma amiga, queria simplesmente sumir do mundo. E quando eu queria sumir do mundo naquelas propor\u00e7\u00f5es s\u00f3 um local era bom o suficiente para cumprir tal plano. A praia. <br>\u2003\u2003 N\u00e3o era como um litoral Caribenho. N\u00e3o havia areia branca, \u00e1guas cristalinas, palmeiras e essas coisas de praia, as quais eu n\u00e3o conhecia muito bem. Era uma t\u00edpica praia n\u00f3rdica. O mar era em um azul escuro profundo, a areia era mais acinzentada e cheia de musgos. As ondas eram revoltas e estouravam nos pared\u00f5es de pedra, mal havia chances de se nadar por l\u00e1. <br>\u2003\u2003 Fui me aproximando do local que costumava usar para pensar na vida. Mas algo na paisagem estava diferente. Hesitei em prosseguir meu caminho e fiquei ali parada feito um dois de paus. Um homem apenas de cal\u00e7a social preta estava parado com as m\u00e3os no bolso olhando o horizonte atrav\u00e9s do mar. Sem casaco, camisa ou sapato levando aquele vento gelado do inferno em seu peito. Os cabelos voavam por seu pesco\u00e7o e uma enorme tatuagem em suas costas chamava a aten\u00e7\u00e3o. Apesar de eu n\u00e3o identific\u00e1-la. Perdi um tempo o admirando e n\u00e3o pude evitar disfar\u00e7ar quando o mesmo se virou e olhou para mim. Me assustei, clara e obviamente. <br>\u2003\u2003 O cora\u00e7\u00e3o disparou e um leve desespero tomou conta de mim. Dei quatro passos para tr\u00e1s. Ele apenas sorriu e me chamou com a m\u00e3o. O meu ju\u00edzo se enfiou na areia e eu resolvi ir at\u00e9 ele. Caminhei vagarosamente at\u00e9 o desconhecido, a \u00fanica coisa que pude deduzir \u00e9 que n\u00e3o era da cidade. Se fosse, certamente reconheceria seu rosto. <br>\u2003\u2003 Prestei mais aten\u00e7\u00e3o no estranho. Era t\u00e3o alto como um tit\u00e3 e suas entradas p\u00e9lvicas certamente pareciam a entrada do inferno. Os m\u00fasculos tinham se definido em propor\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seriam cab\u00edveis de ignor\u00e2ncia. Em seu rosto um sorriso, convidativo e curioso. <br>\u2003\u2003 &#8211; Tamb\u00e9m veio admirar a natureza? \u2013 est\u00e1vamos frente \u00e0 frente. Tentava olhar em seus olhos enquanto fazia um esfor\u00e7o descomunal para n\u00e3o babar em seu abd\u00f4men. <br>\u2003\u2003 &#8211; Pensar na vida. \u2013 suspirei, nervosa e tremendo. <br>\u2003\u2003 &#8211; Sim, pensar na vida. Admito que olhar a revolta desse mar \u00e9 realmente uma ferramenta \u00fatil para se pensar na vida. E se permite, est\u00e1 pensamento exatamente em que? \u2013 estava pensando em como %Fitzroy% era endiabrado, arrogante e infernal. Claro, n\u00e3o contaria aquilo \u00e0 um desconhecido. <br>\u2003\u2003 &#8211; Em como voc\u00ea n\u00e3o caiu morto ou com hipotermia por tomar esse vento horrendo. Estou com esse moletom super quente e estou morrendo de frio. Voc\u00ea \u00e9 meio doido, n\u00e3o? \u2013 mais uma vez um homem gargalhava para mim naquela noite. Por\u00e9m, aquela sim era uma gargalhada gostosa de se ouvir. <br>\u2003\u2003 &#8211; S\u00f3 sou meio resistente ao frio. Vejo que est\u00e1 tremendo, venha c\u00e1. \u2013 Ele abriu os bra\u00e7os me convidando subliminarmente. Caralho! Mil vezes caralho, aquele homem tinha que ser uma alucina\u00e7\u00e3o. Algum tipo de droga tinha sido posta na pizza, porque n\u00e3o era poss\u00edvel. Ele me hipnotizava, o tom da voz parecia como o da sereia que encantava marinheiros e os levava at\u00e9 a morte. <br>\u2003\u2003 &#8211; Voc\u00ea \u00e9 algum tipo de estuprador assassino s\u00e1dico? \u2013 esperto, %Louise%. Porque com certeza se ele realmente for, \u00e9 claro que ele responder\u00e1 isso e te contar\u00e1 seus planos doentes. <br>\u2003\u2003 &#8211; Pare\u00e7o com um? <br>\u2003\u2003 &#8211; Talvez sim. \u2013 estava assustada e receosa e mesmo que quisesse chegar mais perto, algo me dizia que n\u00e3o devia. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o farei nada que n\u00e3o quiser. Ent\u00e3o, quer meu abra\u00e7o ou n\u00e3o? \u2013 meu cora\u00e7\u00e3o iria sair pelas minhas narinas. Eu sentia todo o meu corpo tremer como se uma britadeira agisse sobre ele. Queria correr e sair, sumir, ir embora. E ent\u00e3o as palavras de %Fitzroy% ecoaram me trazendo \u00e0 realidade. Eu era a menina sem ju\u00edzo, mimada e irrespons\u00e1vel. Tinha feito todo o tipo de loucura por ele que s\u00f3 sabia jogar isso na minha cara quando conveniente. Ele n\u00e3o era melhor que ningu\u00e9m, pelo contr\u00e1rio, era como humano com qualquer um. E se eu estava disposta a fazer todas as merdas poss\u00edveis em favor dele, tamb\u00e9m deveria fazer em favor dos outros. E naquele momento, o homem estranho e amea\u00e7ador parecia a escolha perfeita para que eu finalmente comprovasse para mim de uma vez por todas que %Fitzroy% n\u00e3o era o uma divindade suprema, um ode \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o com um pau enorme. Ent\u00e3o eu o abracei. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o precisa tremer, minha linda. \u2013 %Louise%, ele \u00e9 um maluco, um assassino procurado pela Interpol. Saia correndo, v\u00e1 embora, grite por socorro&#8230; N\u00e3o! Ele era uma del\u00edcia e eu n\u00e3o estava tremendo de medo ou frio, acho que talvez fosse excita\u00e7\u00e3o e&#8230; um pouquinho de frio. <br>\u2003\u2003 &#8211; N\u00e3o me machuque. \u2013 fechei meus olhos esperando pelo pior. Seria naquele dia e naquela hora, eu iria morrer, estava esperando o pior. Mas n\u00e3o, suas m\u00e3os geladas procuraram meu rosto. Fez com que eu o olhasse, fundo nos olhos verdes. Eu via em sua \u00edris o desejo o queimando. <br>\u2003\u2003 &#8211; Jamais te machucaria, jamais seria capaz de fazer algo contra voc\u00ea. Seria um pecado sem perd\u00e3o. \u2013 o dedo macio correu meus l\u00e1bios e eu fechei os olhos. Capeta, eu estava t\u00e3o perdida. Queria me entregar \u00e0 ele, por\u00e9m, o medo me inibia. \u2013 Garotinha, \u00e9 uma pena que eu n\u00e3o possa te profanar. <br>\u2003\u2003 &#8211; Por que n\u00e3o? \u2013 minhas palavras sa\u00edram desesperadas e inconformadas. Por que n\u00e3o? Me profane, seu idiota. Se eu quisesse o contr\u00e1rio, teria ido embora. <br>\u2003\u2003 &#8211; \u00c9 mais complicado do que voc\u00ea possa entender. \u2013 \u00f3timo, mas um me tratando como se eu fosse uma retardada. <br>\u2003\u2003 &#8211; E se eu quiser ser profanada? \u2013 eu estava ali, entregue ao toque dele. Eu queria aquilo, ele n\u00e3o poderia me negar. <br>\u2003\u2003 &#8211; Doeria fundo no meu peito te negar isso. \u2013 nossos corpos se aproximaram. Senti seu peito g\u00e9lido e esculpido tocar minha boca. Minha respira\u00e7\u00e3o esquentava a \u00e1rea do corpo dele que estava \u00e0 sua altura. Os meus l\u00e1bios podiam sentir o gosto da sua carne. C\u00e9us! O frio foi pro caralho, a porra do meu corpo pegava fogo. Parece imposs\u00edvel, mas estava. Grudei minhas m\u00e3os nas suas costas. Ele arfou e seus m\u00fasculos retesaram. Eu o vi morder os l\u00e1bios, parecia se controlar para n\u00e3o ceder \u00e0 vontade. <br>\u2003\u2003 &#8211; Por que tanto mist\u00e9rio? \u2013 queria entender, saber seu nome, sua origem. Mas, ao mesmo tempo sentia que aquela \u00e1urea misteriosa deveria permanecer para que o sentido do momento n\u00e3o se perdesse. <br>\u2003\u2003 &#8211; A vida \u00e9 um mist\u00e9rio e n\u00f3s s\u00f3 descobrimos o que tem pela frente, quando nos entregamos a ela. E voc\u00ea, vai se entregar \u00e0 mim para me descobrir? \u2013 voltei a tremer ou comecei a tremer mais ainda. <br>\u2003\u2003 &#8211; Eu&#8230; <br>\u2003\u2003 &#8211; Shi! Quietinha. \u2013 as m\u00e3os que estavam rodeando meu rosto foram para a barra do moletom. Ele o tirou fora, sutilmente. O calor se intensificou, como se fosse poss\u00edvel. \u2013 N\u00e3o vou te beijar, mas vou te levar ao m\u00e1ximo que puder. \u2013 uma regata branca de um tecido muito leve tampava minha barriga e seios. O homem grudou minha cintura e me trouxe ainda mais pr\u00f3ximo de si. Tive que me por nas pontas do p\u00e9 e ele abaixou-se um pouco, fizemos a manobra necess\u00e1ria para que nossas bocas ficassem enfim pr\u00f3ximas. N\u00e3o estava suportando o peso do meu pr\u00f3prio corpo e senti que iria desmoronar. Ele me projetou para o ch\u00e3o e me desmontei sobre a areia. O choque t\u00e9rmico quase me fritou, soltei um grunhido desconexo. As m\u00e3os dele me percorriam como se fosse uma preciosidade e eu me senti extremamente desejada. Sua respira\u00e7\u00e3o batia no meu pesco\u00e7o, sua l\u00edngua percorria meu queixo e canto dos meus l\u00e1bios. Ele n\u00e3o iria me beijar e isso a era maior pena do universo. Seu corpo me provocava e aquela ere\u00e7\u00e3o&#8230; rondava de um jeito poeticamente desgra\u00e7ado a minha barriga. \u2013 Consegue sentir isso? Nossos corpos est\u00e3o gritando. \u2013 era t\u00e3o diferente e arrebatador. Ele estava me destruindo de um jeito diferente. Era delicado e avassalador. Isso homem, me enlouquece. Tire aquele lenhador do meu sistema. \u2013 Eu sinto seu ventre queimando. &#8211; grudou meus cabelos e deixou a boca pr\u00f3xima demais da minha. \u2013 Eu sinto o meu membro pulsando. \u00c9 a nossa alma pedindo contato, \u00e9 o sentido animalesco clamando por aquilo que o transforma em t\u00e3o \u00fanico na nossa esp\u00e9cie. Voc\u00ea consegue sentir? \u2013 n\u00e3o conseguia responder. Eu arfava e gemia s\u00f3 em ouvir \u00e0quelas palavras e n\u00e3o tinha c\u00e9rebro o suficiente para formar algo para responder. \u2013 Infelizmente eu sou um homem que n\u00e3o pode deixar o animal tomar forma, n\u00e3o pode deixar o instinto vencer. E isso \u00e9 t\u00e3o injusto. Mas eu posso cuidar do animal que h\u00e1 em voc\u00ea. Posso fazer voc\u00ea sentir o lobo feroz que h\u00e1 em voc\u00ea uivando em desespero pelo meu toque. \u2013 r\u00e1pido demais. Minha regata foi para o alto, meus seios para fora com os mamilos petrificados. Ele os lambeu, mordeu e finalmente veio at\u00e9 a minha boca. A mar\u00e9 batia em nossos corpos e quando tentei passar a l\u00edngua pelos l\u00e1bios dele, ele recuou. \u2013 Disse que n\u00e3o posso te beijar, meu amor. \u2013 a frustra\u00e7\u00e3o tomou conta de mim. Eu queria chorar. \u2013 S\u00f3 posso te tocar. Mas hoje n\u00e3o \u00e9 o dia para isso. \u2013 ent\u00e3o ele subitamente parou. Subi meu tronco, tentei traz\u00ea-lo, mas ele simplesmente me abra\u00e7ou. Nossos peitos ro\u00e7aram e tranquilamente ele tentou me acalmar. Minha respira\u00e7\u00e3o voltou ao normal e ao perceber isso ele sorriu para mim. \u2013 Venha, daqui a pouco o sol ir\u00e1 nascer e voc\u00ea precisa estar em casa.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003O desespero pairava a cidade. A trag\u00e9dia era o novo hino do local. 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