{"id":7700,"date":"2025-11-04T19:10:00","date_gmt":"2025-11-04T22:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T20:13:14","modified_gmt":"2025-11-09T23:13:14","slug":"capitulo-3","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-3\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 3"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<strong>%ANANYA%<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Entediada, deixei meu olhar<\/span> vagar pelo c\u00e9u azul-t\u00f3xico do ver\u00e3o que se estendia atr\u00e1s do vidro blindado que revestiam a sala de reuni\u00f5es no pr\u00e9dio da empresa %Bhasin%. Lutando contra o t\u00e9dio que me consumia lentamente, respirei furtivamente enquanto assistia o desenrolar dos fatos que ocorriam na reuni\u00e3o daquele dia, ciente de que Ethan estaria fazendo uma merda sem tamanho se eu n\u00e3o estivesse ao seu lado.<br>\u2003\u2003Quando olhei no rel\u00f3gio em meu pulso, vi que j\u00e1 estava dez minutos atrasada e se eu n\u00e3o sa\u00edsse daquela sala logo, me atrasaria para todos os compromissos do dia. Eu odiava atrasos, principalmente os meus.<br>\u2003\u2003\u2013 Ethan. \u2013 Sussurrei, inclinando-me at\u00e9 seu ouvido. \u2013 Posso ir embora?<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 pedindo autoriza\u00e7\u00e3o? \u2013 Ele me olhou com esc\u00e1rnio.<br>\u2003\u2003Corri os olhos pelo rosto dele rapidamente. Eu odiava admitir, mas Ethan era bonito.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Estou avisando que n\u00e3o vou limpar sua pr\u00f3xima bagun\u00e7a. \u2013 Emiti, incisiva. Ele rolou os olhos, nem um pouco ofendido com a insinua\u00e7\u00e3o de que ele era um p\u00e9ssimo profissional. Ambos sab\u00edamos que ele n\u00e3o era.<br>\u2003\u2003\u2013 <em>Vaza,<\/em> princesa.<br>\u2003\u2003Sa\u00ed antes que meu salto 12cm afundasse no pesco\u00e7o dele.<br>\u2003\u2003Informei ao meu estagi\u00e1rio impec\u00e1vel que estaria fora pelo resto do dia. Sem mais delongas, entrei no carro e sa\u00ed da garagem um pouco acima do limite de velocidade, focada em atravessar a cidade o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Tudo aquilo por um \u00fanico motivo: manter intacta minha reputa\u00e7\u00e3o de boa mo\u00e7a.<br>\u2003\u2003Eu sabia que tinha os meus defeitos \u2013 <em>podia ser mimada, teimosa, exigente e, dependendo do dia, absurdamente inflex\u00edvel<\/em> \u2013, mas desde que entendi que era in\u00fatil consumir qualquer coisa que n\u00e3o contribu\u00edsse para meu crescimento pessoal, venho tentando agir de acordo com o que se espera de algu\u00e9m sensata. E, acima de tudo, sempre fui a favor de preservar boas rela\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003No intuito de manter o esp\u00edrito da \u201cboa-vizinhan\u00e7a\u201d e amizade com a fam\u00edlia Buppha, me vi saindo no meio do expediente do trabalho e indo at\u00e9 a mans\u00e3o da fam\u00edlia onde seria realizado um brunch em comemora\u00e7\u00e3o ao trig\u00e9simo anivers\u00e1rio de Andreas.<br>\u2003\u2003O detalhe que tornava a situa\u00e7\u00e3o um pouco mais complicada? Andreas era o meu ex-namorado.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o via problema algum em ir \u00e0 festa. Na verdade, estava ansiosa pelo Pad Thai que a m\u00e3e dele preparava como ningu\u00e9m. Nosso t\u00e9rmino havia sido pac\u00edfico, quase burocr\u00e1tico, um acordo m\u00fatuo entre adultos civilizados. Foi consensual. Dois beijos na bochecha e um &#8220;te desejo o melhor&#8221;.<br>\u2003\u2003Mas, ainda assim, havia algo de desconfort\u00e1vel na ideia de estar ali, cercada pela fam\u00edlia que j\u00e1 foi quase minha. Por mais que tentasse manter a racionalidade, sabia que bastava um trope\u00e7o emocional para que aquela tarde cordial se transformasse num campo minado.<br>\u2003\u2003E como se a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o fosse complexa o suficiente, ela ganhou contornos ainda mais surreais quando desci do carro e vi Andreas \u00e0 porta de um t\u00e1xi, ajudando algu\u00e9m a sair. E ali estava ela: Nina. Com um vestido branco de renda e sapatos de salto baixo, parecendo uma pintura fora de lugar naquele cen\u00e1rio.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o fazia ideia do que ela estava fazendo ali.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%? \u2013 Ouvi a voz de Andreas, franzindo a testa assim que me aproximei. Nina, ao lado dele, empalideceu na mesma medida em que corava. \u2013 O que voc\u00ea\u2026?<br>\u2003\u2003\u2013 Seus pais ligaram. Avisei que eu viria. \u2013 Respondi, tentando soar despreocupada, embora meus olhos estivessem grudados em Nina. Ela me olhava como quem foi pega em flagrante, o tipo de express\u00e3o que algu\u00e9m tem quando sabe que a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai ser suficiente. \u2013 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui, Nina? Veio para o brunch?<br>\u2003\u2003Eu sabia que eles se conheciam. Claro que sabia. Mas n\u00e3o o bastante para justificar a presen\u00e7a dela ali, no anivers\u00e1rio dele.<br>\u2003\u2003\u2013 E-eu\u2026 \u2013 Ela come\u00e7ou, a voz tr\u00eamula. Os l\u00e1bios finos se comprimiram, e a forma como evitava o meu olhar j\u00e1 dizia mais do que qualquer explica\u00e7\u00e3o. Ao lado dela, Andreas parecia igualmente desconfort\u00e1vel, o tipo de desconforto que antecede um desastre.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o, %Anya%\u2026 \u2013 Ele tentou come\u00e7ar, mas a frase morreu no ar.<br>\u2003\u2003Foi a\u00ed que eu vi. O movimento r\u00e1pido, quase instintivo, dele pegando a m\u00e3o dela. Os dedos se entrela\u00e7ando, como se aquilo fosse natural. Como se aquilo existisse h\u00e1 muito tempo.<br>\u2003\u2003Demorei meio segundo para entender. Outro para acreditar.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea s\u00f3 pode estar de sacanagem. \u2013 Murmurei, mais para mim do que para eles, sentindo o est\u00f4mago afundar.<br>\u2003\u2003Em que universo minha melhor amiga estava envolvida com o meu ex e <em>eu<\/em> era a \u00faltima a saber?<br>\u2003\u2003A raiva subiu, queimando sob a pele. N\u00e3o era por ele. Ele podia muito bem seguir com a vida dele. Mas a Nina\u2026 ela devia ter me contado. Era o m\u00ednimo. O b\u00e1sico do contrato n\u00e3o escrito entre melhores amigas: contar sobre relacionamentos, pedir conselhos, dividir as d\u00favidas, as inseguran\u00e7as. Mesmo que fosse com um desconhecido, quanto mais com o meu ex.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00eas est\u00e3o juntos? \u2013 Perguntei, s\u00f3 para confirmar que n\u00e3o estava tendo uma alucina\u00e7\u00e3o. \u2013 Tipo\u2026 juntos juntos?<br>\u2003\u2003\u2013 A gente\u2026 \u00e9r\u2026 \u2013 Nina balbuciou, visivelmente perdida.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, por que voc\u00ea n\u00e3o me contou? \u2013 Falei mais baixo, sentindo a irrita\u00e7\u00e3o crescendo.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o sei! Eu fiquei morrendo de vergonha, %Anya%! \u2013 Cobriu o rosto com as m\u00e3os. \u2013 Eu nem sei o que estou fazendo aqui! \u2013 Completou, fuzilando Andreas com o olhar.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 meu anivers\u00e1rio, Nina. Eu queria que voc\u00ea estivesse aqui \u2013 Ele rebateu, e eu precisei me segurar para n\u00e3o revirar os olhos.<br>\u2003\u2003\u2013 Combinamos de ir devagar. \u2013 explicou Nina, olhando para ele antes de voltar o rosto para mim. \u2013 Estamos nos conhecendo.<br>\u2003\u2003Olhei de um para o outro, sentindo o peso daquela frase se instalar no peito. Ainda assim, ao encarar Nina, vi a culpa estampada no rosto dela \u2013 o nervosismo, o arrependimento \u2013 e isso me desarmou.<br>\u2003\u2003\u2013 Mas voc\u00eas j\u00e1 se conheciam. \u2013 Ressaltei, cruzando os bra\u00e7os e ajeitando a bolsa no ombro oposto, tentando recuperar um m\u00ednimo de controle.<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, mas\u2026 ah, %Anya%, me perdoa! \u2013 Ela soltou, a voz embargando. Se aproximou r\u00e1pido, segurando minhas m\u00e3os. \u2013 Eu tentei contar, juro. Fiquei nervosa com a sua rea\u00e7\u00e3o, fui adiando\u2026 e agora\u2026<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o terminou a frase, e nem precisava. Eu conhecia aquele olhar, era o mesmo de quando, aos quinze anos, ela quebrou o vaso preferido da m\u00e3e e passou tr\u00eas dias inventando hist\u00f3rias antes de confessar.<br>\u2003\u2003Senti a raiva se dissolver devagar, feito a\u00e7\u00facar no caf\u00e9 quente.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, eu n\u00e3o estou brava. De verdade. \u2013 E n\u00e3o estava mesmo. Nem podia. N\u00e3o depois da semana retrasada, quando cometi meus pr\u00f3prios pecados libidinosos com ningu\u00e9m menos que o irm\u00e3o dela. Suspirei, tentando suavizar o tom. \u2013 \u00c9 s\u00f3 que\u2026 eu merecia saber. \u2013 Falei, com um meio sorriso cansado. \u2013 N\u00e3o assim, de surpresa, no meio de um brunch de fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, a gente entende. \u2013 Andreas assentiu, apertando a m\u00e3o de Nina num gesto reconfortante. \u2013 Apesar de que toda essa situa\u00e7\u00e3o poderia ter sido evitada&#8230; se eu soubesse que voc\u00ea viria.<br>\u2003\u2003Ah, claro. Andreas nunca perdia a chance de suavizar a pr\u00f3pria culpa. Era bem t\u00edpico dele. Um dos pequenos h\u00e1bitos que, ao longo do tempo, me fizeram perder o encanto.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o estou brava. \u2013 Repeti, firme. \u2013 E n\u00e3o me importo, de verdade. S\u00f3 queria n\u00e3o ter descoberto isso segundos antes de passar por aquela porta. \u2013 Apontei para o port\u00e3o branco, todo decorado, que levava \u00e0 entrada da mans\u00e3o. \u2013 Acho melhor eu ir embora.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, quem devia ir embora sou eu. Voc\u00ea foi convidada. \u2013 Nina apressou-se em dizer, aflita.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o tem motivo para nenhuma das duas irem. \u2013 Andreas se meteu, tentando soar conciliador. \u2013 %Anya%, voc\u00ea \u00e9 amiga da fam\u00edlia&#8230; e minha amiga tamb\u00e9m. E Nina, voc\u00ea \u00e9 minha&#8230; enfim, a gente consegue dar um jeito.<br>\u2003\u2003A parte do &#8220;dar um jeito&#8221; foi at\u00e9 bonitinha&#8230; se n\u00e3o fosse completamente falsa.<br>\u2003\u2003Spoiler: eles n\u00e3o deram um jeito.<br>\u2003\u2003Assim que pisamos no jardim amplo, todo cheio de relva e fontes, os pais de Andreas praticamente correram at\u00e9 mim, sorridentes, me abra\u00e7ando com entusiasmo. E, pelo brilho nos olhos deles, dava para ver que esperavam que eu e o filho tiv\u00e9ssemos voltado a ser um casal.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;M\u00e1 not\u00edcia para voc\u00ea, Sr. Buppha. Essa reconcilia\u00e7\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o distante da realidade quanto seu filho est\u00e1 da dec\u00eancia&#8230; considerando que ele anda comendo minha melhor amiga.&#8221;<\/em> Mas \u00e9 claro que guardei esse pensamento s\u00f3 para mim.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ananya%, que alegria ver voc\u00ea! \u2013 A m\u00e3e de Andreas me puxou para um abra\u00e7o caloroso. \u2013 Ficamos t\u00e3o felizes que voc\u00ea veio!<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o perderia a chance de comer seu Pad Thai por nada nesse mundo, Sra. Buppha. \u2013 Brinquei, for\u00e7ando um sorriso amarelo.<br>\u2003\u2003Seguiu-se um sil\u00eancio constrangedor. Desses que gritam mais alto que qualquer palavra. S\u00f3 ent\u00e3o Andreas pareceu acordar do pr\u00f3prio torpor e, com um sorriso sem gra\u00e7a, apresentou Nina.<br>\u2003\u2003Os pais dele, como sempre, foram impec\u00e1veis. Gentis, educados, por\u00e9m, o mesmo n\u00e3o podia ser dito do resto dos convidados.<br>\u2003\u2003Cada vez que Andreas tentava apresentar Nina a algu\u00e9m, a cena se repetia: cumprimentos breves, olhares avaliativos\u2026 e, em seguida, a pessoa se virava para mim, como se o centro de gravidade da conversa estivesse em outro lugar. Nina, por sua vez, ia se encolhendo um pouco mais a cada tentativa frustrada, o sorriso se tornando um disfarce cada vez mais fr\u00e1gil.<br>\u2003\u2003Suspirei quando notei o olhar entristecido dela. Uma das tias de Andreas falava animadamente comigo, gesticulando com ta\u00e7a em punho, completamente alheia ao desconforto que pairava no ar.<br>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu nunca me considerei assim t\u00e3o interessante. A fam\u00edlia Buppha comprou a mans\u00e3o ao lado da propriedade dos %Bhasin% quando eu tinha apenas dez anos. Foi ali que conheci Andreas. Sempre fui t\u00edmida, mas por frequentar as festas deles h\u00e1 tanto tempo \u2013 muito antes de imaginar qualquer romance com Andreas \u2013 acabei me tornando uma presen\u00e7a constante. Familiar.<br>\u2003\u2003Lembro das reuni\u00f5es cheias de risadas, pratos ex\u00f3ticos e hist\u00f3rias trocadas com naturalidade. Com o tempo, mesmo sem perceber, fui me sentindo parte daquela fam\u00edlia. As tias eram calorosas, quase maternas. E, por anos, isso me confortava. Mas naquela noite, a mesma empolga\u00e7\u00e3o que antes me aquecia agora trazia uma sensa\u00e7\u00e3o estranha.<br>\u2003\u2003As mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia se misturavam com a confus\u00e3o atual e o carinho que sentia pela fam\u00edlia se enroscava com um inc\u00f4modo que crescia cada vez mais. A festa, embora bonita e vibrante, j\u00e1 n\u00e3o era um lugar confort\u00e1vel para mim.<br>\u2003\u2003Enquanto a mulher alta ria alto de alguma anedota que eu sequer ouvi direito, minha mente j\u00e1 estava longe dali. Porque eu sabia exatamente o que Nina estava sentindo.<br>\u2003\u2003Eu sempre estive naquele lugar, sorrindo por educa\u00e7\u00e3o, tentando parecer confort\u00e1vel. \u00c9 um tipo de humilha\u00e7\u00e3o sutil, que n\u00e3o grita, mas corr\u00f3i aos poucos. Olhei para ela mais uma vez. Nina mexia distraidamente no guardanapo, o olhar perdido entre as ta\u00e7as e os risos que n\u00e3o a inclu\u00edam. E eu percebi que, por mais que tivesse motivos para estar magoada com ela, nada justificava deixar que passasse por aquilo sozinha.<br>\u2003\u2003Fui at\u00e9 a mesa principal, repleta de pratos tailandeses irresist\u00edveis, e comecei a provar alguns petiscos enquanto observava, quase \u00e0s escondidas, o movimento ao redor. A cena se repetia como um disco arranhado: Andreas apresentava Nina, o grupo sorria educadamente e, assim que eles viravam as costas, come\u00e7avam os cochichos. Discretos, mas aud\u00edveis o suficiente.<br>\u2003\u2003Suspirei, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a com desaprova\u00e7\u00e3o e fiz um sinal discreto para que Nina viesse at\u00e9 mim. Ela n\u00e3o hesitou.<br>\u2003\u2003\u2013 Vamos sentar ali? \u2013 Sugeri, apontando para uma mesa mais afastada do agito.<br>\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 insuport\u00e1vel! \u2013 Andreas explodiu, aproximando-se com a testa franzida. \u2013 Juro, \u00e9 como se fosse a primeira vez que trago algu\u00e9m aqui. De repente, ningu\u00e9m lembra das boas maneiras. \u2013 Calou-se abrupto ao avistar uma das tias se aproximando. \u2013 Oi, tia Papul!<br>\u2003\u2003\u2013 Andreas, meu querido! \u2013 Respondeu ela, com a serenidade de quem ignora clim\u00f5es. \u2013 Est\u00e3o chamando voc\u00eas na estufa para as fotos. \u2013 E, como se a situa\u00e7\u00e3o fosse a mais normal do mundo, fitou-me diretamente. \u2013 %Anya%, est\u00e1 pronta?<br>\u2003\u2003Minhas sobrancelhas se arquearam. Virei-me lentamente para Andreas, buscando em seu rosto um sinal de que ele tamb\u00e9m via o absurdo daquilo.<br>\u2003\u2003Era um apag\u00e3o coletivo de mem\u00f3ria, uma encena\u00e7\u00e3o social t\u00e3o absurda que beirava o del\u00edrio.<br>\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 um minuto, tia. \u2013 Andreas fez uma cortesia vazia de conte\u00fado, segurou-lhe o bra\u00e7o e afastou-se com ela, esbo\u00e7ando um sorriso de diplomacia ensaiada.<br>\u2003\u2003Levantei-me em um movimento seco, empurrei a cadeira e alisei os vincos da saia midi.<br>\u2003\u2003\u2013 Vou ao banheiro. Resolvam isso.<br>\u2003\u2003\u2013 Como assim? \u2013 Nina perguntou, completamente perdida.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o sei, Nina. \u2013 Sussurrei, com a l\u00e2mina da acidez na voz. \u2013 Beijem-se, deem as m\u00e3os, anunciem que est\u00e3o namorando&#8230; Fa\u00e7am alguma coisa. Porque se mais uma pessoa vier me cumprimentar como a &#8220;namorada&#8221; do Andreas, eu vou embora.<br>\u2003\u2003Sem esperar qualquer resposta, girei nos calcanhares e sa\u00ed do jardim com passos firmes, meus saltos ecoando de forma brusca contra o caminho de pedra. Fui em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro social torcendo para n\u00e3o encontrar mais nenhum parente inconveniente no caminho (o que, naquela festa, era como pedir sil\u00eancio numa assembleia de condom\u00ednio).<br>\u2003\u2003O banheiro era t\u00e3o sofisticado que mais parecia uma ala de exposi\u00e7\u00e3o do Louvre do que um c\u00f4modo funcional. M\u00f3veis otomanos estrategicamente posicionados, velas arom\u00e1ticas com nomes impronunci\u00e1veis e uma pia que devia ter sido desenhada por algum artista minimalista tailand\u00eas. Sinceramente, quem senta num banco estofado no banheiro de uma festa? Isso n\u00e3o me dava margem nem para fingir que estava odiando o lugar.<br>\u2003\u2003Lavei as m\u00e3os rapidamente e deixei a \u00e1gua escorrer pela nuca, numa tentativa meio desesperada de aliviar a tens\u00e3o que se enroscava no meu pesco\u00e7o. Me sentei em um dos bancos e saquei o celular da bolsa, mais por esperan\u00e7a do que por h\u00e1bito.<br>\u2003\u2003Abri as mensagens, chequei liga\u00e7\u00f5es. E, claro, nada. Nem uma notifica\u00e7\u00e3o, nem um emoji dado, nem uma indireta enigm\u00e1tica, isto \u00e9, nada com o nome que eu secretamente esperava ver.<br>\u2003\u2003%Anthony% %Campelli%.<br>\u2003\u2003Desde aquela noite de lux\u00faria impulsiva e question\u00e1vel lucidez, eu esperava por algum tipo de contato. N\u00e3o precisava ser nada rom\u00e2ntico. Eu teria aceitado at\u00e9 um &#8220;E a\u00ed, tudo certo com sua lombar depois daquele malabarismo t\u00e9cnico?&#8221;. Mas ele n\u00e3o mandou nada. Nem um emoji.<br>\u2003\u2003Eu imaginava que depois de tudo, ele fosse me mandar uma mensagem constrangida, do tipo \u201cdesculpa, foi um erro\u201d, ou um convite para jantar, como quem diz \u201cvamos fingir que temos maturidade para lidar com isso\u201d. Mas nada. O sil\u00eancio dele era ensurdecedor. E, pior, irritantemente educado.<br>\u2003\u2003O mais frustrante \u00e9 que eu nunca tinha olhado para ele <em>desse <\/em>jeito, nunca. Por anos, %Anthony% era apenas <em>o irm\u00e3o da Nina<\/em>. Advogado workaholic. Dono de um olhar que parecia sempre analisar as pessoas como se fosse apresentar um parecer jur\u00eddico depois. Um cara respeit\u00e1vel demais para qualquer fantasia.<br>\u2003\u2003E eu mantive esse pensamento at\u00e9 duas semanas atr\u00e1s, quando ele me arrastou para o sof\u00e1 do meu escrit\u00f3rio e me fez repensar toda a minha vida sexual. Me pegou de jeito. Literalmente. No sof\u00e1 do meu escrit\u00f3rio. No sof\u00e1 onde eu costumava revisar contratos e tomar caf\u00e9s que j\u00e1 esfriaram. Aquilo foi&#8230; inesperado. E, honestamente, espetacular.<br>\u2003\u2003Uma fantasia que eu sequer sabia que morava dentro de mim at\u00e9 ser realizada com uma precis\u00e3o que beirava o po\u00e9tico. Ou pornogr\u00e1fico. Dependendo do \u00e2ngulo.<br>\u2003\u2003E foi por isso que ele deixou de ser o \u201cirm\u00e3ozinho da Nina\u201d e virou %Anthony%. O homem que me fez perder o f\u00f4lego. O motivo pelo qual eu passei a encarar meu sof\u00e1 como se ele escondesse segredos. Depois de dois anos com Andreas sem nem arranhar a superf\u00edcie do que deveria ser prazer \u2013 e isso sendo gentil \u2013, posso afirmar com a seguran\u00e7a de quem viu a luz no fim do t\u00fanel: <em>eu gozei<\/em>. A ponto de pensar naquele sof\u00e1 com uma devo\u00e7\u00e3o quase religiosa.<br>\u2003\u2003Mas ele n\u00e3o ligou. N\u00e3o mandou mensagem. N\u00e3o apareceu. Nada. E o mais estranho era isso: %Anthony% sempre foi o tipo de cara que namora. Um homem dispon\u00edvel, emocionalmente acess\u00edvel, interessado em conex\u00f5es reais. E eu, bem\u2026 sempre me considerei o completo oposto.<br>\u2003\u2003Na noite passada, enquanto eu malhava de maneira obstinada (uma tentativa f\u00fatil de acabar com as calorias de desespero), um pensamento me pegou desprevenida. %Anthony% %Campelli%, o rom\u00e2ntico incur\u00e1vel, o homem de relacionamentos s\u00e9rios e compromissos firmados com flores e caf\u00e9s da manh\u00e3&#8230; sumiu depois de me comer como se o mundo fosse acabar. Justo ele.<br>\u2003\u2003Se %Anthony% era esse cara acess\u00edvel, o tipo de sujeito pronto para encontros rom\u00e2nticos (eu o encontrei em um encontro \u00e0s cegas, pelo amor de Deus!), namoros e at\u00e9 relacionamentos s\u00e9rios, ent\u00e3o por que diabos ele n\u00e3o me ligou? Eu n\u00e3o teria recusado um convite para um jantar, muito menos agora que, ao descobrir que Nina estava com o meu ex, eu passei a ter um cr\u00e9dito emocional enorme.<br>\u2003\u2003Talvez eu fosse s\u00f3 a transa impulsiva no fim do expediente. A melhor amiga da irm\u00e3. A distra\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. O tipo de mulher que se esquece logo depois de uma noite mal dormida e alguns arranh\u00f5es no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003Na primeira semana, n\u00e3o me importei. Apenas revivia os momentos de lasc\u00edvia que compartilhamos, e n\u00e3o vou mentir, me sentia <em>quase<\/em> bem com isso. Mas na segunda semana&#8230; bom, na segunda semana, a hist\u00f3ria mudou. Eu comecei a me questionar demais.<br>\u2003\u2003Ser\u00e1 que eu transei cedo demais? Ele n\u00e3o havia gostado? Se havia gostado, por que n\u00e3o me procurou? O que eu fiz de errado? Eu n\u00e3o era interessante o suficiente para algo al\u00e9m do sexo? Ou pior, ser\u00e1 que fui ruim no sexo?<br>\u2003\u2003Eu me estressei comigo mesma. Estava me questionando demais por um cara que n\u00e3o tinha sequer demonstrado o menor interesse genu\u00edno por mim. %Ananya% %Bhasin%? Se questionando por um cara? N\u00e3o, isso n\u00e3o era para ser assim. N\u00e3o seria assim. Eu me recusei a ser essa pessoa.<br>\u2003\u2003Olhei o rel\u00f3gio: cinco minutos trancada no banheiro. Se ficasse mais tempo, iriam pensar que eu estava usando o banheiro por outros motivos. Respirei fundo e decidi voltar. Mas talvez devesse ter ficado.<br>\u2003\u2003Assim que pisei na grama artificial do jardim, todos os olhares se voltaram para mim, express\u00f5es de pena, como se eu fosse uma pobre alma abandonada no altar. N\u00e3o sabia o que Andreas e Nina tinham feito, mas, pelo jeito dos olhares, eu tinha virado o espet\u00e1culo da noite: a ex-namorada coitada.<br>\u2003\u2003E, claro, os primos de Andreas \u2013 e outros parentes que eu jurava nunca ter visto \u2013 come\u00e7aram a se aproximar, prontos para o interrogat\u00f3rio social de praxe. Perguntas invasivas, coment\u00e1rios passivo-agressivos, sorrisos falsos. Cada palavra me fazia perder mais a paci\u00eancia.<br>\u2003\u2003E se para mim j\u00e1 era desconfort\u00e1vel, nem queria imaginar o que Nina estava sentindo ser o alvo direto de toda aquela hostilidade velada devia ser insuport\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2013 Para mim, j\u00e1 deu. \u2013 Murmurei, sem nem olhar para ela. Eu n\u00e3o tinha energia para fingir civilidade.<br>\u2003\u2003\u2013 O que houve? \u2013 Nina perguntou, preocupada. Mas eu nem ouvi.<br>\u2003\u2003Fui at\u00e9 a mesa de centro, onde repousava uma abund\u00e2ncia de petiscos e inutilidades de decora\u00e7\u00e3o, e peguei duas caixinhas de vidro vazias. Sem cerim\u00f4nia. Enchi ambas de comida, como se aquele gesto pequeno fosse uma vingan\u00e7a simb\u00f3lica. Depois apenas fiz um gesto vago para Nina, pedindo que me ligasse depois, e sa\u00ed dali como quem foge de um inc\u00eandio.<br>\u2003\u2003Senti os olhares queimando minhas costas enquanto caminhava at\u00e9 a sa\u00edda.<br>Na minha cabe\u00e7a, todos eles diziam o que eu j\u00e1 estava pensando sobre mim mesma: idiota. Substitu\u00edvel. Rid\u00edcula.<br>\u2003\u2003Mas talvez o problema n\u00e3o fosse Andreas, nem Nina, nem a fam\u00edlia de intrusos. Talvez fosse um certo advogado de olhos verdes que, mesmo depois de tantas promessas doces e palavras bonitas, ainda n\u00e3o tinha se dignado a me ligar.<br>\u2003\u2003Entrei no carro sem olhar para tr\u00e1s. Afundar no trabalho parecia a \u00fanica maneira de manter o controle ou fingir que ainda tinha algum. Horas depois, depois de um longo desvio proposital pelo escrit\u00f3rio da %Bhasin%, cheguei em casa exausta, com o corpo carregando o peso de um dia inteiro de frustra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Fui direto para a academia no quintal; meu ref\u00fagio. L\u00e1, como sempre, descarreguei tudo o que vinha me consumindo. N\u00e3o que eu fosse uma fan\u00e1tica por academia, eu s\u00f3 precisava de algo que ocupasse a mente, que aliviasse o peso. Um jeito de n\u00e3o explodir. De continuar sendo\u2026 suport\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Eu estava saindo do banho e j\u00e1 planejava ir para o escrit\u00f3rio, quando meu celular tocou. Era uma liga\u00e7\u00e3o de Nina. Imediatamente, passei o dedo pela tela e atendi, sem pensar duas vezes. Se tinha uma pessoa na face da Terra com quem eu precisava conversar naquele momento, essa pessoa era Nina.<br>\u2003\u2003\u2013 <em>Oi, %Anya%?<\/em> \u2013 Ela falou do outro lado da linha, com uma voz que j\u00e1 indicava que algo n\u00e3o estava certo.<br>\u2003\u2003\u2013 Desembucha, Nina. \u2013 Fui direta, sem rodeios. \u2013 Como aconteceu? Como <em>isso<\/em> aconteceu?<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Ah, amiga! Voc\u00ea quer mesmo saber? N\u00e3o vai ser estranho?<\/em> \u2013 Ela hesitou, mas n\u00e3o me dei ao luxo de esperar. Coloquei o celular no modo alto-falante enquanto me vestia com um confort\u00e1vel conjunto de moletom. <em>\u2013 Eu estou me sentindo t\u00e3o mal, voc\u00ea nem faz ideia\u2026 \u2013<\/em> Nina soltou uma risada nervosa, daquelas que soam como um pedido de desculpa disfar\u00e7ado.<br>\u2003\u2003Me sentei na cama, cruzei as pernas e comecei a tran\u00e7ar o cabelo com os dedos, tentando n\u00e3o demonstrar o quanto j\u00e1 estava tensa.<br>\u2003\u2003\u2013 Vamos, Nina. \u2013 Cortei o suspense, impaciente. Pausei a tran\u00e7a e encarei meu pr\u00f3prio reflexo no espelho, aquele olhar de quem j\u00e1 esperava o pior e s\u00f3 queria confirmar logo. \u2013 Estranho, para mim, \u00e9 voc\u00ea n\u00e3o querer contar. Aconteceu enquanto a gente ainda estava junto?<br>\u2003\u2003<em>\u2013 N\u00e3o! Claro que n\u00e3o! <\/em>\u2013 Ela respondeu com veem\u00eancia. <em>\u2013 Eu jamais faria isso com algu\u00e9m, muito menos com voc\u00ea, %Anya%. T\u00e1 bom, vai\u2026 <\/em>\u2013 Ela suspirou. E eu quase pude ver sua express\u00e3o do outro lado da linha: olhos fechados, testa franzida, l\u00e1bio pressionado. A Nina culpada era quase uma caricatura dela mesma. <em>\u2013 A gente se encontrou por acaso num Starbucks. Juro. Totalmente sem querer. Conversamos\u2026 Falamos de voc\u00ea, claro. Ele reclamou do jeito como voc\u00ea terminou. Acho que ficou ofendido.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Se ofendeu por eu ter sido sincera?<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Voc\u00ea disse que estava entediada, %Anya%.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 E eu estava, u\u00e9.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Mas essas coisas a gente n\u00e3o fala. Principalmente num t\u00e9rmino! <\/em>\u2013 Nina protestou. <em>\u2013 Mas enfim\u2026 aquele dia foi diferente, sabe?<\/em><br>\u2003\u2003L\u00e1 vinha ela com a voz sonhadora. Suspirei internamente. Nina sempre teve essa aura rom\u00e2ntica e po\u00e9tica que colidia diretamente com a minha l\u00f3gica pr\u00e1tica e um tanto c\u00ednica. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o acreditasse no amor, eu s\u00f3 acreditava menos em suas vers\u00f5es com trilha sonora e efeitos especiais.<br>\u2003\u2003\u2013 E a\u00ed voc\u00ea viu passarinhos amarelos e as baratas do bueiro come\u00e7aram a cantar? \u2013 Zombei, com gosto.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Deixa de ser debochada!<\/em> \u2013 Ela gargalhou e eu acabei sorrindo tamb\u00e9m. <em>\u2013 Nos reencontramos de novo numa rua pr\u00f3xima e&#8230; era para ser s\u00f3 um esbarr\u00e3o. Mas acabamos ficando horas conversando. Ele pediu meu n\u00famero. O resto \u00e9 hist\u00f3ria.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Eu preciso dar meu parecer? Porque eu n\u00e3o quero. \u2013 Fui honesta, sem floreios.<br>\u2003\u2003N\u00e3o estava pronta para virar conselheira sentimental naquele enredo da minha melhor amiga com meu ex-namorado. Principalmente porque ele inclu\u00eda o meu nome nos cr\u00e9ditos iniciais.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Eu s\u00f3 quero que fique claro que eu nunca come\u00e7aria algo mais s\u00e9rio sem falar com voc\u00ea antes.<\/em> \u2013 Disse, com a voz mais baixa. <em>\u2013 A gente s\u00f3 saiu alguns dias, mas\u2026 Ah, %Anya%, eu gosto dele. Sempre o achei \u00f3timo, mas agora estou enxergando de um jeito diferente. \u00c0s vezes, at\u00e9 esque\u00e7o que ele foi seu namorado. Ele \u00e9 t\u00e3o diferente do jeito que voc\u00ea descrevia. Faz sentido?<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Claro, <em>ladki<\/em>. \u2013 Respondi, com a voz mais suave. \u2013 Eu e voc\u00ea somos diferentes. O que n\u00e3o \u00e9 bom para mim n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003E isso era verdade. Mas ainda assim, uma pontinha l\u00e1 no fundo me dizia que talvez eu n\u00e3o estivesse t\u00e3o <em>ok<\/em> quanto fingia.<br>\u2003\u2003\u2013<em> Tive muito medo da situa\u00e7\u00e3o se tornar mais do que complicada para a nossa amizade, achei que voc\u00ea fosse me odiar para sempre.<\/em><br>\u2003\u2003Suspirei, pensativa. Nunca fui do tipo que colecionava amigos. Os poucos que eu tinha eram os da \u00e9poca da faculdade, os obrigat\u00f3rios da fam\u00edlia e, fora da curva, Nina. Ela era a exce\u00e7\u00e3o. A minha exce\u00e7\u00e3o. Minha melhor amiga desde a adolesc\u00eancia, dessas que voc\u00ea olha e pensa: <em>colocaria minha m\u00e3o no fogo por ela<\/em>. E, honestamente? Colocaria mesmo.<br>\u2003\u2003Eu conhecia Nina o suficiente para saber que, se tivesse cedido, foi depois de lutar contra esse sentimento at\u00e9 onde conseguiu. Como se tivesse escutado meu pensamento, ela disse: <em>\u2013 Eu juro que tentei fugir disso, mas voc\u00ea sabe que eu nunca fui muito boa em esconder minhas vontades.<\/em> \u2013 A voz saiu sincera, meio derrotada.<br>\u2003\u2003\u2013 E nem deveria, Nina. \u2013 Fui direta, porque n\u00e3o queria que ela se desculpasse por algo que, no fundo, sabia que n\u00e3o tinha sido feito por mal. \u2013 N\u00e3o precisa se justificar. Voc\u00ea sabe que eu jamais te culparia por algo assim. Sei que voc\u00ea nunca seria maldosa comigo.<br>\u2003\u2003E era verdade. Mas tamb\u00e9m era verdade que era f\u00e1cil dizer isso quando se tratava de Andreas. Ele j\u00e1 n\u00e3o despertava mais nada em mim. Nem raiva, nem saudade, nem aquele inc\u00f4modo que a gente sente quando ouve o nome de algu\u00e9m que j\u00e1 nos partiu em mil peda\u00e7os. Era indiferente. E ser indiferente tornava tudo simples.<br>\u2003\u2003Talvez, se fosse com algu\u00e9m que ainda significasse alguma coisa, a conversa fosse outra. Eu provavelmente n\u00e3o estaria sendo t\u00e3o madura, t\u00e3o compreensiva, t\u00e3o &#8220;boazinha&#8221;.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 O que voc\u00ea acha que eu devo fazer?<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Como assim?<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Devo insistir nessa loucura? Ou \u00e9 demais pensar que isso pode virar&#8230; sei l\u00e1, uma hist\u00f3ria de amor?<\/em><br>\u2003\u2003Ri baixinho, com ternura. Nina e suas fantasias de amor \u00e9pico. A gente se equilibrava justamente por isso: ela via o romance, eu via o contrato. Ela enxergava o que podia florescer, eu s\u00f3 via o que podia dar errado.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, eu n\u00e3o sou a melhor pessoa para dar esse tipo de conselho&#8230; \u2013 Comecei, tentando ser delicada. \u2013 Mas acho que te conhe\u00e7o o suficiente para saber que, se voc\u00ea n\u00e3o estivesse completamente na dele, n\u00e3o se arriscaria. N\u00e3o sou eu quem tem que dizer o que voc\u00ea tem que fazer. Voc\u00ea j\u00e1 tem de mim o que realmente importa.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 E o que \u00e9?<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Minha b\u00ean\u00e7\u00e3o silenciosa e um sil\u00eancio ainda mais comprometido. \u2013 Sorri de canto. \u2013 Mas precisamos estabelecer alguns limites, certo? Por exemplo: eu n\u00e3o vou fingir que esse relacionamento n\u00e3o existe, mas saiba que tamb\u00e9m n\u00e3o vou ser imparcial sobre absolutamente nada que envolva Andreas. Eu sou a \u00faltima pessoa no mundo capaz de opinar com isen\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Concordo. Separa\u00e7\u00e3o Igreja-Estado.<\/em> <em>Mas, se porventura, eu precisar de uma forcinha&#8230;<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Irei conceder porque sou uma total idiota por voc\u00ea, Nina. \u2013 Bufei, fingindo irrita\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Ah, %Anya%, que sorte a minha ter voc\u00ea na minha vida! <\/em>\u2013 Ela disse com uma do\u00e7ura t\u00e3o espont\u00e2nea que fez meu peito amolecer. Gargalhou baixinho logo em seguida, aquele som leve que me fez sorrir sozinha.<br>\u2003\u2003Por um instante, me deu vontade de contar a ela sobre %Anthony%. De deixar escapar, de dividir a bagun\u00e7a que eu mesma estava tentando organizar em sil\u00eancio. Quase consegui.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina&#8230;? \u2013 arrisquei.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Sim?<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9r&#8230; o que voc\u00ea acha de jantar aqui amanh\u00e3? \u2013 Fiz uma careta automaticamente, sabendo o que aquilo significava.<br>\u2003\u2003N\u00e3o s\u00f3 tinha engolido a verdade que queria contar, como tamb\u00e9m tinha me enrolado no mesmo fio que agora prendia Nina: o da omiss\u00e3o. E ainda por cima me comprometi com um jantar que n\u00e3o fazia parte de plano nenhum.<br>\u2003\u2003A hipocrisia \u00e0s vezes tem gosto de vinho barato e biryani improvisado.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 \u053a \u2013<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Pior do que trabalhar no s\u00e1bado era faz\u00ea-lo com TPM. Percebi que havia atingido o limite quando at\u00e9 o som das minhas pr\u00f3prias unhas batendo no teclado come\u00e7ou a me irritar. Fechei os olhos, respirei fundo e prendi o cabelo num coque alto, numa tentativa de conter o calor que parecia vir de dentro para fora.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;\u00c9 TPM ou menopausa?&#8221;<\/em>, pensei, exasperada.<br>\u2003\u2003Levantei da cadeira, deixando o e-mail inacabado a piscar na tela. Caminhei at\u00e9 a janela e abri as cortinas de uma vez, permitindo que a luz do sol invadisse a sala e me atingisse em cheio. Imediatamente, senti algo dentro de mim se acalmar.<br>\u2003\u2003Aquela claridade me lembrou que, em algumas semanas, estaria na ilha que mais amo, comemorando meu anivers\u00e1rio no hotel dos meus sonhos, cercada apenas pelas pessoas que escolhi ter por perto. Era s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo.<br>\u2003\u2003\u2013 %Bhasin%? \u2013 A voz de Ethan, meu colega de trabalho e arqui-inimigo n\u00e3o-oficial, ecoou do outro lado da porta ap\u00f3s tr\u00eas toques apressados.<br>\u2003\u2003\u2013 Ethan, \u00e9 por considera\u00e7\u00e3o, amizade e pelo m\u00ednimo de sanidade que me resta, que eu te pe\u00e7o: saia por essa porta e n\u00e3o volte hoje. \u2013 Levei os dedos \u00e0s t\u00eamporas, de olhos fechados, tentando manter a calma zen que o sol rec\u00e9m-trazido havia me dado.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu s\u00f3 vim devolver algumas planilhas corrigidas. \u2013 Ele entrou com uma pilha de pap\u00e9is nas m\u00e3os, todo formal.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 o cara. \u2013 Meu humor melhorou instantaneamente. Planilhas corrigidas eram meu equivalente adulto de sorvete gr\u00e1tis.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 b\u00eabada?<br>\u2003\u2003\u2013 Quem me dera. \u2013 Revirei os olhos. \u2013 Vai sair para almo\u00e7ar agora?<br>\u2003\u2003\u2013 Se voc\u00ea n\u00e3o for precisar mais de mim.<br>\u2003\u2003Dei uma olhada r\u00e1pida pela mesa. Nenhuma crise de \u00faltima hora, nenhum inc\u00eandio para apagar. Um milagre corporativo.<br>\u2003\u2003\u2013 Depende&#8230; voc\u00ea se importaria de me fazer uma massagem nos p\u00e9s? \u2013 Perguntei com a maior seriedade que consegui fingir. Mas, honestamente? Se ele aceitasse, eu consideraria entregar a diretoria nas m\u00e3os dele.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 por considera\u00e7\u00e3o e amizade que lhe aviso: isso \u00e9 ass\u00e9dio moral. \u2013 Respondeu teatralmente.<br>\u2003\u2003\u2013 Saia da minha sala. \u2013 Apontei o dedo para a porta, fingindo irrita\u00e7\u00e3o. Ou talvez nem estivesse fingindo.<br>\u2003\u2003E l\u00e1 foi ele, deixando um rastro de bom humor e planilhas prontas para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Voltei a me sentar na cadeira estofada e tirei meus saltos, apoiando os p\u00e9s na mesa, sem me importar de estar vestindo uma saia que, apesar de comprida, estava mostrando demais as minhas pernas erguidas. Peguei meu celular e fiquei procrastinando nas redes at\u00e9 ser interrompida por uma liga\u00e7\u00e3o de Nina.<br>\u2003\u2003\u2013 Me d\u00ea boas not\u00edcias, por favor. \u2013 Implorei, jogando a cabe\u00e7a para tr\u00e1s na cadeira e encarando o teto como se dali fosse brotar alguma solu\u00e7\u00e3o divina. Aquela sala cercada por paredes de vidro me fazia sentir num aqu\u00e1rio.<br>\u2003\u2003E eu, definitivamente, era o peixe palha\u00e7o.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Algu\u00e9m est\u00e1 irritada. <\/em>\u2013 Nina comentou com a voz doce demais para o meu humor. \u2013 <em>Voc\u00ea devia parar de trabalhar aos s\u00e1bados.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Algu\u00e9m est\u00e1 de TPM, isso sim. \u2013 Informei, seca.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Argh, voc\u00ea fica insuport\u00e1vel de TPM.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Ligou para isso, Nina? Que felicidade falar com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 N\u00e3o, sua chata. \u00c9 que eu estou de \u201chome office\u201d hoje e&#8230;<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Hoje \u00e9 s\u00e1bado, \u00e9 claro que voc\u00ea est\u00e1 em casa. \u2013 A interrompi, afiada.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 %Anya%! \u2013 <\/em>Repreendeu com aquele tom t\u00edpico de irm\u00e3 mais velha, mesmo sendo mais nova. \u2013 <em>Acabei fazendo um pouquinho mais de almo\u00e7o do que deveria&#8230;<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Chego em quinze minutos. \u2013 Disparei antes mesmo dela terminar, provocando uma gargalhada animada do outro lado da linha.<br>\u2003\u2003Era isso. Bastava um prato de comida e Nina para o mundo parecer um lugar menos exaustivo.<br>\u2003\u2003Coloquei meu casaco, dei um jeito em meus cabelos, coloquei meus \u00f3culos escuros e fui imediatamente a caminho da casa dos %Campelli%. Antes de seguir, pedi encarecidamente aos meus colegas de escrit\u00f3rio que n\u00e3o fizessem nenhuma merda sem resolu\u00e7\u00e3o enquanto eu e Ethan estiv\u00e9ssemos fora. O cara me irritava, mas n\u00e3o dava para negar que o homem era o \u00fanico que conseguia manter aquele lugar em ordem junto a mim.<br>\u2003\u2003Em poucos minutos, estacionei em frente \u00e0 casa da Nina, genuinamente feliz por v\u00ea-la e ainda mais feliz por estar prestes a receber um almo\u00e7o caseiro e gratuito.<br>\u2003\u2003Nina era uma cozinheira de m\u00e3o cheia. Sua m\u00e3e, Anamelia, at\u00e9 tentou nos ensinar algumas receitas na adolesc\u00eancia, mas, como era de se esperar, s\u00f3 a Nina realmente absorveu alguma coisa. Eu, no m\u00e1ximo, sabia esquentar uma lasanha congelada sem causar um pequeno inc\u00eandio.<br>\u2003\u2003Conheci Anamelia tr\u00eas anos antes do diagn\u00f3stico tardio do c\u00e2ncer. Ela era do tipo que fazia piada com tudo e mantinha os filhos por perto como se fossem extens\u00e3o do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Nunca esqueci o jeito gentil com que me tratava.<br>\u2003\u2003Assistir Nina e %Anthony% perderem a \u00fanica fam\u00edlia que tinham, aos dezenove e dezoito anos, foi uma das experi\u00eancias mais dolorosas que j\u00e1 testemunhei.<br>\u2003\u2003Mais dif\u00edcil ainda foi ver Nina afundar em uma tristeza densa, quase palp\u00e1vel. Uma melancolia que n\u00e3o pedia licen\u00e7a, n\u00e3o tinha hora para ir embora. Eu ainda estava na faculdade e, sempre que podia, pegava um \u00f4nibus s\u00f3 para passar o fim de semana deitada ao lado dela na cama ou convenc\u00ea-la, com jeitinho, a tomar um banho.<br>\u2003\u2003Essas mem\u00f3rias sempre apareciam quando eu voltava \u00e0quela casa. Mas, naquele dia, elas vieram com mais leveza. Talvez por v\u00ea-la bem, por saber que a vida, mesmo com seus golpes, \u00e0s vezes oferecia uma tr\u00e9gua.<br>\u2003\u2003A depress\u00e3o havia lhe roubado mais do que alguns anos. Levou o brilho da juventude, os planos para a faculdade, os pequenos sonhos que Nina havia guardado com tanto cuidado. Mas, agora, v\u00ea-la enfrentando tudo de frente, construindo uma nova rotina, reinventando a pr\u00f3pria hist\u00f3ria\u2026 me deixava orgulhosa. Era como ver o sol voltando a nascer em um lugar que por muito tempo ficou encoberto.<br>\u2003\u2003Eu me sentia sortuda por t\u00ea-la. Talvez Nina fosse minha \u00fanica amiga de verdade, mas, honestamente, era a \u00fanica que eu precisava. Sabia que ela sentia o mesmo. Nunca nos cobramos perfei\u00e7\u00e3o, apenas presen\u00e7a. E, no fim das contas, acho que isso era o que sustentava tudo: a aus\u00eancia de julgamentos e a abund\u00e2ncia de suporte.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acabou de salvar minha vida. \u2013 Disse assim que ela abriu a porta, segurando meu est\u00f4mago como se aquilo fosse literal.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea me fez um jantar incr\u00edvel na semana passada, era o m\u00ednimo que eu podia fazer. \u2013 Nina sorriu, e antes que eu dissesse qualquer coisa, encostei um beijo em sua testa, como quem agradece sem precisar falar. Segui direto para a mesa j\u00e1 posta. \u2013 Ent\u00e3o, temos espaguete \u00e0 matriciana e vinho branco\u2026 sirva-se \u00e0 vontade. \u2013 Anunciou, com um tom gentil que parecia m\u00fasica aos meus ouvidos esfomeados.<br>\u2003\u2003\u2013 Agora sim, minha f\u00e9 na humanidade foi restaurada. \u2013 Falei, puxando a cadeira com um entusiasmo que a fez rir.<br>\u2003\u2003\u2013 Exagerada. \u2013 Nina murmurou, mas o sorriso n\u00e3o deixava os l\u00e1bios dela.<br>\u2003\u2003E, por alguns instantes, ali naquela cozinha cheia de aromas e mem\u00f3rias boas, tudo parecia em paz.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, Nina, eu amo tanto voc\u00ea. \u2013 Eu n\u00e3o fingi modos e esqueci as li\u00e7\u00f5es de etiqueta que Anjali %Bhasin% me ensinou e me joguei na mesa, agarrando pratos e talheres enquanto caia em cima da comida igual uma maluca.<br>\u2003\u2003\u2013 C\u00e9us, %Anya%! Quanto tempo voc\u00ea n\u00e3o come? \u2013 Nina riu, servindo-se uma ta\u00e7a generosa de vinho tinto que refletia a luz da cozinha como rubi l\u00edquido.<br>\u2003\u2003Enfiei uma garfada enorme de espaguete na boca, os sabores de alho e manjeric\u00e3o explodindo na minha l\u00edngua como um pecado capital.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o me julgue. TPM. \u2013 Mastiguei com devo\u00e7\u00e3o. \u2013 Isso aqui&#8230; \u2013 Outra garfada, quase religiosa. \u2013 Eu juro que n\u00e3o te pe\u00e7o em casamento agora mesmo s\u00f3 porque dou valor ao sexo h\u00e9tero.<br>\u2003\u2003\u2013 Que bom saber disso. \u2013 A voz grave atr\u00e1s de mim fez cada c\u00e9lula do meu corpo congelar.<br>\u2003\u2003%Anthony%.<br>\u2003\u2003Engoli com dificuldade, junto com a vontade imediata de desaparecer. Meu corpo inteiro entrou em modo de alerta. Meu cora\u00e7\u00e3o acelerou, minha pele arrepiou. S\u00f3 aquela voz j\u00e1 era suficiente para me desestabilizar por completo.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ananya% %Bhasin%. \u2013 Seus l\u00e1bios curvaram-se naquele meio-sorriso que eu odiava. \u2013 \u00c9 sempre um prazer v\u00ea-la.<br>\u2003\u2003Era a primeira vez que eu o via ap\u00f3s <em>aquele dia<\/em>. E o cara pisca para mim, como se n\u00e3o fosse nada. Como se n\u00e3o tivesse beijado a minha boca desesperadamente semanas atr\u00e1s. Como se n\u00e3o tivesse se enfiado em mim em cima do sof\u00e1 da minha sala.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, %Anthony% tamb\u00e9m est\u00e1 em casa. \u2013 Nina anunciou, alheia ao terremoto que seu irm\u00e3o acabara de causar no meu sistema nervoso.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%. \u2013 Cumprimentei, pegando o copo de vinho da m\u00e3o dela com a desculpa de engolir a comida, quando, na verdade, era s\u00f3 uma tentativa desesperada de me recompor. Sim, eu estava na casa dele, mas quantas vezes isso j\u00e1 aconteceu sem que eu sequer visse a sombra dele? \u2013 O prazer \u00e9 sempre todo meu. \u2013 Retruquei, em um tom levemente provocador, mas evitei olhar diretamente para ele.<br>\u2003\u2003\u2013 Ei! Limites, por favor. \u2013 Nina lan\u00e7ou um olhar reprovador, fazendo careta.<br>\u2003\u2003Eu e %Anthony% nos entreolhamos, um sorriso c\u00famplice e contido nos l\u00e1bios. Aquela troca silenciosa dizia tudo: t\u00ednhamos um segredo. Um bem sujo.<br>\u2003\u2003\u2013 Vou voltar para o quarto. Estou trabalhando. \u2013 Fez um carinho r\u00e1pido na cabe\u00e7a da irm\u00e3 e me lan\u00e7ando um leve aceno, desapareceu pelo corredor. E eu fiquei ali, est\u00e1tica, fingindo normalidade.<br>\u2003\u2003%Anthony% e Nina tinham apenas dois de diferen\u00e7a, mas podiam passar como irm\u00e3os g\u00eameos tranquilamente. O tom da cor de cabelo deles era exatamente o mesmo, um castanho claro que muitos tentavam chegar atrav\u00e9s de pintura, mas s\u00f3 conseguiam manchas tingidas. Eles tinham o mesmo formato de rosto meio quadrado, o dele sendo mais evidente por conta do maxilar forte. Talvez a \u00fanica coisa que os diferenciava eram os olhos.<br>\u2003\u2003Os olhos de Nina eram castanhos e profundos. Os olhos de %Anthony% eram verdes e l\u00edmpidos. Uma porra de um pesadelo.<br>\u2003\u2003\u2013 Ok, logo estarei de sa\u00edda. \u2013 Informou e ele apenas assentiu e entrou em seu quarto.<br>\u2003\u2003Voltei a comer normalmente assim que %Anthony% fechou a porta, for\u00e7ando-me a esquecer completamente da presen\u00e7a dele ali, j\u00e1 que ele n\u00e3o pareceu ter ficado t\u00e3o abalado com minha presen\u00e7a como eu fiquei com a dele.<br>\u2003\u2003\u2013 Vai para onde? \u2013 Perguntei, curiosa.<br>\u2003\u2003\u2013 Andreas me chamou para sair hoje. \u2013 Ela respondeu, com um leve rubor no rosto. \u2013 Cara, isso ainda \u00e9 muito estranho.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o pense muito. \u2013 Aconselhei, sem tirar os olhos do prato. \u2013 S\u00f3 fica estranho se voc\u00ea pensar demais.<br>\u2003\u2003Eu estava t\u00e3o focada na comida que mal percebi o quanto estava com fome at\u00e9 me ver quase afogada naquele prato de macarr\u00e3o. Estava prestes a me servir de novo, a fome tinha se apoderado de mim rapidamente.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9, voc\u00ea tem raz\u00e3o. Aquele dia no anivers\u00e1rio&#8230; foi bem ruim. \u2013 Ela relembrou, a voz carregada de uma melancolia que n\u00e3o passava despercebida.<br>\u2003\u2003\u2013 J\u00e1 faz semanas, Nina. \u2013 Respondi, sem muita paci\u00eancia para o drama.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sei, mas aquele dia foi bem claro para mim. \u2013 Ela fez uma pausa, antes de olhar para mim com um olhar s\u00e9rio, quase desconfort\u00e1vel. \u2013 Por isso, chamei voc\u00ea aqui. Eu podia ter te ligado, mas talvez voc\u00ea queira me matar e queria te dar a chance de fazer isso pessoalmente. \u2013 Eu larguei o talher na hora e cruzei os bra\u00e7os, com a testa franzida. Ser\u00e1 que aquele almo\u00e7o estava realmente predestinado a ser sobre isso e n\u00e3o era s\u00f3 um simples convite? Nina, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando, apressou-se a explicar: \u2013 N\u00e3o foi planejado. Eu realmente exagerei na comida e como j\u00e1 estava querendo conversar com voc\u00ea\u2026<br>\u2003\u2003\u2013 O que rolou, Nina? \u2013 Interrompi, impaciente.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu e Andreas conversamos e ele me contou que vai estar no seu anivers\u00e1rio. \u2013 Ela observou minha rea\u00e7\u00e3o, provavelmente esperando algum tipo de choque, ent\u00e3o eu assenti lentamente, mas sem entender aonde ela queria chegar.<br>\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea tem um problema com isso? Eu meio que n\u00e3o tenho escolha, Nina. Os pais dele s\u00e3o amigos dos meus, eles tamb\u00e9m estar\u00e3o l\u00e1. Seria estranho ele n\u00e3o ser convidado. \u2013 Tentei ser racional. Eu tamb\u00e9m achava estranho t\u00ea-lo l\u00e1, mas n\u00e3o conseguia impor essa decis\u00e3o aos meus pais. Era uma luta perdida, os Buppha estariam l\u00e1, com ou sem minha aprova\u00e7\u00e3o. \u2013 Mas eu posso tentar desconvid\u00e1-los.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, %Anya%, claro que n\u00e3o! Eu jamais pediria isso. Pelo contr\u00e1rio, eu acho que\u2026 <em>eu<\/em> n\u00e3o irei.<br>\u2003\u2003Eu fiquei em sil\u00eancio, pasma. Esperei que ela come\u00e7asse a rir e dissesse que era brincadeira, mas, para minha surpresa, ela apenas abaixou a cabe\u00e7a, triste. O ar ao redor ficou pesado. E, ent\u00e3o, eu comecei a rir, incr\u00e9dula.<br>\u2003\u2003\u2013 Fora de cogita\u00e7\u00e3o. \u2013 Afirmei, de forma firme, tentando esconder o desconforto que come\u00e7ava a crescer em mim.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%&#8230; \u2013 Ela tentou argumentar.<br>\u2003\u2003\u2013 Fora de cogita\u00e7\u00e3o, Nina. \u2013 Repeti, a voz cheia de certeza.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea lembra o quanto foi bizarro no anivers\u00e1rio do Andreas? Imagina como vai ser no seu, que estaremos em uma ilha, e n\u00e3o s\u00f3 com a fam\u00edlia dele, mas com a sua tamb\u00e9m! %Anya%, ser\u00e1 terr\u00edvel! \u2013 Lastimou, passando a m\u00e3o no rosto. \u2013 Eu n\u00e3o quero que fique um clima horr\u00edvel no seu anivers\u00e1rio. Voc\u00ea planeja esse final de semana o ano inteiro, \u00e9 injusto.<br>\u2003\u2003\u2013 Exatamente, \u00e9 injusto mesmo! Eu planejo o ano inteiro e voc\u00ea acha que pode n\u00e3o ir ao meu anivers\u00e1rio? \u2013 Exclamei, indignada. \u2013 Voc\u00ea foi em todos os anos, Nina! N\u00e3o tem a menor gra\u00e7a sem voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sei, amiga. \u2013 Nina soltou um suspiro pesado, como se a culpa a estivesse consumindo. \u2013 Tenho pensado nisso todos os dias. Eu j\u00e1 devia ter conversado com voc\u00ea sobre isso, mas n\u00e3o sabia como. Sou uma p\u00e9ssima amiga! \u2013 Ela lamentou, apoiando a cabe\u00e7a nas m\u00e3os.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9. \u2013 Tentei tranquiliz\u00e1-la, mas, na verdade, estava sentindo uma vontade de arrancar os cabelos dela. \u2013 Mas voc\u00ea ser\u00e1, se n\u00e3o for ao meu anivers\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, %Anya%! \u2013 Exclamou, deixando escapar um gemido de frustra\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Estou falando s\u00e9rio. Se voc\u00ea n\u00e3o for, eu n\u00e3o vou. \u2013 Levantei, carregando minhas lou\u00e7as sujas e indo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha, com raiva.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o enlouque\u00e7a, %Anya%, \u00e9 sua festa.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sabe bem que eu estou falando s\u00e9rio. \u2013 Respondi, sem hesitar.<br>\u2003\u2003Comecei a tirar os an\u00e9is, um a um, colocando-os com cuidado sobre o balc\u00e3o de m\u00e1rmore. Em seguida, deslizei as pulseiras pelos punhos, sentindo o metal frio arranhar de leve a pele quente. A pia j\u00e1 estava cheia de pratos empilhados, talheres mergulhados na espuma e um cheiro suave de detergente de lavanda que tomava o ar. Suspirei.<br>\u2003\u2003Aquilo definitivamente n\u00e3o era o meu habitat natural.<br>\u2003\u2003Nina, do outro lado da cozinha, me observava com aquele olhar divertido que sempre reservava para os meus dramas dom\u00e9sticos.<br>\u2003\u2003\u2013 Vamos, madame. A \u00e1gua n\u00e3o morde. \u2013 Provocou, entregando-me a esponja.<br>\u2003\u2003Revirei os olhos, mas peguei o objeto, sentindo a textura \u00e1spera contra os dedos. O riso dela encheu a cozinha, leve e familiar, o tipo de som que me fazia esquecer por alguns instantes o peso do resto do mundo.<br>\u2003\u2003Foi com Nina que aprendi a fazer essas pequenas coisas: lavar pratos, estender roupas, preparar caf\u00e9 sem queimar a l\u00edngua no processo. Coisas simples, mas que, de algum jeito, me faziam sentir&#8230; normal.<br>\u2003\u2003Em casa, sempre havia algu\u00e9m para cuidar de tudo e eu, envolta nesse conforto herdado, nunca precisei pensar em como as coisas realmente funcionavam. Nina achava isso um absurdo. <em>\u201cVantagens de ser herdeira\u201d<\/em>, eu costumava brincar. Ela s\u00f3 me lan\u00e7ava aquele olhar que misturava carinho e reprova\u00e7\u00e3o antes de voltar a esfregar os copos, como se dissesse: <em>voc\u00ea ainda vai me agradecer por isso<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2013 Tem algum outro motivo? \u2013 Perguntei, sentindo a tens\u00e3o no ar.<br>\u2003\u2003Nina levantou os olhos, parecendo sair de um transe. \u2013 Hm? \u2013 Ela murmurou, confusa.<br>\u2003\u2003\u2013 Tem outro motivo pelo qual voc\u00ea n\u00e3o quer ir? \u2013 Insisti, observando-a atentamente.<br>\u2003\u2003Ela soltou uma longa respira\u00e7\u00e3o antes de finalmente responder.<br>\u2003\u2003\u2013 A verdade \u00e9 que eu n\u00e3o sei se quero passar por isso de novo. Eu mesma j\u00e1 me julgo o suficiente por estar saindo com seu ex. Imagina ser julgada novamente pela sua fam\u00edlia\u2026 E, sem ofensas, %Anya%, sua fam\u00edlia \u00e9 a porra de uma seita. \u2013 Ela me fez rir com sua observa\u00e7\u00e3o, mas logo meu sorriso desapareceu, preocupada.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, voc\u00ea nunca perdeu nenhum anivers\u00e1rio meu. \u2013 Fiz um biquinho, uma express\u00e3o de falsa melancolia. \u2013 A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9ria assim. Al\u00e9m disso, se voc\u00ea e Andreas est\u00e3o mesmo tentando ficar juntos, vamos precisar enfrentar isso de qualquer jeito.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sei. \u2013 Ela suspirou, reconhecendo. \u2013 Eu s\u00f3 queria n\u00e3o ter que escutar os coment\u00e1rios das pessoas. \u00c0s vezes, nem s\u00e3o maldosos, mas s\u00e3o aqueles coment\u00e1rios que me deixam p\u00e9ssima.<br>\u2003\u2003\u2013 Se houvesse um jeito de evitar isso&#8230; \u2013 Murmurei, tentando juntar os peda\u00e7os da minha frustra\u00e7\u00e3o em algo que fizesse sentido.<br>\u2003\u2003\u2013 Acho que as pessoas s\u00f3 n\u00e3o comentariam se voc\u00ea tamb\u00e9m estivesse com algu\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o entendi.<br>\u2003\u2003\u2013 Quando algu\u00e9m come\u00e7a um relacionamento novo, sempre rola aquela fase de fofoca, julgamento, sabe? N\u00e3o \u00e9 que os coment\u00e1rios parariam de vez, mas se voc\u00ea tivesse algu\u00e9m ao seu lado, a press\u00e3o diminuiria. As pessoas n\u00e3o iam ficar t\u00e3o obcecadas no fato de eu estar com o seu ex. Seria, sei l\u00e1, mais&#8230; normal. Eu sei que isso soa como uma ideia meio idiota, mas&#8230; \u2013 Nina observou, com um sorriso meio triste, como se tentasse aliviar o peso da conversa. \u2013 Mas n\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea estivesse saindo com algu\u00e9m.<br>\u2003\u2003Mas ent\u00e3o, uma ideia atravessou minha mente, como um rel\u00e2mpago, e antes que eu pudesse filtrar, a exclamei: \u2013 Quem disse que n\u00e3o estou?<br>\u2003\u2003N\u00e3o. Eu n\u00e3o estava. Era mentira. Uma mentira sa\u00edda direto do calor do momento, empurrada pelo ego ferido e pelo orgulho em recupera\u00e7\u00e3o intensiva. Eu n\u00e3o estava vendo ningu\u00e9m. Mas a ideia de inventar um romance repentino parecia, por algum motivo, estrategicamente promissora.<br>\u2003\u2003Na pior das hip\u00f3teses, eu poderia dizer que o tal cara me deu um bolo e ficou por isso mesmo. O que n\u00e3o seria t\u00e3o dif\u00edcil de acreditar, considerando meu hist\u00f3rico desastroso. Mas a\u00ed Nina j\u00e1 estaria na ilha, envolvida na festa, tirando fotos com sombrinhas coloridas e coquet\u00e9is de guarda-chuvinha. E voltar atr\u00e1s seria deselegante.<br>\u2003\u2003\u2013 E est\u00e1? \u2013 Nina arregalou os olhos, mais chocada do que quando descobriu que eu n\u00e3o sabia usar a fun\u00e7\u00e3o \u201ccentrifugar\u201d da m\u00e1quina de lavar.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom&#8230; tem um cara que eu estou vendo&#8230;<br>\u2003\u2003N\u00e3o, n\u00e3o tinha um cara. Nenhum sequer. Os caras que eu mais via na semana eram meu pai e Ethan. E o cara que eu realmente queria ver n\u00e3o tinha ligado no dia seguinte.<br>\u2003\u2003\u2013 E por que voc\u00ea n\u00e3o me contou? \u2013 Quis saber.<br>\u2003\u2003\u2013 Talvez n\u00e3o seja t\u00e3o s\u00e9rio. \u2013 N\u00e3o era s\u00e9rio, pois n\u00e3o existia. \u2013 E se eu o convidasse para ir ao anivers\u00e1rio, voc\u00ea se sentiria mais confort\u00e1vel?<br>\u2003\u2003Nina se calou por um instante, seus olhos refletindo uma mistura de surpresa e considera\u00e7\u00e3o. Ela parecia estar processando tudo, ponderando as op\u00e7\u00f5es. A ideia de eu estar com algu\u00e9m realmente a fez pensar. Eu sabia que ela estava se sentindo desconfort\u00e1vel com a situa\u00e7\u00e3o e talvez fosse a \u00fanica maneira de ajud\u00e1-la a superar isso.<br>\u2003\u2003\u2013 Anh, acho que sim. \u2013 Ela mordeu o l\u00e1bio, claramente ainda insegura, mas aliviada pela possibilidade. \u2013 Poderia&#8230; me fazer sentir um pouco menos estranha, eu acho. N\u00e3o resolveria tudo, mas talvez diminu\u00edsse os coment\u00e1rios.<br>\u2003\u2003Suspirei, fitando Nina com uma mistura de exaspera\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o. Era estranho, mas eu entendia.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o, est\u00e1 decidido. \u2013 Declarei, erguendo as m\u00e3os como quem sela um pacto. \u2013 Eu apare\u00e7o com o meu cara, voc\u00ea chega de m\u00e3os dadas com o Andreas, e todo mundo finge que vive num conto de fadas. Com direito a fofocas, sorrisos falsos e espumante quente. \u2013 Fiz uma rever\u00eancia exagerada, encerrando a fala como se fosse o fim de um espet\u00e1culo teatral.<br>\u2003\u2003Nina revirou os olhos e pulou do balc\u00e3o, o vestido balan\u00e7ando levemente enquanto ela caminhava at\u00e9 mim.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 imposs\u00edvel. \u2013 Murmurou, me puxando pelo bra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao quarto. Segui, rindo baixo, at\u00e9 ela parar em frente ao espelho e come\u00e7ar a retocar o batom. A express\u00e3o dela mudou de divertida para preocupada. \u2013 Voc\u00ea tem certeza disso? Eu sei o quanto voc\u00ea odeia meter os p\u00e9s pelas m\u00e3os. Quer mesmo levar esse cara? N\u00e3o \u00e9 cedo para apresentar \u00e0 sua fam\u00edlia? S\u00e3o exatamente essas decis\u00f5es que te fazem surtar, %Anya%!<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, voc\u00ea vive dizendo que eu devia me arriscar mais quando o assunto \u00e9 amor, relacionamentos e essas outras bobagens que voc\u00ea acha rom\u00e2nticas. \u2013 Deitei na cama, cruzando os bra\u00e7os e fazendo uma careta enquanto ela tentava ajeitar o delineador.<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, %Anya%, mas dentro dos seus limites. Dentro da sua zona de seguran\u00e7a emocional, entende?<br>\u2003\u2003\u2013 Arriscar, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 sair da zona de seguran\u00e7a. Se n\u00e3o for para dar uma leve pirada no processo, nem vale a pena.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu s\u00f3 n\u00e3o quero que voc\u00ea se machuque. J\u00e1 basta eu estar causando essa confus\u00e3o toda\u2026<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 causando nada. Eu s\u00f3 quero que voc\u00ea esteja l\u00e1, comigo.<br>\u2003\u2003\u2013 E esse cara? Voc\u00ea acha que ele vai topar? Ele \u00e9 legal? Como voc\u00ea vai explicar isso pros seus pais? Ai, %Anya%\u2026 \u2013 Ela gesticulava tanto que quase derrubou o frasco de perfume.<br>\u2003\u2003\u2013 Fica tranquila, amiga. Vai dar tudo certo. Confia em mim. \u2013 Garanti, mesmo sabendo que aquilo era mentira.<br>\u2003\u2003\u00c9 claro que n\u00e3o ia dar certo. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o pretendia esticar a farsa al\u00e9m do necess\u00e1rio. Meu \u201cnamorado\u201d terminaria comigo um dia antes da festa e pronto. Nina nunca mais ouviria falar dele, meus pais fingiriam que entenderam e todos seguir\u00edamos em frente.<br>\u2003\u2003Conversamos por mais alguns minutos, rindo de hip\u00f3teses absurdas sobre o encontro, at\u00e9 o celular dela vibrar sobre a c\u00f4moda. A tela iluminou o nome de Andreas.<br>\u2003\u2003\u2013 Ele chegou. \u2013 Disse Nina, com um suspiro que misturava nervosismo e empolga\u00e7\u00e3o. \u2013 A gente conversa depois? Eu s\u00f3 preciso ter certeza de que voc\u00ea est\u00e1 mesmo bem com isso.<br>\u2003\u2003\u2013 Claro. Eu digo o mesmo. E avise para Andreas que n\u00e3o h\u00e1 problema algum em voc\u00eas irem juntos para a Ilha. \u2013 Nina assentiu e esticou a m\u00e3o em minha dire\u00e7\u00e3o, pronta para se despedir, mas eu neguei com um aceno r\u00e1pido da cabe\u00e7a. \u2013 Eu vou ficar. \u2013 Murmurei, tentando soar casual, como se n\u00e3o fosse nada demais.<br>\u2003\u2003\u2013 Como assim? \u2013 Nina parou no meio do corredor, franzindo o cenho, como se eu tivesse acabado de falar em outro idioma.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu vou\u2026 \u2013 Fiz um gesto vago com o queixo em dire\u00e7\u00e3o ao quarto de %Anthony%, evitando encar\u00e1-la por tempo demais.<br>\u2003\u2003A rea\u00e7\u00e3o dela foi instant\u00e2nea e digna de um Oscar. Os olhos se arregalaram, a boca se abriu num \u201co\u201d silencioso e eu quase vi as sinapses se chocando dentro da cabe\u00e7a dela, criando novas e dram\u00e1ticas teorias. Se eu n\u00e3o estivesse com o cora\u00e7\u00e3o acelerado, teria rido.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anthony%? \u2013 Ela perguntou, num tom entre a incredulidade e o medo de estar certa.<br>\u2003\u2003Assenti. Tecnicamente, o gesto s\u00f3 queria dizer \u201csim, \u00e9 com ele que eu quero falar\u201d. Mas Nina, sendo Nina, fez conex\u00f5es muito mais explosivas.<br>\u2003\u2003<strong>\u2013 O cara com quem voc\u00ea est\u00e1 saindo \u00e9\u2026 o %Anthony%?<\/strong><br>\u2003\u2003Pisquei. Uma vez. Duas. Meu olhar alternava entre o rosto chocado dela e a porta do quarto dele. Eu ia negar. De verdade. Estava a um segundo de fazer isso. Mas, antes que a palavra sa\u00edsse, algo clicou.<br>\u2003\u2003A ideia.<br>\u2003\u2003Surgiu de repente, atrevida, audaciosa, como uma fa\u00edsca que cai num barril de p\u00f3lvora.<br>\u2003\u2003%Anthony% fingindo ser meu namorado.<br>\u2003\u2003S\u00f3 por um fim de semana. S\u00f3 at\u00e9 tudo se acalmar.<br>\u2003\u2003Meu c\u00e9rebro disparou num turbilh\u00e3o de planos e poss\u00edveis desastres e logo a linha entre genialidade e idiotice ficou perigosamente borrada.<br>\u2003\u2003\u2013 E-eu\u2026 \u2013 Balbuciei, tentando acompanhar meus pr\u00f3prios pensamentos enquanto sentia a ideia tomar forma.<br>\u2003\u2003Nina me observava com o mesmo olhar de quem acabou de testemunhar um plot twist da pr\u00f3pria vida. E, sinceramente, eu entendia. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia o que diabos estava fazendo.<br>\u2003\u2003Enquanto eu buscava palavras, ela pareceu processar toda a informa\u00e7\u00e3o de uma vez. Vi seus olhos se estreitarem, o maxilar travar e ent\u00e3o ela explodiu.<br>\u2003\u2003\u2013 Que merda \u00e9 ess\u2026 \u2013 Resmungou, jogando a bolsa no ch\u00e3o e marchando at\u00e9 o quarto. Bateu \u00e0 porta com for\u00e7a, sem parar de me encarar, como se eu tivesse acabado de pousar de uma nave espacial. \u2013 Eu n\u00e3o sei se estou entendendo.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu disse que estava saindo com um cara. \u2013 Dei de ombros, fingindo inoc\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2013 E esqueceu de mencionar que esse cara era o meu irm\u00e3o?!.<br>\u2003\u2003\u2013 Sim\u2026? \u2013 Murmurei, sem um pingo de convic\u00e7\u00e3o. Naquele instante j\u00e1 n\u00e3o tinha certeza do que estava dizendo, fazendo ou at\u00e9 sendo. Nina deu um giro brusco, decidida a ir at\u00e9 a porta, mas puxei o bra\u00e7o dela antes que alcan\u00e7asse a ma\u00e7aneta.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o! Espera! Deixe me falar com ele primeiro. Ele\u2026 n\u00e3o queria apressar as coisas. Voc\u00ea sabe como ele \u00e9: introspectivo, fechado\u2026 \u2013 Tateei na mem\u00f3ria qualquer detalhe que pudesse dar verossimilhan\u00e7a \u00e0quela desculpa improvisada.<br>\u2003\u2003Ela parou, me observando como se eu fosse uma lun\u00e1tica tempor\u00e1ria.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, voc\u00ea est\u00e1 falando s\u00e9rio? \u2013 Disse, incr\u00e9dula. \u2013 Puta merda. Eu vou matar ele! \u2013 Estremeceu, puxando-se para frente; eu segurei seu bra\u00e7o com for\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2013 Shhh, Nina! Por favor! \u2013 Supliquei, quase ajoelhando, segurando-a pelo pulso. \u2013 Me deixa falar com ele primeiro. N\u00e3o posso ter voc\u00ea batendo na porta dele antes de eu explicar. Por favor\u2026<br>\u2003\u2003Ela me encarou, olhos faiscando entre f\u00faria e preocupa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Como voc\u00ea teve coragem? \u2013 Perguntou, ainda sem entender.<br>\u2003\u2003\u2013 Porque o seu irm\u00e3o \u00e9 um gato, voc\u00ea sempre disse isso. \u2013 Forcei um riso curto.<br>\u2003\u2003\u2013 O Andreas me espera. \u2013 Disse ela, respirando fundo e olhando para a bolsa. \u2013 Eu vou, mas, %Anya%, a gente precisa conversar depois. Voc\u00ea precisa me explicar tudo: quando, como\u2026 meu Deus, voc\u00ea e o %Anthony%?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sei. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o acredito. \u2013 Resolvi sorrir, mesmo que o sorriso fosse de pl\u00e1stico. \u2013 Vai dar certo.<br>\u2003\u2003Nina bufou, pegou a bolsa e apontou para a porta como quem marca um destino inevit\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 rid\u00edculo. Absurdo. Um del\u00edrio completo. \u2013 Resmungou, saindo, ainda balan\u00e7ando a cabe\u00e7a como quem tenta se livrar de um pesadelo mal escrito.<br>\u2003\u2003Ela fechou a porta atr\u00e1s de si com passos apressados. Fiquei ali, sozinha no meio do quarto, com o cora\u00e7\u00e3o batendo alto e a sensa\u00e7\u00e3o clara de que tinha acabado de embarcar numa loucura da qual talvez n\u00e3o houvesse volta.<br>\u2003\u2003\u2013 Que porra eu acabei de fazer? \u2013 Murmurei, esfregando o rosto com as m\u00e3os, borrando a maquiagem sem d\u00f3.<br>\u2003\u2003A ideia, no papel, at\u00e9 tinha algum charme. O problema era a execu\u00e7\u00e3o e, obviamente, o elenco. Se eu n\u00e3o conseguisse convencer o %Anthony% a encenar justamente no fim de semana do meu anivers\u00e1rio, eu estava perdida. Fugir j\u00e1 n\u00e3o era op\u00e7\u00e3o: Nina certamente iria direto ao quarto dele assim que sa\u00edsse; eu precisava me adiantar.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o, numa dessas fagulhas que nascem do desespero, uma possibilidade se acendeu no meio do caos mental. J\u00e1 hav\u00edamos fingido ser um casal antes; n\u00e3o \u00e9ramos \u00edntimos, \u00e9 verdade, mas a conviv\u00eancia havia sido civilizada o suficiente para tornar plaus\u00edvel uma encena\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Bastaria dizer que \u00e9ramos apenas amigos e omitir, com classe, qualquer hist\u00f3ria embara\u00e7osa sobre o sof\u00e1 do meu escrit\u00f3rio.<br>\u2003\u2003Podia funcionar. Contanto que eu engolisse a verdade inconveniente: ele n\u00e3o estava interessado em mim. Nem de leve. E, estranhamente, isso tornava a ideia menos desesperada e, de certo modo, mais estrat\u00e9gica. T\u00ea-lo no meu anivers\u00e1rio seria uma desculpa perfeita para ficar por perto sem parecer uma hist\u00e9rica, uma chance disfar\u00e7ada de faz\u00ea-lo me ver de verdade.<br>\u2003\u2003Claro que o plano era pat\u00e9tico \u2013 um castelo de cartas levantado sobre \u201ce se\u201d e \u201cvai que\u2026\u201d \u2013 e bastava um \u00fanico sopro errado para tudo desabar.<br>\u2003\u2003Eu precisava de duas coisas: fingir confian\u00e7a como se fosse verdade e tirar %Anthony% do casulo por quarenta e oito horas.<br>\u2003\u2003Dois dias. Um retiro entre desconhecidos. Uma ilha. Um lugar onde ele n\u00e3o tivesse como escapar. S\u00f3 isso. Simples na teoria, suicida na pr\u00e1tica. Mas, naquele instante, parecia a \u00fanica jogada sensata.<br>\u2003\u2003Ah, droga.<br>\u2003\u2003Passei a m\u00e3o na blusa, tentando alisar qualquer ruga que eu sabia que n\u00e3o existia e comecei a caminhar at\u00e9 o quarto dele. O som do meu salto no ch\u00e3o ecoava como um lembrete da tens\u00e3o crescente dentro de mim. Quando cheguei na porta de madeira, bati levemente, o som abafado demais, quase como se eu quisesse disfar\u00e7ar minha ansiedade.<br>\u2003\u2003<em>\u201cPode entrar\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003Respirei fundo, sentindo a garganta seca. %Anthony% era tranquilo, educado, previs\u00edvel. N\u00e3o havia motivo para o meu cora\u00e7\u00e3o martelar assim. Mas esta era a primeira vez que eu ficaria sozinha com ele de novo. E n\u00e3o no meu escrit\u00f3rio, sob minha regras. E sim no territ\u00f3rio dele. Entre suas coisas, seu cheiro, seu espa\u00e7o.<br>\u2003\u2003Onde eu n\u00e3o tinha controle algum.<br>\u2003\u2003\u2013 Oi, %Ant%. \u2013 Ele estava debru\u00e7ado sobre a mesa, rodeado por pap\u00e9is espalhados, com a express\u00e3o cansada no rosto. Usava um moletom confort\u00e1vel e \u00f3culos de grau, t\u00e3o \u00e0 vontade que quase me deu vontade de abra\u00e7\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%? \u2013 Ele levantou a cabe\u00e7a, claramente surpreso me vendo ali. Apertei as m\u00e3os nervosamente, sentindo um calor subir pelo peito. V\u00ea-lo assim, t\u00e3o perto, me trouxe uma onda de lembran\u00e7as que eu preferia evitar. \u2013 O que foi? Quer ajuda com a Matriciana? \u2013 Ele retirou os \u00f3culos, ainda com um sorriso descontra\u00eddo. Eu, sem saber o que fazer com as m\u00e3os, tirei os \u00f3culos escuros da cabe\u00e7a e comecei a mexer neles de forma ansiosa.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu vim falar com voc\u00ea. \u2013 Mordi os l\u00e1bios, tentando controlar os nervos. Ele franziu a testa, desconfiado, e se levantou, mas n\u00e3o deu um passo na minha dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Aconteceu alguma coisa? \u2013 Sua voz estava s\u00e9ria, o olhar atento.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, mas\u2026 \u00e9r\u2026 na verdade\u2026 \u2013 As palavras sa\u00edam emboladas. Ok, %Anya%, foco. Respira. Voc\u00ea \u00e9 uma executiva, tem que se portar como tal. N\u00e3o gagueje. Ele \u00e9 um advogado. \u2013 %Anthony%, eu fiz uma merda.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea matou algu\u00e9m? \u2013 %Anthony% piscou, um sorriso torto come\u00e7ando a se formar nos l\u00e1bios. Sua express\u00e3o misturava incredulidade e divers\u00e3o e eu n\u00e3o sabia se ficava aliviada ou mais nervosa.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, mas talvez voc\u00ea mate\u2026 \u2013 Murmurei, baixinho, olhando para os lados, como se esperasse que algu\u00e9m ouvisse. \u2013 Ent\u00e3o\u2026 aconteceram algumas coisas e eu\u2026 \u2013 Travei. Novamente. Eu estava ali, diante dele, prestes a confessar um erro rid\u00edculo, e minha mente parecia completamente paralisada. %Anthony% me olhou, a paci\u00eancia vis\u00edvel nos olhos e isso me deu coragem para continuar. \u2013 Ok, vou ser direta. Falei para a Nina que n\u00f3s estamos juntos e que voc\u00ea vai para o meu anivers\u00e1rio no final do m\u00eas, na ilha.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fez o qu\u00ea?! \u2013 Os olhos dele se arregalaram de surpresa, a express\u00e3o passando por uma mistura de descren\u00e7a, confus\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o parecia saber se ria ou se ficava s\u00e9rio e isso me deixou ainda mais desconfort\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu disse para Nina que estamos juntos e que voc\u00ea vai pro meu anivers\u00e1rio na ilha. \u2013 Soltei de uma vez, a vergonha apertando meu peito feito um n\u00f3. Evitei encar\u00e1-lo, meus olhos baixaram para as m\u00e3os enquanto come\u00e7ava a roer uma unha sem pensar, um gesto autom\u00e1tico para disfar\u00e7ar o tremor na voz.<br>\u2003\u2003Deixei de fora a parte essencial: aquilo tinha nascido de um impulso cego, n\u00e3o de um plano racional. E escondi a verdade mais importante: no fundo, havia uma ponta de inten\u00e7\u00e3o em me aproximar dele.<br>\u2003\u2003Por ora, parecia mais sensato manter qualquer jogo de sedu\u00e7\u00e3o, consciente ou n\u00e3o, completamente fora do roteiro.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu entendi, n\u00e3o sou idiota. \u2013 Ele resmungou, passando a m\u00e3o pelo rosto. \u2013 Por que voc\u00ea fez isso?<br>\u2003\u2003Eu me vi ali, tendo que explicar para um advogado, uma mente anal\u00edtica e afiada, que aquela decis\u00e3o est\u00fapida saiu de um momento de confus\u00e3o, um impulso que eu ainda n\u00e3o entendia muito bem. Respirei fundo, me recompus e decidi ser sincera, o que mais eu poderia fazer?<br>\u2003\u2003\u2013 Nina e Andreas est\u00e3o juntos. \u2013 Comecei a falar, mas fui imediatamente interrompida por ele.<br>\u2003\u2003\u2013 Seu ex-namorado? \u2013 Ele perguntou, os olhos estreitos, como se estivesse tentando decifrar o que eu estava dizendo. Eu assenti com a cabe\u00e7a, confirmando. \u2013 \u00c9, voc\u00eas s\u00e3o\u2026 modernas. \u2013 Ele disse, com um tom ir\u00f4nico.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 nada disso. O que importa \u00e9 que ela n\u00e3o queria ir ao meu anivers\u00e1rio porque Andreas vai estar l\u00e1, e somos um ex-casal, vai ser estranho para ela\u2026 \u2013 Expliquei, come\u00e7ando a me sentir mais aflita \u00e0 medida que ia soltando as palavras. \u2013 Ent\u00e3o eu disse que n\u00e3o tinha problema algum, pois j\u00e1 estava at\u00e9 com outra pessoa. E ela deu a ideia de que eu levasse essa pessoa, assim ningu\u00e9m ia ligar se ela estivesse com meu ex-namorado. O problema \u00e9 que\u2026<br>\u2003\u2003\u2013 Deixa eu adivinhar, n\u00e3o existe essa pessoa. \u2013 Ele respondeu, entediado, sem sequer mudar a express\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom, n\u00e3o existia. Mas, teve uma noite no Baston, algumas semanas atr\u00e1s, eu meio que comecei a namorar um cara a\u00ed\u2026 \u2013 Falei, tentando dar um tom descontra\u00eddo, lan\u00e7ando um sorriso amarelo em sua dire\u00e7\u00e3o. %Anthony% me encarou minuciosa e silenciosamente por uns tr\u00eas segundos antes de dizer um sonoro <em>\u201cn\u00e3o\u201d<\/em> e virar as costas, voltando a sentar na cadeira. \u2013 Ah, %Anthony%, por favor!<br>\u2003\u2003\u2013 Est\u00e1 maluca, %Anya%? Isso vai dar maior confus\u00e3o. \u2013 Me aproximei dele quase correndo. Com a movimenta\u00e7\u00e3o, meus \u00f3culos caiu e, antes de apanh\u00e1-lo no ch\u00e3o, apertei as unhas no ombro dele. \u2013 Ai! Voc\u00ea me beliscou?! \u2013 Perguntou sem acreditar que eu simplesmente tinha apertado a carne do seu bra\u00e7o entre minhas unhas.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea me deve isso! \u2013 Falei, j\u00e1 completamente alterada. Eu podia jurar que at\u00e9 bati o p\u00e9 no ch\u00e3o, como fazia quando tinha cinco anos de idade.<br>\u2003\u2003\u2013 Pelo qu\u00ea? \u2013 Ele me olhou, ainda incr\u00e9dulo.<br>\u2003\u2003\u2013 Aquele dia no Baston! \u2013 Eu disse, quase sem saber se estava falando s\u00e9rio.<br>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu inventei essa desculpa impulsivamente s\u00f3 para n\u00e3o dizer que ele me devia mesmo era por n\u00e3o ter ligado ou mandando mensagens depois de transar comigo.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fingiu ser minha namorada por uma hora em um restaurante e agora quer que eu passe quatro dias em uma ilha fingindo namorar com voc\u00ea e ainda quer que eu esconda isso da minha irm\u00e3? A conta n\u00e3o bate, %Bhasin%! \u2013 %Anthony% respondeu, com a voz baixa e irritada, claramente n\u00e3o gostando de onde a conversa estava indo.<br>\u2003\u2003\u2013 O tio Martinez vai estar l\u00e1! Se eu aparecer com outro cara, voc\u00ea vai sair como idiota e eu como vagabunda! \u2013 Tentei novamente, lan\u00e7ando uma \u00faltima cartada, esperando que ele se sensibilizasse com a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o ligo. N\u00e3o vou parar minha vida para me enfiar numa confus\u00e3o de adolescentes com voc\u00ea. \u2013 A express\u00e3o dele endureceu, os olhos brilhando com uma raiva contida. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 inacredit\u00e1vel. Voc\u00ea inventa uma mentira para a sua amiga e agora espera que eu salve voc\u00ea dessa situa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea mesma criou?! \u2013 Ele balbuciou, quase indignado.<br>\u2003\u2003Esbravejei, furiosa, enquanto pegava os \u00f3culos que eu mesma havia chutado para debaixo da cama. No entanto, ao me abaixar, fui surpreendida. N\u00e3o havia nada perdido por l\u00e1. Nenhuma meia velha, nenhum objeto esquecido. Normalmente, homens n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o organizados, mas, aparentemente, %Anthony% era uma exce\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Debaixo da cama, em vez da bagun\u00e7a comum, havia uma pilha de pap\u00e9is cuidadosamente empilhados. Minha curiosidade superou a irrita\u00e7\u00e3o, e, sem pensar muito, puxei os pap\u00e9is para mais perto.<br>\u2003\u2003Foi quando o sangue gelou em minhas veias. Eram cartas. Cartas de aviso de pagamento, daquelas que s\u00f3 chegam quando a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a apertar. Eu conhecia bem esses pap\u00e9is. Uma delas estava aberta, e bastou uma r\u00e1pida olhada no cabe\u00e7alho para confirmar: cartas de despejo.<br>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o apertou e a irrita\u00e7\u00e3o deu lugar a um misto de incredulidade e preocupa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003<em>\u201cN\u00e3o faz sentido. Esse apartamento \u00e9 deles, n\u00e3o \u00e9 alugado\u201d<\/em>, pensei, franzindo a testa. Fiquei um momento im\u00f3vel, ainda ajoelhada no ch\u00e3o, antes de me levantar e voltar minha aten\u00e7\u00e3o para ele.<br>\u2003\u2003\u2013 O que voc\u00ea\u2026? \u2013 Perguntou, virando-se.<br>\u2003\u2003Ergui o envelope pardo e observei a palidez se espalhar pelo seu rosto, seus olhos arregalando em um misto de surpresa e apreens\u00e3o. A rea\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o deixou d\u00favidas de que ele sabia exatamente o que significava o conte\u00fado da carta.<br>\u2003\u2003\u2013 Me d\u00e1 isso. \u2013 Ele pediu, a voz tensa, quase r\u00edspida.<br>\u2003\u2003\u2013 O que \u00e9 isso, %Ant%? \u2013 Perguntei, a preocupa\u00e7\u00e3o crescente.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 nada, n\u00e3o \u00e9 da sua conta, devolve! \u2013 Ele retrucou, tentando manter a calma, mas com um toque claro de raiva.<br>\u2003\u2003\u2013 A Nina sabe disso? \u2013 Perguntei, sem conseguir esconder o receio na minha voz.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, e voc\u00ea n\u00e3o vai contar. Me d\u00e1 isso, %Anya%! \u2013 Tentou puxar as cartas de minha m\u00e3o, mas fui r\u00e1pida o suficiente para desviar. N\u00e3o seria f\u00e1cil me livrar disso de vez, mas queria ganhar tempo para organizar a ideia que estava se formando na minha mente. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o devia ter mexido nas minhas coisas! Eu juro por Deus, %Ananya%, se a Nina souber disso por voc\u00ea\u2026<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o vou falar nada, calma. \u2013 Tentei acalm\u00e1-lo, mas o lado impulsivo dentro de mim falou mais alto. \u2013 Mas acho que posso ajudar.<br>\u2003\u2003Ele piscou algumas vezes, tentando processar minhas palavras. Ent\u00e3o, soltou uma risada curta e sarc\u00e1stica, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a como se aquilo fosse uma piada de mau gosto.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00eas, ricos, s\u00e3o engra\u00e7ados. Acham que podem tudo. \u2013 Ele disse, quase com desprezo.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 porque, normalmente, n\u00f3s podemos. \u2013 Respondi, com um tom de obviedade, sem perder a confian\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o preciso de caridade, %Anya%. \u2013 Ele afirmou, puxando as cartas de minha m\u00e3o com firmeza.<br>\u2003\u2003\u2013 E quem disse que \u00e9 caridade? \u2013 Retruquei, decidida a virar o jogo. \u2013 Pense nisso como uma oportunidade de emprego.<br>\u2003\u2003Foi a\u00ed que comecei a usar minhas melhores habilidades de negocia\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Espera, \u00e9 isso mesmo que eu estou pensando? Voc\u00ea est\u00e1 me oferecendo dinheiro para\u2026? \u2013 %Anthony% parecia perplexo, claramente n\u00e3o esperando essa proposta e, provavelmente, n\u00e3o acreditando muito no que eu estava sugerindo. Seus olhos estavam semicerrados, analisando-me com desconfian\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2013 Viajar comigo no final de semana e, talvez, fingir que estamos saindo. N\u00e3o precisa ser nada muito s\u00e9rio, s\u00f3 o suficiente para convencer a Nina de que estamos juntos. \u2013 Abaixei a voz, tentando tornar a proposta mais palat\u00e1vel. \u2013 E, quem sabe, a gente resolve isso.<br>\u2003\u2003\u2013 Se isso \u00e9 um emprego, isso me torna o qu\u00ea? Um prostituto? \u2013 Debochou, de bra\u00e7os cruzados.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, eu n\u00e3o estou pagando para fazer sexo com voc\u00ea. Estou pagando seu aluguel para que voc\u00ea finja que estou fazendo sexo com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, al\u00e9m de caridade, eu nem vou ficar com a parte boa? \u2013 Pareceu meio indignado e ergui uma sobrancelha, surpresa com o tom que ele usava.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o estou entendendo, %Anthony%. Voc\u00ea quer o papel de prostituto ou n\u00e3o? Al\u00e9m disso, se fosse o caso, voc\u00ea j\u00e1 teria recebido o pagamento. \u2013 Murmurei, abaixando a cabe\u00e7a, me arrependendo do que disse assim que terminei a frase. \u2013 Antes que voc\u00ea pergunte, isso n\u00e3o tem nada a ver com&#8230; o que aconteceu.<br>\u2003\u2003Achei necess\u00e1rio deixar isso claro. Para ele e para mim mesma.<br>\u2003\u2003%Ant% balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, claramente impressionado com a minha proposta audaciosa e ent\u00e3o passou a m\u00e3o pelo cabelo bagun\u00e7ado. Ele soltou um longo suspiro antes de olhar para mim, resigna\u00e7\u00e3o e aborrecimento refletida em sua express\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, sobre aquele dia\u2026 \u2013 Come\u00e7ou a falar, dando um passo em dire\u00e7\u00e3o a mim, co\u00e7ando a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003<em>\u201cAh, meu Deus, ele vai me dar um fora. Um p\u00e9 na bunda antes mesmo de termos algo\u201d,<\/em> pensei. Eu nunca tinha levado um fora antes, nunca fui rejeitada, sequer tive encontros o suficiente para ter sido rejeitada.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o quero falar sobre isso, %Ant%. \u2013 Respondi rapidamente, negando com a cabe\u00e7a e dando um passo para tr\u00e1s. No fundo, eu queria falar, mas senti que precisava me proteger da humilha\u00e7\u00e3o que seria ser dispensada por %Anthony% enquanto pedia um favor a ele. \u2013 Olha s\u00f3, eu quero a Nina no meu anivers\u00e1rio e fa\u00e7o quase qualquer coisa para isso, at\u00e9 mesmo entrar em um relacionamento falso com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Assisti esperan\u00e7osa %Anthony% desviar o olhar, parecendo pensativo. Ele ficou quieto por alguns momentos, considerando minha proposta e pesando as op\u00e7\u00f5es em sua mente. Ele parecia estar contemplando seriamente, apesar do absurdo de toda a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, voc\u00ea est\u00e1 maluca.<br>\u2003\u2003Ele fixou os olhos nos meus como se procurasse vest\u00edgios de sanidade. Meu sorriso se alargou. Eu j\u00e1 tinha ganhado essa batalha antes mesmo dela come\u00e7ar.<br>\u2003\u2003\u2013 Do que voc\u00ea precisa? \u2013 Minha voz soou mais firme do que eu esperava, embora os dedos tremessem levemente ao segurar o envelope.<br>\u2003\u2003%Anthony% fez aquela pausa calculista que eu j\u00e1 conhecia bem, os olhos escuros avaliando cada poss\u00edvel rea\u00e7\u00e3o minha antes de responder. Quando finalmente falou, foi com a calma de quem negocia um contrato de neg\u00f3cios: \u2013 N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio? Dinheiro.<br>\u2003\u2003O ar entre n\u00f3s pareceu ficar mais pesado.<br>\u2003\u2003\u2013 Quanto? \u2013 Minha voz baixou meio tom, a brincadeira dando lugar \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o s\u00e9ria.<br>\u2003\u2003\u2013 Trinta mil.<br>\u2003\u2003\u2013 Trinta mil?! \u2013 O envelope quase escapou dos meus dedos quando puxei de volta, abrindo-o com movimentos bruscos. Os n\u00fameros no papel confirmavam minha suspeita, cada parcela era consideravelmente menor que isso. \u2013 Eu vou pagar quantas parcelas disso, %Anthony%?<br>\u2003\u2003Ele inclinou a cabe\u00e7a, quase divertido com minha rea\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Cinco. Uma para cada dia que eu passarei preso naquela ilha paradis\u00edaca sua. \u2013 Abri a boca para reclamar, mas ele ergueu um dedo para me silenciar. \u2013 Vamos ver&#8230; Cinco dias convivendo com seus amigos ricos que me olham como se eu fosse o gar\u00e7om, numa ilha onde n\u00e3o posso fugir, fingindo que n\u00e3o vejo como voc\u00ea me observa quando acha que n\u00e3o estou olhando&#8230; \u2013 Seus olhos escuros brilharam. \u2013 Acho que estou sendo generoso.<br>\u2003\u2003Engoli seco. \u00c9, ele tinha um ponto.<br>\u2003\u2003\u2013 Vinte. \u2013 Contrapropus, surpresa com minha pr\u00f3pria ousadia.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, isso n\u00e3o \u00e9 leil\u00e3o.<br>\u2003\u2003Baixei os olhos para o envelope novamente, os n\u00fameros dan\u00e7ando diante de mim enquanto fazia os c\u00e1lculos. Trinta mil. O pre\u00e7o da minha dignidade ou da minha obsess\u00e3o. O valor que pagaria para ter %Anthony% como enfeite em minha festa de anivers\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 um aproveitador. \u2013 Cuspi as palavras enquanto cruzava os bra\u00e7os com for\u00e7a, sentindo o tecido do meu vestido amassar sob meus dedos.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, sou empreendedor. \u2013 Deu de ombros. Me observou atentamente antes de perguntar. \u2013 E se eu disser que n\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2013 Como eu j\u00e1 falei seu nome para Nina, s\u00f3 precisarei dizer que n\u00f3s terminamos e n\u00e3o precisamos mais ter contato algum.<br>\u2003\u2003\u2013 E quanto \u00e0s cartas?<br>\u2003\u2003Ah, era isso. Ele estava com medo de que eu falasse sobre a d\u00edvida.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o tenho nada a ver com isso. \u2013 Dei de ombros, simplesmente. \u2013 Estou oferecendo dinheiro como troca, n\u00e3o como suborno. E se sequer pensou nessa possibilidade, s\u00f3 o mostra o quanto voc\u00ea n\u00e3o me conhece.<br>\u2003\u2003\u2013 Calma, ju\u00edza! Eu n\u00e3o disse isso. \u2013 Eu vi em sua express\u00e3o que ele estava esperando uma tentativa de extors\u00e3o da minha parte. Isso me entristecia, provava o qu\u00e3o pouco ele me conhecia e o quanto ele n\u00e3o tinha interesse em descobrir mais sobre mim. <em>\u2013 Como \u00e9 ter tudo que quer, %Anya%?<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 \u00c0s vezes, \u00e9 um pouco cansativo. \u2013 Respondi, sarc\u00e1stica.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu preciso pensar. \u2013 Ele olhou para baixo, encarando as cartas em suas m\u00e3os.<br>\u2003\u2003\u2013 Ok, voc\u00ea tem meu n\u00famero. \u2013 Alfinetei. N\u00e3o consegui me conter. Ele ergueu o olhar, provavelmente notando o tom \u00e1cido em minha voz e, provavelmente, n\u00e3o entendeu nada. \u2013 Mas saiba que quando Nina chegar, ela vai interrog\u00e1-lo de maneira furtiva e, provavelmente, violenta. Ela n\u00e3o aceitou muito bem.<br>\u2003\u2003\u2013 Como assim?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu falei que estava saindo com voc\u00ea e ela surtou.<br>\u2003\u2003Nina sempre reclamava quando eu fazia coment\u00e1rios sacanas relacionados ao seu irm\u00e3o, mas eu nunca pensei que fosse s\u00e9rio.<br>\u2003\u2003\u2013 Essa hist\u00f3ria est\u00e1 vindo cheia de contras e apenas um pr\u00f3. \u2013 Resmungou, novamente. Peguei o \u00f3culos que ainda estava no ch\u00e3o. \u2013 Vai acabar sobrando para mim, eu j\u00e1 consigo sentir.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%, eu n\u00e3o lhe pediria se n\u00e3o fosse importante. \u2013 Afirmei, com firmeza. \u2013 Eu preciso ir, ainda tenho que voltar para o trabalho. Voc\u00ea\u2026 \u2013 Hesitei quando notei que %Anthony% me encarava atentamente. \u2013 Pensa com carinho, por favor. \u2013 Dei um sorrisinho, virando a cabe\u00e7a, tentando ser a mais meiga poss\u00edvel. \u2013 \u00c9 s\u00f3 um final de semana, voc\u00ea s\u00f3 tem que estar l\u00e1, nem vai precisar fazer muita coisa. Comida, bebida e hospedagem de gra\u00e7a, uma ilha paradis\u00edaca\u2026 Fala s\u00e9rio, %Anthony%, \u00e9 um \u00f3timo trato.<br>\u2003\u2003\u2013 Como eu disse, vou pensar. \u2013 Ele informou, um tanto pensativo. \u2013 A gente conversa na segunda.<br>\u2003\u2003\u2013 Segunda?<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, eu n\u00e3o trabalho aos domingos. \u2013 Emitiu, engra\u00e7adinho. \u2013 O capitalismo faz a gente se meter em cada uma\u2026 \u2013 Murmurou e virou de costas, voltando a pegar sua caneta e pap\u00e9is, acenando como um claro sinal de que n\u00e3o me queria mais ali.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u25c7\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>%ANTHONY%<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Eu nunca fui bom em fingir ser o mocinho. Essa pose de homem \u00edntegro, acima de qualquer erro, nunca colou para mim. Mas naquele m\u00eas\u2026 eu ultrapassei a linha. Virei exatamente o tipo de pessoa que eu jurava n\u00e3o ser: mentiroso, dissimulado, covarde quando mais importava.<br>\u2003\u2003Sentia vergonha desse lado, mas tamb\u00e9m me recusava a deixar que ele me engolisse por completo. No fim, eu sempre encontrava uma justificativa \u2013 um prop\u00f3sito racional, uma causa maior \u2013 que tornava cada decis\u00e3o moralmente aceit\u00e1vel. Pelo menos na minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Mesmo assim, admitir que havia algo de frio, quase cir\u00fargico, nas minhas escolhas recentes\u2026 me dava um inc\u00f4modo que eu n\u00e3o sabia nomear.<br>\u2003\u2003Depois do almo\u00e7o preparado pela Nina, subi para o quarto e me forcei a focar no trabalho. Tinha uma r\u00e9plica \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o para terminar antes de segunda. Era um caso importante, o tipo que podia consolidar meu nome dentro do escrit\u00f3rio. Fazia pouco tempo que eu tinha sa\u00eddo do andar dos estagi\u00e1rios \u2013 aquele formigueiro de despachos, carimbos e cafe\u00edna \u2013 e conquistado uma mesa no setor de gest\u00e3o estrat\u00e9gica.<br>\u2003\u2003Tr\u00eas andares acima, outro mundo. E eu sabia que n\u00e3o tinha chegado l\u00e1 apenas por m\u00e9rito. Meu est\u00f4mago embrulhava sempre que lembrava disso.<br>\u2003\u2003A verdade era simples e nojenta: eu devia minha promo\u00e7\u00e3o a um relacionamento falso.<br>\u2003\u2003N\u00e3o sei em que momento aceitei aquele acordo. Talvez tenha achado que seria f\u00e1cil. Talvez tenha me convencido de que n\u00e3o era t\u00e3o errado assim, de que, se o resultado final fosse justo, os meios se justificariam.<br>\u2003\u2003O plano parecia infal\u00edvel na minha cabe\u00e7a. Primeiro, eu ganharia a confian\u00e7a da %Anya%. Contaria parte da verdade, o suficiente para parecer sincero. Depois, quando o terreno estivesse seguro, eu criaria alguma hist\u00f3ria para Davi. Algo convincente, algo que me permitisse sair do plano sem levantar suspeitas. E, se tudo desse errado \u2013 se as provas viessem \u00e0 tona e o jogo acabasse \u2013 eu ainda tinha uma \u00faltima carta: assumir o golpe, mas inverter a narrativa.<br>\u2003\u2003Dizer que tudo fazia parte de uma armadilha maior para expor outro crime contra os %Bhasin%. Afinal, quem se sacrifica pela fam\u00edlia sempre ganha perd\u00e3o.<br>\u2003\u2003Eu tinha pensado em tudo. Cada detalhe, cada escape.<br>\u2003\u2003At\u00e9 v\u00ea-la naquela noite.<br>\u2003\u2003E, de repente, o plano inteiro deixou de fazer sentido.<br>\u2003\u2003A situa\u00e7\u00e3o saiu do meu controle r\u00e1pido demais e, quando me dei conta, eu estava preso entre as pernas torneadas de %Ananya% %Bhasin%. E eu n\u00e3o me arrependia disso, s\u00f3 lamentava o <em>timing terrivelmente errado.<\/em><br>\u2003\u2003Depois daquela noite, encenei com perfei\u00e7\u00e3o a farsa de um relacionamento ideal com a sobrinha do chefe. E foi engra\u00e7ado \u2013 e um tanto revoltante \u2013 perceber como os olhares mudaram para mim. Era como se eu tivesse subido num pedestal invis\u00edvel. Os coment\u00e1rios sobre minha &#8220;promo\u00e7\u00e3o rel\u00e2mpago&#8221; pipocavam pelos corredores, sempre acompanhados de sorrisos enviesados e insinua\u00e7\u00f5es n\u00e3o ditas.<br>\u2003\u2003Para eles, eu n\u00e3o era um profissional competente. Era s\u00f3 algu\u00e9m que pegou o atalho certo. E isso me embara\u00e7ava mais do que eu queria admitir. Mas esse embara\u00e7o \u2013 e qualquer sombra de tristeza que ousasse me perseguir \u2013 sumiu no exato instante em que o novo sal\u00e1rio caiu na minha conta.<br>\u2003\u2003Ainda assim, fora do escrit\u00f3rio, eu me sentia um tolo. Um imbecil. Um canalha.<br>\u2003\u2003Toda vez que %Anya% surgia nos meus pensamentos, o arrependimento vinha como um soco. Eu n\u00e3o transei com ela por interesse. N\u00e3o fiz aquilo para tirar vantagem. Pelo contr\u00e1rio. Durante aquele tempo juntos, eu esqueci completamente o plano sujo de Martinez. Mesmo assim, o fato de ter ido t\u00e3o longe, sabendo que havia concordado com aquela loucura, me corro\u00eda por dentro.<br>\u2003\u2003Pensei in\u00fameras vezes em ligar para %Anya%. Por\u00e9m, qualquer aproxima\u00e7\u00e3o minha n\u00e3o seria apenas minha. E isso me consumia, uma inquieta\u00e7\u00e3o que me apertava o peito, como se estivesse tentando me lembrar de que minhas inten\u00e7\u00f5es j\u00e1 vinham manchadas.<br>\u2003\u2003Talvez por isso eu estivesse me dedicando tanto ao caso que me foi designado. Meu desempenho precisava ser impec\u00e1vel. Irrefut\u00e1vel. Eu precisava mostrar que minha presen\u00e7a ali valia mais do que qualquer barganha. Que minha carreira podia, sim, ser constru\u00edda por m\u00e9rito. No fundo, minha estrat\u00e9gia era clara: construir uma reputa\u00e7\u00e3o s\u00f3lida o suficiente para me sustentar quando o inevit\u00e1vel acontecesse.<br>\u2003\u2003Porque, no momento em que eu dissesse a Martinez que n\u00e3o podia cumprir o que ele me pediu\u2026 tudo iria desmoronar. E eu sabia bem: ele n\u00e3o era o tipo de homem que aceitava fracassos.<br>\u2003\u2003Tirei os \u00f3culos, esfregando o rosto, sentindo que meus pensamentos novamente iriam at\u00e9 a culpada por toda aquela confus\u00e3o.<br>\u2003\u2003Nada disso teria acontecido se %Anya% n\u00e3o tivesse inventado um namoro para Davi naquele dia do Baston.<br>\u2003\u2003De vez em quando, eu tentava sentir raiva dela por isso e at\u00e9 repensava sobre a ideia de influenci\u00e1-la errado. Por\u00e9m, eu sentia o cheiro de jasmim e o barulho da chuva daquela noite vindo da minha mente criativa e din\u00e2mica e desistia de tudo de novo. Peguei o celular em cima da mesa e repeti o mesmo ato que fizera das \u00faltimas vezes. Procurei o nome de %Anya% na lista de contatos, mas n\u00e3o consegui ligar.<br>\u2003\u2003Suspirei, jogando o celular na mesa e voltando a olhar para a tela do computador, mas uma voz arrancou minha aten\u00e7\u00e3o completamente para fora de meu pr\u00f3prio quarto.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Voc\u00ea acabou de salvar minha vida. <\/em>\u2013 Escutei, longe.<br>\u2003\u2003Era a voz de %Anya%.<br>\u2003\u2003Instintivamente, corri para tr\u00e1s da porta, tentando captar cada s\u00edlaba, desejando a confirma\u00e7\u00e3o de que era ela de verdade. N\u00e3o era poss\u00edvel que, depois de pensar tanto nela, a indiana tivesse se materializado ali, no meio da minha rotina. Percebi que n\u00e3o conseguia ouvir mais nada, ent\u00e3o decidi caminhar at\u00e9 a cozinha, fingindo buscar um copo de \u00e1gua.<br>\u2003\u2003\u2013 C\u00e9us, %Anya%! Quanto tempo voc\u00ea n\u00e3o come? \u2013 Nina comentou, rindo ao observar a amiga devorar a comida sem cerim\u00f4nia.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o me julgue. TPM\u2026 Isso aqui\u2026 \u2013 %Anya% gesticulava, ainda mastigando. \u2013 Nina, juro que n\u00e3o te pe\u00e7o em casamento agora porque dou muito valor ao sexo h\u00e9tero.<br>\u2003\u2003\u2013 Umm, que bom saber disso. \u2013 Murmurei, e depois acrescentei, tentando soar casual: \u2013 %Ananya% %Bhasin%, \u00e9 sempre um prazer v\u00ea-la.<br>\u2003\u2003Arregalei os olhos, consciente de que tinha reagido sem pensar. Era inacredit\u00e1vel como meu corpo parecia fora do meu controle.<br>\u2003\u2003Ver %Anya% com os cabelos presos em um rabo de cavalo, vestindo mangas compridas que n\u00e3o davam espa\u00e7o para imagina\u00e7\u00e3o, era completamente diferente de t\u00ea-la visto descabelada, corada, satisfeita. Balancei a cabe\u00e7a, tentando afastar as imagens que insistiam em invadir minha mente, e me aproximei da geladeira.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, %Anthony% tamb\u00e9m est\u00e1 em casa. \u2013 Nina comentou, apontando para mim.<br>\u2003\u2003Pobrezinha, ela n\u00e3o fazia ideia do que se passava.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%\u2026 o prazer \u00e9 todo meu. \u2013 O tom provocante de %Anya% me atingiu de repente. Congelei atr\u00e1s da porta da geladeira, engolindo em seco, incapaz de reagir de outra forma.<br>\u2003\u2003\u2013 Ei\u2026 limites, por favor.<br>\u2003\u2003Fechei a geladeira e busquei o olhar de %Anya%. Ela mantinha um sorriso contido nos l\u00e1bios, que eu n\u00e3o consegui decifrar por completo. Neguei levemente com a cabe\u00e7a, tentando n\u00e3o sorrir, e acenei para avisar que iria ao quarto. O caminho at\u00e9 l\u00e1 pareceu intermin\u00e1vel. Queria voltar, me sentar \u00e0 mesa e conversar com ela, mas para Nina, n\u00e3o t\u00ednhamos esse tipo de intimidade. E, entre n\u00f3s, de fato, ainda n\u00e3o t\u00ednhamos.<br>\u2003\u2003Na hora seguinte, tentei muito me concentrar nos pap\u00e9is em minha frente. Por\u00e9m, acabei fazendo algo que prometi a mim mesmo que nunca faria. Mandei mensagem para Victor, meu colega de trabalho.<br>\u2003\u2003<strong>E se eu falar para Martinez que eu e %Anya% terminamos?<\/strong><br>\u2003\u2003Em alguns minutos, Victor respondeu:<br>\u2003\u2003<strong>Voc\u00ea vai ser demitido.<\/strong><br>\u2003\u2003Victor era o \u00fanico do meu andar que falava comigo. Tudo bem, nossas conversas vinham recheadas de insultos e provoca\u00e7\u00f5es, mas ainda assim, almo\u00e7\u00e1vamos juntos quase todos os dias. Num fim de semana, depois de uma semana especialmente infernal no trabalho, acabamos atravessando a rua para tomar uma cerveja naquele bar simples e modesto em frente ao pr\u00e9dio.<br>\u2003\u2003Fiquei surpreso pois n\u00e3o imagina que um cara como Victor frequentava um bar t\u00e3o simples e modesto, mas no fundo, \u2013 bem no fundo \u2013, Victor era mais do que um cara que se importava com roupas caras e de marca. Ele tamb\u00e9m gostava de cinema, de trabalhar e de cerveja quente.<br>\u2003\u2003Naquela noite, depois de muita cerveja e umas doses generosas de u\u00edsque, n\u00f3s discutimos. Victor me acusou de ser complacente com todos os privil\u00e9gios que vinha recebendo por causa da minha &#8220;namorada&#8221;. E eu, com raiva de mim mesmo, n\u00e3o consegui fazer outra coisa al\u00e9m de concordar. Foi a\u00ed que contei sobre o acordo que Martinez prop\u00f4s. Victor achou aquilo sensacional.<br>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu precisava desabafar. N\u00e3o podia contar nada a ningu\u00e9m, j\u00e1 que as pessoas mais pr\u00f3ximas estavam diretamente envolvidas. Victor apareceu na hora certa, no lugar certo \u2013 ou errado, dependendo do ponto de vista \u2013 e escutou meus lamentos com uma empolga\u00e7\u00e3o quase perversa.<br>\u2003\u2003Obviamente, omiti a parte mais delicada: o fato de %Anya% n\u00e3o ser minha namorada, mas sim, uma amiga da minha irm\u00e3.<br>\u2003\u2003<em>\u201cIsso \u00e9 maldade, voc\u00ea sabe que fazer isso com sua pr\u00f3pria namorada \u00e9 loucura. Mas cara, se voc\u00ea conseguir&#8230; Genial, voc\u00ea vai ser um g\u00eanio!\u201d<\/em> exclamou, surpreso com a situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel em que eu estava preso.<br>\u2003\u2003Consegui me concentrar no trabalho por alguns minutos at\u00e9 ser interrompido por batidas t\u00edmidas na porta. Levantei a cabe\u00e7a, surpreso. %Anya% estava ali.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%? O que foi? Quer ajuda com a Matriciana?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu vim falar com voc\u00ea. \u2013 Desci o olhar para os l\u00e1bios que ela mordia excessivamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Aconteceu alguma coisa?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, \u00e9r\u2026 na verdade, e-eu\u2026 \u2013 %Anya% estava gaguejando, algo que era completamente fora de seu personagem. %Ananya% %Bhasin% n\u00e3o gaguejava, ela falava graciosamente. \u2013 %Anthony%, eu fiz merda.<br>\u2003\u2003<em>Eu tamb\u00e9m, %Ananya%. Eu tamb\u00e9m.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea matou algu\u00e9m? \u2013 Brinquei para esconder o quanto estava envergonhado.<br>\u2003\u2003%Anya% n\u00e3o fazia ideia da miss\u00e3o indecorosa que o tio havia me imposto. Ainda assim, eu me sentia envergonhado por estar ali, de frente para ela.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o havia aquela noite.<br>\u2003\u2003Por mais que eu tentasse enterrar a lembran\u00e7a, ela voltava com for\u00e7a, insistente, como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar. Era imposs\u00edvel n\u00e3o pensar na ordem dos acontecimentos: a proposta de Martinez veio primeiro. E, logo depois, veio ela.<br>\u2003\u2003Mesmo sabendo que %Anya% n\u00e3o tinha absolutamente nada a ver com os planos sujos do meu chefe, eu n\u00e3o conseguia evitar a sensa\u00e7\u00e3o de que, de alguma forma, eu havia me aproveitado dela. Essa ideia me corro\u00eda por dentro. Me fazia sentir menor. Sujo.<br>\u2003\u2003Ela permaneceu em sil\u00eancio por um instante, como se ponderasse as pr\u00f3prias palavras. Ent\u00e3o respirou fundo.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, mas talvez voc\u00ea mate\u2026 Ent\u00e3o\u2026 aconteceram algumas coisas e eu\u2026 &#8211; Assenti devagar, sinalizando para que ela continuasse. Sinceramente? Nada do que ela dissesse poderia ser pior do que o que eu estava escondendo. \u2013 Ok, vou ser direta. Falei para a Nina que n\u00f3s estamos juntos\u2026 \u2013 Ela parou por um segundo, esperando minha rea\u00e7\u00e3o. \u2013 E que voc\u00ea vai para o meu anivers\u00e1rio no final do m\u00eas, na ilha.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fez o qu\u00ea?!<br>\u2003\u2003\u2013 Falei para a Nina que n\u00f3s estamos juntos e que voc\u00ea vai para o meu anivers\u00e1rio na ilha.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu entendi, n\u00e3o sou idiota. Mas\u2026 por que voc\u00ea fez isso? \u2013 Passei a m\u00e3o pela nuca, tentando processar aquela informa\u00e7\u00e3o sem parecer t\u00e3o confuso quanto estava.<br>\u2003\u2003%Anya% soltou um suspiro curto, como se tamb\u00e9m estivesse tentando entender as pr\u00f3prias motiva\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003Come\u00e7ou explicando que Nina estava namorando seu ex-namorado. Aquilo me pegou de surpresa. Era a primeira vez que eu ouvia falar que minha irm\u00e3 estava em um relacionamento e, pelo visto, com algu\u00e9m do passado de %Anya%. Eu teria que conversar com ela sobre isso depois, com calma.<br>\u2003\u2003%Anya% continuou, dizendo que Nina havia mencionado que n\u00e3o queria ir \u00e0 festa de anivers\u00e1rio dela naquele ano. Segundo ela, ficaria sem gra\u00e7a de aparecer ao lado do ex da amiga. A situa\u00e7\u00e3o toda soava como um daqueles enredos complicados de novela, mas, pela express\u00e3o de %Anya%, aquilo era real e desconfort\u00e1vel para as duas.<br>\u2003\u2003A famosa festa de %Ananya% %Bhasin%. Todo ano, eu ouvia falar dela, por\u00e9m, apesar de tantos coment\u00e1rios, eu nunca havia sido convidado oficialmente. Sabia que, se quisesse, provavelmente conseguiria entrar. Mas n\u00e3o era do tipo que aparecia sem convite direto da anfitri\u00e3. Ainda mais sendo ela.<br>\u2003\u2003E mais do que uma festa, eu sabia o que aquilo significava para minha irm\u00e3. Nina contava os dias para essa viagem. Amava aquele final de semana na ilha da herdeira %Bhasin%. Era o evento que ela mais aguardava no ano.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o eu disse que n\u00e3o tinha problema algum, pois j\u00e1 estava at\u00e9 com outra pessoa. E ela deu a ideia de que eu levasse essa pessoa, assim ningu\u00e9m ia ligar se ela estivesse com meu ex-namorado. O problema \u00e9 que\u2026\u2013 %Anya% mordeu o l\u00e1bio, e sua voz saiu mais baixa. \u2013 O problema \u00e9 que\u2026<br>\u2003\u2003\u2013 Deixa eu adivinhar, n\u00e3o existe essa pessoa.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom, n\u00e3o existia. Mas, teve uma noite no Baston, a algumas semanas atr\u00e1s, eu meio que comecei a namorar com um cara a\u00ed\u2026 \u2013 Minha express\u00e3o se transformou da confus\u00e3o inicial para um entendimento gelado. %Anya% n\u00e3o estava apenas sugerindo que mantiv\u00e9ssemos a farsa, ela queria ampli\u00e1-la, arrastando minha irm\u00e3, meus amigos e toda a fam\u00edlia para dentro do teatro. Era um risco inaceit\u00e1vel. N\u00e3o precisei pensar muito para dizer \u2018n\u00e3o\u2019. \u2013 Ah, %Anthony%, por favor!<br>\u2003\u2003A voz dela tinha aquele misto de s\u00faplica e manipula\u00e7\u00e3o que eu conhecia bem. Ignorei.<br>\u2003\u2003\u2013 Est\u00e1 maluca, %Anya%? Isso vai dar a maior confus\u00e3o. \u2013 Minhas palavras sa\u00edram cortantes, sem espa\u00e7o para negocia\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o precisava de mais um enrosco com ela. J\u00e1 estava metido at\u00e9 o pesco\u00e7o tentando me desvencilhar de um acordo sujo e perigoso que, de alguma forma, tamb\u00e9m a envolvia. Antes que eu pudesse dar outro passo, ela avan\u00e7ou at\u00e9 mim, impaciente, e apertou meu bra\u00e7o com as unhas afiadas. \u2013 Ai! Voc\u00ea me beliscou?!<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea me deve isso!<br>\u2003\u2003\u2013 Pelo qu\u00ea?!<br>\u2003\u2003\u2013 Aquele dia no Baston!<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fingiu ser minha namorada por uma hora em um restaurante e por conta disso quer que passe quatro dias em uma ilha fingindo namorar com voc\u00ea e ainda por cima quer que eu esconda isso da minha irm\u00e3? A conta n\u00e3o bate, %Bhasin%!<br>\u2003\u2003<em>\u2013 O tio Martinez vai estar l\u00e1! Se eu aparecer com outro cara, voc\u00ea vai sair como idiota e eu como vagabunda!<\/em><br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio por um segundo. Por fora, mantive a carranca de indignado. Por dentro, comecei a considerar a proposta.<br>\u2003\u2003Na verdade, aquilo podia funcionar. Aquela poderia ser minha oportunidade de matar dois coelhos com uma cajadada s\u00f3. Estar na festa com %Anya% me daria a chance perfeita para tentar convenc\u00ea-la, com calma, de que o plano do Martinez era absurdo. E se ela, com o bom senso que eu sabia que tinha, recusasse colaborar, eu poderia voltar para o Martinez e dizer que, pelo menos, tentei. Tentei mesmo. E ele teria visto com os pr\u00f3prios olhos.<br>\u2003\u2003Al\u00e9m disso, aquilo me permitiria observar tudo de perto, manter %Anya% segura e, com alguma sorte, encontrar uma brecha para desarmar toda a farsa.<br>\u2003\u2003Mas eu precisava pensar. Pensar de verdade, sem o olhar afiado dela me atravessando e sem a press\u00e3o daquela conversa.<br>\u2003\u2003Enquanto me perdia nessa linha de racioc\u00ednio, n\u00e3o percebi o movimento \u00e1gil de %Anya%. Quando levantei os olhos, ela j\u00e1 estava no canto do quarto, segurando uma das cartas de despejo que eu escondia embaixo da cama.<br>\u2003\u2003Meu est\u00f4mago afundou. Vi seus olhos percorrerem o conte\u00fado da carta e, logo depois, me encararem.<br>\u2003\u2003\u2013 A Nina sabe disso?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. E voc\u00ea n\u00e3o vai contar. Me d\u00e1 isso, %Anya%! \u2013 Tentei tomar a carta da m\u00e3o dela, mas ela foi mais r\u00e1pida, desviando com facilidade. Eu poderia ter insistido, for\u00e7ado a situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o queria machuc\u00e1-la. Al\u00e9m do mais, ela j\u00e1 tinha lido. O estrago estava feito.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o devia ter mexido nas minhas coisas! Juro por Deus, %Ananya%, se a Nina souber disso por voc\u00ea\u2026 \u2013 A amea\u00e7a saiu entre dentes, tentando esconder o nervosismo que me corro\u00eda por dentro.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o vou falar nada, calma. Mas acho que posso ajudar. \u2013 Ela me olhou com aquela express\u00e3o que misturava compaix\u00e3o e desafio.<br>\u2003\u2003Por um segundo, n\u00e3o entendi. Mas ent\u00e3o caiu a ficha.<br>\u2003\u2003%Anya% n\u00e3o era parente de sangue do Martinez, mas com certeza havia sido moldada pela mesma escola. Fria, pr\u00e1tica e acostumada a resolver problemas com o que nunca lhe faltou: dinheiro.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00eas, ricos, s\u00e3o engra\u00e7ados. Acham que podem tudo.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 porque, na maioria das vezes, podemos mesmo. \u2013 Retrucou, com um sorriso debochado.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o preciso de caridade, %Anya%.<br>\u2003\u2003\u2013 E quem disse que \u00e9 caridade? Pense nisso como&#8230; uma oportunidade de emprego.<br>\u2003\u2003\u2013 Espera. \u00c9 isso mesmo que eu estou entendendo? Voc\u00ea est\u00e1 me oferecendo dinheiro para&#8230;<br>\u2003\u2003Fiquei est\u00e1tico por um segundo. Aquilo era inacredit\u00e1vel. %Anya% estava mesmo tentando me comprar? Me subornar? E o pior: a proposta fazia sentido. Era tentadora. Mas tamb\u00e9m era um tapa na cara.<br>\u2003\u2003\u2013 Viajar comigo no final de semana e, talvez, fingir que estamos saindo. N\u00e3o precisa ser nada muito s\u00e9rio, s\u00f3 o suficiente para convencer a Nina de que estamos juntos. \u2013 Explicou, como se falasse de uma tarefa simples, como regar plantas ou alimentar um gato.<br>\u2003\u2003\u2013 Se isso \u00e9 um emprego, isso me torna o qu\u00ea? Um prostituto?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, eu n\u00e3o estou pagando para fazer sexo com voc\u00ea. Estou pagando seu aluguel para que voc\u00ea finja que estou fazendo sexo com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, al\u00e9m de caridade, eu nem vou ficar com a parte boa?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o estou entendendo, %Anthony%. Voc\u00ea quer o papel de prostituto ou n\u00e3o? Al\u00e9m disso, se fosse o caso, voc\u00ea j\u00e1 teria recebido o pagamento. Antes que voc\u00ea pergunte, isso n\u00e3o tem nada a ver com&#8230; o que aconteceu.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, sobre aquele dia&#8230; \u2013 Comecei, sem saber exatamente aonde queria chegar.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o queria pedir desculpas. N\u00e3o me arrependia. Mas me culpava. Pela situa\u00e7\u00e3o. Pelo contexto. Por ter deixado tudo acontecer daquele jeito. E odiava n\u00e3o saber se, em algum n\u00edvel, eu havia me aproveitado dela.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o quero falar sobre isso, %Ant%. \u2013 Cortou, firme. \u2013 Olha s\u00f3, eu quero a Nina no meu anivers\u00e1rio e fa\u00e7o quase qualquer coisa para isso, at\u00e9 mesmo entrar em um relacionamento falso com voc\u00ea. \u2013 Deu de ombros como se aquilo fosse a coisa mais racional do mundo.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, voc\u00ea est\u00e1 maluca&#8230; \u2013 Murmurei, negando com a cabe\u00e7a. Mas, no fundo, j\u00e1 estava curioso.<br>\u2003\u2003\u2013 Do que voc\u00ea precisa?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio? Dinheiro.<br>\u2003\u2003\u2013 Quanto?<br>\u2003\u2003Parei. Tentei fazer as contas de cabe\u00e7a, lembrar o valor exato da d\u00edvida, mas meu c\u00e9rebro estava em pane, dividido entre a proposta absurda e o olhar firme de %Anya%.<br>\u2003\u2003\u2013 Trinta mil.<br>\u2003\u2003\u2013 Trinta mil?! \u2013 %Anya% exclamou, sua voz carregada de surpresa. A rea\u00e7\u00e3o dela foi quase como um soco no est\u00f4mago. Eu estava come\u00e7ando a me sentir como um idiota por ter entrado nessa negocia\u00e7\u00e3o. Mas a verdade era que ela mesma tinha lan\u00e7ado a oferta. Eu n\u00e3o podia dar para tr\u00e1s agora, mas ainda assim, um mal-estar se formou no fundo da minha garganta. \u2013 Eu vou pagar quantas parcelas disso, %Anthony%? \u2013 Ela perguntou com a calma que sempre a acompanhava, uma calma quase irritante diante da situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Notei que, ao contr\u00e1rio de Davi \u2013 a quem eu estava conseguindo enrolar h\u00e1 semanas com respostas evasivas e justificativas bem ensaiadas \u2013, %Anya% era inteligente, perspicaz e tinha um racioc\u00ednio r\u00e1pido que n\u00e3o dava margem para erros ou para aquelas pequenas brechas nas quais eu normalmente me apoiava para manipular uma conversa.<br>\u2003\u2003\u2013 Cinco. Uma para cada dia que eu passar naquela ilha com voc\u00ea. \u2013 Minha voz saiu mais seca do que eu queria. Fui direto, sem enrola\u00e7\u00e3o. Contava os dias com os dedos. \u2013 Cinco dias convivendo com seus amigos ricos que me olham como se eu fosse o gar\u00e7om, numa ilha onde n\u00e3o posso fugir, fingindo que n\u00e3o vejo como voc\u00ea me observa quando acha que n\u00e3o estou olhando&#8230; Acho que estou sendo generoso. \u2013 Arrematei, tentando brincar com a situa\u00e7\u00e3o, mas eu sabia que estava sendo sincero em parte.<br>\u2003\u2003Ela me olhou com aquela express\u00e3o indecifr\u00e1vel e fez um pequeno movimento com a cabe\u00e7a, quase como se estivesse processando as palavras. Por um segundo, achei que ela fosse retrucar com algo mais \u00e1cido, mas ela respondeu com a mesma calma de sempre.<br>\u2003\u2003\u2013 Vinte. \u2013 Disse, com um sorriso torto no rosto.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, isso n\u00e3o \u00e9 leil\u00e3o. \u2013 A resposta saiu de mim mais impaciente do que eu queria. A sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo negociado como uma mercadoria me incomodava e eu n\u00e3o conseguia disfar\u00e7ar a irrita\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 um aproveitador. \u2013 Ela n\u00e3o teve medo de me apontar, com uma leve risada nos l\u00e1bios, como se estivesse se divertindo com a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, sou um empreendedor. \u2013 Tentei manter a postura, me convencendo de que o que estava fazendo n\u00e3o era t\u00e3o vil quanto ela achava. Afinal, era um acordo m\u00fatuo, certo? Eu s\u00f3 estava tentando encontrar uma oportunidade, mesmo que fosse em um cen\u00e1rio completamente sujo. Aproveitador? Parasita? Picareta? N\u00e3o. Eu estava sendo um <em>empreendedor vision\u00e1rio<\/em>, que procurava uma sa\u00edda em meio ao caos. \u2013 E se eu disser n\u00e3o? \u2013 Perguntei, mais por testar o terreno do que por real desejo de recusar. Queria ver at\u00e9 onde ela iria para me convencer.<br>\u2003\u2003\u2013 Como eu j\u00e1 falei seu nome para Nina, s\u00f3 precisarei dizer que n\u00f3s terminamos e n\u00e3o precisamos mais ter contato algum.<br>\u2003\u2003\u2013 E quanto \u00e0s cartas? \u2013 Levantei uma sobrancelha, sentindo que a conversa estava indo para um ponto que eu n\u00e3o esperava. Mostrei os pap\u00e9is, aqueles documentos que me assombravam, e tentei analisar o olhar dela.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o tenho nada a ver com isso. \u2013 Ela deu de ombros, como se o problema das cartas fosse completamente irrelevante. \u2013 Estou oferecendo dinheiro como troca, n\u00e3o como suborno. E se sequer pensou nessa possibilidade, s\u00f3 o mostra o quanto voc\u00ea n\u00e3o me conhece. \u2013 As palavras dela eram duras, mas n\u00e3o houve raiva nelas. Era mais como um confronto de realidades.<br>\u2003\u2003\u2013 Calma, ju\u00edza! Eu n\u00e3o disse isso. \u2013 Levantei os bra\u00e7os em defesa, mas, por dentro, eu sabia que ela estava certa. Eu realmente pensei que ela estivesse tentando me subornar de alguma forma. Respirei fundo e me senti rid\u00edculo. N\u00e3o s\u00f3 estava caindo nas artimanhas de algu\u00e9m rico pela segunda vez no ano, como agora eu estava come\u00e7ando a entender que minha vis\u00e3o sobre pessoas como %Anya% era mais errada do que eu imaginava. \u2013 Como \u00e9 ter tudo o que quer, %Anya%? \u2013 Perguntei sem pensar, tentando entender o que estava acontecendo ali, o que ela realmente queria.<br>\u2003\u2003Ela deu uma risada curta, uma risada cheia de sarcasmo, e seu sorriso parecia misturar tanto a empatia quanto o desgosto.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c0s vezes, \u00e9 um pouco cansativo. \u2013 Ela respondeu com sinceridade, mas havia uma camada de amargor em suas palavras que eu n\u00e3o esperava.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu preciso pensar. \u2013 Fui sincero.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o tinha como tomar uma decis\u00e3o ali, n\u00e3o sem examinar as op\u00e7\u00f5es. Mas, no fundo, eu j\u00e1 sabia a resposta. Eu estava mais perto de ceder do que eu gostaria de admitir.<br>\u2003\u2003\u2013 Ok, voc\u00ea tem meu n\u00famero. Mas saiba que quando Nina chegar, ela vai interrog\u00e1-lo de maneira furtiva e, provavelmente, violenta. Ela n\u00e3o aceitou muito bem.<br>\u2003\u2003\u2013 Como assim?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu falei que estava saindo com voc\u00ea e ela surtou.<br>\u2003\u2003\u2013 Essa hist\u00f3ria est\u00e1 vindo cheia de contras e apenas um pr\u00f3. \u2013 Assisti %Anya% se abaixar para pegar os \u00f3culos no ch\u00e3o e desviei o olhar rapidamente quando notei que estava olhando fixamente para as pernas expostas dela. \u2013 Vai acabar sobrando para mim, eu j\u00e1 consigo sentir.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%, eu n\u00e3o lhe pediria se n\u00e3o fosse importante. \u2013 Afirma com convic\u00e7\u00e3o. \u2013 Eu preciso ir, ainda tenho que voltar para o trabalho. Voc\u00ea&#8230; Pensa com carinho, por favor. \u00c9 s\u00f3 um final de semana, voc\u00ea s\u00f3 tem que estar l\u00e1, nem vai precisar fazer muita coisa. Comida, bebida e hospedagem de gra\u00e7a, uma ilha paradis\u00edaca\u2026 Fala s\u00e9rio, %Anthony%, \u00e9 um \u00f3timo trato.<br>\u2003\u2003Era um \u00f3timo trato, sim. Mas eu tamb\u00e9m tinha um outro trato em andamento e envolvia diretamente %Anya% e a fam\u00edlia %Bhasin%. Aceitar aquilo seria atestado de mal cartismo desprez\u00edvel, mas droga, eu precisava de dinheiro. Desesperadamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Como eu disse, vou pensar. \u2013 Informei, s\u00e9rio. \u2013 A gente conversa na segunda.<br>\u2003\u2003\u2013 Segunda?<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, eu n\u00e3o trabalho aos domingos. O capitalismo faz a gente se meter em cada uma\u2026 \u2013 Murmurei meus pensamentos em alto e bom som.<br>\u2003\u2003Virei de costas, voltando para a cadeira e acenei. Quando voltei a olhar, %Anya% j\u00e1 n\u00e3o estava no mesmo ambiente que eu. Encarei a porta fechada por alguns minutos antes de tirar os \u00f3culos do rosto com for\u00e7a e jogar sobre a mesa. Passei a m\u00e3o pela face, angustiado.<br>\u2003\u2003Eu sentia que tinha sido encurralado por todos os lados e estava cedendo a todos eles. Al\u00e9m de me sentir como uma marionete nas m\u00e3os de gente com mais dinheiro que eu, tamb\u00e9m sentia que estava sendo for\u00e7ado a dire\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es indignas. Entretanto, no fundo, eu sabia que n\u00e3o podia culpar ao mundo e me deixar de fora disso.<br>\u2003\u2003No fundo, eu sabia que essa n\u00e3o era uma batalha s\u00f3 contra %Anya%, ou contra Martinez. Era contra mim mesmo. E eu estava perdendo.<br>\u2003\u2003Meus olhos se encheram de l\u00e1grimas, e eu tentei disfar\u00e7ar, mas n\u00e3o consegui. A mem\u00f3ria da minha m\u00e3e, sempre t\u00e3o firme, falando que nenhuma pessoa era fraca se seu car\u00e1ter fosse forte, me atingiu com a for\u00e7a de um soco no est\u00f4mago.<br>\u2003\u2003Eu devia ser um p\u00e9ssimo exemplo disso. Porque, no momento, me sentia completamente fraco.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2013 \u053a \u2013<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Na segunda-feira, tudo o que eu queria era me jogar na cama e esquecer o trabalho, os processos, a tela do computador, at\u00e9 o celular. Queria apenas me afundar no travesseiro e acordar no dia seguinte fingindo que a rotina n\u00e3o existia. Mas, como sempre, havia a tal da responsabilidade: era meu dia de preparar o jantar.<br>\u2003\u2003As pastas empilhadas sobre a mesa me encaravam, exigindo aten\u00e7\u00e3o, mas ignor\u00e1-las seria f\u00e1cil. O mesmo n\u00e3o podia ser dito sobre o jantar da Nina. Isso, definitivamente, n\u00e3o podia ser deixado de lado.<br>\u2003\u2003Antes que come\u00e7asse a me afundar nas pr\u00f3prias lamenta\u00e7\u00f5es, fui direto para o banho. Quando sa\u00ed, vesti uma bermuda de algod\u00e3o e um moletom preto. O cansa\u00e7o ainda pesava nos ombros e uma pontada inc\u00f4moda na cabe\u00e7a anunciava a chegada de uma enxaqueca. Em vez de procurar um rem\u00e9dio, decidi que uma garrafa de cerveja gelada seria um analg\u00e9sico mais convincente.<br>\u2003\u2003Nina costumava chegar mais tarde nas segundas e quintas, por causa das atividades extracurriculares, e esses dias automaticamente se tornavam meus turnos oficiais na cozinha.<br>\u2003\u2003Ao abrir a geladeira, encontrei um resto de espaguete sem molho guardado em um recipiente transparente, e, naquele instante, algo dentro de mim se lembrou de %Anya%. Eu havia prometido que falaria com ela, que resolveria as coisas entre n\u00f3s, mas a exaust\u00e3o me consumia, tornando o simples ato de agir praticamente imposs\u00edvel. Queria n\u00e3o pensar nela, n\u00e3o queria lidar com a bagun\u00e7a que minha vida havia se tornado.<br>\u2003\u2003O dia no escrit\u00f3rio foi o \u00e1pice. Algum idiota comentou que o chefe tiraria folga para viajar para o anivers\u00e1rio da sobrinha que as engrenagens come\u00e7aram a girar. N\u00e3o demorou muito para que todos ligassem os pontos.<br>\u2003\u2003As piadinhas come\u00e7aram t\u00edmidas, mas ganharam for\u00e7a ao longo do dia, at\u00e9 que parecia que cada mesa ao meu redor tinha algu\u00e9m rindo \u00e0s minhas custas. &#8220;Ent\u00e3o, j\u00e1 arrumou a mala para as f\u00e9rias com o chefe?&#8221; ou &#8220;Vai aproveitar para pedir um aumento durante a festa de anivers\u00e1rio, hein?&#8221; Essas eram as mais leves. A cada coment\u00e1rio, meu sangue fervia mais.<br>\u2003\u2003\u00c0 medida que o dia avan\u00e7ava, percebi que as piadas n\u00e3o eram apenas sobre o suposto favoritismo por parte do chefe. Era como se todo mundo acreditasse que minha vida pessoal e profissional eram uma grande barganha, que eu estava jogando algum tipo de jogo. Isso me irritava mais do que deveria, talvez porque, no fundo, eu sabia que n\u00e3o era totalmente mentira.<br>\u2003\u2003O que Martinez estava fazendo comigo, o que ele me for\u00e7ava a fazer, n\u00e3o era mais um jogo.<br>\u2003\u2003Ele sabia muito bem o que tinha nas m\u00e3os (provas de fraude, documentos capazes de destruir qualquer chance que eu tivesse de seguir com minha vida do jeito que a conhecia). O que ele queria, no fundo, era que eu me envolvesse nisso. Se eu n\u00e3o jogasse o jogo dele, ele usaria aquelas provas e as consequ\u00eancias disso me perseguiam constantemente.<br>\u2003\u2003Eu at\u00e9 tentei ignorar, acreditei que, de alguma forma, aquilo tudo ia se resolver sozinho, que ele ia esquecer, mas sabia que isso n\u00e3o ia acontecer. Eu n\u00e3o podia continuar vivendo na corda bamba, tentando convencer todo mundo de que tudo ia se ajeitar sem que eu fizesse nada.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o, tomei uma decis\u00e3o. Eu ia fazer o que Martinez queria. Com o favor a %Anya%, eu limparia a minha parte, conseguiria quitar a d\u00edvida da casa e garantiria que ela ficasse sem mais cobran\u00e7as.<br>\u2003\u2003N\u00e3o pensei nas consequ\u00eancias naquele momento. N\u00e3o podia. Eu j\u00e1 estava fundo demais nessa lama e, se tentasse sair, acabaria afundando ainda mais. Ent\u00e3o, sim, aceitei.<br>\u2003\u2003Peguei o celular no bolso, objetivando mandar mensagem para %Anya%, mas fiquei surpreso em encontrar uma mensagem de texto dela.<br>\u2003\u2003<strong>Estou chegando.<\/strong><br>\u2003\u2003Passei a m\u00e3o pelos cabelos \u00famidos, respirando fundo. Ela estava vindo. Fui at\u00e9 o banheiro, retirei os \u00f3culos de grau, coloquei as lentes e fui terminar de preparar o jantar.<br>\u2003\u2003%Anya% estava ali, buscando uma confirma\u00e7\u00e3o. Uma confirma\u00e7\u00e3o que, na verdade, eu j\u00e1 tinha. Mas, mesmo assim, ainda me sentia inquieto. Olhei ao redor do apartamento, como se buscasse algo que me garantisse que eu estava fazendo a escolha certa. Mas, no fundo, sabia que n\u00e3o havia mais volta.<br>\u2003\u2003%Anya% descobrir a minha situa\u00e7\u00e3o financeira era um pesadelo. Mas n\u00e3o tinha muitas op\u00e7\u00f5es. O apartamento de 122m\u00b2 que minha m\u00e3e comprou com tanto esfor\u00e7o e suor de trabalho, um lugar onde moramos a vida inteira, sempre teve um valor sentimental muito maior que o material. A ideia de perd\u00ea-lo por pura teimosia e erro seria um golpe doloroso demais para mim e, principalmente, para Nina.<br>\u2003\u2003E %Anya%\u2026 com ela, seria o dinheiro mais f\u00e1cil que eu j\u00e1 teria na vida.<br>\u2003\u2003Abri a porta da sacada, uma pequena \u00e1rea que reformamos juntos. A brisa fria da noite entrou no apartamento, como uma tentativa de trazer um pouco de frescor ao ar carregado de preocupa\u00e7\u00e3o. Olhei para o cen\u00e1rio ao redor mais uma vez, suspirei e procurei, de algum jeito, algum sinal de que estava fazendo a coisa certa.<br>\u2003\u2003Nunca desejei tanto que o fantasma de mam\u00e3e aparecesse ali.<br>\u2003\u2003Alguns minutos depois, o interfone tocou. O porteiro informou que uma certa %Ananya% %Bhasin% estava aguardando. Deveria ser um porteiro novo, j\u00e1 que fazia anos que %Anya% n\u00e3o era parada na portaria. Respondi rapidamente que ela poderia ser liberada e, ap\u00f3s deixar a porta aberta, corri de volta para a cozinha, apressando-me a mexer nas panelas.<br>\u2003\u2003\u2013 Caramba, que cheiro bom! \u2013 A ouvi exclamar assim que entrou, anunciando sua chegada. Mas os sons de seus saltos batendo contra o piso de madeira j\u00e1 haviam chegado at\u00e9 meus ouvidos antes mesmo de ela aparecer em meu campo de vis\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 O mesmo espaguete, mas n\u00e3o sou t\u00e3o caprichoso quanto Nina. O molho \u00e9 s\u00f3 de mu\u00e7arela. \u2013 Comentei, sem tirar os olhos das panelas.<br>\u2003\u2003\u2013 Ou seja, \u00e9 macarr\u00e3o com queijo. \u2013 Ela respondeu, o tom provocador em sua voz. Eu a olhei, fingindo indiferen\u00e7a, e ela sorriu de lado, com aquele sorriso travesso que s\u00f3 ela sabia dar. A brisa ficou mais forte de repente, e %Anya% virou-se, olhando para a sacada. Seu sorriso se expandiu. \u2013 Ah, eu amo esse lugar. \u2013 Ela correu animada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sacada integrada \u00e0 cozinha e se jogou no sof\u00e1 de dois lugares.<br>\u2003\u2003N\u00e3o consegui evitar o sorriso. Era uma rea\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria. O jeito como ela se movia, como sempre, com tanta confian\u00e7a e gra\u00e7a, me fazia sorrir, mesmo quando eu tentava manter o foco. Como sempre, ela estava de saia. O conjunto de saia plissada e blazer cor-de-rosa era t\u00e3o t\u00edpico de %Anya%, t\u00e3o perfeito para ela, que parecia at\u00e9 engra\u00e7ado. Ela parecia sa\u00edda diretamente de <em>Clueless<\/em>, como se fosse uma personagem criada para a tela.<br>\u2003\u2003Droga, %Anya% era t\u00e3o bonita que tornava as coisas ainda mais complicadas para mim. Como eu poderia me sentir realmente arrependido pela noite no escrit\u00f3rio?<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea mora em uma mans\u00e3o, %Anya%. O que minha sacada de dois metros tem de t\u00e3o diferente? \u2013 Zombei, enquanto me concentrava em preparar o molho.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 confort\u00e1vel. \u2013 Deu de ombros e olhou para o lado de fora, como se estivesse assistindo a coisa mais interessante do mundo. \u2013 Al\u00e9m disso, eu gosto de como a vista daqui d\u00e1 para outras casas. Do meu quarto, eu s\u00f3 vejo escurid\u00e3o e alguns pr\u00e9dios distantes.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 claro que n\u00e3o h\u00e1 nada em volta, voc\u00ea mora em um condom\u00ednio do tamanho de um parque nacional. \u2013 Recordei, sarc\u00e1stico.<br>\u2003\u2003\u2013 Como voc\u00ea sabe? Nunca foi l\u00e1. \u2013 Desdenhou.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu j\u00e1 dei carona para Nina at\u00e9 sua casa algumas vezes, obrigada por notar. Quer beber alguma coisa? \u2013 Ofereci e ela disse que queria apenas \u00e1gua.<br>\u2003\u2003\u2013 Cad\u00ea a Nina? \u2013 Olhou em volta, buscando sinais da presen\u00e7a de minha irm\u00e3.<br>\u2003\u2003\u2013 Ela costuma chegar tarde nas segundas.<br>\u2003\u2003\u2013 E o que falaremos quando ela chegar? \u2013 Perguntou, olhando-me ansiosa. \u2013 %Ant%, vamos l\u00e1! \u2013 Pediu, impaciente.<br>\u2003\u2003Eu quase conseguia ouvir a voz de Davi Martinez em meu ouvido, no dia em que ofereceu o acordo.<br>\u2003\u2003\u201c<em>N\u00e3o estou dizendo que ser\u00e1 f\u00e1cil, mas que valer\u00e1 a pena\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003Suspirei dolorosa e profundamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Quando voc\u00ea menos esperar eu vou estar sentado na sala de jantar com o Sr. %Bhasin%, usando <em>dhoti<\/em> e comendo <em>curry<\/em>.<br>\u2003\u2003Ela deu um gritinho empolgado, correu at\u00e9 mim de um jeito engra\u00e7ado por conta dos saltos e pulou em meus ombros, abra\u00e7ando-me fortemente. Tentei me esquivar, mas n\u00e3o consegui conter a a\u00e7\u00e3o de meu pr\u00f3prio corpo e minhas m\u00e3os foram instintivamente para sua cintura, mas assim que senti um peda\u00e7o da pele dela em meus dedos, me afastei rapidamente.<br>\u2003\u2003Eu definitivamente n\u00e3o queria \u2013 e nem devia \u2013 testar meus limites quando se tratava de %Ananya%. J\u00e1 tinha sido dif\u00edcil o suficiente n\u00e3o ir atr\u00e1s dela no dia seguinte \u00e0quela noite. Passei o dia inteiro tentando me convencer de que manter dist\u00e2ncia era a decis\u00e3o certa.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, n\u00e3o sei por que estou t\u00e3o feliz de gastar trinta mil por voc\u00ea. \u2013 Ela comentou, se afastando, cruzando os bra\u00e7os em uma falsa pose de indigna\u00e7\u00e3o. \u2013 Espera a\u00ed, desde quando voc\u00ea sabe o que \u00e9 <em>dhoti<\/em>?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu fiz meu dever de casa. \u2013 Respondi, tentando conter o sorriso. Ela riu e voltou ao sof\u00e1 da sacada. \u2013 Se isso \u00e9 um trabalho como qualquer outro, \u00e9 bom que eu esteja qualificado.<br>\u2003\u2003Para mim, era exatamente isso. Um trabalho. Como qualquer outro que j\u00e1 aceitei na vida. E em todos eles, eu gostava de me sentir preparado, saber onde estava pisando.<br>\u2003\u2003\u2013 Muito obrigada, %Ant%, de verdade. Eu sei que parece uma besteira, mas isso \u00e9 importante para mim.<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio por um instante, mas a pergunta que n\u00e3o consegui fazer no s\u00e1bado finalmente escapou.<br>\u2003\u2003\u2013 Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso? \u2013 Murmurei, mantendo os olhos nas panelas por mais tempo do que o necess\u00e1rio. \u2013 Voc\u00ea precisa tanto assim da Nina?<br>\u2003\u2003Reduzi o fogo do fog\u00e3o at\u00e9 quase apagar a chama e fui at\u00e9 a sacada.<br>\u2003\u2003\u2013 A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 precisar dela. Eu conseguiria lev\u00e1-la de qualquer forma. Ela \u00e9 sens\u00edvel o suficiente para n\u00e3o me deixar sozinha no meu anivers\u00e1rio. \u2013 %Anya% falou com um tom mais calmo, como se j\u00e1 tivesse refletido sobre aquilo antes. \u2013 Mas se ela n\u00e3o estiver confort\u00e1vel o suficiente para curtir a festa, ent\u00e3o n\u00e3o vale a pena. A Nina ama a ilha Sundar. E eu amo a Nina. Ent\u00e3o, se para deix\u00e1-la bem e confort\u00e1vel eu preciso de voc\u00ea l\u00e1&#8230; ent\u00e3o que seja.<br>\u2003\u2003No fundo, n\u00f3s dois sab\u00edamos que minha decis\u00e3o de aceitar tudo aquilo tamb\u00e9m girava em torno da mesma pessoa: Nina. Ela era o ponto de conex\u00e3o. O elo. O que nos empurrava para esse acordo esquisito, mas necess\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2013 Seria realmente o fim do mundo ela n\u00e3o ir ao seu anivers\u00e1rio? \u2013 Perguntei, sem conseguir evitar.<br>\u2003\u2003Ela desviou o olhar, como se precisasse pensar na resposta. Ou talvez s\u00f3 quisesse escolher bem as palavras.<br>\u2003\u2003%Ananya% tinha um rosto delicado, mas marcante, provavelmente por causa das origens indianas que carregava com tanto orgulho. Era bonita como qualquer atriz de cinema. Naquele dia em especial, seus cabelos pretos ca\u00edam soltos em camadas suaves ao redor do rosto e era vis\u00edvel que ela n\u00e3o usava maquiagem alguma. Eu conseguia ver as manchinhas e sardas espalhadas ao redor do nariz. Seus c\u00edlios longos piscaram algumas vezes antes de ela se virar para mim.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina \u00e9 minha \u00fanica amiga de verdade, %Ant%. \u2013 Sua honestidade que me pegou de surpresa. \u2013 Pode ser ego\u00edsmo, pode ser mimado da minha parte&#8230; mas eu preciso dela. \u2013 Deu de ombros, como se aquilo fosse \u00f3bvio. \u2013 E, al\u00e9m disso, ela ama os meus anivers\u00e1rios. Ver ela ficar de fora ou n\u00e3o aproveitar por conta de coment\u00e1rios idiotas dos outros seria injusto demais.<br>\u2003\u2003Assenti em sil\u00eancio, mas, ao contr\u00e1rio do que esperava, senti mais frustra\u00e7\u00e3o do que al\u00edvio.<br>\u2003\u2003O jeito como %Ananya% era capaz de se doar por Nina me deixava admirado e, de certo modo, mais disposto a aceitar seu pedido. Mas tamb\u00e9m tornava tudo aquilo mais dif\u00edcil de digerir. Ela n\u00e3o tinha segundas inten\u00e7\u00f5es, n\u00e3o estava usando ningu\u00e9m. Diferente de Davi&#8230; e, no fundo, diferente de mim tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Porque eu sabia o que estava em jogo. Ir \u00e0quele anivers\u00e1rio significava concluir minha miss\u00e3o. Significava dar o \u00faltimo passo do acordo com Martinez. E no fim das contas, quem sairia ganhando com tudo isso era eu. S\u00f3 eu.<br>\u2003\u2003%Anya% s\u00f3 queria passar o anivers\u00e1rio ao lado da melhor amiga. Eu queria dinheiro.<br>\u2003\u2003\u2013 Ela n\u00e3o me falou nada. \u2013 Comentei, tentando n\u00e3o soar magoado. \u2013 Desde que voc\u00ea saiu daqui no s\u00e1bado, a Nina n\u00e3o tocou no assunto comigo. N\u00e3o disse uma palavra.<br>\u2003\u2003\u2013 Jura? Comigo, ela fez um milh\u00e3o de perguntas. \u2013 %Anya% respondeu, pensativa.<br>\u2003\u2003\u2013 Que tipo de perguntas?<br>\u2003\u2003A verdade era que, desde que Nina voltou para casa naquele s\u00e1bado, ela n\u00e3o demonstrou raiva. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o disse uma palavra sobre o que tinha ouvido. Ela simplesmente&#8230; se calou. E esse sil\u00eancio estava me consumindo.<br>\u2003\u2003\u2013 O b\u00e1sico. Como come\u00e7ou, por que come\u00e7ou, onde come\u00e7ou&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013 E o que voc\u00ea disse?<br>\u2003\u2003\u2013 A verdade. \u2013 Franzi o cenho, imediatamente tenso. A &#8220;verdade&#8221; dela inclu\u00eda a nossa&#8230; reuni\u00e3o particular? Ser\u00e1 que ela contou tudo? \u2013 Eu disse que nos encontramos no Baston, jantamos juntos, bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1&#8230; \u2013 Fez um gesto com as m\u00e3os, como se o resto fosse irrelevante. Mas continuou me deixando na d\u00favida. \u2013 Posso te fazer uma pergunta? Como isso aconteceu? As d\u00edvidas, todo esse aperto&#8230; voc\u00ea sempre foi t\u00e3o organizado.<br>\u2003\u2003Soltei uma risada fraca, sem gra\u00e7a, e me recostei na lateral da porta da sacada, cruzando os bra\u00e7os.<br>\u2003\u2003\u2013 A vida aconteceu. \u2013 Comecei, dando de ombros. \u2013 Eu hipotequei a casa para conseguir um empr\u00e9stimo e acabei n\u00e3o conseguindo pagar as parcelas corretamente. N\u00e3o consegui o dinheiro no tempo certo e o banco acabou acumulando. \u2013 Expliquei, suspirando baixo e envergonhado.<br>\u2003\u2003\u2013 Posso perguntar o porqu\u00ea do empr\u00e9stimo?<br>\u2003\u2003Hesitei em responder, preocupado com a simplicidade que %Anya% conseguia fazer perguntas dif\u00edceis sem pesar o clima. E ainda mais preocupado com a facilidade que %Anya% parecia ter em conseguir coisas de mim.<br>\u2003\u2003Pensei novamente, avaliando as consequ\u00eancias de contar a verdade para %Anya% sobre a Universidade. Mas, pensando bem, ela queria tanto o bem de Nina quanto eu. N\u00e3o haveria problema. Al\u00e9m disso, eu vinha tentando manter uma postura de honestidade com ela (pelo menos, tanto quanto a situa\u00e7\u00e3o me permitia) e, convenhamos, isso ainda rendia um b\u00f4nus: melhorava a minha imagem diante dela. Se eu fosse aberto, talvez ela deixasse de me ver como algu\u00e9m desesperado por dinheiro por motivos banais.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu pago a Universidade onde a Nina estuda e voc\u00ea sabe bem o quanto aquelas mensalidades s\u00e3o absurdas. Foi por isso que aceitei me colocar nessa confus\u00e3o toda com voc\u00eas. Quer dizer, com voc\u00ea. \u2013 Fiz uma breve pausa, respirando fundo antes de continuar. \u2013 Quando minha m\u00e3e morreu, eu assumi tudo: o apartamento, a faculdade da Nina, as contas, o dia a dia. Tentei de verdade. Fiz horas extras, peguei trabalhos paralelos, vendi o que podia\u2026 mas nada era suficiente. Se eu n\u00e3o der um jeito de pagar a d\u00edvida com o banco, Nina vai descobrir que o dinheiro da casa est\u00e1 indo para a faculdade, e ela largaria tudo. Eu n\u00e3o posso permitir isso.<br>\u2003\u2003%Anya% ficou me olhando por um tempo, abrindo e fechando a boca como se estivesse tentando encontrar as palavras certas. Depois suspirou, estalou a l\u00edngua e, sem aviso, me deu um soco no ombro, forte o bastante para me fazer recuar um passo.<br>\u2003\u2003\u2013 Ai! Por que fez isso? \u2013 Reclamei, esfregando o local atingido.<br>\u2003\u2003\u2013 Porque achei que voc\u00ea fosse dizer que estava endividado por causa de jogo e farra, que saco!<br>\u2003\u2003A express\u00e3o ultrajada dela me arrancou um riso genu\u00edno, o primeiro do dia. E, por um instante, o peso nas minhas costas pareceu um pouco mais leve.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sou idiota, mas nem tanto. \u2013 Retruquei, ainda rindo, tentando massagear o ombro. \u2013 E, por favor, me d\u00e1 um pouco de cr\u00e9dito. Jogo e farra? Eu mal saio de casa.<br>\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 o que todos dizem. \u2013 Ela rebateu, o cenho franzido, mas os l\u00e1bios amea\u00e7ando um sorriso. \u2013 E ainda vem com esse discurso de m\u00e1rtir\u2026 \u201cAh, fiz tudo pela minha irm\u00e3zinha\u201d.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 a verdade. \u2013 Respondi, mais calmo. \u2013 Eu s\u00f3 n\u00e3o queria que ela tivesse que carregar o peso da minha burrice.<br>\u2003\u2003Por um momento, o sil\u00eancio entre n\u00f3s se tornou quase palp\u00e1vel. %Anya% me observava como se estivesse avaliando cada palavra, cada gesto e talvez estivesse mesmo. Seus olhos perderam a ironia habitual e, por um instante breve, pareceram mais gentis, quase compreensivos.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea \u00e9 um idiota&#8230; decente. \u2013 Disse ela, por fim, num tom baixo, sem a mesma acidez. \u2013 Um idiota decente.<br>\u2003\u2003Sem pensar muito, desviei o olhar, tentando esconder meu embara\u00e7o. Levantei-me e fui direto para a cozinha, na esperan\u00e7a de encontrar algum ref\u00fagio entre panelas e pratos. Mas ela veio atr\u00e1s. Surgiu na porta poucos segundos depois, encostada no batente, observando em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003\u2013 Quer ajuda? \u2013 Ofereceu, com a voz mais suave.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o precisa. \u2013 Balancei a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o insistiu. Ficou ali, quieta, mas presente. A cozinha, que j\u00e1 era pequena por si s\u00f3, parecia ainda mais apertada com ela por perto. E, ao mesmo tempo, estranhamente mais aconchegante.<br>\u2003\u2003\u2013 Posso jantar aqui? \u2013 Perguntou, quase t\u00edmida. Ergui os olhos em dire\u00e7\u00e3o a ela.<br>\u2003\u2003\u2013 Achei que voc\u00ea j\u00e1 tivesse se convidado. \u2013 Disse, com um sorriso de canto. \u2013 Vou esperar a Nina para jantar, mas se quiser comer antes, fica \u00e0 vontade.<br>\u2003\u2003\u2013 Hmm&#8230; posso esperar tamb\u00e9m? \u2013 Sorri, dessa vez mais abertamente. Havia algo encantador na maneira como ela pedia permiss\u00e3o para coisas t\u00e3o simples.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea parece cansada. \u2013 Comentei, notando as olheiras e o semblante exausto dela. Me aproximei novamente e sentei ao seu lado no sof\u00e1 novamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Muito trabalho.<br>\u2003\u2003Meus olhos baixaram at\u00e9 seus p\u00e9s. As tiras finas das sand\u00e1lias pareciam pressionar demais a pele, que estava visivelmente inchada.<br>\u2003\u2003\u2013 Caramba, seus p\u00e9s est\u00e3o inchados. \u2013 Observei, sem pensar.<br>\u2003\u2003\u2013 Usei os saltos errados hoje.<br>\u2003\u2003\u2013 Saltos errados causam isso? \u2013 Perguntei, genuinamente surpreso.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu tenho reten\u00e7\u00e3o de l\u00edquido, %Anthony%. Obrigada por trazer isso \u00e0 tona!<br>\u2003\u2003Ela olhou para os pr\u00f3prios p\u00e9s e, em seguida, para mim. O olhar mudou \u2013 de ofendida para ir\u00f4nica \u2013 e um sorriso pregui\u00e7oso surgiu em seus l\u00e1bios. Ent\u00e3o, com um simples movimento dos olhos, apontou para os p\u00e9s como quem n\u00e3o dizia nada, mas queria tudo.<br>\u2003\u2003Revirei os olhos, soltando um suspiro exagerado, j\u00e1 entendendo perfeitamente o recado.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 achando mesmo que vou massagear seus p\u00e9s?<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea que comentou que eles est\u00e3o inchados&#8230; achei que fosse um coment\u00e1rio construtivo. \u2013 Retrucou, inocente, mas o brilho travesso nos olhos dela entregava tudo.<br>\u2003\u2003Puxei os seus p\u00e9s para cima de minhas pr\u00f3prias pernas de maneira pouco delicada, mas ela n\u00e3o se importou, comemorou, batendo palminhas e se aconchegando no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2013 Massagens eu cobro \u00e0 parte \u2013 Informei, tentando manter o tom leve enquanto come\u00e7ava a apertar seus p\u00e9s com certo cuidado.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu pago sem problema nenhum. \u2013 respondeu ela, com um sorriso pregui\u00e7oso e provocativo, como se soubesse exatamente o efeito que aquelas palavras teriam em mim.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o sabia fazer massagem, ent\u00e3o apenas fiquei deslizando de forma hesitante pelo calcanhar e mexendo nos dedos pequenos e gordinhos que mal cabiam na sand\u00e1lia. Ainda assim, a rea\u00e7\u00e3o dela foi\u2026 inesperada. %Anya% reclinou o corpo no sof\u00e1 e soltou um suspiro baixo, entrela\u00e7ado com um som quase impercept\u00edvel de al\u00edvio que me fez travar a mand\u00edbula.<br>\u2003\u2003Ela fechou os olhos por um instante e, quando voltei a pressionar um ponto na lateral do p\u00e9, soltou um som abafado, quase um gemido. Um arrepio subiu pela minha espinha e eu fiquei completamente desconcertado.<br>\u2003\u2003\u2013 Anh\u2026 voc\u00ea trabalha com o qu\u00ea, afinal? \u2013 Pigarreei, puxando assunto no desespero de fugir dos pensamentos pouco apropriados que come\u00e7avam a se formar na minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sou contadora, %Ant%. Obrigada por se importar com isso s\u00f3 agora, depois de sei l\u00e1, uns quinze anos? \u2013 Disse, sarc\u00e1stica, mas com um sorriso no canto da boca que n\u00e3o deixava espa\u00e7o para ofensa.<br>\u2003\u2003Revirei os olhos, meio envergonhado. N\u00e3o era como se eu tivesse obriga\u00e7\u00e3o de saber. Ela nunca foi exatamente acess\u00edvel. A verdade \u00e9 que aquela era provavelmente a primeira vez que troc\u00e1vamos mais do que tr\u00eas frases seguidas. %Anya% sempre orbitou ao redor da minha vida por causa da Nina, mas sem nunca realmente fazer parte dela.<br>\u2003\u2003\u2013 Achei que voc\u00ea fosse formada em Economia.<br>\u2003\u2003\u2013 E sou. Mas a empresa precisa mais de uma contadora do que de uma economista<br>\u2003\u2003S\u00f3 de ouvir &#8220;empresa da fam\u00edlia&#8221;, uma pontada inc\u00f4moda me atravessou. E a\u00ed estava o motivo exato pelo qual eu nunca me aproximei. O velho ran\u00e7o com herdeiros acomodados, o tal do caminho pavimentado sem esfor\u00e7o. Aquilo sempre me deu nos nervos.<br>\u2003\u2003\u2013 Deve ser conveniente. \u2013 Soltei, num tom que n\u00e3o consegui disfar\u00e7ar completamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Conveniente?<br>\u2003\u2003\u2013 Trabalhar na empresa da fam\u00edlia. Aposto que nunca teve que mandar curr\u00edculo ou suar numa entrevista maldosa.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, claro. Porque trabalhar com a fam\u00edlia \u00e9 sempre um mar de rosas, n\u00e9? Todo mundo se ama, se respeita, ningu\u00e9m tenta te sabotar&#8230; \u2013 Fiquei quieto. Ela tinha um ponto. \u2013 Posso ser privilegiada, mas sou bem competente, viu?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o foi isso que eu disse \u2013 Tentei argumentar, mesmo sabendo que talvez tivesse sido exatamente o que insinuei.<br>\u2003\u2003\u2013 Tudo bem. Se eu fosse voc\u00ea, provavelmente pensaria o mesmo. Ainda mais conhecendo o meio como a gente conhece. \u2013 %Anya% deu uma risadinha, como se j\u00e1 tivesse escutado aquela mesma ladainha mais de uma vez. \u2013 Ningu\u00e9m sobrevive no mercado financeiro sendo med\u00edocre, %Anthony%. Nem mesmo quem tem o sobrenome certo. Voc\u00ea sabe quantos incompetentes de ber\u00e7o de ouro ocupam cargos que n\u00e3o merecem? A diferen\u00e7a \u00e9 que, quando uma mulher chega l\u00e1, todo mundo corre para achar um motivo que n\u00e3o seja compet\u00eancia.<br>\u2003\u2003Eu engoli em seco. N\u00e3o sabia o que responder, e, por um momento, fiquei perdido nas palavras dela. Eu a olhava, mas o que ela disse reverberava em minha cabe\u00e7a de uma maneira que eu n\u00e3o queria admitir. Ela estava certa.<br>\u2003\u2003Porque, no fundo, eu sabia que aquela cobran\u00e7a tinha mais a ver comigo do que com ela. O quanto eu tinha lutado para chegar aonde estava, o quanto ainda lutava, e o quanto me incomodava ver pessoas menos preparadas subindo mais r\u00e1pido, com mais facilidade. Era uma raiva silenciosa que eu carregava, como se o mundo estivesse sempre dando oportunidades para os outros, enquanto eu tinha que lutar a cada passo.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, eu fa\u00e7o ideia sim, voc\u00ea pode ter certeza. \u2013 Minha voz saiu baixa, mas carregada de sinceridade.<br>\u2003\u2003Meritocracia? Eu j\u00e1 n\u00e3o acreditava nessa fal\u00e1cia h\u00e1 muito tempo. A verdade era que quem n\u00e3o tinha as conex\u00f5es certas estava sempre um passo atr\u00e1s, n\u00e3o importa o quanto se esfor\u00e7asse.<br>\u2003\u2003\u2013 Seu chefe \u00e9 um desses caras, n\u00e3o \u00e9? \u2013 Abri a boca, mas antes que eu pudesse responder, ela continuou. \u2013 Ah, acho que nunca perguntei: o que voc\u00ea falou para ele depois daquele problema com a sua promo\u00e7\u00e3o?<br>\u2003\u2003Aquela pergunta caiu sobre mim como um peso.<br>\u2003\u2003\u2013 Nada. \u2013 Minha voz saiu quase num sussurro.<br>\u2003\u2003\u2013 Como assim? Voc\u00ea s\u00f3&#8230; aceitou? \u2013 O tom de %Anya% estava mais suave agora.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu tentei recusar, mas ele meio que me for\u00e7ou a aceitar. \u2013 Passei a m\u00e3o pelos cabelos, tentando dar alguma explica\u00e7\u00e3o que fizesse sentido. \u2013 Ele me colocou para resolver problemas acima do meu n\u00edvel, ent\u00e3o, no final, eu n\u00e3o tive muita escolha.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o, para o tio Davi, n\u00f3s ainda somos um casal? \u2013 %Anya% arqueou as sobrancelhas, com uma leve provoca\u00e7\u00e3o nos olhos.<br>\u2003\u2003Eu hesitei, o que j\u00e1 era um sinal claro de que estava me deixando levar pela conversa mais do que deveria. Mas, ao mesmo tempo, ela estava me fazendo pensar, questionar as coisas que eu estava apenas empurrando para baixo. Eu s\u00f3 n\u00e3o sabia at\u00e9 que ponto isso me afetava.<br>\u2003\u2003N\u00e3o respondi imediatamente. Em vez disso, dei um aceno silencioso com a cabe\u00e7a, o suficiente para que ela soubesse que, sim, ainda estava nesse jogo.<br>\u2003\u2003%Anya% ficou em sil\u00eancio por um momento, observando-me com aten\u00e7\u00e3o. Eu podia ver que ela estava refletindo sobre tudo o que eu acabara de dizer e percebi que ela realmente queria entender.<br>\u2003\u2003\u2013 Isso faz voc\u00ea ser uma pessoa ruim? \u2013 Perguntou, com uma sinceridade que me desconcertou completamente.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era provoca\u00e7\u00e3o. Era pior: Genu\u00edna curiosidade. Como se ela tivesse vasculhado minhas noites insones e encontrado a d\u00favida que me corro\u00eda.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu me fa\u00e7o essa pergunta todos os dias. \u2013 Respondi finalmente, com uma voz rouca, como se as palavras tivessem sido arrancadas de mim. Eu sentia a press\u00e3o subindo pela garganta, como se fosse imposs\u00edvel respirar. \u2013 E, \u00e0s vezes, eu n\u00e3o tenho resposta.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi espesso, mas n\u00e3o hostil. %Anya% apenas me observou, como se estivesse tentando decifrar algo que eu mesmo n\u00e3o conseguia entender. A troca de olhares entre n\u00f3s foi interrompida quando escutamos o barulho das chaves sendo jogada em alguma superf\u00edcie e olhamos para tr\u00e1s, encontrando Nina nos encarando de forma perplexa.<br>\u2003\u2003O c\u00f4modo ficou em sil\u00eancio por um instante enquanto %Anya% e eu nos encaramos, nossos olhares rapidamente se voltando para Nina. Ela entrava na sala carregando uma bolsa em um bra\u00e7o, livros no outro, e uma express\u00e3o que dizia &#8220;n\u00e3o sei o que est\u00e1 acontecendo, mas definitivamente n\u00e3o estou preparada para isso.&#8221;<br>\u2003\u2003\u2013 Oi, amiga! \u2013 %Anya% cumprimentou com um sorriso grande e animado, como se estiv\u00e9ssemos em uma reuni\u00e3o de amigas e n\u00e3o em uma cena extremamente desconfort\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2013 Oi, irm\u00e3. \u2013 Segui o exemplo, tentando esconder a leve ansiedade, fazendo o poss\u00edvel para parecer natural.<br>\u2003\u2003Nina nos olhou de um jeito que s\u00f3 ela conseguiria, com aquele olhar de quem descobriu que o mundo realmente pode ser mais estranho do que ela imaginava.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9, eu n\u00e3o vou me acostumar com isso. \u2013 Ela falou com um suspiro, se aproximando com uma express\u00e3o de quem estava prestes a presenciar o apocalipse.<br>\u2003\u2003\u2013 Estamos esperando voc\u00ea para jantar.<br>\u2003\u2003O olhar de Nina foi direto para os p\u00e9s de %Anya%, onde minhas m\u00e3os ainda descansavam como se fosse algo perfeitamente normal. Eu precisei me conter para n\u00e3o rir. De todas as namoradas que j\u00e1 havia apresentado para Nina, %Anya% provavelmente era a mais inesperada.<br>\u2003\u2003\u2013 Est\u00e1 com fome? Eu fiz espaguete com molho de mu\u00e7arela. \u2013 Perguntei. %Anya% afastou as pernas de mim e se levantou do sof\u00e1, indo at\u00e9 Nina. Ela esticou os bra\u00e7os, recebendo um abra\u00e7o meio apreensiva.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 s\u00f3 macarr\u00e3o com queijo. \u2013 Eu n\u00e3o pude evitar um sorriso divertido apareceu no meu rosto quando ouvi o deboche de %Anya%.<br>\u2003\u2003Nina sentou-se \u00e0 mesa com um suspiro, e %Anya% foi atr\u00e1s, se acomodando ao meu lado. Enquanto eu servia o prato para a duas, Nina n\u00e3o parava de nos olhar, tentando compreender a estranheza daquela situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 estranho ver voc\u00eas dois juntos, \u00e9 um casal que eu nunca imaginei que fosse acontecer. \u2013 Nina disse, enquanto come\u00e7ava a mexer com a comida como se fosse a coisa mais interessante do mundo.<br>\u2003\u2003\u2013 Tipo, voc\u00ea e Andreas? \u2013 %Anya% perguntou, com uma provoca\u00e7\u00e3o leve no tom.<br>\u2003\u2003Nina levantou a cabe\u00e7a de forma r\u00e1pida, fuzilando %Anya% com o olhar.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o me ataque para se defender, %Ananya%. Voc\u00ea est\u00e1 pegando o meu irm\u00e3o!<br>\u2003\u2003\u2013 Engra\u00e7ado, porque ele n\u00e3o parece estar reclamando. \u2013 %Anya% arqueou uma sobrancelha, o canto da boca curvando num sorriso debochado.<br>\u2003\u2003Nina arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais indevida do mundo, e puxou o prato da minha m\u00e3o com tanta for\u00e7a que quase o derrubou.<br>\u2003\u2003\u2013 Chega! \u2013 Resmungou. Eu e %Anya% trocamos um olhar r\u00e1pido, o tipo de olhar que dizia <em>n\u00f3s dois sab\u00edamos que ela ia reagir assim<\/em>. \u2013 Vamos s\u00f3 jantar, por favor \u2013 Nina continuou, tentando se concentrar na comida. \u2013 N\u00e3o quero imaginar nada que envolva voc\u00eas dois.<br>\u2003\u2003E, claro, foi imposs\u00edvel conter o riso. Assim que ela deu a primeira garfada, %Anya% soltou uma risadinha e eu a acompanhei, porque a cena toda parecia sa\u00edda de uma com\u00e9dia dom\u00e9stica. Nina bufou, e n\u00f3s rimos ainda mais.<br>\u2003\u2003Durante o jantar, contamos novamente a hist\u00f3ria inventada sobre o in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o passou de uma verdade mal contada. Falamos, principalmente, sobre as coincid\u00eancias dos encontros as cegas e o encontro no Restaurante Baston.<br>\u2003\u2003Nina parecia prestes a iniciar uma nova rodada de perguntas. Eu j\u00e1 podia ver o brilho investigativo surgindo em seus olhos, mas %Anya%, com aquela destreza irritante e irresist\u00edvel de sempre, foi mais r\u00e1pida.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o foi mais ou menos assim com o Andreas tamb\u00e9m? \u2013 Perguntou, apoiando o cotovelo na mesa e exibindo um sorriso que era pura mal\u00edcia.<br>\u2003\u2003O nome bastou para silenciar o ambiente. Nina piscou algumas vezes, avaliando se valia a pena entrar nessa discuss\u00e3o e, pelo jeito, concluiu que definitivamente n\u00e3o. Fingiu um sorrisinho e mudou de assunto.<br>\u2003\u2003Entre risos contidos, olhares desviados e coment\u00e1rios inocentes que escondiam muito mais do que diziam, o clima come\u00e7ou a se desfazer um pouco. O ar ainda estava carregado, mas havia uma tr\u00e9gua silenciosa ali, como se, de alguma forma, todos tiv\u00e9ssemos decidido dar uma folga uns aos outros.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s o jantar, finalmente, eu me retirei para o meu quarto, ansioso para descansar e descarregar todo o estresse acumulado. N\u00e3o demorou muito, no entanto, at\u00e9 Nina invadir minha paz, como se estivesse de plant\u00e3o esperando o momento certo.<br>\u2003\u2003\u2013 A coisa mais estranha do meu ano foi chegar em casa e encontrar voc\u00ea e %Anya% de casalzinho no sof\u00e1. \u2013 Ela comentou, sem cerim\u00f4nia, entrando no quarto e interrompendo meus pensamentos.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu ia dormir, Nina. \u2013 Apontei para o cobertor que j\u00e1 estava sobre mim, como se isso fosse um argumento convincente para ela me deixar em paz.<br>\u2003\u2003\u2013 Parece que voc\u00ea foi enla\u00e7ado para valer, n\u00e3o \u00e9? \u2013 Nina cutucou meu ombro, com aquele olhar curioso e c\u00ednico. Eu levantei o olhar e a encontrei apoiada no queixo, me observando atentamente, como se eu fosse a pe\u00e7a central de um document\u00e1rio sobre mist\u00e9rios da vida.<br>\u2003\u2003\u2013 O que posso fazer? Como resistir a %Anya%? \u2013 Soltei a frase com um tom ir\u00f4nico, como se a situa\u00e7\u00e3o fosse mais simples do que parecia. Mas no fundo, eu sabia que aquela era uma pergunta ver\u00eddica e pertinente.<br>\u2003\u2003Era dif\u00edcil dizer n\u00e3o \u00e0quela mulher.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 estranho como eu nunca pensei em voc\u00ea e %Anya% juntos, mas agora, depois de ver voc\u00eas dois, n\u00e3o consigo mais imagin\u00e1-los separados. \u2013 Nina comentou, com um sorriso meio intrigado. <em>&#8220;Minha pobre irm\u00e3, mal sabe que est\u00e1 falando sobre um casal inexistente&#8221;,<\/em> pensei, tentando manter a calma. \u2013 Voc\u00ea est\u00e1 nessa de verdade, %Ant%?<br>\u2003\u2003A pergunta veio carregada de curiosidade e a sensa\u00e7\u00e3o de estar em um canto apertado aumentou.<br>\u2003\u2003Eu simplesmente odiava mentir, e mentir para Nina era ainda pior. Ela conhecia meu comportamento, sabia quando eu estava escondendo algo, e naquele momento, o peso da mentira me sufocava.<br>\u2003\u2003\u2013 Acho que sim, Nina. \u2013 Refleti por um instante, tentando organizar as palavras. \u2013 N\u00e3o sei muito bem o que estou fazendo, estou apenas seguindo o fluxo. %Anya% \u00e9 mais diferente do que eu pensei. Ela \u00e9&#8230; legal.<br>\u2003\u2003Era a verdade, pelo menos em parte. O pouco que tinha conhecido de %Anya% me fez perceber que ela n\u00e3o era exatamente a pessoa que eu imaginava. Mais do que isso, ela me surpreendeu de uma maneira que eu ainda n\u00e3o conseguia processar completamente.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%, por que voc\u00ea n\u00e3o me contou? \u2013 A voz dela soou triste, quase como se estivesse ferida. \u2013 Nunca escondemos nada um do outro, e de repente, voc\u00ea come\u00e7a a sair com minha melhor amiga e acha que est\u00e1 tudo bem n\u00e3o me contar?<br>\u2003\u2003Eu me senti como um idiota e o arrependimento bateu forte. Me sentei, pegando sua m\u00e3o, meu cora\u00e7\u00e3o apertado pela culpa de t\u00ea-la deixado triste.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu sei, Nina. Me desculpa, de verdade. \u2013 Respirei fundo, tentando ser o mais sincero poss\u00edvel. \u2013 Mas, essa hist\u00f3ria toda com a %Anya% foi uma surpresa para mim. Eu n\u00e3o esperava, nem eu sei como tudo aconteceu. E, na real, eu nem sabia como te contar. Foi tudo muito r\u00e1pido.<br>\u2003\u2003Havia mais que eu queria dizer, mais que eu estava tentando esconder. Mas eu sabia que, naquele momento, a \u00fanica coisa que eu poderia fazer era tentar suavizar a situa\u00e7\u00e3o e manter a paz. Eu me sentia como um malabarista, equilibrando as mentiras e os fatos enquanto tentava n\u00e3o deixar tudo cair.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o, afinal, voc\u00eas est\u00e3o s\u00e9rios sobre isso? \u2013 Nina perguntou, a curiosidade cintilando nos olhos. Era imposs\u00edvel n\u00e3o notar. E, claro, ela tinha toda a raz\u00e3o.<br>\u2003\u2003Eu tamb\u00e9m ficaria intrigado se estivesse no lugar dela. Eu e %Anya%, que mal troc\u00e1vamos palavras, de repente est\u00e1vamos\u2026 namorando.<br>\u2003\u2003Desde o meu \u00faltimo relacionamento \u2013 com Kiara \u2013 eu n\u00e3o havia me entregado a nada s\u00e9rio. Seis meses se passaram desde ent\u00e3o. Talvez o maior intervalo da minha vida sem algu\u00e9m ao meu lado. E, ainda assim, n\u00e3o sentia medo. Nunca senti.<br>\u2003\u2003Nunca tive receio de me apaixonar. Gosto, desejo e amor sempre pareceram naturais para mim, quase instintivos. Minha m\u00e3e costumava brincar, dizendo que eu era um \u201cf\u00e3 do amor\u201d. Ela n\u00e3o estava totalmente errada. Apesar da apar\u00eancia controlada, s\u00e9ria e ponderada que eu exibia na maior parte do tempo, havia um lado meu que se rendia facilmente aos sentimentos, que florescia sem esfor\u00e7o, que se deixava levar.<br>\u2003\u2003E isso n\u00e3o me incomodava. Nunca se tratou de depend\u00eancia emocional; nunca fui do tipo que reprime desejos ou emo\u00e7\u00f5es. Eu acreditava que amar valia a pena. N\u00e3o apenas pelo prazer ou pela companhia, mas porque havia algo essencial, quase vital, em se permitir sentir profundamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o sei, Nina. A gente vai tentar. \u2013 Escolhi minhas palavras com cuidado, mas sabia que, no fundo, n\u00e3o eram inteiramente verdadeiras.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom\u2026 \u2013 Ela se levantou, soltando um suspiro que parecia carregar o peso daquela conversa. \u2013 N\u00e3o sei como est\u00e3o as coisas entre voc\u00eas, mas vou te dizer o mesmo que %Anya% me disse quando contei sobre o Andreas: n\u00e3o vou escolher lados. Voc\u00ea \u00e9 meu irm\u00e3o, mas ela \u00e9 minha melhor amiga. \u2013 As palavras sa\u00edram calmas, ponderadas, e por um instante me peguei observando cada gesto, cada pausa calculada. Senti um al\u00edvio silencioso \u2013 Nina n\u00e3o tentava me empurrar para nenhum lado, nem me julgar. \u2013 S\u00f3\u2026 n\u00e3o se matem, t\u00e1?<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 dif\u00edcil de acreditar, mas a gente at\u00e9 se entende. \u2013<br>\u2003\u2003Com %Anya%, apesar de tudo, havia uma estranha sintonia que resistia ao caos. Algo que, contra todas as expectativas, simplesmente funcionava.<br>\u2003\u2003\u2013 Notei isso hoje, mas ainda me soa estranho. \u2013 Ela admitiu e a incredulidade em seus olhos era quase tang\u00edvel. \u2013 Ent\u00e3o\u2026 voc\u00ea vai mesmo para a ilha? Para o anivers\u00e1rio?<br>\u2003\u2003\u2013 Vou, sim. Por livre e espont\u00e2nea press\u00e3o. \u2013 Um sorriso me escapou, breve e involunt\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2013 Anos tentando te convencer a ir a um anivers\u00e1rio dela, sem sucesso. E agora\u2026 olha voc\u00ea, indo como\u2026 tipo, primeira-dama? \u2013 Nina soltou uma risada.<br>\u2003\u2003Aquela gargalhada me atingiu em cheio. Era a risada de nossa m\u00e3e, viva e leve, ecoando no presente como um fantasma familiar.<br>\u2003\u2003Eu sabia que estava longe de estar satisfeito com o rumo da minha vida, mas aquele sorriso&#8230; aquele sorriso bastava. Se mant\u00ea-lo ali significava continuar errando o caminho, que fosse. Eu seguiria assim mesmo. Sem calcular demais, sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<b>N\/A:<\/b> Pois \u00e9, olha eu aqui de novo! \ud83d\ude05 T\u00f4 chegando com a minha segunda longfic, um projetinho que t\u00e1 comigo desde 28 de dezembro de 2022. S\u00f3 agora criei coragem de postar, mas j\u00e1 t\u00e1 quase 80% pronta. Toda vez que abro o arquivo acabo mudando uma coisinha ou outra, mas no fim das contas a ess\u00eancia t\u00e1 firme e forte<br>\u2003\u2003EC t\u00e1 viv\u00edssima nos meus arquivos faz tempo e eu amo taaanto escrever, sempre que quero esquecer do mundo real, \u00e9 para ela que eu corro<br>\u2003\u2003Espero muito que voc\u00eas curtam e que me acompanhem mais essa vez! \u2728<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003%ANANYA% \u2013 \u053a \u2013 \u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u25c7\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500 \u2003\u2003%ANTHONY% \u2013 \u053a \u2013 \u2003\u2003N\/A: Pois \u00e9, olha eu aqui de novo! \ud83d\ude05 T\u00f4 chegando com a minha segunda longfic, um projetinho que t\u00e1 comigo desde 28 de dezembro de 2022. S\u00f3 agora criei coragem de postar, mas j\u00e1 t\u00e1 quase 80% pronta. 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