{"id":7698,"date":"2025-10-07T17:52:00","date_gmt":"2025-10-07T20:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T19:10:23","modified_gmt":"2025-11-09T22:10:23","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Cheguei ao vig\u00e9simo arrependimento<\/span> do dia. O primeiro? Ter colocado os p\u00e9s fora da cama.<br>\u2003\u2003Sexta-feira de fim de m\u00eas. Para um grupo seleto do escrit\u00f3rio, aquilo era quase um ritual sagrado e, por alguma ironia do destino, eu agora fazia parte da congrega\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003O templo escolhido? Baston, um restaurante franc\u00eas que se levava a s\u00e9rio demais, onde uma entrada custava mais que meu sal\u00e1rio inteiro.<br>\u2003\u2003As m\u00e1s l\u00ednguas diziam que o lugar era de um dos s\u00f3cios an\u00f4nimos da firma, o que explicava por que nossas extravag\u00e2ncias eram magicamente debitadas em uma conta fantasma qualquer. Confesso: esse foi meu \u00fanico consolo naquela noite. Saborear um prato que valia meu m\u00eas de trabalho, fingindo com cara s\u00e9ria que eu tamb\u00e9m pertencia \u00e0quela pequena m\u00e1fia de ternos bem cortados.<br>\u2003\u2003Agora, o que foi arrependimento? Tudo o que vinha depois.<br>\u2003\u2003Quando entrei na empresa, cheio de g\u00e1s e ingenuidade, eu sonhava em fazer parte da &#8220;panelinha&#8221;. Aqueles advogados experientes, que riam entre si como se tivessem acabado de ganhar mais um processo ou mais um milh\u00e3o. Eu achava que os jantares seriam uma esp\u00e9cie de clube secreto de mentes brilhantes, onde se discutiriam estrat\u00e9gias jur\u00eddicas revolucion\u00e1rias, precedentes hist\u00f3ricos, talvez at\u00e9 Shakespeare.<br>\u2003\u2003Pobre de mim.<br>\u2003\u2003A realidade era um circo de dez homens entre os quarenta e sessenta anos \u2014 metade deles for\u00e7ando a voz para soar mais grave, a outra metade for\u00e7ando o c\u00f3rtex cerebral para disfar\u00e7ar a dem\u00eancia precoce \u2014 empanturrando-se de foie gras enquanto disputavam quem contava a piada mais sexista ou o caso de ass\u00e9dio mais &#8220;engra\u00e7adinho&#8221;. E eu ali, entre um gole e outro de u\u00edsque caro que nunca compararia com o pr\u00f3prio dinheiro, rindo por educa\u00e7\u00e3o, me perguntando em que momento da minha vida eu achei que pertencer a isso seria um sinal de sucesso.<br>\u2003\u2003Depois de receber o convite pela primeira vez, faltar estava fora de quest\u00e3o. Recusar seria um verdadeiro &#8220;suic\u00eddio social&#8221;. Eu nunca mais seria escolhido para os casos importantes e perderia a chance de construir conex\u00f5es significativas. Assim, l\u00e1 estava eu, aproveitando a comida e bebida gratuitas e, ao mesmo tempo, massageando meu pr\u00f3prio ego.<br>\u2003\u2003\u2014 Esse \u00e9 um Armani 2018, minha mulher escolheu, mas eu n\u00e3o vejo problema em n\u00e3o usar grife, de verdade. \u2014 Victor comentou, segurando a ta\u00e7a com a mesma pose afetada de um cr\u00edtico de vinhos em crise de identidade. Era um dos homens mais desagrad\u00e1veis do escrit\u00f3rio e respons\u00e1vel por metade das piadas maldosas envolvendo meu nome. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o precisa se sentir mal por isso.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me sinto. \u2014 Respondi, virando o copo de u\u00edsque com vontade. Pedi o mais caro da casa, o tipo de bebida que eu s\u00f3 tomaria de gra\u00e7a e queimei a garganta como se fosse minha forma silenciosa de protesto.<br>\u2003\u2003Usei jeans preto e um blazer azul marinho porque era funcional. Tinha passado o dia resolvendo pepinos de \u00faltima hora, entrando e saindo de salas como se o escrit\u00f3rio fosse um tabuleiro de War. A \u00faltima coisa que eu queria era um terno de modelagem duvidosa esmagando minha dignidade junto com o resto da anatomia. Se isso me colocava um degrau abaixo de Victor Armani 2018, \u00f3timo.<br>\u2003\u2003Estava em uma reuni\u00e3o com um colega quando, por volta das seis da tarde, fomos liberados. Diferente da maioria dos meus colegas de andar, recebi mais uma convoca\u00e7\u00e3o para o Baston. A quinta vez. J\u00e1 n\u00e3o era mais surpresa, era praticamente uma maldi\u00e7\u00e3o recorrente.<br>\u2003\u2003Minhas suspeitas eram claras: ou me odeiam e se divertem me diminuindo, ou me amam&#8230; e tamb\u00e9m se divertem me diminuindo. Ambas as op\u00e7\u00f5es me desagradavam em igual medida. Sabia que terminaria a noite com um gosto amargo na boca e a garganta ardendo de tanto engolir piadas atravessadas, palavras entaladas e vontade de mandar todo mundo ir \u00e0 merda.<br>\u2003\u2003Desde que sa\u00ed da faculdade, dei sorte \u2014 ou azar, dependendo do ponto de vista \u2014 em conseguir bons lugares para trabalhar. O escrit\u00f3rio jur\u00eddico <em>Wolf, Davies &amp; Martinez<\/em> \u00e9 um deles. Trabalhar na \u00e1rea tribut\u00e1ria nunca foi meu sonho, mas pelo sal\u00e1rio que eles pagam, eu faria at\u00e9 faxina no local com esmero. E, como todo emprego que paga bem demais para ser verdade, aquele lugar era um verdadeiro inferno travestido de prest\u00edgio.<br>\u2003\u2003Meu chefe direto era Davi Martinez, um dos advogados mais ricos do pa\u00eds. Ganhou notoriedade (e milh\u00f5es) defendendo o Estado num esc\u00e2ndalo de sonega\u00e7\u00e3o fiscal que envolvia regulariza\u00e7\u00e3o territorial. C\u00ednico, impiedoso, sempre com aquele sorriso de canto de boca que s\u00f3 aparece em gente que nunca teve que parcelar um boleto.<br>\u2003\u2003As primeiras piadas me envolvendo partiram dele, e seus funcion\u00e1rios, ainda que t\u00e3o lascados quanto eu, seguiram o exemplo como bons cordeiros tentando provar que s\u00e3o lobos. Nem na \u00e9poca do col\u00e9gio sofri tanto bullying e ass\u00e9dio moral quanto no meu ambiente de trabalho atual. A diferen\u00e7a \u00e9 que, naquela \u00e9poca, pelo menos os valent\u00f5es n\u00e3o usavam terno da Hugo Boss.<br>\u2003\u2003\u2014 Diga-me, %Campelli%. Voc\u00ea \u00e9 casado? \u2014 A pergunta do Lopez caiu na mesa como um peda\u00e7o de carne crua.<br>\u2003\u2003A mesma. Toda. Maldita. Semana.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o, Lopez \u2014 Respondi, rodando o copo de u\u00edsque entre os dedos. \u2014 Por qu\u00ea? Est\u00e1 interessado?<br>\u2003\u2003Funcionou. As risadas explodiram como sempre. Naquela mesa, piadas homof\u00f3bicas eram como moeda corrente: todo mundo usava, ningu\u00e9m questionava o valor.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea sempre sozinho&#8230; \u2014 Lopez continuou, esfregando as m\u00e3os como se estivesse prestes a anunciar um veredito. \u2014 V\u00e3o come\u00e7ar a pensar que voc\u00ea, como posso dizer&#8230; aprecia a companhia masculina.<br>\u2003\u2003O coro de gargalhadas foi t\u00e3o previs\u00edvel quanto pat\u00e9tico. Respirei fundo, sentindo o gosto met\u00e1lico da raiva na l\u00edngua. N\u00e3o era a d\u00favida sobre minha sexualidade que me envenenava. Era a forma como eles usavam isso como arma.<br>\u2003\u2003Quase soltei um &#8220;sim&#8221; s\u00f3 para v\u00ea-los engasgar. Quase lancei um &#8220;voc\u00ea nunca sabe&#8221; com tom de desafio. Mas minha vida j\u00e1 era um jogo de xadrez onde eu movia pe\u00e7as sob mira. Ent\u00e3o apenas balancei a cabe\u00e7a e ri, o som mais vazio que j\u00e1 saiu da minha garganta.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o precisa saber de tudo na minha vida, colega. \u2014 Falei, levando o copo de u\u00edsque at\u00e9 a boca, tentando engolir todas as palavras que eu realmente queria gritar.<br>\u2003\u2003\u2014 Resposta t\u00edpica de quem est\u00e1 no arm\u00e1rio! \u2014 Lopez berrou, triunfante.<br>\u2003\u2003Algu\u00e9m bateu na mesa. Outros imitaram. Um circo de macacos de terno.<br>\u2003\u2003- E voc\u00ea, Lopez? Tem tanta familiaridade com o arm\u00e1rio assim? Que obsess\u00e3o \u00e9 essa? \u2014 Retribu\u00ed o desafio, e logo a pequena fa\u00edsca virou alvo da mesa inteira, at\u00e9 do Martinez, meu chefe, que parecia sempre esperar o momento exato para que eu mostrasse o meu pior lado.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que voc\u00ea n\u00e3o vai at\u00e9 o bar e traz umas doses para gente? \u2014 Lopez disparou, claramente controlando a raiva. E pelo tom, ficou claro que aquilo n\u00e3o era um pedido, era uma ordem disfar\u00e7ada.<br>\u2003\u2003\u2014 Como quiser, patr\u00e3o. \u2014 Respondi, sarc\u00e1stico, e me levantei da mesa, dando-lhe uma piscadela, n\u00e3o s\u00f3 por provoca\u00e7\u00e3o, mas porque j\u00e1 estava cansado daquela merda toda.<br>\u2003\u2003Caminhei at\u00e9 o bar, o movimento j\u00e1 um pouco turvo pela mistura de raiva e \u00e1lcool. O u\u00edsque come\u00e7ava a perder o sabor, mas eu continuava bebendo sem fazer careta, sinal de que estava na hora de parar. O que fiz, ent\u00e3o? Pedi mais um drinque.<br>\u2003\u2003\u2014 Um Bourbon para mesa nove&#8230; e sete doses de tequila. \u2014 Pedi ao barman, sentindo que estava indo longe demais. Mas quer saber? Se era para afundar, que fosse com classe.<br>\u2003\u2003A paci\u00eancia j\u00e1 tinha me deixado fazia tempo. Eu s\u00f3 queria esquecer que aquela noite existia. E se fosse para beber, que fosse na conta deles. Eu merecia isso. S\u00f3 isso.<br>\u2003\u2003\u2014 U\u00edsque e tequila juntos? Quer um atestado de \u00f3bito de presente? \u2014 A voz ao lado me pegou desprevenido.<br>\u2003\u2003Virei devagar e encontrei %Ananya% sentada no balc\u00e3o, com um mojito pela metade e um iPad equilibrado no colo. A vis\u00e3o dela me fez rir por dentro. De todas as pessoas que eu esperava encontrar ali, ela definitivamente n\u00e3o estava na lista.<br>\u2003\u2003\u2014 Sexta-feira, %Anya%. Voc\u00ea sabe como \u00e9&#8230; \u2014 Respondi, me aproximando.<br>\u2003\u2003\u2014 Segunda vez em menos de vinte e quatro horas, %Anthony%? Vou come\u00e7ar a achar que voc\u00ea est\u00e1 planejando esses encontros \u201cacidentais\u201d. \u2014 Fez as aspas no ar com os dedos, sem tirar os olhos da tela, mas a provoca\u00e7\u00e3o estava ali, viva, clara.<br>\u2003\u2003\u2014 Droga, voc\u00ea me descobriu.<br>\u2003\u2003A noite anterior tinha sido uma surpresa daquelas. Eu conhecia %Ananya% h\u00e1 anos. Ela era a melhor amiga da minha irm\u00e3 desde a escola, mas bastou um jantar para destruir boa parte das ideias que eu fazia dela.<br>\u2003\u2003Descobri uma mulher calma, modesta, divertida. Muito diferente da imagem meio distante que eu tinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso a\u00ed que voc\u00ea pediu parece suic\u00eddio. \u2014 Comentou, dando uma olhadela para os pedidos que o barman come\u00e7ava a preparar.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea? Pensei que n\u00e3o bebia. \u2014 Apontei com o queixo para o copo dela.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o bebo mesmo. Mas o Billy aqui faz um mojito sem \u00e1lcool melhor do que muito bar por a\u00ed, n\u00e3o \u00e9, Billy? \u2014 Ela sorriu para o barman, que apenas balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, como quem estivesse acostumado com aquele charme todo.<br>\u2003\u2003Ela voltou os olhos para mim. E eu, pela primeira vez naquela noite, me senti fora daquele inferno. O caos do jantar, os coment\u00e1rios idiotas, o peso de sempre&#8230; tudo pareceu ficar em sil\u00eancio por alguns segundos.<br>\u2003\u2003%Anya% \u2014 ou %Ananya%, quando precisava assinar documentos ou intimidar desafetos \u2014 era o tipo de pessoa que fazia o &#8220;desleixo elegante&#8221; parecer uma arte. Seus cabelos castanhos viviam em permanente estado de rebeldia, nem lisos nem cacheados, mas num meio-termo que sugeria ou um estilo deliberado ou uma rendi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica aos fios. Quase nunca usava maquiagem, exceto um batom borrado que desaparecia ap\u00f3s o primeiro caf\u00e9.<br>\u2003\u2003Mas havia um detalhe crucial: %Anya% n\u00e3o precisava se esfor\u00e7ar.<br>\u2003\u2003De estatura m\u00e9dia, mas dona de uma postura ereta e confiante, passava a impress\u00e3o de ser mais imponente do que realmente era. Ela carregava uma esp\u00e9cie de eleg\u00e2ncia natural, que muitas vezes me dava motivo para implicar, mas raramente soava esnobe ou for\u00e7ada. S\u00f3 quando o mundo exigia \u2014 jantares beneficentes, festas de embaixador, aquelas ocasi\u00f5es em que o sobrenome &#8220;%Bhasin%&#8221; precisava brilhar \u2014 que ela surgia em seus vestidos car\u00edssimos e sapatos de marca, maquiagem forte e presen\u00e7a estonteante.<br>\u2003\u2003E ela sempre foi assim, desde a \u00e9poca da escola. Mesmo com algumas espinhas no rosto e aquele jeito ainda meio infantil de quem n\u00e3o tinha pressa de crescer, havia algo nela que destoava. Uma maturidade silenciosa, uma presen\u00e7a que chamava aten\u00e7\u00e3o sem esfor\u00e7o. Era o tipo de pessoa que, mesmo quieta, fazia a sala inteira notar sua exist\u00eancia.<br>\u2003\u2003Ignorar %Anya% era imposs\u00edvel. E resistir ao encanto dela era quase impens\u00e1vel. Eu sei disso porque j\u00e1 fui um dos que trope\u00e7aram nessa armadilha. F\u00e1cil, sem nem perceber.<br>\u2003\u2003\u2014 Cad\u00ea sua sombra? \u2014 Perguntei, escorando-me no balc\u00e3o ao lado dela. \u2014 Minha irm\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 acoplada em voc\u00ea? \u2014 Provoquei, vendo-a revirar os olhos com um sorrisinho.<br>\u2003\u2003\u2014 Infelizmente, n\u00e3o. Vim direto do trabalho e parei aqui para beber algo e revisar umas coisas. \u2014 Apontou o iPad e, em seguida, se virando de vez para mim. \u2014 E voc\u00ea?<br>\u2003\u2003\u2014 Estou com o pessoal do trabalho. \u2014 N\u00e3o consegui disfar\u00e7ar a careta e ela riu da minha indiscri\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Eles s\u00e3o t\u00e3o divertidos assim? \u2014 Ironizou.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom, estou aqui h\u00e1 apenas uma hora e, desde ent\u00e3o, j\u00e1 fui chamado de homossexual, carente, indigente e, aparentemente, ser solteiro tamb\u00e9m \u00e9 um defeito. \u2014 Seus cabelos ca\u00edram do coque baixo com a movimenta\u00e7\u00e3o e eu sorri com a vis\u00e3o.<br>\u2003\u2003Quando %Anya% estava com os cabelos soltos, ela voltava a ser a garota que eu sempre via passar no corredor da escola com Nina e a imagem era nost\u00e1lgica para mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea descreveu todos os ambientes corporativos existentes. Quer saber? Voc\u00ea merece essa tequila. \u2014 Apontou quando o barman deixou o copinho com um prato de lim\u00e3o e sal em sua frente. \u2014 Eu pago!<br>\u2003\u2003\u2014 %Ananya% %Bhasin%, senhoras e senhores! Achei que voc\u00ea nunca ofereceria. \u2014 Comemorei, pegando o copo e virando em minha boca, sem utilizar o lim\u00e3o ou o sal. \u2014 Eu acho que mere\u00e7o uma para cada xingamento e humilha\u00e7\u00e3o que j\u00e1 passei hoje.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 t\u00e3o ruim assim? \u2014 Perguntou, solid\u00e1ria com o meu infort\u00fanio.<br>\u2003\u2003\u2014 Se eu disser que n\u00e3o, estarei mentindo. \u2014 Fui sincero.<br>\u2003\u2003Naquele instante, eu assinaria minha demiss\u00e3o com tinta do pr\u00f3prio sangue. Mas quando a f\u00faria baixava e eu encarava a realidade nua e crua, uma verdade dolorosa surgia: aquele inferno de egos e sarcasmo era, ironicamente, o solo mais f\u00e9rtil para minha carreira.<br>\u2003\u2003O trabalho n\u00e3o tinha nada da poesia que eu imaginara na faculdade, eram horas engolindo sapos em reuni\u00f5es e noites dissecando cl\u00e1usulas escondidas em contratos que ningu\u00e9m lia. Alguns dias eu me via parado no metr\u00f4, questionando cada escolha que me trouxera at\u00e9 ali.<br>\u2003\u2003\u2014 Onde voc\u00ea trabalha, afinal?<br>\u2003\u2003\u2014 No escrit\u00f3rio da Wolf, Davies e&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Martinez! \u2014 Completou, me interrompendo. \u2014 Davi Martinez \u00e9 seu chefe? Aquele troglodita \u00e9 meu tio!<br>\u2003\u2003Gelei por completo. Eu estava prestes a incitar muito \u00f3dio diretamente para um familiar do homem?<br>\u2003\u2003Um suspiro escapou dos meus l\u00e1bios antes que eu pudesse conter quando %Anya% explicou que ele era seu \u201ctio\u201d por conveni\u00eancia social. Nem sangue nem afeto.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu j\u00e1 estava aqui, imaginando como faria para fingir que ele \u00e9 o melhor patr\u00e3o do mundo \u00e0 sua frente, mas agora estou tranquilo.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode ficar tranquilo, n\u00e3o precisa fingir. Eu o conhe\u00e7o bem demais para saber o qu\u00e3o desagrad\u00e1vel ele pode ser. Na \u00faltima vez que nos vimos, ele teve a brilhante ideia de me perguntar se eu usava &#8220;burca porque j\u00e1 era impura\u201d.<br>\u2003\u2003\u2014 Devo acrescentar \u201cracista\u201d \u00e0 lista de adjetivos que tenho para descrev\u00ea-lo? \u2014 Questionei seriamente, mas ela pareceu achar engra\u00e7ado.<br>\u2003\u2003\u2014 Com certeza. Ele est\u00e1 vindo para c\u00e1, disfar\u00e7a. \u2014 Ela interrompeu a pr\u00f3pria fala e pigarreou, bebericando seu copo. Me recompus, alterando minha postura tamb\u00e9m, como se n\u00e3o estivesse sentindo a dose de tequila cintilando em cada ponto do meu corpo.<br>\u2003\u2003\u2014 %Anya%! \u2014 Ouvi a voz de trov\u00e3o do idiota ressoar por tr\u00e1s de mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Titio! \u2014 Ela exclamou de maneira afetada e eu agradeci por estar de costas para o homem, assim ele n\u00e3o me viu revirar os olhos teatralmente. Mas %Anya% viu e chutou meu p\u00e9 ao descer do banco para ir cumprimentar Davi.<br>\u2003\u2003\u2014 O que est\u00e1 fazendo aqui sozinha? \u2014 Ele desviou o olhar e me encarou, confuso.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o estou sozinha, veja s\u00f3.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah. Que \u00f3timo. Se conhecem?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, a bastante tempo, devo frisar. \u2014 Ela explicou e eu sorri de boca fechada, segurando-me para n\u00e3o rir ou fazer algo que entregasse o teor alco\u00f3lico p\u00f3s tequila pura.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, isso explica! Se eu n\u00e3o conhecesse bem o %Campelli% aqui, at\u00e9 ficaria preocupado.<br>\u2003\u2003\u00c9 claro que eu n\u00e3o passaria intacto. O veneno na voz dele era n\u00edtido, at\u00e9 mesmo para %Anya%, que costumava estar alheia \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es di\u00e1rias que eu enfrentava. Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa, e me lan\u00e7ou um olhar r\u00e1pido. Desviei, um pouco envergonhado.<br>\u2003\u2003Ser humilhado na frente de gente que eu mal conhecia era uma coisa. Mas diante de algu\u00e9m como a %Anya%, que me conhecia desde sempre, aquilo se tornava muito mais dif\u00edcil de engolir. As piadas e risadas que eu normalmente deixava passar ganhavam outro peso quando partilhadas com algu\u00e9m que fazia parte da minha hist\u00f3ria.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o entendi. \u2014 Ela pontuou e eu engoli em seco.<br>\u2003\u2003\u00d3timo, abriu uma brecha para o homem destilar ainda mais veneno em mim.<br>\u2003\u2003\u2014 %Anthony% \u00e9 meio que nossa mascote na empresa. N\u00e3o representa amea\u00e7a alguma. Como poderia, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2014 Riu maldosamente.<br>\u2003\u2003Arfei, desacreditado. Ele simplesmente n\u00e3o tinha decoro algum.<br>\u2003\u2003\u2014 %Anthony% realmente n\u00e3o oferece mal algum. Foi por isso que eu o escolhi.. \u2014 Emitiu com a voz t\u00e3o firme, intensa e intransigente que eu imediatamente lembrei que %Anya% era rica. Esse tom de voz eu s\u00f3 encontrei em pessoas ricas. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o contou? \u2014 %Anya% virou-se para mim, que franzi o cenho, confuso com o que ela queria de mim no momento.<br>\u2003\u2003\u2014 Anh, n\u00e3o. \u2014 Murmurei, totalmente incerto.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que n\u00e3o? O problema, tio, \u00e9 que eu n\u00e3o sei se %Anthony% me leva a s\u00e9rio. \u2014 Ela se aproximou, abra\u00e7ando-me pela cintura e eu travei completamente ao perceber quais eram suas inten\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sabia que voc\u00ea estava namorando, %Anya%.<br>\u2003\u2003\u2014 A verdade \u00e9 que estou \u00e0 espera de um pedido, tio, se \u00e9 que me entende. \u2014 Deu uma piscada, sorrindo dram\u00e1tica. \u00d3timo, al\u00e9m de inventar uma hist\u00f3ria maluca, ela ainda me descreveu como um imbecil. \u2014 Titio, voc\u00ea pode nos dar licen\u00e7a por uns segundos? \u2014 Pediu com uma classe e eleg\u00e2ncia inigual\u00e1veis.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9-\u00e9 claro Vou deixar voc\u00eas dois pombinhos conversarem. %Anthony%, voc\u00ea quer que eu leve isso? \u2014 Apontou para o balde com vinho e u\u00edsque preparado pelo gar\u00e7om e que eu deveria levar para a mesa.<br>\u2003\u2003De repente, Davi Martinez tornou-se gentil. Sem esperar pela resposta, ele pegou a bandeja e se dirigiu de volta \u00e0 nossa mesa. Fiquei totalmente descrente do que acabara de acontecer.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea enlouqueceu? \u2014 Murmurei para ela, virando de costas para as pessoas de minha mesa, que agora encaravam a situa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s ver o chefe chegar com uma bandeja.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele \u00e9 petulante e c\u00ednico, e ainda te tratou mal. \u2014 Explicou, cruzando os bra\u00e7os, parecendo irritada.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele sempre me trata assim.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que voc\u00ea aceita?<br>\u2003\u2003Claramente a mulher era sua pr\u00f3pria chefe e n\u00e3o sabia como lidar com os desafios do proletariado.<br>\u2003\u2003- %Anya%&#8230; Eu n\u00e3o permito, eu sobrevivo. Ele \u00e9 meu chefe. Paga minhas contas. Eu n\u00e3o tenho muitas op\u00e7\u00f5es. \u00d3timo, j\u00e1 era. Ele vai me demitir, me ferrar. Nunca mais vou pegar um caso na vida.<br>\u2003\u2003\u2014 Relaxa. \u00c9 bem poss\u00edvel que voc\u00ea seja promovido.<br>\u2003\u2003\u2014 Como \u00e9 que \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu conhe\u00e7o homens como ele. Cresci cercada deles. Davi n\u00e3o valoriza compet\u00eancia, valoriza imagem. Agora que acha que voc\u00ea est\u00e1 comigo, isso te torna \u00fatil. Ele pode ser t\u00f3xico, mas sabe fazer pol\u00edtica. Vai querer voc\u00ea por perto. Meu pai sempre diz: \u201cEu n\u00e3o inventei o jogo, s\u00f3 aprendi a jogar.\u201d E, sinceramente, eu sou \u00f3tima jogadora.<br>\u2003\u2003Como nos desenhos animados, uma l\u00e2mpada se acendeu em minha mente. %Anya% estava absolutamente certa. O ego do homem jamais deixaria passar a oportunidade de ter um de seus funcion\u00e1rios supostamente relacionados a uma pessoa de fam\u00edlia abastada.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigado por me defender, de verdade&#8230; Mas, sinceramente, n\u00e3o vale a pena. Eu sei lidar com ele. N\u00e3o \u00e9 grande coisa. T\u00e1&#8230; n\u00e3o sei se voc\u00ea acabou com minha carreira ou salvou minha vida, mas&#8230; \u2014 Refleti, assustado. \u2014 Valeu, %Anya%. Eu acho&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 Vou ao banheiro enquanto voc\u00ea decide se me agradece ou me mata.<br>\u2003\u2003Informei que voltaria para a mesa e ela disse que passaria l\u00e1 para se despedir. Caminhei de volta ao meu lugar, tentando evitar olhar para Davi. No entanto, meu olhar encontrou o dele por um instante e a surpresa no seu rosto era clara. Ele ficou em sil\u00eancio, mas a tens\u00e3o era palp\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Tentei desviar o olhar rapidamente, mas o peso de sua presen\u00e7a me fazia sentir como se estivesse sendo examinado de perto. Enchi o copo com mais u\u00edsque, na tentativa de aliviar a ansiedade, embora soubesse que n\u00e3o resolveria nada. O que aquilo significava? Ele estava irritado? Preocupado? Ou apenas em busca de algo para me desestabilizar?<br>\u2003\u2003A conversa \u00e0 mesa continuava, mas eu n\u00e3o conseguia focar em nada al\u00e9m de Davi, que n\u00e3o tirava os olhos de mim. O que isso significava? Que ele iria me matar? Ou me demitir por supostamente estar comendo a sobrinha dele?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, os restaurantes est\u00e3o cada vez mais distantes do centro&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9, isso se d\u00e1 pela popula\u00e7\u00e3o que&#8230;<br>\u2003\u2003\u2014 A quanto tempo voc\u00ea e %Ananya% est\u00e3o juntos? \u2014 A voz de Davi cortou o fluxo da conversa, interrompendo at\u00e9 os sons de talheres batendo.<br>\u2003\u2003Todos na mesa se calaram instantaneamente, virando-se para nos observar. Onze pares de olhos estavam fixos em mim e o peso da pergunta ecoou de maneira constrangedora. Eu me senti congelado por um momento, o cora\u00e7\u00e3o batendo forte no peito. Eu n\u00e3o sabia o que responder e meu sil\u00eancio s\u00f3 fez a situa\u00e7\u00e3o mais desconfort\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 %Campelli%. \u2014 Ele insistiu, a voz mais firme, como se pressionando para obter uma resposta. \u2014 H\u00e1 quanto tempo voc\u00ea e minha sobrinha est\u00e3o juntos e por que eu s\u00f3 soube disso agora?<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00f3s nos conhecemos h\u00e1 um tempo, senhor. Estudamos juntos. \u2014 Pigarreei, olhando ao redor e vendo todos observando Davi com uma curiosidade que beirava a inveja, talvez at\u00e9 desconfian\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Estudaram juntos? \u2014 Davi riu, claramente c\u00e9tico, e recostou-se na cadeira. \u2014 Voc\u00ea estudou no Guardins? \u2014 A pergunta foi carregada de desd\u00e9m.<br>\u2003\u2003O Guardins era uma escola de elite, conhecida pelas mensalidades altas e pelos alunos de fam\u00edlias ricas.<br>\u2003\u2003\u2014 Bolsa por indica\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Martinez assentiu pensativamente, os dedos tamborilando no bra\u00e7o da cadeira. Cada batida ecoava como um tique-taque de bomba rel\u00f3gio. N\u00e3o expliquei que minha vaga no Guardins veio com o suor da minha m\u00e3e, que enquanto esses herdeiros brincavam de polo, ela esfregava os m\u00e1rmores da mans\u00e3o do diretor. Que eu estudava com livros usados enquanto ela lavava a roupa \u00edntima dessas mesmas pessoas que agora me olhavam com um misto de curiosidade e desd\u00e9m.<br>\u2003\u2003O homem de cabelos castanhos \u2014 cujo nome eu me recusava a aprender \u2014 soltou um risinho que me fez ver vermelho por um segundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, ent\u00e3o a princesa est\u00e1 se divertindo com plebeu. Que fofa. \u2014 Zombou.<br>\u2003\u2003Senti meu sangue ferver, mas mantive os punhos fechados sob a mesa e encarei o homem, que eu nem sabia o nome.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o respondeu \u00e0 pergunta \u2014 Martinez insistiu, colocando as m\u00e3os sobre a mesa e se inclinando para frente. \u2014 A quanto tempo?<br>\u2003\u2003\u2014 Qu&#8230; Cinco meses \u2014 Gaguejei, os n\u00fameros saindo aleat\u00f3rios como dados jogados. Que pesadelo!<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi t\u00e3o espesso que ouvi o gelo derretendo nos copos. Todos os olhos se voltaram para Martinez, conhecido por demitir funcion\u00e1rios como quem descarta guardanapos usados.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o, como um trov\u00e3o, ele gargalhou.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>%Anthony% %Campelli%!<\/em> Quem diria! Pegou a herdeira %Bhasin% no la\u00e7o! Voc\u00ea \u00e9 mais esperto do que eu pensava! \u2014 Ele riu, bebericando o seu copo, e eu sorri de forma tensa.<br>\u2003\u2003Tentei manter a compostura, respondendo educadamente \u00e0s perguntas e aceitando os tapinhas nas costas, mas a cada momento me sentia mais desconfort\u00e1vel. Quando Carlos, um cara alto e musculoso, se inclinou para mais perto de mim e deu um tapinha nas minhas costas, meu est\u00f4mago se revirou.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 namorando a garota de ouro, hein? \u2014 Ele perguntou com um tom de esc\u00e1rnio.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9, acho que estou&#8230; \u2014 Respondi, for\u00e7ando um sorriso, tentando controlar a raiva.<br>\u2003\u2003\u2014 Sorte a sua! Ouvi dizer que ela vale <em>uma fortuna&#8230;<\/em> \u2014 Comentou, tomando um gole do copo e eu franzi a testa, incr\u00e9dulo com o que acabara de ouvir.<br>\u2003\u2003Como algu\u00e9m poderia ser t\u00e3o desprez\u00edvel?<br>\u2003\u2003Logo em seguida, o som dos saltos de %Anya% ecoou no ambiente, batendo contra o ch\u00e3o com uma leveza, mas ao mesmo tempo com uma for\u00e7a que parecia querer chamar a aten\u00e7\u00e3o. Levantei os olhos e a vi se aproximando, elegantemente, com um vestido preto simples, que terminava um pouco abaixo dos joelhos.<br>\u2003\u2003Contive um sorriso enquanto meus olhos desciam, involuntariamente, para suas pernas. %Anya% tinha um caso de amor com saias que beirava o obsessivo.<br>\u2003\u2003Longas at\u00e9 o tornozelo, curtas o suficiente para fazer os padres da cidade rezarem por sua alma. Plissadas. Retas. Cal\u00e7as jeans? Shorts? Essas eram raridades arqueol\u00f3gicas. Se eu fechasse os olhos agora, conseguiria contar nos dedos todas as vezes que a vi vestindo algo que n\u00e3o fosse aquelas malditas saias que me deixavam igualmente fascinado e irritado.<br>\u2003\u2003Minha boca secou enquanto eu me lembrava, quase \u00e0 for\u00e7a, do meu papel naquela farsa. Desviei o olhar por um instante, tentando recuperar o controle, e foi o suficiente para v\u00ea-la se aproximando da nossa mesa.<br>\u2003\u2003Todos os olhos se voltaram para ela; as conversas masculinas se dissolveram no ar, substitu\u00eddas por olhares de admira\u00e7\u00e3o. Eu, no entanto, senti algo mais complexo: uma mistura inc\u00f4moda de irrita\u00e7\u00e3o e fasc\u00ednio.<br>\u2003\u2003\u2014 Vejo voc\u00ea em casa depois? \u2014 Perguntou, assim que me levantei.<br>\u2003\u2003Havia um convite silencioso em seus olhos, um sinal claro de que queria que eu entrasse no jogo. Mas a maneira como ela se aproximou me paralisou. Preso \u00e0quela proximidade, tudo que consegui foi acenar com a cabe\u00e7a, devagar, tentando disfar\u00e7ar o efeito devastador que ela causava em mim.<br>\u2003\u2003Ela sorriu com a minha resposta, satisfeita, ainda assim, havia um brilho malicioso em seus olhos. Antes que eu pudesse reagir, inclinou-se mais, puxou-me pelo bra\u00e7o e selou a cena com um beijo r\u00e1pido, estalado. Eu n\u00e3o precisava olhar em volta para saber: todos estavam observando.<br>\u2003\u2003\u2014 Titio, sempre um prazer rev\u00ea-lo. Espero v\u00ea-lo no meu anivers\u00e1rio. Boa noite, rapazes. Ju\u00edzo! \u2014 Ela disse, se afastando com um sorriso.<br>\u2003\u2003Ela deixou o ambiente com uma naturalidade imbat\u00edvel, como se o mundo ao redor fosse apenas um cen\u00e1rio sob seu controle absoluto. E, sendo honesto, se ela quisesse algo de mim, eu provavelmente daria sem hesitar.<br>\u2003\u2003Todos na mesa a acompanharam com os olhos. Esforcei-me para sorrir, sem ter certeza de como deveria reagir. Levei o copo aos l\u00e1bios, tentando encontrar calma no pr\u00f3ximo gole, mas sabia, no fundo, que nada do que eu dissesse ou fizesse ali seria suficiente para mudar a forma como eles me viam.<br>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que a voz de Davi cortou a mesa, baixa e afiada. At\u00e9 aquele momento ele observava em sil\u00eancio, com o sorriso contido de quem usa cordialidade como disfarce. Senti o ar gelar e por horas carreguei o desconforto daquela frase.<br>\u2003\u2003\u2014 Ora, ora&#8230; parece que algu\u00e9m aqui ganhou na loteria e esqueceu de avisar o resto da turma.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2014 \u053a \u2014<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Com a fei\u00e7\u00e3o intrigada, tamborilei os dedos na mesa, tentando entender o que diabos estava acontecendo naquele recinto.<br>\u2003\u2003Desde que coloquei os p\u00e9s no escrit\u00f3rio naquela segunda-feira, tudo parecia\u2026 fora do lugar. Primeiro, minha mesa. Estava limpa. Limpa demais. Nada de pilhas de documentos, nada de recados rabiscados ou pastas amontoadas esperando despacho.<br>\u2003\u2003Olhei ao redor. As baias vizinhas estavam do jeito de sempre: abarrotadas, bagun\u00e7adas, com aquela apar\u00eancia ca\u00f3tica que fazia parte do nosso cotidiano. Franzi o cenho, desconfiado. O que estavam tentando me dizer com aquilo?<br>\u2003\u2003Na tentativa de afastar pensamentos pessimistas \u2014 como, por exemplo, uma poss\u00edvel demiss\u00e3o disfar\u00e7ada de gentileza \u2014, decidi que um caf\u00e9 cairia bem antes de encarar o que quer que estivesse por vir. Caminhei at\u00e9 a copa com passos contidos, esperando o sil\u00eancio costumeiro ou, no m\u00e1ximo, um murm\u00fario abafado. Mas assim que entrei, fui surpreendido.<br>\u2003\u2003Cinco pessoas estavam ali. E, para meu total espanto, todas me cumprimentaram.<br>\u2003\u2003Aquelas mesmas figuras que, durante meses, mal levantavam os olhos quando eu passava, agora me ofereciam sorrisos cordiais e acenos. Um deles at\u00e9 me chamou de \u201c%Anthony%\u201d. Nunca me chamavam pelo nome.<br>\u2003\u2003A caneca em minha m\u00e3o quase escorregou. Algo definitivamente estava errado.<br>\u2003\u2003Antes que eu conseguisse responder, Victor \u2014 meu colega obcecado por grife \u2014 entrou na saleta e, com a autoridade de sempre, mandou todo mundo sair. Surpreendentemente, obedeceram. Levantei uma sobrancelha, dividido entre rir e ficar irritado. O tom autorit\u00e1rio, o peito inflado, tudo nele me dava nos nervos.<br>\u2003\u2003\u2014 Victor, sempre gentil. \u2014 Ergui a x\u00edcara num brinde sarc\u00e1stico.<br>\u2003\u2003\u2014 Corta essa, %Campelli%. Voc\u00ea conseguiu me surpreender.<br>\u2003\u2003Inclinei a cabe\u00e7a, avaliando-o.<br>\u2003\u2003\u2014 Do que diabos voc\u00ea est\u00e1 falando, babaca? \u2014 Franzi a testa, misturando irrita\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o. Victor revirou os olhos e avan\u00e7ou um passo, as m\u00e3os cerradas em punho.<br>\u2003\u2003\u2014 Se envolver com a sobrinha do chefe foi baixo at\u00e9 para voc\u00ea.<br>\u2003\u2003A ficha come\u00e7ou a cair. As pessoas me tratavam diferente por causa desse romance de fachada com a %Anya%?<br>\u2003\u2003\u2014 Nem todo mundo \u00e9 t\u00e3o ganancioso quanto voc\u00ea, Victor. \u2014 Rebati, sentindo a irrita\u00e7\u00e3o crescer.<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o me conta: toda essa paixonite pela sobrinha do Martinez n\u00e3o tem nada a ver com o sobrenome dela? \u2014 Ele sorriu com ar mel\u00edfluo.<br>\u2003\u2003\u2014 At\u00e9 semana passada eu nem sabia que eles se conheciam. E, para ser justo, n\u00e3o s\u00e3o parentes.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sei se voc\u00ea \u00e9 um azarado esperto ou um burro sortudo. \u2014 Ele suspirou, passando a m\u00e3o pelo rosto, e apontou para o bolso como se aquilo explicasse tudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea s\u00f3 veio me xingar, eu volto para minha mesa. \u2014 Resmunguei, impaciente.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1, t\u00e1\u2026 como conheceu ela? \u2014 Insistiu.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que esse interrogat\u00f3rio?<br>\u2003\u2003\u2014 Coleguismo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ela \u00e9 amiga da minha irm\u00e3. Nos conhecemos na escola. Sem mist\u00e9rio.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o ele agiu: o celular apareceu como arma, tela virada para mim, <em>00:03:22<\/em> piscando em vermelho. Estava gravando.<br>\u2003\u2003\u2014 Martinez mandou verificar seu conto de fadas. \u2014 Parou a grava\u00e7\u00e3o com um clique escarninho. \u2014 Eu, honestamente, estou cagando.<br>\u2003\u2003O caf\u00e9 amargou na garganta.<br>\u2003\u2003\u2014 Que babaca. \u2014 Murmurei, esfregando as t\u00eamporas. Era cedo demais para lidar com esse tipo de insanidade. \u2014 Voc\u00ea devia ser ator.<br>\u2003\u2003\u2014 Meus pais n\u00e3o deixaram. \u2014 Deu de ombros.<br>\u2003\u2003Pela primeira vez, Victor pareceu\u2026 humano. A resposta soou sincera, e por um instante, me lembrei que ele era, no fim das contas, apenas outro funcion\u00e1rio preso naquele circo corporativo.<br>\u2003\u2003\u2014 Se eu fosse voc\u00ea, inventava uma desculpa e ia logo falar com ele. O gordo est\u00e1 se roendo para te chamar. \u2014 Concluiu, meio conselho, meio provoca\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3 n\u00e3o entendo o que ele ganha com isso. Por que esse interesse todo no relacionamento de um funcion\u00e1rio qualquer?<br>\u2003\u2003\u2014 Sua namorada \u00e9 uma %Bhasin%, %Campelli%. \u2014 Victor respondeu como se estivesse explicando algo \u00f3bvio demais. \u2014 Ele me disse com essas palavras. Martinez \u00e9 viciado em dinheiro. Se v\u00ea uma oportunidade de se infiltrar no meio de gente rica, ele se joga sem pensar duas vezes. N\u00e3o importa como, com quem, nem o quanto vai manipular no processo.<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio por um segundo, absorvendo aquilo. E ent\u00e3o veio a pancada. Aquela verdade suja que escancara tudo. O motivo dos olhares tortos, dos sorrisos falsos, do tratamento repentinamente cordial.<br>\u2003\u2003\u2014 Apaga essa grava\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 E arriscar meu emprego por isso? \u2014 Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, como quem se diverte com a ingenuidade alheia. \u2014 Acorda, %Campelli%. Todo mundo aqui dan\u00e7a conforme o Martinez assovia. At\u00e9 voc\u00ea.<br>\u2003\u2003N\u00e3o consegui rebater. A pior parte era admitir que ele tinha raz\u00e3o. Martinez nos controlava sem que a gente percebesse, com medo, com promessas, com chantagens veladas. Victor virou-se para sair, mas hesitou ao alcan\u00e7ar a porta. Deu meia-volta, como se tivesse lembrado de algo importante. Seus olhos brilharam com aquela mal\u00edcia irritante que ele nunca fazia quest\u00e3o de esconder.<br>\u2003\u2003\u2014 Sabe, %Campelli%? Quando eu disse que voc\u00ea era um sortudo burro, eu n\u00e3o estava brincando. Mas acho que voc\u00ea merece os parab\u00e9ns, voc\u00ea conseguiu.<br>\u2003\u2003\u2014 Consegui o qu\u00ea, Victor? \u2014 Suspirei, cansado, sabendo que o que viria a seguir seria uma atrocidade ou uma grande surpresa.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, vamos l\u00e1. Primeiro: a mulher \u00e9 gata. Eu vi. Com os dois olhos e um pouco de inveja. Segundo: rica. Pesquisei o sobrenome dela e, meu amigo, aquilo ali \u00e9 um PIB de um pa\u00eds pequeno. E terceiro&#8230; \u2014 Sorriu como quem vai soltar a cereja do bolo. \u2014 &#8230;ela \u00e9 sobrinha do chefe. Quer dizer, tecnicamente n\u00e3o \u00e9, mas isso n\u00e3o importa. Voc\u00ea realizou o sonho fetichista de todos os caras daqui! Ele n\u00e3o tem filhas mulheres, mas saber que um de n\u00f3s conseguiu comer a sobrinha j\u00e1 o suficiente.<br>\u2003\u2003Eu abri a boca para responder, mas nada \u2014 nem minha voz, nem um pensamento coerente \u2014 veio em seguida. A percep\u00e7\u00e3o me atingiu como uma tonelada de tijolos e senti uma mistura de descren\u00e7a e raiva. Victor deu um tapinha no meu ombro, um sorriso malicioso no rosto.<br>\u2003\u2003Eu queria dar um soco nele, mas sabia que n\u00e3o valia a pena.<br>\u2003\u2003Com isso, ele saiu da cozinha, me deixando sozinho com o zumbido inc\u00f4modo dos meus pr\u00f3prios pensamentos. Encostei na parede, tentando controlar a respira\u00e7\u00e3o e organizar o turbilh\u00e3o que se formava dentro de mim. A ideia de que uma simples brincadeira fora do ambiente de trabalho, numa sexta-feira despretensiosa, pudesse ter se transformado numa bola de neve corporativa era quase absurda. E, no entanto, l\u00e1 estava eu, vivendo exatamente isso.<br>\u2003\u2003Lavei a x\u00edcara de caf\u00e9 com movimentos autom\u00e1ticos, ainda processando tudo o que Victor havia dito. Voltei para minha mesa como quem anda no piloto autom\u00e1tico. Tentei me for\u00e7ar a focar nos despachos que estavam acumulados, como se a rotina pudesse me oferecer algum tipo de al\u00edvio ou controle.<br>\u2003\u2003Entretanto n\u00e3o consegui me concentrar por mais de cinco minutos seguidos.<br>\u2003\u2003Depois da sexta-feira ca\u00f3tica no Baston e da manh\u00e3 tensa naquele escrit\u00f3rio, eu esperava que o pior j\u00e1 tivesse passado. Talvez, no fundo, quisesse acreditar que tudo voltaria ao normal com o tempo. Mas foi ali, naquela tarde aparentemente comum, que percebi o quanto tinha subestimado o impacto de %Ananya% %Bhasin% na minha vida.<br>\u2003\u2003No final do expediente, quando a maioria dos colegas j\u00e1 come\u00e7ava a recolher suas coisas, ouvi meu nome ecoar no corredor. Chamado direto \u00e0 sala de Davi Martinez.<br>\u2003\u2003N\u00e3o seria honesto dizer que n\u00e3o fiquei nervoso. Fiquei. Meu est\u00f4mago revirou. Meu cora\u00e7\u00e3o acelerou. Eu nunca tinha entrado naquela sala. Nunca tive qualquer contato direto com o chef\u00e3o, al\u00e9m de um aceno vago ou uma instru\u00e7\u00e3o breve nos corredores.<br>\u2003\u2003At\u00e9 a \u00faltima sexta, Davi Martinez mal sabia meu nome. Agora, de repente, ele queria falar comigo. E eu sabia que, quando Martinez queria falar com algu\u00e9m, n\u00e3o era por acaso. Era porque ele j\u00e1 sabia exatamente o que queria tirar da conversa.<br>\u2003\u2003Enquanto eu atravessava o escrit\u00f3rio, caminhando at\u00e9 a sala de Martinez como se caminhasse com uma pilha de pedras nos ombros, senti os olhos dos meus colegas de trabalho em mim. Alguns me olhavam com admira\u00e7\u00e3o, outros com inveja, mas todos pareciam curiosos sobre o que aconteceria no escrit\u00f3rio de Martinez.<br>\u2003\u2003Tentei n\u00e3o deixar que seus olhares me alcan\u00e7assem, focando no caminho \u00e0 frente e me preparando mentalmente para o que quer que me esperasse.<br>\u2003\u2003Finalmente, cheguei \u00e0 pesada porta de carvalho que levava ao escrit\u00f3rio de Martinez. Hesitei por um momento, respirei fundo e bati na porta, fazendo o som ecoar pelo escrit\u00f3rio.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor? Mandou me chamar?<br>\u2003\u2003\u2014 %Anthony%. \u2014 Ele nunca antes tinha me chamado assim. \u2014 Fecha a porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Algo errado? \u2014 Perguntei, controlando a respira\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ele me observou dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, como se estivesse avaliando um animal em leil\u00e3o. Seu olhar era quase predat\u00f3rio.<br>\u2003\u2003\u2014 Pelo contr\u00e1rio. N\u00e3o sei se notou, mas apreciei bastante o seu relacionamento com minha sobrinha. \u2014 <em>\u201cJura, velho? Acho que ningu\u00e9m percebeu\u201d<\/em>, pensei, contendo o sarcasmo. \u2014 Sou amigo da fam\u00edlia %Bhasin% h\u00e1 anos e, mesmo n\u00e3o sendo de sangue, considero-me parte da fam\u00edlia. \u2014 \u201c<em>Sanguessuga.\u201d <\/em>\u2014 Agora que voc\u00ea sabe da minha liga\u00e7\u00e3o com os %Bhasin%, precisamos conversar sobre neg\u00f3cios.<br>\u2003\u2003Respirei fundo. Estava pronto para recusar o que quer que fosse. N\u00e3o queria me envolver com nada vindo de Davi Martinez. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele abriu uma pasta sobre a mesa e come\u00e7ou a tirar uns pap\u00e9is.<br>\u2003\u2003O nome &#8220;Adit&#8221; brilhou em letras douradas no documento. <em>\u201cProposta de Fus\u00e3o \u2014 WDM Corp &amp; %Bhasin% Group\u201d.<\/em> Meu est\u00f4mago deu um giro. Inclinei-me para dar uma olhada. Pareciam contratos, ou algum tipo de proposta&#8230; ou talvez os dois.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhor, sabe que eu n\u00e3o tenho qualquer influ\u00eancia sobre os %Bhasin%, certo? \u2014 Falei, com cautela, tentando n\u00e3o soar provocativo.<br>\u2003\u2003Eu mal conhecia aquela fam\u00edlia. Eu mal conhecia %Anya%!<br>\u2003\u2003\u2014 %Anthony%, tsc, tsc&#8230; \u2014 Levantou-se com ares teatrais e deu a volta na mesa imponente e se aproximou de mim. \u2014 Voc\u00ea ainda \u00e9 um menino no mundo dos neg\u00f3cios, garoto. \u2014 Tentei argumentar, mas ele me cortou com um gesto. \u2014 Vou te contar uma hist\u00f3ria breve. Kapur %Bhasin% \u00e9 um velho amigo meu. Quase um irm\u00e3o. Mas \u00e9 um tolo quando se trata de dinheiro. Perdeu tudo por causa de uma americana e agora vive como um pobre coitado no centro de Mumbai. Mas o irm\u00e3o dele, Adit&#8230; ah, esse sim \u00e9 um homem impressionante&#8230;<br>\u2003\u2003Kapur. Era o pai da Kiara. A minha <em>verdadeira<\/em> namorada %Bhasin%. Ou ex, sei l\u00e1. Naquele momento, essa era a menor das preocupa\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003Continuei ouvindo, surpreso com o quanto Martinez sabia sobre aquela fam\u00edlia. Ele falava com tanta propriedade que parecia \u00edntimo da \u00e1rvore geneal\u00f3gica dos %Bhasin%. N\u00e3o consegui evitar a pergunta silenciosa que surgiu na minha cabe\u00e7a: ser\u00e1 que ele sabia tamb\u00e9m que meu relacionamento com %Anya% era uma mentira?<br>\u2003\u2003Talvez, se Kiara ainda usasse o sobrenome da fam\u00edlia, esse jogo teria come\u00e7ado antes. Mas n\u00e3o era dela que Davi queria se aproximar. Nem de %Anya%. O que ele cobi\u00e7ava ia al\u00e9m do sobrenome. Ele queria Adit %Bhasin%.<br>\u2003\u2003\u2014 Adit \u00e9 o presidente atual da %Bhasin% Company. O \u00fanico daquela fam\u00edlia que nunca caiu nos meus encantos. Ele me odeia. \u2014 Foi ali que tudo fez sentido. \u2014 %Anthony% %Campelli%, tenho uma proposta para voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Eu podia ter dito n\u00e3o. Podia ter me levantado, mandado ele se ferrar e sa\u00eddo com o pouco de dignidade que ainda me restava. Mas n\u00e3o fiz nada disso.<br>\u2003\u2003Fiquei.<br>\u2003\u2003Eu tinha contas. E n\u00e3o eram simples. Eram buracos cada vez mais fundos, que nenhuma rescis\u00e3o contratual seria capaz de cobrir. D\u00edvidas que envolviam minha irm\u00e3, minha m\u00e3e&#8230; Coisas que n\u00e3o se resolviam com princ\u00edpios. Ent\u00e3o me calei.<br>\u2003\u2003Travei a mand\u00edbula, empurrei qualquer resqu\u00edcio de moralidade para o canto mais escuro de mim mesmo e encarei Martinez, fingindo uma indiferen\u00e7a que eu n\u00e3o sentia. Em seguida, largou a caneta com um estalo seco e me encarou.<br>\u2003\u2003\u2014 Sabe por que eu te chamei aqui, %Campelli%?<br>\u2003\u2003\u2014 Imagino que tenha a ver com minha vida pessoal, j\u00e1 que virou pauta por aqui.<br>\u2003\u2003\u2014 &#8220;Vida pessoal&#8221;. \u2014 Ele soltou uma risada curta, debochada. \u2014 Engra\u00e7ado ouvir isso de algu\u00e9m que tratou a minha empresa como se fosse a sua conta banc\u00e1ria pessoal.<br>\u2003\u2003Meu est\u00f4mago revirou.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o fa\u00e7o ideia do que o senhor est\u00e1 falando.<br>\u2003\u2003\u2014 Tsc, tsc&#8230; \u2014 Ele se levantou devagar. Sua sombra caiu sobre mim como uma amea\u00e7a silenciosa. \u2014 Vamos ao que interessa. Voc\u00ea me d\u00e1 acesso aos %Bhasin%\u2026 \u2014 apontou para um documento sobre a mesa, onde lia-se claramente <em>Vice-Presidente S\u00eanior<\/em> \u2014 \u2026e eu esque\u00e7o que voc\u00ea desviou duzentos e oitenta e sete mil reais da empresa.<br>\u2003\u2003O tempo parou. O tique-taque do rel\u00f3gio na parede bateu como martelo dentro da minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu&#8230; eu n\u00e3o&#8230;<br>\u2003\u2003Minha voz falhou.<br>\u2003\u2003Ele ligou o laptop e, segundos depois, minha pr\u00f3pria voz preencheu a sala: <em>\u201cUsa o fundo de reserva, depois eu resolvo.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Era a grava\u00e7\u00e3o do dia em que Nina quase perdeu a bolsa. Eu tinha feito o que precisava. O que achei que ningu\u00e9m descobriria.<br>\u2003\u2003\u2014 Dois crimes. \u2014 Disse, contando nos dedos, como quem explica algo a uma crian\u00e7a. \u2014 Apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita e fraude cont\u00e1bil.<br>\u2003\u2003Virou o monitor em minha dire\u00e7\u00e3o. Um e-mail meu para o contador. Depois, uma planilha com movimenta\u00e7\u00f5es suspeitas. N\u00fameros alterados. Datas incoerentes. E ent\u00e3o, uma pasta com e-mails impressos.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea pediu para adulterar os registros. Por e-mail. \u2014 Abriu a \u00faltima gaveta e puxou um pen-drive prateado. \u2014 E aqui dentro&#8230; est\u00e1 tudo. Relat\u00f3rios originais. Grava\u00e7\u00f5es. At\u00e9 uma liga\u00e7\u00e3o com o financeiro. \u2014 Jogou o pen-drive sobre a mesa. Ele deslizou lentamente at\u00e9 parar bem \u00e0 minha frente. \u2014 Voc\u00ea usou verba da empresa para pagar a faculdade da sua irm\u00e3. Para impedir o despejo da sua m\u00e3e. Cora\u00e7\u00e3o generoso, %Campelli%. Pena que isso ainda \u00e9 crime.<br>\u2003\u2003Meus olhos correram do contrato para o pen-drive. E ent\u00e3o, finalmente, para o rosto dele.<br>\u2003\u2003\u2014 O que o senhor quer?<br>\u2003\u2003\u2014 Que voc\u00ea conven\u00e7a sua namoradinha a abrir caminho. Fazer com que ela fale com o titio. Me entregue documentos, cl\u00e1usulas, contratos&#8230; qualquer coisa que possa desgastar o velho Adit. Com o material certo, eu compro. Ou destruo.<br>\u2003\u2003Trinquei os dentes. Permaneci em sil\u00eancio. Martinez se aproximou mais um passo e deu dois tapinhas no meu rosto, como se estivesse acariciando um cachorro obediente. Peguei o pen-drive com a m\u00e3o tr\u00eamula. Ele n\u00e3o desviou o olhar, sorria com a calma de quem j\u00e1 havia vencido.<br>\u2003\u2003\u2014 Feche a porta quando sair.<br>\u2003\u2003E eu fechei. Com a alma mais pesada do que qualquer contrato j\u00e1 assinado.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2014 \u053a \u2014<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Sa\u00ed da sala de Davi Martinez com a cabe\u00e7a girando. Era como se ele tivesse despejado uma tonelada de informa\u00e7\u00f5es diretamente no meu c\u00e9rebro, \u00e0 for\u00e7a, sem qualquer cuidado com os estragos. Eu andava no autom\u00e1tico, sem realmente enxergar o caminho at\u00e9 minha mesa. Sentei na cadeira como quem desaba. Ainda sentia o peso daquele pen-drive no bolso, como se ele tivesse o poder de me afundar ou me salvar, dependendo do pr\u00f3ximo passo.<br>\u2003\u2003Baixei os olhos para o celular na minha m\u00e3o, e antes que pudesse pensar duas vezes, abri o aplicativo de mapas. Meus dedos se moveram sozinhos.<br>\u2003\u2003<em>%Bhasin% Company.<\/em><br>\u2003\u2003Fiquei olhando para o trajeto tra\u00e7ado no visor, como se ele fosse me responder alguma coisa. Como se, de algum jeito, o GPS pudesse me dar um rumo moral tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003N\u00e3o demorei a chegar ao pr\u00e9dio comercial da %Bhasin%. Ele ficava pr\u00f3ximo de onde eu trabalhava e o trajeto podia ser feito em vinte minutos ou menos. O c\u00e9u j\u00e1 estava escuro, o expediente havia terminado e havia grandes chances de eu estar ali \u00e0 toa. Ainda assim, me lembrava de Nina comentar que %Anya% costumava sair tarde do trabalho. Resolvi arriscar.<br>\u2003\u2003Entrei no imponente edif\u00edcio e segui direto para o andar dela. O local estava quase vazio, a maioria dos funcion\u00e1rios j\u00e1 havia ido embora. Caminhei at\u00e9 a recep\u00e7\u00e3o e informei que procurava por %Ananya% %Bhasin%. O atendente fez uma liga\u00e7\u00e3o breve e, para meu al\u00edvio, liberou minha entrada.<br>\u2003\u2003Poucos segundos depois, cheguei ao \u00faltimo andar do pr\u00e9dio luxuoso e ao sair do elevador, deparei-me com um \u00fanico rapaz sentado atr\u00e1s de uma mesa simples. Ele parecia jovem \u2014 talvez um estagi\u00e1rio \u2014 e seu crach\u00e1 dourado deixava claro seu cargo: &#8220;secret\u00e1rio&#8221;.<br>\u2003\u2003\u2014 Ol\u00e1, boa noite \u2014 Cumprimentou, mas sua express\u00e3o cansada sugeria que eu era a \u00faltima pessoa que ele queria atender naquela noite, ainda que n\u00e3o fizesse ideia de quem eu era. \u2014 Posso ajudar?<br>\u2003\u2003\u2014 Boa noite. Sou %Anthony% %Campelli%. A %Ananya% ainda est\u00e1 a\u00ed?<br>\u2003\u2003\u2014 O senhor tinha hor\u00e1rio marcado? \u2014 Perguntou, abrindo a agenda sobre a mesa.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. Sou apenas um amigo. Ela est\u00e1?<br>\u2003\u2003Sabia que sim. O porteiro n\u00e3o teria me liberado se ela j\u00e1 tivesse ido embora. E, de onde eu estava, conseguia ver a luz vazando pela fresta da porta. Nela, a placa dourada exibia seu nome completo, seguido do t\u00edtulo em letras discretas: <em>Diretora Financeira<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Vou verificar. Um segundo. \u2014 O rapaz suspirou, levantando-se como se carregasse cinco pedras nos bolsos. Ele bateu \u00e0 porta com leveza e, ap\u00f3s um breve di\u00e1logo que n\u00e3o consegui ouvir, voltou e assentiu com um gesto pregui\u00e7oso. \u2014 O senhor pode entrar.<br>\u2003\u2003Agradeci rapidamente e me aproximei da sala, desviando o olhar dos quadros elegantes que decoravam o corredor.<br>\u2003\u2003O escrit\u00f3rio de %Anya% era amplo, moderno e sofisticado. Uma parede inteira de vidro revelava a cidade iluminada l\u00e1 fora. \u00c0 esquerda, uma estante embutida abrigava livros organizados, uma pequena televis\u00e3o e alguns objetos decorativos. A mesa de trabalho era normal, com duas cadeiras \u00e0 frente. Um sof\u00e1 branco e uma mesinha de apoio completavam o ambiente.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi, %Ant%. \u2014 Ela sorriu ao me ver, levantando-se da cadeira e vindo em minha dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Deus sabe o quanto eu tentei n\u00e3o encarar suas pernas. Juro que tentei. Mas ela usava uma saia l\u00e1pis escura e uma blusa com al\u00e7as finas que deixava os ombros \u00e0 mostra e insinuava mais do que mostrava. A pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de uma mulher poderosa \u2014 e completamente fora do meu alcance \u2014 em um ambiente corporativo.<br>\u2003\u2003E, claro, ela percebeu o exato momento em que meus olhos desceram por seu corpo. Seu sorriso teve um canto ligeiramente erguido. Sutil o suficiente para me fazer questionar se n\u00e3o era coisa da minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi, %Anya%. Desculpa aparecer assim, sem avisar. Eu s\u00f3\u2026 vim.<br>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 tudo bem? \u2014 Perguntou, com um cuidado que me desmontou um pouco. \u2014 Voc\u00ea nunca veio aqui antes.<br>\u2003\u2003\u2014 Aconteceu uma coisa&#8230; \u2014 Caminhei at\u00e9 o sof\u00e1 branco. Sentei devagar, tentando parecer relaxado, mas por dentro, meu cora\u00e7\u00e3o ainda batia no ritmo descompassado da \u00faltima conversa. \u2014 Fui promovido.<br>\u2003\u2003\u2014 Uau\u2026 que&#8230; que legal, %Anthony% \u2014 Respondeu com um sorriso hesitante, for\u00e7ado. Tentava soar empolgada, mas seus olhos j\u00e1 buscavam a segunda camada do que eu estava prestes a dizer. \u2014 Parab\u00e9ns?<br>\u2003\u2003\u2014 Vou te dar um tempinho para juntar as pe\u00e7as \u2014 Murmurei, afrouxando a gravata e recostando no sof\u00e1. Observei o rosto dela se transformar: da confus\u00e3o \u00e0 desconfian\u00e7a&#8230; at\u00e9 chegar no choque.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 %Anya% balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, como se rejeitasse a ideia antes mesmo de digeri-la. \u2014 N\u00e3o pode ser.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode, sim.<br>\u2003\u2003\u2014 Davi? \u2014 Ela deu um passo \u00e0 frente, a voz mais tensa, como se j\u00e1 soubesse a resposta. \u2014 Por favor, me diz que isso n\u00e3o tem a ver comigo.<br>\u2003\u2003\u2014 Infelizmente\u2026 tem tudo a ver com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Ela soltou uma risada nervosa, seca. Depois se calou, como se estivesse tentando absorver o que acabara de ouvir.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o acredito. \u2014 Disse, num tom mais baixo, quase para si mesma.<br>\u2003\u2003O gosto amargo da conversa que tive mais cedo ainda pesava na minha garganta. Eu n\u00e3o sabia se era indigna\u00e7\u00e3o, vergonha ou algo entre os dois. Talvez um pouco dos dois.<br>\u2003\u2003Quando entrei naquela sala, n\u00e3o fazia ideia de que sairia de l\u00e1 t\u00e3o indignado. Davi Martinez n\u00e3o s\u00f3 passou por cima de qualquer senso de \u00e9tica, ele pisoteou. Disse absurdos que jamais poderiam ser repetidos, especialmente para %Anya%.<br>\u2003\u2003A cereja do bolo? A sugest\u00e3o dele de que eu a engravidasse. <em>Engravidasse<\/em>. Como se ela fosse uma jogada estrat\u00e9gica em uma partida suja de xadrez corporativo.<br>\u2003\u2003E, ainda assim, a parte que mais me corro\u00eda era o fato de que ele achou que eu aceitaria. Como se fosse natural. Como se fosse f\u00e1cil. Como se ele soubesse que, no fundo, eu poderia ser comparado. O mais humilhante?<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o estava completamente errado.<br>\u2003\u2003%Anya% se afastou, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a. Levantou-se da mesa e come\u00e7ou a andar de um lado para o outro, os saltos ecoando no piso impec\u00e1vel. Passou uma das m\u00e3os pelos cabelos, os dedos tensos, inquietos.<br>\u2003\u2003\u2014 Martinez est\u00e1 obcecado. E n\u00e3o \u00e9 por voc\u00ea. Nem por mim. \u00c9 pelo seu pai. Ele quer entrar na %Bhasin% a qualquer custo.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que ele quer?<br>\u2003\u2003O tio de %Anya% n\u00e3o era conhecido por jogar limpo e sua nova oferta n\u00e3o fugia \u00e0 regra. N\u00e3o era segredo que ele vinha tentando se infiltrar nas empresas dos %Bhasin% h\u00e1 tempos, buscando uma brecha para posicionar-se estrategicamente em uma das divis\u00f5es mais influentes. E agora, com minha suposta proximidade com %Anya%, o homem viu a oportunidade perfeita e mais f\u00e1cil de inserir-se no setor jur\u00eddico por meio da diretora de finan\u00e7as.<br>\u2003\u2003<em>\u201cEu j\u00e1 tenho um plano, s\u00f3 quero uma chance, sei que com um simples caso l\u00e1 dentro, consigo me instaurar l\u00e1 dentro como uma praga\u201d<\/em>, me recordei das palavras frias do homem.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo. Documentos, acesso, brechas legais. Mas, mais do que isso\u2026 ele quer voc\u00ea. N\u00e3o no sentido pessoal \u2014 Apressei-me a explicar, para evitar mal-entendidos \u2014, mas como porta de entrada. Ele sabe que o Adit confia em voc\u00ea. E que, em tese, voc\u00ea confia no seu \u201cnamorado\u201d.<br>\u2003\u2003Ela franziu o cenho, piscando devagar, como se come\u00e7asse a montar o quebra-cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 me dizendo que ele quer que eu entregue informa\u00e7\u00f5es? Usando voc\u00ea como isca? \u2014 N\u00e3o respondi. Apenas a encarei. E o sil\u00eancio entre n\u00f3s falou mais do que qualquer palavra. \u2014 Ele te amea\u00e7ou? \u00c9 por isso que voc\u00ea est\u00e1 aqui?<br>\u2003\u2003Inclinei levemente a cabe\u00e7a, desviando o olhar.<br>\u2003\u2003\u2014 Davi Martinez nunca pede. Ele imp\u00f5e. \u2014 Ela assentiu devagar, os olhos ainda cravados em mim. Estava desconfiada, tentando decifrar o que eu dizia e, mais ainda, o que eu n\u00e3o dizia. \u2014 Ele quer coisas espec\u00edficas&#8230; C\u00f3pias de contratos. Cl\u00e1usulas confidenciais. Acha que, com a documenta\u00e7\u00e3o certa, pode derrubar o Adit&#8230; ou compr\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 crime, %Anthony%.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei. Mas o Davi n\u00e3o liga para legalidade. Ele s\u00f3 quer resultado.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio caiu de novo. A cidade, l\u00e1 fora, vis\u00edvel atrav\u00e9s da parede de vidro, parecia distante, alheia.<br>\u2003\u2003\u2014 Por que voc\u00ea est\u00e1 me contando isso?<br>\u2003\u2003<em>A verdade que n\u00e3o disse:<\/em> Porque o pen-drive com as provas queima meu bolso como um carv\u00e3o em brasa. Porque preciso que voc\u00ea me odeie o suficiente para ficar longe, mas n\u00e3o tanto para me denunciar.<br>\u2003\u2003\u2014 Porque eu preciso que voc\u00ea esteja atenta. Que se proteja. E que entenda que&#8230; se algu\u00e9m aparecer querendo esse tipo de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vai ser coincid\u00eancia.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que voc\u00ea vai fazer?<br>\u2003\u2003Gostaria de ter a resposta. Mas, por enquanto, s\u00f3 tinha d\u00favidas.<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda estou tentando descobrir.<br>\u2003\u2003%Anya% assentiu devagar. E, mesmo sem confiar completamente, ela entendeu. Porque %Anya% era inteligente. E, acima de tudo, corajosa.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o acredito nisso. N\u00e3o acredito que ele est\u00e1 tentando usar voc\u00ea assim. \u00c9 t\u00e3o covarde, t\u00e3o baixo. \u2014 A voz de %Anya% estava cheia de raiva, seus olhos queimando enquanto ela olhava para mim. \u2014 N\u00e3o consigo acreditar, \u00e9 um absurdo! \u00c9 rid\u00edculo! \u2014 Indignou-se, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele disse que sabia que a %Bhasin% j\u00e1 n\u00e3o era apenas uma montadora h\u00e1 tempos. E que n\u00e3o entendia por que nunca conseguiu se tornar s\u00f3cio \u2014 Contei, tentando manter o tom neutro. Mas meu sangue ainda fervia s\u00f3 de lembrar.<br>\u2003\u2003Repassei a %Anya%, com exatid\u00e3o, cada palavra que Martinez dissera. N\u00e3o omiti nada&#8230; ou quase nada. Usei os mesmos termos que ele, as mesmas express\u00f5es. Se antes ele j\u00e1 tinha poucas chances de conseguir alguma parceria com os %Bhasin%, agora eu havia enterrado de vez qualquer possibilidade.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 claro que ele nunca conseguiu! O imbecil \u00e9 um asno quando se trata de finan\u00e7as. E, al\u00e9m disso, \u00e9 sujo. Se \u00e9 que voc\u00ea me entende. \u2014 Ela passou a m\u00e3o pelos cabelos, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, como se lutasse para entender como aquilo tinha escalado t\u00e3o r\u00e1pido.<br>\u2003\u2003\u2014 O trabalho dele \u00e9 uma farsa. N\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m. Ele passa a perna em investidores, mente nos relat\u00f3rios, manipula os n\u00fameros. A %Bhasin% teria mais preju\u00edzos do que lucros se se envolvesse com um cara desses.<br>\u2003\u2003Ela parou por um segundo, respirando fundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Como voc\u00ea est\u00e1?<br>\u2003\u2003\u2014 Bom\u2026 tirando o fato de que a promo\u00e7\u00e3o que eu sonhei por anos surgiu por conta de uma mentira&#8230; \u2014 Ironizei, antes de me dar conta do que havia deixado escapar.<br>\u2003\u2003A express\u00e3o dela mudou. Da indigna\u00e7\u00e3o para um misto de culpa e decep\u00e7\u00e3o. %Anya% abaixou os olhos, e por um segundo, tudo que ela carregava explodiu em sil\u00eancio. Me xinguei mentalmente. A culpa n\u00e3o era dela. Nenhuma parte disso era.<br>\u2003\u2003\u2014 Calma, a culpa n\u00e3o\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Me desculpa, %Ant%. De verdade. Eu nunca imaginei que\u2026 \u2014 Ela come\u00e7ou a dizer, atropelando as pr\u00f3prias palavras. Mas eu a interrompi tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tem culpa, %Anya%. \u2014 A voz saiu mais firme do que eu esperava. \u2014 Voc\u00ea s\u00f3 tentou me ajudar. E deu certo, no fim das contas. Consegui a promo\u00e7\u00e3o. E o respeito do meu chefe.<br>\u2003\u2003\u2014 Tenho certeza de que voc\u00ea merecia a promo\u00e7\u00e3o, apesar dessa maluquice do tio Davi. \u2014 Tentou me reconfortar, tocando meu ombro que, mesmo de forma leve, deixou minha pele em alerta, mesmo por debaixo da camisa e do palet\u00f3.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu espero que sim, %Anya% \u2014 Murmurei, pesaroso. \u2014 Pensei seriamente em pedir demiss\u00e3o hoje\u2026 mas eu tenho contas para pagar.<br>\u2003\u2003O olhar dela se tornou um espelho inc\u00f4modo: cheio de decep\u00e7\u00e3o, raiva, frustra\u00e7\u00e3o. Tudo junto. Ela estava genuinamente abalada por tudo aquilo, talvez at\u00e9 mais por mim do que pelo pr\u00f3prio Martinez. E isso s\u00f3 tornava tudo ainda mais dif\u00edcil de engolir. Eu me odiava por ter me envolvido com aquilo, por ter permitido que ele me usasse. Por, de alguma forma, ter deixado que isso nos envolvesse.<br>\u2003\u2003Meus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta.<br>\u2003\u2003%Anya% se levantou e eu a acompanhei com o olhar. N\u00e3o por mal\u00edcia \u2014 eu n\u00e3o era um pervertido \u2014, mas porque ela era linda. Linda de verdade. E havia algo nela que tornava imposs\u00edvel n\u00e3o olhar. A forma como ela caminhava, confiante, como se soubesse exatamente quem era. Aquela saia justa&#8230; deixava seu corpo num formato quase irreal.<br>\u2003\u2003Eu podia jurar que a curva da sua bunda parecia um cora\u00e7\u00e3o perfeitamente desenhado.<br>\u2003\u2003\u2014 Senhorita, seu jantar chegou. Devo&#8230;? \u2014 O rapazinho disse, hesitante. Me preparei para levantar, imaginando que aquele era meu sinal para ir embora, mas ela se virou antes que eu dissesse qualquer coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 jantou?<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda n\u00e3o, mas eu j\u00e1 estava indo para casa.<br>\u2003\u2003\u2014 Aqui tem mais do que o suficiente para n\u00f3s dois, %Anthony% \u2014 Pegou a sacola das m\u00e3os do estagi\u00e1rio. \u2014 Me ajuda aqui? \u2014 Me apressei para tirar o peso das m\u00e3os dela, pegando as sacolas. \u2014 Obrigada, Pat.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9\u2026 na verdade, eu queria saber se\u2026 \u2014 Come\u00e7ou ele, parecendo meio nervoso. Mas %Anya% logo o cortou, rindo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, o seu encontro! Me desculpa, voc\u00ea devia ter me avisado. Pode ir, Pat. Est\u00e1 liberado, n\u00e3o se preocupe.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigado, senhorita. E\u2026 n\u00e3o \u00e9 um encontro. \u2014 Retrucou, envergonhado. O que s\u00f3 arrancou mais risadas dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro que n\u00e3o. \u2014 Piscou provocante para o rapaz antes de fechar a porta.<br>\u2003\u2003Se ela piscasse assim para mim\u2026 bom, seria meu fim. Eu, fraco como era para mulheres como %Anya%, passaria dias lembrando daquela piscada.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem certeza de que n\u00e3o estou atrapalhando? \u2014 Perguntei, ainda meio sem jeito. \u2014 Voc\u00ea deve ter trabalho a fazer.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu te coloquei numa confus\u00e3o, %Ant%. O m\u00ednimo que posso fazer \u00e9 te oferecer um jantar. Voc\u00ea gosta de yakissoba?<br>\u2003\u2003Assenti, j\u00e1 ajudando a tirar os potes pl\u00e1sticos da sacola.<br>\u2003\u2003\u2014 De qualquer forma, se voc\u00ea ainda est\u00e1 aqui a essa hora, deve ter uma pilha de coisas para resolver.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sempre tenho. \u2014 Respondeu com um meio sorriso, dando de ombros. \u2014 Por que est\u00e1 de \u00f3culos?<br>\u2003\u2003\u2014 Esqueci minhas lentes \u2014 Devolvi o gesto, tamb\u00e9m encolhendo os ombros. Achei curioso ela ter notado um detalhe t\u00e3o pequeno.<br>\u2003\u2003Ela ligou a TV num jornal qualquer, apenas para ter um som de fundo e seguimos arrumando as coisas juntos. Conversamos mais um pouco sobre Martinez, sobre meu trabalho. A mesa de centro ficou lotada. Era comida demais para uma pessoa s\u00f3 e o cheiro do yakissoba era simplesmente irresist\u00edvel. Pensei no arroz requentado me esperando em casa e decidi que, dessa vez, eu n\u00e3o fingiria educa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Eu nunca tive intimidade com %Ananya%. Desde os tempos de escola, \u00e9ramos pouco mais que conhecidos. Se algu\u00e9m me dissesse que um dia eu estaria sentado no ch\u00e3o do escrit\u00f3rio dela, numa segunda-feira \u00e0 noite, compartilhando um jantar improvisado \u2014 e delicioso \u2014, eu pediria data, hora e localiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o porque duvidasse. Mas porque, sinceramente, n\u00e3o iria querer perder isso por nada.<br>\u2003\u2003\u2014 E ele \u00e9 seu estagi\u00e1rio \u00e0\u2026?<br>\u2003\u2003\u2014 Dois anos \u2014 Respondeu, deixando os hashis dentro da embalagem vazia. \u2014 Ele \u00e9 \u00f3timo. Estou preocupada agora com o contrato dele chegando ao fim. Voc\u00ea \u00e9 advogado, me diz: o que acontece se eu mantiver ele aqui por mais alguns anos?<br>\u2003\u2003\u2014 Se ap\u00f3s a formatura dele, ele n\u00e3o receber bonifica\u00e7\u00f5es, sal\u00e1rios e um contrato espec\u00edfico para \u00e1rea dele, voc\u00ea vai ser processada.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o posso s\u00f3 pagar uma multa e seguir com ele? \u2014 Ela fez um biquinho, distra\u00edda.<br>\u2003\u2003Foi a primeira vez naquela noite em que senti, de verdade, vontade de beij\u00e1-la.<br>\u2003\u2003\u2014 Pelo menos voc\u00ea tem a Nina. Ela com certeza te visitaria na pris\u00e3o. \u2014 %Anya% riu e eu a acompanhei. Olhei para a parede de vidro ao nosso lado, onde nuvens carregadas tomavam o c\u00e9u. Se eu for\u00e7asse a vis\u00e3o, podia ver as primeiras gotas de chuva come\u00e7ando a cair. \u2014 Tem algo no seu rosto\u2026 acho que \u00e9 molho.<br>\u2003\u2003Ela corou levemente, pegando um guardanapo. Mas antes que pudesse us\u00e1-lo, me aproximei e peguei de sua m\u00e3o. Com cuidado, limpei o canto de seu queixo. Ela permaneceu im\u00f3vel, me deixando fazer aquilo. Por um segundo, nossos olhos se encontraram e o tempo pareceu parar.<br>\u2003\u2003Minha m\u00e3o ainda repousava em seu rosto, um segundo al\u00e9m do necess\u00e1rio, quando ela quebrou o sil\u00eancio com uma pergunta inesperada: \u2014 Voc\u00ea \u00e9 um bom advogado?<br>\u2003\u2003\u2014 A-acho que depende da \u00e1rea. Sinceramente, acho que seria melhor se tivesse mais chances de\u2026 trabalhar de verdade. Ultimamente s\u00f3 fa\u00e7o relat\u00f3rios e despachos. Nada meu, sempre dos outros advogados. Me sinto mais estagi\u00e1rio que advogado. \u2014 Hesitei, ent\u00e3o soltei com um sorrisinho: \u2014 Acho que fiz um mau neg\u00f3cio em recusar a proposta do Martinez.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o! Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda, %Ant%. N\u00f3s n\u00e3o estamos. \u2014 Apontou o dedo para mim, firme. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 bom em direito corporativo?<br>\u2003\u2003\u2014 Oh, n\u00e3o! Vai me obrigar a dar consultoria de gra\u00e7a, n\u00e3o \u00e9? \u2014 Brinquei, fingindo exaust\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ela riu e se levantou, indo at\u00e9 a mesa. Voltou com uma pasta nas m\u00e3os e um sorriso travesso no rosto.<br>\u2003\u2003\u2014 Era nisso que eu ia trabalhar agora. Mas est\u00e1 lotado de palavras dif\u00edceis e \u201cjuridiqu\u00eas\u201d que me d\u00e3o sono. E veja s\u00f3 que sorte: tem um advogado sentado no ch\u00e3o do meu escrit\u00f3rio\u2026 e o melhor, ele parece cheio de boa vontade.<br>\u2003\u2003\u2014 A d\u00edvida entre n\u00f3s s\u00f3 aumenta.<br>\u2003\u2003N\u00e3o percebi o quanto aquela frase podia soar d\u00fabia \u2014 ousada at\u00e9 \u2014 at\u00e9 sentir o sil\u00eancio que se formou logo depois. O clima mudou. Pesou. Quando a olhei por cima da lente dos \u00f3culos, ela j\u00e1 me encarava, s\u00e9ria\u2026 ou talvez s\u00f3 concentrada. Eu n\u00e3o sabia ler direito o que via ali. S\u00f3 sabia que estava ficando dif\u00edcil desviar o olhar.<br>\u2003\u2003Um trov\u00e3o forte nos assustou, fazendo com que ambos vir\u00e1ssemos para a janela ao mesmo tempo, vendo a chuva desabar l\u00e1 fora.<br>\u2003\u2003\u2014 Contanto que a gente consiga se ajudar&#8230;<br>\u2003\u2003<em>Fraco para mulheres. Fraco para ela.<\/em><br>\u2003\u2003Assenti, abrindo a pasta no colo, folheando lentamente as p\u00e1ginas. Qualquer desculpa para n\u00e3o a encarar mais.<br>\u2003\u2003Voltamos a nos sentar no sof\u00e1. Apesar de espa\u00e7oso e confort\u00e1vel, ele tinha apenas dois lugares, o que fez com que nossos corpos ficassem inevitavelmente pr\u00f3ximos. Senti o ombro de %Anya% encostar no meu. Um toque leve, quase nada, mas ainda assim, parecia que o atrito entre nossas peles gerava fa\u00edscas.<br>\u2003\u2003Ela usava uma blusa sem mangas, e eu, embora j\u00e1 tivesse tirado o palet\u00f3, ainda vestia uma camisa social grossa demais para que pudesse sentir verdadeiramente sua pele. Mas s\u00f3 a ideia de estarmos encostados j\u00e1 fazia minha respira\u00e7\u00e3o oscilar um pouco.<br>\u2003\u2003Ouvi o barulho do controle da TV em suas m\u00e3os, depois o som dos dedos deslizando pela tela do celular. Ela parecia distra\u00edda, dividida entre os aparelhos. Eu, por outro lado, n\u00e3o conseguia me dividir nem por um segundo. O caso em minhas m\u00e3os exigia aten\u00e7\u00e3o e de fato era interessante, uma causa praticamente ganha para a companhia de energia que a %Bhasin% havia contratado.<br>\u2003\u2003Mas por mais que tentasse focar nas cl\u00e1usulas, nos argumentos, na jurisprud\u00eancia poss\u00edvel, havia algo muito mais dif\u00edcil de ignorar do que um erro processual ou um parecer mal escrito: %Anya%. Sentada ao meu lado, com aquele calor sutil irradiando de sua pele, com aquele perfume leve que parecia se misturar ao som da chuva do lado de fora, ela parecia uma distra\u00e7\u00e3o calculada e inevit\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2014 Posso comer sua tortinha? A minha j\u00e1 acabou. \u2014 Ela me perguntou com um sorriso travesso, e eu, sem hesitar, assenti, pegando a tortinha de chocolate da mesa e entregando a ela. Ela a pegou, parecendo satisfeita. \u2014 E ent\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea precisa de um advogado. \u2014 Sugeri, tentando manter o tom s\u00e9rio.<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que preciso. \u2014 Ela respondeu, me olhando com um brilho nos olhos que fez minha garganta apertar um pouco. Aquela olhada parecia proposital e o jeito como ela falou fez com que eu me sentisse \u00e0 beira de um jogo. Mas, antes que pudesse me perder mais, ela continuou. \u2014 Pode continuar.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 s\u00e9rio, mulher. Voc\u00eas precisam de um advogado. Com mais um pouco de provas contratuais, a companhia ganha a causa. \u2014 Dei uma risada, quase aliviado, mas ainda preocupado com a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Me fale de n\u00fameros, %Anthony%. Quanto eu vou gastar com isso? \u2014 Ela perguntou, voltando \u00e0 sua postura pragm\u00e1tica e firme, como se a conversa fosse algo totalmente normal.<br>\u2003\u2003Isso me fez sorrir, n\u00e3o pude evitar. O pessoal de exatas tem essa caracter\u00edstica, n\u00e3o \u00e9? Tudo \u00e9 mais objetivo.<br>\u2003\u2003\u2014 Exatamente eu n\u00e3o sei, mas deve envolver algo acima de cinco d\u00edgitos, com certeza. \u2014 Falei, tentando ser o mais realista poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2014 Entendi. Amanh\u00e3 vou contatar o advogado daqui. O que devo falar? \u2014 Ela perguntou, e naquele momento, virou-se completamente para mim, com o corpo voltado na minha dire\u00e7\u00e3o. Ela mordia a torta de morango de maneira simples, que n\u00e3o devia ser t\u00e3o provocadora, n\u00e3o devia ser t\u00e3o convidativa. Mas era.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom, inicialmente, a companhia vai se negar a fazer muita coisa sem um mandado judicial. Eles ir\u00e3o recorrer ao sigilo contratual, ent\u00e3o voc\u00eas devem ir preparados para isso. Existem ju\u00edzes que podem autorizar alguns planos por meio de editais, mas\u2026 \u2014 Eu ia continuar, quando percebi o sorriso leve de %Anya% se transformando em uma risada contida. \u2014 O que foi? \u2014 Perguntei, surpreso com a mudan\u00e7a de express\u00e3o dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Acabei de lembrar de voc\u00ea na \u00e9poca da escola. Parecia um menininho, todo s\u00e9rio, e agora voc\u00ea se tornou um advogado de verdade. Que coisa, n\u00e3o \u00e9? \u2014 Ela disse, a risada ainda na voz, fazendo com que eu me visse tentado a rir junto.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tamb\u00e9m lembro de voc\u00ea na escola, %Anya%. N\u00e3o somos de anos t\u00e3o diferentes, n\u00e3o. \u2014 Falei, sem conseguir evitar o sorriso. Mas, ao dizer isso, um sentimento estranho se formou no meu peito. Nostalgia, sim, mas tamb\u00e9m um certo espanto. N\u00e3o pude deixar de me perguntar como \u00e9 que eu, %Anthony%, um simples ex-colega de escola, estava ali, sentado ao lado de %Ananya% %Bhasin%. \u2014 Na verdade, voc\u00ea \u00e9 mais velha que eu, n\u00e3o \u00e9? \u2014 Questionei, como se de repente, a verdade estivesse saindo sem querer.<br>\u2003\u2003\u2014 Apenas um ou dois anos, %Anthony%! \u2014 Ela rebateu, com o tom de voz exasperado e, ao mesmo tempo, divertido. \u2014 Os anos me conservaram bem, \u00e9 claro.<br>\u2003\u2003Com um movimento quase teatral, ela jogou o cabelo para tr\u00e1s, como uma verdadeira princesa. Aquilo foi o suficiente para fazer com que eu ca\u00edsse em uma risada. Eu n\u00e3o era um cara de muitos sorrisos e risadas, eu sempre parecia mais s\u00e9rio do que gostaria, mas %Anya% me deixava leve e confort\u00e1vel o suficiente, ocasionando assim alguns sorrisos despretensiosos em mim.<br>\u2003\u2003\u2014 Os anos te ajudaram, %Anya%. \u2014 Comentei, rindo da atitude presun\u00e7osa dela. %Anya% sabia exatamente o efeito que causava em mim e n\u00e3o fazia quest\u00e3o alguma de esconder isso. \u2014 Sabe, lembro distintamente de voc\u00ea ser a garota nerd e reservada da escola. Ainda tem um rosto de menina, seus cabelos cresceram pouca coisa&#8230; mas mesmo assim, voc\u00ea est\u00e1 mais bonita do que nunca. \u2014 Deixei meus olhos correrem por seu rosto sem nenhuma tentativa de disfarce.<br>\u2003\u2003As bochechas dela coraram levemente, mas seus olhos ganharam um brilho travesso que me fez perceber que alguma resposta j\u00e1 se formava na sua mente. Ela se inclinou para frente com uma suavidade quase ensaiada, apoiando o queixo na m\u00e3o e me lan\u00e7ando um olhar que misturava provoca\u00e7\u00e3o e leveza.<br>\u2003\u2003\u2014 Oh, por favor. Voc\u00ea faz parecer que eu era uma completa nerd reclusa. Est\u00e1 dizendo que continuo igualzinha a dez anos atr\u00e1s? \u2014 O sorriso nos l\u00e1bios dela deixava claro que ela entendeu meu ponto, mas preferia rebater com desd\u00e9m fingido. \u2014 E voc\u00ea? Era o qu\u00ea? O bad boy sempre metido em confus\u00e3o?<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea chama de &#8220;bad boy&#8221;, eu chamo de &#8220;mal compreendido&#8221;. \u2014 Me recostei no sof\u00e1 com um ar de falsa mod\u00e9stia. \u2014 Nina sempre diz que voc\u00ea \u00e9 a pessoa mais t\u00edmida que ela conhece. E que voc\u00ea sempre foi uma crian\u00e7a quieta. Mas eu nunca te vi assim. Pelo contr\u00e1rio, desde os seus quinze anos, sempre achei voc\u00ea segura demais para uma adolescente. Parecia que j\u00e1 sabia quem era.<br>\u2003\u2003Tentei puxar da mem\u00f3ria uma imagem da %Anya% adolescente, mas n\u00e3o consegui. Era como se a vers\u00e3o atual dela dominasse completamente meu pensamento, sufocando qualquer lembran\u00e7a do passado. A presen\u00e7a dela agora era intensa demais. O passado se desfazia diante dela.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea n\u00e3o sabia? \u2014 Ela ergueu a m\u00e3o devagar e, com o dedo indicador, empurrou meus \u00f3culos de volta para o lugar, no alto do meu nariz. O gesto parecia casual, ou talvez nem tanto. Mas o efeito foi imediato.<br>\u2003\u2003\u2014 Com quinze anos? Ningu\u00e9m sabe, %Anya%. \u2014 Tentei manter a compostura, mas o toque sutil me pegou desprevenido. \u2014 Voc\u00ea sempre soube o que queria. E, sinceramente? Acho que at\u00e9 hoje a gente s\u00f3 finge que sabe quem \u00e9. No fundo, est\u00e1 todo mundo s\u00f3 interpretando um adulto, enquanto por dentro continua aquele adolescente de quinze anos tentando entender leis tribut\u00e1rias e o mercado financeiro.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sempre achei voc\u00ea seguro de si. At\u00e9 convencido demais, para idade que tinha. \u2014 Ela disse, com uma express\u00e3o que misturava lembran\u00e7a e provoca\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo fachada. N\u00e3o para impressionar colegas ou namoradinhas. Mas pela minha m\u00e3e. Pela Nina. Elas precisavam de algu\u00e9m forte e eu tentei ser isso. \u2014 Quando meus olhos se abriram de novo, percebi o quanto est\u00e1vamos pr\u00f3ximos naquele sof\u00e1. \u2014 Eu era s\u00f3 um moleque tentando entender quem era. Voc\u00ea, por outro lado\u2026 sempre pareceu ter tudo sob controle.<br>\u2003\u2003\u2014 Nem tudo foi exatamente planejado. \u2014 Ela desviou os olhos por um momento e suas bochechas coraram de novo. Foi r\u00e1pido, mas eu vi. Pela primeira vez, um resqu\u00edcio de timidez escapou. \u2014 Eu, definitivamente, n\u00e3o planejei estar compartilhando o jantar com voc\u00ea, %Anthony%.<br>\u2003\u2003Um sorriso puxou os cantos dos meus l\u00e1bios ao perceber uma pitada de vulnerabilidade em suas palavras. Havia algo desarmado ali, quase impercept\u00edvel, e n\u00e3o pude evitar me perguntar se ela tamb\u00e9m estava sentindo o mesmo pux\u00e3o estranho que eu sentia. Era uma sensa\u00e7\u00e3o leve, mas insistente, como se uma tens\u00e3o silenciosa pairasse entre n\u00f3s, aguardando para ser reconhecida.<br>\u2003\u2003\u2014 A vida nos leva a lugares inesperados, n\u00e3o \u00e9? \u2014 Notei que ela levou as m\u00e3os ao cabelo, tentando prend\u00ea-lo, provavelmente. Mas os segundos passavam&#8230; e uma das m\u00e3os continuava l\u00e1. \u2014 Tudo certo a\u00ed? \u2014 Perguntei, tentando n\u00e3o rir ao ver a express\u00e3o concentrada dela.<br>\u2003\u2003\u2014 Na verdade, n\u00e3o. Minha pulseira ficou presa no cabelo. \u2014 Ela resmungou, claramente irritada com a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Vira. Me deixa ajudar.<br>\u2003\u2003Ofereci ajuda&#8230; e no segundo seguinte, me arrependi.<br>\u2003\u2003Ela virou de costas devagar, inclinando levemente a cabe\u00e7a para o lado para me dar acesso ao cabelo preso. A pulseira, de correntes finas e delicadas, tinha se enrolado em uma mecha. Era um emaranhado pequeno, mas exigia cuidado. Aproximei meu rosto sem perceber, os dedos se movendo devagar, tentando desfazer o n\u00f3 met\u00e1lico entre os fios.<br>\u2003\u2003A pele da nuca dela estava \u00e0 mostra, morna, e o cheiro do seu perfume era discreto, mas presente. Algo entre flores e conforto. Me concentrei na tarefa, ou tentei. O problema era que meu cora\u00e7\u00e3o parecia bater alto demais, como se pudesse denunciar que algo dentro de mim estava mudando.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 tenso. \u2014 A voz dela veio baixa, quase como uma constata\u00e7\u00e3o divertida.<br>\u2003\u2003\u2014 Estou tentando n\u00e3o arrancar um peda\u00e7o do seu cabelo, %Anya%. \u2014 Respondi no mesmo tom, tentando disfar\u00e7ar o quanto minha proximidade com ela estava me afetando. \u2014 \u00c9 uma tarefa perigosa.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro. Perigos\u00edssima. \u2014 Ela sorriu de leve, sem virar o rosto, mas eu vi o canto dos l\u00e1bios se levantar.<br>\u2003\u2003Continuei concentrado, at\u00e9 que, com um movimento cuidadoso, consegui soltar a pulseira. Meus dedos tocaram levemente a pele da nuca dela por um segundo a mais do que o necess\u00e1rio. Ela percebeu. Eu tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 cheio de grampo aqui. \u2014 Murmurei enquanto tentava entender a estrutura inst\u00e1vel do penteado.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00e9cnica de sobreviv\u00eancia. Tr\u00eas reuni\u00f5es seguidas, um caf\u00e9 derramado e nenhum espelho.<br>\u2003\u2003\u2014 Pronto. \u2014 Falei, mais baixo do que pretendia. Depois de libertar o \u00faltimo fio da pulseira, deixei minha m\u00e3o pousada na nuca dela por um segundo a mais do que o necess\u00e1rio. Um toque sutil, mas intencional. \u2014 Tenta agora \u2014 Ela puxou o bra\u00e7o devagar, testando, e depois com um movimento r\u00e1pido quando percebeu que estava livre. \u2014 Viu? Deu certo.<br>\u2003\u2003Num gesto autom\u00e1tico, passei a m\u00e3o por seu ombro nu para remover os fios cortados que haviam ca\u00eddo ali. N\u00e3o imaginei que o contraste entre minha m\u00e3o quente e a pele fria dela fosse causar uma rea\u00e7\u00e3o t\u00e3o clara. %Anya% virou levemente o rosto em minha dire\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se afastou. Continu\u00e1vamos ali, pr\u00f3ximos, presos em algo invis\u00edvel. Por reflexo, me inclinei um pouco mais.<br>\u2003\u2003\u2014 Obrigada. Eu disse que precisava de um advogado. \u2014 A voz dela foi baixa, quase um sopro, e ainda assim vibrou diretamente em meu est\u00f4mago, despertando um nervosismo primitivo.<br>\u2003\u2003\u2014 De nada. Mas, se posso dizer, acho que voc\u00ea vai precisar de mais do que um advogado&#8230; considerando seu talento natural para se meter em encrencas. \u2014 Ela revirou os olhos, um sorriso quase contido surgindo no canto dos l\u00e1bios. \u2014 Continue revirando os olhos assim e eles v\u00e3o acabar ficando presos.<br>\u2003\u2003\u2014 Estou quase contratando voc\u00ea como meu advogado pessoal.<br>\u2003\u2003\u2014 Quase? Eu venho dando conselhos jur\u00eddicos de gra\u00e7a esse tempo todo e voc\u00ea ainda est\u00e1 no \u201cquase\u201d? O que mais preciso fazer para convencer voc\u00ea de vez? \u2014 ergui uma sobrancelha.<br>\u2003\u2003\u2014 Ah, voc\u00ea n\u00e3o quer saber como me convencer&#8230; acredite.<br>\u2003\u2003Minha mente se encheu, num piscar de olhos, com possibilidades que eu preferia n\u00e3o detalhar. Me forcei a manter a compostura, mas n\u00e3o consegui esconder o sorriso enviesado. Ela era ousada, segura e isso me agradava mais do que eu gostaria de admitir.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso foi um desafio? Porque, se foi, saiba que eu nunca recuo diante de um.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 mesmo?<br>\u2003\u2003\u2014 Sim. E n\u00e3o tenho grandes restri\u00e7\u00f5es quanto aos meios que uso para conseguir o que quero.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era exagero. Eu conhecia bem minhas armas, elas sempre me levaram longe. Mas cada conquista vinha acompanhada de um peso que, cedo ou tarde, eu teria que carregar sozinho.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem certeza de que quer entrar nesse jogo, %Ant%? Eu posso ser bem implac\u00e1vel quando quero. Convivo com homens e lobos todos os dias. Sei me virar.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o duvido. Mas posso garantir que n\u00e3o sou como nenhum deles.<br>\u2003\u2003\u2014 E o que te faz diferente?<br>\u2003\u2003\u2014 Bem, para come\u00e7ar, n\u00e3o tenho muito senso de moralidade. \u2014 Continuei, sem rodeios. \u2014 E, se quer saber, tenho um talento especial para fazer as pessoas me darem o que eu quero, ainda que sem perceber.<br>\u2003\u2003Sabia que aquilo poderia soar quase intimidador, mas estava longe de ser uma confiss\u00e3o cheia de culpa ou arrependimento. Era apenas uma verdade sobre mim, uma das v\u00e1rias que eu n\u00e3o fazia quest\u00e3o de esconder, apesar de sentir vergonha com alguns aspectos mais brutos da minha personalidade.<br>\u2003\u2003\u2014 E&#8230; o que voc\u00ea quer agora?<br>\u2003\u2003Esse era o problema \u2014 um dos muitos \u2014 com %Anya%. Ela n\u00e3o se intimidava. Nem por um segundo.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tem ideia do que eu quero agora.<br>\u2003\u2003Quando seu corpo se virou ainda mais e nossos olhos se encontraram, percebi que o que estava prestes a acontecer era inevit\u00e1vel. Eu iria beijar %Ananya% %Bhasin% e ela iria deixar.<br>\u2003\u2003Vi meu desejo refletido nos olhos dela e, percebi, com um certo al\u00edvio carregado de tens\u00e3o, que ela sentia exatamente o mesmo. Aquele magnetismo entre n\u00f3s n\u00e3o era unilateral. Ela tamb\u00e9m estava sendo puxada para mim, com a mesma for\u00e7a crua e inevit\u00e1vel.<br>\u2003\u2003J\u00e1 n\u00e3o havia espa\u00e7o para d\u00favida, muito menos para recuo. Se eu pensasse demais, poderia vacilar. Ent\u00e3o, sem dar a mim mesmo essa chance, estendi a m\u00e3o e segurei seu queixo com delicadeza, guiando seu rosto para cima, em dire\u00e7\u00e3o ao meu. Os olhos de %Anya% abandonaram os meus e desceram lentamente at\u00e9 minha boca. Quando ela fechou as p\u00e1lpebras, uma onda de satisfa\u00e7\u00e3o atravessou meu corpo. N\u00e3o de maneira arrogante, mas como se, enfim, algo fizesse sentido.<br>\u2003\u2003Uma vontade quase infantil de comemorar me invadiu. E eu soube, com todas as certezas poss\u00edveis, que a \u00fanica forma aceit\u00e1vel de comemorar aquilo era encostando meus l\u00e1bios nos dela.<br>\u2003\u2003A atmosfera em volta de n\u00f3s parecia carregada, nem sequer hav\u00edamos nos tocado de fato, e tudo j\u00e1 queimava.<br>\u2003\u2003Puxei-a para mais perto, aprofundando o beijo, minha m\u00e3o deslizando do seu queixo para a nuca, segurando-a firmemente contra mim. Passei os l\u00e1bios nos dela, subi por suas bochechas, passei pela mand\u00edbula e voltei para seus l\u00e1bios, tudo isso para tentar gravar a textura macia de sua pele.<br>\u2003\u2003Tentei ser o mais atencioso poss\u00edvel, pois n\u00e3o sabia quando teria essa oportunidade de novo. Mas %Anya% n\u00e3o estava com tanta paci\u00eancia e capturou meus l\u00e1bios rapidamente. N\u00e3o demorou muito para que eu perdesse o controle, puxando-a pela cintura e virando o seu corpo de frente para mim.<br>\u2003\u2003Aquilo n\u00e3o estava certo. Eu precisava me afastar imediatamente. Era um erro acontecendo, principalmente em um momento como aquele. Se fosse em qualquer outro dia, eu n\u00e3o pensaria duas vezes, mas naquele dia, especificamente, estava tudo estranho, incerto e anormal.<br>\u2003\u2003\u2014 Me pare. \u2014 Pedi num sussurro rouco, minha respira\u00e7\u00e3o pesada. Deslizei a m\u00e3o pela perna dela at\u00e9 alcan\u00e7ar os p\u00e9s, retirando seus sapatos com calma, como se isso adiasse o inevit\u00e1vel. \u2014 %Anya%, me pare, por favor.<br>\u2003\u2003Passei as m\u00e3os sob seus joelhos e a puxei para o meu colo. A saia apertada limitava seus movimentos, mas suas coxas apertando minha cintura pareciam um convite imposs\u00edvel de ignorar. %Anya% afastou os l\u00e1bios dos meus, sem desviar o olhar, e seus dedos encontraram o n\u00f3 da minha gravata, desfazendo-o com precis\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Me pare voc\u00ea, %Ant%.<br>\u2003\u2003Mas eu n\u00e3o podia. N\u00e3o queria. Permaneci im\u00f3vel, deixando que ela conduzisse. Quando puxei sua saia para cima, senti seu corpo pressionar ainda mais contra o meu e soltei o ar com um som quase desesperado.<br>\u2003\u2003\u2014 Ainda d\u00e1 tempo de fugir&#8230; \u2014 Murmurei, a voz carregada de um \u00faltimo tra\u00e7o de lucidez.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas eu n\u00e3o quero fugir.<br>\u2003\u2003Soltei um gemido fraco quando senti seus mamilos duros contra minha camisa, os quadris buscando os meus com uma urg\u00eancia que me desarmava por completo. Eu j\u00e1 sabia: n\u00e3o iria parar enquanto n\u00e3o estivesse dentro dela. E ela queria o mesmo.<br>\u2003\u2003\u2014 Espera&#8230; Aqui n\u00e3o. \u2014 Disse, lan\u00e7ando um olhar r\u00e1pido para a porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Vai ser r\u00e1pido. \u2014 Prometi, j\u00e1 a colocando contra o sof\u00e1 com certa pressa.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 loucura&#8230; \u2014 Falou, mas seus dedos j\u00e1 estavam abrindo os bot\u00f5es da minha camisa.<br>\u2003\u2003Sem motivo algum, n\u00f3s t\u00ednhamos pressa. Com rapidez e vontade, minha camisa foi para o ch\u00e3o junto a saia de %Anya%. As respira\u00e7\u00f5es ofegantes se misturaram enquanto nos beij\u00e1vamos de forma voraz. O jeito como ela movia o quadril em cima de mim era satisfat\u00f3rio, mas seria melhor se estiv\u00e9ssemos sem as camadas de roupas nos cobrindo.<br>\u2003\u2003Nem o som das trovoadas do lado de fora do edif\u00edcio tirou nossa aten\u00e7\u00e3o. Eu sentia meus l\u00e1bios inchados, meu corpo ardia e at\u00e9 minhas pernas estavam bambas, mesmo que eu estivesse sentado.<br>\u2003\u2003Se antes era %Anya% quem parecia tomada pela pressa, a din\u00e2mica mudou no instante em que senti suas m\u00e3os deixarem meus ombros e irem direto para o c\u00f3s da minha cal\u00e7a. A urg\u00eancia agora vinha de n\u00f3s dois. Era palp\u00e1vel e quase desesperada. Desci os beijos pelo seu pesco\u00e7o, absorvendo o cheiro adocicado da sua pele, e fui at\u00e9 a borda da calcinha preta que cobria sua intimidade. Levantei os olhos em dire\u00e7\u00e3o ao rosto dela, procurando por qualquer sinal de hesita\u00e7\u00e3o. Mas o que encontrei foi a confirma\u00e7\u00e3o silenciosa que eu precisava: um leve aceno com a cabe\u00e7a e o quadril erguido para me ajudar a tirar a pe\u00e7a por completo.<br>\u2003\u2003Sorri, satisfeito. Era real. Est\u00e1vamos ali, juntos, conscientes do que aconteceria a seguir.<br>\u2003\u2003Levei a m\u00e3o at\u00e9 sua intimidade exposta, ro\u00e7ando levemente com os dedos e encontrei exatamente o que esperava: T\u00e3o pronta quanto eu. E, sinceramente, se esper\u00e1ssemos mais um segundo sequer, eu n\u00e3o conseguiria aguentar. Logo, eu estava dentro de %Ananya% %Bhasin%, estocando em seu interior com uma urg\u00eancia crua, quase juvenil.<br>\u2003\u2003Era como reviver a sensa\u00e7\u00e3o de adolesc\u00eancia mal resolvida, o tipo de desejo que nasce quando a melhor amiga da sua irm\u00e3 passa por voc\u00ea sem sequer notar sua exist\u00eancia\u2026 e, mesmo assim, algo dentro de voc\u00ea queima.<br>\u2003\u2003Agora, por\u00e9m, ela estava ali. Em meus bra\u00e7os. Sob meus toques.<br>\u2003\u2003Agarrei seus quadris com for\u00e7a, sentindo meus dedos afundados na carne macia. Sua respira\u00e7\u00e3o estava quente e pesada contra seu pesco\u00e7o enquanto ela gemia baixinho e apertava meu corpo com as m\u00e3os, sem decidir onde tocar. O som estalado dos quadris se chocando um contra o outro deixava a atmosfera na sala exorbitante e ardente.<br>\u2003\u2003Era a melhor segunda-feira chuvosa da minha vida.<br>\u2003\u2003%Ananya% %Bhasin% n\u00e3o se importava em ficar por cima, sentando-se em meu membro de maneira graciosa e altamente satisfat\u00f3ria de assistir. Eu acariciava sua cintura enquanto assistia os seios fartos dela se moverem quase para fora da camiseta. Ela apoiava as m\u00e3os no sof\u00e1 atras de mim, rebolando em um ritmo delirante.<br>\u2003\u2003Rapidamente (e vergonhosamente), n\u00e3o demorou para que eu sentisse que meu \u00e1pice estava pr\u00f3ximo e foi ainda mais r\u00e1pido quando %Anya% sussurrou em meu ouvido que estava <em>\u201cquase l\u00e1\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003Senti os l\u00e1bios dela ferozmente em meu pesco\u00e7o quando voltei a deit\u00e1-la no sof\u00e1. N\u00e3o diminui a velocidade em que j\u00e1 estava. Assisti %Anya% jogar a cabe\u00e7a para tr\u00e1s e gemer deliciosamente. Sa\u00ed de dentro dela quando percebi que estava pr\u00f3ximo de ejacular. Iria me afastar e lidar com aquilo sozinho, mas %Anya% foi mais r\u00e1pida e envolveu meu membro com uma m\u00e3o, massageando de maneira r\u00e1pida e deliciosa, e logo, me desfiz em suas m\u00e3os.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s limpar a m\u00e3o na pr\u00f3pria saia, %Anya% levou os dedos aos longos cabelos negros e, com a calma de quem tentava reorganizar a pr\u00f3pria lucidez, prendeu-os em um coque frouxo. O sil\u00eancio que se seguiu foi denso, entrecortado apenas pela nossa respira\u00e7\u00e3o ainda descompassada.<br>\u2003\u2003Quando nossos olhares se cruzaram de novo, ambos soltamos uma risada abafada, nervosa, descrente, quase desesperada.<br>\u2003\u2003\u2014 O que diabos a gente acabou de fazer? \u2014 Murmurei, levando a m\u00e3o ao cabelo e penteando-o para tr\u00e1s, como se isso pudesse me trazer algum controle da situa\u00e7\u00e3o. Uma mistura sufocante de felicidade, culpa e p\u00e2nico percorreu meu peito, tudo ao mesmo tempo, tudo de uma vez s\u00f3.<br>\u2003\u2003Meu Deus. Eu tinha acabado de transar com %Ananya% %Bhasin%.<br>\u2003\u2003E por mais que uma parte de mim gritasse que aquilo tinha sido incr\u00edvel&#8230; tudo o que eu conseguia pensar era no tamanho do problema que isso traria. Um grande, grande problema.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2014 \u053a \u2014<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Quando cheguei em casa, j\u00e1 passava da meia-noite. Estranhei ao ver as luzes da sala ainda acesas. Normalmente, \u00e0quela hora, a casa j\u00e1 estaria mergulhada no sil\u00eancio. Tirei o palet\u00f3 e o joguei por cima da cadeira. Estava prestes a largar as chaves na mesa quando minha m\u00e3o parou no ar. No sof\u00e1, Nina estava deitada, com alguns pap\u00e9is espalhados sobre o peito e ressonando suavemente.<br>\u2003\u2003Olhei para o rel\u00f3gio e avaliei a situa\u00e7\u00e3o. Deveria deix\u00e1-la ali, em paz no pr\u00f3prio cansa\u00e7o, ou acord\u00e1-la para dividir a loucura que eu acabara de cometer naquela noite?<br>\u2003\u2003\u2014 Nina? \u2014 Murmurei, tocando de leve seu ombro. \u2014 Voc\u00ea tem um quarto, sabia?<br>\u2003\u2003\u2014 Nossa, eu apaguei! \u2014 Exclamou, ainda sonolenta, esfregando o rosto com as duas m\u00e3os. \u2014 Tenho muita coisa para estudar, mas esse sono est\u00e1 me vencendo&#8230; \u2014 Resmungou, parecendo exausta. \u2014 Acho que vou precisar da sua ajuda com um relat\u00f3rio&#8230;<br>\u2003\u2003Quando decidimos seguir a mesma profiss\u00e3o, nunca imaginamos que o Direito consumiria tanto da gente. As conversas que antes giravam em torno de sonhos, viagens e planos de futuro agora se resumiam a prazos, recursos e audi\u00eancias. Um amontoado de termos jur\u00eddicos substituindo o que um dia foi intimidade de irm\u00e3os.<br>\u2003\u2003Enquanto ela falava, comecei a mexer nas correspond\u00eancias espalhadas pela mesa, separando o que iria para o lixo do que ainda merecia aten\u00e7\u00e3o. Ela comentava algo sobre jurisprud\u00eancia e an\u00e1lise t\u00e9cnica, mas minha aten\u00e7\u00e3o foi capturada por um envelope destacado com um \u201cAVISO\u201d em letras vermelhas. Meu cora\u00e7\u00e3o bateu mais forte. Sem pensar muito, escondi o envelope no meio dos outros pap\u00e9is, fechei tudo em um ma\u00e7o s\u00f3 e os enfiei na mochila.<br>\u2003\u2003\u2014 Deixa em cima da mesa e eu dou uma olhada para voc\u00ea. \u2014 Murmurei, sol\u00edcito, tentando manter a voz firme. \u2014 Eu vou pro meu quarto, preciso de um banho. Vai descansar, Nina.<br>\u2003\u2003Passei a m\u00e3o pelos cabelos castanhos enrolados dela com carinho, num gesto autom\u00e1tico e protetor. Depois, segui pelo corredor em sil\u00eancio, sentindo o peso da noite inteira acumulando nos ombros. Assim que entrei no quarto, tranquei a porta com cuidado e me recostei nela por um segundo, inspirando fundo.<br>\u2003\u2003A primeira coisa que fiz foi abrir a mochila. Vasculhei rapidamente at\u00e9 encontrar o envelope marrom. Minhas m\u00e3os tremiam um pouco quando o retirei, como se o papel fosse mais pesado do que realmente era. Sentei-me na beira da cama e o abri com cuidado, j\u00e1 esperando o pior.<br>\u2003\u2003A carta era objetiva. Fria. Quase cruel.<br>\u2003\u2003<em>\u201cEste \u00e9 o pen\u00faltimo aviso referente ao atraso do pagamento do aluguel do im\u00f3vel. Em caso de inadimpl\u00eancia persistente, os %Campelli% ser\u00e3o notificados judicialmente. Favor regularizar a situa\u00e7\u00e3o com urg\u00eancia.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Meus olhos percorreram as linhas mais de uma vez, como se uma releitura pudesse suavizar a gravidade da mensagem. Mas o significado continuava o mesmo: est\u00e1vamos por um fio. Um \u00fanico aviso nos separava de uma a\u00e7\u00e3o judicial. E eu n\u00e3o tinha a menor ideia de como resolver aquilo.<br>\u2003\u2003Um misto de pregui\u00e7a e cansa\u00e7o amea\u00e7ou me derrubar, mas eu sabia que tinha que concluir alguns trabalhos ainda naquela noite. O plano era mergulhar no computador at\u00e9 a madrugada, mas antes disso, optei por um banho relaxante para tentar recuperar um pouco da energia e clareza que eu sabia que precisaria.<br>\u2003\u2003Joguei os pap\u00e9is na cama e olhei novamente para o espelho. O reflexo me encarava e a sensa\u00e7\u00e3o de que eu n\u00e3o tinha mais controle sobre nada, nem sobre mim mesmo, era insuport\u00e1vel.<br>\u2003\u2003Enquanto tirava a camisa, algo no espelho chamou minha aten\u00e7\u00e3o. Um grande ponto avermelhado sobressa\u00eda na minha clav\u00edcula, vis\u00edvel mesmo sob a luz fraca do quarto. Me aproximei do espelho e, ao inclinar o pesco\u00e7o, vi que n\u00e3o era apenas um. %Anya% tinha me deixado com v\u00e1rios chup\u00f5es. Respirei fundo e soltei uma risada baixa, ainda incr\u00e9dulo com o que havia acontecido horas atr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Aquilo era um lembrete f\u00edsico do qu\u00e3o longe eu tinha ido e de qu\u00e3o errado tudo parecia agora.<br>\u2003\u2003Al\u00e9m de esconder da Nina a real situa\u00e7\u00e3o da nossa vida financeira, agora eu tinha um novo segredo: transar com a melhor amiga da minha irm\u00e3. Que belo irm\u00e3o, %Anthony%. Um verdadeiro exemplo. E, para piorar tudo, ainda tinha o acordo com Martinez. O maldito acordo que me prendeu nesse jogo sujo e me fez cruzar limites que eu nunca imaginei que teria coragem de ultrapassar. Ele me amea\u00e7ou, claro. Disse que, se eu n\u00e3o cumprisse o que foi combinado, as consequ\u00eancias seriam terr\u00edveis. Ele sabia onde mexer, sabia como me pressionar.<br>\u2003\u2003Era por isso que eu fazia tudo aquilo. Por Nina. Pela m\u00e3e. Pelo apartamento min\u00fasculo que era tudo o que t\u00ednhamos. Mas no sil\u00eancio do banheiro, com o cheiro do perfume caro da %Anya% ainda grudado na minha pele, uma verdade do\u00eda mais que todas as amea\u00e7as: Eu j\u00e1 n\u00e3o sabia mais se estava salvando minha fam\u00edlia&#8230; ou apenas afundando todos n\u00f3s juntos.<br>\u2003\u2003Mas, como se isso n\u00e3o fosse suficiente para me fazer perder o sono, havia outro detalhe ainda mais absurdo naquela equa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica: %Ananya% era prima da Kiara. Sim, <em>a<\/em> Kiara. Minha ex. A mulher com quem tive um dos relacionamentos mais intensos, e que, apesar de todos os nossos desencontros, ainda considerava a melhor namorada que j\u00e1 tive.<br>\u2003\u2003Passei a m\u00e3o pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos, mas s\u00f3 piorei a bagun\u00e7a mental.<br>\u2003\u2003Se Kiara descobrisse o que aconteceu, ela provavelmente me riscaria da vida dela de vez. E n\u00e3o que eu estivesse nutrindo alguma esperan\u00e7a de reconcilia\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o gostava da ideia de ser odiado por algu\u00e9m que j\u00e1 me conheceu t\u00e3o bem. E, sinceramente, talvez eu merecesse o desprezo dela agora.<br>\u2003\u2003Minha rela\u00e7\u00e3o com Kiara era, no m\u00ednimo, intensa. Ao longo da minha vida, tive v\u00e1rias namoradas, mas, estranhamente, sempre que algu\u00e9m toca no assunto de relacionamentos amorosos, ela \u00e9 a primeira a surgir na minha mente.<br>\u2003\u2003Kiara foi memor\u00e1vel. Foi um furac\u00e3o que surgiu em minha vida em uma noite de sexta-feira e essa compara\u00e7\u00e3o nunca me pareceu t\u00e3o apropriada.<br>\u2003\u2003Kiara era como uma noite de sexta-feira, cheia de promessas e possibilidades, trazendo consigo a excita\u00e7\u00e3o do inesperado. Desde o primeiro instante, estar com Kiara era como mergulhar em um turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es. O frio na barriga que sentia ao seu lado era inconfund\u00edvel. Ela me proporcionava frio na barriga, ansiedade, cora\u00e7\u00e3o acelerado, da melhor forma poss\u00edvel. E tamb\u00e9m da pior. Gost\u00e1vamos de festas, bebidas alco\u00f3licas, de ir ao cinema nos s\u00e1bados, jantar comida italiana nas quartas-feiras e transar ao ar livre.<br>\u2003\u2003A %Bhasin% perdida \u2014 ela sequer usava o sobrenome %Bhasin% tamanho horror a ser relacionada com a fam\u00edlia poderosa \u2014 come\u00e7ou a negar o cinema nos s\u00e1bados, recusou pasta italiana, ia a festas sozinha, voltava b\u00eabada e sem muita paci\u00eancia.<br>\u2003\u2003Eu amava Kiara, amava seu esp\u00edrito livre, sua maneira \u00fanica de ver o mundo e frequentemente me via construindo uma fam\u00edlia ao seu lado. A ideia de um futuro juntos era reconfortante. No entanto, havia um paradoxo em nosso relacionamento que s\u00f3 fui notar quando est\u00e1vamos pr\u00f3ximos do nosso fim.<br>\u2003\u2003A vida que eu sonhava para n\u00f3s era, para ela, uma pris\u00e3o. Ela queria aventuras, surpresas, e, na busca por um relacionamento mais sereno, percebi que n\u00e3o conseguia satisfazer esse desejo dela. O que eu via como estabilidade e seguran\u00e7a, para ela, parecia ser uma forma de estagna\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Essa diferen\u00e7a fundamental entre n\u00f3s come\u00e7ou a criar um abismo que, por mais que eu tentasse preencher com carinho e dedica\u00e7\u00e3o, parecia apenas aumentar com o tempo.<br>\u2003\u2003Nada era simples com Kiara, mas na \u00e9poca, n\u00e3o parecia complicado. Entretanto, depois de muito tempo refletindo, tentando buscar uma falha pr\u00f3pria em meu relacionamento, percebi coisas que nunca tinha percebido. Uma delas era a quantidade de \u00e1lcool que consum\u00edamos juntos. N\u00e3o que isso fosse, por si s\u00f3, um problema, mas frequentemente nos v\u00edamos apagando no sof\u00e1 antes mesmo de o dia terminar, mergulhando em uma n\u00e9voa de bebidas que parecia mascarar as conversas e momentos mais significativos entre n\u00f3s.<br>\u2003\u2003\u00c0s vezes, eu tinha a impress\u00e3o de que est\u00e1vamos sempre buscando valida\u00e7\u00e3o em aventuras cotidianas, como se a emo\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea de uma festa ou a companhia de amigos fossem suficientes para preencher um vazio que n\u00e3o consegu\u00edamos reconhecer.<br>\u2003\u2003N\u00e3o demorou muito para que come\u00e7\u00e1ssemos a conversar sobre um poss\u00edvel tempo separados. Desde ent\u00e3o, nunca mais voltamos a ser um casal.<br>\u2003\u2003Eu compreendia que essas dificuldades fazem parte da vida e que rela\u00e7\u00f5es amorosas n\u00e3o garantem a perman\u00eancia. No nosso caso, percebia que talvez n\u00e3o f\u00f4ssemos t\u00e3o saud\u00e1veis ou felizes quanto pens\u00e1vamos. Eu n\u00e3o gostava de sentir falta de Kiara, eu tinha amor-pr\u00f3prio o suficiente para fingir n\u00e3o querer estar com uma pessoa que n\u00e3o queria estar comigo. Mas esses sentimentos s\u00e3o dif\u00edceis de controlar e de evitar.<br>\u2003\u2003Tudo s\u00f3 piorava quando chegava o s\u00e1bado de noite e eu queria ir ao cinema. Mas sozinho n\u00e3o tinha gra\u00e7a.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s um banho mais demorado que eu havia planejado, voltei para a mesa bagun\u00e7ada e, antes de come\u00e7ar a finalizar todo o trabalho que levei para terminar em casa, peguei a carta de aviso em cima da escrivaninha novamente. Suspirei, frustrado, e me joguei na cama, sentindo vontade de gritar contra o travesseiro.<br>\u2003\u2003A carta, mais uma entre tantas que recebi, acabou seguindo o mesmo destino das anteriores: eu a empurrei para baixo da cama, onde ela se misturava com o resto das promessas n\u00e3o cumpridas e das decis\u00f5es erradas.<br>\u2003\u2003Todos os dias eu me sentia o maior burro de todos os tempos por ter deixado a situa\u00e7\u00e3o chegar nesse ponto. Era um pensamento que n\u00e3o me abandonava, ecoando em minha mente como um mantra de autocr\u00edtica.<br>\u2003\u2003Eu sabia que precisava fazer algo, entretanto, a cada dia que passava, esse &#8220;algo&#8221; se tornava mais dif\u00edcil. Aquelas cartas de aviso, os olhares desconfiados da Nina, a press\u00e3o de Mart\u00ednez, as consequ\u00eancias de uma mentira em cima da outra&#8230; tudo parecia um peso insuport\u00e1vel. Mas, no fundo, eu tamb\u00e9m sabia que n\u00e3o poderia continuar empurrando tudo para debaixo da cama, assim como eu fazia com a carta.<br>\u2003\u2003Suspirei mais uma vez, virando de lado e afundando o rosto no travesseiro. O som da minha respira\u00e7\u00e3o pesada parecia se misturar com os pensamentos turbulentos, criando um emaranhado de frustra\u00e7\u00f5es e inseguran\u00e7as.<br>\u2003\u2003Como cheguei at\u00e9 aqui? Onde foi que tudo come\u00e7ou a desmoronar? Eu j\u00e1 n\u00e3o tinha respostas para nada. E talvez essa fosse a parte mais assustadora de tudo: n\u00e3o saber o que fazer e n\u00e3o saber mais quem eu estava tentando enganar.<br>\u2003\u2003Ser filhos de m\u00e3e solteira nos ensinou a amarrar os sapatos antes de aprender a soletrar &#8220;abandono&#8221;. Nina e eu sempre fomos respons\u00e1veis e maduros. Entretanto, tivemos um contratempo impiedoso e cruel em nossas vidas: Aquela mancha roxa no bra\u00e7o da mam\u00e3e que n\u00e3o era hematoma.<br>\u2003\u2003Leucemia.<br>\u2003\u2003A palavra soava como um veredito mesmo antes do diagn\u00f3stico oficial. E quando ela partiu, nos deixou um legado amargo: O apartamento min\u00fasculo cheio de seu cheiro ainda preso nos sof\u00e1s e as d\u00edvidas que se multiplicavam como ervas daninhas.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s o grande baque, n\u00f3s sofremos de forma intensa, j\u00e1 que ambos \u00e9ramos bastante apegados \u00e0 nossa m\u00e3e. Por\u00e9m, foi Nina quem desabou completamente ap\u00f3s o ocorrido. Minha irm\u00e3 transformou-se num fantasma que arrastava seus len\u00e7\u00f3is pelo corredor. Durante um ano, eu deixava pratos de comida na porta do quarto dela e os recolhia intocados no dia seguinte. At\u00e9 que numa quinta-feira comum, Nina decidiu que queria estudar novamente, queria fazer faculdade de Direito, assim como eu.<br>\u2003\u2003Foi uma surpresa e tanto. Num dia qualquer, em meio \u00e0 rotina silenciosa e sem esperan\u00e7a, Nina simplesmente saiu do quarto depois de um ano inteiro de reclus\u00e3o. Eu n\u00e3o tinha mais expectativas quanto \u00e0 sua melhora, mas ali estava ela, diante de mim, dizendo que queria fazer algo da vida.<br>\u2003\u2003Naquela noite, abri o laptop e revisei nossas contas pela cent\u00e9sima vez. Foi quando percebi que meu objetivo n\u00e3o era mais quitar hipotecas ou organizar d\u00edvidas. Meu prop\u00f3sito agora era garantir que minha irm\u00e3 tivesse a chance de recome\u00e7ar, de transformar a dor que a paralisou em algo que desse sentido \u00e0 nossa trag\u00e9dia.<br>\u2003\u2003Os n\u00fameros n\u00e3o mentiam: ou eu pagava a faculdade dela, ou salv\u00e1vamos o apartamento. N\u00e3o dava para ambos.<br>\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que vi \u2014 realmente vi \u2014 a conta secreta da WDM Corp no extrato. Aquele fundo de reserva que ningu\u00e9m mexia. <strong>287.604,32<\/strong> dormindo l\u00e1, enquanto minha irm\u00e3 definhava.<br>\u2003\u2003Foi ali, entre planilhas e boletos, que nasceu minha maior loucura.<br>\u2003\u2003T\u00e1, e minha maior burrice tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Nina agora era graduanda em Direito, uma das melhores da turma, prestes a se formar com louvor. Mas para que ela chegasse at\u00e9 ali, eu precisei agir como um pol\u00edtico corrupto: fiz desvios de verba. Primeiro pequenos. Depois, maiores. Sempre com a mesma mentira que contava a mim mesmo: era tempor\u00e1rio. Eu ia resolver tudo.<br>\u2003\u2003Achei que ningu\u00e9m jamais descobriria. Que aquele momento desesperado passaria despercebido como tantos outros. Mas Davi Martinez sabia. O desgra\u00e7ado tinha tudo.<br>\u2003\u2003Planilhas com movimenta\u00e7\u00f5es suspeitas, e-mails trocados entre mim e o contador com pedidos de altera\u00e7\u00e3o. Datas incoerentes, registros manipulados, relat\u00f3rios originais. At\u00e9 grava\u00e7\u00f5es de liga\u00e7\u00f5es com o setor financeiro. Toda a trilha da minha destrui\u00e7\u00e3o estava reunida, compactada naquele pen-drive.<br>\u2003\u2003Assim, tudo mudou, mas n\u00e3o como eu esperava. Martinez n\u00e3o queria justi\u00e7a. N\u00e3o estava interessado em me denunciar. Pelo contr\u00e1rio. Eu era \u00fatil demais para isso. Uma pe\u00e7a menor que havia escorregado, perfeita para ser manipulada.<br>\u2003\u2003Enquanto eu desviava quantias modestas para tentar manter minha fam\u00edlia de p\u00e9, ele fazia o mesmo e em escalas muito maiores, h\u00e1 anos. Com a frieza de quem j\u00e1 sabia como apagar rastros.<br>\u2003\u2003No fim, meu erro foi a desculpa ideal. Tornei-me ref\u00e9m. E ele, dono de cada prova contra mim, deixou claro que eu n\u00e3o devia apenas dinheiro. Devia sil\u00eancio. Obedi\u00eancia. Lealdade. Esse foi o verdadeiro in\u00edcio do nosso acordo.<br>\u2003\u2003Eu sabia que estava jogando sujo. Mentir para Nina sobre a real situa\u00e7\u00e3o financeira era uma afronta direta ao que nossa m\u00e3e sempre acreditou sobre fam\u00edlia e honestidade. Mas o peso de cuidar dela era mais forte do que qualquer remorso.<br>\u2003\u2003E, no fundo, eu n\u00e3o podia negar: o olhar de Nina ao falar sobre sua carreira ainda era uma das poucas coisas que me traziam alguma luz. Ela se tornara a mulher que minha m\u00e3e sonhou: era determinada, forte, inteligente, capaz de caminhar com as pr\u00f3prias pernas. E eu, como irm\u00e3o, faria qualquer coisa para garantir que ela chegasse l\u00e1. Mesmo que isso significasse sacrificar o que restava de n\u00f3s. Mesmo que, aos poucos, eu estivesse destruindo o futuro que tentei proteger.<br>\u2003\u2003O que parecia uma solu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria logo se revelou um caminho repleto de armadilhas.<br>\u2003\u2003Uma pasta fina passou por baixo da porta. Levantei-me da cama, peguei o material e logo reconheci o t\u00edtulo impresso na primeira p\u00e1gina: <em>&#8220;A \u00c9tica na Advocacia Moderna&#8221;.<\/em><br>\u2003\u2003Ironias do destino.<br>\u2003\u2003Naquele instante, uma sensa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel se instalou no peito. Eu me sentia um p\u00e9ssimo companheiro para Nina. Mentir para a minha irm\u00e3 era, sem d\u00favida, uma das partes mais cru\u00e9is da minha rotina. Todas as manh\u00e3s seguiam o mesmo ritual agonizante, como se eu estivesse preso a um ciclo de culpa do qual n\u00e3o conseguia escapar.<br>\u2003\u2003Nina sempre surgia animada, tagarelando sobre um artigo interessante, um caso jur\u00eddico inusitado ou sobre uma aula que mal podia esperar para assistir. E ent\u00e3o vinha a parte mais dif\u00edcil: mentir.<br>\u2003\u2003Ela perguntava sobre as contas com aquele tom de preocupa\u00e7\u00e3o suave e eu respondia com a tranquilidade de quem j\u00e1 se acostumou a enganar: <em>\u201cEst\u00e1 tudo sob controle. O apartamento? Quitado m\u00eas que vem. N\u00e3o, n\u00e3o venda seus livros, guarda pro est\u00e1gio.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003A cada vez que desviava a conversa ou inventava alguma desculpa para evitar o assunto das nossas finan\u00e7as, porque eu conhecia minha irm\u00e3. Sabia que, se descobrisse a verdade, largaria a faculdade sem pensar duas vezes. Se jogaria no primeiro subemprego que aparecesse, qualquer coisa para tentar nos tirar da lama.<br>\u2003\u2003Essa ideia me deixava em p\u00e2nico. Eu n\u00e3o permitiria. A educa\u00e7\u00e3o dela era minha prioridade absoluta. Nina era minha prioridade.<br>\u2003\u2003Apesar de ser dois anos mais velha do que eu, sempre senti que cabia a mim proteg\u00ea-la. Esse instinto s\u00f3 se intensificou depois da morte da nossa m\u00e3e. Crescemos vendo aquela mulher forte enfrentar cada obst\u00e1culo que a vida lhe impunha e isso me moldou de uma forma que nunca mais pude desfazer. Eu n\u00e3o tinha mais fam\u00edlia. N\u00e3o conhecia meu pai. Tudo que me restava era Nina e aquele apartamento velho que agora parecia desmoronar sobre n\u00f3s.<br>\u2003\u2003Foi nesse impulso desesperado de manter minha irm\u00e3 est\u00e1vel, s\u00e3, segura e, acima de tudo, feliz, que acabei fazendo algo do qual n\u00e3o me orgulhava.<br>\u2003\u2003Aceitei a proposta maldita de Davi Martinez.<br>\u2003\u2003E, por mais inconsciente que tenha sido, por mais que eu tenha tentado me convencer de que estava apenas ganhando tempo, a verdade \u00e9 que o plano come\u00e7ou a funcionar j\u00e1 naquela mesma noite.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 \u053a \u2014 \u2014 \u053a \u2014 \u2014 \u053a \u2014<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2252],"class_list":["post-7698","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/7698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=7698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}