{"id":7696,"date":"2025-09-19T17:21:00","date_gmt":"2025-09-19T20:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-26T19:03:19","modified_gmt":"2026-03-26T22:03:19","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo Um"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Eu, %Ananya% %Bhasin%, achava<\/span>, no m\u00ednimo, interessante \u2013 e ultrajante \u2013 assistir como os homens pareciam ter tanta dificuldade em ouvir as palavras das mulheres, mesmo quando elas est\u00e3o em maior n\u00famero em uma reuni\u00e3o. \u00c9 surpreendente como eles conseguem se recusar a ouvir os pontos de vista femininos com facilidade, como se as vozes das mulheres fossem naturalmente menos relevantes ou aud\u00edveis. Fico me perguntando se isso est\u00e1 relacionado a fatores biol\u00f3gicos ou se \u00e9, de fato, uma quest\u00e3o cultural profundamente enraizada.<br>\u2003\u2003Eu nunca tive uma postura mis\u00e2ndrica, mas comecei a considerar pesquisar mais sobre o tema ap\u00f3s uma experi\u00eancia frustrante: passei quatro horas em uma sala de reuni\u00e3o com sete homens que, deliberadamente, pareciam ignorar as cinco mulheres presentes. A cada interven\u00e7\u00e3o feminina, eles fingiam n\u00e3o ouvir ou rapidamente mudavam o foco, como se nossas opini\u00f5es fossem menos relevantes.<br>\u2003\u2003Embora eu tivesse uma condi\u00e7\u00e3o financeira bastante privilegiada, ser uma mulher e ainda por cima, marrom, era motivo suficiente para ser ignorada e desvalorizada em in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es. A frustra\u00e7\u00e3o era constante. Mesmo ocupando uma posi\u00e7\u00e3o de chefia, eu tinha que enfrentar esse tipo de comportamento por parte da popula\u00e7\u00e3o masculina. Sentia que, para ter minhas opini\u00f5es levadas a s\u00e9rio, eu precisava elevar o tom de voz, o que n\u00e3o s\u00f3 ia contra minha natureza, mas tamb\u00e9m era mentalmente exaustivo.<br>\u2003\u2003\u2013 Rapazes, pe\u00e7o um minuto de sil\u00eancio, por favor. \u2013 Mal a frase saiu da minha boca, o dedo indicador de um deles ergueu-se como uma faca, ordenando meu calar. Minhas sobrancelhas arquejaram, lentas, enquanto meu olhar \u2013 afiado como vidro quebrado \u2013 perfurava o homem. Antes, por\u00e9m, captei os olhares das mulheres \u00e0 mesa: alguns cheios de fogo, outros de medo, por\u00e9m, todas me olhavam com estima e esperan\u00e7a de que eu fosse capaz de acabar com aquele desagrado todo. \u2013 Senhores, por favor!<br>\u2003\u2003Meu corpo ergueu-se da cadeira como um veredito. Fiquei em p\u00e9, plantada como uma sentinela, enquanto meus olhos varriam a mesa at\u00e9 que o \u00faltimo murm\u00fario agonizasse no ar. Infelizmente, aquele sil\u00eancio s\u00fabito n\u00e3o era respeito, era apenas rendi\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio finalmente se instalou e eu respirei fundo antes de come\u00e7ar a destacar meus apontamentos.<br>\u2003\u2003\u2013Observo muitas demandas, mas poucas resolu\u00e7\u00f5es concretas. \u2013Eu odiava ter que assumir o papel de chefe, de verdade, mas naqueles momentos, era necess\u00e1rio que eles me vissem no papel de l\u00edder, n\u00e3o de herdeira. \u2013 Dos dez pontos discutidos hoje, apenas a proposta da senhora Spencer trouxe uma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel, que, lamentavelmente, n\u00e3o recebeu a devida considera\u00e7\u00e3o. Reitero que a diversidade de perspectivas \u00e9 um valor institucional desta empresa. Planos ser\u00e3o avaliados por m\u00e9rito, independentemente de quem os apresenta.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi interrompido pelo senhor Dane, cujo tom desafiava sem confrontar diretamente: \u2013 Com todo respeito, diretora, a implementa\u00e7\u00e3o do plano Spencer exigiria realoca\u00e7\u00e3o de recursos que&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013Tr\u00eas crit\u00e9rios, senhor Dane. \u2013 Interrompi com suavidade. \u2013 Efici\u00eancia, custo-benef\u00edcio e alinhamento estrat\u00e9gico. Se sua obje\u00e7\u00e3o n\u00e3o contemplar esses fatores, sugiro que a formalize para an\u00e1lise posterior. Spencer! \u2013 Chamei e ela, prontamente, levantou-se.<br>\u2003\u2003\u2013 Com uma equipe enxuta de seis colaboradores, divididos em&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013Aprovado. \u2013 Declarei antes que as justificativas t\u00e9cnicas fossem sufocadas por novos debates.\u2013 Senhora Spencer liderar\u00e1 o projeto. D\u00favidas operacionais devem ser dirigidas a ela. \u2013 Fechei minha agenda com decis\u00e3o e olhei em meu rel\u00f3gio de pulso, notei que j\u00e1 estava quase no fim da outra reuni\u00e3o em que eu deveria estar. \u2013 Quero uma pessoa na an\u00e1lise de custos vari\u00e1veis. Posso deix\u00e1-los nas m\u00e3os de Alana ou temos mais algum empecilho? \u2013 Novamente, apenas murm\u00farios. \u2013 Para mais reclama\u00e7\u00f5es e poss\u00edveis dificuldades no plano de Alana, falem diretamente com ela ou me enviem por e-mail suas considera\u00e7\u00f5es. \u2013 Olhei diretamente para o velho Dane, que resmungou bravo.\u2013 E com fundamentos, por favor!<br>\u2003\u2003Com um breve aceno de despedida, dirigi-me \u00e0 sa\u00edda. Ao passar por Alana, pressionei-lhe levemente o ombro, suficiente para transmitir apoio sem afetar sua autoridade rec\u00e9m-estabelecida. Seu sorriso em resposta foi contido, mas os olhos brilhavam com aquela rara combina\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o que s\u00f3 os verdadeiros talentos exibem ao receberem oportunidades merecidas.<br>\u2003\u2003Era a primeira vez que deixava uma mulher da equipe com tamanha responsabilidade, mas ela parecia mais do que pronta para assumir a miss\u00e3o e acatar a oportunidade. Descobrir\u00edamos no final do m\u00eas se o plano mensal de Spencer seria um sucesso ou n\u00e3o, mas, pelo menos, eu tinha feito minha parte declarando apoio ao meu n\u00facleo feminino da equipe de contabilidade.<br>\u2003\u2003Caminhei pelo curto corredor de piso de carvalho e respirei fundo antes de entrar na sala de Ethan, meu parceiro na dire\u00e7\u00e3o do setor financeiro. Ethan era um cara engra\u00e7ado quando queria, eu costumava dizer que n\u00f3s \u00e9ramos \u201cfrenemies\u201d, ou seja, amigos e inimigos na mesma medida. Ele me irritava profundamente e eu o adoecia, como ele mesmo costumava dizer. Mas Ethan era talentoso, n\u00e3o tinha como negar. Por isso, ele foi o \u00fanico que aceitei dividir a dire\u00e7\u00e3o financeira da %Bhasin% Associados.<br>\u2003\u2003Tamb\u00e9m foi o \u00fanico funcion\u00e1rio da empresa que eu j\u00e1 havia praticado alguns atos libidinosos.<br>\u2003\u2003Foi uma estupidez sem tamanho. Eu cometi o erro de convid\u00e1-lo para meu anivers\u00e1rio do ano passado e ap\u00f3s muita bebedeira, provoca\u00e7\u00f5es e uma brincadeira idiota de verdade ou consequ\u00eancia, acabei me agarrando com Ethan atr\u00e1s de uma \u00e1rvore no jardim principal do hotel. Aconteceu uma \u00fanica vez e n\u00f3s fizemos um pacto silencioso de nunca mais falar sobre aquilo, nem entre si, nem com terceiros.<br>\u2003\u2003Ele apenas acenou com a cabe\u00e7a quando me viu chegar, sem parar de digitar algo e conversar com a tela do computador, provavelmente preparando alguma obje\u00e7\u00e3o c\u00e1ustica aos meus \u00faltimos relat\u00f3rios. Sentei-me pr\u00f3xima a ele, mas afastada da c\u00e2mera do eletr\u00f4nico. N\u00e3o demorou muito para que eu percebesse que Ethan estava enrolando aquela situa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do necess\u00e1rio.<br>\u2003\u2003<em>\u201cN\u00f3s iremos comprar os novos softwares de qualquer jeito, por qualquer pre\u00e7o, para qu\u00ea barganhar ainda mais?\u201d<\/em>, avaliei mentalmente,<em> \u201cC\u00e9us, esses caras daqui acham mesmo que meu tempo n\u00e3o \u00e9 dinheiro\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003Balan\u00e7ando os bra\u00e7os com discri\u00e7\u00e3o, comecei a chamar a aten\u00e7\u00e3o de Ethan por tr\u00e1s das telas. Ele ergueu os olhos com vis\u00edvel inc\u00f4modo, pediu licen\u00e7a aos investidores do outro lado da videoconfer\u00eancia e me encarou com um t\u00e9dio que quase transbordava pela tela, antes de silenciar o microfone.<br>\u2003\u2003\u2013 Ethan, feche o neg\u00f3cio. \u2013 Murmurei, enquanto guardava meus pap\u00e9is na bolsa-pasta, pronta para sair dali o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003Eu j\u00e1 havia enfrentado duas reuni\u00f5es longas naquela manh\u00e3 e outras tr\u00eas me aguardavam. Eu s\u00f3 queria ir para a quietude e tranquilidade da minha sala. Ou pelo menos, dez minutos longe de argumentos masculinos travestidos de estrat\u00e9gia.<br>\u2003\u2003\u2013 Podemos conseguir por menos.<br>\u2003\u2003Revirei os olhos. Estava exausta demais para bancar a chefe insuport\u00e1vel outra vez, mas, ainda assim, vesti esse figurino pela \u00faltima vez no dia.<br>\u2003\u2003\u2013 Estou de sa\u00edda. Quero os contratos prontos para revis\u00e3o sobre minha mesa quando eu voltar. \u2013 Disse com firmeza.<br>\u2003\u2003\u2013 %Bhasin%&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013 Ethan, temos capital suficiente para pagar essa <em>bagatela<\/em>. \u2013 O interrompi antes do homem come\u00e7ar suas lam\u00farias que n\u00e3o faziam sentido para mim, uma pobre mulher determinada a chegar em sua sala antes do hor\u00e1rio do almo\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, eu s\u00f3 estou sendo cauteloso. \u2013 Ele rebateu, como se explicasse pacientemente para uma crian\u00e7a.<br>\u2003\u2003Homens\u2026<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o se preocupe. Cautela \u00e9 meu trabalho. \u2013 Peguei o relat\u00f3rio que eu mesma havia finalizado na madrugada anterior, com todas as an\u00e1lises e proje\u00e7\u00f5es j\u00e1 revisadas e entreguei direto em suas m\u00e3os. Como Alana Spencer, eu tamb\u00e9m sabia muito bem o que estava fazendo. \u2013 J\u00e1 fui cautelosa por voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Sa\u00ed da sala sem olhar para tr\u00e1s. Eu era confiante, mas n\u00e3o o bastante para encarar o olhar fulminante que Ethan provavelmente estava me lan\u00e7ando naquele momento.<br>\u2003\u2003Infelizmente, trabalhar em um escrit\u00f3rio com mais de dez homens significa, quase inevitavelmente, ser rotulada de arrogante. Mas a verdade \u00e9 que essa &#8220;arrog\u00e2ncia&#8221; nada mais \u00e9 do que um mecanismo de sobreviv\u00eancia. Se voc\u00ea vacilar, se demonstrar qualquer sinal de vulnerabilidade, eles sentem o cheiro. E quando sentem, n\u00e3o hesitam: te devoram viva. \u00c9 por isso que, \u00e0s vezes, eu precisava me impor al\u00e9m da conta \u2013 falar mais firme, mais alto, mais direto \u2013 s\u00f3 para ser ouvida.<br>\u2003\u2003Claro que isso me custava olhares enviesados e coment\u00e1rios sussurrados em reuni\u00f5es.<br>\u2003\u2003Ethan, apesar de \u2013 nos raros momentos em que baixava a guarda \u2013 ser divertido, era o tipo de cara que vivia tentando me podar, como se estivesse o tempo todo numa competi\u00e7\u00e3o velada que s\u00f3 ele participava. Sempre querendo pensar \u00e0 frente, falar mais r\u00e1pido, parecer mais inteligente. E, \u00e9 claro, nunca perdia a chance de me lembrar que ele sabia o que estava fazendo. Como se eu n\u00e3o soubesse.<br>\u2003\u2003O que me deixava mais irritada nem era o comportamento dele em si, era o fato de ele ignorar completamente o detalhe de que eu era neta do dono. Netinha do patriarca. Herdeira da dinastia %Bhasin%. Pelo amor de Deus, o que aconteceu com o respeito pelo bom e velho nepotismo capitalista?<br>\u2003\u2003A hist\u00f3ria da %Bhasin% come\u00e7ou bem antes de qualquer um desses engravatados aparecer com suas planilhas de Power BI. Logo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, num por\u00e3o sujo em alguma rua esquecida de Mumbai, meu bisav\u00f4 Jampur %Bhasin% inventou uma broca met\u00e1lica de pouco mais de dez cent\u00edmetros para ajudar um vizinho a montar um carrinho de m\u00e3o. A pe\u00e7a, que mal chamava aten\u00e7\u00e3o, acabou se tornando um marco no automobilismo.<br>\u2003\u2003<em>Dada<\/em>, que n\u00e3o era nenhum bobo, enxergou ali uma oportunidade. Come\u00e7ou a vender a tal broca para fabricantes de carros de corrida, alguns pequenos, outros bem grandes, tipo a McLaren e a Peugeot. Foi o suficiente para consolidar a %Bhasin% no mercado por d\u00e9cadas.<br>\u2003\u2003A cada vez que algu\u00e9m em algum canto do mundo decidia usar a broca patenteada pelo meu <em>Dada<\/em>, um dep\u00f3sito generoso pingava na nossa conta. Era quase po\u00e9tico.<br>\u2003\u2003Claro que os tempos mudaram. Hoje, o setor busca por materiais mais leves, mais r\u00e1pidos, mais tecnol\u00f3gicos. A %Bhasin% j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 no topo da lista, mas ainda mant\u00e9m um bom lugar entre os grandes. O suficiente para garantir conforto \u00e0 nossa fam\u00edlia e estabilidade \u00e0 empresa. Nossa filosofia sempre foi clara: lucro e seguran\u00e7a acima de ambi\u00e7\u00e3o desenfreada. E sinceramente? Eu preferia assim.<br>\u2003\u2003Isso me dava liberdade. Eu podia trabalhar sem me arrastar at\u00e9 a exaust\u00e3o, ao contr\u00e1rio de outras empresas onde os executivos pareciam estar a um passo do colapso nervoso. E, melhor ainda, podia me dar ao luxo de manter alguns pequenos v\u00edcios.<br>\u2003\u2003Como comprar Louboutins. S\u00f3 por divers\u00e3o.<br>\u2003\u2003Como uma das diretoras financeiras da empresa, minhas responsabilidades iam muito al\u00e9m de revisar relat\u00f3rios e corrigir planilhas no autom\u00e1tico. Havia dias, como hoje, em que eu precisava negociar contratos, contratar servi\u00e7os externos ou at\u00e9 supervisionar a venda de alguma unidade do grupo. Cada decis\u00e3o fazia parte de uma engrenagem maior: o crescimento estrat\u00e9gico da empresa.<br>\u2003\u2003Al\u00e9m disso, eu e Ethan \u00e9ramos respons\u00e1veis por criar e revisar estrat\u00e9gias, coordenar equipes e manter a sa\u00fade financeira do neg\u00f3cio. E, justi\u00e7a seja feita, apesar das nossas diverg\u00eancias ocasionais, n\u00f3s \u00e9ramos uma dupla eficiente. Quase todas as estrat\u00e9gias que tra\u00e7\u00e1vamos davam certo. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, \u00e9ramos bons.<br>\u2003\u2003Apesar de meu mestrado em Contabilidade e Estat\u00edstica deixar claro que meu maior defeito era ser uma grande nerd indiana, eu deveria ter escutado meus pais e ter feito alguma faculdade que envolvesse gest\u00e3o de pessoas, mas fazer o qu\u00ea, gosto de n\u00fameros.<br>\u2003\u2003Cheguei \u00e0 minha sala quase correndo, saboreando o gostinho da liberdade, mesmo que por apenas alguns minutos. Mal fechei a porta e j\u00e1 arranquei as sapatilhas dos p\u00e9s como se fossem algemas, jogando-me no pequeno sof\u00e1. Eu j\u00e1 tinha esgotado toda a minha cota de energia antes mesmo do fim da manh\u00e3, tudo o que eu queria era me desligar do mundo.<br>\u2003\u2003Ficar ali, jogada no sof\u00e1, jogando Candy Crush e vendo v\u00eddeos aleat\u00f3rios recomendados pelo algoritmo do Instagram. Foi exatamente o que fiz, durante uma hora inteira. Uma hora que eu insisti em fingir que era meu hor\u00e1rio de almo\u00e7o, mesmo n\u00e3o tendo comido absolutamente nada.<br>\u2003\u2003A verdade \u00e9 que eu s\u00f3 queria, por pelo menos sessenta minutos, n\u00e3o pensar em dinheiro, planilhas, estrat\u00e9gias, contratos ou qualquer coisa que justificasse o dep\u00f3sito no fim do m\u00eas. S\u00f3 uma hora em que eu pudesse simplesmente existir, sem precisar produzir nada. Nada al\u00e9m de talvez uma pontua\u00e7\u00e3o rid\u00edcula no Candy Crush.<br>\u2003\u2003Eu queria ter nascido para ser herdeira, n\u00e3o uma trabalhadora. Daquelas leg\u00edtimas, com voca\u00e7\u00e3o mesmo. H\u00e1 herdeiros que nasceram para serem herdeiros.<br>\u2003\u2003Minha m\u00e3e, Anjali, por exemplo, tinha a palavra <em>herdeira<\/em> estampada em cada c\u00e9lula do corpo. Ela vivia em fun\u00e7\u00e3o disso, como se fosse um cargo oficial com benef\u00edcios e plano de carreira. Minha prima Kala tamb\u00e9m herdou esse talento. Meu primo Abu? Outro exemplo vivo de como \u00e9 poss\u00edvel passar uma vida inteira entre brunches e partidas de t\u00eanis sem sentir um pingo de culpa.<br>\u2003\u2003J\u00e1 eu&#8230; Eu nasci com os genes trabalhadores do meu dada Jampur, e, infelizmente, nenhuma inclina\u00e7\u00e3o natural para tardes ociosas em clubes de campo. Enquanto eles dominavam a arte de n\u00e3o fazer nada com maestria, eu sonhava com o luxo de n\u00e3o ter que justificar cada segundo do meu dia com produtividade.<br>\u2003\u2003O toque do celular me despertou de um cochilo involunt\u00e1rio. Atendi sem nem olhar a tela, pelo toque exclusivo, j\u00e1 sabia exatamente quem era.<br>\u2003\u2003\u2013 Estou dormindo. \u2013 Murmurei, ainda de olhos fechados.<br>\u2003\u2003\u2013<em> No meio do expediente? Duvido muito!<\/em> \u2013 A voz debochada de Nina veio carregada de desconfian\u00e7a e sarcasmo, como sempre.<br>\u2003\u2003Nina %Campelli% era minha melhor amiga desde os dezesseis anos. Estudante de direito, linda, com a pele parda, tra\u00e7os finos e um cabelo cacheado de dar inveja at\u00e9 em comercial de shampoo. A gente se conheceu quando fui transferida para a escola dela no meio do ano letivo. Eu era a garotinha indiana deslocada e ela foi a \u00fanica que me recebeu com um sorriso no rosto.<br>\u2003\u2003Desde ent\u00e3o, \u00e9ramos insepar\u00e1veis (na medida do poss\u00edvel, claro, considerando nossas rotinas insanas).<br>\u2003\u2003\u2013 Quando voc\u00ea come\u00e7ar a trabalhar, vai entender do que eu estou falando. \u2013 Resmunguei, me espregui\u00e7ando e sentando no sof\u00e1 enquanto bagun\u00e7ava os cabelos. \u2013 O que voc\u00ea quer?<br>\u2003\u2003\u2013 <em>Grossa<\/em>. <em>Eu queria escutar sua voz\u2026 <\/em>\u2013 Revirei os olhos e fiquei em sil\u00eancio, esperando a retrata\u00e7\u00e3o daquela desculpa idiota. \u2013 <em>T\u00e1, nem eu acreditei nessa<\/em>. \u2013 Nina soltou uma risada divertida. \u2013 <em>\u00c9 que a gente tinha combinado de jantar hoje, lembra? Mas eu n\u00e3o vou poder ir.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Nina! \u2013 Reclamei, sentindo o inc\u00f4modo se instalar. \u2013 \u00c9 o terceiro jantar que voc\u00ea cancela. Eu quase n\u00e3o a vi esse m\u00eas. O que est\u00e1 acontecendo?<br>\u2003\u2003\u2013 <em>\u00c9\u2013\u00e9r\u2026 eu sei, %Anya%.<\/em> \u2013 Nina gaguejou, e eu quase pude v\u00ea-la do outro lado da linha enrolando o dedo em algum cachinho perdido das suas longas madeixas, como sempre fazia quando estava nervosa.<br>\u2003\u2003\u2013 E amanh\u00e3?<br>\u2003\u2003\u2013 <em>E\u2013eu tamb\u00e9m n\u00e3o posso\u2026 <\/em>\u2013 Bufei, frustrada. \u2013 <em>Eu juro que vou compensar voc\u00ea! <\/em>\u2013 Ela apressou-se em dizer, como quem tenta evitar uma bronca. \u2013 <em>Posso fazer um almo\u00e7o para voc\u00ea no s\u00e1bado que vem, que tal? \u2013 <\/em>Ela sugeriu como se eu tivesse alguma op\u00e7\u00e3o al\u00e9m de aceitar.<br>\u2003\u2003Os sumi\u00e7os de Nina tinham se tornado frequentes. Eu j\u00e1 vinha notando isso h\u00e1 alguns dias. Claro, nem sempre a gente conseguia se encontrar toda semana, mas nos esfor\u00e7\u00e1vamos para, pelo menos, manter nossa tradi\u00e7\u00e3o quinzenal. A minha rotina insana e a vida de estudante dela nunca foram as mais compat\u00edveis, mas sempre d\u00e1vamos um jeito.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 como se eu tivesse escolha, n\u00e9, doutora? \u2013 Brinquei. \u2013 Como voc\u00ea est\u00e1, <em>ladki<\/em>? \u2013 Cham\u00e1-la de menina em hindi era quase um c\u00f3digo nosso. Ela sempre ria quando eu fazia isso.<br>\u2003\u2003\u2013<em> Um pouco nervosa com as provas\u2026 Coisas de universit\u00e1rio, voc\u00ea sabe como \u00e9. <\/em>\u2013 Respondeu com uma risadinha leve, mas com um fundinho apreensivo.<br>\u2003\u2003\u2013 Nina, voc\u00ea est\u00e1 mais do que pronta. N\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea n\u00e3o fosse a mais inteligente da sua turma.<br>\u2003\u2003Do outro lado da linha, ela riu. E, por um momento, senti que tudo estava em seu devido lugar. Fazer Nina rir era meu pequeno grande prop\u00f3sito. Eu ia continuar, mas tr\u00eas batidas secas na porta me interromperam. Nina tamb\u00e9m ouviu.<br>\u2003\u2003<em>\u2013 Acho que o trabalho est\u00e1 te ca\u00e7ando, %Anya%. Vai l\u00e1 ser incr\u00edvel! A gente se v\u00ea no s\u00e1bado?<\/em><br>\u2003\u2003Me levantei do sof\u00e1 e fui em busca dos meus sapatos, sabendo bem o que aquelas batidas impacientes na porta significavam. Meu tempo de paz tinha acabado. A %Bhasin% me chamava de volta para o furac\u00e3o de responsabilidades que, entre resmungos e suspiros, eu fingia odiar\u2026 mas, no fundo, adorava.<br>\u2003\u2003\u2013 Pode entrar. Oi, Kacey.<br>\u2003\u2003\u2013 Oi, eu trouxe caf\u00e9. \u2013 disse Kacey, levantando os dois copos como se fossem trof\u00e9us, com um sorriso animado no rosto.<br>\u2003\u2003Kacey era uma daquelas pessoas que voc\u00ea conhece no trabalho, troca meia d\u00fazia de palavras na hora do almo\u00e7o e, quando menos espera, j\u00e1 est\u00e1 contando segredos enquanto toma cerveja barata no sof\u00e1 da sala. Era uma loirinha magra, com energia de sobra e sempre disposta a dar risada. Nosso conv\u00edvio aumentou bastante depois que ela foi promovida no setor de publicidade e tivemos que participar juntas de um workshop enfadonho promovido pela dire\u00e7\u00e3o geral.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acaba de salvar meu almo\u00e7o. \u2013 Murmurei, aliviada, e a abracei de leve antes de dar um longo gole no caf\u00e9 expresso.<br>\u2003\u2003\u2013 U\u00e9, voc\u00ea ainda n\u00e3o almo\u00e7ou?<br>\u2003\u2003\u2013 Nem tempo, nem coragem de levantar daqui.<br>\u2003\u2003\u2013 Estava um burburinho danado no refeit\u00f3rio hoje&#8230; Falaram que a Alana foi nomeada como encarregada do m\u00eas e que foi voc\u00ea quem bateu o p\u00e9 por ela. \u2013 Disse, sentando ao meu lado com o tom c\u00famplice de quem traz uma fofoca fresca. \u2013 Isso a\u00ed, girl power! \u2013 Completou, erguendo o bra\u00e7o e mostrando o b\u00edceps em alus\u00e3o a figura hist\u00f3rica da mulher feminista.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, n\u00e3o foi nada demais. Voc\u00ea sabe como o povo adora exagerar. \u2013 Dei de ombros. Como se apoiar outra mulher no ambiente de trabalho fosse uma grande revolu\u00e7\u00e3o feminista, e n\u00e3o o m\u00ednimo de dec\u00eancia humana. \u2013 E a\u00ed, o que temos para hoje?<br>\u2003\u2003\u2013 De fofoca? Hmm\u2026 \u2013 Kacey tamborilou os dedos no queixo, dramatizando a busca mental por informa\u00e7\u00e3o. \u2013 Ah! Carl, do jur\u00eddico, est\u00e1 traindo a esposa.<br>\u2003\u2003\u2013 De novo?<br>\u2003\u2003\u2013 Pela terceira vez! E, aparentemente, com uma estagi\u00e1ria nova, que nem sabia que ele era casado.<br>\u2003\u2003\u2013 Meu Deus, esse homem est\u00e1 sempre em modo autodestrui\u00e7\u00e3o. Ele devia colocar isso no curr\u00edculo.<br>\u2003\u2003Era nesses pequenos momentos com Kacey que meu dia se equilibrava. O caos continuava l\u00e1 fora, mas por alguns minutos, sentadas no sof\u00e1 com caf\u00e9 e conversas f\u00fateis, parecia que tudo dava um tempo de respirar.<br>\u2003\u2003\u2013 Pois \u00e9, dessa vez com a ruivinha da secretaria. Paolo conseguiu uma nova campanha publicit\u00e1ria. E&#8230; ah! Eu vou a um encontro hoje. \u2013 Kacey disse, empolgada, com aquele brilho nos olhos que s\u00f3 quem est\u00e1 apaixonada sabe ter.<br>\u2003\u2003\u2013 De novo? \u2013 ergui uma sobrancelha. \u2013 Olha s\u00f3, resolveu sair da abstin\u00eancia, hein?<br>\u2003\u2003\u2013 J\u00e1 estava mais do que na hora. \u2013 Ela deu de ombros. \u2013 Andy, o cara com quem estou saindo, me pediu para levar uma amiga para um amigo, tipo um encontro duplo. Mas falei para ele o quanto \u00e9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m dispon\u00edvel t\u00e3o em cima da hora. At\u00e9 conversei com a Lina do quarto andar, mas ela disse que n\u00e3o podia ir hoje.<br>\u2003\u2003\u2013 Encontro \u00e0s cegas, Kacey? Isso funciona? \u2013 Perguntei, curiosa, mas tamb\u00e9m com um toque de ceticismo. Nunca tinha acreditado muito nessa hist\u00f3ria de encontros \u00e0s cegas.<br>\u2003\u2003\u2013 Foi assim que eu conheci o Andy. \u00c9 o nosso terceiro encontro e at\u00e9 agora est\u00e1 tudo bem. \u2013 Ela sorriu. \u2013 Quer tentar?<br>\u2003\u2003Engasguei com o caf\u00e9 e comecei a tossir, espantada com a sugest\u00e3o de Kacey.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o ia a um encontro desde o meu t\u00e9rmino de namoro, e algo me dizia que um encontro duplo, com um cara que eu nunca vi na vida, n\u00e3o era exatamente o tipo de experi\u00eancia que eu precisava para voltar \u00e0 \u201cvida ativa\u201d.<br>\u2003\u2003\u2013 Nem pensar, me parece a maior roubada. \u2013 Refleti em voz alta, enquanto Kacey tirava o celular do bolso e come\u00e7ava a digitar rapidamente.<br>\u2003\u2003\u2013 Pronto, j\u00e1 est\u00e1 marcado. \u2013 Ela disse, com um sorriso travesso.<br>\u2003\u2003\u2013 O qu\u00ea?! \u2013 Gritei, quase arrancando o celular dela da m\u00e3o. Li a mensagem que ela acabara de enviar: <em>\u201cTudo certo para hoje? Vou levar uma amiga, avise ao %Anthony%.\u201d<\/em> \u2013 Ficou maluca, loira? Eu disse que n\u00e3o! Isso \u00e9 loucura.<br>\u2003\u2003\u2013 Como voc\u00ea sabe se nunca foi em um encontro duplo? E, al\u00e9m disso, faz quanto tempo que voc\u00ea n\u00e3o sai de casa e vai a um encontro de verdade?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o sei, Kac, talvez alguns meses. \u2013 Respondi, ainda em choque. \u2013 Mas ir a um encontro arranjado com um cara que nunca vi me parece t\u00e3o, sei l\u00e1, anos 90.<br>\u2003\u2003\u2013 A primeira vez que fiz isso achei uma loucura. Tipo, existe o Tinder! \u2013 Ela riu, lembrando do que parecia uma \u00e9poca distante. \u2013 Mas depois percebi que \u00e9 muito mais agrad\u00e1vel e divertido do que pensamos. O que me diz?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu digo n\u00e3o. \u2013 Reafirmei, sem hesitar, como se fosse uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia.<br>\u2003\u2003Encontros previs\u00edveis j\u00e1 eram um desafio para mim, ent\u00e3o lidar com algo totalmente imprevis\u00edvel? Nem pensar. Isso definitivamente estava fora de cogita\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%. Eu j\u00e1 confirmei com eles, voc\u00ea vai ter que ir. \u2013 Kacey insistiu, batendo as unhas na tela do celular com a mesma determina\u00e7\u00e3o de sempre.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o disse meu nome nem nada, Kac. Procure outra pessoa, garanto que ser\u00e1 melhor. \u2013 Respondi, j\u00e1 cansada dessa conversa, mas Kacey n\u00e3o estava nem a\u00ed. Ela levantou do sof\u00e1, jogou o copo de caf\u00e9 vazio na lixeira e se encaminhou para a porta. \u2013 U\u00e9, aonde voc\u00ea vai? Vai me deixar falando sozinha? \u2013 Chamei, indignada.<br>\u2003\u2003\u2013 Preciso trabalhar, a chefe aqui \u00e9 voc\u00ea. \u2013 Ela brincou, jogando um sorriso travesso por cima do ombro. \u2013 Tente se animar para hoje.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o vou!<br>\u2003\u2003\u2013 Passo aqui \u00e0s oito. Esteja pronta.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o tenho roupa! \u2013 Olhei para baixo, para meu vestido sem gra\u00e7a de ambiente corporativo. \u2013 Voc\u00ea espera que eu v\u00e1 em um encontro usando isso?<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o era voc\u00ea que n\u00e3o ia? Por que a preocupa\u00e7\u00e3o com a roupa ent\u00e3o? \u2013 Antes que eu pudesse responder, ela desapareceu pelo corredor, deixando apenas um<em>&#8220;Te vejo \u00e0s oito, beijos!&#8221;<\/em>ecoando no ar.<br>\u2003\u2003Eu fiquei l\u00e1, sentindo uma onda de irrita\u00e7\u00e3o me percorrer. Balancei a cabe\u00e7a, ainda incr\u00e9dula com a habilidade de Kacey. Como diabos aquela loirinha tinha me enrolado t\u00e3o f\u00e1cil?<br>\u2003\u2003A ideia de me expor a um encontro com algu\u00e9m completamente desconhecido, especialmente em um dia de semana, era algo que ia contra meus h\u00e1bitos normais. No entanto, por algum motivo, eu estava bastante tentada a ir.<br>\u2003\u2003Sentada em minha mesa de trabalho, rodeada por relat\u00f3rios trimestrais, fui atingida por uma realidade inc\u00f4moda: eu era a \u00fanica no grupo sem hist\u00f3rias divertidas para contar nos happy hours. <em>&#8220;Algu\u00e9m j\u00e1 ouviu falar do novo sistema de classifica\u00e7\u00e3o de despesas que implementei?&#8221;<\/em> n\u00e3o era exatamente o tipo de assunto que fazia os olhos das pessoas brilharem de empolga\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003E, sejamos sinceras, at\u00e9 eu mesma preferia ouvir as hist\u00f3rias de encontros desastrosos, os beijos inesperados, ou os &#8220;quase l\u00e1&#8221; que deixavam todo mundo suspirando de desejo. Eu <em>adorava <\/em>essas fofocas. Vivia vicariamente atrav\u00e9s dos &#8220;quase l\u00e1&#8221; alheios, das paix\u00f5es repentinas, dos desastres amorosos que faziam todos rirem. Enquanto isso, minha contribui\u00e7\u00e3o para as conversas se limitava a&#8230; auditorias bem-sucedidas.<br>\u2003\u2003Foi pensando em dar um pouco de entretenimento para as poucas amizades que eu tinha, que, pouco antes das oito da noite, decidi me preparar. Com um suspiro resignado, me arrastei at\u00e9 o banheiro do escrit\u00f3rio, meu kit de maquiagem minimalista em m\u00e3os. O batom vermelho era meu \u00fanico toque de ousadia em meio a toneladas de neutralidade corporativa.<br>\u2003\u2003Quanto ao resto? Bem, meu vestido cinza-tijolo continuaria t\u00e3o emocionante quanto um relat\u00f3rio de despesas, mas os saltos pretos guardados na gaveta \u2013 aqueles reservados para clientes particularmente chatos \u2013 ao menos me fariam sentir um pouco menos&#8230; %Anya% %Bhasin%, Diretora Financeira, e um pouco mais %Anya%, mulher de 29 anos que ainda sabia se divertir.<br>\u2003\u2003A cabe\u00e7a loira de Kacey surgiu como um raio solar contra minha porta de vidro fum\u00ea. Antes que eu pudesse protestar novamente, est\u00e1vamos mergulhadas no tr\u00e2nsito ca\u00f3tico do centro. Durante o trajeto, passei o tempo todo reclamando do modo trai\u00e7oeiro como Kacey tinha conseguido me convencer a estar ali, em uma situa\u00e7\u00e3o que eu nunca teria imaginado.<br>\u2003\u2003Chegamos quase atrasadas devido ao tr\u00e2nsito ca\u00f3tico do hor\u00e1rio de pico e logo fomos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mesa reservada no andar superior do local.<br>\u2003\u2003\u2013 Olha, aquele ali \u00e9 o Andy. E ao lado dele, est\u00e1 o seu cara. \u2013 Kacey apontou, entrela\u00e7ando o bra\u00e7o no meu.<br>\u2003\u2003Senti minha ansiedade pulsar de forma inconveniente ao olhar para os dois homens, que estavam a alguns metros de dist\u00e2ncia. Normalmente, eu n\u00e3o tinha problemas com homens e nunca ficava nervosa, mas desde o meu t\u00e9rmino, uma inseguran\u00e7a constante havia se instalado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha vida amorosa e todas as minhas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas.<br>\u2003\u2003\u2013 Meu cara. \u2013 Murmurei, descrente, ao ouvir a forma como ela me apresentou o meu acompanhante da noite.<br>\u2003\u2003Os dois estavam conversando perto do bar e da mesa reservada para o grupo. Conforme nos aproxim\u00e1vamos mais, o rosto de Andy ficou vis\u00edvel para mim, mas o tal &#8220;meu cara&#8221; ainda estava de costas, e eu n\u00e3o conseguia v\u00ea-lo. Kacey deu uma corridinha animada at\u00e9 o rapaz e o abra\u00e7ou, empolgada.<br>\u2003\u2003\u2013 Desculpe o atraso. Congestionamento. \u2013 Ela explicou, sorrindo.<br>\u2003\u2003\u2013 Sem problemas, acabamos de chegar. \u2013 Ele se virou para mim e estendeu a m\u00e3o, sorrindo. \u2013 Oi, sou Andy. Esse aqui \u00e9 o %Anthony%.<br>\u2003\u2003Virei meu corpo ao mesmo tempo que ele, estendendo a m\u00e3o para cumpriment\u00e1-lo, mas recuamos assim que, finalmente, nossos olhos se encontraram.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%! \u2013 Exclamei, surpresa, arregalando os olhos.<br>\u2003\u2003%Anthony% %Campelli%. O irm\u00e3o mais novo de Nina. Uma presen\u00e7a insistente em todas as fotos amareladas da minha adolesc\u00eancia. Sempre ali, nos cantos das lembran\u00e7as, com aquele sorriso e olhar que parecia enxergar mais do que deveria.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ananya%?!<br>\u2003\u2003\u2013 U\u00e9, voc\u00eas se conhecem? \u2013 Andy perguntou, surpreso.<br>\u2003\u2003\u2013 H\u00e1 mais de dez anos. \u2013 %Anthony% suspirou antes de me puxar para um abra\u00e7o r\u00e1pido. \u2013 Oi, %Anya%.<br>\u2003\u2003\u2013 Como voc\u00ea vem a um encontro e sequer pergunta o nome de quem vai ser seu par? \u2013 Reclamei, insatisfeita. \u2013 Ter\u00edamos evitado essa situa\u00e7\u00e3o se voc\u00ea tivesse sido decente.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fez exatamente a mesma coisa! Sabia que vinha me encontrar?<br>\u2003\u2003\u2013 Sabia que viria encontrar um %Anthony%. Existem milh\u00f5es! Qual sua desculpa?<br>\u2003\u2003\u2013 E da\u00ed? Sabe quantas mulheres se chamam %Ananya%?<br>\u2003\u2003\u2013 Na \u00cdndia? Muitas. Aqui? Menos de vinte. \u2013 Respondi com um sorriso ir\u00f4nico, cruzando os bra\u00e7os, desafiando-o.<br>\u2003\u2003\u2013<em>Estatisticamente improv\u00e1vel! \u2013<\/em> Andy riu, interrompendo nosso duelo de olhares. Ele se inclinou para Kacey, sussurrando algo em seu ouvido. Eu e %Anthony% nos entreolhamos rapidamente, mas logo voltamos a aten\u00e7\u00e3o ao casal \u00e0 nossa frente.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom, j\u00e1 estamos aqui, vamos jantar. Kac, voc\u00ea pode pegar aquela mesa para n\u00f3s? \u2013 Andy pediu \u00e0 loira, que olhou rapidamente para mim, buscando uma confirma\u00e7\u00e3o antes de se afastar. \u2013 Escutem, estive pensando&#8230; J\u00e1 que voc\u00eas se conhecem, tem problema se sentarmos em mesas separadas? Eu queria ficar um pouco sozinho com a Kacey.<br>\u2003\u2003\u2013 Sem problemas, cara. \u2013 %Anthony% garantiu, apertando o ombro de Andy, em um gesto amig\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu s\u00f3 quero jantar. \u2013 Dei de ombros, lan\u00e7ando um olhar de soslaio para %Anthony%, os bra\u00e7os ainda cruzados. \u2013 J\u00e1 estamos aqui mesmo.<br>\u2003\u2003\u2013 Se voc\u00ea pagar.<br>\u2003\u2003Claro. A t\u00edpica provoca\u00e7\u00e3o de %Anthony% %Campelli%. Desde os tempos da escola, ele implicava comigo e com minha condi\u00e7\u00e3o financeira, sempre com aquelas piadinhas baratas sobre eu ser mimada ou metida demais para o meu pr\u00f3prio bem. O pior? Ele nem estava totalmente errado.<br>\u2003\u2003\u2013 Atrevido. \u2013 Respondi, empurrando de leve seu ombro ao passar por ele, tentando disfar\u00e7ar o sorriso que amea\u00e7ava escapar.<br>\u2003\u2003Fomos guiados pela recepcionista at\u00e9 o espa\u00e7o externo do restaurante, uma grande sacada no segundo andar com mesas espalhadas e uma vista surpreendentemente bonita da cidade. Apesar do barulho constante do tr\u00e2nsito l\u00e1 embaixo, o ar fresco e o brilho dos postes conferiam um charme meio ca\u00f3tico \u00e0 cena.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o&#8230; \u2013 Ele puxou minha cadeira com um gesto cuidadoso, quase antiquado. \u2013 J\u00e1 que estamos condenados a jantar juntos&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013 &#8220;Condenados&#8221; \u00e9 a palavra certa. \u2013 Resmunguei, afundando na cadeira. Meus saltos bateram no p\u00e9 da mesa, num ritmo impaciente. \u2013 Voc\u00ea podia ter perguntado.<br>\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea podia ter dito n\u00e3o para Kacey.<br>\u2003\u2003Ficamos em sil\u00eancio por alguns segundos. Eu mexia no guardanapo, enrolando as pontas entre os dedos, envergonhada demais para puxar assunto. Sabia que minha timidez n\u00e3o me deixaria tomar a iniciativa, e, por sorte ou miseric\u00f3rdia, %Anthony% percebeu isso. Suspirou como quem aceita um fardo divertido e quebrou o sil\u00eancio com casualidade.<br>\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o&#8230; quer dizer que os %Bhasin% agora andam frequentando encontros \u00e0s cegas? \u2013 A provoca\u00e7\u00e3o veio com um sorriso enviesado.<br>\u2003\u2003\u2013 Assim como os %Campelli%, pelo visto. \u2013 Respondi, folheando o card\u00e1pio em busca de qualquer coisa que me distra\u00edsse da curva do sorriso dele.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, mas n\u00f3s %Campelli% sempre fomos rom\u00e2nticos incur\u00e1veis. \u2013 Havia uma pontinha de ironia ali, mas ele manteve o tom leve. \u2013 J\u00e1 voc\u00eas, %Bhasin%&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013 %Ant%, n\u00e3o fa\u00e7a eu me arrepender de pagar esse jantar para voc\u00ea. \u2013 Levei a m\u00e3o \u00e0 testa, massageando as t\u00eamporas como quem precisa de paci\u00eancia extra.<br>\u2003\u2003Tudo isso enquanto tentava ignorar o fato ineg\u00e1vel de que %Anthony% %Campelli% estava ainda mais bonito do que eu lembrava.<br>\u2003\u2003Na verdade, ele sempre fora bonito. Mas, de uns tempos para c\u00e1, parecia ter descoberto isso e decidido usar como arma. Eu dizia isso de forma completamente imparcial, claro. S\u00f3 mencionava o fato ocasionalmente para Nina, s\u00f3 para irritar. Ela detestava que eu comentasse sobre o quanto o irm\u00e3o estava gato. E, por isso mesmo, eu n\u00e3o perdia a oportunidade.<br>\u2003\u2003Meus olhos tra\u00edram-me, escorregando para seu rosto, que havia evolu\u00eddo de &#8220;bonitinho&#8221; para algo perigosamente atraente nos \u00faltimos anos.<br>\u2003\u2003\u2013 T\u00e1 bem, fico quieto. \u2013 Ele ergueu as m\u00e3os em rendi\u00e7\u00e3o, mas o olhar permaneceu desafiador. \u2013 Afinal, n\u00e3o \u00e9 todo dia que tenho a honra de um encontro com a grande %Ananya% %Bhasin%. \u2013 Jogou as palavras com aquele tom casual demais para ser s\u00f3 brincadeira.<br>\u2003\u2003\u2013 Deixou de ser um encontro no momento em que voc\u00ea nem se deu ao trabalho de perguntar meu nome, bonitinho. \u2013 Lancei um olhar afiado por cima do card\u00e1pio, tentando ignorar o calor s\u00fabito nas bochechas.<br>\u2003\u2003\u2013 Se eu tivesse chegado aqui sabendo que voc\u00ea era <em>voc\u00ea<\/em>, ainda contaria como um encontro? \u2013 Ele apoiou os cotovelos na mesa, me encarando. Ergui o rosto, arqueando uma sobrancelha. \u2013 %Ananya% %Bhasin%&#8230; \u2013 Murmurou, como se saboreasse o nome.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea tem um fraco pelo sobrenome %Bhasin%, isso \u00e9 \u00f3bvio. \u2013 Estendi o card\u00e1pio na dire\u00e7\u00e3o dele, desviando o olhar. Precisava de um escudo visual contra aquele olhar charmoso demais. \u2013 Espero que voc\u00ea deixe claro para Kiara que tudo isso foi um grande mal-entendido.<br>\u2003\u2003Observei seus ombros enrijecerem no exato momento em que ele passou os olhos pelo card\u00e1pio. O sil\u00eancio que se seguiu foi inc\u00f4modo.<br>\u2003\u2003%Anthony%, al\u00e9m de irm\u00e3o da minha melhor amiga, era tamb\u00e9m o namorado da minha prima, Kiara. Nina e Kiara, que se conheceram atrav\u00e9s de mim, se encontraram em uma festa, onde %Anthony% tamb\u00e9m estava presente. Nina os apresentou e o resto \u00e9 hist\u00f3ria. Eu sabia que eles estavam juntos desde ent\u00e3o, mas nunca me importei.<br>\u2003\u2003Al\u00e9m de n\u00e3o ligar para %Anthony% e seus casos de amor recorrentes, eu e Kiara t\u00ednhamos uma rela\u00e7\u00e3o&#8230; <em>fraternalmente venenosa<\/em>, digamos assim. Ela me irritava desde sempre. E eu, por minha vez, fazia quest\u00e3o de continuar retribuindo o carinho.<br>\u2003\u2003\u2013 Sobre a Kiara&#8230; \u2013 Ele come\u00e7ou, e eu logo pensei: <em>L\u00e1 vem bomba<\/em>. \u2013 A gente terminou. J\u00e1 tem alguns meses, para falar a verdade.<br>\u2003\u2003\u2013 Oh. Desculpa, %Ant%. Eu n\u00e3o sabia. \u2013 Foi sincero. Eu realmente n\u00e3o fazia ideia.<br>\u2003\u2003Nina sempre comentava o fato dos dois serem um casal insepar\u00e1vel e perfeito, o que me causava repulsa. N\u00e3o por %Anthony%, claro. Eu nunca tive nada contra ele, %Ant% sempre foi educado e gentil comigo, meu problema sempre foi Kiara.<br>\u2003\u2003Kiara e sua s\u00edndrome de pobre menina rica. Kiara e sua vontade de sempre ser ou parecer superior a mim. Kiara e seu nariz perfeito e arrebitado.<br>\u2003\u2003\u2013 Tudo bem, sem problemas. Achei que voc\u00ea soubesse. \u2013 Ele levantou o bra\u00e7o e chamou a gar\u00e7onete. \u2013 A Nina n\u00e3o comentou?<br>\u2003\u2003\u2013 Coment\u00e1rios sobre a vida da Kiara entram por um ouvido e saem pelo outro. \u2013 Revirei os olhos de forma t\u00e3o escancarada que ele riu. Se ele quisesse falar mal dela, estava liberado. Ali\u00e1s, seria um presente.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, \u00e9! Voc\u00eas se odeiam. \u2013 Ele deu uma risadinha leve, enquanto a gar\u00e7onete se aproximava e anotava nossos pedidos.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o odeio ningu\u00e9m. \u2013 Dei de ombros. \u2013 Ela \u00e9 que n\u00e3o sabe lidar com as dores e del\u00edcias de ser uma %Bhasin%. \u2013 Balancei os cabelos de forma teatral.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%, voc\u00ea \u00e9 orgulhosa demais para o seu pr\u00f3prio bem. \u2013 Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, ainda rindo.<br>\u2003\u2003\u2013 Quem disse isso? Kiara? \u2013 Ele assentiu, mastigando um peda\u00e7o de sua tortilla. \u2013 Ela n\u00e3o sabe nada sobre mim.<br>\u2003\u2003%Anthony% pareceu ponderar sobre a minha afirma\u00e7\u00e3o por um segundo.<br>\u2003\u2003\u2013 Na verdade, nenhum de n\u00f3s sabe nada um do outro.<br>\u2003\u2003N\u00e3o tive como discordar. Aquela era, de fato, a primeira vez que eu trocava mais de dez palavras seguidas com %Anthony%, mesmo com todos os anos de conviv\u00eancia indireta. Tudo o que eu sabia sobre ele vinha de coment\u00e1rios soltos da Nina. Quanto \u00e0 Kiara&#8230; bom, ela nunca demonstrou o menor interesse em me conhecer de verdade, ent\u00e3o eu tamb\u00e9m nunca fiz quest\u00e3o de deix\u00e1-la entrar na minha vida.<br>\u2003\u2003\u2013 Posso perguntar o que aconteceu? \u2013 Soltei, antes que meu bom senso me impedisse. Soou intrometido, mas meu esp\u00edrito fofoqueiro j\u00e1 estava na frente, todo empolgado com o poss\u00edvel plot twist daquele casal que parecia inabal\u00e1vel.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei. \u2013 Ele suspirou, pensativo, antes de continuar. \u2013 Ela pediu um tempo. Depois, pediu mais um tempo. E mais outro. E quando eu achei que a pausa fosse acabar, ela s\u00f3 disse que n\u00e3o sentia mais o mesmo por mim.<br>\u2003\u2003\u2013 Sinto muito. Voc\u00ea merecia uma explica\u00e7\u00e3o melhor.<br>\u2003\u2003\u2013 Nah, voc\u00ea s\u00f3 est\u00e1 dizendo isso porque \u00e9 a Kiara. \u2013 Ele soltou uma risada baixa, negando com a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, \u00f3bvio! \u2013 Rimos juntos. \u2013 Mas, s\u00e9rio, \u00e9 melhor n\u00e3o comentar nada disso com ningu\u00e9m. Se a Kiara descobrir que a gente jantou junto, mesmo sem planejar, vai surtar. Vai dizer que eu corri atr\u00e1s de voc\u00ea. N\u00e3o \u00e9 que eu me importe com a opini\u00e3o dela, mas&#8230; estou sem tempo \u2013 e paci\u00eancia \u2013 para lidar com as grosserias dessa garota.<br>\u2003\u2003\u2013 Quando come\u00e7ou? \u2013 Perguntou de repente, com uma sobrancelha arqueada. Franzi o cenho, sem entender de imediato. \u2013 Esse \u00f3dio m\u00fatuo entre voc\u00ea e a Kiara.<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio por alguns segundos, realmente pensando na resposta. E quando falei, fui t\u00e3o honesta que nem eu mesma esperava.<br>\u2003\u2003\u2013 Quando a gente cresceu&#8230; e ela ficou mais bonita do que eu.<br>\u2003\u2003%Anthony% soltou uma gargalhada t\u00e3o espont\u00e2nea que eu quase me assustei. Era a primeira vez que eu o via rir daquele jeito.<br>\u2003\u2003Kiara sempre foi pequena e bonita, com um rosto delicado, poucas express\u00f5es faciais. Delicada e graciosa, do jeito que minha m\u00e3e sempre sonhou que sua \u00fanica filha fosse. Mas a m\u00e3e de Kiara era americana e, al\u00e9m dos tra\u00e7os indianos fortes, ela herdou o nariz delicado e europeu.<br>\u2003\u2003Se minha m\u00e3e quisesse uma filha com beleza de capa de revista, teria ca\u00e7ado um estrangeiro tamb\u00e9m, como o pai de Kiara fez. Mas n\u00e3o. Ela escolheu Adit %Bhasin%, o mais indiano dos indianos. O resultado? Eu nasci grandalhona, com cabelo demais, express\u00f5es fortes e uma apar\u00eancia orgulhosamente indiana. E tudo bem. Ou quase.<br>\u2003\u2003Aos dezenove, tomei uma decis\u00e3o que muitas meninas indianas \u2013 ou, pelo menos, algumas \u2013 sonham em tomar: coloquei silicone. Nada exagerado, s\u00f3 o suficiente para aposentar, de uma vez por todas, a reputa\u00e7\u00e3o de &#8220;%Anya%-sem-peito&#8221; que me perseguiu por toda a adolesc\u00eancia.<br>\u2003\u2003Eu achava que n\u00e3o adiantava nada ter quadril e coxa se o decote parecia um campo plano. Ent\u00e3o dei uma ajudinha ao meu corpo nesse pequeno &#8220;defeito de f\u00e1brica&#8221;. A cintura, eu consegui resolver na base da academia e da dieta. Mas peito&#8230; peito s\u00f3 no bisturi.<br>\u2003\u2003A gora, quase chegando aos trinta, eu n\u00e3o me arrependia da mamoplastia, mas talvez, hoje em dia, n\u00e3o colocaria. A moda dos peitos naturais \u2013 que n\u00e3o tinha naquela \u00e9poca \u2013 me atraiam bastante, por\u00e9m, n\u00e3o d\u00e1 para negar que eu amava ver como minhas roupas sempre vestiam bem no decote, n\u00e3o importava o tipo de corte.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o pode estar falando s\u00e9rio. \u2013 %Anthony% arqueou uma sobrancelha, descrente.<br>\u2003\u2003Claro que havia muito mais por tr\u00e1s da hist\u00f3ria, mas eu n\u00e3o estava nem um pouco inclinada a abrir o jogo com algu\u00e9m que, at\u00e9 pouco tempo, dormia na mesma cama que minha arqui-inimiga.<br>\u2003\u2003\u2013 Acredite ou n\u00e3o, foi assim que tudo come\u00e7ou. Isso&#8230; e o fato de que ela me chamou de fascista quando comecei a trabalhar na %Bhasin%.<br>\u2003\u2003\u2013 Uau. \u2013 Ele soltou uma risada surpresa. \u2013 Que extremo.<br>\u2003\u2003Observei seu rosto enquanto o gar\u00e7om nos servia os pratos. Ele parecia genuinamente intrigado e talvez um pouco impressionado.<br>\u2003\u2003\u2013 Pois \u00e9. Inacredit\u00e1vel que ela nunca tenha te contado sobre as nossas brigas \u00e9picas. \u2013 Falei, com um toque de d\u00favida. Eu conhecia Kiara o suficiente para saber que, se tivesse tido a chance de me pintar como a vil\u00e3 da hist\u00f3ria, ela teria feito isso com prazer e riqueza de detalhes.<br>\u2003\u2003\u2013 Ela comentou algumas coisas, sim. Mas, sinceramente? Nunca acreditei cem por cento. \u2013 %Anthony% sorriu. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o me parece ser fascista&#8230; s\u00f3 rica. \u2013 Mordi o l\u00e1bio, tentando conter o sorriso que amea\u00e7ava escapar. N\u00e3o consegui. Abaixei a cabe\u00e7a e comecei a mexer na comida, fingindo concentra\u00e7\u00e3o no prato enquanto sentia o calor subir pelas bochechas. \u2013 Estou curioso. O que fez voc\u00ea topar um encontro \u00e0s cegas? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 do tipo que faz essas coisas.<br>\u2003\u2003\u2013 E como voc\u00ea sabe o que eu fa\u00e7o ou deixo de fazer? \u2013 Rebati, lan\u00e7ando um olhar de soslaio.<br>\u2003\u2003\u2013 Acho que sei o que voc\u00ea <em>n\u00e3o<\/em> faz. Ou o que <em>costuma<\/em> evitar. \u2013 Ele deu de ombros, mas co\u00e7ou a cabe\u00e7a ao perceber que talvez estivesse errado. \u2013 Pode ser s\u00f3 impress\u00e3o, mas voc\u00ea n\u00e3o parece ser muito f\u00e3 desse tipo de programa.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu tamb\u00e9m achava que voc\u00ea n\u00e3o fazia coisas assim&#8230; meio incomuns para os tempos modernos. Mas veja s\u00f3: c\u00e1 estamos n\u00f3s.<br>\u2003\u2003\u2013 A vida fica mais interessante quando a gente tem hist\u00f3rias diferentes para contar. \u2013 %Anthony% falou com um encolher de ombros despreocupado, e eu assenti, surpresa por concordar. Enquanto eu tinha pensado nisso apenas por um momento naquela tarde, %Anthony% parecia viver por esse lema h\u00e1 anos. \u2013 Al\u00e9m disso, vai ser divertido contar para Nina como eu acabei num encontro com a melhor amiga dela.<br>\u2003\u2003Minha express\u00e3o deve ter denunciado o p\u00e2nico que me atravessou.<br>\u2003\u2003\u2013 Se a Nina descobre isso, ela me apaga da vida dela em dois segundos. Voc\u00ea sabe o quanto ela \u00e9 superprotetora com voc\u00ea.<br>\u2003\u2003\u2013 O que, ali\u00e1s, \u00e9 totalmente sem no\u00e7\u00e3o. \u2013 %Anthony% rebateu, fazendo uma careta que o deixou com cara de garoto emburrado. \u2013 E al\u00e9m do mais&#8230; n\u00e3o \u00e9 um encontro de verdade.<br>\u2003\u2003<em>Ah. \u00c9 mesmo<\/em>, pensei, mordendo por dentro da bochecha, um pouco envergonhada por ter esquecido desse detalhe por alguns minutos.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom, n\u00e3o vamos brincar com fogo&#8230; \u2013 Tomei um gole da bebida, tentando disfar\u00e7ar o fato de que minha boca estava seca demais e aquilo n\u00e3o tinha nada a ver com comida apimentada.<br>\u2003\u2003\u2013 Tem medo de se queimar, %Ananya% %Bhasin%?<br>\u2003\u2003%Anthony% continuou comendo como se nada estivesse acontecendo, mas seu tom provocativo causou um arrepio sutil pelo meu corpo. Os olhos verdes de %Anthony% cintilavam em minha dire\u00e7\u00e3o despretensiosamente e isso j\u00e1 era o suficiente para que eu me questionasse se aquele n\u00e3o-encontro era uma m\u00e1 ou boa ideia.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o tenho medo da queimadura em si, \u2013 Respondi, pousando o copo na mesa \u2013 s\u00f3 dos <strong>efeitos colaterais<\/strong> que ela pode causar.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 \u053a \u2013<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003No dia seguinte, precisei de uma for\u00e7a sobrenatural para controlar meu pr\u00f3prio impulso e avidez por fofoca e n\u00e3o contar a Nina sobre a coincid\u00eancia maluca na noite passada envolvendo seu irm\u00e3o.<br>\u2003\u2003Jantar com %Anthony% foi mais leve e divertido do que eu esperava. Nunca hav\u00edamos passado tanto tempo a s\u00f3s, mas foi surpreendente perceber como a conversa fluiu com naturalidade, como se f\u00f4ssemos velhos amigos (embora, na pr\u00e1tica, f\u00f4ssemos apenas conhecidos de longa data).<br>\u2003\u2003Ao final da noite, percebi uma mudan\u00e7a no modo como ele me olhava.<br>\u2003\u2003%Anthony% me tratava com certa ironia, carregando um toque sutil de desprezo. Eu sabia o motivo: minha conta banc\u00e1ria bastante generosa. Ele sempre pareceu nutrir um preconceito silencioso com a minha origem privilegiada.<br>\u2003\u2003Mas depois do jantar mexicano que compartilhamos, aquele olhar dele estava diferente. Menos indiferen\u00e7a, algo havia suavizado naquele olhar que antes era carregado de julgamento. E, por mais que fosse sutil, talvez at\u00e9 uma ponta de curiosidade.<br>\u2003\u2003Passei a manh\u00e3 inteira revisando relat\u00f3rios de todos no escrit\u00f3rio. Era um trabalho cansativo por si s\u00f3, e o fato de que cinquenta por cento dos relat\u00f3rios estavam simplesmente errados s\u00f3 tornava tudo pior. Normalmente, eu corrigiria todos os erros sozinha, mas dessa vez, os equ\u00edvocos eram tantos que me recusei a assumir tudo. Em vez disso, devolvi os relat\u00f3rios errados aos seus respectivos autores.<br>\u2003\u2003Estava exausta e uma vontade desesperadora de tomar um mojito se apossou de mim. Em geral, n\u00e3o era muito chegada ao \u00e1lcool, mas o mojito&#8230; Eu bebia mesmo s\u00f3 em um dia espec\u00edfico: o meu anivers\u00e1rio.<br>\u2003\u2003Eu sempre amei anivers\u00e1rios. N\u00e3o apenas o meu, mas especialmente o meu. Celebrar o meu pr\u00f3prio dia era algo que eu adorava. Desde os meus dezesseis anos, meus pais alugavam um hotel em uma ilha para que eu comemorasse com amigos e familiares.<br>\u2003\u2003Este ano n\u00e3o seria diferente. A ilha de Sundar, onde sempre acontecia a festa, era um local especial, com um hotel pertencente a um amigo \u00edntimo dos meus pais, o que transformava a comemora\u00e7\u00e3o no evento do ano. Mas, como tudo que \u00e9 grandioso, essa celebra\u00e7\u00e3o exigia muito planejamento e paci\u00eancia. Felizmente, essas eram duas coisas que eu sabia fazer bem.<br>\u2003\u2003Ao final do expediente, no caminho de casa, passei em frente ao restaurante Baston e me lembrei que, por causa da minha frequ\u00eancia no local por conta de Andreas, acabei me tornando amiga dos gar\u00e7ons. N\u00e3o pensei duas vezes antes de estacionar e entrar. Encontrei Billy, que sempre me mimava com as bebidas n\u00e3o alco\u00f3licas, mesmo que n\u00e3o estivessem no card\u00e1pio.<br>\u2003\u2003O restaurante estava lotado, como sempre nas sextas-feiras, com pessoas \u00e0 procura de distra\u00e7\u00e3o. Dei sorte de encontrar um dos banquinhos estofados do bar livre e corri para me sentar. Tirei meu iPad da bolsa e comecei a organizar a planilha de quartos reservados para os meus convidados, j\u00e1 imaginando os preparativos finais da festa.<br>\u2003\u2003Deveria ser f\u00e1cil, afinal, eu organizava um setor inteiro em uma empresa. No entanto, meus av\u00f3s, orgulhosos imigrantes de Mumbai tiveram quatro filhos, quinze netos e dois bisnetos, ou seja, toda e qualquer festa de fam\u00edlia se tornava um verdadeiro Holi Festival em plena Deli.<br>\u2003\u2003Enquanto tateava a tela do iPad, n\u00e3o pude deixar de sorrir, imaginando a bagun\u00e7a que seria quando meus primos se reunissem.<br>\u2003\u2003Senti a cabe\u00e7a pesar um pouco, resultado do tempo de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 tela, mas me forcei a finalizar as planilhas que ainda faltavam. A distra\u00e7\u00e3o foi suficiente para me pegar de surpresa quando uma voz surgiu do al\u00e9m, fazendo-me saltar do banco.<br>\u2003\u2003\u2013 Um Bourbon para a mesa nove, por favor. E uma dose de tequila.<br>\u2003\u2003Primeiro, achei a voz atraente e, logo em seguida, reconhec\u00edvel. Eu conhecia aquela voz. Levantei a cabe\u00e7a e me inclinei no banco para enxergar o rosto por tr\u00e1s do corpo de ombros largos. Me estiquei no banco, espiando por cima do ombro e l\u00e1 estava ele. %Anthony%, de perfil, com aquele jeito desleixado de quem j\u00e1 estava no terceiro drink.<br>\u2003\u2003\u2013 U\u00edsque e tequila juntos? Quer um atestado de \u00f3bito de presente? \u2013 Soltei, inclinando-me para tr\u00e1s na cadeira. Ele virou a cabe\u00e7a, parecendo surpreso ao me ver ali, sentada e o observando com um olhar travesso.<br>\u2003\u2003\u2013 Sexta-feira, %Anya%. Voc\u00ea sabe como \u00e9. \u2013 Apoiou o queixo na m\u00e3o, o cheiro amadeirado de seu perfume misturado ao Bourbon.<br>\u2003\u2003\u2013 Segunda vez em menos de vinte e quatro horas, %Anthony%? Vou come\u00e7ar a achar que voc\u00ea est\u00e1 planejando esses encontros \u201cacidentais\u201d. \u2013 Fiz as aspas no ar com os dedos, mantendo o olhar brincalh\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 Droga, voc\u00ea me descobriu. \u2013 Ele sorriu de lado, claramente se divertindo com a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Trocamos algumas palavras enquanto eu fingia que n\u00e3o estava observando como a luz do bar acentuava seus ombros enquanto ele se inclinava no balc\u00e3o. %Anthony% me contou que, diferente de mim \u2013 que j\u00e1 estava acostumada a frequentar restaurantes sozinha \u2013 ele estava ali com seus colegas de trabalho. Dei uma risada ao ver a careta que ele fez ao contar isso, parecia totalmente involunt\u00e1ria.<br>\u2003\u2003\u2013 Eles s\u00e3o t\u00e3o divertidos assim? \u2013 Perguntei, curiosa.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom, estou aqui h\u00e1 apenas uma hora e, desde ent\u00e3o, j\u00e1 fui chamado de homossexual, carente, indigente e, aparentemente, ser solteiro tamb\u00e9m \u00e9 um defeito. \u2013 Soltei mais uma risada, observando sua pose enfezada, que, embora claramente frustrada com as acusa\u00e7\u00f5es, ainda carregava um sorriso for\u00e7ado. \u2013 \u00c9, estou me divertindo para caramba.<br>\u2003\u2003Meus dedos hesitaram no el\u00e1stico do cabelo quando senti os fios escaparem do coque. Por um instante, considerei recoloc\u00e1-los no lugar, mas deixei que ca\u00edssem sobre meus ombros como uma decis\u00e3o silenciosa. Eu me sentia mais bonita assim. E, embora me recusasse a examinar muito de perto o motivo, sabia que aqueles olhos verdes \u2013 agora observando meus cabelos com um interesse que fazia meu pesco\u00e7o queimar \u2013 tinham tudo a ver com isso.<br>\u2003\u2003%Anthony% %Campelli%. Solteiro.<br>\u2003\u2003A informa\u00e7\u00e3o girava em minha mente como uma placa de neon piscante.<br>\u2003\u2003%Anthony% estar solteiro era uma verdadeira surpresa. Eu conhecia todas as namoradas dele. Ou pelo menos parecia que sim, considerando que ele tinha mais relacionamentos do que a popula\u00e7\u00e3o de Mumbai. Mas, apesar disso, ele nunca foi o tipo cafajeste.<br>\u2003\u2003%Anthony% n\u00e3o s\u00f3 respeitava seus relacionamentos, mas era lembrado por ser genuinamente gentil, atencioso e f\u00e1cil de se apaixonar. Ele acreditava no amor em sua ess\u00eancia, em todas as suas formas, e se entregava a cada experi\u00eancia com uma intensidade que s\u00f3 algu\u00e9m rom\u00e2ntico poderia ter.<br>\u2003\u2003Coitado.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea descreveu todos os ambientes corporativos existentes. Quer saber? Voc\u00ea merece essa tequila. Eu pago!<br>\u2003\u2003Ele ficou surpreso por um segundo, mas logo um sorriso convencido apareceu em seu rosto. Um sorriso confiante e irresist\u00edvel.<br>\u2003\u2003\u2013 %Ananya% %Bhasin%, senhoras e senhores! \u2013 Ele exclamou, divertido. \u2013 Achei que voc\u00ea nunca ofereceria. \u2013 Ele virou o copo de tequila com rapidez, de uma forma meio&#8230; viril? %Anthony% %Campelli% estava um homem muito bonito, ou era impress\u00e3o minha? <em>\u201cC\u00e9us, eu preciso transar?<\/em>\u201d, pensei, assustada com a dire\u00e7\u00e3o dos meus pr\u00f3prios pensamentos. \u2013 Eu acho que mere\u00e7o uma para cada xingamento e humilha\u00e7\u00e3o que j\u00e1 passei hoje.<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 t\u00e3o ruim assim?<br>\u2003\u2003\u2013 Se eu disser que n\u00e3o, estarei mentindo. \u2013 Admitiu, visivelmente frustrado, mas com um toque de humor na voz.<br>\u2003\u2003\u2013 Onde voc\u00ea trabalha, afinal?<br>\u2003\u2003Eu sabia que Nina j\u00e1 havia me contado, mas a verdade \u00e9 que nunca prestei muita aten\u00e7\u00e3o ao nome.<br>\u2003\u2003\u2013 No escrit\u00f3rio da Wolf, Davies e&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013 Martinez! Davi Martinez \u00e9 seu chefe? Aquele troglodita \u00e9 meu tio!<br>\u2003\u2003%Anthony% engasgou com o gole de u\u00edsque, os olhos arregalando-se como se eu tivesse confessado parentesco com o Voldemort.<br>\u2003\u2003Olhei em volta pelo restaurante, admirando a eleg\u00e2ncia do ambiente refinado e iluminado. Meu olhar parou em uma mesa longa, onde alguns homens de terno estavam reunidos. N\u00e3o demorou para que eu avistasse Davi Martinez, sentado no centro, com um semblante autorit\u00e1rio e um sorriso de canto de boca que nunca me enganava.<br>\u2003\u2003\u2013 Davi Martinez \u00e9 seu tio? \u2013 %Anthony% perguntou, a express\u00e3o dele era de puro espanto. E foi imposs\u00edvel n\u00e3o rir diante da surpresa dele. \u2013Tio de verdade?!<br>\u2003\u2003\u2013O quase-tio mais persistente do mundo, \u2013 Conclu\u00ed, fazendo aspas no ar.\u2013 Sabe aqueles amigos da fam\u00edlia que viram &#8216;tio&#8217; por pura insist\u00eancia? Pois \u00e9. S\u00f3 faltou ele trazer uma certid\u00e3o de nascimento falsificada.<br>\u2003\u2003%Anthony% parou por um segundo, aparentemente refletindo sobre o que eu disse, antes de soltar um suspiro exagerado de al\u00edvio. Ele colocou a m\u00e3o no peito como se tivesse acabado de escapar de um grande susto.<br>\u2003\u2003\u2013 Eu j\u00e1 estava aqui, imaginando como faria para fingir que ele \u00e9 o melhor patr\u00e3o do mundo \u00e0 sua frente, mas agora estou tranquilo. \u2013 Ele deu uma risada, tentando disfar\u00e7ar o desconforto.<br>\u2003\u2003\u2013 Pode ficar tranquilo, n\u00e3o precisa fingir. Eu o conhe\u00e7o bem demais para saber o qu\u00e3o desagrad\u00e1vel ele pode ser. Na \u00faltima vez que nos vimos, ele teve a brilhante ideia de me perguntar se eu usava &#8220;burca porque j\u00e1 era impura&#8221;. Era s\u00f3 um s\u00e1ri.<br>\u2003\u2003O rosto de %Anthony% mudou imediatamente. O sorriso brincalh\u00e3o desapareceu e ele me olhou com uma express\u00e3o de desprezo evidente.<br>\u2003\u2003\u2013 S\u00e9rio? \u2013 Ele perguntou, a voz tingida de incredulidade. \u2013 Que tipo de&#8230; <em>coisa<\/em> \u00e9 esse cara?<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 exatamente isso que eu sempre pensei. \u2013 Respondi, com um meio sorriso, tentando suavizar a gravidade da situa\u00e7\u00e3o. \u2013 Davi tem esse jeito&#8230; peculiar de achar que o mundo gira em torno da vis\u00e3o estreita dele. E, sinceramente, ele <em>realmente<\/em> acredita que suas opini\u00f5es s\u00e3o verdades universais. N\u00e3o se engane, ele tem uma cole\u00e7\u00e3o infinita de preconceitos disfar\u00e7ados de conselhos.<br>\u2003\u2003\u2013 Devo acrescentar \u201cracista\u201d \u00e0 lista de adjetivos que tenho para descrev\u00ea-lo? \u2013 %Anthony% fez uma careta, visivelmente incomodado.<br>\u2003\u2003\u2013 Com certeza. \u2013 Confirmei, ainda de olhos atentos. Minha varredura pelo restaurante chamou a aten\u00e7\u00e3o do homem careca, que logo come\u00e7ou a andar em nossa dire\u00e7\u00e3o. \u2013 Ele est\u00e1 vindo para c\u00e1. Disfar\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%! \u2013 Davi Martinez praticamente bradou o meu nome antes mesmo de se aproximar completamente.<br>\u2003\u2003A voz grossa e arrastada j\u00e1 entregava o estado em que ele se encontrava. Quando finalmente chegou perto, sua presen\u00e7a se imp\u00f4s com um bafo et\u00edlico que podia ser sentido a um metro de dist\u00e2ncia. Ele n\u00e3o estava b\u00eabado o suficiente para desmaiar ou causar um esc\u00e2ndalo, mas aquele tipo de embriaguez que tornava tudo mais&#8230; inc\u00f4modo.<br>\u2003\u2003Tentei sorrir, mas meu desconforto era evidente para qualquer um com olhos minimamente atentos. A verdade \u00e9 que eu nunca gostei muito do tio Davi. Ele era amigo de longa data do meu tio \u2013 irm\u00e3o do meu pai \u2013 e frequentava nossas festas desde que eu era pequena, mas nunca tivemos intimidade de fato. E se o meu papa, sempre t\u00e3o educado e ponderado, deixava claro que n\u00e3o gostava dele, quem era eu para contrariar?<br>\u2003\u2003\u2013 Titio! \u2013 Exclamei, exagerando no tom infantilizado da voz. Aquela personagem mimada sempre funcionava como armadura social. Ao meu lado, %Anthony% revirou os olhos de maneira dram\u00e1tica e sua ironia foi t\u00e3o expressiva que quase ri. No impulso, chutei seu tornozelo discretamente sob o balc\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2013 O que est\u00e1 fazendo aqui sozinha? \u2013 Perguntou, apoiando-se no balc\u00e3o com uma lentid\u00e3o calculada, mas falha, como se quisesse parecer casual, mas estivesse lutando contra a pr\u00f3pria gravidade.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o estou sozinha, veja s\u00f3. \u2013 Completei, com um sorriso for\u00e7ado.<br>\u2003\u2003Era evidente que essa era a \u00fanica raz\u00e3o para ele ter se aproximado. A curiosidade o corro\u00eda por dentro desde que nos avistou conversando. Davi nunca resistia a uma chance de exercer controle, nem que fosse s\u00f3 para marcar territ\u00f3rio em espa\u00e7os onde ele achava que sua presen\u00e7a deveria ser sentida.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, que \u00f3timo. \u2013 Davi comentou, tentando manter um sorriso no rosto, mas sua express\u00e3o deixava claro que ele n\u00e3o se sentia t\u00e3o entusiasmado assim. \u2013 Se conhecem? \u2013 Davi perguntou, com aquele tom casual for\u00e7ado de quem j\u00e1 vinha remoendo a pergunta desde que nos viu juntos.<br>\u2003\u2003\u2013 Sim, h\u00e1 bastante tempo, devo frisar. \u2013 Respondi com do\u00e7ura exagerada, pousando uma das m\u00e3os no ombro de %Anthony%. Ele me lan\u00e7ou um olhar de surpresa, franzindo o cenho em confus\u00e3o.<br>\u2003\u2003Davi nos encarou com intensidade, como se pudesse extrair a verdade com os olhos.<br>\u2003\u2003\u2013 Ah, isso explica. \u2013 Disse, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a lentamente. \u2013 Se eu n\u00e3o conhecesse bem o %Campelli% aqui, at\u00e9 ficaria preocupado.<br>\u2003\u2003Semicerrei os olhos, desconfiada do que ele queria dizer. Mas bastou o modo como ele sorriu, torto e satisfeito, para eu entender a insinua\u00e7\u00e3o. E senti o est\u00f4mago revirar de repulsa.<br>\u2003\u2003Olhei para %Anthony%. Ele desviou o olhar imediatamente, desconfort\u00e1vel. N\u00e3o s\u00f3 por mim, mas tamb\u00e9m por ele. Era \u00f3bvio que Davi estava sendo hostil, disfar\u00e7ando o veneno em sarcasmo.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o entendi. \u2013 Falei, seca.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anthony% \u00e9 meio que nossa mascote na empresa. N\u00e3o representa amea\u00e7a alguma. Como poderia, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<br>\u2003\u2003Eu e %Anthony% nos entreolhamos, incr\u00e9dulos. Ele parecia querer enfiar a cabe\u00e7a dentro do copo. E eu&#8230; bem, eu tinha um talento quase incontrol\u00e1vel para reagir por impulso diante de injusti\u00e7as.<br>\u2003\u2003%Anthony% e eu nunca fomos \u00edntimos, mas havia respeito, sustentado pela minha amizade com Nina. Esse pacto silencioso nos mantinha ligados. Quando percebi os olhares debochados vindos da mesa dele, uma ideia surgiu. R\u00e1pida, certeira e capaz de calar aqueles sorrisos.<br>\u2003\u2003E ir\u00f4nica, considerando o contexto da noite passada.<br>\u2003\u2003\u2013 %Anthony% realmente n\u00e3o oferece mal algum. Foi por isso que eu o escolhi. \u2013 Abandonei o tom mimado de minutos atr\u00e1s e usei minha voz firme, a voz que eu usava em audi\u00eancias e reuni\u00f5es. Davi ergueu uma sobrancelha, intrigado. Virei-me ligeiramente para %Anthony% e perguntei, com uma inoc\u00eancia ensaiada: \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o contou?<br>\u2003\u2003Por dentro, eu implorava: <em>N\u00e3o estraga. Vamos, %Anthony%, s\u00f3 uma vez, entra na dan\u00e7a comigo. Me ajuda a deixar esse babaca desconcertado.<\/em><br>\u2003\u2003\u2013 Anh&#8230; n\u00e3o&#8230;? \u2013 %Anthony% respondeu, visivelmente confuso, mas com uma fagulha de entendimento nos olhos.<br>\u2003\u2003\u2013 Por que n\u00e3o contou? \u2013 Continuei, encostando de leve na lateral de sua cintura, como se o toque pudesse lhe passar confian\u00e7a. N\u00e3o tive coragem de apertar. Tocar %Anthony% daquele jeito, mesmo que fosse atua\u00e7\u00e3o, me deixou estranhamente t\u00edmida. \u2013 O problema, tio, \u00e9 que eu n\u00e3o sei se %Anthony% me leva a s\u00e9rio&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o sabia que voc\u00ea estava namorando, %Anya%. \u2013 Davi retrucou, com a voz grave, lan\u00e7ando um olhar fulminante para %Anthony%.<br>\u2003\u2003\u2013 Pois \u00e9. A verdade \u00e9 que estou \u00e0 espera de um pedido, tio, se \u00e9 que me entende. \u2013 Pisquei de leve. A mentira sa\u00edra com uma facilidade assustadora. E, ao contr\u00e1rio do que imaginei, n\u00e3o senti culpa. S\u00f3 al\u00edvio por ver o desconforto brotando no rosto de Davi. \u2013 Titio&#8230; ser\u00e1 que pode nos dar licen\u00e7a por alguns segundos?<br>\u2003\u2003Davi revirou os olhos, obviamente n\u00e3o acreditando na minha mentira. Ainda assim, riu e levantou as m\u00e3os, teatral, como se estivesse se rendendo.<br>\u2003\u2003\u2013 Claro, claro. Vou deixar voc\u00eas dois pombinhos conversarem. \u2013 Disse com esc\u00e1rnio antes de se afastar com passos lentos, lan\u00e7ando mais um olhar cr\u00edtico para %Anthony%.<br>\u2003\u2003Assim que ficamos a s\u00f3s, o ar pareceu mudar de densidade. O sil\u00eancio que se instalou foi inc\u00f4modo por um segundo, n\u00e3o por causa dele, mas por mim. Eu tinha acabado de fingir que est\u00e1vamos em um relacionamento. E, apesar de ter sido por um bom motivo, agora me sentia absurdamente exposta.<br>\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea enlouqueceu? \u2013 %Anthony% murmurou, olhos arregalados, a voz oscilando entre p\u00e2nico e riso.<br>\u2003\u2003\u2013 Ele foi petulante, c\u00ednico e ainda te tratou mal. \u2013 Cruzei os bra\u00e7os, sentindo a indigna\u00e7\u00e3o pulsar na pele.<br>\u2003\u2003\u2013 Ele sempre me trata assim. \u2013 Retrucou, como se isso bastasse.<br>\u2003\u2003\u2013 E por que voc\u00ea aceita?<br>\u2003\u2003\u2013 %Anya%&#8230; Eu n\u00e3o aceito, eu sobrevivo. Ele \u00e9 meu chefe. Paga minhas contas. Eu n\u00e3o tenho muitas op\u00e7\u00f5es. \u2013 Passou as m\u00e3os pelo rosto com for\u00e7a, bagun\u00e7ando ainda mais o cabelo castanho. Estava \u00e0 beira do desespero, perdido&#8230; e, para meu azar, bonito demais at\u00e9 nesse estado. \u2013 \u00d3timo. J\u00e1 era. Ele vai me demitir. Me ferrar. Nunca mais vou pegar um caso. \u2013 Resmungou, mais para si do que para mim.<br>\u2003\u2003\u2013 Relaxa. \u00c9 bem poss\u00edvel que voc\u00ea seja promovido.<br>\u2003\u2003Ele piscou, confuso.<br>\u2003\u2003\u2013 Como \u00e9 que \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2013 Eu conhe\u00e7o homens como ele. Cresci cercada deles. Davi n\u00e3o valoriza compet\u00eancia, valoriza imagem. Agora que acha que voc\u00ea est\u00e1 comigo, isso te torna \u00fatil. Ele pode ser t\u00f3xico, mas sabe fazer pol\u00edtica. Vai querer voc\u00ea por perto. \u2013 Notei o medo em seu olhar e acrescentei: \u2013 Meu pai sempre diz: \u201cEu n\u00e3o inventei o jogo, s\u00f3 aprendi a jogar.\u201d E, sinceramente, eu sou \u00f3tima jogadora.<br>\u2003\u2003%Anthony% me encarou por um instante longo, como se tentasse me decifrar. Ent\u00e3o, soltou um riso curto, quase resignado.<br>\u2003\u2003\u2013 Obrigado por me defender, de verdade. Mas, sinceramente, n\u00e3o vale a pena. Eu sei lidar com ele. N\u00e3o \u00e9 grande coisa. \u2013 Respirou fundo, mais leve agora. \u2013 T\u00e1&#8230; n\u00e3o sei se voc\u00ea acabou com minha carreira ou salvou minha vida, mas&#8230; valeu, %Anya%. Eu acho.<br>\u2003\u2003\u2013 Vou ao banheiro enquanto voc\u00ea decide se me agradece ou me mata. \u2013 Anunciei, num tom despreocupado.<br>\u2003\u2003Recolhi minhas coisas do balc\u00e3o e segui at\u00e9 o banheiro, sentindo o peso da tens\u00e3o apertar minha nuca e meus ombros. Joguei um pouco de \u00e1gua fria no pesco\u00e7o, como se isso fosse suficiente para lavar a situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica que eu mesma tinha provocado. Respirei fundo algumas vezes, tentando reencontrar meu eixo.<br>\u2003\u2003Dei um aceno r\u00e1pido para Billy e paguei a conta, deixando uma gorjeta generosa. Ele retribuiu com um sorriso c\u00famplice. Com passos firmes, atravessei o bar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mesa onde os homens ainda conversavam. %Anthony% foi o primeiro a me notar e enquanto eu me aproximava, nossos olhares se cruzaram.<br>\u2003\u2003\u2013 Te vejo depois? \u2013 Murmurei, parando bem perto dele. N\u00f3s est\u00e1vamos t\u00e3o pr\u00f3ximos que eu senti o cheiro dele me envolver e como se fosse um gatilho, senti vontade de beij\u00e1-lo. E sabe o que eu fiz? Beijei. Ok, n\u00e3o chegou a ser um beijo, mas foi um selinho demorado o suficiente para que eu sentisse a forma exata dos l\u00e1bios dele contra os meus. \u2013 \u00d3timo, me liga.<br>\u2003\u2003A mesa inteira nos observava em sil\u00eancio. Olhei para cada um deles, todos me observando com uma express\u00e3o mista de espanto e admira\u00e7\u00e3o, incluindo %Anthony%. Homens podem ser incrivelmente previs\u00edveis, mas ainda assim conseguem inflar um pouco o nosso ego. Satisfeita com o efeito causado, virei para Davi e, com um sorriso, me despedi: \u2013 Titio, \u00e9 sempre um prazer rev\u00ea-lo. Espero v\u00ea-lo no meu anivers\u00e1rio. Boa noite, rapazes. Ju\u00edzo.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o simplesmente me virei e fui embora.<br>\u2003\u2003Por que, veja bem, por tr\u00e1s da minha timidez sempre houve uma coragem discreta, paciente, que aparecia quando eu mais precisava e que me permitia ocupar espa\u00e7o com uma confian\u00e7a talvez ensaiada, mas convincente o bastante para enganar qualquer um.<br>\u2003\u2003Sim, eu era t\u00edmida. Sim, eu carregava consci\u00eancia de classe. Eu era uma herdeira mimada que adorava aten\u00e7\u00e3o? Absolutamente.<br>\u2003\u2003Nada me divertia mais do que desestabilizar homens que acreditavam que o mundo girava ao redor deles e que se julgavam superiores a mim s\u00f3 por serem homens.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">&nbsp;\u2013 \u053a \u2013<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2013 <em>%Ananya%, n\u00e3o corra na escada!<\/em> \u2013 Ouvi a voz grossa de meu pai soar de algum c\u00f4modo distante de onde eu estava.<br>\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o estou correndo! \u2013 Rebati, gritando de volta.<br>\u2003\u2003Eu ainda morava com meus pais e n\u00e3o, isso n\u00e3o era um problema. Nunca foi. Como filha \u00fanica, morar com eles numa casa grande mais parecia um arranjo cinco estrelas com caf\u00e9 da manh\u00e3 incluso, lavanderia express e afeto ilimitado.<br>\u2003\u2003Meu quarto e meu escrit\u00f3rio ocupavam praticamente o terceiro andar inteiro, ent\u00e3o dava at\u00e9 para dizer que eu tinha meu pr\u00f3prio apartamento, s\u00f3 que com gente l\u00e1 embaixo que me amava incondicionalmente e fazia biryani quando eu tinha um dia ruim.<br>\u2003\u2003Pois minha m\u00e3e, Anjali, podia ser muita coisa, mas nunca tinha me negado um biryani sequer.<br>\u2003\u2003Meus pais s\u00e3o indianos, o que, na teoria, significaria superprote\u00e7\u00e3o n\u00edvel hard, do tipo que rastreia o GPS do filho e j\u00e1 tem tr\u00eas pretendentes engatilhados caso o namoro atual fracasse. Mas os meus n\u00e3o seguiam esse roteiro. Eles preferiam fingir que eram o clich\u00ea s\u00f3 para manter a tradi\u00e7\u00e3o viva entre os parentes, mas por dentro eram surpreendentemente tranquilos.<br>\u2003\u2003Claro que de vez em quando rolava uma chantagem emocionalzinha b\u00e1sica. Um \u201cvoc\u00ea podia jantar com a gente hoje, seu pai at\u00e9 botou a camisa florida que voc\u00ea gosta\u201d. E l\u00e1 ia eu, vencida pela fofura e pela promessa de samosas.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o sim, ainda morar com eles e ser, com todas as letras, filhinha de papai e mam\u00e3e, era um privil\u00e9gio com gosto de lar. Uma dessas b\u00ean\u00e7\u00e3os que a gente finge que n\u00e3o valoriza para manter a pose, mas que, no fundo, sabe que \u00e9 um dos maiores confortos da vida adulta.<br>\u2003\u2003Adentrei a grande cozinha em busca de ingredientes para um pequeno jantar f\u00e1cil e r\u00e1pido, mas como acontecia quase toda noite, eu desisti no primeiro contratempo e procurei por um restaurante na lista de delivery que eu deixava escondida em uma das gavetas do arm\u00e1rio embutido. Fui para a sala de estar enquanto fazia meu pedido e encontrei meus pais no c\u00f4modo.<br>\u2003\u2003\u2013 Ok, voc\u00ea pode acrescentar quatros samosas? \u2013 Pedi para a atendente enquanto fazia um sinal de espera com as m\u00e3os em dire\u00e7\u00e3o aos meus pais. \u2013 Obrigada. Ah, Deus aben\u00e7oe o delivery! \u2013 Brinquei, me jogando no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003\u2013 Como se nossa cozinha n\u00e3o tivesse todos os ingredientes para voc\u00ea fazer samosas. \u2013 Mama reclamou enquanto se olhava no longo espelho grudado em uma das paredes. Ela usava um vestido preto que poderia ser considerado simples, mas por cima, ela usava um s\u00e1ri amarelo e rosa lind\u00edssimo, combinando com os ornamentos em seu cabelo preto.<br>\u2003\u2003\u2013 Temos os ingredientes, mas n\u00e3o temos a m\u00e3o de obra.<br>\u2003\u2003\u2013 Como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos empregados&#8230; \u2013 A mulher rebate, mas eu ignorei, ligando a televis\u00e3o e come\u00e7o uma busca pelos canais. Sentado em uma poltrona, meu pai passava os olhos de maneira r\u00e1pida em seu celular at\u00e9 que notou que eu o olhava, esperando que ele sorrisse de volta.<br>\u2003\u2003Meu pap\u00e1 era meu melhor amigo. Gostava de bancar o severo, o patriarca indiano tradicional que fazia cara feia para os erros e levantava a sobrancelha para qualquer ousadia, entretanto, bastava estarmos em casa, longe do olhar dos outros, para que Adit %Bhasin% deixasse cair a m\u00e1scara e revelasse o cora\u00e7\u00e3o doce por tr\u00e1s do bigode meticulosamente aparado.<br>\u2003\u2003Ele, em mais de uma ocasi\u00e3o, me defendeu da minha m\u00e3e como um escudo humano, com frases \u00e9picas como: \u201c<em>Anjali, ela s\u00f3 cortou o cabelo, n\u00e3o declarou guerra ao pa\u00eds\u201d<\/em>. Com ele,a intimidade vinha natural.<br>\u2003\u2003Com minha Maa&#8230; bem, a hist\u00f3ria era outra. Eu me sentia como uma funcion\u00e1ria em avalia\u00e7\u00e3o constante.<br>\u2003\u2003Era como atravessar um campo minado: eu sabia que minha dificuldade em me abrir com Anjali %Bhasin% n\u00e3o era culpa dela, mas da minha certeza de que, antes de qualquer confiss\u00e3o, viria o veredito. Ela me amava \u2013 disso eu nunca duvidei \u2013 mas amava ainda mais o ideal de filha perfeita que criou em sua cabe\u00e7a, e, para a infelicidade de ambas, essa filha n\u00e3o era eu.<br>\u2003\u2003Aos dezoito anos, abandonei o script <em>dela<\/em> e segui o <em>meu,<\/em> com teimosia e um pouco de cafe\u00edna: formei-me com honras em Economia, emendei dois mestrados e ainda cogitava um doutorado. Mas, mesmo no dia da minha formatura \u2013 aquele que deveria ser o \u00e1pice do meu triunfo pessoal \u2013 tudo o que consegui de minha m\u00e3e foi um olhar de quem parecia estar diante de uma exposi\u00e7\u00e3o entediante de planilhas. Um misto de t\u00e9dio, decep\u00e7\u00e3o e, talvez, um pouco de repulsa.<br>\u2003\u2003Mas, apesar da conviv\u00eancia tensa, havia um tipo de afeto entre n\u00f3s. Um cuidado que n\u00e3o se dizia, mas se notava em pequenos detalhes, como o ch\u00e1 que ela deixava no meu quarto quando eu virava a noite estudando ou a forma como mandava flores no meu anivers\u00e1rio, mesmo depois de uma discuss\u00e3o.<br>\u2003\u2003Porque, no fundo, Anjali me amava. S\u00f3 n\u00e3o sabia demonstrar isso sem parecer que estava prestes a demitir algu\u00e9m.<br>\u2003\u2003\u2013 Est\u00e3o arrumados. \u2013 Comentei.<br>\u2003\u2003\u2013 Temos aquele jantar de comemora\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo, lembra? O que voc\u00ea deveria ir e recusou o convite? \u2013 Sorri amarelo em dire\u00e7\u00e3o a ela. \u2013 Tem planos para hoje, filha?<br>\u2003\u2003\u2013 Por que eu teria, maa? \u2013 Levantei a cabe\u00e7a, desviando o olhar da tela da televis\u00e3o e encarei meus pais, arrumados de maneira fina e elegante demais.<br>\u2003\u2003\u2013 Bom, \u00e9 sexta\u2013feira. \u2013 Respondeu. Deu uma batidinha no ombro de Adit, for\u00e7ando-o a ficar de p\u00e9 e arrumando sua gravata.<br>\u2003\u2003\u2013 E desde quando eu saio nas sextas?<br>\u2003\u2003\u2013 \u00c9 verdade, <em>djan<\/em>. Ela n\u00e3o sai nunca, muito menos nas sextas. \u2013 O homem zombou, mexendo no bigode.<br>\u2003\u2003\u2013 Ei! \u2013 Reclamei, puxando uma almofada e joguei em sua dire\u00e7\u00e3o. \u2013 Para ser sincera, hoje eu dei uma passada no Baston. Encontrei o tio Davi, inclusive. \u2013 Pap\u00e1 rolou os olhos com a men\u00e7\u00e3o ao nome do homem, fazendo com que eu e mam\u00e3e d\u00e9ssemos risadas com a rea\u00e7\u00e3o negativa. \u2013 Al\u00e9m do mais, o que tem de errado em gostar de ficar em casa?<br>\u2003\u2003\u2013Absolutamente nada, Madhu.\u2013 Minha m\u00e3e respondeu, mas os olhos dela percorreram meu moletom manchado de caf\u00e9 como se fosse um crime de guerra. \u2013Seu pai s\u00f3 est\u00e1 implicando. Mas n\u00e3o pense que isso significa que n\u00e3o nos preocupamos. \u2013 E ent\u00e3o veio a cutucada habitual. \u2013Voc\u00ea pelo menos sa\u00eda quando namorava o Andreas.<br>\u2003\u2003Ah, claro. O Andreas. Quase um ano separados e minha m\u00e3e ainda o trazia \u00e0 tona como quem esfrega sal em uma ferida cicatrizada. N\u00e3o era nem por saudade dele, eu suspeitava, mas pela conveni\u00eancia que ele representava: um namorado de pedigree, de bom gosto e que me levava para jantares caros com nomes impronunci\u00e1veis no menu.<br>\u2003\u2003\u2013Ah, sim, nossas aventuras \u00e9picas&#8230; Jantares em lugares onde uma salada custa um rim, seguidos de filmes russos de cinco horas sobre camponeses filosofando na neve. Uma verdadeira orgia de emo\u00e7\u00f5es. \u2013 Respondi, fingindo entusiasmo.<br>\u2003\u2003At\u00e9 hoje n\u00e3o sei o que era mais entediante: ele ou a filmografia de Tarkovsky.<br>\u2003\u2003\u2013O ponto \u00e9 que voc\u00ea sa\u00eda. Agora? Nem seus amigos aparecem. Nem a Nina, que adorava vir aqui&#8230;<br>\u2003\u2003\u2013Trabalho todos os dias, sabia? E, pasme, gosto da minha pr\u00f3pria companhia. Isso \u00e9 t\u00e3o anormal assim?<br>\u2003\u2003Ela suspirou, erguendo as m\u00e3os em rendi\u00e7\u00e3o falsa e saiu da sala com um olhar que dizia &#8220;estou desistindo de voc\u00ea&#8221;.<br>\u2003\u2003Meu pai, que observava tudo do sof\u00e1 com a mesma express\u00e3o que usava para assistir debates pol\u00edticos, se aproximou em sil\u00eancio. Passou a m\u00e3o pelos meus cabelos como fazia desde que eu era pequena, num gesto que ainda conseguia me desarmar.<br>\u2003\u2003\u2013N\u00e3o h\u00e1 nada errado em preferir solitude, <em>madhu<\/em>.\u2013A voz dele era t\u00e3o morna que do\u00eda. \u2013S\u00f3 nunca confunda isso com solid\u00e3o.<br>\u2003\u2003Virei-me para encarar seus olhos escuros, onde sempre havia respostas: \u2013E como eu fa\u00e7o essa diferen\u00e7a?<br>\u2003\u2003\u2013 Se a paz do sil\u00eancio come\u00e7ar a parecer barulho, se o conforto da sua companhia come\u00e7ar a pesar&#8230; \u00e9 hora de olhar mais fundo. Solitude \u00e9 escolha. Solid\u00e3o, \u00e0s vezes, \u00e9 um pedido de ajuda.<br>\u2003\u2003As palavras dele ecoaram em minha mente, e percebi que, embora eu estivesse satisfeita em minha solid\u00e3o, havia uma linha t\u00eanue entre estar confort\u00e1vel sozinha e sentir-se isolada.<br>\u2003\u2003Frustra\u00e7\u00e3o e melancolia.<br>\u2003\u2003Foram esses os sentimentos que encontrei dentro de mim naquela noite, depois que <em>pap\u00e1<\/em> saiu pela porta, deixando no ar n\u00e3o s\u00f3 o cheiro suave do incenso que ele tanto gostava, mas tamb\u00e9m todas aquelas reflex\u00f5es que ele, com poucas palavras, havia despertado.<br>\u2003\u2003Aquela tinha tudo para ser apenas mais uma noite rotineira, daquelas em que o sil\u00eancio pesa um pouco, mas n\u00e3o o suficiente para incomodar. No entanto, ele me fez pensar. E pensar demais nunca foi minha atividade favorita.<br>\u2003\u2003Naquela noite, depois do jantar, abandonei qualquer tentativa de ser produtiva e segui direto para o quarto. Me livrei do salto, do brinco, do dia. Tomei um banho demorado e, j\u00e1 de camisola, sentei no canto da janela antes de engolir os dois comprimidos de sempre.<br>\u2003\u2003As luzes da cidade brilhavam ao longe, t\u00edmidas por tr\u00e1s dos muros altos e dos jardins bem cuidados da nossa casa. Eu n\u00e3o via muito dali, mas o suficiente para sentir uma paz que s\u00f3 vem quando a gente observa de longe aquilo que n\u00e3o precisa tocar. Fiquei ali por um tempo, sem pressa, apenas respirando como quem espera que alguma resposta venha com o vento.<br>\u2003\u2003Mas naquela noite, nenhuma resposta veio. S\u00f3 o sono e um vazio que eu ainda n\u00e3o sabia nomear.<br>\u2003\u2003Talvez fosse uma quest\u00e3o de h\u00e1bito. Tem gente que cultiva peculiaridades muito mais exc\u00eantricas. Eu, por outro lado, era s\u00f3 uma mulher caseira e pac\u00edfica, com um gosto peculiar por listas de tarefas, ch\u00e1 de camomila e sil\u00eancio. E, sinceramente? Eu estava bem com isso. Conhecia meus limites, minhas prioridades e a maturidade me trouxe o conforto de saber exatamente o que eu queria da vida ou o que eu definitivamente n\u00e3o queria.<br>\u2003\u2003Ainda assim, havia noites \u2013 como aquela \u2013 em que a solid\u00e3o se sentava comigo no parapeito da janela, cruzava as pernas e come\u00e7ava a me encarar em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era como se eu nunca me perguntasse se havia algo de errado comigo ou com o rumo que eu estava tomando. E eu sabia \u2013 ainda que n\u00e3o gostasse de admitir \u2013 que o t\u00e9rmino com Andreas tinha tudo a ver com isso.<br>\u2003\u2003Andreas Buppha e eu t\u00ednhamos terminado h\u00e1 pouco mais de um ano. E aquele seria nosso primeiro anivers\u00e1rio separados. Nos dois anos de relacionamento, fomos mais companheiros do que apaixonados, mais c\u00famplices do que \u00edntimos. As fam\u00edlias estavam em festa desde que dissemos \u201csim\u201d para aquele namoro. Ou melhor, desde que n\u00e3o dissemos \u201cn\u00e3o\u201d.<br>\u2003\u2003Andreas era o sonho de qualquer m\u00e3e de classe alta: atl\u00e9tico, educado, absurdamente bonito e com cabelos t\u00e3o sedosos que eu suspeitava de um pacto com alguma entidade capilar. Tinha o charme dos que leem Foucault por prazer, bebem vinho como quem julga r\u00f3tulo e citam Tarkovski em conversas casuais.<br>\u2003\u2003Mas, sendo bem honesta? Nem sempre eu queria uma conversa refinada. \u00c0s vezes, eu s\u00f3 queria comentar o novo reality da Netflix em paz, rir de memes ruins, comer miojo na panela e ter vontade de arrancar a roupa de algu\u00e9m. E com Andreas\u2026 nada disso acontecia.<br>\u2003\u2003A vida sexual, por exemplo, era&#8230; simb\u00f3lica. T\u00e3o simb\u00f3lica que, em dois anos de namoro, o cl\u00edmax foi mais emocional do que f\u00edsico e aconteceu uma \u00fanica vez. Andreas era lindo, musculoso, gentil&#8230; e zero tes\u00e3o. N\u00e3o dava para explicar.<br>\u2003\u2003Era como ter um quadro do Michelangelo pendurado na sala e nunca poder tocar.<br>\u2003\u2003Mas n\u00e3o posso negar que, ainda assim, ele foi um bom namorado. Me ajudou em momentos dif\u00edceis, me apoiou em crises familiares e profissionais e demonstrou um carinho genu\u00edno, mesmo que sempre com uma certa frieza elegante. N\u00e3o foi meu primeiro amor, mas foi, com certeza, o mais funcional. E talvez por isso fosse t\u00e3o estranho n\u00e3o sentir falta dele. Eu n\u00e3o sentia falta <em>dele<\/em>. Sentia falta de <em>ter algu\u00e9m.<\/em><br>\u2003\u2003E sexo. Eu sentia muita falta de sexo. Aquele espont\u00e2neo, divertido, sem filtro de luz ou trilha sonora conceitual.<br>\u2003\u2003Olhando para as horas em meu rel\u00f3gio de parede, vi que j\u00e1 era quase uma da manh\u00e3. E, como todo ser humano que j\u00e1 perdeu o sono em pleno in\u00edcio de s\u00e1bado, comecei a imaginar a vida dos outros. Um cl\u00e1ssico. O que ser\u00e1 que estavam fazendo as pessoas que eu conhecia?<br>\u2003\u2003Ser\u00e1 que a Rebeca finalmente tomou coragem de mandar mensagem para o ex ou ainda estava deitada com a cara afundada no travesseiro e um filme dram\u00e1tico rodando em loop? Ser\u00e1 que o Andreas estava em algum restaurante conceituado tomando um vinho que parece suco de beterraba e discutindo teorias existencialistas com gente igualmente bonita e sem olheiras? A minha prima que casou por conveni\u00eancia social estaria dormindo de lado, as costas viradas para o marido que n\u00e3o amava?<br>\u2003\u2003E ser\u00e1 que algu\u00e9m tamb\u00e9m estava olhando para a cidade pela janela, exatamente como eu?<br>\u2003\u2003Foi quando, entre tantos pensamentos confusos, enquanto me enfiava entre os len\u00e7\u00f3is e afundava a cabe\u00e7a no travesseiro tentando convencer meu c\u00e9rebro a desligar, um nome surgiu com um brilho inesperado:<br>\u2003\u2003<em>%Anthony% %Campelli%.<\/em><br>\u2003\u2003Me peguei imaginando como teria sido o restante da noite dele. Teria voltado para casa resmungando sobre a minha teimosia? Teria feito uma videochamada para algum amigo para contar sobre a aberra\u00e7\u00e3o que conheceu? Ou teria simplesmente me esquecido assim que saiu da minha rua e voltado \u00e0 sua vida normalmente?<br>\u2003\u2003Suspirei. Apesar do travesseiro n\u00e3o responder \u00e0s minhas perguntas existenciais, naquela noite, ele me ofereceu um sil\u00eancio mais gentil. Um sil\u00eancio com nome, sobrenome\u2026 e olhos verdes.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 \u053a \u2013 &nbsp;\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2252],"class_list":["post-7696","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/7696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7696"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=7696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}