{"id":7665,"date":"2023-12-11T14:14:00","date_gmt":"2023-12-11T17:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T14:16:53","modified_gmt":"2025-11-09T17:16:53","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/dahlia-negra\/prologo\/","title":{"rendered":"PR\u00d3LOGO"},"content":{"rendered":"\n<p>&emsp;&emsp;<span class=\"versalete\">O barulho dos saltos<\/span> batendo fren\u00e9ticos se unia aos ru\u00eddos noturnos de New York. A respira\u00e7\u00e3o entrecortada, desesperada e ansiosa, exprimia o pavor e o choro contido pelo n\u00f3 na garganta.<br>\n&emsp;&emsp;As l\u00e1grimas inundavam os olhos da jovem, seus l\u00e1bios tremiam e ela sabia que se arrependeria pelo resto da vida por ter escolhido aquele caminho naquela noite em especial. Por mais que a culpa n\u00e3o fosse sua e sim do sujeito a perseguindo, ainda assim n\u00e3o conseguia parar de pensar no quanto as coisas seriam diferentes se tivesse tomado o outro rumo.<br>\n&emsp;&emsp;Tratou de apurar os passos, evitando olhar para tr\u00e1s, mas ainda assim sentindo aquele mesmo formigamento na nuca denunciando a presen\u00e7a dele.<br>\n&emsp;&emsp;Quanto mais r\u00e1pido ela caminhava por aquela rua, mais distante ficaria do sujeito e, sem conseguir pensar em outra coisa al\u00e9m do qu\u00e3o infeliz havia sido sua escolha, virou na primeira curva diante de seus olhos praticamente correndo, ansiosa para se ver livre da persegui\u00e7\u00e3o e dando espa\u00e7o a um pequeno fio de esperan\u00e7a de que daquela forma conseguiria despist\u00e1-lo.<br>\n&emsp;&emsp;No entanto, bastaram poucos segundos para se dar conta de que aquela havia sido a sua segunda escolha errada da noite.<br>\n&emsp;&emsp;Em vez de desviar para um caminho que a salvaria, havia entrado em um beco, onde a \u00fanica sa\u00edda estava bloqueada por port\u00f5es altos de ferro.<br>\n&emsp;&emsp;Precisou lutar muito para manter um solu\u00e7o preso em sua garganta.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 A mocinha est\u00e1 perdida? \u2014 Um calafrio percorreu sua espinha ao ouvir uma voz desconhecida, n\u00e3o precisando de muito para saber que pertencia ao seu perseguidor, ent\u00e3o deu os poucos passos restantes at\u00e9 se ver encurralada em uma parede.<br>\n&emsp;&emsp;Seus l\u00e1bios tremeram com mais viol\u00eancia, as l\u00e1grimas que segurava escorreram por suas bochechas e a jovem se encolheu, se recusando a olh\u00e1-lo.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 N\u00e3o tenha medo, mocinha. Ningu\u00e9m aqui ir\u00e1 lhe fazer mal, muito pelo contr\u00e1rio. \u2014 Uma risada suja ecoou, gelando seus ossos.<br>\n&emsp;&emsp;Ela daria qualquer coisa para n\u00e3o ouvir aquele som novamente. Na verdade, ela daria qualquer coisa para n\u00e3o ouvir som algum.<br>\n&emsp;&emsp;Apertou os olhos com for\u00e7a, se encolhendo ainda mais e prendendo a respira\u00e7\u00e3o quando um corpo imprensou o seu e o bafo forte de \u00e1lcool foi de encontro ao seu rosto.<br>\n&emsp;&emsp;A jovem sabia muito bem o que estava prestes a acontecer e preferiu a morte \u00e0quilo.<br>\n&emsp;&emsp;Num s\u00fabito ato de coragem, preparou-se para lhe dar uma joelhada com todas as for\u00e7as, mas antes mesmo que pudesse faz\u00ea-lo, o aperto em seu corpo se afrouxou numa lufada intensa, como se o pr\u00f3prio vento tivesse o arrancado dali.<br>\n&emsp;&emsp;Aquilo n\u00e3o era poss\u00edvel. O vento n\u00e3o faria algo assim.<br>\n&emsp;&emsp;Um grunhido de dor a fez arriscar abrir seus olhos.<br>\n&emsp;&emsp;Ela n\u00e3o precisou de muito para saber quem estava atirado a alguns metros dela, curvado com as duas m\u00e3os cobrindo o est\u00f4mago.<br>\n&emsp;&emsp;A confus\u00e3o tomou conta de si.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea gosta de atacar jovens em becos escuros? \u2014 Uma segunda voz se fez ouvir, por\u00e9m seu timbre era t\u00e3o distorcido que ela n\u00e3o soube dizer se pertencia a um homem ou a uma mulher.<br>\n&emsp;&emsp;Curiosamente, a jovem n\u00e3o estava interessada nisso, mas sim na figura encapuzada que logo se aproximou do sujeito, o erguendo pelo pesco\u00e7o com apenas uma m\u00e3o.<br>\n&emsp;&emsp;N\u00e3o soube o que a deixou mais admirada. Se era a forma como n\u00e3o parecia se abalar enquanto apertava a garganta do homem de forma firme, ou se eram as roupas inteiramente pretas, com coturnos da mesma cor e um conjunto de arco e flecha bem presos \u00e0s suas costas.<br>\n&emsp;&emsp;Ser\u00e1 que conseguiria ver um rosto? Se inclinou, por\u00e9m no mesmo instante o sujeito come\u00e7ou a se debater, dificultando o processo.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Por favor, n\u00e3o me mate! Tenha miseric\u00f3rdia! \u2014 O homem se engasgou, tossindo devido \u00e0 escassez de ar.<br>\n&emsp;&emsp;Dessa vez, a risada que ecoou n\u00e3o causou medo \u00e0 garota e sim uma esp\u00e9cie de al\u00edvio.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Assim como a miseric\u00f3rdia que voc\u00ea teria ao usar o corpo de outra pessoa sem o consentimento dela? \u2014 O sarcasmo estava presente em cada palavra.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Eu n\u00e3o\u2026<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Ratos como voc\u00ea n\u00e3o merecem miseric\u00f3rdia. Voc\u00ea me d\u00e1 nojo.<br>\n&emsp;&emsp;A jovem, ainda encolhida na mesma posi\u00e7\u00e3o, imaginou que naquele momento o aperto na garganta do homem se intensificaria, por\u00e9m, em vez disso, ela notou a outra m\u00e3o da figura encapuzada puxar alguma coisa presa \u00e0 pr\u00f3pria cintura.<br>\n&emsp;&emsp;Era uma esp\u00e9cie de adaga prateada.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 \u00c9 melhor voc\u00ea correr at\u00e9 um posto policial. A pr\u00f3xima cena n\u00e3o ser\u00e1 nada bonita. \u2014 Se voltou para a mo\u00e7a, fazendo-a arregalar os olhos enquanto outro arrepio percorria seu corpo. \u2014 V\u00e1.<br>\n&emsp;&emsp;Aquela \u00faltima palavra pareceu acender algo dentro de si, ent\u00e3o ela assentiu, incapaz de agradecer em voz alta, e se p\u00f4s a correr.<br>\n&emsp;&emsp;A figura ent\u00e3o tornou a se virar para o sujeito, satisfazendo-se com o terror presente em suas fei\u00e7\u00f5es.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Por favor\u2026 \u2014 insistiu mais uma vez, como se realmente pudesse convenc\u00ea-la a poupar sua vida.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 Olhe bem para mim. \u2014 A frieza na voz era palp\u00e1vel e o homem lhe obedeceu prontamente.<br>\n&emsp;&emsp;Uma m\u00e1scara cobria metade do rosto que lhe encarava sedento.<br>\n&emsp;&emsp;\u2014 A justi\u00e7a n\u00e3o tem miseric\u00f3rdia.<br>\n&emsp;&emsp;Num movimento r\u00e1pido, a adaga lhe cortou a jugular, fazendo o sangue banh\u00e1-lo instantaneamente.<br>\n&emsp;&emsp;Por alguns instantes, o sujeito agonizou, se afogando, mas em nenhum momento a figura permitiu que olhasse para qualquer outro lugar.<br>\n&emsp;&emsp;Quando a escurid\u00e3o por fim lhe abra\u00e7ou, a \u00faltima coisa vista por ele foi aquele par de olhos. Uma \u00edris azul e outra negra como a noite.<br>\n&emsp;&emsp;Deixando aquele corpo imundo e sem vida desabar, a figura encapuzada encarou com desgosto o sangue que cobria sua adaga, ent\u00e3o puxou um len\u00e7o preto de seu bolso, limpando a l\u00e2mina antes de tornar a guardar a arma no local que pertencia.<br>\n&emsp;&emsp;Respirou fundo, contendo a onda de adrenalina que fazia seu corpo inteiro tremer de euforia. Precisava fazer uma \u00faltima coisa para concluir seu dever naquele lugar.<br>\n&emsp;&emsp;Retirou ent\u00e3o a pequena planta de outro compartimento em suas roupas e posicionou-a sobre a garganta do homem, exatamente onde a adaga havia o cortado.<br>\n&emsp;&emsp;O intuito daquilo era deixar criminosos como ele saberem que seus atos n\u00e3o estavam mais impunes. Algu\u00e9m os faria pagar.<br>\n&emsp;&emsp;<i>Dahlia Negra<\/i> os faria pagar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&emsp;&emsp;O barulho dos saltos batendo fren\u00e9ticos se unia aos ru\u00eddos noturnos de New York. 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