{"id":7660,"date":"2025-10-28T13:22:00","date_gmt":"2025-10-28T16:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T13:33:57","modified_gmt":"2025-11-09T16:33:57","slug":"capitulo-5","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chame-por-cigana\/capitulo-5\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">No final da tarde<\/span> de segunda-feira Rafael caminhava pelo corredor vazio da faculdade quando uma m\u00e3o tampou sua boca e um bra\u00e7o envolveu sua cintura. Imediatamente come\u00e7ou a se debater, sem dar-se conta de que a outra pessoa n\u00e3o exercia for\u00e7a alguma.<br>\u2003\u2003O corpo atr\u00e1s de si era alto, firme, grande e forte o suficiente para arrast\u00e1-lo sem dificuldades para uma sala, a qual fechou com um leve chute antes de se apoiar na parede.<br>\u2003\u2003- Shi, calma, querido. Sou eu. Est\u00e1 tudo bem. \u2013 a voz de Kalisto sussurrou rente a orelha onde a barba rala ro\u00e7ava.<br>\u2003\u2003Deixou a m\u00e3o deslizar aos poucos at\u00e9 encontrar-se com a outra e segur\u00e1-lo pela cintura, o prendendo ali em contato com o pr\u00f3prio corpo.<br>\u2003\u2003- Que merda \u00e9 essa, Kalisto \u2013 precisou se controlar para n\u00e3o gritar. Afinal, n\u00e3o seria bom caso fossem pegos daquele jeito dentro da sala.<br>\u2003\u2003- Foi o \u00fanico jeito que encontrei de conversarmos. Assim n\u00e3o vai fugir de mim. Foi mal.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o tenho nada a tratar contigo, seu idiota. \u2013 vociferou indignado com a a\u00e7\u00e3o insensata.<br>\u2003\u2003- Ah, tem, sim. E n\u00e3o adianta tentar escapar dessa vez.<br>\u2003\u2003- Vai se foder.<br>\u2003\u2003- Adoraria foder, na verdade, mas as minhas \u00faltimas transas foram uma merda. \u2013 ironizou.<br>\u2003\u2003- Me solta, cacete. \u2013 sem sucesso fazia for\u00e7a para se afastar.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o. \u2013 repetiu decidido.<br>\u2003\u2003- \u00c9 o que vamos ver.<br>\u2003\u2003Para algu\u00e9m t\u00e3o baixo e com propor\u00e7\u00f5es pequenas a for\u00e7a f\u00edsica aplicada nos movimentos foi surpreendente. O cantor se debatia com certa viol\u00eancia, ao ponto se jogar o corpo para tr\u00e1s e as pernas agitarem-se no ar. Mais de uma vez o moreno recuou alguns passos e precisou esfor\u00e7ar-se para finca-los no ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Desde quando voc\u00ea \u00e9 forte assim? \u2013 reclamou o advogado lutando para mant\u00ea-lo no lugar sem machuc\u00e1-lo \u2013 Preciso voltar a frequentar a academia pra caso isso se repita eu estar em melhor forma para cont\u00ea-lo.<br>\u2003\u2003Isso era verdade. A pele sob o terno azul marinho come\u00e7ava a suar.<br>\u2003\u2003- Isso n\u00e3o \u00e9 for\u00e7a, \u00e9 \u00f3dio, seu desgra\u00e7ado de merda. \u2013 esmurrava as grandes m\u00e3os com os punhos \u2013 Porra, me larga, filho da puta!<br>\u2003\u2003Sem alternativa, o maior o virou com dificuldade e o segurou num abra\u00e7o apertado, incapacitando sua movimenta\u00e7\u00e3o. Com as m\u00e3os espalmadas no peitoral tentava empurr\u00e1-lo, mas tudo o que conseguiu foi que Kalisto o pressionasse ainda mais contra si ao ponto de n\u00e3o conseguir esticar os bra\u00e7os.<br>\u2003\u2003A posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era desconfort\u00e1vel e nem dolorida. Era bem agrad\u00e1vel na verdade, por\u00e9m jamais admitiria naquele momento de raiva. Quando transavam o advogado costumava apert\u00e1-lo num abra\u00e7o bem similar \u00e0quele, onde sentiria a carne tr\u00eamula do ruivo enquanto ele gozaria lhe arranhando os ombros ou as costas. Em consequ\u00eancia, seu pequeno corpo recordava daquele gesto, o primeiro ind\u00edcio de que iria acalmar-se. Gra\u00e7as ao abra\u00e7o intenso sua recusa se tornou cada vez menos intensa, at\u00e9 chegar o momento quando, j\u00e1 entregue, buscava somente normalizar a respira\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Kalisto, \u00e9 s\u00e9rio. \u2013 o encarou carregado de raiva reprimida \u2013 Ou me solta ou vou come\u00e7ar a berrar at\u00e9 algu\u00e9m vir me ajudar,<br>\u2003\u2003- Vai, mesmo, me prejudicar, beb\u00ea?<br>\u2003\u2003Era um blefe. Ambos sabiam a resposta. Enquanto o amasse ou se importasse com o advogado o rapaz de nenhum modo o prejudicaria. Entretanto, os tempos eram outros e o ruivo havia mudado bastante. Portanto, sim, o maior temia a r\u00e9plica e estava pronto para lidar com as consequ\u00eancias caso fossem descobertos ali por causa do outro.<br>\u2003\u2003O ex desviou o olhar dizendo:<br>\u2003\u2003- Fala logo o que quer e me deixa em paz.<br>\u2003\u2003O suspiro de al\u00edvio foi longo.<br>\u2003\u2003- Me desculpa.<br>\u2003\u2003- Pelo que, exatamente? Refresca a minha mem\u00f3ria porque a lista \u00e9 grande. \u2013 n\u00e3o poderia soar mais debochado.<br>\u2003\u2003Um meio sorriso desenhou vagarosamente os l\u00e1bios do ex.<br>\u2003\u2003- C\u00ednico. \u2013 soltou quase como um elogio, num tom onde claramente n\u00e3o desaprovava a provoca\u00e7\u00e3o \u2013 Me desculpe pelo \u00e1udio que me ouviu enviando pro Gustavo. Achei que estivesse dormindo.<br>\u2003\u2003- Pois achou errado. \u2013 disparou irritado \u2013 Eu n\u00e3o preciso da sua&#8230; \u2013 a diminui\u00e7\u00e3o do apertou permitiu estalar os dedos como se tentasse lembrar da palavra correta \u2013 Como disse, mesmo? Caridade. N\u00e3o preciso ser o seu objeto de boa a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Ok, fui meio babaca nessa parte.<br>\u2003\u2003- Meio? \u2013 ergueu as sobrancelhas sarc\u00e1stico \u2013 Meio \u00e9 o meu c\u00fa. Foi um completo idiota filho da puta, isso, sim, seu escroto arrombado.<br>\u2003\u2003- Em minha defesa, o Gustavo desconfia que eu esteja escondendo algo. Apenas quis soar de maneira que n\u00e3o agu\u00e7asse a curiosidade dele, assim como voc\u00ea fez com a sua m\u00e3e.<br>\u2003\u2003- Assim como eu fiz o caralho! N\u00e3o o desmereci quando deixei minha fam\u00edlia avisada que estaria bem naquela noite e abrigado.<br>\u2003\u2003- Eu sei. \u2013 o notando mais tranquilo afrouxou o aperto mais e logo sentiu falta daquela uni\u00e3o em virtude dos troncos pressionados \u2013 Por isso o meu pedido de desculpas. Aceita?<br>\u2003\u2003- E quanto ao Lucas? \u2013 semicerrou os olhos, ainda n\u00e3o completamente convencido.<br>\u2003\u2003- Mais uma vez, me desculpa tamb\u00e9m por isso.<br>\u2003\u2003- Vai me deixar ciente do porqu\u00ea daquilo? Foi pra me atingir, n\u00e9?<br>\u2003\u2003Quebrou o contato visual encarando acima dos cabelos ruivos.<br>\u2003\u2003- De certa forma, sim, mas n\u00e3o da maneira ruim para entristece-lo ou encium\u00e1-lo como est\u00e1 pensando. Talvez um dia eu lhe conte as minhas motiva\u00e7\u00f5es. Por enquanto, n\u00e3o. \u2013 voltou a fita-lo \u2013 Me desculpa?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o sei. Vamos ver. \u2013 rebateu desviando o olhar \u2013 Ainda estou zangado contigo e com raz\u00e3o.<br>\u2003\u2003Projetando o l\u00e1bio inferior pra frente, o rapaz formava um biquinho sem sequer notar enrugando o queixo pequeno. Naqueles instantes calados onde Kalisto piscou devagar, o moreno observou os tra\u00e7os os quais denunciavam o seu estado de esp\u00edrito \u2013 raivoso, embora apreciasse o contato corporal e talvez at\u00e9 aprovasse pela maneira como n\u00e3o se distanciou. Focando a aten\u00e7\u00e3o nos l\u00e1bios delineados, a m\u00e3o co\u00e7ou para contorna-los com o polegar \u2013 e precisou se controlar para n\u00e3o ceder aos impulsos.<br>\u2003\u2003Em suspiro pesaroso, Rafael se voltou ao homem. Por ver o t\u00edmido sorriso alheio surgindo em virtude de novamente estarem t\u00e3o pr\u00f3ximos e por assimilar o quanto o outro havia se fortalecido durante aquele tempo separados em admira\u00e7\u00e3o pelo progresso do rapaz, o menor o xingou:<br>\u2003\u2003- Babaca escroto.<br>\u2003\u2003Dessa maneira, sem nenhum aviso ou despedida, se desvencilhou dele lhe dando as costas e se encaminhando para a porta com passos \u00e1geis. Quando abaixou a ma\u00e7aneta, ouviu:<br>\u2003\u2003- Poodle gostoso.<br>\u2003\u2003Saiu da sala de costas eretas sem demonstrar o qu\u00e3o saudoso estava de ser apertado daquela maneira pelo homem e crispando os l\u00e1bios para Kalisto n\u00e3o v\u00ea-lo sorrir pelo elogio.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O decorrer da semana correu como o usual \u2013 cheia de aulas, trabalho e estudo nas horas vagas. Micaela e Mia constantemente o lembravam de se alimentar e, por fim, mais de uma vez levaram lanches ou at\u00e9 mesmo caf\u00e9 da manh\u00e3 no fim de semana quando estava em casa cheio de anota\u00e7\u00f5es e livros ao seu redor.<br>\u2003\u2003Mal havia tempo para se distrair ou descansar. Para evitar do ritmo abalar sua sa\u00fade assim como j\u00e1 aconteceu ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, se obrigava a relaxar conversando pelo Whatsapp com os amigos ou se distraindo vendo v\u00eddeos de conte\u00fados que n\u00e3o fossem do curso.<br>\u2003\u2003Por j\u00e1 estar marcado, quinta-feira \u00e0s sete da noite foi para a casa do namorado para aproveitarem um tempo juntos. Desde o retorno da viagem de Andr\u00e9 oriunda do trabalho n\u00e3o tiveram oportunidades de ficarem juntos. No m\u00e1ximo se falavam pelo celular por troca de mensagens, ent\u00e3o aproveitou o feriado para encontra-lo quando finalizasse os estudos na parte da tarde.<br>\u2003\u2003Estranhou por se deparar com o port\u00e3o encostado. N\u00e3o costumava ser descuidado dessa maneira com a seguran\u00e7a da casa, ent\u00e3o entrou sem problemas. Atravessou o quintal e, ao passar pela porta, sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar pelo choque da cena.<br>\u2003\u2003Alheios \u00e0 sua presen\u00e7a, sentado confortavelmente no sof\u00e1 era chupado por um loiro musculoso e definido, ajoelhado em sua frente, com a cabe\u00e7a relaxada ca\u00edda para tr\u00e1s e os olhos fechados. Rafael o sabia porque estava apenas de boxer azul marinho enquanto o namorado ainda usava a cal\u00e7a jeans com o peito e o p\u00e9 desnudos.<br>\u2003\u2003- Que merda \u00e9 essa?!<br>\u2003\u2003O grito raivoso os assustou.<br>\u2003\u2003O desconhecido chegou a cair de bunda no ch\u00e3o devido ao impulso de erguer o tronco para ficar ereto. Compreendeu a situa\u00e7\u00e3o por ver o ruivo parado do lado da porta em puro estado de agonia.<br>\u2003\u2003- Filho da puta. \u2013 ergueu-se do piso gelado e foi apanhar as roupas.<br>\u2003\u2003- O que voc\u00ea acha que \u00e9, Rafael? \u2013 o namorado puxava o z\u00edper da cal\u00e7a, iniciando a conversa como se n\u00e3o tratasse de uma trai\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea vai me explicar essa merda, meu bem, porque n\u00e3o sou eu o errado nessa hist\u00f3ria.<br>\u2003\u2003Estava visivelmente abalado \u2013 n\u00e3o necessariamente pelo motivo mais \u00f3bvio. A face transbordava agonia e os olhos enchiam de l\u00e1grimas, se esfor\u00e7ando para n\u00e3o chorar. As m\u00e3os tr\u00eamulas, os ombros encolhidos e o misto de uma s\u00e9rie de emo\u00e7\u00f5es como raiva, desespero, ansiedade, tristeza, desamparo e desamor passavam pelo rosto angelical que em nada combinava com elas, assim como j\u00e1 aconteceu, entretanto de uma maneira menos dolorosa.<br>\u2003\u2003- Eu s\u00f3 busquei na rua o que n\u00e3o encontro contigo na cama. \u2013 Andr\u00e9 deu de ombros.<br>\u2003\u2003- Hey! \u2013 o estranho rugiu zangado \u2013 N\u00e3o fale assim com ele e nem se refira a mim como um putinho de esquina qualquer.<br>\u2003\u2003Andr\u00e9 apenas rolou os olhos em total descaso.<br>\u2003\u2003J\u00e1 vestido avisou para o baixinho quando passou ao lado dele:<br>\u2003\u2003- Cara, desculpa. O perguntei se era casado ou namorava, mas me disse que estava solteiro. Deixou o port\u00e3o aberto?<br>\u2003\u2003De bra\u00e7os cruzados Rafael parecia uma crian\u00e7a assustada cujo pirulito havia sido arrancado da boca.<br>\u2003\u2003- Eu vou deix\u00e1-los sozinho pra conversarem. S\u00e9rio, mais uma vez, desculpa. \u2013 completou quando o menor acenou um \u201csim\u201d para a pergunta.<br>\u2003\u2003Ao ouvir o port\u00e3o sendo batido, Andr\u00e9 levantou.<br>\u2003\u2003- Posso saber por que veio na minha casa sem avisar?<br>\u2003\u2003- Caso n\u00e3o se lembre, hav\u00edamos combinado de eu dormir aqui essa noite. \u2013 mordeu o l\u00e1bio inferior segurando o pranto.<br>\u2003\u2003- Podia ao menos chegar mais tarde.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o vai jogar a merda da culpa pra cima de mim, n\u00e3o.<br>\u2003\u2003- \u00c9 sua, sim! \u2013 gritou sobressaltando o outro, quem se encolheu ainda mais \u2013 \u00c9 porque chegou aqui num hor\u00e1rio que n\u00e3o foi o combinado. N\u00e3o fiz nada do que n\u00e3o combinamos quando come\u00e7amos a sair e voc\u00ea aceitou, sim, um relacionamento aberto.<br>\u2003\u2003- Relacionamento aberto com regras. \u2013 se imp\u00f4s com voz firme \u2013 Nada al\u00e9m de beijos seriam permitidos e nem trar\u00edamos algu\u00e9m pras nossas casas. O que vi hoje foi bem diferente do nosso acordo.<br>\u2003\u2003- A culpa n\u00e3o \u00e9 minha voc\u00ea n\u00e3o sabe foder direito.<br>\u2003\u2003- Como \u00e9? \u2013 incr\u00e9dulo, desacreditava na pr\u00f3pria capacidade auditiva.<br>\u2003\u2003- Olha pra voc\u00ea, garoto. \u2013 apontou para ele num gesto carregado de desdenho \u2013 Quem vai sentir tes\u00e3o por&#8230; Isso? \u00c9 um viadinho que vive desmunhecando. Olha as suas roupas, essa maquiagem&#8230; \u00c9 rid\u00edculo. Eu gosto \u00e9 de homem de verdade como o que acabou de sair daqui, n\u00e3o disso a\u00ed que \u00e9. Caso soubesse se vestir direito e falar sem parecer mulher assim como cansei de instruir, isso n\u00e3o teria acontecido.<br>\u2003\u2003As palavras lhe atingiram no \u00edntimo, tocando em profundas inseguran\u00e7as e dores antigas. J\u00e1 se sentiu assim antes \u2013 menos, indigno de receber amor, humilhado, desinteressante, desamparado. Por\u00e9m, dessa vez, havia a presen\u00e7a de algo a mais. A vergonha de si.<br>\u2003\u2003Rafael nunca foi um rapaz com comportamentos ditados pela sociedade. Sempre teve uma ess\u00eancia mais feminina \u2013 ess\u00eancia essa que n\u00e3o era aceita e nem respeitada pelo pai. Portanto, passou por situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis de preconceito, inclusive dentro de casa com a figura paterna. Foi obrigado a n\u00e3o assistir determinados desenhos e nem a brincar com bonecas como desejava pelo genitor desaprovar \u2013 e isso ainda reverberava nele.<br>\u2003\u2003- Idiota.<br>\u2003\u2003Assim que o maior ouviu a frase, quebrou a dist\u00e2ncia em poucos passos.<br>\u2003\u2003Primeiro veio o som estalado.<br>\u2003\u2003Em seguida a ard\u00eancia do lado esquerdo.<br>\u2003\u2003S\u00f3 compreendeu o que lhe aconteceu quando a \u00e1rea come\u00e7ou a latejar de dor.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea me bateu? \u2013 pestanejava ainda confuso e anestesiado pelo choque.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea&#8230; Voc\u00ea me faz fazer coisas que n\u00e3o quero! \u2013 falava r\u00e1pido, soando agressivo e perturbado enquanto gesticulava \u2013 Eu n\u00e3o queria, mas te ouvi me xingando. Sabe que n\u00e3o gosto de ser chamado desse jeito. Precisava me chamar de idiota sem necessidade?<br>\u2003\u2003Ainda torpe e aceitando a sua responsabilidade pelos erros cometidos com o namorado \u2013 na cabe\u00e7a de Rafael, \u00e9 claro \u2013 apenas deu as costas e foi embora sentindo o odor de fuma\u00e7a.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Os dois n\u00e3o sabiam, mas estavam sendo observados por um homem. Homem esse quem usava um terno branco cuja camisa era do mesmo tom da faixa do chap\u00e9u vermelho sangue de malandro carioca. Fumava seu cigarro assistindo toda a cena sem interferir.<br>\u2003\u2003Quando o viu sofrendo a agress\u00e3o, soltou a fuma\u00e7a pela boca antes de ser o respons\u00e1vel de guiar o rapaz at\u00e9 onde poderia receber ajuda \u2013 ou melhor, quem. N\u00e3o sem antes gravar bem o rosto de Andr\u00e9, assim como o nome.<br>\u2003\u2003- Pode demorar um pouco, mas o filho da puta vai descobrir que com protegido meu ningu\u00e9m rela a m\u00e3o. \u2013 pensou antes de acompanhar o cantor enquanto cantarolava.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><em>\u201cMalandro, se na minha cara der<br>Pode fazer testamento<br>Se despedir dessa mulher<br>Se tiver filhos deixa uma recorda\u00e7\u00e3o<br>Cara que mam\u00e3e beijou vagabundo nenhum p\u00f5e a m\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Perambulou pela rua. N\u00e3o corria risco porque sua consci\u00eancia o lembrava de passar por caminhos conhecidos, iluminados e movimentados. Quando chegou na areia da praia, retirou os t\u00eanis e aproveitou para sentar-se e usufruir de um tempo sozinho.<br>\u2003\u2003N\u00e3o poderia retornar para casa. Sua m\u00e3e e a irm\u00e3o logo descobririam sobre a agress\u00e3o na face que estava tomando uma cor arroxeada na regi\u00e3o do queixo e da bochecha. Isso as preocuparia e ele n\u00e3o saberia qual mentira contar para justificar. N\u00e3o queria envolve-las nisso. Esse era um assunto entre ele e o namorado. Namorados brigavam e Ivo sempre teve um temperamento complicado. N\u00e3o havia sido nada al\u00e9m de uma briga entre namorados e ele, Rafael, deveria ter se certificado sobre o combinado, confirmando tudo antes. Do contr\u00e1rio, nada daquilo aconteceria e os dois compartilhariam juntos de um momento bom.<br>\u2003\u2003Certo?<br>\u2003\u2003Pelo menos era isso o que contentava de se convencer.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s cerca de duas horas l\u00e1, \u00e0s dez e meia, se deu conta de onde estava. Olhou para tr\u00e1s e viu um belo pr\u00e9dio. Se certificou que as luzes de um determinado apartamento estivessem acesas antes de se levantar limpando o short e ir naquela dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Quando passou pelas portas, M\u00e1rcio, o simp\u00e1tico porteiro quem sempre ficava na catraca feita para a passagem de quem n\u00e3o morava l\u00e1 quando os moradores aceitavam visitas, abriu um largo sorriso ao v\u00ea-lo.<br>\u2003\u2003- Rafael, menino! Quando tempo! Como voc\u00ea est\u00e1?<br>\u2003\u2003- Oi. \u2013 parou na frente dele passando as costas da m\u00e3o no nariz \u2013 O Kalisto est\u00e1 a\u00ed?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o tenho certeza. Irei averiguar aqui. \u2013 apanhou o telefone para ligar para o advogado. Encarou o outro novamente o avaliando mais minuciosamente \u2013 Est\u00e1 tudo bem, filho? Precisa de alguma coisa?<br>\u2003\u2003- Ah, n\u00e3o, nada, obrigado. Eu s\u00f3 estou com alergia. \u2013 esfregou os olhos \u2013 Essa mudan\u00e7a de tempo ataca minha bronquite. \u2013 for\u00e7ou uma tosse seca.<br>\u2003\u2003- Certo.<br>\u2003\u2003Ao receber a autoriza\u00e7\u00e3o sem sequer ser indagado pelo nome do visitante, o pediu para passar pela catraca.<br>\u2003\u2003Saiu do elevador vazio no oitavo andar. Caminhou pelo corredor deserto at\u00e9 encontrar a porta certa. Ao bat\u00ea-la, foi atendido por uma mulher de pele bronzeada. Seria considerada bonita caso n\u00e3o transmitisse tamanha arrog\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003- \u00c9&#8230; O Kalisto est\u00e1? \u2013 a voz saiu tr\u00eamula colocando as m\u00e3os nos bolsos traseiros do jeans.<br>\u2003\u2003O avaliou de cima abaixo com desprezo.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 o quem? Uma das bichinhas nojentas que meu irm\u00e3o pega? Pensei que ele tivesse um gosto melhor.<br>\u2003\u2003Se recebesse um tapa doeria menos. Quando ouviu as palavras simplesmente fechou os olhos as suportando sem alternativa melhor.<br>\u2003\u2003- Alexandra, a comida j\u00e1 chegou?<br>\u2003\u2003A voz do moreno ao fundo lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Definitivamente foi uma p\u00e9ssima ideia ir at\u00e9 ali. O ex estava com visita e seria, no m\u00ednimo, imprudente envolve-lo naquela situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o lhe dizia respeito.<br>\u2003\u2003Sem alternativas, foi embora rapidamente e escolheu descer pelas escadas para n\u00e3o correr o risco de Kalisto v\u00ea-lo.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Alexandra n\u00e3o era uma das suas irm\u00e3s mais amorosas.<br>\u2003\u2003Mantinha-se num casamento fracassado por ser o certo de acordo com o seu pastor, quem costumava carregar a B\u00edblia debaixo do bra\u00e7o para usar vers\u00edculos bem inconvenientes para refor\u00e7ar suas ideias arcaicas. O pastor n\u00e3o se importava caso a mulher estivesse infeliz, se o marido a tra\u00eda ou se sofria viol\u00eancia dom\u00e9stica, sexual, psicol\u00f3gica ou patrimonial. O importante era fazer o certo perante a vis\u00e3o divina \u2013 mesmo que, para isso, sua integridade f\u00edsica corresse risco.<br>\u2003\u2003Assim como toda a fam\u00edlia paterna, era evang\u00e9lica e n\u00e3o aceitava que o irm\u00e3o fosse gay. Gostava dele e se orgulhava das conquistas materiais, mas n\u00e3o o aceitava por completo.<br>\u2003\u2003Quando desceu para acompanha-la at\u00e9 a sa\u00edda com a bermuda de algod\u00e3o, chinelos e regata pu\u00edda, M\u00e1rcio o chamou quando a mulher passou pela porta de sa\u00edda.<br>\u2003\u2003- Kalisto, o Rafael conseguiu falar contigo? Quem atendeu ao meu telefonema foi a mo\u00e7a quem acompanhou at\u00e9 aqui, ent\u00e3o n\u00e3o sei se ela lhe avisou.<br>\u2003\u2003- O Rafael esteve aqui? \u2013 confuso juntou as sobrancelhas \u2013 Aquele quem trouxe pra abrigar devido a \u00faltima chuva e frequentava o meu apartamento h\u00e1 uns anos?<br>\u2003\u2003- Sim. Saiu cerca de uma hora antes da sua irm\u00e3.<br>\u2003\u2003- Foi ele quem subiu naquela hora, ent\u00e3o. \u2013 murmurou para si \u2013 Alexandra havia dito que era engano, ent\u00e3o, a resposta pra sua pergunta \u00e9 n\u00e3o. Ele estava bem?<br>\u2003\u2003- Olha&#8230; \u2013 lentamente p\u00f4s as m\u00e3os nos bolsos na cal\u00e7a \u2013 Disse que sim, mas eu diria que mentiu. N\u00e3o parecia estar nem um pouco bem. Sei l\u00e1. Parecia bem fragilizado, pra ser franco.<br>\u2003\u2003- Tudo bem, ent\u00e3o. Valeu, M\u00e1rcio.<br>\u2003\u2003O advogado subiu e assim quem adentrou na casa pegou o celular para ligar para o ex pelo seu n\u00famero de trabalho, j\u00e1 que claramente estava bloqueado pelo n\u00famero profissional, al\u00e9m de existir uma possibilidade enorme do ruivo ignor\u00e1-lo ou bloque\u00e1-lo novamente caso soubesse quem o ligava. Como n\u00e3o teve resposta, separou alguns documentos, dinheiro e saiu novamente, indo para a garagem em busca do seu carro.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Rafael chegou em casa quase meia-noite. Foi o melhor hor\u00e1rio para passar pelo quintal e o sabia porque a sua m\u00e3e e a irm\u00e3 j\u00e1 estariam dormindo. As cachorras estavam soltas pelo quintal, ent\u00e3o foi recebido por lambidas alegres.<br>\u2003\u2003O abalo era tamanho que nem mesmo o recebimento alegre dos animais lhe despertou a vontade de sorrir, mesmo que o gesto fosse m\u00ednimo.<br>\u2003\u2003Foi bem silencioso no interior. Tomou banho, vestiu um conjunto de short e regata coloridos e se acomodou na cama. O que queria era dormir para n\u00e3o se sentir daquela maneira. Facilmente atingiria seu objetivo caso o celular n\u00e3o parasse de tocar no ch\u00e3o ao lado da cama enquanto carregava.<br>\u2003\u2003Irritado pela vibra\u00e7\u00e3o, atendeu a liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Kalisto n\u00e3o era uma pessoa cat\u00f3lica assim como a m\u00e3e e nem religioso como a sua fam\u00edlia, mas estava numa situa\u00e7\u00e3o, no m\u00ednimo, desesperadora e ir\u00f4nica. Ent\u00e3o, pela primeira vez na vida, pedia a Deus, Oxal\u00e1, Buda, Krishna, H\u00e9cate, Zeus, o Universo, o Pante\u00e3o do Olimpo e todas as outras divindades cujas exist\u00eancias j\u00e1 ouvira falar na vida.<br>\u2003\u2003Desesperadora porque, caso fosse pego, seria inevitavelmente preso.<br>\u2003\u2003Ir\u00f4nica porque era um advogado bem-sucedido quem come\u00e7ou h\u00e1 menos de dois meses lecionar numa faculdade renomada, ent\u00e3o n\u00e3o tinha o perfil para ter passagem pela pol\u00edcia \u2013 e caso isso acontecesse seu amigo delegado riria muito quando contasse a hist\u00f3ria envolvendo suas a\u00e7\u00f5es insensatas e talvez at\u00e9 idiotas.<br>\u2003\u2003Rafael n\u00e3o atendia nenhum dos seus telefonemas, ent\u00e3o num ato desesperado, pulou a parede de dois metros de altura. Nunca agradeceu tanto pelos seus 1.85 de altura, seus bra\u00e7os longos, a for\u00e7a adquirida nos anos de academia apesar de precisar voltar a frequent\u00e1-la e pela rua estar deserta. Quando desceu do outro lado viu ao longe tr\u00eas cachorras caminhando pelo quintal. Ao v\u00ea-lo pensou por um momento se as mordidas de vira-latas de porte pequeno e m\u00e9dio fariam tanto estrago.<br>\u2003\u2003Por sorte, ao chegarem mais perto latindo, pararam de correr e demonstrarem agressividade. Em gestos desconfiados, come\u00e7avam a farejar os p\u00e9s e as pernas dele. N\u00e3o demorou para guincharem felizes balan\u00e7ando os rabos freneticamente, pularem e o lamberem amorosas.<br>\u2003\u2003- Ainda bem que se lembram de mim. \u2013 soltou o ar que s\u00f3 ent\u00e3o percebeu prender pelo medo. Com o celular na m\u00e3o continuou tentando ligar tentando dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s tr\u00eas cachorras simultaneamente \u2013 Do contr\u00e1rio eu sairia daqui mancando e faltando uma perna.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003- Quem \u00e9, cacete? \u2013 Rafael atendeu irritado se jogando na cama.<br>\u2003\u2003<em>&#8211; Sou eu, Rafael.<\/em><br>\u2003\u2003- Kalisto? \u2013 de t\u00e3o surpreso sentou-se.<br>\u2003\u2003<em>&#8211; \u00c9. O M\u00e1rcio me avisou que esteve l\u00e1 no meu pr\u00e9dio me procurando.<\/em><br>\u2003\u2003- Por que&#8230;<br>\u2003\u2003<em>&#8211; Abre primeiro pra mim. Daqui a pouco essas cachorras v\u00e3o me derrubar. N\u00e3o param de pular em mim.<\/em><br>\u2003\u2003- Abrir o qu\u00ea?<br>\u2003\u2003<em>&#8211; A porta da sua casa.<\/em><br>\u2003\u2003- Como \u00e9?<br>\u2003\u2003<em>&#8211; Estou no seu quintal, carai! \u2013 caso n\u00e3o tivesse de fazer sil\u00eancio para n\u00e3o ser descoberto pelas outras duas moradoras, teria gritado.<\/em><br>\u2003\u2003Demorou uns instantes para a mensagem ser processada pelo c\u00e9rebro. Assim que compreendeu a urg\u00eancia, correu o mais r\u00e1pido que poderia se situar nos c\u00f4modos escuros para colocar o homem para dentro de casa, quem, por fim, acabou em seu quarto.<br>\u2003\u2003- O que est\u00e1 fazendo aqui? \u2013 sussurrou batendo a porta.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio? Quero saber porque foi me procurar.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o foi nada. \u2013 respondeu usando a escurid\u00e3o ao seu favor para esconder a marca na face \u2013 Foi s\u00f3 uma ideia impensada.<br>\u2003\u2003- Tem certeza? O M\u00e1rcio n\u00e3o \u00e9 de mentir.<br>\u2003\u2003- J\u00e1 disse que estou bem!<br>\u2003\u2003A hostilidade apenas serviu para refor\u00e7ar para o outro a ideia de que havia algo de errado. O momento de sil\u00eancio seguiu entre eles quando Rafael deu-se conta disso.<br>\u2003\u2003- Se for pra te acalmar, fingirei acreditar. Tudo bem?<br>\u2003\u2003-T\u00e1.<br>\u2003\u2003Trocou o peso de um p\u00e9 pro outro apenas podendo ver a silhueta do ruivo na sua frente. A luz da Lua entrava pela janela, por\u00e9m se mantinha longe da luminosidade. Detectando esse fato, pendeu a cabe\u00e7a pro lado com o cenho franzido.<br>\u2003\u2003- Por que n\u00e3o deixa eu te ver?<br>\u2003\u2003Para isso seria necess\u00e1rio atravessar o quarto e passar pela ilumina\u00e7\u00e3o \u2013 e isso n\u00e3o o faria.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o quero correr o risco de perder o sono. \u2013 mentiu.<br>\u2003\u2003- Ok. Ent\u00e3o se est\u00e1 tudo bem, eu posso ir.<br>\u2003\u2003Arregalou os olhos resolvendo uma equa\u00e7\u00e3o mental. As tr\u00eas cachorras eram mansas, mas bem agitadas, alegres e principalmente: adoravam fugir pra rua.<br>\u2003\u2003J\u00e1 perdeu as contas de quantas vezes saiu correndo pelo port\u00e3o afora atr\u00e1s delas. Uma vez passou pela humilha\u00e7\u00e3o de correr por quase meia hora atr\u00e1s da cachorra caramelo na companhia da irm\u00e3 at\u00e9 conseguirem voltar com ela pra casa no colo de Mia.<br>\u2003\u2003- \u00c9 melhor, n\u00e3o. Do contr\u00e1rio corro o risco delas fugirem, o que \u00e9 de praxe, e virarmos a noite correndo atr\u00e1s das tr\u00eas.<br>\u2003\u2003- Ent\u00e3o fa\u00e7o o qu\u00ea?<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea dorme aqui e sai \u00e0s cinco e meia. Vamos torcer pra que elas estejam dormindo.<br>\u2003\u2003A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o era das melhores, por\u00e9m Rafael estava cansado e n\u00e3o tinha for\u00e7as para discutir ou elaborar planos para fuga. S\u00f3 queria que aquela noite terminasse logo e pudesse se entregar ao sono profundo para esquecer os \u00faltimos acontecimentos.<br>\u2003\u2003Sem alternativa melhor e aceitando a enrascada onde se enfiou, Kalisto esvaziou os bolsos e colocou o conte\u00fado na mesa de cabeceira enquanto Rafael ligava o ar-condicionado e voltava a se deitar. Ouviu o trinco da porta antes do outro retirar a bermuda e acomodar-se ao seu lado na cama pequena para ambos apenas de boxer cinza e a regata. Depositou o celular sob o travesseiro, j\u00e1 programado para tocar dentro de poucas horas. Ficou de costas para o moreno com o corpo encolhido.<br>\u2003\u2003Infelizmente, a presen\u00e7a de Kalisto agravava a situa\u00e7\u00e3o. A complexidade de sentimentos foi tamanha que n\u00e3o conseguiu segurar as l\u00e1grimas. Em quest\u00e3o de minutos elas come\u00e7aram a descer sem cessar contra a sua vontade, sendo secadas pela fronha do travesseiro. Conseguiria facilmente chorar sem barulho \u2013 at\u00e9 porque j\u00e1 o fez in\u00fameras vezes. Por\u00e9m, os solu\u00e7os o denunciaram.<br>\u2003\u2003No primeiro mais velho apenas o olhou estranhando o som. Por\u00e9m, a partir do segundo, compreendeu o pranto.<br>\u2003\u2003Apesar do afastamento de anos, o rapaz ainda era seu ponto fraco. Era incapaz do sofrimento dele n\u00e3o o afetar. Queria at\u00e9 demais, entretanto n\u00e3o conseguiria ficar parado enquanto o ruivo chorava sem tomar nenhuma atitude para ou atenuar a dor ou, no m\u00ednimo, trazer conforto para que a carga emocional se abrandasse.<br>\u2003\u2003O ouvindo, Kalisto, de barriga pra cima, p\u00f4s a destra no pequeno ombro, onde o puxou suavemente. Rafael sabia que entre eles havia um contrato silencioso onde um jamais obrigaria o outro a fazer algo que n\u00e3o quisesse. Tinha a op\u00e7\u00e3o de resistir e manter-se naquela posi\u00e7\u00e3o. Contudo, estava cansado demais e numa afli\u00e7\u00e3o intensa igualmente grande. Em consequ\u00eancia, aceitou o cuidado que lhe seria entregue sem reclama\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003O virou at\u00e9 acomod\u00e1-lo em seu peitoral. Sentiu as l\u00e1grimas molharem sua roupa sem se importar. Ro\u00e7ou os l\u00e1bios nos cabelos num gesto carinhoso com os dedos acariciando de leve as costas pequenas.<br>\u2003\u2003- Sabe que, geralmente, n\u00e3o adianta mentir pra mim, n\u00e9?<br>\u2003\u2003O peteleco no peito lhe arrancou uma risada anasalada.<br>\u2003\u2003- Doeu.<br>\u2003\u2003Recebeu leves batidinhas e afagos r\u00e1pidos onde foi atingido.<br>\u2003\u2003- Quer conversar?<br>\u2003\u2003Rafael acenou um n\u00e3o com a cabe\u00e7a agarrando-se a regata.<br>\u2003\u2003- Quer ficar sozinho?<br>\u2003\u2003Mais uma vez recebeu uma negativa.<br>\u2003\u2003- Quer a presen\u00e7a da sua m\u00e3e ou a sua irm\u00e3?<br>\u2003\u2003Mordeu o l\u00e1bio mexendo a cabe\u00e7a de um lado pro outro freneticamente.<br>\u2003\u2003- Quer ou prefere a minha? \u2013 havia temor nas palavras por n\u00e3o saber a resposta.<br>\u2003\u2003Demorou um pouco, mas o ruivo acenou um t\u00edmido \u201csim\u201d, como se o custasse a admitir ou n\u00e3o quisesse revelar a verdade. O ouviu dar um suspiro e foi acariciado no rosto, justamente onde foi atingido por Andr\u00e9. Devido a dor soltou um grunhido abafado que n\u00e3o passou desapercebido por Kalisto, embora ainda n\u00e3o compreendesse o motivo para a rea\u00e7\u00e3o. Portanto, preferiu afagar os cabelos num cafun\u00e9 reconfortante.<br>\u2003\u2003- Pode chorar o quanto quiser, beb\u00ea. Est\u00e1 seguro comigo. Sempre.<br>\u2003\u2003E assim, escondidos na escurid\u00e3o do quarto, envolvidos um pelos bra\u00e7os do outro, Rafael banhou a sua regata com as l\u00e1grimas. N\u00e3o recebeu reclama\u00e7\u00f5es, repreendas e nem perguntas. Apenas o que mais lhe era necess\u00e1rio num momento t\u00e3o delicado: um carinhoso acolhimento. Adormeceram juntos pela primeira vez depois de quatro anos separados sem afastar os corpos.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMalandro, se na minha cara derPode fazer testamentoSe despedir dessa mulherSe tiver filhos deixa uma recorda\u00e7\u00e3oCara que mam\u00e3e beijou vagabundo nenhum p\u00f5e a m\u00e3o\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2247],"class_list":["post-7660","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chame-por-cigana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/7660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7660"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=7660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}