{"id":7658,"date":"2025-10-21T13:08:00","date_gmt":"2025-10-21T16:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T13:21:57","modified_gmt":"2025-11-09T16:21:57","slug":"capitulo-4","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chame-por-cigana\/capitulo-4\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 4"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Rafael chegou em casa<\/span> chateado. N\u00e3o permitiu que as l\u00e1grimas escorressem pelas palavras escutadas. J\u00e1 chorou at\u00e9 demais pelo homem no decorrer daqueles anos. Era quest\u00e3o de amor pr\u00f3prio n\u00e3o desperdi\u00e7ar seu tempo com melancolia e nem lembran\u00e7as de um passado infrut\u00edfero que de nada lhe serviu al\u00e9m de alimenta-lo de ilus\u00f5es.<br>\u2003\u2003Ignorou as mensagens enviadas pelo moreno \u2013 se surpreendeu que o ex ainda tinha seu n\u00famero de telefone. Supunha ter exclu\u00eddo seu contato \u2013 ou, no m\u00ednimo, vasculhou a Internet at\u00e9 encontrar uma maneira de contat\u00e1-lo. Na quinta liga\u00e7\u00e3o e na d\u00e9cima mensagem ignoradas o bloqueou na rede social \u2013 n\u00e3o sem antes admirar a foto de perfil, onde estava de sem camisa observando o p\u00f4r do Sol na varanda do apartamento.<br>\u2003\u2003Aproveitou a companhia da irm\u00e3 e da m\u00e3e durante a tarde s\u00e1bado. Apesar do cansa\u00e7o corporal e da lentid\u00e3o para elaborar pensamentos devido a permanecer mais de 24 horas sem dormir, preparou um pav\u00ea de abacaxi para o dia seguinte, j\u00e1 que D\u00e9bora convidou alguns amigos para uma resenha em sua casa, num pr\u00e9dio de cinco andares.<br>\u2003\u2003Passou a tarde assistindo anima\u00e7\u00f5es como Irm\u00e3o Urso, Viva, a Vida \u00e9 uma Festa, A Bela e a Fera, Pocahontas e O Rei Le\u00e3o com a at\u00e9 a noite, o que lhe ajudou a sentir-se melhor depois dos \u00faltimos acontecimentos.<br>\u2003\u2003Assim que acordou ap\u00f3s dormir por dez horas, se apressou para se arrumar, pois Andr\u00e9 o buscaria dentro de uma hora e meia para irem junto com Luana, amiga de D\u00e9bora e Rafael.<br>\u2003\u2003Quando chegaram se encontraram e conversaram com os demais. Todos se conheciam e interagiam como os colegas que eram.<br>\u2003\u2003Como era de se esperar, Andr\u00e9 dissimulou bem quem realmente era na presen\u00e7a dos convidados de D\u00e9bora. Seu sorriso f\u00e1cil, a beleza padr\u00e3o e a simpatia escondiam sua personalidade ao ponto de Rafael testemunhar a mudan\u00e7a de comportamento a caminho da casa da amiga para busca-la. A s\u00f3s, o namorado aproveitava para soltar uma cr\u00edtica ou outra acerca do outro disfar\u00e7ada de piada, quem come\u00e7ava a desanimar durante a viagem. Por sorte a mulher era uma tagarela, cheia de piadas e hist\u00f3rias carregadas de humor, ent\u00e3o ergueu o \u00e2nimo dele sem notar.<br>\u2003\u2003Conversava com Luana quando o \u00faltimo convidado adentrou. Quando a amiga viu quem era quase cuspiu a caipirinha. Exalando preocupa\u00e7\u00e3o e choque falou ap\u00f3s vasculhar o ambiente para certificando-se que Andr\u00e9 ainda estava no banheiro:<br>\u2003\u2003- Amigo, a gente pode ir embora se quiser, t\u00e1?<br>\u2003\u2003- U\u00e9, menina. \u2013 terminava de tomar sua latinha de cerveja segurando o riso pela express\u00e3o feminina \u2013 Qual o problema?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o vai acreditar quem chegou.<br>\u2003\u2003- Quem? \u2013 por estar de costas para a porta n\u00e3o viu a cena.<br>\u2003\u2003- Kalisto, aquele seu ex.<br>\u2003\u2003- \u00c9 piada isso, n\u00e9? \u2013 as fei\u00e7\u00f5es foram tomadas por total desespero \u2013 Por favor, me fala que \u00e9 uma brincadeira sua.<br>\u2003\u2003- Eu l\u00e1 vou brincar com uma merda dessa, Smurfette? \u2013 ralhou.<br>\u2003\u2003Num pesado suspiro avisou:<br>\u2003\u2003- Amiga, eu aguento. Acho. \u2013 engoliu em seco \u2013 At\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que me deparo com ele.<br>\u2003\u2003- Oi? \u2013 ergueu as sobrancelhas.<br>\u2003\u2003- O cara \u00e9 meu professor. \u2013 sussurrou entredentes.<br>\u2003\u2003- Puta merda! \u2013 xingou alto o bastante para outras pessoas a encararem \u2013 Como isso \u00e9 poss\u00edvel?<br>\u2003\u2003- Juro explicar pra te colocar a par da situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o agora por causa do Andr\u00e9. Escuta, vou precisar da sua ajuda. Promete, por favor, que n\u00e3o vai sair do meu lado. Caso eu segure a sua m\u00e3o e a aperte encare como o sinal claro para irmos embora.<br>\u2003\u2003- Relaxa. N\u00e3o vou deixa-lo. N\u00e3o vou ser a \u00fanica ao seu lado, n\u00e3o. O Andr\u00e9 tamb\u00e9m n\u00e3o vai desgrudar. \u2013 a \u00faltima frase saiu com um ponta de irrita\u00e7\u00e3o \u2013 Infelizmente.<br>\u2003\u2003E assim a mulher realmente fez.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Kalisto n\u00e3o esperava encontrar Rafael. Na verdade, nem imaginava que D\u00e9bora e ele fossem amigos.<br>\u2003\u2003Era amigo de inf\u00e2ncia da mulher. Apesar das personalidades serem completamente opostas, mantiveram uma boa rela\u00e7\u00e3o no decorrer dos anos. Ele era l\u00f3gico e racional, desde a fase de escola. Pisciana nata, D\u00e9bora era voltada para quest\u00f5es mais et\u00e9reas. Tinha sua cartomante de confian\u00e7a, entendia de signos, tinha uma capacidade de intui\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel e n\u00e3o era dif\u00edcil ler uma pessoa em min\u00facias. Al\u00e9m de, \u00e9 claro, descobrir uma informa\u00e7\u00e3o ou outra relevantes em sonho, sendo confirmado num per\u00edodo de semanas.Foi ela quem esteve ao lado do advogado para enfrentar a fam\u00edlia paterna quando assumiu-se gay, j\u00e1 que seus parentes eram evang\u00e9licos ou cat\u00f3licos.<br>\u2003\u2003Kalisto tinha redes sociais, mas era completamente low profile. N\u00e3o postava nada acerca de sua vida \u00edntima, nem de Rafael. N\u00e3o queria mant\u00ea-lo escondido, entretanto, reconhecia como seus familiares paternos podiam ser cru\u00e9is. N\u00e3o permitiria jamais que o rapaz sofresse algum ataque, independentemente da gravidade. At\u00e9 porque o relacionamento deles era pra ser leve e agrad\u00e1vel, n\u00e3o o oposto.<br>\u2003\u2003Portanto, foi uma surpresa se deparar com aquele seu menino, quem estava acompanhado por Luana e Andr\u00e9.<br>\u2003\u2003O tr\u00eas demonstraram o descontentamento pela sua chegada. Rafael o ignorava ao ponto de sequer olha-lo. Andr\u00e9 o encarava zangado e marcava territ\u00f3rio sem se afastar de Rafael. Luana usava de deboche e, quando passou por ele uma vez a caminho para o banheiro, sussurrou:<br>\u2003\u2003- O dia tinha tudo para ser bom. Pena que a chegada de uns e outros estragou isso.<br>\u2003\u2003A adulta de vinte e cinco anos n\u00e3o sabia o que aconteceu entre eles. Por outro lado, para afetar ao amigo ap\u00f3s quatro anos, considerava ser grave.<br>\u2003\u2003Kalisto se enturmou com as pessoas rapidamente. J\u00e1 conversava com v\u00e1rios dos convidados, ent\u00e3o n\u00e3o era como se fosse um estranho. Com sua regata vermelha, cal\u00e7a branca e t\u00eanis da mesma cor era uma figura agrad\u00e1vel na vis\u00e3o dos outros.<br>\u2003\u2003Tentou aproximar-se de Rafael algumas vezes sem sucesso. Ou o rapaz se distanciava quando percebia a inten\u00e7\u00e3o ou era puxado pela amiga em outra dire\u00e7\u00e3o. Frustrado n\u00e3o teve outra alternativa al\u00e9m de posicionar-se no ambiente de maneira a ficar de frente para o ex ao conversar com os convidados. Aproveitou para observar mais atentamente o comportamento de Andr\u00e9 com o menor. O homem n\u00e3o fez nada de errado, pelo menos \u00e0 primeira vista. Era cordial e respeitoso \u2013 exceto por um \u00fanico instante.<br>\u2003\u2003As pessoas estavam ocupadas ou distra\u00eddas, ent\u00e3o n\u00e3o viram nada. Rafael argumentava algo com o namorado sem chegar a uma conclus\u00e3o num canto discreto da varanda. Quando ia se afastar o atual segurou a pequena m\u00e3o a esmagando com a sua e o puxou com brutalidade para retornar ao seu lado. Inclinou para sussurrar no ouvido sem solt\u00e1-lo. Usou de for\u00e7a excessiva, aumentando o aperto at\u00e9 a ponta dos dedos do ruivo avermelharem. Era not\u00f3rio como se esfor\u00e7ava para n\u00e3o demonstrar a dor.<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 tudo bem? \u2013 D\u00e9bora indagou ao ver como o semblante do advogado foi tomado pela ira.<br>\u2003\u2003- Sim. N\u00e3o \u00e9 nada.<br>\u2003\u2003Queria e podia interferir, por\u00e9m n\u00e3o deveria. Al\u00e9m de provavelmente causar problemas futuros, Rafael n\u00e3o iria gostar da intromiss\u00e3o, al\u00e9m da possibilidade de sair como o errado da hist\u00f3ria ou de se formar um mal-entendido. Por isso foi para a cozinha \u00e0 procura de Luana. A encontrou separando salgadinhos em um copo de pl\u00e1stico e pav\u00ea de abacaxi em um pratinho.<br>\u2003\u2003- O Rafael est\u00e1 te procurando. \u2013 anunciou pr\u00f3ximo a ela.<br>\u2003\u2003- Avisa que j\u00e1 estou indo. \u2013 distra\u00edda comia um pastel.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 entendendo. \u2013 a contornou parando em sua frente com voz s\u00e9ria \u2013 Ou voc\u00ea vai at\u00e9 seu amigo agora ou em meio minuto algu\u00e9m sair\u00e1 desfigurado numa maca.<br>\u2003\u2003N\u00e3o conseguiu identificar o que havia de errado para soar t\u00e3o agressivo. A frase n\u00e3o foi proferida como se fosse direcionada a ela. Fora o t\u00e9rmino Rafael n\u00e3o reclamava nada em rela\u00e7\u00e3o ao ex e nem relatou situa\u00e7\u00f5es abusivas.<br>\u2003\u2003- Se eu me intrometer vai dar merda. Anda, garota. Agora!<br>\u2003\u2003Como era de se imaginar, imediatamente a mulher se juntou ao casal e, sem ter a consci\u00eancia, impediu que o amigo sofresse maiores agress\u00f5es.<br>\u2003\u2003As palavras de Kalisto refor\u00e7aram a hip\u00f3tese de que havia algo de errado com o ruivo. Assim como outros amigos de Rafael, Luana n\u00e3o gostava do namorado dele. Apenas o suportavam por n\u00e3o haver outra alternativa. N\u00e3o lhes agradava pelo fato de haver certo n\u00edvel de hostilidade, como se n\u00e3o hesitasse em usar da for\u00e7a f\u00edsica para subjuga-lo com o intuito de alcan\u00e7ar seus objetivos, fossem quais fossem. Em sua concep\u00e7\u00e3o, o moreno teve a mesma leitura do relacionamento dos dois e provavelmente presenciara algo. Afinal, n\u00e3o lhe transmitiria a mensagem \u00e0 toa.<br>\u2003\u2003Com o olhar mais atento acerca da conduta do rapaz, percebeu que ele n\u00e3o usava a m\u00e3o esquerda e tentava mant\u00ea-la sempre baixa \u2013 algo, no m\u00ednimo, estranho, pois naturalmente gesticulava bastante para se expressar.<br>\u2003\u2003Desconfiada, lhe enviou uma mensagem pelo celular:<br>\u2003\u2003<em>&#8211; Qual o problema com a sua m\u00e3o?<\/em><br>\u2003\u2003A resposta veio rapidamente.<br>\u2003\u2003<em>&#8211; Nada, n\u00e3o. S\u00f3 a bati aqui no parapeito. A\u00ed est\u00e1 meio dolorida.<\/em><br>\u2003\u2003Notou o quanto Kalisto acompanhou Andr\u00e9 com o olhar quando se afastou para buscar \u00e1gua. As narinas infladas, as p\u00e1lpebras arregaladas e semicerradas e a postura r\u00edgida eram sinais claros que algo no namorado de Rafael o incomodava. Tinha plena certeza que se controlava para n\u00e3o avan\u00e7ar contra Andr\u00e9 tamanha a raiva \u2013 e isso apenas salientava a ideia de que talvez tenha presenciado uma cena, no m\u00ednimo, bem descort\u00eas e desagrad\u00e1vel.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u00c0s quatro e meia da tarde Andr\u00e9 foi embora sozinho por, segundo o pr\u00f3prio, ter compromissos que exigiam sua aten\u00e7\u00e3o. O namorado aprendeu da pior maneira que n\u00e3o era para lhe questionar algumas coisas, ent\u00e3o aceitou a sa\u00edda com um voluptuoso beijo bem em frente a Kalisto, quem achou o momento bem prop\u00edcio para encarar o ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003Minutos antes da retirada de Andr\u00e9 teve a vis\u00e3o de D\u00e9bora passando com uns incensos pelo apartamento em cada c\u00f4modo, principalmente na varanda onde o trio estava. Durante o processo cantarolava uma can\u00e7\u00e3o onde a letra dizia \u201c<em>quem for bom bota pra dentro e quem n\u00e3o for deixa l\u00e1 fora<\/em>\u201d. N\u00e3o demorou para o namorado do amigo passar pela porta para n\u00e3o retornar nunca mais.<br>\u2003\u2003Assim que o Uber estava chegando e Andr\u00e9 se retirou, Rafael correu para o banheiro. Trancado l\u00e1 retirou do bolso da cal\u00e7a verde um par de brincos discretos, l\u00e1pis preto, r\u00edmel, delineador e o gloss. Poderia levar sua maquiagem numa das bolsas, por\u00e9m n\u00e3o queria discuss\u00e3o. O outro n\u00e3o gostava quando usava produtos considerados femininos pela sociedade, ent\u00e3o, quando sa\u00edam juntos, carregava a maquiagem nos bolsos por precau\u00e7\u00e3o para caso o namorado ir embora mais cedo caso surgisse a oportunidade de se embelezar \u2013 e aquele era o caso.<br>\u2003\u2003Enquanto se maquiava ouviu os primeiros trechos de Thinking of You da Katy Perry. Amaldi\u00e7oou quem teve a brilhante ideia de escolher uma m\u00fasica cuja letra era sobre manter-se num relacionamento com a segunda op\u00e7\u00e3o enquanto continuava completamente apaixonado pelo ex, quem era o exemplo de homem ideal para se ter um namoro \u2013 n\u00e3o apenas pela forma como o anterior tratava a pessoa, mas tamb\u00e9m pelo intenso amor m\u00fatuo que os unia.<br>\u2003\u2003- Pra que colocar um tro\u00e7o triste da porra como esse justamente hoje? \u2013 resmungou finalizando o gloss.<br>\u2003\u2003Deu uma risada ir\u00f4nica de como as coisas estavam acontecendo. Lembrou da previs\u00e3o da mo\u00e7a ao realizar a quiromancia. Torcia para que ela n\u00e3o estivesse se referindo a Kalisto, principalmente porque n\u00e3o era de seu desejo reencontra-lo \u2013 e, para a sua infelicidade, n\u00e3o era isso o que estava ocorrendo h\u00e1 cerca de um m\u00eas.<br>\u2003\u2003Saindo de l\u00e1 cantou em voz alta a m\u00fasica, dando o dedo do meio com os bra\u00e7os erguidos:<br>\u2003\u2003- N\u00e3o sei quem foi o filho da puta quem escolheu essa porra para tocar, mas aqui est\u00e1 o meu agradecimento. &#8216;Cause when I&#8217;m with him I am thinking of you.<br>\u2003\u2003Parou ao lado de Luana incapaz de controlar suas emo\u00e7\u00f5es. Os \u00faltimos acontecimentos mexeram em demasia consigo, ent\u00e3o tudo o que queria naquele momento era ir pra casa e n\u00e3o precisar ver o rosto de Kalisto pela vis\u00e3o perif\u00e9rica. At\u00e9 pensou em segurar a m\u00e3o da amiga e apert\u00e1-la, por\u00e9m a mulher foi mais r\u00e1pida.<br>\u2003\u2003O notando cabisbaixo, come\u00e7ou a cantar a m\u00fasica de uma maneira extremamente c\u00f4mica. Fazia caretas exageradas, tornando a interpreta\u00e7\u00e3o da letra dram\u00e1tica em algo hil\u00e1rio pelas suas a\u00e7\u00f5es. Pegou uma rosa branca artificial na mesa ao lado e puxou o cantor para seus bra\u00e7os simulando um tango desajeitado. No trecho \u201c<em>you\u2019re like an Indian summer in the middle os winter like a hard candy with a surprise center<\/em>\u201d retirou o caule da boca fazendo com a m\u00e3o gestos que, em sua concep\u00e7\u00e3o, traduziam o significado da letra. Ao final do trecho orgulhou-se de lhe arrancar uma risada genu\u00edna pela encena\u00e7\u00e3o lembrar utilizando um boquete com a m\u00e3o e a l\u00edngua.<br>\u2003\u2003O vendo alegrando-se novamente continuou a brincadeira at\u00e9 que, em fun\u00e7\u00e3o disso, se juntou a ela. Por fim, ambos encenavam como se fossem duas pessoas apaixonadas, colocando as destras sobre o cora\u00e7\u00e3o teatralmente, as usando para tampar a boca, dentre outros dos mais diversos gestos poss\u00edveis, exagerando bastante na express\u00e3o facial e corporal. Em alguns momentos n\u00e3o aguentavam e come\u00e7avam a rir das palha\u00e7adas, tornando o ar de ambos carregado de companheirismo e cumplicidade, principalmente quando a amiga improvisou e usou a rosa branca como se fosse um microfone.<br>\u2003\u2003Quando chegou ao trecho \u201c<em>now, now the lesson&#8217;s learned<\/em><em> I touched it, I was burned<\/em>\u201d o ruivo n\u00e3o teve vergonha alguma ao cant\u00e1-lo encarando Kalisto, quem, parado atr\u00e1s de Luana, o observava impass\u00edvel \u00e0 parte do conte\u00fado da conversa de quem o cercava por n\u00e3o desviar a aten\u00e7\u00e3o do objeto de sua ansiedade e infort\u00fanios, onde, por detr\u00e1s do sofrimento, escondia o amor. Voltou para a amiga, quem desafinava tentando controlar o riso.<br>\u2003\u2003Por fim, terminaram abra\u00e7ados e com as gargantas doendo.<br>\u2003\u2003- Obrigado. De verdade! \u2013 murmurou ainda envolvido pelos bra\u00e7os femininos.<br>\u2003\u2003- Pode contar comigo sempre, minha Smurfette. \u2013 beijou a bochecha o erguendo momentaneamente do ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003Rafael foi para a cozinha em seguida para lanchar rapidamente. Comia alguns salgadinhos bebericando o refrigerante num copo de pl\u00e1stico enquanto mexia no celular distra\u00eddo enviando uma mensagem. Uma voz o mostrou que n\u00e3o estava sozinho.<br>\u2003\u2003- J\u00e1 passou da hora de conversarmos, n\u00e3o acha?<br>\u2003\u2003Detestou o fato de os fones de ouvido estarem em casa.<br>\u2003\u2003Kalisto Descobriu que n\u00e3o seria t\u00e3o f\u00e1cil falar com o outro quando o rapaz n\u00e3o se moveu um cent\u00edmetro se quer, agindo como se ele n\u00e3o estivesse ali.<br>\u2003\u2003- Al\u00f4. Estou falando contigo. \u2013 o pressionou.<br>\u2003\u2003N\u00e3o obteve nenhum \u00eaxito al\u00e9m de irrita-lo ao ponto de as narinas inflarem e lutar contra a vontade de tacar uma faca nele.<br>\u2003\u2003- \u00c9 s\u00e9rio que vai continuar nessa postural infantil?<br>\u2003\u2003O ruivo apenas separou um pouco do pav\u00ea num prato de pl\u00e1stico e se encaminhou para a sa\u00edda da cozinha, mas foi impedido. Kalisto estendeu o bra\u00e7o ao lado para bloquear a passagem, o antebra\u00e7o envolvendo a cintura do outro.<br>\u2003\u2003- Por que n\u00e3o respondeu minhas mensagens? Rafael, eu n\u00e3o vou chegar perto de voc\u00ea, n\u00e3o vou toc\u00e1-lo e nem fazer nada contigo que n\u00e3o aprove. Apenas quero conversar, como antes. A minha companhia foi t\u00e3o ruim assim quando esteve na minha casa pela \u00faltima vez? Juro, n\u00e3o farei nada conden\u00e1vel. Apenas preciso dialogar. Mais nada.<br>\u2003\u2003Havia certa s\u00faplica na voz dif\u00edcil de ignorar.<br>\u2003\u2003Os segundos se passaram e o ar entre eles tornou-se denso. A vontade de Rafael era de deixar-se levar pelo impulso de agredi-lo, mas tinha plena consci\u00eancia de que isso n\u00e3o resolveria nada \u2013 pelo menos na situa\u00e7\u00e3o deles. As coisas precisavam ser expressas por meio de palavras, n\u00e3o a\u00e7\u00f5es. Por outro lado, seria necess\u00e1rio deixar-se ser guiado pelas emo\u00e7\u00f5es, abrindo-se para permitir-se ser acessado pelo homem quem lhe destru\u00edra o cora\u00e7\u00e3o. Era por esse motivo que n\u00e3o consentiria jamais em dialogar sobre o tema. Da \u00faltima vez que se abrira para Kalisto, quem era de sua confian\u00e7a na \u00e9poca quando estavam juntos, foi de longe o pior erro j\u00e1 cometido por colocar-se numa posi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Enquanto n\u00e3o h\u00e1 nada de errado no relacionamento, n\u00e3o h\u00e1 problema. O obst\u00e1culo era quando poderia ser ferido emocionalmente \u2013 e esse foi o caso. E n\u00e3o voltaria a cometer tal erro.<br>\u2003\u2003Em virtude dos sentimentos reprimidos a remota ideia do mais novo ter uma concep\u00e7\u00e3o ruim sobre si o constrangia. Logo, ansiava por resolver o mal-entendido \u2013 esse em particular, n\u00e3o o anterior, que era crucial e de extrema relev\u00e2ncia.<br>\u2003\u2003- Por favor, querido. \u2013 o advogado sussurrou movimentando os dedos contra a pele firme.<br>\u2003\u2003A sutil car\u00edcia com os dedos na lateral da fina cintura foi capaz de faz\u00ea-lo erguer os ombros e perpassar a sombra de algo similar a mart\u00edrio pela doce face que logo se dissipou, tornando-se novamente fria.<br>\u2003\u2003N\u00e3o gostou do presun\u00e7oso sorriso dado por Rafael em seguida, quem ainda n\u00e3o o fitava olhando para frente e longe de suas \u00edris escuras.<br>\u2003\u2003- Sabe o engra\u00e7ado? \u00c9 a primeira vez que nos encontramos ap\u00f3s esses anos e em quest\u00e3o de semanas errou comigo ao ponto de precisar se desculpar, no m\u00ednimo, duas vezes. Isso sem mencionar quando tentou me insultar quando est\u00e1vamos no banheiro e aquele di\u00e1logo maravilhoso ao fim da sua aula. Sabe qual o problema disso? No decorrer do tempo desculpas costumam n\u00e3o valer de nada por tornarem-se corriqueiras e vazias.<br>\u2003\u2003Pela primeira vez o encarou. N\u00e3o havia express\u00e3o em seu rosto impass\u00edvel com o queixo erguido. Era not\u00e1vel como as palavras o atingiram, at\u00e9 porque o leve afago cessou.<br>\u2003\u2003- Simplesmente n\u00e3o tenho nada a tratar contigo. \u2013 finalizou r\u00edspido \u2013 Agora, fa\u00e7a o favor de soltar.<br>\u2003\u2003Franziu o cenho desaprovando a resposta.<br>\u2003\u2003Num sussurro carregado de ar o avisou aproximando bem os rostos:<br>\u2003\u2003- Eu n\u00e3o estou te segurando. Apenas bloqueando a sua passagem. Voc\u00ea sai daqui quando bem entender.<br>\u2003\u2003Com a resposta, empurrou rudemente o bra\u00e7o para passar.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Ao cair da noite o grupo come\u00e7ou a jogar \u201ceu nunca\u201d. Foi um momento divertido, carregado de risos leves e hist\u00f3rias picantes das mais diversas. Teoricamente era para o humor de Rafael estar melhor, entretanto n\u00e3o era o caso.<br>\u2003\u2003Lucas explicitamente flertava com Kalisto. O ruivo perdera a conta de quantas vezes o viu passar a m\u00e3o em seu peito ou descansa-la em seu ombro numa intimidade at\u00e9 ent\u00e3o inexistente. O advogado n\u00e3o se esquivava das investidas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o as incentivava. Mantinha uma postura neutra apenas por teimosia, j\u00e1 que Rafael n\u00e3o baixava a guarda para dialogarem e lhe dar espa\u00e7o para explicar o que aconteceu na madrugada de s\u00e1bado \u2013 exceto a parte de quando estavam deitados no sof\u00e1, \u00e9 claro.<br>\u2003\u2003O rapaz concluiu que o ex n\u00e3o se importava consigo. Caso tivesse o menor respeito ou considera\u00e7\u00e3o jamais deixaria Lucas esfregar-se em si, independente de conhecer os sentimentos alheios ou n\u00e3o. Afinal, cora\u00e7\u00e3o \u00e9 terra onde ningu\u00e9m pisa. Era imposs\u00edvel ter a plena certeza de se ainda o amava ou n\u00e3o \u2013 e apenas a possibilidade de feri-lo deveria ser capaz de impedir Kalisto dar prosseguimento ao flerte descarado.<br>\u2003\u2003Quando chegou sua vez, para alfinet\u00e1-lo, Rafael disse, ouvindo os primeiros acordes da m\u00fasica Estranho Jeito de Amar:<br>\u2003\u2003- Eu nunca fiz ci\u00fame para um ex.<br>\u2003\u2003A maioria bebeu a sua respectiva bebida, inclusive Kalisto.<br>\u2003\u2003Para o moreno era \u00f3bvio como Andr\u00e9 era o parceiro incorreto para Rafael. Era vis\u00edvel o quanto o rapaz ficava tenso na presen\u00e7a do atual. Assim que o outro foi embora, passou sua maquiagem, colocou um par de brincos, conversou com as pessoas falando alto de vez em quando como de costume e dan\u00e7ou rebolando, inclusive at\u00e9 o ch\u00e3o ao som de \u00c9 o Tchan e funks antigos. J\u00e1 suspeitava que o relacionamento n\u00e3o era dos melhores desde o princ\u00edpio pela m\u00e1 impress\u00e3o que tinha do homem quando o conheceu. Apenas n\u00e3o imaginava que isso se estendia a agress\u00e3o f\u00edsica.<br>\u2003\u2003Foram todas essas contesta\u00e7\u00f5es que o dissuadiram a proferir as seguintes palavras:<br>\u2003\u2003- Nunca deixei de ser quem sou para me enquadrar num relacionamento onde cheguei a aceitar agress\u00f5es do namorado.<br>\u2003\u2003A contragosto Rafael bebericou do vinho recebendo um olhar de esguelha do moreno, de D\u00e9bora e de Luana.<br>\u2003\u2003O ruivo sentia raiva. Raiva pelo ci\u00fame que o corro\u00eda. Raiva por Kalisto n\u00e3o se afastar de Lucas. Raiva por Kalisto permitir a insist\u00eancia do outro. Raiva por Andr\u00e9 preferir ir embora ao inv\u00e9s de permanecer ao seu lado, assim como qualquer namorado af\u00e1vel e amoroso faria. Raiva de si por ainda carregar sentimentos pelo ex, o respons\u00e1vel por destruir sua autoestima e amor-pr\u00f3prio, o fazendo questionar sobre a sua import\u00e2ncia na vida de quem o cercava e se as pessoas realmente o apreciavam ou se apenas o suportavam.<br>\u2003\u2003Entrou numa paranoia onde, por medo e trauma, mantinha seus futuros poss\u00edveis interesses amorosos ou sexuais longe de seu c\u00edrculo social. N\u00e3o gostava da ideia se se esconder ou esconder outras pessoas, mas obrigou-se a faz\u00ea-lo pelo receio oriundo das inseguran\u00e7as e baixa autoestima. N\u00e3o confiava mais em si e nem nos demais. S\u00f3 naquele momento dava os primeiros passos para voltar a se abrir e interagir como antes \u2013 conquistas alcan\u00e7adas gra\u00e7as a mo\u00e7a de vestido vermelho e Princess.<br>\u2003\u2003Portanto, prosseguiu em alfinet\u00e1-lo:<br>\u2003\u2003- Eu nunca feri de maneira covarde a pessoa quem eu dizia amar.<br>\u2003\u2003Rolou os olhos com certo deboche ao v\u00ea-lo ingerir um generoso gole da cerveja.<br>\u2003\u2003D\u00e9bora era uma mulher intuitiva, ent\u00e3o n\u00e3o demorou a notar que havia algo acontecendo entre esses dois desde a chegada do amigo de inf\u00e2ncia. De prop\u00f3sito falou quando chegou na sua vez:<br>\u2003\u2003- Eu nunca tive sentimentos guardados pelo meu ex.<br>\u2003\u2003Compreendeu totalmente a situa\u00e7\u00e3o quando ambos tomaram suas bebidas.<br>\u2003\u2003Rafael aguardou o copo esvaziar para segurar a m\u00e3o de Luana e a apertar de leve.<br>\u2003\u2003- Bem, meu povo&#8230; Eu sei que a partida \u00e9 dolorosa, mas temos que ir. \u2013 avisou a loira pondo-se de p\u00e9 \u2013 Amanh\u00e3 eu e o Rafa acordaremos cedo.<br>\u2003\u2003Se despediram dos colegas rapidamente. De prop\u00f3sito Kalisto se colocou ao lado da porta, por onde o ex passou sem sequer desviar o olhar. Desejava pelo menos um \u201ctchau\u201d murmurado seco ou que apenas o fitasse. Por n\u00e3o receber nenhum dos dois, foi movido pelo impulso quando em quest\u00e3o de instantes ultrapassou a porta num rompante.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003- Amigo, j\u00e1 estou pedindo o Uber aqui. \u2013 avisou enquanto passavam pelo corredor do pr\u00e9dio.<br>\u2003\u2003Teria respondido caso n\u00e3o fosse segurado pelo ombro por outra pessoa.<br>\u2003\u2003- Rafael, precisamos conversar sobre ontem. Querendo ou n\u00e3o teremos essa conversa.<br>\u2003\u2003Kalisto anunciou urgente.<br>\u2003\u2003A insist\u00eancia j\u00e1 o havia tirado a paci\u00eancia, ent\u00e3o n\u00e3o optou pela serenidade ao confront\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003- Sobre o que exatamente quer conversar? \u2013 se desvencilhou do toque lutando para n\u00e3o perder a cabe\u00e7a e estrangul\u00e1-lo \u2013 O quanto sou burro? O boquete que recebi no meio da madrugada no seu apartamento? A sua maneira maravilhosa de se referir a mim a sabe-se l\u00e1 Deus com quem? Ou o quanto adorou aquele filho da puta do Lucas se esfregando em voc\u00ea na minha presen\u00e7a?<br>\u2003\u2003O advogado nunca o vira t\u00e3o zangado e dono de si. As palavras o obrigaram a cambalear para tr\u00e1s quase trope\u00e7ando nos pr\u00f3prios p\u00e9s, principalmente pela forma como lhe atingiram no \u00edntimo.<br>\u2003\u2003Apesar da baixa estatura o cantor aparentava ocupar mais espa\u00e7o que o usual e n\u00e3o tinha mais problemas em se envolver em conflitos como no passado.<br>\u2003\u2003- Esse \u00faltimo n\u00e3o foi nada que voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o tenha feito, Rafael. \u2013 acusou retomando a sua postura altiva.<br>\u2003\u2003Emo\u00e7\u00f5es antigas que imaginava j\u00e1 estarem enterradas come\u00e7aram a vir para a superf\u00edcie como o limo surge quando a \u00e1gua \u00e9 agitada. Era inc\u00f4modo, desgastante e tinha vontade de bater em algo at\u00e9 extravasar tudo aquilo.<br>\u2003\u2003- Mais uma vez essa hist\u00f3ria, cacete?<br>\u2003\u2003- E eu n\u00e3o tenho nada com o Lucas. Aquilo n\u00e3o foi nada&#8230;<br>\u2003\u2003Ele e Rafael terminaram h\u00e1 quatro anos, mas, mesmo assim, sentiu-se na obriga\u00e7\u00e3o de avisa-lo isso.<br>\u2003\u2003A explica\u00e7\u00e3o foi interrompida:<br>\u2003\u2003- Ah, n\u00e3o? \u2013 com as m\u00e3os simulou a forma como o outro acariciava Kalisto, falando em tom de esc\u00e1rnio \u2013 Isso aqui n\u00e3o significa nada, n\u00e3o? Me poupe! J\u00e1 estava vendo a hora de se trancarem na porra de algum quarto ou irem para o motel barato mais pr\u00f3ximo.<br>\u2003\u2003- E voc\u00ea tamb\u00e9m estava bem \u00e0 vontade com o seu namoradinho, n\u00e9?<br>\u2003\u2003- Eu estou namorando, Kalisto. Nem fiz nada hoje com o Andr\u00e9, diferente do que aceitou do Luscas. Pelo amor de Deus, n\u00e3o precisavam ser t\u00e3o expl\u00edcitos. Estavam cercados de gente.<br>\u2003\u2003- Isso nunca foi um problema pra voc\u00ea. \u2013 deu de ombros \u2013 Ali\u00e1s, estou solteiro. N\u00e3o tenho porque me preocupar com isso.<br>\u2003\u2003- E eu estou comprometido. N\u00e3o tem motivos para reclamar se eu beijo o meu namorado ou n\u00e3o.<br>\u2003\u2003Luana, quem mantinha-se alternando o olhar entre o celular e os dois, surgiu atr\u00e1s do ruivo e indagou para o amigo:<br>\u2003\u2003- Prefere que eu te tire daqui enquanto o Uber n\u00e3o chega ou prefere discutir?<br>\u2003\u2003- Hoje quero ver \u00e9 sangue.<br>\u2003\u2003- Continuem a\u00ed, ent\u00e3o. \u2013 deu tr\u00eas tapinhas no ombro \u2013 Qualquer coisa \u00e9 s\u00f3 me chamar. \u2013 parou a uma dist\u00e2ncia de dois metros.<br>\u2003\u2003Kalisto quebrou a dist\u00e2ncia o encarando.<br>\u2003\u2003- E voc\u00ea \u00e9 bem feliz com o seu namoradinho, n\u00e9?<br>\u2003\u2003Usava a palavra como se fosse um xingamento com cara de nojo.<br>\u2003\u2003- Claro. Ele \u00e9 maravilhoso comigo.<br>\u2003\u2003- Conta outra. O desgra\u00e7ado n\u00e3o te respeita, Rafael, e ainda \u00e9 violento.<br>\u2003\u2003Para o descontentamento do ruivo a amiga ouviu bem as palavras.<br>\u2003\u2003- Do que ele est\u00e1 falando, Rafa?<br>\u2003\u2003- Foi por isso que a chamei quando estava na cozinha. \u2013 revelou o moreno sem desviar o olhar \u2013 J\u00e1 que eu n\u00e3o poderia intervir, voc\u00ea, pelo menos com sua presen\u00e7a, evitaria disso se repetir, enquanto estivessem aqui. N\u00e3o d\u00e1 pra eu controlar quando os dois est\u00e3o sozinhos e sabe-se l\u00e1 Deus se o filho da puta j\u00e1 bateu nele ou n\u00e3o.<br>\u2003\u2003O mais novo deu mais um passo para frente e o confrontou, numa voz ressentida e lutando contra o n\u00f3 na garganta:<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea fez muito pior comigo no passado. \u2013 o tom era baixo e acusat\u00f3rio \u2013 N\u00e3o sabe nem um ter\u00e7o do que aguentei sozinho por sua culpa durante a nossa separa\u00e7\u00e3o e acha plaus\u00edvel querer tirar satisfa\u00e7\u00e3o comigo sobre meu relacionamento? Eu deveria saber que voc\u00ea n\u00e3o mudou em nada quando n\u00e3o se desculpou assim que os alunos sa\u00edram daquela sala na sua primeira aula. Isso s\u00f3 demonstra que nunca se importou de verdade comigo e o errado fui eu por permitir a sua entrada na minha vida, mesmo ap\u00f3s me abrir contigo sobre meus maiores medos.<br>\u2003\u2003As palavras o fizeram baixar as p\u00e1lpebras devido ao tanto de ressentimento no rosto de seu menino. Pela primeira vez, na frente do ex, transpareceu o sofrimento que ainda carregava consigo. Fosse pra onde fosse estava ali, mesmo que mascarado de raiva. Ali\u00e1s, por detr\u00e1s da ira sentida por Kalisto, existia a m\u00e1goa. A f\u00faria servia para esconder a profunda tristeza, respons\u00e1vel pela sua estadia no hospital h\u00e1 quatro anos. Por\u00e9m, finalmente voltando a ter contato e certo n\u00edvel de conviv\u00eancia com o rapaz, era imposs\u00edvel ignorar tais emo\u00e7\u00f5es, mesmo lutando contas elas e usando dos mais diversos artif\u00edcios e ferramentas para elas n\u00e3o atingi-lo.<br>\u2003\u2003Ao erguer as p\u00e1lpebras haviam l\u00e1grimas, desconcertando completamente o ruivo. Embora soubesse que tinha raz\u00e3o, sim, em cada palavra dita, n\u00e3o gostava de v\u00ea-lo em qualquer estado de mart\u00edrio que fosse, independentemente dele merecer ou n\u00e3o.<br>\u2003\u2003Kalisto n\u00e3o era de chorar facilmente. Pelo contr\u00e1rio. Para chegar ao ponto da tristeza ser elevada demais culminando em entrar numa guerra contra o pranto era porque as palavras o machucaram. Bastante.<br>\u2003\u2003E Rafael tinha consci\u00eancia disso.<br>\u2003\u2003- Foi tudo consequ\u00eancia dos seus atos, querido. \u2013 a voz sa\u00edra embargada e entrecortada, lutando no \u00edntimo para compreender as palavras \u2013 Eu n\u00e3o seria o \u00fanico a sofrer com a mesma dor nessa hist\u00f3ria. \u2013 segurou-lhe o rosto com as m\u00e3os, a face a cent\u00edmetros do dele e as \u00edris escuras, carregadas de emo\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o totalmente elaboradas \u2013 E me <em>recuso<\/em> a me desculpar por isso.<br>\u2003\u2003Revelou numa voz sem emo\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio entre eles foi quebrado pela mulher, quem avisou:<br>\u2003\u2003- Rafa, vem. Faltam dois minutos pro motorista chegar.<br>\u2003\u2003O amigo a acompanhou, deixando o advogado atordoado. Foi necess\u00e1rio para o homem alguns instantes no corredor para se recuperar antes de retornar para a resenha.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Kalisto n\u00e3o pediu para tocar Thinking of You sem prop\u00f3sito. Seu intuito era observar qual seria a rea\u00e7\u00e3o de Rafael ao ouvir a letra para tirar d\u00favidas das quais o rapaz jamais lhe responderia caso fosse questionado \u2013 ou, no m\u00ednimo, mentiria.<br>\u2003\u2003Desde a primeira aula na faculdade o ex demonstrava deseja-lo, n\u00e3o necessariamente am\u00e1-lo. As provoca\u00e7\u00f5es enquanto lecionava, a cena do banheiro e em seu apartamento eram exemplos perfeitos disso. N\u00e3o conseguia distinguir se existia algo al\u00e9m da vol\u00fapia. Devido aos pr\u00f3prios sentimentos sua mente poderia lhe pregar uma pe\u00e7a onde enxergaria situa\u00e7\u00f5es que queria que fossem reais, mas n\u00e3o necessariamente elas o seriam. Portanto, achou de melhor tom instiga-lo \u2013 e isso seria f\u00e1cil at\u00e9 demais.<br>\u2003\u2003O conhecia bastante, ent\u00e3o sabia como mexer com o cantor. Al\u00e9m da escolha prop\u00edcia da m\u00fasica, permitiu a aproxima\u00e7\u00e3o de Lucas, quem n\u00e3o lhe despertou excita\u00e7\u00e3o em grau algum \u2013 e fez quest\u00e3o de estar no campo de vis\u00e3o do ex a todo o momento. Foi o suficiente para faz\u00ea-lo ter uma crise de ci\u00fame no corredor. O estranhamento foi devido ao fato de ter sido f\u00e1cil demais para reagir. Imaginou que fosse porque atingiu o seu limite. N\u00e3o imaginou a exist\u00eancia de mais nenhuma hip\u00f3tese cuja consequ\u00eancia foi gerada pelo ato de vingan\u00e7a elaborado e executado por Kalisto anos atr\u00e1s.<br>\u2003\u2003Queria ver se despertava algum sentimento motivado pela presen\u00e7a dele no mesmo ambiente e a letra da can\u00e7\u00e3o cuja letra poderia facilmente se encaixar na situa\u00e7\u00e3o deles.<br>\u2003\u2003Kalisto era o homem exato para se ter um relacionamento longo e saud\u00e1vel. N\u00e3o desrespeitava a pessoa, n\u00e3o ultrapassava os limites e sequer abria espa\u00e7o para d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o a qualquer coisa, principalmente \u00e0 sua fidelidade. Rafael sempre teve acesso ao seu celular e \u00e0s senhas de suas redes sociais, mesmo sendo low profile. Prezava pelo prazer do cantor, al\u00e9m de funcionarem maravilhosamente bem na cama e dialogarem sobre os mais diversos assuntos. Sempre tiveram espa\u00e7o para se abrirem devido a seguran\u00e7a emocional m\u00fatua. Quando n\u00e3o acontecia por ser um tema dif\u00edcil de ser tratado \u2013 assim como quando conversaram sobre o medo do ruivo de rejei\u00e7\u00e3o \u2013 respeitava e lhe oferecia as \u00fanicas coisas capazes de diminu\u00edrem a afli\u00e7\u00e3o: compreens\u00e3o, acolhimento, aten\u00e7\u00e3o e carinho.<br>\u2003\u2003Era \u00f3bvio que com Andr\u00e9 o relacionamento n\u00e3o era dessa maneira. O homem impunha sua vontade e, caso n\u00e3o fosse persuasivo, optava pela subjuga\u00e7\u00e3o, onde, atrav\u00e9s da for\u00e7a f\u00edsica, obrigava-o a ceder perante suas vontades. E isso deixou Kalisto perigosamente perto de cometer a loucura de se atracar com o homem, acarretando uma briga de propor\u00e7\u00f5es preocupantes caso fosse levado pelos impulsos.<br>\u2003\u2003E foi perdido nesses pensamentos que D\u00e9bora o encontrou apoiado no parapeito da varanda pelos antebra\u00e7os, alheio aos acontecimentos e \u00e0s pessoas.<br>\u2003\u2003De t\u00e3o absorto ao redor n\u00e3o a viu se posicionando ao seu lado.<br>\u2003\u2003- Deixa adivinhar. Esse Rafael \u00e9 aquele Rafael com quem namorou e t\u00eam assuntos bem mau-resolvidos, n\u00e9?<br>\u2003\u2003D\u00e9bora n\u00e3o conhecera e nem vira nenhuma foto de Rafael na \u00e9poca quando namoravam, ent\u00e3o imaginava que era o ex de seu amigo.<br>\u2003\u2003- Ficou t\u00e3o \u00f3bvio assim?<br>\u2003\u2003- Pra mim, sim. Matei a xarada quando falei sobre os sentimentos guardados pelo ex.<br>\u2003\u2003Em falso tom de reclama\u00e7\u00e3o, constatou:<br>\u2003\u2003- Mas voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o deixa passar nada, menina.<br>\u2003\u2003- Escuta, me desculpa. Se eu soubesse que o Rafael era aquele Rafael eu n\u00e3o&#8230;<br>\u2003\u2003- Deb, relaxa. \u2013 fez um movimento com a m\u00e3o como se n\u00e3o desse import\u00e2ncia \u2013 \u00c1guas passadas.<br>\u2003\u2003- Certeza?<br>\u2003\u2003O prolongado sil\u00eancio respondeu a indaga\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Aproveitou a moment\u00e2nea brisa noturna refrescar a pele admirando o c\u00e9u estrelado e iluminado por uma magn\u00edfica Lua Cheia.<br>\u2003\u2003- Por que n\u00e3o conversam? \u2013 sussurrou, mesmo sozinhos naquela sacada.<br>\u2003\u2003- Ele nem me deixa chegar perto. Tentei v\u00e1rias vezes hoje e nada, principalmente com a presen\u00e7a da Luana e aquele filho da puta do namoradinho dele.<br>\u2003\u2003- A Lua obviamente protegia o amigo. O Andr\u00e9&#8230; Bem, \u00e9 o Andr\u00e9.<br>\u2003\u2003Detectou o desconforto na pron\u00fancia do nome.<br>\u2003\u2003- Tem algo conta o cara? \u2013 pela primeira vez virou a cabe\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o dela.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o gosto dele. Na verdade, ningu\u00e9m gosta. Me passa uma sensa\u00e7\u00e3o estranha. \u2013 esticou o bra\u00e7o e apoiou a m\u00e3o no parapeito de m\u00e1rmore.<br>\u2003\u2003- O Rafael sempre fala bem do relacionamento dos dois.<br>\u2003\u2003- \u00c9 mais f\u00e1cil eu dar o meu c\u00fa sem lubrificante na encruzilhada daqui na esquina em plena segunda-feira ao meio dia pro primeiro Kid Bengala que passar se isso for verdade.<br>\u2003\u2003D\u00e9bora era a pessoa capaz de dizer as coisas mais absurdas numa conversa s\u00e9ria \u2013 e isso sempre arrancava risadas do advogado.<br>\u2003\u2003- Ele tenta se convencer de que o relacionamento \u00e9 promissor. \u00c9 bem diferente de o ser, de fato. \u2013 concluiu contente por notar o semblante do outro mais leve.<br>\u2003\u2003- Ent\u00e3o o que fa\u00e7o pra conversar com o Rafael?<br>\u2003\u2003- Comece admitindo os seus erros. \u2013 afastou os cabelos do rosto com a outra palma \u2013 \u00c9 claro que um ainda mexe com o outro. A conex\u00e3o entre voc\u00eas deve ser forte pra continuarem envolvidos depois de quatro anos. Devem ser almas g\u00eameas ou chamas g\u00eameas.<br>\u2003\u2003- Na verdade, n\u00e3o foi erro. Foi um mal-entendido. \u2013 focou o assunto nesse t\u00f3pico numa tentativa de se desvencilhar de qualquer coisa acerca dos seus sentimentos \u2013 Falei uma merda pro Gustavo e o Rafael acabou escutando.<br>\u2003\u2003- Vamos fingir que foi s\u00f3 isso. Vai aos poucos, como se fosse uma escala, at\u00e9 chegarem ao t\u00f3pico principal.<br>\u2003\u2003- Deb, eu contei a hist\u00f3ria s\u00f3 pra voc\u00ea, o Gustavo, o Lobato e o Miguel por um \u00fanico motivo. Tratar do assunto uma \u00fanica vez pra nunca mais. \u00c9 doloroso at\u00e9 hoje de lembrar.<br>\u2003\u2003- Sei. Concordo e at\u00e9 dou raz\u00e3o. Entretanto&#8230; Mais cedo ou mais tarde o tema vir\u00e1 \u00e0 tona. Duvido que voc\u00eas tenham se reencontrado aqui sem motivos.<br>\u2003\u2003- Amiga, eu dou aula pra ele na faculdade, tivemos uns momentos bem intensos e o abriguei no meu apartamento quando choveu pela \u00faltima vez. Dormiu l\u00e1 naquela noite. Isso tudo no decorrer desse m\u00eas.<br>\u2003\u2003- Volto a repetir, h\u00e1 uma raz\u00e3o pra esse reencontro. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Tente conversar com o Rafa aos poucos lembrando de admitir os seus erros. No momento certo ir\u00e3o abordar o motivo pra sua vingan\u00e7a idiota.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o foi&#8230;<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea errou em n\u00e3o explorar a situa\u00e7\u00e3o mais a fundo. \u2013 pontuou \u2013 N\u00e3o era pra colocar os p\u00e9s pelas m\u00e3os. Se for pra acontecer, as coisas se configurar\u00e3o para o que eu falei rolar. At\u00e9 l\u00e1? Nada que incensos, um banho de canela ou de arruda, \u00e1lcool e a companhia de uma ador\u00e1vel doidinha conhecida como a maluca do Baralho Cigano e duendes, vulgo euzinha, n\u00e3o d\u00eaem jeito.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2247],"class_list":["post-7658","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chame-por-cigana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/7658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=7658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}