{"id":7656,"date":"2025-10-14T12:27:00","date_gmt":"2025-10-14T15:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T13:08:23","modified_gmt":"2025-11-09T16:08:23","slug":"capitulo-3","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chame-por-cigana\/capitulo-3\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 3"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Quando chegou em casa<\/span> entrou silenciosamente para n\u00e3o acordar a m\u00e3e e nem a irm\u00e3, ambas dormindo em seus respectivos quartos. Deixou a sacola com p\u00e3es comprados na padaria na mesa e rapidamente preparou um caf\u00e9 para elas.<br>\u2003\u2003Foi para o seu quarto e fechou a porta. Antes de se desmontar, encarou seu reflexo no espelho do arm\u00e1rio e gostou do que viu.<br>\u2003\u2003Princess era linda. Atraente. Forte. Sensual. Ousada. Atrevida. Dona de si. Virtudes essas que Rafael ainda n\u00e3o encontrara em si quando estava como ele mesmo \u2013 e era por causa disso que adorava Princess.<br>\u2003\u2003Aproveitou para bater uma foto e mandar para Andr\u00e9 na esperan\u00e7a de que o homem se acostumasse com a sua imagem de drag.<br>\u2003\u2003<em>Estou gostosa assim, amor?<\/em><br>\u2003\u2003O namorado foi o \u00fanico quem n\u00e3o concordou com a sua persona art\u00edstica. Era preconceituoso sobre o assunto.<br>\u2003\u2003No come\u00e7o foi bem dif\u00edcil para Rafael porque era algo importante e poderia, sim, dar bons frutos e ajuda-lo economicamente, ent\u00e3o n\u00e3o desistiria de ao menos tentar. O resultado? Os conflitos com o atual foram v\u00e1rios. Andr\u00e9 n\u00e3o aceitava ter um namorado Drag Queen. Argumentava que as pessoas iriam rir da montagem, que seria vergonhoso, seria dinheiro jogado fora com maquiagem e figurino&#8230; As brigas foram t\u00e3o feias que, uma vez, empurrou Rafael, quem precisou se segurar numa estante para n\u00e3o cair.<br>\u2003\u2003O celular vibrou quase imediatamente mostrando a chegada da mensagem. Ao l\u00ea-la perguntou-se porque ainda buscava a aprova\u00e7\u00e3o dele.<br>\u2003\u2003<em>Rid\u00edculo.<\/em><br>\u2003\u2003Engoliu em seco voltando a sentir-se inseguro, envergonhado, triste, humilhado, desinteressante e sem valor nenhum \u2013 sentimentos esses que surgiram juntos pela primeira vez na \u00faltima vez quando esteve no apartamento de Kalisto e o incentivaram a fugir dali.<br>\u2003\u2003Respirou fundo como maneira de lutar contra as l\u00e1grimas. Elas n\u00e3o combinavam com Princess. Apenas lhes dava a permiss\u00e3o de ca\u00edrem quando n\u00e3o estivesse montada \u2013 e assim aconteceu, deitando-se para dormir naquela manh\u00e3 de domingo.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O restante daquele m\u00eas correu muito bem para Rafael, embora os compromissos tenham sido v\u00e1rios. Com a mudan\u00e7a de rotina gra\u00e7as ao retorno da faculdade aproveitou os intervalos entre um compromisso e outro para estudar. No sal\u00e3o de beleza, enquanto n\u00e3o surgia algum cliente, se dedicava aos estudos fazendo anota\u00e7\u00f5es e lendo o conte\u00fado das aulas anteriores nos cadernos. N\u00e3o tinha muita divers\u00e3o \u2013 exceto quando assistia \u00e0s aulas de Kalisto.<br>\u2003\u2003Por vezes foi necess\u00e1rio segurar o riso pelas rea\u00e7\u00f5es do homem mediante suas provoca\u00e7\u00f5es. O ruivo sabia que era atraente e lindo \u2013 duas caracter\u00edsticas distintas capazes de caminharem juntas. Gra\u00e7as a isso usou seus atributos para provocar o advogado incentivado pelo que Victor lhe contou sobre a conversa com o ex no \u00faltimo show. Rafael n\u00e3o era burro e nem ing\u00eanuo. Sabia, sim, que atra\u00eda os olhares de Kalisto desde quando se conheceram. Por\u00e9m, os anos se passaram e n\u00e3o tinha certeza se ainda causava o mesmo impacto sobre o moreno como no passado, ent\u00e3o resolveu testar aos poucos.<br>\u2003\u2003Na segunda aula usou um de seus shorts jeans curtinhos que o outro particularmente apreciava. Na \u00e9poca costumava admir\u00e1-lo em pura vol\u00fapia quando os trajava, ent\u00e3o a escolha pela pe\u00e7a n\u00e3o foi acidental.<br>\u2003\u2003Teve suas d\u00favidas sanadas ali, logo na entrada de Kalisto para lecionar. O olhar demorou-se em suas pernas cruzadas \u2013 pernas essas que, embora n\u00e3o soubesse, fizeram a m\u00e3o do professor co\u00e7ar para agarrar com firmeza \u2013 e por um momento o homem pareceu esquecer de como usar as cordas vocais, principalmente quando os olhares dos dois se encontraram. Havia uma express\u00e3o espec\u00edfica feita por Rafael capaz de intrigar o mais velho. Era uma linha t\u00eanue entre a safadeza transmitida pelo seu magnetismo natural e o olhar lascivo e a inoc\u00eancia nos tra\u00e7os faciais. Aquilo era capaz de enlouquece-lo \u2013 e o aluno sabia como ati\u00e7a-lo.<br>\u2003\u2003Oportunidades n\u00e3o faltaram de inflamar o desejo do outro.<br>\u2003\u2003Uma vez aproveitou que a roupa justa deixava um volume bem interessante entre suas pernas. Quando Kalisto entrou e o encontrou ali sentado na primeira cadeira com as pernas entreabertas teve a bela vis\u00e3o dele lambendo aos l\u00e1bios sempre que encarava a regi\u00e3o \u2013 e isso aconteceu v\u00e1rias vezes durante a aula.<br>\u2003\u2003Na outra vez deixou cair propositalmente um pouco de l\u00edquido na sua fina blusa nude enquanto bebia \u00e1gua de sua garrafinha de Harry Potter. O tecido imediatamente colou em seu peitoral, mostrando as novas curvas e sua pele, j\u00e1 que a regi\u00e3o molhada ficou transparente. P\u00f4de jurar identificar uma frase como \u201cfilho da puta gostoso\u201d pela leitura labial enquanto ele mesmo se direcionava para detr\u00e1s da mesa, de onde n\u00e3o saiu at\u00e9 o final da aula. Rafael demorou a juntar seus pertences para ser o \u00faltimo a sair da sala e confirmou suas suspeitas antes de ir para o corredor. Mesmo sentado foi imposs\u00edvel n\u00e3o identificar o generoso volume naquela cal\u00e7a \u2013 o \u00fanico lado negativo de ser bem-dotado era n\u00e3o poder esconder quando estava excitado.<br>\u2003\u2003Por fim, teve a certeza de que o enlouqueceria quando aproveitou uma conveni\u00eancia que parecia ter lhe sido entregue pelo Universo. Sua caneta ca\u00edra e parara bem embaixo de sua carteira. Agachou-se no ch\u00e3o para peg\u00e1-la. Num movimento r\u00e1pido encostou por um instante o peitoral no piso e esticou o bra\u00e7o para apanh\u00e1-la, ficando de quatro \u2013 uma das posi\u00e7\u00f5es que Kalisto mais gostava na cama por ter a vis\u00e3o completa de sua bunda. Durante aqueles segundos estranhou o fato de n\u00e3o ouvir a voz rouca do homem. Ao sentar-se novamente segurou a risada ao se deparar com um Kalisto de queixo ca\u00eddo e olhar vago para onde Rafael havia se agachado.<br>\u2003\u2003- Perd\u00e3o&#8230; Sobre o que eu estava falando?<br>\u2003\u2003O ruivo tampou a boca com as m\u00e3os para n\u00e3o mostrar o sorriso.<\/p>\r\n\u2003\u2003Numa sexta-feira, como de costume, o rapaz chegou no per\u00edodo da tarde na faculdade, \u00e0s cinco da tarde. Especificamente nas sextas-feiras, ao ser liberado do sal\u00e3o, ia direto para a institui\u00e7\u00e3o de ensino. Aproveitava o tempo para estudar o conte\u00fado do curso na sala que, naquele hor\u00e1rio, sempre estava vazia. Por\u00e9m se encaminhou primeiro ao banheiro para melhorar a sua apar\u00eancia, j\u00e1 que estava na rua desde \u00e0s sete e meia da manh\u00e3 trabalhando.\r\n<p>\u2003\u2003Kalisto estava estressado. Bastante. Entretanto, n\u00e3o havia ocorrido nada de ruim em sua semana. O seu stress era consigo. N\u00e3o era poss\u00edvel que seu corpo o tra\u00eda t\u00e3o facilmente. N\u00e3o era algo que pudesse ignorar. Deveria demonstrar para Rafael que a sua presen\u00e7a n\u00e3o o afetava. Infelizmente, para o seu pr\u00f3prio desgosto, n\u00e3o era esse o caso.<br>\u2003\u2003Se fosse seguir os seus desejos o trancaria consigo naquela sala na \u00faltima aula, arrancaria as roupas com as grandes m\u00e3os, o chuparia como nunca antes e se enterraria t\u00e3o fundo dentro daquele corpo que seu antigo menino jamais se esqueceria dele devido aos gritos de prazer que sabia ser capaz, sim, de ser o respons\u00e1vel. Isso no decorrer da noite at\u00e9 Rafael, j\u00e1 completamente mole, o abra\u00e7aria ofegante lhe acariciando as costas e distribuindo beijos por onde os l\u00e1bios alcan\u00e7assem.<br>\u2003\u2003Poderia fazer isso? Sim \u2013 principalmente porque, se o rapaz era capaz de provoca-lo conscientemente, era um sinal claro de que o corpo dele ainda se lembrava do mais velho e lhe despertava rea\u00e7\u00f5es quando ambos estavam no mesmo espa\u00e7o.<br>\u2003\u2003Queria fazer isso? Absurdamente \u2013 at\u00e9 porque nunca passou tanto tempo de pau duro no decorrer de um m\u00eas gra\u00e7as a algu\u00e9m.<br>\u2003\u2003Deveria fazer isso? Jamais \u2013 n\u00e3o depois de parar no hospital h\u00e1 quatro anos devido ao forte abalo emocional causado por Rafael, apesar do ruivo n\u00e3o ter no\u00e7\u00e3o desse detalhe.<br>\u2003\u2003Ainda havia solenidade em sua \u00edndole \u2013 embora o tes\u00e3o estivesse sobrepujando-a ao ponto de perguntar-se se ela era t\u00e3o importante assim na vida de uma pessoa.<br>\u2003\u2003E era justamente com o objetivo de relaxar que se fechou numa cabine do banheiro para fumar \u2013 h\u00e1bito adquirido h\u00e1 anos e que s\u00f3 era exercido em momentos de forte stress que foi intensificado no dia seguinte ao sair do hospital na fat\u00eddica noite. Aproveitou os instantes sozinho para relaxar, mas n\u00e3o duraria muito tempo o sossego. Quando ia sair ouviu uma voz bem conhecida. Conhecida at\u00e9 demais para o seu gosto.<br>\u2003\u2003Rafael acabara de entrar no banheiro cantarolando uma lenta m\u00fasica latina.<br>\u2003\u2003Kalisto sucumbiu \u00e0 vontade de observ\u00e1-lo num contexto onde o outro agia normalmente sem a presen\u00e7a dele, ent\u00e3o abriu a porta menos de cinco cent\u00edmetros. Havia colocado a mochila na bancada de m\u00e1rmore. De fones de ouvido lavava o rosto. No m\u00ednimo estava bonito usando um short larguinho, t\u00eanis branco, regada com pedras e o casaco branco. Pela primeira vez teve a oportunidade de admir\u00e1-lo e deixar transparecer o afeto que ainda carregava no cora\u00e7\u00e3o pelo cantor. As fei\u00e7\u00f5es tornaram-se mais suaves e um leve sorriso desenhou o rosto. At\u00e9 mesmo a respira\u00e7\u00e3o se tranquilizou, ficando mais serena.<br>\u2003\u2003A letra da m\u00fasica sa\u00eda de sua boca de uma maneira lind\u00edssima. Ap\u00f3s lavar o rosto come\u00e7ou a dan\u00e7ar sem notar da plateia composta por uma \u00fanica pessoa, o corpo respondendo aos anos de aulas de dan\u00e7a de bal\u00e9 e jazz. Se arriscava em piruetas <em>atittude<\/em> e <em>coupe<\/em>, al\u00e9m de realizar <em>cambr\u00e9<\/em> em diversas finaliza\u00e7\u00f5es. Explorava o espa\u00e7o se deixando levar pela melodia. Uma caracter\u00edstica de sua personalidade que se estendia para a dan\u00e7a era a expressividade \u2013 e o rapaz a usava naturalmente a seu favor quando dan\u00e7ava.<br>\u2003\u2003Satisfeito e mordendo o l\u00e1bio inferior, parou numa pirueta atittude na meia ponta com os bra\u00e7os em allong\u00e9 antes de puxar uma quarta posi\u00e7\u00e3o para se dirigir a pia e terminar o seu trabalho.<br>\u2003\u2003Para a sua surpresa, enquanto passava um discreto brilho labial ap\u00f3s fazer um delineado nas p\u00e1lpebras, o aluno disse:<br>\u2003\u2003- Sabe uma das minhas melhores qualidades? Sou bem intuitivo. N\u00e3o fa\u00e7o id\u00e9ia de quem seja, mas sei bem que n\u00e3o tira os olhos de mim.<br>\u2003\u2003E sim, Kalisto esqueceu dessa pequena caracter\u00edstica \u2013 e se amaldi\u00e7oou por isso.<br>\u2003\u2003- Vou te dar duas op\u00e7\u00f5es. \u2013 pegou o r\u00edmel e come\u00e7ou a aplica-lo nos c\u00edlios \u2013 Ou voc\u00ea mantem a dignidade e se revela ou serei obrigado a abrir cada uma das cabines at\u00e9 te achar.<br>\u2003\u2003O advogado reprimiu um xingamento. Ainda havia esperan\u00e7a dele n\u00e3o passar por aquilo \u2013 embora, conhecendo Rafael, sabia que sua dignidade seria jogada no lixo em poucos segundos.<br>\u2003\u2003- Bem, j\u00e1 que escolheu o caminho mais dif\u00edcil&#8230;<br>\u2003\u2003Para o seu azar o ouviu abrir a porta de todas as cabines. Quando estava se aproximando da sua, respirou fundo e saiu mantendo o pingo de dignidade que ainda restava.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o lembro quando se tornou t\u00e3o ousado e convencido assim. \u2013 o moreno caminhou at\u00e9 ficar de frente para o outro.<br>\u2003\u2003- Isso foi bem recente, querido. Gostou? \u2013 indagou o acompanhando pelo reflexo.<br>\u2003\u2003- Caso esteja se referindo ao seu comportamento durante as aulas. \u2013 encostou as costas na parede a tr\u00eas metros \u2013 Nem um pouco.<br>\u2003\u2003- Algum problema? N\u00e3o lembro de ter feito nada de errado. \u2013 mais uma vez aquele contraste entre a safadeza e a inoc\u00eancia estava presente.<br>\u2003\u2003- Por favor \u2013 olhou para o lado desdenhando da mentira \u2013, at\u00e9 parece que voc\u00ea se comportaria daquela forma sem motivo nenhum.<br>\u2003\u2003- Em primeiro lugar, n\u00e3o estou te provocando. Em segundo, a culpa n\u00e3o \u00e9 minha se voc\u00ea ainda fica de pau duro na minha presen\u00e7a.<br>\u2003\u2003O advogado soltou uma risada ir\u00f4nica.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o tem mais esse efeito sobre mim, Rafael.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o? \u2013 se virando pra ele, ergueu as sobrancelhas o desafiando numa express\u00e3o bem c\u00ednica.<br>\u2003\u2003- H\u00e1 muito tempo. \u2013 soou orgulhoso.<br>\u2003\u2003Em passos lentos o ruivo caminhou at\u00e9 o advogado quebrando a dist\u00e2ncia e sem quebrar o contato visual. Estendeu as m\u00e3os e o segurou pelo pesco\u00e7o sentindo o calor da pele.<br>\u2003\u2003- Ent\u00e3o quer dizer que n\u00e3o repara em mim quando entra na sala?<br>\u2003\u2003Durante o murm\u00fario, engoliu em seco, perdido por instantes naquela colora\u00e7\u00e3o verde dos globos.<br>\u2003\u2003- Nem um pouco. \u2013 olhou para o espelho para sustentar a mentira e n\u00e3o ser denunciado pela fisionomia.<br>\u2003\u2003Suavemente o menor o segurou pelo queixo e virou a cabe\u00e7a at\u00e9 se encararem.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o gostou nem de como o meu short marcava a minha bunda? \u2013 o segurou pelos pulsos e colocou as \u00e1speras m\u00e3os em sua cintura por debaixo da regata lambendo os l\u00e1bios.<br>\u2003\u2003- Eu nem me importei com isso. \u2013 n\u00e3o se deu conta de que pressionara ainda mais as destras naquela fina cintura demonstrando a dissimula\u00e7\u00e3o nas palavras.<br>\u2003\u2003- \u00c9, mesmo? \u2013 murmurou adorando ver as p\u00e1lpebras dele se abaixarem, sinal inconsciente de que estava excitado \u2013 Se tudo isso que est\u00e1 me falando \u00e9 verdade, ent\u00e3o por que est\u00e1 me segurando com tanta firmeza nesse estado? \u2013 deslizou as palmas pelo terno at\u00e9 encontrar o pau entumecido.<br>\u2003\u2003- Porque geralmente essa \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o que as putas causam nas pessoas. \u2013 rebateu com raiva se afastando.<br>\u2003\u2003Compreendeu de imediato que tudo foi um joguinho sujo para test\u00e1-lo e seu corpo lhe entregou.<br>\u2003\u2003Por sua vez, o ruivo jogou a cabe\u00e7a para tr\u00e1s soltando uma sonora gargalhada.<br>\u2003\u2003- Puta. Mil vezes puta, meu amor, tanto na cama quanto fora dela. \u2013 respondeu fechando um punho e o descansando na cintura \u2013 Pra mim isso \u00e9 elogio e voc\u00ea sabe h\u00e1 um bom tempo. \u2013 terminou estalando os dedos para enfatizar.<br>\u2003\u2003Para a sua surpresa Kalisto havia chegado ao seu limite com a provoca\u00e7\u00e3o. Rapidamente o mais velho o segurou e, num \u00fanico movimento, o colocou sentado na bancada de m\u00e1rmore, n\u00e3o hesitando em se acomodar entre as pernas dele. O ruivo n\u00e3o imaginava aquela rea\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, sua express\u00e3o, que antes era divertida, transformou-se de s\u00fabito. Tornou-se intensa, com o cenho franzido, o queixo ca\u00eddo, os olhos levemente arregalados e as m\u00e3os repousadas nos ombros do advogado por instinto. Devido \u00e0 pouca dist\u00e2ncia conseguia sentir a respira\u00e7\u00e3o contra a pele que logo se arrepiou.<br>\u2003\u2003Apesar das m\u00e1goas e de todos os sentimentos reprimidos e carregados de ressentimentos, era como no passado, quando estavam sozinhos e podiam se entregarem ao amor e ao prazer. A tens\u00e3o entre ambos era palp\u00e1vel e Rafael n\u00e3o se agarrava a ele apenas para se apoiar, mas sim porque queria aquela proximidade dos corpos. Ansiava por ela h\u00e1 tempo demais. Era a presen\u00e7a do ex que almejava, assim como os toques. Kalisto sabia aonde, como e com qual intensidade investir nas car\u00edcias para deixa-lo ofegante e faz\u00ea-lo gozar. Ele se esfor\u00e7ava, se aprimorava e se deleitava com o resultado \u2013 um Rafael quase sem voz, sem controle algum dos m\u00fasculos e das articula\u00e7\u00f5es que lhe agarrava implorando por mais antes de inverterem as posi\u00e7\u00f5es para o menor deixa-lo t\u00e3o enlouquecido quanto.<br>\u2003\u2003Pestanejou confuso quando o moreno abaixou o fino casaco branco pelos bra\u00e7os, deixando-o ainda mais exposto. Kalisto descansou a testa no v\u00e3o entre o ombro e o pesco\u00e7o e relaxou num forte e prolongado suspiro, permitindo-se receber ali as car\u00edcias de Rafael com a ponta dos dedos \u2013 dedos esses que envolviam sua nuca e adentravam sem pressa por dentro da gola da camisa. Puxou o ar com for\u00e7a, sentindo o cheiro caracter\u00edstico da carne alva.<br>\u2003\u2003Com as respira\u00e7\u00f5es intensas e os cora\u00e7\u00f5es batendo forte, n\u00e3o pronunciou palavra alguma enquanto descia as palmas pela lateral do corpo menor at\u00e9 encontrar a lombar, onde, sem aviso, segurou e a puxou contra si.<br>\u2003\u2003O ruivo arfou fechando os olhos quando as ere\u00e7\u00f5es se chocaram. O advogado aproveitou para distribuir beijos pelo pesco\u00e7o se deixando levar pelo momento, o que gerou no outro os arquejos inesperados, al\u00e9m de faz\u00ea-lo cravar as unhas em sua nuca. N\u00e3o compreenderia como e se repreenderia naquela madrugada, mas encontrou o l\u00f3bulo da pequena orelha e a envolveu com os seus l\u00e1bios, passando a l\u00edngua de uma maneira que sabia que deixaria o menor se contorcendo em seu abra\u00e7o \u2013 e foi o resultado.<br>\u2003\u2003Precisou crispar os l\u00e1bios e, dando-se conta de que n\u00e3o seria suficiente, pressionou a boca contra o ombro do homem enquanto o agarrava fervorosamente com os dedos para abafar os gemidos. O mais jovem se remexia, de vez em quando jogando a cabe\u00e7a para tr\u00e1s e buscando aproximar ainda mais o quadril do ex com as pernas para aliviar a press\u00e3o do pau pulsante. A epiderme toda se arrepiava devido ao prazer. Arrepio, esse, que apenas serviu de incentivo para Kalisto, quem lhe castigava o pesco\u00e7o com a l\u00edngua.<br>\u2003\u2003Os dois n\u00e3o produziam uma \u00fanica palavra com medo do momento se quebrar devido \u00e0s quest\u00f5es mal resolvidas. Ali eram duas pessoas desesperadamente desejosas uma da outra, com tes\u00e3o reprimido que, ap\u00f3s quatro anos, se deparam com a oportunidade perfeita para come\u00e7ar a se esvair \u2013 inclusive porque com outras pessoas n\u00e3o sentiam nem um ter\u00e7o do prazer de quando estavam juntos.<br>\u2003\u2003E aquele era s\u00f3 o come\u00e7o.<br>\u2003\u2003Deveria imaginar que Kalisto n\u00e3o aguentaria aulas seguidas sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o ao seu comportamento e presen\u00e7a. Kalisto Andrade tinha uma libido absurdamente alta \u2013 e o cantor n\u00e3o passava longe. Al\u00e9m disso n\u00e3o era adepto a apenas observar de longe sem poder tocar. N\u00e3o via a menor gra\u00e7a. Isso tudo aliado ao temperamento mais forte? Era \u00f3bvio que reagiria de alguma maneira. Rafael s\u00f3 n\u00e3o imaginava que fosse acontecer t\u00e3o cedo.<br>\u2003\u2003Finalizou mordiscando a regi\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ainda abra\u00e7ado com o mais novo cujo corpo ainda tinha os m\u00fasculos contra\u00eddos, constatou com a voz grave:<br>\u2003\u2003- Pelo visto o seu corpo ainda reage ao meu, <em>meu menino<\/em>.<br>\u2003\u2003Frisou o final da frase com um qu\u00ea de aud\u00e1cia e sedu\u00e7\u00e3o porque sabia como aquilo o atingiria \u2013 e o gemido agudo confirmou a convic\u00e7\u00e3o. Era o \u00fanico quem chamava Rafael daquela maneira, principalmente quando estavam sem roupas \u2013 e isso n\u00e3o mudaria.<br>\u2003\u2003O ruivo responderia caso a mente n\u00e3o estivesse anuviada pelo tes\u00e3o e caso as suas m\u00e3os n\u00e3o tivessem entrado em contato com uma fina corrente.<br>\u2003\u2003Ofegante pelo recente prazer recebido, abriu rapidamente os dois primeiros bot\u00f5es do colarinho e p\u00f4de jurar que o cora\u00e7\u00e3o errou uma batida ao ver o pingente dourado em formato de R.<br>\u2003\u2003Num fio de voz e totalmente consciente de suas a\u00e7\u00f5es agora, indagou, distanciando-se o suficiente para fita-lo:<br>\u2003\u2003- Por que voc\u00ea ainda tem isso, Kalisto?<br>\u2003\u2003Se dando conta de que foi descoberto, o advogado se afastou, fechando novamente a camisa para esconder o pingente que carregava consigo h\u00e1 quatro anos, desde que o encontrou no ch\u00e3o em frente a porta do seu quarto.<br>\u2003\u2003- Rafa&#8230; \u2013 esfregou os olhos com os dedos visivelmente abalado.<br>\u2003\u2003- Por que voc\u00ea carrega isso contigo? \u2013 a pergunta foi mais urgente enquanto descia da bancada.<br>\u2003\u2003N\u00e3o tinha o direito de carregar aquele pingente, principalmente na presen\u00e7a do rapaz. Isso o confundiu completamente. Imaginava que o mais velho havia jogado fora pois era a prova da presen\u00e7a do at\u00e9 ent\u00e3o namorado em sua casa naquela tarde.<br>\u2003\u2003O ruivo ganhou um colar em seu anivers\u00e1rio com o pingente da letra K, quando j\u00e1 namoravam. Amara o presente e costumava us\u00e1-lo sempre que sa\u00eda. Quando completaram um ano de namoro, Kalisto recebeu um colar parecido, por\u00e9m no pingente tinha a letra R. Para eles os presentes eram s\u00edmbolos concretos de seu relacionamento. Portanto, foi um choque para o menor se deparar com aquele pingente escondido sob o terno do ex.<br>\u2003\u2003- Kalisto, me responde&#8230;<br>\u2003\u2003- Eu n\u00e3o sei! \u2013 explodiu \u2013 Est\u00e1 satisfeito agora? Eu n\u00e3o sei.<br>\u2003\u2003Ao encar\u00e1-lo se deparou com Rafael carregado de um misto de tristeza e raiva, bem diferente do que estava cantando animado minutos antes e logo em seguida o seduzindo. E a imagem lhe destro\u00e7ou o cora\u00e7\u00e3o. A face estava rosada e l\u00e1grimas come\u00e7avam a se formar. Cruzara os bra\u00e7os como se tentasse se proteger \u2013 e essa foi a parte que mais lhe desestruturou. O advogado nunca encostaria nele para agredir e ambos carregavam plena certeza disso. Entretanto, essa prote\u00e7\u00e3o era voltada para o \u00e2mbito emocional, n\u00e3o f\u00edsico \u2013 e o moreno n\u00e3o havia se dado conta.<br>\u2003\u2003- Ah, sabe. Sabe, sim. Voc\u00ea s\u00f3 n\u00e3o quer falar porque \u00e9 um covarde de merda. N\u00e3o tem o direito de carregar isso contigo e sabe muito bem disso, Kalisto.<br>\u2003\u2003- Ah, faz favor! O \u00fanico covarde aqui \u00e9 voc\u00ea! N\u00e3o se fa\u00e7a de santo porque voc\u00ea n\u00e3o \u00e9. \u2013 rebateu j\u00e1 nervoso.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o fui eu que joguei um relacionamento maravilhoso no ralo, meu bem. A culpa foi sua. \u2013 terminou apontando para ele com o dedo indicador.<br>\u2003\u2003- Mais uma vez, n\u00e3o se fa\u00e7a de santo porque voc\u00ea n\u00e3o \u00e9. \u2013 a amargura na voz era not\u00e1vel, assim como o tremor nas m\u00e3os, um sinal claro para quem o conhecia de que reprimia as emo\u00e7\u00f5es ao ponto delas o deixarem tr\u00eamulo.<br>\u2003\u2003- Se voc\u00ea insiste em n\u00e3o me explicar porque est\u00e1 me falando isso, eu que n\u00e3o vou pressionar.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea sabe bem as suas a\u00e7\u00f5es, inclusive tudo o que culminou no nosso t\u00e9rmino. J\u00e1 passou da idade de culpar a todos ao redor ao inv\u00e9s de se responsabilizar pelas consequ\u00eancias dos pr\u00f3prios atos.<br>\u2003\u2003Frustrado, o ruivo enterrou os dedos nos cabelos. Respirou fundo de olhos fechados numa tentativa v\u00e3 de se acalmar. Os abriu e, em profunda decep\u00e7\u00e3o, respondeu numa voz de indiferen\u00e7a:<br>\u2003\u2003- Eu j\u00e1 fiz merda nessa vida, mas de longe a pior delas foi ter me envolvido contigo. N\u00e3o volte a desenterrar assuntos do passado se n\u00e3o tem a m\u00ednima capacidade de assumir os seus erros.<br>\u2003\u2003Pegou a mochila e saiu do banheiro.<br>\u2003\u2003S\u00f3 quando Kalisto n\u00e3o ouviu mais os passos do ex p\u00f4de extravasar. Com a m\u00e3o fechada em punho, socou a parede frustrado e dolorido pela frase direcionada a ele.<br>\u2003\u2003- Inferno. \u2013 a socou novamente, com a testa encostada nela e o outro bra\u00e7o apoiando o corpo \u2013 Por que eu te reencontrei, meu menino?<br>\u2003\u2003Atormentado, virou de costas e deslizou at\u00e9 sentar no ch\u00e3o com as costas apoiadas na parede. Apanhou o ma\u00e7o de cigarro no bolso da cal\u00e7a, o abriu e retirou um, colocando-o entre os l\u00e1bios. Achou o isqueiro no bolso do terno e o usou para acende-lo.<br>\u2003\u2003Ao todo precisou de meia hora ali e cinco cigarros para se acalmar at\u00e9 as m\u00e3os pararem de tremer.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Tentava se concentrar no conte\u00fado do caderno sozinho na sala de aula, mas seu c\u00e9rebro n\u00e3o captava nenhuma s\u00edlaba sequer. A discuss\u00e3o com o ex o consumiu, o deixando confuso e revoltado. Tentava compreender as acusa\u00e7\u00f5es sem concluir nada. Tinha a plena certeza de que a sua postura foi a mais correta poss\u00edvel quando estavam juntos anos atr\u00e1s. O tratava bem, o respeitava, era sincero, funcionavam bem na cama, n\u00e3o escondia nada&#8230; Bem, pra ser franco havia apenas uma \u00fanica coisa que omitira de Kalisto, mas apenas para n\u00e3o gerar brigas ou desentendimentos desnecess\u00e1rios entre ele e Andr\u00e9, quem passava por grandes problemas na \u00e9poca.<br>\u2003\u2003Foi com essas reflex\u00f5es perpassando a mente do ruivo que Kalisto abriu a porta. De t\u00e3o distra\u00eddo n\u00e3o percebeu o barulho. Apenas ergueu a cabe\u00e7a quando ouviu:<br>\u2003\u2003- Arrume suas coisas e v\u00e1 pra casa.<br>\u2003\u2003- Como?<br>\u2003\u2003- A chuva. \u2013 apontou para a janela com o queixo \u2013 A faculdade havia recebido ontem alerta vermelho devido \u00e0 chuva intensa prevista pra hoje, mas ignorou. Estamos tentando esvaziar a faculdade para ningu\u00e9m correr risco nas horas seguintes e pedindo para os estudantes espalharem a not\u00edcia nos grupos de Whatsapp.<br>\u2003\u2003Quando o ruivo olhou para a janela se deparou com fortes nuvens escuras. Naquele hor\u00e1rio, cinco e vinte da tarde, n\u00e3o era normal e nem comum estar escuro daquela maneira e nem ventando tanto.<br>\u2003\u2003- Merda! \u2013 rapidamente guardou seus pertences.<br>\u2003\u2003- Precisa de carona? Se quiser eu&#8230;<br>\u2003\u2003- N\u00e3o! \u2013 o interrompeu num rompante, soando mais enfurecido do que esperava \u2013 Eu chamo um Uber enquanto espero no ponto de \u00f4nibus. Um dos dois ter\u00e1 de passar.<br>\u2003\u2003- Tem certeza que&#8230;<br>\u2003\u2003- Me deixa em paz. \u2013 se encaminhou para a sa\u00edda com a mochila nas costas \u2013 Voc\u00ea j\u00e1 fez o suficiente por hoje.<br>\u2003\u2003O moreno o viu se distanciar pelo corredor at\u00e9 sua imagem desaparecer descendo as escadas.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O plano de esperar o Uber no ponto de \u00f4nibus a dois quarteir\u00f5es de dist\u00e2ncia da institui\u00e7\u00e3o de ensino superior era bem pr\u00e1tico. S\u00f3 n\u00e3o imaginava de a chuva cair torrencial no meio do caminho com direito a trovoadas, rel\u00e2mpagos e um vento capaz de derrubar \u00e1rvores de t\u00e3o violento.<br>\u2003\u2003Abrigou-se embaixo da marquise do ponto \u2013 como se adiantasse de algo. A chuva de vento o molhava ao ponto de ficar ensopado. Numa tentativa in\u00fatil colocou a mochila na frente para mexer no celular e chamar um Uber. Para seu azar nenhum motorista aceitava a corrida h\u00e1 quase vinte minutos e a preocupa\u00e7\u00e3o come\u00e7ava a crescer. A rua estava deserta, escura, poucos carros passavam e a chuva intensa tendia a prosseguir por algumas horas. Pra piorar a rua come\u00e7ava a alagar, ent\u00e3o a \u00e1gua estava chegando at\u00e9 a cal\u00e7ada onde ele estava.<br>\u2003\u2003Um carro preto parou onde o rapaz estava e a porta dianteira do banco do passageiro foi aberta.<br>\u2003\u2003- Entra. \u2013 Kalisto gritou com as m\u00e3os no volante.<br>\u2003\u2003N\u00e3o se arriscaria de deixar o mais novo na chuva daquele jeito, ent\u00e3o o procurou pelos pontos de \u00f4nibus que conhecia at\u00e9 encontra-lo.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o preciso de ajuda.<br>\u2003\u2003- Como \u00e9? \u2013 realmente achou que seus ouvidos o enganaram quando ouviu a escolha de palavras do ruivo.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o se preocupe comigo. Eu sei me virar. \u2013 passou as m\u00e3os no rosto afastando um pouco a \u00e1gua.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<br>\u2003\u2003Desceu do carro zangado e o alcan\u00e7ou molhando-se rapidamente.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o vai demorar pra essa rua encher pelo menos um metro. \u2013 avisou sentindo os p\u00e9s umedecerem.<br>\u2003\u2003- Que bom porque n\u00e3o ficarei completamente submerso. \u2013 agarrava-se a mochila contra o peito para proteger o celular de pifar por molhar. N\u00e3o teria dinheiro para comprar outro caso isso acontecesse.<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 recusando a minha ajuda por orgulho?<br>\u2003\u2003- Estou recusando a sua ajuda porque voc\u00ea \u00e9 um idiota filho da puta. \u2013 gritou.<br>\u2003\u2003- Estou me fodendo pra sua opini\u00e3o sobre mim.<br>\u2003\u2003- Caguei pra isso.<br>\u2003\u2003- Garoto teimoso! Eu n\u00e3o vou te deixar pegar a porra de uma pneumonia e morrer. N\u00e3o sairei daqui sem voc\u00ea e me recuso a n\u00e3o passar as pr\u00f3ximas horas abrigado num lugar seco e quente, ent\u00e3o trate de entrar no caralho desse carro ou te enfio nele.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o faria isso. \u2013 zombou num meio sorriso de desprezo.<br>\u2003\u2003- Duvida?<br>\u2003\u2003Quando o mais novo sentiu uma m\u00e3o em suas costas e a outra na parte detr\u00e1s dos joelhos, berrou.<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 bem, cacete! Eu vou contigo. Satisfeito?<br>\u2003\u2003A contragosto adentrou no ve\u00edculo fazendo quest\u00e3o de molhar o interior o m\u00e1ximo que podia antes de Kalisto se acomodar ao seu lado e voltar a dirigir. Secou as palmas no estofado do banco e, com a mochila no colo, colocou o celular no ouvido pra ouvir a mensagem de \u00e1udio enviada pela irm\u00e3 h\u00e1 poucos minutos.<br>\u2003\u2003- Que merda. \u2013 sussurrou.<br>\u2003\u2003- Qual o problema?<br>\u2003\u2003- A minha rua est\u00e1 alagada.<br>\u2003\u2003- Entrou \u00e1gua na sua casa? \u2013 a pergunta saiu carregada de afli\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o. O propriet\u00e1rio fez uma obra h\u00e1 anos pra levantar a o terreno, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 perigo. Pode me deixar em qualquer lugar que vou ficar bem.<br>\u2003\u2003- Quantas vezes preciso repetir? Nem fodendo vou te deixar debaixo dessa chuva, muito menos sozinho.<br>\u2003\u2003- Pra onde vai me levar ent\u00e3o, carai?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o porque n\u00e3o tenho nenhum Baralho Cigano comigo para abrir as cartas e descobrir.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea vai comigo pra minha casa.<br>\u2003\u2003- Puta que o pariu. \u2013 reclamou.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O apartamento de Kalisto no \u00faltimo andar continuava da mesma forma. O ambiente amplo, claro, limpo, organizado e com os m\u00f3veis bem distribu\u00eddos para se caminhar livremente pelo espa\u00e7o n\u00e3o mudara em nada. Logo, Rafael n\u00e3o teve nenhuma dificuldade em se localizar.<br>\u2003\u2003O moreno trancou a porta com uma sensa\u00e7\u00e3o um tanto quanto nost\u00e1lgica. Haviam tantas lembran\u00e7as dos dois ali que por um momento o ar chegou a faltar nos pulm\u00f5es, sendo necess\u00e1rio pux\u00e1-lo com for\u00e7a. Foi at\u00e9 seu quarto e trouxe uma toalha para enrolar o h\u00f3spede tr\u00eamulo de frio. O envolveu com ela antes de apanhar a mochila.<br>\u2003\u2003- Anda, tira o t\u00eanis e vai tomar um banho quente antes de mim.<br>\u2003\u2003A caminho da cozinha, perguntou retirando o palet\u00f3:<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 com fome?<br>\u2003\u2003- Sim.<br>\u2003\u2003Quando o menor chegou \u00e0 cozinha o viu tirar duas panelas e uma refrat\u00e1ria da geladeira e deposit\u00e1-las sobre a mesa. Sua mochila estava em cima de uma das cadeiras, assim como o palet\u00f3 de e a sua gravata. Acendeu o fogo para p\u00f4r uma delas para ferver.<br>\u2003\u2003- O que ainda est\u00e1 fazendo a\u00ed parado? \u2013 de costas para o menor o mais velho abria a porta de um arm\u00e1rio para pegar uma pequena refrat\u00e1ria redonda, onde come\u00e7ou a despejar com a ajuda de uma colher o arroz que estava dentro da outra panela vermelha \u2013 Vai pro banho pra se esquentar.<br>\u2003\u2003- Eu s\u00f3 tenho essa roupa.<br>\u2003\u2003- Sabe onde \u00e9 meu quarto. Pode escolher qualquer pe\u00e7a confort\u00e1vel. \u2013 colocou a refrat\u00e1ria redonda com o arroz no micro-ondas e o ligou.<br>\u2003\u2003- Eu n\u00e3o acho que isso seja necess\u00e1rio.<br>\u2003\u2003O ex se virou e falou soando completamente honesto e cordial:<br>\u2003\u2003- N\u00e3o estamos na faculdade e nem na sala de aula. Aqui n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de professor e aluno. Se considere um convidado meu. Al\u00e9m disso, eu te conhe\u00e7o. N\u00e3o vai fazer nada de errado no meu apartamento. Pode ir no meu arm\u00e1rio buscar uma roupa enquanto preparo a comida pra gente.<br>\u2003\u2003Sem alternativa caminhou at\u00e9 o quarto cuja porta estava fechada. Quando a m\u00e3o pousou na ma\u00e7aneta foi incapaz de empurr\u00e1-la para baixo. J\u00e1 esteve naquele exato lugar antes. Da \u00faltima vez sentiu tanta dor emocional que o ar lhe faltou quando conseguiu distinguir a origem dos sons e teve as piores sensa\u00e7\u00f5es da sua vida. Sentiu a garganta se fechar e se distanciou dali, retornando para a cozinha, claramente atordoado e com os ombros encolhidos.<br>\u2003\u2003- Kalisto, pega pra mim, por favor?<br>\u2003\u2003A aguda voz causou estranheza no homem, quem logo percebeu que havia algo de errado.<br>\u2003\u2003- Aconteceu alguma coisa? \u2013 franziu o cenho apreensivo sem compreender a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o. Nada. \u2013 abaixou a cabe\u00e7a com marcas de express\u00e3o oriundas da afli\u00e7\u00e3o no rosto \u2013 Eu s\u00f3&#8230; \u2013 ansioso, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em negativa antes de ergu\u00ea-la \u2013 S\u00f3 pega pra mim. Por favor.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s um momento de sil\u00eancio onde constatou o qu\u00e3o abalado Rafael estava, foi para o seu quarto e retornou com um short perto pu\u00eddo e uma camiseta cinza.<br>\u2003\u2003- Obrigado.<br>\u2003\u2003Ao v\u00ea-lo se dirigir para o banheiro, falou:<br>\u2003\u2003- Tem material aqui pra voc\u00ea preparar uma sobremesa quando eu tomar banho, se quiser.<br>\u2003\u2003A frase o fez parar e virar-se para ele, quem o encarava.<br>\u2003\u2003- Kalisto, a\u00ed j\u00e1 \u00e9 demais. N\u00e3o posso mexer nas suas coisas assim.<br>\u2003\u2003- A gente transou incont\u00e1veis vezes em cada c\u00f4modo desse lugar, isso sem contar os m\u00f3veis como essa mesa, uma dessas cadeiras, o sof\u00e1, o ch\u00e3o da varanda em duas madrugadas e essas paredes. Fazer uma sobremesa que eu sei que voc\u00ea gosta \u00e9 o menor dos problemas, n\u00e3o acha?<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Quando saiu do banheiro Kalisto h\u00e1 havia separado dois pratos, seus respectivos talheres e dois copos de vidro sobre a mesa. A cheirosa comida do dia anterior fez Rafael salivar e aumentar ainda mais a fome. O homem, quem estava sentado numa das cadeiras mexendo no celular, ergueu a cabe\u00e7a para encar\u00e1-lo, abrindo um largo sorriso imediatamente. A imagem do rapaz lhe aqueceu o cora\u00e7\u00e3o e sentiu quase como quando estavam juntos. A cena era a mesma. Sua camisa virou um vestido no ruivo, indo at\u00e9 a metade das coxas.<br>\u2003\u2003- Escuta, n\u00e3o deu pra colocar o short. \u2013 se aproximou entregando a pe\u00e7a \u2013 Ficou grande demais em mim.<br>\u2003\u2003- O tempo pode ter passado, mas voc\u00ea continua o mesmo baixinho.<br>\u2003\u2003N\u00e3o esperava soar t\u00e3o carinhoso, ent\u00e3o o pegou desprevenido. O mais novo abriu um sorriso t\u00edmido e o olhar tornou-se meigo.<br>\u2003\u2003- Os baixinhos s\u00e3o sempre as melhores companhias. \u2013 comentou divertido.<br>\u2003\u2003- Disso eu sei. \u2013 levantou com sua muda de roupa no ombro \u2013 Pode ficar \u00e0 vontade pra preparar a sobremesa. \u2013 se encaminhou pro banheiro.<br>\u2003\u2003- Prefere qual doce?<br>\u2003\u2003- Me surpreenda.<br>\u2003\u2003- Escuta, onde coloco minhas roupas pra secar?<br>\u2003\u2003- Por sorte a minha geladeira \u00e9 das antigas. T\u00eam umas grades nela. Pode colocar ali pra secar. Ou, caso prefira, deixa em cima de uma dessas cadeiras.<br>\u2003\u2003Quando Rafael ouviu o barulho do chuveiro foi se aventurar pra descobrir qual material teria para preparar a sobremesa ap\u00f3s colocar suas vestes atr\u00e1s da geladeira. Decidiu preparar uma palha italiana. Naquele momento ignorou de maneira consciente de que aquela era a sobremesa favorita do homem e que a cozinhava em ocasi\u00f5es especiais como anivers\u00e1rio ou para comemorarem algo no passado.<br>\u2003\u2003Antes de iniciar o preparo pegou seu celular e a bateria m\u00f3vel devidamente secos. Os conectou e colocou m\u00fasicas para ouvir enquanto cozinhava.<br>\u2003\u2003Quando saiu do banheiro vestindo apenas uma folgada cal\u00e7a de algod\u00e3o e chinelos, se deparou com a imagem de um Rafael alegre cantando enquanto cozinhava. A vis\u00e3o lhe contentou porque a sugest\u00e3o para o preparo da sobremesa n\u00e3o foi sem motivos.<br>\u2003\u2003Sabia que cozinhar doces melhorava o humor de Rafael, al\u00e9m de ser algo que lhe agradava.<br>\u2003\u2003Em outra \u00e9poca chegaria por detr\u00e1s arrastando os chinelos para n\u00e3o o assustar e o abra\u00e7aria por tr\u00e1s, depositando um beijo no ombro ou no pesco\u00e7o. Rafael o pediria manhoso para n\u00e3o distra\u00ed-lo enquanto cozinhava, mas ambos j\u00e1 sabiam que isso n\u00e3o iria acontecer. O maior o provocaria de vez em quando no processo at\u00e9 finalizar o preparo da sobremesa. S\u00f3 ent\u00e3o ou Rafael o puxaria para si pelo bra\u00e7o para beijar lascivamente ou Kalisto o puxaria pela cintura para beij\u00e1-lo enquanto as m\u00e3os deslizariam pela bunda arrebitada.<br>\u2003\u2003Por\u00e9m, assim como as esta\u00e7\u00f5es do ano passam, Kalisto sabia que as coisas entre eles jamais retornariam a ser como antes. Aquela \u00e9poca de risos leves, sorrisos bobos, piadinhas internas, car\u00edcias, gemidos intensos, confian\u00e7a e companheirismo m\u00fatuos havia passado, restando apenas as saudosas lembran\u00e7as de um tempo leve e bem colorido na vida dos dois.<br>\u2003\u2003Num silencioso suspiro resignado, foi colocar seu terno na m\u00e1quina e retornou para a cozinha.<br>\u2003\u2003- Qual \u00e9 o quitute da vez? \u2013 foi at\u00e9 a geladeira e retirou uma garrafa de \u00e1gua.<br>\u2003\u2003- Palha italiana. \u2013 respondeu sorrindo.<br>\u2003\u2003- Ai, adoro! \u2013 derramou a \u00e1gua no copo e p\u00f4s a garrafa na geladeira \u2013 Tem tempo que n\u00e3o como isso.<br>\u2003\u2003- Vai comer hoje! \u2013 misturava o brigadeiro no biscoito maisena j\u00e1 quebrado na panela \u2013 Isso aqui vai ficar divino.<br>\u2003\u2003Antes que pudesse responder depois de beber a sua \u00e1gua, um miado desviou a aten\u00e7\u00e3o do ruivo. Virou para a origem do som e se deparou com um gato branco o encarando com seus olhos azuis. Sendo apaixonado por animais como era, foi imposs\u00edvel n\u00e3o abrir um enorme sorriso e se abaixar quando viu o animal. Por sua vez, o felino se aproximou e aceitou ronronando o carinho embaixo da mand\u00edbula.<br>\u2003\u2003- Ai, meu deusu! Que crian\u00e7a linda. Qual o nome dele?<br>\u2003\u2003- Ela. \u00c9 f\u00eamea. Acho que gostou de voc\u00ea. \u2013 comentou com um ar de riso a vendo esfregar a cabe\u00e7a na barriga de Rafael, quem havia sentado no ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003- A pegou h\u00e1 muito tempo? \u00c9 muito lindinha e mansa.<br>\u2003\u2003- \u00c0 primeira vista parece um amorzinho, mas vai demorar pra dar comida quando est\u00e1 com fome pra ver a merda. Vira no Jiraya e s\u00f3 sossega depois de comer. \u2013 se esquivou de responder a pergunta.<br>\u2003\u2003- Igualzinha a voc\u00ea, n\u00e9? \u2013 o fitou.<br>\u2003\u2003- Igualzinha a n\u00f3s dois. \u2013 refor\u00e7ou \u2013 At\u00e9 hoje n\u00e3o esque\u00e7o daquela tarde quando voc\u00ea passou o dia inteiro com a cara emburrada. At\u00e9 eu descobrir que era fome e comprar um lanche j\u00e1 tinham se passado quase tr\u00eas horas.<br>\u2003\u2003A lembran\u00e7a fez o rapaz rir pela primeira vez na presen\u00e7a de Kalisto, sinal de que come\u00e7ava a relaxar.<br>\u2003\u2003- E eu quebrando a cabe\u00e7a pra descobrir o que eu havia feito de errado. \u2013 terminou observando a intera\u00e7\u00e3o dos dois.<br>\u2003\u2003- Em minha defesa ningu\u00e9m fica bem com fome. Nem pra transar d\u00e1 certo. \u2013 respondeu de bom humor com a gata nos bra\u00e7os.<br>\u2003\u2003- Isso tenho que concordar.<br>\u2003\u2003- Vem c\u00e1, e qual \u00e9 o nome dessa crian\u00e7a?<br>\u2003\u2003- Cristal, mas n\u00e3o atende por esse nome.<br>\u2003\u2003- Por qu\u00ea?<br>\u2003\u2003- Quando a peguei na rua a chamava por outro nome. Quando decidi trocar ela n\u00e3o atendia.<br>\u2003\u2003- E por qual motivo iria mudar o nome da gata, gente?<br>\u2003\u2003A pergunta era simples, o total oposto da resposta. Poderia mentir sem problemas. Por\u00e9m, sabe-se l\u00e1 o motivo, e talvez tivesse a ver com a leve fragr\u00e2ncia de um perfume doce que sentiu, optou por contar a verdade.<br>\u2003\u2003Portanto, encarou o ch\u00e3o antes de replicar:<br>\u2003\u2003- Inicialmente eu a chamava de Kiara.<br>\u2003\u2003O a pron\u00fancia do nome fez o menor fita-lo assombrado. O breve momento de sil\u00eancio entre ambos se passou e o \u00fanico som presente era o da chuva e do ronronar da gata.<br>\u2003\u2003H\u00e1 quatro anos Rafael havia comentado que seria bom para Kalisto ter um animal de estima\u00e7\u00e3o para lhe fazer companhia por morar sozinho. De vez em quando insistia no assunto porque o achava solit\u00e1rio vivendo sem ningu\u00e9m naquele apartamento. Comentou que, caso fosse adotar, o nome Nala ou Kiara combinaria com um animal, principalmente se fosse um gato devido a uma de suas anima\u00e7\u00f5es favoritas, O Rei Le\u00e3o.<br>\u2003\u2003- E&#8230; Quando foi que a pegou? \u2013 murmurou pestanejando.<br>\u2003\u2003Tudo que o advogado fez foi manter o contato visual por alguns segundos num pesado sil\u00eancio antes de falar.<br>\u2003\u2003Rafael jamais imaginaria o qu\u00e3o igualmente complicada era a resposta para o questionamento. N\u00e3o havia chegado ao seu conhecimento o que o ex vira dentro do carro \u00e0s nove da noite a caminho de busca-lo na faculdade \u2013 e nem que o homem fora hospitalizado.<br>\u2003\u2003Essa parte em especial decidiu manter oculta porque, al\u00e9m de ser humilhante, n\u00e3o demonstraria essa fraqueza perante o ruivo, quem o encarava claramente confuso e carregado de expectativa.<br>\u2003\u2003Portanto apenas andou at\u00e9 ele e estendeu-lhe a m\u00e3o num convite silencioso para se levantar.<br>\u2003\u2003- Vem, vamos comer. Se n\u00e3o terei de esquentar o arroz e o strogonoffe de novo e estou cheio de fome.<br>\u2003\u2003Aceitando a esquiva no sanar de sua d\u00favida, segurou a destra passados quase dez segundos onde ponderou se seria prudente ou n\u00e3o. Por fim, lembrou que estava de volta ao apartamento do moreno e com nada al\u00e9m de uma camisa para cobrir a nudez. N\u00e3o seria um pecado mortal ou uma idiotice total caso aceitasse aquele gesto.<br>\u2003\u2003Assim que se tocaram descobriu que seria uma tolice, sim.<br>\u2003\u2003Deu-se conta de quanto tempo n\u00e3o recebia na pele o toque daquele homem. A vontade de abra\u00e7a-lo como antes foi forte, principalmente de beij\u00e1-lo. Atinou que pior do que lidar com um t\u00e9rmino era conviver t\u00e3o perto do ex quando ainda o amava. Essa, sim, era uma verdadeira tortura \u2013 principalmente num contexto onde os obrigava a interagir.<br>\u2003\u2003A uni\u00e3o das m\u00e3os, de fato, foi bonita. Por encarar de relance a imagem delas juntas n\u00e3o conseguiu evitar o suspiro ao se p\u00f4r de p\u00e9, parando bem pr\u00f3ximo do outro. Talvez pr\u00f3ximo at\u00e9 demais. Menos de cinco cent\u00edmetros os separavam e nenhum quebrou o contato visual e nem o f\u00edsico.<br>\u2003\u2003N\u00e3o souberam quem iniciou a movimenta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, aos poucos, numa lentid\u00e3o carregada de expectativas de ambos os lados, hesitantes e com os cora\u00e7\u00f5es palpitando, as pontas dos dedos se entrela\u00e7aram. Kalisto s\u00f3 percebeu o que estava acontecendo quando sentiu a outra m\u00e3o do menor pousar timidamente em sua cintura, o que lhe gerou um impulso para se afastar quando ouviu um mio da gatinha, quem os observava sentada.<br>\u2003\u2003- \u00c9 melhor eu dar comida pra ela primeiro. \u2013 anunciou num murm\u00fario \u2013 Do contr\u00e1rio dentro de dez minutos estar\u00e1 berrando. \u2013 foi at\u00e9 o arm\u00e1rio, de onde tirou um sach\u00ea que logo despertou o interesse de Kiara, cujo miado foi mais empolgado dessa vez \u2013 Pode ir se servindo, se quiser.<br>\u2003\u2003Rafael dissimulou a insatisfa\u00e7\u00e3o puxando uma conversa leve e sorrindo. O mais velho despejava o sach\u00ea pra gata no pote dela enquanto o outro colocava uma quantidade comida no prato.<br>\u2003\u2003- O cheiro disso est\u00e1 \u00f3timo! \u2013 a boca salivava.<br>\u2003\u2003- Puxei a m\u00e3o boa da minha m\u00e3e na cozinha. \u2013 buscou seu prato para se servir.<br>\u2003\u2003- Ai, nem fala. A comida da tia \u00e9 \u00f3tima. \u2013 passou a colher do arroz pra ele, lado a lado \u2013 N\u00e3o esque\u00e7o de uma lasanha maravilhosa que ela fez quando a conheci. Estava divina!<br>\u2003\u2003Kalisto replicou, mas n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o nas palavras. Subitamente a a\u00e7\u00e3o de colocar o almo\u00e7o trouxe \u00e0 tona alguns coment\u00e1rios de Andr\u00e9.<br>\u2003\u2003<em>\u201cDaqui a pouco engorda e fica feio. A\u00ed, sim, voc\u00ea vai ver que ningu\u00e9m al\u00e9m de mim vai te querer comendo desse jeito.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003O mais velho notou a sombra de algo que n\u00e3o soube identificar perpassando pelas fei\u00e7\u00f5es do ex quando o pr\u00f3prio recuou com a segunda colher ainda cheia de estrogonofe para a panela.<br>\u2003\u2003Antes de irem para a sala com seus pratos com estrogonofe, arroz, salada de legumes bem temperada e suas respectivas canecas de refrigerante, Kalisto interpelou vendo a quantidade de comida que o outro p\u00f4s para si enquanto o menor guardava a panela com palha italiana na geladeira:<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea almo\u00e7ou hoje?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 fazendo alguma dieta?<br>\u2003\u2003- Tamb\u00e9m n\u00e3o. Por qu\u00ea?<br>\u2003\u2003- Nenhum adulto saud\u00e1vel que conhe\u00e7o come s\u00f3 isso.<br>\u2003\u2003Sem aviso, o ex pegou seu prato e adicionou uma grande colherada do conte\u00fado das panelas e da refrat\u00e1ria.<br>\u2003\u2003- Agora, sim. O prato que o pisciano merece. \u2013 o entregou \u2013 Aqui n\u00e3o precisa se fazer de rogado, n\u00e3o.<br>\u2003\u2003- \u00c9 que tenho medo de engordar e ficar feio. Sei l\u00e1. \u2013 deu de ombros aparentando um misto de vergonha e melancolia.<br>\u2003\u2003- E quem foi o filho da puta que te falou tamanha imbecilidade? Isso nunca foi um problema pra voc\u00ea.<br>\u2003\u2003- Ningu\u00e9m em especial.<br>\u2003\u2003Tudo nele demonstrava o contr\u00e1rio. O olhar voltado para o ch\u00e3o, os ombros ca\u00eddos e a voz embargada evidenciavam a inseguran\u00e7a e at\u00e9 mesmo a baixa autoestima desenvolvida h\u00e1 algum tempo. Apesar de n\u00e3o compreender a situa\u00e7\u00e3o, Kalisto deixou seu prato na mesa e pegou o de Rafael, colocando-o ao lado do seu.<br>\u2003\u2003- Escute-me bem. \u2013 parou em sua frente e ergueu o queixo com o indicador para fita-lo, demorando-se um segundo a mais para detectar os detalhes daquela bela face, inclusive as pequenas sardas discretas no nariz e embaixo dos olhos \u2013 Eu n\u00e3o sei quem \u00e9 o filho da puta que est\u00e1 te enchendo de inseguran\u00e7as dessa maneira, mas tenho certeza que merece manda-lo para o quinto dos infernos. Voc\u00ea merece bem mais do que isso.<br>\u2003\u2003O sorriso dado por Rafael em agradecimento pelas palavras iluminou seu rosto. Sem pensar, encostou por um momento a testa no peitoral do mais velho, quem aproveitou o breve instante para lhe afagar a nuca. Aos poucos o contato transformou-se num abra\u00e7o, onde um acolheu ao outro e Rafael sentiu-se amado novamente \u2013 sensa\u00e7\u00e3o bem distinta de quando os bra\u00e7os de Andr\u00e9 o envolviam \u2013 assim que o ex enla\u00e7ou sua cintura e o puxou suavemente at\u00e9 os corpos encostarem. Em resposta, o cantor pousou as palmas no peito do homem.<br>\u2003\u2003N\u00e3o iriam revelar esse fato, por\u00e9m, naquele abra\u00e7o, sentiam-se em casa \u2013 amados e protegidos. Rafael n\u00e3o tinha constrangimento pela sua apar\u00eancia e nem por quem era e Kalisto sentia-se impregnado de amor novamente.<br>\u2003\u2003Aproveitou para beijar os cabelos lisos antes de inclinar-se em sua orelha para sussurrar:<br>\u2003\u2003- Queria ser estraga prazeres, n\u00e3o, mas essa comida vai esfriar.<br>\u2003\u2003A frase lhe arrancou uma aud\u00edvel gargalhada.<br>\u2003\u2003- \u00c9 a segunda vez que me fala isso em quest\u00e3o de minutos.<br>\u2003\u2003- Estou com fome. \u2013 reclamou com ar de riso enquanto pegavam seus pratos \u2013 A\u00ed, falou pra sua m\u00e3e onde estava?<br>\u2003\u2003- Sim. \u2013 se dirigiram para a sala \u2013 Avisei pra minha irm\u00e3 que estou na casa de um amigo quem mora mais perto da faculdade.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o est\u00e1 de tudo errado. Me apresentou pra sua fam\u00edlia como amigo seu, mesmo.<br>\u2003\u2003- S\u00f3 n\u00e3o citei nomes.<br>\u2003\u2003- Por motivos \u00f3bvios. \u2013 sentaram no sof\u00e1.<br>\u2003\u2003Usaram uma almofada no colo para apoiar o prato e os bra\u00e7os do sof\u00e1 para descansarem as canecas, deixando um v\u00e3o entre eles. O moreno alcan\u00e7ou atr\u00e1s de seu corpo o controle da TV, a qual ligou e conectou direto a Netflix.<br>\u2003\u2003- Quando a chuva abaixar eu volto pra casa.<br>\u2003\u2003- Tudo bem. \u2013 o entregou para Rafael, quem selecionava Naruto para assistirem \u2013 Vem c\u00e1, como anda a sua vida? \u2013 tomou um gole do refrigerante.<br>\u2003\u2003- Ah, est\u00e1 bem. \u2013 respondeu distra\u00eddo encarando a abertura do anime \u2013 Eu e o Andr\u00e9&#8230;<br>\u2003\u2003- H\u00e3, h\u00e3. \u2013 largou a caneca no bra\u00e7o do sof\u00e1 \u2013 Reformulando a pergunta. Como est\u00e1 a sua vida, seu namoradinho a parte.<br>\u2003\u2003O h\u00f3spede rolou os olhos antes de responder.<br>\u2003\u2003Em suma, o almo\u00e7o foi estranhamente agrad\u00e1vel. Se inteiraram de como estava a vida de cada um, com exce\u00e7\u00e3o da \u00e1rea afetiva.<br>\u2003\u2003Contou que era advogado criminalista e sua hist\u00f3ria com Mike Doid\u00e3o da Favela, quem precisou defender cinco vezes, e algumas das hist\u00f3rias que vivenciou, como o epis\u00f3dio em que levaram seu celular no assalto, por\u00e9m o mesmo surgiu misteriosamente em seu escrit\u00f3rio tr\u00eas horas depois com o bilhete:<\/p>\r\n<div style=\"width: 60%; margin: auto;\">\r\nPerdoa a\u00ed, meu cumpadi. Os cria est\u00e3o tudo novo na \u00e1rea. Ainda n\u00e3o sabem quem \u00e9 protegido e fechamento meu. Eu l\u00e1 quero que fodam com o meu advogado? Se n\u00e3o fui em cana foi por tua causa, rap\u00e1. Qualquer problema \u00e9 s\u00f3 entrar em contato comigo que damos um jeito de aliviar a\u00ed pro teu lado.\r\n<\/div>\r\n<p>\u2003\u2003Quem fora o respons\u00e1vel pelo roubo e pela entrega? Jamais saberia. Entretanto, apenas por arrancar risos do mais novo havia valido a pena.<br>\u2003\u2003O ruivo contou como era o trabalho no sal\u00e3o e em como Cac\u00e1 o ajudou. N\u00e3o deixou de notar a mudan\u00e7a de express\u00e3o de Kalisto quando citou o cabelereiro. Quando o nome surgiu fechou a cara enciumado.<br>\u2003\u2003N\u00e3o revelou as situa\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas pelas quais passou, como a morte do pai, o acidente de Micaela, as dificuldades financeiras e nem as crises de ansiedade. Optou por manter aquele momento mais leve, concentrando-se em temas mais engra\u00e7ados e divertidos. Seus \u00faltimos quatro anos n\u00e3o haviam sido assim, mas continham hist\u00f3rias alegres e suaves com Victor, Nichole e Morgana \u2013 trio respons\u00e1vel pelo seu recome\u00e7o e que lhe salvou do fundo do po\u00e7o.<br>\u2003\u2003Era vis\u00edvel que a chuva n\u00e3o iria parar. Pelas not\u00edcias recebidas nos aplicativos v\u00e1rias \u00e1reas alagaram e Rafael obrigou a m\u00e3e a enviar um v\u00eddeo para assegurar de que a casa estava intacta e sem uma gota sequer de \u00e1gua no interior.<br>\u2003\u2003Kalisto conseguiu disfar\u00e7ar o contentamento. Quando Rafael lhe contou sobre o que acontecia, o homem falou com um discreto sorriso que poderia, sim, dormir ali. Portanto, foram para a cozinha, onde lavaram suas respectivas lou\u00e7as em meio a brincadeiras onde o mais velho implicava com ele, o levando at\u00e9 a dar uma leve mordida no bra\u00e7o por ser chamado de poodle pela anima\u00e7\u00e3o alheia e tamb\u00e9m da baixa estatura.<br>\u2003\u2003Por fim, por ambos serem amantes de filmes de terror, assistiram Olhos Famintos e Invoca\u00e7\u00e3o do Mal no decorrer da noite com as luzes apagadas e lanchando p\u00e3o de queijo esquentado no forno, refrigerante e palha italiana. Inicialmente come\u00e7aram os filmes cada um numa ponta do sof\u00e1. No decorrer dos filmes eles se aproximaram sem notar at\u00e9 que toda a lateral do corpo estava em contato.<br>\u2003\u2003- <em>Jeepers Creepers. Where\u2019d you get those peepers?<\/em><br>\u2003\u2003Cantarolava o advogado quando Olhos Famintos terminou.<br>\u2003\u2003- Essa m\u00fasica assusta. \u2013 ralhou Rafael batendo nele com a almofada.<br>\u2003\u2003- Esse filme n\u00e3o tem nada de demais, poodle. \u2013 levou uma colherada da palha italiana a boca.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o tem porque era mais velho quando o assistiu. O vi com uns oito anos. Essa porra assusta, viu? \u2013 com as pernas cruzadas e a almofada apoiando a tigela onde, agora, apenas restava alguns milhos n\u00e3o estourados que Kalisto ainda comia, deitara a cabe\u00e7a no ombro do homem.<br>\u2003\u2003- E a Micaela te deixava assistir terror nessa \u00e9poca?<br>\u2003\u2003- Na verdade, n\u00e3o. Eu via escondido. \u2013 descansou a nuca no sof\u00e1, o encarando enquanto conversavam \u2013 Ela s\u00f3 descobria quando eu pedia pra dormir com ela porque o caga\u00e7o era maior que o sono.<br>\u2003\u2003- E n\u00e3o mudou muito, n\u00e9? Voc\u00ea continua sentindo medo depois.<br>\u2003\u2003- \u00c9 um prazer culposo! Que posso fazer?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o se preocupe porque te protejo. N\u00e3o vou deixar nenhum Creeper te assombrar hoje, n\u00e3o.<br>\u2003\u2003Embora a frase fosse para soar divertida, n\u00e3o foi o caso. Pelo contr\u00e1rio. Foi quase uma promessa, como se Kalisto quisesse que Rafael soubesse que, consigo, ele ainda estava, sim, protegido, e n\u00e3o havia temores.<br>\u2003\u2003- Ah, t\u00e1! At\u00e9 parece.<br>\u2003\u2003- Duvida, ent\u00e3o, por exemplo, que eu fique te fazendo companhia at\u00e9 dormir?<br>\u2003\u2003- \u00c9 claro. \u2013 mastigava o doce \u2013 Gente, isso ficou muito bom. Mas relaxa. Precisa, n\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Certeza? \u2013 indagou cheio de incerteza.<br>\u2003\u2003- Sim.<br>\u2003\u2003- Tudo bem, ent\u00e3o. Posso levar as coisas ou terminou de comer?<br>\u2003\u2003- Pode levar.<br>\u2003\u2003Foi para a cozinha, onde lavou a lou\u00e7a e guardou a sobremesa. Ao retornar o encontrou encolhido no sof\u00e1 com as pernas cruzadas imerso ao come\u00e7o de Invoca\u00e7\u00e3o do Mal. Sentou ao seu lado silenciosamente.<br>\u2003\u2003- Rafael, voc\u00ea pode&#8230;<br>\u2003\u2003Sequer chegou ao final da frase. Pelo ruivo n\u00e3o reparar na sua chegada, sobressaltou com as m\u00e3os na boca. O susto arrancou risos aud\u00edveis de Kalisto, principalmente quando o baixinho respondeu:<br>\u2003\u2003- Tudo bem, aceito a sua companhia at\u00e9 eu adormecer.<br>\u2003\u2003E foi o que aconteceu. Enquanto Rafael se banhava para dormir quase duas da manh\u00e3, Kalisto arrumou o sof\u00e1 cama para ele se acomodar. Trouxe de seu quarto dois travesseiros baixos, uma colcha e um cobertor.<br>\u2003\u2003Quando Kalisto em seguida saiu do banho com um short folgado e uma regata da mesma cor, encontrou-o acomodado com a camisa branca e coberto com a colcha mexendo no celular.<br>\u2003\u2003Havia bastante espa\u00e7o para ambos pelo m\u00f3vel ser um sof\u00e1 cama de tr\u00eas lugares onde, agora, se ajeitavam em pleno conforto.<br>\u2003\u2003- J\u00e1 vai dormir? \u2013 sentou ao lado dele.<br>\u2003\u2003- Sim. Vou acordar cedo porque tenho umas coisas pra fazer.<br>\u2003\u2003- Onze da manh\u00e3 \u00e9 cedo pra voc\u00ea? \u2013 indagou com ar de riso.<br>\u2003\u2003- Num feriado de s\u00e1bado \u00e9. Amanh\u00e3 o sal\u00e3o estar\u00e1 fechado, ent\u00e3o quero dormir um pouco mais. Eu n\u00e3o gosto de acordar cedo. \u2013 co\u00e7ou o olho antes de colocar o celular carregado sob o travesseiro, j\u00e1 se deitando \u2013 Isso \u00e9 prova de amizade, sabia? Preciso adiantar alguns compromissos antes de encontrar uma amiga nesse final de semana.<br>\u2003\u2003- Vindo de voc\u00ea, tenho que concordar. Acordar cedo \u00e9 uma prova de amizade. \u2013 ironizou.<br>\u2003\u2003Recebeu uma careta mostrando a l\u00edngua como resposta antes de um \u201cboa noite\u201d educado.<br>\u2003\u2003Longos minutos passaram sem Kalisto sair dali. Foi tomado cada vez mais pela vontade de permanecer ao lado do rapaz, quem, virado de costas para ele, dormia \u2013 aparentemente. A respira\u00e7\u00e3o calma e prolongada o enganava.<br>\u2003\u2003Aos poucos o moreno deitou procurando balan\u00e7ar o menos poss\u00edvel o sof\u00e1 cama. N\u00e3o queria acord\u00e1-lo porque desejava usufruir nem que fosse o gostinho de como as coisas eram entre eles no passado: simples e amorosas. Adoraria adormecer abra\u00e7ado aquele seu menino com o tronco encostado em suas costas e um dos bra\u00e7os o envolvendo na cintura. A proximidade seria tamanha que conseguiria beijar seu ombro carinhosamente antes de entregarem-se ao sono profundo sem amarras, jogos ou m\u00e1scaras. Ali seriam somente eles \u2013 dois homens apaixonados e conscientes de suas emo\u00e7\u00f5es cujos sentimentos sabiam serem m\u00fatuos, o que lhes dava seguran\u00e7a para se entregarem \u00e0 rela\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Para a surpresa de Kalisto, o ruivo ainda n\u00e3o dormira \u2013 e descobriu isso quando ele virou para si de olhos abertos, ficando frente a frente na mesma posi\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Rafael n\u00e3o conseguira dormir por sentir o carregado olhar de Kalisto sobre si. Numa decis\u00e3o impensada e deixando-se levar pelas circunst\u00e2ncias, optou por lhe mostrar que estava acordado.<br>\u2003\u2003Nos primeiros minutos apenas permaneceram daquele jeito, calados e mirando um ao outro. Havia tanta tens\u00e3o ali, tanta coisa a ser falada que o ar se tornou denso, onde estavam em sua pr\u00f3pria bolha. Qualquer gesto n\u00e3o calculado, qualquer palavra ou som poderia quebrar a conex\u00e3o de sentimentos, ent\u00e3o tudo aconteceu vagarosamente e carregado de hesita\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Quem fez o primeiro movimento foi Kalisto por n\u00e3o compreender porque havia tanto receio nas fei\u00e7\u00f5es de Rafael. Deslizou a ponta dos dedos mil\u00edmetro por mil\u00edmetro at\u00e9 ro\u00e7ar de forma quase impercept\u00edvel nos pelos do bra\u00e7o encolhido. Por n\u00e3o receber nenhuma recusa e por Rafael se aproximar um pouco mais, manteve a m\u00e3o ali, acariciando a regi\u00e3o.<br>\u2003\u2003Em seguida foi o ruivo quem deu prosseguimento. Quando mexeu a m\u00e3o de maneira que pudessem entrela\u00e7ar os dedos como in\u00fameras vezes no passado, identificou que algo no interior de Kalisto amoleceu. Uma barreira posta h\u00e1 bastante tempo entre eles caiu, permitindo que o toque chegasse ao seu cora\u00e7\u00e3o igualmente ferido e desconfiado.<br>\u2003\u2003Apenas aquele singelo ato foi suficiente para deixar mais novo duro. Entre eles havia algo al\u00e9m do f\u00edsico desde que se conheceram. Era como se as energias combinassem e tudo se configurasse para manterem tamanha conex\u00e3o ainda viva. Apesar da dist\u00e2ncia e da falta de contato ela teimava em existir entre os dois homens \u2013 talvez at\u00e9 mais intensa do que antes.<br>\u2003\u2003O contato de Kalisto tornou-se mais \u00edntimo \u00e0 medida que escorreu a m\u00e3o pelo corpo do outro at\u00e9, com o bra\u00e7o sobre a lateral do tronco, encontrar os cabelos e afaga-los. Rafael fechou os olhos com um pequeno sorriso, aproveitando a car\u00edcia. Kalisto precisou refrear a vontade de beijar com fervor os l\u00e1bios entreabertos. Quando as p\u00e1lpebras foram erguidas o olhar era mais intenso, carregado de igual paix\u00e3o.<br>\u2003\u2003Por sua vez, o mais novo descansou a palma em seu rosto acariciando o a bochecha num terno afeto.<br>\u2003\u2003Morosamente o moreno desceu a m\u00e3o e, de vez em quando, a pausava em alguma regi\u00e3o para acariciar. Nuca, meio das costas, lateral do tronco, lombar. Todas essas zonas eram afagadas timidamente, embora o notasse relaxado. Por fim, alcan\u00e7ou a lombar, onde a puxou para si at\u00e9 os corpos colarem. A princ\u00edpio era apenas para o mais velho depositar um beijo na testa do outro, mas mudou de planos ao sentir algo bem duro em seu abd\u00f4men e ouvir o arquejo de Rafael quando a ere\u00e7\u00e3o foi pressionada em contato com a barriga definida de Kalisto.<br>\u2003\u2003Com o rapaz em seus bra\u00e7os beijou-lhe castamente a testa antes de deslizar a coberta da cintura alheia \u2013 e n\u00e3o houve resist\u00eancia. A nudez foi revelada em consequ\u00eancia da camiseta que havia subido gra\u00e7as aos movimentos de ambos.<br>\u2003\u2003O moreno o empurrou pra deitar de barriga pra cima quase sem exercer for\u00e7a alguma. O fez uma vez como confirma\u00e7\u00e3o se era o que Rafael desejava \u2013 e a resposta veio de imediato.<br>\u2003\u2003O outro acatou ao pedido e amou a sensa\u00e7\u00e3o de quando o ex descansou a cabe\u00e7a em seu peito, deslizando as pequenas m\u00e3os nas largas costas. O homem, em consequ\u00eancia, aproveitou para ro\u00e7ar os l\u00e1bios no local at\u00e9 aquele simples gesto transformar-se em beijos que foram descendo pela carne firme. N\u00e3o deixava de segur\u00e1-lo e, num anseio n\u00e3o verbalizado, a respira\u00e7\u00e3o do mais novo transformou-se, ficando mais intensa pelo o que viria a acontecer.<br>\u2003\u2003Chegando ao destino n\u00e3o o apanhou e nem o abocanhou de imediato. Pelo contr\u00e1rio. Foi lento. Sem nenhuma pressa. Uma tortura deliciosa e enlouquecedora.<br>\u2003\u2003Kalisto, primeiro, concentrou-se na glande rosada. Umedeceu os l\u00e1bios antes passar a ponta da l\u00edngua ali, saboreando a textura. Em resposta foi segurado pelos cabelos e adorou ouvir o agudo gemido. Assim permaneceu durante um tempo at\u00e9 Rafael, se contorcendo no sof\u00e1, suplicou por mais \u2013 s\u00faplica essa acatada prontamente.<br>\u2003\u2003Para o seu contentamento, o mais velho desceu pelo pau com beijos leves e lentos enquanto massageava as bolas com as m\u00e3os. Chegando na base, subiu o lambendo na press\u00e3o correta que o fez arrepiar. Repetiu tr\u00eas vezes o processo antes de se concentrar no saco, colocando um ap\u00f3s o outro na boca, acariciando-os com a macia l\u00edngua.<br>\u2003\u2003Era um amante nato. Gostava de explorar as zonas er\u00f3genas com devo\u00e7\u00e3o \u2013 e, \u00e0s vezes, quando estavam cercados de uma \u00e1urea mais intensa, uma certa brutalidade. Portanto, para ele e quem quer que compartilhasse a cama, era uma experi\u00eancia memor\u00e1vel, onde jamais sossegaria antes de deixar a outra pessoa de pernas bambas e com orgasmos pujantes.<br>\u2003\u2003\u00c9 de se imaginar, ent\u00e3o, o quanto Rafael gemeu quando, finalmente, o outro o colocou por inteiro na boca e iniciou o movimento de vai e vem com a ajuda da m\u00e3o e acariciando a glande com a l\u00edngua em c\u00edrculos incessantemente. O rapaz agarrava-se ao travesseiro gemendo e arquejando audivelmente, sem se importar se estava sendo ouvido ou n\u00e3o. A entrega era forte, um momento que n\u00e3o seria ignorado pelos dois, mas sim, aproveitado. Foi tempo demais separados \u2013 tempo esse que n\u00e3o obtiveram o demasiado prazer de quando estavam juntos com outras pessoas.<br>\u2003\u2003O apartamento se enchia pelos sons produzidos por eles, entregues um ao outro.<br>\u2003\u2003Por alguns instantes tentava manter os olhos abertos para assistir ao outro no oral, quem parecia n\u00e3o chupar algu\u00e9m com t\u00e3o afinco h\u00e1 anos.<br>\u2003\u2003- Ai&#8230; \u2013 gemeu manhoso quando Kalisto, com ajuda da saliva, umedeceu o anelar, introduzindo nele e massageou seu ponto escondido.<br>\u2003\u2003Foi quest\u00e3o de segundos derramar-se em sua garganta.<br>\u2003\u2003O moreno o degustou e manteve-se por alguns instantes ainda no oral, cessando os movimentos aos poucos.<br>\u2003\u2003Com a respira\u00e7\u00e3o pesada o sentiu subir em si, parando a cent\u00edmetros de sua boca. Ambos respiravam ofegantes e com os cora\u00e7\u00f5es batendo forte. Quando os olhares se encontraram havia um pequeno sorriso no rosto de Rafael, agora, pela primeira vez, deixando o medo em segundo plano. Prestes a quebrar a dist\u00e2ncia para beij\u00e1-lo se recordou de uma frase escutada h\u00e1 anos.<br>\u2003\u2003<em>&#8211; Jamais volte para aquilo que te destruiu.<\/em><br>\u2003\u2003- Desculpa, meu menino, mas n\u00e3o posso.<br>\u2003\u2003Num movimento brusco o moreno levantou do sof\u00e1, deu as costas e entrou em seu quarto batendo a porta numa express\u00e3o dura.<br>\u2003\u2003A dor da rejei\u00e7\u00e3o tomou cada c\u00e9lula do seu corpo. Parado no mesmo lugar tentava compreender o que havia acontecido lutando contra as l\u00e1grimas formadas. N\u00e3o as permitiu rolar secando o rosto numa express\u00e3o de incompreens\u00e3o e dor antes de se deitar.<br>\u2003\u2003Por\u00e9m, ele n\u00e3o passaria aquela noite sozinho.<br>\u2003\u2003Ouviu o miado antes do leve peso extra.<br>\u2003\u2003A gata, quase como enviada, aninhou-se ao seu lado.<br>\u2003\u2003- Boa menina. \u2013 murmurou com a voz embargada.<br>\u2003\u2003Como consolo, o felino lambeu a ponta de seu nariz.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Devido aos \u00faltimos acontecimentos Rafael n\u00e3o conseguiu dormir de t\u00e3o abalado e teve a gata como companhia por vontade dela. Quando n\u00e3o se deitava ao seu lado, deitava em sua barriga e n\u00e3o recusava os carinhos no pelo.<br>\u2003\u2003Um pouco antes das seis da manh\u00e3 ouviu do quarto de Kalisto:<br>\u2003\u2003- <em>Gustavo, eu n\u00e3o podia responder antes porque estou com visita. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m importante. Foi s\u00f3 uma caridade que fiz. Todo mundo tem que fazer uma boa a\u00e7\u00e3o de vez em quando, n\u00e9? Depois a gente se fala porque n\u00e3o tive muito tempo pra dormir essa noite. Quase cometi um puta erro, mas isso \u00e9 hist\u00f3ria pra outra hora. S\u00f3 passando pra avisar que estou bem porque acabei de ver a sua mensagem.<\/em><br>\u2003\u2003Aquilo j\u00e1 era demais para suportar. Ainda n\u00e3o era um exemplo de amor-pr\u00f3prio e nem de autoestima, mas n\u00e3o se submeteria a manter contato com Kalisto depois daquilo.<br>\u2003\u2003Silenciosamente e o mais r\u00e1pido que p\u00f4de trocou de roupa. Antes de sair tirou uma folha de seu caderno e escreveu algo nela, o deixando sobre o sof\u00e1 antes de ir embora.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Kalisto teve uma noite terr\u00edvel. Os sentimentos estavam t\u00e3o intensos e a ansiedade t\u00e3o forte que sequer conseguiu dormir.<br>\u2003\u2003Esperou dar nove da manh\u00e3 antes de sair do quarto.<br>\u2003\u2003- Rafael? \u2013 chamou procurando pelo rapaz.<br>\u2003\u2003Encontrou um peda\u00e7o de papel no sof\u00e1. O apanhou e leu o que estava escrito.<\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\">\u2003\u2003<em>Da pr\u00f3xima vez n\u00e3o precisa fazer caridade.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003- Droga. \u2013 murmurou dando-se conta de que o rapaz havia escutado o \u00e1udio enviado para Gustavo.<br>\u2003\u2003Aparentemente Kalisto n\u00e3o foi o \u00fanico decepcionado. Zangada, a gata chegou at\u00e9 ele e, com uma pata dianteira, desferiu v\u00e1rios golpes em seu p\u00e9 descal\u00e7o.<br>\u2003\u2003- Ai, Kiara, isso d\u00f3i! \u2013 reclamou tentando se afastar dela.<br>\u2003\u2003Quando achou que foi suficiente e lhe deixando alguns arranh\u00f5es de presente, ela apenas miou temperamental para se afastar \u2013 foi quando, novamente, Kalisto sentiu o cheiro.<br>\u2003\u2003- Quem \u00e9 que passou perfume aqui, cacete?!<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Da pr\u00f3xima vez n\u00e3o precisa fazer caridade.<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2247],"class_list":["post-7656","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chame-por-cigana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/7656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7656"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=7656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}