{"id":7652,"date":"2025-09-30T11:54:00","date_gmt":"2025-09-30T14:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-11-09T12:10:03","modified_gmt":"2025-11-09T15:10:03","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/chame-por-cigana\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Se contassem para Rafael<\/span> Siqueira como estaria sua vida aos vinte e seis anos daria uma estrondosa gargalhada. Acharia que o cen\u00e1rio da previs\u00e3o seria demasiadamente dram\u00e1tico, como um cap\u00edtulo digno de dramalh\u00f5es mexicanos como A Usurpadora, Marimar e O que a Vida me Roubou. Afinal de contas, sua vida estava \u00f3tima. Cursava Direito na faculdade dos sonhos localizada no Rio de Janeiro, havia se apaixonado por um dos ex alunos quem havia acabado de passar na prova da OAB, namorava o lindo moreno quem o tratava com amorosidade invej\u00e1vel e sua fam\u00edlia caminhava bem. \u00c9 claro, ainda n\u00e3o havia se assumido socialmente como gay e apresentava o namorado como amigo por sentir medo da rea\u00e7\u00e3o do pai, mas, num todo, as coisas estavam fluindo.<br>\u2003\u2003At\u00e9 que seu castelo come\u00e7ou a desmoronar pe\u00e7a por pe\u00e7a num curto espa\u00e7o de tempo.<br>\u2003\u2003Primeiro, foi o relacionamento. Jamais sentira tamanha dor antes como na tarde quando saiu aos prantos do apartamento do homem. O porteiro at\u00e9 tentou impedi-lo de subir colocando diversos empecilhos como a aus\u00eancia do morador, mas, infelizmente, Rafael tinha a chave entregada pelo mais velho meses anteriores, ent\u00e3o tinha livre acesso ao lugar que passou a conhecer t\u00e3o bem quanto a sua pr\u00f3pria casa \u2013 e no conforto do seu quarto imaginava-se morando l\u00e1 com Kalisto caso se casassem.<br>\u2003\u2003Tr\u00eas meses depois enterrou seu pai no meio de uma chuva torrencial, v\u00edtima de uma bala perdida. Precisou acudir a m\u00e3e junto dos amigos presentes, quem desmaiara quando a primeira rosa branca foi jogada sobre o caix\u00e3o antes da terra ser despejada.<br>\u2003\u2003Como se fosse pouco, al\u00e9m de Micaela ser a \u00fanica respons\u00e1vel por pagar as contas, colocar comida na mesa e sustentar seus dois filhos, Rafael e Mia, a mais nova com apenas sete anos, a mulher sofreu um acidente. Caiu pela janela do terceiro andar enquanto tentava limp\u00e1-la. Embora fosse uma antiga secret\u00e1ria da empresa, seu chefe n\u00e3o era um homem bom e se recusava de ressarcir o valor do INSS, j\u00e1 que foi obrigada por ele a realizar a limpeza \u2013 mesmo sem nenhum equipamento de seguran\u00e7a.<br>\u2003\u2003Devido a tantos infort\u00fanios e numa tentativa de ajudar com os gastos da casa, Rafael decidiu desistir do curso de Direito e abrir m\u00e3o das aulas de dan\u00e7a para trabalhar num sal\u00e3o de beleza. Talvez ele n\u00e3o tivesse condi\u00e7\u00f5es para conseguir o diploma, mas a irm\u00e3 merecia ter uma boa educa\u00e7\u00e3o. Mia adorava a escola e seus sorrisos eram os \u00fanicos momentos que traziam certa alegria num per\u00edodo t\u00e3o infeliz na hist\u00f3ria da fam\u00edlia. N\u00e3o queria tirar a alegria da menina e jamais se perdoaria caso a pequena fosse retirada da escola pelo pagamento n\u00e3o ser efetuado \u2013 e foi por isso que trancou a faculdade e iniciou sua busca por emprego.<br>\u2003\u2003Todos aqueles baques, embora n\u00e3o tenha acontecido nada diretamente com ele, j\u00e1 afetavam sua sa\u00fade. Manchas roxas surgiam pelo corpo em consequ\u00eancia do estresse, fios do cabelo ca\u00edam e perdeu peso, al\u00e9m de ter ins\u00f4nia e alguns sintomas de ansiedade. Havia perdido o brilho interno de outrora e seu semblante, antes leve e animado, agora era ap\u00e1tico e introspectivo.<br>\u2003\u2003Foi nesse contexto que caminhava pela rua naquela noite. A irm\u00e3 descansava em casa na companhia de uma tia, ent\u00e3o o rapaz podia usufruir de algumas horas sozinho. A brisa fresca balan\u00e7ava seus cabelos ruivos cujas pontas ainda eram iluminadas. Perambulava pela cal\u00e7ada sem rumo mordiscando o l\u00e1bio inferior e prendendo o choro pela finaliza\u00e7\u00e3o do relacionamento, pela morte do pai, a desist\u00eancia do sonho de se formar em Direito, a recupera\u00e7\u00e3o gradativa da m\u00e3e hospitalizada, a sa\u00edda das aulas de dan\u00e7a e a falta de perspectiva do futuro. Em resumo? Estava no fundo do po\u00e7o, sozinho e n\u00e3o tinha nenhuma v\u00e1lvula de escape ou apoio emocional. Inclusive era necess\u00e1rio suprimir suas quest\u00f5es emocionais para n\u00e3o piorar o estado delicado de Micaela.<br>\u2003\u2003Foi quando o som de uma m\u00fasica chamou sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>\u201cEstava sozinha caminhando pela rua<\/em><br>\u2003\u2003<em>De companhia s\u00f3 tinha a luz da lua<\/em><br>\u2003\u2003<em>E de repente uma voz me perguntou<\/em><br>\u2003\u2003<em>Por que est\u00e1 t\u00e3o triste chorando de amor?\u201d<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A jun\u00e7\u00e3o das vozes envolveu seu cora\u00e7\u00e3o lhe trazendo uma dose de curiosidade de onde vinha a can\u00e7\u00e3o e uma dose de acalento de origem desconhecida para sua alma. Seguiu a melodia at\u00e9 adentrar num recinto simples cujo port\u00e3o estava aberto. Viu v\u00e1rias pessoas ali. Homens, mulheres e adolescentes. Alguns conversavam de maneira mais discreta com mulheres trajando vestidos longos, vermelhos, negros ou roxos. Outros dialogavam a vozes baixas com homens que fumavam charuto ou que tinham chap\u00e9us em suas cabe\u00e7as e ternos brancos.<br>\u2003\u2003Ao entrar ali tentou manter a cabe\u00e7a baixa, embora a curiosidade falasse mais alto. Seu objetivo era passar despercebido, ent\u00e3o ficou na parte do quintal, escondido entre as folhagens da \u00e1rvore carregada de mangas. Logo descobriria que n\u00e3o conseguiria manter-se camuflado \u2013 mais especificamente exatamente cinquenta segundos depois.<br>\u2003\u2003Uma mulher de pele negra se aproximou dele. Usava um longo vestido de renda vermelha que ia at\u00e9 os tornozelos. Os p\u00e9s eram descal\u00e7os. Na boca tinha um cigarro e em uma das m\u00e3os segurava uma ta\u00e7a com bebida. A outra destra descansava na cintura e a postura altiva chamava a aten\u00e7\u00e3o dos demais.<br>\u2003\u2003- Boa noite, mo\u00e7o.<br>\u2003\u2003Ergueu a cabe\u00e7a pela voz grave e se deparou com um enorme sorriso da mulher. Apesar de tudo nela demonstrar confian\u00e7a e for\u00e7a, os olhos transmitiam compaix\u00e3o, como se enxergasse quanto mart\u00edrio carregava aquele jovem cora\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o abaixe a cabe\u00e7a, filho. \u2013 retirando o cigarro da boca e o prendendo entre os dedos, prosseguiu secando uma l\u00e1grima teimosa no rosto jovial \u2013 A mantenha erguida. Sempre.<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 dif\u00edcil. \u2013 lutou contra o n\u00f3 formado na garganta, ent\u00e3o a voz soou entrecortada e esgani\u00e7ada.<br>\u2003\u2003- Eu sei. \u00c9 n\u00edtido. \u2013 o avaliou de cima abaixo \u2013 Est\u00e1 um trapo, menino. Eu estou melhor que voc\u00ea e olha que estou morta.<br>\u2003\u2003Pela primeira vez em meses foi capaz de rir, mesmo que mais l\u00e1grimas descessem.<br>\u2003\u2003Satisfeita pelo efeito causado no ruivo, apagou o cigarro com a palma da m\u00e3o, o enfiou entre os seios e a estendeu em sua dire\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Por que n\u00e3o vem conversar comigo? Desconfio que temos muito a tratar.<br>\u2003\u2003Num pesado suspiro aceitou ser levado para um canto mais discreto onde confabularam discretamente \u2013 ou, pelo menos, foi isso o que se obrigou a acreditar, j\u00e1 que Rafael passou trinta minutos chorando enquanto era consolado pela mulher e ouvia palavras de afeto e conforto.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Quase dois anos depois Rafael estava no mesmo lugar \u2013 lugar esse que se tornou seu ref\u00fagio e pedido de socorro velado. N\u00e3o deixou de frequentar e, aos poucos, a vida foi se reestabelecendo. N\u00e3o era mais o mesmo sofredor de quando chegou, mas tamb\u00e9m ainda n\u00e3o estava completamente recuperado. Ap\u00f3s a sua primeira ida, em menos de quinze dias conseguiu emprego num sal\u00e3o de beleza, onde trabalhava manh\u00e3, tarde e noite. Dinheiro n\u00e3o sobrava, mas tamb\u00e9m n\u00e3o faltava. Sua m\u00e3e desenvolveu problemas no joelho e nas pernas que lhe impediram de continuar trabalhando, ent\u00e3o o filho tornou-se o provedor da fam\u00edlia.<br>\u2003\u2003Sentado numa cadeira conversava com a mulher, quem acendia mais um cigarro.<br>\u2003\u2003- Eu disse que n\u00e3o tinha problema em contar pra sua m\u00e3e que gosta \u00e9 de homem. \u2013 soltou a fuma\u00e7a pelas narinas \u2013 Ali\u00e1s, ela sempre soube que rabo de saia nunca foi interesse seu. \u2013 guardou o isqueiro entre os seios.<br>\u2003\u2003- Acho que o que me preocupava era o meu pai. Ele n\u00e3o era t\u00e3o mente aberta como aparentava. \u2013 bebeu um pouco de \u00e1gua da garrafinha de Harry Potter que sempre levava consigo.<br>\u2003\u2003Aquele foi o \u00faltimo presente de Kalisto e se convencia que apenas a carregava por ser f\u00e3 da saga \u2013 podia at\u00e9 ser um motivo bom, por\u00e9m n\u00e3o era o \u00fanico.<br>\u2003\u2003- Mo\u00e7o, o seu pai te ama. Nunca vai deixar de amar. Agora, quando isso daqui \u2013 deu leves tapinhas com as pontas dos dedos na t\u00eampora de Rafael \u2013 \u00e9 fechado, cheio de dogmas, pecados, erros e regras d\u00e1 um problema infernal e a pessoa \u00e9 capaz de ferir quem mais ama. Fique com o melhor dado por ele: a sua vida, os bons ensinamentos e as mem\u00f3rias. J\u00e1 basta.<br>\u2003\u2003Levou a garrafa aos l\u00e1bios e despejou o l\u00edquido gelado na boca, saciando a sua sede \u2013 e novamente recebeu um olhar de esguelha da negra de fartos cabelos crespos onde havia uma rosa vermelha atr\u00e1s da orelha, como se ela tamb\u00e9m soubesse que o objeto era carregado de mem\u00f3ria afetiva de um passado cuja hist\u00f3ria foi lind\u00edssima, por\u00e9m terminou de forma tr\u00e1gica ao ponto do rapaz ainda carregar marcas profundas daquela dor em seu \u00e2mago.<br>\u2003\u2003- Desistiu de se enganar? &#8211; segurou o cigarro para falar.<br>\u2003\u2003- Como assim?<br>\u2003\u2003- Vai continuar com aquele traste?<br>\u2003\u2003Essa era uma parte que Rafael n\u00e3o gostava muito: quando era interrogado sobre Andr\u00e9.<br>\u2003\u2003O homem entrara em sua vida enquanto ainda estava na faculdade e namorava com Kalisto. O at\u00e9 ent\u00e3o namorado detestou o jovem simp\u00e1tico quando foram apresentados. A antipatia foi imediata. Odiou mais ainda a forma como teimava em tocar no outro com a ponta dos dedos, \u00e0s vezes de maneira at\u00e9 impercept\u00edvel a olhos menos atentos e a forma como a \u00edris era tomada de desejo quando o encarava. O relacionamento dos sonhos chegou ao fim ap\u00f3s um acidente com Andr\u00e9 Garcia, hoje namorado \u2013 e Rafael jamais imaginaria que foi causado pelo atual.<br>\u2003\u2003- Eu gosto dele.<br>\u2003\u2003- Isso n\u00e3o \u00e9 amor, filho. \u00c9 car\u00eancia. Amor voc\u00ea sente por outro, o mesmo perna de cal\u00e7a que te entregou isso da\u00ed. \u2013 apontou para a garrafinha no colo do ruivo.<br>\u2003\u2003- A fila tem que andar, mo\u00e7a.<br>\u2003\u2003- Desde que n\u00e3o seja um traste como esse que voc\u00ea cismou em manter do seu lado. \u2013 retrucou convicta.<br>\u2003\u2003- O Andr\u00e9 me faz bem. \u2013 deu de ombros encarando o ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003- Vai ser teimoso assim l\u00e1 na puta que pariu! \u2013 reclamou colocando o cigarro entre os l\u00e1bios finos \u2013 Anda, me d\u00e1 a sua m\u00e3o.<br>\u2003\u2003Acatou ao pedido, n\u00e3o que fosse necessariamente um pedido. A mulher de cabelos fartos virou a palma para cima. Ao identificar algo que escolheu n\u00e3o revelar, caiu numa gargalhada estrondosa.<br>\u2003\u2003- Abre bem os ouvidos pro que vou dizer e arranje um jeito da porra da mensagem chegar at\u00e9 a sua cabe\u00e7a teimosa. \u2013 avisou antes de iniciar a leitura de m\u00e3o \u2013 Uma pessoa aqui vai retornar pra sua vida. Logo. N\u00e3o vejo demora. Escuta&#8230; Eu n\u00e3o posso falar muito, mas tenha em mente o seguinte. Saiba escolher o homem certo. Tem um que voc\u00ea enxerga como um lobo em pele de cordeiro. O outro v\u00ea como um cordeiro em pele de lobo. Um vai transformar a sua vida pra melhor. O outro vai te levar pro inferno. N\u00e3o \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o minha dizer qual \u00e9 bom e qual \u00e9 mal. \u2013 o encarou s\u00e9ria \u2013 Escolha certo e lide com as consequ\u00eancias, sejam elas boas ou ruins.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Minutos mais tarde observava o jovem por alguns instantes. Ela tinha informa\u00e7\u00f5es importantes sobre como seria o retorno desse homem do passado na vida do ruivo. Tinha informa\u00e7\u00f5es cruciais, que poderiam mudar o rumo dos eventos seguintes. S\u00f3 havia um problema: n\u00e3o lhe cabia revelar tudo. Isso poderia causar danos s\u00e9rios, talvez at\u00e9 irrevers\u00edveis para os tr\u00eas envolvidos. Uma palavra a mais e talvez o verdadeiro vil\u00e3o seria taxado de bom mo\u00e7o enquanto o outro, pelo g\u00eanio forte, sentimentos feridos gra\u00e7as a uma arma\u00e7\u00e3o s\u00f3rdida e o orgulho, meteria os p\u00e9s pelas m\u00e3os ferindo quem mais amava \u2013 de novo, \u00e9 claro.<br>\u2003\u2003N\u00e3o revelaria para Rafael que aquele quem n\u00e3o revelara a identidade sofria tanto quanto ele pela separa\u00e7\u00e3o \u2013 talvez at\u00e9 mais. O observava de longe, como um pescador encantado pelo canto de uma formosa e irresist\u00edvel sereia. Por\u00e9m, em sua mente consciente e pelos eventos traum\u00e1ticos de anos atr\u00e1s, mantinha-se afastado e sem mostrar a sua verdadeira face \u2013 at\u00e9 porque n\u00e3o admitia demonstrar fraqueza perante quem o jogou no fundo do po\u00e7o e destro\u00e7ara seu peito, num abalo emocional que, de t\u00e3o intenso, chegava a tirar o ar dos seus pulm\u00f5es. Rafael n\u00e3o teria conhecimento, mas o pobre coitado sairia do hospital no dia seguinte devido ao que viu quando foi busca-lo na faculdade para lhe dar carona, o que era o habitual.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<em>Passou a noite tomando soro, sentindo sabor amargo na boca e se controlando para n\u00e3o vomitar \u2013 tudo isso em estado febril e suando frio. Sua m\u00e3e, Lisandra, chegara esbaforida quinze minutos ap\u00f3s receber o telefonema do filho enquanto ele dirigia para o hospital com os sintomas. Todavia, antes de adentrar no estabelecimento, abriu o carro do filho para retirar de l\u00e1 algo peludo, branco e pequeno. Bem pequeno. O colocou na bolsa tomando o devido cuidado para manter o z\u00edper aberto para o ar adentrar e n\u00e3o abafar o espa\u00e7o.<\/em><br>\u2003\u2003<em> Assim que se encontraram sozinhos com o adulto estirado no leito, a senhora baixinha retirou o filhote de gato do interior da bolsa e o p\u00f4s no peitoral do filho, atentando-se para ser gentil, j\u00e1 que o animal estava a ponto de dormir.<\/em><br>\u2003\u2003<em> &#8211; Kalisto, que hist\u00f3ria \u00e9 essa de adotar um animal? Voc\u00ea mal est\u00e1 se mantendo em p\u00e9, filho. Como vai cuidar de si e dele? &#8211; embora a reclama\u00e7\u00e3o fosse genu\u00edna, gostou da imagem que se formou. A gatinha engatinhou mais acima do peito do moreno e aconchegou-se ali, ronronando antes de deitar a cabecinha no queixo m\u00e1sculo.<\/em><br>\u2003\u2003<em> &#8211; Na verdade, eu o peguei na rua pensando em algu\u00e9m. \u2013 deslizou os dedos nos pelos macios abrindo um leve sorriso carregado de tristeza e decep\u00e7\u00e3o \u2013 Mas acho que ele ser\u00e1 uma \u00f3tima companhia para mim.<\/em><br>\u2003\u2003<em> &#8211; Se refere ao Rafael?<\/em><br>\u2003\u2003<em> &#8211; M\u00e3e, por favor. N\u00e3o volte a mencionar esse nome na minha presen\u00e7a. \u2013 lutou para as palavras sa\u00edrem aud\u00edveis enquanto esfregava com os dedos a ponta do nariz.<\/em><br>\u2003\u2003<em> &#8211; Mas&#8230;<\/em><br>\u2003\u2003<em> &#8211; N\u00e3o, m\u00e3e. Apenas, n\u00e3o.<\/em><br>\u2003\u2003<em> Sentiu a ponta de algo \u00famido de \u00e1spero no pesco\u00e7o. Era a filhote lambendo a regi\u00e3o quase como se tentasse acalm\u00e1-lo.<\/em><br>\u2003\u2003<em> Diziam que animais ajudavam as pessoas a se curar de enfermidades de cunho f\u00edsico e emocional. Aquela pequena bola de pelos de olhos azuis seria capaz de curar um cora\u00e7\u00e3o partido? N\u00e3o saberia, mas a tentativa valia.<\/em><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Naquele exato momento Andr\u00e9 Garcia, em uma de suas viagens espor\u00e1dicas a trabalho, subia no avi\u00e3o para retornar ao Brasil. Sentado numa poltrona confort\u00e1vel, relaxava ap\u00f3s averiguar o celular pela notifica\u00e7\u00e3o do recebimento do valor combinado pelos seus servi\u00e7os. De fato, era bom no que fazia. A bela apar\u00eancia, a educa\u00e7\u00e3o e o sorriso encantador serviam para manipular as pessoas, al\u00e9m de se gabar pela facilidade de contornar situa\u00e7\u00f5es sociais complicadas \u2013 como quando a jovem que o acompanhava em uma das viagens estava dopada ao seu lado.<br>\u2003\u2003Satisfeito com o dinheiro na conta, apalpou o bolso para averiguar o presente que comprou para o namorado. Uma delicada pulseira de prata. Sim, sem d\u00favida o ruivo iria gostar. Recostou-se numa tentativa infrut\u00edfera de dormir. O fuso-hor\u00e1rio mexia com seu organismo e, apesar do p\u00f4r do sol de onde o avi\u00e3o decolava, queria dormir algumas horas antes de chegar a Europa.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Kalisto havia escolhido a tarde de s\u00e1bado para fazer as compras no mercado. Al\u00e9m dos legumes, das frutas, das verduras e de alguns produtos de limpeza, passou tamb\u00e9m um sache para gatos no caixa. Aparentemente a bolinha de pelos branca nomeada de Cristal tinha um paladar t\u00e3o rebuscado quanto o dono, ent\u00e3o n\u00e3o aceitava qualquer alimento. E o advogado n\u00e3o negaria determinados luxos no tratamento do animal. Afinal, foi Cristal quem o ajudou a passar pelo per\u00edodo mais melanc\u00f3lico de sua exist\u00eancia \u2013 assim, descobriu que animais de estima\u00e7\u00e3o eram capazes de auxiliar seres humanos a se curar de doen\u00e7as, at\u00e9 mesmo de um cora\u00e7\u00e3o partido.<br>\u2003\u2003Ainda n\u00e3o estava completamente recuperado. Hoje os risos eram genu\u00ednos e sa\u00eda com os amigos ao inv\u00e9s de se isolar no escrit\u00f3rio, usando o excesso de trabalho como uma fuga. Quanto mais ocupasse a mente, menos teria tempo para pensar no ex. Logo, o esqueceria sem grandes dificuldades. A l\u00f3gica era simples. S\u00f3 havia um erro: cora\u00e7\u00e3o e c\u00e9rebro s\u00e3o \u00f3rg\u00e3os que conversam entre si, mas n\u00e3o obrigatoriamente chegavam a um consenso.<br>\u2003\u2003Embora a mente estivesse cada vez mais ocupada, as sensa\u00e7\u00f5es o acompanhavam para onde quer que fosse. Aquele peso, aquele gosto amargo. Aquela vis\u00e3o mais emba\u00e7ada e menos colorida da vida se fazia presente constantemente. Nem mesmo as transas eram t\u00e3o prazerosas como quando ia para a cama com o seu menino, assim como costumava chama-lo devido ao ar de jovialidade pela alegria natural. Elas eram mornas e, \u00e0s vezes, at\u00e9 sem gra\u00e7a. N\u00e3o era um homem com apetite sexual alto quando se tratava de rela\u00e7\u00f5es de uma noite. Seu apetite s\u00f3 aumentava quando se apaixonava \u2013 e estava certo de que n\u00e3o tocaria na pele macia e nem beijaria os l\u00e1bios rosados e carnudos outra vez.<br>\u2003\u2003Quando levava as compras separadas nas sacolas at\u00e9 o carro viu pela vis\u00e3o perif\u00e9rica uma movimenta\u00e7\u00e3o diferente na entrada do mercado. Tratou de guarda-las na mala e retornou preocupado com o que havia visto instantes antes \u2013 uma senhora ca\u00edda no ch\u00e3o com a filha a acudindo nos bra\u00e7os.<br>\u2003\u2003Abriu espa\u00e7o em meio \u00e0s pessoas e se deparou com algu\u00e9m que pensou jamais voltar a se deparar.<br>\u2003\u2003- Micaela. \u2013 arregalou os olhos em assombro e rapidamente tratou de se abaixar ao lado da senhora cujas p\u00e1lpebras tremiam \u2013 O que aconteceu?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o sei. \u2013 Mia fungou apertando o corpo da mulher contra o seu \u2013 Ela leu uma mensagem no telefone e simplesmente desmaiou. Espera a\u00ed. Eu conhe\u00e7o voc\u00ea. Amigo do meu irm\u00e3o, certo? Kalisto!<br>\u2003\u2003- Isso. \u2013 avaliava os sinais vitais de Micaela, quem come\u00e7ava a despertar apesar da palidez \u2013 Conhecido bem distante do seu irm\u00e3o, pra ser sincero.<br>\u2003\u2003- Se formos falar de sinceridade, meu bem, teria chamado o Rafael de ex namorado. Mas isso \u00e9 assunto pra outra hora. \u2013 ironizou.<br>\u2003\u2003- Voc\u00ea tem uma l\u00edngua bem afiada, menina. Escuta, aqui est\u00e1 bem quente. \u00c9 melhor levarmos sua m\u00e3e pra um ambiente mais fresco.<br>\u2003\u2003- Veio de carro?<br>\u2003\u2003- Sim.<br>\u2003\u2003- Por que estamos perdendo tempo falando, cacete? Anda, levanta e a coloca l\u00e1 dentro.<br>\u2003\u2003Inicialmente Kalisto n\u00e3o aprovou as falas da jovem. Minutos mais tarde se repreenderia por julg\u00e1-la e critica-la numa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o desesperadora.<br>\u2003\u2003O advogado segurou a senhora nos bra\u00e7os enquanto Mia agarrava a bolsa da m\u00e3e. A garota foi em seu encal\u00e7o e se certificou que o ar-condicionado do caro carro preto estivesse ligado no m\u00e1ximo e direcionado para a mulher, quem come\u00e7ava a voltar a consci\u00eancia. O advogado j\u00e1 entrara no ve\u00edculo e a mais nova continuou em p\u00e9 ao lado da genitora secando algumas got\u00edculas de suor na testa com um paninho amarelo encontrado na bolsa marrom desbotada.<br>\u2003\u2003- Mi&#8230; Mia, filha? &#8211; balbuciava buscando o olhar da garota \u2013 Onde estamos?<br>\u2003\u2003- No carro do Kalisto. Ele foi quem teve a ideia de te trazer pra c\u00e1.<br>\u2003\u2003- Kalisto? \u2013 a senhora olhou para o lado e se deparou com o homem quem n\u00e3o via h\u00e1 quatro anos \u2013 Ah, querido, desculpa pelo trabalho. \u2013 abriu um sorriso cansado \u2013 Olha como as coisas s\u00e3o. Estou envelhecendo e dando trabalho extra pra quem me cerca.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o se preocupe. \u2013 retribuiu o sorriso aliviado pela doce mulher estar se recuperando \u2013 Essas coisas acontecem.<br>\u2003\u2003Mia se acomodou no banco traseiro, aproveitando do ar fresco do ambiente.<br>\u2003\u2003Havia algo de estranho nela \u2013 e n\u00e3o era apenas o desmaio. Sempre que se lembrava de Micaela ela tinha um sorriso alegre estampado no rosto, assim como um brilho no olhar caracter\u00edstico de quem era af\u00e1vel com as pessoas e de bom cora\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da express\u00e3o leve. Ali? Parecia ter envelhecido dez anos num per\u00edodo de quatro anos. O rosto estava bem cansado, como se carregasse um enorme peso. Olheiras fundas preenchiam ao redor das \u00edris castanhas, a pele tornara-se manchada e acinzentada. Talvez estivesse passando por um problema de sa\u00fade \u2013 e isso trataria de descobrir.<br>\u2003\u2003- Sua filha contou que desmaiou quando leu uma mensagem pelo seu celular. Recebeu uma not\u00edcia ruim?<br>\u2003\u2003- Ah, n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 nada de demais. \u2013 abaixou a cabe\u00e7a e balan\u00e7ou-a em negativa.<br>\u2003\u2003- A gente saiu de casa sem caf\u00e9 da manh\u00e3 e sem almo\u00e7o. N\u00e3o tivemos tempo de comer nada. \u2013 explicou Mia \u2013 Talvez a press\u00e3o dela tenha baixado por causa disso e do calor tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003A filha, perante o olhar atento e perspicaz do moreno, era verdadeira em sua fala. Sua m\u00e3e, n\u00e3o.<br>\u2003\u2003Para o advogado era uma clara mentira contada por Micaela para esconder alguma informa\u00e7\u00e3o. Devido a profiss\u00e3o aprendeu a detectar sinais inverdades e a ser guiado pela sua intui\u00e7\u00e3o \u2013 e naquele momento sua intui\u00e7\u00e3o berrava que Micaela escondia algo.<br>\u2003\u2003Ao analisa-la de cima abaixo a convic\u00e7\u00e3o tornou-se mais forte. Ao oposto de quando costumava visitar a casa de Rafael, suas roupas eram antigas, pu\u00eddas. N\u00e3o passara nenhuma maquiagem, embora, antes, para ir na esquina, a vaidosa mulher usava seu l\u00e1pis preto e seu batom. N\u00e3o era desleixada com sua apar\u00eancia e n\u00e3o compreendia o motivo para a mudan\u00e7a t\u00e3o profunda.<br>\u2003\u2003- Iam comprar algo no mercado?<br>\u2003\u2003- Sim. \u2013 respondeu Mia.<br>\u2003\u2003- Micaela, est\u00e1 tudo bem para voc\u00ea caso ela fosse fazer as compras enquanto fica aqui dentro comigo se recuperando?<br>\u2003\u2003- Ah, n\u00e3o, Kalisto. Eu n\u00e3o quero atrapalhar. Certamente tem afazeres durante o dia e&#8230;<br>\u2003\u2003- Aos finais de semana n\u00e3o trabalho. Os aproveito ao lado de amigos, familiares, em lazer ou descansando no sossego de casa.<br>\u2003\u2003- Eu vou rapidinho, m\u00e3e. Juro que n\u00e3o demoro. \u2013 se inclinou no banco para beijar a bochecha cheia.<br>\u2003\u2003- Tudo bem, ent\u00e3o. A lista est\u00e1 na minha bolsa, assim como o meu cart\u00e3o. Pode ir.<br>\u2003\u2003Quando a garota adentrou no mercado, Kalisto come\u00e7ou:<br>\u2003\u2003- Seu desmaio foi um pouco mais grave do que uma simples queda de press\u00e3o, certo?<br>\u2003\u2003- Por que acha isso?<br>\u2003\u2003- Sou advogado e trabalho na \u00e1rea h\u00e1 um tempo. Consigo identificar uma desculpa com facilidade.<br>\u2003\u2003A frase foi demais para a pobre senhora, quem desabou ali mesmo. As l\u00e1grimas corriam torrenciais enquanto as marcadas m\u00e3os tentavam sec\u00e1-las.<br>\u2003\u2003- As coisas andam dif\u00edceis pra voc\u00eas? &#8211; afagava o pequeno ombro tentando transmitir um pouco de consolo.<br>\u2003\u2003- Sim. Muito. \u2013 os negros cabelos lisos na altura dos ombros escondiam a face.<br>\u2003\u2003- O seu marido&#8230;<br>\u2003\u2003N\u00e3o foi necess\u00e1rio terminar a frase para compreender que o homem havia morrido gra\u00e7as a rea\u00e7\u00e3o dela: encolheu o corpo e enterrou o queixo em seu pr\u00f3prio peito tampando a boca com ambas as m\u00e3os para controlar os solu\u00e7os.<br>\u2003\u2003- Eu sinto muito. \u2013 murmurou sentindo a energia ao redor pesar \u2013 Qual foi o conte\u00fado da mensagem recebida?<br>\u2003\u2003- Era o propriet\u00e1rio da minha casa. \u2013 Kalisto se esfor\u00e7ou para entender as palavras \u2013 Ainda moramos de aluguel, mas estamos h\u00e1 cinco meses com o aluguel atrasado. N\u00e3o temos dinheiro pra pagar. Venho mentindo pros meus filhos porque n\u00e3o quero sobrecarrega-los com esses problemas. Os dois j\u00e1 sofreram o bastante. Entrou com uma ordem de despejo e deu a pr\u00f3xima semana para nos organizarmos com o intuito de sairmos dali.<br>\u2003\u2003A frase o preocupou mais do que deveria.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o h\u00e1 nada que possam fazer para reverter essa situa\u00e7\u00e3o?<br>\u2003\u2003- N\u00e3o. Isso apenas resolveria com o dinheiro e n\u00e3o temos isso.<br>\u2003\u2003- Talvez possa recorrer ao Rafael. Imagino que j\u00e1 esteja trabalhando como advogado e&#8230;<br>\u2003\u2003- Ele saiu da faculdade.<br>\u2003\u2003- Como? \u2013 franziu o cenho sem esperar pela not\u00edcia.<br>\u2003\u2003- Desistiu do curso faltando menos de dois anos para se formar porque me tornei uma completa in\u00fatil impossibilitada de andar direito e passando a maior parte do tempo sentada.<br>\u2003\u2003Havia tanta frustra\u00e7\u00e3o, decep\u00e7\u00e3o, raiva e tristeza acompanhando a fala que preferiu n\u00e3o se aprofundar no assunto.<br>\u2003\u2003- Escuta, caso te interesse tenho contatos com professores e os reitores da faculdade. Posso atuar por debaixo dos panos para ele finalizar os estudos.<br>\u2003\u2003- Kalisto, quantas vezes terei de dizer. \u2013 soou exausta, como se nos \u00faltimos anos sua concentra\u00e7\u00e3o foi voltada para a sobreviv\u00eancia dela e da fam\u00edlia \u2013 Nem dinheiro temos para pagar o aluguel. Como&#8230;<br>\u2003\u2003- Isso voc\u00ea deixa comigo. \u2013 a interrompeu e elevou a voz para sobrepujar a dela \u2013 As aulas retornar\u00e3o no m\u00eas seguinte e adicionaram o curso pro hor\u00e1rio noturno. Acho que n\u00e3o vai afetar os hor\u00e1rios dele no trabalho. A prop\u00f3sito, passe seu n\u00famero pro meu celular. Assim que obtiver a resposta aviso pra voc\u00ea. S\u00f3 n\u00e3o comente nada com o Rafael. \u00c9 melhor essa informa\u00e7\u00e3o sobre mim ser ocultada.<br>\u2003\u2003Esse n\u00e3o era o principal objetivo para adicionar o n\u00famero de Micaela na agenda. Mais tarde naquele mesmo dia iria transferir um valor gordo suficiente para pagar os cinco meses de aluguel atrasados \u2013 e os dos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses tamb\u00e9m quitados. N\u00e3o permitiria que a fam\u00edlia fosse despejada, independente do que aconteceu entre ele e Rafael no passado.<br>\u2003\u2003Kalisto manteve a conversa de maneira mais amena para Micaela recuperar-se do pranto. At\u00e9 conseguiu faz\u00ea-la rir quando contou uma das hist\u00f3rias no come\u00e7o da carreira.<br>\u2003\u2003Voltava de carro do escrit\u00f3rio quando foi abordado por um homem armado. Quando desceu do ve\u00edculo com as palmas para cima, o assaltante o reconheceu e retirou uma m\u00e1scara, revelando n\u00e3o apenas o largo sorriso como tamb\u00e9m a identidade: era Michael, tamb\u00e9m conhecido como Maike Doid\u00e3o da Favela. Guardou a arma para dar um abra\u00e7o em seu advogado e logo explicou porque estava sem a tornozeleira \u2013 de uma maneira que nem Kalisto queria saber, a retirou h\u00e1 tr\u00eas dias e a colocou numa das galinhas que morava em seu quintal.<br>\u2003\u2003- A\u00ed, pode ir, meu patr\u00e3o. \u2013 Michael se despedia dele enquanto Kalisto colocava o cinto \u2013 Escuta, essa \u00e1rea aqui eu dou conta com os meus. Pode ir tranquilo que vou avisar pros cria n\u00e3o fazer nada contigo e nem com o seu carro.<br>\u2003\u2003Via a senhora segurar a barriga de tanto rir.<br>\u2003\u2003- Pois \u00e9, Micaela. Advogado criminalista passa por isso pelo menos uma vez.<br>\u2003\u2003Mia chegou quinze minutos depois com as compras em tr\u00eas bolsas.<br>\u2003\u2003- Est\u00e1 melhor, m\u00e3e. \u2013 comentou aliviada e batendo a porta.<br>\u2003\u2003- Bem melhor. Falei que n\u00e3o havia porque se preocupar.<br>\u2003\u2003- Agora s\u00e3o quase tr\u00eas da tarde. \u2013 Kalisto avisou ap\u00f3s checar o hor\u00e1rio pela tela do celular, guardado no bolso dianteiro da cal\u00e7a \u2013 Posso leva-las para almo\u00e7ar. Ainda n\u00e3o comi nada e adoraria ter companhia essa tarde.<br>\u2003\u2003Antes de Micaela sequer abrir a boca para responder, a garota de cabelos negros disse:<br>\u2003\u2003- Claro! Queremos, sim! Se tem uma coisa que quero, quer dizer, queremos \u00e9 almo\u00e7ar logo! \u2013 a jovem faltava dar pulinhos de alegria sentada no banco.<br>\u2003\u2003A encarando pelo retrovisor, a anima\u00e7\u00e3o contagiante lembrou um pouco de Rafael.<br>\u2003\u2003- Mia, minha filha&#8230; \u2013 passou a m\u00e3o pelo rosto sem se surpreender com a atitude da garota \u2013 Pelo menos uma \u00fanica vez se fa\u00e7a de rogada.<br>\u2003\u2003- \u00c9 ruim, hein? Estou com fome. N\u00e3o vejo a hora de almo\u00e7ar e depois escolher uma sobremesa. Se puder, \u00e9 claro. \u2013 tirou as rasteirinhas e cruzou as pernas magras colocando o cinto.<br>\u2003\u2003- Por favor, perdoe a minha filha. N\u00e3o quero incomodar.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o vai. Ser\u00e3o bem tratadas na minha companhia hoje.<br>\u2003\u2003Antes de come\u00e7ar a dirigir encarou o retrovisor por cinco segundos. Mia estava na mesma posi\u00e7\u00e3o de antes e tamborilava ansiosa os dedos nos joelhos com o t\u00edpico sorriso de crian\u00e7a travessa nos l\u00e1bios.<br>\u2003\u2003- Igualzinha ao irm\u00e3o.<br>\u2003\u2003Micaela detectou um misto de tristeza e saudade no coment\u00e1rio dele quando come\u00e7ou a dirigir, mas n\u00e3o questionaria nada.<br>\u2003\u2003O almo\u00e7o n\u00e3o poderia ser melhor. As levou a um restaurante de sua prefer\u00eancia. Os funcion\u00e1rios n\u00e3o fizeram desfeita e nem torceram os narizes com a entrada das duas no ambiente, j\u00e1 que estavam acompanhadas de Kalisto, quem costumava frequentar o lugar com outros advogados. Comeram salada de legumes, frango, arroz e mais um ou dois pratos, com direito a sobremesa para as duas.<br>\u2003\u2003Mia estava radiante de felicidade e decidiu se fotografar em diferentes pontos do restaurante. Nem mesmo o belo corredor escapou de suas lentes ou alguns elementos, como um bot\u00e3o de rosa vermelha ou um belo lustre dourado.<br>\u2003\u2003As deixou em casa pouco antes do anoitecer.<br>\u2003\u2003- Filha, deixa eu falar uma coisa antes do seu irm\u00e3o chegar. \u2013 destrancou a porta e colocou as compras no ch\u00e3o \u2013 Nem uma \u00fanica palavra sobre hoje para ele. Ouviu bem?<br>\u2003\u2003- Sim, m\u00e3e. S\u00f3 n\u00e3o entendo o motivo. Ele e o Rafa n\u00e3o eram namorados?<br>\u2003\u2003Apesar de Rafael nunca ter admitido na \u00e9poca, era vis\u00edvel para elas que Kalisto era bem mais do que amigos quando conviviam. Era comum o filho passar o final de semana inteiro no apartamento dele e retornar pra casa apenas na tarde de segunda-feira, \u00e0s vezes j\u00e1 almo\u00e7ado. Isso sem mencionar a qu\u00edmica dos dois. Portanto, longe dos ouvidos do pai e do casal, m\u00e3e e filha costumavam chamar Kalisto de cunhado e usar de Kafael para se referir a eles.<br>\u2003\u2003- Eram. Ou, pelo menos, era o que aparentavam.<br>\u2003\u2003Foram para a cozinha enquanto conversavam e come\u00e7aram a guardar as compras.<br>\u2003\u2003- Foi estranha a forma como se distanciaram. O Rafa simplesmente chegou aqui e n\u00e3o mencionou mais o nome do Kalisto.<br>\u2003\u2003- Por isso mesmo n\u00e3o quero que ele saiba. \u2013 come\u00e7ou a guardar os frangos congelados \u2013 E nem tente descobrir porque se afastaram. Sei como a senhoria \u00e9 fofoqueira.<br>\u2003\u2003- Eu? \u2013 prolongou a letra \u201ce\u201d com a m\u00e3o no peito numa entona\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e exagerada \u2013 Esse rostinho fofo e ing\u00eanuo aqui \u00e9 incapaz de cometer tal atrocidade.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s uma avalia\u00e7\u00e3o de cima abaixo, Micaela disse:<br>\u2003\u2003- Quem n\u00e3o te conhece te compra, menina.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Na primeira semana do m\u00eas seguinte Rafael estava mais efusivo que o costume e num bom humor admir\u00e1vel. E motivo tinha pra isso.<br>\u2003\u2003Recebeu uma not\u00edcia da m\u00e3e avisando que um amigo dela conseguiria ingress\u00e1-lo na faculdade com uma bolsa de estudos que supriria o valor do deslocamento, da alimenta\u00e7\u00e3o e qualquer outro gasto oriundo da faculdade \u2013 eles s\u00f3 n\u00e3o imaginavam quem era o respons\u00e1vel por essa bolsa de estudos. Ent\u00e3o n\u00e3o existia empecilhos para ele retornar aos estudos.<br>\u2003\u2003Na primeira oportunidade correu para conversar com Cac\u00e1, o cabelereiro e chefe do sal\u00e3o de onde trabalhava. A rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser melhor. Combinaram que o hor\u00e1rio dele seria centrado no per\u00edodo do dia.<br>\u2003\u2003Preparou-se para retornar \u00e0s aulas tirando os cadernos com as anota\u00e7\u00f5es da estante. Sempre que tinha um tempo livre o usava para se atualizar nas mat\u00e9rias e alegrou-se por n\u00e3o ter se esquecido por completo do conte\u00fado. Deu a not\u00edcia para os amigos mais pr\u00f3ximos numa chamada de v\u00eddeo e decidiram sair para comemorar num bar de esquina de onde Bruno morava. Mesmo que s\u00f3 tivesse o suficiente para pagar a sua parte da bandeja de petiscos cujo valor era bem barato, uma \u00e1gua e uma cerveja, nada tiraria seu contentamento e nem sua empolga\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003E foi nessa boa energia que entrou na sala, com um sorriso mostrando dentes at\u00e9 demais. N\u00e3o tinha como comprar outras roupas, ent\u00e3o usou as que tinha. Um short jeans colado, t\u00eanis branco e uma blusa branca estampada. Colocara um delineador discreto e um gloss transparente para real\u00e7ar a beleza, al\u00e9m de pequenos brincos nas orelhas.<br>\u2003\u2003Talvez aquela roupa n\u00e3o fosse a ideal para o curso, mas se lembrou do que a mo\u00e7a costumava dizer pra ele:<br>\u2003\u2003\u2018\u2019Mo\u00e7o, n\u00e3o se deixe abater quando estiver triste ou incomodado com alguma coisa. Se enfeite. Passe maquiagem e vista-se da forma como mais lhe agradar. Quanto mais triste estiver, mais bonito deve estar. Sabe por qu\u00ea? Ajuda. E n\u00e3o \u00e9 pra voc\u00ea se enfeitar pra um par de cal\u00e7a ou par de saia, n\u00e3o, apesar de n\u00e3o gostar de mulher. \u00c9 se p\u00f4r bonito pra voc\u00ea porque merece olhar para um espelho e gostar da imagem refletida.\u201d<br>\u2003\u2003Ele estava feliz, sim, mas igualmente inseguro \u2013 principalmente ap\u00f3s dar a not\u00edcia para Andr\u00e9.<br>\u2003\u2003O atual namorado fora visita-lo no dia seguinte da sua m\u00e3e avis\u00e1-lo sobre a possibilidade de retornar para a faculdade. Havia retornado de viagem h\u00e1 tr\u00eas dias e foi recebido por Rafael em um prolongado abra\u00e7o que demorou a ser retribu\u00eddo.<br>\u2003\u2003- Rafael, calma. \u2013 gentilmente retirou os bra\u00e7os ao redor de si \u2013 Assim vai me sufocar.<br>\u2003\u2003- Ai, amor, desculpa. \u00c9 que estava com saudade. \u2013 sentou no sof\u00e1 num ar ainda feliz.<br>\u2003\u2003- Eu sei. \u00c9 que voc\u00ea \u00e9 meio grudento. \u2013 deu um beijo no topo da cabe\u00e7a antes de se acomodar ao lado dele \u2013 S\u00f3 precisa dosar.<br>\u2003\u2003- Ah&#8230; Est\u00e1 bem.<br>\u2003\u2003O ruivo n\u00e3o demonstraria que aquele coment\u00e1rio, mesmo sendo pronunciado com suavidade, lhe gerasse inc\u00f4modo.<br>\u2003\u2003- Trouxe um presente pra voc\u00ea.<br>\u2003\u2003- O qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Retirou um embrulho do bolso e o entregou para o outro. Mais uma vez Rafael disfar\u00e7aria bem. A pulseira era at\u00e9 bonita, mas n\u00e3o costumava usar pulseiras e nem pe\u00e7as prateadas.<br>\u2003\u2003- Que lindo, amor! Obrigado! J\u00e1 sei at\u00e9 onde estrear.<br>\u2003\u2003- Onde? Em algum dos shows? \u2013 a voz continha certo desd\u00e9m que Rafael ignorou.<br>\u2003\u2003- N\u00e3o, bobinho. No meu primeiro dia de aula.<br>\u2003\u2003- Como? \u2013 ergueu uma das sobrancelhas sem compreender.<br>\u2003\u2003Quando explicou animado que retornaria para o curso de Direito, Andr\u00e9 n\u00e3o pareceu gostar.<br>\u2003\u2003- Tem certeza? N\u00e3o est\u00e1 meio velho pra isso, n\u00e3o?<br>\u2003\u2003- Que \u00e9 isso, Andr\u00e9? Tenho nem trinta anos. \u2013 o repreendeu.<br>\u2003\u2003- Sei l\u00e1. Vai que voc\u00ea come\u00e7a a ficar sem tempo pra mim na sua agenda. Eu tamb\u00e9m mere\u00e7o aten\u00e7\u00e3o, sabia?<br>\u2003\u2003- Ah, menino manhoso. \u2013 deitou a cabe\u00e7a no ombro \u2013 Vai ficar em segundo plano, n\u00e3o. Vou coloca-la no meu primeiro dia de aula para dar sorte.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003N\u00e3o sabia como conseguiria encaixar seus hor\u00e1rios e nem como seria no per\u00edodo de provas, por\u00e9m o primeiro e mais relevante passo deu: retornar para o seu amado curso.<br>\u2003\u2003Arrependeu-se amargamente de ter recebido aquele presente, principalmente de t\u00ea-lo colocado no pulso. N\u00e3o trouxe sorte nenhuma. Pelo contr\u00e1rio. Trouxe azar. Definitivamente o objeto foi amaldi\u00e7oado por alguma bruxa de s\u00e9culos passados. Idiota foi ele por n\u00e3o ter compreendido os sinais de que a pulseira n\u00e3o lhe traria felicidade. Andr\u00e9 mencionou seu trabalho art\u00edstico, a pulseira era de uma cor que ele n\u00e3o gostava e ele nem usava pulseiras.<br>\u2003\u2003Fez ressurgir das cinzas uma pessoa que deveria pertencer ao seu passado e jamais sair de l\u00e1. Ali\u00e1s, se tivesse sorte, seria levado pro inferno pelo L\u00facifer em pessoa enquanto o assistia ser puxado pela manga daquele terno azul marinho comendo uma pipoca e tomando Coca-Cola.<br>\u2003\u2003O lado bom \u00e9 que ningu\u00e9m mais prestava aten\u00e7\u00e3o nele, ent\u00e3o n\u00e3o notaram sua palidez, seu olhar aterrorizado, o tremor nas m\u00e3os e nem o corpo enrijecido com a entrada do professor, quem foi direto para a sua mesa.<br>\u2003\u2003- Boa noite. Meu nome \u00e9 Kalisto Andrade e serei o professor dessa turma.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003\u201cEstava sozinha caminhando pela rua\u2003\u2003De companhia s\u00f3 tinha a luz da lua\u2003\u2003E de repente uma voz me perguntou\u2003\u2003Por que est\u00e1 t\u00e3o triste chorando de amor?\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2247],"class_list":["post-7652","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-chame-por-cigana"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/7652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=7652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}