{"id":6768,"date":"2025-10-28T11:33:21","date_gmt":"2025-10-28T14:33:21","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-28T11:35:41","modified_gmt":"2025-10-28T14:35:41","slug":"capitulo-05","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/starfall\/capitulo-05\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 05"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><strong>SKAD \u2022 ANOS ANTES.<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Apoiando-se contra a balaustrada feita de m\u00e1rmore branco, fria como neve, de uma das sacadas que envolviam o grande sal\u00e3o principal da sala de reuni\u00f5es da Corte Invernal, Skad estreitou os olhos, escorando o queixo na palma de sua m\u00e3o direita, observando com certa curiosidade o pai resmungar palavras severas com mais dois guardas. Estavam discutindo algo com teor s\u00e9rio, talvez, at\u00e9 mesmo preocupante, Kallias parecia realmente incomodado com algo, o tom de voz baixo e comedido tinha aquela conota\u00e7\u00e3o fr\u00edgida e pouco emocional, permeada por racionaliza\u00e7\u00e3o mordaz que fazia Skad se lembrar de uma tempestade de neve aproximando-se. Era o momento em que tudo parecia ficar silencioso, quando as nuvens sempre cinzentas que envolviam os horizontes dos vilarejos e cidades entremeios de montanhas obscurecem-se ainda mais, projetando-se como sombras sobre os pr\u00e9dios e casebres, podia sentir a temperatura diminuindo, o ar agitando-se com uma est\u00e1tica crescente acompanhando pelos uivos das ventanias que arrastavam tudo em seu caminho. Nunca era algo bom quando seu pai estava com <em>aquele<\/em> tipo de humor. Sua voz erguia-se, pungente e colorida pelo sotaque familiar nortenho que eles haviam adquirido gra\u00e7as \u00e0 conviv\u00eancia com a m\u00e3e e a fam\u00edlia de sua m\u00e3e, severa pelas paredes de vidro e gelo do sal\u00e3o principal.<br \/>\u2003\u2003Os olhos azuis claros, g\u00e9lidos, como um lago congelado, do rapaz desviaram-se da urg\u00eancia crescente presente na voz de seu pai, para repousarem na figura diminuta do outro lado do sal\u00e3o, paciente, esperando por sua condena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o parecia arisca como quando a encontraram na floresta mais cedo, sequer ressentida embora o rosto <em>exibisse<\/em> certo desapontamento, um pesar velado e disfar\u00e7ado de neutralidade, agora, apenas mantinha os olhos fixos no ch\u00e3o, com os l\u00e1bios apertados em uma linha r\u00edgida. Os dedos esguios, calejados e levemente tortos, se contorciam arrancando as peles pequenas que se formavam ao redor de suas unhas, filetes de sangue escorrendo por entre os cantos sem pingar no ch\u00e3o p\u00e1lido. Era uma figura curiosa, parecia apenas dois anos mais nova que ele, ent\u00e3o deveria ter no m\u00e1ximo 12 anos, talvez menos, os ombros ossudos eram curvados para frente, como se estivesse tentando se fazer despercebida, e os cabelos, embora na altura de suas costas, pareciam uma bagun\u00e7a completa de fios desalinhados. Provavelmente nunca os havia penteado, mas igualmente n\u00e3o havia como saber, as mechas destacavam-se com fios que cintilavam, mesmo de dia, como fios de luz pura. Enroscavam-se com outras mechas, torcendo-se e tecendo em tran\u00e7as que mais se pareciam com n\u00f3s. Sardas decoravam seu rosto delicado, como um mapa de estrelas sob a pele, cintilando e oscilando a cada inspira\u00e7\u00e3o que tomava, assim como as \u00edris de seus olhos, pareciam misturar-se, formando uma faixa de luz pura cintilando em meio \u00e0s sombras que projetavam-se em seu rosto. Seu bra\u00e7o esquerdo faltava-lhe, em seu lugar havia apenas uma cicatriz grotesca de onde o osso deveria ter se partido, envolto por uma faixa desgastada e suja do que outrora deveria ter sido suas roupas.<br \/>\u2003\u2003Vestia-se modestamente, com roupas finas que n\u00e3o deveriam sequer proteg\u00ea-la do frio. A t\u00fanica estava desgastada, suja, com manchas de sangue seco e lama, suas mangas haviam sido arrancadas, revelando os bra\u00e7os esguios agora cobertos por um emaranhado de marcas profusas, de um azul escuro pungente, como o oceano a noite, formando s\u00edmbolos e escrituras antigas demais para que Skad conseguisse <em>compreender<\/em> com clareza \u2014 sabia, todavia, que sua av\u00f3 materna o tinha em livros em sua cabana nas florestas congeladas, em livros e at\u00e9 mesmo esculpidas na madeira. Eram s\u00edmbolos de prote\u00e7\u00e3o, que contavam a hist\u00f3ria de <em>conex\u00e3o<\/em>, uma <em>liga\u00e7\u00e3o<\/em> volunt\u00e1ria entre a magia antiga e a garota. Algo <em>ancestral<\/em>. Faziam com que as algemas de gelo que envolviam seus pulsos e queimavam sua pele, prendendo os bra\u00e7os a frente de seu corpo, reluzir, inst\u00e1veis, sob o toque. Como se estivesse esfor\u00e7ando-se muito para manter-se atrelado \u00e0 pele dela, quando algo dentro da garota parecia rejeit\u00e1-lo. Skad uniu as sobrancelhas, incomodado, porque diabos ela n\u00e3o reclamava? O gelo claramente estava lhe queimando a pele, j\u00e1 estava come\u00e7ando a ficar arroxeada nas laterais onde o gelo tocava, porque diabos ela simplesmente n\u00e3o gritava? Skad havia esgueirando-se pelas portas e corredores da Corte vezes o suficiente para ter <em>presenciado<\/em> e <em>ouvido<\/em> muitos prisioneiros e invasores das fronteiras com a <em>Corte Outonal<\/em> ou at\u00e9 mesmo forasteiros e mercen\u00e1rios que se esgueirava pelas Montanhas implorar por miseric\u00f3rdia no segundo que as algemas queimavam seus pulsos. Sabia como <em>gelo<\/em> poderia ser doloroso, um veneno lento e eficaz, enlouquecedor o suficiente para fazer homens maiores que ela chorarem em sil\u00eancio, e, todavia\u2026<br \/>\u2003\u2003<em>Como<\/em> ela, que parecia t\u00e3o nova e fr\u00e1gil, poderia ter se acostumado com a dor dessa forma?<br \/>\u2003\u2003Skad n\u00e3o conseguiu conter uma ponta de inveja da garota; ele queria ser assim tamb\u00e9m. Intocado pela dor, implac\u00e1vel e at\u00e9 mesmo estoico. Estava tentando faz alguns anos j\u00e1, durante os treinos, adquirir a postura de Kallias em combate, elegante como uma tempestade, perigoso como um lago congelado, mas ainda assim, falhava miseravelmente. Seu temperamento, ainda que contido acabava rendendo-lhe frustra\u00e7\u00f5es o suficiente para pequenas explos\u00f5es e birras marrentas ao perceber que as coisas n\u00e3o haviam seguido com o que <em>ele<\/em> havia planejado. Kallias soltou um chiado entre dentes, comandando os dois guardas a se silenciar, e ent\u00e3o, de supet\u00e3o, voltou-se na dire\u00e7\u00e3o de onde Skad escondia-se, tentando vislumbrar o que transcorria na sala de reuni\u00f5es. Skad praguejou por baixo de sua respira\u00e7\u00e3o, se lan\u00e7ando no ch\u00e3o antes que o olhar severo de seu pai pudesse repousar em seu rosto, ali, e rastejando pelo ch\u00e3o, tentou seguir para a pr\u00f3xima sacada, agarrando-se por pequenos veios e lacunas que se abria entre uma sacada e a outra, sem ser notado pelo pai.<br \/>\u2003\u2003Trincando os dentes com for\u00e7a, Skad conteve um grunhido de dor ao desabar no ch\u00e3o, de forma brusca e dolorosa, esparramado sobre alguma coisa cheia de pernas e bra\u00e7os. Um p\u00e9 atingiu sua mand\u00edbula, o fazendo sufocar um grito, tentando desviar de um bra\u00e7o, acabou acertando uma cabe\u00e7a bem dura \u2014 e provavelmente vazia gra\u00e7as ao <em>som<\/em> oco que fizera quando as duas testas se conectaram. Skad arregalou os olhos, tampando a boca de Lumia antes que a irm\u00e3 pudesse <em>pensar<\/em> em gritar; para o completo desespero do rapaz, Lumia, sendo reativa como sempre, optou por fincar-lhe os dentes em sua m\u00e3o com for\u00e7a o suficiente para o fazer ver estrelas. Skad prendeu a respira\u00e7\u00e3o, batendo na cabe\u00e7a de Lumia at\u00e9 que ela o soltasse, antes de rolar para a esquerda, colocando dist\u00e2ncia entre si e a irm\u00e3 com irrita\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003Piscou algumas vezes, tentando afastar as l\u00e1grimas de seus olhos marejados, mantendo sua m\u00e3o presa contra o peito ao encarar irritado a irm\u00e3.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Que \u2018c\u00ea t\u00e1 fazendo aqui? \u2014 Apesar de ser uma pergunta, o tom de acusa\u00e7\u00e3o a tornou em uma afirma\u00e7\u00e3o irritadi\u00e7a. Lumia abriu a boca para responder-lhe, mas tamanha era seu enfadamento, que a garota apenas agarrou a primeira coisa que encontrou pelo caminho, uma almofada, e o acertou com for\u00e7a.<br \/>\u2003\u2003Skad grunhiu baixo, nocauteado de volta no ch\u00e3o, e ent\u00e3o, antes que ele pudesse impedir-se, Lumia j\u00e1 havia jogado a almofada sobre sua cabe\u00e7a, e se sentando em cima da almofada, tentando sufoc\u00e1-lo. Skad tentou empurrar a irm\u00e3 para longe de si, mas j\u00e1 era tarde demais, agora ele estava fadado a ser o acento de Lumia mesmo a contragosto. A press\u00e3o do corpo da garota em sua cabe\u00e7a, o suficiente para ser desconfort\u00e1vel, mas n\u00e3o o suficiente para machuc\u00e1-lo de fato.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea atrapalhou <em>todo<\/em> o meu jogo, idiota! \u2014 Lumia retorquiu exasperada, inclinando-se para frente, e come\u00e7ando a recolher as cartas do baralho com um bico, e as sobrancelhas unidas.<br \/>\u2003\u2003Skad grunhiu algo intelig\u00edvel e ent\u00e3o, usando toda a for\u00e7a em seu bra\u00e7o, empurrou a irm\u00e3 de cima de si, fazendo-a cair de cara no ch\u00e3o. Lumia soltou um gritinho baixo, e Skad sufocou um riso. Empurrou para longe a almofada, e ent\u00e3o se sentou, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, tentando livrar-se do torpor breve de ser \u201cesmagado\u201d por Lumia. Passou as m\u00e3os pelos cabelos, antes de dar a l\u00edngua para a irm\u00e3, ainda se mantendo agachado, ao aproximar-se da balaustrada novamente, tentando espiar por entre os v\u00e3os a prisioneira de seu pai.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Escolhe uma carta \u2014 Lumia comandou com seu tom imperioso insuport\u00e1vel, ap\u00f3s quase dez minutos embaralhando o objeto. Skad bufou, tentando n\u00e3o revirar os olhos, mas ent\u00e3o voltou-se brevemente na dire\u00e7\u00e3o da irm\u00e3 com exaspera\u00e7\u00e3o. Por um segundo, sentiu-se tentado em congel\u00e1-la. N\u00e3o seria a primeira vez, nem a \u00faltima que ele faria. Sabia que seu pai ficaria furioso com ele se tentasse o fazer de novo, mesmo que <em>Lumia<\/em> n\u00e3o fosse sofrer nenhum dano permanente, uma vez que, como herdeiros de Kallias, a magia do gelo flu\u00eda por suas veias, criando certa <em>resist\u00eancia<\/em>, ainda seria um grande desrespeito. Mas ent\u00e3o, com um suspiro pesado, ele deixou-se observar as costas das cartas viradas para baixo.<br \/>\u2003\u2003Eram exemplos parecidos com o que sua av\u00f3 materna possu\u00eda; cartas de um material grosso que lembrava um pouco placas de metal embora ainda fossem feitas de papel resistente, com delicados entalhes em dourado que pareciam reluzir holograficamente, como p\u00e9rolas, embora fossem na verdade <em>gelo encantado<\/em>, os l\u00e1bios de Skad se curvaram para baixo, em exaspera\u00e7\u00e3o. Ele detestava aquele jogo de adivinha\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e3e gostava de jogar quando haviam tempestades rigorosas a aproximar-se, e a av\u00f3 materna deles <em>sempre<\/em> lia suas sortes em seus anivers\u00e1rios. A av\u00f3 nunca errava, e sua m\u00e3e era bem precisa na leitura, embora falasse das coisas em enigmas demais para Skad se preocupar em entend\u00ea-las, mas <em>Lumia<\/em>, era <em>terr\u00edvel<\/em> naquele jogo. Uma vez Skad retirou uma carta com o desenho de um esqueleto sentado sobre um trono e com chifres de carneiros retorcidos, segurando uma ta\u00e7a e com v\u00e1rias joias dispostas em sua outra m\u00e3o esquel\u00e9tica, chamavam-no de \u201cO Monstro\u201d, o que deveria ser uma coisa ruim, Lumia havia dito que a carta o <em>representava<\/em>, porque Skad era <em>t\u00e3o feio<\/em> quanto a <em>carta<\/em>. Mas se porventura fosse o necess\u00e1rio para faz\u00ea-la se calar, ent\u00e3o talvez\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Anda logo, idiota, s\u00f3 pega uma \u2014 Lumia praguejou, e Skad soltou um chiado entre dentes, tentando silenci\u00e1-la, amea\u00e7ando acert\u00e1-la com um tapa, antes de voltar o olhar na dire\u00e7\u00e3o de onde o pai dispensava os guardas e voltava-se para a prisioneira.<br \/>\u2003\u2003Skad uniu as sobrancelhas, sem ter certeza do que havia acontecido. Kallias n\u00e3o parecia estar nem um pouco feliz, mas igualmente n\u00e3o era amea\u00e7ador. Mas a garota o encarava como se estivesse prestes a fugir. Encolheu-se quando seu pai deu um passo em sua dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003\u2014 As cartas dizem que ela vai morrer \u2014 Lumia sussurrou no ouvido de Skad, com um sorrisinho satisfeito.<br \/>\u2003\u2003Skad bufou, empurrando Lumia para o lado, detestando o cheiro de <em>chocolate quente<\/em> que o h\u00e1lito da irm\u00e3 possu\u00eda, antes de fuzil\u00e1-la com o olhar. N\u00e3o respondeu a sua fala, apenas tomou uma carta do baralho estendido dela, e ent\u00e3o girou por entre seus dedos. Franziu o cenho, incomodado ao observar o esqueleto que apareceu em seu verso: amarrado por uma corda grossa, em torno de um tronco, preso de ponta cabe\u00e7a. <em>O Enforcado<\/em>. Skad estendeu a carta para Lumia, confuso.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que significa? \u2014 indagou Skad com indiferen\u00e7a, imaginando o que Lumia iria inventar daquela vez. N\u00e3o era porque a m\u00e3e deles era boa em precogni\u00e7\u00e3o e adivinha\u00e7\u00e3o que fazia Lumia, <em>automaticamente<\/em> boa nisso. Ela n\u00e3o era. Lumia abriu a boca para responder-lhe algo, mas ent\u00e3o a fechou abruptamente, empinando o nariz com superioridade.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Que voc\u00ea \u00e9 <em>muito<\/em> feio \u2014 Lumia retorquiu, afiada, tomando a carta da m\u00e3o de Skad, antes de se ajustar ao lado dele e projetar-se para frente. Os olhos de imediato encontraram a garota do outro lado do sal\u00e3o, encolhida.<br \/>\u2003\u2003Lumia pareceu fazer uma careta, se de desgosto ou pesar n\u00e3o soube ao certo dizer, mas n\u00e3o era acusat\u00f3rio, igualmente, n\u00e3o era amig\u00e1vel. Skad n\u00e3o poderia deixar de considerar que compartilhava, porventura, do mesmo sentimento. Mas ao menos, <em>nele<\/em>, havia certa curiosidade.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e3o dizendo que \u00e9 melhor execut\u00e1-la, que \u00e9 perigosa. Se isso acontecer, vou pedir para o papai me deixar congel\u00e1-la. Vai doer menos, acho\u2026<br \/>\u2003\u2003Skad lan\u00e7ou um olhar de soslaio para Lumia, antes de apertar os l\u00e1bios, dando de ombros, indiferente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Achei que s\u00f3 estivesse jogando cartas.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu estava! \u2014 Lumia respondeu defensivamente, antes de revirar os olhos, escorando o rosto contra os v\u00e3os da balaustrada, assistindo o pai interrogar a prisioneira. \u2014 Mas n\u00e3o d\u00e1 para evitar de ouvir, d\u00e1? O papai t\u00e1 bem bravo, e a mam\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 nem um pouco feliz. Por que um Urso Polar criaria um la\u00e7o com ela? Ela nem parece ser grande coisa\u2026<br \/>\u2003\u2003Skad uniu as sobrancelhas, considerando as palavras de Lumia.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Parece com uma estrela \u2014 murmurou em um tom de voz baixo, mais para si mesmo do que para Lumia ouvir, sentindo um certo inc\u00f4modo come\u00e7ar a espalhar-se por seu peito. Se era bom ou ruim, n\u00e3o saberia dizer ao certo, mas assemelhava-se muito com uma coceira: come\u00e7ara pequeno, quase impercept\u00edvel, mas estava crescendo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Acha que o Urso se conectou com ela apenas para com\u00ea-la? \u2014 Lumia interrompeu os pensamentos de Skad com uma voz um pouco mais animada do que deveria, Skad piscou e ent\u00e3o encarou a irm\u00e3 como se ela fosse uma criatura fora de sua compreens\u00e3o, e, de certa forma, talvez ela realmente o fosse. Lumia retornou o olhar, julgando Skad silenciosamente. \u2014 N\u00e3o me encara assim \u2014 retorquiu, defensiva de novo, e Skad franziu o cenho, seu olhar tornando-se menos acusat\u00f3rio e mais irritado. \u2014 Assim tamb\u00e9m n\u00e3o! \u2014 Lumia empurrou o rosto de Skad para longe, antes de voltar sua aten\u00e7\u00e3o para Kallias. Skad ignorou o impulso de responder a Lumia, voltando sua aten\u00e7\u00e3o para o pai, analisando-o com cautela.<br \/>\u2003\u2003Era dif\u00edcil ler Kallias quando ele estava naquele estado de esp\u00edrito. Movia-se como um predador caminhando sem deixar marcas sobre a neve, os olhos azuis g\u00e9lidos, como os de Skad permaneceram fixos no rosto da prisioneira, analisando-a com cuidado, enquanto questionava-lhe coisas chaves: de onde era? Como conseguiu atravessar a fronteira? Quem eram seus pais? A quanto tempo estava ali? Como ela havia criado um la\u00e7o com um dos Ursos? Que tipo de magia possu\u00eda? O que queria com sua Corte? Mas para sua completa estupefa\u00e7\u00e3o, a pequena estrela nada respondia; Skad percebeu, tardiamente, que n\u00e3o era por petul\u00e2ncia que seu sil\u00eancio se estendia, era por <em>inabilidade<\/em>. Passara tanto tempo vagando sozinha pelas florestas congeladas, ao lado apenas do Urso Polar, que deveria ter se esquecido como agir entre fe\u00e9ricos outra vez. Skad observou-a gaguejar e engasgar-se com suas palavras, encolhendo-se e tentando se afastar de Kallias, caminhando cegamente em dire\u00e7\u00e3o a uma parede at\u00e9 que estivesse encurralada; presa pela f\u00faria g\u00e9lida de seu pai.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ela n\u00e3o fala \u2014 pontuou Lumia com uma <em>excelente<\/em> capacidade de observa\u00e7\u00e3o para o \u00f3bvio. Ent\u00e3o com um sorriso divertido, os olhos de Lumia cintilavam como os de um gato, voltando-se para Skad. \u2014 Acha que o Urso comeu a l\u00edngua dela? Eles meio que gostam de m\u00fasculos, ouvi Wren dizer que nas patrulhas que o pai dela faz pelas fronteiras, eles sempre acham os ossos e peles para tr\u00e1s, mas nunca os m\u00fasculos!<br \/>\u2003\u2003\u2014 E como \u00e9 que <em>eu<\/em> vou saber, Lumia? \u2014 grunhiu Skad irritado com as perguntas redundantes de Lumia e o interesse crescente no Urso Polar que a garota havia formado o la\u00e7o. Skad pensou em acrescentar que se ela continuasse falando sobre o Urso, Skad lhe daria como alimento para a criatura, mas n\u00e3o conseguiu proferir as palavras a tempo quando a criatura atravessou a porta com passos pesados, parecendo perturbada.<br \/>\u2003\u2003Skad trincou os dentes colocando-se de p\u00e9 no mesmo segundo. Tateou cegamente por sua espada, e percebeu tardiamente que a havia deixado com Ivar na sala de treinamento, ent\u00e3o fez o que lhe passou na cabe\u00e7a, agarrou o candelabro de prata e gelo maci\u00e7o, enfeiti\u00e7ado, com as velas tremeluzentes, e ent\u00e3o lan\u00e7ou-se em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o, para a surpresa da prisioneira, e a irrita\u00e7\u00e3o de seu pai que <em>j\u00e1<\/em> deveria ter percebido sua presen\u00e7a clandestina ali. Skad tensionou a mand\u00edbula com for\u00e7a, ignorando o olhar severo que recebeu de Kallias, mantendo o olhar fixo na forma humanoide do Urso Polar.<br \/>\u2003\u2003Era muito mais alto do que ele; quase dois metros de altura, projetava sombras mesmo em Kallias, como uma muralha pesada de m\u00fasculos e pelagem esbranqui\u00e7ada. Os bra\u00e7os grossos pareciam ter o tamanho da cabe\u00e7a de Skad, talvez maiores, cravados com cicatrizes e marcas, a tinta parecida com a que a garota tinha em seus bra\u00e7os, mas a diferen\u00e7a era que, no Urso humanoide, as marcas cintilavam como se estivessem vivas, permeadas por energia misturadas com gelo. Enquanto a garota parecia uma estrela humanoide, o urso parecia uma criatura sa\u00edda das profundezas de um pesadelo. Olhos completamente obscurecidos de um preto pungente, caninos afiados e maiores que os de um fe\u00e9rico, e orelhas sens\u00edveis, que pareciam mover-se a cada m\u00edsero ru\u00eddo.<br \/>\u2003\u2003Skad ignorou o tremor que percorreu por seu corpo, quebrando o candelabro com um ru\u00eddo alto met\u00e1lico, deixando as velas e seus apoios desabarem no ch\u00e3o de m\u00e1rmore branco com um tilintar alto, antes de voltar a ponta afiada da arma improvisada para o pesco\u00e7o da criatura. Devido ao tamanho do humanoide, tudo o que Skad conseguiu fazer, foi apoiar a ponta contra a costela do monstro. Apertou com mais for\u00e7a o candelabro, sentindo o metal e o gelo queimar de leve as palmas de suas m\u00e3os, a press\u00e3o amea\u00e7ando lhe cortar a pele, enquanto os n\u00f3s de seus dedos tornavam-se esbranqui\u00e7ados. Engoliu em seco, obrigando-se a concentrar-se em sua respira\u00e7\u00e3o, como Ivar havia lhe ensinado: olhos no inimigo, controle sua respira\u00e7\u00e3o, <em>velocidade<\/em> e <em>precis\u00e3o<\/em> eram a chave contra qualquer inimigo.<br \/>\u2003\u2003A criatura sequer pareceu oferecer-lhe reconhecimento.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Recomendo que escolha bem suas pr\u00f3ximas a\u00e7\u00f5es, <em>Gr\u00e3o-Senhor<\/em>, passar pelos seus n\u00e3o foi assim t\u00e3o dif\u00edcil \u2014 a criatura rosnou entre os dentes cerrados, caninos afiados projetando-se, maiores do que o normal ao dar um passo na dire\u00e7\u00e3o de Kallias. Skad prendeu a respira\u00e7\u00e3o, sentindo o tremor envolver seu corpo, mesmo que pudesse sentir <em>medo<\/em> da criatura, obrigou-se a apontar a ponta afiada do candelabro contra o pesco\u00e7o do Urso Polar mais uma vez, tentando ao menos alcan\u00e7ar o pesco\u00e7o da criatura. <em>Desta vez<\/em> o Urso Polar em forma humanoide pareceu perceb\u00ea-lo ali, e Skad acreditou que ter sua aten\u00e7\u00e3o, ainda que breve, era <em>pior<\/em> do que n\u00e3o ser percebido.<br \/>\u2003\u2003Kallias ponderou as palavras do Urso Polar por um breve momento, os olhos fr\u00edgidos voltando-se para a garota encolhida contra a parede, antes de voltar para a criatura outra vez.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Diga-me, ent\u00e3o, <em>por que<\/em> ela? \u2014 Embora polida e educada, a voz de Kallias ocultou uma severidade contrastante com o tom. Um comando silencioso, que n\u00e3o deixava aberto margens para negocia\u00e7\u00f5es, implac\u00e1vel, como o frio invernal.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Diga ao seu filhote que abaixe o candelabro e direi \u2014 a criatura negociou, e Kallias assentiu, voltando seu olhar para Skad com uma ordem silenciosa. Skad hesitou, n\u00e3o por desconfian\u00e7a, mas por incerteza. Sabia que o pai era poderoso, e que n\u00e3o haviam inimigos o suficiente que poderiam enfrentar a f\u00faria de Kallias, mas eles nunca haviam enfrentado diretamente um <em>Urso Polar<\/em>. As hordas de Ursos costumavam a vagar, solit\u00e1rios ou com seus filhotes pelas fronteiras, e as muralhas para al\u00e9m de seus territ\u00f3rios, eles eram como os sentinelas da Corte Invernal, seus guardas silenciosos e nunca vistos por membros do vilarejo, mas agora, de frente para um deles, era <em>assustador<\/em> o <em>poder<\/em> que parecia emanar de sua forma humanoide. Skad considerou <em>como<\/em> seria t\u00ea-lo.<br \/>\u2003\u2003Abaixou, devagar, o candelabro, e foi somente quando deu uns passos para tr\u00e1s que Skad percebeu que a garota o encarava. Um par de olhos estelares fixos em seu rosto com o que parecia ser uma mistura de medo e curiosidade; Skad apertou os l\u00e1bios, incomodado. N\u00e3o havia gostado do jeito que ela havia o encarado, como se, de alguma forma, estivesse vendo algo que ele n\u00e3o queria que ela visse. Mas ainda assim, sem mesmo entender o porqu\u00ea, n\u00e3o conseguiu desviar o olhar. Era como se ela tivesse o feito ref\u00e9m, o prendido no lugar. Um transe insuport\u00e1vel, uma luz ap\u00f3s um dia nublado.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\u2022\u2022\u2022 <\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u2014 Ningu\u00e9m sabe \u2014 Skad murmurou com um tom de voz divertido, empurrando para fora de seu caminho um galho cheio de espinhos e folhagem coberta por neve, mantendo-o afastado at\u00e9 que ela tivesse passado a sua frente. Tentou sufocar um riso com os olhos arregalados que %Cerci% mantinha em seu semblante, agarrar-se a todas as suas palavras. Era doce, de certa forma, como sua curiosidade \u00e0s vezes a tornava inocente para confiar no que quer que lhe era dito. O fazia sentir-se estranhamente importante, como se tudo o que falasse realmente tivesse um peso real para %Cerci%, quando para ningu\u00e9m mais n\u00e3o possu\u00eda, mas ela igualmente n\u00e3o era idiota, e havia aprendido a ver quando ele estava tentando mentir apenas para aproveitar-se de sua inoc\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aquela Corte.<br \/>\u2003\u2003Lumia a havia ensinado a identificar as mentiras, contando-lhe as coisas mais absurdas, e o cinismo proveniente de uma vida inteira havia se tornado um am\u00e1lgama de incredulidade e curiosidade estranhamente convidativo. O perfume de flores silvestres e at\u00e9 mesmo <em>canela<\/em> parecia acompanh\u00e1-la quando ela passou por Skad, um aroma que aqueceu seu corpo, e o fez controlar-se para n\u00e3o se inclinar na dire\u00e7\u00e3o dela, tentando sentir um pouco mais de seu perfume. Skad piscou algumas vezes, tentando clarear seus pr\u00f3prios pensamentos, antes de seguir atr\u00e1s dela, pelo caminho estreito e irregular da floresta congelada.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Tudo o que a gente sabe \u2014 Skad voltou a dizer, sem conter um sorriso torto, at\u00e9 mesmo charmoso, estendendo os bra\u00e7os em paralelo de seu corpo ao saltar por entre as pedras grossas do declive, para a parte mais baixa e ent\u00e3o se voltar para tr\u00e1s, na dire\u00e7\u00e3o dela, estendendo os dois bra\u00e7os em sua dire\u00e7\u00e3o para ajud\u00e1-la caso necess\u00e1rio; %Cerci% n\u00e3o aceitaria, era teimosa, mesmo que quebrasse algum osso, recusaria a ajuda \u2014 \u00e9 que s\u00e3o criaturas que est\u00e3o em um limbo, nem mortas, nem vivas, algum tipo de feiti\u00e7o antigo\u2026<br \/>\u2003\u2003Skad se interrompeu abruptamente, dando um passo para frente quando ela escorregou. Segurou-a pela cintura, antes que ela acabasse estatelada no ch\u00e3o coberto por cascalhos e pedras irregulares afiadas. %Cerci% praguejou entre dentes, os dedos cortados de onde havia se agarrado as pedras, antes de Skad ajud\u00e1-la a firmar-se em seus p\u00e9s. Assim, t\u00e3o perto de si, Skad sentiu sua garganta ficar seca, \u00e1spera; sua respira\u00e7\u00e3o se perdeu em algum lugar de sua traqueia e seus dedos, instintivos, fincaram-se um pouco mais contra a pele macia, coberta pelo tecido grosso do corset de couro que revestia o tronco dela, por prote\u00e7\u00e3o. As pontas enroscaram-se contra os n\u00f3s que envolviam a lateral da pe\u00e7a de roupa, sentindo por baixo do tecido resistente, a t\u00fanica mais fina, azul escura, que ela sempre usava. O material parecia queimar em suas m\u00e3os, o impulso de desfazer os n\u00f3s mais alto do que a coer\u00eancia. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, Skad apenas conseguiu encar\u00e1-la, as palavras fugiram de sua mente, seu olhar se perdeu nas \u00edris com tons oscilantes que pareciam brilhar, n\u00e3o prateados, mas feitos de <em>luz<\/em>, como poeira estelar dos olhos dela, no calor que seu corpo parecia exalar \u2014 em compara\u00e7\u00e3o aos de sua esp\u00e9cie, %Cerci% %LaFay% sempre havia sido mais quente. Skad pigarreou, limpando sua garganta, e ent\u00e3o, afastou um pequeno punhado de neve que se acumulou na lateral da orelha dela, tentando sufocar um riso baixo quando o movimento reflexivo dela se p\u00f4s em a\u00e7\u00e3o, fazendo a ponta de sua orelha mover-se um pouco.<br \/>\u2003\u2003Deu um passo para tr\u00e1s, obrigando-se a solt\u00e1-la.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Est\u00e1 mentindo, posso ver que est\u00e1 se segurando para n\u00e3o rir. \u2014 %Cerci% apontou o indicador na dire\u00e7\u00e3o do rosto de Skad, que n\u00e3o conseguiu conter um sorriso torto. Em outra ocasi\u00e3o, ele teria mordido o dedo acusador apenas pela petul\u00e2ncia, mas agora, subitamente consciente de que estava sozinho com ela, no meio da floresta, sem olhares sobre si, Skad temeu o fazer e acabar implodindo. \u2014 Provavelmente mentiu esse tempo todo <em>apenas<\/em> para conseguir rir de mim.<br \/>\u2003\u2003Skad negou com a cabe\u00e7a efusivamente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea convive demais com Boreas para o seu pr\u00f3prio bem, j\u00e1 est\u00e1 falando igual a ele, toda c\u00ednica e desacreditada, se n\u00e3o a conhecesse, diria que j\u00e1 tem 200 anos \u2014 Skad provocou com um sorriso divertido, voltando a caminhar, desta vez, atr\u00e1s dela, observando a maneira com que os p\u00e9s dela eram descuidados com as pedras e os v\u00e3os, mas que, de alguma forma, conseguiam encontrar exatamente onde as ra\u00edzes das \u00e1rvores se projetavam para cima. Era curioso, de certa forma, a familiaridade que ela tinha com o selvagem, quando tantos deles, especialmente na Corte de seu pai, parecia ter um apre\u00e7o demasiado com civilidade. De alguma forma, o fez concluir que talvez ela tivesse nascido para o <em>selvagem<\/em>.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Talvez eu tenha, como <em>voc\u00ea<\/em> poderia saber? \u2014 retrucou e Skad riu baixinho, abaixando-se por um momento para pegar um amontoado de neve, ent\u00e3o, o mais silencioso que conseguia, caminhou para perto de %Cerci% e enfiou o amontoado de neve bem em suas costas. %Cerci% soltou um gritinho esgani\u00e7ado, saltando no lugar com os olhos arregalados, debatendo-se para se livrar da neve dentro de suas roupas, antes de voltar o olhar furioso na dire\u00e7\u00e3o de Skad. \u2014 N\u00e3o teve gra\u00e7a, idiota! \u2014 Skad n\u00e3o conseguiu conter o riso pela maneira com que ela havia soado, como uma garotinha frustrada.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Viu? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o velha, grita pior do que uma garotinha \u2014 Skad pontuou e %Cerci% abriu a boca para respond\u00ea-lo, mas ent\u00e3o a fechou. Estreitou os olhos, sem dizer nada, mas ainda assim o seguiu pelo pr\u00f3ximo declive, saltando de pedra em pedra, at\u00e9 que ambos estivessem agora de frente para uma trilha de barro misturada com neve, com laterais altas como um rio que a muito havia secado. \u2014 E teve sim. \u2014 Skad desviou, elegante como um fauno, de uma bola de neve que %Cerci% lhe arremessou, antes de girar em seus calcanhares, observando-a de frente ao andar de costas. \u2014 Fui sincero, sabe? N\u00e3o estou mentindo. Embora seja uma lenda, as criaturas realmente existem. As vi, uma vez, quando era pequeno, eram aterrorizantes.<br \/>\u2003\u2003%Cerci% lan\u00e7ou um olhar na dire\u00e7\u00e3o de Skad, antes de voltar sua aten\u00e7\u00e3o para o ch\u00e3o, chutando um cascalho para fora do caminho. As botas de ambos chapinhando pelo solo macio envolto de lama e neve. O vento soprou, uma brisa suave envolvendo os dois, fazendo suas m\u00e3os ficarem frias e seus narizes arderem.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sei, sei, e eu sou uma Gr\u00e3-Senhora \u2014 ela resmungou sarc\u00e1stica. Skad revirou os olhos, dando de ombros, antes de girar em seus calcanhares outra vez, virando para a direita.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea diz \u2014 ele retrucou, e ent\u00e3o suspirou pesado, deixando sua cabe\u00e7a pender para tr\u00e1s.<br \/>\u2003\u2003Observou os flocos de neve que pairavam pelo ar como pequenos vagalumes. Grudavam em superf\u00edcies, derretiam sob o toque de suas peles, ele projetou sua l\u00edngua para fora, sentindo o floco derreter em sua l\u00edngua, o gosto a\u00e7ucarado distante lembrando-o vagamente de quando era pequeno e corria pelas trilhas da floresta, para o terror de sua m\u00e3e.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Baba Yaga diz que antigamente havia <em>outros<\/em> nessas terras, um pouco como n\u00f3s, mas\u2026 diferentes, selvagens talvez \u2014 Skad explicou, enfiando as duas m\u00e3os nos bolsos e ent\u00e3o parando de andar para esperar %Cerci% alcan\u00e7\u00e1-lo. Estava corada, frustrada, e visivelmente desconfort\u00e1vel com a neve que deveria ter derretido abaixo de suas roupas; parecia dolorosamente ador\u00e1vel, e pela primeira vez, desde que a conhecera, Skad sentiu aquele estranho impulso de simplesmente <em>beij\u00e1-la<\/em>. Desviou o olhar, por instinto, para o pesco\u00e7o dela, observando a pequena corrente que repousava sobre seu colo. \u2014 Os <em>Ursos<\/em> se lembram deles, ouvi dizer, os reconheciam como parte de si, n\u00e3o mestres, n\u00e3o senhores, e tampouco servos, mas irm\u00e3os. \u2014 Skad uniu as sobrancelhas, voltando a andar, desta vez ao lado de %Cerci%, os dois viraram para a esquerda, saltando por um declive, e ent\u00e3o, caminhando com cuidado sobre um tronco de \u00e1rvore morto ca\u00eddo pelo ch\u00e3o, ao qual cogumelos incandescentes de um azul claro que brilhava mesmo na sombra, se projetava para cima, o p\u00f3 suave que soltavam, a cada esbarrar de suas botas, fazia com que o cheiro distante de carne assada, subisse para suas narinas. \u2014 O l\u00edder deles atravessava os mundos, como se fosse s\u00f3 uma viagem daqui para ali, recolhia estrelas como se fossem flores, usava uma m\u00e1scara branca para esconder o rosto, uma coroa que parecia com uma galhada de cervo.<br \/>\u2003\u2003%Cerci% bufou, com um pequeno sorriso surgindo por seus l\u00e1bios.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Soa como um perfeito pesadelo. \u2014 Skad lan\u00e7ou um olhar na dire\u00e7\u00e3o dela, mas n\u00e3o discordou.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Acho que foram \u2014 ele confirmou contemplativo, <em>ainda<\/em> sem encarar o rosto dela, os olhos repousados em seu colo, para onde a corrente delicada desaparecia em seu decote. Havia visto uma \u00fanica vez o final daquela corrente, enroscada por entre pequenas argolas de metal e teria de aranha mantendo-a resistente no lugar, havia a ponta de uma flecha. Era retorcida, o material desgastado com o tempo e at\u00e9 mesmo enferrujado, algo escuro parecia permanentemente preso no objeto, o que o fez contemplar <em>quantos<\/em> anos aqui poderia ter tido. Mas ent\u00e3o, seus olhos, traidores como sempre, desviaram-se do objeto para a pele macia abaixo que repousavam ali.<br \/>\u2003\u2003Skad obrigou-se a desviar os olhos imediatamente, mordendo o interior de suas bochechas, lutando contra o rubor que surgiu ali.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Cru\u00e9is, selvagens, n\u00e3o podiam mentir, ferro queimava a pele, mas possu\u00edam poderes absurdos. Deuses antigos, implac\u00e1veis, disse Baba Yaga, o l\u00edder deles possu\u00eda essa <em>horda<\/em> de soldados pessoais. Baba Yaga disse para mim uma vez, que eram um n\u00famero pequeno, apenas 12 deles realmente contava, mas foram milhares um dia. T\u00e3o grandes como as estrelas nos c\u00e9us. N\u00e3o sei o que aconteceu, assume-se, ao menos pelos livros, que eles foram exterminados, que nossos ancestrais os viram pelo mal que eram, expulsaram das terras e os dizimaram por completo.<br \/>\u2003\u2003%Cerci% bufou baixinho, lan\u00e7ando um breve olhar na dire\u00e7\u00e3o de Skad, antes de unir as sobrancelhas.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Suponha-se que eu acredite\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou a dizer hesitantemente, e Skad tentou n\u00e3o sorrir com a pequena esperan\u00e7a que pairou na voz dela. Ele poderia dizer a ela que conseguia trazer a lua e as estrelas para que ela usasse como j\u00f3ias e talvez, ela acreditasse nisso; o problema era que Skad percebia-se, mais e mais, inclinado a <em>realmente<\/em> tentar o fazer. Inclinado a vagar por anos em busca de uma \u00fanica estrela se isso a fizesse sorrir. O qu\u00e3o idiota estava tornando-se? E porque ele n\u00e3o conseguia impedir-se? \u2014 A terra n\u00e3o era deles, antes? Quer dizer\u2026 se visse as pessoas que amo sendo mortas por estrangeiros, eu tamb\u00e9m ficaria furiosa\u2026 \u2014 ela come\u00e7ou a dizer, contemplativa.<br \/>\u2003\u2003Skad uniu as sobrancelhas, lhe lan\u00e7ando um olhar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Mesmo se n\u00e3o fossem boas criaturas? Mesmo que fossem monstros que precisavam ser detidos?<br \/>\u2003\u2003%Cerci% suspirou pesado, sem encarar Skad. Saltou uma raiz com facilidade, antes de estender os bra\u00e7os em paralelo e atravessar um pequeno c\u00f3rrego transportando lascas de gelo em dire\u00e7\u00e3o do des\u00e1gue em um lago congelado um pouco mais ao sudoeste de onde estavam.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o pode culpar um animal ferido por morder sua m\u00e3o depois de voc\u00ea o machucar \u2014 ela murmurou, e Skad bufou, apertando os l\u00e1bios. Sabia que ela estava certa, mas n\u00e3o era muito f\u00e3 quando ela tornava-se aquela criatura silenciosa e contemplativa; parecia que ela se perdia em si mesma, que seguia por um caminho que Skad n\u00e3o podia acompanhar, um caminho que visivelmente a machucava.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Fala como se tivesse experi\u00eancia.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Se, como voc\u00ea diz, essas criaturas s\u00e3o realmente reais, o que duvido muito, o que significa? Eles s\u00e3o\u2026 \u2014 ela desconversou. Skad estreitou os olhos, observando-a em sil\u00eancio por um momento. O inc\u00f4modo pareceu espalhar-se por seu peito como veneno, ardendo em suas veias, mesmo que ele n\u00e3o soubesse dizer ao certo porque o fazia. N\u00e3o era a relut\u00e2ncia dela de contar-lhe o que quer que se passava em sua mente, era a <em>culpa<\/em> na voz que o perturbava. O que ela poderia estar escondendo? \u2014 N\u00e3o sei, soa como se fossem mortos-vivos. Mas <em>isso<\/em> \u00e9 imposs\u00edvel.<br \/>\u2003\u2003Skad bufou, uma lufada de ar branco escapando por entre seus l\u00e1bios, ao manter seus olhos fixos no tronco da \u00e1rvore, seco e morto, que lhes servia como ponte de um lado para o outro. Pequenos estalidos da madeira ecoaram por seus ouvidos enquanto o rapaz atravessou, um p\u00e9 \u00e0 frente do outro, com a eleg\u00e2ncia de um fauno. Os olhos azuis g\u00e9lidos como lagos congelados, fixando-se brevemente no caminho de cascalhos, lama e neve que se abria em dire\u00e7\u00e3o a trilha que levava ao p\u00e9 da montanha. \u00c1rvores come\u00e7avam a desaparecer agora, revelando mais campinas descampadas, pedras maiores afundadas na terra, e neve se estendia empalidecida sobre as plan\u00edcies l\u00edmpidas como um manto profuso. Guiavam-nas em dire\u00e7\u00e3o a uma pequena cabana, feita de madeira maci\u00e7a, cordas enegrecidas pelo tempo e desgaste, lama, musgo e pinhos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Baba Yaga disse que eles eram criaturas amaldi\u00e7oadas, que essa terra, viva como \u00e9, os amaldi\u00e7oou rejeitando-os. Disse que era por isso que, mesmo com cora\u00e7\u00f5es parados permanentemente, ainda vagam por a\u00ed, atra\u00eddos pelo cheiro do sangue dos <em>seus<\/em>, esfomeados por carne \u2014 Skad murmurou, saltando com gra\u00e7a do tronco, e ent\u00e3o parando ao lado de %Cerci%.<br \/>\u2003\u2003A jovem parecia estar um pouco mais alerta do que deveria, e Skad sentiu-se culpado por deix\u00e1-la em tal estado. Gostava sim de assust\u00e1-la, de provoc\u00e1-la e faz\u00ea-la ficar com aquela express\u00e3o ador\u00e1vel que tinha quando estava irritada, mas n\u00e3o queria, de certa forma, a faz\u00ea-la temer aquele lugar. N\u00e3o queria que ela temesse <em>sua<\/em> casa. Umedecer os l\u00e1bios ressecados pelo vento invernal com a l\u00edngua, antes de empurrar o ombro dela com o seu, oferecendo um sorriso tranquilizador.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eles n\u00e3o s\u00e3o um problema, a maioria deles, os <em>Draugrs<\/em>, acabavam virando comida de <em>Urso Polar<\/em>, os poucos que escapam deles e conseguem se arrastar um pouco mais pela floresta, costumam morrer congelados pelos rios. Sei que h\u00e1 alguns que <em>ainda<\/em> vagam <em>Sob a Montanha<\/em>, provavelmente presos dentro de p\u00e2ntanos ou coisa do tipo. N\u00e3o fui l\u00e1 para verificar, meu pai diz que se ainda vagam por l\u00e1, provavelmente \u00e9 sob a \u00e1gua, o que significa que est\u00e3o dormentes.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Se est\u00e3o dormentes \u2014 %Cerci% murmurou, e Skad quase sorriu da express\u00e3o incomodada dela \u2014 significa que podem acordar.<br \/>\u2003\u2003Skad riu baixo, o som suave como o tilintar das folhas congeladas sob o toque do vento.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 apenas uma hist\u00f3ria boba, %Cici%, uma forma de explicar por que <em>Draugrs<\/em> existem. Se for perguntar para Ivar, ele vai dizer que s\u00e3o s\u00f3 idiotas que tentaram invadir nosso territ\u00f3rio e que o gelo os amaldi\u00e7oou para viverem o fracasso por toda a eternidade \u2014 Skad tentou tranquiliz\u00e1-la, mas o cenho franzido de %Cerci% n\u00e3o sumiu. Ele apertou os l\u00e1bios em uma linha, sentindo o impulso de passar o polegar no cenho franzido, at\u00e9 que este tivesse desaparecido. Ele exalou baixo, para si mesmo, contendo-se.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 por isso que vem aqui? Para ouvir hist\u00f3rias? \u2014 %Cerci% murmurou por fim, acompanhando-o pela trilha \u00edngreme agora de pedras e neve que se formavam ao p\u00e9 da montanha.<br \/>\u2003\u2003Skad considerou as palavras dela, estendendo sua m\u00e3o para ajud\u00e1-la a subir a primeira pedra. Seus dedos enroscaram-se contra a pele macia do antebra\u00e7o dela, sentindo os in\u00fameros relevos de cicatrizes que ela possu\u00eda espalhados pelo corpo. Skad j\u00e1 as havia visto, apenas as dos bra\u00e7os, mas ainda assim, n\u00e3o era uma vis\u00e3o confort\u00e1vel, e ele sempre havia se co\u00e7ado para question\u00e1-la <em>como<\/em> havia \u00e0s adquirido, mas %Cerci% nunca havia lhe dado uma oportunidade.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Baba Yaga \u00e9 uma bruxa, uma sacerdotisa se quiser chamar assim, \u00e9 uma <em>Vidente<\/em> \u2014 Skad explicou, voltando a caminhar. Apoiou as duas m\u00e3os contra uma pedra e ent\u00e3o puxou-se para cima com um grunhido baixo, antes de sentar na superf\u00edcie lisa e g\u00e9lida da pedra, voltando a encarar %Cerci% um pouco abaixo de si. \u2014 Faz parte da tradi\u00e7\u00e3o. Antes de qualquer anivers\u00e1rio, alguns de n\u00f3s gostam de vir aqui para question\u00e1-la sobre algo. Temos <em>um desejo<\/em>, independentemente do que seja, \u00e0s vezes, ela o realiza. H\u00e1 sempre um pre\u00e7o para se pagar, mas n\u00e3o d\u00e1 para dizer que importa muito, quando a recompensa \u00e9 bem melhor.<br \/>\u2003\u2003%Cerci% apoiou os bra\u00e7os sobre a pedra ao lado de Skad, tentando al\u00e7ar-se para cima, mas a falta de uma m\u00e3o, a fez escorregar, caindo com um estrondo suave contra o ch\u00e3o. Skad abriu um sorriso largo, imaginou qual seria a rea\u00e7\u00e3o dela, quando no pr\u00f3ximo Solst\u00edcio de Inverno, daqui a uma semana, ela descobrisse que ele havia conseguido uma pr\u00f3tese para auxili\u00e1-la com o membro faltante. Era um segredo que vinha mantendo de todos, mesmo Lumia, mas podia imaginar que ao menos valeria a pena a surpresa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 T\u00e1 bem a\u00ed? \u2014 Skad sorriu.<br \/>\u2003\u2003%Cerci% lhe lan\u00e7ou um olhar, colocando-se de p\u00e9, limpando a parte traseira de suas cal\u00e7as.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Nem uma palavra \u2014 ela amea\u00e7ou, antes de estender a m\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de Skad com uma express\u00e3o de poucos amigos, um pedido silencioso pairando por seu semblante defensivo. \u2014 Por que ent\u00e3o me trouxe aqui?<br \/>\u2003\u2003Skad, desta vez, n\u00e3o respondeu. N\u00e3o queria que ela soubesse que, mais e mais ele come\u00e7ava a acreditar que ela era o segredo de sua sorte.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\u2022\u2022\u2022<\/strong><\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>BABA YAGA \u2022 CORTE INVERNAL<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003As chamas que crepitavam entre as lenhas levemente umedecidas pela tempestade que agora assolava as montanhas, ecoaram abaixo da estrutura de grade de ferro que suportava o bule feito de metal, de forma suave. Labaredas revoltas, protegidas do vento frio que soprava do lado de fora com veementes uivos, tocavam o metal, manchando-o, obscurecendo-o a cada crepitar um pouco mais ousado. O chiado da press\u00e3o interna que o bule come\u00e7ava a acumular, ecoou pela cabana, mas nada fez a criatura. Permaneceu sentada, onde estava, os dedos longos e tortos, com unhas afiadas e amareladas, revelavam a transi\u00e7\u00e3o perturbadora de suas pontas completamente obscurecidas pela decomposi\u00e7\u00e3o para o amarelado do envelhecimento. Os olhos, queimados, para serem mantidos fechados, oscilavam com o movimento inquieto por baixo das p\u00e1lpebras, embora seu rosto permanecesse neutro, desprovido de emo\u00e7\u00f5es. O aroma carregado de ervas e sangue que encontrava nas paredes da cabana, agora era carregado por uma nota de inverno, e algo mais. Flores e frutas <em>silvestres<\/em>, terra molhada e algo selvagem.<br \/>\u2003\u2003Passos suaves, abafados e cuidadosos ecoaram pela cabana silenciosa, acompanhando o rangido suave da cadeira de balan\u00e7o feita de madeira esculpida. De onde tocavam, um pequeno amontoado de flores e relva se projetavam, antes de apodrecerem no passo seguinte, deixando marcas por onde arrastava-se. Os chifres, retorcidos, como a galhada de um cervo, enroscaram-se contra as contas presas em forma de cortina entre os c\u00f4modos, tilintando com o movimento inesperado, arranhando a madeira das paredes, quebrando-as e fazendo-as desabar ao ch\u00e3o como uma chuva aud\u00edvel. As flechas presas na aljava em suas costas tilintavam suavemente quando uma foi puxada, e enroscada no arco feito de cedro e um metal escuro, preto, como a pr\u00f3pria noite. Olhos intensos, cintilando com o mesmo brilho que as estrelas, desviaram-se do ch\u00e3o para focar na criatura sentada pacificamente na cadeira de balan\u00e7o, tran\u00e7ando as teias de aranha com p\u00e9talas de beg\u00f4nias.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Chegou cedo, irm\u00e3o, est\u00e1 de certo ansioso, huh? \u2014 A risada rouca, baixa da criatura ecoou pelo espa\u00e7o como unhas raspando em uma pedra. Ru\u00eddo perturbador, afiado, evidenciava a falta de uso da boca apodrecida, escura como a noite, e dos dentes afiados como agulhas pequenas. In\u00fameros deles surgiram quando a criatura abriu um sorriso largo, satisfeito, sem virar seu rosto na dire\u00e7\u00e3o do invasor. \u2014 Ou distorceu a verdade para que seu senhor n\u00e3o percebesse que est\u00e1 aqui? Servo safadinho, safadinho. \u2014 A risada rouca pulsou como eletricidade pelo espa\u00e7o, afiado, perigoso.<br \/>\u2003\u2003O invasor n\u00e3o respondeu, apenas empunhou a flecha com mais precis\u00e3o. Puxou a corda para tr\u00e1s, as penas na ponta da flecha, misturadas com os amuletos ancestrais da magia que pulsava, viva e indomada por baixo daquelas terras, arranhando a lateral de sua bochecha, deixando pequenas marcas sob a pele coberta por sardas brilhantes, feitas por luz. Cintilavam contra a pele como um mar de estrelas min\u00fasculas, oscilando conforme a magia percorria seu corpo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que quer hoje? Uma profecia? Uma mentira? Diga-me, <em>Lyall<\/em>, se v\u00e3 esperan\u00e7a ainda persiste, a coroa dos tolos pesa sobre sua cabe\u00e7a? \u2014 A criatura soltou um riso nasalado, cheio de dentes, trai\u00e7oeira. Os cabelos esbranqui\u00e7ados, quebradi\u00e7os e longos, farfalhar como palha velha, e debaixo do manto esbranqui\u00e7ado, v\u00edboras, agitaram-se, deslizando por sua nuca, entrela\u00e7ando-se por seus bra\u00e7os. \u2014 Tsc, tsc, apontando sua flecha contra mim a que espera resultado? \u2014 A criatura enrolou os fios em seus dedos putrefatos vagarosamente, a carne desprovida de sangue, parecendo amassar como papel onde a press\u00e3o do fio fazia-se. \u2014 N\u00e3o tenho alma, <em>ca\u00e7ador<\/em>, para que a tome, n\u00e3o tenho consci\u00eancia para que a prenda. Se busca uma barganha, at\u00e9 posso oferecer-lhe, <em>sabe<\/em> o meu pre\u00e7o.<br \/>\u2003\u2003Mais uma vez, n\u00e3o houve resposta do invasor. Os olhos estelares fixaram-se, firmes, no semblante da criatura, im\u00f3vel. Por tr\u00e1s do osso que o cr\u00e2nio preso em sua face, os olhos queimaram com intensidade. Moveu o bra\u00e7o para a direita, abruptamente, soltando a flecha no segundo que a cobra lan\u00e7ou-se em sua dire\u00e7\u00e3o; presas afiadas escorrendo veneno, desabou, contorcendo-se contra o ch\u00e3o. N\u00e3o morreu, n\u00e3o sangrou, se algo que fizera, foi desfazer-se em um limbo entre cinzas e vermes, debatendo-se sem parar. Agonizando permanentemente. Nem viva, nem morta.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Servo espertinho. \u2014 Riu a criatura outra vez, cortando o fio entrela\u00e7ado de teias com suas unhas afiadas. Inclinou-se para frente, agora com o rosto retorcido e brutalizado voltada para o invasor. \u2014 A flecha n\u00e3o muda o curso do rio, mas tem minha aten\u00e7\u00e3o por tentar. Diga logo, trouxe o que pe\u00e7o?<br \/>\u2003\u2003Houve um sil\u00eancio sepulcral que se estendeu sobre o ombro das duas criaturas, ao encararem-se. Estendeu-se como garras afiadas, espiralando por cada cent\u00edmetro de madeira que envolvia a cabana. Acompanhado do vento, as chamas se apagaram, o \u00fanico ru\u00eddo presente, o do bule. O invasor lan\u00e7ou um olhar breve na dire\u00e7\u00e3o de onde o objeto de metal estava, os peda\u00e7os de ossos, e \u00f3rg\u00e3os espalhados em amarra\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, e com marcas talhadas. Escritos antigos, magia profunda, relatavam uma porta. Tencionando a mand\u00edbula com um estalo, r\u00edgido como uma est\u00e1tua, al\u00e7ou da lateral do cinto, o \u00f3rg\u00e3o ainda <em>pulsante<\/em>, espasm\u00f3dico entre suas garras, sangue escorria, deslizando por seu antebra\u00e7o estendido, pingando, ritmadamente contra a madeira abaixo de seus p\u00e9s, lhe inundando a m\u00e3o. Estendeu na dire\u00e7\u00e3o da velha, como uma oferenda silenciosa.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Do General Noturno \u2014 a voz abafada do invasor reverberou pelas paredes da cabana, baixa e arrastada, perigosa, um sotaque estranho pungente tornava as palavras mais arrastada, ou, talvez, fosse apenas a m\u00e1scara que a abafava. Derrubou o cora\u00e7\u00e3o pulsante nas m\u00e3os da criatura, que o recebeu como a quem ganhava tamanha preciosidade imensur\u00e1vel. O sorriso alargou-se, rasgando a pele ao redor de sua boca putrefata, exibindo mais uma camada de dentes afiados como agulhas, pr\u00f3ximo de suas orelhas pontudas.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E o que voc\u00ea deseja, meu senhor? \u2014 indagou a velha feiticeira.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> \ud83d\ude00 de cap\u00edtulo em cap\u00edtulo todas as pe\u00e7as come\u00e7am a se encaixar \u2014 digo para a enfermeira achando que sou o Dr Doofenshmirtz e que esta ser\u00e1 minha maior vigarice, mas tem um ornitorrinco me encarando torto j\u00e1 faz duas horas, e estou come\u00e7ando a ficar preocupada. (Uma feiticeira que funciona como g\u00eanio e n\u00e3o pode morrer, CONFIA, n\u00e3o vai dar NADA errado).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SKAD \u2022 ANOS ANTES. \u2022\u2022\u2022 \u2022\u2022\u2022 BABA YAGA \u2022 CORTE INVERNAL \u2003\u2003Nota da Autora: \ud83d\ude00 de cap\u00edtulo em cap\u00edtulo todas as pe\u00e7as come\u00e7am a se encaixar \u2014 digo para a enfermeira achando que sou o Dr Doofenshmirtz e que esta ser\u00e1 minha maior vigarice, mas tem um ornitorrinco me encarando torto j\u00e1 faz duas horas, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1920],"class_list":["post-6768","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-starfall"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/6768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6768"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=6768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}