{"id":6705,"date":"2024-10-23T17:23:00","date_gmt":"2024-10-23T20:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-27T17:30:04","modified_gmt":"2025-10-27T20:30:04","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/ghost-tale\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"right\"><em>&#8220;Quando n\u00e3o houver mais espa\u00e7o no inferno, os mortos caminhar\u00e3o sobre a terra.\u201d<\/em><br \/><strong>\u2014 Despertar dos Mortos<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Eles estavam atr\u00e1s de mim.<\/span><br \/>\u2003\u2003E n\u00e3o era s\u00f3 por uma ou duas horas. Na verdade, eles estavam atr\u00e1s de mim o tempo todo. N\u00e3o importava onde eu estivesse, eles apareciam sem cerim\u00f4nia, como se o conceito de tempo e espa\u00e7o n\u00e3o fizesse diferen\u00e7a para eles. Quando eu estava em casa, dava para ignorar. Ou se estivesse sozinho em outro lugar, tudo bem tamb\u00e9m. Mas a\u00ed eles decidiam dar as caras na cafeteria ou no meio de uma aula, e a\u00ed n\u00e3o havia nada que eu pudesse fazer. Porque se eles quisessem me chutar ou puxar o cabelo, podiam. E faziam isso, com frequ\u00eancia.<br \/>\u2003\u2003Posso v\u00ea-los desde que me entendo por gente. N\u00e3o s\u00f3 <em>ver<\/em>. Podia senti-los, ouvi-los e at\u00e9 toc\u00e1-los. Eles eram t\u00e3o reais para mim quanto qualquer pessoa viva, e por isso, n\u00e3o era nenhuma surpresa o r\u00f3tulo de \u201cesquisit\u00e3o\u201d que ganhei dos outros. Afinal, o que voc\u00ea faria se algu\u00e9m, aparentemente normal, come\u00e7asse a conversar sozinho no meio da rua? Pois \u00e9.<br \/>\u2003\u2003Por sorte, distinguir os mortos era f\u00e1cil. Eles tinham uma aura&#8230; bem, <em>m\u00f3rbida<\/em>. Estavam sempre p\u00e1lidos e perdidos, perambulando pelas multid\u00f5es. Os novatos eram os piores; gritavam aos quatro ventos, exigindo saber por que ningu\u00e9m podia v\u00ea-los. Esses eram os que mais atrapalhavam a minha paz.<br \/>\u2003\u2003Basicamente, os mortos vinham at\u00e9 mim para resolver suas pend\u00eancias aqui na Terra, como se eu fosse uma esp\u00e9cie de atendente de SAC do Al\u00e9m. Se isso te parece legal, recomendo uma consulta psiqui\u00e1trica. Porque n\u00e3o tem nada de legal em ser perseguido por um fantasma que quer que voc\u00ea leve um pedido de desculpas a algu\u00e9m do outro lado do Estado, ou que implora para que voc\u00ea encontre um bom lar para o cachorro que deixou para tr\u00e1s. Ou, pior ainda, quando uma adolescente morta resolve que voc\u00ea vai ser o substituto do namorado que ela nunca teve.<br \/>\u2003\u2003Nunca considerei essa habilidade como um dom. Na verdade, ajudar os mortos s\u00f3 me dava dor de cabe\u00e7a e distanciamento social. %Hoseok%, meu melhor amigo, era a exce\u00e7\u00e3o. Ele era o \u00fanico que nunca se importou com meu h\u00e1bito de falar sozinho e desaparecer do nada. Nos conhecemos no ensino m\u00e9dio, e acabamos indo para a mesma universidade, o que foi um al\u00edvio. Fazer novos amigos nunca foi o meu forte. Fora o %Hoseok%, as \u00fanicas pessoas vivas com quem eu mantinha contato recorrente eram meus pais, Gina e&#8230; minha av\u00f3. T\u00e1, talvez essa \u00faltima n\u00e3o estivesse t\u00e3o viva assim.<br \/>\u2003\u2003Eu estava no quarto ano de Medicina na Universidade de Columbia. Escolhi o curso e o campus por motivos pr\u00e1ticos. Queria me especializar na Oncologia, o que significava trabalhar com pacientes que provavelmente encarariam a morte de frente. Eu poderia, quem sabe, ajud\u00e1-los a resolver suas pend\u00eancias em vida, evitando que se tornassem mais uma voz na minha cabe\u00e7a depois que partissem. Ego\u00edsta? Talvez. Mas parecia uma solu\u00e7\u00e3o eficiente. E Nova York, uma cidade cheia de gente, me dava a esperan\u00e7a de que haveria outros como eu por perto. Nunca entendi bem como os mortos nos &#8220;escolhiam&#8221;, mas torcia para que fossem distribu\u00eddos de forma justa. Era mais um plano para mant\u00ea-los longe.<br \/>\u2003\u2003A faculdade de Medicina pelo menos deixava meus pais felizes. Desde que me adotaram no Orfanato Melbourne, sempre fizeram quest\u00e3o de demonstrar o quanto se orgulhavam de mim, mesmo quando meus &#8220;sumi\u00e7os&#8221; e acessos de rebeldia eram constantes. Ou quando precisavam me buscar na delegacia por invas\u00e3o de propriedade ou desacato. Mesmo nos piores momentos, quando tentavam fazer com que eu me abrisse e eu respondia com o sil\u00eancio indiferente que aprendi a reproduzir quando era confrontado sobre os fantasmas e as consequ\u00eancias que causavam, eles se vestiam de uma paci\u00eancia inacredit\u00e1vel e raramente me criticavam. Minha m\u00e3e chorava baixinho \u00e0 noite, e meu pai bebia mais whiskey do que o habitual, mas sem gritos ou caras feias. Sempre me perguntei se eles se arrependiam de ter adotado um garoto t\u00e3o&#8230; estranho. Mas no fundo, sabia que a frustra\u00e7\u00e3o deles era por n\u00e3o conseguirem se conectar comigo, e admito que aquilo era totalmente culpa minha.<br \/>\u2003\u2003A fam\u00edlia %Jeon% possu\u00eda uma pr\u00f3spera firma de advocacia em S\u00e3o Francisco, onde o nome do meu pai, Anakin %Jeon% (sem julgamentos, ele nasceu junto com Star Wars), aparecia em toda cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o empresarial da Calif\u00f3rnia. Ele era o tipo de exemplo de lideran\u00e7a que outras empresas usavam como refer\u00eancia em qualquer lugar do pa\u00eds. Mas, para mim, tudo aquilo \u2014 os flashes dos eventos de gala, os jantares executivos que invadiam a sala de jantar e at\u00e9 as empregadas escolhendo minhas roupas \u2014 era um lembrete constante de que eu n\u00e3o pertencia \u00e0quele mundo. Mesmo com o novo sobrenome, novos documentos e um quarto irado com espa\u00e7o para os meus p\u00f4steres dos Lakers, eu era o peixe fora d&#8217;\u00e1gua. A solu\u00e7\u00e3o foi me esconder atr\u00e1s do estere\u00f3tipo de garoto prod\u00edgio que estava sempre estudando, correndo contra o tempo para se preparar para a pr\u00f3xima olimp\u00edada de matem\u00e1tica ou um novo pr\u00eamio da feira de ci\u00eancias.<br \/>\u2003\u2003Funcionou. Meus pais ficaram mais que satisfeitos com a ideia de ter um filho t\u00e3o dedicado em passar longe de uma nota vermelha. No entanto, convenc\u00ea-los a me deixar ir para uma universidade do outro lado do pa\u00eds foi outra hist\u00f3ria. Passei semanas ouvindo os solu\u00e7os da minha m\u00e3e antes que eles finalmente cedessem, com a condi\u00e7\u00e3o de que me visitariam regularmente e que eu teria que ligar com frequ\u00eancia. A dist\u00e2ncia tamb\u00e9m fazia parte do plano \u2014 era muito mais dif\u00edcil frustrar seus pais com suas atitudes quando se est\u00e1 a quase 5 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<br \/>\u2003\u2003Mesmo assim, a superprote\u00e7\u00e3o deles se manteve firme e forte. Insistiram que eu n\u00e3o poderia ficar em um alojamento universit\u00e1rio qualquer, cercado por desconhecidos. Ent\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 obsess\u00e3o da minha m\u00e3e por seguran\u00e7a (e tamb\u00e9m um pouco de conforto), acabei em um apartamento nada estudantil em Manhattan. Quinto andar, janelas enormes do ch\u00e3o ao teto, com uma vista deslumbrante da cidade que nunca dorme. Ela escolheu cada detalhe, e eu n\u00e3o me atrevi a opinar. Afinal, apesar de todo o drama, eu gostava do meu espa\u00e7o pr\u00f3prio. E, dado o meu&#8230; <em>probleminha <\/em>com os mortos, talvez ter um lugar s\u00f3 meu tenha sido a melhor decis\u00e3o que deixei que eles tomassem por mim.<br \/>\u2003\u2003Era mais uma quinta-feira qualquer quando sa\u00ed da biblioteca Augustus, equilibrando o telefone entre o ombro e a orelha enquanto colocava alguns livros na mochila.<br \/>\u2003\u2003\u2014 O que \u00e9 agora, %Hoseok%? \u2014 perguntei, sem muito \u00e2nimo. Estava tentando fazer com que a borda do exemplar de <em>Brain Metastases<\/em> n\u00e3o arranhasse a tela do iPad.<br \/>\u2003\u2003<em>\u2014 Onde voc\u00ea se meteu? Eu t\u00f4 faminto e voc\u00ea ainda n\u00e3o deu as caras para o almo\u00e7o. E hoje tem hamb\u00farguer de costela!<\/em><br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tem membros ou dinheiro? Caso tenha membros, acho que voc\u00ea pode comer sem mim.<br \/>\u2003\u2003<em>\u2014 Ah, qual \u00e9, %JK%? Minha grana foi dizimada no Queens semana passada. Pelo menos me diz onde voc\u00ea t\u00e1.<\/em><br \/>\u2003\u2003Suspirei e olhei ao redor.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Bem aqui.<br \/>\u2003\u2003Ele estava de p\u00e9 bem no meio do refeit\u00f3rio, o rosto iluminado pelo al\u00edvio.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por que demorou tanto? Achei que voc\u00ea n\u00e3o tinha aula agora. \u2014 disse ele, enquanto eu me aproximava.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Estava na biblioteca, trabalhando num artigo novo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ah, \u00e9? Sobre o qu\u00ea dessa vez? Bact\u00e9rias que produzem pl\u00e1stico? \u2014 %Hoseok% perguntou, digitando algo no celular.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 <em>super <\/em>empolgante. Mas n\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 um artigo sobre sa\u00fade p\u00fablica. O Natal e a Influenza s\u00e3o a dupla de dezembro, e o Citizen se interessa por esse tipo de coisa. Agora vamos te alimentar.<br \/>\u2003\u2003Entramos na fila semi organizada ao lado das esta\u00e7\u00f5es de comida, que estava mais longa do que de costume. N\u00e3o sabia que o hamb\u00farguer de costela tinha toda essa magia para algu\u00e9m al\u00e9m de %Hoseok% e eu. Talvez porque a gente n\u00e3o se importava muito com o que colocava para dentro do est\u00f4mago \u2014 ele menos ainda. Tudo que fosse comest\u00edvel, era minimamente aceit\u00e1vel.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea viu o ranking semestral? Saiu hoje. \u2014 ele comentou, sem tirar os olhos do telefone. \u2014 Parab\u00e9ns, voc\u00ea est\u00e1 no top 5 de novo.<br \/>\u2003\u2003Revirei os olhos em resposta. Todo semestre, a Columbia divulgava o ranking dos alunos mais bem-sucedidos, com base no semestre anterior. Havia um para cada departamento e um geral da universidade. Eu fazia parte dos cinco primeiros desde o 1\u00ba ano, ent\u00e3o aquilo j\u00e1 tinha perdido o impacto. Na verdade, s\u00f3 de pensar no inevit\u00e1vel telefonema de parab\u00e9ns dos meus pais mais tarde, eu j\u00e1 me sentia exausto.<br \/>\u2003\u2003Estar entre os cinco primeiros significava receber elogios incans\u00e1veis de professores e colegas, embora eu n\u00e3o me importasse nem um pouco. Ainda assim, tinha suas vantagens: meus artigos eram reconhecidos pelos acad\u00eamicos mais respeitados, e at\u00e9 o reitor j\u00e1 havia me convidado para jantar, colocando o meu nome na sua prov\u00e1vel \u201clista dourada\u201d. Aparentemente, meu desempenho era inspirador para todos. Todos, menos eu.<br \/>\u2003\u2003N\u00e3o era legal receber tanta aten\u00e7\u00e3o quando seu plano de vida era ser completamente invis\u00edvel. Principalmente, se voc\u00ea estivesse suscet\u00edvel a passar por situa\u00e7\u00f5es como a que eu iria passar\u2026 agora.<br \/>\u2003\u2003Enquanto %Hoseok% estava distra\u00eddo, rolando o feed do celular, senti um vento gelado percorrendo a minha nuca, arrepiando na hora. Antes mesmo de entender o que era, uma voz rouca sussurrou bem perto do meu ouvido:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Oi!<br \/>\u2003\u2003Continuei olhando para frente, fingindo que n\u00e3o tinha ouvido nada. Talvez se eu a ignorasse, ela se tocasse e fosse embora. Abri o celular e comecei a zapear por qualquer coisa, deixando o tempo passar. Ela ia perceber o que todos percebem: que ningu\u00e9m podia v\u00ea-la. E enquanto eu n\u00e3o desse a primeira mordida naquele hamb\u00farguer duvidoso com bastante ketchup, faria parte da maioria sim, com muito prazer. N\u00e3o era uma boa hora para lidar com fantasmas.<br \/>\u2003\u2003Mas \u00e9 claro que ela n\u00e3o desanimou. Saiu do meu lado e come\u00e7ou a tentar tocar %Hoseok% e tudo o que estivesse ao seu alcance. S\u00f3 para esclarecer, quando fantasmas tocam pessoas comuns, o m\u00e1ximo que elas sentem \u00e9 um arrepio ou um frio s\u00fabito que logo passa. Para os mortos, n\u00e3o era muito diferente; \u00e9 como tentar pegar uma massa cinzenta e pegajosa que escapa pelos dedos. J\u00e1 com objetos, eles s\u00e3o bem mais habilidosos \u2014 meus hematomas podem confirmar isso.<br \/>\u2003\u2003Pessoas como <em>eu<\/em>, no entanto, conseguiam senti-los completamente. N\u00e3o me pergunte por qu\u00ea. Isso fazia com que os fantasmas nos achassem com facilidade e nos usassem para resolver suas pend\u00eancias, como se f\u00f4ssemos seus assistentes pessoais. Por isso, apesar da minha postura indiferente, eu estava aterrorizado com a ideia de que aquela garota decidisse me tocar naquele momento.<br \/>\u2003\u2003Vi %Hoseok% se encolher com os calafrios causados pelo toque da fantasma e reclamar do frio. Continuei fingindo que nada estava acontecendo, enquanto nos aproxim\u00e1vamos das bancadas. Mas, no momento seguinte, quando %Hoseok% deu um passo \u00e0 frente e eu o segui, o fantasma n\u00e3o se moveu, o que fez com que nossos bra\u00e7os ro\u00e7assem um no outro por um breve segundo.<br \/>\u2003\u2003Como um amador, acabei olhando para ela e, no mesmo instante, desviei o olhar. Tarde demais. Senti os dedos dela apertando meu bra\u00e7o direito.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea consegue me ver! Ei! Voc\u00ea t\u00e1 me vendo, n\u00e9?<br \/>\u2003\u2003Balancei o bra\u00e7o, tentando me livrar do aperto, mas ela ignorou o recado. Fechei os olhos, tentando manter a calma, e implorei mentalmente para que ela n\u00e3o come\u00e7asse a fazer um esc\u00e2ndalo.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por favor, me ajuda! Eu n\u00e3o sei o que aconteceu&#8230; Ningu\u00e9m consegue me ver&#8230; Parece que eu, e-eu\u2026 morri\u2026<br \/>\u2003\u2003Os olhos dela estavam arregalados e perdidos, o rosto p\u00e1lido como um papel, e os cabelos ruivos desgrenhados ca\u00edam sobre o moletom com o bras\u00e3o da faculdade de Direito da Columbia. A garota parecia ter uns vinte e poucos anos. E, por mais que estivesse desesperada no momento, n\u00e3o podia dar aten\u00e7\u00e3o pra ela. Tentei sinalizar discretamente com a cabe\u00e7a para que desse o fora, mas, em vez disso, ela apertou meu bra\u00e7o ainda mais forte.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Por favor, eu te imploro! Me ajuda! Eu estava no meu quarto no alojamento e, de repente&#8230; \u2014 a voz dela falhou, os olhos mais esbugalhados, e senti o p\u00e2nico crescendo dentro de mim. Ela parecia prestes a surtar. Surtar de um jeito <em>nada <\/em>legal.<br \/>\u2003\u2003A fila avan\u00e7ava e ela n\u00e3o soltava meu bra\u00e7o de jeito nenhum. Eu podia sentir as unhas dela cravando na minha pele, com uma for\u00e7a que s\u00f3 os mortos pareciam ter. Ao nosso redor, as pessoas riam e conversavam, sem fazer ideia do caos invis\u00edvel que estava se desenrolando ali. Mas, se ela continuasse assim, todo mundo logo perceberia. Eles sempre percebiam.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Agora n\u00e3o&#8230; \u2014 murmurei, o mais baixo que consegui, sem sequer olhar para ela, torcendo para que ningu\u00e9m tivesse notado. Mas a coisa s\u00f3 piorou.<br \/>\u2003\u2003Ao perceber que eu realmente podia v\u00ea-la e ouvi-la, ela cravou as unhas ainda mais fundo, e senti o sangue come\u00e7ar a escorrer. Em seguida, fui puxado com for\u00e7a para o lado, bem na dire\u00e7\u00e3o das pessoas que seguravam suas bandejas j\u00e1 prontas e cheias. Quando me dei conta, vi suco de laranja se espalhar pela minha camiseta, seguido pelo impacto dos meus joelhos no ch\u00e3o. Ouvi o grito agudo de uma garota que caiu diante de mim, com molho de tomate e abobrinha grudada na roupa.<br \/>\u2003\u2003Todos os olhares se voltaram para n\u00f3s. %Hoseok% estava im\u00f3vel, com uma express\u00e3o que variava entre o riso e o choque. Eu, por outro lado, sentia uma mistura de raiva e incredulidade. Girei a cabe\u00e7a para procurar a maldita que tinha causado isso, mas, claro, ela j\u00e1 havia desaparecido.<br \/>\u2003\u2003Senti um empurr\u00e3o no peito e ca\u00ed para o lado, o caos ao meu redor voltando como um balde de \u00e1gua fria.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 maluco? \u2014 a garota \u00e0 minha frente grunhiu, tentando se levantar sem escorregar nos restos de macarr\u00e3o e torta de legumes espalhados pelo ch\u00e3o. \u2014 Tem ideia do que acabou de fazer? Isso n\u00e3o pode ser s\u00e9rio&#8230;<br \/>\u2003\u2003Ela bufou com indigna\u00e7\u00e3o, e algumas garotas se juntaram ao redor dela, estendendo guardanapos como se fossem param\u00e9dicos em um campo de batalha. Suas m\u00e3os tatearam o piso at\u00e9 puxarem uma pasta cheia de suco e o que parecia ser <em>babaganush<\/em>. Todas me olhavam com aquele olhar t\u00edpico de \u201cmeu Deus, qual \u00e9 o problema desse cara?\u201d Levantei r\u00e1pido, desejando que, por algum milagre, todo mundo seguisse em frente e esquecesse o espet\u00e1culo que eu acabara de proporcionar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Me desculpa, foi totalmente minha culpa. \u2014 Na verdade, n\u00e3o foi. \u2014 Deixa que eu te pago outro almo\u00e7o, ou\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea \u00e9 epil\u00e9tico? Ou simplesmente decidiu me atropelar? Isso foi de prop\u00f3sito? \u2014 ela ia aumentando o tom a cada pergunta, as bochechas ficando cada vez mais vermelhas. \u00d3timo, porque o que eu precisava agora, al\u00e9m de estar coberto de suco e br\u00f3colis, era de problemas com desconhecidos na \u00fanica parte do meu dia onde eu tentava manter minha vida minimamente normal: o <em>almo\u00e7o<\/em>.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Claro que n\u00e3o! Foi um acidente, sinto muito, mas eu posso pagar\u2026<br \/>\u2003\u2003\u2014 Pelo amor de Deus, n\u00e3o quero seu dinheiro. \u2014 ela fez uma careta antes que eu levasse a m\u00e3o para o bolso da carteira. \u2014 Tenho uma apresenta\u00e7\u00e3o importante hoje e voc\u00ea pode ter acabado de estragar tudo com essa sua\u2026 s\u00edndrome de Tourette, sei l\u00e1. Olha, se eu nunca mais te encontrar na minha vida, vai ser um favor. Agora me d\u00e1 licen\u00e7a.<br \/>\u2003\u2003Ela passou por mim com um empurr\u00e3o no ombro e foi embora, seguida por pelo menos tr\u00eas amigas, que me lan\u00e7aram olhares ligeiramente menos hostis. Fiquei ali parado por um segundo at\u00e9 ser expulso pelas funcion\u00e1rias da limpeza, que j\u00e1 come\u00e7avam a limpar a bagun\u00e7a ao meu redor. De repente, percebi o qu\u00e3o exposto eu estava, com todos os olhares fixos em mim, buscando entender a mesma coisa que aquela garota: como eu tinha feito aquilo? Como ca\u00ed do nada sem explica\u00e7\u00e3o?<br \/>\u2003\u2003Quando senti %Hoseok% me puxar pelo ombro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda, agradeci em sil\u00eancio. Minha fome j\u00e1 tinha desaparecido h\u00e1 muito tempo.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quando n\u00e3o houver mais espa\u00e7o no inferno, os mortos caminhar\u00e3o sobre a terra.\u201d\u2014 Despertar dos Mortos<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"ngg_post_thumbnail":0,"_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"historias":[2181],"class_list":["post-6705","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-ghost-tale"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/6705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=6705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}