{"id":6649,"date":"2025-09-09T20:39:00","date_gmt":"2025-09-09T23:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2025-10-26T20:49:55","modified_gmt":"2025-10-26T23:49:55","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/novela-genesis\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">A brisa da manh\u00e3<\/span> carregava um cheiro \u00famido de madeira rec\u00e9m-cortada e terra revolvida. No horizonte, um c\u00e9u claro amea\u00e7ava tempestade, prenunciando mudan\u00e7as que ningu\u00e9m, ainda, podia compreender completamente. L\u00e1, ao longe, erguia-se a estrutura colossal da arca: uma silhueta poderosa de t\u00e1buas alinhadas, encimada por andaimes e cordas penduradas, lembrando uma baleia de madeira prestes a ganhar o mar.<br \/>\u2003\u2003Shem, Cam e Jaf\u00e9, ainda meninos, corriam de um lado a outro do canteiro de obras. O Sol mal surgia e j\u00e1 encontravam for\u00e7as para sorrir, brincar, discutindo entre irm\u00e3os quem carregaria a t\u00e1bua mais pesada. Cada um, \u00e0 sua maneira, queria impressionar o pai: No\u00e9, homem justo e temente a Deus, que h\u00e1 anos vinha avisando a todos sobre o dil\u00favio iminente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Cuidado, Shem! \u2014 gritou Cam, empurrando o irm\u00e3o mais velho, sem maldade, apenas para provocar. Jaf\u00e9, o ca\u00e7ula, ria alto, segurando o martelo maior que ele.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu aguento, Cam! Se voc\u00ea cai agora, cuidado com o murro! \u2014 respondeu Shem, tentando manter o equil\u00edbrio sobre a trave de cedro.<br \/>\u2003\u2003No\u00e9, de chap\u00e9u de palha e m\u00e3os calejadas, aproximou-se sorrindo. Apesar da seriedade do chamado que sentia para construir a arca, havia ternura em seu olhar. Ele sabia que, mais do que t\u00e1buas e pregos, estava ensinando algo precioso \u00e0queles meninos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Filhos \u2014 disse ele, pousando a m\u00e3o sobre o ombro de Jaf\u00e9 \u2014, fa\u00e7am todo trabalho com cora\u00e7\u00e3o alegre. N\u00e3o basta apenas construir um barco de madeira. Voc\u00eas ajudam a salvar o mundo.<br \/>\u2003\u2003Cam largou de m\u00e1 vontade uma das t\u00e1buas e olhou para o c\u00e9u, ainda azul.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas papai, ele n\u00e3o vai ser s\u00f3 um barco, vai? As pessoas dizem que \u00e9 loucura.<br \/>\u2003\u2003 No\u00e9 ergueu o rosto, fitou o horizonte e revirou levemente a barba branca.<br \/>\u2003\u2003 \u2014 \u00c9 loucura, sim, para quem n\u00e3o acredita na voz de Deus. Mas quando as \u00e1guas chegarem, quem tiver vergonha do que foi chamado a fazer, vai se afogar junto com o mundo.<br \/>\u2003\u2003Enquanto isso, ao redor, ervas daninhas cresciam entre as t\u00e1buas; pequenos p\u00e1ssaros faziam ninhos nos andaimes, e, de vez em quando, um estrondo distante \u2014 como um trov\u00e3o sem chuva \u2014 anunciava que algo grotesco caminhava pela regi\u00e3o. Os Nephilins, gigantes descendentes dos \u201canjos ca\u00eddos\u201d, manifestavam seu dom\u00ednio: pisavam na terra, arrancavam \u00e1rvores com as m\u00e3os, festejavam casamentos barulhentos nas pra\u00e7as, seduzindo e corrompendo jovens inocentes.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Viu aquilo? \u2014 perguntou Jaf\u00e9, apontando para o vale. Um vulto enorme ergueu-se entre as colinas: bra\u00e7os grossos e voz retumbante. \u2014 \u00c9 um deles.<br \/>\u2003\u2003No\u00e9 abaixou a cabe\u00e7a em ora\u00e7\u00e3o, sem desviar o olhar. Os tr\u00eas rapazes, sem entender o peso de cada palavra, sentiram um arrepio.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Meses depois, as t\u00e1buas j\u00e1 formavam a quilha da arca. Uma aura de urg\u00eancia e expectativa rondava o ar. O mundo festejava como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3: torneios de combate entre Nephilins e homens, brindes de vinho em multid\u00f5es, casamentos que pareciam teatros de luxo, repletos de chifres, penas e coroas de bronze. E, ao mesmo tempo, a prega\u00e7\u00e3o de No\u00e9 soava como um sino l\u00fagubre aos ouvidos atentos.<br \/>\u2003\u2003 Quinze anos se passaram. Shem, agora com 17 anos, ostentava uma estatura firme e olhar profundo, marcado pelas horas de trabalho \u00e1rduo. Cam, 16, mantinha no rosto o tra\u00e7o da provoca\u00e7\u00e3o, por\u00e9m trazia consigo um senso de justi\u00e7a mais agu\u00e7ado. Jaf\u00e9, 14, crescera mais r\u00e1pido que o esperado, mas conservava a ingenuidade e o sorriso f\u00e1cil dos meninos.<br \/>\u2003\u2003Numa tarde de calor intenso, os tr\u00eas caminharam rumo \u00e0 cidade de Jabes, onde No\u00e9 se preparava para mais um serm\u00e3o p\u00fablico. O porto improvisado, pr\u00f3ximo ao lago, servia de palco para sua mensagem: \u201cArrependam-se, pois o Dil\u00favio vem. A minha arca est\u00e1 quase pronta. Quem n\u00e3o entrar, perecer\u00e1\u201d.<br \/>\u2003\u2003O vento trazia perfumes ex\u00f3ticos das tendas e o barulho de tambores que anunciavam uma festa iminente. Barracas coloridas vendiam joias badaladas, plumas, conchas importadas e ta\u00e7as de cristal. Homens trajando peles de animal disputavam dan\u00e7as e mulheres de joias reluzentes cantavam c\u00e2nticos ao luar.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu ainda n\u00e3o entendo \u2014 murmurou Cam \u2014, por que ningu\u00e9m leva a s\u00e9rio? Em vez de escutar meu pai, as pessoas festejam com os Nephilins.<br \/>\u2003\u2003Shem tocou o ombro do irm\u00e3o.<br \/>\u2003\u2003 \u2014 Isso \u00e9 o mundo, Cam. Ele ama mais o brilho e o som do que a voz que alerta sobre o dil\u00favio.<br \/>\u2003\u2003Naquele instante, entre a multid\u00e3o que se aglomerava, ergueu-se uma fam\u00edlia distinta: Eliaquim, um homem de semblante calmo e respeit\u00e1vel, vinha acompanhado de suas quatro filhas. %Heidi%, a mais velha, caminhava ereta, os cabelos negros presos em tran\u00e7a espessa; tinha cerca de 18 anos e um ar de lideran\u00e7a. Logo atr\u00e1s, vinha %Dana%, de 16, mais arredia, olhos castanhos cintilando curiosidade. %Tali%, com 15, se detinha a observar detalhes: tudo ali ao redor parecia novo e fascinante. A ca\u00e7ula, %Adata%, de 13, mantinha um sorriso t\u00edmido, segurando o vestido claro para n\u00e3o se sujar.<br \/>\u2003\u2003 Quando Shem ergueu os olhos, sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar como se fosse a primeira vez. Cam e Jaf\u00e9, cada um \u00e0 sua maneira, notaram a presen\u00e7a das jovens. O serm\u00e3o de No\u00e9 mal come\u00e7ara, mas ali, entre um argumento e outro, brotava algo mais forte em cada filho do pregador.<br \/>\u2003\u2003Eliaquim aproximou-se de No\u00e9 ap\u00f3s a mensagem. Os dois trocaram cumprimentos respeitosos. Por fim, Eliaquim voltou-se \u00e0s filhas e disse em voz baixa:<br \/>\u2003\u2003 \u2014 Ou\u00e7am bem meu primo. Este homem fala do fim dos tempos.<br \/>\u2003\u2003 %Heidi% observou o trator do pregador, as t\u00e1buas da arca ao longe, e sentiu algo instintivo: necessidade de proteger a fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m uma pontada de aventura.<br \/>\u2003\u2003 Terminada a prega\u00e7\u00e3o, a multid\u00e3o se dispersou entre as tendas. A vida noturna ganhava for\u00e7a, com lumes acesos e sons de flauta atravessando a pra\u00e7a. Shem, Cam e Jaf\u00e9 trocaram olhares e, num sincronismo juvenil, partiram na dire\u00e7\u00e3o das jovens.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Olhem s\u00f3 como ela \u00e9 alta\u2026 \u2014 comentou Cam, referindo-se a %Heidi%, que conversava com a m\u00e3e, ajustando o xale.<br \/>\u2003\u2003Shem tentou conter o riso:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Parece que voc\u00ea s\u00f3 sabe falar de altura.<br \/>\u2003\u2003Jaf\u00e9, empolgado, passou a m\u00e3o no ombro de %Dana%, que recuou com um sorriso enigm\u00e1tico.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu sou Jaf\u00e9 \u2014 disse ele, estendendo a m\u00e3o com ar de diplomata. \u2014 Este \u00e9 meu irm\u00e3o Shem e este \u00e9 o Cam.<br \/>\u2003\u2003%Dana% apertou a m\u00e3o do rapaz, mantendo a compostura.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Sou %Dana%, filha de Eliaquim. Mas voc\u00eas tr\u00eas s\u00e3o\u2026 os filhos de No\u00e9?<br \/>\u2003\u2003%Adata%, acenando timidamente, perguntou:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00eas ajudam a construir a grande arca?<br \/>\u2003\u2003Shem sorriu, sentindo um calor no peito.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9\u2026 ajudamos sim. Fazemos parte do time de carpinteiros. Mas n\u00e3o deixem de perguntar \u00e0s outras pessoas sobre isso. Elas podem n\u00e3o concordar.<br \/>\u2003\u2003%Tali%, que observava um p\u00e1ssaro pousar numa pedra pr\u00f3xima, levantou os olhos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Acho que \u00e9 impressionante um barco desse tamanho \u2014 disse ela, em tom suave. \u2014 Deve haver muito trabalho.<br \/>\u2003\u2003Cam, sem jeito, falou r\u00e1pido:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Imagina s\u00f3 montar tudo para enfrentar o dil\u00favio! Os gigantes\u2026 eles continuam por a\u00ed, pisoteando fazendas, derrubando muros de pedra.<br \/>\u2003\u2003Eliaquim acenou:<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00eas t\u00eam raz\u00e3o em mostrar respeito pelo que est\u00e1 acontecendo. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o precisam ter tanto medo. Enquanto Deus estiver com No\u00e9, nada poder\u00e1 vencer a arca.<br \/>\u2003\u2003%Heidi%, ereta e atenta, guardou sil\u00eancio. Ent\u00e3o, voltou-se a Shem.<br \/>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea, Shem, o que acha de tudo isso?<br \/>\u2003\u2003Ele corou levemente.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Eu\u2026 bem, sigo o que meu pai diz. Sei que o mundo est\u00e1 errado, mas acho que ainda h\u00e1 esperan\u00e7a. Queremos salvar quem quiser entrar.<br \/>\u2003\u2003A noite desceu cobrindo a pra\u00e7a de estrelas. M\u00fasica embargou a conversa, e cada um sentiu que aquele encontro marcaria o in\u00edcio de algo maior \u2014 amizade, lealdade, talvez at\u00e9 amor. Mas o perigo rondava. Um estrondo abateu-se no vale, fazendo a terra vibrar como um tambor.<br \/>\u2003\u2003Cam arregalou os olhos.<br \/>\u2003\u2003\u2014 \u00c9 ele de novo!<br \/>\u2003\u2003No alto, um gigante surgiu, sombra colossal contra a lua crescente. Estendeu o bra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u, como se desafiasse o pr\u00f3prio Criador. Um grito ecoou enquanto a multid\u00e3o recuava em p\u00e2nico.<br \/>\u2003\u2003%Heidi% segurou as irm\u00e3s.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Vamos sair daqui! \u2014 ordenou a %Dana%, puxando-a pelo bra\u00e7o.<\/p>\r\n<p align=\"center\">*****<\/p>\r\n\u2003\u2003Assim que chegaram em casa, %Heidi%, %Dana%, %Tali% e %Adata% come\u00e7aram a pensar em tudo que acontecera. Eram muitas as coisas que haviam acontecido. O mundo j\u00e1 n\u00e3o era mais o mesmo. %Heidi%, %Dana%, %Tali% e %Adata% come\u00e7aram cada uma a pensar no que havia acontecido.\r\n<p align=\"center\">********<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003\u201cO Reino de Deus \u00e9 como sete virgens prudentes.\u201d<br \/>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00eas acham que No\u00e9 falou s\u00e9rio quando disse que o dil\u00favio viria? \u2014 perguntou %Heidi%.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Talvez \u2014 assentiu %Dana%.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Talvez seja s\u00f3 uma vis\u00e3o errada \u2014 disse %Tali%. \u2014 Afinal, o povo diz que \u00e9 loucura.<br \/>\u2003\u2003\u2014 Mas e se for verdade? \u2014 tentou dizer %Adata%. \u2014 E se realmente estiver vindo um dil\u00favio?<br \/>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o temos que nos preparar \u2014 disse Eliaquim \u00e0s quatro filhas.<br \/>\u2003\u2003As quatro come\u00e7aram a ficar pensativas, pensando no que fariam, uma coisa era certa, elas tinham uma escolha a fazer.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>***** ********<\/p>\n","protected":false},"author":82,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2171],"class_list":["post-6649","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-novela-genesis"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/6649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/82"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6649"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=6649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}